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1 CARACTERIZAR AS IST’S COM MANIFESTAÇÕES BUCAIS DESCREVENDO A CONDUTA ODONTOLÓGICA FRENTE A CADA INFECÇÃO. 3 1.1 Gonorreia 3 1.1.1 Definição e etiologia 3 1.1.2 Epidemiologia-prevalencia 4 1.1.3 Manifestações clínicas/bucais 4 1.1.4 Tratamento/ conduta odntológicas 8 1.2 Sífilis 9 1.2.1 Definição e etiologia 9 1.2.2 Epidemiologia-prevalencia 11 1.2.3 Manifestações clínicas/bucais 11 1.2.4 Tratamento 17 1.2.5 Conduta odontológica 18 1.3 Herpes simples 18 1.3.1 Definição e etiologia 18 1.3.2 Epidemiologia-prevalencia 19 1.3.3 Manifestações clínicas/bucais 19 1.3.4 Tratamento 22 1.3.5 Conduta odontológica 23 1.4 HPV 23 1.4.1 Definição e etiologia 23 1.4.2 Epidemiologia-prevalencia 24 1.4.3 Manifestações clínicas/bucais 25 1.4.4 Tratamento/ conduta odontológica 27 1.5 AIDS 28 1.5.1 Definição e etiologia 28 1.5.2 Epidemiologia-prevalencia 29 1.5.3 Manifestações clínicas/bucais 31 1.5.4 Tratamento 31 1.5.5 Conduta odontológica 33 1.6 Clamídia 34 1.6.1 Definição e etiologia 34 1.6.2 Epidemiologia-prevalencia 34 1.6.3 Manifestações clínicas/bucais 35 1.6.4 Tratamento/ conduta odontológica 36 CARACTERIZAR AS IST’S COM MANIFESTAÇÕES BUCAIS DESCREVENDO A CONDUTA ODONTOLÓGICA FRENTE A CADA INFECÇÃO. Gonorreia Definição e etiologia Doença sexualmente transmissível, caracterizada pela inflamação das mucosas genitais cujo agente causador é a Neisseria gonorrhoeae, mais conhecida como gonococo. Os sintomas aparecem aproximadamente 3 dias após o contágio, mas podem levar até 3 semanas. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. Etiologia A gonorreia é uma das doenças de origem bacteriana mais prevalentes nos humanos. É causada pelo diplococo Gram-negativo Neisseria gonorrhoeae, que infecta o epitélio colunar do trato genital baixo, o reto, a faringe e os olhos. A infecção é transmitida por meio do contato sexual direto com um parceiro infectado. A disseminação da infecção nos parceiros sexuais é contida devido ao curto período de incubação de menos de 7 dias, possibilitando o rastreamento dos contatos, porém a ausência de sintomas na maioria dos indivíduos dificulta este rastreamento, especialmente nas mulheres. As infecções de genitália podem ser transmitidas para as membranas mucosas orais e faríngeas por meio do contato orogenital. A mucosa faríngea é mais suscetível à infecção do que a mucosa oral devido ao tipo de epitélio e à sua menor resistência ao trauma, sendo a faringite a queixa principal. O desenvolvimento dessa forma da doença está mais associado à prática da felação do que de cunilíngua. Os indivíduos afetados podem apresentar infecção concomitante em região genital e mucosa oral ou faríngea em virtude da exposição direta em vez da disseminação pelo sangue e vasos linfáticos. A transmissão da gonorreia de um paciente infectado para um cirurgião-dentista é considerada bastante improvável devido ao fato de o microrganismo ser muito sensível ao calor, além de ser necessário que haja um corte na pele ou na mucosa para que ocorra a infecção. O uso de luvas, óculos de proteção e máscara garante uma proteção adequada contra uma transmissão acidental. Epidemiologia-prevalencia A gonorreia é uma doença sexualmente transmissível causada pela Neisseria gonorrhoeae. Ela representa a infecção bacteriana notificável mais comum nos Estados Unidos, estimando-se 700.000 a 800.000 pessoas infectadas por ano. Essa doença é epidêmica, especialmente nas áreas urbanas; milhões de pessoas em todo o mundo são infectadas a cada ano. A taxa nos Estados Unidos continua sendo maior do que a de qualquer país industrializado, e alguns segmentos da população, como aqueles com baixo nível socioeconômico ou de escolaridade, usuários de drogas injetáveis, prostitutas, homossexuais masculinos e militares permanecem em alto risco. Ao contrário de várias outras doenças sexualmente transmissíveis, as mulheres são ligeiramente mais afetadas. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. No Brasil, o cenário epidemiológico da infecção acompanha os altos índices mundiais, estimando-se que a prevalência da gonorreia na população de 15 a 49 anos seja de aproximadamente 1,4%, e que a incidência na população em geral esteja em torno de 500 mil novos casos por ano. Associação Paulista de Medicina. Gonorreia no Brasil, 2017. O Ministério da Saúde estima que 500 mil pessoas sejam infectadas anualmente por gonorreia no país. No mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), são cerca de 78 milhões pacientes com a doença. Número de Casos Infecciosos de Gonorreia Pode Tornar-la Intratável. Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Serviço de Assistência Especializada Familiar Materno Infantil, 2019. Incidência indica o número de casos novos ocorridos em um certo período de tempo em uma população específica, enquanto prevalência refere-se ao número de casos (novos e velhos) encontrados em uma população definida em um determinado ponto no tempo. Manifestações clínicas/bucais A infecção se dissemina pelo contato sexual e a maioria das lesões ocorre na região genital. A infecção indireta é rara pois o microrganismo é sensível ao meio seco e não consegue penetrar no epitélio pavimentoso estratificado intacto. Normalmente, o período de incubação varia de dois a cinco dias. As áreas frequentemente afetadas exibem significativa secreção purulenta, mas perto de 10% dos homens e até 80% das mulheres que contraem gonorreia são assintomáticos. Nos homens, o local mais frequente de infecção é a uretra, resultando em secreção purulenta e disúria. Localizações primárias menos comuns incluem as regiões anorretal e faringiana. O sítio mais envolvido em mulheres é o colo uterino e as queixas principais incluem aumento da secreção vaginal, sangramento entre as menstruações, ardência genital e disúria. Os microrganismos podem ascender para o útero e os tubas ovarianas, levando à complicação da gonorreia mais importante nas mulheres – a doença inflamatória pélvica (DIP) com complicações a longo prazo que incluem gravidez ectópica ou infertilidade devido à obstrução tubária. Aproximadamente 0,5% a 3,0% dos pacientes com gonorreia não tratados apresentarão infecções gonocócicas disseminadas por bacteremia sistêmica. Os sinais mais comuns de disseminação são mialgia, artralgia, poliartrite e dermatite. Em 75% dos pacientes com doença disseminada, uma erupção cutânea característica se desenvolve. As lesões cutâneas consistem em pápulas e pústulas discretas que costumam exibir um componente hemorrágico, ocorrendo inicialmente nas extremidades. Alterações mais infrequentes secundárias à septicemia gonocócica compreendem febre, endocardite, pericardite, meningite e lesões orais no palato mole e orofaringe, as quais são semelhantes às ulcerações aftosas. A maioria dos casos de gonorreia oral parece ser resultado da felação, embora a gonorreia orofaringiana possa ocorrer pela septicemia gonocócica, pelo beijo ou cunilíngua. A maioria dos casos são relatados em mulheres ou homens homossexuais, sendo os sítios mais comuns de envolvimento a faringe, amígdalas e úvula. Embora a gonorreia faringiana seja em geral assintomática, uma dor de garganta que varia de leve a moderada pode ocorrer e pode ser acompanhada por eritema orofaríngeo difuso e inespecífico. As amígdalas, quando acometidas, exibem edema e eritema, muitas vezes com pústulas puntiformes pequenas esparsas. Embora na maioria dos casos de infecção faríngea ocorra resolução espontânea, sem deixar sequelas adversas, novos achados sugerem que a infecção tem implicações importantes, o que reforça a necessidade de tratamento a fim de reduzir o potencial de disseminação da infecção. Pesquisas têm também sugerido que o envolvimento faringiano pode ter um papel importante no desenvolvimento de resistência antibiótica. Diversos estudos têm mostrado que a N. gonorrhoeae pode sofrer mutação adquirindo material genético de outras espécies de Neisseria que habitam a garganta. Isso levou muitos a recomendarem umatriagem faringiana periódica em grupos de alto risco, como homens que têm relações sexuais com outros homens e profissionais do sexo. Raramente, lesões foram documentadas na porção anterior da cavidade oral, com áreas de infecção apresentando-se eritematosas, pustulares, erosivas ou ulceradas. Ocasionalmente, a infecção pode simular a gengivite ulcerativa necrotizante (GUN), porém alguns clínicos relatam que o odor oral típico da GUN está ausente, fornecendo um indício importante para a verdadeira causa (Fig. 5-16). Podem estar presentes linfadenopatia submandibular ou cervical. Fig. 5-16 Gonorreia. Necrose, supuração e hemorragia da gengiva inferior anterior. (De Williams LN: The risks of oral-genital contact: a case report, Gen Dent 50:282-284, 2002. Publicada com a permissão da Academia de Odontologia Geral. Direitos autorais da American Academy of General Dentistry 2002. Todos os direitos reservados.) Durante o nascimento, pode ocorrer infecção dos olhos da criança, proveniente de mãe infectada que pode estar assintomática. Tal infecção é chamada de oftalmia gonocócica neonatal e pode rapidamente causar perfuração do globo ocular e cegueira. Sinais comuns de infecção incluem conjuntivite e exsudato mucopurulento dos olhos. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Nos homens, o primeiro sintoma é uma ligeira sensação de ardor ao urinar, em virtude da inflamação na uretra. Na evolução sem tratamento, produz grande quantidade de pus e observa-se aumento crescente de supuração, podendo sobrevir complicações que danifiquem outras zonas dos órgãos sexuais e outras partes do corpo, como ossos, olhos, articulações, rins e coração. Nas mulheres, normalmente a gonorreia é assintomática e complica ao acometer o ducto urinário, podendo estender-se ao trato genital, ao útero e anexos, à bexiga e aos rins. Embora ocorra também em adultos, a infecção gonocócica nos olhos é mais frequente em crianças, por contaminação durante o parto normal, podendo causar cegueira. Apresenta período de incubação de 2 a 10 dias, sendo assintomática na maioria das vezes e podendo manifestar-se com disúria e supuração uretral. O diagnóstico é laboratorial, com cultivo do exsudato. O tratamento é feito com penicilinas, tetraciclinas, macrolídeos, cefalosporinas e espectinomicina. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. CARLAN, L.M. et al. Atuação do dentista da atenção básica no combate às infecções sexualmente transmissíveis: revisão da literatura. 2022. Não existe nenhum sinal clínico específico consistentemente associado à gonorreia na cavidade oral. Entretanto, foi descrita a ocorrência de várias úlceras e eritema generalizado. Os sintomas variam de um quadro assintomático até estomatites generalizadas. Os casos mais comuns de infecção gonocócica faringiana apresentam sinais como um eritema geral associado às úlceras ou uma linfadenopatia cervical. A queixa principal pode ser dor de garganta, embora a maioria dos pacientes seja assintomática. Diagnóstico Diferencial Devido à ausência de lesões orais consistentes e distintas, outras condições que causem várias úlceras ou eritema generalizado devem ser consideradas no diagnóstico diferencial. Dentre essas condições, destacam-se as úlceras aftosas, as úlceras herpéticas, o eritema multiforme, o pênfigo, o penfigoide, as erupções medicamentosas e a infecção estreptocócica. O diagnóstico de gonorreia tradicionalmente baseia-se na demonstração do microrganismo por meio da coloração de prata ou do meio de cultura Thayer-Martin. A identificação rápida do N. gonorrhoeae pela técnica de imunofluorescência para detecção de anticorpos ou mediante outros exames laboratoriais pode servir para confirmar a impressão clínica. Tratamento/ conduta odntológicas A gonorreia não complicada responde ao antibiótico apropriado em dose única. No Ocidente, as infecções são suscetíveis à penicilina e o tratamento com a administração de uma única dose parenteral de 2 g a 3,5 g de ampicilina é considerado efetivo. No Extremo Oriente e em partes da África, mais de 50% dos casos são resistentes à penicilina e devem ser atacados com uma dose única de 500 mg de ciprofloxacino. Este regime também é apropriado para a gonorreia faríngea, dada a ineficácia da ampicilina. Alguns autores manifestaram a preocupação do desenvolvimento de resistência gonocócica aos antibióticos. Já foi relatada a resistência de algumas cepas às cefalosporinas e à fluoroquinolona, incluindo as formas resistentes a vários fármacos. Portanto, apenas poucas opções de tratamento estão disponíveis. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. O tratamento tem sido complicado devido ao desenvolvimento de resistência antibiótica pela N. gonorrhoeae. Apenas uma classe de antibióticos, as cefalosporinas, é considerada suficientemente eficaz pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Além disso, a coinfecção por Chlamydia trachomatis é comum, levando à sugestão de uma terapia que seja efetiva contra ambos os microrganismos. O regime atualmente recomendado é a ceftriaxona intramuscular combinada com azitromicina oral ou doxicilina. Nova pesquisa é recomendada um a dois meses após a terapia. A causa mais comum de falha no tratamento é a nova exposição a parceiros infectados, os quais geralmente são assintomáticos. Portanto, o tratamento de todos os parceiros sexuais recentes deve ser realizado. Infecções verdadeiramente resistentes devem ser submetidas à cultura com antibiograma e seleção de um antibiótico alternativo adequado. A profilaxia oftálmica com eritromicina, tetraciclina ou nitrato de prata é realizada nos recém-nascidos para prevenir a ocorrência de oftalmia gonocócica neonatal. Neville, Brad, W. et al. Patologia Oral e Maxilofacial. Disponível em: Minha Biblioteca, (4th edição). Grupo GEN, 2016. Conduta odontológica O cirurgião-dentista deve ser capaz de identificar lesões resultantes de maus-tratos na infância e são obrigados, por lei, a denunciar os casos suspeitos. Os sinais físicos em vítimas de abuso ocorrem em grande maioria na cavidade oral e na região de cabeça e pescoço, área de atuação do cirurgião-dentista. A correta atuação do profissional é essencial para proteção da criança, devendo este denunciar os casos suspeitos ao Conselho Tutelar ou ao Juizado da Infância e Juventude. Conclusões: é de suma importância o reconhecimento dos sinais e lesões em crianças sob maus-tratos, para que o cirurgião-dentista cumpra sua responsabilidade ética e legal nestes casos. Pode orientar os pacientes da prevenção como somos da área da saúde cabe a nós, podemos reforçar a biossegurança para evitar contaminação pelo sangue, se for possível contaminar assim. Rover, A.L.P. et al. Violência contra a criança: indicadores clínicos na odontologia/Violence against children: clinical indicators in Dentistry. 2020. O profissional Cirurgião-Dentista tem o dever de notificar os casos de violência que tiver conhecimento, inclusive a violência sexual em relação à criança, podendo responder por omissão. Geralmente são em crianças de 0 a 4 anos, pois elas não falam. O papel do dentista no diagnóstico de abuso sexual infantil. REPOSITÓRIO DIGITAL UNIVAG Pelo epitélio estratificado é difícil ter gonorreia na cavidade bucal, tem várias camadas. Observar lesões orofaringia, pode pedir para ele ir no onitorrino. Nos n fazemos dignóstico, é so para conhecer Sífilis Definição e etiologia Doença sexualmente transmissível (DST) ou congênita, causada pelo Treponema pallidum (Treponema pallidum é uma espécie de bactérias com forma espiral do grupo das espiroquetas) e com resposta inflamatória crônica que conduz à formação de granulomas e vasculites necrosantes. Pode ser dividida em: •Sífilis primária: surge após um período de incubação de 10 a 100 dias; depois, aparece uma úlcera não dolorosa (cancro duro de Hunter ou primário) •Sífilis secundária: surge após 12 semanas docontágio. São manifestações clínicas febre, linfadenopatia, erupção nas mãos, pápulas perineais, lesões nas mucosas ou úlceras difusas na boca. Lesões hepáticas e no sistema nervoso também podem ocorrer •Sífilis terciária: pode se instalar após 2 a 20 anos, e a doença clássica desta fase é a tabes dorsalis. Tumefações (gomas) cutâneas, mucosas, ósseas ou viscerais e enfermidade cardiovascular, particularmente aneurisma aórtico, também podem ocorrer. As manifestações clínicas incluem, ainda, pupilas de Argyll-Robertson, ataxia, articulações neuropáticas e encefalopatia. O diagnóstico é feito por meio de visualização microscópica em fundo escuro e sorologia. O tratamento é feito com penicilina-benzatina IM, para as fases primária e secundária, e com penicilina cristalina IV durante 21 dias, para a fase terciária. Deve-se excluir a ocorrência de outras doenças sexualmente transmissíveis e localizar os contatos. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. A sífilis é uma infecção crônica mundial causada pelo Treponema pallidum. O organismo é muito vulnerável ao meio seco; portanto, as principais vias de transmissão são o contato sexual e da mãe para o feto. Os humanos são os únicos hospedeiros naturais comprovados para sífilis. À medida que terapias eficazes para o tratamento de AIDS têm sido desenvolvidas, a atividade sexual mais uma vez se modificou com um aumento na prevalência de relatos de doenças sexualmente transmissíveis, inicialmente como resultado do aumento de homens que têm relações sexuais com homens (MSM). Acredita-se que o sexo oral esteja desempenhando uma contribuição cada vez mais importante na onda recente de doenças sexualmente transmissíveis em homossexuais masculinos. Como o risco de transmissão do HIV via sexo oral é inferior à taxa associada ao sexo vaginal ou anal, muitos acreditavam erroneamente que o sexo oral sem proteção era um método seguro ou sem risco para a prática sexual, representando um bom substituto para outros comportamentos de maior risco. Em pacientes com sífilis, a infecção sofre uma evolução característica que se desenvolve classicamente em três estágios. Um paciente acometido pela sífilis é altamente infeccioso apenas durante os dois primeiros estágios, porém as gestantes também podem transmitir a infecção para o feto durante o estágio de latência. A transmissão materna durante as duas primeiras fases da infecção quase sempre resulta em aborto, natimorto ou criança com malformações congênitas. Há quanto mais tempo a mãe tenha tido a infecção, menor a chance de infecção fetal. A infecção do feto pode ocorrer em qualquer momento da gestação, mas os estigmas não começam a se desenvolver até o quarto mês de gestação. As alterações clínicas decorrentes da infecção fetal são conhecidas como sífilis congênita. Lesões sifilíticas orais são incomuns, porém podem ocorrer em qualquer estágio. Devido à raridade das lesões orais e o padrão microscópico não específico, o diagnóstico histopatológico correto pode não ser emitido por patologistas sem experiência com a doença. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Epidemiologia-prevalencia Os casos de sífilis na população do Distrito Federal aumentaram 55,9% entre janeiro e julho deste ano, em comparação ao mesmo período de 2022. Segundo a Secretaria de Saúde (SES-DF), 3.138 diagnósticos foram notificados nos primeiros sete meses deste ano – sendo, em média, 14 infecções por dia – contra 2.013 no ano passado. A maior parte dos casos está presente entre homens e na faixa etária de 15 a 29 anos. Os números consideram casos descobertos nas redes pública e privada de saúde. Em 2020, foram notificados 2.154 casos e em 2021, 2.199, conforme o Boletim Epidemiológico da Sífilis da SES. Os dados consolidados do ano de 2022 serão divulgados em outubro, quando é celebrado o Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita (19/10). Os casos de sífilis subiram 32% entre 2020 e 2021 no país. Foi o maior número de notificações em 70 anos. Também foi a IST de maior prevalência no período. A epidemia não mostra sinais de desaceleração, alertaram os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Mais comum no estado do Acre, a sífilis adquirida. Aumento nos diagnósticos de sífilis em 2023 reforça conscientização. Secretaria de saúde do DF. 2023. Manifestações clínicas/bucais Sífilis Primária A sífilis primária é caracterizada pelo cancro, que se desenvolve na área de inoculação, tornando-se clinicamente evidente de 3 a 90 dias após a exposição inicial. Os cancros habitualmente são solitários e iniciam como lesões papulares com uma ulceração central. Aproximadamente 85% se desenvolvem em áreas genitais, enquanto 10% são anais, 4% são orais e o 1% restante é descoberto em outras localizações extragenitais. As lesões orais são vistas mais nos lábios, mas outras áreas incluem a língua, palato, gengiva e amígdalas (Fig. 5-7). O lábio superior é mais acometido em homens, enquanto o envolvimento do lábio inferior é predominante nas mulheres. Alguns acreditam que esta distribuição labial distinta pode refletir a superfície mais envolvida durante a felação e cunilíngua. A lesão oral apresenta-se como uma úlcera de base clara e indolor ou, raramente, como uma proliferação vascular semelhante a um granuloma piogênico. A linfadenopatia regional, que pode ser bilateral, é vista na maior parte dos pacientes. Neste momento, o microrganismo se dissemina sistemicamente através dos vasos linfáticos, preparando o palco para a futura progressão. Caso não seja tratada, a lesão inicial cicatriza dentro de três a oito semanas. Fig. 5-7 Cancro da Sífilis Primária. Massa eritematosa e ulcerada na mucosa jugal anterior direita. (Cortesia do Dr. Benjamin Martinez.) Sífilis Secundária A fase seguinte é conhecida como sífilis secundária (disseminada), sendo identificada clinicamente de quatro a dez semanas após a infecção inicial. As lesões da sífilis secundária podem surgir antes da resolução completa da lesão primária. Durante a sífilis secundária, os sintomas sistêmicos em geral surgem. Os mais comuns são linfadenopatia indolor, dor de garganta, mal-estar, cefaleia, perda de peso, febre e dor musculoesquelética. Um sinal consistente é uma erupção cutânea maculopapular difusa e indolor, disseminada por todo o corpo e que pode acometer inclusive a região palmo-plantar. Essa erupção também pode envolver a cavidade oral, apresentando-se como áreas maculopapulares vermelhas. Ainda que a erupção cutânea possa resultar em cicatrizes e hiperpigmentação ou hipopigmentação nas áreas afetadas, na maioria dos pacientes, ela cicatriza sem deixar marcas. Além disso, cerca de 30% dos pacientes apresentam áreas focais de exocitose e espongiose intensa da mucosa oral, levando à formação de zonas de mucosa sensível e esbranquiçada, conhecidas como placas mucosas (Figs. 5-8 e 5-9). Ocasionalmente, várias placas adjacentes podem se fusionar e formar um padrão sinuoso ou semelhante ao caminho de caracol. Após sua formação, a necrose epitelial superficial pode ocorrer, levando à descamação do tecido e exposição do tecido conjuntivo cruento subjacente. Estas lesões podem acometer qualquer superfície mucosa, mas são encontradas com maior frequência na língua, nos lábios, na mucosa jugal e no palato. Placas mucosas elevadas também podem estar centradas sobre a dobra da comissura labial e foram chamadas de pápulas fendidas. Ocasionalmente, lesões papilares que podem lembrar papilomas virais surgem durante esse momento e são chamadas de condiloma lata. Embora essas lesões ocorram classicamente na região genital ou anal, casos raros podem ocorrer na boca (Fig. 5-10). Ao contrário do cancro isolado encontrado na sífilis primária, lesões múltiplas são típicas da sífilis secundária. A resolução espontânea em geral ocorre dentro de três a doze semanas; entretanto, recidivas podem ocorrer no ano seguinte. Fig. 5-8 Placa Mucosa da Sífilis Secundária. Placa branca circunscritana mucosa labial inferior. (Cortesia do Dr. Pete Edmonds.) Fig. 5-9 Placa Mucosa da Sífilis Secundária. Placa branca espessa e irregular do lado direito do palato mole. Fig. 5-10 Condiloma Lata. Múltiplos nódulos endurecidos e levemente papilares no dorso da língua. (Cortesia da Dra. Karen Novak.) Sífilis Terciária Após a sífilis secundária, os pacientes entram em uma fase livre de lesões e sintomas, conhecida como sífilis latente. Este período de latência pode durar de um a trinta anos; então o estágio terciário, conhecida como sífilis terciária, se desenvolve em cerca de 30% dos pacientes. A fase terciária da sífilis inclui as complicações mais sérias da doença. O sistema vascular pode ser afetado significativamente pelos efeitos da arterite prévia. Pode ocorrer aneurisma da aorta ascendente, hipertrofia ventricular esquerda, regurgitação aórtica e insuficiência cardíaca congestiva. O envolvimento do sistema nervoso central (SNC) pode levar a tabes dorsalis, paralisia generalizada, psicose, demência, paresia e morte. Lesões oculares como irite, coroidorretinite e pupilas de Argyll Robertson podem ocorrer. As pupilas de Argyll Robertson se contraem durante o foco, mas não respondem à luz brilhante (apelidadas de “pupilas de prostitutas”, porque acomodam-se, mas não reagem). Menos significativos, porém mais característicos, são os focos dispersos de inflamação granulomatosa, que podem afetar a pele, mucosa, tecidos moles, ossos e órgãos internos. Esse sítio ativo de inflamação granulomatosa, conhecido como goma, apresenta-se como uma lesão endurecida, nodular ou ulcerada, que pode causar extensa destruição tecidual. Lesões intraorais geralmente acometem o palato ou a língua. Quando o palato é envolvido, a ulceração com frequência o perfura em direção à cavidade nasal (Fig. 5-11). A língua pode ser difusamente envolvida pelas gomas e apresenta-se aumentada, lobulada e com formato irregular. Esse padrão lobular é chamado de glossite intersticial e se acredita que seja resultado da contratura da musculatura lingual após a cicatrização das gomas. A atrofia difusa e a perda das papilas do dorso lingual produzem uma condição chamada de glossite luética. No passado, essa forma de glossite atrófica foi considerada potencialmente maligna, porém vários estudos recentes questionam este conceito. Fig. 5-11 Sífilis Terciária. Perfuração do palato duro. (Cortesia do Dr. George Blozis.) Sífilis Congênita Em 1858, Sir Jonathan Hutchinson descreveu as alterações encontradas na sífilis congênita e definiu três achados diagnósticos patognomônicos, conhecidos como tríade de Hutchinson: •Dentes de Hutchinson •Ceratite ocular intersticial •Surdez associada ao comprometimento do oitavo par de nervos cranianos Assim como várias outras tríades diagnósticas, poucos pacientes apresentam todos os três achados. Adicionalmente à tríade de Hutchinson, uma série de outras alterações pode ser visto, como nariz em sela, palato arqueado, bossa frontal, hidrocefalia, incapacidade intelectual, gomas e neurossífilis. A Tabela 5.1 mostra as taxas de prevalência dos estigmas da sífilis congênita em um grupo de pacientes afetados. As crianças infectadas com sífilis podem manifestar sinais dentro de duas a três semanas do nascimento. Esses achados iniciais incluem prejuízo no crescimento, febre, icterícia, anemia, hepatoesplenomegalia, rinite, rágades (fissuras cutâneas radiais ao redor da boca) e erupções cutâneas maculopapulares descamativas, ulcerativas ou vesículo-bolhosas. As crianças não tratadas que sobrevivem costumam desenvolver a sífilis terciária com danos aos ossos, dentes, olhos, orelhas e cérebro. Esses foram os achados bem descritos por Hutchinson. A infecção altera a formação dos incisivos (incisivos de Hutchinson) e dos molares (molares em amora, molares de Fournier, molares de Moon). Os incisivos de Hutchinson apresentam diâmetro mesiodistal maior no terço médio da coroa. O terço incisal se afunila em direção à margem incisal, resultando em um dente que lembra a parte ativa de uma chave de fenda (Fig. 5-12). Muitas vezes, a margem incisal exibe um entalhe central hipoplásico. Os molares em amora se afunilam em direção à superfície oclusal, com uma superfície constritiva. A anatomia oclusal é anormal, com várias projeções globulares desorganizadas que lembram a superfície de uma amora (Fig. 5-13). Fig. 5-12 Incisivos de Hutchinson da Sífilis Congênita. Dentes exibindo coroas sofrendo estreitamento em direção à margem incisal. (De Halstead CL, Blozis CG, Drinnan AJ et al: Physical evaluation of the dental patient, St Louis, 1982, Mosby.) Diagnóstico O diagnóstico da sífilis pode ser confirmado pela demonstração dos microrganismos espiralados no exame de campo escuro de um esfregaço do exsudato de uma lesão ativa. Resultados falso-positivos em esfregaços são possíveis na cavidade oral, devido à semelhança morfológica de alguns microrganismos habitantes da flora oral, tais como Treponema microdentium, T. macrodentium e T. mucosum. A demonstração do microrganismo no esfregaço ou material de biopsia deve ser confirmada com o uso de testes de anticorpos imunofluorescentes específicos, amplificação de ácido nucleico ou testes sorológicos. Estão disponíveis para a sífilis vários testes sorológicos de triagem inespecíficos e sem alta sensibilidade. Esses testes incluem o Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) e a reagina rápida do plasma (RPR). Após as três semanas iniciais da infecção, os testes de triagem são positivos durante todo o período das duas primeiras fases. Após o desenvolvimento da latência, a positividade em geral decresce com o tempo. Como parte de um acompanhamento pré-natal apropriado, todas as gestantes devem realizar um dos exames de triagem inespecíficos para sífilis. Como esses testes são tipicamente negativos nos estágios primários iniciais e também podem dar resultados falso-negativos em pacientes imunossuprimidos (como na AIDS), a identificação tecidual do microrganismo é crítica em muitos pacientes. Testes sorológicos específicos e altamente sensíveis para a sífilis também estão disponíveis. Esses testes incluem a absorção de anticorpos treponêmicos fluorescentes (FTA-ABS), ensaios de hemaglutinação do T. pallidum (TPHA), ensaios de aglutinação de partículas do T. pallidum (TPPA) e ensaios de micro-hemaglutinação para anticorpos contra T. pallidum (MHA-TP). Esses testes permanecem positivos por toda a vida. Tal positividade persistente limita seu uso para o diagnóstico de um segundo episódio da doença. Assim, nos casos de possível nova infecção, os microrganismos devem ser demonstrados dentro dos tecidos ou exsudatos. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Tratamento O tratamento de escolha é a penicilina benzatina (benzetacil), que poderá ser aplicada na unidade básica de saúde mais próxima de sua residência. Esta é, até o momento, a principal e mais eficaz forma de combater a bactéria causadora da doença. Quando a sífilis é detectada na gestante, o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível, com a penicilina benzatina. Este é o único medicamento capaz de prevenir a transmissão vertical, ou seja, de passar a doença para o bebê. A parceria sexual também deverá ser testada e tratada para evitar a reinfecção da gestante. São critérios de tratamento adequado à gestante: Administração de penicilina benzatina Início do tratamento até 30 dias antes do parto Esquema terapêutico de acordo com o estágio clínico da sífilis Respeito ao intervalo recomendado das doses Sífilis. Governo do estado do Paraná. Secretaria do Estado. O tratamento da sífilis necessita de uma avaliação individual e de uma abordagem terapêutica individualizada. O tratamento de eleição é a penicilina. A dose e o esquema de administração variam de acordo com a fase da doença, envolvimento neurológico e estado imunológico do paciente. Para a sífilis primária, secundária ou latente recente, uma dose única de penicilina G benzatina parenteral de ação prolongada é realizada.Para a fase de sífilis latente tardia ou para a sífilis terciária, a penicilina intramuscular é administrada três vezes, com intervalo semanal. Para o paciente com alergia comprovada à penicilina, a doxiciclina é segunda linha de tratamento, embora tetraciclina, eritromicina e ceftriaxona também tenham demonstrado atividade antitreponêmica. Até nos pacientes que obtêm “cura” clínica e sorológica com penicilina, deve-se lembrar que T. pallidum pode escapar dos efeitos letais do antibiótico quando o microrganismo está localizado nos linfonodos ou no sistema nervoso central. Portanto, a antibioticoterapia pode não resultar sempre na cura total dos pacientes com envolvimento neurológico, e sim apenas deter as manifestações clínicas da infecção. Os pacientes imunossuprimidos, como aqueles com AIDS, podem não responder bem ao regime antibiótico padrão, e vários relatos documentam a evolução para neurossífilis apesar do tratamento aparentemente apropriado de dose única. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Conduta odontológica Herpes simples Definição e etiologia Trata-se de perturbação aguda viral, caracterizada por numerosas vesículas dolorosas em torno dos lábios (Figura 16.1). Pode aparecer depois de resfriados fortes, pneumonia, malária e outras doenças agudas com febre associada. Embora, na maioria das vezes, se limite aos lábios, pode também aparecer nas conjuntivas e genitais. Pode estar associado a perturbações digestivas, alterações psíquicas, reações alérgicas e, em algumas mulheres, a irregularidades menstruais. Desaparece entre 7 e 10 dias e a dor e o edema podem ser aliviados com o uso de pomadas e/ou vacinas e com a utilização do laser terapêutico. Quanto à sua etiologia, divide-se em herpes-vírus simples tipo 1 (infecções fundamentalmente bucais e acima da cintura) e tipo 2 (nos genitais). O vírus dissemina-se pelas secreções e infecta o epitélio, alcançando, secundariamente, os núcleos sensoriais, onde permanecem latentes. Sua incubação pode durar de 3 a 7 dias, apresentando, depois, estomatite herpética, isto é, febre, úlceras bucais, inflamação gengival e adenopatias cervicais. O herpes genital ocorre em adultos, com vesículas e úlceras. O diagnóstico é feito com microscopia eletrônica, técnicas imunológicas do líquido das vesículas, cultivo, reação da cadeia de polimerase (PCR) ou sorologia. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. Epidemiologia-prevalencia A infecção por HSV, independente do tipo, é endêmica em todo o mundo e ocorre igualmente entre ambos os sexos. Segundo a OMS, 67% da população mundial está infectada com o HSV-1. Estima-se que sua prevalência seja mais alta em países de baixa e média renda, podendo chegar até 90% em alguns países. Mais comum na região sudeste. Resumo de herpes simples: epidemiologia, diagnóstico e tratamento. Sanar, 2023. Manifestações clínicas/bucais A gengivoestomatite herpética aguda (herpes primário) é o padrão mais comum de infecção primária sintomática pelo HSV e mais de 90% dos casos são resultantes da infecção pelo HSV-1. A maioria dos casos de gengivoestomatite herpética aguda ocorre entre os seis meses e cinco anos de idade, com pico de prevalência entre os dois e três anos de idade. Apesar desta estatística, alguns casos são relatados em pacientes com mais de 60 anos de idade. O desenvolvimento antes dos seis meses de idade é raro devido à proteção pelos anticorpos anti-HSV maternos. O aparecimento é abrupto e frequentemente acompanhado por linfadenopatia cervical anterior, calafrios, febre (39,4 a 40,5 °C), náusea, anorexia, irritabilidade e lesões orais dolorosas. As manifestações variam de uma debilidade leve a grave. De início, na mucosa afetada aparecem diversas vesículas puntiformes, que rapidamente se rompem e formam várias pequenas lesões, avermelhadas. Essas lesões iniciais aumentam de tamanho e desenvolvem áreas centrais de ulceração, recobertas por uma fibrina amarela (Fig. 7-1). As ulcerações adjacentes podem coalescer e formar lesões maiores rasas e irregulares (Fig. 7-2). Tanto a mucosa oral móvel quanto a aderida podem ser afetadas, e o número de lesões é altamente variável. Em todos os casos, a gengiva se encontra aumentada, dolorosa e eritematosa (Fig. 7-3). Além disso, a gengiva afetada exibe erosões com aspecto de tecido arrancado por saca-bocado (“perde um pedacinho”- mais comum de HIV) ao longo da gengiva marginal livre (Fig. 7-4). Não é incomum o envolvimento de a mucosa labial ultrapassar a linha úmida e incluir a borda adjacente da vermelhidão dos lábios. Vesículas satélites na pele perioral são comuns. A autoinoculação para os dedos, olhos e áreas genitais pode ocorrer. Os casos brandos geralmente se resolvem dentro de cinco a sete dias; os casos graves podem persistir por duas semanas. Queratoconjuntivite, esofagite, pneumonia, meningite e encefalite representam complicações raras. Como mencionado anteriormente, quando a infecção primária ocorre em adultos, alguns casos sintomáticos manifestam-se como faringotonsilites. Os sintomas iniciais correspondem à dor de garganta, febre, mal-estar e cefaleia. Pequenas e numerosas vesículas aparecem nas tonsilas e na parede posterior da faringe, as quais se rompem rapidamente, para formar várias ulcerações rasas, que frequentemente sofrem coalescência e desenvolvem um exsudato difuso, amarelo-acinzentado. O envolvimento da mucosa oral anterior ao anel de Waldeyer ocorre em menos de 10% desses casos. O HSV parece representar uma causa expressiva de faringotonsilite em adultos jovens de grupos socioeconômicos elevados com testes anteriores negativos para anticorpos HSV. A maioria destas infecções se relaciona ao HSV-1, mas uma crescente proporção está associada ao HSV-2. A apresentação clínica se assemelha a uma faringite secundária a estreptococos ou à mononucleose infecciosa, tornando a sua verdadeira frequência difícil de determinar. Fig. 7-1 Gengivoestomatite Herpética Aguda. Ulcerações amareladas generalizadas nas mucosas. (Cortesia do Dr. David Johnsen.) Fig. 7-4. Gengivoestomatite Herpética Aguda. Gengiva vestibular eritematosa, dolorida e aumentada. Observe as erosões da gengiva marginal livre. (Cortesia da Dra. Gina Liford.) As infecções recorrentes pelo herpes simples (herpes secundário, herpes recrudescente) podem ocorrer tanto no local da inoculação primária como em áreas adjacentes da superfície epitelial suprida pelo gânglio envolvido. A localização mais comum de recidiva para o HSV-1 consiste na borda do vermelhão e a pele adjacente aos lábios. Essa infecção é conhecida como herpes labial (“lesões do frio” ou “vesículas da febre”). Os estudos de prevalência sugerem que 15% a 45% da população dos Estados Unidos apresentem história de herpes labial. Em alguns pacientes, a luz ultravioleta ou o traumatismo podem desencadear as recidivas. Os sinais e sintomas prodrômicos (p.ex., dor, ardência, prurido, formigamento, calor localizado, eritema do epitélio envolvido) aparecem de 6 a 24 horas antes do desenvolvimento das lesões. Aparecem múltiplas e pequenas pápulas eritematosas, que formam grupamentos de vesículas preenchidas por líquido (Fig. 7-5). As vesículas se rompem e formam crostas dentro de dois dias. A cicatrização usualmente ocorre entre sete e 10 dias. Os sintomas são mais intensos nas primeiras oito horas e a maior parte da replicação viral ativa se completa dentro de 48 horas. O rompimento mecânico de vesículas intactas e a liberação do líquido contendo vírus podem resultar na disseminação das lesões nos lábios previamente fissurados pela exposição ao sol (Fig. 7-6). As recidivas na pele do nariz, mento ou região geniana são menos comuns. A maioria dos indivíduos afetados experimenta aproximadamente duas recidivas por ano, mas uma pequena porcentagem pode apresentar episódios mensais ou até mais frequentes. Ocasionalmente, algumas lesões surgem quase imediatamente após um fator desencadeante conhecido, sem serem precedidaspor quaisquer sintomas prodrômicos. Essas recidivas que se desenvolvem rapidamente tendem a responder menos favoravelmente ao tratamento. As recidivas também podem afetar a mucosa oral. Nos pacientes imunocompetentes, o envolvimento é quase sempre limitado à mucosa queratinizada, aderida ao osso (gengiva inserida e palato duro). Esses locais, muitas vezes, exibem alterações sutis, e os sintomas são menos intensos. As lesões se iniciam como vesículas com 1 a 3 mm, que se rompem rapidamente e formam grupos de máculas eritematosas, os quais podem coalescer ou aumentar ligeiramente de tamanho (Figs. 7-7 e 7-8). O epitélio afetado é perdido, e aparece uma área de ulceração central amarelada. A cicatrização ocorre dentro de sete a 10 dias. Fig. 7-5 Herpes Labial. Múltiplas vesículas preenchidas por líquido no vermelhão do lábio. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Até 5 anos tem Gengivite Herpetica, depois Faringotossilite quando cresce, mais assintomático. Herpes simples, quando elas se rompem são muito transmissíveis. Tratamento No passado, o tratamento da gengivoestomatite herpética primária era sintomático; entretanto, quando os antivirais são administrados na fase prodrômica da doença, podem ser benéficos. Quando o aciclovir em suspensão é iniciado nos três primeiros dias de sintomatologia pela técnica de bochechar e engolir cinco vezes ao dia por cinco dias (crianças: 15 mg/kg até a dose do adulto de 200 mg), a resolução clínica é acelerada de forma significativa. Uma vez iniciado o tratamento, novas lesões não se desenvolvem. Além disso, a dificuldade para deglutição, dor, tempo de cicatrização, duração da febre e liberação do vírus são fatores associados muito curtos. O aciclovir sistêmico e os dois medicamentos mais novos, valaciclovir e fanciclovir, apresentam eficácia semelhante contra o HSV. Todavia, o valaciclovir e o fanciclovir apresentam melhor biodisponibilidade e esquema de dosagem oral mais conveniente. Das três medicações, a que tem sido mais bem-sucedida para minimizar as recidivas consiste num esquema de dosagem com valaciclovir, de 2 g administrados no início dos sintomas prodrômicos, seguido por outros 2 g, 12 horas após. Os efeitos desse tratamento são reduzidos caso a medicação não seja iniciada durante a fase prodrômica. Embora muito menos conveniente, 400 mg de aciclovir administrados cinco vezes por dia, durante 5 dias, parecem produzir resultados semelhantes. Para pacientes, cujas recidivas parecem estar associadas a procedimentos odontológicos, um regime de 2 g de valaciclovir administrado duas vezes no dia do atendimento e 1 g administrado duas vezes no dia seguinte pode conter ou minimizar qualquer ataque associado. Em indivíduos com um fator desencadeante conhecido que se estenda por um período de tempo (p.ex., férias na praia ou prática de esqui), o uso profilático de curto prazo de um dos antivirais (aciclovir 400 mg duas vezes ao dia; valaciclovir 1 g diário, ou fanciclovir 250 mg duas vezes ao dia) tem demonstrado reduzir a prevalência e a gravidade das recidivas. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Conduta odontológica HPV Definição e etiologia Normalmente, são lesões virais brancas, vegetantes, proliferativas, verrucosas, com aspecto de couve-flor (Figura 17.6). É da família da papoviridase, e o vírus penetra por absorção. Além disso, é altamente infectante, com alta taxa de recidiva e tendência a reinfecção. Sua incubação pode ocorrer de 1 a 8 meses e de 9 meses a anos (fase tardia). A primeira lesão ocorre na fase ativa e depende da resposta imune do indivíduo; seu fator etiológico é a infecção pelo vírus papilomavírus humano (HPV, human papiloma virus). Figura 17.6 Lesões exofíticas de condiloma acuminado em lábio superior e inferior. (ver Encarte Colorido) Dependendo da região do Brasil, surgem várias sinonímias, como crista de galo, jacaré de crista, verruga venérea, verruga vulgar, verruga genital e condiloma acuminado. O HPV apresenta mais de 150 subtipos, sendo os pares 6, 7, 11, 13, 16, 18 e 32 os responsáveis por lesões vegetantes na cavidade bucal, enquanto os pares 16 e 18 são os mais perigosos para desenvolver câncer de colo do útero, anal, peniano e na cavidade oral. Vários cofatores facilitam a replicação do HPV, como fumo, álcool, estresse, baixa imunidade, promiscuidade, fator hormonal e higiene. O diagnóstico pode ser evidenciado em bases clínicas (condiloma), subclínicas (reação acetobranca e histopatológica) e latentes (técnicas de hibridização in situ). Os exames de rotina do cirurgião-dentista, otorrinolaringologista, ginecologista e urologista são de extrema necessidade e úteis na detecção precoce do local da infecção na fase subclínica, e a prevalência de manifestações na cavidade bucal gira ao redor de 10 a 25%. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. – 2017. Nos pacientes infectados pelo HIV, a maioria das lesões causadas pelo papilomavírus humano (HPV) surge na região anogenital, embora o envolvimento oral também seja possível. As lesões orais causadas pelo HPV (comumente denominadas verrugas orais) incluem o papiloma escamoso oral (p. 332), verruga vulgar (p. 334), condiloma acuminado (p. 335) e hiperplasia epitelial multifocal (p. 336). A prevalência de lesões orais causadas pelo HPV nos pacientes infectados pelo HIV é de aproximadamente 1% a 4%, sendo maior do que aquela observada nos indivíduos imunocompetentes. Os pacientes infectados pelo HIV frequentemente demonstram subtipos menos comuns do HPV nas lesões orais, como o HPV-7 (associado a verrugas do açougueiro), o HPV-13 e o HPV-32 (associado à hiperplasia epitelial multifocal). Epidemiologia-prevalencia No Brasil, são esperados 11.180 novos casos de tumores de cavidade oral, incluindo orofaringe, amígdala e base da língua, em homens e 4.010 casos em mulheres para cada ano do triênio 2020-2022, quase alcançando o número de casos de câncer de colo uterino (6.540 em mulheres). O aumento da incidência de câncer de orofaringe induzido por HPV tem sido associado a modificações no comportamento sexual, com uma incidência quatro vezes maior em homens. Estima-se que haja entre 9 e 10 milhões de pessoas infectadas pelo HPV no Brasil e que surjam 700 mil novos casos de infecção por ano. Estudos indicam que cerca de 80% da população sexualmente ativa deve ser infectada pelo vírus em algum momento de sua vida. HPV. Estudo epidemiológico sobre a prevalência Nacional de Infecção pelo HPV. Hospitais PROADI-SUS. A taxa de infecção pelo HPV (papiloma vírus humano) na genital atinge 54,4% das mulheres que já iniciaram a vida sexual e 41,6% dos homens. Os resultados são da pesquisa nacional sobre o tema, encomendada pelo Ministério da Saúde e feita por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). Os números referem-se à modalidade de alto risco da doença. O cenário reforça a importância da vacinação, política pública em que a pasta vem redobrando investimentos desde o início da atual gestão. O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo e está associada a mais de 90% dos casos de câncer de colo do útero e de ânus. E a mais da metade dos casos de câncer na vulva, pênis e orofaringe. Além disso, 90% das verrugas genitais são provocadas pela doença. A vacina HPV quadrivalente, disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), previne contra essas complicações e está disponível, gratuitamente, nos cerca de 38 mil postos de vacinação pelo Brasil. Antes, a vacina era aplicada apenas em crianças e adolescentes de 9 a 14 anos e em pessoas de 9 a 45 anos em condições clínicas especiais, como as que vivem com HIV/Aids, transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea e pacientes oncológicos (imunossuprimidos). Desde agosto, passou também a ser oferecida a vítimas de abuso sexual. A decisão de ampliar o público-alvo se alinha à recomendação da Organização Mundial da Saúde(OMS) e da Associação Pan-Americana de Infectologia (API). Taxa de HPV na genital atinge 54,4% das mulheres e 41,6% dos homens no Brasil, diz estudo. Ministerio da saúde, 2023. Manifestações clínicas/bucais Ao contrário da maioria das lesões orais associadas à infecção pelo HIV, houve um aumento na frequência das lesões por HPV desde a introdução da cART. Vários estudos, em especial, documentaram que o aparecimento de lesões orais por HPV aumenta conforme a terapia antirretroviral se torna mais eficaz. A razão para esse aumento permanece desconhecida. Alguns autores sugeriram que a reconstituição imunológica induzida pela cART possa levar a uma resposta inflamatória que estimula a ativação do HPV (síndrome da reconstituição imunológica [ver seção de Tratamento e Prognóstico]); no entanto, marcadores da imunidade local, incluindo infiltrado de células T e expressão de citocinas estão ausentes nessas lesões. Entre os pacientes infectados pelo HIV, alguns pesquisadores relataram uma relação positiva entre as lesões orais por HPV, idade e duração da cART. Logo, alguns autores sugeriram que a cART possa estender a sobrevida do paciente, sem restaurar por completo a imunidade específica para o HPV ou que a sobrevida aumentada pode permitir um aumento no risco cumulativo de aquisição de infecção pelo HPV ao longo do tempo, mesmo com a restauração da função imune. As lesões orais costumam ser múltiplas e podem estar localizadas em qualquer superfície mucosa. Os locais mais afetados são a mucosa labial, a língua, a mucosa jugal e a gengiva. As lesões podem apresentar grupamentos de projeções semelhantes a espículas brancas, crescimentos róseos semelhantes à couve-flor ou pápulas sésseis ligeiramente elevadas (Fig. 7-51). Fig. 7-51 Infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV) Associado ao HIV. Múltiplos nódulos exofíticos e papilares no lábio, mucosa jugal e gengiva. Subtipo 16 e 18 mais comuns. Suspeitar de abuso. Na histopatologia, as lesões podem ser sésseis ou papilares e recobertas por um epitélio pavimentoso estratificado acantótico ou hiperplásico (Fig. 7-52). O epitélio afetado frequentemente mostra vacuolização de várias células epiteliais (coilocitose) e pode exibir uma leve variação no tamanho do núcleo (Fig. 7-53). Na maior parte das vezes, a imuno-histoquímica ou a hibridização in situ do DNA podem ser usadas para confirmar a presença e o tipo de HPV nos espécimes histopatológicos (Fig. 7-54). Tratamento/ conduta odontológica Nas lesões relacionadas ao HPV nos pacientes com AIDS, têm sido encontradas alterações displásicas que tornam obrigatória a observação desses pacientes quanto ao desenvolvimento de carcinoma espinocelular. O tratamento de escolha consiste na remoção cirúrgica; outras opções incluem crioterapia, eletrocautério e ablação com laser. No entanto, todos esses métodos cirúrgicos estão associados à recorrência frequente, e os dois últimos métodos podem expor a equipe cirúrgica e o paciente a aerossol que pode conter HPV infectante. Tratamentos alternativos empíricos incluem o uso tópico de cidofovir, interferon-alfa intralesional ou sistêmico, cimetidina oral e podofilina tópica. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. As condutas terapêuticas mais utilizadas e recomendadas são: tratamento cirúrgico, crioterapia e aplicação de laser de alta potência (CO²), que deve ser feita em ambiente cirúrgico, pelo elevado grau de contaminação e propagação do vírus (biossegurança máxima). Quando a lesão for clinicamente evidente, pode-se recorrer ao tratamento tópico, por meio da aplicação ácido tricloroacético (ATA) de 70 a 90%, utilizando-se um cotonete embebido na solução, removendo-se o excesso líquido e aplicando-o sobre toda a extensão da lesão, deixando-a esbranquiçada. A desvantagem é que não pode ser aplicado em gestantes, além de ter um gosto extremamente desagradável e ser doloroso. A aplicação deverá ser feita exclusivamente pelo cirurgião-dentista, avaliada a cada 7 dias, e, se necessário, devem ser feitas novas aplicações até a remissão total da lesão. Por conta de sua efetividade, é uma das melhores opções de tratamento. É possível utilizar ainda outras opções, como o Wartec® creme e o Aldara® gel, aplicados topicamente com um cotonete embebido no gel/creme sobre a área lesionada e avaliados após 1 semana. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. – 2017. Tem vacinas de HPV, profilaxia. Antes dos 12 anos geralmente, 3 doses-9 anos, depois meses depois Os meninos tomam para prevenir as meninas e pq eles podem ter HPV também AIDS Definição e etiologia O HIV é um vírus RNA de cadeia simples que pertence à família Retroviridae. Existem duas espécies: HIV-1 e HIV-2. O primeiro apresenta distribuição mundial, sendo responsável pela maioria dos casos, enquanto o HIV-2 predomina na África Ocidental e está associado a um menor risco de transmissão e doença de progressão mais lenta. A transmissão do HIV por meio de fluidos orais é ainda controversa e foi relatada apenas empiricamente. Em casos raros, a transmissão do HIV ocorreu durante a amamentação, através dos fluidos orais de bebês infectados após o parto, para suas mães, as quais não haviam sido infectadas antes. Além disso, exemplos raros têm sido documentados relatando a transmissão da infecção pelo HIV mediante contaminação de fluidos orais durante o ato de cunilíngua ou beijos violentos repetidos. A saliva contém diversos fatores inibitórios anti-HIV que parece reduzir a habilidade do HIV de infectar suas células-alvo. No entanto, a presença de erosões, ulcerações e lesões inflamatórias hemorrágicas (p.ex., gengivite, periodontite) pode predispor um indivíduo à transmissão oral. Em resumo, como maior precaução contra a infecção deve-se evitar todos os fluidos corporais dos pacientes infectados. Inicialmente, nos Estados Unidos, acreditava-se que a AIDS fosse uma doença que afetasse em especial os brancos e os homens homossexuais. Nos dias atuais, o contato sexual entre homens permanece como o maior fator de risco; no entanto, a epidemiologia do HIV/AIDS mudou ao longo do tempo, com uma grande proporção dos casos surgindo em negros, hispânicos, mulheres e heterossexuais, sendo uma pequena proporção dos casos atribuída à transfusão sanguínea, produtos de sangue contaminado e transmissão vertical. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Epidemiologia-prevalencia Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, existem no mundo mais de 42 milhões de infectados e mais de 10 milhões de doentes. Epidemiologicamente, desde o início da epidemia, a doença era considerada exclusivamente de homens que fazem sexo com homens (HSH); depois, vieram os usuários de drogas injetáveis (UDI) e os heterossexuais (HET), seguidos das mulheres, principalmente em idade fértil, ocorrendo nesse momento a transmissão vertical, com crianças que nascem contaminadas, e, por fim, as pessoas da terceira idade (acima de 60 anos de idade). O atual momento evidência expressiva contaminação nas mulheres em idade fértil, em jovens iniciando suas atividades sexuais (12 aos 16 anos) e em idosos (terceira idade). As principais vias de transmissão continuam sendo a prática sexual desprotegida, materiais injetáveis de usuários de drogas, a exposição perinatal (vertical) e a amamentação. O risco de transmissão vertical é de 25 a 30%, dependendo de fatores como CD4, carga viral, DST, estado nutricional e gestações anteriores. Com a administração dos medicamentos, como a sidovudina (AZT), o risco da transmissão vertical cai para 8%. Existem outras vias de transmissão, como hospitalar, acidentes em laboratórios, cirurgiões-dentistas, manicures, pedicures, entre outros, sendo a proporção, nas áreas da saúde, de 1:250 exposições. Após a contaminação pelo vírus HIV, ocorrem importantes sinais e sintomas, como febre, linfadenopatia, faringite, exantema (rash), eritema maculopapular e ulcerações mucocutâneas (boca, esôfagoe órgãos genitais). Com o passar dos anos, também ocorreram significativas mudanças no perfil dos pacientes contaminados que vivem com HIV/Aids, como a pauperização, visto que, inicialmente, as pessoas contaminadas tinham poder aquisitivo elevado; a interiorização, pois, até então, pessoas contamidas se concentravam nas grandes cidades; e queda acentuada na escolaridade, já que antes as pessoas tinham escolaridade superior. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. Estima-se que, atualmente, um milhão de pessoas vivam com HIV no Brasil. Desse total, 650 mil são do sexo masculino e 350 mil do sexo feminino. De acordo com o Relatório de Monitoramento Clínico do HIV, na análise considerando o sexo atribuído no nascimento, as mulheres apresentam piores desfechos em todas as etapas do cuidado. Enquanto 92% dos homens estão diagnosticados, apenas 86% das mulheres possuem diagnóstico; 82% dos homens recebem tratamento antirretroviral, mas 79% das mulheres estão em tratamento; e 96% dos homens estão com a carga viral suprimida – quando o risco de transmitir o vírus é igual a zero – mas o número fica em 94% entre as mulheres. Para acabar com a aids como problema de saúde pública, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu metas globais: ter 95% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas; ter 95% dessas pessoas em tratamento antirretroviral; e, dessas em tratamento, ter 95% com carga viral controlada. Hoje, em números gerais, o Brasil possui, respectivamente, 90%, 81% e 95% de alcance. O Ministério da Saúde reafirma que possui os insumos necessários e já aumentou, neste ano, 5% a quantidade total de pessoas em tratamento antirretroviral em relação a 2022, totalizando 770 mil pessoas. Brasil registra queda de óbitos por aids, mas doença ainda mata mais pessoas negras do que brancas. Ministério da saúde, 2023. Em 2022, entre os casos de infecção pelo HIV notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), 29,9% ocorreram entre brancos e 62,8% entre negros (13% de pretos e 49,8% de pardos). No mesmo ano, entre os homens, 30,4% dos casos notificados ocorreram em brancos e 62,4% em negros (12,8% de pretos e 49,6% de pardos); entre as mulheres, 28,7% dos casos se verificaram em brancas e 64,1% em negras (13,8% de pretas e 50,3% de pardas). Para os casos notificados de aids, o cenário também preocupa: dos 36.753 diagnosticados, 60,1% estão entre a população negra. Em 2022, o ranking referente às taxas de detecção de aids mostrou o Rio Grande do Sul como o sexto de maior índice no país: com 23,9 casos por 100 mil habitantes. Os estados líderes nesse índice são Roraima (34,5), Amazonas (32,3), Pará (26,3), Santa Catarina (25,3) e Amapá (25,0). A média nacional dessa taxa é 17,1. 4 de dez. de 2023 Boletim sobre o HIV e aids acende alerta para dados no Rio Grande do Sul. Secretaria de saúde. 2023. Manifestações clínicas/bucais As manifestações bucais da infecção pelo HIV são frequentes e podem representar os primeiros sinais clínicos da doença. Podem ser indicadoras de comprometimento imunológico, minimizando o tempo de evolução da doença até a fase de Aids. Desde o início da doença, muitas manifestações bucais foram relacionadas com a infecção pelo HIV. Diversos autores relataram que os estudos dessas manifestações bucais são fundamentais para auxiliar o entendimento da epidemiologia da Aids e inúmeras pesquisas comprovam a prevalência de manifestações orais em pacientes com HIV, sendo as mais frequentes: candidíase pseudomembranosa, candidíase eritematosa, queilite angular, leucoplasia pilosa oral, gengivite, periodontite, aftas, herpes, sarcoma de Kaposi e linfoma não Hodgkin. Em 1983, o Centro de Controle de Doenças (CDC) de Atlanta, EUA, realizou um sistema de classificação das manifestações bucais associadas ao HIV, graduando os níveis de complexidade das patologias manifestadas no indivíduo, conforme mostra a Tabela 17.1. Tabela 17.1 Classificação das manifestações bucais relacionadas com o HIV. O paciente com necessidades especiais na odontologia: manual prático/Maria Lucia Z. Varellis / 3. Ed. - 2017. Sarcoma de Kaposi-HHV 8 Presenca de HIV na saliva, tem muitos anticorpos na saliva, por isso n da para pegar, mas pode pegar pelo sangue Tratamento Conforme mencionado antes, a introdução da cART resultou drasticamente na redução da morbidade e mortalidade. Uma grande variedade de agentes antirretrovirais está disponível e continua a se expandir (Quadro 7-3). Esses agentes são administrados em combinação com outros para reduzir a resistência viral. Embora inúmeras combinações com drogas sejam possíveis, a cART muitas vezes consiste em dois nucleosídeos inibidores da transcriptase reversa combinados com inibidor da transcriptase reversa não nucleosídeo, ou um inibidor da protease ou inibidor da integrase (2 NITR + NNITR/IP/II). Com esse tratamento, há uma evidente diminuição da viremia em níveis indetectáveis ocorrendo significativa reconstituição imune. Com o início da utilização da cART ocorre a redução do risco para o desenvolvimento de AIDS, óbito e transmissão de doença. Embora a cART seja efetiva para a maioria dos pacientes, efeitos colaterais dessa terapia incluem custo, toxicidade, reações adversas e dificuldade de adesão. Alguns pacientes que recebem a terapia antirretroviral durante estágios avançados da doença desenvolvem uma piora paradoxal da sua condição – denominada síndrome da reconstituição imune – mesmo com a diminuição da carga viral e aumento da contagem das células CD4+. Os mecanismos de base podem estar relacionados com uma resposta hiperinflamatória aos patógenos e antígenos patogênicos presentes no momento da reconstituição imune rápida. Os pacientes que recebem cART por muito tempo apresentam risco aumentado para doenças cardiovasculares, doença hepática, doença renal e neoplasias malignas relacionadas ou não à infecção pelo HIV. A cART de forma isolada é incapaz de curar a infecção pelo HIV, aparentemente devido a reservatórios virais no sangue periférico e tecidos linfoides. Ganhos significativos também foram atingidos por meio de intervenções de saúde pública. Nos Estados Unidos, o CDC recomendou o teste de rotina para o HIV em adultos, adolescentes e gestantes em centros de saúde. A testagem de rotina é primordial para o diagnóstico e tratamento precoce, aumentando a sobrevida e prevenindo a transmissão do HIV para os outros. Esforços estão sendo realizados para o desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz, porém com avanços lentos. Alguns profissionais de saúde ficam receosos sobre o risco ocupacional de transmissão do HIV. A taxa estimada de risco de soroconversão é de 0,3% após a exposição percutânea e 0,09% após exposição da mucosa ao sangue infectado pelo HIV. O risco de transmissão a partir de fluidos infectados ou outros tecidos que não o sangue, não foi quantificado, mas é consideravelmente menor. No cenário ocupacional, a profilaxia pós-exposição com medicamentos antirretrovirais reduz o risco de infecção para menos de 80% se iniciado dentro de horas após o evento. É recomendo o tratamento de quatro semanas. A profilaxia básica pós-exposição consiste em um regime de dois medicamentos, que pode ser expandida para uma combinação de três medicamentos para exposições mais graves. Devido à complexidade da escolha do regime e potencial de reações adversas, recomenda-se o envolvimento de um infectologista e outro médico com experiência em terapia antirretroviral. Patologia oral: correlações clinicopatológicas / Joseph A. Regezi et al. / 7. ed. 2017. Conduta odontológica Hoje em dia, o profissional da Odontologia deve adotar a filosofia da precaução universal e utilizar as mesmas técnicas de tratamento, limpeza, desinfecção e esterilização para todos os pacientes. Todos têm direito de receber o tratamento odontológico, e o relacionamento entre o odontólogo e o médico deve resultar no conhecimento de importantes fatores modificadores que possam interferir no tratamento. Deve haveruma equipe multiprofissional, pois, perante a possibilidade de os pacientes desenvolverem síndrome lipodistrófica, o conjunto de cuidados pelos profissionais amenizará os riscos de complicações. Alguns fatores médicos modificadores do tratamento odontológico são: • Estado hematológico: neutrófilos e granulócitos (