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1 CARACTERIZAR AS DEFICIENCIAS FÍSICAS DE INTERESSE ODONTOLÓGICO. 3 1.1 Definição 3 1.2 Prevalência no Brasil 3 1.3 Paralisia cerebral 4 1.3.1 Conceito 4 1.3.2 Incidência 5 1.3.3 Etiologia 5 1.3.4 Classificação da paralisia cerebral 7 1.3.5 Alterações provocadas no tônus muscular 8 1.3.6 Manifestações bucais 9 1.3.7 Tratamento odontológico 10 1.4 AVE 13 1.4.1 Conduta durante o atendimento odontológico 13 1.5 Distrofias musculares 15 1.6 Lesão medular 15 1.7 Quais medicamentos podem interferir no tratamento odontológico 15 2 CARACTERIZAR AS DEFICIENCIAS SENSORIAIS E DE COMUNICAÇÃO DE INTERESSE ODONTOLÓGICO. 15 2.1 Definicao 15 2.2 Prevalencia no Brasil 16 2.3 Olfato e paladar 17 2.3.1 Classificação 17 2.4 Audição 18 2.4.1 Etiologia 18 2.4.2 Classificação 19 2.4.3 Cuidados odontológicos 23 2.5 Visão 24 2.5.1 Classificação 24 2.5.2 Etiologia 24 2.6 Surdocegueira 25 2.6.1 Classificação 25 2.6.2 Etiologia 26 2.7 Alteração múltipla sensorial 26 2.8 Diferentes formas de comunicação 26 CARACTERIZAR AS DEFICIENCIAS FÍSICAS DE INTERESSE ODONTOLÓGICO. Definição Dia 11 de outubro é o dia da pessoa com deficiência física. Deficiências físicas são alterações completas ou parciais de um ou mais segmentos do corpo humano, que acarretam o comprometimento da mobilidade e da coordenação geral, podendo também afetar a fala, em diferentes graus. Fonte: BVS. Ministério da saúde. e Governo do Estado do Paraná. Secretaria do desenvolvimento social e família. Prevalência no Brasil A deficiência física foi de 1,3% (IC95%:1,2-1,4), ou 2,6 milhões de pessoas, sendo maior em homens (1,6% IC95%:1,5-1,8) que em mulheres (1,0% IC95%:0,9-1,1). Com relação à faixa etá-ria, a prevalência aumentou com a idade, sendo maior entre os indivíduos com 60 anos e mais (3,3% IC95%:2,9-3,6). Para raça ou cor, maior percentual foi observado entre os indivíduos de cor preta, porém sem diferença estatisticamente significativa. Não houve diferença entre localidade urbana e rural. Para as regiões, observou-se maior prevalência de deficiência física na região Nordeste (1,6% IC95%:1,4-1,8) em relação a Sudeste (1,2% IC95%:1,0-1,3) e Norte (1,1% IC95%:0,9-1,3) (Tabela 2). MALTA, D. C. et al. Prevalência autorreferida de deficiência no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. CALDAS, A.F. et al. Atenção e cuidado da saúde bucal da pessoa com deficiência protocolos, diretrizes e condutas para cirurgiões-dentistas. Recife, 2013. Paralisia cerebral Conceito Encefalopatia crônica não-progressiva ou paralisia cerebral (PC) compreende um conjunto de distúrbios neurológicos caracterizados principalmente por alterações no desenvolvimento postural e limitações de movimentos. Essa desordem é resultante de uma injúria irreversível que atinge o cérebro em formação (congênita) ou infantil (adquirida)7, antes da completa maturação do Sistema Nervoso Central, podendo estar associada a fatores pré, peri ou pós-natais. CAMPOS,C.C. et al. Manual prático para o atendimento Odontológico de pacientes com Necessidades especiais. Goiania, 2009. Incidência É bastante controversa a real incidência de PC na população, por não se tratar de uma condição de notificação compulsória. Acredita-se que, nos EUA, a incidência seja em torno de 6/1.000 habitantes e, em alguns países europeus, em torno de 2/1.000 habitantes. No Brasil, segundo Lefèvre1, é impossível fazer uma estimativa, ainda que aproximada. Presume-se que a incidência seja alta, pois os cuidados insatisfatórios com a gestante e a assistência perinatal atingem parte da população; no entanto, a elevada taxa de mortalidade infantil deve reduzir consideravelmente o número de pacientes portadores de PC. Etiologia A PC não é uma doença, mas uma condição médica especial que ocorre antes, durante ou logo após o parto. Portanto, os fatores etiológicos podem ser divididos em pré, peri e pós-natais. Perturbações de caráter hereditário • Defeitos enzimáticos: erros inatos do metabolismo • Não separação após a meiose (p. ex., as trissomias) • Permuta de fragmentos dos cromossomos • Mosaicismo • Outras anormalidades cromossômicas são as síndromes de: ■ Turner ■ Klinefelter ■ Edwards ■ Patau ■ Cri-Du-Chat. Fatores pré-natais • Infecções da gestante: podem atingir o feto via placentária. Durante muito tempo, foi usado o acrônimo TORCH (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e hepatite) para designar essas infecções, porém hoje ele é ultrapassado, pois sabe-se que infecções como a sífilis e outras não determinadas podem ocorrer nesse período, prejudicando o feto • Distúrbios metabólicos: avitaminoses, hipovitaminoses, diabetes e fenilcetonúria. Segundo Lefèvre, a subnutrição da gestante com carência vitamínica, calórica e proteica é determinante, pois resultará na redução do crescimento do cérebro, repercutindo no desenvolvimento das funções nervosas • Lesões cerebrais hipoxêmicas: decorrentes de anemia da gestante e hemorragias durante a gravidez que causam risco de aborto, eclâmpsia, hipotensão, desprendimento prematuro da placenta e má posição do cordão umbilical • Agentes teratogênicos: alguns tratamentos têm ação teratogênica, como a talidomida e a radioterapia, que pode causar microcefalias • Estado psicológico abalado: angústia, temor • Perturbações de caráter hereditário: alterações cromossômicas. Fatores perinatais Ocorrem durante ou logo após o parto e correspondem a 30% dos casos. Em caso de partos mal assistidos, é possível citar: • Hemorragias: ■ Fatores mecânicos: sangramento, que pode ser consequente da ruptura de veias, por compressão da cabeça no canal do parto ■ Fatores não mecânicos: asfixia • Hipoxia cerebral: diminuição acentuada de fluxo sanguíneo, ocasionando a má oxigenação dos tecidos • Prematuridade: deslocamento prematuro da placenta e incompetência do istmo cervical • Icterícia neonatal grave: consequente da incompatibilidade dos fatores Rh ou ABO. É considerada a principal etiologia da forma atetoide de PC. Fatores pós-natais Problemas ocorridos desde o nascimento até os 2 anos de idade e que correspondem a 10% dos casos, como: • Traumatismos cranioencefálicos diretos ou indiretos • Processos infecciosos, como encefalopatias e meningoencefalites • Transtornos cardiovasculares, como embolias e tromboses • Cranioestenose e craniossinostose. Existem ainda outros fatores que aumentam o risco de PC, como: • Crises convulsivas e índice de Ápgar muito baixo • Baixo peso fetal, daí a importância do acompanhamento pré-natal • Gestante de alto risco, com hipertensão ou diabetes • Idade materna acima dos 40 anos de idade ou abaixo dos 16 anos de idade. Classificação da paralisia cerebral De acordo com a localização das lesões e das áreas do cérebro que foram afetadas, as manifestações poderão ser diferentes. Espástica Caracterizada por paralisia e aumento de tonicidade dos músculos, resultante de lesões no córtex ou nas vias daí provenientes. Pode resultar em um lado do corpo afetado (hemiparesia), os quatro membros (tetraparesia) ou maior comprometimento dos membros inferiores (diplegia). Representa 75% do total dos casos de PC. Atetoide Caracterizada por movimentos involuntários e variações na tonicidade muscular, resultantes de lesões dos núcleos situados no interior dos hemisférios cerebrais (sistema extrapiramidal). Esse tipo de paralisia cerebral atinge aproximadamente 18% dos casos. Atáxica Caracterizada por diminuição da tonicidade muscular, incoordenação dos movimentos e equilíbrio deficiente. É provocada por lesões no cerebelo ou nas vias cerebelosas. Esse tipo de paralisia cerebral atinge menos de 2% dos casos. De acordo com os membros atingidos (comprometimento neuromuscular), pode-se ter os seguintes grupos (Figura 22.1): • Grupo das diplegias, com comprometimento maior das extremidades inferiores que das superiores • Grupo das quadriplegias, que apresenta comprometimento do corpo todo • Grupo das hemiplegias, em que há um dimídio (lado) do corpo comprometido. Conforme a região do cérebro em que se localiza a lesão, haverá diferentes alterações de tônus muscular. Essasregiões afetadas podem ser o córtex, os gânglios da base e o cerebelo (Figura 22.2). Alterações provocadas no tônus muscular Espasticidade Causada por lesão no córtex, que controla os pensamentos, os movimentos e as sensações. Caracteriza-se por hipertonia e hiper-reflexia, podendo estar presentes automatismos e clônus muscular e afetando: • Um lado do corpo (hemiparesia ou hemiplegia) • Os membros inferiores (paraparesia ou paraplegia) • Os quatro membros (quadriplegia). Atetonia A lesão ocorre nos gânglios da base (sistema extrapiramidal), é responsável por movimentos finos e delicados, caracterizada por distonia (variações da tonicidade muscular) e movimentos involuntários. Ataxia A lesão ocorre no cerebelo, que controla e coordena os movimentos, a postura e o equilíbrio. Caracteriza-se por diminuição da tonicidade muscular e perda do equilíbrio com descoordenação dos movimentos, podendo haver movimentos trêmulos das mãos e fala comprometida. Figura 22.1 As diferentes regiões do cérebro são afetadas pelas várias formas de paralisia cerebral. Quanto mais escura a sombra, mais grave o envolvimento do portador da doença. Adaptada de Batshaw e Perret, 1990.2 Figura 22.2 Regiões do cérebro que podem ser afetadas. Reflexos mais comuns na paralisia cerebral Reflexo tônico-cervical assimétrico • Posição: dorsal ou ventral • Estímulo: rotação da cabeça para a esquerda ou para a direita • Resposta: extensão total dos membros para o lado em que a face está voltada e flexão total dos membros do lado occipital. Reflexo tônico-cervical simétrico • Posição: decúbito dorsal ou ventral • Estímulo: ventroflexão ou dorsoflexão da cabeça • Resposta: ■ Na ventroflexão: flexão dos membros superiores e extensão dos inferiores ■ Na dorsoflexão: extensão dos membros superiores e flexão dos inferiores. Reflexo tônico-labiríntico • Posição: decúbito dorsal ou ventral • Estímulo: dorsal ou ventral • Resposta: ■ Extensão total de membros superiores, inferiores e da coluna ■ Flexão total dos membros inferiores e da coluna. Manifestações bucais Índice de cárie Há um alto índice de cárie nesses pacientes, por falta de coordenação nos movimentos de higienização, bem como pela falta de conscientização e dedicação dos cuidadores. Além da higiene, os músculos de mastigação e deglutição são afetados, e um sistema que não funciona adequadamente fica doente, e a cárie e a doença periodontal representam os acometimentos na boca. Dietas ricas em carboidratos e muito moles aumentam essa possibilidade. O fato de terem a musculatura orofacial hipotônica associada à respiração bucal pode tornar esses pacientes xerostômicos, embora haja um aumento na quantidade de saliva, o que aumenta o índice de cárie e doença periodontal. ❖ Gengivite e periodontopatia. Provocadas pelas razões descritas anteriormente, com incidência maior em crianças acima de 5 anos de idade, podendo, a médio e longo prazo, levar à perda de elementos dentais. ❖ Hipoplasia de esmalte. Maior incidência na dentição decídua, sobretudo nos pacientes com histórico de prematuridade ou hiperbilirrubinemia. ❖ Hiperplasia gengival. Em pacientes com epilepsia associada, aparece a fibromatose gengival dilantínica, causada por medicamentos anticonvulsivantes à base de hidantoína. Há que se destacar que o medicamento por si só não tem a capacidade de provocar este quadro, e o biofilme deve estar presente para que a hiperplasia se manifeste. ❖ Maloclusão. Alto índice, em razão das ações musculares e da respiração bucal. ❖ Traumatismos. Traumas de tecidos moles, ocasionados por contrações musculares e maloclusão. ❖ Bruxismo. É mais frequente na paralisia cerebral do tipo espástico e atetoide (hipertonia dos músculos). Cabe lembrar que esses pacientes apresentam desgaste importante nas faces oclusais dos dentes posteriores. ❖ Perda precoce dos dentes. Causa maiores problemas mastigatórios, fonéticos e respiratórios, por isso o dentista deve preservar os dentes para que haja melhores condições fonéticas, respiratórias, funcionais e estéticas. Tratamento odontológico O principal objetivo do tratamento odontológico é oferecer boas condições de tratamento para o paciente, de acordo com suas necessidades e limitações. A sequência sugerida para as primeiras consultas é: • Anamnese: histórico médico, histórico familiar, medicação em uso • Formação de vínculo com o paciente e com a família • Perfil psicológico do paciente, da família e dinâmica familiar • Atividades de vida diária • Exame clínico • Solicitação de exames complementares e avaliação médica • Plano de tratamento • Manejo do paciente na cadeira: basicamente, os pacientes não têm coordenação e apresentam contrações involuntárias, principalmente quando há estímulos locais que podem comprometer o trabalho do profissional. O paciente com PC do tipo atáxico sente dificuldade em sentar-se na cadeira odontológica em razão de sua falta de equilíbrio. Isso pode ser resolvido calçando-o com almofadas e roletes de toalhas. Dependendo da idade e do peso do paciente, ele poderá ser tratado no colo dos pais ou responsáveis. Nos pacientes com PC do tipo atetoide e espástico, fica mais fácil mantê-los na cadeira, dada a contração muscular desse tipo de paralisia. Reclinar a cadeira odontológica de maneira a melhorar sua postura pode tirá-lo do padrão de contração muscular. A cabeça deverá estar apoiada em um travesseiro ou no próprio profissional, apoiando-a no braço esquerdo deste, de tal forma que a mão e o pulso esquerdo fiquem livres para auxiliar no tratamento. As regras para higiene bucal são: • Colocar pouco creme na escova dental – do tamanho de um grão de arroz, com flúor • Utilizar escovas dentais pequenas e de cerdas macias. Escovas elétricas funcionam bem e auxiliam nos movimentos, porém nem todos os indivíduos com PC suportam o estímulo, desencadeando movimentos involuntários que impedem a boa higienização. Eles protruem a língua e têm um movimento de cabeça para o lado contrário ao da escova, podendo até mesmo mordê-la e quebrá-la na cavidade bucal • Utilizar toalha enrolada na mão para abrir a boca de pacientes com espasmos musculares, ou abridor de boca confeccionado com espátulas de madeira, gaze e esparadrapo • Introduzir alimentos adstringentes na dieta, como cenouras cruas, maçãs, rabanetes, talo de salsão, erva-doce etc. quando for possível mastigar. Em caso de impedimento, é muito importante estabelecer um controle dietético para que o paciente não tenha uma dieta hipercalórica e que colabore com o aumento no índice de cárie e doença periodontal pela deposição do biofilme • Massagear as gengivas com gaze umedecida em pacientes que não mastigam, a fim de remover restos alimentares, matéria alta e placa bacteriana, bem como diminuir a inflamação e o sangramento gengival. Essa gaze poderá ser umedecida em solução de clorexidina. Aqui também se faz necessário o uso de abridores de boca para evitar que o paciente morda o dedo da pessoa que está desenvolvendo a atividade de higiene bucal • Escovar, sempre que possível, todas as faces dos dentes. Pequenas modificações deverão ser feitas para atender esse grupo de pacientes, no intuito de oferecer maior proteção em relação aos riscos inerentes ao tratamento, principalmente para aqueles que apresentam comprometimento nas reações e nos reflexos normais. A primeira etapa desse atendimento é a estabilização do paciente na cadeira odontológica. De acordo com o nível de compreensão do paciente, após estabilizado, deverão ser apresentados o equipamento e o instrumental a fim de reduzir sua ansiedade. Na impossibilidade de compreensão ou manifestação dessa compreensão, pode ser utilizado o toque físico para apresentação do instrumental que será utilizado no atendimento. Ressalta-se que, muitas vezes, a cognição não está afetada, mas a manifestação que o paciente pode ter diante de um estímulo é que está prejudicada. O cirurgião-dentista deve usar sua sensibilidade e observação para tentar ler os sinais faciais e a linguagem não verbal, que, muitas vezes, sinalizam qual o caminho a seguirpara melhor abordar esses pacientes. Para a abertura da boca, podem ser usados abridores ou dedeiras confeccionadas em resina, observando-se o tempo de uso, pois essa prática pode desencadear problemas na articulação temporomandibular (ATM) quando utilizada por um longo período. Os pacientes do tipo espástico têm um padrão de contração muscular que se manifesta também na abertura da boca e poderá ser vencido com suave pressão no local. Deve ser evitada a colocação dos dedos do profissional entre os dentes do paciente, pois essa contração involuntária pode ferir o cirurgião-dentista. Pelo mesmo motivo, deverá ser evitado o uso de espelho para abertura da boca, uma vez que este poderá quebrar, ferindo o paciente. Por fim, exames radiográficos também devem ser adaptados à necessidade individual dos pacientes. Há casos em que a estabilização do paciente é muito difícil, o que torna praticamente impossível a obtenção de imagens nítidas. Nesses casos, a utilização de um colar cervical de material radiolúcido, rolos de toalha e a presença de um acompanhante devidamente protegido (para auxiliar na estabilização) podem ser maneiras de facilitar a tomada de radiografias. As radiografias interproximais são as mais adequadas para esses pacientes, com o uso dos posicionadores de películas. O sugador de saliva é recomendado pela dificuldade de deglutição e pela necessidade de campo seco durante os procedimentos restauradores. Quanto ao uso do dique de borracha, estudos têm demonstrado que o uso do lençol diminui o risco de aspiração de substâncias utilizadas durante o tratamento e tranquiliza o paciente, bem como ajuda a manter o campo operatório livre de saliva e secreções. A prevenção da saúde bucal desses pacientes deve ser o ponto mais importante do tratamento e, para que se consiga isso, o primeiro passo é a conscientização da família quanto à importância na elaboração da dieta (baixa em carboidratos) e dos hábitos de higiene. Escova, creme e fio dental, dedeiras e fraldas são coadjuvantes da higiene bucal. Um espelho grande para o paciente visualizar a escovação (quando ele mesmo puder fazê-lo) é importante. A aplicação tópica de flúor e selantes nos dentes posteriores imediatamente após a erupção, desde que a técnica seja bem desenvolvida e que seja clara a ausência de desmineralização do esmalte, também auxilia na prevenção das cáries, assim como bochechos com clorexidina a 0,12% reduzem a inflamação gengival. Varellis, Maria Lucia Z. O Paciente com Necessidades Especiais na Odontologia - Manual Prático, 3ª edição. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2017. AVE Acidente vascular encefálico (AVE) ou acidente vascular cerebral é uma entidade neurológica, decorrente de uma alteração repentina no fluxo sanguineo do cérebro, reduzindo a quantidade de oxigênio disponível no local da lesão, podendo gerar danos irreversíveis. A severidade dos prejuízos cognitivo e sensório-motor do paciente26 relaciona-se ao tipo e extensão anatômica da lesão. Quando há envolvimento oral, o CD pode deparar-se com disfagia, halitose, hipermobilidade da língua, reflexo de vômito protetor, reflexo tussígeno, higiene oral deficiente e armazenamento de comida no lado afetado. Conduta durante o atendimento odontológico · Realizar um questionário de saúde minucioso, posteriormente assinado pelo paciente ou responsável. O profissional pode designar um espaço para observações complementares sobre o estado de saúde do paciente, relatando, por exemplo, a presença de fatores de risco não-modificáveis para o desenvolvimento de AVE, como idade avançada e predisposição genética, e os modificáveis, como presença de hipertensão arterial, arterosclerose, uso de contraceptivos orais, estresse, tabagismo, diabete mellitus e cardiopatias25,28. A modificação dos fatores de risco é mais efetiva quando se trata da prevenção do primeiro AVE, por isso a importância de reconhecer a predisposição do indivíduo à doença; · Registrar no prontuário odontológico experiências anteriores desta desordem, pois a recorrência do AVE aumenta as incapacidades motoras e os índices de mortalidade25; · Ao planejar o tratamento desses pacientes, deve-se individualizar o atendimento considerando os fatores de risco e as incapacidades consequentes do problema, buscando compreender suas limitações emocionais25; · Educar o paciente quanto à necessidade de atuar sobre os fatores de risco modificáveis levantados na anamnese e encaminhar o paciente para avaliação médica; · Reduzir o estresse emocional do paciente através de consultas curtas e, quando necessário, adotar a sedação consciente preferencialmente com óxido nitroso e oxigênio; · Orientar os pacientes e cuidadores quanto à importância da higienização oral. Recomenda-se a adaptação dos instrumentos para limpeza bucal (por exemplo, escovas dentais com cabos mais calibrosos), buscando adequá-los às limitações do paciente; · Adotar o uso diário de clorexidina 0,12% pelo paciente (por tempo limitado) e aplicação tópica de flúor no consultório quando necessário; · Prevenir o risco de aspiração através de isolamento absoluto, sistema de sucção eficaz e posicionamento adequado da cabeça do paciente29; · Durante os procedimentos odontológicos, dar atenção ao manuseio de instrumentos na cavidade bucal devido ao reflexo de vômito protetor do paciente; · Tratar infecções ativas da cavidade oral, principalmente a doença periodontal crônica, a qual pode estar associada com maior incidência do AVE; · É necessário suspender o uso de anticoagulantes como warfarin (por dois dias), e de antiplaquetários como aspirina (por sete dias) antes de procedimentos cirúrgicos invasivos que necessitem de uma hemostasia normal. Estes medicamentos são geralmente utilizados pelos pacientes com histórico de AVE; · Atentar-se à possibilidade de o paciente sofrer AVE no consultório odontológico, estando o CD preparado para controlar esta situação emergencial: colocar o paciente em posição supina, chamar serviço de emergência, administrar oxigênio e monitorar os sinais vitais; · Monitorar os pacientes através de retornos periódicos ao consultório odontológico. CAMPOS,C.C. et al. Manual prático para o atendimento Odontológico de pacientes com Necessidades especiais. Goiania, 2009. Distrofias musculares O termo distrofia (do grego dys, “mal”, anormal; Trophem, “nutrição”) refere-se à anomalia do desenvolvimento por formação imperfeita de certos tecidos e conseqüentemente dos órgãos por eles formados (Soares, 1993). As miopatias hereditárias fazem parte de um grupo de doenças caracterizadas por degeneração progressiva e irreversível da musculatura esquelética e com padrões diferentes de herança (Zatz, 2002). As distrofias musculares são miopatias primárias, geneticamente determinadas, que se caracterizam clinicamente por intensa variabilidade do fenótipo e do grau de gravidade, e anatomopatologicamente pelo padrão distrófico inespecífico da fibra muscular (Reed, 2002). CLASSIFICAÇÃO As Distrofias Musculares Progressivas (DMP) podem ser classificadas de acordo com a herança genética, o grupo muscular inicialmente envolvido, o curso e gravidade da fraqueza muscular e ainda a idade do paciente relacionada ao início das manifestações. Até o presente momento tem-se o conhecimento de mais de trinta formas diferentes de DMP, com vários graus de complexidade (Miranda; Stanich, 2007). Os principais tipos de DMP são: Distrofia Muscular do tipo Duchenne (DMD), Distrofia Muscular do tipo Becker (DMB), Distrofia Muscular do tipo Cinturas (DMC), Distrofia Miotônica de Steinert (DMS) e Distrofia Muscular Facio-Escápulo-Umeral (FSH), sendo que as mais graves são a DMD e DMB (Miranda; Stanich, 2007). A DMD é a distrofia muscular progressiva mais comum ocorrendo numa freqü.ncia de 1:3500 nascidos vivos (Blaszczak; Malgorzata, 2007; Morel-Verdebout et al., 2007). ETIOLOGIA A DMD é um distúrbio neuromuscular miotônico recessivo ligado a mutações no braço curto do cromossomo X, responsável pela produção da proteína distrofina (American Academy of Pediatrics Sectionon Cardiology and Cardiac Surgery, 2005; Frezza et al., 2005; Morel-Verdebout et al., 2007; Botteron et al., 2009), que está presente no músculo normal e ausente na DMD (Otto et al., 1998; Oliveira, 2002). Chamberlain et al. (1988) relataram que a DMD normalmente ocorre como uma herança genética, entretanto um terço dos pacientes com esta doença obteve-a a partir de uma mutação nova. Por ser uma doença recessiva ligada ao cromossomo X, a DMD manifesta-se predominantemente no sexo masculino (Kamakura, 2000). Mulheres portadoras podem ser sintomáticas em diferentes graus, apresentando hipertrofia de panturrilha, cardiomiopatia ou miopatia leve (Reed, 2002). Cuidados odontológicos No tratamento odontológico propriamente dito deve-se ter cuidado com a acomodação do paciente na cadeira odontológica. Esta acomodação deve ser de uma forma mais confortável para o paciente, lembrando-se sempre que os mesmos utilizam a cadeira de rodas e, muitas vezes, já apresentam alguma alteração na coluna vertebral, principalmente, escoliose. O tratamento deve ser o mais rápido possível para os pacientes com a escoliose, pois quando esse é demorado o mesmo queixa-se muito de dor na coluna. Outro ponto bastante importante no tratamento é o fato de que ele deve ser realizado com uma aspiração adequada para assim não ocasionar a aspiração de algum material pelo paciente, que muitas vezes apresenta tosse infetiva em decorrência da insuficiência respiratória (Frezza et al., 2005; Botteron et al., 2009). De um modo geral, pacientes com DMD apresentam uma série de necessidades especiais durante o tratamento odontológico, que incluem desde o acesso do consultório odontológico a cadeirantes à alterações sistêmicas que modificam o tratamento odontológico, como insuficiência respiratória, hipertensão, cardiopatia e osteoporose. A realização de uma anamnese detalhada, adequação do espaço odontológico e planejamento e manejo odontológico são essenciais para um bom tratamento odontológico nestes pacientes. Nossos resultados nos permitiram concluir que: • A maioria dos pacientes com DMD apresenta alterações sistêmicas que interferem no tratamento odontológico, sendo as principais as cardiopatias e insuficiência respiratória e a osteoporose; • A maioria dos pacientes com DMD apresentou pobre saúde bucal, caracterizada por altos índices de biofilme, e de CPOD, cálculo dentário e periodontite moderada e grave; • A maioria dos pacientes com DMD apresentou maloclusão, caracterizada, principalmente por oclusão de Angle classe III e mordida cruzada posterior; • Ao atender pacientes com DMD, o cirurgião-dentista deve avaliar a necessidade de uso de anestésico local sem vasoconstritor adrenérgico e profilaxia antibiótica; • O cirurgião-dentista deve estar atento à possibilidade de ocorrência de osteonecrose relacionada ao uso de bisfosfonatos. AZEVEDO, F.C.G. et al. Alterações sistêmicas e orais em pacientes com Distrofia Muscular Progressiva de Duchenne. São Paulo, 2010. Lesão medular Chamamos de lesão medular toda injúria às estruturas contidas no canal medular (medula, cone medular e cauda equina), podendo levar a alterações motoras, sensitivas, autonômicas e psicoafetivas. Estas alterações se manifestarão principalmente como paralisia ou paresia dos membros, alteração de tônus muscular, alteração dos reflexos superficiais e profundos, alteração ou perda das diferentes sensibilidades (tátil, dolorosa, de pressão, vibratória e propriocep- tiva), perda de controle esfincteriano, disfunção sexual e alterações autonômicas como vasoplegia, alteração de sudorese, controle de temperatura corporal entre outras. O cuidado ao paciente com Lesão Medular inclui um conjunto de ações que se inicia no primeiro atendimento e continua até a sua reintegração social. Por isso, toda a equipe de atendimento deve es- tar envolvida desde a fase aguda em ações que permitam, no futuro, a inclusão social e econômica do paciente com sequela de lesão ra- quimedular. Este processo deve ser desenvolvido pelo atendimento simultâneo e integrado de diversos profissionais de saúde. Classificacao Ministério da Saúde. Diretrizes de atenção a pessoa com lesão medular. DF, 2013. Fonte: https://enfermagemilustrada.com/lesao-medular-2/ CARACTERIZAR AS DEFICIENCIAS SENSORIAIS E DE COMUNICAÇÃO DE INTERESSE ODONTOLÓGICO. Definicao Alteração sensorial é qualquer redução na capacidade de receber um estímulo que chegue por qualquer um dos sentidos. Visão, olfato, paladar, audição e tato representam os cinco sentidos e são os responsáveis pela capacidade do indivíduo de distinguir as percepções diversas. Conhecer um pouco melhor os cinco órgãos dos sentidos pode ser o primeiro passo para uma percepção ampla da diversidade. Na falta de um dos sentidos, outros tendem a ser mais aguçados, muitas vezes compensando e superando qualquer deficiência. Os cegos têm uma percepção tátil maior que a dos videntes; e os surdos, por sua vez, têm um domínio do campo visual superior aos ouvintes e assim por diante. Os pacientes com distúrbios sensoriais apresentam uma perda perceptual, e o profissional deve ater-se às diferentes formas que eles apresentam para se comunicar e expressar suas sensações. A comunicação sempre foi considerada uma ferramenta importante para médicos e profissionais de saúde no diagnóstico da patologia e no desenvolvimento de um relacionamento entre profissional e paciente, porém algumas alterações neurológicas comprometem a forma de comunicação convencional de alguns pacientes, exigindo que o cirurgião-dentista encontre uma maneira para estabelecer um elo na comunicação, que poderá ser fundamental para o sucesso do tratamento. Prevalencia no Brasil Com relação à deficiência auditiva, a prevalência foi de 1,1% (IC95%:1,0-1,2), por volta de 2,2 milhões de pessoas, sem diferença entre homens e mulheres. A prevalência de deficiência auditiva tendeu a aumentar conforme a idade, com diferenças significativas para as faixas de 40 a 59 anos (1,0% IC95%:0,9-1,2) e 60 anos e mais (5,2% IC95%:4,7-5,7). Maior prevalência foi ob-servada, também, entre os indivíduos que referiram ser de cor branca (1,4% 1C95%: 1,2;1,3). A região Sul apresentou -maior percentual (1,4% IC95%1,2;1,7) em relação às demais e a prevalência foi menor na região Norte (0,8% IC95%0,6;0,9) (Tabela 2). A deficiência visual apresentou maior prevalência dentre as deficiências investigadas (3,6% IC95%3,4;3,9), aproximadamente 7,2 milhões de pessoas, sem diferença entre homens e mu-lheres. Assim como nas deficiências auditiva e física, a visual também tendeu a aumentar conforme a idade, com maiores prevalências para as faixas de 40 a 59 anos (5,1% IC95%: 4,7-5,6) e 60 anos e mais (11,5% IC95%:10,6-12,4). Não foi observada diferença por cor ou raça. No que diz respeito à localidade, maior prevalência foi encontrada nos indivíduos que residiam na área rural (4,7% IC95%:4,0-5,4). Por regiões, as prevalências foram similares, com exceção à região Sul, que apresentou percentual elevado em relação às demais, com diferença significativa (5,9% IC95%:5,0-6,8) (Tabela 2). MALTA, D. C. et al. Prevalência autorreferida de deficiência no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Olfato e paladar A deficiência nos órgãos dos sentidos relacionados com o olfato e o paladar não necessita de uma estratégia de comunicação ou de atitude diferenciada durante o atendimento odontológico. No entanto, é fundamental que o cirurgião-dentista esteja atento à queixa principal do paciente e seja capaz de compreender a etiologia e qual a melhor maneira de oferecer-lhe mais conforto. As doenças associadas ao paladar e ao olfato apresentam como maiores causas infecções no trato nasal, distúrbios hormonais, problemas com os dentes ou doenças congênitas, como anosmia (perda completa do olfato) e ageusia (perda total do paladar). Classificação As alterações podem ser classificadas em qualitativas e quantitativas: • Alterações qualitativas: ■ Disgeusia: distorção da percepção gustativa ■ Parageusia:quando sobrevêm durante a alimentação ■ Fantageusia: ocorre pelo aumento do estímulo gustativo ■ Heterogeusia: é a condição de percepção alterada. • Alterações quantitativas: ■ Hipogeusia: há uma diminuição na sensação do gosto ■ Hipergeusia: quando a sensação do gosto é aumentada. Audição Até pouco tempo, tudo que se sabia sobre a deficiência auditiva (DA) estava relacionado com as suas graves consequências sobre a comunicação oral e sobre a impossibilidade de ser prevenida ou detectada precocemente. Atualmente, com o desenvolvimento de equipamentos e de técnicas sofisticadas, hoje já é possível diagnosticar a deficiência auditiva a partir do 5o mês de vida intrauterina e, em alguns casos, prevenir seu aparecimento. Os exames para detecção da perda auditiva também já são uma realidade na área médica e é possível ter o diagnóstico desde o nascimento. A criança surda, como não escuta os sons, começa a ater-se às mudanças e às informações visuais (p. ex., a face da mãe), desenvolvendo espontaneamente uma leitura orofacial, começa a tentar ler os lábios, a associar que determinadas expressões corporais correspondem aos movimentos dos lábios, face etc.; então, há um desenvolvimento visual. Por essa razão, a língua mais natural dos surdos é a língua de sinais. No Brasil, a Libras (Língua Brasileira de Sinais) foi reconhecida em abril de 2002 como a língua oficial da comunidade surda. A perda auditiva é considerada uma deficiência sensorial muito comum e resulta na limitação das habilidades de se comunicar pela língua falada; como consequência, os indivíduos surdos são excluídos de diversos contatos sociais e de várias oportunidades para aprender, o que pode refletir em alguns problemas psicológicos. Embora a comunicação com os pacientes tenha papel fundamental na determinação e no gerenciamento do diagnóstico, a falta de informação de profissionais de saúde sobre as habilidades de comunicação necessárias para o atendimento de pacientes com perda auditiva impede que muitos desses pacientes recebam informações apropriadas sobre suas doenças, tratamentos e prognósticos. Etiologia Diversos fatores podem estar associados à surdez, como história familiar, infecção intrauterina, anomalias craniofaciais, prematuridade, hiperbilirrubinemia, medicação ototóxica, meningite bacteriana, trauma de cabeça com perda de consciência, infecção de ouvido persistente ou recorrente e outros sinais físicos associados a síndromes neurológicas. A etiologia da perda auditiva pode resultar do efeito de agentes teratogênicos nas condições pré-natal, perinatal e pós-natal. Pode acontecer de maneira isolada, sem associação a outras anomalias congênitas, ou compor um quadro sindrômico. A rubéola materna, quando ocorre no primeiro trimestre de gestação, tem sido relatada como a causa mais frequente da surdez congênita e, além da perda auditiva, outras anomalias, como cegueira e déficit intelectual, podem estar presentes. A perda auditiva é avaliada por meio de audiograma, medida em decibéis (dB), variando entre leve (de 26 a 40 dB), moderada (de 41 a 55 dB), grave (de 56 a 70 dB) e profunda (71 dB). Classificação Quanto ao espectro clínico, a perda de audição pode ser classificada em condutiva, neurossensorial, central ou mista; simétrica ou assimétrica; sindrômica ou não sindrômica; congênita, peri ou pós-natal; genética ou não genética; pré-lingual, perilingual ou pós-lingual. Pode, ainda, ser classificada a partir dos seguintes critérios: • Momento em que ocorre: ■ Pré-natal: durante a vida gestacional ■ Perinatal: durante o nascimento ■ Pós-natal: após o nascimento • Origem do problema: ■ Hereditária ■ Não hereditária • Local em que ocorre: ■ Sistema condutivo: no ouvido externo e/ou na orelha média ■ Sistema neurossensorial: na orelha interna e/ou nervo vestibulococlear ■ Sistema nervoso central: no tronco cerebral e no cérebro. Em virtude da preocupação com o diagnóstico da deficiência auditiva, diversos estudiosos tentaram classificá-la, como Papparella, segundo a Tabela 45.1. Tipos de deficiência auditiva ❖ Condutiva. Qualquer interferência na transmissão do som desde o conduto auditivo externo até a orelha interna (cóclea). A orelha interna tem capacidade de funcionamento normal, mas não é estimulada pela vibração sonora e pode ser corrigida por meio de tratamento clínico ou cirúrgico. ❖ Neurossensorial. Ocorre quando há uma impossibilidade de recepção do som por lesão das células ciliadas da cóclea ou do nervo auditivo. Esse tipo de deficiência auditiva é irreversível. ❖ Mista. Ocorre quando há uma alteração na condução do som até o órgão terminal, sensorial associada à lesão do órgão sensorial ou do nervo auditivo. ❖ Central, disfunção auditiva central ou surdez central. Esse tipo de deficiência auditiva não é, necessariamente, acompanhado de diminuição da sensitividade auditiva, mas manifesta-se por diferentes graus de dificuldade na compreensão das informações sonoras. Decorre de alterações nos mecanismos de processamento da informação sonora no tronco cerebral (sistema nervoso central). Deficiência auditiva com manifestação tardia Alterações da audição que ocorrem após o nascimento, decorrentes de problemas genéticos ou não. Pode se manifestar de maneira isolada ou associada a outras anormalidades. Deficiência auditiva que ocorre sozinha Deficiência auditiva familiar progressiva Este quadro genético de perda auditiva pode ser confundido com outros tipos de lesões neurossensoriais. Manifesta-se durante a infância (entre 8 e 12 anos de idade) ou no início da vida adulta e evolui em gravidade durante toda a vida. Otosclerose É um distúrbio do metabolismo ósseo da cápsula ótica, que consiste em um ou mais focos de otospongiose localizados em diversos pontos da orelha interna. Em geral, essa doença se manifesta na 2a, 3a ou 4a décadas da vida e ocorre com maior frequência em mulheres e em indivíduos de pele branca. Parece haver um fato genético, ainda não totalmente conhecido, envolvido nessa doença. Presbiacusia É o processo da perda auditiva em virtude da idade que pode começar a qualquer momento, mas é mais esperado nos sujeitos acima de 60 anos de idade. Normalmente, manifesta-se em idosos por uma deterioração progressiva da audição, que, em alguns casos, pode afetar mais seriamente a capacidade de discriminar palavras. Deficiência auditiva associada a outras anormalidades Síndrome de Alport O principal sintoma dessa síndrome é um distúrbio renal progressivo que, em geral, se inicia na puberdade. Esse quadro renal é acompanhado por uma perda auditiva neurossensorial progressiva, que aumenta à medida que o problema renal se acentua. Os sujeitos portadores dessa síndrome podem também apresentar defeitos oculares, como catarata, cegueira e nistagmo. Geralmente, os indivíduos do sexo masculino são mais afetados que os do sexo feminino. Síndrome de Hurler Esse distúrbio se inicia na infância e tem como consequências deformidades esqueléticas, nanismo, retardamento mental, aumento do baço e do fígado, cegueira e deficiência auditiva neurossensorial profunda. Em geral, o quadro é fatal. Síndrome de Klippel-Feil Caracteriza-se por defeitos esqueléticos que podem incluir a fusão das vértebras cervicais, espinha bífida, escoliose, disfunção vestibular e deficiência auditiva profunda. Síndrome de Refsum Caracteriza um quadro de deficiência auditiva associada a retinite pigmentosa, ictiose (problema de pele conhecido como pele de cobra), polineuropatia e ataxia. Os sintomas visuais, em geral, se iniciam após os 20 anos de idade. Síndrome de Alström Caracteriza-se por distúrbios visuais (nistagmo e sensitividade à luz) que se manifestam no 1o ano de vida, diabetes melito na adolescência, obesidade e deficiência auditiva que se inicia por volta dos 10 anos de idade. Síndrome de Paget Também conhecida como osteíte deformante, a síndrome de Paget se caracteriza por deformidades esqueléticas do crânio e dos ossos longos das pernas. Em geral, inicia-se na fase adulta e progride continuamente. Pode trazer problemas auditivos condutivosou neurossensoriais, dependendo do local onde ocorre a deformidade óssea. Síndrome de Richards-Rundle Tem como fatores principais deficiência mental, ataxia, falha no desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários, nistagmo, distúrbios do sistema nervoso e deficiência auditiva neurossensorial congênita. Síndrome de von Recklinghausen Trata-se de uma forma localizada de neurofibromatose e inclui tumores do nervo acústico em ambos ouvidos. Síndrome de Crouzon A disostose craniofacial apresenta as seguintes características principais: cabeça com forma anormal caracterizada por proeminência central da região frontal, nariz com formato de bico e exoftalmia em razão do fechamento precoce das suturas do crânio. Também podem ser encontrados casos com deficiência auditiva, fissura de palato e úvula bífida. Cuidados odontológicos Durante o atendimento odontológico, se algumas regras básicas descritas a seguir forem seguidas, poderá se estabelecer um grau intenso de comunicação entre a criança e o profissional, sem frustrações para ambas as partes envolvidas e, consequentemente, existirá um ambiente de trabalho tranquilo e amigável. Assim, sugere-se: • Todos os membros da equipe devem saber que será atendida uma criança com deficiência auditiva; dessa forma, evitam-se constrangimentos quando a criança chegar • Procurar saber o grau de aceitação dos pais com relação à deficiência, avaliar a influência da superproteção e o grau de contato social da criança, e determinar as características emocionais da criança e pais • Procurar saber com os pais qual a melhor forma de comunicação com a criança (sinais, leitura de lábios etc.) • Não elevar a voz, mas falar de forma clara e mais lentamente que o normal e usar gestos. Dizer frases curtas e depois checar se foi entendido. Evitar gírias • Sempre olhar diretamente para a criança enquanto fala • Se uma explicação não foi entendida, repeti-la com outras palavras • Mostrar equipamentos e instrumentais sem colocar tanta ênfase na verbalização. Modelos, fotos e todos os dispositivos visuais são úteis para explicações • Explicar os procedimentos antes de iniciá-los, como serão realizados e só após isso o profissional deverá colocar a máscara ou usar protetor facial do tipo viseira transparente • Permita que os pais ou acompanhante fiquem próximo da criança, pois, além de darem segurança a ela, poderão lhe ajudar a transmitir as mensagens • Deixar disponíveis lápis e papel, no caso de o profissional ou a criança querer escrever ou desenhar alguma coisa • A linguagem corporal e as expressões faciais são fundamentais na interação profissional-paciente. O toque é uma forma de confortar uma criança apreensiva • Dispositivos amplificadores de som devem ser desligados quando do uso do alta rotação • Procurar realizar sessões curtas. Fonte: Guedes-Pinto, Antonio C. Odontopediatria, 9ª edição. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2016. Visão A visão possibilita ao indivíduo conhecer a luz, diferenciar as cores e as formas, e sua ausência dificulta a aquisição do conhecimento. A deficiência visual (DV) é a situação irreversível de diminuição da resposta visual, em virtude de causas congênitas ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico e/ou cirúrgico associado ou não ao uso de óculos convencionais. Classificação • Visão subnormal ou baixa visão: acuidade visual menor que 6/18 à percepção da luz, ou um campo visual menor que 10° do seu ponto de fixação • Cegueira: ausência total da resposta visual. Etiologia A etiologia da DV pode ser: • Deficiência visual adquirida: relacionada com o diabetes, a conjuntivite, a catarata, o glaucoma, a presbiopia, o retinoblastoma e a traumatismos diversos • Deficiência visual congênita: associa-se a agentes teratogênicos, à retinopatia de prematuridade, à coriorretinite, à catarata congênita, ao glaucoma congênito, à atrofia óptica por problema de parto, à degeneração retiniana e à própria DV cortical. A abordagem do paciente com DV necessita da sensibilidade do profissional para conduzi-lo ao consultório sempre perguntando como gostaria de ser ajudado. Deve-se utilizar a voz com suavidade e informar sempre em que posição está, próximo ou não ao paciente. Descrever o ambiente também é uma condição que proporciona maior conforto ao paciente, possibilitando que se oriente melhor no espaço. Ensinar a higiene oral ao paciente com DV é uma situação que deve ser treinada pelo paciente, que assim poderá desenvolver melhor a coordenação motora fina, contribuindo cada vez mais para sua independência. A utilização de recursos didáticos em braile faz parte do arsenal para o bom atendimento ao paciente com DV. Atendimento De maneira geral, quando do atendimento desses pacientes, é importante que o profissional utilize-se principalmente da comunicação verbal, descreva os equipamentos e as atitudes que serão adotadas e permita que ela toque e mexa em tudo. Ao dirigir a criança para a cadeira odontológica, basta deixá-la segurar seu braço que o movimento de seu corpo lhe dará a orientação de que ela precisa; ao sentar-se, ponha sua mão no braço da cadeira para indicar a posição em que ela deve ficar. Procurar tratá-la de forma a conhecer sua individualidade, uma vez que cada criança tem sua própria maneira de ser. Surdocegueira A nomenclatura “surdocegueira” deve ser utilizada sem receio, pois essa é a maneira correta de compreender melhor o paciente que apresenta a deficiência visual e auditiva associadas, em maior ou menor grau. A síndrome de Usher, por exemplo, é caracterizada como um deficiente auditivo que vai perdendo a visão lateral e, por meio da visão central, acaba sinalizando de maneira diferente que qualquer surdo, pois começa a sinalizar na frente, onde é seu campo visual e, por isso, apresenta a visão em “cone”, como é chamada. Com o tempo, ficam com a visão reduzida, até o momento em que perdem a visão por completo, quando passam a ser chamados de surdocegos. A abordagem com esses pacientes deve levar em consideração que os únicos órgãos dos sentidos que estão em funcionamento são o tato, o olfato e o paladar. São considerados pacientes bem complexos pela dificuldade de estabelecer com eles uma comunicação, pois são treinados para o diálogo não verbal. As estratégias de comunicação com esses pacientes se baseiam em utilizar objetos de referências, chamados “pistas”, que, por meio do tato e do olfato, tornam possível que se antecipe uma situação que será vivenciada pelo paciente. O movimento comativo, de dirigir o paciente, também faz parte das estratégias utilizadas na educação de pessoas surdocegas. A utilização da Libras na palma da mão é uma maneira de comunicação realizada por guias e intérpretes, que são profissionais habilitados para fazer a interpretação dos sinais na palma da mão e, por meio desse método, proporcionam a aquisição do conhecimento. Classificação Surdocego pré-linguístico São aqueles que adquiriram a surdocegueira antes da aquisição de uma linguagem, seja oral, seja gestual. Pode-se dizer que o surdocego pré-linguístico é aquele indivíduo que, por uma combinação de distúrbios visuais e auditivos, pode vir a isolar-se de tal forma do meio ambiente, fugindo também da interação pessoal, o que faz surgirem graves problemas de desenvolvimento global, sendo o mais importante deles o da comunicação. Surdocego pós-linguístico São aqueles que adquiriram a surdocegueira após a aquisição da linguagem, seja oral, seja gestual. Pode-se dizer que o surdocego pós-linguístico é o indivíduo que adquiriu deficiências visuais e auditivas, em uma tal combinação que lhe traz dificuldades de comunicação, locomoção e outras dificuldades para sua vida diária, seja na família, seja no estudo ou em sua integração social; o mais importante inicialmente será a escolha da nova forma de comunicação. Etiologia • Origem genética: síndrome de Usher, associação Charge • Origem pré-natal: rubéola materna, toxoplasmose, drogas teratogênicas, incompatibilidade sanguínea • Lesões neonatais: prematuridade, anoxia, drogas ototóxicas • Adquiridas comoinfecções: meningite, sarampo, otites graves, sífilis • Outras: acidentes, tumorações etc. Alteração múltipla sensorial Segundo a Royal National Institute for the Deaf (RNID), a classificação para deficiência múltipla sensorial se divide em multiple disabled and visually impaired (MDVI) e multiple disabled and hearing impaired (MDHI): • MDVI: baixa visão ou cegueira associada a uma ou mais deficiências (intelectual, física, motora), ou a distúrbios globais de desenvolvimento • MDHI: deficiência auditiva ou surdez associada a uma ou mais deficiências (intelectual, física, motora), ou a ambas, ou a distúrbios globais do desenvolvimento. Diferentes formas de comunicação Leitura labial É uma técnica que exige treinamento, e não são todos os indivíduos que conseguem essa habilidade. No entanto, não é garantida uma comunicação eficiente, pois se sabe que, em uma situação com grande carga emocional (p. ex., quando as pessoas estão com raiva ou com medo), perde-se 30 a 40% da informação de quem está falando. Libras A Língua Brasileira de Sinais caracteriza-se por uma língua visuoespacial, podendo ser realizada no espaço tridimensional. Não é uma língua universal, pois cada país tem sua própria língua e, como tal, apresenta diferenças regionais. Os sinais correspondem a palavras, verbos e ações, e cada um tem um significado próprio, associado a uma expressão facial, compondo o sistema linguístico. ❖ Libras tátil. Utilização da língua de sinais colocada sobre as mãos do surdocego. Alfabeto manual dos surdocegos Colocação das letras do alfabeto em uma das mãos do surdocego, que poderá estar espalmada para cima ou voltada para baixo. Escrita Segurando no dedo indicador do surdocego, o intérprete desenhará, em um apoio (mão, mesa), as palavras em letra cursiva ou de forma. Placa em braile Contém os caracteres em braile e em letras de imprensa para serem apontados para o surdocego com o indicador. Tadoma Percepção da fala por meio do tato. Tellethouc Máquina de datilografia comum e teclado em braile com uma “sela” para a recepção em braile por parte do surdocego. Comunicação alternativa Tecnologia assistiva que amplia as habilidades de comunicação em indivíduos sem habilidade de comunicação verbal ou escrita. Atualmente, existem inúmeros métodos de comunicação alternativa, como PCS, Blissymbols, Rebus, PIC e Picsyms, que podem ser organizados por meio de cartões de comunicação, pranchas de comunicação, pranchas alfabéticas e de palavras, vocalizadores ou o próprio computador. O Picture Exchange Communication System (PECS) também é uma abordagem que utiliza imagens para desenvolver a habilidade de comunicação em crianças e adultos com dificuldades de aprendizagem, muito utilizada na educação de pacientes autistas. Varellis, Maria Lucia Z. O Paciente com Necessidades Especiais na Odontologia - Manual Prático, 3ª edição. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2017. image5.png image6.png image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.png image1.jpeg image2.png image3.png image4.png