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2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 2 ASPECTOS HISTPORICOS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL . 4 3 MOVIMENTOS SOCIAIS DO CAMPO ...................................................... 10 4 MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA CAPITALISTA BRASILEIRA E A CONSTRUÇÃO DA AGROECOLOGIA .................................................................... 12 5 QUESTÃO AMBIENTAL, REFORMA AGRÁRIA E AGROECOLOGIA: DESAFIOS POLÍTICOS AO MST ............................................................................. 16 6 REFORMA AGRÁRIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ........... 23 7 O MST E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ................................ 30 8 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ......................................................... 35 3 1 INTRODUÇÃO Prezado (a) aluno (a)! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula é raro, quase improvável um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 ASPECTOS HISTPORICOS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL Fonte: MEDEIROS, A. M (2015) A história do Brasil é marcada pordisputas e revoltas populares, desde o século XVI com a Confederação dos Tamoios (1562), passando pela Insurreição Pernambucana (16 5), à Inconfidência Mineira (1789), à Guerra de Canudos (1896), à revolução constitucionalista de 1932 e ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor em 1992. Os movimentos sociais no Brasil têm uma história marcada por grandes lutas e enfrentamentos contra governos autoritaristas e pela disputa pela liberdade e democracia. Mas aqui nos concentramos nos movimentos sociais que marcaram o Brasil desde a segunda metade do século XX. (MEDEIROS, 2015). Os movimentos sociais no Brasil se intensificaram a partir dos anos 70, com forte oposição ao regime militar que então se encontrava em vigência, mantendo uma luta social e uma forte resistência, como afirma Ilse Scherer-Warren: “o movimento social mais significativo pós-golpe militar de 1964 foi o de resistência à ditadura e ao autoritarismo estatal” (2008, p. 09 - ver também: (SCHERER-WARREN, 2005 apud MEDEIROS, 2015). O povo brasileiro manteve-se forte perante da ditadura que existia no país, e nesse contexto ditatorial a força e a organização dos movimentos estudantis e trabalhistas prevaleciam (CARVALHO, 2004 apud MEDEIROS, 2015), comunidades eclesiais de base (CEBs) e pastorais, que ganharam reconhecimento com a participação dos demais setores da sociedade, isso se teve através dos resultados desta forma de governo. 5 O período da Ditadura Militar no Brasil representou um momento favoravél para a efervescência dos movimentos sociais, uma vez que, dentro das Universidades, a inclusão e consolidação dos cursos de Ciências Sociais com a reforma pedagógica dos cursos proporcionou um pensamento mais crítico sobre o enfrentamento de nossa realidade. Com a compreensão da situação, os estudantes, junto com a indignação de outros que não aceitavam esse modelo ditatorial de governo, formaram uma massa de luta organizada. Sobre o papel dos movimentos sociais neste contexto, Gohn (2011, apud Medeiros, 2015) afirma ser indiscutível “que os movimentos sociais dos anos setenta / oitenta no Brasil, por meio de demandas organizadas e pressões, contribuíram de forma decisiva para a efetivação de diversos direitos sociais consagrados em lei pelo Constituição Federal de 1988". O movimento que se opunha ao regime militar tinha como proposito claro: defesa dos valores do Estado democrático e crítica a toda forma de autoritarismo estatal. O governo militar foi duro e sua resposta veio reprimindo as manifestações, com violência, tortura, e alcançou seu auge com o famoso AI-5 (Ato Institucional número 5), que vigorou de 1968 a 1979. Um bom exemplo de organização e luta pode ser encontrado no movimento indígena do século XX na luta por seus direitos e no reconhecimento de seus valores, cultura e tradição. A dissertação de mestrado de Evangelista (2004 - (veja mais em: Direitos indígenas: o debate na Constituinte de 1988) nos fornece um amplo debate em torno da defesa dos direitos indígenas que culmina com a promulgação da Constituição de 1988(MEDEIROS, 2015). Nesse período, cada movimento social formou sua identidade, suas formas de atuação, demandas, valores e discursos que o diferenciam e diferenciam dos demais. “Foram grupos que construíram uma nova forma de fazer política e politizaram novas questões que ainda não haviam sido discutidas e pensadas no campo político. Ao fazer isso, eles ampliam o sentido da política e o espaço para fazer política” (EVANGELISTA, 2004, apud MEDEIROS, 2015). Nessa época, a sociedade civil organizada, por meio dos movimentos sociais e populares, buscará espaços para influenciar as decisões políticas e a construção da Constituição de 1988. É uma participação efetiva dos cidadãos, na busca por direitos 6 e políticas que lhes dizem respeito diretamente. Nesse período, a sociedade civil organizada, por meio dos movimentos sociais e populares, buscará espaços para influenciar as decisões políticas e a construção da Constituição de 1988. É uma participação efetiva dos cidadãos, na busca por direitos e políticas que lhes dizem respeito diretamente. De acordo com Avritzer (2009) apud Medeiros (2015): E foi a própria Constituição Federal de 1988 que "[...] por meio de legislação específica, abriu espaço para práticas participativas nas políticas públicas, em particular na saúde, na assistência social, nas políticas urbanas e no meio ambiente”, seja por referendos, plebiscitos e projetos de lei de iniciativa popular (art. 14, incisos I, II e III; art. 27, parágrafo 4º; art. 29. Incisos XII e XIII), seja através da participação na gestão das políticas de seguridade social (art. 194), de assistência social (art. 204) ou dos programas de assistência à saúde da criança e do adolescente (art. 227). A transição política para o estado democrático, que ganhou força na década de 1980, culminou com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Nesse período, houve um aumento significativo do número de ONGs e do terceiro setor de responsabilidade social. Associações de bairro, representantes da periferia e da vizinhança burguesa pedem que os direitos sociais sejam garantidos mesmo em expansão [...] As duas grandes mobilizações nacionais deste período foram o Movimento pelas Diretas Já (1983-1984) e a mobilização da sociedade civil organizada [...] para a inclusão de novos direitos na Constituição brasileira, a qual veio a ser denominada de “Constituição Cidadã” (SCHERER-WARREN, 2008, p. 11-12 apud MEDEIROS, 2015). De acordo com Boaventura de Sousa Santos: Chama atenção para o fato de como a temática dos novos protagonistas e novos movimentos sociais dominaram a discussão sociológica na década de 1980: “Mesmo aqueles que não partilhammaio/ago. 2011. Acesso em 01/09/2015. ____. 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Para uma bibliografia sobre os movimentos sociais do final da década de oitenta no Brasil e na América latina ver por exemplo: Dalton e Kuechler (1990), Laranjeira (1990), Scherer-Warren e Krischke (1987). A conferência dos documentos produzidos nos congressos nacionais do MST mostra as mudanças ocorridas no processo de construção de plano de reforma agrária e como a questão ambiental começa a ser tratada e fortalecida. As cartas destes congressos e os lemas adotados para o direcionamento das linhas políticas de 7 atuação sinalizam seu processo de amadurecimento e fortalecimento, abrangendo estratégias de resistência e ofensiva. Os novos movimentos sociais que surgiram desde a década de 90 até o presente, como os das décadas antecedentes, também são fruto de demandas sociais como o movimento de mulheres (com suas lutas contra a sociedade patriarcal e o autoritarismo do Estado), o LGBT Movimento, Movimento Negro (ALBERTI; PEREIRA, 2006 apud MEDEIROS, 2015), Movimento Indígena entre outros. Existem pelo menos cinco tradições e movimentos que contribuíram para o que denomina de “ciclo democrático de auto formação do povo brasileiro”. São eles: comunitarismo cristão, desenvolvimento nacional, socialismo democrático, liberalismo republicano e cultura popular. Destaca também a criação da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 1952, liderada por Dom Helder Câmara e o desenvolvimento de uma "esquerda do catolicismo brasileiro" (Guimarães, 2009). “O comunitarismo cristão se enraizou na vida popular por meio de 70.000 CEBs [Comunidades Eclesiásticas de Base], que organizaram cerca de 2 milhões de ativistas cristãos e atuaram entre os anos 60 e 90” (GUIMARÃES, 2009, p. 18). Essa corrente orientou suas atividades em torno de questões de cidadania e fez dela uma opção preferida pelos pobres com base em princípios morais cristãos como a igualdade e a solidariedade. Na década de 1990 possui grande destaque os fóruns de ONGs e movimentos sociais para a Eco/92. É também deste período vale destacar outro movimento popular que ficou conhecido como as “caras pintadas” em torno do impeachment (1992) do ex-presidente da República: Fernando Collor de Melo. De acordo com Scherer-Warren (2007) e Scherer-Warren (2008): Este foi também um período de crescimento e consolidação de vários movimentos sociais rurais, como o Movimento dos Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento Camponês (MMA), o Movimento dos Pequenos Camponeses (MPA), entre outros, e o aumento das articulações interorganizacionais desses atores entre si e com outros movimentos sociais urbanos, latino-americanos e globalizados. No século XXI assistimos ao surgimento de uma “rede de movimentos sociais” com o claro objetivo de fortalecer o papel da sociedade nos espaços públicos e na 8 defesa radical dos valores democráticos, com total autonomia dos movimentos sociais em relação as autoridades e, em certa medida, até dos partidos políticos, o que não quer dizer que não seja uma forma organizada de articulação política. Comparando o atual quadro associativo da sociedade civil, Gohn (2014) apud Medeiros (2015) reflete como ele difere do que prevalecia nas décadas de 1980 e 1990, e que "a ascensão de novos grupos ao poder e reformas nas políticas de gestão são parte da explicação" Temos que observar nesse cenário os Conselhos Gestores de Políticas Públicas, como um importante local de atuação destes movimentos (veja mais em: Movimentos Sociais e Conselhos de Políticas Públicas). Como ressalta Gohn (2006, p. 7) Os conselhos de políticas públicas passam a ser um pilar para que as camadas populares sejam ouvidas e contribuam para a formulação de uma política pública que atenda às necessidades desses grupos sociais, para que a atuação dessas pessoas pertencentes a esses grupos, fortalecendo a participação social da população. À guisa de conclusão podemos afirmar, como nos propõe Scherer-Warren (2008) apud Medeiros (2015) em suas diferentes análises sobre os movimentos sociais, que: No cenário brasileiro do novo milênio, surge um movimento cívico crítico, atuando em conjunto em redes nacionais e globalizadas, caracterizado pelo desenvolvimento de um ideal político que visa transpor as diversas fronteiras restritivas dos movimentos sociais mais tradicionais de nossa história. Os movimentos sociais têm um papel de grande relevância a ser exercido, tomando como base um novo conceito de planejamento público marcado pela ativa voz popular, que como o próprio nome sugere, exige a participação dos movimentos sociais que, bem antes do processo de redemocratização e sobretudo por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte de 1987[3] que promulgou a Constituição Federal de 1988, vem desempenhando um papel extremamente importante para afirmação do nosso Estado Democrático de Direito. Além disso, os movimentos sociais ampliam, aprofundam e redefinem “a Democracia tradicional do Estado político e a democracia econômica 9 para uma democracia civil numa sociedade civil” (FRANK; FUENTES, 1989 apud MEDEIROS, 2015). E para que esse papel seja efetivo, não temos dúvidas de quão importante e necessária se torna a ideia de formar movimentos populares. Uma educação voltada para o exercício da cidadania no verdadeiro sentido da palavra, onde os cidadãos participem efetivamente das decisões políticas que os afetam. Uma concepção do cidadão como sujeito político que requer “uma profunda revisão da relação tradicional entre educação, cidadania e participação política” (ARROYO, 1995, p. 74 apud RIBEIRO, 2002, apud MEDEIROS, 2015). Diante desta questão, Ribeiro (2002, p. 124) propõe limites e possibilidades de uma educação para a cidadania e seu potencial como idealismo possível em relação aos movimentos sociais e populares. As possibilidades se manifestam nas relações sociais contraditórias em que a cidadania é produzida / reproduzida como síntese de lutas entre classes sociais com interesses e projetos antagônicos. Assim, quando o neoliberalismo se apodera dos direitos conquistados pelos movimentos sociais, os partidos de esquerda no Brasil reafirmam esses direitos sociais como prioridade em seus governos estaduais e locais. Os limites podem ser indicados pelas possibilidades de participação de tais movimentos na conquista de direitos, devido a diversos fatores: se pelo fato de os movimentos sociais terem vazantes e fluxos de suas ações, ou seja, ganham força na luta por direitos, às vezes perdem essa força na luta contra o poder estabelecido; o pela baixa participação dos atores, exceto em caso de conflitos grandes e graves; ou também por falta de capacidade técnica ou política para garantir a efetividade de seus direitos. 10 3 MOVIMENTOS SOCIAIS DO CAMPO Fonte: https://bit.ly/3k3hv2k. Acessado em: Nov 2021. São formas de organização socioterritorial de camponeses sem terra ou famílias de agricultores e trabalhadores rurais assalariados que lutam pelo direito à terra, emprego e / ou melhores condições de trabalho e salários (FERNANDES, 2005). As disputas pela terra e pela reforma agrária, por infraestruturas e recursos, são de extrema importância nos processos de desenvolvimento e expansão da agricultura camponesa e familiar. As lutas pelo emprego e melhores condições de trabalho salarial também continuam, apesar de seu declínio devido à mecanização impulsionada pela modernização da agricultura. Os movimentos sociais rurais de sempre representaram formas de resistência à expansãodo capitalismo desde quilombos até aos assentamentos de reforma agrária, movimentos sociais rurais, através de relações familiares, comunitárias, associativas ou cooperativas, têm organizado territórios para o desenvolvimento da produção de alimentos e outros produtos agrícolas. A luta por seus territórios foi uma das principais características da formação do campesinato brasileiro. A defesa dessas áreas gerou guerras como a de Canudos, na Bahia, no final do século XIX e as guerras contestadas de Paraná e Santa Catarina no início do século XX. Os massacres marcaram o século 20, com as lutas de resistência de Porecatu no Paraná na década 1940, de Trombas e Formoso em Goiás nas décadas de 1950/60. Na década de 1990, dois massacres marcaram a resistência dos movimentos camponeses. 11 Corumbiara em Rondônia, em 1995 e Eldorado dos Carajás em 1996. Entrando no século 21, em 2004, ocorreu o massacre de Felisburgo em Minas Gerais. A repressão aos movimentos limitou seus tempos de existência. Entre os movimentos mais atuantes do século XX, podemos destacar as Ligas Camponesas que operaram em quase todo o país, de meados da de cada de 1940 e se extinguiram com o golpe militar de 1964. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG, fundada em 1963, é o primeiro movimento social do campo criado no Brasil. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, cujo processo de fundação em teve início em 1978/79, mas foi oficialmente instituído em 198, é o segundo mais antigo (FERNANDES, 2000). Desde a década de 1990, diversos movimentos sociais rurais foram criados. Em 2010 o DATALUTA - Banco de Dados da Luta pela Terra - registrou as ações de 96 movimentos sociais no campo brasileiro (NERA, 2010). A Via Campesina, fundada no início dos anos 1990 como Federação Mundial dos Movimentos Camponeses, tornou-se a principal protagonista da luta mundial pela defesa do campesinato e pelo desenvolvimento sustentável do campo. Em 2010, estava representada em sessenta e nove países das Américas, África, Europa e Ásia. No Brasil, ela é representada pelo MST, pelo Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA, pelo Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, pelo Movimento das Mulheres Camponesas – MMC e pela Comissão Pastoral da Terra – CPT. (DESMARAIS, 2007). Os movimentos camponeses são conhecidos, principalmente, por suas lutas contra o agronegócio e por sua repressão às políticas da Organização Mundial do Comércio - OMC, que hoje também controla o mercado mundial de alimentos. A soberania alimentar tornou-se uma das mais importantes bandeiras dos movimentos sociais no meio rural, representando uma parte importante dos produtores de alimentos em diversos países. Esses movimentos defendem modelos de desenvolvimento em que reivindicam o direito de produzir a partir de seu próprio modo de vida. Por isso, disputam territórios com agroindústrias, o que gera conflitos de longo prazo. Essas 12 lutas são veiculadas diariamente pela mídia corporativa em que buscam criminalizar e desqualificar as ações dos movimentos. Uma pequena parte da população urbana conhece esses conflitos. Compreender essas realidades é essencial para compreender melhor o mundo moderno. 4 MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA CAPITALISTA BRASILEIRA E A CONSTRUÇÃO DA AGROECOLOGIA Fonte: https://bit.ly/3BMhzcK. Acessado em: Nov 2021. Em um certo período de grandes acontecimentos históricos como as duas grandes guerras mundiais no século XX, é quando acontece a terceira revolução agrícola, cuja suas características principais foram: a introdução da mecanização na agricultura de grande escala, substituindo a tração animal; a criação de animais de maneira concentrada em grandes estábulos e a introdução da química, através da alteração genética de plantas e do uso intensivo de fertilizantes e pesticidas sintéticos. As duas grandes guerras tiveram um fator determinante para com a difusão do padrão capitalista de agricultura, tendo sua justificativa na chamada “revolução verde” que passa a ser adotada em vários países do mundo, especialmente, nos de clima tropical. Como uma estratégia capitalista para agricultura foi utilizada essa revolução verde, estruturada como uma forma de reaproveitamento dos restos de guerra, pois as indústrias bélicas, símbolo da produção destrutiva, e as indústrias químicas, haveriam de se utilizar de sua destruição criativa, em relação às sobras de 13 produtos que poderiam ser empregados em outro ramo de atividade lucrativo, como de fato ocorreu na agricultura. Assim, houve o aproveitamento de produtos, como tanques de guerra e gases mortais, que se transformaram em máquinas e venenos (agrotóxicos) a serem utilizados na sustentação da agricultura capitalista monocultora de grande escala, por meio do pacote de tecnologia da Revolução Verde, eles realizariam uma operação de guerra real no campo para atingir o nobre e declarado objetivo de acabar com a fome. E, obviamente, eles teriam lucros inesperados para seus investidores capitalistas, tanto na indústria quanto na agricultura (GROSSI, 2017). A criação de condições artificiais para aumentar a produtividade da produção agrícola para atingir o objetivo de erradicar a fome mostra a falácia da Revolução Verde, que o Brasil tirou da ditadura militar de 1964, como elemento central de seu processo. Encontrou forte apoio de empresas e setores agrícolas conservadores, com motomecanização. Delgado (2010), apud GROSSI, (2017) destaca, na modernização conservadora do regime militar (1964-1982), o papel da agricultura na economia brasileira, que passa a incorporar um elemento novo em relação ao período anterior, que se refere ao aprofundamento das relações técnicas da agricultura com a indústria e de ambos com o setor externo, com a subvenção da política agrícola e comercial do período. Segundo este autor, o processo de modernização técnica e de junção com a indústria. [...] é caracterizado, por um lado, pela mudança na base técnica de meios de produção utilizados pela indústria, materializadas na presença crescente de insumos industriais (fertilizantes, defensivos, corretivos do solo, sementes melhoradas e combustíveis líquidos); e máquinas industriais (tratores, colhedeiras, equipamentos de irrigação e outros implementos). Por outro, ocorre uma integração de grau variável entre a produção primária de alimentos e matérias-primas e vários ramos industriais, como oleaginosos, moinhos, indústrias de cana e papelão, fumo, têxtil e bebidas. Estes blocos irão constituir mais adiante a chamada estratégia do agronegócio, que vem crescentemente dominando a política agrícola no Estado (p.86). A defesa do progresso tecnológico e da inovação contínua para superar os limites naturais que se estabeleceram como barreiras foi a base fundamental para o desenvolvimento da agricultura industrial. No entanto, apesar de todos os investimentos industriais para controlar esses fatores naturais, a produção agrícola 14 não pode ser separada dos ciclos e reações da natureza. E desde então, e até hoje, são estes limites que desmentem esta crença no progresso infindável da tecnologia, uma vez que a agricultura capitalista passou a se constituir não só Mônica Grossi como grande causadora dos problemas ambientais, mas também como o setor mais afetado negativamente por esta perspectiva de desenvolvimento. Motta e Mendonça (in MOTTA, 2005) ao analisarem a penetração do capitalismo no campo brasileiro, sobretudo a partir da década de 1970, quando se fortalece a fusão entre agricultura e indústria, dando origem aos Complexos Agroindustriais – CAIs – representantes do moderno padrão de agricultura, destacam a afirmação de dois padrões de produção rural, o capitalista e o da agricultura familiar. E por esta percepçãohegemônica do capitalismo, a realização da reforma agrária é vista como desnecessária para o tipo de desenvolvimento proposto e “naturalizado” pela modernização do agronegócio. O resultado de todo este processo, no final dos anos de 1970, se apresenta através de elementos contraditórios, uma vez que a modernização intensa da agricultura, alcançada com o estímulo e apoio do Estado brasileiro, representaram ao mesmo tempo, um extraordinário avanço tecnológico e do processo de urbanização, e uma elevação exponencial da desigualdade e da queda nas condições de vida no campo. É justamente este contexto que cria as condições para a afirmação do agronegócio, que desenvolve a atividade agrícola, absolutamente articulada e dependente da produção industrial, e também passa a ter domínio sobre a pesquisa científica, financiando estudos ligados aos objetivos das empresas transnacionais. Mendonça (2006) apud GROSSI, (2017) analisa a relação entre a questão agrária e a reforma agrária, enfatiza a reflexão política contribui com elementos fundamentais para a formação e conformação das classes dominantes agrárias como um dos frutos mais importantes da modernização da agricultura brasileira. As redes que compõem as frações do capital - agricultura, indústria e finanças - tornam-se mais complexas e sobrecarregam os trabalhadores agrícolas sob a hegemonia do agronegócio no Brasil com deslocamentos, êxodos rurais, miséria e, claro, grandes conflitos. E esta situação de conflito no país demonstra, assim, o questionamento da legitimidade do governo operário. 15 Sobre a modernização da agricultura brasileira, Alentejano (In: MOTTA, 2005) destaca que a relação entre a agricultura e o meio ambiente deste modelo agrícola produz uma profunda inversão do princípio tradicional que regia a agricultura em termos de adaptação à diversidade ambiental e sua vinculação com dietas diversificadas. Esse modelo adquire agora sua expressão máxima com o domínio do agronegócio, que sustenta um processo de padronização da agricultura o qual (...) se impõe à diversidade ambiental, artificializando os ambientes e adequando-os ao padrão mecânico-químico da agricultura moderna, ao mesmo tempo em que impõe a todos os povos um padrão alimentar que atende aos interesses das grandes corporações agroindustriais (p. 478). Estes elementos deram fundamento a crítica em relação a agricultura capitalista, sob o domínio do agronegócio, responsável pela desigualdade condição social e ambiental do meio agrário, que se expressa: no controle e acesso à terra com a manutenção do latifúndio, através da mecanização e quimificação das lavouras; no trabalho precário e escravo; na violência e expulsão de famílias do campo; associando à monocultura, o aumento do uso de agrotóxicos e a introdução de cultivos transgênicos. O modelo de agricultura capitalista do agronegócio se afirmar, então, como o principal responsável pela crise alimentar mundial, pois, ao tratar a terra, as sementes e os alimentos produzidos como mercadorias vem comprometendo a segurança alimentar, que além de não ter sido alcançada com a revolução verde, foi ainda agravada As mudanças operadas no padrão do desenvolvimento tecnológico produtivo da agricultura, não alteraram o padrão da estrutura agrária vigente, conservando e agravando o nível de desigualdade na distribuição da posse e uso da terra. As consequências sociais e ambientais deste modelo perverso de agricultura, reconhecidas em nível mundial, sustentam e justificam a ideia de construir uma agricultura alternativa a este modelo através da agroecologia. Sevilla Gusmán (2006) apud Medeiros (2015) nos ensina que a agroecologia tem como eixo estruturante as seguintes premissas: o homem é parte constitutiva e se relaciona histórica e socialmente com a natureza, junto com outras espécies animais, vegetais e os recursos naturais; o contexto sociocultural e humano tem 16 presença marcante na agroecologia; a dimensão técnica e ambiental se consolida a partir do diálogo, da experimentação, da confrontação-complementação entre o saber/cultura campesina e o saber técnico-científico; a dimensão política implica na defesa da biodiversidade, do ponto de vista critico, que se confronte com o capitalismo, força hegemônica no modelo de agricultura convencional. A agroecologia tem como objetivo, para além da identificação e difusão de técnicas alternativas para a agricultura, pautar a questão da sustentabilidade da agricultura e do meio rural e suas implicações para a sociedade. Assim, este debate coloca em questão a relação sociedade-natureza, no sentido de criar uma nova conscientização social, estando aí implicada a criação de novas formas políticas e ideológicas. A agroecologia ao ultrapassa o enfoque das necessárias mudanças no padrão técnico da agricultura ampliando-se, tornando indispensáveis as transformações políticas em toda sociedade. Estas questões apontam os desafios políticos que se abrem aos movimentos sociais do campo, particularmente ao MST, e as possibilidades de convergências com outros sujeitos coletivos, como os movimentos ambientalistas, e especialmente com aqueles que se articulam em torno da defesa da produção de uma agricultura contraposta ao modelo capitalista de agricultura hegemônico. 5 QUESTÃO AMBIENTAL, REFORMA AGRÁRIA E AGROECOLOGIA: DESAFIOS POLÍTICOS AO MST Fonte: https://bit.ly/3mIZ1WK. Acessado em: Nov 2021. 17 O MST, criado em 1984, tem a sua trajetória marcada por três objetivos: a terra, a reforma agrária e a transformação da sociedade, que foram buscados inicialmente através da ocupação da terra, que parte de um movimento de resistência e defesa dos interesses dos trabalhadores. E a estratégia de ocupações teve que ser revista e defendida, como instrumento legítimo para a conquista dos objetivos propostos pelo movimento. Entre as lutas mais importantes ou mais restritas levadas adiante pelo MST, interessa-nos, particularmente, conhecer o processo de politização do que definimos como “questão ambiental”, o qual acontece a partir de ações coletivas e mudanças políticas e institucionais, tendo como foco uma perspectiva que vise transformações societárias. Esse enfrentamento deve desvelar, entre outras dimensões, as desigualdades de poder sobre os recursos naturais e os conflitos, as tensões e os embates entre as classes sociais que se constituem pela participação desigual na estrutura produtiva e na desigualdade na distribuição e apropriação dos bens socialmente produzidos a partir das relações entre sociedade e natureza. Pretendemos analisar as potencialidades e desafios do MST, buscando articulações em torno da questão ambiental como eixo estratégico no combate ao capital considerando a adoção da agroecologia como estratégia produtiva e política e a reforma agrária popular do MST. No decorrer dos anos de 1984 a 1989, o MST iniciou seu processo de territorialização pelo Brasil, intensificando o processo de formação do campesinato. Os efeitos políticos da ocupação de terras fizeram dos sem-terra os mais importantes interlocutores na disputa com o Estado, na luta pela reforma agrária, na crítica ao modelo agrícola convencional e na defesa da segurança alimentar (Fernandes, 2000 apud GROSSI, 2017). A expansão do MST exigiu mudanças em sua organização interna, que ocorreram historicamente, tendo-se criado setores, frentes, comissões, coletivos, entre outros, para atender às demandas que lhes eram impostas. Nesse sentido, tem 18 se fortalecido a organicidade do setor produtivo, cooperativo e ambiental, que se baseia no princípio de (...) não separar nas lutas pela terra e pela reforma agrária a dimensão econômica da dimensão política. Neste sentido se estabelece a necessária relaçãoentre a organização simultânea da cooperação agrícola e das ocupações; o investimento na formação dos sem-terra, tendo em vista as transformações da estrutura produtiva (MORISSAWA, 2001, p. 206). A resolução de que o meio ambiente deveria ser um tema transversal na organização deste Movimento, vem fortalecer a busca de novas referências para os assentamentos, ao nível do seu desenvolvimento numa perspectiva ampla, tendo em conta os aspectos sociais, económicos e ecológicos, com enfoque na acumulação de forças. Nessa perspectiva, tornou-se necessário pensar o meio ambiente de forma articulada com o processo produtivo e a cooperação agrícola. O assentamento é o renascimento da vida humana e da natureza’ e por esta razão o MST tem estimulado a prática agroecológica, desenvolvendo uma nova forma de produzir que não prejudique o ser humano nem a natureza. Desde o ano de 1998 que a CONCRAB tem implementado diversas atividades relacionadas com o meio ambiente, com a promoção de uma ampla discussão nos assentamentos sobre como preservar os recursos naturais, o estímulo a campanhas de plantio de árvores e reflorestamento, a realização de estudos para sistematizar experiências de preservação do meio ambiente para servir de intercâmbio entre os assentados e difusão na sociedade, seminários de integração com outras entidades a fim de aproximar as teses ambientalistas com as da reforma agrária.[...]O MST inovou na produção das primeiras sementes orgânicas de hortaliças no país [...] produzidas pela primeira vez sem a utilização de nenhum tipo de agrotóxico ou insumo químico [...] O MST tem atuado na defesa da natureza não apenas implementando a agroecologia, mas também realizando mobilizações nos âmbitos nacional e internacional, contra o uso de métodos agrícolas que coloquem em risco a vida do planeta (MST, 2003, p. 10) A análise dos documentos produzidos nos congressos nacionais do MST mostra quais mudanças ocorreram no processo de construção de sua proposta de reforma agrária e como a questão ambiental está sendo tratada e fortalecida. As cartas destes congressos e os lemas adotados para o direcionamento das linhas políticas de atuação sinalizam seu processo de amadurecimento e fortalecimento, abrangendo estratégias de resistência e ofensiva. 19 Os dois primeiros congressos nacionais do MST foram realizados como parte de seu processo de territorialização, com uma clara necessidade de organização interna para validar a estratégia de ocupação de terras, como um instrumento legítimo de luta e para o monicsdesenvolvimento da produção coletiva dos assentamentos conquistados. Destaca-se a defesa da luta pela terra com as ocupações e a resistência na terra dos assentamentos, impôs grandes desafios ao MST, principalmente no que se refere à produção da agricultura camponesa em áreas com diversos problemas ambientais, como a degradação e contaminação dos solos e dos recursos hídricos. Tornou-se necessário o fortalecimento da autonomia política e financeira e elaborar uma proposta política e organizativa para o setor produtivo. Diante destes desafios o MST adota a estratégia de aproximação do campo com a cidade visando à urbanização da reforma agrária. O lema adotado no I Congresso Nacional (1985) “Sem reforma agrária não há democracia: Ocupação é a única solução” e no II Congresso (1990), ”Ocupar, resistir, produzir”, expressam esta conjuntura do movimento. É importante dizer que mesmo com o esforço envidado pelo MST para a organização da produção da agricultura através da cooperação, foi impossível não reproduzir o modelo de agricultura capitalista, considerando inclusive a vinculação do repasse de crédito à adoção do pacote tecnológico hegemônico. No entanto, a criação das Cooperativas de Produção Agrícola – CPAs, e da Confederação de Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil – CONCRAB foram significativas para o processo de desenvolvimento econômico e social, e para o fortalecimento do modelo de cooperação que aborda as primeiras experiências de produção alternativa. Ao adotar o lema "Reforma Agrária: uma Luta de Todos", no III Congresso (1995) o MST buscou desenvolver a estratégia de aproximação campo e cidade trazendo para a toda a sociedade o debate em torno da importância e necessidade da reforma agrária, realizando neste período, ocupações em Brasília e duas grandes marchas nacionais, em 1997 e 1999. Em relação à proposição da reforma agrária e sua relação com a questão ambiental neste congresso, o MST já sinaliza a mudança necessária da produção 20 abrangendo a adoção de tecnologias adequadas ao processo de recuperação e preservação dos recursos naturais para a garantia da segurança alimentar. É de grande relevância destacar que a partir do IV Congresso (2000) a agroecologia passa a ser considerada como um processo de construção de outro modelo de produção em clara oposição ao modelo das classes dominantes que impõem os transgênicos, sob o comando das empresas transnacionais do agronegócio. A luta pela eliminação do latifúndio e da violência no campo se traduz no lema: "Reforma Agrária: por um Brasil sem Latifúndio" e expressa uma resposta do movimento aos dois grandes massacres de trabalhadores rurais ocorridos em Corumbiara (RO), em 1995, e em Eldorado dos Carajás (PA), em 1996. Este congresso reafirmou a importância do debate sobre temas importantes como: meio ambiente, biodiversidade, água doce, defesa da bacia do São Francisco e Amazônia. Em seu documento final, condenou as políticas agrícolas do governo e propôs medidas concretas para a construção de um novo modelo tecnológico que seja ambientalmente sustentável e garanta produtividade, viabilidade econômica e bem- estar social. O V Congresso Nacional (2007), com o lema “Reforma Agrária: por Justiça Social e Soberania Popular”, representou uma tomada de deliberações em torno da defesa de uma proposta de reforma agrária de diferente, onde o discurso ambientalista se destaca como parte da reforma e como luta para toda a sociedade. A defesa do planeta contra as inúmeras formas de agressão do capital passa a se constituir numa questão de sobrevivência da humanidade, o que exige e desafia a participação de toda sociedade. Nesta direção, o V Congresso tirou como linha política prioritária do MST, o fortalecimento das alianças, considerando que a adoção da representação ambiental requer o estabelecimento de diálogo entre todos setores da sociedade, passando a ser um dos pilares do trabalho de base do MST. O VI Congresso Nacional do MST (2014) adquiriu o lema: “Lutar, Construir Reforma Agrária Popular”. Dentre os objetivos estabelecidos, destacamos: eliminar a pobreza no campo; combater a desigualdade social, a exploração dos camponeses e 21 a degradação da natureza; garantir a soberania; alimentar de toda população brasileira; preservar a biodiversidade vegetal, animal e cultural de cada região do Brasil, responsável por nossos diferentes biomas; garantir melhores condições de vida através de trabalho, renda, educação, moradia e lazer; defesa da participação igualitária das mulheres e de melhores oportunidades e condições para a permanência no campo, principalmente da juventude. As mudanças necessárias são apresentadas através de medidas consideradas fundamentais e complementares reunidas em torno de pontos, sendo alguns mais diretamente relacionados à questão ambiental, onde destacamos a defesa não apenas da terra que precisa ser democratizada, mas também da água como bens dos povos e que deve estar a serviço de toda a humanidade; a organização da produção agrícola voltada para o cultivo de alimentos saudáveis e diversificada, como garantia do princípio da soberania alimentar através da agroecologia, gerando uma nova base alimentar. O novo modelo tecnológico assumiu como uma das medidas necessárias, a massificaçãoda agroecologia através da capacitação, prática e troca de experiências, produção, distribuição e controle de sementes, da criação de um organismo público de certificação dos alimentos agroecológicos. Também se reafirma a necessidade de ruptura com a propriedade intelectual de patentes de variedades, sementes, recursos naturais ou sistemas de produção; a criação de máquinas e equipamentos agrícolas adaptados à agricultura camponesa e a implementação de um programa nacional de reflorestamento tanto nas áreas degradadas pelo agronegócio quanto em assentamentos. A reforma agrária popular do MST também reafirma a necessidade de novas ações governamentais, agregando demandas que vão além da luta pelo acesso à terra e pela eliminação de grandes propriedades, como acesso à saúde e educação. O MST sustenta que a proposta de reforma agrária se baseia na democratização da terra, mas que a produção agroecológica visa produzir alimentos saudáveis, de forma sustentável para toda a população brasileira, o que certamente não é possível no modelo agronegócio. 22 Para o MST (2013, p. 6), a implantação da reforma agrária popular está condicionada ao avanço das seguintes questões: capacidade de pressão sobre os governos obtendo conquistas (fator importante na luta de classes e na formação da consciência política da militância, porém insuficiente);correlação de forças no enfrentamento ao agronegócio; fortalecimento interno da organização do movimento; construção nos assentamentos e em outros espaços conquistados, do novo modelo de agricultura; construção e fortalecimento de alianças com a classe trabalhadora do campo e da cidade; construção de consensos em torno da compreensão e defesa de outro modelo de agricultura e democratização do Estado. A efetivação da proposta de reforma agrária do MST exige enfrentar uma infinidade de desafios, entre os quais destacamos: aumentar a consciência social, política e cultural de sua base social, e dos camponeses em geral; transformar os assentamentos desenvolvendo a agroecologia como estratégia de produção agrícola garantindo a soberania alimentar, respeitando o meio ambiente e a produção de alimentos sadios, combinada com áreas reflorestadas, com defesa da água e da biodiversidade (MST, 2007). Mauro (2014, apud GROSSI, 2017) ressalta que a nova leitura do movimento de reforma agrária no contexto atual deve levar em conta um amplo debate na sociedade brasileira sobre os seguintes questionamentos: “que uso a humanidade, particularmente os brasileiros, quer dar à terra, à água, à biodiversidade, aos recursos naturais em geral? Que tipo de comida queremos consumir? E que paradigmas tecnológicos de produção usaremos no próximo período? ” Neste sentido, a disputa de consensos em torno da opinião pública sobre estas questões se coloca como central, uma vez que o uso atual destes recursos e a produção da agricultura, sob a hegemonia do capital, reforçam a ideia de que a reforma agrária se tornou desnecessária. A necessidade e atualidade da reforma agrária passa pela construção de consensos em torno da ideia de outro uso aos recursos naturais, com a produção de outro tipo de alimentação com redução dos impactos ao meio ambientais, e, principalmente, colocando os trabalhadores da terra como eixo deste processo. 23 Leblon analisa a relevância do MST e enfatiza a necessidade de suas ações para interferir na relação entre reforma agrária e problemas ambientais. Concluímos com o autor que a chave do novo horizonte agrário é, sem dúvida, a questão ambiental e que este é um grande desafio produtivo e político para o MST. As imbricações entre a questão agrária e a urgência climática padecem, ademais, de uma quase uniforme negligência no debate programático da frente progressista que apoia o governo.[...]são agendas gêmeas indecifráveis de fato, enquanto mantidas dissociadas ou apenas vinculadas de forma ornamental nas prioridades de Estado.Uma, remanescente do século 19; a outra, contemporânea da exacerbação capitalista em nossos dias.Juntas, ao lado de outras, aguardam o desassombro de um protagonista político, capaz de arrastar tempos históricos distintos, dando-lhes a coerência impensável fora de uma agenda transformadora”.“Não é pouco, como se vê, o que desafia o MST a se reinventar. Mas é isso que o faz necessário.E, indispensável, se for capaz de sacudir e romper as trancas que isolam o mundo rural - e a natureza - do debate sobre o novo ciclo de desenvolvimento do país (LEBLON, 2014,p.3). Assumindo a agroecologia como estratégia produtiva e política, o MST reúne elementos que fortalecem sua proposta de reforma agrária popular, na disputa por outro modelo de produção agrícola, contribuindo para o processo mais amplo de politização da questão agrária, social e ambiental no Brasil. Criticar o atual modelo agrário e agrícola dominante requer o apoio da agroecologia, em oposição ao modelo agroindustrial que está minando as duas fontes de produção de riquezas que são a natureza e o trabalho, gerando violência, exploração do trabalho e devastação ambiental. 6 REFORMA AGRÁRIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Num país dominado produtiva e politicamente por latifúndios, que além de ter sido moldado pela degradação ambiental, que persiste desde sua colonização, não parece fazer muito sentido questionar a relação inevitavelmente positiva entre sustentabilidade e democratização ao acesso à terra para esses latifundiários. O argumento mais simples é a premissa de que a pequena agricultura ou agricultura familiar significaria automaticamente maior harmonia entre o homem e a natureza, por ser mais diversa ecologicamente e heterogênea social e territorialmente. A realidade, entretanto, mostrou o idealismo que reside em tal axioma, mesmo que o 24 alcance e a velocidade da devastação causada pela agricultura convencional sob o regime de grandes propriedades sejam claramente incomparavelmente maiores (FASE, 2005 apud MACIEL, 2008). A crescente conquista de projetos de assentamento (AP’s) nas décadas de 80 e 90 do século passado levou ao mito moderno do agricultor em equilíbrio com o meio ambiente sendo colocado à prova na prática em uma variedade de situações concretas, algumas delas traumáticas. O caso da Reserva Biológica Poço das Antas, no Rio de Janeiro, é exemplar nesse sentido (vide PEREIRA, apud MACIEL, 2008). Ao mesmo tempo, os movimentos ambientalistas passaram a fazer parte junto no imaginário de uma crescente população urbana, um lugar de igual destaque ou superior ao da Reforma Agrária, e a disputa pela terra teve de incorporar pouco a pouco a preocupação com a sustentabilidade ecológica e a viabilidade ambiental dos empreendimentos e dos assentados. Novas palavras de ordem se impuseram: não basta ser pequena propriedade familiar, há que se contrapor ao sistema excludente da agricultura convencional (MACIEL, 2008). Relacionado a esse último aspecto, vale ressaltar que o modelo empresarial da “Revolução Verde”, fortemente subsidiado pelo Estado, mostrou-se cada vez mais ameaçado diante dos evidentes problemas sócio-ambientais que gerou, enfatizando a ausência de um projeto alternativo que pudesse equilibrar justiça social e ecologia. A Reforma Agrária, desse modo, não poderia ser, portanto, a reprodução, em escala familiar, nem da miséria reinante no universo camponês tradicional, nem da dilapidação da natureza encabeçada pelo agronegócio (MACIEL, 2008). Não se deve esquecer que os despejos efetivos do campo, desde a década de 1950 surgiram dos mesmos avanços tecnológicos (representados pela mecanização como metáfora da agricultura moderna) e das novas relações sociais de produção exigidas pelo setor empregador. Os salários, vistos por setores da elite intelectual como a única perspectiva futura do trabalho agrícola, mostraram-se altamente seletivos ou precários,resultando em um exército de reserva que condensou a “urbanização patológica” do país e alimentou tensões permanentes no campo (MARTINS, 2001 apud MACIEL, 2008). 25 Esse impasse levaria a análises mais ou menos estruturalistas, que viam a reforma agrária como um dos pré-requisitos para uma mudança geral e revolucionária da sociedade. As argumentações nesses discursos incluíram, entre outras coisas, o padrão tecnológico, o perfil da propriedade da terra, a regulamentação dos direitos trabalhistas e, apenas recentemente, as condições de sustentabilidade ecológica na agricultura brasileira foram inclusas na discussão. Os elementos centrais das interpretações estruturalistas têm sido quase sempre as relações entre patrimonialismo, poder político e papel do Estado, categorias que se classificam na gênese dos fenômenos posteriores, conforme explica Maria Nazareth Wanderley: “A modernização da agricultura se efetuou sobre a base de relações sociais que cristalizaram o predomínio do proprietário sobre o produtor. Isto é, a propriedade da terra constitui no Brasil um elemento organizador da atividade agrícola. O caráter produtivo da agricultura é aqui subordinado à dinâmica gestada a partir da propriedade fundiária” (WANDERLEY, 1990 apud Maciel, 2008). Essa natureza de subordinação da agricultura às grandes propriedades no meio rural brasileiro é inegável, mas ainda é difícil pensar em outras variáveis que, nos últimos tempos, têm levado a mudanças importantes no cenário. Em suma, as veracidades dessas leituras podem ter influenciado a importância que os movimentos sociais têm dado às reivindicações territoriais e, por outro lado, contribuído para retardar o surgimento de uma questão ambiental na luta pela Reforma Agrária. O meio ambiente seria um campo inserido a posteriori nas abordagens sobre a gênese dos problemas da agricultura no Brasil. Explicar o problema ambiental em meio ao pensamento acadêmico ou na bandeira histórica da reforma agrária é, portanto, repleto de grandes dificuldades. Pode-se observar o desenvolvimento de diferentes posicionamentos, que vão desde a denúncia de práticas predatórias em assentamentos rurais por um ambientalismo conservador até a formação de correntes de "sustentabilidade" no interior ou paralelas a movimentos sociais existentes como o próprio MST. E diversas Organizações Não- governamentais (ONGs). 26 Na década de 1990, o debate sobre o papel da reforma agrária sem dúvida mudou muito, e talvez esse componente ecológico implícito constitua a novidade ou o ponto mais sensível do assunto, bem como a natureza da "revolução popular" subjacente ao tema desde o seu surgimento enquanto problema nacional em meados do século XX. Com um dos maiores índices de Gini do planeta (OXFAM, 2016), referente à propriedade fundiária no Brasil, a implantação da reforma agrária é uma base necessária para a construção de condições socioeconômicas e ambientais justas e favoráveis no país. Dito isso, a construção de assentamentos rurais, mesmo em suas piores condições, revela a importância do parcelamento rural e da redistribuição do território como possibilidade de inclusão social, transformação regional e territorial e luta rendas fundiárias contrastantes (HORA et. al., 2019). Não podemos deixar de incluir o papel das ONG’s neste processo, bem como o surgimento de inúmeras iniciativas regionalizadas de gestão do espaço natural, dentre as quais o movimento dos seringueiros, na Amazônia, o movimento das quebradeiras de côco babaçu no Maranhão e Piauí, as articulações de entidades para o desenvolvimento de uma agricultura adaptada ao semiárido, no Nordeste e o movimento dos atingidos por barragens no Sul/Sudeste. O pluralismo dos sujeitos sociais herdado deste período recente contribui para uma diversidade e energia criativa da sociedade brasileira, tantos anos reprimida (MACIEL, 2008). As tendências contemporâneas, cujo alcance é difícil de resumir, podem ser ilustradas com diferentes formas de olhar para o componente “meio ambiente”. No campo da agronomia e da natureza, incluindo parte da geografia, existe um pólo que poderia ser denominado “agroecossistêmico”, como em MAZZETO (2001; s/d), PEREIRA (2005) ou PETERSEN (1996) apud MACIEL (2008), onde o destaque é ora colocado na ecologia da paisagem como diagnóstico, ora no planejamento participativo de gestão do meio ambiente com caminhos para a criação de assentamentos e sistemas agrícolas sustentáveis. Estudos de Leite et. al. (2004) apud Hora et al (2019) indicam a relevância dos assentamentos rurais no desenvolvimento e dinamização da economia local. 27 Entretanto, segundo os autores, na “ausência de qualquer política governamental preestabelecida de desapropriações, a localização e o tamanho das áreas destinadas a assentamentos têm muito de aleatório” (LEITE et. al., 2004, p. 74), que é o resultado de conflitos agrários e pressões locais. Muitos fatores podem estar associados ao baixo nível de desenvolvimento produtivo e organizacional dos assentamentos rurais, incluindo localização, qualidade do solo, disponibilidade de água, energia, estradas e o tipo de parcelamento adotado. Embora esses aspectos não sejam decisivos para o sucesso da política de assentamentos rurais, a correta implantação dos assentamentos contribui não só para a qualidade de vida local, mas também para a otimização dos recursos financeiros em termos de disponibilidade de infraestrutura apud (MACIEL, 2008). O papel da assistência técnica e das formas de associação é de fundamental importância nesta abordagem, que visa garantir uma ampla associação de conhecimentos entre agricultores e cientistas e permitir a comercialização ativa da produção através de cooperativas e outras estratégias de rede., incluindo o comércio solidário. Experiências diversas têm sido catalogadas em todo o Brasil, culminando com a realização de dois Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA), o último deles realizado em Recife, em junho do presente ano. Amplamente dominado por ONG’s, o evento teve uma participação ativa de assentados, muitos vinculados ao MST (o que é uma novidade), mas também das federações de sindicatos rurais, grupos de mulheres e associações de pequenos produtores (MACIEL, 2008). Por outro lado, autores mais liberais, como RICCI (2000) apud Maciel, (2008)., acolhem com agrado o surgimento do que chamam de: Novos Movimentos Sociais, possivelmente antagônicos às organizações ideológicas que dominaram a cena até então, em particular o Movimento dos Trabalhadores Rurais. Ressaltam que esses novos sujeitos sociais, também vinculados à propriedade fundiária, teriam formas de atuação caracterizadas por um "hibridismo sociocultural" baseado no "sincretismo de elementos democráticos e patrimoniais”, onde a luta (pressão) seria substituída pela parceria (colaboração) com diversas esferas institucionais, como ONG’s, Estado, prefeituras, visando otimizar a gestão pública do território. Neste modo de pensar, os novos governantes seriam mais propensos a incluir as especificidades locais em sua pauta, assim lidariam melhor com a gestão sustentável do meio, o que é no mínimo controvertido. Deixar de lado, relativamente 28 a perspectiva histórica tampouco ajuda a compreender as dificuldades inerentes às rugosidades espaciais e limitações impostas por processos sociais e políticos profundamente arraigados em determinados territórios, como é evidente na zona canavieira de Pernambuco. Nessa região como em muitas outras partes do país, o surgimento de novos atores se dá sobre estruturas arcaicas, sem as quais nada pode ser corretamente compreendido (MACIEL, 2008). Como quer que seja, há uma busca por explicações mais pragmáticas, uma vez que as análises de cunho marxista persistem em sua retórica macroestrutural, onde a natureza e o espaço geográficoparecem estar ausentes ou representar meros suportes para a renda fundiária, origem de todos os males. Diz Martins (2001) apud Maciel, 2008), aproximando-se de Wanderley “[...] no Brasil a questão agrária [é] relativa à irracionalidade econômica da renda da terra para a reprodução ampliada do capital. O capital se revela, nos episódios da ocupação da Amazônia e da resistência à reforma agrária, nas últimas décadas, como capital rentista, diverso do capital e do modelo de capitalismo próprio dos países desenvolvidos. A questão agrária se apresenta como questão social, o desenraizamento como fonte de injustiças e problemas sociais. […] essa expressão fenomênica da questão agrária tem grande poder de arregimentação, com base mais numa indignação moral do que propriamente num projeto político. ” Raramente enxergam o meio ambiente como um de seus componentes aqueles que enfatizam a dimensão política do problema agrário. A contradição fundamental dos movimentos sociais fundiários é o reconhecimento do caráter conservador da agricultura familiar, rica em valores tradicionais, e não uma necessidade de discutir a sustentabilidade ambiental do modelo da modernização. Ele sugere, a partir desse diagnóstico, que os movimentos sociais deveriam apoiar o estabelecimento de alianças que dessem continuidade às conquistas recentes dos governos democráticos, em sua opinião relevantes. (MACIEL, 2008). Contudo, mesmo no campo progressista há posições divergentes, como fica claro nas declarações do geógrafo Bernardo Mançano Fernandes (1998) apud Maciel, (2008), assessor do MST: 29 “a luta pela reforma agrária é uma luta contra o capital. A não ser considerada dessa forma, a reforma agrária pode se tornar uma arma do capital. ” Observa-se, portanto, que partindo de mesmos referenciais pode-se chegar a horizontes dicotômicos, cujo único elo em comum é considerar o aspecto ambiental como um desdobramento totalmente subordinado às relações capitalistas de produção, quando não irrelevante. Por fim, verifica-se que apesar da manutenção de alguns esquemas explicativos não afetados pelo tema da sustentabilidade ambiental, este é o conceito mais perseguido hoje, quaisquer que sejam os significados a ele atribuídos. Dentre os economistas, uma busca pelas especifidades locais e suas potencialidades e limitações cresce vigorosamente, como mostra Ricardo Abramovay (1998) apud Maciel (2008): “A dimensão territorial do desenvolvimento vem despertando cada vez mais o interesse dos cientistas sociais […] A idéia central é que o território, mais que simples base física para as relações entre indivíduos e empresas, possui um tecido social, uma organização complexa feita por laços que vão muito além de seus atributos naturais e dos custos de transportes e de comunicações. Um território representa uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico. ” Para os geógrafos, as noções de desenvolvimento local e território abrem um vasto leque de debates. O interesse comum de várias áreas do conhecimento sobre tais temas conduz ao debate transdisciplinar sobre a agricultura sustentável. As diferentes estratégias e sistemas agrícolas adotados pelo MST ou por outros movimentos sociais no meio rural brasileiro revelam a requalificação da questão agrária face ao imperativo ecológico, deixando transparecer que as disputas e tensões entre os atores envolvidos também se dão na esfera do como produzir. Os estudos acerca das potencialidades da agroecologia nos assentamentos são promissores (BRASILEIRO, 2006 apud MACIEL, 2008). Pode-se dizer, então, que o esclarecimento da dinâmica sócio-territorial da sustentabilidade da agricultura vem pouco a pouco se impondo ao pensamento sobre a Reforma Agrária no Brasil. 30 7 O MST E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A noção de sustentabilidade, ou desenvolvimento sustentável, não se encontra “naturalmente” associada à questão agroecológica. Somente quando o debate sobre a crise ambiental está vinculado às áreas rurais é que ele é visto como agrícola e/ou agrários. Frequentemente, a idéia de sustentabilidade é utilizada para tratar de problemas ambientais ou socioambientais (NETO et al, 2002). Mesmo quando o “discurso do desenvolvimento sustentável” é abrangente a partir de um plano generalisado, ele é visto como parte de um “emaranhado de Canrobert Costa Neto e Flaviane Canavesi proposições”. Deste modo, “toda a profusão de discursos em favor do desenvolvimento sustentável acoberta e deixa volátil a noção de sustentabilidade”. Segundo Canuto, “se concebemos sustentabilidade apenas como o uso prudente dos recursos hoje para os ricos de amanhã, de toda maneira salvaguardaremos por algum tempo mais a sustentabilidade ecológica. Mas a exclusão do ambito social esvazia a própria idéia do desenvolvimento” (Canuto, 1998 apud NETO et al, 2002). Sendo o MST um dos principais movimentos sociais aparecidos na retomada da luta pela terra no Brasil democrático, qual o seu papel e a sua participação na construção de um “novo modelo” de agricultura? Melhor dizendo, quais as concepções de desenvolvimento sustentável que se expressam em seu bojo? Ainda em 1990, a mais expressiva liderança do movimento, Joao Pedro Stédile, transparecia a opacidade do alto comando quanto às necessidades de transformar as maneiras de explorar os recursos naturais na agricultura, ao afirmar que nos assentamentos devia-se desenvolver ao máximo a mecanização, a tecnologia, a agroindústria etc, completando de forma fatalista: “ não é só uma maneira de aumentarmos a produtividade do trabalho. É a única forma de se desenvolver como um assentamento e se opor ao modelo da burguesia ”. (MEDEIROS, 1993 apud MACIEL, 2008). Como coroamento do discurso “produtivista” observa-se a defesa intransigente da coletivização do trabalho e das formas do habitat rural (as agrovilas), uma receita repisada pelo MST durante a escalada de ocupações de terra que o 31 colocaria como a estrela maior de resistência popular ao neo-liberalismo e ao agronegócio. É preciso reconhecer, todavia, que essas posições foram sendo amenizadas ao longo da história do movimento, e graças também às ocupações ocorridas em ecossistemas muito diversos, desde os cerrados, matas pluviais, caatingas e cocais, onde havia povos tradicionais detentoras de conhecimentos etno- ambientais (MACIEL, 2008). A dimensão sócio-ambiental, com efeito, já vinha sendo analisada em segmentos de bases do movimento desde a época mesmo de sua criação (via estudantes de agronomia e agrônomos militantes), apesar da persistência enfática do produtivismo na retórica de suas lideranças. Fora a urgência política de ressaltar o produzir – tática de legitimação moral num país de famintos – nota-se uma defasagem entre o debate ambiental na sociedade e as linhas gerais de ação do MST. Tal atraso, é preciso reafirmar, não demoraria a ser suprido no seio dos assentamentos, sobretudo a partir da intensa integração com as universidades, ONG’s e órgãos governamentais de pesquisa e extensão, além do trabalho das instituições internacionais de apoio à Reforma Agrária (MACIEL, 2008). Altieri (1996) apud Neto et al (2002) ressalta que a verdadeira sustentabilidade é alcançada quando os agricultores melhoram seu acesso à terra, recursos e tecnologia adequada para gerenciá-los e organizá-los adequadamente, a fim de recursos de controle, acesso justo aos mercados, insumos e produtos para garantir um rendimento decente das suas colheitas. Para acentuar o tema contribuíram, sem dúvida, a amplitude tomada pelas conquistas efetivas de assentamentos (400 mil famílias até o final da década de 90). Como lembra MAZZETTO (1998) apud MACIEL (2008), inicialmente, os projetos de assentamento não eramempresas com alto potencial de impacto ecológico, mas à medida que seu número e extensão aumentavam e a forma de exploração se concretizava através da reprodução das tecnologias existentes, os problemas ambientais tornaram-se cruciais para o autor citado, as dificuldades de incorporação do componente ecológico passam não apenas pelos órgãos governamentais, mas também pela conduta postura do movimento dos trabalhadores rurais – preso à abordagem puramente reivindicativa – e pelo conservadorismo de boa parte do movimento ecológico. 32 É claro que a incorporação de critérios de sustentabilidade é um processo altamente dinâmico em qualquer movimento e principalmente no MST, onde se percebe uma desvantagem entre os termos que impulsionam a agitação política, a partir da / da mídia, e a realidade do cotidiano em assentamentos já conquistados. É comum os assentados se sentirem distanciados do universo comunicacional da atividade de luta ideológica da organização a que pertencem, em favor das vicissitudes do dia-a-dia. Foi o que aconteceu no assentamento Chico Mendes, em Pombos-PE, quando a metade dos agricultores aí assentados “rachou” com o movimento, por desentendimentos envolvendo a adoção da agricultura orgânica (BRASILEIRO, 2006 apud MACIEL, 2008). O MST, por sua vez, é muito mais receptivo aos aspectos ambientais, se podem serem vistos como um elo com seu discurso geral sobre a mudança da sociedade, como é o caso do combate aos OGM. (Organismos Geneticamente Modificados) ou dos grandes desmatamentos promovidos pela expansão da soja nos cerrados, e outros eventos de forte impacto midiático e ponte para a solidariedade ecológica nacional e internacional. Não é de forma ampliada mas existem experiências e ações do movimento no campo da produção e da comercialização de produtos orgânicos ou ecológicos. Olhando de uma retrospectiva da inserção do MST em questões relacionadas à sustentabilidade, verifica-se que, desde o seu primeiro congresso nacional, realizado em 1985, ele tem esboçado, ainda que, inicialmente, de forma um tanto tímida, uma tendência favorável aos temas de preservação ambiental (NETO et al, 2002). Os efeitos da territorialização da Reforma Agrária obrigaram a reformular algumas dessas posições, entre as quais se destacam a centralidade das formas de produção, sua adequação e sustentabilidade ambiental. Especificamente, sob o lema “Ocupar, resistir, produzir”, surgem questionamentos sobre como gerenciar a agricultura em assentamentos profundamente diferenciados pela qualidade ambiental, território e número de famílias envolvidas, sem esquecer as diferenças culturais. Surgem demandas que envolvem não só os procedimentos técnicos, mas também todas as dimensões da existência que constituem a posse da terra como base de um modo de vida, de uma cultura. 33 A reforma agrária "ecologicamente sustentável" ou "socialmente justa" se referiria a uma racionalização das relações ambientais ou promoção da cidadania e do direito à alteridade das populações rurais marginalizadas pela modernização do campo. O conteúdo ambientalista, no primeiro caso, transparece através de um discurso óbvio aos olhos dos geógrafos, a saber, a diferenciação do quadro natural. Para MAZZETTO (2001) apud MACIEL (2008), o tripé segurança alimentar/viabilidade econômica/conservação ambiental mostra para os assentamentos o que seria o desenvolvimento sustentável, devendo contextualizar cada caso em diversas escalas, desde a região até o plano do antigo imóvel desmembrado, chegando aos lotes individuais. É fato conhecido que inúmeros projetos são implantados nas vizinhanças de áreas de preservação permanente ou com restrições naturais consideráveis. A visão ecológica reconhece que os Projetos de Assentamento deveriam ser intrinsecamente ligados a um planejamento prévio da intervenção e gestão do espaço, visando garantir a sustentabilidade ambiental. A principal limitação da sua eficácia neste sentido é, evidentemente, não levar em conta a dinâmica social, o aspecto contingente das lutas pela terra, onde a pressão e a surpresa das ações são em grande parte orientadas pela obsolescência dos latifúndios, não por suas qualidades ecológicas intrínsecas, continua sendo um desafio, senão uma utopia, fazer com que os movimentos sociais, incluindo o MST, vejam esse aspecto como um valor inerente ao processo de reforma agrária no Brasil. Em seus valores a chamada sustentabilidade ecológica contém a ideia de que a ciência deve ser entendida, entre outras coisas, como uma forma de gerar conhecimento, enquanto a sabedoria, além do acesso ao conhecimento, também tem um caráter étnico essencial componente gerado pela identidade sociocultural da qual emerge (NETO et al, 2002). Afinal, seria o Movimento dos Sem Terra o condutor ideal das demandas ambientais da contemporaneidade? RICCI (200) apud MACIEL (2008) aponta em outra direção, refletindo que novas formas associativas poderiam melhor expressar as exigências de um modo mais equilibrado de praticar a agricultura. Esta postura de 34 contraposição ao MST, ao deixá-lo de saída e em conjunto à margem da construção da sustentabilidade ambiental, defende que somente aqueles movimentos locais e carregados pelas suas especificidades territoriais poderiam obter sucesso neste campo. Assim, a ênfase recai sobre outras organizações, que teriam na base espacial/ecológica a razão mesma de sua existência e um dinamismo próprio, uma posição antípoda (senão uma recusa) à politização geral da questão agrária. O eco encontrado por análises pós-modernas apoia-se no grande número de organizações surgidas em torno de demandas localizadas, muito específicas e sem pretensões políticas maiores, bem como na ausência de prioridade efetiva para a problemática ambiental no seio do comando do MST. Não se pode negligenciar, no entanto, a potencialidade que representa este movimento, que tem demonstrado grande capacidade de se adaptar e catalisar as insatisfações com o modelo da agricultura praticado em alguns assentamentos, despertando inclusive para as janelas de mercado da produção orgânica. Antes de concluir, é preciso sublinhar então a flexibilização de propostas dentro do principal movimento pela terra no Brasil, fruto de quase vinte anos de debate interno e de vivências concretas no manejo do meio ambiente nos seus assentamentos. As tentativas fracassadas de imposição de modelos técnicos e organizativos, tais como a agroindústria e a coletivização, têm levado também a uma maior atenção às especificidades locais e à institucionalização de programas internos de capacitação baseados em paradigmas ambientalistas. A ênfase do MST em educação também é fruto do seu esforço em superar as deficiências de um público- alvo muito heterogêneo e pauperizado, ou seja, não raro imediatista. Ao debater acerca da sustentabilidade ambiental da Reforma Agrária insere- se, antes de tudo, na discussão sobre qual o “lugar” da produção familiar na agricultura brasileira, tendo em vistas que este setor permanece sem credibilidade em relação às políticas agrícolas estatais, apesar de alguns avanços no Governo Lula (GUAZZELLI, 2006 apud MACIEL, 2008). Em segundo plano, trata-se de refletir se o MST, ao focar sua luta na redistribuição massiva e radical de terras, mantém acertadamente uma política eficaz 35 no contexto geral, se aberta aos aspectos ambientais; ou, caso contrário, prende-se a uma meta-narrativa insensível às demandas diversificadas de cada situação concreta. 8 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ____. A política dos movimentos sociais para o mundo rural. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, vol. 15, nº 1, p. 5-22, 2007. Acesso em 15/08/2015. ____. Movimentos Sociais na Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, Minas Gerais, v.16, n. 47, p. 333-351,