Prévia do material em texto
DIREITOS HUMANOS AULA 5 Processo de incorporação dos tratados de direitos humanos e posição normativa 1. INTRODUÇÃO § Interações entre o DIDH e o Direito Constitucional no que diz respeito ao processo de incorporação dos tratados: Direito Constitucional dos Direitos Humanos ou Direito Constitucional Internacional. § Poderes envolvidos no processo de incorporação do tratado na ordem jurídica interna: com a exceção da Constituição do Império, de 1824, que atribuía ao Imperador, como regra, o poder absoluto para celebrar tratados, devendo apenas dar ciência à Assembleia-Geral, todas as Constituições brasileiras seguintes, a partir da primeira republicana, de 1891, adotaram um pressuposto constitucional que é comum em países democráticos para a incorporação do tratado na ordem jurídica interna: a autorização prévia do Poder Legislativo. 1. INTRODUÇÃO § CF/88, art. 84, VIII: compete privativamente ao Presidente da República celebrar tratados, convenções e atos internacionais. § CF, art. 49, I: compete exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. § Francisco Resek: “A vontade individualizada de cada um deles [dos Poderes Executivo e Legislativo] é necessária, porém não suficiente”. § Teoria da junção de vontades ou teoria dos atos complexos. 2. FASES DO PROCESSO DE INCORPORAÇÃO ASSINATURA APROVAÇÃO LEGISLATIVA RATIFICAÇÃO DECRETO DE PROMULGAÇÃO 2.1. ASSINATURA § Compreende a negociação – quando ainda aberta – até a assinatura do texto do tratado pelo Estado. § Uma fase protagonizada pela Presidência da República, que pode atuar diretamente, como Chefe de Estado, ou por representantes considerados capazes para assinar tratados de acordo com a CVDT. § O tratado não entra em vigor para o Estado com a assinatura. § CVDT, art. 18: pelo princípio da boa-fé, porém, o Estado deve se abster da prática de atos que possam frustrar o objeto e a finalidade do tratado. § Com a assinatura, o Ministro das Relações Exteriores prepara uma Exposição de Motivos, na qual explica as razões que conduziram à assinatura do tratado e solicita ao PR, por meio de uma Mensagem, que envie o texto ao Congresso Nacional. 2.1. ASSINATURA § O ato de submeter o texto do tratado ao Congresso Nacional é discricionário, podendo o PR efetuar um juízo de conveniência e oportunidade sobre se e quando assim o fará. § Exceção a essa regra: art. 19.5.b da Constituição da OIT, que estabelece o prazo de um ano para que o Estado proceda com o encaminhamento do texto do tratado ao órgão competente para examiná-lo. 2.2. APRECIAÇÃO LEGISLATIVA § Tem início na Câmara dos Deputados, observado por analogia o art. 64, caput, da CF (projetos de lei de iniciativa do PR). § Se aprovado na Câmara, a matéria segue para o Senado. Rejeitada a matéria, em quaisquer das Casas Legislativas, basta comunicar ao PR. § Aprovada a matéria na Câmara e no Senado, a decisão é formalizada por meio de um Decreto Legislativo, promulgado pelo Presidente do Senado. § Um único decreto legislativo pode aprovar mais de um tratado. Exemplo: Decreto Legislativo nº 186/2008, que aprovou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo. 2.2. APRECIAÇÃO LEGISLATIVA § O Congresso Nacional pode se retratar da aprovação do tratado, desde que antes da ratificação. § A doutrina discute se o Congresso Nacional teria competência para rejeitar parcialmente os termos de um tratado ou se somente poderia aprovar ou rejeitar na íntegra. § Entendo que resumir a fase da apreciação legislativa a um contexto decisório de tudo ou nada não é a melhor interpretação do art. 49, I, da CF. § As ressalvas do Congresso Nacional sobre um ou mais dispositivos podem ser consideradas como a manifestação da vontade de opor uma reserva ou declaração interpretativa ao tratado. “i) Basta que não sejam aprovados determinados dispositivos, que ficam ressalvados no texto do Decreto Legislativo: sem a aprovação do Congresso, o Presidente não terá outra escolha a não ser impor reservas desses dispositivos no momento da ratificação (a reserva é ato unilateral pelo qual o Estado, no momento da celebração final, manifesta seu desejo de excluir ou modificar o texto do tratado). ii) Além disso, a emenda pode exigir a modificação de parte do texto do tratado, cuja nova redação também consta do Decreto Legislativo, que também será comunicada pelo Presidente aos demais parceiros internacionais sob a forma de reservas. iii) Caso o Presidente não concorde com tais reservas, sua única opção é não ratificar o tratado” (André de Carvalho Ramos – Curso de Direitos Humanos). 2.2. APRECIAÇÃO LEGISLATIVA § Com a inserção do § 3º ao art. 5º da CF pela EC 45/2004, o CN passou a ter a opção de submeter o tratado a um procedimento qualificado para lhe conferir status normativo equivalente ao de emenda constitucional. § Falaremos mais sobre este dispositivo logo mais. 2.3. RATIFICAÇÃO § Ato praticado pelo Presidente da República, por meio qual o Estado consente em obrigar-se aos termos do tratado. § Entrada em vigor do tratado na ordem internacional, salvo disposição diversa (data ou número mínimo de membros). § Ato discricionário. § Neste momento, o PR pode apresentar reservas, que não precisam ser antes submetidas ao CN. 2.4. PROMULGAÇÃO § Exterioriza-se por meio de decreto do PR. § Para a doutrina tradicional, é o que provoca a incorporação do tratado na ordem jurídica interna. § Este também é – ainda – o entendimento do STF. Vejamos. “A Constituição brasileira não consagrou, em tema de convenções internacionais ou de tratados de integração, nem o princípio do efeito direto, nem o postulado da aplicabilidade imediata. Isso significa que enquanto não se concluir o ciclo de sua transposição, para o direito interno, os tratados internacionais e os acordos de integração, além de não poderem ser invocados, desde logo, pelos particulares, no que se refere aos direitos e obrigações nele fundados (princípio do efeito direto), também não poderão ser aplicados, imediatamente, no âmbito doméstico do Estado brasileiro (postulado da aplicabilidade imediata). O princípio do efeito direto (aptidão de a norma internacional repercutir, desde logo, em matéria de direitos e obrigações, na esfera jurídica dos particulares) e o postulado da aplicabilidade imediata (que diz respeito à vigência automática da norma internacional na ordem jurídica interna) traduzem diretrizes que não se acham consagradas e nem positivadas no texto da Constituição da República, motivo pelo qual tais princípios não podem ser invocados para legitimar a incidência, no plano do ordenamento doméstico brasileiro, de qualquer convenção internacional (...)” (CF 8.279 AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Plenário, j. 17.06.1998). “É na Constituição da República – e não na controvérsia doutrinária que antagoniza monistas e dualistas – que se deve buscar a solução normativa para a questão da incorporação dos atos internacionais ao sistema de direito positivo interno brasileiro. O exame da vigente Constituição Federal permite constatar que a execução dos tratados internacionais e a sua incorporação à ordem jurídica interna decorrem, no sistema adotado pelo Brasil, de um ato subjetivamente complexo, resultante da conjugação de duas vontades homogêneas: a do Congresso Nacional (...) e a do Presidente da República, que, além de poder celebrar esses atos de direito internacional (...), também dispõe – enquanto Chefe de Estado que é – da competência para promulgá-los mediante decreto. O iter procedimental de incorporação dos tratados internacionais (...) conclui-se com a expedição, pelo Presidente da República, de decreto, de cuja edição derivamtrês efeitos básicos que lhe são inerentes: a) a promulgação do tratado internacional; b) a publicação oficial de seu texto; e c) a executoriedade do ato internacional, que passa, então, e somente então, a vincular e a obrigar no plano do direito positivo interno” (ADI 1.480 MC, Rel. Min. Celso de Mello, Plenário, j. 04.09.1997). 2.4. PROMULGAÇÃO § Clássica questão envolvendo o embate dualismo versus monismo a respeito da relação entre os ordenamentos jurídicos interno e internacional. § Dualismo: os ordenamentos jurídicos interno e internacional são dois sistemas separados, de modo que para a norma internacional ter validade no ordenamento interno é necessário um ato de transposição legislativa, isto é, um ato normativo que reproduza o conteúdo da norma internacional. § Monismo: ambos os ordenamentos, o interno e o internacional, constituem um sistema normativo único, segundo o qual os tratados são incorporados automaticamente logo após a ratificação e devem ser imediatamente aplicados. § Dualismo = incorporação legislativa | Monismo = incorporação automática. 2.4. PROMULGAÇÃO § O entendimento adotado no Brasil aumenta o risco de responsabilidade internacional do Estado por uma questão formal totalmente desnecessária. § A missão de conferir publicidade ao tratado poderia ser perfeitamente cumprida mediante publicação de mero aviso – de caráter declaratório – de ratificação e entrada em vigor para o Brasil. § Vejamos, neste sentido, a lição de André de Carvalho Ramos. “Nossa posição é pela desnecessidade do Decreto de Promulgação, para todo e qualquer tratado. A publicidade da ratificação e entrada em vigor internacional deve ser apenas atestada (efeito meramente declaratório) nos registros públicos dos atos do Ministério das Relações Exteriores (Diário Oficial da União). (...) Esse aviso, de caráter declaratório, em nada afetaria o disposto no art. 84, VIII, e ainda asseguraria publicidade – desejável em nome da segurança jurídica – e sintonia entre a validade internacional e nacional interna dos tratados. Para que essa seja a nova praxe na observância dos tratados, não é necessária nenhuma alteração constitucional: (...) a Constituição é cumprida pela observância das fases de formação de um tratado; a incorporação pelo Decreto Executivo é reprodução de um costume analogicamente criado, sem apoio no texto constitucional. A nova interpretação que se oferece aqui tem a vantagem de evitar a responsabilização internacional do Brasil e ainda impedir que a desídia do eventual responsável pelo setor de publicação dos avisos de ratificação reste impune (...). Assim, a exigência do decreto de promulgação é supérflua e perigosa, podendo ser eliminada” (André de Carvalho Ramos – Curso de Direitos Humanos). 3. POSIÇÃO NORMATIVA § Supraconstitucional: tem como fundamento a origem internacional dos tratados e a necessidade de se dar cumprimento a eles. Tese sustentada, entre outros, pelo internacionalista Celso Albuquerque Mello. § Constitucional: tem como fundamento o art. 5º, § 2º, da CF, segundo o qual “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. Dispositivo idealizado por Cançado Trindade na constituinte. § Pelo menos materialmente constitucional: o art. 5º, § 3º, da CF, teria a utilidade de conferir apenas a constitucionalidade formal. Tese sustentada, entre outros, por Flávia Piovesan. § Supralegal: entendimento atual do STF (até 2008 entendia pela natureza equivalente à lei ordinária federal), adotado desde o RE 466.343. Teoria do duplo estatuto. 4. COMENTÁRIOS SOBRE O PROCEDIMENTO DO ART. 5º, § 3º, DA CF § CF, art. 5º, § 3º: “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. § O Congresso Nacional não é obrigado a submeter o texto do tratado ao procedimento do art. 5º, § 3º, da CF. § O Congresso Nacional pode primeiro aprovar conforme o procedimento simples e depois, num segundo momento, submeter o texto do tratado ao procedimento especial/qualificado? “O que o parágrafo [3º do art. 5º] faz é tão somente autorizar o Congresso Nacional a dar, quando lhe convier, a seu alvedrio e a seu talante, a ‘equivalência de emenda’ aos tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil. Isso significa que tais instrumentos internacionais poderão continuar sendo aprovados por maioria simples no Congresso Nacional (segundo a regra do art. 49, I, da Constituição), deixando-se para um momento futuro (depois da ratificação) a decisão do povo brasileiro em atribuir a equivalência de emenda a tais tratados internacionais. Sequer de passagem a Constituição obriga o Parlamento a dar cabo ao procedimento referendatório pela maioria qualificada estabelecida no art. 5º, § 3º, sendo discricionariedade do Poder Legislativo a aprovação do tratado com ou sem este quorum especial” (Valério Mazzuoli – Curso de Direitos Humanos). 4. COMENTÁRIOS SOBRE O PROCEDIMENTO DO ART. 5º, § 3º, DA CF § Consequências da aprovação do tratado de direitos humanos pelo procedimento do art. 5º, § 3º: a) passam a reformar a Constituição, incorporando-se formalmente ao seu texto e revogando aquilo que lhes for contrário; b) passam a ser paradigma do controle concentrado de constitucionalidade; e c) não podem ser denunciados porque passam a integrar o bloco das cláusulas pétreas da CF. § Denúncia de tratado: até agora, admite-se o PR denuncie unilateralmente qualquer tratado. Está pendente de julgamento no STF a ADI 1.625, já havendo votos favoráveis à tese que exige prévio aval do Congresso Nacional. § Denúncia e nova ratificação: Resek entende pela exigência de nova manifestação do Congresso. Cançado Trindade entende pela desnecessidade. § Um problema do art. 5º, § 3º: quem define qual tratado é de direitos humanos? 5. TRATADOS JÁ APROVADOS PELO CONGRESSO NACIONAL CONFORME O PROCEDIMENTO DO ART. 5º, § 3º, DA CF § Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência § Protocolo Facultativo à Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência § Tratado de Marraqueche para Facilitar o Acesso a Obras Publicadas à Pessoas Cegas, com Deficiência Visual ou com outras Dificuldades para ter Acesso ao Texto Impresso § Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância