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BIOQUÍMICA 
CLÍNICA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Reconhecer a importância da dosagem de enzimas no auxílio médico.
 > Identificar métodos de determinação das principais enzimas de importância 
clínica. 
 > Diferenciar os diferentes tipos de enzimas e sua relação com doenças es-
pecíficas. 
Introdução
Os processos metabólicos essenciais para a sobrevivência de qualquer organismo 
são executados pelas enzimas. Essas moléculas têm principalmente de origem 
proteica, sendo encontradas sobretudo no citoplasma das células ou associadas 
a organelas intracelulares. A função biológica das enzimas é atuar como catali-
sadores, aumentando a velocidade das reações químicas em milhares de vezes, 
apresentando alta especificidade com o seu substrato. 
Danos teciduais ou celulares associados à maioria das situações patológi-
cas geralmente causam uma elevação da concentração enzimática nos fluidos 
corporais. Nesse contexto, a quantificação sérica da atividade das enzimas tem 
se mostrado uma importante ferramenta de avaliação clínica para diagnosticar, 
rastrear e monitorar doenças ou processos patológicos, especialmente no caso 
de doenças hepáticas, pancreáticas e cardíacas.
Neste capítulo, você estudará as características gerais das enzimas, abordando 
seus componentes estruturais, seus mecanismos de ação e sua classificação. Além 
disso, verá as metodologias utilizadas para quantificar a atividade das enzimas 
encontradas na circulação sanguínea e os cuidados necessários para a realização 
dessas metodologias de diagnóstico. Por fim, conhecerá as principais enzimas 
Enzimologia
Sergio Marcelo Rodriguez Málaga
utilizadas para o diagnóstico específico de doenças ou quadros patológicos em 
diferentes órgãos. 
Conceitos básicos relacionados às enzimas 
As enzimas são catalisadores biológicos responsáveis pelo aumento das 
reações químicas que ocorrem dentro das células. São encontradas em todos 
os tecidos, tendo um papel fundamental para a sobrevivência de todos os 
organismos vivos, sejam animais, plantas ou microrganismos. Em sua grande 
maioria, as enzimas são proteínas e, como em todo polipeptídio, sua função 
depende diretamente do nível de organização das suas estruturas (BURTIS; 
BRUNS, 2015): 
 � estrutura primária — corresponde à sequência linear de aminoácidos; 
 � estrutura secundária — refere-se à conformação das cadeias polipep-
tídicas observadas como α-hélices ou folhas β e à organização através 
das ligações de hidrogênio; 
 � estrutura terciária — corresponde ao arranjo dos elementos estruturais 
secundários e às interações da cadeia lateral de aminoácidos; 
 � estrutura quaternária — corresponde ao rearranjo das subunidades 
(cadeias polipeptídicas dobradas) unidas através de ligações não 
covalentes.
O mecanismo de ação das enzimas é baseado numa reação química em 
que a enzima liga-se ao substrato, formando um complexo enzima-substrato. 
Essa reação ocorre numa área relativamente pequena da enzima, denominada 
sítio catalítico, ou sítio ativo. O sítio catalítico de uma enzima é constituído 
por aminoácidos que são aproximados pelo dobramento resultante da es-
trutura secundária e terciária das enzimas, sendo as cadeias laterais des-
ses aminoácidos as que irão reagir com os grupos químicos específicos do 
substrato. Assim, dependendo da enzima, essas cadeias laterais podem ser 
ácidas ou básicas, hidrofílicas ou hidrofóbicas, e apresentar cargas positivas, 
negativas ou neutras. 
As enzimas aceleram as reações químicas alterando a conformação dos 
substratos para se aproximarem do estado de transição. O modelo mais sim-
ples de interação enzima-substrato é o modelo “chave e fechadura”, proposto 
por Hermann Emil Fischer, em que o substrato se encaixa exatamente no sítio 
ativo (Figura 1a). Entretanto, esse modelo foi atualizado com a descoberta de 
que as enzimas são flexíveis e que o contato com o substrato induz mudança 
Enzimologia2
conformacional na enzima para acomodar o substrato, processo chamado de 
“encaixe induzido” (Figura 1b) (COOPER, 2018). 
Figura 1. Representação gráfica dos modelos de interação enzima-substrato: (a) modelo 
chave-fechadura e (b) modelo encaixe induzido.
Fonte: Adaptada de Shutterstock.com/BigBearCamera.
Modelo
chave-fechadura
Substrato
Enzima
Substrato
Complexo
enzima-substrato
Complexo
enzima-substrato
Enzima
Modelo
encaixe induzido
A atividade catalítica das enzimas é altamente específica. Normalmente, 
uma enzima catalisa uma única reação química ou um conjunto de reações 
que estejam relacionadas. Uma propriedade importante dessas moléculas é 
que permanecem inalteradas durante a reação que catalisam e, à medida que 
os produtos da reação se dissociam, a enzima é liberada, podendo interagir 
com outra molécula de substrato. 
A velocidade de uma reação enzimática depende de fatores que incluem a 
concentração da enzima e do substrato, pH do meio, temperatura da reação e 
a presença de inibidores, ativadores ou cofatores. Os cofatores são pequenas 
moléculas não proteicas que participam da catálise ligando-se no sítio ativo 
da enzima. Estes podem ser íons inorgânicos, como Fe2
+, Mg2
+, Mn2
+ ou Zn2
+, 
ou coenzimas, que são moléculas orgânicas, a maioria derivados solúveis 
de vitaminas, podendo efetuar reações como oxirredução, descarboxilação, 
transferência de grupos com um ou vários carbonos e isomerização, sendo 
as mais conhecidas as vitaminas do complexo B, folato, biotina, vitamina C, 
entre outras (RODWELL et al., 2018). 
Enzimologia 3
As enzimas podem ser classificadas com base na sua composição em: 
simples, quando não necessitam de cofatores, ou seja, são compostas 
inteiramente por proteínas; ou complexas ou holoenzimas, quando um cofator 
está ligado na parte proteica da enzima. Em situações em que um cofator é 
fortemente ligado à sua enzima de forma covalente, esse cofator é denominado 
grupo prostético. 
Como mostra o Quadro 1, as enzimas são classificadas em seis grupos 
principais, divididos de acordo com o tipo de reação que catalisa, incluindo 
oxidorredutases, transferases, hidrolases, liases, isomerases e ligases, além 
de uma designação numérica que consiste nas letras prefixadas E.C., que 
correspondem à Comissão de Enzimas da União Internacional de Bioquímica 
(IUB), acompanhadas de quatro números separados por pontos, por exemplo: 
E.C. 1.1.1.27 L-lactato: NAD+ oxidorredutase. 
Quadro 1. Classificação das enzimas de acordo à reação que realizam
Tipo Reação que catalisam
1 Oxidorredutases Transferência de elétrons (íons híbridos ou 
átomos de H).
2 Transferases Reações de transferência de grupos funcionais 
(grupos aldeído, acila, glicosil, fosfato).
3 Hidrolases Reações de hidrólise (transferência de grupos 
funcionais para moléculas de água). Atuam 
sobre ligações éster, glicosídicas, peptídicas 
e C-N.
4 Liases Clivagem de C-C, C-O, C-N ou outras ligações 
por eliminação, rompimento de ligações 
duplas ou anéis, ou adição de grupos a 
ligações duplas.
5 Isomerases Transferência de grupos dentro de uma mesma 
molécula, produzindo formas isoméricas.
6 Ligases Formação de ligações C-C, C-S, C-O e C-N por 
reações de condensação acopladas à hidrólise 
de ATP ou outros cofatores.
Fonte: Adaptado de Pacheco e Mendes (2021).
Enzimologia4
A estimativa dos níveis de atividade enzimática nos fluidos corporais 
extracelulares, como plasma sanguíneo, soro, urina, sucos digestivos, lí-
quido amniótico e líquido cefalorraquidiano, realizada para o auxílio do 
diagnóstico clínico, foi descrita inicialmente em 1927 por King e Armstrong, 
demonstrando a presença da fosfatase alcalina no soro. A descoberta por 
La Due e colaboradores em 1954 de que havia um aumento da aspartato 
aminotranferase sérica (AST) após o infarto do miocárdio foi um estímulo 
para a investigação sistemática dos níveis de vários sistemas enzimáticos 
numa variedade de doenças.
Desde então, a enzimologia clínica foi incluída na rotina laboratorial com 
a finalidade de oferecer o máximo de informação medianteum processo 
minimamente invasivo, pois em vários mecanismos fisiopatológicos — como 
cardiopatias, hepatopatias, miopatias, doenças pancreáticas e ósseas — 
observa-se um aumento da atividade sérica das enzimas devido ao extra-
vasamento por células lesadas, em que as enzimas se difundem através 
dos capilares atingindo a corrente sanguínea, ou por aumento da produção 
enzimática intracelular. 
Sob condições normais, a atividade das enzimas é exercida em nível intra-
celular, devido à impermeabilidade da membrana celular metabolicamente 
ativa. Entretanto, qualquer processo patológico que afete o suprimento de 
energia da membrana celular, como o fornecimento inadequado de ATP, 
distúrbios hemodinâmicos (isquemia) ou agentes infecciosos, pode causar a 
desintegração da membrana celular e a liberação consecutiva de enzimas. 
A taxa de liberação da enzima depende do tamanho e do gradiente de con-
centração do catalisador entre o citoplasma e o espaço extracelular. Sendo 
assim, as enzimas citoplasmáticas são as primeiras enzimas a aparecerem 
no sangue, por serem solúveis e de menor peso molecular, seguidas pelas 
enzimas mitocondriais e as que se encontram ligadas à membrana celular 
(THOMAS, 2021).
Por outro lado, apesar das enzimas de diferentes tipos apresentarem uma 
atividade característica, elas podem ser agrupadas dependendo do local 
onde se encontram em maior quantidade. Dessa forma, podemos agrupar 
as enzimas para diagnosticar danos em células e tecidos específicos. Assim, 
por exemplo, a determinação da atividade sérica da α-amilase e lipase pode 
ser utilizada para o diagnóstico de doenças que causam dano no tecido 
pancreático, como pancreatite e câncer pancreático, ou para a identificação 
da atividade das aminotransferases e a fosfatase alcalina para os estudos 
da extensão do dano hepático. 
Enzimologia 5
A estimativa do tipo, extensão e duração da atividade enzimática aumen-
tada pode fornecer informações sobre a identidade da célula danificada e 
indicar a extensão da lesão. Assim, os ensaios enzimáticos podem dar uma 
contribuição importante para o diagnóstico de doenças, pois uma mudança 
mínima na concentração da enzima pode ser facilmente quantificada por 
meio da atividade catalítica. 
As vitaminas são moléculas orgânicas que não são sintetizados 
pelas células de mamíferos, sendo obtidas através da dieta. Atuam 
principalmente como cofatores enzimáticos, e em situações de carência de 
vitaminas, os sintomas clínicos estão normalmente associados ao mau funcio-
namento das enzimas.
Metodologia e fatores que interferem na 
determinação enzimática 
A determinação da atividade enzimática é utilizada para detectar a presença 
de uma enzima específica ou para quantificar sua concentração em amostras 
biológicas. Para isso, diversas metodologias disponíveis podem ser utilizadas, 
as quais apresentam uma elevada sensibilidade e especificidade. Dessa 
forma, os fundamentos das metodologias para a quantificação da atividade 
enzimática podem ser divididos em três categorias: as que quantificam o 
produto formado pela enzima, as que quantificam o consumo do substrato 
específico e por último as metodologias que detectam indiretamente a 
atividade enzimática, quantificando a transformação de coenzimas pre-
sentes na reação. Cabe destacar que na atualidade podem ser encontrados 
kits comerciais que aplicam mais de uma metodologia para uma enzima. 
Contudo, independentemente do fundamento, todos apresentam a espe-
cificidade necessária para a obtenção de um resultado confiável (XAVIER; 
DORA; BARROS, 2016).
Um exemplo das metodologias que quantificam a formação de produto 
da atividade enzimática é encontrado na determinação da amilase em amos-
tras de soro ou plasma, em que a enzima hidrolisa o substrato 2-cloro-4-
nitrofenol-β-1-4 galactopiranosilmaltotriosídeo (Ga-G2-α-CNP), resultando 
na produção de 1,4-galactopiranosilmaltoside (Gal-G2) e 2-cloro-4-nitrofenol 
(CNP), o que pode ser quantificado pela leitura em espectrofotômetro a 400-
420 nm. A detecção da amilase também pode ser feita pela metodologia que 
Enzimologia6
quantifica o decaimento ou consumo da concentração do substrato da enzima, 
em que a enzima catalisa a hidrólise de amido, resultando na produção de 
maltose e glicose. O amido remanescente da reação pode ser quantificado pela 
adição de iodo, gerando uma coloração azul, que pode ser quantificada com 
leitura a 620-670 nm. Cabe destacar que tanto a quantificação do consumo do 
substrato quanto a geração de produto serão proporcionais à concentração 
da enzima presente na amostra biológica. 
Por outro lado, um exemplo da metodologia que utiliza a quantificação da 
modificação de uma coenzima é observado na quantificação da desidroge-
nase láctica, que catalisa a conversão de piruvato em lactato na presença de 
nicotinamida-adenina-dinucleotídio reduzido (NADH), resultando na oxidação 
da coenzima (NAD). O decréscimo de NADH pode ser detectado com um es-
pectrofotômetro que realize a leitura de absorbância ultravioleta a 340 nm, 
sendo proporcional à atividade da enzima na amostra (Figura 2). 
Figura 2. Metodologias de quantificação da atividade enzimática.
Outra aspecto importante na análise da atividade enzimática está relacio-
nado aos cuidados necessários para a execução das metodologias quantita-
tivas. Tais cuidados começam com a coleta adequada da amostra, evitando 
a estase venosa, que pode alterar significativamente os resultados. Nesse 
sentido, é recomendada a utilização de soro, obtido sem anticoagulantes, o 
qual precisa ser separado rapidamente da fração celular para evitar o contato 
com a lise de hemácias e plaquetas. No caso de amostras sanguíneas cole-
tadas com anticoagulantes, dependendo da enzima a ser analisada, algumas 
moléculas podem alterar o resultado, como a utilização de oxalato, citrato 
e ácido etilenodiamino tetra-acético (EDTA), que têm capacidade de inibir a 
atividade de α-amilase, transaminases e gama glutamil transferase (γGT). A 
presença de hemólise na amostra pode ou alterar a detecção colorimétrica 
feita pelo espectrofotômetro ou aumentar a concentração real de enzimas 
Enzimologia 7
na amostra, uma vez que a ruptura de hemácias leva à liberação de enzimas 
como fosfatase ácida e desidrogenase láctica.
Da mesma forma, a preservação das amostras após a coleta tem um papel 
fundamental, sendo recomendado que a atividade enzimática seja realizada 
logo após a coleta sanguínea, pois amostras preservadas por longos períodos 
podem resultar na desnaturação de enzimas e na modificação do pH, alterando 
a atividade enzimática nas análises. Vale ressaltar que a estabilidade de uma 
enzima varia dependendo das condições de estocagem. Assim, dependendo 
da enzima, ela pode se manter estável a temperatura ambiente, enquanto 
outras podem ser mantidas sob refrigeração ou congelamento (Quadro 2). 
Quadro 2. Atividade enzimática dependendo das condições de estocagem
Enzima Estocagem Tempo (dias) Atividade (%)
α-Amilase T° ambiente 8 100
Creatinina-quinase T° ambiente
0-4°C
Congelamento
1
1
8
25
32-65
25
Glutamato 
desidrogenase
T° ambiente
0-4°C
Congelamento
2
2
2
60
60-100
60
Aspartato 
aminotransferase
T° ambiente
0-4°C
Congelamento
4
8
2
90
87
90
Alanina 
aminotransferase
T° ambiente
0-4°C
Congelamento
4
8
8
75
78
31
L-lactato 
desidrogenase
T° ambiente
0-4°C
Congelamento
8
8
8
74-88
81
81
Fosfatase alcalina T° ambiente
0-4°C
Congelamento
8
8
8
71
71
68
Sorbitol 
desidrogenase
0-4°C 8 71
Fonte: Adaptado de Campos et al. (2002).
Enzimologia8
Por outro lado, a padronização das condições em que as reações enzimá-
ticas são realizadas precisam ser controladas. A utilização de kit comerciais 
permite a otimização de pH e força iônica na reação, motivo pelo qual a ma-
nutenção dos componentes a temperatura adequada se torna fundamental. 
A utilização de equipamentos automatizados permite controlar fatores como 
tempo e temperatura da reação. Contudo, a execução manual das metodo-
logias obrigaa respeitar esses parâmetros para a obtenção de resultados 
adequados. Da mesma forma, a calibração de micropipetas, a limpeza ade-
quada de vidrarias e a utilização periódica de soros de referência do Programa 
Nacional de Controle de Qualidade se tornam essenciais (CORRÊA, 2019).
As enzimas constituem a primeira classe de biomoléculas-alvo para 
o desenvolvimento de fármacos e outros agentes terapêuticos, pois 
vários antibióticos inibem irreversivelmente enzimas importantes para a sobre-
vivência do patógeno. Nesse contexto, a descoberta de novos fármacos tem sido 
facilitada por um processo rápido e automatizado, denominado high-throughput 
screening (triagem em grande escala), que analisa simultaneamente o potencial 
inibitório de centenas de novas drogas sobre atividade de determinada enzima.
Enzimas de importância diagnóstica 
As enzimas utilizadas como marcadores de enfermidades ou disfunções 
são enzimas intracelulares, cuja concentração no plasma é muito baixa. A 
presença de níveis elevados dessas enzimas no soro implica a existência um 
dano celular, o que permite que essas moléculas, normalmente confinadas 
nas células, sejam liberadas para a circulação sanguínea. Sendo assim, a 
quantificação no nível sérico de certas enzimas tem sido utilizada como 
indicador para a detecção do dano tecidual, a localização específica do órgão 
comprometido e a determinação da extensão e gravidade do dano celular. 
A seguir, destacaremos as principais enzimas que facilitam o diagnóstico 
rápido de algumas doenças.
Enzimas pancreáticas
A detecção de altos níveis de enzimas pancreáticas no soro e na urina, asso-
ciada a dados clínicos e de imagem, pode indicar um diagnóstico de pancreatite 
aguda, que consiste em um processo inflamatório agudo, em que as enzimas 
do pâncreas são ativadas e causam uma autodigestão da glândula ou um 
Enzimologia 9
carcinoma pancreático. Entre as enzimas utilizadas no diagnóstico dessas 
enfermidades, examinaremos aquelas de maior destaque a seguir. 
Amilase
A amilase é uma metaloenzima Ca2
+ dependente secretada pelas células 
acinares do pâncreas, liberada para o intestino através do ducto pancreático, 
onde catalisa a hidrólise de ligações 1,4-α-glicosídicas em polissacarídeos. 
A amilase ocorre normalmente no plasma humano como uma proteína de 
baixo peso molecular, variando de 54 a 62 kDa, podendo, portanto, passar 
pelos glomérulos dos rins. 
Em situações de lesão das células acinares ou obstrução do ducto pancre-
ático, essa enzima flui para os vasos sanguíneos, atingindo valores máximos 
que são de quatro a seis vezes maiores que os valores de referência (60 a 160 
U/dL Somogyi). Embora a detecção da amilase seja sensível para as doenças 
pancreáticas, não é específica, pois essa enzima está presente em outros ór-
gãos, como trompas de falópio, ovários, glândulas salivares, intestino, pulmão, 
próstata, fígado. Consequentemente, processos inflamatórios desenvolvidos 
nesses órgãos podem causar elevações nos níveis de amilase (MOTTA, 2009).
Lipase
A lipase é uma glicoproteína de cadeia simples com peso molecular de 48 
kDa, secretada pelo pâncreas para o intestino, onde catalisa a hidrólise 
de triglicerídeos. Na presença de sais biliares e um cofator denominado 
colipase, também secretado pelo pâncreas, são liberados no fígado ácidos 
graxos e glicerol (Figura 3). A lipase é uma molécula pequena filtrada através 
dos glomérulos renais, totalmente reabsorvida pelos túbulos renais, motivo 
pelo qual normalmente não é detectada na urina. A atividade da lipase no 
soro é utilizada para o diagnóstico de doenças pancreáticas, em particular 
a pancreatite. Nesse caso, o valor da atividade enzimática no plasma fica de 
5 a 10 vezes acima do limite superior dos valores de referência (28 a 280 U/L 
internacionais) (BURTIS; BRUNS, 2015; MOTTA, 2009).
Enzimologia10
Figura 3. Atividade enzimática da lipase.
Fonte: Adaptada de Shutterstock.com/Ali DM.
Triglicerídios Glicerol
Lipase
+ 3 H2O
Ácidos graxos
Enzimas hepáticas
O fígado é o maior órgão maciço do corpo humano, correspondente a 2,5-
4,5% da massa corporal total, com peso médio de 1,5 kg. É responsável pela 
metabolização de lipídios, proteínas e carboidratos, além da desintoxicação 
de uma série de compostos do organismo. Esse órgão é irrigado por dois 
suprimentos sanguíneos distintos e composto por cinco tipos celulares di-
ferentes e um complexo arcabouço extracelular (TELLI; FRIGERI; MELLO, 2016). 
Assim como em outras enfermidades, a dosagem de enzimas é muito útil 
para o diagnóstico diferencial e o monitoramento de distúrbios hepáticos. 
As enzimas hepáticas podem ser divididas em três tipos: 
 � enzimas presentes no interior dos hepatócitos, liberadas no sangue 
quando ocorre um dano hepatocelular, também denominadas marca-
dores de dano hepatocelular; 
 � enzimas ligadas à membrana plasmática ou ao lado dos hepatócitos, 
denominadas marcadores de colestase; 
 � enzimas sintetizadas no hepatócito, indicando distúrbios na função 
hepatocelular. 
Aminotransferases
As aminotransferases são enzimas essenciais envolvidas na síntese e degra-
dação de aminoácidos. Têm por função catalisar a transferência do grupo 
α-amino de um aminoácido para o α-cetoglutarato, formando cetoácido e ácido 
glutâmico, sendo necessária para essa reação uma coenzima, o piridoxal fosfato. 
As enzimas alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase 
(AST) são exemplos de aminotransferases de interesse clínico. São enzimas 
intracelulares que podem estar localizadas no citoplasma de hepatócitos e 
em menor concentrações nos rins, coração e músculos esqueléticos (ALT), ou 
Enzimologia 11
presentes como duas isoformas no citosol e mitocôndrias de tecidos, como 
fígado e musculaturas cardíaca e esquelética (AST). A elevação sérica da 
ALT está relacionada com disfunções hepáticas, sendo o valor de referência 
a 37°C de 6 a 37 U/L. Vale ressaltar que lesões em células extra-hepáticas 
também promovem sua liberação na corrente sanguínea, elevando os níveis 
séricos. Por outro lado, a medição da AST (valor de referência de 5 a 34 U/L) 
é indicada para diagnóstico e monitoramento de doença hepatobiliar, infarto 
do miocárdio e distrofias musculares (MOTTA, 2009). 
Fosfatase alcalina
A fosfatase alcalina (marcador de colestase) abrange um grupo de enzimas 
que hidrolisam fosfatos orgânicos em pH alto. Estão presentes na maioria 
dos tecidos, mas em concentração particularmente alta nos osteoblastos dos 
ossos, nas células do trato hepatobiliar, mucosa intestinal, fígado e placenta. 
Em adultos, aproximadamente metade da atividade sérica da fosfatase alcalina 
vem do fígado e a outra metade dos ossos, com uma pequena fração prove-
niente do intestino. Níveis aumentados dessa enzima estão correlacionados 
a casos de doença hepatobiliar e óssea (Quadro 3). 
Quadro 3. Causas de aumento sérico da atividade da fosfatase alcalina
Doenças ósseas 
Doenças 
hepatobiliares Outras
 � Doença de Paget do 
osso
 � Hiperparatireoidismo
 � Deficiência de 
vitamina D
 � Osteomielite
 � Recuperação de 
fraturas
 � Colestase 
 � Hepatite
 � Cirrose
 � Lesão hepática
 � Carcinoma bronquial 
Fonte: Adaptado de Swaminathan (2011).
Embora a função metabólica da fosfatase alcalina seja desconhecida, 
parece estar envolvida com a calcificação óssea. Essa enzim apresenta isoen-
zimas que são específicas de cada fonte de origem. Para estabelecer a origem 
do seu aumento sérico, são empregados métodos baseados nas propriedades 
físicas e químicas das isoenzimas, que incluem: separação eletroforética, 
estabilidade ao calor, inibição química e ensaios imunológicas. 
Enzimologia12
Gama-glutamiltransferase 
A gama-glutamiltransferase (γGT, marcador de colestase) está presente na 
membrana celular, principalmente no retículo endoplasmático liso de quase 
todas as células humanas, exceto no músculo esquelético. Sua principal função 
é catalisar a transferência de grupos γ-glutamil de um peptídio para outro ou 
de umpeptídio para um aminoácido. A γGT é encontrada abundantemente 
no fígado, e em menor concentrações no rim, pâncreas, intestino, coração 
e cérebro. Como as doenças hepáticas ativas são as principais causas de 
detecção da enzima no soro, a γGT atua com um importante biomarcador de 
doença hepatobiliar. O valor normal sérico difere em ambos os sexos, sendo 
mais elevados nos homens (até 55 U/L) do que nas mulheres (até 38 U/L). A 
γGT também é um parâmetro útil para o controle de pacientes alcoólatras, 
pois o consumo de álcool, mesmo em pequenas doses, aumenta os valores 
plasmáticos da enzima (SWAMINATHAN, 2011). 
Colinesterase
A colinesterase é uma enzima com capacidade de hidrolisar a acetilcolina 
presente nas sinapses, regulando a transmissão de impulsos nervosos através 
de fibras pré-ganglionares parassimpáticas e pós-ganglionares simpáticas. 
Existem duas categorias de colinesterase: acetilcolinesterase (colinesterase 
verdadeira), presente nos eritrócitos e terminações de nervos colinérgicos, 
e pseudocolinesterase, encontrada em vários órgãos, como fígado, plasma, 
matéria branca do cérebro. Tais enzimas têm especificidade por substrato 
distintos: a colinesterase verdadeira tem afinidade por acetilcolina e a pseu-
docolinesterase, por butirilcolina (CÂMARA et al., 2013).
O principal uso clínico da colinesterase sérica (valores de referência: 
3.500 a 8.500 U/L) é no diagnóstico de intoxicação por inseticidas do grupo 
organofosforados e carbamatos. Nesse caso, os níveis das enzimas mostram-
-se diminuídos, pois esses inseticidas inibem a atividade das colinesterases, 
o que também ocorre em doenças parenquimatosas hepáticas (hepatite e 
cirrose) e em carcinoma hepático. 
Enzimas cardíacas
As doenças cardiovasculares são uma classe envolve o coração e os vasos 
sanguíneos, e estão comumente relacionadas à aterosclerose, uma condição 
em que placas de colesterol são depositadas nas paredes internas dos vasos 
sanguíneos, fazendo com que tais paredes se estreitem e possivelmente fi-
Enzimologia 13
quem bloqueadas, causando uma obstrução do fluxo sanguíneo capaz de levar 
a aumento da pressão arterial, ataque cardíaco, acidente vascular cerebral 
ou doenças arteriais periféricas. Nesse contexto, as enzimas cardíacas atuam 
como ferramenta diagnóstica, uma vez que seu nível anormal no soro atua 
como um indicador/marcador no prognóstico da doença cardíaca (OPAS, 2022).
Creatina quinase 
A creatina quinase (CK) catalisa a fosforilação reversível da creatina. Trata-se 
de uma enzima encontrada em altas concentrações nos músculos cardíaco e 
esquelético e no cérebro. Sendo assim, qualquer dano nas células que com-
põem esses órgãos ocasionará um aumento dos níveis séricos dessa enzima. 
A CK é um dímero formado por duas subunidades (B e M) de peso molecular de 
40 kDa e separada em três isoformas distintas: CK-BB (CK1), predominante no 
cérebro; CK-MB (CK2), encontrada em grau variado no coração e em pequenas 
quantidades no musculo esquelético; e CK-MM (CK3) encontrada predominante 
no musculo esquelético. Essas isoformas são encontradas no citosol. Por 
outro lado, uma quarta isoforma se encontra presente nas mitocôndrias, 
denominada CK-Mt, que corresponde a apenas 15% de toda a atividade da 
CK cardíaca (SWAMINATHAN, 2011).
A concentração sérica de CK total aumenta até um máximo de 2,0 U/mL 
durante infarto do miocárdio, distrofia muscular e reações inflamatórias, 
auxiliando assim no prognóstico precoce dessas doenças. 
Dados da literatura apontam que indivíduos africanos saudáveis 
apresentam valor sérico de CK maior que indivíduos caucasianos, da 
mesma forma que homens (15 a 160 U/L) apresentam valores mais altos que as 
mulheres (15 a 130 U/L). Provavelmente essas situações ocorrem em decorrência 
da alta massa muscular.
Desidrogenase láctica 
A desidrogenase láctica (LD) é uma enzima que catalisa a oxidação reversível 
do L-lactato a piruvato, sendo um tetrâmero composto por quatro cadeias 
peptídicas de duas subunidades: M, do músculo esquelético, e H, do miocár-
dio. Essas subunidades podem se combinar de cinco maneiras diferentes, 
originado as isoenzimas: LD1 (H4) e LD2 (H3M), encontradas nos eritrócitos, 
coração e rins; LD3 (H2M2), presente no pâncreas, pulmões e leucócitos; 
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LD4 (HM3) e LD5 (M4), que predominam no fígado e no músculo esquelético 
(SWAMINATHAN, 2011). 
Devido à presença em diversos tecidos, a dosagem de LD total (valor de 
referência: 95 a 225 U/L) não é um marcador específico para doenças cardía-
cas, embora se torne útil quando determinada em conjunto com as enzimas 
CK e AST. Por outro lado, a determinação das isoenzimas da LD facilita o 
diagnóstico de infarto do miocárdio, uma vez que a LD1 e a LD2 são enzimas 
encontradas quase exclusivamente no coração. 
Em geral, podemos concluir que a determinação das concentrações enzi-
máticas tem uma grande importância clínica, pois são indicativos sensíveis e 
muitas vezes específicos dos tecidos danificados. Desse modo, a quantificação 
da sua atividade pode ser aplicada no diagnóstico e no acompanhamento 
terapêutico de várias enfermidades. 
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