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53 URINÁLISE II UNIDADE 2 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender os aspectos químicos inerentes às amostras de urina; • compreender os metabólitos presentes nas amostras de urina; • realizar pesquisa de componentes urinários; • entender as doenças metabólicas relacionadas ao trato urinário e diagnosticadas através da urinálise. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ANÁLISE QUÍMICA DA URINA TÓPICO 2 – SEDIMENTOS URINÁRIOS TÓPICO 3 – DOENÇAS URINÁRIAS E METABÓLICAS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 54 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 55 TÓPICO 1 — ANÁLISE QUÍMICA DA URINA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Na Idade Média, quando Paracelso, médico e cientista, adicionou vinagre a amostras de urina e obteve a formação de um precipitado, teve-se o ponto de partida para o desenvolvimento das análises químicas da urina. Em seguida, metodologias para identificação e quantificação de glicose, por meio da redução do cobre, e análise de proteínas com o ácido pícrico, enriqueceram o exame da urina. A análise da urina também permitiu ao neurologista Thomas Willis diferenciar pacientes com Diabetes mellitus daqueles com Diabetes insipidus, através do aspecto doce das amostras. Por volta de 1900, métodos enzimáticos para detecção de glicose em papel filtro foram desenvolvidos e se tornaram amplamente utilizados para testes de urina e sangue (SBPC, 2017). Essas metodologias deram origem às tiras reagentes impregnadas de indicadores químicos, que atualmente permitem uma análise química da urina mais rápida, simples, com baixo custo e alta precisão, além de possibilitarem a sua análise automatizada. Neste tópico, nós abordaremos a análise química da urina, na qual geralmente é avaliado o pH, a presença de proteínas, glicose, cetonas, sangue, bilirrubina, leucócitos, nitrito e urobilinogênio. Veremos também os possíveis interferentes e os protocolos para garantia da qualidade nesta etapa da urinálise. 2 METODOLOGIA DOS TESTES As tiras reativas constituem um meio simples e rápido de realizar dez ou mais análises bioquímicas clinicamente importantes, além da densidade, nas amostras de urina. Elas são constituídas por pequenos quadrados, ou almofadas, de papel absorvente impregnados com substâncias químicas e presos a uma tira de plástico, conforme exemplificado na Figura 1. Quando o papel absorvente entra em contato com a urina, ocorre uma reação química que produz uma mudança cromática, a qual pode ser lida de forma visual ou automatizada. A leitura automatizada é feita em equipamentos que são basicamente espectrofotômetros que medem a intensidade da luz na área reagente da fita, convertendo cor e intensidade de luz em concentração. De acordo com a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (2017), esses equipamentos permitem a padronização da leitura das análises químicas da urina, aumentando sua precisão enquanto diminui o tempo de análise. 56 A execução do teste obedece basicamente a cinco passos, com pequenas variações entre cada fabricante: • Primeiramente, mergulha-se brevemente a tira reativa na amostra de urina bem homogeneizada, não centrifugada e em temperatura ambiente. • na sequência, retira-se o excesso de urina encostando a borda da tira no recipiente e em um papel absorvente descartável. • espera-se o tempo da reação, geralmente de 1 a 2 minutos, dependendo de cada marca de teste. • por último, compara-se a cor de cada região da tira reativa com a tabela de cores e resultados fornecida pelo fabricante na própria embalagem do teste (STRASINGER; LORENZO, 2009). Figura 1 – Fita reagente para análise química da urina acompanhada da embalagem que possui o quadro para leitura do resultado Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/routine-test-urine-rapid-test-urine-test-strip-uri-WXAML7M. Acesso em: 9 set. 2022. 2.1 CONTROLE DE QUALIDADE DOS EXAMES Para garantir a integridade das tiras reagentes, seu armazenamento adequado é essencial, e as instruções do fabricante devem ser seguidas, mantendo-as protegidas da umidade, calor e luz, e respeitando o prazo de validade. Quaisquer tiras que mostrem evidência de deterioração, contaminação ou armazenamento inadequado devem ser descartadas. Para garantir a precisão dos resultados do teste, deve-se testar a reatividade química das tiras diariamente com controles de resultados conhecidos (BRUNZEL, 2018). Em relação à amostra, se esta for mantida à temperatura ambiente, deve ser testada dentro de duas horas após a coleta. Se a amostra de urina tiver sido refrigerada, deve-se aguardar que volte a temperatura ambiente antes de testar com tiras reagentes. A amostra pode ser testada no recipiente original de coleta ou depois que uma alíquota é colocada em um tubo de centrífuga. A tira reagente deve ser mergulhada brevemente 57 na amostra de urina, molhando todas as almofadas de teste. A remoção inadequada do excesso de urina da tira pode causar contaminação de um teste da almofada com os reagentes de outro, enquanto a imersão prolongada da tira faz com que os produtos químicos vazem da almofada na urina, sendo que ambas as ações podem produzir erros no teste (BRUNZEL, 2018). 3 PARÂMETROS ANALISADOS Durante a análise química da urina, diversos parâmetros são analisados simultaneamente. A seguir, veremos cada uma dessas análises, seus possíveis interferentes e como interpretá-las de acordo com seu significado clínico. 3.1 pH O metabolismo diário normal gera ácidos e bases, em resposta os rins e os pulmões trabalham em conjunto para manter o equilíbrio ácido básico do corpo. Os pulmões eliminam dióxido de carbono, enquanto os rins reabsorvem e geram bicarbonato, além de eliminar íons amônio. Nos distúrbios acidobásicos, o pH da urina reflete as tentativas de compensação por parte dos rins (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). O pH urinário pode variar entre 4,6 e 8,0. Um indivíduo adulto em condições normais excreta, em média, cerca de 50 a 100 mEq de íons hidrogênio diariamente, para produzir urina com pH em torno de 6. Uma urina ácida pode ocorrer em dietas ricas em proteína, devido a agentes farmacológicos, ou ainda em pacientes com acidose metabólica ou respiratória. Na cetoacidose diabética, grandes quantidades de íons hidrogênio são excretadas, principalmente sob a forma de íons amônio, refletindo na acidez da urina em pacientes com Diabetes mellitus mal controlada. Nos casos de perda de potássio, como nos casos prolongados de vômito ou uso de diuréticos, pode haver produção de uma urina discretamente ácida na presença de alcalose metabólica. MEq é a abreviação de miliequivalente e é definida como número de miliequivalentes de um soluto contido em 1 mL de solução. Obtida a através do peso molecular em miligramas, dividido pela valência/peso atômico da substância. NOTA 58 Por outro lado, a urina alcalina pode ocorrer no período pós-prandial, em pessoas que fazem dietas vegetarianas, devido a medicamentos alcalinizantes utilizados no tratamento de alguns tipos de cálculo e diante do comprometimento da função tubular. Na alcalose metabólica, há produção de urina alcalina com níveis elevados de bicarbonato urinário e diminuição da produção de amônia. Na alcalose respiratória, a urina alcalina ocorre pelo aumento da excreção de bicarbonato (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Uma urina alcalina também pode sugerir infecção urinária, entretanto, este, também pode ser um efeito da proliferação de bactérias que aumentam a quantidade de ureia na amostra devido à demora em analisá-la (RIELLA et al., 2018). A partir do exposto, podemos inferir que o conhecimento do pH urinário pode auxiliar no diagnóstico e no acompanhamento94 95 TÓPICO 3 - DOENÇAS URINÁRIAS E METABÓLICAS 1 INTRODUÇÃO Já sabemos que a análise da urina é um teste laboratorial amplamente utilizado na prática clínica e constitui um exame de fácil obtenção, indolor, de baixo custo e útil para o diagnóstico de infecção do trato urinário. A partir de agora, trabalharemos a urina como amostra essencial para a avaliação da função renal e para triagem, e, em muitos casos, veremos o diagnóstico final de doenças de origem metabólica que refletem na composição da urina. As doenças urinárias podem ser categorizadas pelo local da lesão, como glomérulos ou túbulos, pela natureza dos fatores que levaram à doença, como imunológicos, metabólicos, infiltrativos, infecciosos, hemodinâmicos e tóxicos – ou ainda de acordo com a apresentação clínica. Neste tópico, vamos estudar as principais doenças urinárias e metabólicas que atingem o ser humano e podem ser avaliadas através da urina, a fim de aprofundar os conhecimentos na fisiopatologia dessas enfermidades e auxiliar na compreensão das possíveis condições clínicas evidenciadas pela análise da urina. 2 DISTÚRBIOS RENAIS As doenças renais respondem por grande parte da morbidade e mortalidade em todo o mundo, especialmente a doença renal em fase terminal, que gera altos custos aos sistemas de saúde e aumenta consideravelmente o risco de doença cardiovascular. A lesão renal aguda atinge mais de dois milhões de pessoas no mundo, e é um importante fator de risco para o desenvolvimento de doença renal crônica e doença renal em fase terminal. Além disso, anualmente milhões de pessoas são afetadas por doenças renais não fatais, como infecções, cálculos renais e obstrução urinária (ALPERS; CHANG, 2016). A seguir, vamos discutir as principais enfermidades renais diagnosticadas com o auxílio da análise de urina. Para que serve e como calcular a taxa de filtração glomerular (TFG)? Para avaliar a capacidade de filtração dos glomérulos renais por meio da quantidade de sangue filtrada por minuto. Indicada pela depuração total de uma substância em um período definido. UNIDADE 2 96 Para que uma substância possa ser utilizada para a avaliação da filtração glomerular, ela precisa ter um nível plasmático constante, ser livremente filtrada e não sofrer secreção ou reabsorção tubular, além de ser possível dosá-la na urina e no sangue. A creatinina vem mostrando um bom desempenho para este tipo de análise, com vantagens em relação à praticidade, custo e eficiência. O cálculo da depuração é realizado pela fórmula UxV/P, sendo: U = concentração urinária da creatinina; V = volume urinário por unidade de tempo (mL/min); P = concentração plasmática da creatinina. As concentrações plasmática e urinária devem ser expressas nas mesmas unidades, e o volume urinário precisa ser medido com precisão na amostra coletada por 24 horas. Para que os resultados possam ser comparados, utiliza-se o procedimento de normalização de acordo com a idade, gênero e superfície corpórea de cada paciente, de modo que o resultado final é expresso em mL/min/1.73 m2. Considera-se normal o intervalo de referência de 90 a 120 mL/min/1,73 m2. Considera-se insuficiência renal quando a TFG é menor que 60 mL/min/1,73 m, já na falência renal pode estar abaixo de 15 mL/min/1,73 m (SBPC, 2017; MALTA et al., 2019). 2.1 GLOMERULONEFRITE Vários distúrbios levam à lesão glomerular, que se apresenta com combinação de hematúria, proteinúria, taxa de filtração glomerular (TFG) reduzida e hipertensão. Esta condição, denominada glomerulonefrite (GN), pode ser aguda e constituir uma causa intrarrenal de lesão renal aguda, ou ainda pode ter manifestações sistêmicas em que o rim é apenas um dos órgãos envolvidos. A biópsia renal se torna a principal forma de diagnosticar corretamente a causa da GN, e assim determinar o tratamento apropriado (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 2.2 SÍNDROME NEFRÍTICA Causada primordialmente por doença glomerular, inicia com graus variáveis de proteinúria, associada à hematúria macroscópica ou microscópica, presença de cilindros hemáticos e leucócitos na urina. Classicamente a taxa de filtração glomerular (TFG) é diminuída, ocorre proteinúria de leve a moderada, e hipertensão. Essa condição frequentemente está associada à glomerulonefrite pós-estreptocócica aguda (ALPERS; CHANG, 2016). Pode haver uma progressão rápida da glomerulonefrite, evidenciada pela queda expressiva da TFG em questão de horas e dias. Os distúrbios nefríticos apresentam depósitos de imunocomplexos subendotelial ou na membrana basal glomerular, o que inicia uma reação inflamatória pelo sistema imune celular, a qual pode ser prejudicial, pois ao mesmo tempo que auxilia na fagocitose, controle do processo e recuperação do tecido, a resposta inflamatória descontrolada ou prolongada pode resultar em maior destruição da arquitetura glomerular. 97 A diminuição progressiva da função renal leva a um acúmulo de ureia e à incapacidade de manter o equilíbrio de eletrólitos, água e ácido-básico. A falta de excreção adequada de ureia, leva a sua elevação plasmática e resulta em uremia. A uremia é uma síndrome caracterizada por um conjunto peculiar de sintomas e anormalidades laboratoriais, causada pelo acúmulo de toxinas na circulação sanguínea. Na ausência de depuração renal adequada, a ingestão de eletrólitos ou ácidos pode levar a um quadro fatal (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 2.3 SÍNDROME NEFRÓTICA Também iniciada por disfunção glomerular, caracteriza-se por uma proteinúria intensa (maior que 3,5 g/dia), hipoalbuminemia, edema grave, hiperlipidemia e perda de lipídios na urina. Apesar da proteinúria maciça, devido ao aumento da permeabilidade do capilar glomerular à passagem de proteínas, os distúrbios nefróticos não apresentam evidência de uma reação inflamatória celular. Geralmente mostram depósito de imunocomplexos nas células epiteliais, com alterações, isso reflete dano seletividade glomerular. Embora a falta da resposta imune celular seja benéfica no sentido de limitar a extensão do dano, ela também torna mais lenta a resolução do distúrbio, com proteinúria podendo durar meses ou anos (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 2.4 LESÃO RENAL AGUDA Caracterizando o processo agudo, tem-se rápido declínio da TFG, com desregulação simultânea do equilíbrio de fluidos e eletrólitos, e a retenção de metabólitos como ureia e creatinina. Em suas formas mais graves, ocorre oligúria ou anúria (diminuição e ausência de fluxo de urina, respectivamente). Pode resultar de injúrias glomerulares, intersticiais ou vasculares e lesões tubulares. A lesão tubular aguda é a causa mais comum de lesão renal aguda, atribuída a isquemia ou toxicidade substâncias endógenas ou exógenas, associada a alterações hemodinâmicas intrarrenais. O desfecho clínico é definido pela magnitude e duração da lesão tubular aguda (ALPERS; CHANG, 2016). O exame do sedimento urinário é uma ferramenta importante na avaliação inicial do paciente com lesão renal aguda, pois a presença de hematúria e proteinúria sugere a avaliação para glomerulonefrite. Presença de cilindros granulosos, células epiteliais tubulares e cilindros de células epiteliais sugerem necrose tubular aguda (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 2.5 LESÃO RENAL CRÔNICA Anteriormente chamada de insuficiência renal crônica é definida pela presença de uma TFG persistentemente diminuída. Pode estar associada à diminuição assintomática da função excretora renal ou em casos mais graves apresentar sinais e sintomas prolongados de uremia (ALPERS; CHANG, 2016). 98 Essa condição é o resultado final de todas as doenças crônicas do parênquima renal. Na doença renal em fase terminal, a TFG é menos de 5% da taxa considerada normal. Pacientes com doença renal crônica e uremia apresentam um conjunto de sintomas e alterações laboratoriais além daqueles observados na lesão renal aguda. Isso reflete a progressão e longa duração de sua doença renal e seus efeitos sistêmicos (PERLMAN; HEUNG; LX,2016). 2.6 NEFROLITÍASE OU CÁLCULOS RENAIS Os cálculos renais se formam devido à concentração urinária aumentada de seus constituintes na urina, de modo que exceda sua solubilidade, ou seja, atingindo uma condição de supersaturação. Vários fatores podem favorecer a formação de cálculos, como desidratação, dieta rica em proteínas e sódio, além da predisposição genética, uma vez que muitos erros inatos do metabolismo, como a cistinúria e a hiperoxalúria, são doenças hereditárias caracterizadas pela produção e excreção excessivas de substâncias formadoras de cálculos (ALPERS; CHANG, 2016). Seus sintomas clássicos são espasmos de dor severa (cólica renal) e hematúria, que pode ser macroscópica ou microscópica (ALPERS; CHANG, 2016). A maioria dos cálculos renais contém cálcio, devido à hipercalciúria (aumento da excreção urinária de cálcio) idiopática. Os cálculos de ácido úrico são causados por hiperuricosúria (aumento da excreção urinária de ácido úrico), sobretudo em pacientes com histórico de gota ou ingestão excessiva de purinas, em dietas ricas em carne. Já os cálculos de estruvita são compostos por magnésio, amônia, fosfato e carbonato de cálcio, e por estarem associados à infecção recorrente do trato urinário por microrganismos produtores de urease, que formam amônia e elevam o pH urinário, promovendo a formação de estruvita, também chamados de cálculos de infecção (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 2.7 INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO (ITU) Caracteriza-se pela invasão e multiplicação de microrganismos em qualquer segmento do trato urinário, com ou sem sintomatologia. Quando acomete o trato inferior, chama-se cistite (infecção na bexiga) ou uretrite (infecção na uretra), já no trato urinário superior, acometendo rins e pelve renal, chama-se pielonefrite (SBPC, 2017). A cistite é mais comum em mulheres, pois as bactérias atingem a bexiga através da uretra e devido à anatomia do trato urinário feminino, sua uretra mais curta favorece este processo. A maioria das infecções bacterianas do trato urinário inferior permanecem restritas à bexiga, no entanto, elas sempre carregam o potencial de se propagar para o rim, levando à pielonefrite e a partir daí até mesmo evoluir a uma infecção sistêmica. Os principais sintomas de ITU não complicada são disúria (dor e desconforto ao urinar), polaciúria (vontade de urinar frequentemente), urgência miccional e hematúria. 99 A infecção ascendente, ou seja, quando os microrganismos advêm da uretra para a bexiga, é a principal origem das ITUs. As bactérias gram-negativas são os principais agentes, vindos da microbiota intestinal, sendo Escherichia coli, espécies de Proteus, Enterobacter e Klebsiella as mais prevalentes (BRUNZEL, 2018). Micobactérias, fungos e vírus também podem causar ITU. Além da triagem através da análise química e microscópica da urina, para a confirmar o diagnóstico é necessária a cultura de urina, a fim de identificar o tipo de microrganismo e o melhor antimicrobiano para o tratamento (SBPC, 2017). 3 DISTÚRBIOS METABÓLICOS EVIDENCIADOS PELA URINA Além das doenças renais, muitos dos resultados obtidos na análise da urina fornecem indícios da ocorrência de doenças metabólicas. Apesar de mais raras, essas doenças podem ter desfechos graves e serem evidenciadas pela eliminação de substâncias anormais na urina, que não detectadas nos exames de rotina urina. Por isso, muitas vezes, são necessários testes adicionais, em conjunto com a sintomatologia e o histórico familiar, para avaliação precisa dos distúrbios metabólicos que discutiremos a frente. Estes testes adicionais são baseados em reações químicas enzimáticas e colorimétricas, mas diferem dos testes químicos discutidos no Tópico 1, por serem realizados em tubos de ensaio e não em tiras reagentes disponíveis comercialmente, já que raramente são solicitados pela equipe médica. Grande parte das doenças metabólicas são hereditárias, pois são causadas por mutações do DNA capazes de gerar proteínas anômalas que correspondem a defeitos enzimáticos. Esses defeitos levam ao acúmulo de substratos, à falta do produto destes substratos ou ainda à produção de substâncias tóxicas pela sua metabolização por vias alternativas. Todas essas alterações podem levar ao comprometimento das funções celulares, interrompendo a homeostase do organismo (SBPC, 2017). Um número considerável de doenças metabólicas só pode ser identificado pela análise dos ácidos orgânicos na urina. A cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massas (GC-MS) é a técnica mais indicada para tal análise, pois permite separar e identificar marcadores de baixo peso molecular e solúveis em água. O diagnóstico precoce das doenças metabólicas hereditárias permite o início do tratamento e melhora do prognóstico, principalmente se for possível evitar que repetidos episódios de descompensação metabólica ocorram. Ainda, para outras condições que são incuráveis, o diagnóstico permite o aconselhamento genético da família (SBPC, 2017). 100 3.1 FENILCETONÚRIA A fenilcetonúria é uma aminoacidúria, pois nessa condição ocorrem níveis urinários elevados de dois aminoácidos: fenilpiruvato e fenilacetato. As pessoas que possuem fenilcetonúria herdam um gene de caráter autossômico recessivo que não codifica a produção da enzima fenilalanina hidroxilase, sintetizada pelo fígado, que converte o aminoácido fenilalanina em tirosina (STRASINGER; LORENZO, 2009). O excesso de fenilalanina é desviado para uma via metabólica alternativa, produzindo compostos secundários, como os ácidos fenilpirúvico, feniláctico e fenilacético, que conferem à urina e outras secreções corpóreas um odor desagradável. A interrupção da via de conversão de fenilalanina também faz com que as crianças afetadas tenham a pele clara, em razão da diminuição da produção da tirosina e de metabólito de pigmentação, a melanina (STRASINGER; LORENZO, 2009). A fenilcetonúria é diagnosticada na triagem neonatal pelo Teste do Pezinho. Na idade adulta, o diagnóstico e acompanhamento se dá pela avaliação dos níveis de fenilalanina no sangue e de fenilpiruvato e fenilacetato na urina. A detecção de ácido fenilpirúvico se dá pela reação com cloreto férrico, porém essa é uma reação inespecífica que também detecta outros aminoácidos envolvidos em diferentes erros inatos do metabolismo. O tratamento incluí o uso da fórmula metabólica e uma dieta com restrição de fenilalanina (PERLMAN; HEUNG; LX, 2016). 3.2 TIROSINÚRIA O excesso do aminoácido tirosina no sangue produz transbordamento urinário e ocorre tanto por defeitos metabólicos como hereditários. Isso reflete não somente no aparecimento da tirosina na urina, como também dos seus produtos de degradação, o ácido hidroxifenilpirúvico e o ácido p-hidroxifenillactico, acompanhados de cristais de tirosina e leucina. A tirosinúria pode ser transitória em pacientes com doença hepática grave e em recém-nascidos que ainda não possuem a função hepática totalmente desenvolvida e lhes faltam as enzimas necessárias para converter a tirosina. Devido à semelhança na reação com cloreto férrico, a tirosinúria pode ser confundida com fenilcetonúria, já que ambas podem ser identificadas em recém-nascidos e produzem resultados semelhantes no teste com cloreto férrico. O teste de triagem para tirosina na urina é baseado no naftol-nitroso, que na realidade reage com outros compostos além da tirosina e seus metabólitos, produzindo uma coloração vermelho-alaranjado (STRASINGER; LORENZO, 2009). 101 Defeitos inatos do metabolismo, nos quais as enzimas necessárias para uma via metabólica estão ausentes podem representar condições graves de saúde, pois resultam em aminoacidúria generalizada, doença hepática e renal, e frequentemente levam à óbito. 3.3 MELANÚRIA Em uma via metabólica secundária, a tirosina dá origem à melanina, pigmento responsável pela coloração dos nossos cabelos, peles e olhos. O aumento da melanina urinária induz o escurecimento da urina quando expostaao ar e esse fato pode acontecer devido a tumores malignos em que há proliferação exacerbada dos melanócitos, células produtoras de melanina. Assim como os produtos dos dois distúrbios anteriores, a melanina urinária reage com cloreto férrico e nitroprussiato de sódio (STRASINGER; LORENZO, 2009). 3.4 ALCAPTONÚRIA A alcaptonúria é uma doença hereditária de caráter autossômico recessivo, caracterizada pela alteração do metabolismo dos aminoácidos fenilalanina e tirosina, devido à ausência da enzima homogentisato-1,2-dioxigenase. Normalmente, esta enzima atua nos rins e no fígado, na sua falta ocorre o aumento do ácido homogentísico, no sangue e em diversos tecidos, sendo então eliminado na urina. O ácido homogentísico oxida em contato com o ar e exposição à luz, transformando-se em acetato de benzoquinona, que se polimeriza para formar uma proteína semelhante à melanina, resultando na deposição de um pigmento amarelo escuro ou marrom na cartilagem e outros tecidos conjuntivos. Esse pigmento negro, chamado alcaptona, caracteriza a cor da urina dos indivíduos com esta doença. O diagnóstico é confirmado pela identificação e quantificação do ácido homogentísico na urina por técnicas de cromatografia (KHATU et al., 2015). 3.5 DOENÇA DO XAROPE DE BORDO NA URINA Segundo Valadares, Oliveira e Tálamo (2009), essa é uma doença extremamente rara causada por um erro inato do metabolismo, com herança autossômica recessiva, que leva a um defeito no metabolismo dos aminoácidos leucina, isoleucina e valina. Normalmente, esses três aminoácidos sofrem transaminação no fígado, sendo transformados em cetoácidos. A ausência da enzima que produz a descaboxilação oxidativa desses cetoácidos resulta em seu acumulo no sangue e na urina. A triagem para esta doença está inclusa em alguns painéis de exames neonatais, já que recém-nascidos com doença do xarope de bordo na urina apresentam retardo de crescimento e desenvolvimento mental já na primeira semana de vida e pode ser 102 irreversível. Os cetoácidos presentes na urina reagem com 2,4-dinitrofenil-hidrazina, originando uma turvação amarela ou precipitado branco. Outra característica marcante que pode auxiliar no diagnóstico e está associada ao nome da doença, é que a urina de pacientes acometidos possui um forte odor de xarope de bordo (STRASINGER; LORENZO, 2009). 3.6 CISTINÚRIA Doença hereditária dos túbulos renais em que a reabsorção de cistina é prejudicada, o que aumenta sua excreção urinária e a formação de cálculos de cistina. Há casos em que outros aminoácidos, incluindo lisina, arginina e ornitina não são reabsorvidos pelos rins. Entretanto, como a cistina é muito menos solúvel que os demais aminoácidos envolvidos, a triagem laboratorial baseia-se na detecção de cristais de cistina no sedimento urinário concentrado. Como teste químico, a cistina reage com cianeto-nitroprussiato, produzindo uma cor vermelho-purpura (STRASINGER; LORENZO, 2009). 3.7 DOENÇAS DAS PORFIRINAS Porfirinas são compostos intermediários na produção do heme, que constitui a hemoglobina e a mioglobina. O bloqueio de uma das etapas da sua via metabólica resulta no acumulo do produto formado na etapa anterior, que pode ser detectado em diferentes amostras como: urina, bile, fezes e sangue. Distúrbios do metabolismo das porfirinas são chamados porfirias e podem ser hereditários ou adquiridos por disfunção eritrocitárias, hepática ou exposição a agentes tóxicos, como chumbo e álcool. A presença de porfirinas na urina é suspeita quando esta adquire cor vermelha ou vinho após exposição ao ar (STRASINGER; LORENZO, 2009). 3.9 DOENÇAS DAS PURINAS A doença de Lesch-Nyhan é um raro distúrbio no metabolismo das purinas, de herança autossômica recessiva ligada ao sexo, que resulta na abundante excreção urinária de cristais de ácido úrico, subproduto normal do metabolismo das purinas, devido à falta da enzima hipoxantina guanina fosforibosiltransferase (JINNAH, 2009). Os pacientes acometidos podem apresentar artrite gotosa, cálculos renais, insuficiência renal, deficiência motora grave associada à distonia, deficiência cognitiva, entre outros graves sintomas. Diante da gravidade dessa doença, é importante estar atento a presença de cristais de ácido úrico na urina de crianças (STRASINGER; LORENZO, 2009). 103 MICROALBUMINÚRIA: FATOR DE RISCO CARDIOVASCULAR E RENAL SUBESTIMADO NA PRÁTICA CLÍNICA Maria Teresa Zanella A ocorrência de excreção urinária excessiva de albumina em indivíduos com diabetes tipo 2 é provavelmente o sinal de alerta mais precoce e importante do início de um comprometimento vascular generalizado, não somente limitado ao glomérulo, mas também presente em outros sítios vasculares, particularmente em órgãos vitais como o cérebro e o coração. Acredita-se que, sem uma intervenção específica, 20 40% dos pacientes com diabetes tipo 2 e microalbuminúria progridem para a fase proteinúrica e finalmente para os estágios finais da doença renal. Ainda que nos faltem evidências, a adoção de medidas terapêuticas que promovam a redução da microalbuminúria provavelmente se mostrará efetiva não só para promover proteção renal como também proteção cardiovascular. Assim sendo, a identificação e normalização da excreção urinária de albumina devem ser sempre consideradas no tratamento de pacientes com diabetes tipo 2. Embora de fácil de determinação, a medida da excreção de albumina na urina tem sido muito pouco utilizada como arma útil na identificação de indivíduos com diabetes tipo 2, passíveis de evoluírem para insuficiência renal crônica e de maior risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular. Existem basicamente três métodos diferentes de rastreamento para detectar aumentos na excreção urinária de albumina: 1. Medida da relação entre as medidas de albumina e creatinina em amostra isolada de urina; 2. Medida da albuminúria em quantidade de urina obtida dentro de um período de tempo determinado (p. ex. 12 horas noturnas ou diurnas), expressa em microgramas por minuto (µg/min); 3. Determinação da quantidade de albumina excretada nas 24 horas, considerada como padrão ouro de determinação da albuminúria. Microalbuminúria: evidência de lesão renal A presença de microalbuminúria no paciente diabético tipo 2 frequentemente se associa à elevação dos níveis da pressão arterial, e representa uma condição de alto risco cardiovascular. Além de aumentos na pressão arterial sistêmica, dados clínicos e experimentais indicam que no diabetes ocorre aumento na pressão capilar glomerular. Esta é determinada não somente pela pressão arterial sistêmica, mas também por um distúrbio da autorregulação renal e uma hemodinâmica glomerular alterada, LEITURA COMPLEMENTAR 104 caracterizada pela vasodilatação pré-glomerular e vasoconstrição pós-glomerular. A última é fortemente regulada pela atividade do sistema renina angiotensina intra- renal, que tem sua atividade aumentada pela hiperglicemia. O aumento da produção de angiotensina II no rim, através do estímulo do receptor AT1, leva à menor produção de nefrina, proteína importante na integridade da membrana glomerular como barreira filtrante. A redução na produção de nefrina resulta em aumento da permeabilidade por aumento do tamanho dos poros da membrana glomerular. A pressão intraglomerular aumentada leva a hiperfiltração e, na presença de um aumento da permeabilidade da membrana glomerular, favorece o aumento na excreção de albumina/proteína. Além de aumentar a permeabilidade da membrana glomerular e de suas ações hemodinâmicas que favorecem a hipertensão intraglomerular, a AII também exerce efeitos nos rins, que contribuem para aumentar a produção da matriz extracelular. A hiperglicemia e a angiotensina II parecem produzir efeitos semelhantes sobre as células renais em cultura, estimulando a síntese da matriz proteica e inibindo sua degradação enzimática. Microalbuminúria: sinal de comprometimento vascular generalizado Evidências epidemiológicasindicam que a presença de microalbuminúria prediz maior morbidade e mortalidade cardiovascular independente de outros fatores de risco. Tem sido demonstrada uma correlação positiva e praticamente linear entre a presença de quantidades aumentadas de albumina na urina e a ocorrência de infarto do miocárdio ou de acidentes vasculares cerebrais, tanto em pacientes com diabetes tipo 2 quanto em pacientes não diabéticos. Microalbuminúria e síndrome metabólica A microalbuminúria mostra-se também frequentemente associada a outros fatores de risco cardiovascular, fazendo parte da condição que conhecemos como síndrome metabólica. Esta se caracteriza pela constelação de fatores de risco cardiovascular que inclui hipertensão arterial, obesidade central, dislipidemia, intolerância à glicose, um estado de hipercoagulabilidade, além de lesão endotelial que se manifesta através da microalbuminúria. Existem evidências de que aproximadamente 40% dos pacientes diabéticos tipo 2 com microalbuminúria, em decorrência de lesão vascular progressiva, evoluirão ao longo de uma década para a condição de macroproteinúria. Esta condição, que revela lesão vascular mais grave, associa-se a um risco de eventos cardiovasculares ainda maior. Se considerarmos a vasta interface sangue filtrado glomerular provida por 500.000 a 1.000.000 de glomérulos renais, fica fácil compreender porque um sinal de lesão na superfície vascular envolvida na filtração glomerular pode representar medida 105 fidedigna de comprometimento vascular generalizado por todo o organismo. A excreção aumentada de albumina ou proteína na urina de pacientes diabéticos seria resultado de um distúrbio mais abrangente da função de barreira da célula endotelial, ocorrendo também na macrocirculação, especialmente nas coronárias, onde a transudação da proteína do plasma para a parede do vaso poderia promover o processo aterogênico. Assim, a microalbuminúria, parâmetro de avaliação da microcirculação renal, pode ser utilizada também como parâmetro de lesão vascular generalizada, não confinada aos glomérulos. Nesta condição, existe, portanto, a necessidade de maior atenção para as medidas de controle dos diversos fatores de risco cardiovascular, em particular da hipertensão arterial, objetivando atingir com mais rigor as metas desse controle e a proteção vascular. Embora as diretrizes preconizem que valores da pressão arterial inferiores a 130/80 mmHg devam ser atingidos para maior proteção renal e cardiovascular (28, 29) em pacientes diabéticos, é possível que níveis até mais baixos precisem ser atingidos quando se constata a presença de microalbuminúria. Resultados de estudos mais recentes mostram que mesmo valores baixos da albuminúria, bem inferiores àqueles que atualmente definem a microalbuminúria, tem sido associados a um aumento do risco cardiovascular, fazendo crer que os limites da normalidade devam ser revistos. Hipertensão arterial A pressão arterial elevada é um fenômeno precoce e frequente na nefropatia diabética, e tem sido documentada uma relação direta entre a pressão arterial e a taxa de declínio de TFG em pacientes com diabetes tipos 1 e 2. Vários estudos mostram claramente que a terapia anti-hipertensiva precoce e intensiva reduz com eficácia tanto a albuminúria quanto a taxa de declínio da TFG em pacientes com nefropatia diabética clinicamente manifesta. Contrariamente ao que ocorre no diabetes tipo 1, nos pacientes com diabetes tipo 2, a hipertensão não necessariamente está vinculada à presença de doença renal e, em geral, precede o diagnóstico de diabetes. A hipertensão é duas vezes mais frequente em pacientes diabéticos que em não diabéticos e está fortemente relacionada ao aumento do peso corporal, resistência à insulina e hiperinsulinemia. A hipertensão aumenta o risco de morbidade e mortalidade cardiovascular, especialmente quando a função renal começa a decair. A combinação de diabetes e hipertensão está associada a um aumento de cerca de quatro vezes no risco cardiovascular, se comparada à população diabética normotensa. Angiotensina II (AII) e nefropatia diabética Apesar da atividade plasmática de renina encontrar-se reduzida em pacientes diabéticos, estudos múltiplos em modelos animais mostram que os níveis teciduais de 106 renina e mesmo a produção de renina são normais ou até mesmo elevados. Portanto, as medidas da atividade da renina ou mesmo da AII na circulação podem ser enganosas, fornecendo poucas informações sobre o estado do sistema renina angiotensina intra- renal. Vale lembrar que a AII é a mediadora principal do SRA e parece ser responsável por importantes efeitos patológicos em nível celular por meio de estimulação do receptor AT1 da AII. Os benefícios dos bloqueadores do sistema renina angiotensina na nefropatia diabética são vistos como resultado, pelo menos em parte, da atenuação dos efeitos da AII na pressão arterial e na hemodinâmica glomerular. Evidências indiretas indicam que a acentuada resposta vasodilatadora renal aos inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECAs) e aos bloqueadores dos receptores da AII (BRAs) em pacientes diabéticos pode ser atribuída à redução dos efeitos da AII no rim. Ao reduzir os efeitos vasoconstritores da AII na arteríola glomerular eferente, os IECAs reduzem a pressão intraglomerular, a qual parece ser um determinante importante da progressão de nefropatia diabética. Em indivíduos saudáveis e pacientes hipertensos, os BRAs possuem efeitos idênticos aos dos IECAs na hemodinâmica renal, decorrente de sua ação direta sobre os receptores de AT1 (43). Também tem sido demonstrado que os BRAs são capazes de reduzir o tamanho dos poros excessivamente grandes da membrana glomerular, um mecanismo também envolvido no efeito antiproteinúrico destes agentes. Experimentalmente, já se demonstrou que o efeito antiproteinúrico do irbesartana se associa ao aumento da expressão glomerular da nefrina, que reduz a permeabilidade da membrana glomerular comprometida. Microalbuminúria: importância do bloqueio do SRA A capacidade de reduzir a pressão intraglomerular e a permeabilidade da membrana glomerular explica o efeito antiproteinúrico dos IECAs e BRAs demonstrado em estudos randomizados prospectivos de desfecho, os quais documentaram menor velocidade de deterioração da função renal durante o bloqueio do SRA. O uso de IECAs e BRAs tem se mostrado nitidamente benéfico, não só para promover proteção renal em pacientes com nefropatia diabética como também para promover proteção cardiovascular em pacientes diabéticos com outros fatores de risco. A importância de se reduzir a excreção urinária de proteínas foi demonstrada no estudo IDNT, onde a proteinúria inicial foi capaz de prever a progressão para os desfechos do estudo, mostrando um risco dobrado para cada duplicação nos valores da proteína urinária. Além disso, redução de 50% na proteinúria observada aos 12 meses de tratamento com irbesartana se associou a uma redução de 50% no risco de duplicação da creatinina ou de atingir os estágios finais da insuficiência renal. 107 Embora o uso de bloqueadores do sistema renina angiotensina seja importante na prevenção da nefropatia diabética, é importante lembrar que o controle da pressão arterial é essencial e que a maioria dos pacientes requer a combinação de múltiplas drogas para reduzi-la a níveis que permitam a correção da hipertensão no capilar glomerular e a redução máxima da proteinúria. Embora se preconize que em pacientes diabéticos devam ser atingidos valores da pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg, é possível que a manutenção de níveis ainda mais baixos possa trazer maiores benefícios. Com relação à utilização dos inibidores da ECA em pacientes com diabetes tipo 2 e microalbuminúria ou proteinúria instalada, o único estudo aleatório comparou o enalapril ao BRA, a telmisartana, no ensaio DETAIL, que incluiu 250 pacientes com nefropatia inicial, definida pelo valor da albuminúria (82%com microalbuminúria e 18% macroalbuminúria de no máximo de 1,4 g/dia) e uma taxa de filtração glomerular (TFG) basal (medida com a utilização de radioisótopo) de cerca de 93 ml/min por 1,73 m2 (52). Uma queda na TFG mais acentuada, próxima a 10,0 mL/min por 1,73 m2, após cinco anos, foi pré-definida como indicador de uma diferença clinicamente significativa entre os grupos. Após cinco anos, houve uma queda mais atenuada na TFG do grupo enalapril, não significativa estatisticamente (14,9 versus 17,9 mL/min por 1,73 m2 no grupo telmisartana). Ambos os grupos se mostraram semelhantes para os desfechos secundários, os quais incluíram alterações anuais na TFG, pressão arterial, creatinina sérica, albumina urinária, doença renal crônica terminal, eventos cardiovasculares e mortalidade. As duas limitações do estudo foram as de que somente 168 dos 250 pacientes concluíram o estudo e de que somente 20% apresentaram macroalbuminúria. Embora tenha sido feita apenas esta única comparação entre as duas classes de bloqueadores do sistema renina angiotensina, os resultados condizem com a hipótese de que os inibidores de ECA seriam pelo menos tão eficazes quanto os BRAs em pacientes diabéticos com microalbuminúria. Recomendações A detecção da microalbuminúria é medida importante para identificar indivíduos com maior risco de doença cardiovascular e com lesão renal passível de progressão para a insuficiência renal. O rastreamento para microalbuminúria, segundo as recomendações da American Diabetes Association e da Sociedade Brasileira de Diabetes, deve ser feito anualmente em pacientes diabéticos do tipo 1 a partir do quinto ano do diagnóstico e em pacientes com diabetes do tipo 2 a partir do diagnóstico. A presença de microalbuminúria requer maior atenção para as medidas de controle da pressão arterial, que deve ser mantida em níveis inferiores a 130/80 mmHg, assim como para as medidas de controle dos lípides e glicemia, além da adoção de medidas eficazes na redução da excreção urinária de albumina como o uso de inibidores da ECA ou de 108 antagonistas da angiotensina II. Estes últimos, em pacientes diabéticos do tipo 2 já na fase proteinúrica da nefropatia diabética, se mostraram comprovadamente eficazes para promover renoproteção e certo grau de cardioproteção, uma vez que também reduzirão a necessidade de hospitalizações por insuficiência cardíaca. Fonte: Adaptado de ZANELLA, M. T. Microalbuminúria: fator de risco cardiovascular e renal subestimado na prática clínica. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia. 2006, v. 50, n. 2, pp. 313-321. Dispo- nível em: https://doi.org/10.1590/S0004-27302006000200017. Acesso em: 10 set. 2022. https://doi.org/10.1590/S0004-27302006000200017 109 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A utilizar a taxa de filtração glomerular para a avaliação da função renal e como obtê- la através das dosagens creatinina sérica e urinária. • Como se iniciam as doenças tubulares e glomerulares e quais intercorrências diferem as doenças renais agudas e crônicas. • A maioria dos casos não possui relação entre a precipitação de cristais urinários e a formação de cálculos renais. • Como as infecções do trato urinário podem evoluir para uma doença sistêmica, por isso seu diagnóstico e tratamento corretos são essenciais. • Como erros inatos do metabolismo refletem na eliminação de substâncias atípicas na urina e esse fato é usado como ferramenta de diagnóstico. • Os mecanismos fisiológicos, características e achados típicos de urinálise na fenilcetonúria, tirosinúria, melanúria, alcaptonúria, doença do xarope de bordo na urina, cistinúria, porfirias e doença de Lesch-Nyhan – doenças raras que podem ser fatais. 110 AUTOATIVIDADE 1 A taxa de filtração glomerular é um reflexo do funcionamento dos rins, pois representa o volume de sangue que é filtrado nos rins para formar a urina. Este cálculo é muito utilizado no diagnóstico de lesões renais e monitoramento de pacientes com doença renal crônica. Qual das seguintes opções é uma substância endógena usada para calcular a taxa de filtração glomerular? a) ( ) Ureia. b) ( ) Inulina. c) ( ) Albumina. d) ( ) Creatinina. 2 Doenças metabólicas hereditárias e adquiridas que alteram o metabolismo de aminoácidos podem ter sintomatologia, idade de aparecimento e achados laboratoriais semelhantes, da mesma forma que alteram o aspecto da urina. A urina que fica preta após permanecer durante horas no vaso sanitário, em contato com o ar, pode ser indicar algo. Sobre o exposto, analise as opções a seguir: I- Alcaptonúria II- Doença do xarope de bordo na urina III- Melanúria IV- Cistinuria Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As opções I e II estão corretas. b) ( ) As opções II e III estão corretas. c) ( ) As opções I e III estão corretas. d) ( ) Somente a opção II está correta. 3 As infecções do trato urinário (ITUs) afetam cerca de 150 milhões de pessoas por ano e caracterizam-se pela resposta do organismo à presença e à multiplicação de microrganismos no trato urinário. A respeito da porfirina e precursores de porfirina, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O acúmulo de precursores de porfirina causa fotossensibilidade na pele. ( ) A porfiria pode ser um distúrbio herdado ou induzido. ( ) As porfirinas podem tornar a urina vermelha ou roxa. 111 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – V. d) ( ) F – F – V. 4 Os pacientes com cálculos renais apresentam episódios de dores agudas no flanco que pode se irradiar para a região da virilha, não raros associados à eliminação de sangue na urina. Muitos desses pacientes conseguem eliminá-los espontaneamente ou por procedimentos minimamente invasivos, entretanto, pode haver também recorrência na formação destes cálculos. A partir disso, disserte sobre os motivos que levam à formação dos cálculos renais. 5 As doenças renais estão entre as principais causas de incapacidade e morte em todo o mundo. As síndromes, nefrítica e nefrótica, agrupam diversas doenças renais, que provocam diferentes tipos de lesão renal, com desfechos diferentes. Cite e explique quais são as diferenças entre elas. 112 REFERÊNCIAS ALPERS, C. E.; CHANG, A. O rim. In: KUMAR, V. et al. Patologia: bases patológicas das doenças. 9. ed. São Paulo: Elsevier, 2016. BATISTA, D. et al. Avaliação microscópica do sedimento urinário no exame de urina de rotina: comparação entre dois métodos. Revista Brasileira de Análises Clínicas, v. 51, n. 1, p. 1-10, dez. 2019. BRUNZEL, N. A. Fundamentos da análise de urina e fluido corporal. 4. ed. Elsevier, 2018. HECHANOVA, L. A. Síndrome de Fanconi. 2020. Disponível em: https://www. msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-renais-e-urin%C3%A1rios/ dist%C3%BArbios-dos-t%C3%BAbulos-renais/s%C3%ADndrome-de-fanconi. Acesso em: 10 set 2022. JINNAH, H. A. Doença de Lesch-Nyhan: do mecanismo ao modelo e de volta. Modelos e mecanismos de doenças, v. 2, n. 3-4, p. 116-121, 2009. KHATU, S. S. et al. Alkaptonuria: relatório do caso. Revista Médica da Universidade Dr. DY Patil, v. 8, n. 1, p. 84, 2015. Disponível em: https://www.mjdrdypu.org/text. asp?2015/8/1/84/148860. Acesso em: 8 set. 2022. MALTA, D. C.; et al. 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Princípios de nefrologia e distúrbios hidreletrolíticos. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. SBPC/ML. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/ Medicina Laboratorial: realização de exames de urina. (on-line plataforma Pearson) Barueri: Manole, 2017. STRASINGER, S. K.; DI LORENZO, M. S. Urinálise e fluidos corporais. 5. ed. São Paulo: Livraria Médica Paulista, 2009. VALADARES, E. R.; OLIVEIRA, J. S.; TÁLAMO, L. E. P. Tratamento metabólico da doença da urina do xarope de bordo. Revista Médica de Minas Gerais, [s.l.], v. 20, n. 2, 2009. 114 115 FLUÍDOS CORPORAIS UNIDADE 3 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • aprofundar conhecimentos sobre os fl uidos do organismo; • nomear as estruturas envolvidas na produção dos líquidos cefalorraquidiano, sinovial, seminal e amniótico e as principais funções dos fl uidos corporais; • ter o entendimento sobre alguns aspectos regulatórios do Ensino Superior no Brasil; • identifi car qual a seção laboratorial que irá realizar as análises dos diferentes líquidos corporais; • analisar os aspectos quantitativos e qualitativos dos líquidos cefalorraquidiano, sinovial, seminal e amniótico; • relacionar os achados dos testes laboratoriais do líquido sinovial com as quatro classifi cações comuns das articulações; • discutir a composição celular normal e anormal dos líquidos corporais estudados e o signifi cado dos principais achados macroscópicos e microscópicos das amostras dos líquidos estudados. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO AOS FLUÍDOS CORPORAIS TÓPICO 2 – LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO E FLUIDO SINOVIAL TÓPICO 3 – LÍQUIDO SEMINAL E LÍQUIDO AMNIÓTICO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 116 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 117 TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO AOS FLUÍDOS CORPORAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, no Tópico 1, abordaremos os fluidos corporais, também chamados de líquidos corporais. Como o próprio nome sugere, são líquidos produzidos no corpo humano, podendo ser secretados ou excretados. Você já imaginou como é fundamental estudarmos os fluidos produzidos no corpo humano, quais são suas funções e sua importância para o diagnóstico de patologias? Neste tópico, veremos que os estudos dos fluidos corporais são indispensáveis para o diagnóstico e monitorização de diversas doenças infecciosas, inflamatórias e hemorrágicas. No decorrer deste tópico, estudaremos os principais fluidos decorrentes do corpo humano, suas funções, composição, procedimentos de obtenção, análises macroscópicas e microscópicas e suas correlações clínicas. Veremos também que as análises dos fluidos biológicos são desafiadoras para os laboratórios. Estas análises envolvem diferentes departamentos do laboratório e requer profissionais com conhecimentos especializados em diferentes tipos de fluidos. As análises citológicas, bioquímicas, microbiológicas e imunológicas fornecem importantes informações para o diagnóstico e tratamento adequado de diversas patologias. Para conseguirmos assimilar o conteúdo que será abordado e alcançarmos nossos objetivos é necessário que você, acadêmico, leia o livro didático, acesse os links de pesquisa, responda às autoatividades sugeridas e busque sempre aprender mais. Bons estudos! 2 TIPOS DE FLUIDOS CORPORAIS, COMPOSIÇÃO E FUNÇÃO Existem diferentes tipos de fluidos corporais e estes variam de acordo com as características físicas, tipos de células e contagem de células. Os principais líquidos biológicos são o líquido cerebrospinal, seminal, sinovial, suor, líquidos serosos ou cavitários (pleural, peritoneal e pericárdico), secreções respiratórias como aquelas derivadas do lavado broncoalveolar, líquido amniótico, dentre outros fluidos e secreções não abordados neste livro. A urina como já vimos nas unidades anteriores, também é um fluido do corpo humano. 118 Os fluidos biológicos variam quanto à composição, mas possuem alguns elementos em comum. De acordo com Mundt e Shanahan (2012), as funções da água e dos eletrólitos são determinantes essenciais de qualquer composição e movimento dos fluidos no corpo humano, desempenhando importantes funções no nosso organismo. A água entra no nosso organismo pelo consumo de água e alimentos e por processos metabólicos celulares. Os líquidos biológicos podem ser divididos em dois grandes compartimentos: intracelular e extracelular. Sendo em torno de 55% da água situados no interior das células (compartimento intracelular), enquanto a água do meio extracelular corresponde a cerca de 45%. A composição dos eletrólitos e enzimas dos fluidos intracelulares difere daquela dos fluidos extracelulares. O líquido extracelular tem grandes quantidades de sódio e cloreto e pequenas quantidades de potássio, cálcio, magnésio, fosfato e ácidos orgânicos, enquanto o potássio e o fosfato são predominantes no líquido intracelular e contêm pequenas quantidades de sódio, cloreto e cálcio (GUYTON; HALL, 2011). O líquido extracelular, por sua vez, é subdividido em: líquido intersticial, líquidos transcelulares encontrados em várias cavidades corporais e plasma. O plasma troca continuamente substâncias com o líquido intersticial através dos poros das membranas capilares com permeabilidade a quase todos os solutos do líquido extracelular com exceção das proteínas que possui alta concentração no plasma. O líquido transcelular é o que está presente nas cavidades corporais, nas vísceras ocas e demais locais. Esse compartimento inclui o líquido dos espaços sinoviais, peritoneais, pericárdicos, intraoculares e o líquido cefalorraquidiano (GUYTON; HALL, 2011). A composição dos fluidos pode ser alterada dependendo das condições locais de diversas membranas e tecidos adjacentes. A realização de exames bioquímicos em conjunto com exames citológicos auxilia no diagnóstico e monitoramento das condições do paciente (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Como já vimos, existem diversos fluidos corporais e estes desempenham funções importantes para a manutenção do nosso corpo, portanto, sua função principal Acadêmico, vamos entender a diferença entre fluidos e secreções. Fluidos são substâncias permanentes do nosso corpo sua produção não depende de estímulos externo, por exemplo, o líquido cerebrospinal, que protege o cérebro e a medula espinhal e o líquido sinovial que lubrifica as articulações. Já as secreções são produzidas de acordo com as necessidades do nosso corpo, por exemplo, a secreção gástrica produzida no estômago para facilitar a digestão de proteína. NOTA 119 é lubrificar e nutrir os espaços intra e extracelulares de todo o corpo. As membranas que envolvem o sistema nervoso central, por exemplo, são lubrificadas pelo líquor – substância composta basicamente por água, que fornece proteção mecânica a esse sistema. Os fluidos das articulações também possuem água e protegem os ossos do atrito. Além disso, o líquido amniótico protege o feto de impactos durante o seu desenvolvimento. A deficiência ou excesso desses fluidos podem provocar várias patologias, como edema e efusões serosas. 3 VOLUME DOS FLUIDOS CORPORAL, ASPECTOS E COLETA O volume do fluido corporal varia significativamente de acordo com a cavidade corporal. Além disso, em condições patológicas, o volume do fluido presente pode alterar de forma drástica, por exemplo, nas cavidades serosas que em condições normais encontra-se presente uma quantidadepequena do fluido e em casos patológicos pode aumentar alguns mililitros até mesmo litros. De acordo com Mundt e Shanahan (2012), a pressão coloido-osmótica do tecido junto à pressão hidrostática do capilar, regula o fluxo de saída do líquido a partir do capilar, enquanto a pressão coloido-osmótica do capilar e a pressão hidrostática do tecido regulam o fluxo de entrada do líquido capilar a partir do tecido. O fluido existente na cavidade pleural circula numa pequena quantidade, cerca de 1 a 20mL, na cavidade do pericárdio se encontra em torno de 15 a 50mL e na cavidade peritoneal contém aproximadamente 50mL de fluido (BARCELOS; AQUINO, 2018). Estes fluidos têm como função primordial a lubrificação das membranas que o envolvem. Diversas doenças provocam o acúmulo desses fluidos nas cavidades serosas denominado de efusões, também conhecido como derrame. Com base na causa do acúmulo de líquido são classificadas em dois grupos: transudato e exsudato. O transudato ocorre quando fatores mecânicos ou sistêmicos alteram o equilíbrio na regulação da filtração e absorção do líquido, por exemplo, as mudanças na pressão hidrostática criada por insuficiência cardíaca congestiva e cirrose. Os exsudatos são produzidos por condições que comprometem diretamente as membranas da cavidade especial, por exemplo, lesão ou inflamação da pleura causada por diferentes etiologias (ROCHA, 2014). A peritonite é uma inflamação decorrente de infecção que acomete o peritônio, membrana que reveste a parede interna do abdômen e recobre a maioria dos órgãos abdominais. Essa infecção pode ser decorrente de microrganismos (bactérias, fungos). Já a pericardite é processo inflamatório que afeta a membrana que recobre e protege o coração. A doença pode ser aguda ou crônica. A forma aguda ocorre subitamente e se estende por volta de uma a três semanas, enquanto a forma crônica pode durar mais três meses. NOTA 120 A diferenciação dos fluidos pleural e pericárdico em transudato e exsudato, geralmente é feito pelo uso dos critérios que comparam alguns parâmetros bioquímicos do fluido com os encontrados no soro do paciente, representados na Tabela 1. Com uma sensibilidade de 98%, estes critérios se utilizam de dois parâmetros principais: nível proteico e nível da desidrogenase lática (LDH). A presença de qualquer um dos critérios de exsudato confirma sua caracterização, enquanto para confirmar a presença de um transudato é necessária a presença de três critérios. Tabela 1 – Critérios de Light Parâmetros Transudato Exsudato Proteína 0,5 Relação entre LDH do líquido pleural/ pericárdico e sérica. ≤ 0,6 > 0,6 LDH no líquido pleural/pericárdico > 2/3 do limite superior no soro ou >220 U/L Não Sim Fonte: a autora A diferenciação entre transudato e exsudato no líquido peritoneal é recomendada o gradiente de albumina soro/ascite (GASA) do que as relações de proteínas e de desidrogenase lática (LDH), pois as doenças malignas classicamente provocam uma ascite exsudativa, mas a dosagem de proteínas no líquido peritoneal não é importante, há muitos equívocos na prática clínica, por exemplo, na ascite transudativa de pacientes com cirrose, 30% apresentam valores de proteínas superiores a 2,5 g/dL e dos pacientes com insuficiência cardíaca congestiva e 50% apresentam proteínas acima de 3,0 g/dL. Assim, o gradiente soro/albumina é mais preciso na diferenciação da ascite. O nível de albumina no líquido é subtraído do nível de albumina no soro, se a diferença for gradiente inferior a 1,1g/dL é um exsudato e quando superior a 1,1 g/dL é um transudato (STRASINGER; DI LORENZO, 2008). As características físicas dos fluidos corporais, como a cor e o aspecto, dependem da cavidade corporal que eles foram coletados. Normalmente, o líquido cerebrospinal e sinovial, que serão abordados detalhadamente nos próximos tópicos, são incolores e límpidos, enquanto os líquidos serosos são amarelados e límpidos (BARCELOS; AQUINO, 2018). Em condições patológicas a cor e o aspecto dos fluidos podem ser alterados. Geralmente, os termos mais utilizados para descrever o aspecto são “límpido”, ‘turvo”, “purulento” (indica presença de uma grande quantidade de leucócitos) e “leitoso” 121 (presença de gordura). Para descrever a cor são utilizados os termos: “incolor”, ‘hemorrágico” ou ‘vermelho” (indica presença de hemácias), “xantocrômico” (indica degradação de hemoglobina), entre outros (BARCELOS; AQUINO, 2018). Amostra vermelha é indicativa de hemorragia ou punção traumática. A punção traumática nada mais é do que quando a agulha atinge um vaso sanguíneo no momento da coleta. Nesse caso deve ser realizado o diagnóstico diferencial entre acidente de punção e a hemorragia. Rotineiramente é realizada a prova de três tubos, que consiste em separar o líquido em três tubos deixar em repouso por alguns minutos e em seguida fazer a comparação dos três tubos, num acidente de punção usualmente ele clareia entre o primeiro e o terceiro tubo coletado e permanece uniforme na hemorragia (STRASINGE; DI LORENZO, 2008). No Tópico 2, abordaremos outras provas que podem ser realizadas em alguns líquidos biológicos para fazer essa diferenciação. As amostras em geral são colhidas em um frasco (urina, sêmen) ou inserindo uma agulha fina em uma cavidade do corpo e aspirando ao líquido com uma seringa (líquido cerebrospinal, líquido pericárdico, pleural, ascítico, amniótico etc.). Depois da coleta são distribuídas em tubos específicos e encaminhados ao laboratório onde são feitos diversos exames, incluindo bioquímicos como dosagem de proteínas e glicose, contagem global de hemácias e leucócitos, contagem diferencial de leucócitos, coloração de Gram, cultura e testes imunológicos. A Tabela 2 descreve os principais fluidos examinados e o tipo de procedimento realizado para a obtenção da amostra a ser analisada. Tabela 2 – Fluidos analisados e procedimento de coleta Fluido Corporal Procedimento Fluido pleural Toracentese Fluido peritoneal (ascítico) Paracentese Fluido pericárdico Pericardiocentese Fluido cerebrospinal Punção lombar, suboccipital, cervical lateral Fluido amniótico Fluido sinovial Amniocentese Artrocentese Fonte: adaptado de Mundt e Shanahan (2012, p. 223) As análises citológicas dos fluidos corporais têm objetivo realizar a avaliação das células de diversos tipos de fluido, sendo capazes de identificar a presença de doenças infecciosas, sangramentos, inflamatória, ou de células neoplásicas por meio da observação da amostra no microscópio. O exame citológico compreende a contagem global de células e contagem diferencial de leucócitos. Ultimamente tem ocorrido um maior interesse no desenvolvimento da análise automatizada de fluidos corporais, principalmente, devido às limitações da contagem 122 manual de células ocasionadas pela falta de experiência profissional ou por falta de padronização do processo da análise, mas a maioria das contagens de células ainda é realizada de forma manual pelos laboratórios, utilizando-se o hemocitômetro (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Cabe ressaltar que a diferenciação celular deve ser sempre realizada em microscopia óptica manual. Existem diferentes tipos de hemocitômetro, também conhecido como câmara de contagem, sendo o mais conhecido o hemocitômetro de Neubauer e Fuchs Rosenthal. O primeiro é o mais utilizado pelos laboratórios. • Câmara de Neubauer: a grade de contagem tem 3 mm x 3 mm de tamanho e contém 9 subdivisões quadradas de 1 mm de largura. O quadrado central é dividido em 25 quadrados com 0, 2mm de largura. Cada um dos 25 quadrados centrais é subdividido em 16 pequenos quadrados (Figura 1). • Câmara de Fuchs Rosenthal: a câmara tem uma profundidade de 0,2mm e uma grande área de 16 mm², um volume total de 3,2 mm² e dividida em 16 grandes quadrados. Cada um dos 16 é subdividido em quadrados menores (COMAR et al, 2009; BARCELOS;AQUINO, 2018). A linha central é o limite e determina quando uma célula deve ser incluída na contagem ou não. Figura 1 – Hemocitômetro de Neubauer Fonte: adaptada de https://pncq.org.br/uploads/pdfs/manual_laboratorio_oms_A5_web.pdf. Acesso em: 9 set. 2022. Como dito anteriormente existem, vários tipos de câmara de contagem, o que as diferenciam são algumas características como resolução, profundidade, composição que pode ser de vidro ou descartável e o tamanho e desenho da malha. Antes de realizar a contagem deve ser realizada a preparação do líquido devendo ser uma suspensão homogênea, não centrifugada e com concentração apropriada, caso esteja muito baixa, pode haver um erro de contagem ao analisar o resultado por quadrante. Já, se estiver muito alta, as células correm o risco de sobreposição, dificultando a contagem. A amostra deve ser diluída em solução salina (NaCI 0,9%) caso apresente elevada celularidade, pois permite que as células tenham um espaço adequado para se espalharem formando uma única camada na superfície da câmara com sobreposição mínima. Na câmara de Neubauer, geralmente, são contadas todas as células presentes nos nove milímetros quadrados. Porém, quando a concentração de células é elevada 123 os laboratórios podem realizar alguns ajustes no procedimento de contagem. Segundo Mundt e Shanahan (2012), quando muitas hemácias estão presentes na amostra apenas a contagem do quadrante central pode ser necessária, oferecendo um resultado preciso assim como a contagem de todos os 9 quadrantes. Caso a presença de células nucleadas seja elevada, as contagens dessas células nos quatro quadrados do canto geralmente são suficientes. O cálculo de contagem em hemocitômetro de Neubauer consiste em: Contagem celular = N x D x 10/A. Portanto, N representa o número de células contadas e D corresponde ao fator de diluição. É necessário multiplicar por 10 para compensar a profundidade da câmara de 1 mm e dividido por A (área contada em milímetros quadrados), resultando no número de células por milímetro cúbico (MUNDT; SHANAHAN, 2012). A contagem diferencial de células de líquidos biológicos é realizada quando a contagem global de leucócitos se apresenta elevada. Pode ser realizada com o líquido puro ou o sedimento obtido após centrifugação em baixa rotação. A lâmina pode ser confeccionada com várias técnicas como esfregaço, gota espessa, citocentrifugação e câmara de Suta (STRASINGER; DI LORENZO, 2008). A citocentrifugação é a técnica mais recomendada para a contagem de células em líquidos biológicos, pois requer pouca habilidade profissional e permite uma boa recuperação de células. Após a preparação da lâmina ela é corada com corantes hematológicos como Leishmann e Giemsa e observada em microscopia para detecção dos tipos leucócitos predominantes como neutrófilos, eosinófilos, linfócitos, macrófagos, basófilos, além de células teciduais. Esses tipos de células se elevam de acordo com a patologia presente. Para a diferenciação de hemácias, leucócitos e células teciduais em câmara de contagem, o profissional deve conhecer as características de cada uma dessas células. As hemácias são células circulares, com halos e o centro da célula é limpo. Em caso de hemácias crenadas pode se apresentar com projeções finas e pontudas. Já os leucócitos apresentam um aspecto granular, as células teciduais, por sua vez possui contorno irregular, são grandes e granulares (COMAR et al., 2009). 124 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • Existem vários tipos de fluidos biológicos, os principais: o líquido cerebrospinal, sêmen, sinovial, suor, líquidos serosos ou cavitários (pleural, peritoneal e pericárdico), urina, secreções respiratórias, como o lavado broncoalveolar e líquido amniótico. Esses líquidos variam quanto à composição, mas possuem alguns elementos em comum. As funções da água e dos eletrólitos são determinantes essenciais de qualquer composição e movimento dos fluidos no corpo humano, desempenhando importantes funções em diversos processos do metabolismo. • Os fluidos corporais são classificados em intracelular e extracelular, aproximadamente, 55% da água fica situados no interior das células, enquanto a água do meio extracelular corresponde em torno de 45%. O líquido extracelular tem grandes quantidades de sódio e cloreto e pequenas quantidades de potássio, cálcio, magnésio, fosfato e ácidos orgânicos, enquanto o potássio e o fosfato são predominantes no líquido intracelular e contém pequenas quantidades de sódio e cloreto. O líquido extracelular é subdividido em: líquido intersticial, líquidos transcelulares e plasma. • O volume do fluido varia significativamente de acordo com o sítio corpóreo. Várias doenças provocam o acúmulo desses fluidos nas cavidades, denominado de efusões. Essas efusões são classificadas em transudato e exsudato. O transudato ocorre quando fatores sistêmicos influenciam na formação e reabsorção dos fluidos. Já o exsudato é um derrame que causa comprometimento direto dos revestimentos mesoteliais. As características físicas dos fluidos corporais, como a cor e o aspecto, dependem do sítio coletado. Em condições patológicas podem ser alteradas. Para obtenção dos fluidos corporais é realizado um procedimento médico, geralmente o nome denominado corresponde ao local de coleta. • Depois da coleta, são encaminhados ao laboratório onde são feitos diversos exames, incluindo bioquímicos, microscópicos e exames para doenças infecciosas. A contagem de células é realizada de forma manual pelos laboratórios, utilizando-se o hemocitômetro. Já a contagem diferencial é realizada quando a contagem global apresenta uma pleocitose. A citocentrifugação é a técnica mais recomendada para a contagem de diferencial em fluidos biológicos. Após a preparação da amostra, ela é corada por corante e observada para detecção dos tipos celulares predominantes. 125 AUTOATIVIDADE 1 São muitas doenças que provocam o acúmulo de fluidos nas cavidades serosas, denominados de efusões. Com base na causa do acúmulo, as efusões são classificadas em transudato e exsudato. No entanto, é possível distinguir o líquido nas categorias de transudato ou de exsudato. Diante disso, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Um transudato ocorre quando fatores mecânicos ou sistêmicos influenciam na formação e reabsorção dos fluidos. b) ( ) Transudato, apresenta proteínas superiores a 3,0 g/dL e LDH maior que 200 UI. c) ( ) Exsudatos são resultantes de um processo sistêmico, e os transudatos provém direto dos revestimentos mesoteliais. d) ( ) Exsudato, apresenta proteínas inferiores a 3,0 g/dL e LDH maior que 200 UI. 2 A classificação dos fluidos biológicos serosos entre transudato ou exsudato deve ser um dos primeiros passos para o diagnóstico laboratorial correto. Sobre a combinação de testes que permite obter resultados mais sensíveis e acurados em relação à diferenciação do líquido pleural entre essas duas classificações, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Determinação de leucócitos e proporção de proteínas do líquido pleural/soro. b) ( ) Determinação dos níveis de glicose e proporção de LDH do líquido pleural/soro. c) ( ) Proporção de proteínas e Lactato desidrogenase do líquido pleural/soro. d) ( ) Contagem de hemácias e proporção de Lactato desidrogenase (LDH) do líquido pleural/soro. 3 Para obtenção dos fluidos corporais é realizado um procedimento médico. Geralmente, o nome denominado corresponde ao local de coleta. Após a coleta, são encaminhados ao laboratório para a realização de diversos exames, incluindo bioquímicos, microscópicos e exames para doenças infecciosas. Sobre a obtenção dos fluidos corporais para a análise laboratorial, analise as sentenças a seguir: I- O procedimento chamado de toracentese é seguro, rápido e indicado para pacientes com derrame pleural. II- A obtenção do fluido cerebrospinal ocorre exclusivamente por punção lombar. III- A paracentese é realizadapara obtenção do líquido ascítico. IV- A obtenção dos fluidos corporais ocorre por punção aspirativa com agulha fina no interior das cavidades corporais. 126 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) As sentenças IIII e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a sentença II está correta.. 4 Atualmente, cada vez mais a análise automatizada de fluidos corporais tem sido usada, devido às limitações da contagem manual de células, ocasionadas principalmente pela falta de experiência profissional ou por falta de padronização do processo da análise em si, mas a maioria das contagens de células ainda são realizadas de forma manual pelos laboratórios. Com base nessas informações, explique a importância do exame citológico em fluidos corporais e as técnicas manuais empregadas nesta análise. 5 Os fluidos corporais podem ser divididos em dois grandes compartimentos: intracelular e extracelular. A composição dos eletrólitos e enzimas dos fluidos intracelulares difere daquela dos fluidos extracelulares. Com base nessas informações, disserte sobre a composição dos fluidos intracelulares e extracelulares e suas funções. 127 LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO E FLUIDO SINOVIAL 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, neste momento, estamos iniciando o Tópico 2, sobre os líquidos cefalorraquidiano e sinovial. No tópico anterior, fizemos uma introdução sobre os fluidos corporais e a importância destes para a manutenção do nosso corpo e diagnóstico de doenças. Neste tópico 2, abordaremos detalhadamente o fluido cerebrospinal e sinovial. As análises desses fluidos são fundamentais para a obtenção de informações relevantes sobre várias doenças que acometem as suas respectivas cavidades. A análise do fluido cerebrospinal, também conhecido como cefalorraquidiano, líquor ou simplesmente por LCR é fundamental na obtenção de informações diagnósticas de várias doenças que acometem o sistema nervoso central, podendo ser considerado uma biópsia de líquido do cérebro (BARCELOS; AQUINO, 2018). A coleta do fluido cerebrospinal é indicada em casos de processos infecciosos e não infecciosos no sistema nervoso central como hemorragia e meningites. O líquido sinovial encontrado nas cavidades das articulações móveis ou diartroses é um fluido viscoso, produzido pela membrana sinovial com função de lubrificação, nutrição, suporte mecânico e absorção de impacto. A análise do fluido sinovial é importante no diagnóstico e prognóstico de várias artropatias que acometem a cavidade articular. Neste Tópico 2, abordaremos a formação, composição, circulação e funções dos fluidos cerebrospinal e sinovial, os procedimentos de coleta desses fluidos, bem como a análise laboratorial, as correlações clínicas e seu uso para o diagnóstico de doenças. Bons estudos! 2 FORMAÇÃO, COMPOSIÇÃO E FISIOLOGIA DO FLUIDO CEREBROSPINAL O fluido cerebrospinal é um fluido estéril, aparência clara, semelhante ao plasma que está em íntima relação com o sistema nervoso central (SNC) e suas membranas. A estrutura do sistema nervoso central e seus tecidos são muito delicados, por isso é necessário um sistema de proteção, que consiste em quatro estruturas: crânio, meninges, fluido cerebrospinal e barreira hematoencefálica. UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 128 As meninges são membranas conjuntivas que envolvem o encéfalo e o medula espinal que constituem o sistema nervoso central. Todas essas estruturas estão envoltas por três meninges, conhecidas como dura-máter, aracnoide e pia-máter. A dura-máter é a membrana externa que reveste o crânio e a coluna vertebral. A aracnoide é a membrana intermediária e a pia-máter é a membrana mais interna (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). A infl amação das meninges é chamada de meningite, provoca febre e rigidez na nuca. Pode ser causada por vários microrganismos como bactérias, vírus, fungos e parasitas. As meningites virais e bacterianas são contagiosas e de maior importância para a saúde pública. IMPORTANTE A barreira hematoencefálica (BHE) é formada por células endoteliais que reveste o plexo coroide alinhada com o epitélio dos capilares, que criam uma barreira entre o sangue circulante e o tecido nervoso, controlando o movimento da água e dos solutos para o fl uido cerebrospinal, bem como do fl uido para o tecido neural (VIEIRA; SOUSA, 2013). Manter a integridade da barreira é essencial para proteger o sistema nervoso central de substâncias químicas e outras substâncias que circula na corrente sanguínea que poderiam afetar o tecido nervoso. A produção do fl uido cerebrospinal, aproximadamente 70% ocorrem nos ventrículos laterais e no 3º e no 4º ventrículo conhecidos como plexo coroide, por uma combinação de processos de difusão, pinocitose e transporte ativo. Sendo os outros 30%, formados pelo revestimento ependimal dos ventrículos e do espaço subaracnóideo cerebral (MUNDT; SHANAHAN, 2012; BARCELOS; AQUINO, 2018). O fl uido passa dos ventrículos laterais ao terceiro ventrículo através dos forames intraventricular, o terceiro ventrículo fl ui pelo aqueduto cerebral para o quarto ventrículo. Do quarto ventrículo, parte do fl uido entra no canal central da medula espinal, no entanto, a maior parte do fl uido passa pelas aberturas do quarto ventrículo. Assim, por entre as aberturas medianas e laterais do IV ventrículo, o líquor formado alcança o espaço subaracnóideo e circula de baixo para cima. Na medula desce em direção caudal, apenas uma parte retorna, pois há reabsorção nos seios venosos durais por meio de granulações aracnoideas (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). O volume produzido, normalmente é de 90 a 150 mL em adultos e de 10 a 60 mL em recém-nascidos, com taxa de produção em torno de 500 mL/dia ou 20 mL/hora (MUNDT; SHANAHAN, 2012). A Figura 2 ilustra a circulação do fl uido cerebrospinal ao redor do sistema nervoso central. 129 Como vimos no tópico anterior, os fluidos corporais são compostos basicamente por água. O líquor é composto por aproximadamente 99% de água com concentração aumentada de magnésio e íons clorídricos, e menor concentração de glicose, proteínas, aminoácidos, ácido úrico, cálcio, fosfato e íons de magnésio (DIMAS; PUCCIONI-SOHLER, 2008). Dentre as funções que o fluido cerebrospinal desempenha, podemos citar a proteção mecânica que amortece o encéfalo e a medula espinhal contrachoques e pressão. Além da barreira mecânica, o fluido fornece também nutrientes essenciais ao sistema nervoso central, barreira de proteção contra agentes infecciosos e por meio dele é realizada excreção de produtos do metabolismo. 3 COLETA E MANIPULAÇÃO DO FLUIDO CEREBROSPINAL A análise do fluido cerebrospinal é indicada para diagnóstico de doenças que afetam o SNC como meningites, doenças inflamatórias, processos desmeilinizantes, leucemias e linfomas (estadiamento e tratamento), esclerose múltipla, hemorragia subaracnóidea, tuberculose, neurosífilis, entre outras. O fluido cerebrospinal pode ser obtido por diferentes vias de acesso como lombar, suboccipital e ventricular, sendo a mais utilizada à punção lombar no espaço intervertebral entre L3 e L4 (MUNDT; SHANAHAN, 2012; LEITE et al., 2016). A região é a mais indicada em virtude do menor risco de dano à medula espinal, uma vez que em adultos a medula não atinge essa região. O procedimento só pode ser realizado pelo profissional médico habilitado. Antes da coleta o local é devidamente higienizado e aplicado um anestésico local (OLIVEIRA et al., 2016). Alguns questionamentos também são feitos ao paciente, como se ele faz uso de medicamentos – principalmente anticoagulantes. Não é necessário que o paciente esteja em jejum, mas ele deve ser orientado sobre os desconfortos e possíveis complicações após a coleta, assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e estar acompanhado. Após a realização da anestesia, o médico posiciona a agulha na dura-máter com o paciente, geralmente na posição decúbito lateral,e realiza a medição da pressão intracraniana com aparelho raquimanômetro ligado à seringa. Assim, o fluido é coletado quando a pressão está normal. A pressão inicial e final deve ser medidas para análise laboratorial, pois várias doenças podem aumentar a pressão intracraniana. A pressão normal em adultos varia de 10 a 200 mmH2O, em bebês e crianças o intervalo normal é de 10 a 100 mmH2O (COMAR et al., 2009). Geralmente, são coletados no mínimo 3 mL em recém-nascidos, crianças 5 mL, adultos 10 mL e suspeito de BK 13mL, o volume não pode exceder de 20 mL (POZZOBON, 2017). 130 O fluido coletado é distribuído em três ou quatro tubos estéreis e sem anticoagulante, devidamente identificados na ordem em que são obtidos (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). O tubo 1 é encaminhado à seção laboratorial de bioquímica, tubo 2 à seção de microbiologia e o tubo 3 para contagem celular. Caso a amostra tenha sido coletada apenas em um frasco, deve ser encaminhada à seção de microbiologia e, em seguida, à seção de hematologia e, posteriormente, à seção de bioquímica e imunologia (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). 4 ANÁLISE LABORATORIAL DO FLUIDO CEREBROSPINAL Após a coleta, as amostras são encaminhadas ao laboratório para armazenamento, processamento e análise. A análise deve ser realizada preferencialmente em até duas horas após a coleta para evitar a degradação ou alterações morfológicas das células, diminuição da glicose e concentração de microrganismos (COMAR et al., 2009). Como podemos perceber a análise do fluido cerebrospinal envolve diferentes setores laboratoriais. Diferentes estudos podem ser realizados, entre eles, podem ser realizadas análise macroscópica (física), análise microscópica de contagem global de células e contagem diferencial, análise bioquímica, testes imunológicos e moleculares e culturas microbiológicas. • ANÁLISE MACROSCÓPICA Análise macroscópica compreende a observação do aspecto, cor, retículo fibrinoso, e formação de coágulo. Aspecto: o aspecto diz respeito à transparência do fluido. A turvação começa a aparecer quando ocorre um aumento no número de células, presença de microrganismos, contraste radiográfico e nível proteico elevado (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Outra alteração é quando se apresenta hemorrágico, indicando hemorragia subaracnoidea ou punção traumática. Podem ocorrer diferentes graus de turvação no líquor em decorrência da presença do número de células, recebendo a denominação de pleocitose. O aspecto pode ser descrito da seguinte forma: límpido (até 45 células), levemente turvo (de 46 até Acadêmico, assista ao vídeo educacional sobre a técnica, indicações, contraindicações e possíveis complicações da punção lombar, produzido pelo New England Journal of Medicine, traduzido para o português brasileiro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ErNhuKfoYAU. Acesso em: 28 agosto de 2022 DICAS https://www.youtube.com/watch?v=ErNhuKfoYAU 131 300 células), turvo (de 301 a 6.000 células) e purulento (acima de 6.000 células). Com aspecto oleoso, pode ser decorrente da presença de contraste radiológico (POZZOBON, 2017). Caso o aspecto esteja alterado, o fl uido deve ser centrifugado e o aspecto reavaliado, devendo ser informado no laudo o aspecto antes e após a centrifugação. Pleocitose é o aumento do número de leucócitos em fl uidos corporais. Em líquor, está relacionado à vigência de um processo infl amatório do SNC. A quantidade de células ou o tipo celular predominante pode determinar o tempo de evolução da patologia e o agente ou grupo de agentes causais. Xantocromia é considerada fi siológica no período neonatal em virtude da imaturidade da função hepática no processo de eliminação da bilirrubina. NOTA DICA Cor: normalmente, o líquor é incolor, quando anormal pode apresentar diferentes cores em decorrência da presença de substâncias variadas. Quando a cor estiver entre rosa, amarelo ou laranja, a amostra é considerada xantocrômica e pode ocorrer pela hemólise das hemácias, pelas concentrações aumentadas de proteínas ou bilirrubina, enquanto eritrocrômico é proveniente das hemácias recém hemolisadas. Quando a espécime apresentar a coloração vermelha é indicativo de sangue, nesse caso deve ser realizado o diagnóstico diferencial entre punção traumática e a hemorragia. Além da prova de três tubos vista no Tópico 1, também podem ser realizadas as provas de centrifugação e sedimentação (BARCELOS; AQUINO, 2018). No caso de confi rmação de acidente de punção, é feita uma correção de células e proteínas totais do líquido usando uma fórmula específi ca. • Prova de sedimentação: consiste em observar a cor do sobrenadante; caso esse seja límpido e incolor após centrifugação é decorrente da punção traumática; caso fi que na cor rosa é sugestivo de hemorragia. • Prova de sedimentação: consiste em deixar o fl uido em repouso após a coleta, caso haja a formação de coágulo, trata-se de punção traumática. Normalmente, o fl uido cerebrospinal não apresenta retículo, uma vez que 132 não contém trombina e nem fibrinogênio. Esse pode estar presente em algumas doenças, como meningite, abcessos encefálicos e poliomielite. A formação de coágulos pode ocorrer em caso de punção traumática, nas meningites bacterianas agudas e tuberculosas e neurossífilis. • ANÁLISE CITOLÓGICA A análise citológica compreende a contagem global de células em hemocitômetro e a contagem diferencial de leucócitos. A análise citológica deve ser realizada preferencialmente em caráter de urgência após duas horas. Como já vimos, pode ocorrer à degradação ou alterações morfológicas das células. Para a realização de contagem global de leucócitos e hemácias, o líquor deve ser homogeneizado e não pode ser diluído ou congelado. Contudo, em casos em que a amostra está muito rica em células, pode ser diluído em solução salina (COMAR et al. 2009). As contagens são realizadas em hemocitômetro, sendo o mais utilizado o hemocitômetro de Fuks-Rosenthal. O procedimento para contagem global de células varia de acordo com a celularidade da amostra, conforme mostrado na Tabela 3. Tabela 3 – Procedimento de contagem celular em hemocitômetro de Fuchs Rosenthal Celularidade Procedimento de contagem Baixa Contar os 16 quadrados maiores e dividir por 3,2. Intermediária Contar 4 quadrados maiores, multiplicar por 4 e dividir por 3,2. Alta Contar um quadrado maior, multiplicar por 16 e dividir por 3,2. Altíssima (sobreposição de células) Fazer diluição com salina ou líquido de Türk (para leucócitos) e multiplicar o resultado pelo fator da diluição. Alta quantidade de hemácias Contar um quadrado menor, multiplicar por 256 e dividir por 3,2. Fonte: Barcelos e Aquino (2018, p. 174) A contagem diferencial de leucócitos é realizada quando a contagem global apresenta uma pleocitose. O sedimento obtido após centrifugação rotineiramente é preparado por citocentrifugação. Após a preparação da amostra, ela é corada por corante do tipo Wright e observada para detecção dos tipos celulares predominantes (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Normalmente deve haver o predomínio de linfócitos (70%), com presença de alguns monócitos (30%) e quase nenhum neutrófilo. Já eosinófilos e células ependimais raramente são observadas. Quando a pleocitose envolve a presença de neutrófilos, eosinófilos, linfócitos, monócitos ou macrófagos a contagem diferencial fornece 133 importantes informações sobre o tipo de microrganismo que está causando a meningite (DI LORENZO; STRASINGER, 2009). • Linfocitose: a pleocitose linfocítica apresenta nos estágios tardios da meningite viral, tuberculosa, fúngica e sifílica, esclerose múltipla e ocasionalmente em meningite bacteriana. • Neutrofilia: indica meningite bacteriana e processos inflamatórios agudos da meningite e micótica, virótica e tuberculosa se transformando numa pleocitose num período de dois a três dias. Também é observada em casos de abscesso cerebral, empiema subdural, hemorragia do SNC e pós-convulsões.de distúrbios eletrolíticos sistêmicos de origem metabólica ou respiratório e na monitoração de tratamentos que necessitam de um pH urinário específico (SBPC, 2017). O pH da urina fornece informações valiosas sobre condições gerais de saúde e sobre a adequação da amostra. A correlação do pH da urina com a condição clínica do paciente auxilia no diagnóstico de doenças e na monitoração de pacientes com histórico de formação de cálculos renais (BRUNZEL, 2018). Por outro lado, o valor do pH urinário isoladamente não identifica nem exclui enfermidade renal. A técnica de determinação do pH urinário baseada em tiras reativas é fundamentada no uso de um sistema indicador duplo, utilizando azul de bromotimol e vermelho de metila, que em combinação, produzem mudanças de cores de laranja (pH 5,0) a verde (pH 7,0) e azul (pH 9,0) (BRUNZEL, 2018). 3.2 PROTEÍNAS Em condições normais, até 150 mg de proteína são excretadas diariamente pela urina, com uma concentração proteica urinária média de 2 a 10 mg/dL, dependendo do volume de urina. Estas proteínas se originam da ultrafiltração do plasma nos glomérulos renais e do próprio trato urinário, sendo em sua maioria proteínas de baixo peso molecular, que tem a capacidade de passar pela barreira de filtração glomerular e serem reabsorvidas (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Cerca de um terço do total das proteínas excretadas, corresponde à albumina, e o restante às pequenas globulinas. Em menor proporção pode haver uma glicoproteína (Tamm-Horsfall) de alto peso molecular, secretada pelas células dos túbulos distais e da alça de Henle ascendente, e que representa a maior constituinte dos cilindros hialinos (RIELLA et al., 2018). A presença de uma quantidade aumentada de proteína na urina, chama-se proteinúria, e pode ser o primeiro indicador de doença renal. Entretanto, é importante ressaltar que a demonstração de proteinúria nem sempre significa doença renal, portanto, exames adicionais são necessários para determinar se a condição é normal ou patológica (STRASINGER; LORENZO, 2009). 59 A proteinúria é resultado do aumento na quantidade de proteínas plasmáticas filtradas ou da redução da capacidade de reabsorção dos túbulos renais, podendo ser diferenciada pela origem proteica e da disfunção renal, que determinam os tipos de proteínas excretados de forma aumentada na urina (BRUNZEL, 2018). A proteinúria postural ou ortostática ocorre devido à pressão sobre a veia renal, apenas quando o indivíduo permanece em posição ereta por longo período, desaparecendo durante o período de sono (STRASINGER; LORENZO, 2009). A proteinúria funcional é associada à febre alta, desidratação, exposição ao calor ou ao frio intensos e exercícios físicos vigorosos. Uma proteinúria transitória também pode ocorrer durante a gravidez, e nos últimos meses da gestação pode indicar pré-eclâmpsia, devendo ser analisada em conjunto com demais sintomas (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). A proteinúria pré-renal não é indicativa de doença renal, pois é causada pelo aumento de proteínas plasmáticas associadas à infecção, inflamação, lesão muscular, que excedem a capacidade de absorção dos túbulos renais. Pacientes com mieloma múltiplo – uma desordem proliferativa de células produtoras de imunoglobulinas – apresentam o aumento da excreção de uma proteína específica, a proteína de Bence-Jones, que possui baixo peso molecular e corresponde a cadeia leve livre de imunoglobulinas (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). A proteinúria renal geralmente se dá pelo real dano glomerular ou tubular. No primeiro caso, a membrana glomerular danificada perde a seletividade na filtração e leva ao aumento das proteínas séricas na urina, ocorrendo na exposição a substâncias tóxicas, lúpus eritematoso e glomerulonefrite estreptocócica. Quando a reabsorção tubular é afetada, a albumina e outras proteínas de baixo peso molecular não são reabsorvidas da forma que deveriam e por isso são excretadas em excesso. Tal disfunção ocorre após exposição a substâncias tóxicas, infecções virais e síndrome de Fanconi. Já a microalbuminúria, refere-se à excreção de pequena quantidade de albumina, e é um indicador precoce de disfunção renal, principalmente associada à nefropatia diabética e doença cardiovascular (SBPC, 2017). Veja mais sobre o papel do exame de urina na avaliação da microalbuminúria na Leitura Complementar, indicada ao final do Tópico 3. ESTUDOS FUTUROS 60 A proteinúria pós-renal é resultado do extravasamento de proteínas no trato urinário inferior, em decorrência de eventos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos (STRASINGER; LORENZO, 2009). Em relação às metodologias utilizadas, a tira reativa é sensível apenas à albumina. Os métodos que utilizam precipitação ácida detectam também a presença de imunoglobulinas, por isso são muito úteis em situações específicas, em que é preciso dosar as proteínas urinárias, especialmente na urina de 24 horas, onde se pode obter informações mais completas para o diagnóstico de doença renal e o acompanhamento da resposta ao tratamento (SBPC, 2017). Você já ouvir falar em Síndrome de Fanconi? Conhece alguém portador desta Síndrome? Não?! Então vamos conhecer maiores detalhes sobre ela. A Síndrome de Fanconi é um distúrbio raro dos túbulos renais que resulta na diminuição da reabsorção, que resulta na eliminação em excesso de glicose, bicarbonato, fosfatos, ácido úrico, potássio e aminoácidos na urina. Essa síndrome pode ser hereditária ou ocorrer devido à ingestão de drogas ou metais pesados. Os pacientes acometidos podem ter desidratação, raquitismo e desenvolvimento limitado. O diagnóstico envolve além dos sinais clínicos, a detecção de níveis elevados de glicose, fosfatos e aminoácidos na urina, enquanto a glicose sanguínea permanece em níveis normais (HECHANOVA, 2020). INTERESSANTE 3.3 GLICOSE Os açúcares normalmente não são excretados na urina, entretanto vários deles podem ser detectados nestas amostras em circunstâncias patológicas ou fisiológicas, sendo a glicose o tipo mais comum. Quando os níveis de glicose no sangue excedem a capacidade de reabsorção dos túbulos renais (160 a 180 mg/dL), ela é eliminada na urina, situação denominada glicosúria. O fluxo sanguíneo glomerular, a taxa de reabsorção tubular e o fluxo urinário também influenciam no seu aparecimento (RIELLA et al., 2018). A glicosúria associada à hiperglicemia pode ser observada na Diabetes mellitus, em distúrbios endócrinos, envolvendo as glândulas pituitária e suprarrenal, tumores pancreáticos, distúrbios afetando o sistema nervoso central, distúrbios metabólicos associados a queimaduras, infecções, infarto do miocárdio, doença hepática, doenças do armazenamento de glicogênio, obesidade e alimentação após o jejum. Na gravidez, há um aumento da taxa de filtração glomerular, e toda a glicose filtrada pode não ser reabsorvida. 61 Nessa situação, a glicosúria pode aparecer diante de níveis sanguíneos de glicose relativamente baixos. É preciso investigar a glicosúria persistente ou as concentrações urinárias de glicose maiores do que apenas traços. A glicosúria sem hiperglicemia usualmente está associada à disfunção tubular renal (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Como teste de triagem para diabetes, a pesquisa de glicosúria em jejum tem uma especificidade de 98%, mas uma sensibilidade apenas de 17% (RIELLA et al., 2018). Portanto, quando um paciente tem glicosúria, a avaliação do sangue e da urina é necessária para identificar o processo específico da doença. A maior parte das tiras reativas usa o método glicose oxidase/peroxidase, que consegue detectar níveis baixos de glicose urinária (50 mg/dL). A enzima glicose oxidase impregnada na almofada de reação catalisa rapidamente a oxidação da glicose presente na urina para formar peróxido de hidrogênio e ácido glucônico. O peróxido de hidrogênio oxida o cromogênio na almofada na presença de peroxidase. Grandes quantidades de corpos cetônicos, ácido ascórbico• Eosinofilia: em qualquer quantidade são indicativos de presença de parasitas e fungos no SNC, reação alérgica e drogas. • ANÁLISE BIOQUÍMICA Na análise bioquímica, geralmente são realizadas as dosagens de proteínas, lactato desidrogenase (LDH), creatinoquinase (CK), cloreto, glicose, lactato, imunoglobulinas e eletroforese. Como já vimos o líquor é formado pela filtração do plasma, porém o processo de filtração é seletivo, ou seja, sua composição química é controlada pela barreira hematoencefálica, sendo assim, os valores normais do plasma não são os mesmos do líquor. Proteínas: as proteínas de baixo peso molecular podem ter origem da síntese intratecal, em sua maioria são originadas por ultrafiltração do plasma pelas paredes capilares nas meninges e plexos coroides (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Os valores normais de proteínas totais variam no fluido de 15 até 45 mg/dL. Entretanto, variam com a idade e sítio de coleta, em recém-nascidos e adultos acima de 40 anos apresentam concentrações mais elevadas, bem como coletados na punção lombar. Valores abaixo do normal estão relacionados à perda de fluido no SNC, enquanto a elevação denominada de hiperproteinorraquia é observada em várias doenças como danos a barreira hematoencefálica, meningites bacteriana e virótica, hemorragia, esclerose múltipla, lesão traumática, encefalite, poliomielite, tumor cerebral, meningite tuberculosa, abcesso cerebral e medicamentos (DI LORENZO; STRASING, 2009). Diversos métodos são usados na determinação de proteínas totais frequentemente são usados a turbedimentria, imunoturbidimetria e método de biureto. Uma das proteínas específicas avaliadas no líquor é a albumina, derivada da filtração da barreira hematoencefálica, uma vez que o SNC não sintetiza albumina. Os métodos utilizados para a dosagem da albumina no líquor é a nefelometria (considerado padrão ouro) e a turbidimetria. Os valores de concentração da albumina variam entre 10 e 30 mg/dL (BARCELOS; AQUINO, 2018). A avaliação da integridade da barreira hematoencefálica é principalmente 134 avaliada dosando a proporção albumina líquor/sérica ou um índice albumina líquor/ sérica. De acordo com Mundt e Shanahan (2012), a proporção normal de albumina líquor/sérica é aproximadamente de 1:230. Em condições normais, o índice albumina líquor/sérica é menor que 9. Índice entre 9 e 14 indica comprometimento leve; 15 a 30 comprometimento moderado; superior a 30 indica comprometimento grave e superior a 100 indica perda total da barreira hematoencefálica. Fatores como peso corporal, cigarro, consumo de álcool e hipotireoidismo influenciam no quociente de concentração de albumina. Também em neonatos esses quocientes podem ser mais elevados do que em adultos em decorrência da imaturidade da barreira hematoencefálica. NOTA Glicose: a concentração de glicose no fluido cerebrospinal é proporcional à concentração de glicose no sangue correspondendo a 60-70% da concentração do sangue em condições normais. A variação normal de glicose no LCR corresponde de 50 a 80 mg/dL com uma proporção normal entre a glicose do fluido e glicose do soro de 0,6. Os níveis de glicose são importantes para diferenciar a meningite bacteriana e viral. A diminuição acentuada e com elevado número de glóbulos brancos e acompanhados de uma neutrofilia são indicativos de meningite bacteriana, entretanto se o aumento for de linfócitos ao invés de neutrófilos é sugestivo de meningite tuberculosa (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). Nas meningites virais a diminuição pode ocorrer de forma discreta ou até mesmo apresentar normal acompanhado de uma linfocitose. A diminuição dos níveis de glicose no líquor, denominado de hipoglicorraquia pode ser decorrente principalmente de alterações nos mecanismos de transporte da glicose através da barreira hematoencefálica e infecções no SNC, tanto os leucócitos como os microrganismos consomem glicose (BARCELOS; AQUINO, 2018). A análise da glicose no líquor e no sangue geralmente é realizada por métodos enzimáticos calorimétricos. Lactato: as concentrações de lactato no fluido cerebrospinal estão entre 10 e 20 mg/dL (1,1 a 2,2 mmol/L). Diferentemente da glicose, seu nível é independente dos níveis plasmáticos, pois há produção intratecal. Níveis aumentados de lactato são encontrados na hipóxia associada à meningite bacteriana, infarto cerebral, arteriosclerose cerebral, hemorragia intracraniana, hidrocefalia, lesão cerebral traumática e edema cerebral (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Os níveis de lacto no líquor são fundamentais na 135 diferenciação da meningite viral, que dificilmente eleva o lactato além de 30 mg/dL. Em outras formas de meningite (bacteriana, fúngica e tuberculosa), geralmente, o lactato é superior a 35 mg/dL. Cloreto: os valores normais de cloreto no líquor são entre 118 e 132 mEq/L em adultos. Os níveis diminuídos, denominados de hipoclorraquia são encontrados principalmente nas meningites tuberculosa e bacteriana e na criptococose. Os níveis elevados são encontrados nas nefrites, insuficiência renal e desidratação. O nível de cloreto não tem muita importância clínica na análise de líquor, pois sempre que há alteração nos níveis séricos também haverá alteração nos níveis no LCR. Eletroforese de proteínas: a eletroforese de proteínas do fluido cerebrospinal permite avaliar os teores das diferentes frações proteicas. As bandas de proteínas no fluido são similares às encontradas na eletroforese dos níveis séricos, mas em quantidades e proporções diferentes. Estão presentes a transtiretina (pré-albumina) e a albumina, sendo que a quantidade de beta é quase o dobro do presente no soro e a quantidade de gama corresponde praticamente à metade do presente no soro. Também estão presentes outras bandas de proteínas no líquor, como a transferrina e a alfa1-antitripsina em pequenas quantidades (MUNDT; SHANAHAN, 2012). A análise eletroforética das proteínas do líquor é utilizada primariamente para detecção de bandas oligloconais na região gama, indicando a produção de imunoglobulinas. A presença de duas ou mais bandas oligloconais que não estejam no soro são fundamentais no diagnóstico de esclerose múltipla, principalmente acompanhado por aumento do índice de IgG. Outas doenças neurológicas, como neurossífilis, encefalite e Síndrome de Guillain-Barré, podem produzir bandeamento e estar com soro ausente. • ANÁLISE MICROBIOLÓGICA Amostra do líquor encaminhada para análise microbiológica deve ser mantida em temperatura ambiente, ou seja, não podem ser esfriadas e congeladas, a diminuição da temperatura acarreta a diminuição da positividade da cultura especialmente para as bactérias mais comuns nas infecções das meninges. A amostra após a coleta deve ser enviada imediatamente ao laboratório e o processamento deve ser realizado urgentemente para evitar a contaminação da amostra. Seu processamento se inicia com a centrifugação em 1.500 x g por 15 minutos para preparação de lâminas e cultura. A análise microbiológica do fluido cerebrospinal compreende à bacterioscopia e cultura para identificação do agente etiológico causador das meningites. A coloração Gram é a principal coloração utilizada para análise microbiológica microscópica do fluido cerebrospinal. Sendo possível a identificação de bactérias Gram-negativas e Gram-positivas, além de corar todos os fungos como Gram-positivos (BARCELOS; AQUINO, 2018). 136 A bacterioscopia pela coloração de Gram é realizada como pesquisa obrigatória quando na citologia diferencial houver predomínio de neutrófilo ou quando a contagem global for superior a 5 células/mm³. De acordo com Barcelos e Aquino (2018), em casos de suspeita de meningite fúngica observadas durante a coloração Gram, é importante realizar colorações específicas como a Tinta da China ou nigrosina. Caso exista a suspeita de neurotuberculose, deve ser realizada uma pesquisa de BAAR (bacilos álcool-ácido resistentes) pela coloração de Ziehl-Neelsen. A cultura bacteriológicaé considerada padrão ouro na identificação de bactérias e testes de sensibilidade aos antibióticos. Deve, então, ser feita em meios de cultura específicos após resultado da bacterioscopia como o ágar-sangue, tioglicolato e ágar chocolate. Os tipos de bactérias frequentemente encontradas em meningites bacterianas incluem Haemophilus influenzae (um mês a cinco anos), Neisseria meningitidis (cinco a 29 anos), Streptococcus pneumoniae (29 anos acima), (BARCELOS; AQUINO, 2018). As meningites podem ser causadas menos frequentemente por estafilococos, outros estreptococos, Listeria monocytogenes, M. tuberculosis, C. neoformans, leptospiras, amebas e parasitas (MUNDT; SHANAHAN, 2012). • TESTES IMUNOLÓGICOS Os testes imunológicos do fluido cerebrospinal não são realizados rotineiramente nos laboratórios, contudo, alguns podem ser requisitados pelo médico para o diagnóstico de algumas doenças do SNC. São testes rápidos para detecção de agentes etiológicos causadores das meningites, sua sensibilidade e especificidade variam de acordo com os ensaios. Os exames imunológicos do líquor são indicados em casos de suspeitas de meningites bacterianas agudas, também para a investigação de sífilis, Criptococcus ssp., cisticercose e toxoplasmose, entre outros. O exame VDRL, do inglês venereal disease research laboratory é utilizado no diagnóstico de neurossífilis, um tipo de sífilis que infecta a medula espinal e o cérebro. Embora o resultado positivo para VDRL confirme o diagnóstico de neurossífilis, podem ocorrer resultados falso-positivos e falso-negativos em decorrência da alta sensibilidade e baixa especificidade do teste. Em caso de suspeita de cisticercose, é realizada a técnica de imunofluorescência indireta para pré-diagnóstico, caso seja confirmado será realizado o ensaio enzimático de imunoabsorbância (ELISA) para a pesquisa de anticorpos IgG contra o Cysticercus cellulosae (LEITE et al., 2016). Existem diversos testes imunológicos para o diagnóstico de microrganismo no líquor, entre eles incluem métodos contraimunoeletroforese, aglutinação de látex, VDRL, teste com anticorpos treponêmico fluorescente e radioimunoensaio. Estes métodos têm sido utilizados em unidades de emergência, mas não substituem a colorações microbiológicas e as culturas em virtude da possibilidade de resultados falso-negativos ou falso-positivos. 137 Acadêmico, vimos que a análise do líquor é indispensável no diagnóstico das meningites, sendo assim, vamos conhecer os resultados laboratoriais para diferenciação das meningites. Meningite bacteriana: elevada concentração de leucócitos com neutrófilos aumentados, elevação das proteínas, diminuição de glicose, nível de lactato superior a 35 mg/dL, bacterioscópico e testes antigênicos positivos. Meningite viral: elevada concentração de leucócitos com linfócitos elevados, proteínas moderadamente aumentadas, nível de glicose e lactato normal. Meningite tuberculosa: elevada concentração de leucócitos com linfócitos e monócitos presentes, moderada a acentuada elevação de proteínas, nível de glicose diminuído e nível de lactato superior a 25 mg/ dl e formação de película. Meningite fúngica: elevada concentração de leucócitos com linfócitos e monócitos presentes, moderada a acentuada elevação de proteínas, glicose normal a diminuída, nível de lactato superior a 25 mg/dL, positivo para Cryptococcus neofarmans com Tinta da China e testes imunológicos (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). IMPORTANTE 5 LÍQUIDO SINOVIAL O líquido sinovial é ultrafiltrado plasmático e viscoso encontrado nas cavidades das articulações móveis ou diartroses, conferindo a conexão entre uma extremidade óssea e outra, permitindo-lhe movimento, e são compostos de cartilagem que revestem as extremidades ósseas, ligamentos, líquido sinovial e cápsula articular, conforme ilustrado na Figura 3. Praticamente, todas as articulações do corpo humano são revestidas por uma membrana sinovial, que produz o líquido sinovial, contendo mucina e ácido hialurônico, a estrutura química do ácido hialurônico contribui para a viscosidade do líquido com função primordial de lubrificação, nutrição, auxiliando no suporte mecânico e na absorção de impacto da cavidade articular. 138 Figura 3 – Esquematização de articulação sinovial Fonte: Di Lorenzo e Strasinger (2008, p. 232) Os rompimentos das membranas sinoviais provocam dor e rigidez nas articulações, causando a artrite. Atualmente, o estudo do fluido sinovial é um recurso bastante útil que permite o estabelecimento de diagnóstico de artropatias associadas a cristais, ajuda no diagnóstico de artrite séptica e ajuda a estabelecer outros diagnósticos reumatológicos como monoartrite ou derrame articular, extrapolando o mero efeito descompressivo da retirada de líquido da articulação. 6 COLETA E MANIPULAÇÃO DO LÍQUIDO SINOVIAL A quantidade de líquido sinovial presente na cavidade articular varia com o tamanho da articulação e em condições patológicas pode aumentar a quantidade do fluido. Na cavidade articular do joelho adulto, o volume normal presente é inferior à 3,5 mL, mas em condições anormais pode aumentar em até 25 mL (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). O volume é coletado através de procedimento médico, por punção aspirativa chamado de artrocentese. Antes da coleta o sítio de coleta é higienizado e administrado analgésico local, uma agulha de calibre adequado é acoplada a uma seringa preferencialmente heparinizada, pois o fluido patológico pode conter fibrinogênio e coagular. A maior parte do fluido é obtida da articulação do joelho, das mais atingidas pelas artrites e, também, das mais fáceis de aspirar, como o ombro, o cotovelo e o punho. Após a coleta, o fluido é fracionado em tubos de acordo os testes a serem realizados. Para a análise microbiológica, são colocadas alíquotas em tubo estéril heparinizado, para o setor de citologia um tubo heparinizado ou com ácido etilenodiamino-tetracético (EDTA) para evitar a formação de coágulos e preservar as estruturas morfológicas das células, já os tubos destinados aos setores de bioquímico e imunológico não requerem tubos com anticoagulantes (BARCELOS; AQUINO, 2018). Em alguns casos, são obtidos pequena quantidade do fluido, neste caso é fundamental que seja obedecida à sequência de setores do laboratório, sendo o primeiro enviado ao setor de microbiologia para evitar a contaminação da amostra, posterior o setor de citologia e, por último os setores de bioquímica e imunologia. 139 Vale ressaltar que o procedimento de coleta e envio ao laboratório para testes em seringa heparinizada ou tubos contendo anticoagulante dependem do volume do fluido obtido e da padronização do laboratório. Idealmente as amostras devem ser encaminhadas ao laboratório o mais breve possível para que os testes e as análises possam acontecer em no máximo uma hora após a realização da artrocentese, ao decorrer desse tempo os prejuízos às estruturas morfológicas das células, alterações bioquímicas e os riscos de contaminação por microrganismos são significativos. Caso não seja possível realizar a análise dentro desse tempo estipulado, a amostra deve ser refrigerada em temperatura entre 2 °C e 8 °C. Por fim, a artrocentese é considerada um procedimento simples, mas podem ocorrer alguns riscos, entre eles a introdução de infecção na pele, tecido subcutâneo ou intra-articular, reações alérgicas à povidona (solução antisséptica) e anestésicos e desconforto para o paciente durante o procedimento. 7 ANÁLISE LABORATORIAL DO LÍQUIDO SINOVIAL O exame do líquido sinovial está entre os mais importantes exames para complementar a avaliação de pacientes com patologias na cavidade articular, fornecendo um diagnóstico específico e orientando o tratamento adequado. A análise laboratorial do líquido sinovial permite determinar a presença de artrite, bem como classificar os distúrbios articulares em cinco grupos, numerados de I a V, conforme mostrado na Tabela 4. Tabela 4 – Classificaçãodos grupos de artropatias Grupo Artropatias Grupo I - Não inflamatório Osteoartrite Artrite traumática Acromegalia Grupo II - Inflamatório Artrite reumatoide Lúpus eritematoso sistêmico Febre reumática Artrite psoríase Síndrome Reiter Colite ulcerativa Grupo III - Séptica/infeccioso Artrite séptica (bactérias, fungos, Micobacterium, vírus...). Grupo IV - Induzido por cristais Pseudogota (condrocalcinose) Grupo V - Hemorrágico Artrite traumática Distúrbios de coagulação (hemofilia) Hemangioma Fonte: Barcelos e Aquino (2018, p. 214) 140 Os exames laboratoriais comumente realizados do líquido sinovial são a análise macroscópica, a celularidade, contagem diferencial de leucócitos, coloração Gram, cultura em caso suspeito de infecção e exame microscópico a fresco do líquido sinovial para identificar células e cristais. No entanto, os exames exatos frequentemente dependem da suspeita diagnóstica. • ANÁLISE MACROSCÓPICA DO LÍQUIDO SINOVIAL A análise física do líquido sinovial compreende a observação do volume, cor, aspecto, viscosidade e coagulação. Volume: como dito anteriormente, o volume do líquido sinovial depende do tamanho da articulação, por exemplo, no joelho, é inferior a 3,5 ml, sendo que um volume superior é indicativo de derrame articular. Deve-se, portanto, registar o volume de líquido aspirado durante a artrocentese. Cor e aspecto: normalmente, o líquido sinovial é incolor e amarelo pálido, mas em condições patológicas pode apresentar outros aspectos estabelecendo uma relação direta com a etiologia do derrame. Líquidos amarelos e límpidos são comuns em artropatias não inflamatórias (grupo I), já os líquidos de processos inflamatórios (grupo II) apresentam uma grande quantidade de leucócitos com tonalidade acinzentados/ turvos. Quando o líquido é de origem séptica (grupo III) a amostra é purulenta e bastante turva, enquanto os líquidos sinoviais leitosos são sugestivos de cristais (grupo IV) e líquidos sanguinolentos ou xantocrômicos (grupo V) são típicos de hemorragia articular (MUNDT; SHANAHAN, 2012; BARCELOS; AQUINO, 2018). A presença de sangue no líquido sinovial, assim como no líquido cerebrospinal, deve ser realizada a diferenciação entre hemorragia articular e punção traumática pela prova de três tubos, centrifugação ou sedimentação. Viscosidade: a viscosidade do líquido é avaliada ao observar a sua consistência Além da análise da cor e aspecto do LS, pode conter diferentes inclusões, como os chamados corpos de arroz decorrentes da degradação da membrana sinovial, observados na artrite reumatoide e, também, pode ser observada partículas pigmentadas, que se assemelham à pimenta moída, que são fragmentos de próteses articulares metálicas ou plásticas (BARCELOS; AQUINO, 2018). NOTA 141 na passagem da seringa para os tubos de vidro. A viscosidade do LS é decorrente da polimerização do ácido hialurônico fundamental na lubrificação das articulações. Existem diferentes métodos para medir a viscosidade do líquido sinovial, sendo o mais comum a realização de teste fio, que observa a capacidade do LS formar um filamento a partir da abertura da seringa, normalmente formará um filamento de entre 3 e 5 cm de comprimento (MUNDT; SHANAHAN, 2012). A diminuição da viscosidade indica a presença de artropatias inflamatórias. Coagulação: normalmente, o LS não coagula, porém quando ocorre um processo patológico pode conter alta quantidade de fibrinogênio e fatores proteicos de coagulação, podendo assim formar pequenos coágulos. O teste de coágulo de mucina, também chamado de teste de Ropes é usado para avaliar a integridade do complexo ácido hialurônico-proteína (mucina). O teste reflete a polimerização do hialuronato pela precipitação do sal proteico, após a adição de ácido cético a 2%. De acordo com Barcelos e Aquino (2018), a qualidade do coágulo é avaliada depois de 2 horas da seguinte maneira: · Boa: forma um coágulo consistente e viscoso, considerado normal. · Fraco: quando forma um coágulo macio e o sobrenadante ligeiramente turvo. · Pobre: coágulo pequeno e turvo. · Muito pobre: manchas de precipitado e sobrenadante turvo. • ANÁLISES BIOQUÍMICAS Como o líquido sinovial é um ultrafiltrado plasmático, os valores das concentrações bioquímicas são semelhantes aos valores encontrados no soro. Os testes mais solicitados nas análises de LS são glicose, proteínas, ácido úrico e lactato. As determinações bioquímicas no LS têm pouca importância no diagnóstico da maioria das artropatias, pois não fornecem informações além das obtidas em outros exames realizados. Glicose: os níveis de glicose normal no LS são 10 mg/dL inferiores aos níveis séricos. A concentração deve ser sempre comparada com a glicemia preferencialmente após jejum de oito horas para permitir o equilíbrio entre os dois fluidos. Valores diminuídos são indicativos de processos inflamatórios (grupo II) com redução entre 0 e 20 mg/dL no líquido sinovial ou séptico (III) com níveis de redução superior entre 20 e 100 mg/dL no líquido sinovial (BARCELOS; AQUINO, 2018). Proteínas: os grandes moléculas de proteínas não são filtradas pela membrana sinovial que incluem fibrinogênio, beta 2 macroglobulinas e alfa 2 macroglobulinas. A concentração normal é entre 1 e 3 g/dL, valores aumentados são encontrados em processos inflamatórios como espondilite anquilosante, artrite, gota, psoríase, síndrome de Reiter, e doença de Crohn (BARCELOS; AQUINO, 2018). 142 Ácido úrico: normalmente, o ácido úrico no líquido sinovial varia de 6 a 8 mg/ dL. A dosagem de ácido úrico é essencial em casos suspeitos de gota em que a pesquisa de cristais de ácido úrico no líquido sinovial tenha sido negativa, desta forma, quando a dosagem de ácido úrico é mais elevada no líquido sinovial do que no soro é indicativo de gota. Os valores aumentados no LS podem levar a formação de cristais de urato de monossódico (UMS), resultando em processo inflamatório agudo e doloroso (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Vários cristais podem ser encontrados no líquido sinovial, sendo os mais comuns o urato monossódico (UMS) e pirofosfato de cálcio (PFC). Podem ser encontrados intracelularmente (dentro dos neutrófilos) ou livres no líquido articular. Os cristais de urato de monossódico são encontrados em caso de artrite de gota, já os pirofosfatos de cálcio são encontrados principalmente dentro de leucócitos e macrófagos na pseudogota. A gota é causada pela hiperuricemia entre as causas observadas nos pacientes com gota, está à ingestão dietética de purinas, álcool e frutose, além de tratamento quimioterápico de leucemias e diminuição na excreção renal de ácido úrico (PINHEIRO, 2008). A pseudogota está associada à artrite degenerativa, resultando na calcificação da cartilagem e distúrbios, causando o aumento dos níveis séricos de cálcio. Para a realização de pesquisa de cristais no líquido sinovial é colocada uma gota do líquido a fresco sobre uma lâmina e coberta com uma lamínula, em primeiro momento a lâmina pode ser examinada em pequeno e grande aumento no microscópio óptico regular. Além do exame de preparação a fresco, também pode ser usada à luz polarizada e luz polarizada compensada para identificação dos cristais. Os cristais UMS normalmente são vistos em formato pontiagudos, enquanto os cristais PFC são vistos em formato rômbico ou quadrado. Lactato: a medição do lactato no líquido sinovial pode ser útil no diagnóstico de artrite séptica. O nível normal no LS é inferior a 25 mg/dL, enquanto na artrite séptica pode ser superior a 1.000 mg/dL. • CONTAGEM CELULAR A contagem global de células do líquido sinovial, assim como no líquido cerebrospinal, é realizada manualmente no hemocitômetro de Neubauer ou Fuchs- Rosenthal. Quando houver um elevado número de células no líquido poderá ser utilizada a diluição utilizando uma solução salina. No caso do grande número de glóbulos vermelhos, poderá ser usada uma solução salina hipotônica ou um ácido fraco. A contagem diferencialde leucócitos deve ser realizada preferencialmente em citocentrifugação. Tanto a contagem global como a diferencial são de grande importância na análise do líquido sinovial para a distinção entre um líquido séptico, 143 inflamatório e não inflamatório. A contagem de leucócitos inferior a 150 células/µL é considerada normal, sendo sua distribuição média em torno de 10% neutrófilos, 25% de linfócitos, 50 de monócitos, 10% de macrófagos e 5% de células de revestimento sinovial (BARCELOS; AQUINO, 2018). Alguns pesquisadores consideram a contagem normalmente até 200 células/µL. Em casos de infecções graves a contagem global pode chegar a 100.000 células/ µL. No início de uma artrite séptica, o número de leucócitos pode se apresentar normal ou discretamente aumentado, podendo ser relacionado a uma artropatia inflamatória não infecciosa, com isso a infiltração de leucócitos é relacionada não apenas a etiologia do processo, mas também ao tempo de exposição ao agente. De acordo com a classificação do líquido sinovial, valores de leucócitos entre 200 e 3.000 mm3 com aumento de monócitos e linfócitos são indicativos de patologias não inflamatórias (grupo I); contagem de leucócitos entre 3.000 a 7.500 mm3 com valores elevados de neutrófilos são indicativos de artropatias inflamatórias (grupo II); entre 50.000 e 200.000 com neutrófilos acima de 90% são encontrados nas artrites sépticas (grupo III) e; no grupo IV (induzidas por cristais) pode variar entre 500 a 200.000 mm3 (BARCELOS; AQUINO, 2018). Vale destacar que tanto a quantidade como a relação diferencial de leucócitos não são específicos a um determinado grupo de classificação de artropatias, ou seja, pode apresentar relação com um ou mais grupos. Durante a interpretação devem ser levados em consideração alguns aspectos, como a característica do agente etiológico, tempo de exposição ao agente, tempo de mobilização celular e característica de integridade do paciente para estabelecer a correta identificação e tratamento adequado da patologia articular. • ANÁLISE MICROBIOLÓGICA Assim como no líquido cerebrospinal, a análise microbiológica ajuda a diagnosticar várias patologias provocadas por agentes infecciosos como bactérias, Mycobacterium, vírus e fungos, sendo as bactérias mais comuns. Esses microrganismos penetram na cavidade articular através da corrente sanguínea, decorrente de infecções como pneumonia, meningite e septicemia, além disso, podem ser introduzidos durante a artrocospia e cirurgias articulares prostéticas. A identificação de microrganismo no líquido sinovial é realizada pela coloração por Gram e Ziehl-Neelse e cultura em meios enriquecidos como ágar sangue e ágar chocolate. Os microrganismos mais comuns no LS são Staphylococcus e Streptococcus. Em sepse articular 50% dos casos são positivos em colorações por Gram. 144 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • O líquido cerebrospinal é um ultrafiltrado plasmático produzido em maior quantidade pelos plexos coroides, que circula o cérebro e a medula espinhal através do espaço subaracnóideo, ventrículos cerebrais e o canal central da medula com função de proteção mecânica do sistema nervoso central, defesa contra agentes infecciosos do SNC e fornecimento de nutrientes ao cérebro. O volume de líquor normalmente é de 90 a 150 mL em adultos. • A coleta para análise laboratorial geralmente é realizada por punção lombar, são coletados entre 10 e 20 mL em três tubos numerados na ordem em que são obtidos. Os testes realizados no líquor incluem avaliação física, testes bioquímicos e imunológicos, celulariadade e contagem diferencial de leucócitos e culturas biológicas. Com a análise do líquor são obtidas informações relevantes para o diagnóstico de diversas doenças que afetam o SNC como meningites e hemorragias. • Já o líquido sinovial, também é um ultrafiltrado plasmático viscoso encontrado nas cavidades das articulações móveis. A membrana sinovial produz o líquido sinovial contendo ácido hialurônico, que contribui para a viscosidade do líquido com função de lubrificação, nutrição e suporte mecânico. A quantidade presente na cavidade articular varia com o tamanho da articulação, em condições patológicas pode aumentar a quantidade do fluido. O volume é coletado por punção aspirativa chamado de artrocentese. O fluido coletado é fracionado em tubos e encaminhado ao laboratório para realização de testes como contagem de células e contagem diferencial de leucócitos e pesquisa de cristais. • A análise laboratorial do líquido sinovial permite determinar a presença de artrite, bem como classificar os distúrbios articulares, que incluem processos não inflamatórios, inflamatórios, infecciosos/sépticos, induzidos por cristais e hemorrágicos. O fluido sinovial normalmente apresenta uma contagem diferencial de células inferior a 150 células por microlitro. LS com contagem de leucócitos inferior 3.000 leucócitos/mm3 são encontrados em desordens primariamente não inflamatórias como osteoartrite e trauma. LS inflamatórios, em geral, apresentam entre 3.000 e 7.500 leucócitos/ mm3, enquanto valores entre 50.000 e 200.000 com neutrófilos acima de 90% são encontrados nas artrites sépticas. 145 AUTOATIVIDADE 1 A produção do fluido cerebrospinal ocorre, principalmente, no plexo coroide. O volume produzido, normalmente, é entre 90 e 150 mL em adultos, composto majoritário por água, normalmente é límpido e incolor. Diante de uma anormalidade, por sua vez, pode apresentar-se turvo, purulento ou tingido com pigmentos. A respeito das análises laboratoriais do líquor, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Análise citológica compreende apenas a contagem global de hemácias e leucócitos. b) ( ) Análise bioquímica e microbiológica são eventualmente realizadas e correspondem, respectivamente, às dosagens de proteínas e glicose e identificação de agentes infecciosos. c) ( ) Amostras hemorrágicas são decorrentes de hemorragias ou acidente de punção. d) ( ) Em condições patológicas o líquor pode apresentar límpido e incolor. 2 A coleta dos líquidos cerebrospinal e sinovial são realizados inserindo uma agulha específica em suas cavidades e aspirando o líquido com uma seringa. Depois da coleta podem ser realizados diversos exames, incluindo avaliação macroscópica, testes bioquímicos, contagem global e diferencial de células e exames para doenças infecciosas ajudando no diagnóstico e tratamento do paciente. Com base nessas informações, analise as sentenças a seguir: I- As culturas do líquido sinovial são geralmente plaqueadas em meios enriquecidos com ágar sangue e ágar chocolate. II- Na análise bioquímica do fluido cerebrospinal os níveis de glicose são importantes para diferenciar a meningite bacteriana e viral. III- Os cristais de urato monossódico são associados à pseudogota, enquanto os cristais de pirofosfato de cálcio estar associado à gota. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 A análise laboratorial do líquido sinovial permite determinar a presença de artrite, bem como classificar os distúrbios articulares em não inflamatórios, inflamatórios, infecciosos/sépticos, induzidos por cristais e hemorrágicos. Determinada amostra de LS apresenta alterações como baixa viscosidade, níveis de glicose reduzidos e valores de leucócitos superior a 200.000 mm3 com neutrófilos acima de 90%. Com base nos resultados obtidos dessa amostra, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 146 ( ) Processo induzido por cristais. ( ) Processo não inflamatório. ( ) Processo infeccioso ou séptico. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – F. b) ( ) F – V – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Uma mulher de 45 anos de idade procura a emergência do hospital com dor e inchaçono joelho esquerdo. O médico realiza a artrocentese e 20 mL de líquido sinovial leitoso é coletado. São solicitados bacterioscópico, cultura, pesquisa de cristal e dosagem de ácido úrico. Com base nas informações fornecidas, descreva os tubos que o líquido seria rotineiramente colocado, se o nível de uricemia do paciente será elevado e quais os tipos de cristais e distúrbios são prováveis. 5 Criança com 8 anos de idade é levada à emergência do hospital, a mãe relata que a criança iniciou febre a 15 dias de 39 ºC, apresentava ainda cefaleia, perda de apetite e náuseas. O médico solicitou punção lombar e 10 mL de líquor turvo foi coletado. Foram solicitados a bacterioscopia e cultura, dosagens de proteínas totais, cloreto, glicose e contagem de células. Descreva como o líquido seria rotineiramente coletado e qual os achados para um diagnóstico de meningite bacteriana. 147 TÓPICO 3 - LÍQUIDO SEMINAL E LÍQUIDO AMNIÓTICO 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, no Tópico 3, abordaremos o líquido seminal e o líquido amniótico. Serão abordadas a formação, a composição e a fisiologia desses líquidos, os procedimentos de coleta, bem como a análise laboratorial e suas correlações clínicas. A análise do líquido seminal é o primeiro teste a ser solicitado para avaliar a saúde da próstata e qualidade dos espermatozoides e auxiliar na investigação da infertilidade masculina. A infertilidade é um problema de saúde mundial que afeta em torno de 48 milhões de casais e 186 milhões de pessoas ao redor do mundo, e, no Brasil, cerca de 8 milhões de indivíduos podem ser inférteis. O aparelho reprodutor masculino é formado basicamente pelas estruturas externas e internas. O pênis e o saco escrotal são estruturas externa do aparelho reprodutivo masculino, enquanto os testículos, epidídimos, canal deferente, glândulas seminais, glândulas bulbouretrais, ducto ejaculatório, uretra e próstata são as estruturas internas. Os testículos são duas glândulas ovais localizadas no saco escrotal, formados pelos túbulos seminíferos, onde ocorre a produção espermatozoides pelo de processo espermatogênese e a produção de hormônios, como a testosterona (LAGE, 2013). Após a conclusão da espermatogênese, os espermatozoides migram e ficam armazenados no epidídimo onde completam sua maturação e desenvolvem o flagelo. No momento da ejaculação são impulsionados pelos ductos deferentes para o interior dos ductos ejaculatórios, estes recebem os espermatozoides, bem como as secreções das glândulas seminais, próstata e das glândulas bulbouretrais e formam a mistura conhecida como sêmen ou esperma, assim, durante a ejaculação, o sêmen é expelido do corpo (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). Os espermatozoides representam apenas 1% do volume total do esperma; o líquido seminal levemente alcalino composto de ácido cítrico, flavinas, potássio e elevadas concentração de frutose constitui de 45 a 85% do sêmen (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2008). O fluido prostático composto de fosfatase ácida, ácido cítrico, zinco e enzimas contribuem, em torno de 23%, sendo responsável pela coagulação e liquefação do sêmen. Já as glândulas bulbouretrais contribuem com 1% do volume do sêmen ajudando a neutralizar a acidez da próstata e da vagina. Conforme dito anteriormente, os espermatozoides são formados nos testículos especificamente nos túbulos seminíferos, a partir de um processo chamado UNIDADE 3 148 espermatogênese. A espermatogênese se inicia ainda na fase embrionária do homem. Esse processo é dividido em fase espermacitogênese, fase meiótica e espermiogênese, o processo completo leva aproximadamente 74 dias (BARCELOS; AQUINO, 2018). A partir das células germinativas primordiais são formadas as espermatogônias após sucessivas mitoses. Por volta dos 13 anos, elas se multiplicam, e algumas se diferenciam em espermatócitos primários. Estes se dividem por meiose, resultam em espermatócitos secundários, que se dividem novamente e se tornam espermátides. Estas perdem parte do citoplasma e desenvolvem, a partir do centríolo, um flagelo. Assim, por processo denominado espermiogênese, se diferenciam em espermatozoides. A espermatogênese é um processo altamente regulado por hormônios como hormônio de crescimento (HGH), testosterona, hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo estimulante (FSH). Os espermatozoides são formados por três partes básicas: cabeça, peça intermediária e cauda. A cabeça possui a estrutura em formato oval a qual contém o núcleo e em sua extremidade contém o acrossoma, estrutura em formato de capuz que contém enzimas auxiliando na penetração do ovócito no momento da fecundação. Na peça intermediária são encontradas mitocôndrias responsáveis pela produção de energia necessária para a motilidade da cauda com movimentos espiralados e rotacionais (DI LORENZO; STRASINGER, 2008). Cabe destacar que, durante a formação dos espermatozoides pode apresentar alguma anormalidade morfológica, por exemplo, com mais de uma cabeça, com tamanhos fora da média ou ainda com diferentes números de caudas. Quanto maior a quantidade de espermatozoides com morfologia anormal, maior será a possibilidade de infertilidade masculina. De forma geral, o exame realiza análises em duas esferas distintas, sendo a primeira delas a análise macroscópica e a segunda a análise microscópica. Na análise macroscópica são analisadas as condições físicas do material como aspecto, cor, liquefação, odor, volume e pH e na análise microscópica são verificados a agregação e aglutinação dos espermatozoides, a concentração, motilidade, vitalidade, estruturas morfológicas e contagem de células. 2 COLETA E MANIPULAÇÃO DO SÊMEN O exame que analisa o sêmen é denominado de espermograma, solicitado por médicos urologistas e especialistas em reprodução humana, imprescindível na avaliação da fertilidade masculina, assim como, avaliar parâmetros quantitativos e qualitativos que ajudam no diagnóstico de infertilidade masculina onde existem vários fatores de risco, aos quais devem ser identificados, controlados ou tratados, incluem uso de drogas entorpecentes, alcoolismo, tabagismo, medicamentos, doenças infecciosas, distúrbios hormonais, varicocele, criptorquidia, entre outros. 149 Para realizar a análise do sêmen, os procedimentos de coleta devem ser bem esclarecidos ao paciente, a fim de manter o controle de qualidade laboratorial. Os procedimentos de coleta e manipulação devem ser realizados seguindo as instruções da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2010) os quais são descritos a seguir: • as amostras devem ser obtidas por masturbação, assegurando a coleta total do ejaculado; • a coleta deve ser precedida de abstinência sexual de dois a no máximo sete dias; a fim de obter uma amostra que reflita de forma precisa a contagem e viabilidade espermática; • a amostra deve ser obtida num recinto silencioso e confortável disponibilizado no laboratório para amenizar os efeitos inibitórios do paciente; • a coleta domiciliar só deve ser permitida em caso de impedimento físico ou emocional, a coleta deve ser encaminhada ao laboratório o mais breve possível após a coleta, pois o material sofre coagulação devido à ação de uma enzima coagulante formada na próstata. • antes da coleta o paciente deve lavar bem as mãos e o pênis com água e sabão enxugar com toalha descartável; • a amostra deve ser coletada em frasco estéril aquecido ou recipiente plástico não espermicida fornecido pelo laboratório; • a amostra deve ser encaminhada ao laboratório em até 30 minutos, pois a liquefação ocorre entre 30 e 60 minutos. caso seja necessário aguardar a análise devem ser mantidas a temperatura de 20 a 37 ˚C. Após a coleta, a recepção deve etiquetar a amostra e registrar o nome do paciente, período abstinência sexual data e hora da coleta e de recepção da amostra, além do uso de medicamentos e se houve perda de material durante a coleta. A perda do material principalmente durante o 1˚ jato, que contém a maior concentraçãode espermatozoides pode influenciar na contagem total de espermatozoides. Todas as amostras do sêmen devem ser manuseadas com precauções de segurança, desde a recepção até as análises laboratoriais, pois pode conter microrganismos patogênicos como qualquer líquido (ROCHA, 2014). ATENÇÃO 150 3 ANÁLISE MACROSCÓPICA Neste momento da análise é observado o volume de líquido seminal; o pH, que mede a acidez do material coletado; a cor e o aspecto; a viscosidade; e o tempo de liquefação, que se refere ao tempo que o sêmen demora para sair do estado viscoso para o líquido. Os achados macroscópicos em conjunto com os achados microscópicos auxiliam no diagnóstico e tratamento da infertilidade. Volume: o valor de referência varia de 1,5 a 5 mL em caso de ejaculação total. Assim, caso o valor identificado pelo exame seja inferior à medida, o diagnóstico é de hipospermia. Isso indica que o homem apresenta baixa quantidade de sêmen por ejaculação podendo estar relacionado à obstrução dos ductos ejaculatórios, ausência congênita das vesículas seminais, hipogonodismo e perda de material (ROCHA, 2014). Pode ocorrer também a azoospermia, que é a ausência de espermatozoides observada em caso de vasectomia. Existem tratamentos para ambos os casos. Valores aumentados chamado de hiperesperma podem ser identificados em período de abstinência sexual prolongado. Para medir o volume pode ser utilizado pipeta estéril graduada ou um copo cilindro e graduado em incrementos de 0,1 mL. Deve ser evitado o uso de seringas plásticas, pois podem interferir na motilidade dos espermatozoides. Liquefação: quando a amostra chega ao laboratório é observada o tempo de liquefação. O sêmen normal costuma coagular e liquefazer entre 30 e 60 minutos após a colheita tempo de liquefação superior a 60 minutos é considerado anormal. As amostras em que não ocorre a liquefação devem ser submetidas ao processo mecânico de liquefação que consiste na passagem uso de bromelina com concentração 1 g por litro ou solução alfa-amilase, a fim de solubilizar o muco para permitir contagens precisa de espermatozoides (ROCHA, 2014). Quando a amostra demora chegar ao laboratório pode já ter acontecido a liquefação, impedindo a observação da ocorrência da coagulação. Amostra em que é observada a azoospermia e que não coagula pode ser indicativo de ausência congênita bilateral dos dutos deferentes e vesículas seminais (MUNDT; SHANAHAN, 2012). Aspecto, cor e odor: dentro dos padrões de normalidade é opaco e cinza opalescente, branco e homogêneo. Coloração amarelada ou avermelhada pode ser um forte indicativo de infecções no trato reprodutivo masculino e até de doenças mais graves, como o câncer de próstata. Logo após a coleta o sêmen tem cheiro característico próprio, que pode ser comparado à água sanitária, este odor se deve a substâncias produzidas pela próstata podendo ser ausente em caso de atrofia da próstata e prostatites. Viscosidade: consistência da amostra é considerada normal quando é levemente viscoso e gotas são formadas. Quando forma filamentos de mais de dois centímetros é considerado anormal (RODRIGUES, 2018). A viscosidade pode ser observada durante a mensuração do volume ou pipetagem para outros testes. Viscosidade aumentada podee metabólitos de alguns medicamentos podem interferir na reação, assim como o armazenamento inadequado e prolongado de amostras de urina podem favorecer a glicólise bacteriana e causar resultados falso-negativos (BRUNZEL, 2018). Alternativamente, a glicose pode ser dosada na urina com o reativo de Benedict. Além disso, nos exames de urina de crianças com menos de um ano de idade, pode ser relevante a detecção de outros açúcares, como a galactose e a frutose, isso se faz através de métodos menos específicos, baseados na propriedade de redução de sais de cobre (SBPC, 2017). 3.4 CETONAS Quando as necessidades energéticas de um indivíduo são superiores à quantidade de carboidratos disponíveis, ocorre o catabolismo dos ácidos graxos como fonte alternativa de energia. Porém, sua metabolização é incompleta e gera corpos cetônicos, como ácido acético, acetona e ácido beta-hidroxibutírico. Quando a concentração de cetonas no sangue excede 70 mg/dL, limiar renal, elas são excretadas na urina. Essa condição é denominada cetonúria (SBPC, 2017). Qualquer condição que cause o aumento do metabolismo de gorduras pode resultar em cetonúria, como no jejum prolongado, em dietas para redução de peso, em estados febris, após exercícios físicos ou vômitos intensos, no frio intenso, e principalmente no diabete melito não controlado, sendo a detecção de cetonas na urina uma valiosa ferramenta de monitoramento para estes pacientes (BRUNZEL, 2018). Em bebês e crianças, é comum haver cetonúria em diversas condições, como doenças febris agudas e estados de intoxicação acompanhados de vômito e diarreia, porém, se o quadro for severo e persistente, possíveis doenças metabólicas hereditárias devem ser investigadas 62 (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Os corpos cetônicos podem ser pesquisados na urina por meio de testes baseados na reação do nitroprussiato com nitroprussiato de sódio (nitroferricianeto), onde o acetoacetato reage com o nitroprussiato para produzir uma mudança de cor de bege para roxo, princípio aplicado tanto em tubos ou em fitas reagentes. Essa reação não detecta o ácido beta-hidroxibutírico e esta área da fita reagente, em particular, é extremamente sensível à umidade ambiente, tornando-se não reativa se exposta ao ar ambiente por algumas horas (SBPC, 2017). Além disso, as cetonas volatilizam muito rápido à temperatura ambiente, o que pode levar a resultados falso-negativos. 3.5 BILIRRUBINA E UROBILINOGÊNIO A bilirrubina é um pigmento amarelo-alaranjado, produto de degradação da hemoglobina, originada no processo de morte e renovação das hemácias. A bilirrubina não conjugada ou indireta é transportada no sangue associada à albumina, sendo insolúvel em água e incapaz de atravessar a barreira glomerular dos rins. No fígado, a bilirrubina indireta é conjugada ao ácido glicurônico, formando a bilirrubina direta ou conjugada, que é hidrossolúvel e capaz de transpor o glomérulo renal e ser eliminada na urina. Porém, em condições normais a bilirrubina conjugada é excretada pelas vias biliares, chegando ao intestino. A urina de um indivíduo adulto normalmente tem apenas 0,02 mg de bilirrubina/dL, concentração que não é detectada pelos testes laboratoriais mais comuns (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Seu aparecimento em maiores quantidades na urina, em geral, indica sua presença em excesso na circulação sanguínea. Isso ocorre em casos de obstrução do fluxo biliar proveniente do fígado ou de doença hepatocelular, que resulta na incapacidade dos hepatócitos de excretar toda a bilirrubina conjugada na bile. Estes quadros são vistos na presença de cálculos biliares no ducto biliar, carcinoma do pâncreas, hepatite viral e alcoólica aguda. O aumento da bilirrubina plasmática e seu aparecimento na urina são indicadores precoces de doença hepática, pois a presença destes, é detectável muito antes do desenvolvimento da icterícia (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Na bilirrubinúria, a cor da urina varia de castanho-amarelada a castanho- esverdeada e pode apresentar uma espuma amarela. A visualização dessas características na amostra de urina levanta a suspeita da presença de bilirrubina. A bilirrubina é instável e fotossensível, isso significa que o armazenamento inadequado da amostra e sua exposição à luz artificial ou solar podem degradá-la e causar testes de bilirrubina falso- negativos (BRUNZEL, 2018). No intestino, a bilirrubina direta é reduzida por bactérias intestinais, dando origem ao urobilinogênio, que é incolor. Em seguida, parte deste é reduzido à estercobilinogênio e a maior parte é reabsorvido através da circulação portal hepática e excretado nas fezes como urobilina ou estercobilina. Apenas 2% a 5% do urobilinogênio permanece na corrente 63 sanguínea e ao ser filtrado nos rins é excretado na urina. A oxidação do urobilinogênio em urobilina confere a coloração amarelo alaranjada à urina normal (BRUNZEL, 2018). Quando o fígado é incapaz de remover eficientemente o urobilinogênio reabsorvido a partir da circulação porta, seu excesso é desviado para os rins e excretado pela urina. Tal situação pode ocorrer em caso de lesão hepatocelular devido à hepatite viral, fármacos, substâncias tóxicas, ou ainda em casos de cirrose. Um resultado positivo de teste para detecção de bilirrubina urinária acompanhado de um resultado negativo de teste para detecção de urobilinogênio na urina indicam a existência de uma obstrução biliar intra ou extra-hepática (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Já a positividade para urobilinogênio na urina concomitante à ausência de bilirrubina na mesma amostra, é associado às doenças hemolíticas, quando há um aumento na produção da bilirrubina indireta. Neste caso, o fígado saudável produz grande quantidade de bilirrubina direta, que é lançada no intestino, e convertida em urobilinogênio. Há um aumento da reabsorção intestinal de urobilinogênio, elevando o nível sanguíneo e aumentando sua excreção renal. Não ocorre excreção de bilirrubina pela urina, uma vez que a fração que está aumentada é a indireta (RIELLA et al., 2018). Em outras situações, a ausência persistente de urobilinogênio urinário pode ocorrer devido à completa obstrução do fluxo biliar no intestino e é acompanhada da produção de fezes pálidas. Os antibióticos de amplo espectro, que extinguem a microbiota intestinal, podem inibir a transformação da bilirrubina em urobilinogênio e consequentemente reduzir sua excreção pelas fezes e urina (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). A análise de urobilinogênio urinário costuma ser qualitativa, através da tira reagente impregnada com o reagente de Ehrlich (p-dimetilaminobenzaldeído), o qual reage com o urobilinogênio presente na amostra para formar um cromóforo rosa escuro/ vermelho (BRUNZEL, 2018). 3.6 SANGUE A presença de um número aumentado de hemácias íntegras na urina é denominada hematúria, enquanto a presença de hemoglobina na urina é denominada hemoglobinúria. Sendo a primeira muito mais comum do que a segunda. Em diversas doenças do trato urinário ocorre liberação de hemácias na urina, como nefropatias, glomerulonefrite, neoplasias, traumas e distúrbios de sangramento. Uma vez que pequenas quantidades de hematúria podem ter significado clínico e estas hemácias tendem a sofrer lise no meio aquoso da urina, o teste para detecção de hemoglobina se torna um importante complemento do exame microscópico. Quando temos a detecção de hemoglobina na urina e não vemos hemácias no exame do sedimento urinário, pode ser que tenha ocorrido a lise dessas células e requer a análise de uma amostra de urina recém-emitida (STRASINGER; LORENZO, 2009). 64 As causas de hemólise são também potenciais causas de hemoglobinúria. No entanto, a presença de hemoglobinúria indica a ocorrência de um processo intravascular de hemólise mais intenso. A hemoglobinúria pode acontecer após prática vigorosa de exercícios, em que há trauma direto a pequenos vasos sanguíneos. Nos casos em que há destruição aguda defibras musculares, a mioglobina é liberada, rapidamente eliminada do sangue e excretada pela urina sob a forma de pigmento castanho-avermelhado. No exame de urina, pode ser difícil diferenciar entre hematúria, hemoglobinúria e mioglobinúria, já que em todos os casos, a urina pode aparecer escura e conter eritrócitos (STRASINGER; LORENZO, 2009). O teste com tira reativa para detecção de sangue também é positivo em todas essas condições, pois é baseado no peróxido orgânico da hemoglobina que reage com o cromógeno tetrametilbenzidina, e detectam grupos heme, liberando oxigênio a partir do peróxido, pela ação da peroxidase sobre a hemoglobina livre, os eritrócitos lisados ou a mioglobina (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). A detecção de sangue pelas tiras reagentes é suscetível à interferência do ácido ascórbico. Quando vemos hemácias no exame microscópico do sedimento urinário, mas o exame químico tem resultado negativo para sangue, suspeitamos da presença do ácido ascórbico ou vitamina C, que reage diretamente com o peróxido da tira e inibe a oxidação do cromogênio com a amostra (BRUNZEL, 2018). 3.7 LEUCÓCITOS Os leucócitos granulócitos contêm enzimas que catalisam a hidrólise dos ésteres, denominadas esterases. Estas enzimas são liberadas quando ocorre degeneração celular. O teste com tiras reativas identifica a presença de leucócitos na urina através da detecção das esterases. Outras células presentes na urina também podem conter essas esterases, assim, a análise da amostra no microscópico continua necessária para confirmar a presença dos leucócitos. Os leucócitos que não possuem granulócitos, como os linfócitos por exemplo, não produzem esterase, e não são detectados nas tiras reativas (SBPC, 2017). Os resultados falso-positivos para esterase leucocitária ocorrem na amostra de urina contaminada com secreção vaginal, ou ainda na urina que contém metabólitos pigmentados de alimentos ou medicamentos (BRUNZEL, 2018). A positividade dos leucócitos na urina indica provável inflamação, a qual pode ocorrer em qualquer parte do sistema urinário, relacionada ou não à infecção por microrganismos. No entanto, mais frequentemente, a leucocitúria é associada a infecções bacterianas envolvendo os rins (pielonefrite) ou o trato urinário inferior (cistite ou uretrite) (STRASINGER; LORENZO, 2009). 65 3.8 NITRITO A detecção do nitrito nas amostras de urina constituí um teste indireto para identificação de infecção urinária, pois principalmente as bactérias gram-negativas produzem a enzima nitrato redutase e, em razão disso, são capazes de reduzir nitrato em nitrito, identificável na urina quando presente em concentrações elevadas. As principais bactérias que produzem esse feito são: Escherichia coli, e espécies dos gêneros Klebsiella, Enterobacter, Proteus, Staphylococcus e Pseudomonas. Sendo assim, a principal conduta após o teste de nitrito positivo é a realização da cultura microbiológica da urina, exceto quando a amostra foi coletada ou armazenada de forma indevida, permitindo o crescimento de bactérias contaminantes (STRASINGER; LORENZO, 2009). Resultados falsamente negativos podem ocorrer em amostras coletadas ao acaso durante o dia ou via cateteres, devido ao tempo necessário, cerca de quatro horas, para que ocorra a redução química a nitrito na urina presente na bexiga (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Apesar de muito útil na triagem para identificação de infecção do trato urinário, é importante lembrar que o teste de nitrito negativo não significa ausência de infecção urinária já que alguns microrganismos não possuem a capacidade de converter nitrato em nitrito, como é o caso de Streptococcus faecalis, Neisseria gonorrhoeae e Mycobacterium tuberculosis (RIELLA et al., 2018). Falsos-positivos para nitrito podem ocorrer por substâncias que colorem a urina de vermelho ou rosa em meio ácido, interferindo na interpretação visual do teste. Por outro lado, altas concentrações de ácido ascórbico na urina podem causar resultados falso-negativos de nitrito, por formar um produto final incolor que impede que a reação acontece mesmo na presença de nitrito (BRUNZEL, 2018). 66 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • O processamento da amostra e o princípio do método para análise química da urina, através de tiras reativas, que permitem a detecção simultânea de parâmetros importantes, como pH, proteínas, glicose, corpos cetônicos, sangue, urobilinogênio, bilirrubina, leucócitos e nitritos. • O papel dos testes químicos da urina na triagem para identificação de infecção do trato urinário, além de doenças renais e metabólicas. • A correlação entre as disfunções renais e as alterações nas proteínas urinárias. • A correlação entre as infecções urinárias e a presença de nitrito e leucócitos na amostra de urina. • A correlação entre alterações no metabolismo de carboidratos e a presença de glicose e corpos cetônicos na urina. • A garantia da qualidade da amostra analisada e das tiras reativas utilizadas, seguindo as boas práticas laboratoriais, bem como as condições de armazenamento e manipulação orientadas pelo fabricante do teste, para avaliar todos esses parâmetros com confiança e precisão. 67 AUTOATIVIDADE 1 A urinálise é um procedimento laboratorial rápido, confiável e que nos fornece uma gama de informações a respeito da condição geral de saúde. Sobre a etapa de análise química da urina, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O princípio da tira reagente para o teste de pH é a utilização de dois indicadores ácido-base colorimétricos em conjunto. b) ( ) Um teste de corpos cetônicos positivo indica que o paciente tem feito uma dieta rica em carboidratos. c) ( ) As tiras reativas permitem detectar qualquer tipo de proteína presente na amostra de urina, porém não as identifica de forma diferencial. d) ( ) Amostras de urina com coloração castanho-amarelada podem ser positivas para bilirrubina indireta. 2 A análise da urina foi a precursora das análises clínicas laboratoriais e desde então mais testes e tecnologia foram incorporados na urinálise, permitindo que esta análise relativamente simples forneça uma variedade de informações a respeito do estado de saúde geral do paciente. Com base na interpretação clínica dos testes químicos da urina, analise as sentenças a seguir: I- O teste de nitratos negativo indica que não há infecção do trato urinário por bactérias. II- A presença de urobilinogênio na urina pode indicar doença hemolítica ou lesão hepática. III- Linfócitos podem estar presentes urina sem causar reação positiva para leucócitos na tira reagente. IV- O diagnóstico de lesão renal avançada é concluído com a detecção de proteinúria. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença I está correta. b) ( ) As sentenças I e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Grande parte dos resultados do exame de urina pode ser obtido por meio das tiras reativas, que analisam diversos parâmetros bioquímicos de forma rápida e de baixo custo. De acordo com as boas práticas para a utilização e controle de qualidade das tiras reagentes, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 68 ( ) Pigmentos alimentares não alteram a coloração das tiras reativas, pois as reações são específicas para componentes endógenos. ( ) O controle de qualidade das tiras reagentes deve ser realizado diariamente com amostras sabidamente positivas e negativas. ( ) O contato prolongado da tira reagente com a amostra de urina pode ocasionar resultados falsamente positivos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 4 O exame microscópico de um sedimento urinário revelou uma média de três a cinco leucócitos por campo avaliado. Entretanto, na tira reativa para detecção dessas células, através da esteraseleucocitária, o teste foi negativo. Nesse contexto, qual hipótese poderia explicar essa discrepância entre os resultados das duas metodologias? 5 Algumas tiras reagentes incluem a determinação da pesquisa de ácido ascórbico (Vitamina C) na urina, com a finalidade de validar o resultado dos demais testes. Isso foi necessário já que o ácido ascórbico quando presente em amostras biológicas, pode interferir nos ensaios laboratoriais modificando o diagnóstico clínico-laboratorial. Explique como o ácido ascórbico reage inespecificamente com os reagentes da tira reativa e cite quais parâmetros da análise química da urina podem ser alterados pela sua presença na amostra. 69 SEDIMENTOS URINÁRIOS 1 INTRODUÇÃO O exame do sedimento urinário é uma etapa muito importante da urinálise, principalmente quando a amostra apresenta alterações nas análises físicas e químicas. A partir da análise microscópica do sedimento da urina, ou sedimentoscopia, muitas informações são obtidas pelo profissional responsável pelo diagnóstico, pois uma variedade de elementos pode ser encontrada no sedimento urinário (NASCIMENTO et al., 2018). Estes elementos podem se originar no próprio trato urinário ou resultarem de contaminação por diferentes fontes. Podemos encontrar componentes celulares, precipitados químicos, como os cristais, e inúmeros microrganismos. Por vezes, esses achados são fisiológicos, no entanto de acordo com a sua quantidade, persistência e correlação com sinais clínicos, podem indicar presença de doenças. Por meio da microscopia podemos detectar elementos celulares e acelulares na urina que não produzem reações bioquímicas e, portanto, não são identificados na análise química que discutimos anteriormente. A microscopia também pode servir de teste confirmatório para eritrócitos, leucócitos e bactérias, por exemplo. Uma vez que a quantificação dos elementos encontrados é relevante, o protocolo de preparo do sedimento e a leitura padronizada são aspectos que precisamos tomar cuidado. Além dos fatores inerentes à amostra, como o tipo de coleta da urina e seu armazenamento. A partir de agora, estudaremos em detalhes a variedade de elementos que possivelmente encontramos no sedimento urinário, bem como sua origem e significado clínico. 2 PROCESSAMENTO DA AMOSTRA PARA SEDIMENTOSCOPIA O sedimento urinário centrifugado contém todos os elementos insolúveis acumulados na urina após a filtração glomerular e durante a passagem de líquidos pelos túbulos renais e pelo trato urinário inferior (RIELLA et al., 2018). Entretanto, também é importante lembrar que os artefatos e contaminações podem ocorrer nas diferentes fases do procedimento, por isso o profissional analista clínico precisa estar preparado e treinado para identificá-los. UNIDADE 2 TÓPICO 2 - 70 O resultado da sedimentoscopia deve ser reportado qualitativamente, de acordo com os tipos de células, cilindros, cristais e microrganismo encontrados, e quantitativamente, em relação ao número de elementos visualizados por campo (SBPC, 2017). Essa análise pode ser feita por microscopia ou por metodologias automatizadas, em laboratórios com grandes rotinas, empregando citometria de fluxo e na análise de imagens. 2.1 ANÁLISE QUANTITATIVA Neste caso, os resultados são expressos por mL de urina, e para obtê-los deve- se homogeneizar a amostra de urina e transferir para um tubo cônico um volume de 10 mL, realizar a análise da tira reativa, centrifugar entre 1000 a 1500 rotações por minuto (rpm), por 10 minutos, retirar 9,5 mL do sobrenadante, deixando apenas 0,50 mL no tubo. Este sedimento é ressuspendido e transfere-se um volume padronizado para uma lâmina convencional ou lâminas específicas, como a câmara de Neubauer (Figura 2) e K-cell (Figura 3). Os resultados são expressos de acordo com o volume e os procedimentos utilizados (SBPC, 2017). A quantidade de alguns componentes, como muco, cristais, bactérias, é avaliada qualitativamente por campo de visão em termos descritivos (ausentes, raros, moderados, abundantes) ou numéricos (em número de cruzes, +), padronizados em cada laboratório. Figura 2 – Câmara de Neubauer utilizada para contagem de elementos em um volume padronizado de urina, também conhecida como hemocitômetro FONTE: https://www.scienceabc.com/wp-content/uploads/2018/08/counting-chember-hemocytometer. jpg. Acesso em: 9 set. 2022. 71 Figura 3 – Lâmina k-cell utilizada em rotinas para contagem de células e outros elementos urinários Fonte: https://kasvi.com.br/wp-content/uploads/2017/02/K27-0102.jpg. Acesso em: 17 set. 2022. Métodos qualitativos e não padronizados de análise do sedimento urinário não são recomendados, pois ao observar um volume desconhecido, esse procedimento fornece resultados associados às condições patológicas de maneira imprecisa, com grande incerteza dos resultados e da baixa sensibilidade em detectar elementos essenciais. ATENÇÃO 3 ELEMENTOS OBSERVADOS NA URINA Vimos que a análise do sedimento urinário permite a identifi cação e quantifi cação dos elementos fi gurados presentes na urina. A partir de agora aprenderemos, com detalhes, as características morfológicas de cada um deles e sua correlação com aspectos físicos e químicos da urina. 72 3.1 HEMÁCIAS Em condições normais não é comum haver quantidades signifi cativas de hemácias na urina, os valores de referência fi cam em torno de 5000 hemácias/mL de urina. Portanto, a hematúria é um dado importante a ser detectado para investigação de diversas doenças renais, como litíase renal, doenças glomerulares, pielonefrite, cistite e tumores; além de condições não renais, como hipertensão, apendicite, traumas, exercício extenuante, exposição a agentes tóxicos e drogas, e qualquer condição que resulte em infl amação ou que comprometa a integridade do sistema vascular do trato urinário. Quando o aumento de hemácias na urina está acompanhado do aparecimento de cilindros de hemácias, é possível concluir que o sangramento tem origem renal (BATISTA ET AL., 2019). As hemácias na urina podem ser de difícil distinção, e essa tarefa requer experiência. Elas são melhor visualizadas em ampliações maiores, geralmente com objetiva de 40x. As hemácias medem cerca de medem 7µm de diâmetro, normalmente aparecem como discos bicôncavos lisos e são moderadamente refratários (Figura 3). Quando dispersas no sedimento urinário, as hemácias podem ser vistas lateralmente, adquirindo formato de ampulheta ou quando vistas de cima, aparecem como discos com palidez central. Na urina diluída, ou seja, com baixa densidade, as células sofrem tumefação e lisam rapidamente, liberando a hemoglobina, o que deixa apenas a membrana celular vazia, estruturas conhecidas como "células-fantasmas" (BRUNZEL, 2018). A morfologia das hemácias encontradas na urina pode ajudar a localizar a origem da lesão. Hemácias com morfologia normal, que aparecem com formato redondo e uniforme como os vistos nas análises de sangue periférico, sugerem hematúria extrarrenal. Já as hemácias dismórfi cas, caracterizadas por bolhas, brotamentos e perda parcial da membrana celular, geralmente indicam uma lesão renal, especialmente glomerular (SBPC, 2017). A correta identifi cação dos elementos no sedimento urinário, assim como qualquer outra análise visual, requer experiência e treinamento. Por isso é importante acompanhar o conteúdo que se segue com o auxílio de um material visual, para que você possa observar as características relatadas em imagens reais de microscopia. Sugerimos os seguintes materiais encontrados em: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas- de-uroanalise.html e http://atlasdeurinalise.blogspot.com/. https://laces.icb.ufg.br/p/20662-atlas-virtual-de-uroanalise https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/laact/Atlas-%20 urinalise%204(1).pdf. DICA 73 Figura 4 – Hemácias com morfologia normal visualizadas na sedimentoscopia da urina em microscópio óptico Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifica%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. 3.2 LEUCÓCITOS O leucócito polimorfonuclear, neutrófi lo, é o tipo predominante de leucócito encontrado na urina. Tais células são esféricas e granulares com diâmetro aproximado de 12µm e núcleo segmentado. Os segmentos nucleares podem aparecer como núcleos pequenos, redondos e discretos. Na urina diluída ou hipotônica, os neutrófi los fi cam inchados e seus grânulos citoplasmáticos exibem movimento browniano (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). É relativamente comum encontrar até 5 leucócitos por campo em amostras de urina normais, com valores de referência de até 7000 leucócitos/mL. Os leucócitos podem atingir o fl uxo urinário através de lesão glomerular ou capilar, e também são capazes de migrar de forma ameboide através dos tecidos, indo para locais de infecção ou infl amação. O aumento de leucócitos na urina é denominado piúria ou leucocitúria e indica a presença de infecção ou infl amação no trato urinário. Quando acompanhada de cilindros de leucócitos ou células epiteliais, considera-se que os leucócitos na urina têm origem renal (SBPC, 2017). Um número aumentado de leucócitos pode ser detectado em diversas doenças que afetam o trato urinário, como glomerulonefrite, lúpus eritematoso sistêmico, nefrite intersticial, cálculos renais, tumores de bexiga urinária e uma variedade de processos infl amatórios (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Quando há grande quantidade de leucócitos na urina, esta pode se apresentar turva e com um odor forte. Os leucócitos são bastante sensíveis e lisam facilmente na urina em um período de 2 a 4 horas após a coleta, por isso podem haver discrepâncias entre o número de células vistas no microscópio e o resultado positivo para leucócitos na tira reativa (BRUNZEL, 2018) 74 3.3 CÉLULAS EPITELIAIS Vários tipos de células epiteliais podem ser encontrados no sedimento urinário, de modo geral até 10000 células/mL, alguns resultam da renovação celular normal, enquanto outros representam danos epiteliais e descamação causadas por processos inflamatórios ou doença renal. Conhecer o tipo de epitélio presente em cada porção do néfron e do trato urinário, conforme vimos na Unidade 1, facilita a diferenciação das células no sedimento urinário e sua interpretação. Além disso, por vezes, a presença de muitas células indica que a urina foi coletada de forma inadequada, enquanto o aumento de outros tipos celulares indica um processo patológico grave. Podemos identificar três tipos diferentes de células epiteliais em amostras de urina, a seguir abordaremos cada uma delas. 3.3.1 Células epiteliais escamosas Constituem tipo de célula epitelial mais frequentemente observado na urina normal, pois revestem o terço inferior da uretra, assim possuem baixo ou nenhum significado clínico. Tais células são grandes, achatadas e poligonais, com citoplasma abundante e núcleo pequeno, redondo e central, conforme exemplo da Figura 5. Frequentemente seu grande citoplasma é pontilhado com granulações finas, que aumentam com o avanço da degeneração celular. Em pacientes do sexo feminino, se a coleta da amostra de urina não for realizada adequadamente, sem afastar os lábios vaginais e sem descartar o primeiro jato de urina, podem aparecer abundantes células escamosas na urina provenientes do epitélio do revestimento da vagina ou da vulva, o que indica contaminação vaginal e muitas vezes impossibilita a visualização de outros elementos de interesse na sedimentoscopia (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Figura 5 – Célula epitelial escamosa, também chamada pavimentosa, encontrada na urina Fonte: https://lh3.ggpht.com/_STDVFQGESJI/S_xxq4oTXcI/AAAAAAAABDA/CHhklJz0isI/060%5B2%5D. jpg?imgmax=800. Acesso em: 17 set. 2022. 75 3.3.2 Células epiteliais de transição ou uroteliais Esse tipo celular delimita o trato urinário da pelve renal até o terço inferior da uretra. São menores do que as células escamosas, tem formato redondo ou de pera, com núcleo redondo que pode estar deslocado do centro. Geralmente, as bordas do núcleo e da membrana celular são bastante delineadas. As células epiteliais de transição não são frequentemente encontradas na urina, quando aparecem é em pequena quantidade devido ao processo normal de descamação. Podem ser observadas na urina em quantidades maiores após procedimentos como cateterismo ou cistoscopia. Quando ocorrem grandes agregados de células epiteliais de transição na urina, é importante investigar a possibilidade de um carcinoma de células de transição (BRUNZEL, 2018). 3.3.3 Células epiteliais tubulares Este tipo de celular acende um alerta quando visualizado nas amostras de urina, pois quando em quantidade aumentada indica doenças causadoras de lesão nos túbulos renais, como necrose tubular aguda, pielonefrite, reações tóxicas, infecções virais, rejeição de transplante, efeitos secundários da glomerunonefrite (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Geralmente, as células epiteliais tubulares renais possuem tamanhos variados e seu núcleo é redondo, central ou excêntrico (Figura 6). Pode ser difícil distinguir essas células das células transicionais do trato urinário baixo. Os diferentes segmentos dos túbulos renais são revestidos por diferentes tipos de células epiteliais, que variam quanto à forma (plana, cuboide ou colunar), contorno (com ou sem uma borda em escova; com ou sem microvilos) e localização nuclear (basal, central ou apical). Em microscopia comum, geralmente não é possível fazer essa diferenciação com precisão (SBPC, 2017). Quando há grande reabsorção de proteínas e degeneração gordurosa das células epiteliais tubulares, elas podem exibir gotículas de gordura em seu citoplasma, sendo abundantemente encontradas na síndrome nefrótica, associada à proteinúria (RIELLA et al., 2018). Figura 6 – Células epiteliais tubulares visualizadas em microscópio de contraste de fase Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. 76 3.4 CRISTAIS Os cristais são elementos que se formam devido à precipitação de sais urinários, em razão de diversos fatores, como pH da urina, temperatura, concentração dos solutos e fluxo lento de urina através dos túbulos renais, que afetam suas solubilidades. A maioria dos cristais presentes na urina não apresentam significância clínica, porém, alguns tipos menos frequentes são associados a doenças. Na avaliação microscópica, os cristais são geralmente relatados como ausentes, raros, moderados ou abundantes. De modo geral, o pH urinário determina qual tipo de substância irá precipitar na urina, por isso a importância de sabermos o pH da amostra. Sais inorgânicos como oxalato, fosfato, cálcio, amônio e magnésio são menos solúveis em meio neutro ou alcalino. Por isso, quando o pH da urina está nesta faixa, estes solutos tendem a precipitar. De forma oposta, solutos orgânicos como ácido úrico, bilirrubina e cistina são menos solúveis em condições ácidas e podem formar cristais na urina ácida (BRUNZEL, 2018). Além da formação dos cristais in vivo, após a eliminação da urina os fatores ambientais, com destaque para a temperatura, continuam influenciando na precipitação desses compostos. Por isso, é muito comum a formação de cristais em amostras de urina refrigeradas e naquelas deixadas em repouso à temperatura ambiente por muitas horas (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). 3.4.1 Cristais normais encontrados na urina ácida Na urina com pH ácido os cristais mais frequentemente encontrados são os derivados de uratos: Urato amorfo: Precipitam quando submetidos ao repouso em urina com pH discretamente ácido. Em grandes concentrações é visto como um aspecto de “fundo sujo” ou “"poeira de tijolo" de coloração rosa-alaranjada e castanho-avermelhada ao exame microscópico, por aparentar como pequenos grânulos castanho-amarelados. Microscopicamente são praticamente idênticos aos cristais de fosfato amorfo, os quais são encontrados em urinasneutras ou alcalinas, diferindo pelo pH de solubilidade e pela birrefringência sob luz polarizada. Urato de sódio Aparecem como pequenas esferas de cor marrom, com aspecto amorfo, como agulhas incolores ou amarelas, ou como prismas delgados ou organizados em feixes e agrupamentos, formando rosetas. 77 Ácido úrico Os cristais de ácido úrico são birrefringentes e apresentam uma variedade de formas, como placas achatadas de quatro lados, prismas, formas ovais com extremidades pontudas, conforme mostrado na Figura 7, rosetas e outros formatos irregulares, com coloração variando de incolor a amarelo e castanho-avermelhado e bicolores quando observados em microscópio com luz polarizada. A presença de cristais de ácido úrico na urina, associada a níveis elevados de ácido úrico no soro, pode ser um indicativo de gota. Figura 7 – Cristal de ácido úrico Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. Oxalato de cálcio Sua forma di-hidratada possui formato de octaedro incolor, semelhante a um envelope ou como duas pirâmides por suas bases (Figura 8), enquanto a versão monoidratada tem forma ovoide ou de haltere. O aumento expressivo da excreção de oxalato de cálcio na urina associa-se à formação de litíase, sendo um fator de risco problemas renais. Também podem estar presentes na urina devido à ingestão de alimentos ricos em oxalato, como tomate, laranja e alho. Figura 8 – Cristal de oxalato de cálcio (1), também é possível observar hemácias (2) e leucócitos (3) nessa microscopia de urina Fonte: Adaptado de: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2012/08/como-identifi car-hemacias-no-sedi- mento. Acesso em: 17 set. 2022. 78 3.4.2 Cristais normais encontrados na urina alcalina Os derivados de fosfatos representam a maioria dos cristais observados nas amostras de urina alcalina e incluem: Fosfato amorfo Possuem aspecto granular, incolor e fino ou rendado. Não possuem significância clínica. Fosfato de cálcio Aparecem como placas retangulares, incolores ou prismas finos ou em rosetas. Não têm significado clínico, apesar de o fosfato de cálcio ser um constituinte comum de cálculos renais. Fosfato triplo Possuem forma de prismas incolores de 3 e 6 lados e extremidades oblíquas, comumente comparados a "tampas de caixão" (Figura 9). Além de estarem na urina normal, são observados em urinas que possuem bactérias que metabolizam a ureia e em condições patológicas como pielonefrite crônica, cistite crônica, hiperplasia da próstata. Uma causa importante de cristalúria por oxalato de cálcio é a ingestão de etilenoglicol, que é transformado no fígado em glicolato, glioxilato e depois em oxalato. Esses metabólitos causam uma doença multissistêmica pela precipitação de cristais de oxalato de cálcio no cérebro, nos pulmões e no coração. Nos rins, os cristais precipitam nos túbulos causando lesão renal aguda. Os achados laboratoriais típicos são: elevação da creatinina sérica, acidose metabólica e cristalúria. Para saber mais sobre esse tipo grave de intoxicação assista ao vídeo do Dr. Marcelo Werneck https://www. youtube.com/watch?v=yBRApe2jQ6c.. DICA https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas-de-uroanalise.html e http://atlasdeurinalise.blogspot.com/. https://laces.icb.ufg.br/p/20662-atlas-virtual-de-uroanalise https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/laact/Atlas-%20urinalise%204(1 79 Figura 9 – Cristal de fosfato triplo Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201511.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. Carbonato de cálcio São pequenos, incolores, com formas em haltere ou esféricas. Biurato de amônia Com coloração castanho-amarelada, possuem forma esférica, com estriações radiais ou concêntricas e projeções irregulares ou espinhos. Podem estar associados à presença da amônia produzida pelas bactérias produtoras de urease, as quais metabolizam a ureia, elevando a concentração de amônia na urina. 3.4.3 Cristais anormais encontrados na urina Os cristais anormais, aqueles que podem ter de fato um signifi cado clínico ou uma origem específi ca, são encontrados na urina ácida ou, em menor proporção, na urina neutra. Cistina São formados por placas hexagonais, com bordas iguais ou desiguais, incolores e refringentes (Figura 10). Ocorrem em pacientes com cistinúria, distúrbio metabólico que impede a reabsorção de cistina pelos túbulos renais. 80 Figura 10 – Cristais de cistina Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. Tirosina Os cristais de tirosina aparecem como agulhas fi nas refringentes dispostas em feixes ou agrupamentos, podem ser incolores, escurecidas ou amarelas quando há presença de bilirrubina. Podem estar associados à doença hepática grave. Leucina Cristais de leucina aparecem como esferas amarelas ou castanhas e oleaginosas, com estriações radiais e concêntricas. Assim como os cristais de tirosina, podem ser encontrados em casos de lesão hepática severa e em pacientes com a doença urinária em xarope de bordo. A cistinúria e a doença urinária em xarope de bordo são alguns dos distúrbios metabólicos que serão abordados no Tópico 3, não deixe de conferir! ESTUDOS FUTUROS Colesterol 81 Os cristais de colesterol lembram uma placa de vidro retangular (Figura 11) com um entalhe em uma ou mais bordas, e são altamente birrefringentes à luz polarizada. São observados em pacientes com síndrome nefrótica e em casos de presença da linfa na urina, secundária à obstrução da drenagem linfática por tumores. Raramente são vistos em urina recente e sua presença, em geral, está associada à proteinúria maciça e à presença concomitante de corpos ovais gordurosos, cilindros gordurosos ou graxos e gotículas de gordura. Figura 11 – Cristais de colesterol Fonte: https://laboratoryinfo.com/types-of-crystals-in-urine/. Acesso em: 17 set. 2022. Bilirrubina Estão presentes na urina de pacientes com doenças hepáticas que promovem o aparecimento de grande quantidade de bilirrubina na urina. São vistos como agulhas isoladas, agrupadas ou como esferas de coloração amarela ou marrom-avermelhada (Figura 12). Esses cristais podem ser encontrados incorporados à matriz proteica dos cilindros ou fagocitados por neutrófilos ou ainda no interior de células epiteliais tubulares renais. Figura 12 – Cristais de bilirrubina Fonte: https://laboratoryinfo.com/types-of-crystals-in-urine/. Acesso em: 17 set. 2022 82 Sulfonamida Com formas variadas, dependendo do fármaco envolvido, aparecem em feixes castanho-amarelados com amarras centrais, rosetas (Figura 13), cabeças de seta, pétalas, agulhas e formas arredondadas com estriações radiais. Esses cristais podem causar lesão tubular renal quando formados no néfron. Felizmente com o desenvolvimento das sulfonamidas solúveis, os cristais de sulfa se tornaram raros. Figura 13 – Cristal de sulfonamida Fonte: https://laboratoryinfo.com/types-of-crystals-in-urine/. Acesso em: 17 set. 2022. Ampicilina Podem ocorrer quando se utiliza uma dose muito alta do fármaco, sem a hidratação adequada. Aparecem na urina na forma de agulhas delgadas, longas, incolores e que tendem a formar feixes após refrigeração. Corantes radiográficos Cristais de meios de contraste radiográficos têm aparência muito semelhante à dos cristais de colesterol e são altamente birrefringentes, a diferenciação deve ser feita pela avaliação do conjunto de resultados do exame de urina e pela história do paciente. 3.5 CILINDROS Os cilindros são os únicos elementos da urina formados exclusivamente nos rins. Nada mais são do que conglomerados proteicos que adquirem a forma dos túbulos renais onde são formados. A proteína de Tamm-Horsfall é uma glicoproteína secretada na alça ascendente de Henle, que constitui cerca de um terço do conteúdo total de proteínas urinárias em indivíduos normais. Essa proteína compõe a matriz de todos83 os cilindros urinários, formando uma rede de fibrilas que captura elementos presentes no filtrado tubular, incluindo células, fragmentos celulares ou material granular (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). A formação de cilindros aumenta na presença de pH ácido, concentração iônica aumentada, estase ou obstrução do néfron e devido ao excesso de proteínas plasmáticas nos túbulos renais. Os cilindros podem ser bastante variáveis quanto à aparência, tamanho, forma e estabilidade. Isso faz com que haja bastante variação na sua identificação entre diferentes profissionais e laboratórios. A largura de um cilindro depende do tamanho do túbulo no qual ele se forma. Em pessoas sadias, são observados raros cilindros no sedimento urinário, enquanto nas doenças renais, é possível observar cilindros em grande número e de vários formatos. O aumento de cilindros indica a disseminação da doença renal, com envolvimento de muitos néfrons, por outro lado também podem ser observados em indivíduos sadios após a prática de exercícios físicos vigorosos, acompanhados de proteinúria (NASCIMENTO et al., 2018). Os cilindros podem ser classificados de acordo com a matriz, as inclusões, os pigmentos e as células que apresentam (RIELLA et al., 2018; (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012; NASCIMENTO et al., 2018) 3.5.1 Cilindros hialinos Tipo de cilindro mais comum, são constituídos somente pela proteína de Tamm- Horsfall, por isso são translúcidos à microscopia de campo claro. Aparecem em maior quantidade nas doenças renais e após a prática de exercícios, exposição ao calor, desidratação, febre, insuficiência cardíaca congestiva e terapia com diuréticos. Figura 14– Cilindro hialino Fonte: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas-de-uroanalise.html. Acesso em: 17 set. 2022. 84 3.5.2 Cilindros céreos Diferem dos cilindros hialinos por serem terem índice refrativo mais alto, aspecto liso e bordas pontiagudas, extremidades cegas e ranhuras ao longo das margens laterais. Os cilindros céreos estão associados à inflamação e à degeneração tubular, pois são observados em pacientes com insuficiência renal crônica. Esse tipo de cilindro pode obstruir os néfrons quando são muito grandes. 3.5.3 Cilindros de eritrócitos A detecção desses cilindros na urina indica a existência de sangramento no néfron. Podem aparecer em glomerulonefrites agudas, nefrite lúpica, pielonefrite severa, endocardite bacteriana e infarto renal. Para confirmar a presença deste tipo de cilindro é preciso visualizar em seu interior células com contornos francamente definidos (Figura 15). Também podem conter muitas hemácias dismórficas. Com a estase prolongada, os cilindros de eritrócitos podem sofrer degeneração e aparecer na urina com conteúdo de grânulos grosseiros de hemoglobina e cor castanho-avermelhada. Figura 15 – Cilindro hemático ou de eritrócitos Fonte: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas-de-uroanalise.html. Acesso em: 17 set. 2022. 3.5.4 Cilindros de leucócitos Ao microscópio são refrateis, com grânulos e células com núcleos segmentados visíveis (Figura 16). Os leucócitos atingem a lâmina tubular a partir do interstício e os cilindros leucocitários indicam doença tubulointersticial com exsudação neutrofílica e inflamação. Diante disso, esse tipo de cilindro é muito comum na pielonefrite, doença glomerular, nefrite intersticial, nefrite lúpica e síndrome nefrótica. 85 Figura 16 – Cilindro leucocitário em amostra de urina Fonte: https://kasvi.com.br/sedimentoscopia-analise-urina/. Acesso em: 17 set. 2022. 3.5.5 Cilindros de células epiteliais tubulares renais São facilmente confundidos com cilindros de leucócitos, porém nesse caso as células que compõem o cilindro possuem núcleo arredondado e sem segmentação. São encontrados na urina de pacientes com necrose tubular aguda, doença viral ou expostos a determinados fármacos. Os cilindros de células epiteliais tubulares renais, auxiliam na detecção da rejeição de transplantes renais. 3.5.6 Cilindros celulares mistos Neste caso, dois tipos celulares estão presentes em um único cilindro, como leucócitos e células tubulares renais, eritrócitos e leucócitos. Quando não é possível identificar os tipos celulares envolvidos, chamamos apenas de cilindro celular. 3.5.7 Cilindros granulares Comuns em condições fisiológicas e patológicas, podem se originar de agregados proteicos, como fibrinogênio, imunocomplexos e globulinas, que atravessam os túbulos de glomérulos danificados, além de restos de leucócitos, eritrócitos e células tubulares renais danificadas. Os cilindros granulares surgem com as doenças glomerulares e tubulares, pielonefrite, infecções virais e envenenamento por chumbo, porém também são característicos do processo de rejeição a aloenxertos renais. 86 3.5.8 Cilindros gordurosos A gordura de células tubulares renais carregadas de lipídeos é incorporada à matriz deste tipo de cilindro, que são encontrados na proteinúria severa e síndrome nefrótica. 3.5.9 Cilindros de cristais Podem conter uratos, oxalato de cálcio e sulfonamidas e indicam a deposição de cristais no túbulo ou ducto coletor. Também podem estar acompanhados de hematúria, devido ao dano tubular. 3.5.10 Cilindros de hemoglobina Possuem coloração entre amarelo e vermelho, são frequentemente acompanhados de cilindros de eritrócitos e surgem na doença glomerular. 3.5.11 Cilindros de hemossiderina Esses cilindros são formados por grânulos de hemossiderina originados das células tubulares renais carregadas deste pigmento. 3.5.12 Cilindros de mioglobina Com coloração castanho-avermelhada, estes cilindros aparecem na urina após dano muscular agudo e podem estar associados à insuficiência renal crônica. Podemos concluir que alguns tipos de cilindros podem estar associados a desordens renais e por isso sua correta identificação é essencial para o diagnóstico. Quando temos cilindros íntegros na amostra de urina é um sinal de que ela foi bem preservada. Os cilindros refletem o conteúdo dos túbulos renais no momento de sua formação, por isso são conhecidos por serem como uma “biópsia” da luz tubular, quando encontrados em número significativo devem ser interpretados em conjunto com outros achados do sedimento urinário e do exame químico da urina (BRUNZEL, 2018). 3.6 MUCO O muco é uma substância glicoproteica secretada por glândulas acessórias, visualizado sob microscópio como filamentos longos e finos, com baixo índice de refração e contornos irregulares, conforme visto na Figura 17 (SBPC, 2017). A presença de muco não tem significância clínica, sendo frequentemente oriundos de contaminação durante a coleta. Podem até estar aumentados em processos infecciosos ou inflamatórios, porém não levam a nenhuma conclusão diagnóstica. 87 Figura 17 – Microscopia de urina com presença abundante de filamentos de muco Fonte: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas-de-uroanalise.html. Acesso em: 17 set. 2022. 3.7 MICRORGANISMOS Bactérias, fungos e parasitas podem ser encontrados na análise do sedimento urinário. A urina normal é estéril, entretanto sua composição pode ser um bom meio de cultivo para fungos e bactérias, por isso muitas vezes esses microrganismos estão falsamente aumentados na urina devido a sua multiplicação na amostra após a coleta e armazenamento inadequados. 3.7.1 Bactérias Para observá-las é necessária uma alta ampliação, a detecção de bactérias em amostras de urina pode ser um achado significativo, entretanto é importante diferenciar de situação de contaminação com bactérias da microbiota. Caracteriza infecção urinária quando as bactérias estão presentes em amostras recentemente obtidas por coleta de jato médio e se numerosos leucócitos também estiverem presentes. Em infecções com envolvimento dos rins, também podem ser observados cilindros contendo bactérias (SBPC, 2017). Na Figura 18, podemos observar o aspecto de uma lâmina de urina contendo bactérias.Figura 18 – Bactérias com formato de bacilos na urina (círculos) Fonte: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2010/05/pequeno-atlas-de-uroanalise.html. Acesso em: 17 set. 2022. 88 3.7.2 Fungos Os mais observados na urina são as leveduras do gênero Candida, que podem ser causadoras oportunistas de infecção do trato urinário. Entretanto, as leveduras também podem ser colonizadoras da pele e do trato genital feminino (BATISTA et al., 2019). Como podemos observar nas Figuras 19 e 20, a presença de brotamentos e pseudo-hifas facilitam a sua identifi cação. No laudo da sedimentoscopia, a presença de leveduras é relatada na sessão “Outros elementos” e quantifi cada como raras, moderadas, ou abundantes leveduras (SBPC, 2017). Figura 19 – Presença de leveduras com brotamento Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. Figura 20 – Pseudo-hifa em análise de urina à fresco, ou seja, entre lâmina e lamínula e sem coloração Fonte: https://so.controllab.com/pdf/cl_urinalise_identifi ca%c3%a7%c3%a3o_201508.pdf. Acesso em: 17 set. 2022. 89 3.7.3 Parasitas Parasitas e seus ovos podem ser observados no sedimento urinário devido à contaminação fecal ou vaginal. Pacientes com esquistossomose causada por Schistosoma haematobium podem apresentar ovos deste parasito na urina. Raramente também é possível encontrar na urina ovos de Enterobius vermicularis e larvas de Strongyloides stercoralis. A presença do protozoário flagelado Trichomonas vaginalis pode ser consequência de contaminação vaginal, mas de forma mais rara também é possível causar infecção da uretra ou da bexiga urinária. Quando ainda estão vivos na amostra, podem ser facilmente identificados pela motilidade dos flagelos e seus rápidos e irregulares movimentos pela lâmina (BRUNZEL, 2018) 3.8 CONTAMINANTES E ARTEFATOS Fibras musculares e células vegetais podem aparecer na sedimentoscopia da urina devido à contaminação fecal. Espermatozoides, às vezes, estão presentes na urina por algumas horas depois do ato sexual e devem ser relatados de acordo com o sexo e idade do paciente, pois em homens acima dos 50 anos de idade pode indicar disfunção prostática. Fibras de algodão, pelos, fibras de madeira e sintéticas, grânulos de amido provenientes de luvas cirúrgicas (Figura 21) e gotículas de gordura porventura aparecem na urina devido à contaminação do ambiente ou do recipiente de coleta, apesar de não terem relevância, examinadores inexperientes precisam estar atentos para não os confundir com elementos de importância clínica (MCPHERSON; BEN-EZRA; ZHAO, 2012). Figura 21 – Contaminação da amostra de urina através do talco presente na luva, podendo ser facilmente confundido com cristais Fonte: https://4.bp.blogspot.com/-gHv7LshqnWs/TcgbVkBGLcI/AAAAAAAAAgc/pSYEfpDioUM/s1600/par- ticula-de-talco.jpg. Acesso em: 17 set. 2022. 90 Depois da grande difusão das leitoras automatizadas para tiras reagentes, a análise automatizada do sedimento urinário também vem ganhando espaço nos laboratórios clínicos, uma vez que esses equipamentos permitem agilidade e padronização da análise do sedimento urinário. Geralmente utilizam tecnologias de citometria de fluxo, análise digital de imagens ou microscopia automatizada com imagem digitalizada para classificar e quantificar os elementos presentes no sedimento urinário. Esses equipamentos reduzem o uso da microscopia manual, mas não a eliminam por completo, já que as alterações detectadas precisam ser confirmadas por um profissional (SBPC, 2017). Esses instrumentos também podem ser integrados aos sistemas de informação laboratoriais, otimizando a emissão dos resultados. INTERESSANTE 91 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: As características morfológicas dos principais elementos encontrados no exame microscópico da urina, e a importância dessa etapa da urinálise, para a correlação entre os resultados da análise física, química e microscópica da urina. Que através da preservação dos componentes na urina conseguimos avaliar como foi realizada a coleta e o armazenamento da amostra, para considerar se um achado é ou não representativo da condição de saúde do paciente. A diferenciar cristais de urina ácida e alcalina, bem como cristais normais, produzidos pelo metabolismo e eliminados pela via urinária, de cristais anormais, como os de bilirrubina, cistina, colesterol, leucina e tirosina, que sugerem a existência de distúrbios favorecendo alterações físico-químicas urinárias que proporcionam sua formação. A identificar as características microscópicas e a origem dos cilindros urinários, contribuindo para a definição da hipótese diagnóstica. A significância da presença de leucócitos na urina para a confirmação da relação entre os microrganismos encontrados na amostra e a infecção estabelecida por eles. 92 AUTOATIVIDADE 1 A observação da urina com finalidade diagnóstica faz parte da história da medicina, desde Hipócrates no século V a.C., posteriormente surgiram classificações diversas, mas a introdução da microscopia e das câmaras de contagem pelo médico escocês Thomas Addis destacaram sua importância como ferramenta diagnóstica. Sobre a avaliação microscópica do sedimento urinário, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A análise microscópica da urina é realizada com a amostra não centrifugada para prevenir a degradação de elementos como células e cilindros. b) ( ) O volume de urina utilizado na contagem não altera o resultado, se o número de campos contados for sempre o mesmo. c) ( ) A observação de bactérias, leveduras e hemácias na microscopia requer o uso de objetivas de maior aumento. d) ( ) Amostras de urina refrigeradas mantém seus elementos conservados e são preferíveis para análise da morfologia dos cristais. 2 A identificação microscópica de hemácias ou eritrócitos serve como confirmação e complementação das informações sobre presença de sangue obtidas na análise química da urina. Com base nessa análise, qual das seguintes afirmações sobre as hemácias na urina é CORRETA? a) ( ) As hemácias adquirem formato crenado na urina alcalina. b) ( ) A urina hipotônica provoca a desintegração dos eritrócitos. c) ( ) Os restos e detritos de hemácias são chamados de “células fantasmas”. d) ( ) Hemácias dismórficas geralmente estão associados à doença tubular renal. 3 Os cilindros urinários podem ser identificados na sedimentoscopia e refletem situações fisiológicas e patológicas, eles fornecem informações sobre a homeostase renal já que são formados exclusivamente nos rins. Analise as sentenças a seguir sobre os fatores que contribuem para a determinação do formato e do tamanho dos cilindros: I- Concentração da proteína de Tamm-Horsfall na matriz do cilindro. II- A conformação do túbulo renal em que o cilindro é formado. III- O diâmetro do lúmen tubular em que o é formado. IV- O tempo de estase urinária. 93 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença I está correta 4 O pH urinário, além de fornecer informações sobre a conservação e adequação da amostra de urina, influencia no processo de formação dos cristais urinários. Disserte sobre a relação do caráter ácido-básico da urina com os tipos de cristais que podem se formar. 5 A interpretação das análises de urina funciona como um quebra-cabeça, no qual os resultados do exame físico da urina se unem às informações obtidas nos testes químicos e por fim são confirmados e se obtém novas “peças” na análise do sedimento urinário, para compor um resultado que indica ou não determinada patologia. Explique quais os achados da urinálise, ou “peças do quebra-cabeça”, são encontradas em uma situação de infecção urinária por bactérias e qual o exame padrão-ouro para a confirmação deste quadro.