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1. Introdução
A Violência Baseada no Gênero (VBG) é um fenômeno global que afeta principalmente mulheres e meninas, sendo uma manifestação extrema da desigualdade de gênero e uma violação dos direitos humanos. Este tipo de violência decorre de construções socioculturais profundamente enraizadas nas sociedades e mantidas através de normas patriarcais, papéis tradicionais de gênero e práticas culturais nocivas. O presente trabalho tem como objetivo analisar as principais causas socioculturais da VBG, com ênfase nos papéis tradicionais de gênero, nas normas patriarcais, nas práticas como o casamento infantil e a troca de meninas por dotes, bem como nos estigmas que dificultam a denúncia da violência.
2. Objetivo
Este trabalho visa identificar e analisar as principais causas socioculturais da VBG, compreendendo como estas práticas e normas perpetuam a violência contra mulheres e meninas. Pretende-se ainda discutir os impactos dessas causas e sugerir caminhos para a sua prevenção e erradicação.
3. Desenvolvimento
3.1. Papéis Tradicionais de Gênero e Normas Patriarcais
Os papéis tradicionais de gênero são construções sociais que determinam comportamentos, funções e responsabilidades consideradas adequadas para homens e mulheres. Em muitas sociedades, esses papéis reforçam a submissão feminina e a autoridade masculina, criando um ambiente propício à VBG.
O patriarcado, como sistema de dominação masculina, é uma das principais causas estruturais da VBG. Ele legitima a autoridade dos homens sobre as mulheres e normaliza a violência como forma de controle. A mulher é vista como propriedade do homem, sendo esperada sua obediência e subserviência. Essa visão contribui para a aceitação social da violência doméstica e limita o acesso das mulheres à educação, ao trabalho e à participação política.
3.2. Práticas Nocivas: Casamento Infantil e Troca de Meninas por Dotes ("Lobolo")
O casamento infantil é uma prática comum em várias comunidades e é muitas vezes justificado por motivos culturais, econômicos ou religiosos. Meninas são forçadas a casar-se com homens mais velhos, sendo privadas de sua infância, educação e autonomia. Este tipo de união perpetua a dependência econômica e emocional da mulher em relação ao marido, tornando-a vulnerável a abusos físicos, psicológicos e sexuais.
A prática do "lobolo" ou pagamento de dote à família da noiva também contribui para a VBG, pois implica uma concepção de propriedade da mulher pelo homem. Em muitos casos, o pagamento do lobolo é usado como justificativa para o controle absoluto sobre a esposa e a legitimação de atos de violência como forma de "correção" do comportamento feminino.
3.3. Estigmas Associados à Denúncia da Violência
Um dos grandes entraves ao combate da VBG é o estigma enfrentado pelas vítimas ao tentarem denunciar os abusos. Em muitas culturas, mulheres que denunciam sofrem discriminação, isolamento social e até represálias. Elas são frequentemente desacreditadas, culpabilizadas ou coagidas a permanecer em relações abusivas para preservar a honra da família.
Esse estigma é sustentado por normas sociais que colocam a responsabilidade da manutenção da família sobre a mulher, mesmo em contextos de violência. A ausência de sistemas de apoio eficazes, bem como o medo de perder os filhos ou os meios de subsistência, agrava ainda mais essa situação.
3.4. Intersecção Entre Cultura, Religião e Gênero
Em muitos contextos, a religião e a tradição são utilizadas para justificar a subordinação feminina e as práticas violentas contra as mulheres. Sermões religiosos e normas tradicionais são invocados para reforçar a obediência e a passividade feminina. A interpretação literal de textos sagrados, muitas vezes fora de contexto, contribui para a perpetuação da VBG.
Contudo, também existem movimentos dentro das religiões e das culturas que promovem a igualdade de gênero e os direitos das mulheres, sendo essencial o diálogo intercultural e inter-religioso para transformar as normas prejudiciais.
3.5. Impactos da VBG nas Vítimas e na Sociedade
A VBG tem consequências devastadoras para as vítimas, afetando sua saúde física e mental, autoestima, autonomia e qualidade de vida. As sequelas podem ser permanentes e incluem traumas psicológicos, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, entre outros.
3.5.1. Danos físicos, psicológicos e emocionais
As vítimas de VBG frequentemente sofrem ferimentos físicos como hematomas, fraturas, queimaduras, além de complicações graves, como mutilações genitais e doenças sexualmente transmissíveis. Psicologicamente, muitas desenvolvem depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e outras condições mentais debilitantes. Emocionalmente, a vítima pode sentir medo constante, culpa, vergonha, desesperança e perda de autoestima, o que prejudica sua capacidade de buscar ajuda ou recomeçar a vida.
3.5.2. Consequências econômicas e educacionais, especialmente para meninas
As vítimas de VBG, principalmente meninas, enfrentam a interrupção da escolaridade e dificuldade de acesso a oportunidades educacionais. Isso limita suas perspectivas profissionais futuras, perpetuando o ciclo de pobreza e dependência. Mulheres vítimas de violência doméstica também podem perder empregos, enfrentar discriminação no mercado de trabalho e sofrer instabilidade econômica, o que as impede de sair de relações abusivas por falta de alternativas.
3.5.3. Exclusão social e revitimização das sobreviventes
A sociedade, muitas vezes, estigmatiza e exclui as vítimas de VBG, o que resulta em isolamento, perda de apoio familiar e comunitário, e revitimização. Essa revitimização ocorre quando instituições como a polícia, o sistema de justiça ou os serviços de saúde culpabilizam ou desacreditam a vítima, dificultando o acesso a serviços e à justiça. Esse ciclo de exclusão aumenta o sofrimento da vítima e desencoraja outras mulheres a denunciarem situações de violência.
4. Conclusão
As causas socioculturais da VBG estão enraizadas em estruturas de poder desiguais que perpetuam a discriminação de gênero. Os papéis tradicionais, as normas patriarcais, o casamento infantil, o lobolo e os estigmas contra a denúncia da violência são todos fatores que se interligam e reforçam a violência contra mulheres e meninas. Combater a VBG exige uma transformação cultural profunda, baseada na educação para a igualdade de gênero, no fortalecimento das leis e na criação de mecanismos de apoio às vítimas.
A mudança só será possível através do envolvimento de todos os setores da sociedade, incluindo líderes comunitários, religiosos, educadores, autoridades e a própria população. A erradicação da VBG é um imperativo moral, social e político que deve ser perseguido com determinação e compromisso coletivo.
5. Bibliografia
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