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Psicologia social psicológica e sociológica Apresentação A psicologia social é um campo do conhecimento que se estabelece entre o final do século XIX e início do século XX. Seu surgimento é marcado por uma pluralidade de posicionamentos teóricos e de objetos de estudo, construindo uma trajetória própria enquanto campo do conhecimento. Ainda que não seja possível estabelecer um ato fundacional preciso para a psicologia social enquanto ciência autônoma, é sabido que esse campo se produziu a partir de diferentes correntes teóricas. Em termos gerais, a psicologia social pode ser dividida em psicologia social psicológica e psicologia social sociológica. Tal distinção diz respeito a formas diferentes de entender teorias e objetos de estudo, pois a psicologia social psicológica se originou da aproximação com o positivismo e com as ciências naturais, já a psicologia social sociológica se relacionou com a sociologia. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender sobre as diferenças teóricas e as origens dessas duas linhas de estudo da psicologia social. Também vai conhecer mais sobre as aplicações contemporâneas e os principais desafios. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Distinguir as perspectivas teóricas da psicologia social.• Contextualizar o surgimento da psicologia social psicológica e a sociológica.• Destacar o papel da psicologia social psicológica como campo de estudos da psicologia social contemporânea. • Desafio A psicologia social é uma área do conhecimento múltipla e heterogênea. No cotidiano profissional, diversas são as formas possíveis de se apresentar como psicólogo social e diversos são os alinhamentos teóricos possíveis. A psicologia social se apresenta enquanto uma área de atuação para pensar as relações entre indivíduos e suas dinâmicas grupais em ambientes de trabalho. Tendo isso em vista, apresenta-se o seguinte desafio: Escolha uma das vertentes da psicologia social (psicologia social psicológica ou psicologia social sociológica) e apresente possíveis diretrizes de atuação para o trabalho a partir do posicionamento teórico escolhido. Infográfico A psicologia social é um campo do conhecimento que tem suas raízes tanto na psicologia quanto na sociologia. A multiplicidade de perspectivas teórico-metodológicas produz uma certa tensão entre saberes ao mesmo tempo que enriquece o debate sobre o campo social. No Infográfico a seguir, você vai conhecer um pouco mais sobre a linha do tempo das principais correntes teóricas da psicologia social. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Conteúdo do Livro A psicologia social é um campo do conhecimento relativamente recente, tendo pouco mais de um século de existência. Desenvolveu-se a partir de duas vertentes: a psicologia social psicológica e a psicologia social sociológica. Essas duas perspectivas surgiram de maneira praticamente concomitante e, por mais que tenham diferenças significativas entre si, contribuíram muito para o desenvolvimento da área. Leia o capítulo Psicologia social psicológica e sociológica, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, para conhecer um pouco sobre a história e sobre as especificidades da psicologia social em suas vertentes psicológica e sociológica, bem como o atual contexto desses campos de estudo. Boa leitura. PSICOLOGIA SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Distinguir as perspectivas teóricas da psicologia social. > Contextualizar o surgimento da psicologia social psicológica e da socio- lógica. > Destacar o papel da psicologia social psicológica como campo de estudos da psicologia social contemporânea. Introdução A psicologia social é uma área do conhecimento muito diversa, com teorias, autores e autoras que assumem posições não só distintas, como, por vezes, antagônicas. Tal multiplicidade está presente desde as primeiras publicações em psicologia social e está associada ao contexto histórico que contribuiu para o surgimento da disciplina em questão. A segunda metade do século XIX marca a consolidação de diversas disciplinas que buscavam sua independência da filosofia, constituindo o campo que hoje em dia chamamos de ciências humanas. A psicologia social se constitui a partir de um lugar híbrido, ora se aproxi- mando do positivismo, derivado das ciências naturais, ora dialogando com a emergente sociologia. Esse cenário de disputa epistemológica, combinado com a efervescência social que era originada, principalmente, pelos processos de industrialização, culmina no surgimento da psicologia social, uma disciplina Psicologia social psicológica e sociológica Diego Drescher de Castro que nasce cindida. Tal divisão vai ser marcada por duas principais linhas de pensamento que definem os modos de entender a psicologia social até os dias atuais: a psicologia social psicológica e a psicologia social sociológica. Neste capítulo, você estudará as origens e diferenças da psicologia social sociológica e da psicologia social psicológica. Além disso, também conhecerá um pouco mais sobre interpretações e aplicações contemporâneas desses campos do saber. Perspectivas teóricas das psicologias sociais A psicologia social se constitui enquanto uma ciência autônoma a partir do início do século XX. Ainda que não possua um ato fundacional preciso, esse campo do saber estrutura-se a partir de duas vertentes distintas e, por vezes, antagônicas: a psicologia social psicológica e a psicologia social sociológica. Com o passar do tempo, essas vertentes se ramificaram e outras linhas teóricas se desenvolveram, mas a principal divisão segue sendo entre as perspectivas sociológica, predominante na Europa e originada de uma aproximação com a sociologia e outras ciências sociais, e a psicológica, que é dominante na América do Norte e tem forte influência do positivismo, além de ser herdeira das ciências naturais. Em linhas gerais, pode-se afirmar que a psicologia social psicológica está voltada a um entendimento que prioriza os processos intraindividuais, procurando explicar de que forma comportamentos, pensamentos ou senti- mentos das pessoas se manifestam a partir da presença de outros indivíduos. Já a psicologia social sociológica centra seus estudos nos fenômenos que emergem a partir da interação dos indivíduos com grupos e sociedades e das experiências que são geradas a partir desse convívio (FERREIRA, 2010). A psicologia social psicológica tem suas bases nas ciências naturais e no positivismo, principalmente a partir das teorizações realizadas pelo francês Augusto Comte (1798–1857). A filosofia positivista de Comte acreditava que a solução para as crises sociais e políticas estava relacionada com um estudo rigoroso e científico dos fatos sociais. Essa perspectiva parte do pressuposto de que leis universais regem os fenômenos e, a partir de uma observação neutra destes, são estabelecidos padrões que tornariam possível prever e modificar os fenômenos sociais. Outra influência do positivismo na psico- logia social psicológica pode ser observada a partir da ideia de que grande parte do comportamento humano teria uma origem inata, sendo explicado por questões como herança genética ou instintos (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). Psicologia social psicológica e sociológica2 Desde essas perspectivas, a psicologia social psicológica se caracteriza por um estudo científico das influências resultantes das situações sociais nos indivíduos (RODRIGUES, 1986) e por uma base amplamente influenciada pelo cognitivismo e pelo experimentalismo. São destacados como campos de interesse dessa vertente da psicologia questões como cognição social, atitudes, neurociência social, psicologia social evolucionista, entre outras. As diferenças entre a psicologia social psicológica e a sociológica situam-se a partir de uma tensão entre objetividade e subjetividade, respectivamente. Dessa forma, a vertente sociológica vai desenvolver uma preocupação maior coma estrutura social do que com os processos intraindividuais. Suas consoli- dação e predominância atual podem ser localizadas na Europa, e ela se dedica a temas como identidade social e representações sociais (FERREIRA, 2010). Diferente da perspectiva psicológica, a perspectiva sociológica pensa os fenômenos psicológicos como produções das interações sociais e não a partir de uma origem inata. Isso implica dizer que o método experimental do positivismo não se aplica nas análises de caráter sociológico, uma vez que não é adequado para fenômenos sociais, já que esses seriam produzidos a partir de relações e interações. A impossibilidade de separação entre sujeito e objeto está associada à noção de que não existe como assumir neutralidade diante de um fenômeno social. No que diz respeito aos pressupostos metodológicos, a psicologia social sociológica é mais flexível do que a psicológica. Ainda que em suas origens o método científico tenha sido uma referência para ambas as vertentes, a partir dos anos 1970 a distância entre a psicologia social psicológica e a sociológica se intensificou, sendo marcada por uma crítica ao paradigma cientificista por parte de pensadores da vertente sociológica. Em sua origem, a psicologia social sociológica se constituiu muito próxima ao interacionismo simbólico, porém, com o passar dos anos, outras referên- cias foram se constituindo, como o materialismo dialético e as perspectivas pós-modernas, por exemplo. Ainda que possuam tensões epistemológicas entre si, esses campos da psicologia social se alicerçam nas mesmas bases que constituíram a perspectiva sociológica no início do século XX. Entre essas características da psicologia social sociológica destacam-se a impor- tância em um enfoque relacional, a crítica à psicologia experimental e a um posicionamento naturalista, a negação de critérios universais de validação do conhecimento e a defesa de que a ciência não é superior a outras formas de conhecimento. Psicologia social psicológica e sociológica 3 Tanto a psicologia social sociológica quanto a psicologia social psicológica são áreas do conhecimento que compõem o campo amplo da psicologia so- cial. Diferem entre si em epistemologia e ontologia desde a constituição da psicologia social como uma disciplina autônoma e, apesar da amplitude de diferenças, é importante não pautá-las desde um posicionamento dicotômico e moral que hierarquiza uma forma de saber em relação à outra, mas dentro de um contexto sócio-histórico e a partir de um posicionamento ético em relação à forma de pensar o mundo. No ano de 2003, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) editou a Reso- lução nº 5/2003 que reconhecia a psicologia social como especialidade da psicologia. Essa decisão tem gerado certa polêmica desde então, e uma das principais críticas se deve ao fato de a psicologia social não ser uma área de interesse de exclusividade da psicologia. A intersecção com a sociologia, por exemplo, já colocaria em questão o fato de a psicologia social ser regulamentada pelo CFP. Por outro lado, defensores da medida argumentam que transformar a área em especialidade da psicologia social ajudaria a fortalecer esse campo profissional. Percurso histórico das psicologias sociais Agora que você já conhece um pouco mais sobre as especificidades e diferenças entre a psicologia social psicológica e a sociológica, é importante entender como essas vertentes se constituíram e de que maneira esse percurso his- tórico vem sendo trilhado. Ainda que alguns autores tentem atribuir um ato inaugural para a psicologia social, essa localização temporal é imprecisa e pessoalizada. Para entender um pouco melhor esse contexto, é necessário observar os movimentos do final do século XIX e início do século XX nos Estados Unidos e na Europa e de que forma a reorganização epistemológica influenciou a psicologia social. O ano de 1908 é comumente sinalizado como um dos marcos da psico- logia social, principalmente pelas publicações daqueles que são considera- dos os primeiros manuais da área. No mesmo ano foram lançados os livros An Introduction to Social Psychology, escrito pelo psicólogo William McDougall, e Social Psychology: An Outline and a Source Book, do sociólogo Edward Ross, livros que partiam de premissas teóricas diferentes e já anunciavam uma certa cisão da área desde a sua origem. Ainda que esses livros sejam tomados como Psicologia social psicológica e sociológica4 as publicações inaugurais da psicologia social, eles condensam discussões que aconteciam desde a segunda metade do século XIX (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). Enquanto a obra de McDougall situa a psicologia social a partir do estudo de dimensões cognitivas, comportamentais e emocionais, Ross localizava a psicologia social como um ramo da sociologia, a partir das problematizações feitas por Gabriel Tarde (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). Este último, sociólogo francês, já havia publicado textos no final do século XIX que serviram de inspiração não só para a publicação de Ross, bem como para embasar outras publicações sociológicas na Europa e nos Estados Unidos (FAZZI; LIMA, 2016). O final do século XIX marcou a consolidação das ciências sociais em um caminho independente da filosofia e, nesse cenário, sociologia e psicologia trilhavam caminhos que eventualmente se cruzavam. Em maior ou menor grau, todas as ciências sociais foram influenciadas pelo positivismo e pela visão unitária da ciência que essa perspectiva pregava. Na sociologia, foi motivo de tensão e debate entre Gabriel Tarde (1843–1904) e Émile Durkheim (1858–1917), pensadores que marcam a cisão da psicologia social antes das publicações de McDougall e Ross. Enquanto Durkheim aproximava seu pen- samento da perspectiva positivista e nutria admiração pelo trabalho que Wundt realizava em seu laboratório de psicologia experimental em Leipzig, Tarde vai sustentar um posicionamento nas causas sociais em oposição aos instintos (FAZZI; LIMA, 2016). Esse ponto de tensão acaba explicando a cisão entre a perspectiva psico- lógica e a sociológica pela forma como esse debate chega aos Estados Unidos. Enquanto a psicologia norte-americana vai ser majoritariamente inspirada pelo experimentalismo de Wundt e pelas ideias sociológicas de Durkheim, a sociologia ganha peso nos Estados Unidos a partir da Escola de Chicago, fortemente influenciada pelo pensamento de Tarde. A partir dos anos 1930, a psicologia social acentua o enfoque psicoló- gico, principalmente a partir das contribuições de Floyd Allport, defensor do comportamentalismo e de uma perspectiva individualista dos sujeitos em contraposição às perspectivas mais holísticas da sociologia (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). A predominância do discurso positivista em sua vertente comportamentalista dominou o debate acadêmico nos Estados Unidos e cresceu exponencialmente durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, os campos da sociologia mais próximos da psicologia perdem relevância em comparação aos argumentos comportamentalistas. A influência dessa corrente nos Estados Unidos pode ser ampliada para outras partes do mundo e, dessa forma, a psicologia social que chega ao Brasil é fortemente Psicologia social psicológica e sociológica 5 influenciada pela perspectiva norte-americana, tendo como principal refe- rência Aroldo Rodrigues, nome célebre da psicologia social psicológica. A década de 1970 marca uma crise na psicologia social como vinha sendo pensada desde a perspectiva positivista. Diversos pesquisadores centravam suas críticas à psicologia social vigente a partir da distância que havia se produ- zido entre as condições sociais e os questionamentos e pesquisas realizados; a argumentação era de que a psicologia, a partir de uma justificativa de neutrali- dade, havia se afastado das realidades locais, principalmente nos países do sul global (BOCK et al., 2007). Autores como Martin-Baró e Sílvia Lane buscaram no materialismo dialético as bases metodológicas parauma revolução na forma de pensar a psicologia social. Essa vertente viria a ser conhecida como psicologia social crítica e se situava enquanto parte da vertente sociológica. As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pela intensificação dos proces- sos de neoliberalismo e pauperização do sul global, fatores que fortaleceram a psicologia social sociológica como forma de compreender os fenômenos do mundo. Além da psicologia social crítica, filosofias pós-estruturalistas foram agregadas ao debate da psicologia social, principalmente a partir de autores como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Felix Guattari e Suely Rolnik (GUATTARI; ROLNIK, 1996). No campo da psicologia social psicológica, a tecnologia e as novas descobertas científicas pavimentaram o caminho para a aproximação da psicologia social com as neurociências. Nesse campo destaca-se a neurociência social, termo cunhado a partir do trabalho de Cacioppo e Bernston (1992). Esse panorama histórico ajudará você a entender um pouco mais sobre como a psicologia social contemporânea foi constituída, a partir de composi- ções e discordâncias. Na próxima seção, você aprenderá sobre a organização atual da psicologia social e suas principais aplicações práticas. Entre as décadas de 1940 e 1970, a psicologia social psicológica era amplamente predominante. Para fins de comparação, no início do século XX foram documentados 15 manuais de psicologia social, sendo oito escritos por sociólogos e sete por psicólogos. Já nos anos 1970 existem registros de 38 manuais de psicologia social, sendo que 30 foram escritos por psicólogos e somente oito por sociólogos. Essa diferença se deve principalmente ao do- mínio norte-americano na produção acadêmica, potencializado pelos efeitos da Segunda Guerra Mundial e pelo período de reconstrução das universidades europeias. Na década de 1980, essa diferença entre as duas vertentes da psi- cologia social diminuiu, sendo registrados 32 manuais publicados, sendo 21 por psicólogos e 11 por sociólogos (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). Psicologia social psicológica e sociológica6 As perspectivas psicológica e sociológica na contemporaneidade Em sua trajetória de pouco mais de um século de existência, a psicologia social vem contribuindo com problematizações acerca das dinâmicas sociais, seja por meio de uma concepção holística das sociedades ou a partir de processos intraindividuais. Até aqui, você pode conhecer um pouco mais sobre as diferen- ças entre as duas principais vertentes da psicologia social e de que maneira a psicologia social psicológica e a psicologia social sociológica se constituíram enquanto áreas de relevância global na história do conhecimento moderno. Nesta seção, você aprenderá sobre os principais desafios e as aplicações contemporâneas que compõem as psicologias sociais. Como qualquer outra área do conhecimento, conforme a psicologia social foi se consolidando e os estudos obtendo relevância, houve um incremento considerável na quantidade de pesquisas e criação de metodologias. Processos como a globalização e a facilidade no acesso à informação potencializaram a aplicação das diversas vertentes da psicologia social, de modo que grande parte dos acontecimentos sociais contemporâneos pode ser interpretada e analisada à luz de um estudo de psicologia social. Contudo, as diferenças entre as vertentes e seus pressupostos epistemológicos, ontológicos e éticos seguem produzindo tensões e debates acirrados. Sobre a psicologia social psicológica, seus pressupostos teóricos e meto- dológicos pouco se alteraram nas últimas décadas. Ainda que as produções e pesquisas tenham alcançado novas temáticas e complexificado seu arsenal argumentativo, seu nível de análise segue em uma perspectiva intraindividual, e o experimentalismo permanece como a principal estratégia metodológica (ÁLVARO; GARRIDO, 2017). Em que pese a manutenção das premissas teórico- -metodológicas, a inovação da tecnologia e as descobertas recentes de fundo neurobiológico abriram novos questionamentos. Segundo Ross, Lepper e Ward (2010), os principais tópicos de interesse contemporâneos em psicologia social na América do Norte são: cognição social, atitudes e processos grupais. Além disso, como campos emergentes, merecem destaque a neurociência social e a psicologia social evolucionista. Em termos de Brasil, a psicologia social psicológica segue a tendência das produções norte-americanas, tanto em termos teórico-metodológicos quanto no que diz respeito às áreas de interesse. Em estudo realizado por Ferreira (2010), que analisou a produção brasileira em psicologia social nos principais periódicos da área, foi constatado que cerca de 38% da produção nacional em psicologia social era orientada pela perspectiva psicológica. Dentro dessa Psicologia social psicológica e sociológica 7 porcentagem, as principais áreas de interesse pesquisadas foram “atitudes, crenças, valores e percepções sociais (34%), as relações interpessoais (17%), os afetos, emoções e motivação social (16%) e a autopercepção (12%)” (FER- REIRA, 2010, p. 61). As perspectivas contemporâneas da corrente sociológica têm ganhado, fora da América do Norte, bastante relevância, principalmente pela série de questionamentos que o viés cientificista tem recebido enquanto perspectiva de entendimento do social. A principal argumentação que embasa esse posi- cionamento crítico diz respeito à insuficiência e à falta de complexidade que uma abordagem experimental teria diante da complexidade dos problemas sociais. Os estudos sobre psicologia social sociológica acabam assumindo mais relevância na Europa, e a ideia de uma compreensão mais ampla das dinâmicas sociais e relações grupais para pensar o campo social embasa pensamentos como a teoria da identidade social, de Henri Tajfel, e as repre- sentações sociais de Serge Moscovici. Para além das perspectivas de Tajfel e Moscovici, a psicologia social tem buscado suporte em outros pensamentos, como é o caso da psicologia social crítica e sua aproximação com o materialismo histórico-dialético e as pers- pectivas chamadas de pós-modernas, que dialogam com autores e autoras pós-estruturalistas. Tais posicionamentos surgem a partir do momento em que países do sul global reivindicam uma produção teórica que dialogue de uma maneira mais próxima com as questões locais e que superem a crença no cientificismo enquanto única possibilidade. Na produção latino-americana, destacam-se nomes como Ignácio Martín-Baró, Sílvia Lane e Suely Rolnik. No que diz respeito às produções acadêmicas a respeito da psicologia social sociológica, a pesquisa realizada por Ferreira demonstra que 46% das produções nacionais estão localizadas no campo da psicologia social crítica, enquanto 16% correspondem à psicologia social sociológica de tradição europeia. Sobre os temas pesquisados na vertente sociológica, destacam-se “violência, a inclusão e exclusão social, a criatividade, etc. (32%), a configuração de identidades e subjetividades (30%), as práticas de pesquisa e intervenção em psicologia social (15%) e os papéis de gênero (8%)” (FERREIRA, 2010, p. 61). Como você pode acompanhar neste capítulo, a psicologia social encontra suas bases fundacionais tanto na psicologia quanto na sociologia. Ambas as vertentes contribuíram de maneira significativa para complexificar o dis- curso acerca do social e das dinâmicas intraindividuais e grupais e compõe esse tecido. Ainda que divergentes em muitos aspectos, a pluralidade das perspectivas sociológicas e psicológicas é fundamental para uma construção múltipla e densa enquanto campo do saber. Psicologia social psicológica e sociológica8 Referências ÁLVARO, J. L.; GARRIDO, A. Psicologia social: perspectivas psicológicas e sociológicas. Porto Alegre: AMGH; Artmed, 2017. 440 p. BOCK, A. M. B. et al. Sílvia Lane e o projeto do “Compromisso Social da Psicologia”. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 19, n. esp. 2, p. 46–56, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/psoc/a/w5gPmcgxnB5w5ThhFkCyCtb.Acesso em: 27 jan. 2022. CACIOPPO, J. T.; BERNSTON, G. G. Social psychological contributions to the decade of the brain. Doctrine of multilevel analysis. American Psychologist, Washington, v. 47, n. 8, p. 1019–1028, Aug. 1992. FAZZI, R. C.; LIMA, J. A. A psicologia social sociológica: percursos, rumos e contempora- neidade de uma tradição teórico-metodológica. 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Psicologia social psicológica e sociológica 9 Dica do Professor A psicologia social é composta por um vasto aparato teórico-metodológico e é dívida em duas vertentes principais: a psicologia social sociológica e a psicologia social psicológica. Os psicólogos sociais da segunda vertente enfatizam principalmente os processos intraindividuais e o modo como os indivíduos respondem aos estímulos sociais. Na base da psicologia social psicológica está o positivismo, uma corrente filosófica que nasce na modernidade e defende a aplicação do cientificismo em sua radicalidade. Nesta Dica do Professor, você vai conhecer um pouco mais sobre esse pensamento que influencia de maneira marcante a psicologia social e outras áreas do conhecimento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/4943faf66934485d052d2f290f7ec265 Exercícios 1) O início do século XX marca o lançamento de dois manuais de psicologia social, materializando uma tensão epistemológica que já circulava entre os pensadores. Os manuais marcam o surgimento das correntes sociológica e psicológica da psicologia social. Analise as alternativas a seguir: I - Psicólogos sociais da vertente conhecida como psicologia social psicológica tendem a privilegiar os fenômenos que emergem de diferentes grupos e sociedades, enquanto profissionais da psicologia social sociológica atentam-se principalmente aos processos intraindividuais e ao modo como os indivíduos respondem aos estímulos sociais. II - A psicologia social trabalha com áreas como cognição social, atitudes e processos grupais, além de novas vertentes, como neurociência social e psicologia social evolucionista. III - A psicologia social crítica é um movimento que ocorre a partir da América Latina e se aproxima das problematizações da psicologia social sociológica. Sobre essas áreas da psicologia social, é correto afirmar que: A) as alternativas I, II e III estão corretas. B) apenas as alternativas II e III estão corretas. C) apenas as alternativas I e III estão corretas. D) apenas as alternativas I e II estão corretas. E) apenas a alternativa III está correta. 2) O positivismo é uma doutrina que influencia toda a epistemologia moderna e contribui de maneira significativa para a psicologia social. Sobre o positivismo, é correto afirmar que: A) seu principal nome é o psicólogo Ignácio Martín-Baró, que parte de seus pressupostos filosóficos para criar a psicologia social crítica. B) é uma escola filosófica criada nos Estados Unidos por Floyd Allport, famoso teórico da psicologia social sociológica. C) é fundamentado na ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeira. D) privilegia formas metafísicas e teológicas de conhecimento. E) influenciou a psicologia social psicológica, vertente predominante na Europa. 3) A psicologia social sociológica é uma vertente da psicologia social que se constitui no início do século XX sob influência da sociologia. Sobre a psicologia social sociológica, é correto afirmar que: A) o livro An Introduction to Social Psychology, escrito pelo psicólogo William McDougall, é considerado como a primeira publicação da vertente. B) foi Influenciada pela sociologia de Émile Durkheim e seu viés positivista. C) é predominante na América Latina e nos Estados Unidos. D) dialoga com a psicologia social crítica e é predominante na Europa. E) foi substituída pela psicologia social crítica nos anos de 1970. 4) A psicologia social crítica surge na América Latina na década de 1970, tornando-se um dos campos mais relevantes da psicologia social até os dias atuais. Analise as alternativas a seguir: I - A psicologia social crítica surge em oposição à psicologia social psicológica e como crítica ao positivismo. Busca uma aproximação da psicologia social com as realidades locais. II - A psicologia social sociológica privilegia o estudo do comportamento a partir do experimentalismo e da afirmação do cientificismo radical. III - A psicologia social crítica tem como principal referencial teórico o pós-modernismo, pautado em uma crítica ao positivismo. Sobre essa área de atuação, é correto afirmar que: A) apenas a alternativa I é correta. B) apenas a alternativa II é correta. C) apenas as alternativas II e III estão corretas. D) as alternativas I, II e III estão corretas. E) apenas as alternativas I e III estão corretas. 5) A psicologia social chega ao Brasil na primeira metade do século XX sob forte influência das produções norte-americanas. Ao longo de mais de um século de produções, a psicologia social se tornou obrigatória nos currículos de graduação e cresceu em importância. Analise as alternativas a seguir: I - Até os anos de 1970 era predominantemente de caráter psicológico. A principal referência nacional era o psicólogo Aroldo Rodrigues, suas produções eram baseadas no positivismo, que influenciava a ciência estadunidense. II - Nos dias atuais, a vertente sociológica domina as produções em psicologia social no Brasil. A psicologia social crítica é a área mais pesquisada. III - A separação entre as vertentes psicológica e sociológica diz respeito ao currículo dos cursos de graduação. A psicologia social psicológica é estudada nos cursos de psicologia, enquanto a psicologia social sociológica é estudada nas ciências sociais. Sobre a psicologia social no Brasil, é correto afirmar que: A) somente a alternativa I está correta. B) somente a alternativa II está correta. C) somente as alternativas I e II estão corretas. D) somente as alternativas II e III estão corretas. E) as alternativas I, IIe III estão corretas. Na prática A psicologia social crítica surge na década de 1970 a partir das problematizações feitas por pensadores da América Latina. Ela se constitui a partir das produções da vertente sociológica e enquanto crítica ao cientificismo e ao experimentalismo da psicologia social psicológica. Um dos principais nomes da psicologia social crítica é Ignácio Martín-Baró, pensador que segue inspirando as produções na área. Neste Na Prática, você vai conhecer um pouco mais sobre esse autor fundamental para a psicologia social, além de como ele se apropriou das problematizações da psicologia social sociológica para tensionar a produção de conhecimento vigente até então. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Psicologia rumo aos 60 anos - psicologia social Veja a apresentação promovida pelo Conselho Federal de Psicologia para pensar a psicologia social nos 60 anos de regulamentação da profissão. A fala da psicóloga Simone Huning permite conhecer um pouco mais sobre as tensões entre as perspectivas sociológica e psicológica na história da psicologia social. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Neurociências: nós somos nossos cérebros? - Francisco Ortega Assista à fala do filósofo Francisco Ortega sobre neurociências e a relação dessa área com o campo das subjetividades. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Psicologia social: uma especialidade da psicologia? Leia o artigo que problematiza a decisão do Conselho Federal de Psicologia de reconhecer a psicologia social como especialidade da psicologia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/D5lAoWvt77g https://www.youtube.com/embed/Hr4eSBi4LjI https://www.scielo.br/j/psoc/a/yMxwVBg7f3qvCdksBFmQ4CQ/?stop=next&lang=pt&format=html Sob o espectro da neurociência: a neurossociologia, a psicologia social e as abordagens biossociais Leia o artigo que apresenta uma revisão de literatura sobre as aproximações entre neurociências e a área da sociologia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.scielo.br/j/pcp/a/8J3NLv6LNh3xSypkNC88jGR/?lang=pt