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Como diferentes motivações afetam o comportamento?
206 Explicando a motivação
21 O Necessidades humanas e motivação
221 Compreendendo experiências
emocionais
ARM ADO DE BRAVURA
Em apenas um momento, a vida de Aron Ralston, 27,
mudou para sempre. Um pedregulho de 360 kg caiu
em um cânion estreito onde Ralston estava fazendo
uma caminhada, um local isolado de Utah, prenden-
do seu antebraço ao chão.
Pelos próximos cinco dias, Ralston permaneceu em
uma floresta densa e solitária, incapaz de fugir. Como um
escalador experiente, com treinamento de busca e resga-
te, ele teve bastante tempo para considerar suas opções.
Ele tentou sem sucesso lascar a pedra, e prendeu cordas
e polias ao redor da rocha em um vão esforço de movê-la.
Por fim, sem água e quase desidratado, Ra lston perce-
beu que só havia uma última opção, além de morrer. Em um
incrível ato de bravura, Ralston quebrou dois ossos, o rádio
e a ulna, aplicou um torn iquete, e usou uma faca de bol-
so cega para amputar seu antebraço. Livre de sua prisão,
Ralston desceu de onde estava preso e então caminhou por
quase 1 O quilômetros até um local seguro (Martin. 2006;
Ralston, 2004).
Ralston, que agora usa um braço prostético. recuperou-
-se de seu supl íc io. Ele continua um ativo montanhista e
explorador. Questões de motivação-isso é, o que nos
move-e emoções são centrais a qualquer explicação para
a extraordinária coragem e desejo de viver de Ralston.
Psicólogos que investigam a motivação tentam desco-
brir quais são os nossos objetivos e como eles orientam
o nosso comportamento. Por exemplo, se você beber um
copo de água porque está com sede, diríamos que seu ob-
jetivo era saciar sua sede e que você bebeu o copo de água
para satisfazer seu objetivo. No caso de Ralston, o objetivo
era a sobrevivência e. ao amputar parte de seu braço. ele
alcançou esse objetivo.
O estudo das emoções foca as nossas experiências in-
ternas em determinados momentos. Tod os sentimos uma
variedade de emoções: felicidade ao obter êxito em uma
tarefa difícil. tristeza pela morte de um ente querido, raiva
ao sermos tratados injustamente. Psicólogos que pesqui-
sam as emoções desenvolveram diversas teorias diferen-
tes quanto à sua natureza e funcionamento.
Começamos este capítulo examinando os principais
conceitos de motivação e discutindo como diferentes mo-
tivos e necessidades afetam o comportamento conjunta-
mente. Consideramos motivos que são biologicamente
embasados e universais ao reino animal, ta is como fome.
assim como motivos que parecem ser únicos aos seres hu-
manos, ta is como a necessidade de rea lizações.
A seguir. nos voltaremos às emoções. Consideraremos os
papéis e as funções que as emoções desempenham nas vidas
das pessoas e discutiremos diversas abordagens que expli-
cam como as pessoas entendem suas emoções. Por fim, ve-
remos como o comportamento não verbal comunica emoções.
Enquant2
você LE >>
>> Explicando a motivação
Quando Lance Armstrong completou a volta final do Tour de
France diante de uma multidüo em polvorosa, aquele momen-
to significava mais do que vencer a corrida de bicicletas mais
prestigiada do mundo. O momento repre-
sentava um triunfo da motivação e do espí-
rito humanos - com uma pitada de milagre.
• Como nossas necessidades orientam e dão energia ao nosso
comportamento?
• Que fatores afetam a fome e o comportamento sexual?
• Quais são as nossas necessidades de realização? De afi liação? De
poder?
• Todos sentem as emoções do mesmo modo?
• Como comunicamos nossos sentimentos de modo não verbal?
Que motivação havia por trás da determinação de Arms-
trong? Era a antecipação da excitação emocional de vencer
o Tour de France? As potenciais recompensas que surgiriam
caso ele vencesse? A emoção de participar? A satisfação de
alcançar um objetivo tão ambicionado?
Apenas 33 meses antes, ninguém teria
imaginado que ,4nnstrong seria o vencedor
do Tour de France. Na verdade, as proba-
bilidades estavam contra a possibilidade
de que ele sequer voltasse a pedalar. Nessa
época, ele descobriu que tinha um câncer
nos testículos que se espalhara para seus
pulmões e seu cérebro, e continha 12 tu-
mores e duas lesões. Os médicos lhe deram
50% de chances de sobrevivência.
Seu tratamento foi penoso. Ele passou
por cirurgias e quatro rodadas de quimio-
terapia intensa, com um mês de intervalo
O que motivou LanceArmstrong
a não apenas sobreviver ao câncer,
mas também a voltar a pedalar
Para responder a essas perguntas, o
psicólogos empregam o conceito de mo-
tivação, isto é, os fatores que direcionam
e energizam o comportamento dos sere
humanos e de outros organismos. A moti-
vação tem aspectos biológicos, cognitivo
e sociais, e a complexidade do construto
levou psicólogos a desenvolver diversas
abordagens. Todas buscam explicar a ener-
gia que orienta o comportamento das pes-
soas em direções específicas.
ABO RDAGEN S INSTINT IVAS competitivamente?
entre cada uma. Mas ele nunca desistiu. Esforçando-se, ele
pedalava de 30 a 80 quilômetros por dia após cada uma das
sessões de uma semana de quimioterapia.
Aí, o inesperado aconteceu: o câncer desapareceu, sur-
preendendo a todos. Armstrong continuou de onde tinha pa-
rado, treinando horas por dia e entrando em competições de
motivação Os fatores que
direcionam e energizam o
comportamento dos seres humanos
e de o utros organismos.
instintos Padrões inatos
de comportamento que são
biologicamente determinados ao
invés de aprendidos.
206 • PSICO
ciclismo (Abt, 1999, p. D4).
Diversos anos mais tarde,
Armstrong não apenas estava
mais saudável, como também
cruzando a linha de chegada
do Tour de France em primei-
ro lugar- uma prova de sua
enorme vontade de tti unfar.
Quando os psicólogos tentaram explicar a
motivação pela primeira vez, eles se volta-
ram para os instintos, padrões inatos de comportamento que
são biologicamente determinados ao invés de aprendidos. De
acordo com as abordagens instintivas à motivação, as pes-
soas e os animais nascem pré-programados com conjunto
de comportamentos essenciais à sua sobrevivência. Esses in -
tintos fornecem a energia que canaliza o comportamento nas
direções apropriadas. Daí, o comportamento sexual pode ser
uma resposta a um instinto animal de se reproduzir, e o com-
portamento exploratório pode ser motivado por um instinto de
examinar o seu território.
Por definição, comportamentos instintivos são padrões
rígidos de comportamento que todos os membros de uma
espécie (ou todas as fêmeas e todos os machos no caso do
comportamento sexual) irão executar exatamente do mesmo
modo. O salmão nos dá um famoso exemplo: todos eles es-
A migração sazonal de pássaros é um comportamento instintivo. Por
outro lado, a motivação que subjaz ao comportamento humano é
complexa e pode ser difícil de explicar.
colhem praticamente o mesmo momento para nadar de volta
ao rio onde nasceram. Então eles nadam contra a corrente
para se reproduzir, mesmo que esse comportamento resulte
em sua morte. O problema é que os seres humanos não fazem
nada exatamente do mesmo jeito, mesmo quando tentam!
Então um grande problema ao se tentar utilizar o conceito
de instinto para explicar a motivação é que os comportamentos
humanos são muito mais complexos do que os de muitas espé-
cies animais, além disso, não parece que nós tenhamos algum
instinto verdadeiro. Como resultado, explicações mais novas
substituíram concepções da motivação com base nos instintos.
ABORDAGENS DE REDUÇÃO DA
PULSÃO
Após rejeitar a teoria do instinto, os psicólogos inicialmente
propuseram teorias de simples redução de pulsão para explicar
a motivação (Hull, 1943). Abordagens de redução da pulsão
sugerem que a falta de algum elemento
necessário biologicamente,tal como a
água, produz uma pulsão para obter aque-
le elemento (nesse caso, a pulsão da sede).
Nas teorias de redução da pulsão,
pulsão é definida como uma tensão,
ou excitação motivacional que energi-
za o comportamento para a satisfação
de uma necessidade. Muitas pulsões
básicas, como fome, sede, sono e sexo,
estão relacionadas a necessidades bio-
próxima refeição não estiver
próxima. Se o tempo ficar
frio, colocamos uma camada
a mais de roupa ou ligamos
o ar condicionado para nos
mantermos aquecidos. Se
nossos corpos precisam de
líquido para funcionar ade-
quadamente, podemos sentir
sede e buscar água.
Apesar de teorias de re-
dução da pulsão fornecerem
uma boa descrição de como as
pulsões primárias motivam o
comportamento, elas não po-
dem explicar comportamen-
tos para os quais o objetivo
abordagens de redução da
pulsão à m otivação Teorias
que sugerem que a falta de um
elemento biológico básico, como
a água, produz uma pulsão de se
obter aquele elemento (nesse caso, a
pulsão da sede).
pulsão Tensão ou excitação
motivacional que energiza o
compo rtamento para a satisfação de
uma necessidade.
abordagens da excitação
à motivação Crença de que
tentamos manter certos níveis de
estimulo e atividade, aumentando-os
ou reduzindo-os conforme o
necessário.
não é reduzir uma pulsão, mas manter ou mesmo aumentar o
nível de excitação.
Por exemplo, alguns comportamentos parecem ser mo-
tivados por nada além da simples curiosidade, tais como
correr na rua para ver bombeiros investigarem uma cha-
mada. Do mesmo modo, muitas pessoas buscam atividades
com altos níveis de emoção, como andar de montanha-russa
ou fazer rafting nas corredeiras de um rio. Tais comporta-
mentos contradizem a ideia de que as pessoas buscam redu-
zir todas as pulsões, conforme abordagens de redução das
pulsões indicariam (Begg e Langley, 2001 ; Rosenbloom e
Wolf, 2002).
Tanto a curiosidade quanto o com-
portamento "caçador de emoções", por-
tanto, lançam dúvidas sobre as aborda-
gens de redução das pulsões oferecerem
uma explicação completa para a motiva-
ção. Em ambos os casos, em vez de bus-
car reduzir uma pulsão subjacente, as
pessoas parecem motivadas a aumentar
seu nível geral de estímulo ou atividade.
Para explicar esse fenômeno, os psicó-
logos criaram ainda uma terceira pers-
pectiva teórica: abordagens da excitação
à motivação.
ABORDAGENS DA
EXCITAÇÃO
lógicas do corpo ou da espécie como
um todo. Essas são chamadas de pul-
sões primárias. As pulsões primárias
contrastam com as pulsões secundárias,
em que o comportamento não satisfaz
nenhuma necessidade biológica óbvia.
Nas pulsões secundárias, a experiência
e a aprendizagem prévias é que geram
necessidades. Por exemplo, algumas
pessoas têm grandes necessidades de
realização acadêmica e profissional.
Podemos dizer que sua necessidade de
realização se reflete em uma pulsão se-
O que motiva as pessoas a se envolver em
atividades com alto nível de emoção, como
Teorias da excitação buscam explicar
o comportamento cujo objetivo é man-
ter ou aumentar a excitação. De acor-
do com as abordagens da excitação à
motivação, cada pessoa tenta manter
um determinado nível de estímulo e ati-o paraquedismo?
cundária que motiva o seu comportamento (McKinley et ai. ,
2004; Seli, 2007).
Frequentemente tentamos satisfazer uma pulsão primá-
ria reduzindo a necessidade subjacente. Por exemplo, fica-
mos com fome quando não comemos por algumas horas, e
podemos assaltar a geladeira, especialmente se a hora da
vidade. Assim como ocorre no modelo
de redução de pulsão, esse modelo sugere que, se um estí-
mulo ou atividade ficar muito alto, tentamos reduzi-lo. Mas,
ao contrário dos modelos de redução de pulsão, o modelo
de excitação também sugere que, se os níveis de estímulo
e atividade estiverem muito baixos, tentaremos aumentá-los
buscando estimulação.
Motivação e Emoção • 207
Você busca sensações?
·seossad s1wno
sep se w o:> we.iedwo:> a s sag 5esuas
ap e:>snq ap sepuij> pua1 sens owo :> ap
OA!leJ!PLI! w n Jep "41 souaw oe lLl!
O!Jj?UO!lSanb o ·w,sse epur,t,1nu!W!P
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'801 '96 Vs 'v L 'S9 'VS ·sv 'VE 'Vl
'V J :snsodsaJ sa1u,nllas sep ewn epe:>
eJed 01uod wn 'i'P as :o)l1t?nl UOd
Fonte: Questionário "Do you seek out
sensation?" de Marvin Zuckerman, "The
Search for High Sensat ion"". Psychology
Today, February 1978, pp. 30-46.
Quanta estimulação você busca em seu cotidiano?Você terá uma ideia
após completar o seguinte questionário, que lista alguns itens de uma
escala projetada para avaliar suas tendências de busca de sensações.
Circule A ou Bem cada par de afirmações. Se nem A nem B o descreverem
adequadamente, escolha o que melhor descrever sua inclinação.Tente
responder a todos os itens.
1. A Eu gostaria de ter um emprego em fosse preciso viajar muito.
B Eu preferiria um emprego em uma locação só.
2. A Eu me sinto revigorado por um dia frio.
B Não posso esperar para entrar em algum lugar em dias frios.
3. A Fico entediado vendo sempre as mesmas pessoas.
B Gosto da famil iaridade confortável dos amigos de sempre.
4. A Eu preferiria viver em uma sociedade ideal em que todos estão seguros, protegidos e
felizes.
B Eu teria preferido viver nos tempos incertos, conturbados de nossa história.
5. A Às vezes eu gosto de fazer coisas que são um pouco assustadoras.
B Uma pessoa sensata evita atividades perigosas.
6. A Eu não gostaria de ser hipnotizado.
B Eu gostaria de passar pela experiência de ser hipnotizado.
7. A O objetivo mais importante da vida é viver ao máximo e ter o máximo de experiências
possível.
B O objetivo mais importante da vida é encontrar a paz e a felicidade.
8. A Eu gostaria de experimentar pular de paraquedas.
B Eu jamais gostaria de pular de um avião, com ou sem paraquedas.
9. A Eu entro na água fria gradualmente, me dando tempo para me acostumar com ela.
B Eu gosto de mergulhar ou pular direto na água gelada.
1 O. A Quando eu saio de férias, prefiro o conforto de um bom quarto e uma cama.
B Quando saio de férias, prefiro mudar e sair para acampar.
1 1. A Eu prefiro pessoas que são emocionalmente expressivas, mesmo que sejam um pouco
instáveis.
B Eu prefiro pessoas que são calmas e de temperamento constante.
12. A Uma boa pintura deveria chocar ou abalar os sentidos.
B Uma boa pintura deve dar uma sensação de paz e segurança.
13. A Pessoas que dirigem motocicletas devem ter alguma necessidade inconscient e de se
machucar.
B Eu gostaria de dirigir ou andar de motocicleta.
As pessoas variam enormemente no nível ótimo de
excitação que buscam, com algumas buscando níveis espe-
cialmente altos de excitação. Por exemplo, pessoas que par-
ticipam em esportes de risco, apostadores e criminosos que
realizam roubos de alto risco podem estar exibindo uma ne-
cessidade particularmente alta de excitação (Cavenett e Ni-
xon, 2006; Zuckerman, 2002; Zuckerman e Kuhlman, 2000).
a necessidade biológica de mais comida ou de manutenção
de excitação. Ao invés disso, se escolhermos comer a sobre-
mesa, tal comportamento é motivado pela própria sobremesa.
que age como uma recompensa esperada. Essa recompensa.
em termos motivacionais, é um incentivo.
Abordagens do incentivo à motivação sugerem que 2
motivação surge do desejo de obter objetivos externos valori-
zados, ou incentivos. Nessa visão, as propriedades desejáveis
de estímulos externos- quer sejam notas,dinheiro, afeto ou
comida-explicam a motivação da pessoa. ABO RDAGENS DO INCENTIVO
abordagens do ince ntivo à
motivação Teorias que sugerem
que a motivação surge do desejo
de obter objetivos externos, ou
incentivos, valorizados.
208 • PSICO
) Quando uma deliciosa sobre-mesa aparece na mesa após uma boa refeição, seu apelo tem pouco ou nada a ver com Apesar de a teoria buscar explicar por que sucumbimos 2 um incentivo (tal como uma sobremesa de dar água na boca mesmo que nos faltem pistas internas (tal como a fome), ek não fornece uma explicação completa da motivação, visto
pense PSICO
> > > Quais abordagens à motivação podem ser usadas
em sua vida acadêmica? Como cada abordagem pode ser
usada para elaborar políticas escolares para manter ou
aumentar a motivação?
que organismos às vezes buscam satisfazer
necessidades mesmo quando incentivos
não são aparentes. Em outras palavras,
às vezes nos comportamos como se es-
tivéssemos sendo motivados apenas por
pulsões biológicas. Consequentemen-
te, muitos psicólogos acreditam que as
pulsões internas propostas pela teoria da
redução de pulsões funcionam em con-
junto com os incentivos externos da teoria
do incentivo para "impulsionar" e "atrair" o
comportamento, respectivamente. Assim, ao
mesmo tempo em que buscamos satisfazer nos-
sas necessidades subjacentes de comida (o impulso
da teoria da redução de pulsões), podemos ser atraídos por
al imentos que pareçam muito apetitosos (a atração da teoria
do incentivo). Ao invés de se contradizerem, portanto, as pul-
ões e os incentivos podem funcionar em conjunto na moti-
\·ação do comportamento (Berridge, 2004; Lowery, Fillingim
e Wright, 2003; Pinel, Assanand e Lehman, 2000).
ABORDAGEN S COGNIT IVAS
Abordagens cognitivas à motivação sugerem que a moti-
\·ação é um produto de nossos pensamentos, expectativas e
objetivos~nossas cognições. Por exemplo, o grau em que os
estudantes se sentem motivados a se preparar para uma prova
e baseia na expectativa do que o seu estudo irá lhes render
em questões de nota.
A HIERARQUIA DAS N ECESSIDADES DE
MASLOW
O que Eleanor Roosevelt, Abraham Lincoln e
Albert Einstein têm em comum? O ponto em
comum, de acordo com um modelo da motiva-
ção criado pelo psicólogo Abraham Maslow, é
que cada um deles satisfez os mais altos níveis
de necessidades motivacionais que subjazem o
comportamento humano.
Autorrealização é um estado
de autossatisfação em que
as pessoas realizam seu
potencia: mais alto, cada
uma a seu modo único.
O modelo de Maslow coloca as necessidades motivacio-
nais em uma hierarquia e sugere que, antes que necessidades
mais sofisticadas e de nível mais alto possam ser satisfeitas,
certas necessidades primárias devem ser sanadas (Maslow,
1970, 1987). Usando uma pirâmide para representar o mo-
delo, Maslow colocou as necessidades mais fundamentais e
de nível mais baixo na base, e as necessidades de nível mais
alto no topo. Para que uma necessidade de alta ordem espe-
cífica direcione o comportamento, uma pessoa deve,
primeiro, satisfazer as necessidades mais básicas
na hierarquia.
. "t As necessidades básicas no modelo de
Maslow são pulsões fisiológicas primárias:
necessidades de água, comida, sono, sexo e
similares. Em seguida, vêm as necessida-
des de segurança; Maslow sugere que as
pessoas precisam de um ambiente seguro
e protegido para funcionar efetivamente.
Após satisfazer as necessidades básicas e
de segurança, uma pessoa pode considerar
satisfazer as necessidades de nível mais alto,
tais como as necessidades de amor e de perten-
cimento, estima e autorrealização.
Imagine, por um instante, que você vive em um
país arrasado pela guerra. Sua
vila sofre ataques de armas
automáticas com base relati-
[
abordagens cognitivas à
motivação Teorias que sugerem
que a motivação é um produto dos
vamente regular, sua água_ foi pensamentos e das expectativas das
envenenada e suas colheitas pessoas - suas cognições.
foram destruídas. Quais dos
Nece:;:;idade:; de nível mais alto
A hierarquia das
necessidades
Autor- de Maslow
realização
Um estado de
autossatisfação
Estima
A necessidade de
desenvolver uma noção
de autovalorização
Amor e pertencimento
A necessidade de obter
amor e dar afeto
Necessidades de segurança
A necessidade de um lugar seguro e protegido
Necessidades fisiológicas
As pulsões primárias: necessidade
de água, comida, sono e sexo.
Necessidades de nível mais baixo
Motivação e Emoção • 20 9
seguintes comportamentos você se
sentirá mais motivado a fazer: en-
contrar um lugar para se proteger
das balas, encontrar o seu amor ver-
dadeiro ou cortar o cabelo? Maslow
supunha que você buscaria abrigo
antes que pudesse se concentrar
em necessidades de nível mais alto,
como o amor e a autoestima.
Necessidades de amor e de per-
tencimento incluem as necessidades
de obter e dar afeto e de ser um mem-
bro contribuinte de algum grupo ou
sociedade. Após satisfazer essas ne-
cessidades, uma pessoa busca estima.
No pensamento de Maslow, a estima
se relaciona à necessidade de desen-
volver um sentido de autovalorização
ao reconhecer que os outros conhe-
cem e valorizam sua competência.
APLICANDO AS
ABORDAGEN S DA
MOT IVAÇÃO
As várias teorias fornecem diver-
sas perspectivas distintas acerca da
motivação. Qual propõe um quadro
mais completo? Na verdade, muitas
das abordagens que consideramos
são complementares, e não con-
traditórias. Empregar mais de uma
abordagem pode nos ajudar a en-
tender a motivação em uma situação
específica.
Assim que esses quatro grupos
de necessidades tiverem sido satisfei-
tos - o que não é tarefa fácil - pode-se
buscar a necessidade de nível mais
alto, a autorrealização. A autorreali-
zação é um estado de autossatisfação
em que as pessoas podem realizar seu
maior potencial, cada uma a seu pró-
Em que lugar da pirâmide de Maslow você colocaria
Considere, por exemplo, o aci-
dente de Aron Ralston, descrito no
início deste capítulo. Seu interesse
em escalar uma área potencialmente
isolada e perigosa pode ser explica-
do p or abordagens da excitação à
motivação. De uma perspectiva cog-
nitiva, reconhecemos sua cuidadosa
consideração de várias estratégias
para se libertar do pedregulho. Mas-
low poderia argumentar que suas
necessidades básicas não estavam
sendo satisfeitas enquanto ele esta-
esses monges Jain, cujas crenças espirituais requerem
uma vida ascética, incluindo uma dieta limitada e o
desapego das pessoas e de suas posses?
prio modo. O importante é que as pessoas se sintam bem com
autorrealização Um estado de )
autossatisfação em que as pessoas
realizam todo o seu potencial, cada
uma a seu próprio modo.
elas mesmas e satisfeitas por
estarem usando o seu talento
ao máximo. De certo modo, o
objetivo da autorrealização é
reduzir a busca e a ânsia por
mais satisfação, que é o que marca a vida de grande parte das
pessoas, e encontrar um sentido de satisfação para a vida (Laas,
2006; Piechowski, 2003; Reiss e Havercamp, 2005).
Apesar de pesquisas não terem validado a ordem espe-
cífica dos estágios de Maslow, e apesar de ser difícil de me-
dir a autorrealização objetivamente, o modelo de Maslow é
importante por dois motivos: ele destaca a complexidade das
necessidades humanas e enfatiza a ideia de que, até que as ne-
cessidades biológicas mais básicas sejam satisfeitas, as pes-
soas se preocuparão menos com necessidades de nível mais
alto. Logo, se as pessoas estão passando fome, seu primeiro
interesse será o de obter comida (Hanley e Abell, 2002; Sa-
mantaray, Srivastava e Misra, 2002).
Da perspectiva de ...
UM EDUCADOR O foco em dar
notas aos alunos pode servir
para diminuir a sua motivação
intrínseca para aprendero
objeto da matéria. O que você
recomendaria para ajudar os alunos a se
reconectarem com sua motivação intrínseca?
2 10 • PSICO
va preso, então ele fez escolhas com
base na motivação de satisfazer suas
necessidades de comida, água e abrigo.
Ou seja, aplicar múltiplas abordagens à motivação em
determinada situação fornece um conhecimento mais amplo
do que poderíamos obter com apenas uma abordagem. Vere-
mos isso novamente quando considerarmos motivos específi-
cos - como as necessidades por comida, realização, afiliação
e poder - e utilizarmos várias teorias para montar um quadro
mais amplo do que motiva o comportamento.
).. D!,~~ d~,~,~~~,~~~d~~"'"
explicações para a motivação (instintiva,
redução de pulsão, excitação, incentivo,
cognitiva e a hierarquia de Maslow).
>> Necessidades humanas e
motivação
Nos Estados Unidos, aproximadamente dez milhões de mu-
lheres (e um milhão de homens) sofrem de transtornos ali-
mentares. Esses transtornos, que costumam surgir durante a
adolescência, podem causar extraordinária perda de peso e
outras formas de deterioração física. Extremamente perigo-
sos, por vezes resultam em morte.
Como diferentes abordagens de motivação poderiam explicar a
decisão de um jovem de se voluntariar para servir no exército?
Por que algumas pessoas estão sujeitas a uma alimen-
tação tão problemática, que se pauta na motivação de evitar
o ganho de peso a qualquer custo? E por que tantas outras
pessoas comem em excesso, levando à obesidade? Parares-
ponder a essas perguntas, devemos considerar algumas das
necessidades específicas que subjazem ao comportamento.
FOME E COMER
Dois terços das pessoas nos Estados Unidos estão acima
do peso, e praticamente um quarto está tão pesado que tem
obesidade, peso corporal que está 20% acima da média para
uma pessoa de determinada altura. E o resto do mundo não
está muito atrás: um bilhão de pessoas ao redor do globo es-
tão acima do peso ou obesas. De acordo com a Organização
Mundial da Saúde, a obesidade ao redor do mundo alcan-
Você sabia?---
Comidas e refrigerantes dietéticos podem
prejudicar sua dieta! Pesquisas indicam que
o consumo de adoçantes artificiais po de
levar ao maior consumo calórico e
ganho de peso (Swithers e Davidson,
2008).
çou proporções epidêmicas, acompanhada por aumentos
em cardiopatia, diabete, câncer e mortes prematuras (Hill,
Catenacci e Wyatt, 2005; Stephenson e Banet-Weiser, 2007).
A medida mais usada para a obesidade é o índice de
massa corporal ( IMC), que se baseia na proporção entre altu-
ra e peso. Pessoas com um IMC maior do que 30 são consi-
deradas obesas, ao passo que aquelas com IMC entre 25 e 30
estão acima do peso.
Fatores biológicos na regulação da fome Ao contrário
dos seres humanos, é improvável que outras espécies desen-
volvam obesidade. Mecanismos internos regulam não ape-
nas a quantidade de comida que elas ingerem, mas também
o tipo de comida que desejam. Por exemplo, ratos que foram
privados de determinados alimentos buscam alternativas que
contêm os nutrientes específicos que estão ausentes em sua
dieta, e muitas espécies, tendo opção por uma ampla gama de
alimentos, selecionam uma dieta bem equilibrada (Bouchard
e Bray, 1996; Jorres e Corp, 2003; Woods et al. , 2000).
Mecanismos complexos dizem aos organismos se eles
precisam de comida ou se deveriam parar de comer. Não se
trata apenas de um estômago vazio que causa desconforto
e um estômago cheio que causa alívio. (Mesmo indivíduos
cujos estômagos foram removidos ainda têm a sensação
da fome.) Um fator importante diz respeito a mudanças na
composição química do sangue. Por exemplo, mudanças no
nível da glicose (um tipo de açúcar) regulam a sensação de
fome. Além disso, o hormônio grelina comunica sensações
de fome ao cérebro (Chapelot et ai., 2004; Teff, Petrova e
Havei, 2007; Wren e Bloom, 2007).
O hipotálamo do cérebro monitora os níveis de glicose.
Um número cada vez maior de evidências sugere que o hipo-
tálamo tem a responsabilida-
de primária de monitorar a ( obesidade Peso corporal que está
ingestão de comida. Lesões 20% acima do peso médio para uma
no hipotálamo podem causar pessoa de dete rminada altura.
consequências radicais para o
comportamento alimentar, dependendo do local onde ocor-
rem. Por exemplo, ratos cujo hipotálamo lateral é danificado
podem literalmente morrer de fome. Eles recusam comida
quando é oferecida e, a menos que sejam alimentados a for-
ça, acabam morrendo. Ratos com uma lesão no hipotálamo
ventromedial apresentam o problema oposto: comem em de-
masia. Ratos com essa lesão podem aumentar seu peso em
até 400%. Fenômenos semelhantes ocorrem com seres hu-
manos que têm tumores no hipotálamo (Seymour, 2006;
Woods e Seeley, 2002; Woods et al., 1998).
Motivação e Emoção • 21 1
Descubra seu índice de massa corporal
Para calcular seu índice de massa corporal, siga estes passos:
1. Indique seu peso em quilos: _ __ kg
2. lndicate sua altura e m metros: _ _ m
3. Divida seu peso (item 1) pela sua altu ra (item 2) ao quadrado.
Esse é o seu índice de massa corporal.
Exemplo: Para uma pessoa que pesa 90 quilos e mede 1,80 m, divida 90 por 1,80 ao quadrado
(90+ 1,802) dá um IMC de 27,7.
1 nterpretação:
• Abaixo do peso = menor do que 18,5
• Peso normal = 18,5-24,9
• Sobrepeso= 25-29,9
• Obesidade = IMC de 30 ou maior
Mantenha em mente que um IMC maior do que 25 pode ou não se dever a excesso de gordura corporal. Por
exemplo, atletas profissionais podem ter pouca gordura, mas pesam mais do que uma pessoa comum, porque
têm maior massa muscular.
Apesar da importante função que o hipotálamo desem-
penha na regulação do consumo de alimentos, a maneira exa-
ta como esse órgão opera ainda não está clara. Uma hipótese
sugere que uma lesão no hipotálamo afeta o ponto de ajuste
do peso, ou nível específico de peso que o corpo busca man-
ponto de ajuste do peso Nível
específico de peso que o corpo
busca manter.
metabolismo A taxa em que a
comida é convertida em energia e
gasta pelo corpo.
ter, o que, por sua vez, regula
a ingestão de comida. Agindo
como forma de termostato in-
terno do peso, o hipotálamo
exige maior ou menor inges-
tão de comida (Berthoud,
2002; Capaldi, 1996; Woods
et al. , 2000).
Na maioria dos casos, o hipotálamo faz um bom traba-
lho. Mesmo pessoas que não estão deliberadamente moni-
torando o próprio peso apresentam apenas pequenas flutua-
ções, apesar das variações diárias na quantidade de comida
que ingerem e de exercícios que praticam. Contudo, uma
lesão no hipotálamo pode alterar o ponto de ajuste do peso,
e a pessoa então precisa lutar para cumprir o objetivo interno
de aumentar ou diminuir o consumo de alimentos. Mesmo a
exposição temporária a certas drogas pode alterar o
ponto de ajuste do peso (Cabanac e Frankhan,
2002; Hallschmid et al., 2004).
Fatores genéticos determinam o pon-
to de ajuste do peso, ao menos em parte.
As pessoas parecem destinadas, devido à
hereditariedade, a ter um metabolismo
particular, a taxa em que a comida é con-
vertida em energia e gasta pelo corpo.
Pessoas com altas taxas metabólicas
podem comer virtualmente tanto
quanto quiserem sem ganhar peso,
ao passo que outras, com baixo me-
tabolismo, podem comer literalmente
212 • PSICO
Pessoas com alta taxa metabólica podem
comer virtualmente tanto quanto
quiserem sem ganhar peso, ao passo que
outros, com baixo metabolismo, podem
comer literalmente a metade disso e
ainda assim ganhar peso prontamente.
a metade disso e ainda assim irão ganhar peso prontamente
(Jequier, 2002; Westerterp, 2006).
Fatores sociais na alimentação Você está jantando com
seus parentes na casa de sua tia e acabou de esvaziar o prato.
Você se sente completamente cheio. De repente, sua tia lhe
passao prato com rosbife e o encoraja a se servir mais uma
vez. Apesar de estar satisfeito e de nem gostar tanto assim de
rosbife, você se serve mais uma vez e come tudo.
Em conj unto com fatores biológicos internos, fatores
sociais externos, baseados em regras sociais e no que os psi-
cólogos descobriram sobre o comportamento alimen-
tar adequado, também desempenham um papel
importante em quando e no quanto comemos.
Pense, por exemplo, no simples fato de que
algumas pessoas costumeiramente tomam
café, almoçam e jantam aproximada-
mente no mesmo horário todos os
dias. Como elas tendem a comer
com horário marcado todos os dias,
elas sentem fome quando a hora
habitual se aproxima, às vezes inde-
pendentemente de sinais internos. Si-
milarmente, elas colocam mais ou menos a mesma
quantidade de comida no prato todos os dias, apesar
da quantidade de exercício que fa-
zem e, consequentemente, da sua
necessidade de reposição de ener-
gia variar de um dia para o outro.
de sobrepeso durante o final da in-
fância (Stettler et al., 2002).
Outros fatores sociais também
se relacionam ao nosso comporta-
mento alimentar. Algumas pessoas
se dirigem à geladeira após um dia
difícil, buscando conforto em um
pote de sorvete. Por quê? Talvez
porque quando crianças seus pais
lhes davam comida quando esta-
vam chateadas. Por fim, elas podem
ter aprendido, por meio dos meca-
nismos básicos de condicionamen-
to clássico e operante, a associar
comida a conforto e consolação.
De modo semelhante, podemos
Até recentemente, as cantinas das escolas serviam muitos
alimentos que tinham índices altos de gordura e de
calorias. Essa situação sem dúvida contribuiu para uma
obesidade infantil epidêmica.Agora as escolas oferecem
também opções mais saudáveis e frescas.
De acordo com a hipótese
do ponto de ajuste do peso, apre-
sença de células de gordura em
excesso como resultado de ganho
de peso no início da infância pode
resultar em um ponto de ajuste
"preso" a um nível mais alto do
que o desejado. Em tais circuns-
tâncias, perder peso torna-se uma
proposição difícil, já que a pessoa
está constantemente indo contra
seu ponto de ajuste interno ao fa-
zer dieta (Freedman, 1995; Lei bel,
Rosenbaum e Hirsch, 1995).
aprender que o ato de comer, que concentra nossa atenção em
prazeres imediatos, fornece uma escapatória de pensamentos
desagradáveis. Consequentemente, podemos comer quando
nos sentimos estressados (Bulik et ai., 2003; Elfhag, Tynelius
e Rasmussen, 2007; O'Connor e O'Connor, 2004).
As raízes da obesidade Visto que tanto os fatores biológi-
cos quanto os sociais influenciam o comportamento alimen-
tar, determinar as causas da obesidade se provou uma tarefa
desafiadora. Pesquisadores seguiram diversos caminhos.
Alguns psicólogos sugerem que a supersensibilidade a
pistas alimentares externas baseadas com fatores sociais, jun-
tamente à insensibilidade a pistas alimentares internas, pro-
duz a obesidade. Outros argumentam que pessoas acima do
peso têm pontos de ajuste do peso mais altos do que outras
pessoas. Como seus pontos de ajuste são excepcionalmente
altos, suas tentativas de perder peso ao comer menos os deixa
especialmente sensíveis a pistas alimentares externas, assim
tomando-os mais propensos a comer em excesso, perpetuan-
do sua obesidade (Tremblay, 2004; West, Harvey-Berino, e
Raczynski, 2004).
Mas por que o ponto de ajuste do peso de tantas pessoas
seria mais alto do que o dos outros? Uma explicação bioló-
gica é a de que esses indivíduos têm um nível mais elevado
do hormônio leptina, que parece ser projetado, de um ponto
de vista evolutivo, para "proteger" o corpo contra a perda de
peso. O sistema de regulação de peso do corpo parece ter
sido projetado mais para se proteger contra a perda do que
contra o ganho de peso. Portanto, é mais fácil ganhar do que
perder peso (Ahiima e Osei, 2004; Levin, 2006; Zhang et
al., 2005).
Outra explicação biologicamente embasada para a obe-
sidade se relaciona às células de gordura no corpo. Começan-
do no nascimento, o corpo armazena gordura aumentando o
número de células de gordura ou aumentando o tamanho das
células de gordura existentes. Além do mais, qualquer perda
de peso após a infância não diminui o número de células de
gordura; afeta apenas o seu tamanho. Consequentemente, as
pessoas estão presas ao número de células de gordura que
herdam desde o nascimento; a taxa de ganho de peso durante
os primeiros quatro meses de vida se relaciona com o ganho
Nem todos concordam com a
explicação do ponto de ajuste para
a obesidade. Apontando para o rápido aumento da obesida-
de ao longo das últimas décadas nos Estados Unidos, alguns
pesquisadores sugerem que o corpo não tenta manter um
ponto de ajuste do peso fixo. Ao invés disso, sugerem eles, o
corpo tem um ponto de acomodação, determinado por uma
combinação de nossa herança genética e do ambiente em que
vivemos. Se alimentos com altos níveis de gordura/açúcar
são prevalentes em nosso ambiente e nós estamos genetica-
mente predispostos à obesidade, nós nos acomodamos em
um equilíbrio que mantém o peso relativamente alto. Por ou-
tro lado, se nosso ambiente é nutritivamente mais saudável,
uma predisposição genética à obesidade não será acionada,
e nos acomodaremos em um equilíbrio em que nosso peso é
menor (Comuzzie e Allison, 1998; Pi-Sunyer, 2003).
Transtornos alimentares Transtornos alimentares estão
entre as 10 causas mais frequentes de deficiência entre mu-
lheres jovens. Um transtorno devastador relacionado ao peso
é a anorexia nervosa. Nessa grave disfunção alimentar, pes-
soas podem se recusar a comer ao mesmo tempo em que ne-
gam que seu comportamento
e sua aparência - que pode
tomar-se esquelética - sejam
incomuns. Cerca de 10% das
pessoas com anorexia literal-
mente se matam de fome
(Striegel-Moore e Bulik,
2007).
anorexia nervosa Transtorno
alimentar grave no qual não é
inco mum que pessoas se recusem
a comer ao mesmo tempo em que
negam seu comportamento e sua
aparência - que pode tornar-se
esquelética.
A anorexia nervosa afeta principalmente mulheres entre
12 e 40 anos, apesar de tanto homens como mulheres de qual-
quer idade poderem desenvolver a doença. Pessoas com esse
transtorno tipicamente vêm de lares estáveis e costumam ser
bem-sucedidas, atraentes e relativamente prósperas. O trans-
torno frequentemente ocorre após uma séria dieta que, de
alguma forma, foge do controle. A vida começa a girar ao re-
dor da comida: embora pessoas com esse transtorno comam
pouco, elas podem até cozinhar para outros, comprar comida
com frequência ou colecionar livros de receita (Myers, 2007;
Polivy, Herman e Boivin, 2005; Reijonen et ai. , 2003).
Um problema relacionado é a bulimia, um transtorno
em que o indivíduo se empanturra com grandes quantidades
Motivação e Emoção • 2 13
bulimia Transtorno em que
uma pessoa faz ingestão de uma
quantidade exagerada de alimentos e
em seguida esforça-se para eliminar
a comida pelo vômito ou por outros
meios.
de comida, consumindo um
pote de sorvete e uma torta in-
teira de uma vez só, por exem-
plo. Após isso, a pessoa sente
culpa e depressão, frequente-
mente induzindo o vômito ou
tomando laxantes para elimi-
nar a comida - um comportamento conhecido como "limpe-
za". Apesar de o peso de uma pessoa com bulimia frequente-
mente permanecer normal, ciclos constantes de compulsão e
"limpeza" e o uso de drogas para induzir o vômito ou diarreia
podem causar problemas de saúde e insuficiência cardíaca
(Couturier e Lock, 2006; Mora-Girai et ai. , 2004).
Exercitar-se em excesso para ficar mais magro é um
transtorno alimentar conhecido como bulimia niío purga-
tiva. Ao contrário das pessoas com anorexia, pessoas com
bulimia não purgativa não controlam opeso recusando-se a
comer. Ao invés disso, elas se focam em eliminar as calorias
que consomem; mas enquanto os indivíduos com bulimia
eliminam calorias vomitando ou usando laxantes, aqueles
que sofrem de bulimia não purgativa as eliminam por meio
de monitoramento e de exercícios físicos com objetivo de
perder cada caloria que consomem. Assim como em outros
transtornos alimentares, pessoas com bulimia não purgativa
podem adquirir uma aparência frágil, doente e, até mesmo,
esquelética, ao mesmo tempo em que se enxergam como al-
guém acima do peso, com medo constante de ingerir mais
calorias do que estão queimando (Abraham et ai. , 2007;
Heywood e McCabe, 2006).
Visto que o exercício costuma ser bom para a saúde, e
muitas pessoas, tais como atletas competitivos, se exerci tam
frequentemente por longos períodos, quando é possível dizer
que o exercício se transforma em transtorno? Um indicador
é o exercício que vai além do benefício, ao ponto em que a
atividade excessiva começa a causar mais danos do que bene-
fícios. Por exemplo, uma pessoa com bulimia não purgativa
pode sofrer lesões esportivas como distensões musculares ou
lesões nas articulações e, mesmo assim, continuar se exerci-
tando, apesar da dor (Hrabosky et ai., 2007).
Outro indicador é uma compulsão em se exercitar - pes-
soas que têm dependência por exercícios tendem a se sentir
ansiosas e culpadas por perder uma sessão de exercícios, e dei-
xam que sua prática de exercícios interfira em seu trabalho e em
sua vida social. Um estudo sugere que é essa compulsão, e não
a quantidade real de exercícios, que indica a presença de um
transtorno (Adkins e Keel, 2005; Hausenblas e Downs, 2002).
pense PSICO
> > > De que forma as expectativas sociais, conforme
transmitidas em programas de televisão e comerciais,
contribuem para a preocupação excessiva com o peso?
Como a televisão pode contribuir para melhorar hábitos
e comportamentos alimentares com relação ao peso? Ela
deveria fazer isso?
214 • PSIC O
pense PSICO
> > > Por que a bulimia não purgativa é considerada um
transtorno alimentar?
Transtornos alimentares representam um problema cada
vez maior: estimativas mostram que entre 1 e 4% das mu-
lheres em idade acadêmica (faculdade) e escolar (ensino
médio) sofrem de anorexia nervosa ou bulimia. Até 10% das
mulheres sofrem de bulimia em algum momento de suas vi-
das. Além disso, um número cada vez maior de homens é
diagnosticado com transtornos alimentares; estima-se que
cerca de 10 a 13% de todos os casos ocorram em homens
(Kaminski et ai., 2005; Park, 2007; Swain, 2006).
Exames cerebrais de pessoas com
transtornos alimentares mostram que elas
processam informações sobre comida de
modo diferente dos indivíduos saudáveis.
Quais as causas da anorexia nervosa e da bulimia? Alguns
pesquisadores suspeitam de causas biológicas, como desequi-
líbrio químico no hipotálamo ou na glândula pituitária, talvez
causadas por fatores genéticos. Além disso, exames cerebrais
de pessoas com transtornos alimentares mostram que elas pro-
cessam informações sobre comida de modo diferente dos indi-
víduos saudáveis (Polivy e Herman, 2002; Santel et ai., 2006).
Outros acreditam que a causa tenha raízes na valorização
atribuída pela sociedade à magreza e à noção paralela de que
a obesidade é indesejável. Esses pesquisadores argumentam
que pessoas com anorexia nervosa e bulimia ficam preocu-
padas com seu peso e levam ao pé da letra a ideia de que
"nunca se está magro demais" . Isso pode explicar por que,
conforme os países ficam mais modernos e ocidentalizados,
e as dietas ficam mais populares, os transtornos alimentares
Você sabia?-----..
Você não precisa malhar na academia para se
beneficiar de exercício moderado. Lavar e encerar
seu carro (45-60 minutos) , cuidar do jardim (30-45
minutos) e lavar janelas (45-60 minutos) são
algumas atividades que pode m assumir o lugar do
seu exercício. Para mais opções e
períodos recomendados de atividade,
vis ite o site do Center for Disease
Control (www.cdc.gov/nccdphp/sgr/
ataglan.htm).
.,...
VOCE ACREDITA?>>>
Perdendo peso com sucesso
Apesar de 60% das pessoas nos Estados Unidos dizerem
que querem perder peso, essa é uma grande luta para a
maioria delas.A maioria das pessoas que faz dieta acaba
recuperando o peso que perdeu, e assim ingressa em uma
dieta depois da outra, acabando presa em um ciclo aparen-
temente sem fim de perda e ganho de peso (Cachelin e
Regan, 2006; Newport e Carrol!, 2002; Parker-Pope, 2003).
Se você quer perder peso, deve manter diversas coisas
em mente (Gatchel e Oordt, 2003; Heshka et ai., 2003):
• Não existe um caminho mais fácil para controlar o peso.
Você terá que fazer mudanças permanentes em sua
vida para perder peso sem recuperá-lo.A estratégia
mais óbvia - cortar a quantidade de comida - é apenas
o primeiro passo de um comprometimento vitalício
para mudar seus hábitos alimentares.
• Registre o que você come e o quanto você pesa. A menos
que você mantenha registros cuidadosos, vai ser difícil
saber o quanto você está comendo e se alguma dieta
está dando resultado.
• Coma alimentos "grandes". Coma alimentos com alto teor
de fibras, mas de baixo teor calórico, como uvas e sopas.
Essas comidas enganam o seu corpo, fazendo-o pensar
que você comeu mais e , portanto, diminuem a fome.
• Diminua a televisão. Uma razão para a epidemia de
obesidade nos Estados Unidos é o número de horas
gastas assistindo à televisão.Assistir à televisão não só
impede outras atividades que consomem calorias (até
mesmo caminhar pela casa ajuda), como as pessoas
frequentemente comem porcarias enquanto estão
sentadas na frente da TV (Hu et ai., 2003).
• Exercício. Exercite-se por, no mínimo, 30 minutos con-
secutivos três vezes na semana. Quando você se exer-
cita, você utiliza gordura armazenada no corpo como
Continuação
combustível para os músculos, o que se mede em calo-
rias. Conforme você usa essa gordura, provavelmente
perde peso. Praticamente qualquer atividade ajuda a
queimar calorias.
• Diminua a influência de estímulos sociais externos em
seu comportamento alimentar. Sirva-se com porções
menores de comida e deixe a mesa antes de ver
o que vai ser servido de sobremesa. Não compre
lanchinhos como doces e salgadinhos; se eles não
estão prontamente disponíveis na dispensa, você não
pode comê-los. Embrulhe alimentos refrigerados
em papel alumínio para que você não possa ver o
conteúdo nem se sentir tentando toda vez que abrir
a geladeira.
• Evite dietas de modismo. Não importa o quão populares
elas sejam em um período específico, dietas extremas,
incluindo dietas líquidas, não costumam funcionar no
longo prazo e podem ser perigosas para sua saúde.
• Evite tomar qualquer uma das inúmeras pílulas para dieta
vendidos na televisão que prometem resultados rápidos e
fáceis.
• Mantenha hábitos alimentares saudáveis. Quando tiver
alcançado seu peso desejado, mantenha os novos hábi-
tos que você aprendeu enquanto fazia dieta para evitar
recuperar todo o peso perdido.
• Estabeleça objetivos razoáveis. Saiba quanto peso você
quer perder antes de começar a fazer dieta. Não tente
perder muito peso rápido demais, ou você vai se con-
denar ao fracasso.Até mesmo mudanças pequenas de
comportamento - tais como caminhar 1 5 minutos por
dia ou comer um pouco menos por refeição - podem
impedir o ganho de peso (Hill et ai., 2003).
Motivação e Emoção • 215
A modelo brasileira Ana
Carolina Reston morreu
aos 21 anos devido
a complicações de
anorexia.Após a morte
de Reston e de outras
modelos, a indústria
da moda começou a
mudar suas normas para
promover uma imagem
mais saudável. O show
de moda em Madri, na
Espanha, requer que
as modelos tenham
um índice de massa
corporal de ao menos18 para participar.
a n drógenos Hormônios sexuais
masculinos secretados pelos
testículos. ) aumentam. Por fim, alguns psicólogos sugerem que os transtornos sejam o resultado
de pais superexigentes ou de
outros problemas familiares (Couturier e Lock, 2006; Grilo
et al., 2003; Nagel e Jones, 1992).
As explicações completas para a anorexia nervosa e a bu-
limia permanecem obscuras. Esses transtornos provavelmen-
te têm causas tanto sociais quanto biológicas, e tratamentos
bem-sucedidos provavelmente abarcam diversas estratégias,
2 16 • PSICO
incluindo terapia e mudanças relacionadas à dieta (O'Brien e
LeBow, 2007; Richard, 2005; Wilson, Grilo e Vitousek, 2007).
Se você ou algum familiar precisar de conselho ou ajuda
com um problema alimentar, entre em contato com o Ambu-
latório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo (FMUSP) em www.ambulin.
org.br. Você pode conseguir mais informações em www.nlm.
nih.gov/medlineplus/eatingdisorders.html.
MOTIVAÇÃO SEXUAL
Comparado ao comportamento sexual de outras espécies, o
comportamento sexual humano é bem complicado, apesar
de a biologia subjacente não ser assim tão diferente da de
espécies relacionadas. Em homens, por exemplo, os testícu-
los começam a secretar andrógenos, que são hormônios se-
xuais que ocorrem em níveis mais elevados em homens, na
puberdade. Os andrógenos não só produzem características
sexuais secundárias, tais como o crescimento de pelos no
corpo e o engrossamento da voz, como também aumentam
o desejo sexual. Como o nível de produção de andrógenos
pelas testes é basicamente constante, os homens são capa-
zes de se engajar (e se interessam por) atividades sexuais
sem preocupação com os ciclos sexuais. Dados os estímu-
los adequados que levam à excitação, os homens podem se
envolver em comportamento sexual a qualquer momento
(Goldstein, 2000).
As mulheres mostram um padrão diferente. Quando
elas alcançam a maturidade na puberdade, os dois ovários
femininos começam a produzir estrógenos e progesterona,
hormônios sexuais que ocorrem em níveis mais elevados nas
mulheres. Contudo, esses hormônios não são produzidos
consistentemente; ao invés disso, sua produção segue um pa-
drão cíclico. A maior produção ocorre durante a ovulação.
quando um óvulo é liberado pelos ovários, tornando a pro-
babilidade de fertilização pelo esperma mais alta. Enquanto
nos animais o período da ovulação é a única época em que a
fêmea é receptiva ao sexo, nos seres humanos isso é diferen-
te. Apesar de haver variações no desejo sexual relatado, as
mulheres são receptivas ao sexo durante todo o ciclo (Lei-
blum e Chivers, 2007).
Masturbação: sexo solitário Se você desse ouvidos aos
médicos 75 anos atrás, eles teriam dito que a masturbação.
a autoestimulação sexual, frequentemente utilizando a mão
para estimular os órgãos genitais, causaria uma grande série
de transtornos físicos e mentais, desde mãos cabeludas até a
insanidade. Se aqueles médicos estivessem certos, contudo, a
maioria de nós estaria usando luvas para esconder nossas pal-
mas cabeludas - já que a masturbação é uma das atividades
sexuais mais praticadas. Nos Estados Unidos, cerca de 94GJ
dos homens e 63% das mulheres já se masturbaram ao menos
uma vez, e, entre estudantes universitários, a frequência varia
de "nunca" até "várias vezes por dia" (Hunt, 197 4; Laqueur.
2003; Michael et al., 1994; Polonsky, 2006).
Apesar da alta incidência de masturbação, a atitude em
relação a ela ainda reflete algumas das visões negativas do
passado. Por exemplo, um levantamento descobriu que cerca
de 10% dos que se masturbavam sentiam c ulpa, e
que 5% dos homens e l % das mulheres consi-
deram seu comportamento pervertido (Arafat
e Cotton, 1974). Apesar dessa atitude negati-
va, contudo, a maioria dos especialistas em
sexo vê a masturbação como uma atividade
sexual saudável e legítima - além de ino-
fensiva. Além disso, vê-se a masturbação
como um meio de aprender sobre a própria
sexualidade e uma forma de descobrir mu-
danças no próprio corpo, como o aparecimen-
to de caroços que podem indicar um câncer (Co-
leman, 2002; Levin, 2007).
Heterossexualidade As pessoas costumam acreditar
que, na primeira vez em que fizerem sexo, terão alcançado
um dos grandes marcos da vida. Contudo, a heterossexuali-
dade, a atração e o comportamento sexual direcionados ao
sexo oposto, consiste em muito mais do que relação sexual
entre homens e mulheres. Beijar, acariciar, massagear e ou-
tras formas de brincadeiras sexuais são todos componentes
do comportamento heterossexual. Ainda assim, a atenção
dos pesquisadores do sexo tem se concentrado no ato sexual,
Visão lateral dos
r •
orgaos sexuais
masculino e feminino
Feminino
\
\
Ovário
, ~~
Utero ~
Osso púbico \_. - ~
Masculino
Ânus
especialmente em termos de sua primeira ocorrên-
cia e frequência (Holtzman e Kulish, 1996;
Janssen, 2007).
Sexo antes do casamento Até recente-
mente, o sexo pré-matrimonial, ao menos
para as mulheres, era considerado um dos
maiores tabus de nossa sociedade. Tradicio-
nalmente, as mulheres em sociedades oci-
dentais foram alertadas de que "meninas boas
não fazem isso"; já os homens ouviram que,
apesar do sexo pré-matrimonial não ser problema
para eles, eles devem casar-se com mulheres virgens.
Essa visão de que fazer sexo antes do casamento é permissível
para os homens, mas não para as mulheres, é chamada de pa-
drão duplo (Treas, 2004; Liang, 2007).
Apesar de a maioria dos adultos nos Estados Unidos já
ter acreditado que o sexo pré-matrimonial era sempre erra-
do, desde aquela época houve
uma mudança dramática na
opinião pública. Por exem-
plo, o percentual de pessoas
de meia-idade que dizem que
"não há nada de errado" com
o sexo antes do casamento au-
mentou consideravelmente, e
cerca de 60% dos norte -ame-
ricanos dizem que não há pro-
blema em se fazer sexo antes
do casamento. Mais da meta-
de diz que morar junto antes
do casamento é moralmente
aceitável (CeF Report, 2001;
Thornton e Young-DeMarco,
2001).
estrógeno Classe de hormônios
sexuais femininos.
progesterona Hormônio sexual
feminino secretado pelos ovários.
ovulação Momento em que um
óvulo é liberado pelos ovários.
masturbação Autoestimulação
sexual.
heterossexualidade Atração e
comportamento sexual direcionados
ao sexo oposto.
padrão duplo Visão de que
faze r sexo antes do casamento é
permissível para homens, mas não
para mulheres.
Mudanças de postura com relação ao sexo pré-matri-
monial foram acompanhadas por mudanças nas taxas atuais
de atividade sexual antes do casamento . Por exemplo, os nú-
meros mais recentes mostram que um pouco mais da metade
das mulheres entre 15 e 19 anos fez sexo antes do casamento.
Esses dados indicam quase o dobro de mulheres na mesma
faixa etária que relatou fazer sexo em 1970. Claramente, a
tendência ao longo das últimas décadas apontou para mai s
mulheres se envolvendo em atividades sexuais pré-matrimo-
niais (Jones, Darroch e Singh, 2005).
Entre homens, também houve um aumento na incidên-
cia de sexo antes do casamento, apesar de a mudança não ter
sido tão drástica quanto foi para as mulheres - provavelmente
porque os índices para homens já eram inicialmente altos. Por
exemplo, os primeiros levantamentos de sexo pré-matrimonial
feitos na década de 1940 indicaram uma incidência de 84%
entre homens de todas as idades; dados recentes colocam esse
número próximo de 95%. Além disso, a média da primeira
experiência sexual dos homens tem diminuído regularmente.
Quase metade dos homens já teve relações sexuais aos 18, e,
quando chegam aos 20, 88% já fizeram sexo. Também existem
diferenças raciaise étnicas: afro-americanos tendem a fazer
sexo pela primeira vez mais cedo do que os porto-riquenhos.
Diferenças raciais e étnicas provavelmente refletem diferen-
Motivação e Emoção • 217
ças em oportunidades socioeconômicas e na estrutura familiar
(Arena, 1984; Singh et ai., 2000).
Sexo marital Julgando pelo número de artigos sobre sexo
em casamentos heterossexuais, poderíamos pensar que o
comportamento sexual é a norma pela qual se mede a feli-
cidade conjugal. Os casais, contudo, estão frequentemente
preocupados por estarem fazendo sexo demais, sexo de me-
nos ou sexo errado (Harvey, Wenzel e Sprecher, 2005).
Apesar de existirem muitas dimensões pelas quais se
mede o sexo no casamento, uma certamente é a frequência de
sexo extraconjugal Atividade
sexual ent re uma pessoa casada e
alguém que não é seu cônjuge.
homossexuais Pessoas que se
sentem sexualmente atraídas por
membros do próprio sexo.
bissexuais Pessoas que se sentem
sexualmente atraídas por pessoas do
mesmo sexo e do sexo oposto.
relações sexuais. Qual é a
normal? Assim como com a
maioria de outras atividades
sexuais, não existe resposta
fáci l para essa pergunta, já
que há grandes variações de
padrão entre os indivíduos.
Sabemos que 43% das pes-
soas casadas fazem sexo algu-
mas vezes por mês, e que
36% fazem de duas a três ve-
zes por semana. Com o aumento da idade e da duração do
casamento, a frequência de sexo diminui. Ainda assim, o
sexo persiste até a velhice, com quase metade das pessoas
relatando que têm relações sexuais ao menos uma vez por
mês e que sua qualidade é alta (Michael et ai. , 1994; Powell,
2006).
Apesar de pesquisas anteriores indicarem que o sexo
extraconjugal está muito difundido, a realidade atual parece
ser bem diferente. De acordo com levantamentos nos Esta-
dos Unidos, 85% das mulheres casadas e mais de 75% dos
homens casados são fiéis aos seus cônjuges. Além disso, o
número médio de parceiros sexuais, intra e extra conjugal
desde os 18 anos, para homens foi de seis e, para as mulheres,
de dois. Acompanhando esses
números, vem um grau alto e
O número de pessoas que escolhe parceiros sexuais do
mesmo sexo em algum momento é considerável. Estimati-
vas sugerem que cerca de 20 a 25% dos homens e cerca de
15% das mulheres tiveram ao menos uma experiência gay
ou lésbica durante a vida adulta. O número exato de pes-
soas que se identificam como exclusivamente homossexuais
se mostrou difícil de medir, com algumas estimativas bai-
xas, como 1, 1 %, e outras mais altas, como 10%. A maioria
dos especialistas sugere que entre 5 e 10% tanto de homens
quanto de mulheres são exclusivamente gays ou lésbicas du-
rante longos períodos de suas vidas (Firestein, 1996; Hunt,
1974; Sells, 1994).
Apesar de as pessoas frequentemente verem a homos-
sexualidade e a heterossexualidade como duas orientações
sexuais completamente distintas, a questão não é tão simples.
Alfred Kinsey, pioneiro pesquisador sexual, reconheceu isso
quando considerou a orientação sexual em uma escala, ou
consistente de desaprovação do
sexo extraconjugal, com nove de
cada 10 pessoas dizendo que é
"sempre" ou "quase sempre" er-
rado (Allan, 2004; Daines, 2006;
Michael et al., 1994 ).
Você pode fazer seu próprio teste acerca do padrão duplo emjulgamen-
Homossexualidade e bisse-
xualidade Os homossexuais
sentem-se sexualmente atraídos
por membros do próprio sexo,
ao passo que os bissexuais
sentem-se sexualmente atraídos
por pessoas do mesmo sexo e
do sexo oposto. Muitos homens
homossexuais preferem o termo
gay, e mulheres homossexuais
preferem lésbica, já que esses
termos referem-se a uma maior
variedade de atitudes e esti los
de vida do que o termo homos-
sexual, que foca o ato sexual.
218 • PSICO
tos de comportamento sexual. Escreva a descrição de
uma pessoa que se chama Pat e do seu comporta-
mento prorrúscuo. Use pronomes e adjetivos
femininos quando se referir a Pat. Digite outra
versão, mudando apenas os pronomes e os
adjetivos (para o masculino). Faça um núme-
ro igual de pessoas ler as versões masculina e
feminina e dar uma nota para Pat em diversas
características (sendo 1 "nada" e 10
"muito"), incluindo a característica
promiscuidade. Então compare a mé-
dia de promiscuidade dos julga-
mentos para a Pat mulher e para o
Pat homem quando eles têm o
mesmo comportamento.
continuum, que varia de "exclusivamente homossexual" a
- exclusivamente heterossexual" com pessoas que apresen-
:am comportamento tanto homossexual quanto heterossexual
;io meio. A abordagem de Kinsey sugere que a orientação
sexual depende dos sentimentos e comportamentos sexuais e
dos sentimentos românticos da pessoa (Weinberg, Williams
ê Pryor, 1991).
O que determina se a pessoa se torna homossexual ou
heterossexual? Apesar de haver diversas teorias, nenhuma se
provou completamente satisfatória.
Algumas explicações para a orientação sexual têm na-
mreza biológica, sugerindo que há causas genéticas. Evi-
dências para a origem genética da orientação sexual vêm de
estudos com gêmeos idênticos, que mostraram que, quando
um dos gêmeos se identificava como homossexual, a ocor-
rência de homossexualidade no outro gêmeo era mais alta do
que na população geral. Tais resultados ocorrem mesmo para
gêmeos que foram separados no início da vida e que, portan-
m, não foram necessariamente criados em ambientes sociais
emelhantes (Gooren, 2006; Hamer et ai., 1993; Kirk, Bailey
e Martin, 2000; Turner, 1995).
Os hormônios também desempenham uma função na
determinação da orientação sexual. Por exemplo, pesquisas
mostram que mulheres que foram expostas ao DES, ou dieti-
lestilbestrol, antes do nascimento (suas mães tomaram o me-
dicamento para evitar o aborto) apresentavam maior proba-
bilidade de ser homossexual ou bissexual (Meyer-Bahlburg,
1997).
Algumas evidências sugerem que diferenças nas estru-
turas cerebrais podem ter relação com a orientação sexual.
Por exemplo, a estrutura do hipotálamo anterior, uma área
do cérebro que regula o comportamento sexual, difere em
homens homossexuais e heterossexuais. Similannente, outra
pesquisa mostra que, comparados com homens ou mulheres
heterossexuais, homens gays têm a comissura anterior, grupo
de neurônios que conectam os hemisférios esquerdo e direito
do cérebro, maior (Byne, 1996; Le Vay, 1993).
Contudo, pesquisas que sugerem que causas biológicas
estão na raiz da homossexualidade não são conclusivas, vis-
to que a maioria dos achados tem base em apenas pequenas
amostras de indivíduos. Ainda assim, existe uma possibili-
e
o ]
Francamente, eu reprimi minha sexualidade por tanto
tempo que até esqueci qual a minha orientação sexual.
õ
u
( J~~s~!~é~ ~~}prob,bWd,de
de serem canhotos do que os
heterossexuais. O fato de sermos
destros ou canhotos é influenciado
por nossos genes, então o achado de
uma correlação entre a mão que
usamos e a orientação sexual sugere
que deve existir alguma base biológica
para a homossexualidade (Lalumiére,
Blanchard e Zucker, 2000).
dade real de que algum fator biológico ou herdado predispo-
nha as pessoas para a homossexualidade, se certas condições
ambientais forem encontradas (Rahman, Kumari e Wilson,
2003; Teodorov et ai. , 2002; Veniegas, 2000).
Poucas evidências sugerem que a orientação sexual seja
causada por práticas de criação ou pela dinâmica familiar.
Apesar de os proponentes de teorias psicanalíticas já terem
defendido que a natureza da relação pai-filho pode produzir a
homossexualidade (por exemplo, Freud, 1922/1959), evidên-
cias de pesquisa não sustentam tais explicações (lsay, 1994;
Roughton, 2002).
Dadas as dificuldades de se encontrar uma explicação
consistente, não podemos responder à pergunta do que de-
termina a orientação sexual. Defato, parece improvável que
exista um único fator que oriente uma pessoa para a homos-
sexualidade ou heterossexual idade. Ao invés disso, parece
razoável presumir que uma combinação de fatores biológicos
e ambientais esteja envolvida (Bem, 1996; Hyde e Grabe,
2008).
Apesar de ainda não sabermos por que as pessoas desen-
volvem certa orientação sexual, uma coisa é certa: não existe
relação entre a orientação sexual e o ajustamento psicológi-
co. Gays, lésbicas e bissexuais geralmente gozam da mes-
ma qualidade de saúde mental e física dos heterossexuais,
apesar da discriminação que eles sofrem poder produzir ín-
dices mais altos de transtornos, como a depressão (Poteat e
Espelage, 2007). Heterossexuais, bissexuais e homossexuais
também têm tipos semelhantes de postura em relação a si
mesmos, independentemente da orientação sexual. Por tais
motivos, a American Psychological Association e a maioria
das outras organizações de saúde mental endossaram es-
forços para reduzir a discriminação contra gays e lésbicas,
tais como revogar a proibição de homossexuais no exército
norte-americano (Cochran, 2000; M01Tis, Waldo e Rothblum,
2001; Perez, DeBord e Bischke, 2000).
Transexualidade Os transexuais são pessoas que acredi-
tam que nasceram com o corpo do gênero oposto. De formas
fundamentais, a transexualidade representa menos uma difi-
culdade sexual, e mais uma questão de gênero envolvendo a
própria identidade do indivíduo (Heath, 2006; Meyerowitz,
2004).
Motivação e Emoção • 219
).. D !~~m~~,~~!~;~~~o sexual se
provaram difíceis de localizar. É importante
conhecer as diversas explicações que foram
propostas.
Às vezes os transexuais buscam operações de mudança
de sexo em que seus genitais são cirurgicamente removidos e
transexuais Pessoas que acreditam
que nasceram com o corpo do
gênero oposto.
necessidade de realização
Característica estável aprendida
em que a pessoa obtém satisfação
ao buscar e atingir um nível de
excelência.
os genitais do sexo desejado
são criados. Diversos passos,
incluindo aconselhamento in-
tensivo e injeção hormonal,
além de ter vivido como
membro do sexo desejado por
diversos anos, precedem a ci-
rurgia, que, como se espera, é
muito complexa. O resultado,
contudo, pode ser muito positivo (Lobato, Koff e Manetini,
2006; O'Keefe e Fox, 2003; Stegerwald e Janson, 2003).
A transexualidade é parte de uma categoria mais am-
pla chamada de transgênero. O termo transgênero abarca
não apenas os transexuais, mas também pessoas que
se veem como um terceiro gênero, travestis (que se
vestem com roupas do sexo oposto) e outros que
acreditam que a classificação tradicional de gênero
homem-mulher é inadequada para caracterizá-los
(Hyde e Grabe, 2008; Prince, 2005).
AS NECESSIDADES DE REALIZAÇÃO,
AFILIAÇÃO E PODER
Apesar de a fome poder ser uma das motivações primá-
rias mais potentes em nossa vida diária, pulsões secundá-
rias poderosas que até o momento não têm base biológica
clara também nos motivam. Entre as mais proeminentes
está a necessidade de realização.
A necessidade de realização A necessidade de rea-
lização é uma característica estável aprendida em que
uma pessoa obtém satisfação buscando e alcançando um
nível de excelência (McClelland et al ., 1953). Pessoas
com grande necessidade de realização buscam situações
em que podem competir contra algum padrão - seja em
notas, dinheiro ou vencendo um jogo - e ser bem-suce-
didas. Mas elas não são indiscriminadas quando se trata
de escolher seus desafios: tendem a evitar situações em
que o sucesso virá muito facilmente (não haveria desafio)
e situações em que é improvável obter sucesso. Ao invés
disso, pessoas com grandes necessidades de realização
geralmente escolhem tarefas que são de dificuldade inter-
mediária (Speirs Neumeister, K. L. e Finch, 2006).
Por outro lado, pessoas com baixa motivação para
realização tendem a se motivar primariamente pelo <lese-
220 • PSICO
jo de evitar o fracasso. Como resultado, elas buscam tarefas
fáceis, certificando-se de evitar fracassos, ou buscam tarefas
muito difíceis para a qual o fracasso não tem implicações ne-
gativas, visto que quase ninguém obteria sucesso de qualquer
modo. Pessoas com grande medo do fracasso se distanciam
de tarefas de dificuldade intermediária, já que podem fracas-
sar onde outros obtiveram sucesso (Martin e Marsh, 2002;
Morrone e Pintrich, 2006; Puca, 2005).
Uma grande necessidade de realização geralmente pro-
duz resultados positivos, ao menos em culturas ocidentais
que são orientadas para o sucesso. Por exemplo, pessoas
motivadas por uma alta necessidade de realização têm maior
probabilidade de ir para a faculdade do que suas contrapartes
(com menor necessidade de realização); e, quando estão na
faculdade, tendem a receber notas mais altas em aulas rela-
cionadas às suas carreiras futuras. Além disso, alta motivação
de realização indica sucesso econômico e profissional futuro
(McClelland, 1985; Thrash e Elliot, 2002).
MEDINDO A MOTIVAÇÃO DE
REALIZAÇÃO
Como podemos medir a necessidade de realização de uma
pessoa? O instrumento de mensuração utilizado com maior
Tocando o vazio
Joe se machuca enquanto
está amarrado a Simon
durante sua descida de Siula
Grande, no Peru. Simon
precisa cortar a corda para
impedir que ambos morram.
Ele acredita que Joe morreu,
mas essa é a história da incrível
motivação de Joe para sobreviver.
O diário de Bridget Jones
Às vezes nós comemos por out ras
razões que não a fome.A personagem principal
desse filme, Bridget Jones, come compulsivamente
quando está deprimida.
Gilbert Grape - aprendiz de sonhador
A mãe de Gilbert sofre preconceito, discriminação
e problemas psicológicos como resultado de sua
obesidade.
Transamérica
Uma mulher transgênero descobre que tem um
filho adolescente de um relacionamento anterior,
e eles se encontram. Ela é o pai ou a mãe dele?
Como o adolescente vai reagi r a isso?
O homem bicentenário
Um robô doméstico recebe uma "atualização"
e aprende sobre a complexidade da emoção
humana.
~ D ~~~~~ti~~,~~e~~ pesso,s com
grande necessidade de realização é que elas
preferem tarefas de dificuldade moderada.
frequência é o Teste de Apercepção Temática (TAT) (Span-
gler, 1992). No TAT, um examinador apresenta uma série de
figuras ambíguas. O examinador pede aos participantes que
escrevam uma história que descreva o que está acontecen-
do, quem são essas pessoas, o que levou a essa situação, o
que as pessoas estão pensando ou o que elas querem, e o que
vai acontecer a seguir. A seguir, os pesquisadores usam um
sistema de pontuação padronizado para determinar a quanti-
dade de imagens de realização nas histórias das pessoas. Por
exemplo, alguém que escreve uma história em que o persona-
gem principal se esforça para derrotar um oponente, estuda
para se sair bem em alguma tarefa, ou dá duro para conseguir
uma promoção mostra sinais claros de orientação para a rea-
lização. Presume-se que a inclusão de tais imagens relativas
à realização nas histórias dos participantes indique um grau
elevado de preocupação com - e portanto uma necessidade
relativamente grande de - realização (Tuerlinckx, DeBoeck
e Lens, 2002).
A necessidade de afiliação São poucos os que escolhem
viver suas vidas como eremitas. Por quê? Um motivo é que a
maioria das pessoas tem uma necessidade de afiliação, um
interesse em estabelecer e manter relacionamentos com ou-
tras pessoas. Indivíduos com grande necessidade de afiliação
escrevem histórias para o TAT que enfatizam o desejo de
manter ou restabelecer amizades e se mostram preocupados
em serem rejeitados pelos amigos.
Pessoas com maiores necessidades de afiliação são par-
ticularmente sensíveis a relacionamentos com outros. Eles
desejamestar com os amigos na maior parte do tempo, e
passam menos tempo sozinhos, comparados com pessoas
com menor necessidade de afiliação. Contudo, o gênero é um
determinante maior de quanto tempo se passa de fato com
os amigos: independentemente da necessidade de afiliação,
estudantes mulheres passam significativamente mais tempo
com os amigos e menos tempo sozinhas do que os estudantes
homens (Cantwell e Andrews, 2002; Johnson, 2004; Semyki-
na e Linz, 2007).
A necessidade de poder Se suas fantasias incluem ser
o Presidente ou ser o dono da Microsoft, seus sonhos po-
dem refletir uma grande necessidade de poder. A necessida-
de de poder, uma tendência de buscar impacto, controle ou
influência sobre os outros, e de ser visto corno um indiví-
duo poderoso, é um tipo adicional de motivação (Lee-Chai e
Bargh, 2001; Winter, 2007; Zians, 2007).
Como se pode esperar, pessoas com grandes necessida-
des de poder apresentam maior probabilidade de pertencer
a organizações e de buscar cargos políticos do que aquelas
pessoas com menor necessidade de poder. Elas também ten-
dem a trabalhar em profissões em que suas necessidades de
poder possam ser satisfeitas, tais como a administração de
empresas e - você pode se surpreender - o ensino (Jenkins,
1994). Além disso, elas buscam exibir o visual do poder.
Mesmo na faculdade, é mais provável que elas tenham pos-
ses prestigiadas, como equipamentos eletrônicos e carros
esportivos.
>> Compreendendo
experiências emocionais
Seja em um ou em outro momento, todos j á sentimos fortes
sensações que acompanham
experiências tanto prazero-
sas quanto negativas. Talvez
tenhamos sentido a excitação
de conseguir aquele emprego
que tanto queríamos, a alegria
de estarmos apaixonados,
a tristeza pela morte de
um ente querido ou a an-
n ecessidade d e afiliação
Interesse em estabelecer e manter
relações com out ras pessoas.
necessidade de poder Tendência
de buscar impacto, controle ou
influência sobre os outros, e de ser
visto como um indivíduo poderoso.
gústia de inadvertidamente magoarmos alguém. Além
disso, sentimos tais reações em um nível menos intenso
ao longo de nossas vidas cotidianas: o prazer da amizade,
a diversão em um filme e a vergonha de quebrar algo que
pegamos emprestado.
Como o gênero se cor relaciona com a necessidade de afiliação?
Motivação e Emoção • 221
Da perspectiva de ...
UM ORIENTADOR ACAD~MICO
Como você poderia usar
características como a
necessidade de realização,
a necessidade de poder e a
necessidade de afiliação para falar com
seus alunos sobre carreiras de sucesso? Que critérios
adicionais você precisaria considerar?
Apesar da natureza variada desses sentimentos, todos
eles representam emoções. Embora todos tenham uma ideia
do que é uma emoção, definir formalmente o conceito se pro-
vou uma tarefa difícil. Aqui, usaremos uma definição geral:
emoções são sentimentos que geralmente têm elementos tan-
to fisiológicos como cognitivos que influenciam o comporta-
]
rnento.
emoções Sentimentos que Pense, por exemplo, so-
geralmente têm elementos tanto bre corno é estar feliz. Primei-
fisiológicos quanto cognitivos e que ro, nós obviamente sentimos
influenciam o comportamento. . d
um sentimento que po ernos
diferenciar das outras emoções. É provável que também sin-
tamos algumas mudanças físicas identificáveis em nossos
corpos: talvez a frequência cardíaca acelere ou comecemos a
"pular de alegria". Por fim, a emoção provavelmente abarca
elementos cognitivos: nossa compreensão e avaliação do sig-
nificado do que está acontecendo instiga nossos sentimentos
de felicidade.
Podemos, contudo, também sentir uma emoção sem a
presença dos elementos cognitivos. Por exemplo, podemos
reagir com medo a uma situação incomum ou nova (tal como
entrar em contato com um indivíduo errático e imprevisível),
ou podemos sentir prazer devido a uma excitação sexual sem
termos consciência ou compreensão cognitiva do que é exci-
tante nessa situação.
AS FUNÇÕES DAS EMOÇÕES
Imagine como seria se nós não experienciássemos emoções -
não sentiríamos desespero, depressão ou remorso - mas tam-
bém não sentiríamos felicidade, alegria ou amor. Obviamente,
a vida seria consideravelmente menos satisfatória, até mesmo
chata, se não tivéssemos a capacidade de sentir e expres-
sar emoções.
Mas qual o propósito das emoções, além de
tornar a vida interessante? Os psicólogos identi-
ficaram diversas funções importantes que as
emoções têm em nossas vidas (Frederick-
son e Branigan, 2005; Frijda, 2005; Gross,
2006; Siemer, Mauss e Gross, 2007). Entre
as mais importantes estão:
• Preparar para agir. As emoções agem
como uma ligação entre eventos em
nosso ambiente e nossas respostas. Se
você visse um cachorro raivoso cor-
222 • PSICO
rendo em sua direção, sua reação emocional (medo) es-
taria associada à excitação psicológica da divisão simpá-
tica do sistema nervoso autônomo, a ativação da resposta
de "luta ou fuga".
• Modelar nosso comportamento futuro. As emoções pro-
movem consciência que nos ajuda dar as respostas ade-
quadas. Por exemplo, sua resposta emocional a eventos
desagradáveis o ensina a evitar circunstâncias semelhan-
tes no futuro.
• Ajudar a interagir mais efetivamente com os outros.
Frequentemente comunicamos as emoções que sentimos
por meio de nossos comportamentos verbal e não verbal,
tornando nossas emoções óbvias para os observadores.
Esses comportamentos podem agir como um sinal para
os observadores, permitindo que eles entendam o que
estamos sentindo e ajudando-os a prever nosso compor-
tamento futuro.
DETERMINANDO A EXTEN SÃO DAS
EMOÇÕES
Se tivéssemos que listar as palavras que foram usadas para
descrever emoções, acabaríamos com pelo menos 500 exem-
plos (Averill , 1975). A lista variaria desde emoções óbvias
como felicidade e medo até as menos comuns, como empre-
endedorismo e melancolia.
Um desafio para os psicólogos foi o de anal isar essa lista
para identificar as emoções fundamentais mais importantes.
Os teóricos já tiveram discussões acaloradas quanto
a catalogar as emoções e criaram diferentes listas, depen-
dendo de como definem o conceito de emoção. Na verdade.
alguns rejeitam essa questão inteiramente, dizendo que ne-
nhum conjunto de emoções deveria ser indicado como o
mais básico, e que as emoções são mais bem compreendidas
quando divididas em suas partes componentes. Outros pes-
quisadores defendem que se deve olhar para as emoções em
termos de hierarquia, dividindo-as em categorias positivas
e negativas, e depois as organizando em subcategorias cada
vez mais reduzidas (Dillard e Shen, 2007; Manstead, Frijda
e Fischer, 2003).
Ainda assim, a maioria dos pesquisadores sugere que
uma lista de emoções básicas incluiria, no mínimo, feli-
cidade, raiva, medo, tristeza e nojo. Outras listas são mais
amplas, incluindo emoções como surpresa, desprezo, culpa
e alegria (Ekman, 1994a; Shweder e Heidt, 1994; Tracy e
Robins, 2004).
Uma dificuldade de definir um conjunto básico de emo-
ções é que podem existir diferenças significativas nas for-
mas como as várias culturas sentem e expressam as
emoções. Por exemplo, os alemães falam
em Schadenfreude, uma sensação de pra-
zer pelas dificuldades de outra pessoa, e
os japoneses sentem o hagaii, um humor de
aflição temperado com frustração. No Taiti.
musu refere-se a um sentimento de relutância
em ceder às demandas insensatas dos pais.
Encontrar Schadenfreude, hagaii
ou musu em uma cultura específica
Emoções
A hierarquia
das emoções
Positivas
/\
o
"'
"'
Amor Alegria Raiva Medo
Af,/ \ Fellcl/ ~lha Aboc(/,S~\ ,J \ Agi) cl,\
Paixão Contentamento cimento Hostilidade Ciúme Ansiedade Aflição Solldao
não significa que os membros de outras culturas não sejamcapazes de sentir essas emoções. Mas sugere, contudo, que
encaixar uma sensação específica em uma categoria linguís-
tica para descrever essa emoção pode facilitar discuti-la, con-
1emplá-la e, até, senti-la (Li, Wang e Fischer, 2004; Kuppens
et ai., 2006; Russell e Sato, 1995).
AS RAÍZES DAS EMOÇÕES
Eu nunca fiquei tão brabo antes. Sinto meu coração martelar,
e estou tremendo todo ... Eu não sei como vou me apresentar
assim; é como se o meu estômago estivesse cheio de borbole-
ras ... Aquilo foi um erro! Meu rosto deve estar incrivelmente
\·ermelho ... Quando eu ouvi aqueles passos de noite, fique i
tão assustada que nem conseguia respirar.
Se você examinar a nossa língua, vai perceber que exis-
tem literalmente dezenas de formas de descrever como nos
entimos quando vivenciamos uma emoção. A linguagem
que usamos para descrever emoções é, em grande parte, ba-
eada em sintomas físicos que estão associados a uma expe-
pense PSICO
> > > Se os pesquisadores aprendessem como contro-
lar respostas emocionais para que emoções específicas
pudessem ser causadas ou impedidas, que emoções você
acha que as pessoas gostariam de evitar? E de sentir com
mais frequência? Como esse tipo de controle sobre as
emoções afetaria as pessoas como indivíduos? E como
membros de um grupo1
riência emocional específica (Kobayashi, Schallert e Ogren,
2003; Manstead e Wagner, 2004; Spackman, Fujiki e Brin-
ton, 2006).
Considere, por exemplo, a sensação de medo. Imagine
que já está tarde no Réveillon. Você está andando por uma
rua escura e ouve passos vindos de atrás. Está claro que a
pessoa que está se aproximando não está tentando ultrapassá-
-lo, mas sim o seguindo. Você pensa no que vai fazer se o
estranho tentar roubá-lo, ou pior, se tentar machucá-lo.
Enquanto esses pensamentos estiverem passando pela
sua cabeça, algo diferente estará acontecendo com o seu
corpo. As reações mais prováveis, que estão associadas à ati-
vação do sistema nervoso autônomo, incluem um aumento
em sua frequência respiratória, uma aceleração de sua fre-
quência cardíaca, a dilatação de suas pupilas (para aumentar
a sensibilidade visual) e uma secura em sua boca, já que a
função de suas glândulas salivares - e, de fato, de todo o seu
sistema digestivo - fica drasticamente mais lenta. Ao mesmo
tempo, contudo, suas g lândulas sudoríparas provavelmen-
te tornam-se mais ativas, já que o suor ajuda a se livrar do
excesso de calor produzido em resposta a uma atividade de
emergência.
É claro, todas essas mudanças fisiológicas provavelmen-
te ocorrem sem a sua consciência. Ao mesmo tempo, contu-
do, a experiência emocional que as acompanha será óbvia
para você: certamente você diria que está com medo.
Apesar de ser fácil descrever as reações fís icas que
acompanham as emoções, definir o papel específico que
as respostas fisiológicas desempenham na experiência de
emoções mostrou-se um grande enigma para os psicólogos.
Como veremos, alguns teóricos sugerem que reações corpo-
rais específicas fazem com que sintamos uma emoção parti-
cular - sentimos medo, por exemplo, porque o coração está
batendo forte e estamos respirando profundamente. Por outro
lado, outros teóricos sugerem que a reação fisiológica resulta
Motivação e Emoção • 223
Teoria de James-Lange
Ativação de mudanças Cérebro interpreta ) mudanças viscerais como corporais viscerais
experiência emocional
Teoria de Cannon-Bard Ativação de mudanças
~ corporais em resposta ao cérebro Ativação do tálamo
~ Mensagem para o córtex em relação à
experiência emocional
Teoria de Schachter-Singer
da experiência das emoções. Nessa visão, sentimos medo e,
como resultado, nosso coração bate forte e nossa frequência
respiratória aumenta.
A teoria da emoção de James-Lange William James e
Carl Lange foram dois dos primeiros pesquisadores a explo-
teor ia da emoção de James-
-Lange Ideia de que a experiência
emocional é uma reação a eventos
corporais que ocorrem como re-
sultado de uma situação externa
("Eu me sinto triste porque estou
chorando").
rar a natureza das emoções .
James e Lange caracterizaram
a experiência emocional
como uma reação a eventos
corporais reflexos que ocor-
rem (de forma reflexa) em
resposta a alguma situação ou
evento no ambiente. Essa vi-
são é resumida na afirmação de James, "nós ficamos tristes
porque choramos, brabos porque batemos, com medo porque
trememos" (James, 1890).
James e Lange sugeriram que chorar por uma perda nos
faz sentir pesar, que bater em alguém que nos frustra resulta
em nossos sentimentos de raiva, que tremer diante de uma
ameaça nos faz sentir medo. Nessa visão, para cada gran-
de emoção existe uma reação fisiológica correspondente dos
nossos órgãos internos - chamada de experiência visceral.
É este padrão específico de resposta visceral que nos leva a
identificar uma experiência emocional.
Em suma, James e Lange propuseram que nós experien-
ciamos emoções como resultado das mudanças fisiológicas
que produzem sensações específicas. O cérebro interpre-
ta essas sensações como tipos específicos de experiências
emocionais. Essa visão passou a ser chamada de teoria da
emoção de James-Lange (Cabos et al. , 2002; Laird e Bres-
ler, 1990).
A teoria de James-Lange tem algumas limitações sé-
rias. Para a teoria ser válida, as mudanças viscerais deveriam
224 • PSICO
Ativação de excitação Três teorias
fisiológ ica geral
da emoção ~
Observação de pistas Determinação do rótulo a ser ) dado à sensação, identificando ambientais a experiência emocional
ocorrer relativamente rápido, visto que sentimos algumas
emoções - tais como medo quando ouvimos um estranho
aproximar-se rapidamente em uma noite escura - quase
instantaneamente. Ainda assim, experiências emocionai
frequentemente ocorrem mesmo antes de certas mudança
fisiológicas acontecerem. Se ao atravessar a rua você é quase
atropelado por um carro que ultrapassou o sinal vennelho, o
aumento dos batimentos cardíacos e a respiração acelerada
que acompanham o medo poderão ser sentidos somente de-
pois de você ter conseguido escapar do atropelamento. Devi-
do à lentidão com que algumas mudanças viscerais ocorrem.
é difícil entender como elas poderiam ser uma fonte de expe-
riência emocional imediata.
A teoria de James-Lange apresenta outra dificuldade: a
excitação fisiológica não produz experiência emocional in-
variavelmente. Por exemplo, uma pessoa que está correndo
tem frequência cardíaca e respiratória aumentadas, assim
como muitas outras mudanças fisiológicas associadas com
certas emoções. Ainda assim, os corredores não costumam
pensar em tais mudanças em termos de emoção. Não pode
haver, portanto, uma correspondência de um para um entre
mudanças viscerais e a experiência emocional. Mudanças
viscerais por si só podem não ser o suficiente para produzir
emoção.
Por fim, nossos órgãos internos produzem uma variação
relativamente limitada de sensações. Apesar de alguns tipo
de mudanças fisiológicas estarem associados a experiências
emocionais específicas, é difícil imaginar como cada uma
das inúmeras emoções que as pessoas são capazes de sentir
pode ser o resultado de uma mudança visceral única. Na ver-
dade, muitas emoções estão associadas a tipos relativamente
semelhantes de mudanças viscerais, um fato que contradiz a
teoria de James-Lange (Cameron, 2002; Davidson, Deuser e
Stemberg, 1994).
A teoria de Cannon-Ba rd Em resposta às dificuldades
:nerentes da teoria de James-Lange, Walter Cannon e, poste-
:iormente, Philip Bard sugeriram uma visão alternativa. Tal
\ isão ficou conhecida como a teoria da emoção de Cannon-
-Bard (Cannon, 1929), e, nela, os autores rejeitaram a visão
de que a simples excitação fisiológica leva à percepção de
emoção. Ao invés disso, a teoria presume que tanto a excita-~ão fisiológica quanto a experiência emocional são produzi-
das simultaneamente pelo mesmo estímulo nervoso, que,
conforme Cannon e Bard sugeriram, emana do tálamo no
cérebro.
A teoria afirma que, após percebermos um estímulo
produtor de emoção, o tálamo é o local inicial da resposta
emocional . A seguir, o tálamo e nvia um sinal para o sistema
.iervoso autônomo, assim produzindo uma resposta visceral.
Ao mesmo tempo, o tálamo também comunica uma mensa-
=em para o córtex cerebral relacionada à natureza da emoção
que está sendo experienciada. Logo, não é necessário que di-
ferentes emoções tenham padrões fisiológicos singulares as-
,ociados a elas, contanto que a mensagem enviada ao córtex
cerebral se diferencie de acordo com a emoção específica.
A teoria de Cannon-Bard parece estar correta ao rejei-
tar a visão de que apenas a excitação fisiológica explica as
emoções. Mas pesquisas mais recentes levaram a algumas
:nodificações importantes na teoria. Por exemplo, agora en-
.endemos que o hipotálamo e o sistema límbico, e não o tála-
mo, têm uma papel fundamental na experiência emocional.
Além disso, a ocorrência simultânea das respostas fisiológica
e emocional, que é um pressuposto fundamental da teoria de
Cannon-Bard, ainda precisa ser demonstrada de forma con-
clusiva. Essa ambiguidade abriu espaço para ainda mais uma
teoria das emoções: a teoria de Schachter-Singer.
A teoria d e Schachter-Singer Imagine que, conforme
,·ocê está sendo seguido naquela rua escura no Réveillon,
,·ocê percebe que um homem do outro lado da rua está sendo
eguido por outra pessoa suspeita. O homem se vira e vê o
eu perseguidor. Agora imagine que, ao invés de reagir com
medo, o homem começa a rir e a parecer alegre. A reação
dele faria com que você tivesse menos medo? Você poderia
decidir que não há nada a temer, e começar a se sentir mais
alegre?
De acordo com uma explicação, que foca o papel da
cognição, a teor ia da emoção de Schachter-Singer, i sso
pode muito bem acontecer. Essa abordagem para explicar as
emoções enfatiza que identificamos a emoção que estamos
entindo ao observarmos o nosso ambiente e nos comparar-
mos com os outros (Schachter e Singer, 1962).
O experimento clássico de Schachter e Singer encontrou
evidências para essa hipótese. No estudo, metade dos partici-
pantes ouviu que precisaria receber uma injeção de vitamina,
e a outra metade ouviu que receberia uma injeção de epine-
frina. Na realidade, todos receberam epinefrina, um remédio
que causa um aumento na excitação fisiológica, incluindo
taxas mais e levadas de respiração e frequência cardíaca e
uma ruborização da face, respostas que tipicamente ocorrem
durante reações emocionais fortes. Os membros de ambos
os grupos, então, foram alocados individualmente em uma
situação em que um colaborador do experimentador agia de
uma entre duas formas. Em uma condição, ele agia como se
estivesse brabo ou hostil, e, na outra condição, como se esti-
vesse incrivelmente feliz.
O propósito do experimento era determinar como os par-
ticipantes reagiriam emocio-
nalmente ao comportamento
do colaborador. Quando lhes
era pedido que descrevessem
seu próprio estado emocional
ao fim do experimento , os
participantes que acreditavam
que haviam recebido vitami-
nas e que foram expostos ao
colaborador brabo tendiam a
relatar que se sentiam brabos,
ao passo que aqueles que fo.
ram expostos ao colaborador
fe liz tendiam a relatar uma
teoria da emoção de
Cannon-Bard Visão de que
tanto a excitação fisiológica quanto
a experiência emocional são
simultaneamente produzidas pelo
mesmo estímulo nervoso.
teoria da emoção de
Schachter-Singer Ideia de que
as emoções são determinadas
conjuntamente por um tipo não
específico de excitação fisiológica e
sua interpretação, baseada em pistas
do ambiente.
sensação de felicidade. Aqueles que sabiam que haviam to-
mado epinefrina tendiam a relatar simplesmente sentir os
efeitos da injeção. E m suma, os resultados sugerem que os
participantes que achavam que tinham recebido vitaminas
recorriam ao ambiente e ao comportamento dos outros para
buscar uma explicação para a excitação fisiológica que esta-
vam sentindo.
Os resultados do experimento de Schachter-Singer, por-
tanto, apoiam uma visão cognitiva das emoções, em que as
emoções são conjuntamente determi nadas por um tipo rela-
tivamente não específico de excitação fisiológica e pela ro-
tulação daquela excitação com base em pistas do ambiente.
Pesquisas posteriores encontraram que a excitação não é tão
" não específica" como Schachter and Singer presumiram.
Quando a fonte de excitação fisiológica não está clara, con-
tudo, podemos olhar para nossos arredores para determinar
exatamente o que estamos sentindo.
Ente nde ndo as múltiplas pe rspe ctiva s sobre a e mo-
ção Conforme novas abordagens à emoção continuam a se
desenvolver, é razoável se perguntar por que tantas teorias
sobre a emoção existem, e, talvez ainda mais importante,
qual delas fornece a explicação mais completa. Na verdade,
essa é apenas a ponta do iceberg. Existem quase tantas teo-
rias explicativas quanto emoções individuais (por exemplo,
DeCoster, 2003; Frijda, 2005; Manstead, Frijda e Fischer,
2003; Prinz, 2007).
~ D!~~, ~~,~~~~~~,k~"
emoção Oames-Lange, Cannon-Bard e
Schachter-Singer).
Motivação e Emoção • 225
Da perspectiva de ... safiam cada abordagem, e assim nenhuma teoria se provou
invariavelmente certa em suas previsões.
UM PUBLICITÁRIO Como você poderia usar
esses achados de Schachter e Singer sobre
a rotulação da excitação para criar interesse
em um produto?Você consegue pensar
Essa abundância de perspectivas sobre a emoção
não é motivo para desespero - ou tristeza, medo, ou
-!:!~;:-!:=:~~ qualquer outra emoção negativa. Isso simplesmente re-
- flete o fato de que a psicologia é uma ciência que está
em outras formas de manipular o nível de
excitação das pessoas para evocar respostas emocionais
diferentes/
Até o momento, não existe uma teoria
única que possa explicar por completo
todas as facetas da experiência emocional.
Por que existem tantas teorias sobre as emoções? Para
começo de conversa, as emoções não são um fenômeno sim-
ples, estando na verdade intimamente ligadas à motivação,
à cognição, à neurociência e a outras áreas relacionadas da
psicologia. Por exemplo, evidências provenientes de estudos
de imagem cerebral mostram que, mesmo quando as pessoas
tomam decisões racionais, não emocionais - tais como jul-
gamentos filosóficos e morais - , as emoções ainda desempe-
nham um papel (Greene et al., 2001 ).
Ou seja, as emoções são fenômenos complexos, que
abarcam tanto aspectos biológicos quanto cognitivos, e, até o
momento, não existe uma teoria única que possa explicar por
comple to todas as facetas da experiência emocional. Além
disso, evidências contraditórias de um tipo ou de outro de-
evoluindo e se desenvolvendo. À medida que coletamo
mais evidências, as respostas específicas para as perguntas
sobre a natureza das emoções ficarão mais claras.
DIFEREN ÇAS CU LTU RAIS N AS
EX PRESSÕES DE EMOÇÃO
Considere, por um momento, as seis fotos exibidas abaixo.
Você consegue identificar as emoções expressas pela pe -
soa em cada uma delas? ão é preciso ser um especialista
em expressões faciais para ver que essas expressões exibem
seis das emoções básicas: felicidade, raiva, tristeza, surpresa.
nojo e medo. Centenas de estudos sobre comportamento não
verbal mostram que essas emoções são consistentemente dis-
tintas e identificáveis, mesmo por observadores não treinado
(Ekman e O' Sullivan, 199 1 ).
Curiosamente, essas seis emoções não são exatamente
únicas à cultura ocidental; pelo contrário, constituem as emo-
ções humanas básicas que são expressas universalmente, in-
dependentementede onde os indivíduos tenham sido criado
e de que experiências de aprendizagem eles tenham tido. O
psicólogo Paul Ekman mostrou essa questão de forma con-
vincente quando estudou os membros de uma tribo isolada
nas selvas da Nova Guiné, os quais praticamente não tinham
tido contato com ocidentais (Ekman, 1972). Os membro
dessa tribo não falavam nem entendiam inglês, jamais ha-
Expressões de seis emoções básicas: raiva, medo, nojo, surpresa, felicidade e tristeza.
226 • PSICO
pense PSICO
Detectando mentiras
> > > Se você pudesse mentir, sabendo que não sofre-
ria consequências, você o faria? Se sim, sobre o que você
mentiria? Quem você gostaria de enganar? Existem bene-
fícios para os seres humanos, como uma espécie, devido à
nossa habilidade de mentir?
Aceite o desafio PSICO!Teste sua habilidade de identi-
ficar um mentiroso completando a atividade sobre detec-
tar engodos. Depois responda à questão 1 1 do Pop Quiz
na p. 229 a respeito desse exercício.
viam visto um filme e tinham tido muito poucas experiências
com caucasianos antes da chegada de Ekman. Ainda assim,
suas respostas não verbais a histórias que evocavam emo-
ções, assim como as formas como identificavam as emoções
básicas, eram muito semelhantes às dos ocidentais.
Estando tão isolados, os neo-guineenses não poderiam
ter aprendido com os ocidentais a reconhecer ou produzir ex-
pressões faciais similares. Em vez disso, suas semelhantes
habilidades e formas de responder emocionalmente parecem
ser inatas. Apesar de ser possível argumentar que experiên-
cias semelhantes em ambas as culturas levaram os membros
de cada uma a adotar tipos de comportamento não verbal
semelhantes, isso parece ser improvável, visto que as duas
culturas são muito distintas. A expressão das emoções mais
básicas, portanto, parece ser universal (Ekman, 1994b; Izard,
l 994; Matsumoto, 2002).
Por que as pessoas em diferentes culturas expressam as
emoções de maneira semelhante? Uma hipótese, conhecida
como o programa de afeto facial, fornece uma explica-
ção. O programa de afeto facial - que se acredita que esteja
universalmente presente desde o nascimento - é análogo
"E o que exatamente você quer dizer com essa expressão?"
a um programa de computador que é ligado quando urna
emoção particular é experienciada. Quando está em fun-
cionamento, o "programa" ativa um conjunto de impulsos
nervosos que faz o rosto exibir uma expressão adequada.
Cada emoção primária produz um conjunto único de mo-
vimentos musculares, formando diferentes tipos de expres-
são. Por exemplo, a emoção da felicidade é universalmente
expressa pelo movimento de um músculo que levanta os
cantos da boca - formando o que chamaríamos de sorri-
so (Ek.man, 2003; Ekman, Davidson e Friesen, 1990; Kim,
Kim e Kim 2007; Kohler e t al. , 2004).
A importância das expresses faciais é ilustrada por uma
ideia intrigante, conhecida como a hipótese do feedback
facial. De acordo com essa hipótese, as expressões faciais
não só refletem uma experiên-
cia emocional, mas também
ajudam a determinar como as
pessoas sentem e rotulam as
emoções (lzard, 1990). Basi-
camente, "trajar" uma expres-
são emocional fornece uma
resposta muscular para o cé-
rebro que ajuda a produzir
uma emoção congruente com
aquela expressão. Por exem-
plo, os músculos a tivados
programa de afeto facial A
ativação de um conjunto de
impulsos nervosos que faz o rosto
exibir a expressão adequada.
hipótese do feedback facial A
hipótese de que as expressões
faciais não apenas refletem uma
experiência emocional, como
também ajudam a determinar como
as pessoas sentem e rotulam as
emoções.
quando sorrimos podem enviar uma mensagem ao cérebro
indicando a sensação de felicidade - mesmo que não exista
nada no ambiente que poderia produzir aquela emoção espe-
cífica. Alguns teóricos foram além, sugerindo que as expres-
sões faciais são necessárias para que se sinta uma emoção
(Rinn, 1984, 1991 ). De acordo com essa visão em sua forma
extrema, se a expressão facial não estiver presente, a emoção
não será sentida.
O apoio para a hipótese do feedback facial vem de um
experimento clássico realizado pelo psicólogo Paul Ek.man e
seus colaboradores (Ekman, Levenson e Friesen, l 983). No
estudo, pediu-se que atores profissionais seguissem instru-
ções bem explícitas com relação ao movimento dos músculos
de seus rostos. Você mesmo pode tentar esse exemplo:
• Erga as sobrancelhas e as aproxime.
Você sabia?----....
O seu rosto pode entregá-lo quando você
mente! Certas microexpressões
( expressões que passam tão rapidamente
que praticamente não podem ser
controladas) foram associadas com a
mentira.Treinar policiais e seguranças a
ler microexpressões pode ser um
método mais confiável de identificar
mentirosos do que o velho polígrafo
(Andersen, 2005).
Motivação e Emoção • 227
• Levante as pálpebras superiores.
• Agora estique seus lábios horizontalmente para trás, na
direção de suas orelhas.
- a frequência cardíaca dos atores subiu e sua temperatura
corporal caiu, reações fisiológicas que caracterizam o medo.
Ao todo, as expressões faciais que representam as emoções
primárias produziram efeitos fisiológicos semelhantes aos
que acompanhavam as emoções genuínas em outras circuns-
tâncias (Keillor et al., 2002; Soussignan, 2002).
Após realizar esses comandos - que, como você pode
ter adivinhado, servem para produzir uma expressão de medo
Para
-REVISAO >>
228 • PSICO
• O que é a motivação e como ela influencia o comportamento?
A motivação se relaciona a fatores que orientam e energizam o
comportamento. Pulsões são tensões motivacionais que orientam o
comportamento de modo a satisfazer uma necessidade.Abordagens
da excitação sugerem que tentamos manter um nível particular de
estimulação e atividade.Abordagens do incentivo se focam nos aspectos
posit ivos do ambiente que direcionam e energizam o comportamento.
Abordagens cognitivas concentram-se no papel dos pensamentos, das
expectativas e da compreensão do mundo para a produção de motivação.
A hierarquia das necessidades de Maslow inclui necessidades fisiológicas,
de segurança, de amor, de pertencimento, de estima e de autorrealização.
Somente após as necessidades mais básicas terem sido satisfeitas é que se
pode buscar satisfazer necessidades de nível mais alto. (p. 206-21 O)
• Que fatores afetam a fome e o comportamento sexual?
O comportamento alimentar é motivado por fatores sociais e biológicos.
O hipotálamo no cérebro parece regular a ingestão de comida. Fatores
sociais, tais como o horário da refeição, preferências culturais por
comida e outros hábitos aprendidos, também desempenham uma função
na regulação da al imentação, determinando quando, o que e o quanto
se come. Uma supersensibilidade a pistas sociais e uma insensibilidade
a pistas internas podem contribuir para a obesidade.Além disso, a
obesidade pode ser causada por um ponto de ajuste de peso - o peso
que o corpo tenta manter - demasiadamente alto e por fatores genéticos.
O comportamento sexual tem uma base biológica, mas praticamente
qualquer tipo de estímulo pode produzir excitação sexual, dependendo da
experiência prévia da pessoa. O autoestímulo, ou masturbação, é uma das
atividades sexuais mais praticadas. Posturas com relação à masturbação
foram tradicionalmente negativas, apesar de não terem sido detectadas
consequências negativas.A heterossexualidade é a orientação sexual mais
comum, apesar do número de pessoas que escolhe parceiros sexuais do
mesmo sexo em algum momento ser considerável. Estima-se que S a 10%
dos homens e das mulheres sejam exclusivamente homossexuais durante
longos períodos de suas vidas. Não foram confirmadas explicações
de por que algumas pessoas são heterossexuais enquanto outras
são homossexuais;entre as possibilidades estão fatores genéticos ou
biológicos, influências familiares ou da infância e experiências prévias de
aprendizagem e condicionamento. (p. 2 10-220)
• Quais são as nossas necessidades de realização? De afiliação? De poder?
A necessidade de realização refere-se à característica estável aprendida
de ambicionar a excelência.A necessidade de afiliação é uma preocupação
com o estabelecimento e manutenção de relações com os outros, ao
passo que a necessidade de poder é uma tendência a buscar exercer
influência sobre os outros. (p. 220-22 1)
• Todos sentem emoções da mesma forma?
As emoções são amplamente definidas como sentimentos que podem
afetar o comportamento, e geralmente têm tanto um componente
fisiológico quanto cognitivo.As emoções nos preparam para agir, modelam
o comportamento futuro e nos ajudam a interagir mais efetivamente
com os outros.Apesar de diversas teorias sobre a emoção terem sido
propostas, nenhuma delas sozinha consegue fornecer uma explicação clara
que seja totalmente sustentada pela pesquisa. (p. 222-226)
• Como comunicamos nossos sentimentos de forma não verbal?
As expressões faciais de uma pessoa revelam as emoções. Expressões
de emoção são universais, e podem ser reconhecidas por pessoas de
diferentes culturas. Uma explicação para essa semelhança é que um
programa de afeto facial inato ativa movimentos musculares específicos
representando a emoção sentida.A hipótese do (eedback facial sugere que
as expressões faciais não só refletem, mas também produzem experiências
emocionais. (p. 226-228)
Pop fl.uiz
---- ------~-~---
1. A é uma força que orienta o comporta-
mento de uma pessoa em determinada direção.
2. Padrões inatos e biologicamente determinados de
comportamento são conhecidos como ____ _
3. De acordo com Maslow, uma pessoa sem emprego,
sem casa e sem amigos pode se tornar autorrealizada.
Verdadeiro ou falso?
4. Associe os seguintes termos com suas definições.
a. leva à recusa de comida e à inanição.
b. responsável por monitorar a ingestão de comida.
c. causa a alimentação excessiva.
_ 1. Hipotálamo
_ 2. Dano hipotalâmico lateral
_ 3. Dano hipotalâmico ventromedial
5. é a taxa em que a energia é produzida e
gasta pelo corpo.
6. O aumento no sexo pré-matrimo nial nos Estados Uni-
dos nos últimos 40 anos foi maior para as mulheres do
que para os homens.Verdadeiro ou falso?
7. Uma menina que é rejeitada por uma de suas colegas
busca recuperar a amizade dela. Que tipo de motiva-
ção De bbie exibe em sua história?
a. necessidade de realização
b. necessidade de motivação
c. necessidade de afiliação
d. necessidade de poder
8. A teoria de das emoções
afirma que as emoções são uma resposta para eventos
corporais instintivos.
9 . Seu amigo - um graduando em psicologia - diz o se-
guinte:"Eu fui a uma festa ontem à noite. Desde a hora
e m que cheguei até a hora em que saí, meu nível geral
de excitação aumentou. Como eu estava em uma festa
onde as pessoas estavam se divertindo, imagino que
devia estar feliz". Qual a teoria da emoção que o seu
amigo utiliza?
1 O. Quais as seis emoções básicas que podem ser identifi-
cadas a partir de expressões faciais?
~ li. Uma das pr incipais questões levantadas na atividade
de Detecção de Mentiras era a de que
a. o cérebro não pode fazer seus olhos sorrirem
quando você exibe um sorriso falso.
b. a detecção de mentiras usando um polígrafo ainda
é muito deficiente.
c. o movimento das mãos e dos olhos sempre com-
bina quando você está dizendo a verdade.
d. a maioria dos mentirosos precisa praticar muito
para ficar convincente.
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Motivação e Emoção • 229