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Movimentos Sociais no Brasil

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SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 
2 ASPECTOS HISTPORICOS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL . 4 
3 MOVIMENTOS SOCIAIS DO CAMPO ...................................................... 10 
4 MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA CAPITALISTA BRASILEIRA E A 
CONSTRUÇÃO DA AGROECOLOGIA .................................................................... 12 
5 QUESTÃO AMBIENTAL, REFORMA AGRÁRIA E AGROECOLOGIA: 
DESAFIOS POLÍTICOS AO MST ............................................................................. 16 
6 REFORMA AGRÁRIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ........... 23 
7 O MST E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ................................ 30 
8 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ......................................................... 35 
 
 
 
 
 
3 
 
1 INTRODUÇÃO 
Prezado (a) aluno (a)! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula é raro, quase improvável um aluno 
se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, 
para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse 
aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No 
espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser 
direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da 
nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à 
execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da 
semana e a hora que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
2 ASPECTOS HISTPORICOS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 
 
Fonte: MEDEIROS, A. M (2015) 
A história do Brasil é marcada pordisputas e revoltas populares, desde o 
século XVI com a Confederação dos Tamoios (1562), passando pela Insurreição 
Pernambucana (16 5), à Inconfidência Mineira (1789), à Guerra de Canudos (1896), 
à revolução constitucionalista de 1932 e ao impeachment do ex-presidente Fernando 
Collor em 1992. Os movimentos sociais no Brasil têm uma história marcada por 
grandes lutas e enfrentamentos contra governos autoritaristas e pela disputa pela 
liberdade e democracia. Mas aqui nos concentramos nos movimentos sociais que 
marcaram o Brasil desde a segunda metade do século XX. (MEDEIROS, 2015). 
Os movimentos sociais no Brasil se intensificaram a partir dos anos 
70, com forte oposição ao regime militar que então se encontrava em 
vigência, mantendo uma luta social e uma forte resistência, como afirma Ilse 
Scherer-Warren: “o movimento social mais significativo pós-golpe militar de 
1964 foi o de resistência à ditadura e ao autoritarismo estatal” (2008, p. 09 - 
ver também: (SCHERER-WARREN, 2005 apud MEDEIROS, 2015). 
O povo brasileiro manteve-se forte perante da ditadura que existia no país, e 
nesse contexto ditatorial a força e a organização dos movimentos estudantis e 
trabalhistas prevaleciam (CARVALHO, 2004 apud MEDEIROS, 2015), comunidades 
eclesiais de base (CEBs) e pastorais, que ganharam reconhecimento com a 
participação dos demais setores da sociedade, isso se teve através dos resultados 
desta forma de governo. 
 
 
5 
 
O período da Ditadura Militar no Brasil representou um momento favoravél 
para a efervescência dos movimentos sociais, uma vez que, dentro das 
Universidades, a inclusão e consolidação dos cursos de Ciências Sociais com a 
reforma pedagógica dos cursos proporcionou um pensamento mais crítico sobre o 
enfrentamento de nossa realidade. 
Com a compreensão da situação, os estudantes, junto com a indignação de 
outros que não aceitavam esse modelo ditatorial de governo, formaram uma massa 
de luta organizada. Sobre o papel dos movimentos sociais neste contexto, Gohn 
(2011, apud Medeiros, 2015) afirma ser indiscutível “que os movimentos sociais dos 
anos setenta / oitenta no Brasil, por meio de demandas organizadas e pressões, 
contribuíram de forma decisiva para a efetivação de diversos direitos sociais 
consagrados em lei pelo Constituição Federal de 1988". O movimento que se opunha 
ao regime militar tinha como proposito claro: defesa dos valores do Estado 
democrático e crítica a toda forma de autoritarismo estatal. 
O governo militar foi duro e sua resposta veio reprimindo as manifestações, 
com violência, tortura, e alcançou seu auge com o famoso AI-5 (Ato Institucional 
número 5), que vigorou de 1968 a 1979. 
Um bom exemplo de organização e luta pode ser encontrado no 
movimento indígena do século XX na luta por seus direitos e no 
reconhecimento de seus valores, cultura e tradição. A dissertação de 
mestrado de Evangelista (2004 - (veja mais em: Direitos indígenas: o debate 
na Constituinte de 1988) nos fornece um amplo debate em torno da defesa 
dos direitos indígenas que culmina com a promulgação da Constituição de 
1988(MEDEIROS, 2015). 
Nesse período, cada movimento social formou sua identidade, suas formas 
de atuação, demandas, valores e discursos que o diferenciam e diferenciam dos 
demais. “Foram grupos que construíram uma nova forma de fazer política e 
politizaram novas questões que ainda não haviam sido discutidas e pensadas no 
campo político. Ao fazer isso, eles ampliam o sentido da política e o espaço para fazer 
política” (EVANGELISTA, 2004, apud MEDEIROS, 2015). 
Nessa época, a sociedade civil organizada, por meio dos movimentos sociais 
e populares, buscará espaços para influenciar as decisões políticas e a construção da 
Constituição de 1988. É uma participação efetiva dos cidadãos, na busca por direitos 
 
 
6 
 
e políticas que lhes dizem respeito diretamente. Nesse período, a sociedade civil 
organizada, por meio dos movimentos sociais e populares, buscará espaços para 
influenciar as decisões políticas e a construção da Constituição de 1988. É uma 
participação efetiva dos cidadãos, na busca por direitos e políticas que lhes dizem 
respeito diretamente. De acordo com Avritzer (2009) apud Medeiros (2015): 
E foi a própria Constituição Federal de 1988 que "[...] por meio de 
legislação específica, abriu espaço para práticas participativas nas políticas 
públicas, em particular na saúde, na assistência social, nas políticas urbanas 
e no meio ambiente”, seja por referendos, plebiscitos e projetos de lei de 
iniciativa popular (art. 14, incisos I, II e III; art. 27, parágrafo 4º; art. 29. Incisos 
XII e XIII), seja através da participação na gestão das políticas de seguridade 
social (art. 194), de assistência social (art. 204) ou dos programas de 
assistência à saúde da criança e do adolescente (art. 227). 
A transição política para o estado democrático, que ganhou força na década 
de 1980, culminou com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Nesse 
período, houve um aumento significativo do número de ONGs e do terceiro setor de 
responsabilidade social. Associações de bairro, representantes da periferia e da 
vizinhança burguesa pedem que os direitos sociais sejam garantidos mesmo em 
expansão [...] As duas grandes mobilizações nacionais deste período foram o 
Movimento pelas Diretas Já (1983-1984) e a mobilização da sociedade civil 
organizada [...] para a inclusão de novos direitos na Constituição brasileira, a qual veio 
a ser denominada de “Constituição Cidadã” (SCHERER-WARREN, 2008, p. 11-12 
apud MEDEIROS, 2015). 
De acordo com Boaventura de Sousa Santos: 
 Chama atenção para o fato de como a temática dos novos 
protagonistas e novos movimentos sociais dominaram a discussão 
sociológica na década de 1980: “Mesmo aqueles que não partilhammaio/ago. 2011. Acesso em 01/09/2015. 
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movimentos sociais, reconhecem que a última década [de 1980] impôs esta 
temática com uma força sem precedentes [...]” (1999, p. 221). Para uma 
bibliografia sobre os movimentos sociais do final da década de oitenta no 
Brasil e na América latina ver por exemplo: Dalton e Kuechler (1990), 
Laranjeira (1990), Scherer-Warren e Krischke (1987). 
A conferência dos documentos produzidos nos congressos nacionais do MST 
mostra as mudanças ocorridas no processo de construção de plano de reforma agrária 
e como a questão ambiental começa a ser tratada e fortalecida. As cartas destes 
congressos e os lemas adotados para o direcionamento das linhas políticas de 
 
 
7 
 
atuação sinalizam seu processo de amadurecimento e fortalecimento, abrangendo 
estratégias de resistência e ofensiva. 
Os novos movimentos sociais que surgiram desde a década de 90 até o 
presente, como os das décadas antecedentes, também são fruto de demandas sociais 
como o movimento de mulheres (com suas lutas contra a sociedade patriarcal e o 
autoritarismo do Estado), o LGBT Movimento, Movimento Negro (ALBERTI; 
PEREIRA, 2006 apud MEDEIROS, 2015), Movimento Indígena entre outros. 
 Existem pelo menos cinco tradições e movimentos que contribuíram para o 
que denomina de “ciclo democrático de auto formação do povo brasileiro”. São eles: 
comunitarismo cristão, desenvolvimento nacional, socialismo democrático, liberalismo 
republicano e cultura popular. Destaca também a criação da CNBB - Conferência 
Nacional dos Bispos do Brasil em 1952, liderada por Dom Helder Câmara e o 
desenvolvimento de uma "esquerda do catolicismo brasileiro" (Guimarães, 2009). 
 “O comunitarismo cristão se enraizou na vida popular por meio de 70.000 
CEBs [Comunidades Eclesiásticas de Base], que organizaram cerca de 2 milhões de 
ativistas cristãos e atuaram entre os anos 60 e 90” (GUIMARÃES, 2009, p. 18). Essa 
corrente orientou suas atividades em torno de questões de cidadania e fez dela uma 
opção preferida pelos pobres com base em princípios morais cristãos como a 
igualdade e a solidariedade. 
Na década de 1990 possui grande destaque os fóruns de ONGs e movimentos 
sociais para a Eco/92. É também deste período vale destacar outro movimento 
popular que ficou conhecido como as “caras pintadas” em torno do impeachment 
(1992) do ex-presidente da República: Fernando Collor de Melo. De acordo com 
Scherer-Warren (2007) e Scherer-Warren (2008): 
Este foi também um período de crescimento e consolidação de 
vários movimentos sociais rurais, como o Movimento dos Sem Terra (MST), 
o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento Camponês 
(MMA), o Movimento dos Pequenos Camponeses (MPA), entre outros, e o 
aumento das articulações interorganizacionais desses atores entre si e com 
outros movimentos sociais urbanos, latino-americanos e globalizados. 
No século XXI assistimos ao surgimento de uma “rede de movimentos sociais” 
com o claro objetivo de fortalecer o papel da sociedade nos espaços públicos e na 
 
 
8 
 
defesa radical dos valores democráticos, com total autonomia dos movimentos sociais 
em relação as autoridades e, em certa medida, até dos partidos políticos, o que não 
quer dizer que não seja uma forma organizada de articulação política. Comparando o 
atual quadro associativo da sociedade civil, Gohn (2014) apud Medeiros (2015) reflete 
como ele difere do que prevalecia nas décadas de 1980 e 1990, e que "a ascensão 
de novos grupos ao poder e reformas nas políticas de gestão são parte da explicação" 
Temos que observar nesse cenário os Conselhos Gestores de Políticas 
Públicas, como um importante local de atuação destes movimentos (veja mais em: 
Movimentos Sociais e Conselhos de Políticas Públicas). Como ressalta Gohn (2006, 
p. 7) 
Os conselhos de políticas públicas passam a ser um pilar para que as 
camadas populares sejam ouvidas e contribuam para a formulação de uma política 
pública que atenda às necessidades desses grupos sociais, para que a atuação 
dessas pessoas pertencentes a esses grupos, fortalecendo a participação social da 
população. 
À guisa de conclusão podemos afirmar, como nos propõe Scherer-Warren 
(2008) apud Medeiros (2015) em suas diferentes análises sobre os movimentos 
sociais, que: 
No cenário brasileiro do novo milênio, surge um movimento cívico crítico, 
atuando em conjunto em redes nacionais e globalizadas, caracterizado pelo 
desenvolvimento de um ideal político que visa transpor as diversas fronteiras 
restritivas dos movimentos sociais mais tradicionais de nossa história. Os movimentos 
sociais têm um papel de grande relevância a ser exercido, tomando como base um 
novo conceito de planejamento público marcado pela ativa voz popular, que como o 
próprio nome sugere, exige a participação dos movimentos sociais que, bem antes do 
processo de redemocratização e sobretudo por ocasião da Assembleia Nacional 
Constituinte de 1987[3] que promulgou a Constituição Federal de 1988, vem 
desempenhando um papel extremamente importante para afirmação do nosso Estado 
Democrático de Direito. Além disso, os movimentos sociais ampliam, aprofundam e 
redefinem “a Democracia tradicional do Estado político e a democracia econômica 
 
 
9 
 
para uma democracia civil numa sociedade civil” (FRANK; FUENTES, 1989 apud 
MEDEIROS, 2015). 
E para que esse papel seja efetivo, não temos dúvidas de quão importante e 
necessária se torna a ideia de formar movimentos populares. Uma educação voltada 
para o exercício da cidadania no verdadeiro sentido da palavra, onde os cidadãos 
participem efetivamente das decisões políticas que os afetam. Uma concepção do 
cidadão como sujeito político que requer “uma profunda revisão da relação tradicional 
entre educação, cidadania e participação política” (ARROYO, 1995, p. 74 apud 
RIBEIRO, 2002, apud MEDEIROS, 2015). 
Diante desta questão, Ribeiro (2002, p. 124) propõe limites e possibilidades 
de uma educação para a cidadania e seu potencial como idealismo possível em 
relação aos movimentos sociais e populares. 
As possibilidades se manifestam nas relações sociais contraditórias em que a 
cidadania é produzida / reproduzida como síntese de lutas entre classes sociais com 
interesses e projetos antagônicos. Assim, quando o neoliberalismo se apodera dos 
direitos conquistados pelos movimentos sociais, os partidos de esquerda no Brasil 
reafirmam esses direitos sociais como prioridade em seus governos estaduais e 
locais. 
Os limites podem ser indicados pelas possibilidades de participação de tais 
movimentos na conquista de direitos, devido a diversos fatores: se pelo fato de os 
movimentos sociais terem vazantes e fluxos de suas ações, ou seja, ganham força na 
luta por direitos, às vezes perdem essa força na luta contra o poder estabelecido; o 
pela baixa participação dos atores, exceto em caso de conflitos grandes e graves; ou 
também por falta de capacidade técnica ou política para garantir a efetividade de seus 
direitos. 
 
 
 
10 
 
3 MOVIMENTOS SOCIAIS DO CAMPO 
 
Fonte: https://bit.ly/3k3hv2k. Acessado em: Nov 2021. 
São formas de organização socioterritorial de camponeses sem terra ou 
famílias de agricultores e trabalhadores rurais assalariados que lutam pelo direito à 
terra, emprego e / ou melhores condições de trabalho e salários (FERNANDES, 2005). 
As disputas pela terra e pela reforma agrária, por infraestruturas e recursos, 
são de extrema importância nos processos de desenvolvimento e expansão da 
agricultura camponesa e familiar. As lutas pelo emprego e melhores condições de 
trabalho salarial também continuam, apesar de seu declínio devido à mecanização 
impulsionada pela modernização da agricultura. 
Os movimentos sociais rurais de sempre representaram formas de resistência 
à expansãodo capitalismo desde quilombos até aos assentamentos de reforma 
agrária, movimentos sociais rurais, através de relações familiares, comunitárias, 
associativas ou cooperativas, têm organizado territórios para o desenvolvimento da 
produção de alimentos e outros produtos agrícolas. 
A luta por seus territórios foi uma das principais características da formação do 
campesinato brasileiro. A defesa dessas áreas gerou guerras como a de Canudos, 
na Bahia, no final do século XIX e as guerras contestadas de Paraná e Santa Catarina 
no início do século XX. Os massacres marcaram o século 20, com as lutas de 
resistência de Porecatu no Paraná na década 1940, de Trombas e Formoso em Goiás 
nas décadas de 1950/60. Na década de 1990, dois massacres marcaram a resistência 
dos movimentos camponeses. 
 
 
11 
 
Corumbiara em Rondônia, em 1995 e Eldorado dos Carajás em 1996. 
Entrando no século 21, em 2004, ocorreu o massacre de Felisburgo em Minas Gerais. 
A repressão aos movimentos limitou seus tempos de existência. Entre os movimentos 
mais atuantes do século XX, podemos destacar as Ligas Camponesas que operaram 
em quase todo o país, de meados da de cada de 1940 e se extinguiram com o golpe 
militar de 1964. 
A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG, 
fundada em 1963, é o primeiro movimento social do campo criado no Brasil. O 
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, cujo processo de fundação 
em teve início em 1978/79, mas foi oficialmente instituído em 198, é o segundo mais 
antigo (FERNANDES, 2000). 
Desde a década de 1990, diversos movimentos sociais rurais foram criados. 
Em 2010 o DATALUTA - Banco de Dados da Luta pela Terra - registrou as ações de 
96 movimentos sociais no campo brasileiro (NERA, 2010). 
A Via Campesina, fundada no início dos anos 1990 como Federação Mundial 
dos Movimentos Camponeses, tornou-se a principal protagonista da luta mundial pela 
defesa do campesinato e pelo desenvolvimento sustentável do campo. Em 2010, 
estava representada em sessenta e nove países das Américas, África, Europa e Ásia. 
No Brasil, ela é representada pelo MST, pelo Movimento dos Pequenos Agricultores 
– MPA, pelo Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, pelo Movimento das 
Mulheres Camponesas – MMC e pela Comissão Pastoral da Terra – CPT. 
(DESMARAIS, 2007). 
Os movimentos camponeses são conhecidos, principalmente, por suas lutas 
contra o agronegócio e por sua repressão às políticas da Organização Mundial do 
Comércio - OMC, que hoje também controla o mercado mundial de alimentos. A 
soberania alimentar tornou-se uma das mais importantes bandeiras dos movimentos 
sociais no meio rural, representando uma parte importante dos produtores de 
alimentos em diversos países. 
Esses movimentos defendem modelos de desenvolvimento em que 
reivindicam o direito de produzir a partir de seu próprio modo de vida. Por isso, 
disputam territórios com agroindústrias, o que gera conflitos de longo prazo. Essas 
 
 
12 
 
lutas são veiculadas diariamente pela mídia corporativa em que buscam criminalizar 
e desqualificar as ações dos movimentos. Uma pequena parte da população urbana 
conhece esses conflitos. Compreender essas realidades é essencial para 
compreender melhor o mundo moderno. 
4 MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA CAPITALISTA BRASILEIRA E A 
CONSTRUÇÃO DA AGROECOLOGIA 
 
Fonte: https://bit.ly/3BMhzcK. Acessado em: Nov 2021. 
 
Em um certo período de grandes acontecimentos históricos como as duas 
grandes guerras mundiais no século XX, é quando acontece a terceira revolução 
agrícola, cuja suas características principais foram: a introdução da mecanização na 
agricultura de grande escala, substituindo a tração animal; a criação de animais de 
maneira concentrada em grandes estábulos e a introdução da química, através da 
alteração genética de plantas e do uso intensivo de fertilizantes e pesticidas sintéticos. 
As duas grandes guerras tiveram um fator determinante para com a difusão 
do padrão capitalista de agricultura, tendo sua justificativa na chamada “revolução 
verde” que passa a ser adotada em vários países do mundo, especialmente, nos de 
clima tropical. Como uma estratégia capitalista para agricultura foi utilizada essa 
revolução verde, estruturada como uma forma de reaproveitamento dos restos de 
guerra, pois as indústrias bélicas, símbolo da produção destrutiva, e as indústrias 
químicas, haveriam de se utilizar de sua destruição criativa, em relação às sobras de 
 
 
13 
 
produtos que poderiam ser empregados em outro ramo de atividade lucrativo, como 
de fato ocorreu na agricultura. 
Assim, houve o aproveitamento de produtos, como tanques de guerra e gases 
mortais, que se transformaram em máquinas e venenos (agrotóxicos) a serem 
utilizados na sustentação da agricultura capitalista monocultora de grande escala, por 
meio do pacote de tecnologia da Revolução Verde, eles realizariam uma operação de 
guerra real no campo para atingir o nobre e declarado objetivo de acabar com a fome. 
E, obviamente, eles teriam lucros inesperados para seus investidores capitalistas, 
tanto na indústria quanto na agricultura (GROSSI, 2017). 
A criação de condições artificiais para aumentar a produtividade da produção 
agrícola para atingir o objetivo de erradicar a fome mostra a falácia da Revolução 
Verde, que o Brasil tirou da ditadura militar de 1964, como elemento central de seu 
processo. Encontrou forte apoio de empresas e setores agrícolas conservadores, com 
motomecanização. 
Delgado (2010), apud GROSSI, (2017) destaca, na modernização 
conservadora do regime militar (1964-1982), o papel da agricultura na economia 
brasileira, que passa a incorporar um elemento novo em relação ao período anterior, 
que se refere ao aprofundamento das relações técnicas da agricultura com a indústria 
e de ambos com o setor externo, com a subvenção da política agrícola e comercial do 
período. Segundo este autor, o processo de modernização técnica e de junção com a 
indústria. 
[...] é caracterizado, por um lado, pela mudança na base técnica de 
meios de produção utilizados pela indústria, materializadas na presença 
crescente de insumos industriais (fertilizantes, defensivos, corretivos do solo, 
sementes melhoradas e combustíveis líquidos); e máquinas industriais 
(tratores, colhedeiras, equipamentos de irrigação e outros implementos). Por 
outro, ocorre uma integração de grau variável entre a produção primária de 
alimentos e matérias-primas e vários ramos industriais, como oleaginosos, 
moinhos, indústrias de cana e papelão, fumo, têxtil e bebidas. Estes blocos 
irão constituir mais adiante a chamada estratégia do agronegócio, que vem 
crescentemente dominando a política agrícola no Estado (p.86). 
A defesa do progresso tecnológico e da inovação contínua para superar os 
limites naturais que se estabeleceram como barreiras foi a base fundamental para o 
desenvolvimento da agricultura industrial. No entanto, apesar de todos os 
investimentos industriais para controlar esses fatores naturais, a produção agrícola 
 
 
14 
 
não pode ser separada dos ciclos e reações da natureza. E desde então, e até hoje, 
são estes limites que desmentem esta crença no progresso infindável da tecnologia, 
uma vez que a agricultura capitalista passou a se constituir não só Mônica Grossi 
como grande causadora dos problemas ambientais, mas também como o setor mais 
afetado negativamente por esta perspectiva de desenvolvimento. 
Motta e Mendonça (in MOTTA, 2005) ao analisarem a penetração do 
capitalismo no campo brasileiro, sobretudo a partir da década de 1970, quando se 
fortalece a fusão entre agricultura e indústria, dando origem aos Complexos 
Agroindustriais – CAIs – representantes do moderno padrão de agricultura, destacam 
a afirmação de dois padrões de produção rural, o capitalista e o da agricultura familiar. 
E por esta percepçãohegemônica do capitalismo, a realização da reforma agrária é 
vista como desnecessária para o tipo de desenvolvimento proposto e “naturalizado” 
pela modernização do agronegócio. 
O resultado de todo este processo, no final dos anos de 1970, se apresenta 
através de elementos contraditórios, uma vez que a modernização intensa da 
agricultura, alcançada com o estímulo e apoio do Estado brasileiro, representaram ao 
mesmo tempo, um extraordinário avanço tecnológico e do processo de urbanização, 
e uma elevação exponencial da desigualdade e da queda nas condições de vida no 
campo. É justamente este contexto que cria as condições para a afirmação do 
agronegócio, que desenvolve a atividade agrícola, absolutamente articulada e 
dependente da produção industrial, e também passa a ter domínio sobre a pesquisa 
científica, financiando estudos ligados aos objetivos das empresas transnacionais. 
Mendonça (2006) apud GROSSI, (2017) analisa a relação entre a questão 
agrária e a reforma agrária, enfatiza a reflexão política contribui com elementos 
fundamentais para a formação e conformação das classes dominantes agrárias como 
um dos frutos mais importantes da modernização da agricultura brasileira. As redes 
que compõem as frações do capital - agricultura, indústria e finanças - tornam-se mais 
complexas e sobrecarregam os trabalhadores agrícolas sob a hegemonia do 
agronegócio no Brasil com deslocamentos, êxodos rurais, miséria e, claro, grandes 
conflitos. E esta situação de conflito no país demonstra, assim, o questionamento da 
legitimidade do governo operário. 
 
 
15 
 
Sobre a modernização da agricultura brasileira, Alentejano (In: MOTTA, 2005) 
destaca que a relação entre a agricultura e o meio ambiente deste modelo agrícola 
produz uma profunda inversão do princípio tradicional que regia a agricultura em 
termos de adaptação à diversidade ambiental e sua vinculação com dietas 
diversificadas. Esse modelo adquire agora sua expressão máxima com o domínio do 
agronegócio, que sustenta um processo de padronização da agricultura o qual 
(...) se impõe à diversidade ambiental, artificializando os ambientes 
e adequando-os ao padrão mecânico-químico da agricultura moderna, ao 
mesmo tempo em que impõe a todos os povos um padrão alimentar que 
atende aos interesses das grandes corporações agroindustriais (p. 478). 
Estes elementos deram fundamento a crítica em relação a agricultura 
capitalista, sob o domínio do agronegócio, responsável pela desigualdade condição 
social e ambiental do meio agrário, que se expressa: no controle e acesso à terra com 
a manutenção do latifúndio, através da mecanização e quimificação das lavouras; no 
trabalho precário e escravo; na violência e expulsão de famílias do campo; associando 
à monocultura, o aumento do uso de agrotóxicos e a introdução de cultivos 
transgênicos. 
O modelo de agricultura capitalista do agronegócio se afirmar, então, como o 
principal responsável pela crise alimentar mundial, pois, ao tratar a terra, as sementes 
e os alimentos produzidos como mercadorias vem comprometendo a segurança 
alimentar, que além de não ter sido alcançada com a revolução verde, foi ainda 
agravada 
As mudanças operadas no padrão do desenvolvimento tecnológico produtivo 
da agricultura, não alteraram o padrão da estrutura agrária vigente, conservando e 
agravando o nível de desigualdade na distribuição da posse e uso da terra. As 
consequências sociais e ambientais deste modelo perverso de agricultura, 
reconhecidas em nível mundial, sustentam e justificam a ideia de construir uma 
agricultura alternativa a este modelo através da agroecologia. 
Sevilla Gusmán (2006) apud Medeiros (2015) nos ensina que a agroecologia 
tem como eixo estruturante as seguintes premissas: o homem é parte constitutiva e 
se relaciona histórica e socialmente com a natureza, junto com outras espécies 
animais, vegetais e os recursos naturais; o contexto sociocultural e humano tem 
 
 
16 
 
presença marcante na agroecologia; a dimensão técnica e ambiental se consolida a 
partir do diálogo, da experimentação, da confrontação-complementação entre o 
saber/cultura campesina e o saber técnico-científico; a dimensão política implica na 
defesa da biodiversidade, do ponto de vista critico, que se confronte com o 
capitalismo, força hegemônica no modelo de agricultura convencional. 
A agroecologia tem como objetivo, para além da identificação e difusão de 
técnicas alternativas para a agricultura, pautar a questão da sustentabilidade da 
agricultura e do meio rural e suas implicações para a sociedade. Assim, este debate 
coloca em questão a relação sociedade-natureza, no sentido de criar uma nova 
conscientização social, estando aí implicada a criação de novas formas políticas e 
ideológicas. A agroecologia ao ultrapassa o enfoque das necessárias mudanças no 
padrão técnico da agricultura ampliando-se, tornando indispensáveis as 
transformações políticas em toda sociedade. 
Estas questões apontam os desafios políticos que se abrem aos movimentos 
sociais do campo, particularmente ao MST, e as possibilidades de convergências com 
outros sujeitos coletivos, como os movimentos ambientalistas, e especialmente com 
aqueles que se articulam em torno da defesa da produção de uma agricultura 
contraposta ao modelo capitalista de agricultura hegemônico. 
5 QUESTÃO AMBIENTAL, REFORMA AGRÁRIA E AGROECOLOGIA: 
DESAFIOS POLÍTICOS AO MST 
 
Fonte: https://bit.ly/3mIZ1WK. Acessado em: Nov 2021. 
 
 
17 
 
 
O MST, criado em 1984, tem a sua trajetória marcada por três objetivos: a 
terra, a reforma agrária e a transformação da sociedade, que foram buscados 
inicialmente através da ocupação da terra, que parte de um movimento de resistência 
e defesa dos interesses dos trabalhadores. E a estratégia de ocupações teve que ser 
revista e defendida, como instrumento legítimo para a conquista dos objetivos 
propostos pelo movimento. 
Entre as lutas mais importantes ou mais restritas levadas adiante pelo MST, 
interessa-nos, particularmente, conhecer o processo de politização do que definimos 
como “questão ambiental”, o qual acontece a partir de ações coletivas e mudanças 
políticas e institucionais, tendo como foco uma perspectiva que vise transformações 
societárias. 
Esse enfrentamento deve desvelar, entre outras dimensões, as 
desigualdades de poder sobre os recursos naturais e os conflitos, as tensões e os 
embates entre as classes sociais que se constituem pela participação desigual na 
estrutura produtiva e na desigualdade na distribuição e apropriação dos bens 
socialmente produzidos a partir das relações entre sociedade e natureza. 
Pretendemos analisar as potencialidades e desafios do MST, buscando articulações 
em torno da questão ambiental como eixo estratégico no combate ao capital 
considerando a adoção da agroecologia como estratégia produtiva e política e a 
reforma agrária popular do MST. 
No decorrer dos anos de 1984 a 1989, o MST iniciou seu processo de 
territorialização pelo Brasil, intensificando o processo de formação do campesinato. 
Os efeitos políticos da ocupação de terras fizeram dos sem-terra os mais importantes 
interlocutores na disputa com o Estado, na luta pela reforma agrária, na crítica ao 
modelo agrícola convencional e na defesa da segurança alimentar (Fernandes, 2000 
apud GROSSI, 2017). 
A expansão do MST exigiu mudanças em sua organização interna, que 
ocorreram historicamente, tendo-se criado setores, frentes, comissões, coletivos, 
entre outros, para atender às demandas que lhes eram impostas. Nesse sentido, tem 
 
 
18 
 
se fortalecido a organicidade do setor produtivo, cooperativo e ambiental, que se 
baseia no princípio de 
(...) não separar nas lutas pela terra e pela reforma agrária a 
dimensão econômica da dimensão política. Neste sentido se 
estabelece a necessária relaçãoentre a organização simultânea da 
cooperação agrícola e das ocupações; o investimento na formação 
dos sem-terra, tendo em vista as transformações da estrutura 
produtiva (MORISSAWA, 2001, p. 206). 
A resolução de que o meio ambiente deveria ser um tema transversal na 
organização deste Movimento, vem fortalecer a busca de novas referências para os 
assentamentos, ao nível do seu desenvolvimento numa perspectiva ampla, tendo em 
conta os aspectos sociais, económicos e ecológicos, com enfoque na acumulação de 
forças. Nessa perspectiva, tornou-se necessário pensar o meio ambiente de forma 
articulada com o processo produtivo e a cooperação agrícola. 
O assentamento é o renascimento da vida humana e da 
natureza’ e por esta razão o MST tem estimulado a prática 
agroecológica, desenvolvendo uma nova forma de produzir que não 
prejudique o ser humano nem a natureza. Desde o ano de 1998 que a 
CONCRAB tem implementado diversas atividades relacionadas com 
o meio ambiente, com a promoção de uma ampla discussão nos 
assentamentos sobre como preservar os recursos naturais, o estímulo 
a campanhas de plantio de árvores e reflorestamento, a realização de 
estudos para sistematizar experiências de preservação do meio 
ambiente para servir de intercâmbio entre os assentados e difusão na 
sociedade, seminários de integração com outras entidades a fim de 
aproximar as teses ambientalistas com as da reforma agrária.[...]O 
MST inovou na produção das primeiras sementes orgânicas de 
hortaliças no país [...] produzidas pela primeira vez sem a utilização 
de nenhum tipo de agrotóxico ou insumo químico [...] O MST tem 
atuado na defesa da natureza não apenas implementando a 
agroecologia, mas também realizando mobilizações nos âmbitos 
nacional e internacional, contra o uso de métodos agrícolas que 
coloquem em risco a vida do planeta (MST, 2003, p. 10) 
A análise dos documentos produzidos nos congressos nacionais do MST 
mostra quais mudanças ocorreram no processo de construção de sua proposta de 
reforma agrária e como a questão ambiental está sendo tratada e fortalecida. As 
cartas destes congressos e os lemas adotados para o direcionamento das linhas 
políticas de atuação sinalizam seu processo de amadurecimento e fortalecimento, 
abrangendo estratégias de resistência e ofensiva. 
 
 
19 
 
Os dois primeiros congressos nacionais do MST foram realizados como parte 
de seu processo de territorialização, com uma clara necessidade de organização 
interna para validar a estratégia de ocupação de terras, como um instrumento legítimo 
de luta e para o monicsdesenvolvimento da produção coletiva dos assentamentos 
conquistados. Destaca-se a defesa da luta pela terra com as ocupações e a 
resistência na terra dos assentamentos, impôs grandes desafios ao MST, 
principalmente no que se refere à produção da agricultura camponesa em áreas com 
diversos problemas ambientais, como a degradação e contaminação dos solos e dos 
recursos hídricos. 
Tornou-se necessário o fortalecimento da autonomia política e financeira e 
elaborar uma proposta política e organizativa para o setor produtivo. Diante destes 
desafios o MST adota a estratégia de aproximação do campo com a cidade visando 
à urbanização da reforma agrária. O lema adotado no I Congresso Nacional (1985) 
“Sem reforma agrária não há democracia: Ocupação é a única solução” e no II 
Congresso (1990), ”Ocupar, resistir, produzir”, expressam esta conjuntura do 
movimento. 
É importante dizer que mesmo com o esforço envidado pelo MST para a 
organização da produção da agricultura através da cooperação, foi impossível não 
reproduzir o modelo de agricultura capitalista, considerando inclusive a vinculação 
do repasse de crédito à adoção do pacote tecnológico hegemônico. 
No entanto, a criação das Cooperativas de Produção Agrícola – CPAs, e 
da Confederação de Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil – CONCRAB 
foram significativas para o processo de desenvolvimento econômico e social, e 
para o fortalecimento do modelo de cooperação que aborda as primeiras 
experiências de produção alternativa. Ao adotar o lema "Reforma Agrária: uma 
Luta de Todos", no III Congresso (1995) o MST buscou desenvolver a estratégia 
de aproximação campo e cidade trazendo para a toda a sociedade o debate em 
torno da importância e necessidade da reforma agrária, realizando neste período, 
ocupações em Brasília e duas grandes marchas nacionais, em 1997 e 1999. 
Em relação à proposição da reforma agrária e sua relação com a questão 
ambiental neste congresso, o MST já sinaliza a mudança necessária da produção 
 
 
20 
 
abrangendo a adoção de tecnologias adequadas ao processo de recuperação e 
preservação dos recursos naturais para a garantia da segurança alimentar. 
É de grande relevância destacar que a partir do IV Congresso (2000) a 
agroecologia passa a ser considerada como um processo de construção de outro 
modelo de produção em clara oposição ao modelo das classes dominantes que 
impõem os transgênicos, sob o comando das empresas transnacionais do 
agronegócio. 
A luta pela eliminação do latifúndio e da violência no campo se traduz no 
lema: "Reforma Agrária: por um Brasil sem Latifúndio" e expressa uma resposta 
do movimento aos dois grandes massacres de trabalhadores rurais ocorridos em 
Corumbiara (RO), em 1995, e em Eldorado dos Carajás (PA), em 1996. 
Este congresso reafirmou a importância do debate sobre temas importantes 
como: meio ambiente, biodiversidade, água doce, defesa da bacia do São Francisco 
e Amazônia. Em seu documento final, condenou as políticas agrícolas do governo e 
propôs medidas concretas para a construção de um novo modelo tecnológico que seja 
ambientalmente sustentável e garanta produtividade, viabilidade econômica e bem-
estar social. 
O V Congresso Nacional (2007), com o lema “Reforma Agrária: por Justiça 
Social e Soberania Popular”, representou uma tomada de deliberações em torno da 
defesa de uma proposta de reforma agrária de diferente, onde o discurso 
ambientalista se destaca como parte da reforma e como luta para toda a sociedade. 
A defesa do planeta contra as inúmeras formas de agressão do capital passa 
a se constituir numa questão de sobrevivência da humanidade, o que exige e desafia 
a participação de toda sociedade. Nesta direção, o V Congresso tirou como linha 
política prioritária do MST, o fortalecimento das alianças, considerando que a adoção 
da representação ambiental requer o estabelecimento de diálogo entre todos setores 
da sociedade, passando a ser um dos pilares do trabalho de base do MST. 
O VI Congresso Nacional do MST (2014) adquiriu o lema: “Lutar, Construir 
Reforma Agrária Popular”. Dentre os objetivos estabelecidos, destacamos: eliminar a 
pobreza no campo; combater a desigualdade social, a exploração dos camponeses e 
 
 
21 
 
a degradação da natureza; garantir a soberania; alimentar de toda população 
brasileira; preservar a biodiversidade vegetal, animal e cultural de cada região do 
Brasil, responsável por nossos diferentes biomas; garantir melhores condições de vida 
através de trabalho, renda, educação, moradia e lazer; defesa da participação 
igualitária das mulheres e de melhores oportunidades e condições para a 
permanência no campo, principalmente da juventude. 
As mudanças necessárias são apresentadas através de medidas 
consideradas fundamentais e complementares reunidas em torno de pontos, sendo 
alguns mais diretamente relacionados à questão ambiental, onde destacamos a 
defesa não apenas da terra que precisa ser democratizada, mas também da água 
como bens dos povos e que deve estar a serviço de toda a humanidade; a organização 
da produção agrícola voltada para o cultivo de alimentos saudáveis e diversificada, 
como garantia do princípio da soberania alimentar através da agroecologia, gerando 
uma nova base alimentar. 
O novo modelo tecnológico assumiu como uma das medidas necessárias, a 
massificaçãoda agroecologia através da capacitação, prática e troca de experiências, 
produção, distribuição e controle de sementes, da criação de um organismo público 
de certificação dos alimentos agroecológicos. Também se reafirma a necessidade de 
ruptura com a propriedade intelectual de patentes de variedades, sementes, recursos 
naturais ou sistemas de produção; a criação de máquinas e equipamentos agrícolas 
adaptados à agricultura camponesa e a implementação de um programa nacional de 
reflorestamento tanto nas áreas degradadas pelo agronegócio quanto em 
assentamentos. 
A reforma agrária popular do MST também reafirma a necessidade de novas 
ações governamentais, agregando demandas que vão além da luta pelo acesso à 
terra e pela eliminação de grandes propriedades, como acesso à saúde e educação. 
O MST sustenta que a proposta de reforma agrária se baseia na democratização da 
terra, mas que a produção agroecológica visa produzir alimentos saudáveis, de forma 
sustentável para toda a população brasileira, o que certamente não é possível no 
modelo agronegócio. 
 
 
22 
 
Para o MST (2013, p. 6), a implantação da reforma agrária popular está 
condicionada ao avanço das seguintes questões: capacidade de pressão sobre os 
governos obtendo conquistas (fator importante na luta de classes e na formação da 
consciência política da militância, porém insuficiente);correlação de forças no 
enfrentamento ao agronegócio; fortalecimento interno da organização do movimento; 
construção nos assentamentos e em outros espaços conquistados, do novo modelo 
de agricultura; construção e fortalecimento de alianças com a classe trabalhadora do 
campo e da cidade; construção de consensos em torno da compreensão e defesa de 
outro modelo de agricultura e democratização do Estado. 
A efetivação da proposta de reforma agrária do MST exige enfrentar uma 
infinidade de desafios, entre os quais destacamos: aumentar a consciência social, 
política e cultural de sua base social, e dos camponeses em geral; transformar os 
assentamentos desenvolvendo a agroecologia como estratégia de produção agrícola 
garantindo a soberania alimentar, respeitando o meio ambiente e a produção de 
alimentos sadios, combinada com áreas reflorestadas, com defesa da água e da 
biodiversidade (MST, 2007). 
Mauro (2014, apud GROSSI, 2017) ressalta que a nova leitura do movimento 
de reforma agrária no contexto atual deve levar em conta um amplo debate na 
sociedade brasileira sobre os seguintes questionamentos: “que uso a humanidade, 
particularmente os brasileiros, quer dar à terra, à água, à biodiversidade, aos recursos 
naturais em geral? Que tipo de comida queremos consumir? E que paradigmas 
tecnológicos de produção usaremos no próximo período? ” 
Neste sentido, a disputa de consensos em torno da opinião pública sobre 
estas questões se coloca como central, uma vez que o uso atual destes recursos e a 
produção da agricultura, sob a hegemonia do capital, reforçam a ideia de que a 
reforma agrária se tornou desnecessária. 
A necessidade e atualidade da reforma agrária passa pela construção de 
consensos em torno da ideia de outro uso aos recursos naturais, com a produção de 
outro tipo de alimentação com redução dos impactos ao meio ambientais, e, 
principalmente, colocando os trabalhadores da terra como eixo deste processo. 
 
 
23 
 
Leblon analisa a relevância do MST e enfatiza a necessidade de suas ações 
para interferir na relação entre reforma agrária e problemas ambientais. Concluímos 
com o autor que a chave do novo horizonte agrário é, sem dúvida, a questão ambiental 
e que este é um grande desafio produtivo e político para o MST. 
As imbricações entre a questão agrária e a urgência climática 
padecem, ademais, de uma quase uniforme negligência no debate 
programático da frente progressista que apoia o governo.[...]são agendas 
gêmeas indecifráveis de fato, enquanto mantidas dissociadas ou apenas 
vinculadas de forma ornamental nas prioridades de Estado.Uma, 
remanescente do século 19; a outra, contemporânea da exacerbação 
capitalista em nossos dias.Juntas, ao lado de outras, aguardam o 
desassombro de um protagonista político, capaz de arrastar tempos 
históricos distintos, dando-lhes a coerência impensável fora de uma agenda 
transformadora”.“Não é pouco, como se vê, o que desafia o MST a se 
reinventar. Mas é isso que o faz necessário.E, indispensável, se for capaz de 
sacudir e romper as trancas que isolam o mundo rural - e a natureza - do 
debate sobre o novo ciclo de desenvolvimento do país (LEBLON, 2014,p.3). 
Assumindo a agroecologia como estratégia produtiva e política, o MST reúne 
elementos que fortalecem sua proposta de reforma agrária popular, na disputa por 
outro modelo de produção agrícola, contribuindo para o processo mais amplo de 
politização da questão agrária, social e ambiental no Brasil. Criticar o atual modelo 
agrário e agrícola dominante requer o apoio da agroecologia, em oposição ao modelo 
agroindustrial que está minando as duas fontes de produção de riquezas que são a 
natureza e o trabalho, gerando violência, exploração do trabalho e devastação 
ambiental. 
6 REFORMA AGRÁRIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 
Num país dominado produtiva e politicamente por latifúndios, que além de ter 
sido moldado pela degradação ambiental, que persiste desde sua colonização, não 
parece fazer muito sentido questionar a relação inevitavelmente positiva entre 
sustentabilidade e democratização ao acesso à terra para esses latifundiários. 
O argumento mais simples é a premissa de que a pequena agricultura ou 
agricultura familiar significaria automaticamente maior harmonia entre o homem e a 
natureza, por ser mais diversa ecologicamente e heterogênea social e territorialmente. 
A realidade, entretanto, mostrou o idealismo que reside em tal axioma, mesmo que o 
 
 
24 
 
alcance e a velocidade da devastação causada pela agricultura convencional sob o 
regime de grandes propriedades sejam claramente incomparavelmente maiores 
(FASE, 2005 apud MACIEL, 2008). 
A crescente conquista de projetos de assentamento (AP’s) nas décadas de 
80 e 90 do século passado levou ao mito moderno do agricultor em equilíbrio com o 
meio ambiente sendo colocado à prova na prática em uma variedade de situações 
concretas, algumas delas traumáticas. O caso da Reserva Biológica Poço das Antas, 
no Rio de Janeiro, é exemplar nesse sentido (vide PEREIRA, apud MACIEL, 2008). 
 Ao mesmo tempo, os movimentos ambientalistas passaram a fazer parte 
junto no imaginário de uma crescente população urbana, um lugar de igual destaque 
ou superior ao da Reforma Agrária, e a disputa pela terra teve de incorporar pouco a 
pouco a preocupação com a sustentabilidade ecológica e a viabilidade ambiental dos 
empreendimentos e dos assentados. Novas palavras de ordem se impuseram: não 
basta ser pequena propriedade familiar, há que se contrapor ao sistema excludente 
da agricultura convencional (MACIEL, 2008). 
Relacionado a esse último aspecto, vale ressaltar que o modelo empresarial 
da “Revolução Verde”, fortemente subsidiado pelo Estado, mostrou-se cada vez mais 
ameaçado diante dos evidentes problemas sócio-ambientais que gerou, enfatizando 
a ausência de um projeto alternativo que pudesse equilibrar justiça social e ecologia. 
A Reforma Agrária, desse modo, não poderia ser, portanto, a reprodução, em escala 
familiar, nem da miséria reinante no universo camponês tradicional, nem da 
dilapidação da natureza encabeçada pelo agronegócio (MACIEL, 2008). 
Não se deve esquecer que os despejos efetivos do campo, desde a década 
de 1950 surgiram dos mesmos avanços tecnológicos (representados pela 
mecanização como metáfora da agricultura moderna) e das novas relações sociais de 
produção exigidas pelo setor empregador. Os salários, vistos por setores da elite 
intelectual como a única perspectiva futura do trabalho agrícola, mostraram-se 
altamente seletivos ou precários,resultando em um exército de reserva que 
condensou a “urbanização patológica” do país e alimentou tensões permanentes no 
campo (MARTINS, 2001 apud MACIEL, 2008). 
 
 
25 
 
Esse impasse levaria a análises mais ou menos estruturalistas, que viam a 
reforma agrária como um dos pré-requisitos para uma mudança geral e revolucionária 
da sociedade. As argumentações nesses discursos incluíram, entre outras coisas, o 
padrão tecnológico, o perfil da propriedade da terra, a regulamentação dos direitos 
trabalhistas e, apenas recentemente, as condições de sustentabilidade ecológica na 
agricultura brasileira foram inclusas na discussão. 
Os elementos centrais das interpretações estruturalistas têm sido quase 
sempre as relações entre patrimonialismo, poder político e papel do Estado, 
categorias que se classificam na gênese dos fenômenos posteriores, conforme explica 
Maria Nazareth Wanderley: 
“A modernização da agricultura se efetuou sobre a base de 
relações sociais que cristalizaram o predomínio do proprietário 
sobre o produtor. Isto é, a propriedade da terra constitui no Brasil 
um elemento organizador da atividade agrícola. O caráter produtivo 
da agricultura é aqui subordinado à dinâmica gestada a partir da 
propriedade fundiária” (WANDERLEY, 1990 apud Maciel, 2008). 
Essa natureza de subordinação da agricultura às grandes propriedades no 
meio rural brasileiro é inegável, mas ainda é difícil pensar em outras variáveis que, 
nos últimos tempos, têm levado a mudanças importantes no cenário. Em suma, as 
veracidades dessas leituras podem ter influenciado a importância que os movimentos 
sociais têm dado às reivindicações territoriais e, por outro lado, contribuído para 
retardar o surgimento de uma questão ambiental na luta pela Reforma Agrária. O meio 
ambiente seria um campo inserido a posteriori nas abordagens sobre a gênese dos 
problemas da agricultura no Brasil. 
Explicar o problema ambiental em meio ao pensamento acadêmico ou na 
bandeira histórica da reforma agrária é, portanto, repleto de grandes dificuldades. 
Pode-se observar o desenvolvimento de diferentes posicionamentos, que vão desde 
a denúncia de práticas predatórias em assentamentos rurais por um ambientalismo 
conservador até a formação de correntes de "sustentabilidade" no interior ou paralelas 
a movimentos sociais existentes como o próprio MST. E diversas Organizações Não-
governamentais (ONGs). 
 
 
26 
 
Na década de 1990, o debate sobre o papel da reforma agrária sem dúvida 
mudou muito, e talvez esse componente ecológico implícito constitua a novidade ou 
o ponto mais sensível do assunto, bem como a natureza da "revolução popular" 
subjacente ao tema desde o seu surgimento enquanto problema nacional em meados 
do século XX. 
Com um dos maiores índices de Gini do planeta (OXFAM, 2016), referente à 
propriedade fundiária no Brasil, a implantação da reforma agrária é uma base 
necessária para a construção de condições socioeconômicas e ambientais justas e 
favoráveis no país. Dito isso, a construção de assentamentos rurais, mesmo em suas 
piores condições, revela a importância do parcelamento rural e da redistribuição do 
território como possibilidade de inclusão social, transformação regional e territorial e 
luta rendas fundiárias contrastantes (HORA et. al., 2019). 
 
Não podemos deixar de incluir o papel das ONG’s neste processo, bem como 
o surgimento de inúmeras iniciativas regionalizadas de gestão do espaço natural, 
dentre as quais o movimento dos seringueiros, na Amazônia, o movimento das 
quebradeiras de côco babaçu no Maranhão e Piauí, as articulações de entidades para 
o desenvolvimento de uma agricultura adaptada ao semiárido, no Nordeste e o 
movimento dos atingidos por barragens no Sul/Sudeste. O pluralismo dos sujeitos 
sociais herdado deste período recente contribui para uma diversidade e energia 
criativa da sociedade brasileira, tantos anos reprimida (MACIEL, 2008). 
As tendências contemporâneas, cujo alcance é difícil de resumir, podem ser 
ilustradas com diferentes formas de olhar para o componente “meio ambiente”. No 
campo da agronomia e da natureza, incluindo parte da geografia, existe um pólo que 
poderia ser denominado “agroecossistêmico”, como em MAZZETO (2001; s/d), 
PEREIRA (2005) ou PETERSEN (1996) apud MACIEL (2008), onde o destaque é ora 
colocado na ecologia da paisagem como diagnóstico, ora no planejamento 
participativo de gestão do meio ambiente com caminhos para a criação de 
assentamentos e sistemas agrícolas sustentáveis. 
Estudos de Leite et. al. (2004) apud Hora et al (2019) indicam a relevância 
dos assentamentos rurais no desenvolvimento e dinamização da economia local. 
 
 
27 
 
Entretanto, segundo os autores, na “ausência de qualquer política governamental 
preestabelecida de desapropriações, a localização e o tamanho das áreas destinadas 
a assentamentos têm muito de aleatório” (LEITE et. al., 2004, p. 74), que é o resultado 
de conflitos agrários e pressões locais. Muitos fatores podem estar associados ao 
baixo nível de desenvolvimento produtivo e organizacional dos assentamentos rurais, 
incluindo localização, qualidade do solo, disponibilidade de água, energia, estradas e 
o tipo de parcelamento adotado. Embora esses aspectos não sejam decisivos para o 
sucesso da política de assentamentos rurais, a correta implantação dos 
assentamentos contribui não só para a qualidade de vida local, mas também para a 
otimização dos recursos financeiros em termos de disponibilidade de infraestrutura 
apud (MACIEL, 2008). 
O papel da assistência técnica e das formas de associação é de fundamental 
importância nesta abordagem, que visa garantir uma ampla associação de 
conhecimentos entre agricultores e cientistas e permitir a comercialização ativa da 
produção através de cooperativas e outras estratégias de rede., incluindo o comércio 
solidário. Experiências diversas têm sido catalogadas em todo o Brasil, culminando 
com a realização de dois Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA), o último deles 
realizado em Recife, em junho do presente ano. Amplamente dominado por ONG’s, o 
evento teve uma participação ativa de assentados, muitos vinculados ao MST (o que 
é uma novidade), mas também das federações de sindicatos rurais, grupos de 
mulheres e associações de pequenos produtores (MACIEL, 2008). 
Por outro lado, autores mais liberais, como RICCI (2000) apud Maciel, (2008)., 
acolhem com agrado o surgimento do que chamam de: 
 Novos Movimentos Sociais, possivelmente antagônicos às 
organizações ideológicas que dominaram a cena até então, em particular o 
Movimento dos Trabalhadores Rurais. Ressaltam que esses novos sujeitos 
sociais, também vinculados à propriedade fundiária, teriam formas de 
atuação caracterizadas por um "hibridismo sociocultural" baseado no 
"sincretismo de elementos democráticos e patrimoniais”, onde a luta 
(pressão) seria substituída pela parceria (colaboração) com diversas esferas 
institucionais, como ONG’s, Estado, prefeituras, visando otimizar a gestão 
pública do território. 
Neste modo de pensar, os novos governantes seriam mais propensos a incluir 
as especificidades locais em sua pauta, assim lidariam melhor com a gestão 
sustentável do meio, o que é no mínimo controvertido. Deixar de lado, relativamente 
 
 
28 
 
a perspectiva histórica tampouco ajuda a compreender as dificuldades inerentes às 
rugosidades espaciais e limitações impostas por processos sociais e políticos 
profundamente arraigados em determinados territórios, como é evidente na zona 
canavieira de Pernambuco. Nessa região como em muitas outras partes do país, o 
surgimento de novos atores se dá sobre estruturas arcaicas, sem as quais nada pode 
ser corretamente compreendido (MACIEL, 2008). 
Como quer que seja, há uma busca por explicações mais pragmáticas, uma 
vez que as análises de cunho marxista persistem em sua retórica macroestrutural, 
onde a natureza e o espaço geográficoparecem estar ausentes ou representar meros 
suportes para a renda fundiária, origem de todos os males. Diz Martins (2001) apud 
Maciel, 2008), aproximando-se de Wanderley “[...] no Brasil a questão agrária [é] 
relativa à irracionalidade econômica da renda da terra para a reprodução ampliada do 
capital. O capital se revela, nos episódios da ocupação da Amazônia e da resistência 
à reforma agrária, nas últimas décadas, como capital rentista, diverso do capital e do 
modelo de capitalismo próprio dos países desenvolvidos. A questão agrária se 
apresenta como questão social, o desenraizamento como fonte de injustiças e 
problemas sociais. […] essa expressão fenomênica da questão agrária tem grande 
poder de arregimentação, com base mais numa indignação moral do que 
propriamente num projeto político. ” 
Raramente enxergam o meio ambiente como um de seus componentes 
aqueles que enfatizam a dimensão política do problema agrário. A contradição 
fundamental dos movimentos sociais fundiários é o reconhecimento do caráter 
conservador da agricultura familiar, rica em valores tradicionais, e não uma 
necessidade de discutir a sustentabilidade ambiental do modelo da modernização. Ele 
sugere, a partir desse diagnóstico, que os movimentos sociais deveriam apoiar o 
estabelecimento de alianças que dessem continuidade às conquistas recentes dos 
governos democráticos, em sua opinião relevantes. (MACIEL, 2008). 
Contudo, mesmo no campo progressista há posições divergentes, como fica 
claro nas declarações do geógrafo Bernardo Mançano Fernandes (1998) apud Maciel, 
(2008), assessor do MST: 
 
 
29 
 
“a luta pela reforma agrária é uma luta contra o capital. A não ser considerada 
dessa forma, a reforma agrária pode se tornar uma arma do capital. ” Observa-se, 
portanto, que partindo de mesmos referenciais pode-se chegar a horizontes 
dicotômicos, cujo único elo em comum é considerar o aspecto ambiental como um 
desdobramento totalmente subordinado às relações capitalistas de produção, quando 
não irrelevante. 
Por fim, verifica-se que apesar da manutenção de alguns esquemas 
explicativos não afetados pelo tema da sustentabilidade ambiental, este é o conceito 
mais perseguido hoje, quaisquer que sejam os significados a ele atribuídos. Dentre os 
economistas, uma busca pelas especifidades locais e suas potencialidades e 
limitações cresce vigorosamente, como mostra Ricardo Abramovay (1998) apud 
Maciel (2008): 
“A dimensão territorial do desenvolvimento vem despertando cada 
vez mais o interesse dos cientistas sociais […] A idéia central é que o 
território, mais que simples base física para as relações entre indivíduos e 
empresas, possui um tecido social, uma organização complexa feita por laços 
que vão muito além de seus atributos naturais e dos custos de transportes e 
de comunicações. Um território representa uma trama de relações com raízes 
históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel 
ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico. ” 
Para os geógrafos, as noções de desenvolvimento local e território abrem um 
vasto leque de debates. O interesse comum de várias áreas do conhecimento sobre 
tais temas conduz ao debate transdisciplinar sobre a agricultura sustentável. As 
diferentes estratégias e sistemas agrícolas adotados pelo MST ou por outros 
movimentos sociais no meio rural brasileiro revelam a requalificação da questão 
agrária face ao imperativo ecológico, deixando transparecer que as disputas e tensões 
entre os atores envolvidos também se dão na esfera do como produzir. Os estudos 
acerca das potencialidades da agroecologia nos assentamentos são promissores 
(BRASILEIRO, 2006 apud MACIEL, 2008). Pode-se dizer, então, que o 
esclarecimento da dinâmica sócio-territorial da sustentabilidade da agricultura vem 
pouco a pouco se impondo ao pensamento sobre a Reforma Agrária no Brasil. 
 
 
30 
 
7 O MST E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 
A noção de sustentabilidade, ou desenvolvimento sustentável, não se 
encontra “naturalmente” associada à questão agroecológica. Somente quando o 
debate sobre a crise ambiental está vinculado às áreas rurais é que ele é visto como 
agrícola e/ou agrários. Frequentemente, a idéia de sustentabilidade é utilizada para 
tratar de problemas ambientais ou socioambientais (NETO et al, 2002). 
Mesmo quando o “discurso do desenvolvimento sustentável” é abrangente a 
partir de um plano generalisado, ele é visto como parte de um “emaranhado de 
Canrobert Costa Neto e Flaviane Canavesi proposições”. Deste modo, “toda a 
profusão de discursos em favor do desenvolvimento sustentável acoberta e deixa 
volátil a noção de sustentabilidade”. Segundo Canuto, “se concebemos 
sustentabilidade apenas como o uso prudente dos recursos hoje para os ricos de 
amanhã, de toda maneira salvaguardaremos por algum tempo mais a sustentabilidade 
ecológica. Mas a exclusão do ambito social esvazia a própria idéia do 
desenvolvimento” (Canuto, 1998 apud NETO et al, 2002). 
Sendo o MST um dos principais movimentos sociais aparecidos na retomada 
da luta pela terra no Brasil democrático, qual o seu papel e a sua participação na 
construção de um “novo modelo” de agricultura? Melhor dizendo, quais as concepções 
de desenvolvimento sustentável que se expressam em seu bojo? 
Ainda em 1990, a mais expressiva liderança do movimento, Joao Pedro 
Stédile, transparecia a opacidade do alto comando quanto às necessidades de 
transformar as maneiras de explorar os recursos naturais na agricultura, ao afirmar 
que nos assentamentos devia-se desenvolver ao máximo a mecanização, a 
tecnologia, a agroindústria etc, completando de forma fatalista: “ não é só uma 
maneira de aumentarmos a produtividade do trabalho. É a única forma de se 
desenvolver como um assentamento e se opor ao modelo da burguesia ”. 
(MEDEIROS, 1993 apud MACIEL, 2008). 
Como coroamento do discurso “produtivista” observa-se a defesa 
intransigente da coletivização do trabalho e das formas do habitat rural (as agrovilas), 
uma receita repisada pelo MST durante a escalada de ocupações de terra que o 
 
 
31 
 
colocaria como a estrela maior de resistência popular ao neo-liberalismo e ao 
agronegócio. É preciso reconhecer, todavia, que essas posições foram sendo 
amenizadas ao longo da história do movimento, e graças também às ocupações 
ocorridas em ecossistemas muito diversos, desde os cerrados, matas pluviais, 
caatingas e cocais, onde havia povos tradicionais detentoras de conhecimentos etno-
ambientais (MACIEL, 2008). 
A dimensão sócio-ambiental, com efeito, já vinha sendo analisada em 
segmentos de bases do movimento desde a época mesmo de sua criação (via 
estudantes de agronomia e agrônomos militantes), apesar da persistência enfática do 
produtivismo na retórica de suas lideranças. Fora a urgência política de ressaltar o 
produzir – tática de legitimação moral num país de famintos – nota-se uma defasagem 
entre o debate ambiental na sociedade e as linhas gerais de ação do MST. Tal atraso, 
é preciso reafirmar, não demoraria a ser suprido no seio dos assentamentos, 
sobretudo a partir da intensa integração com as universidades, ONG’s e órgãos 
governamentais de pesquisa e extensão, além do trabalho das instituições 
internacionais de apoio à Reforma Agrária (MACIEL, 2008). 
Altieri (1996) apud Neto et al (2002) ressalta que a verdadeira sustentabilidade 
é alcançada quando os agricultores melhoram seu acesso à terra, recursos e 
tecnologia adequada para gerenciá-los e organizá-los adequadamente, a fim de 
recursos de controle, acesso justo aos mercados, insumos e produtos para garantir 
um rendimento decente das suas colheitas. 
Para acentuar o tema contribuíram, sem dúvida, a amplitude tomada pelas 
conquistas efetivas de assentamentos (400 mil famílias até o final da década de 90). 
Como lembra MAZZETTO (1998) apud MACIEL (2008), inicialmente, os projetos de 
assentamento não eramempresas com alto potencial de impacto ecológico, mas à 
medida que seu número e extensão aumentavam e a forma de exploração se 
concretizava através da reprodução das tecnologias existentes, os problemas 
ambientais tornaram-se cruciais para o autor citado, as dificuldades de incorporação 
do componente ecológico passam não apenas pelos órgãos governamentais, mas 
também pela conduta postura do movimento dos trabalhadores rurais – preso à 
abordagem puramente reivindicativa – e pelo conservadorismo de boa parte do 
movimento ecológico. 
 
 
32 
 
É claro que a incorporação de critérios de sustentabilidade é um processo 
altamente dinâmico em qualquer movimento e principalmente no MST, onde se 
percebe uma desvantagem entre os termos que impulsionam a agitação política, a 
partir da / da mídia, e a realidade do cotidiano em assentamentos já conquistados. É 
comum os assentados se sentirem distanciados do universo comunicacional da 
atividade de luta ideológica da organização a que pertencem, em favor das 
vicissitudes do dia-a-dia. Foi o que aconteceu no assentamento Chico Mendes, em 
Pombos-PE, quando a metade dos agricultores aí assentados “rachou” com o 
movimento, por desentendimentos envolvendo a adoção da agricultura orgânica 
(BRASILEIRO, 2006 apud MACIEL, 2008). 
O MST, por sua vez, é muito mais receptivo aos aspectos ambientais, se 
podem serem vistos como um elo com seu discurso geral sobre a mudança da 
sociedade, como é o caso do combate aos OGM. (Organismos Geneticamente 
Modificados) ou dos grandes desmatamentos promovidos pela expansão da soja nos 
cerrados, e outros eventos de forte impacto midiático e ponte para a solidariedade 
ecológica nacional e internacional. Não é de forma ampliada mas existem 
experiências e ações do movimento no campo da produção e da comercialização de 
produtos orgânicos ou ecológicos. 
Olhando de uma retrospectiva da inserção do MST em questões relacionadas 
à sustentabilidade, verifica-se que, desde o seu primeiro congresso nacional, 
realizado em 1985, ele tem esboçado, ainda que, inicialmente, de forma um tanto 
tímida, uma tendência favorável aos temas de preservação ambiental (NETO et al, 
2002). 
Os efeitos da territorialização da Reforma Agrária obrigaram a reformular 
algumas dessas posições, entre as quais se destacam a centralidade das formas de 
produção, sua adequação e sustentabilidade ambiental. Especificamente, sob o lema 
“Ocupar, resistir, produzir”, surgem questionamentos sobre como gerenciar a 
agricultura em assentamentos profundamente diferenciados pela qualidade 
ambiental, território e número de famílias envolvidas, sem esquecer as diferenças 
culturais. Surgem demandas que envolvem não só os procedimentos técnicos, mas 
também todas as dimensões da existência que constituem a posse da terra como 
base de um modo de vida, de uma cultura. 
 
 
33 
 
A reforma agrária "ecologicamente sustentável" ou "socialmente justa" se 
referiria a uma racionalização das relações ambientais ou promoção da cidadania e 
do direito à alteridade das populações rurais marginalizadas pela modernização do 
campo. O conteúdo ambientalista, no primeiro caso, transparece através de um 
discurso óbvio aos olhos dos geógrafos, a saber, a diferenciação do quadro natural. 
Para MAZZETTO (2001) apud MACIEL (2008), o tripé segurança alimentar/viabilidade 
econômica/conservação ambiental mostra para os assentamentos o que seria o 
desenvolvimento sustentável, devendo contextualizar cada caso em diversas escalas, 
desde a região até o plano do antigo imóvel desmembrado, chegando aos lotes 
individuais. 
É fato conhecido que inúmeros projetos são implantados nas vizinhanças de 
áreas de preservação permanente ou com restrições naturais consideráveis. A visão 
ecológica reconhece que os Projetos de Assentamento deveriam ser intrinsecamente 
ligados a um planejamento prévio da intervenção e gestão do espaço, visando garantir 
a sustentabilidade ambiental. A principal limitação da sua eficácia neste sentido é, 
evidentemente, não levar em conta a dinâmica social, o aspecto contingente das lutas 
pela terra, onde a pressão e a surpresa das ações são em grande parte orientadas 
pela obsolescência dos latifúndios, não por suas qualidades ecológicas intrínsecas, 
continua sendo um desafio, senão uma utopia, fazer com que os movimentos sociais, 
incluindo o MST, vejam esse aspecto como um valor inerente ao processo de reforma 
agrária no Brasil. 
Em seus valores a chamada sustentabilidade ecológica contém a ideia de que 
a ciência deve ser entendida, entre outras coisas, como uma forma de gerar 
conhecimento, enquanto a sabedoria, além do acesso ao conhecimento, também tem 
um caráter étnico essencial componente gerado pela identidade sociocultural da qual 
emerge (NETO et al, 2002). 
 
Afinal, seria o Movimento dos Sem Terra o condutor ideal das demandas 
ambientais da contemporaneidade? RICCI (200) apud MACIEL (2008) aponta em 
outra direção, refletindo que novas formas associativas poderiam melhor expressar as 
exigências de um modo mais equilibrado de praticar a agricultura. Esta postura de 
 
 
34 
 
contraposição ao MST, ao deixá-lo de saída e em conjunto à margem da construção 
da sustentabilidade ambiental, defende que somente aqueles movimentos locais e 
carregados pelas suas especificidades territoriais poderiam obter sucesso neste 
campo. 
Assim, a ênfase recai sobre outras organizações, que teriam na base 
espacial/ecológica a razão mesma de sua existência e um dinamismo próprio, uma 
posição antípoda (senão uma recusa) à politização geral da questão agrária. O eco 
encontrado por análises pós-modernas apoia-se no grande número de organizações 
surgidas em torno de demandas localizadas, muito específicas e sem pretensões 
políticas maiores, bem como na ausência de prioridade efetiva para a problemática 
ambiental no seio do comando do MST. Não se pode negligenciar, no entanto, a 
potencialidade que representa este movimento, que tem demonstrado grande 
capacidade de se adaptar e catalisar as insatisfações com o modelo da agricultura 
praticado em alguns assentamentos, despertando inclusive para as janelas de 
mercado da produção orgânica. 
Antes de concluir, é preciso sublinhar então a flexibilização de propostas 
dentro do principal movimento pela terra no Brasil, fruto de quase vinte anos de debate 
interno e de vivências concretas no manejo do meio ambiente nos seus 
assentamentos. As tentativas fracassadas de imposição de modelos técnicos e 
organizativos, tais como a agroindústria e a coletivização, têm levado também a uma 
maior atenção às especificidades locais e à institucionalização de programas internos 
de capacitação baseados em paradigmas ambientalistas. A ênfase do MST em 
educação também é fruto do seu esforço em superar as deficiências de um público-
alvo muito heterogêneo e pauperizado, ou seja, não raro imediatista. 
Ao debater acerca da sustentabilidade ambiental da Reforma Agrária insere-
se, antes de tudo, na discussão sobre qual o “lugar” da produção familiar na agricultura 
brasileira, tendo em vistas que este setor permanece sem credibilidade em relação às 
políticas agrícolas estatais, apesar de alguns avanços no Governo Lula (GUAZZELLI, 
2006 apud MACIEL, 2008). 
Em segundo plano, trata-se de refletir se o MST, ao focar sua luta na 
redistribuição massiva e radical de terras, mantém acertadamente uma política eficaz 
 
 
35 
 
no contexto geral, se aberta aos aspectos ambientais; ou, caso contrário, prende-se 
a uma meta-narrativa insensível às demandas diversificadas de cada situação 
concreta. 
8 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 
____. A política dos movimentos sociais para o mundo rural. Estudos Sociedade e 
Agricultura, Rio de Janeiro, vol. 15, nº 1, p. 5-22, 2007. Acesso em 15/08/2015. 
____. Movimentos Sociais na Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, 
Minas Gerais, v.16, n. 47, p. 333-351,

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