Prévia do material em texto
Doenças Infecciosas e Parasitárias Professor: Leandro Vasconcelos Os grandes desafios enfrentados atualmente pela saúde humana mundial podem ser organizados em três grandes grupos As doenças relacionadas ao envelhecimento As doenças infecciosas As doenças da modernidade (p. ex., depressão, violência, acidentes) Ø Os seres humanos são vítimas de milhares de agentes infecciosos que variam desde vírus submicroscópicos até vermes com vários metros de comprimento. Ø As doenças infecciosas permanecem como um importante problema de saúde no Brasil e ao redor do mundo, apesar da disponibilidade de vacinas e antibióticos eficazes para muitos tipos de infecções. ØDoenças infecciosas são aquelas provocadas por micro-organismos como vírus, bactérias, fungos ou protozoários Ø Grande desafio da humanidade em termos de saúde pública, sobretudo nos países em desenvolvimento, e seus impactos são enormes na saúde da população. As mudanças climáticas têm acarretado alteração no comportamento e na distribuição de algumas doenças de transmissão vetorial, antes restritas a regiões eminentemente tropicais (p. ex., a febre amarela) e aumento de casos de doenças passíveis de eliminação, mas que ainda permanecem como desafio em saúde pública (em razão da pobreza e da ausência de saneamento básico) O processo de interação dos agentes infecciosos e o sistema imune do hospedeiro são cruciais para diversos aspectos da biologia do hospedeiro, devendo-se considerar, de início, a participação da microbiota normal – ela é decisiva, muitas vezes, para a absorção de nutrientes, maturação das mucosas, estímulo à imunidade, proteção contra patógenos e manutenção da integridade dos epitélios. Entretanto, nessa relação, se ocorrer lesão induzida pela ação direta do agente microbiano ou de seus produtos ou mesmo quando houver o estímulo ao desenvolvimento de resposta imune específica, ocorrerá indução de alterações teciduais localizadas, estabelecendo-se, assim, a gênese da infecção/doença infecciosa DOENÇAS INFECCIOSAS • A Infecção é a penetração, multiplicação e / ou desenvolvimento de um agente infeccioso em determinado hospedeiro; doença infecciosa são as consequências das lesões causadas pelo agente e pela resposta do hospedeiro manifestada por sintomas e sinais e por alterações fisiológicas, bioquímicas e histopatológicas. • Quando o agente infeccioso penetra, multiplica-se ou desenvolve-se no hospedeiro, sem causa danos nem manifestações clínicas, considera-se a infecção subclínica, inaparente ou assintomática. Outras vezes, porém, por ação mecânica, por toxinas, por reação inflamatória ou hipersensibilidade ocorre o conflito parasito-hospedeiro, com destruição tissular e manifestações clínicas e patológicas, caracterizando a doença infecciosa. Quando se considera qualquer doença infecciosa, deve-se ter em mente o conceito de integração , que certamente vai nos ajudar a entendê-la e nos p e r m i t i r l i d a r c o m a s s u a s p l e o m ó r f i c a s manifestações. No campo da medicina, o conhecimento de qualquer doença se baseia em três pilares: • um que diz respeito aos sinais e sintomas, • outro que é relacionado ao diagnóstico e aos procedimentos afins, • e o terceiro se refere à terapêutica. Os três pilares se assentam sob uma base que representa o entendimento da patogenia da doença com definição de seus mecanismos de lesão. Com a finalidade precípua de resolver ou interferir no curso das doenças infecciosas, são necessários o domínio e a integração de todas essas áreas para que se possa implantar um sistema eficiente de prevenção e controle. As doenças infecciosas e parasitárias podem ser causadas pelos seguintes mecanismos: • Invasão e destruição dos tecidos por ação mecânica, por reação inflamatória ou por ação de substâncias líticas (lisinas); • Ação de toxinas específicas, elaboradas pelos germes infectantes ou parasitos, capazes de causar danos locais e / ou à distância nas células dos hospedeiros; • Indução de reação de hipersensibilidade com resposta imune do hospedeiro capaz de produzir lesões em suas próprias células e tecidos. As doenças infecciosas são causas de morte particularmente importantes entre crianças, idosos, indivíduos com doenças debilitantes crônicas e distúrbios de imunodeficiência herdadas ou adquiridas (p. ex., AIDS) e em pessoas que fazem uso de fármacos imunossupressores. O Brasil registrou, em 2020, 1.556.824 mortes, O grupo de doenças infecciosas e parasitárias obteve maior destaque entre as causas definidas (SMR 4,80; IC95% 4,78–4,82) Príon é uma proteína infecciosa capaz de provocar diferentes doenças em seres humanos e também em outros animais. Essas estruturas podem ser definidas como versões enoveladas incorretamente de proteínas cerebrais normais. Quando essas proteínas anormais entram em contato com uma versão normal, isso faz com que esta assuma a forma anormal, provocando uma reação em cadeia e levando à formação de agregados de príons. As doenças causadas por príons, também denominadas doenças priônicas, caracterizam-se por serem doenças lentas e que provocam lesões típicas no sistema nervoso central. A Insônia familiar fatal (IFF): trata-se de uma doença considerada extremamente rara, apresentando cerca de 100 casos descritos até o ano de 2016. Apresenta características hereditárias, e seus sinais e sintomas incluem insônia, redução do tempo total de sono, pequenos períodos de sono REM, declínio cognitivo, alucinações e perda de peso, resulta de uma mutação autossômica dominante no gene PRNP. Kuru: a doença foi identificada na tribo Fore, da Nova Guiné, e descoberta na década de 50. Na ocasião, percebeu-se que os habitantes da tribo estavam sofrendo com uma doença grave que atingia o sistema nervoso e levava os indivíduos à morte cerca de um ano após o início dos sintomas. A causa da doença estava relacionada com o canibalismo praticado pela tribo, sendo que os membros comiam parte do corpo do familiar morto em rituais fúnebres. causada por príons que agora ocorre raramente, quase nunca. Ela causa deterioração rápida da função mental e perda de coordenação. Vírus Os vírus são parasitos intracelulares obrigatórios que dependem da maquinaria metabólica da célula hospedeira para sua replicação. Eles são compostos por um genoma de ácido nucleico circundado por um envoltório proteico (denominado capsídeo), que algumas vezes está envolvido por uma membrana lipídica. Os vírus são classificados de acordo com o ácido nucleico que compõe seu genoma (DNA ou RNA, mas nunca ambos), o formato do capsídeo (icosaédrico ou helicoidal), a presença ou a ausência de envelope lipídico, sua forma de replicação, seu tipo celular preferencial para replicação (denominado tropismo) ou o tipo de doença que causam. Responsáveis por uma grande parcela das infecções humanas, os vírus podem causar doenças de várias formas Muitos causam doenças transitórias (p. ex., resfriados, gripe). Outros vírus não são eliminados do organismo e persistem nas células do hospedeiro durante anos, continuando a replicar (p. ex., infecção crônica pelo vírus da hepatite B [HBV]) ou sobrevivem sob uma forma latente não replicativa, com potencial para ser reativado posteriormente. Bactérias As bactérias são seres procariotas, o que significa que apresentam uma membrana celular, mas não possuem membrana nuclear ou outras organelas envolvidas por membrana. A maioria das bactérias está delimitada por uma parede celular constituída por peptidoglicano, um polímero de cadeias longas de açúcar ligadas por pontes peptídicas que circundam a membrana celular. Existem duas formas comuns de estrutura da parede celular: uma parede espessa que retém a coloração por cristal violeta (bactérias Gram- positivas) e uma parede celular delgada circundada por uma membrana externa (bactérias Gram-negativas) As bactérias são classificadas de acordo com a coloração de Gram(positiva ou negativa), a sua forma (esférica, denominada cocos, ou de bastão, denominada bacilos) e a sua exigência de oxigênio (aeróbias ou anaeróbias). As bactérias móveis apresentam flagelos, filamentos helicoidais longos que se estendem da superfície celular que giram e movem as bactérias. As bactérias estão indicadas por setas. (A) Coloração de Gram de escarro de um paciente com pneumonia. São observados cocos alongados Gram-positivos em pares e cadeias curtas (Streptococcus pneumoniae) e um neutrófilo. (B) Coloração de Gram de uma amostra proveniente de lavagem broncoalveolar, mostrando bastonetes intracelulares gram-negativos típicos de membros da família Enterobacteriaceae, como Klebsiella pneumoniae ou Escherichia coli. (C) Impregnação pela prata em tecido cerebral de um paciente com meningoencefalite por doença de Lyme. Duas espiroquetas helicoidais (Borrelia burgdorferi) estão evidenciadas (setas). (A), (B) e (C) estão em aumentos diferentes As bactérias causam uma diversidade de infecções, variando de faringite e infecções do trato urinário comuns até mesmo doenças raras, como a hanseníase Fungos são organismos eucariotas que possuem paredes celulares espessas, compostas por carboidratos complexos como betaglucanas, quitina e glicoproteínas glicosiladas. O calcoflúor branco, um composto fluorescente que liga à quitina, proporciona uma maneira útil para identificar fungos em amostras dos pacientes. Os ensaios para detecção de betaglucanas no sangue são utilizados para diagnosticar infecções fúngicas disseminadas. Os fungos podem crescer tanto na forma de células leveduriformes arredondadas quanto na forma de hifas delgadas filamentosas. Os fungos podem causar infecções superficiais ou profundas. • Infecções superficiais envolvem pele, cabelo e unhas. As espécies fúngicas que causam infecções superficiais são denominadas dermatófitas. A infecção cutânea é denominada tinea; assim, a tinea pedis é o “pé de atleta” e a tinea capitis é a “tinha do couro cabeludo”. Certos fungos invadem o tecido subcutâneo, causando abscessos ou granulomas. As infecções crônicas, frequentemente no pé, são denominados micetomas. • Infecções fúngicas profundas podem se disseminar sistemicamente e invadir os tecidos, destruindo órgãos vitais nos hospedeiros imunocomprometidos, mas geralmente há cura espontânea ou permanecem latentes em hospedeiros normais. Protozoários são organismos eucariotas unicelulares causadores de muitas doenças e morte em países em desenvolvimento. Os protozoários podem se reproduzir intracelularmente em vários tipos de células (p. ex., Plasmodium em eritrócitos, Leishmania em macrófagos) ou extracelularmente no sistema urogenital, intestino ou sangue. • Os organismos da espécie Trichomonas vaginalis são parasitos protozoários flagelados transmitidos sexualmente que frequentemente colonizam a vagina e a uretra masculina. • Os protozoários intestinais patogênicos mais prevalentes, Entamoeba histolytica e Giardia lamblia, são ingeridos na forma de cistos imóveis presentes na água e alimentos contaminados, e se transformam em trofozoítos móveis que se aderem às células epiteliais intestinais. • Os protozoários transmitidos pelo sangue (p. ex., Plasmodium, Trypanosoma, Leishmania) são veiculados por insetos vetores, no interior dos quais se reproduzem antes de ser transmitidos para novos hospedeiros humanos. O Toxoplasma gondii é adquirido tanto por meio do contato com oocistos eliminados por gatos quanto pela ingestão de carne mal cozida contendo cistos. Ø As bactérias (Reino Monera) são os menores seres vivos e possuem células do tipo procariota – sem membrana nuclear. Ø Os protozoários (Reino Protista) possuem células eucariotas que são células maiores, mais complexas e com carioteca (membrana do núcleo). Helmintos Os vermes parasitos são organismos multicelulares altamente diferenciados. O seu ciclo de vida é complexo; grande parte alterna entre reprodução sexuada no hospedeiro definitivo e multiplicação assexuada no hospedeiro intermediário ou vetor. Dessa forma, dependendo da espécie, os seres humanos podem abrigar vermes adultos (p. ex., Ascaris lumbricoides), estágios imaturos (p. ex., Toxocara canis) ou formas larvais assexuadas (p. ex. Echinococcus spp.). Uma vez instalados nos humanos, os vermes adultos normalmente não se multiplicam, mas produzem ovos ou larvas que geralmente são eliminados nas fezes. Frequentemente, a gravidade da doença é proporcional ao número de organismos infectantes. Por exemplo, uma carga de 10 ancilostomídeos está associada a doença clínica leve ou inexistente, enquanto 1.000 ancilostomídeos consomem quantidade de sangue suficiente para causar anemia grave. Em algumas infecções helmínticas, como na esquistossomíase, a doença é causada por respostas inflamatórias direcionadas aos ovos ou larvas, em vez de direcionada aos vermes adultos. Os helmintos são divididos em três grupos: • Nematelmintos (nematódeos) são circulares em cortes transversais e não segmentados. Os nematódeos intestinais incluem A. lumbricoides, Strongyloides stercoralis e ancilostomídeos. Os nematódeos que invadem os tecidos incluem as filárias, como Wuchereria bancrofti e Trichinella spiralis • Tênias (cestódeos) possuem cabeça (escólex) e uma fita de múltiplos segmentos achatados (proglótides). Esses parasitos adsorvem nutrientes através de seu tegumento e não possuem trato digestivo. Incluem as tênias do peixe, do boi e porco, que se alojam no intestino humano. As larvas que se desenvolvem após a ingestão dos ovos de certos cestódeos podem causar doença cística no interior de tecidos (as larvas de Echinococcus granulosus formam cistos hidátidos; as larvas da tênia do porco produzem cistos denominados cisticercos em diversos órgãos). • Digeneicos (trematódeos) são vermes achatados em forma de folha com ventosas proeminentes, as quais são utilizadas para fixação no hospedeiro. Incluem os digeneicos hepáticos e pulmonares e os esquistossomas. Ectoparasitos são insetos (p. ex., piolhos, percevejos, pulgas) ou aracnídeos (p. ex., ácaros, carrapatos, aranhas) que causam doença por meio de picadas ou por fixação para viver junto ou no interior da pele. A infestação cutânea por artrópodes é caracterizada por prurido e escoriações, como a pediculose causada por piolhos fixados ao cabelo, ou a sarna causada por ácaros escavadores no interior do estrato córneo. No local da picada, partes do aparelho bucal podem ser encontradas associadas a um infiltrado misto de linfócitos, macrófagos e eosinófilos. Os artrópodes também podem servir como vetores para outros patógenos, como Borrelia burgdorferi, o agente causador da doença de Lyme, que é transmitido por carrapatos dos cervos. Aumento no número de detecção de DIP • Alguns patógenos foram descobertos devido ao aperfeiçoamento dos métodos de detecção, embora provavelmente estivessem presentes entre os seres humanos durante séculos. Por exemplo, Helicobacter pylori, que causa gastrite e úlcera péptica, só foi descoberto nos anos 1980. • Os animais constituem uma fonte de novos agentes patogênicos que infectam os seres humanos. Dois coronavírus que causam infecções respiratórias graves em seres humanos – o coronavírus da síndrome respiratória do oriente médio (MERS CoV) e o vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) – provavelmente se difundiram para os seres humanos a partir de animais e foram detectados pela primeira vez em 2003 e 2012, respectivamente. • Os microrganismos podem adquirir genes que aumentam a virulência ou evadem e superam as defesas do hospedeiro. Em 2011, quase 4.000 indivíduos na Alemanha foram infectados por uma nova cepa altamente virulenta de Escherichia coli produtora de toxina Shiga que se espalhou em sementes. A nova cepa se originou a partir de um tipo diferente de E. coli que adquiriu um gene para a toxina Shiga de um bacteriófago. • Outros agentes patogênicos tornaram-se muito maiscomuns devido à imunossupressão causada pela AIDS ou à terapia para prevenir a rejeição de transplantes ou tratar câncer (p. ex., herpes-vírus humano 8, complexo Mycobacterium avium, P. jirovecii). Novas doenças infecciosas emergentes e reemergentes Um número surpreendente de novos agentes infecciosos continua a ser descoberto, e há diversas razões para isso: Transmissão dos microrganismos A transmissão das infecções pode ocorrer por diversas vias: • Contato (direto e indireto) • Gotículas respiratórias • Via fecal-oral • Transmissão sexual • Transmissão vertical da mãe para o feto ou recém-nascido • Insetos/artrópodes vetores As defesas do hospedeiro contra a infecção incluem: • Pele: barreira ceratinizada resistente, baixo pH, ácidos graxos, microbiota normal • Sistema respiratório: macrófagos alveolares e ação de limpeza mucociliar pelo epitélio brônquico, IgA • Sistema gastrointestinal: pH gástrico ácido, muco viscoso, enzimas pancreáticas e bile, defensinas, IgA e flora normal • Trato urogenital: fluxo repetido e ambiente ácido criado pela flora vaginal comensal Professor: Leandro Vasconcelos E-mail: leandrovasconcelos@professor.fadat.edu.br