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Direito Processual Penal: fundamentos e aspectos essenciais - Processo Penal e Teoria Geral: pensando o processo penal desde seu “lugar” Direito Processual Penal: fundamentos e aspectos essenciais Processo Penal e Teoria Geral: pensando o processo penal desde seu “lugar” A Constituição possui um sentido formal e material e tem como principal finalidade regular e equilibrar os poderes do Estado, de modo que não haja arbitrariedade e os direitos garantidos aos indivíduos possam realmente ser preservados. Inclusive, segundo o conceito sociológico de Ferdinand Lassale, o objetivo da Constituição seria regular os fatores reais de poder. Entretanto, nem todo texto constitucional tomará como base apenas os principais parâmetros, ou seja, aquelas principais tarefas do Estado, a atribuição dos órgãos, além de tratar dos direitos fundamentais da pessoa humana. Desse modo, há matérias que não serão essencialmente materiais, mas apenas formalmente constitucionais. Assim sendo, para estudar o direito processual penal brasileiro, não se poderia separá-lo de uma visão constitucional, vez que se deve atentar aos direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição Cidadã. Desta maneira, deve-se observar o direito constitucional, abarcando a sua visão com a finalidade de entender melhor o processo penal, com uma visão mais abrangente, até porque o Código de Processo Penal foi criado em 1941, na ditadura de Vargas, não pode servir de base para a interpretação das normas. Observe-se que o processo penal lida com liberdades e direitos indisponíveis que se ligam à dignidade da pessoa humana, o que faz com que seja imprescindível entender a ordem constitucional como base para todas as legislações infraconstitucionais. Ademais, os estudos dos princípios constitucionais do processo penal necessitam dessa base para que se possa entender a finalidade dos princípios, de modo a chegar na culpa ou absolvição do réu de forma correta. Entretanto, apenas os princípios veiculados no documento constitucional e processual penal não estão por si só aptos a resolver na prática a questão da arbitrariedade do Estado. Um dos fatores imprescindíveis para tal objetivo é justamente que os operadores do Direito mudem a percepção da realidade do direito e processo penal, que não o veja como força estatal que apenas impõe a sua vontade, pelo contrário, entender que se prestam a equilibrar o poder estatal, para que não o torne ilimitado. Desse modo, o processo penal deve ser democrático, se valer dos instrumentos trazidos pela Constituição e buscar sempre a dignidade da pessoa humana. A partir do momento em que um delito é cometido, o Estado tem o poder-dever de punir, é a chamada pretensão punitiva do Estado. Porém, tal incumbência de punir é fundamentada, por exemplo, no princípio da legalidade, o qual afirma que não há crime sem prévia lei que o defina, nem pena sem prévia cominação legal, de acordo com o artigo 1º do Código Penal. Essa pretensão punitiva pode ser entendida como o direito do Estado por meio de uma ação pública de solicitar a prestação jurisdicional, podendo condenar ou absolver o acusado. O direito processual penal então vai se encarregar de normatizar a forma como o Estado deve punir: será um conjunto de normas com vistas a regulamentar os procedimentos que serão aplicados naquele caso concreto, embasado nos princípios constitucionais. Pode-se dizer, também, que é um instrumento para a solução de um conflito. Nucci (2020) aponta que o processo penal é a coexistência entre a segurança e a Justiça, em que pode haver um convívio entre a garantia dos direitos fundamentais e a busca pela segurança pública. Ainda, o direito processual penal é considerado autônomo, não se podendo entendê-lo como consectário, substantivo do direito penal, pois se propõe a estudar as normas que o compõem. Ao adentrar na esfera da teoria geral do processo, poderia se dizer que a teoria geral do processo, teoria do processo, teoria geral do direito processual ou teoria do direito processual possui como tarefa organizar e articular os conceitos jurídicos fundamentais processuais. E o que são esses conceitos lógico-jurídicos processuais? São aqueles que se destinam a compreender o fenômeno processual, trazendo como exemplos a competência e a legitimidade. Entretanto, por inúmeros argumentos, a maioria dos doutrinadores, como Nucci (2020) e Lopes Júnior (2020), entendem que não há uma teoria geral do processo, isso porque abarcam objetos diferentes, cada uma tem suas especificidades, nas palavras de Lopes Júnior (2020, p. 562): “é um erro fazer transmissões mecânicas das categorias do processo civil para o processo penal, desconsiderando a especificidade do objeto do processo penal e o complexo ritual de exercício de poder estabelecido (absolutamente diferente do processo Como primeiro argumento, o direito processual penal jamais admite a aplicação de uma pena por via extraprocessual, no que concerne aos direitos civis. Entretanto, quase sempre é aplicado o direito civil sem que se necessite de processo, somente quando existe um conflito de interesses é que se busca a via processual. A maioria dos interesses na órbita civil é disponível, podem ser negociados inclusive em juízo arbitral; no processo penal por sua vez, jamais se tratará se direito disponível, além de estar sujeito à oficialidade. A busca da verdade no processo penal e civil também são diferentes, no processo penal no caso de dúvida sobre a culpa do réu, ele será absolvido; já no âmbito cível, aquele que não negar os fatos alegados na petição inicial por meio de contestação, serão tidos os fatos como verdade. A ideia de buscar a verdade real no processo penal encontra-se um tanto ultrapassada, isso porque o juiz decide com base na verdade processual dos autos, que basicamente é formal, ao mesmo tempo que isso não diminui a qualidade das provas. Nucci (2020), entretanto, não concorda que se tenha superado a diferença entre a verdade real e formal, argumentando que se assim fosse, não haveria que se falar em princípio da verdade real; se assim não o fosse, a jurisprudência não se utilizaria desse princípio, veja: HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. OCULTAÇÃO DE CADÁVER. QUADRILHA. MANIFESTAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. FASE PROCESSUAL. ALEGAÇÕES FINAIS. REQUERIMENTO. JUNTADA DE PROVA. OITIVA DE TESTEMUNHA. PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO. PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA. OBSERVÂNCIA. PRINCÍPIO DA VERDADE REAL. PRINCÍPIO DO LIVRE CONVENCIMENTO. PROVA EMPRESTADA. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL. ORDEM DENEGADA. 1. É legal a juntada de nova prova aos autos mesmo após o término da instrução criminal, quando o Ministério Público, no momento da intimação para o oferecimento de alegações finais, requer juntada de mídia com depoimento de testemunha, bem como a oitiva desta, tendo sido aberta a oportunidade para defesa manifestar-se a respeito, uma vez que o Juiz entendeu ser necessária a realização da diligência para formação do seu livre convencimento, dependente, como atividade ínsita ao processo penal, do encontro da verdade por meio da reconstrução histórica dos fatos, observados os princípios da busca da verdade, da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal. 2. É cabível prova emprestada no âmbito do processo penal, nomeadamente na hipótese em que o réu fez parte do processo originário, de onde ela adveio, e posteriormente foi desmembrado em razão de o denunciado estar em lugar incerto e não sabido. 3. Ordem denegada. (STJ - HC: 265329 RJ 2013/0050539-8, Relator: Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Data de Julgamento: 13/08/2019, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 27/08/2019). Ao mesmo tempo, a busca pela verdade real poderia ser considerada utópica, vez que o processo só fornece as provas existentes nos autos. Porém, a busca pela verdade real continuaria a ser o objetivo da atuação judicial. Note-se que a busca da verdade no processo penal e no processo civil são diferentes: no primeiro,a presunção de inocência prevalece sobre os demais interesses; no segundo, a maioria dos direitos são disponíveis, passíveis de negociação. Além disso, as peças processuais também são diferentes, a denúncia ou queixa devem ser a mais concisas possíveis; já na petição inicial cível, o uso da jurisprudência e da doutrina é indiscriminado. Ainda, a denúncia e a queixa devem estar embasadas em provas pré-constituídas, que tragam pelo menos alguns indícios de autoria e materialidade; no processo civil, não há essa exigência. Outra diferença entre o processo penal e o cível é que neste último pode-se operar a revelia, ou seja, os fatos se presumem verdadeiros se não contestados, o que no âmbito processual penal jamais poderia acontecer, pois que iria de encontro a todos os princípios do sistema. Exemplo também a ser citado é do titular da ação, pois na ação penal só é titular o Ministério Público e, em casos específicos, a vítima. Já na ação cível, todas as pessoas que demonstrarem interesse legítimo podem pleitear perante a justiça. Cite-se como exemplo também a confissão, que no processo civil gera o reconhecimento do pedido, em que pese no processo penal ser ela relativa. Quando tal teoria geral do processo se originou, a consequência é que o processo penal se tornou uma disciplina secundária, pois estudava-se muito mais o processo civil. Por esses e tantos outros motivos, hoje a maioria da doutrina é no sentido de que não se cabe falar em uma teoria geral do processo, pois o processo cível e penal é regido cada um com suas especificidades e princípios. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 15 mar. 2021. BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848 de 7 de dezembro de 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm. Acesso em: 10 de mar. 2021. LOPES JÚNIOR, Aury. Direito Processual Penal. 17 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Processual Penal. 17 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Superior Tribunal de Justiça STJ - Habeas Corpus: HC 0050539-27.2013.3.00.0000 RJ 2013/0050539-8. Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/859232738/habeas-corpus- hc-265329-rj-2013-0050539-8. Acesso em: 10 mar. 2021. https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/859232738/habeas-corpus-hc-265329-rj-2013-0050539-8 https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/859232738/habeas-corpus-hc-265329-rj-2013-0050539-8