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LÍNGUA PORTUGUESA VII
A Faculdade Multivix está presente de norte a sul do 
Estado do Espírito Santo, com unidades presenciais 
em Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, 
Nova Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória, 
e com a Educação a Distância presente 
em todo estado do Espírito Santo, e com 
polos distribuídos por todo o país. 
Desde 1999 atua no mercado capixaba, 
destacando-se pela oferta de cursos de 
graduação, técnico, pós-graduação e 
extensão, com qualidade nas quatro 
áreas do conhecimento: Agrárias, Exatas, 
Humanas e Saúde, sempre primando 
pela qualidade de seu ensino e pela 
formação de profissionais com consciência 
cidadã para o mercado de trabalho.
Atualmente, a Multivix está entre o seleto grupo de 
Instituições de Ensino Superior que 
possuem conceito de excelência junto ao 
Ministério da Educação (MEC). Das 2109 
instituições avaliadas no Brasil, apenas 
15% conquistaram notas 4 e 5, que são 
consideradas conceitos de excelência em 
ensino. Estes resultados acadêmicos 
colocam todas as unidades da Multivix 
entre as melhores do Estado do Espírito 
Santo e entre as 50 melhores do país.
MISSÃO
Formar profissionais com consciência cidadã para o 
mercado de trabalho, com elevado padrão de quali-
dade, sempre mantendo a credibilidade, segurança 
e modernidade, visando à satisfação dos clientes e 
colaboradores.
 VISÃO
Ser uma Instituição de Ensino Superior reconhecida 
nacionalmente como referência em qualidade 
educacional.
R E I TO R
GRUPO
MULTIVIX
R E I
2
MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
BIBLIOTECA MULTIVIX (Dados de publicação na fonte)
Rosiani Teresinha Soares Machado
Língua Portuguesa VII / Machado, Rosiani Teresinha Soares - Multivix, 2020
Catalogação: Biblioteca Central Multivix 
 2020 • Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. 
4
MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LISTA DE QUADROS
UNIDADE 1
 > Comparativo entre o latim e as línguas neolatinas 25
 > Evolução da palavra “você” ao longo do tempo 26
 > Esquema representativo dos estudos diacrônicos e sincrônicos da 
evolução do termo “você” 27
 > Características do substrato, superstrato e adstrato linguísticos 29
UNIDADE 2
 > Amostra de algumas palavras escritas em latim vulgar em contraposição 
com o latim culto 39
 > Diferenças entre o Português (România Ocidental) e o Italiano (România 
Oriental) 46
UNIDADE 3
 > Diferenças entre o Português e o Castelhano 56
 > Grupos dialetais da língua portuguesa 64
 > Palavras provenientes de outros povos, assumidos pela 
 língua portuguesa 67
UNIDADE 4
 > Amostra do vocabulário do Tupinambá (Tupi Antigo), na ortografia 
jesuítica do século XVIII 75
 > Amostra do vocabulário do Tupinambá (Tupi Antigo) na ortografia 
jesuítica do século XVIII 76
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LISTA DE QUADROS
UNIDADE 5
 > Tipos de metaplasmos com suas ocorrências 96
 > Quadro da classificação das vogais 99
 > Quadro da classificação das consoantes 100
 > Sistema consonantal do galego-português 104
 > Principais evoluções fonéticas vocálicas do português 106
UNIDADE 6
 > Exemplos de palavras com ambiguidade de sentido pelo deslocamento 
do acento fonológico principal 116
 > Classificação gramatical das palavras na língua portuguesa 119
 > Exemplos de palavras modificadas pela perda do “n” intervocálico 120
 > Palavras do português do Brasil formadas por prefixos e sufixos 122
 > Principais ocorrências verbais no galego-português 124
 > Desinências nominais no latim clássico 125
 > Conjugação no latim vulgar lusitano com os seus correspondentes no 
latim clássico e respectivos resultados em português moderno 126
 > Tempos e modos verbais do português moderno 128
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LISTA DE FIGURAS
UNIDADE 1
 > Aspectos históricos determinam o mesmo som e a escrita diferente de 
palavras 14
 > A interação entre os indivíduos é uma necessidade e é essa interação 
que faz com que a língua seja alterada ao longo do tempo, suprindo as 
necessidades de seus falantes 16
 > Tronco do latim, com suas ramificações até as línguas românicas 17
 > Quando aprende a produzir verbos, a criança faz analogias com aquilo 
que já sabe 21
 > Estudos linguísticos 23
UNIDADE 2
 > Inscrição em parede de pedra em Latim 35
 > Mapa do Império Romano em seu auge 41
 > Árvore genealógica das línguas indo-europeias 42
 > Principais variedades de latim escrito e falado e suas relações 
 com as línguas românicas 47
UNIDADE 3
 > Área primitiva do galego-português e da Reconquista 53
 > A África lusófona 68
UNIDADE 4
 > Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Óleo 
sobre tela. 190cm x 333cm. Acervo do Museu Paulista (São Paulo, SP) 72
 > Moagem da cana na Fazenda Cacheira, em Campinas. Óleo sobre tela. 
105cm x 135cm. Acervo do Museu Paulista (São Paulo, SP) 78
 > Português fora da Europa 83
 > A África lusófona 85
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LISTA DE FIGURAS
UNIDADE 5
 > Transcrições fonética e fonológica da palavra “Brasil” 94
 > Representação de metaplasmo na palavra “árvore” 98
 > Testamento de Afonso II 111
UNIDADE 6
 > Análise morfológica da palavra “menininhas” 117
 > Estrutura sintática básica da língua portuguesa 129
 > Exemplo de mudança na estrutura sintática do Português do Brasil 130
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
1UNIDADE
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 8
1 HISTÓRIA E MÉTODO DA LINGUÍSTICA ROMÂNICA 13
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 13
1.1 HISTÓRIA DAS LÍNGUAS 14
1.2 PROTOLÍNGUA, A LÍNGUA ANTECESSORA 18
1.3 MÉTODO COMPARATIVO ENTRE LÍNGUAS 19
1.4 ORIGEM DA LINGUÍSTICA ROMÂNICA 24
1.5 SINCRONISMO E DIACRONISMO LINGUÍSTICOS 26
1.6 A ROMANIZAÇÃO DA LÍNGUA 28
2 O LATIM VULGAR E A FORMAÇÃO DAS LÍNGUAS ROMÂNICASS 32
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 32
2.1 O QUE É O LATIM VULGAR? ALGUMAS TEORIAS DE ESTUDO DO 
LATIM 32
2.2 HISTÓRIA DO LATIM 35
2.3 DIALETAÇÃO DO LATIM 37
2.4 LÍNGUAS ROMÂNICAS: O INDO-EUROPEU 40 
2.5 ROMÂNIAS OCIDENTAL E ORIENTAL: ORIGEM DAS LÍNGUAS 
ROMÂNICAS 45
2.6 AS LÍNGUAS HERDEIRAS DAS LÍNGUAS ROMÂNICAS 47
3 COMO SE CONSTITUIU A LÍNGUA PORTUGUESA 51
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 51
3.1 PORTUGUÊS ARCAICO: O GALEGO-PORTUGUÊS 52
3.2 O PORTUGUÊS EUROPEU 55
3.3 O RECONHECIMENTO DO PORTUGUÊS COMO LÍNGUA 58
3.4 PORTUGUÊS MODERNO - PRIMEIRA FASE 60
3.5 PORTUGUÊS MODERNO - SEGUNDA FASE 63
3.6 PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO 65
2UNIDADE
3UNIDADE
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MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
SUMÁRIO
4 O PORTUGUÊS DO BRASIL 71
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 71
4.1 A LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL 77
4.2 PARTICULARIDADES DO PORTUGUÊS DO BRASIL 81
4.3 A LÍNGUA PORTUGUESA É BRASILEIRA 82
4.4 UMA PARTE DA ÁSIA QUE FALA O PORTUGUÊS 85
4.5 O PORTUGUÊS NO CONTINENTE AFRICANO 84
4.6 UMA LÍNGUA E VÁRIOS FALARES 87
5 GRAMÁTICA HISTÓRICA DA LÍNGUA PORTUGUESA: FONÉTICA 
E FONOLOGIA 92
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 
5.1 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A FONÉTICA E A FONOLOGIA 92
5.2 O PAPEL DOS METAPLASMOS NA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA 
PORTUGUESA 95
5.3 VOGAIS E CONSOANTES DA LÍNGUA PORTUGUESA 99
5.4 FONÉTICA DO GALEGO-PORTUGUÊS 101
5.5 A LÍNGUA PORTUGUESA EVOLUI FONETICAMENTE 106
5.6 DO LATIM À LÍNGUA PORTUGUESA 108
6 GRAMÁTICA HISTÓRICA DA LÍNGUA PORTUGUESA: MORFOLOGIA 
E SINTAXES 114
INTRODUÇÃO DA UNIDADE 114
6.1 CLASSES GRAMATICAIS DA LÍNGUA PORTUGUESA 115
6.2 NOME E ADJETIVO NA HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA 119
6.3 O PAPELhistória do Ocidente.
Essa trajetória apresenta fases, sendo a primeira delas a do português arcaico, 
a língua constituída pela mistura do latim com os dialetos árabes. Novamen-
te, é bom lembrar que esse latim é o vulgar, não o clássico, dos literatos, ou o 
eclesiástico, dos rituais católicos e dos sacerdotes.
Alguns linguistas preferem o termo 
vernáculo para caracterizar o latim vulgar. 
Por vernáculo pode-se compreender 
a língua falada no ambiente familiar e 
que é produzida de modo inconsciente, 
instintivo, próprio da região e lugar. Em 
oposição está a língua erudita, a que foi 
estabelecida a partir da fala, porém mais 
rebuscada, dita “correta”, ou seja, a língua 
que aprendemos na escola (ILARI; BASSO, 
2007).
As invasões bárbaras da Península Ibérica proporcionaram uma diversidade 
da língua românica. Já no início do século XI, três línguas teriam se derivado 
no processo da Reconquista dos territórios da península: o catalão, falado ao 
leste; o castelhano, mais ao centro; e o galego-português, a oeste.
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Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LÍNGUA PORTUGUESA VII
Se existe uma data para o início do galego-português seria o século XIII, pois 
são desse período os primeiros registros textuais escritos que se tem conhe-
cimento. No entanto, seu nascimento se daria bem antes, ainda no século IX.
ÁREA PRIMITIVA DO GALEGO-PORTUGUÊS E DA RECONQUISTA
Fonte: TEYSSIER, 2001, p. 7.
#PraCegoVer
Ilustração mostra mapa da área primitiva do galego-português, na região norte de Portugal.
Pelo mapa, você pode entender em que parte da Península o galego-portu-
guês iniciou.
A evolução do latim para o galego-português pode ser observada nas carac-
terísticas fonológicas que o latim vai apresentando até o fi nal do período im-
perial (TEYSSIER, 2001).
Acento tônico: 
em palavras dissílabas e trissílabas;
54
LÍNGUA PORTUGUESA VII
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Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
Perda da oposição de quantidade das vogais: 
com a troca das dez vogais e dos dois ditongos existentes no latim 
clássico pelas sete vogais, as mesmas do português contemporâneo;
Palatização das consoantes: 
civitātem (quivitatem) > cidade;
Queda do n antes do s: 
mensa > mesa.
Em relação à ortografi a do português arcaico, esta exigiu um pouco mais de 
trabalho dos escribas, já que precisavam transformar a língua que ouviam em 
escrita. A segmentação, nesse sentido, foi o que mais apresentou difi culdades 
de registro escrito. Aliás, Ilari e Basso (2007) destacam que essa situação é na-
tural, basta pensarmos nas falas “de repente” e “estamos” que, para alguns usu-
ários da nossa língua, a representação escrita seria “derrepente” e “esta-mos”.
Além disso, a escrita de novos sons, como os ditongos nasais (sã, mão e pães) 
e as consoantes palatais (alheio, minha e cheio), também representaram um 
desafi o, tanto que havia uma oscilação entre essas representações escritas.
Para conferir como se dava a decifração 
da grafi a dos textos medievais, 
recomendamos a leitura da antologia 
“Algumas observações de um fi lólogo 
sobre a escrita da Notícia de Torto”, 
disponível na obra de Ilari e Basso (2007, 
pp. 25-28).
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Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
LÍNGUA PORTUGUESA VII
Foi a partir do século IX que esses textos ganharam força em sua produção, 
nesse latim que, pelas características apontadas e pela história das retoma-
das territoriais, fi cou conhecido como latim bárbaro.
Já os primeiros textos escritos em galego-português datam, sabe-se hoje, do 
século XIII. Dentre eles, a poesia lírica tem lugar especial, com as cantigas de 
amor, que buscam inspiração provençal, onde a mulher é a narradora; as can-
tigas de amigo, que são os poemas de amor, em que é o homem quem fala; e 
as cantigas de escárnio ou do mal dizer, com forte apelo satírico e fortemente 
grosseiros (TEYSSIER, 2001). Além destes, há os registros ofi ciais e particulares 
escritos em uma língua mesclada de galego com o leonês.
3.2 O PORTUGUÊS EUROPEU
O processo de mudança linguística do galego-português foi ocorrendo, como 
já era de se esperar, invadindo territórios à medida que novos traçados iam 
se confi gurando no mapa europeu. A segunda fase do português arcaico, 
como alguns autores decidiram denominar, inicia em 1380 e vai até 1540. Lo-
gicamente que essas datas não são exatas, pois estamos nos referindo a um 
processo de mudança linguística e isso não ocorre de modo tão pontual no 
tempo.
Uma das situações que culminou na consolidação do português como língua 
europeia foi a instalação do reino de Portugal cada vez mais ao sul da Penín-
sula, estabelecendo-se como reino independente.
Esses fatos históricos são assim relatados por Teyssier (2001, p. 20):
Portugal constituiu-se no século XII, quando Afonso I (Afonso Henriques), 
fi lho do conde Henrique de Borgonha, se tornou independente do seu primo 
Afonso VII, rei de Castela e de Leão. (...) Separando-se de Leão para se tornar 
reino independente, Portugal separava-se também da Galícia, que não mais 
deixaria de fi car anexada ao país vizinho -- reino de Leão, reino de Castela e, 
fi nalmente, reino de Espanha. A fronteira, que no século XII isolou a Galícia 
de Portugal, estava destinada a ser defi nitiva.
À medida que esses fatos vão ocorrendo, os movimentos culturais e políticos 
vão se fi xando cada vez mais ao sul, mais precisamente em Lisboa e Coimbra. 
Aliás, a própria Universidade de Lisboa, criada em 1290, foi transferida para 
Coimbra em 1308. O isolamento entre as línguas portuguesa e castelhana 
(hoje espanhola) é cada vez maior e, muito embora existam várias similari-
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
dades entre as duas línguas, sempre existiu uma grande diferença, também. 
Observe o quadro a seguir para compreender melhor essas distinções
DIFERENÇAS ENTRE O PORTUGUÊS E O CASTELHANO
LATIM VULGAR PORTUGUÊS CASTELHANO
TRATAMENTO DAS VOGAIS
Metus Medo: conserva a vogal e Miedo: ditonga a vogal e
Januariu / Januairu 
(= variantes de 
Janus, o deus de 
duas frontes)
> Janeiro (= o mês de duas 
frontes, uma que “olha” para o 
passado e outra que “olha” para 
o futuro): mantém o ditongo 
ai, transformando-o em outro 
ditongo, ei.
> Enero: perde o ditongo, 
transformando ai do Latim 
em e.
Auru, paucu > Ouro, pouco: mantém o 
ditongo, transformando-o em 
outro ditongo, au> ou
> Oro, poco: perde o ditongo, 
mudando au do Latim em 
ou e depois em o.
Portu > Porto, dito [portu]: mantém o o 
e o -u fi nal
Puerto: ditonga o o e 
transforma -u em -o.
TRATAMENTO DAS CONSOANTES
Lana, bonu, vinu > lã, bom, vinho: perde o -n- 
intervocálico, e se surgir um hiato 
formado por vogal nasal + vogal 
oral, como em v~io, desenvolve a 
consoante [ñ].
> lana, bueno, vino: mantém 
o -n- intervocálico.
Plaga, clave, 
fl amma
Chaga, chave, chama: os grupos 
consonantais iniciais pl-, cl-, fl - 
são palatizados em ∫.
Llaga, llave, llama: esses 
grupos consonantais 
também são palatizados, 
porém dão origem a λ.
Plumbum, palumba Chumbo, pomba: mantém o 
grupo mb.
Plomo, paloma: perde o 
grupo mb.
Fonte: CASTILHO, 2017, p. 33.
Durante algum tempo, mais especifi camente entre os séculos XV e o XVI, o 
território luso era bilíngue no português e no espanhol, isso porque era co-
mum a união entre fi lhos desses dois reinos, conservando-se, assim, a língua 
espanhola como segunda língua de Portugal.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Depois que o espanhol deixou de ser a segunda língua da corte portuguesa e 
de seus literatos e afi ns, foi a vez do francês ocupar esse espaço. Nesse caso, a 
infl uência está nas obras literárias francesas, que serviam de inspiração para 
os portugueses.
A históriado português europeu inclui as primeiras gramáticas e os primeiros 
tratados de ortografi a e dicionários (TEYSSIER, 2001):
Grammatica da Linguoagem Portuguesa (1536): 
de autoria de Fernão de Oliveira.
Grammatica da Lingua Portuguesa (1539-1540): 
cuja autoria se deve a João de Barros.
Orthographia (1576): 
de Duarte Nunes de Leão.
Regras da Lingua Portuguesa (1721): 
de D. Jerónimo Contador de Argote.
Compendio de Orthographia (1767): 
de Luís Monte Carmelo.
Dicionários de latim-português: 
escritos pelo primeiro lexicógrafo, Jerónimo Cardoso (1551, 1562, 1569-
1570).
É considerável a produção de obras voltadas para a escrita da língua portu-
guesa europeia a partir do século XVI. O Dicionário da Língua Portuguesa, de 
António de Morais, no entanto, pode ser considerado o precursor no que com-
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Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
pete à lexicografi a do português europeu, tendo sido reeditado e aumentado 
várias vezes, chegando à décima edição, com a quantidade impressionante 
de 12 volumes, entre 1949 e 1959.
3.3 O RECONHECIMENTO DO PORTUGUÊS COMO 
LÍNGUA
Todas essas obras acabam por validar o português como língua, assim como 
as traduções realizadas nos monastérios de Alcobaça e de Santa Cruz, de 
obras francesas, latinas e espanholas. Também foi importante para a consoli-
dação da língua portuguesa o complexo cultural que se formara no eixo Lis-
boa-Coimbra, tal como a Universidade de Coimbra, com instalação defi nitiva 
em Coimbra, em 1537. Para Teyssier (2001, p. 31), “é, pois, a partir dessa região, 
antes moçárabe, que o português moderno vai constituir-se, longe da Galícia 
e das províncias setentrionais em que deitava raízes”.
É possível dizer que foi com o início do reinado de D. Dinis que a língua por-
tuguesa se tornou ofi cial, a partir da adoção dessa língua pelas repartições 
diplomáticas reais. É importante que você saiba que era uma língua bem di-
ferente da adotada pelos poetas líricos em seus cancioneiros. Trata-se de uma 
língua mais espontânea e com um número maior de variedades, com infl u-
ências claras de outras línguas, como o leonês.
Alguns desse textos estão retratados em testamentos, títulos de compra e 
venda de terras e outros comércios, notícias, entre outros documentos.
Você quer ter conhecimento da escrita 
da língua portuguesa dessa época? 
Sugerimos a leitura do “Testamento de 
D. Afonso II”, considerado o primeiro 
documento real datado e escrito em 
português, em 27 de junho de 1214.
A língua portuguesa é reconhecida de modo patriótico, seguindo-se a um 
sentimento de nacionalidade por meio de uma língua que há muito se opu-
nha às línguas românicas, tidas como brutas e incapazes de traduzir tudo o 
que a língua pode proporcionar como sistema.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
É nesse momento que ocorre a expansão do império português com as ex-
pedições marítimas que culminariam com a chegada dos portugueses em 
diversas regiões do planeta. Com isso, a língua ofi cial de Portugal ganharia 
o mundo e seria documentada, uma vez mais, na obra Décadas da Ásia, de 
João de Barros. O autor, mesmo vivendo em Portugal, acompanhou todo o 
processo que envolvia as expedições marítimas portuguesas. Como era dota-
do de uma formação voltada para a humanística, o resultado não poderia ser 
diferente.
A ofi cialização da língua portuguesa não ocorreu sem antes ter de lutar con-
tra o castelhano, que insistia em se manter como língua de prestígio, já que 
era a língua culturalmente mais importante e, por conseguinte, a mais usada 
nas negociações internacionais.
Desse modo, Fernão de Oliveira passou a pregar aquela que considerava 
como sua língua nativa, legalizada pela corte, valorizando sua fala e seus mo-
dos de pronúncia.
Paralelo a esse dado, os estudos de Duarte Nunes de Leão, publicados na obra 
Origem da língua portuguesa, igualmente torna clara a necessidade de tor-
nar a língua um meio comunicativo entre os povos europeus.
Outro dado histórico é abordado por Castilho (2017, p. 35):
O padre beneditino Feijóo, de origem 
galega, reclama a inclusão do Português 
e Galego, entidades indistintas, no seio 
da família românica. Lembre-se que, até 
então, por um critério arbitrário, apenas 
o Espanhol, o Italiano e o Francês eram 
aí compreendidos. A atitude de Feijóo foi 
também uma resposta aos gramáticos 
castelhanos que reduziam o Português a 
um subdialeto, uma vez que o derivavam 
do Castelhano.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
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O impasse só terminou com a independência de Portugal em 1640 e o ra-
cionalismo iluminista, que provocou diversos estudos de aprofundamento da 
língua portuguesa.
A HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTINUA
3.4 PORTUGUÊS MODERNO - PRIMEIRA FASE
Nesta segunda etapa da evolução da história da língua portuguesa, vamos abor-
dar suas últimas classifi cações: o português moderno, que vai de 1540 a 1750, 
ocorrendo também no século XIX; e o português contemporâneo, do século XX 
até os dias atuais.
Foi no século XVI que Portugal iniciou suas explorações marítimas, o que lhe con-
cedeu um status de descobridor pelos diversos territórios que encontrou em suas 
expedições além-mar. A língua portuguesa também se expande, pois, como já 
abordamos, é a língua ofi cial da coroa portuguesa e de todo seu território.
A literatura, nessa época, estava em alta e várias obras seriam, futuramente, con-
sagradas na língua de Portugal. A mais famosa delas é a publicação de Luís de 
Camões, Os Lusíadas, de 1572.
A obra Os Lusíadas é um poema épico 
escrito por Luís de Camões, publicado em 
1572.
Fonte: Domínio Público, Wikimedia Commons (2020).
#PraCegoVer
Pintura retrata Luís de Camões.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
O tema central da obra é o descobrimento 
do caminho marítimo para a Índia. Para o 
seu tratamento literário, Camões criou uma 
história mitológica onde seres sobrenaturais 
- os deuses - contribuem para a evolução da 
ação, alguns opondo-se à viagem de Vasco 
da Gama, outros favorecendo-a (INSTITUTO 
CAMÕES, [s.d.]).
Fonte: Domínio Público, Wikimedia Commons (2020).
#PraCegoVer
Capa da obra Os Lusíadas, na edição de 1572.
Ao mesmo tempo, são evocadas por Vasco 
da Gama ao rei de Melinde as glórias da 
nacionalidade, numa síntese da História de 
Portugal. Geralmente, no início e no fi m dos 
cantos, o poeta faz diversas considerações, 
revelando as suas opiniões, refl exões e 
críticas (INSTITUTO CAMÕES, [s.d.]).
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
#PraCegoVer
Mapa antigo em cima de uma mesa. Sobre ele, uma lupa dourada, uma caneta de pena e 
uma bússola.
Embora seja relativamente difícil impor datas à história de uma língua, diver-
sos autores dão a publicação dessa obra como o marco inicial do português 
moderno, dada sua relevância para a língua portuguesa.
Em Portugal, alguns acontecimentos fazem com que mudanças ocorram e 
atinjam, também, a evolução linguística do português. Em 1572, o país perde 
seu rei, Dom Sebastião, em uma batalha. Como não tinha herdeiros, passados 
oitos anos desse fato, Felipe II, rei da Espanha, reivindica o trono português, 
tornando Portugal uma província espanhola em 1580.
O movimento liderado por D. João IV, conhecido como Restauração, daria a 
Portugal sua independência no ano de 1640. Foram exatos 60 anos em que 
a língua portuguesa conviveu diretamente com a língua espanhola, e isso fa-
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talmente geraria impacto cultural e literário em uma língua que ainda estava 
em formação, com constantes mudanças.
É sempre importante conhecer a história 
e, com esse vídeo, você poderá conhecermais a fundo como se deu a dependência 
e a independência de Portugal. Assista ao 
episódio “Restauração da independência”, 
do “Conta-me História”, para viajar pelo 
tempo português e compreender como 
a língua foi infl uenciada por essa história. 
Acesso pelo link.
Na língua, mudanças como a inclusão da preposição “a” antes do objeto di-
reto em orações como em “amar a Deus”, em lugar de “amar Deus”, e a inte-
gração de inúmeras palavras espanholas ao léxico português, como a substi-
tuição defi nitiva da palavra portuguesa castelão pela espanhola castelhano, 
são apenas algumas das consequências linguísticas ocorridas nesse período 
(BASSO; GONÇALVES, 2014).
Na literatura, sentiu-se mais ainda o ingresso do espanhol, pois as obras por-
tuguesas eram publicadas em espanhol, principalmente em virtude do pres-
tígio dessa língua junto à coroa.
Todas essas transformações em Portugal não foram sufi cientes para suplan-
tar as evoluções que o português vinha sofrendo. Um dos exemplos mais 
clássicos é a mudança do pronome de tratamento “Vossa mercê” para Você.
Vejamos o que Teyssier (2001, p. 60) explica sobre essa alteração:
O tratamento é a maneira pela qual o sujeito falante se dirige ao seu 
interlocutor. Até por volta de 1500, o português conhecia, como o francês, 
apenas o tuteamento familiar ou o voseamento respeitoso. Mas, a partir 
dessa data, surgem fórmulas do tipo “vossa graça”, “vossa excelência”, 
seguidas da terceira pessoa. A mais freqüente (sic) é vossa mercê, que, ao 
mesmo tempo que passava a você por erosão fonética (vossa mercê > voacê 
> você), perdia, por erosão semântica, o seu valor de tratamento respeitoso, 
para assumir o de tratamento familiar. O você familiar aparece desde o 
século XVII. Conserva-se ao mesmo tempo vossa mercê, de que existe outra 
variante, vossemecê, logo sentida como popular.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Da explicação dada pelo autor, é importante destacarmos o esclarecimento 
de que o termo tuteamento refere-se à forma de tratamento “tu”, e vosea-
mento, referindo-se ao “vós”.
Ainda no que diz respeito às obras literárias, vale lembrar que foi durante os 
séculos XVII e XVIII que as academias portuguesas foram criadas. Podemos 
citar, dentre elas, a Arcádia Lusitana (1756-1774), que propagou a estética do 
Arcadismo.
3.5 PORTUGUÊS MODERNO - SEGUNDA FASE
Foi na Era das Grandes Navegações que a língua portuguesa se expandiu 
pelo mundo. O idioma se espalhou pelas Ilhas do Atlântico, atingiu as costas 
da Ásia e da África e chegou, por meio das naus veleiras de Cabral, à Terra de 
Santa Cruz, nome dado ao nosso país pelos portugueses.
De acordo com Coutinho, no século XVI, as expedições marítimas concede-
ram a Portugal um papel signifi cativo na história dos descobrimentos e das 
conquistas territoriais. Por isso, a língua portuguesa, que já servia como um 
instrumento de uma culta e rica literatura, difundiu-se, com rapidez, pelas 
novas terras recém descobertas.
Nenhum povo foi jamais tão longe através dos mares, como o lusitano, cujas 
naus percorriam os oceanos em todos os sentidos e cuja bandeira tremulava 
em todas cinco partes do mundo, porque em todas elas Portugal possuía 
colônias. (COUTINHO, 1976, p. 58).
Em relação às transformações sofridas pela língua portuguesa, no contexto 
das colonizações, o estudioso afi rma que, ao ser transportado para terras tão 
distantes, o português não pôde continuar uniforme e se fragmentou em 
dialetos. Aspectos como a topografi a, os costumes, as crenças, as instituições 
sociais e os hábitos linguísticos contribuíram para que isso ocorresse.
Para ilustrar essa diversidade, Coutinho (1976) apresenta a classifi cação diale-
tal feita por Leite de Vasconcelos em três grandes grupos, os quais são resu-
midos no quadro a seguir.
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GRUPOS DIALETAIS DA LÍNGUA PORTUGUESA
Continentais 
(continente europeu)
Insulanos 
(ilhas europeias)
Ultramarinos
 (Ultramar)
1) interamnense (Entre-
Douro-e-Minho);
2) transmontano (Trás-os-
Montes);
3) beirão (Beira-Alta e 
Beira-Baixa);
4) meridional (Sul de 
Portugal).
1) açoriano (Açores);
2) madeirense (Madeira).
1) dialeto brasileiro;
2) indo-português: dialeto 
crioulo de Diu; dialeto crioulo 
de Damão; dialeto norteiro 
(Bombaim, Baçaim, Caul 
etc.), português de Goa; 
dialeto crioulo Mangalor; 
dialeto crioulo de Cananor; 
dialeto crioulo de Maé; 
dialeto crioulo de Cochim; 
português da costa de 
Coromandel;
3) dialeto crioulo de Ceilão;
4) dialeto crioulo macaísta ou 
de Macau;
5) malaio-português: 
dialeto crioulo de Java; 
dialeto crioulo de Malaca e 
Singapura;
6) português de Timor;
7) dialeto crioulo 
caboverdano ou de Cabo 
Verde;
8) dialeto crioulo guineense 
ou da Guiné;
9) dialetos crioulos do golfo 
da Guiné (ilha de S. Tomé, 
Príncipe e Ano Bom);
10) português das 
Costas d’África (Angola, 
Moçambique, Zanzibar, 
Moçamba. Melinde, Quíloa).
Fonte: CASTILHO, 2017, p. 33.
A diversidade geográfi ca do processo de expansão da nossa língua está in-
timamente relacionada à sua variabilidade. Cunha e Cintra (2008) afi rmam 
que as características assumidas por uma língua, de acordo com as diferentes 
regiões em que ela se encontra, são chamadas de dialetos. O quadro anterior 
apresenta bem essa relação, pois sintetiza dezenas de dialetos relacionados 
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aos usos da língua portuguesa. Essa noção não diz respeito apenas ao con-
texto da língua utilizada longe do seu país de origem, mas também a regiões 
distintas de um mesmo território. Você pode observar, por exemplo, que na 
região peninsular onde os portugueses se instalaram já havia o seu próprio 
dialeto, o romance.
Além disso, com a divisão feita pelo autor, torna-se notável a expansão da lín-
gua portuguesa pelo mundo e a variedade de dialetos que surgiram a partir 
da sua infl uência, resultado da dominação exercida pela nação portuguesa. 
Também podemos reconhecer que o grupo ultramarino, quando comparado 
com os demais, ilustra como as navegações tiveram um papel central na di-
fusão da língua portuguesa por todos os continentes.
Nem todas as nações alcançadas pela 
língua portuguesa a utilizam como 
língua ofi cial dos seus países. Para ter 
uma visão atualizada sobre o uso ofi cial 
da língua portuguesa no mundo, visite o 
site da Comunidade dos Países de Língua 
Portuguesa (CPLP), uma organização 
internacional composta por países 
lusófonos.
Acesso pelo link.
3.6 PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO
A última fase de mudança linguística da língua portuguesa é a denominada 
português contemporâneo, que começou no século passado e ainda está em 
andamento.
Como já vimos, não há como estipular datas fi xas para início e fi m de uma 
fase na construção e evolução de uma língua, no entanto, fatos históricos aca-
bam por auxiliar nesse movimento cronológico.
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Já ao fi nal da fase anterior, era grande a produção bibliográfi ca na língua por-
tuguesa, o que auxiliou enormemente os linguistas, fi lólogos, gramáticos e 
demais estudiosos da língua na compreensão de particularidades envolven-
do o português. A literatura também gerou obras épicas e de grande alcan-
ce nos quatro cantos do mundo.
Como objeto de estudo, a língua passava 
a ser vista não só como uma fonte de 
comunicação, mas como um sistema, por 
vezes complexo, que poderia ser analisado, 
indicando particularidades reconhecidas 
como próprias de uma língua e não de 
outra.
Em Portugal, as expedições ganharam força e o português se estendeu para 
as colônias pertencentes à coroa. Foi no início do século XVI que Portugal 
ingressou em uma situação econômicabastante delicada, devido aos altos 
gastos com a burguesia, com a defesa do império e com a nobreza. Paralelo 
a isso, chega ao país luso a notícia de que há ouro no Brasil, fazendo com 
que inúmeros portugueses venham para cá.
Nessa divisão entre as riquezas brasileiras e as tecnologias da Europa, o 
conhecimento científi co ganha força e o linguístico não fi ca atrás. Alguns 
estudos sobre a língua portuguesa começam a despontar, tendo algumas 
personalidades como Luís António Verney e Rafael Bluteau à frente dessa 
proposta de ensino. Foi a partir desses estudos que ocorreram as reformas 
promovidas pelo Marquês de Pombal, dentre elas as que proporcionaram 
um avanço da alfabetização e o aumento na quantidade de professores alfa-
betizadores, que ensinavam a ler e a escrever, além da criação da tipografi a 
com a Impressão Régia.
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A Impressão Régia foi estabelecida pelo 
decreto de 13 de maio de 1808, com a 
fi nalidade de se imprimir toda a legislação 
e os papéis diplomáticos provenientes 
das repartições reais e quaisquer outras 
obras. Quer saber mais sobre essa parte 
da história da nossa língua? Acesse o link 
e terá acesso ao portal do MAPA (Memória 
da Administração Pública Brasileira) e leia 
o artigo sobre a Impressão Régia.
Ao fi nal das conquistas europeias, Portugal já conhecia, além das Ilhas da Ma-
deira, os Açores, Cabo Verde, a América, a África, além do Damão, Macau, Cei-
lão e Bombaim, na Ásia, entre outros territórios. Diversos contatos linguísticos 
e culturais foram ocorrendo, o que culminou em infl uências no campo lexical 
da língua portuguesa. Dentre eles, podemos citar:
 PALAVRAS PROVENIENTES DE OUTROS POVOS, ASSUMIDOS PELA LÍN-
GUA PORTUGUESA
Palavra Povo
zebra etíope
canja malabar, língua falada no Sri-Lanka
chá mandarim
condor e lhama quéchua
chocolate azteca
manga indonésio
sagu malaio
Fonte: Adaptado de BASSO; GONÇALVES (2014).
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Não podemos esquecer que, na maior parte dos territórios alcançados pe-
las expedições portuguesa, sobretudo aquelas que culminavam em colônias 
anexadas à coroa, foi grande o contato com índios e, de igual modo, com as 
inúmeras línguas por eles faladas. Desse modo, foram levados para Portugal, 
expandindo-se com a língua portuguesa, termos como “amendoim”, “man-
dioca”, “ananá”, dentre inúmeros outros.
As colônias pertencentes a Portugal, a exemplo do Brasil, se tornaram inde-
pendentes, no entanto, a língua permaneceu como ofi cial em quase todos 
esses países, com exceção daqueles do território asiático. É o caso de Macau, 
antiga colônia portuguesa, onde praticamente já não se usa mais o portu-
guês como língua nacional.
O mesmo não ocorreu com as colônias da África que, em 25 de abril de 1974, 
constituíram-se como repúblicas: Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Prín-
cipe, Angola e Moçambique.
A ÁFRICA LUSÓFONA
Fonte: TEYSSIER, 2001, p. 77.
#PraCegoVer
Ilustração do mapa do continente africano, com destaque para Ilhas de Cabo Verde, Guiné-
Bissau, São Tomé Príncipe, Angola e Moçambique.
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É importante ressaltar, no entanto, que a língua portuguesa é usada nos 
meios ofi ciais governamentais, nas escolas, nas repartições públicas, porém, 
as denominadas línguas nacionais desses países continuam a ser usadas nos 
âmbitos familiares e sociais. São os crioulos, ou seja, os falares africanos.
Indicamos a leitura do capítulo intitulado 
“O português na África e na Ásia”, da obra 
de Teyssier (2001). Acesso pelo link.
A história da língua portuguesa continua e ainda tem muito a colaborar com 
outras histórias de outras línguas. O português ganhou o mundo e foi infl uen-
ciado enormemente pelas línguas de outros povos, outros continentes, outras 
culturas, outros saberes. Assim é a língua, sempre se inovando, renovando, 
evoluindo e modifi cando para atender as necessidades linguísticas de seus 
usuários.
CONCLUSÃO
Nesta unidade você viu sobre a história da língua portuguesa e sua evolução 
ao longo de vários séculos. É certo que a história do português se confunde 
com a história da humanidade ocidental, pois retrata as situações comunica-
tivas desses povos.
As diferentes fases da língua portuguesa mostraram desde um português 
ligado ao galego, passando pela interferência do castelhano até chegar ao 
reconhecimento de uma língua nacional de Portugal.
Ganhou o mundo e passou a ser usada nos mais diversos lugares, como na 
América, na Ásia e na África. Fixou-se como língua ofi cial a permaneceu, ain-
da, após a independência das colônias.
Há, ainda, muito mais para ser explorado dessa língua, que é uma das mais fa-
ladas no globo e que tem diversas características que remontam aos séculos 
antes de Cristo, culminando com um português moderno e contemporâneo.
UNIDADE 4
> Diferenciar as 
fases históricas que 
constituíram a língua 
portuguesa.
> Identifi car os 
demais países 
falantes da língua 
portuguesa.
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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4 O PORTUGUÊS DO BRASIL 
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Língua Portuguesa do Brasil, Português Brasileiro, Português do Brasil. Essas 
são somente algumas das denominações da língua que falamos em nosso 
país, isso porque ela se distanciou bastante da língua portuguesa de Portugal 
(ou a língua de Portugal se distanciou da nossa, como alguns linguistas afi r-
mam). Motivos para isso houve desde a colonização, com o contato linguístico 
entre as línguas indígenas e o português dos colonizadores. Depois, foi a vez 
da língua dos escravos infl uenciar a língua portuguesa e, assim, nossa história 
linguística foi sendo escrita.
Atualmente, vivemos em um país multilíngue (embora não ofi cialmente), 
com uma mistura de raças, credos e línguas que dão esse formato diverso 
para o Brasil. Assim como ocorreu por aqui, em outras nações de fala portu-
guesa fora do continente europeu a língua portuguesa foi se transformando, 
sendo que em alguns lugares ela praticamente não é mais falada.
Nesta unidade você vai ver como a língua portuguesa foi se transformando e 
se modifi cando no Brasil e como e onde ela ainda é falada em outros países 
do globo.
A LÍNGUA PORTUGUESA EUROPEIA SE 
TRANSFORMA EM LÍNGUA PORTUGUESA DO 
BRASIL
4.1 A LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL
A língua portuguesa aportou no Brasil no século XVI, trazida pelos coloniza-
dores portugueses que se encontravam em mais uma de suas expedições. 
Foram longos 44 dias de jornada pelo mar, com 1500 homens divididos em 
13 navios. A frota de Cabral tinha como objetivo chegar às Índias, mas acabou 
por atracar em Porto Seguro no dia 22 de abril de 1500. Durante 10 dias per-
maneceram por aqui e, ao seguir viagem, fi caram somente dois degredados 
para aprender a língua dos índios e estabelecer contato com eles.
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 FIGURA 1 – DESEMBARQUE DE PEDRO ÁLVARES CABRAL EM PORTO SEGURO EM 1500. 
ÓLEO SOBRE TELA. 190CM X 333CM. ACERVO DO MUSEU PAULISTA (SÃO PAULO, SP)
Fonte: SILVA, 1922, on-line (domínio público)
#PraCegoVer
Pintura que representa o desembarque de Pedro Álvares de Cabral em Porto Seguro, no 
ano de 1500, na ocasião do descobrimento do Brasil. As caravelas estão ancoradas ao fundo 
da imagem e Cabral está chegando na praia em um barco remado por vários homens. Na 
areia, índios seguram lanças e fl echas.
Os colonizadores só voltariam em setembrodo mesmo ano para dar início ao 
processo de colonização da Ilha de Vera Cruz (ou Terra de Vera Cruz), primeiro 
nome dado ao Brasil, sendo que as primeiras capitanias hereditárias (quinze, 
ao todo) datam de 1532. 
A história da língua portuguesa no Brasil, então, começa a ser desenhada.
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Os estudos sobre o português falado no Brasil de-
moraram a acontecer e, até o século XX, são poucas 
as publicações sobre o assunto (FARACO, 2018).
• As primeiras publicações são do gramático Ma-
nuel Pacheco da Silva Júnior, que escreveu “Es-
tudo da lingua vernacula - Phonologia” e “Gram-
matica historica da lingua portuguesa”, em 1877 
e 1878, respectivamente.
• Praticamente um século depois, em 1957, o fi ló-
logo e linguista Serafi m da Silva Neto publicou 
“História da Língua Portuguesa”.
• Em 1984, os estudos linguístico-históricos, en-
cabeçados pela linguista Rosa Virgínia Mattos 
e Silva, ganham maior força e dão vazão a essa 
pesquisa que, até então, era uma lacuna na his-
tória linguística de nosso país.
O reconhecimento de que o português de Portugal e o do Brasil são diferen-
tes em sua fonologia e fonética já existia por parte dos fi lólogos brasileiros. No 
entanto, os pesquisadores modernos valorizam bem mais a morfologia da 
nossa língua, os vocabulários de origem africana e indígena.
Esses estudos comprovaram, dentre muitas situações, que a língua falada no 
Brasil - e que era estudada pelos primeiros fi lólogos - não era a língua do povo, 
já que ainda estávamos muito ligados a Portugal e à sua condição econômica 
e social. 
Da economia escravista e da pesada divisão social que ela implicava, 
resultava uma forte polarização linguística: o português da elite branca e 
intelectualizada não era, claro, o português da massa de escravos, mestiços 
e brancos pobres. Assim, para sustentar que a língua de cá era a mesma 
que a de lá, era preciso realizar, já de início, um corte radical, excluindo da 
discussão e análise as falas populares. (FARACO, 2018, p. 67).
No entanto, essa ruptura não foi tão fácil assim, já que o contato entre a lín-
gua portuguesa de Portugal e as línguas faladas aqui, a dos indígenas e a dos 
escravos, ocorreu assim que o colonizador pisou no Brasil pela primeira vez. 
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Desde então, quando um tentava compreender o outro, quando um queria 
dominar o outro, a língua sempre circundava essas situações e, assim, foi se 
constituindo diferente daquela usada em Portugal.
Desse modo, é possível dizer que a formação do português do Brasil passa, 
inevitavelmente, pelo multilinguismo. Quando os portugueses chegaram, 
em 1500, estimava-se que vivia aqui uma população de aproximadamente 
seis milhões de índios, utilizando em torno de 340 línguas, muitas distintas 
umas das outras, conforme apontam os estudos de Rodrigues (2002). Destas, 
pelo menos metade delas já não existem mais, seja pela dizimação de tribos 
inteiras pelos europeus, seja pelas doenças que acometiam os índios e que os 
levavam à morte.
A língua indígena que mais se tem conhecimento, que seria aquela usada 
para comunicação entre os portugueses e os índios durante os séculos XVI e 
XVII, é o Tupinambá, ou simplesmente tupi. Essa foi a língua utilizada pelos 
bandeirantes em suas expedições pelo sul do país e em direção à Amazônia.
A língua tupi era a língua usada pelas famílias de portugueses em São Paulo, 
sendo conhecida como língua geral. O português era aprendido somente na 
escola.
A infl uência dessa língua foi tão grande 
que a coroa portuguesa, incomodada, 
acabou por proibir seu uso no século XVIII, 
mas não sem antes deixar sua marca em 
nomes da nossa língua, sobretudo aqueles 
referentes à fauna, como quase 30% dos 
nomes de aves e praticamente a metade 
dos nomes de peixes, muito provavelmen-
te porque ambos os povos apreciavam a 
pesca, o que resultava no contato entre as 
duas línguas (RODRIGUES, 2002).
O quadro a seguir apresenta algumas das palavras que têm origem na lín-
gua tupi.
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AMOSTRA DO VOCABULÁRIO DO TUPINAMBÁ (TUPI ANTIGO), NA ORTO-
GRAFIA JESUÍTICA DO SÉCULO XVIII
Elementos da natureza Plantas
cudra, cudracý: sol
jacý: lua
ybáca: céu
ybý: terra
ybytýra: morro, serra
ý: água
itá: pedra
ytú: cachoeira, salto
Cýba: árvore
ybyrá: pau, madeira
capi’í: capim
jaçapé: capim-sapé
tacuará: taquara
ycypó: cipó
ca’á: mato
nhu: campo
Animais Pessoas
jaguára: onça
guyrá: pássaro
pirá: peixe
mbóia: cobra
tejú: lagarto
jacaré: jacaré
jaboti: cágado
jundi’á: bagre
abá: gente, índio
apyabá: homem
cunhã: mulher
cunumí, curumí: menino
morubixába, tubixába: chefe
pajé: pajé, xamã
túba: pai
sý: mãe
Casa e instrumentos Qualidades
óca: casa
tába: aldeia
ocára: pátio da aldeia
urapára: arco
u’úba: fl echa
iý: machado
kycé: faca
iní: rede de dormir
ting: branco
ún: preto
piráng: vermelho
poráng: bonito
mirí: pequeno
-guaçú, -ucú: grande
tining: seco
péb: chato, plano, baixo
Fonte: RODRIGUES, 2002, p. 22.
Contudo, não foi somente nesses dois campos que a infl uência do tupi se fez 
presente. A maior delas poderá ter sido na toponímia brasileira, pois é grande o 
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número de localidades com nomes de origem Tupinambá. Curiosamente, apon-
ta Rodrigues (2002), muitas dessas nominações ocorreram por parte dos luso-
-brasileiros, mas em localidades onde os índios tupis nunca, de fato, viveram.
Veja no quadro a seguir alguns desses nomes.
AMOSTRA DO VOCABULÁRIO DO TUPINAMBÁ (TUPI ANTIGO) NA ORTO-
GRAFIA JESUÍTICA DO SÉCULO XVIII
Nomes Compostos
ý-guaçú: rio grande (cf. Iguaçu, BA, MG, PR, RN)
ý-ting-a: rio branco, água branca (cf. Itinga, BA, MG, PA; Utinga, AL, BA, RN)
ý-piráng-a: rio vermelho (cf. Ipiranga, ES, SP)
ybý-péb-a: terra plana (cf. Ibipeba, BA)
ybý-poráng-a: terra bonita (cf. Ibiporanga, BA, SP)
ybytýr-ú-a: morro preto, serra negra (cf. Ibituruna, MG; Ibitiruna, SP)
ybytý-poráng-a: morro bonito (cf. Ibituporanga, RJ)
itá-ting-a: pedra branca (cf. Itatinga, SP)
itá-ún-a: pedra preta (cf. Itaúna, BA, MA, MG; Itaúnas, ES, MG, SE)
itá-péb-a: pedra chata, laje (cf. Itapeva, MG, SP)
itá-péb-uçú: laje grande (cf. Itapebuçu, CE)
itá-pé-mirí: laje pequena (cf. Itapemirim, ES)
itá-pé-ting-a: laje branca (cf. Itapetinga, BA, MA, SP)
itá-pé-tining-a: laje seca (cf. Itapetininga, SP)
itá-‘ý: rio das pedras (cf. Itaí, BA, SP; Itaú, MG, PA, RN)
itá-ting-ý: rio das pedras brancas (cf. Itatingui, BA)
itá-péb-ý: rio das lajes (cf. Itapebi, BA; Itapevi, SP)
itá pé-ting-ý: rio das lajes brancas (cf. Itapetingui, BA)
jacaré-‘ý: rio dos jacarés (cf. Jacaréi, PI, SP)
jundi’á’ý: rio dos bagres (cf. Jundiaí, RN, SP)
jaguár-ý: rio das onças (cf. Jaguari, MG, SP
jaguár-ý-úna: rio preto das onças (cf. Jaguariúna, SP)
jaguár-ý-pe: no rio das onças (cf. Jaguaripe, BA; Jaguaribe, CE)
tejú-‘ý-pe: no rio dos lagartos (cf. Tijuípe, BA)
tejú-guaçú: lagarto grande (cf. Tijuaçu, BA)
Fonte: RODRIGUES, 2002, p. 22.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
O podcast “Pílulas do Conhecimento” traz 
um conteúdo sobre a infl uência do Tupi 
na Língua Portuguesa falada no Brasil, que 
certamente irá agregar conhecimento aos 
seus estudos sobre a nossa língua.
Esse foi o primeiro contato linguístico em terras brasileiras, sendo seguido 
pelo contato com as línguas africanas. Essa variedade linguística iniciou em 
1538, quando os primeiros escravos foram trazidos para o Brasil.
4.2 PARTICULARIDADES DO PORTUGUÊS DO 
BRASIL
Duas línguas foram fundamentais no contatolinguístico entre o português 
do colonizador e as línguas africanas: o ioruba, da Nigéria, e o quimbundo, 
de Angola.
Teyssier (2001) chama atenção para o fato de 
que certas palavras não foram trazidas para 
o Brasil diretamente pelos africanos, mas ti-
veram um desvio de rota, por assim dizer. 
Por exemplo, a palavra africana inhame foi 
levada da África para Portugal e consta nos 
registros do diário de Cristóvão Colombo, 
datado de 1492, como ñame, em espanhol. 
Pero Vaz de Caminha também cita o termo 
em sua carta, confi rmando que a palavra já 
era conhecida dos portugueses.
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O ioruba é uma língua africana que pode ser encontrada na base lexical baia-
na, sobretudo nos termos referentes à religiosidade (orixá) e à culinária (vata-
pá, acarajé). O quimbundo, por sua vez, ganhou o vocabulário geral, sendo 
encontrado em palavras como caçula, cafuné e moleque, geralmente atribu-
ídas ao contexto das plantações de cana-de-açúcar.
FIGURA 2 - MOAGEM DA CANA NA FAZENDA CACHEIRA, EM CAMPINAS. ÓLEO SOBRE 
TELA. 105CM X 135CM. ACERVO DO MUSEU PAULISTA (SÃO PAULO, SP)
Fonte: CALIXTO, [s.d.], on-line (domínio público)
#PraCegoVer
Ilustração de engenho de moer cana-de-açúcar. No primeiro plano dois homens carregam 
feixes de cana e ao fundo bois amarrados se movimentam o engenho.
Para que você possa se situar geografi camente, é importante compreender 
que as línguas indígenas faziam contato com o português mais nas áreas ru-
rais, enquanto as pertencentes ao falar africano (tronco niger-congo da língua 
africana) eram mais usadas - e, desse modo, difundidas - nas áreas urbanas.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Para complementar seu conhecimento 
sobre o português falado pelos escravos 
e como suas línguas infl uenciaram forte-
mente a língua portuguesa do Brasil, leia 
o artigo “Falas e cores: um estudo sobre o 
português de negros e escravos no Brasil do 
século XIX”, de Tania Alkmim (2018).
 
É importante destacar que na era colonial a população urbana era bem peque-
na. Nas cidades formadas como centros urbanos, como Salvador e Rio de Janeiro, 
não havia nenhum tipo de atrativo para aqueles que viviam ou que exploravam a 
área rural, como os donos dos engenhos de açúcar, dos grandes mineradores ou 
dos fazendeiros de gado. Tal panorama favoreceu o conservadorismo linguístico, 
retratando um igual conservadorismo cultural e geográfi co.
Conservadorismo faz referência àquilo que 
se conserva, que permanece dentro de uma 
determinada comunidade, sem grandes al-
terações ou mudanças, seja ela de fala, geo-
gráfi ca, social ou outra qualquer.
 
Essa era a situação linguística no século XVIII, que começou a mudar com 
o ciclo do ouro, iniciado nesse período. A vinda da corte portuguesa para o 
Brasil no século seguinte traz grandes mudanças, sobretudo no que se refere 
à educação e à cultura nacionais. A cidade do Rio de Janeiro, denominada 
simplesmente “Corte”, foi a escolhida por D. João VI para se estabelecer com 
sua família e comitiva, de março de 1808 a janeiro de 1821. A capital brasileira, 
no entanto, era Salvador.
Esse contexto explica boa parte do motivo pelo qual o Brasil custou tanto a se 
desenvolver cultural e intelectualmente. Teyssier (2001) aponta que, no século 
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XVIII, o Brasil não tinha universidade e tampouco tipografi a, o que restringia 
- e muito - o acesso a qualquer coisa que desse a ideia de intelectualidade 
brasileira. As notícias que chegavam eram sempre por cartas de além-mar 
ou escritas pelos comandados do rei a serviço da colonização em território 
brasileiro.
Teyssier (2001, p. 62) descreve esse período 
do seguinte modo:
No período de que estamos tratando, a si-
tuação lingüística (sic) do Brasil pode ser as-
sim resumida. Os “colonos” de origem por-
tuguesa falam o português europeu, mas 
evidentemente com traços específi cos que 
se acentuam no decorrer do tempo. As po-
pulações de origem indígena, africana ou 
mestiça aprendem o português, mas ma-
nejam-no de uma forma imperfeita. Ao lado 
do português existe a língua geral, que é o 
tupi, principal língua indígena das regiões 
costeiras, mas um tupi simplifi cado, grama-
ticalizado pelos jesuítas e, destarte, tornado 
uma língua comum.
 
 
Assim, o português do Brasil falado pelos “colonos” a que se refere o autor era 
potencializado pela língua portuguesa europeia, principalmente pelo dese-
jo da nobreza de que seus fi lhos, para não correrem o risco de serem “mal” 
infl uenciados pela língua e cultura dos povos indígenas e africanos, se man-
tivessem o mais longe possível dos falares e costumes daqui. Desse modo, 
iam estudar em universidades de Coimbra, em Portugal, de onde retornavam 
formados como advogados, como indicam Ilari e Basso (2009), com a capa-
cidade linguística presa às oratórias próprias da profi ssão e do meio social do 
qual haviam participado em Portugal.
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4.3 A LÍNGUA PORTUGUESA É BRASILEIRA
A imigração no Brasil faz com que a língua passe, mais uma vez, por diversas 
mudanças e sofra novas infl uências. Entre 1890 e 1920, quatro milhões de imi-
grantes provindos da Itália, Espanha, Alemanha, Arábia, Turquia e do Japão 
deixaram suas nações e vieram para cá. Levando em conta que, nessa época, 
a população brasileira contava com 30 milhões de habitantes, o registro im-
pressiona bastante.
Mais uma vez as línguas entram em contato, misturando-se e promovendo 
outras alterações. Os empréstimos linguísticos são numerosos, sobretudo nas 
regiões onde essas populações se estabeleceram: do Sudeste para o Sul do 
Brasil. Ilari e Basso (2007, p. 80) explicam que a desigualdade linguística exis-
tiu também nesse contexto:
Como muitos imigrantes vinham para trabalhar na lavoura (o período 
de maior imigração coincide com o ciclo do café), suas línguas maternas 
prevaleceram nas próprias comunidades em que se exerceu essa atividade. 
Muitas vezes, os núcleos de colonização criados pelos imigrantes evoluíram 
para vilas e cidade e, em muitas dessas vilas e cidades, falou-se uma língua 
ou mais provavelmente um dialeto trazido por eles.
As crianças eram alfabetizadas e tinham sua escolarização continuada nas 
línguas e nos dialetos de cada comunidade. Essa situação permaneceu até 
o período imediatamente anterior ao início da Segunda Guerra Mundial, em 
que o governo invalidava e proibia toda e qualquer alfabetização que não fos-
se na língua ofi cial do país, a língua portuguesa. Contudo, a língua portugue-
sa do Brasil já estava fortemente infl uenciada pelos falares desses indivíduos. 
Veja no vídeo “As marcas do português bra-
sileiro”, produzido pela equipe de Pesquisa 
FAPESP, como a expansão do português no 
Brasil, as variações regionais com suas pos-
síveis explicações e as raízes das inovações 
da linguagem estão emergindo por meio 
do trabalho de diversos linguistas.
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Esse quadro somente se transformou no século XX, quando os grandes cen-
tros urbanos passaram a oferecer condições de trabalho, o que resultou no 
êxodo rural. A indústria, maior responsável por essa situação, também acabou 
por obrigar o homem brasileiro a se escolarizar, pois necessitava de mão de 
obra instruída para manipular suas máquinas.
A diferença entre o falar urbano e o falar rural só se acentuou, pois a fala ru-
ral era menosprezada pelo homem da cidade. O homem do campo era vis-
to como alguém desconhecedor de qualquer cultura ou escolarização e, por 
isso, sem condição intelectual de participarde uma sociedade citadina consi-
derada evoluída cultural e intelectualmente.
Por dialeto caipira podemos compreender 
aquele que era falado na zona rural, pelo 
homem do campo. E o que isso pode dizer 
sobre a nossa língua? Esse é o assunto do 
vídeo “Dialeto caipira”, em que o professor 
Manoel Mouri Santiago, coordenador do 
Projeto Caipira da USP fala sobre essas dife-
renças linguísticas em nosso país.
Essa ainda é uma realidade atual, em que a língua usada no campo é consi-
derada de menor prestígio, o que lhe dá uma condição inferior. Sabe-se, no 
entanto, que são apenas variações de uma mesma língua, que não remetem 
à condição superior ou inferior, mas diferente dos falares urbanos. Logo, dife-
rentes entre si.
O PORTUGUÊS NO RESTO DO MUNDO
4.4 UMA PARTE DA ÁSIA QUE FALA O 
PORTUGUÊS
A língua portuguesa é a oitava língua mais falada em todo o planeta e a ter-
ceira dentre as línguas ocidentais, vindo atrás somente do inglês e do espa-
nhol. São praticamente 300 milhões de pessoas falando o português.
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FIGURA 3 - PORTUGUÊS FORA DA EUROPA
Fonte: Adaptado de INSTITUTO CAMÕES (2001).
#PraCegoVer
Mapa-múndi com destaque para os países fora da Europa que falam português: Brasil, 
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Timor-Leste e Macau
A Ásia é um desses lugares onde Portugal fi xou colônia já entre os anos de 
1497 e 1498, com a chegada a Calicute, na Índia. Além desta, a China e a In-
sulíndia (ou arquipélago Malaio) também são territórios conquistados pelos 
portugueses.
Desse modo, dos séculos XVI ao XVIII, a língua falada nos portos da Índia e no 
sudeste da Ásia era o português. Porém, no início do século XX, a realidade 
era outra. Somente em Goa, Diu e Damão, territórios indianos, uma parte da 
ilha de Timor, na Indonésia, e em Macau, na China, a língua portuguesa era 
utilizada.
A União Indiana reconquistou seu território em 1961. Em 1974, Timor foi anexa-
do pela Indonésia. 
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A língua portuguesa sobrevive nesses territórios nas seguintes formas (TEYS-
SIER, 2001; ASSIS, 2011):
Por meio de alguns crioulos portugueses ainda falados, 
no início do século XX, em Goa, Damão e Diu, além de Ceilão, Java, 
Malaca e Macau. Resistem ao tempo, de acordo com alguns estudos, 
essencialmente em Ceilão e Malaca.
Como língua ofi cial em Goa, 
atualmente incorporado à União Indiana. No entanto, o inglês está 
desbancando esse status.
Como língua ofi cial também em Macau, 
junto ao chinês, porém como língua dos setores administrativos e de 
uma pequena parte da população.
4.5 O PORTUGUÊS NO CONTINENTE 
AFRICANO
No continente africano, a situação da língua portuguesa se diferencia, e mui-
to, daquela vista na Ásia. Na história da colonização portuguesa na África, a 
retomada dos territórios ocorreu a partir da Revolução de 25 de abril de 1974. 
O cenário político e econômico que envolvia as colônias africanas mantidas 
por Portugal (Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Ango-
la) não era dos melhores e enfraqueceu, substancialmente, com as inúmeras 
guerrilhas armadas que envolviam movimentos de independência dessas co-
lônias. Portugal tentava combater essas guerrilhas, mas não conseguiu gran-
de êxito.
Tudo isso fez com que os portugueses gastassem um valor considerável com 
a tentativa de conter tais confl itos, culminando com a independência des-
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sas colônias e a fundação de cinco repúblicas: Cabo Verde, Guiné-Bissau, São 
Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, conforme mostra o mapa a seguir.
FIGURA 4 - A ÁFRICA LUSÓFONA
Fonte: TEYSSIER, 2001, p. 77.
#PraCegoVer
Ilustração do mapa do continente africano, com destaque para Ilhas de Cabo Verde, Guiné-
Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.
O português é a língua ofi cial desses cinco países, ou seja, a língua adminis-
trativa, da imprensa, ensinada na escola e das relações exteriores. No entanto, 
são as línguas nacionais as utilizadas como instrumento de comunicação da 
vida social dos habitantes dessas nações, os denominados falares africanos 
ou crioulos portugueses.
O português africano compreende as seguintes características linguísticas 
(ASSIS, 2011; PEREIRA, [s.d.]):
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
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Angola - considerada aquela em que a 
ligação histórica, cultural e linguística com 
o Brasil é maior. Quase todas as suas línguas 
são da família banto, sendo considerada um 
país multilíngue. O português é a língua 
ofi cial, mas convive com os falares nativos 
(bacongo, chacue, ovibundo e quimbundo), 
sobretudo no interior do país.
Fonte: Pixabay (2020)
#PraCegoVer
Bandeira da Angola
Moçambique - embora a maior parte da 
população utilize o português como língua 
ofi cial, menos de 2% a tem como língua 
materna. A maioria fala línguas de origem 
banto.
Fonte: Pixabay (2020)
#PraCegoVer
Bandeira de Moçambique
Cabo Verde - nesse país, o crioulo português 
tem origem no português arcaico. A língua 
portuguesa é a língua de ensino, que convive 
com o kriolu ou kauberdianu, considerada 
a língua materna desse arquipélago.
Fonte: Pixabay (2020)
#PraCegoVer
Bandeira de Cabo Verde
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Guiné-Bissau - assim como em Cabo Verde, 
os crioulos portugueses são considerados 
línguas nacionais, sendo a ofi cial o 
português. Esses crioulos convivem, 
também, com o francês, além de inúmeras 
línguas pertencentes aos grupos Oeste-
Atlântico e Mande.
Fonte: Pixabay (2020)
#PraCegoVer
Bandeira da Guiné-Bissau
São Tomé e Príncipe - a língua portuguesa 
é a língua ofi cial e a de instrução, e convive 
com as línguas forro e moncó, consideradas 
línguas maternas.
Fonte: Pixabay (2020)
#PraCegoVer
Bandeira de São Tomé e Príncipe
Embora a língua ofi cial dessas nações africanas seja o português, há muito 
que ela se distanciou do português de Portugal, mesma situação que ocorre 
no Brasil. No entanto, nessas nações é o crioulo de base portuguesa que se es-
tabelece como língua nacional, tida como a língua materna de alguns povos 
e convivendo ao lado de outras línguas africanas.
4.6 UMA LÍNGUA E VÁRIOS FALARES
Muito embora o português que herdamos como língua tenha sua origem 
na Europa, mais precisamente na Península Ibérica em que hoje se susten-
ta Portugal, cada vez mais essa língua se distancia de suas origens e, conse-
quentemente, de sua evolução. No Brasil, vários aspectos históricos levaram, 
desde o começo da colonização até nossos dias, a uma diversidade linguística 
que atravessa o extenso território nacional. Línguas indígenas e africanas de-
ram a situação de multilinguismo e de contato linguístico inicial, formando 
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uma língua que não era nem portuguesa, nem brasileira, mas um misto que 
daria o tom diverso de nosso país.
Posteriormente, línguas como árabe, chinês, italiano, alemão, espanhol, japo-
nês, dentre outras, iriam se juntar a essa diversidade linguística, fazendo com 
que centenas de termos fossem incorporados ao nosso falar cotidiano, seja 
em algumas regiões brasileiras, seja no total de nosso território. A expansão 
linguística acabou por dar o tom variacional da língua portuguesa que havía-
mos constituído e que se renova temporalmente.
A língua falada no Brasil não vem apenas 
dos portugueses. Ela também recebeu in-
fl uência de índios, africanos e migrantes 
europeus. Saiba tudo sobre a formação do 
português brasileirono texto de Ataliba 
Castilho, “A hora e a vez do português bra-
sileiro”.
Em outras nações cuja língua foi suplantada pela do colonizador, o português 
já não tem mais a mesma força de antes, convivendo ao lado de crioulos por-
tugueses e de línguas nacionais, como o caso dos países africanos, antigas 
colônias de Portugal. Na Ásia não é diferente, pois o português ainda existe 
somente em Macau e Goa como língua ofi cial, mas não durará por muito 
mais tempo, visto que está sendo substituída pelo chinês pelos habitantes 
daquele país.
Porém, embora seja a língua ofi cial das nações aqui descritas, não podemos 
esquecer que a língua portuguesa é largamente difundida nos quatro cantos 
do globo pelos milhares de imigrantes que elegeram outras nações para vive-
rem, como Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, China, dentre muitas 
outras. Portanto, é de se esperar que a língua portuguesa tenha característi-
cas próprias de cada região em que é usada, sendo infl uenciada por fatores 
históricos, sociais, geográfi cos e culturais de cada lugar.
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Mattos e Silva (1988, p. 14) expõe muito bem 
essa variação e diversidade:
As normas sociais, confi guradas a partir de 
determinado dialecto de prestígio sócio-
-político e cultural, considerado standard 
ou modelo para a sociedade de cada local, 
também são diferenciadas. A esse entre-
cruzar-se de dialectos sociais, espaciais e de 
normas linguísticas impõem-se as normas 
específi cas da língua escrita que neutrali-
zam muitas das diferenças da fala quotidia-
na, mas estão longe de anulá-las. A espinha 
dorsal que, entretanto, une todas essas dife-
renças se capta em um nível de abstracção 
maior, que é do sistema de regras comuns 
que subjaz a essas diferenças, e que dá su-
porte a que, enquanto fenómeno histórico 
se possa afi rmar que nesses diferentes pon-
tos do globo está, ali, a língua portuguesa e 
não outra língua.
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CONCLUSÃO
A língua portuguesa que falamos, que escrevemos e que usamos em nosso 
dia a dia, no Brasil, talvez nunca tenha sido exatamente como a língua por-
tuguesa europeia. Esse distanciamento tem sua raiz já nos primeiros conta-
tos entre os colonizadores portugueses e os povos indígenas que aqui viviam 
quando o Brasil começou a ser colonizado.
Logo em seguida, foram as línguas africanas que infl uenciaram grandemen-
te nosso falar, contribuindo com termos familiares, mas que nem sempre são 
associados corretamente às línguas dos escravos.
A língua portuguesa do Brasil foi o tema desta unidade, além do português que 
restou ou que ainda é usado em ex-colônias portuguesas na Ásia e na África.
Por fi m, o português falado no globo foi mostrado a você como forma de com-
preender que esta é uma língua diversa, caracterizada pelas inúmeras infl uên-
cias que recebeu e ainda recebe nos diferentes territórios em que é falada.
UNIDADE 5
> Compreender 
a fonética e a 
fonologia e sua 
constituição.
> Identifi car a 
evolução fonética e 
fonológica da língua 
portuguesa.
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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5 GRAMÁTICA HISTÓRICA DA 
LÍNGUA PORTUGUESA: FONÉTICA 
E FONOLOGIA 
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
A mudança que ocorre nas línguas é natural, porém não acontece de forma 
repentina, mas gradualmente, de acordo com todo um processo de evolu-
ção e de alterações que não são imediatamente percebidas por seus falantes. 
Aliás, não há a consciência de que essas mudanças estão ocorrendo. Só per-
cebemos as transformações da língua quando passamos a estudá-la e confi r-
mamos o que ocorreu e como isso foi possível.
Também é a partir da fala que essas mudanças vão ocorrendo, só depois pas-
sando para a escrita, quando esta existe. É na fala que os sons são produzidos 
e é o estudo das características desses sons que vão indicando o processo de 
alteração de determinada língua.
Nesta unidade, você vai compreender como a fonética e a fonologia são duas 
ciências indispensáveis para a compreensão da mudança linguística, muito 
embora nem sempre tenha sido assim, como já vimos em unidades ante-
riores. Atualmente, sabe-se o quanto é importante conhecer a fonologia e 
a fonética de uma língua para compreender todo o processo de mudança 
linguística pela qual passou. Esses estudos darão o suporte necessário para 
defi nir os tipos de mudança, a história que envolve essas alterações e quais 
alterações provocaram na escrita. Bons estudos!
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MUDANÇAS FONÉTICAS E FONOLÓGICAS DA 
LÍNGUA PORTUGUESA 
5.1 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A 
FONÉTICA E A FONOLOGIA
Embora as duas linhas de estudo tenham como objetivo o sistema fônico, 
fonética e fonologia não são a mesma coisa. Veja como alguns autores con-
ceituam esses diferentes ramos da linguística.
Lyons (1981, p. 71) 
Fonética é o estudo do meio fônico, enquanto a fonologia “é uma das 
partes do estudo e da descrição dos sistemas linguísticos, sendo outra 
a sintaxe, e outra a semântica”. 
Masip (2014, p. 05) 
Diz que “a fonologia é a parte da linguística que estuda o som como 
signo do código; e a fonética, o próprio som emitido, captado e 
percebido; aquela seria a partitura de um idioma, e esta, o seu registro”.
Massini-Cagliari e Cagliari (2008, p. 106) 
“A principal preocupação da fonética é descrever os sons da fala”. Já a 
fonologia “procura interpretar os resultados obtidos por meio da 
descrição (fonética) dos sons da fala, em função dos sistemas de sons 
das línguas e dos modelos teóricos disponíveis”. 
Em relação aos estudos de análise fonética e fonológica, Massini-Cagliari e 
Cagliari (2008, p. 106) apontam que, “enquanto a análise fonética se baseia 
na produção, percepção e transmissão dos sons da fala, a análise fonológica 
busca o valor dos sons em uma língua”.
Como é possível observar, há uma defi nição em comum para os autores ci-
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
tados: a de que à fonética compete o estudo do som da fala e à fonologia, o 
estudo do som de uma língua específi ca.
Para entender como funciona na prática, vamos analisar a palavra Brasil e ob-
servar suas transcrições fonética e fonológica.
TRANSCRIÇÕES FONÉTICA E FONOLÓGICA DA PALAVRA “BRASIL”
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
No exemplo dado, a palavra “Brasil” foi transcrita fonologicamente com [z] re-
presentando o símbolo sonoro (fonológico) que a letra “s” é produzida oral-
mente nessa palavra. Foneticamente, no entanto, essa produção sofrerá va-
riações no território brasileiro. A transcrição que apresentamos aqui é aquela 
realizada oralmente no sudeste brasileiro, por exemplo. No entanto, em regi-
ões como a do sul do Brasil, em que há grande concentração de descenden-
tes de imigrantes italianos, essa palavra poderia ter sua transcrição fonética 
do seguinte modo: [brazil].
Mori (2008, p. 149) apresenta uma importan-
te informação sobre a consolidação dessas 
ciências: “A diferença entre Fonética e Fono-
logia foi consolidada no Primeiro Congres-
so Internacional de Linguistas realizado em 
Haia, em 1928, a partir do trabalho de três 
linguistas russos: Roman Jakobson, Nikolai 
Trubetzkoy e Serge Karcevsky. (...) Essa dife-
rença foi consagrada por Trubetzkoy (1969), 
que diferenciou duas ‘ciências de sons’, uma 
que se ocuparia do ato de fala e outra do sis-
tema da língua”.
 
 
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Essas considerações sobre a fonologia e a fonética da língua portuguesa são 
importantes para que você compreenda como ocorreu a evolução de nos-
sa língua, lembrando, sempre, que a fala é precursora da escrita. Tanto que 
há comunidades linguísticas cuja língua falada não apresenta representação 
escrita, são as denominadas línguas ágrafas. Não é a realidade das línguas 
românicas e de suas descendentes, que apresentam a representação escrita 
e, consequentemente, uma ortografi a ou sistema gráfi co, como também é 
denominado.
Sobre esse aspecto, Bechara (2009) observa que tal sistema é regulado pela 
fonologia e pela fonética, ora por uma, ora por outra. É assim que vemos a 
complexidade no que se refere ao ideal gráfi co, ou seja, a uma ortografi a em 
que cada letra representasse um som da fala, algo extremamente difícil de 
ocorrer.
Letra - representação gráfi ca que reproduz 
o som na escrita, o que não signifi ca iden-
tifi cá-los. O nosso sistema fonológico tem 
sete fonemas vocais orais tônicos para cuja 
representação temos apenas cinco letras 
(a - e - i - o - u). Costuma-se, hoje, chamar 
grafema à unidade gráfi ca (letra) da escrita 
(BECHARA, 2009).
5.2 O PAPEL DOS METAPLASMOS NA 
EVOLUÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Por metaplasmo podemos conceber a mudança que acontece na estrutura 
interna da palavra e que poderá ter como causa o acréscimo, a supressão, a 
permuta ou a transposição de som em sua composição.
Acompanhe, no quadro a seguir, quais são os tipos de metaplasmo que po-
dem ocasionar uma alteração na palavra, além de suas ocorrências e exem-
plos de alteração do latim para o português.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
 TIPOS DE METAPLASMOS COM SUAS OCORRÊNCIAS
Tipo de 
metaplasmo
Ocorrência Como ocorre Exemplo
ADIÇÃO OU 
ACRÉSCIMO
Acréscimo 
por 
aglutinação
Inserção de som no começo da 
palavra
stella > estrela
Acréscimo 
por epêntese
Inserção de som no meio da 
palavra
cravelha > 
caravela
Acréscimo 
por epítese 
ou paragoge
Inserção de som no fi nal da 
palavra
sic > si > sim
SUBTRAÇÃO OU 
SUPRESSÃO
Aférese Supressão no começo da palavra germanum 
> ermano > 
irmão
Síncope Supressão no meio da palavra malu > mau
Apócope Supressão no fi nal da palavra arborem 
> arbore > 
árvore
Crase Fusão de duas vogais pedem > pee 
> pé
TRANSPOSIÇÃO
Metátese Mudança de som no interior da 
sílaba
semper > 
sempre
Hipértese Mudança de som entre sílabas de 
uma mesma palavra
primairo > 
primeiro
Sístole Mudança do acento tônico para a 
sílaba que vem antes na palavra
erámus > 
éramos
Diástole Mudança do acento tônico para a 
sílaba que vem logo em seguida 
na palavra
límite > limite
Fonte: Adaptado de Bagno (2017).
Esses são os principais metaplasmos que ocorrem no processo de mudança 
da língua. No entanto, autores como Bagno (2017) consideram mais um tipo: 
o da transformação. Veja a seguir como ela ocorre.
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• VOCALIZAÇÃO - transformação de uma consoante em vogal. 
Ex.: multu > muito
• CONSONANTIZAÇÃO - transformação de uma vogal em consoante. A 
maior ocorrência são as transformações das semivogais do latim “i” e “u” 
em “j” e “v” no português. 
Ex.: Iesus > Jesus 
uita > vida 
• NASALIZAÇÃO e DESNASALIZAÇÃO - transformação de um som oral em 
nasal e de um nasal em oral, na mesma ordem. 
Ex.: mihi > mi > mim (nasalização) 
luna > lũa > lua (desnasalização)
• SONORIZAÇÃO ou ABRANDAMENTO - transformação de uma consoante 
surda em uma sonora. 
Ex.: lupu > lobo 
arbore > árvore
• PALATIZAÇÃO ou PALATALIZAÇÃO - transformação de um ou mais seg-
mentos numa consoante palatal. 
Ex.: vinea > vinha folia > folha 
hodie > hoje 
fl amma > chama 
oculu > oclu > olho
• ASSIBILAÇÃO - quando um ou mais segmentos sonoros se transformam 
em uma consoante sibilante.
Ex.: audio > ouço capitia > cabeça
• ASSIMILAÇÃO ou DISSIMILAÇÃO - segmento sonoro que se transforma 
em um outro igual ou parecido com outro que já existe na mesma palavra. 
Se subdivide em:
 • Total - quando o som assimilado é muito parecido com aquele que o 
antecedeu.
 Ex.: persona > pessoa
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 • Parcial - o som assimilado se parece pouco com aquele que o antece-
deu.
 Ex.: auru > ouro
 • Progressiva - o som assimilado vem depois daquele que produziu a as-
similação.
 Ex.: amam-lo > amam-no
 • Regressiva - o som assimilado vem antes daquele que produziu a assi-
milação.
 Ex.: captare > cattar > catar
• APOFONIA - mudança de timbre de uma vogal por infl uência de um pre-
fi xo.
Ex.: sub + jactu = sujeito.
• METAFONIA - mudança no timbre de uma vogal por infl uência do timbre 
da vogal ou semivogal seguintes.
Ex.: jocu > jogo
A partir dos estudos do metaplasmo linguístico, percebe-se inúmeras altera-
ções possíveis na língua. Podemos perceber, inclusive, que em uma mesma 
palavra pode haver mais de um metaplasmo. Observe:
REPRESENTAÇÃO DE METAPLASMO NA PALAVRA “ÁRVORE”
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
O esquema apresenta os metaplasmos ocorridos na palavra “árvore”, do latim 
para o português. Você poderá notar que o “b” ainda é uma ocorrência sonora 
e escrita em palavras como “arborização” e “arborizado”, por exemplo.
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Para aprofundar um pouco seu conheci-
mento sobre a mudança de som que ocorre 
na língua portuguesa, leia a seção “Mudan-
ça de som” do capítulo “Linguística Histó-
rica”, de Gabas Júnior, no livro Introdução à 
linguística: domínios e fronteiras. (2008, pp. 
81-88).
5.3 VOGAIS E CONSOANTES DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
O conjunto de sons da fala é composto pelas vogais, semivogais e consoantes, 
que são produzidas com diferentes sons no aparelho fonador do ser humano. 
As vogais podem ser classifi cadas quanto à zona de articulação, quanto ao 
timbre, quanto ao papel das cavidades bucal e nasal, quanto à intensidade e 
quanto à elevação da língua.
 QUADRO DA CLASSIFICAÇÃO DAS VOGAIS
Fonte: CÂMARA JÚNIOR, 1992, p. 44.
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É igualmente importante que você conheça as consoantes do português bra-
sileiro. Observe o quadro a seguir.
QUADRO DA CLASSIFICAÇÃO DAS CONSOANTES
Fonte: BECHARA, 2009, p. 71.
Como é possível observar no quadro, a classifi cação das consoantes é maior, 
visto as zonas de articulação em que se dão tais fonemas.
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Sobre vogais e consoantes, você poderá ter 
uma compreensão mais a profundada na 
Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo 
Bechara (2009). 
A EVOLUÇÃO DA FONÉTICA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
5.4 FONÉTICA DO GALEGO-PORTUGUÊS
O Império Romano do Ocidente iniciou sua decadência em meados do sécu-
lo IV d.C. São várias as causas que podem ser apontadas, mas, sem dúvida, a 
principal delas foi a decorrente das invasões bárbaras. Povos como os germa-
nos e árabes invadiram e conquistaram a Península Ibérica, levando com eles 
a diversidade linguística.
Os romanos denominavam de bárbaros os 
invasores porque eles não falavam a mesma 
língua que eles, nem compartilhavam de 
seus costumes. Essa palavra foi um emprés-
timo da língua grega, que designava tudo o 
que fosse estrangeiro, ou seja, que não fosse 
grego.
No entanto, diferentemente do ocorrido com as conquistas romanas, em que 
o latim era exigido como língua ofi cial, esses povos não conseguiram impor o 
uso de suas línguas. Desse modo, o que houve foi um contato linguístico que 
resultou em uma influência de uma língua na outra. À medida que tal con-
tato foi ocorrendo, termos germânicos e árabes foram sendo introduzidos na 
língua já existente, o galego-português.
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Após a expulsão dos bárbaros durante a Reconquista, o galego-português 
tornou-se a língua falada e escrita em toda a Península Ibérica. Foram 552 
anos de permanência árabe no território português. Essa situação durou mais 
tempo em território espanhol (781 anos), fi nalizando em 1492, somente.
A presença dos árabes na Península Ibérica levou uma cultura bem mais de-
senvolvida, desde a Arquitetura, passando pela Filosofi a, Literatura, História, 
Geografi a, Medicina, Botânica, Agricultura e Música (CASTILHO, 2018).
O documentário transmídia “Galego-portu-
guês” apresenta a cultura e as ruas da Galí-
cia. Conheça um pouco mais sobre a língua, 
a geografi a e os costumes do lugar. 
O galego-português apresentava uma formação vocálica bastante numero-
sa em posição tônica, sendo que o acento tônico poderia incidir na última, 
na penúltima ou na antepenúltima sílaba. Essas são situações herdadas pelo 
português, que dispõe da mesma composição vocálica. 
Como exemplos dessas realizações, podemos citar: “ali” e “comigo” (i); “bento” 
e “dedo” (e); “bela” e “correta” (E); “azul” e “tudo” (u); “conto” e “som” (o); “rota” e 
“feroz” (∏); “casa” e “mala” (a).
Em relação à posição átona fi nal, o sistema vocálico apresentava, além das 
três vogais mantidas no português moderno (/a/, /e/ e /o/), um fonema /i/, como 
nos imperativos vendi e parti. Contudo, já ao fi nal do século XIV, observa-se a 
mudança, com a troca para o fonema /e/ (“vende” e “parte”).
á no que se refere ao “o” fi nal, era observada a escrita de um -u em seu lugar. 
Teyssier (2001, p. 23) destaca que essa interpretação, que provém de historiadores 
da língua, diz respeito às “grafi as medievais em -u – Ex.: avemus e canpu –, como 
latinismos ou como formas de traduzir um timbre muito fechado de -o fi nal”.
Na posição átona não fi nal, ou seja, em início ou meio de sílaba, o sistema vocálico 
apresentava os cinco fonemas seguintes: /i/, /u/, /e/, /o/ e /a/, como em conhocer, tra-
ger e burlar.
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Os ditongos pertencem a outra categoria que apresenta a mesma formação do 
português atual. Para o fi nal -i, “ui”, “ei”, “oi” e “ai”; para o fi nal -u, “iu”, “eu”, “ou” e “au”.
A nasalização ocorria com a inserção de uma consoante nasal implosiva de-
pois da vogal, tanto no início ou meio de sílaba (aparente, longo e mundo), como 
em fi nal de palavra, (quen, pan e comum). Você pode notar que a fi nalização 
dessas palavras se dava em -n, mas, já no período medieval, essa grafi a foi 
sendo substituída por -m, permanecendo até nossos dias.
Por fi m, convém especifi car sobre os encontros vocálicos, que se apresenta-
vam em grande número. Uma das explicações dada por Teyssier (2001) seria 
a queda de algumas consoantes existentes no latim. Desse modo, teríamos a 
queda do -g- (legere > leer); do -d- (sedere > seer); e do -l- (colore > coor).
Quando fl exionamos uma sílaba em uma 
palavra e impomos uma intensidade maior 
sobre ela, provocamos o que se denomina 
de acento tônico ou prosódico, que poderá 
ser assinalado de modo natural, como na 
palavra “a.mo.ro.so” ou grafi camente, por 
meio de um sinal gráfi co, como em “a.má.
vel".
Em relação ao sistema consonantal, é possível reconstituir o sistema de acor-
do com o quadro a seguir.
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SISTEMA CONSONANTAL DO GALEGO-PORTUGUÊS
Labiais Dentais-alveolares Palatais Velares
Oclusivas:
Surdas /p/ /t/ /k/
Sonoras /b/ /d/ /g/
Constritivas:
Surdas /f/ /ts/ /s/ /tš/ /š/
Sonoras /v/ /dz/ /z/ /(d)ž/
Nasais /m/ /n/ /nh/
Laterais [l]1 /lh/ /ł/1
Vibrantes:
Branda /r/
Forte /ṝ/
Semivogais /y/ /w/
1) O [l] dental e o [ł] velar eram, como hoje, as duas realizaenta fonlizaen de um mesmo 
fonema /l/. No ine um de sílaba taba m d [l] (ex.: ler); e no fi m de silaba, [ł] (ex.: mal).
Fonte: TEYSSIER, 2001, p. 24.
As principais situações de transformação do galego-português para o portu-
guês, de acordo com Teyssier (2001), são as seguintes:
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1) Os grupos iniciais pl-, cl- e fl - passaram 
para ch-. Inicialmente, percebeu-se uma 
palatização do “l”, como em plaga > llaga, 
clave > llave e fl amma > llama. Essa ocor-
rência se manteve no espanhol, porém, em 
português, passou para “chaga”, “chave” e 
“chama”, respectivamente.
2) A perda do “n” intervocálico trouxe alguns 
efeitos como a nasalização da vogal imedia-
tamente anterior, em palavras como “vinho” 
e “mão” (vinu e manu), o que resultou em 
diversos hiatos. 
3) Processo semelhante ocorreu com o “l”, 
que também originou alguns hiatos no ga-
lego-português, inexistentes em português. 
São palavras como salire > sai, dolore > door 
> dor, voluntade > voontade > vontade. Teys-
sier (2001) afi rma que o plural de palavras 
como “sol” e “anel” em “sóis” e “anéis” é jus-
tifi cado por essa queda do “l” intervocálico.
4) Existência de um par de africadas, sendo 
uma surda (/ts/) e outra sonora (/dz/), como 
em cen e cozer, respectivamente, que se 
igualam aos fonemas /s/ e /z/ no português 
moderno: “sem” e “cozer”.
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5.5 A LÍNGUA PORTUGUESA EVOLUI 
FONETICAMENTE
 O galego-português apresentava uma grafi a de acordo com a fonética da 
língua e, por isso mesmo, as palavras nem sempre eram escritas de modo 
uniforme: uma mesma palavra poderia ser encontrada em textos de diferen-
tes autores registrada com grafi as distintas. 
Após a separação das línguas, o português começou a se consolidar, o que 
culminou em uma hegemonia gráfi ca. É o português moderno que se con-
sagra a partir do século XVI. 
Quanto à fonética, as transformações continuaram a ocorrer. Em relação às 
vogais, podemos listar as seguintes mudanças:
PRINCIPAIS EVOLUÇÕES FONÉTICAS VOCÁLICAS DO PORTUGUÊS
Mudança Ocorrência Exemplo
Desenvolvimento de 
uma consoante entre 
duas vogais
-ĩ-o e -ĩ-a > -inho, -inha vĩ-o >vinu > vinho
galĩ-a > gallina > galinha
Contração das duas 
vogais numa vogal única
As vogais nasais 
resultantes das contrações 
desse tipo são [ĩ], [ĕ], [ã], [õ], 
[ũ], já existentes na língua.
lã-a > lã, bõ-o > bõ (escrito 
bom), tĕ-es > tens, caente > 
queente > quente, pa-ombo 
>pombo, fĩ-es > fi ns, tri-inta > 
trinta
Contração produzida entre 
duas vogais
1) posição tônica
[i]: vi-es (plural de vil) > vis
[ȩ]: le-er > ler
[a]: ma-a > má
[ǫ]: co-obra > cobra
2) posição postônica: -oo > 
o e -aa > a
diábo-o > diabo, orágo-o > 
orago, Brága-a > Braga
3) posição pretônica: o 
sistema das vogais orais 
em posição pretônica 
se toma exatamente o 
mesmo que em posição 
tônica
/i/ em livrar; / ȩ / em pregar; 
/ę/ em prègar; /ä/ em cadeira; 
/a/ em padeira; /ǫ / em còrar; 
/ǫ/ em morar; /u/ em burlar
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Contração de duas 
vogais orais num 
ditongo oral
a-e > ae > ai
a-o > ao > au
sina-es > sinaes > sinais
ma-o > mao > mau
Ditongos novos, que não 
existiam na língua:
ǫ-e > oe > ói
ę-e > ee > éi
ę-o > eo > éu
so-es > soes > sóis (plural de 
sol
cure-es > cruees > cruéis
ce-o > ceo > céu
Contração de uma vogal 
nasal e de uma vogal 
oral em ditongo nasal
ã-o > ão
ã-e > ãe
õ-e > õe
mã-o > mão
cã-es > cães
leõ-e > leões
Encontros vocálicos 
provindos da queda 
de -d-DO VERBO E SUAS MUDANÇAS 124
6.4 A SINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA 129
6.5 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA EVOLUÇÃO SINTÁTICA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA 131
6.6 PORTUGUÊS EUROPEU X PORTUGUÊS BRASILEIRO 133
4UNIDADE
5UNIDADE
6UNIDADE
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ATENÇÃO 
PARA SABER
SAIBA MAIS
ONDE PESQUISAR
DICAS
LEITURA COMPLEMENTAR
GLOSSÁRIO
ATIVIDADES DE
APRENDIZAGEM
CURIOSIDADES
QUESTÕES
ÁUDIOSMÍDIAS
INTEGRADAS
ANOTAÇÕES
EXEMPLOS
CITAÇÕES
DOWNLOADS
ICONOGRAFIA
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 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA
O estudo da história da Língua Portuguesa é fundamental para que você 
compreenda as mudanças que ocorreram, e ainda ocorrem, nela, qual sua 
origem e o que a determina como língua de um determinado grupo linguís-
tico.
Nesta disciplina, você verá como os estudos relacionados à história da língua 
foram fundamentais para a compreensão do desenvolvimento do português, 
desde o latim, passando pelo português arcaico, o português moderno, che-
gando até nossos dias com o português contemporâneo.
Para tanto, será fundamental seu conhecimento sobre as diferentes forma-
ções que englobam uma língua, como a fonologia, a fonética, a morfologia e 
a semântica.
Por fi m, você verá como se formou o português no Brasil e quais semelhanças 
e diferenças com o português europeu, dentre outros aspectos fundamentais 
nos estudos da língua portuguesa.
UNIDADE 1
> Reconhecer a 
importância da 
Linguística Histórica 
para a compreensão 
das línguas.
> Compreender a 
origem da Língua 
Portuguesa sob a 
análise da Linguística 
Românica.
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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 1 HISTÓRIA E MÉTODO DA 
LINGUÍSTICA ROMÂNICA
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Nesta unidade, você verá o que fundamentou a história da Linguística Ro-
mânica. O que foi a Linguística Românica? Qual sua metodologia? Por que é 
importante seu estudo? Essas e outras perguntas serão respondidas ao longo 
desta unidade, por meio de dois tópicos que abordarão a Linguística Histórica 
e a Linguística Românica, propriamente dita.
Este estudo será fundamental para que você compreenda como nasceu a 
Língua Portuguesa e sua trajetória até nossos dias. Para isso, é essencial saber 
sobre a Linguística Românica e o que a constitui.
Desse modo, esta unidade proporcionará uma refl exão sobre a história das 
línguas. Assim, você verá como uma língua nasce e quais metodologias são 
usadas para estabelecê-la, já que as pesquisas envolvem tanto a fala quanto 
a escrita. Lembrando, sempre, que a escrita se desenvolve sempre a partir da 
fala e que os registros escritos nem sempre fazem jus à língua em todos os 
seus aspectos.
Há, na história, inúmeras situações de desdobramentos e equívocos entre 
aqueles que se intitulavam literatos e estudiosos e aqueles que entendiam 
a língua como um sistema de uso por uma sociedade. Sobre isso você verá 
detalhadamente nesta e em outras unidades que compõem nossa disciplina.
Por ora, é importante que você entenda que a história das línguas foi deter-
minada por pesquisas exaustivas de alguns estudiosos que se debruçaram 
sobre os mais diversos registros, com diferentes metodologias, levando em 
consideração o que já existia e aquilo que ainda deveria ser observado de for-
ma mais detalhada.
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LINGUÍSTICA HISTÓRICA
 1.1 HISTÓRIA DAS LÍNGUAS
Estudar a história de uma língua signifi ca compreender o que a determina 
como tal e quais situações de uso foram moldando seus aspectos linguísticos, 
tanto no fonológico e no fonético quanto em sua estrutura composicional. 
Essa história é composta por inúmeros momentos envolvendo pesquisas nas 
mais diversas esferas do conhecimento linguístico para que, hoje, possamos 
olhar para trás e entender por que uma palavra como “cebola” é escrita com 
“c” inicial e “semana” é escrita com “s” inicial, sendo que as duas produzem 
um mesmo som.
ASPECTOS HISTÓRICOS DETERMINAM O MESMO SOM E A ESCRITA DIFERENTE DE 
PALAVRAS
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
#PraCegoVer
Imagem mostra uma mulher com expressão questionadora. 
Ela olha para o canto superior esquerdo da imagem e o dedo indicador direito 
está no queixo. Acima, no canto esquerdo, há um balão que representa 
o pensamento da mulher, onde se lê as palavras cebola e semana.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
As línguas existentes hoje, tal qual são conhecidas, passaram por uma trajetó-
ria que inclui a origem, algumas transformações e mudanças. Algumas des-
sas línguas, inclusive, não sobreviveram, deixando somente traços que identi-
fi cam alguma semelhança.
As mudanças das línguas que ocorreram ao longo do tempo são estudadas 
pela Linguística Histórica. Aliás, foi por meio dela que os estudos linguísticos 
ganharam força.
A linguística histórica estuda a história 
das línguas. É uma ciência que revela as 
mudanças pelas quais as línguas foram se 
desenvolvendo, se transformando até chegar 
ao que conhecemos hoje. No vídeo “Linguística 
histórica: a ciência que revela as mudanças da 
língua”, você tomará conhecimento do trabalho 
do LALEFIL, Laboratório de Estudos do Léxico, 
Filologia e Sociolinguística da UFMG, que 
estuda essas mudanças na língua portuguesa. 
Acesse o link e assista.
O marco inicial desses estudos ocorreu no fi nal do século XVIII, quando o juris-
ta britânico Sir William Jones (1746-1794) identifi cou várias similaridades entre 
o grego, o latim e o sânscrito, conforme apontado por Gabas Jr. (2008). O es-
tudioso inglês descobriu que todas essas línguas derivavam do protoindo-eu-
ropeu; a base para as pesquisas, no entanto, foi o latim. Essa língua teve um 
tempo de vida bem longo, permanecendo como língua viva, ou seja, utilizada 
pelos falantes e, posteriormente, pelos literatos em suas escritas, por aproxi-
madamente 2.000 anos após o Renascimento (LYONS, 2013).
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
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O Renascimento foi o período histórico ocorrido 
mais provavelmente entre os séculos XIV e 
XVI, envolvendo grandes transformações 
nos âmbitos sociais, econômicos, culturais, 
religiosos e políticos da humanidade. As áreas 
mais afetadas por essas mudanças foram as 
ciências, as artes e a fi losofi a.
As pesquisas da história das línguas provaram que elas sofrem mudanças 
com o passar do tempo e que tais mudanças são contínuas, havendo, inclusi-
ve, uma regularidade que ocorre em seu universo. Assim, uma língua poderá 
ser alterada, passando por ajustes determinados por diversos motivos, ocor-
rendo na reorganização da fala ou em seu signifi cado, conforme a necessi-
dade de seus usuários. Ela irá se desenvolver por esses mesmos indivíduos 
dentro de contextos históricos, geográfi cos, sociais, culturais, porém nunca 
em desacordo com o meio social em que existe.
A INTERAÇÃO ENTRE OS INDIVÍDUOS É UMA NECESSIDADE E É ESSA INTERAÇÃO 
QUE FAZ COM QUE A LÍNGUA SEJA ALTERADA AO LONGO DO TEMPO, SUPRINDO AS 
NECESSIDADES DE SEUS FALANTES
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
#PraCegoVer
Imagem mostra três jovens sentados à mesa. O jovem à esquerda 
segura uma xícara de café e a jovem do meio segura um celular. 
Todos estão sorrindo e olhando para o aparelho.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
O seguimento às pesquisas da história das línguas indo-europeiasnas desinências 
verbais (2ª pessoa do 
plural)
Produção de nova série de 
encontros vocálicos
estades > esta-es > estaes > 
estais
vendedes > vende-es > 
vendees > vendeis
sentides > senti-es > sentis 
sodes > so-es > sois
Fonte: Adaptado de Teyssier (2001).
O projeto Sonoridade em Artes, Saúde e Tec-
nologia mostra a fala como evento dinâmico 
e, também, oferece acesso a áudios de di-
versas línguas e sotaques. No link, você po-
derá ouvir os sons da nossa língua, além de 
ter acesso a várias outras informações sobre 
linguística, fonética e fonologia.
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As mudanças vão ocorrendo na língua à medida que a escrita vai se fi rmando 
cada vez mais com as diversas publicações, como as referentes à gramática 
da língua. Ao fi nal do século XVII, a língua portuguesa ainda está em evolução, 
demonstrando um padrão linguístico que pode ser comprovado por meio 
das várias fontes literárias, de gramáticas, registros ortográfi cos, além de di-
cionários, o que acarreta, também, na fi xação de uma norma linguística.
Era a língua portuguesa que se fi rmava e se reafi rmava, constantemente, 
como língua nacional.
5.6 DO LATIM À LÍNGUA PORTUGUESA
Quando nasce uma língua? Como se dá seu registro? Relatar a história de 
uma língua é tarefa um tanto difícil, pois depende do estudo realizado em 
registros escritos, já que a fala é mais propensa a certos desvios de fi delidade. 
Algo que foi dito há mil anos é bem mais difícil de ser considerado verdadeiro, 
pensando que naquele tempo não existia uma tecnologia capaz de gravar a 
voz humana.
Por isso, defi nir uma cronologia exata para o surgimento e a evolução de uma 
língua não é um empreendimento dos mais fáceis. Mesmo assim, há como se 
determinar proximidades temporais, como hipóteses extraídas de documen-
tos escritos em uma língua e não em outra, por exemplo. É o caso da língua 
portuguesa, que poderia ter sua data de nascimento próxima do ano de 1200, 
período em que se observou que alguns documentos, antes escritos no Ro-
mance do Noroeste da Península, passaram a ser registrados em português 
(CASTILHO, 2018).
Esse foi o início do que podemos conceber 
como língua portuguesa, quando o galego se 
distanciou do português geografi camente, já 
que era usado mais ao norte, onde, hoje, situam-
-se a Galiza e Portugal, e o português ao sul, na 
região da atual Lisboa. Mais tarde, o português 
se consagrou como a língua ofi cial de Portugal, 
enquanto o galego se constituiu como língua 
da Galícia, no noroeste da Península Ibérica.
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As mudanças linguísticas no português se veem frente a frente com a chega-
da dos tempos modernos, historicamente marcada pela passagem do século 
XV ao XVI. Sobretudo Portugal, pela grande manifestação expedicional marí-
tima, que culminou com diversas regiões colonizadas e exploradoras ao redor 
do globo.
A história de uma língua não pode ser medida cronologicamente, pelo me-
nos não exatamente, portanto, ela continua avançando, evoluindo, se trans-
formando e formando toda uma comunidade de fala e de escrita, como é o 
caso do português moderno.
Em relação à escrita, aliás, é importante a abordagem sobre ortografi a. Já dis-
semos que da fala nasce a escrita, no entanto, não é algo tão simples quanto 
o nascimento de uma árvore, por exemplo. Pelo contrário, é tão complexo 
quanto pensarmos que uma língua não nasce de um momento para o outro.
Poderíamos pensar, por exemplo, que a escrita se constitui em uma técnica, 
que evolui com o tempo a partir da necessidade e da busca constante pela 
forma econômica dos meios que a conduzem e pela capacidade efetiva de 
seu funcionamento. 
Assim, Ferreiro (2013, p. 28) observa que, de uma forma simplista, a história da 
escrita poderia ser relatada do seguinte modo:
Os ideogramas dão lugar aos logogramas; em seguida descobre-se que 
as palavras têm segmentos silábicos e aparecem os silabogramas, com 
os que se reduz notavelmente o número de signos; para reduzir ainda 
mais este número, as sílabas se segmentam em fonemas consonânticos 
e o gênio marítimo dos fenícios leva esta escrita consonântica através 
do Mediterrâneo. Sabe-se que os marinheiros são pessoas propensas a 
encontrar novidades. Seduzidos pela inovação desta escrita, os gregos se 
limitaram a acrescentar-lhes as vogais. Assim, nasce a escrita alfabética, 
elegante e efi ciente, a primogênita nascida desse encontro entre fenícios e 
gregos. 1.4.1 Funções da empresa segundo Fayol
Seria assim tão simples? A própria autora relata que não, apontando cinco 
situações que dão margem a divergências consideráveis nessa história:
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1) A história não faz alusão às escritas asiáticas, sen-
do que a escrita chinesa, por exemplo, foi de grande 
importância para a comunicação durante vários 
séculos na Ásia, sobretudo no Japão e na Coreia.
2) Dá a entender que as unidades fonéticas da 
língua foram, desde sempre, acessíveis a todos, 
quando, na verdade, sabemos que adultos que 
não tinham acesso ao conhecimento da escrita 
não poderiam, em momento algum, ter esse 
tipo de acesso, incluindo aqueles que pratica-
vam a poesia oral. Foram mais de 20 séculos 
de espera para que o fonema pudesse ter sua 
constituição escrita em letra.
3) A escrita alfabética aparece como o fi m da his-
tória, o objetivo atingido. Dali em diante, somen-
te se esperaria o aperfeiçoamento dessa escrita. 
O que ocorre, porém, é uma mudança constan-
te, uma transformação como as que estamos 
estudando nesta unidade, pensando, somente, 
na língua portuguesa e sua origem.
4) Sistema de escrita algum pode ser considera-
do totalmente inalterado, sem qualquer tipo de 
mudança ou transformação.
5) Se a escrita alfabética é tão “efi ciente” quan-
to conta a história, por que não é usada por 
todo o globo terrestre? Ora, dado que o avanço 
tecnológico é tão bem visto pela maioria dos 
indivíduos, então seria de se esperar que um 
sistema tão bem formado pudesse substituir 
outros. No entanto, não é o que ocorre. Japão 
e China, apesar de existir forte pressão interna-
cional, continuam a usar seu próprio sistema 
de escrita, a logográfi ca.
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Dado esse panorama histórico de como teria surgido a escrita alfabética, é 
possível nos aprofundarmos um pouco mais na história do alfabeto latino. As 
primeiras escritas teriam surgido na segunda metade do século XIII, em do-
cumentos ofi ciais e particulares, como testamentos e títulos de venda, e na 
poesia lírica, com as cantigas de amor, de amigo e de escárnio. No entanto, 
são escritas em latim vulgar, sem preocupação com a padronização.
 O Testamento de Afonso II, de 1214, mostra situações de escrita que identifi -
carão o português mais próximo do modo como se apresenta, atualmente. 
TESTAMENTO DE AFONSO II
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
#PraCegoVer
Imagem de antigo testamento de Afonso II, em papel amarelado pelo tempo, com escritos 
na parte superior do papel.
A palavra “Sancho” é trazida nesse documento com o segmento “ch”, de ori-
gem francesa, já utilizado na região de Castela. Para Teyssier (2001, p. 22), “ape-
sar das suas imprecisões e incoerências, a grafi a do galego-português medie-
val aparece como mais regular e ‘fonética’ do que aquela que prevalecerá em 
português alguns séculos mais tarde”. O autor identifi ca, ainda, o uso do til 
como indicativo de nasalidade, mas que nem sempre seria usado: razõ, razom ou razon.
O português clássico, por sua vez, irá apresentar uma escrita bem mais homo-
gênea, sem grandes oscilações. O marco dessa passagem seria a publicação 
deOs Lusíadas, de Luís de Camões, no ano de 1572. Seria o surgimento da “lín-
gua de Camões”, como muitos ainda nomeiam a língua portuguesa. 
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Para ampliar seus conhecimentos sobre o sis-
tema gráfi co e o fonológico da língua portu-
guesa, sugerimos a leitura do título “Sistema 
fonológico e ortográfi co”, da obra de Bizello e 
Oliveira (2019, pp. 103-118).
De tudo, é importante deixar claro que a representação escrita de um sistema 
como o alfabético baseia-se, sobretudo, na fonética e na fonologia da língua. 
Sendo assim, a ortografi a está longe de ser considerada uniforme, mesmo com 
inúmeros recursos como sinais identifi cadores de tonicidade (acentos gráfi cos) 
ou outros diacríticos que possam auxiliar nessa idealização ortográfi ca.
CONCLUSÃO
Nesta unidade você compreendeu como a fonética e a fonologia são funda-
mentais para o estudo da história da língua portuguesa. São ciências que, em-
bora estudem o som, apresentam distinções quanto ao enfoque que se quer 
dar. As mudanças de som de uma língua, de acordo com essas ciências, vão 
apresentar casos de acréscimo, supressão ou transposição de elementos sono-
ros, bem como de transformação. 
Além disso, você viu que as mudanças fonológicas do galego-português foram 
ocorrendo até chegar ao português moderno, evidenciando o quão amplo é 
esse estudo.
O português moderno sofreu várias alterações até chegar ao que é atualmen-
te, sobretudo no que compete aos sons da fala. Na escrita, por sua vez, vimos 
que a evolução passou da situação de registro indefi nido, com a mesma pala-
vra sendo escrita de formas diferentes, até chegar a um padrão, uma norma.
A língua portuguesa ainda avança, se transforma, e não é somente na fonética 
e na fonologia que se percebe isso, mas na morfologia e na sintaxe também.
UNIDADE 6
> Compreender 
a evolução 
morfológica da 
língua portuguesa.
> Identifi car os 
diferentes aspectos 
da evolução 
sintática da língua 
portuguesa. 
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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6 GRAMÁTICA HISTÓRICA 
DA LÍNGUA PORTUGUESA: 
MORFOLOGIA E SINTAXE 
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
A trajetória histórica da língua portuguesa envolve alterações que contem-
plam, além da fonética e da fonologia, sua morfologia e sintaxe. É por meio 
da morfologia da língua que podemos observar quais mudanças foram ocor-
rendo, provocando a evolução e a transformação da linguagem verbal dos 
usuários do português.
A sintaxe, por outro lado, complementa essas alterações, pois é ela quem de-
termina a disposição frasal em uma língua, isto é, o modo como está estrutu-
rada a ordem na estrutura frasal. 
Os estudos sobre a morfologia e a sintaxe trouxeram grandes avanços para a 
língua portuguesa, pois determinaram o quanto a mudança é presente, in-
cluindo os modos de ver a evolução dessa língua.
Tudo isso é importante para que você tome conhecimento do quanto as lín-
guas mudam, mesmo próximas geografi camente, como o que ocorreu com 
as comunidades de fala da Península Ibérica, em que o português e o espa-
nhol se fi xaram como línguas distintas, embora originárias de uma mesma 
língua-mãe, o latim.
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EVOLUÇÃO MORFOLÓGICA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA 
6.1 CLASSES GRAMATICAIS DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
A morfologia estuda a estrutura interna da palavra. Essa é uma defi nição ge-
ral que compreende a maioria das gramáticas de uma língua e que pode ser 
considerada a ideal. Já o conceito de palavra não é algo que os estudiosos da 
língua tenham acordado como único.
Se tomarmos como parâmetro a defi nição de palavra pela signifi cação, esta-
remos nos deparando com algumas situações, no mínimo, interessantes. A 
língua dos cadiuéus ou Kadiwéus, povo indígena brasileiro que vive na fron-
teira entre o estado do Mato Grosso do Sul e o Paraguai, apresenta algumas 
particularidades sonoras que podem causar confusão em alguém que des-
conhece essa língua. É o caso de jotayanyetayadomitiwaji, uma sequência 
de sons que, para alguns, pode ser compreendida como uma palavra, já que 
é produzida sem pausas. No entanto, seu signifi cado é “eu falo com ele por 
vocês” (SANDALO, 2008).
O parâmetro fonológico também é duvidoso. Esse critério especifi ca que toda 
palavra é composta por um acento principal e outros acentos secundários, 
como em “estùdár”, em que o acento principal recai na última sílaba e o se-
cundário, na penúltima. Mas, vejamos a palavra “abreviatura”. Se produzida 
com o acento principal na penúltima sílaba (abrevìatúra), pode ser defi nida 
como uma palavra que foi reduzida, como em senhor - sr. Então, para o falan-
te da língua da portuguesa, não há dúvida de que seja uma palavra. Porém, 
se por brincadeira, deslocássemos o acento principal para a primeira sílaba 
(ábreviatùra) e o secundário para a penúltima, teríamos uma frase compos-
ta por duas palavras: “abre” e “viatura”. Assim, sua defi nição seria a do ato de 
abrir uma viatura. Outro exemplo dado por Sandalo (2008), é a ambiguidade 
presente em “detergente”, que tanto pode ser uma palavra, cujo signifi cado 
é sabão líquido para lavar louças, como uma frase, que estaria signifi cando o 
ato de prender pessoas (deter gente).
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EXEMPLOS DE PALAVRAS COM AMBIGUIDADE DE SENTIDO PELO DESLO-
CAMENTO DO ACENTO FONOLÓGICO PRINCIPAL
democracía
démocracìa sistema de governo do inferno
tripulánte
trípulànte especialista em salto triplo
efi ciência
éfi ciência ciência do “F”
barracão
bárracão ato de fazer um cão parar
biméstre
bímèstre mestre duplamente qualifi cado
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
Então, qual parâmetro pode ser usado para defi nir “palavra”? Como vimos, 
uma das difi culdades é a língua de cada povo, que pode estabelecer uma 
palavra pelo som ou pelo signifi cado. Assim, talvez o melhor parâmetro seja o 
sintático, o qual defi niria palavra do seguinte modo: “uma sequência de sons 
somente pode ser defi nida como uma palavra se (i) puder ser usada como 
resposta mínima a uma pergunta e se (ii) puder ser usada em várias posições 
sintáticas” (SANDALO, 2008, p. 182). 
Seguindo esse critério, em “O aluno lhe devolveu a caneta”, podemos defi nir 
claramente as palavras “aluno” e “caneta”, sujeito e objeto direto, respectiva-
mente, da frase dada. São nomes na língua portuguesa que podem ocupar 
outras posições sintáticas, como em “A caneta, o aluno lhe devolveu”, em que 
o sujeito é “caneta” e o objeto, “aluno”. E “lhe”, poderia ser considerado palavra? 
Como podemos observar, várias são as indefi nições que competem ao con-
ceito do que seria palavra. Para nós, palavra pode ser defi nida como a unidade 
máxima de ocorrência livre e que possua alguma signifi cação, ou, conforme 
Azeredo (2010, p. 69) “palavra é um termo geral, que adotamos para dar nome 
à unidade mínima autônoma dotada de signifi cado e que vem registrada em 
ordem alfabética nos dicionários”.
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• Palavras lexicais ou lexemas - são os 
substantivos, adjetivos e verbos.
• Palavras gramaticais - são os artigos e 
as preposições.
• Vocábulo - forma concreta com que 
cada palavra, seja ela lexical ou gramati-
cal, ocorre nas frases. 
• Morfema - menor unidade dotada de 
signifi cado.
• Morfema lexical ou radical - serve de 
base à estrutura da palavra e, às vezes, 
é seu único elemento constitutivo (mar, 
marinho).
• Morfema gramatical- aquele que se 
anexa ao radical (marinho).
(AZEREDO, 2010, p. 70).
É importante o reconhecimento do que seja morfema para compreender 
como a língua foi sofrendo alterações em sua constituição morfológica, como 
a formação de novas palavras, por exemplo. É o que acontece com a palavra 
“menininhas”:
 ANÁLISE MORFOLÓGICA DA PALAVRA “MENININHAS”
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
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Os morfemas gramaticais são divididos em afi xos ou morfemas derivacionais, 
vogais temáticas e desinências ou morfemas fl exionais. Os afi xos se subdivi-
dem em prefi xos e sufi xos; as vogais temáticas e as desinências, por sua vez, 
poderão ser verbais ou nominais. 
A formação de uma palavra poderá partir de outra, que será denominada pri-
mitiva. À nova palavra damos o nome de derivada. Por exemplo, para um fa-
lante da língua portuguesa, a palavra “vidrinhos” indica que provém de outra 
palavra, “vidro”. Desse modo, pode ser analisada morfologicamente com es-
truturas que irão orientar o falante para detalhes como o gênero e o número 
da palavra, determinados pelas unidades “o” e “s” no fi nal da palavra, além da 
noção de pequenez indicada pela unidade “inh”. 
Agora, observe a palavra “vitrifi car”. Essa palavra provém do latim vitrus que, 
posteriormente, se transformou na palavra “vidro”. Por isso, temos, em nossa 
língua, termos como “vitrifi car” ou “desvitrifi cação”, pois dizem respeito ao ato 
de tornar um material em vidro ou o processo que envolve a cristalização do 
vidro, respectivamente. Essas palavras têm em comum a raiz “vitr”, ou seja, a 
origem das palavras relativas a “vidro”. 
O capítulo 5 da obra Nova gramática do 
português contemporâneo (CUNHA; CIN-
TRA, 2017, p. 75-82) apresenta a classe, a es-
trutura e a formação de palavras da língua 
portuguesa. Vale a pena a leitura para você 
compreender melhor como se dá a forma-
ção das palavras.
A partir da morfologia foi desenvolvida a classifi cação gramatical das palavras. 
Em “a vida é bela”, “estou a um passo da formatura” e “chamei-a para traba-
lhar comigo”, embora grafadas igualmente, temos em “a” um artigo defi nido 
feminino singular, uma preposição e um pronome pessoal oblíquo feminino, 
respectivamente. Podemos dizer, então, que a morfologia de uma língua irá 
determinar a classifi cação de seus termos e suas palavras de acordo com a 
função gramatical que irá exercer dentro de um determinado contexto. São 
os nomes, como substantivos e adjetivos, os verbos, as conjunções e preposi-
ções, além de outras classes gramaticais. 
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Vamos relembrar quais são as classes gramaticais que compõem a língua 
portuguesa, observando o quadro a seguir.
CLASSIFICAÇÃO GRAMATICAL DAS PALAVRAS NA LÍNGUA PORTUGUESA 
SUBSTANTIVO PRONOME
ADJETIVO CONJUNÇÃO
VERBO PREPOSIÇÃO
ADVÉRBIO INTERJEIÇÃO
ARTIGO NUMERAL
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
A partir dessa classifi cação, temos condições de analisar que na frase “Meu tio 
voltou cedo para casa” temos a seguinte sequência gramatical: (1) pronome, 
(2) substantivo, (3) verbo, (4) advérbio, (5) preposição e (6) outro substantivo. 
Essa disposição das palavras na frase segue uma estrutura básica que não 
poderá ser modifi cada, a menos que seu valor interpretativo seja mantido. 
Podemos dizer “Voltou cedo, meu tio, para casa” mas não podemos dizer “Tio 
meu cedo voltou casa para”, pois essa estrutura não é aceita em nossa língua. 
6.2 NOME E ADJETIVO NA HISTÓRIA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
Por nome podemos considerar tudo aquilo que nomina algo em uma língua. 
É o substantivo, a classe de lexemas que indica a signifi cação. Por exemplo, a 
“peça de mobiliário que consiste num assento com costas, e, às vezes, com bra-
ços, dobrável ou não, para uma pessoa” (FERREIRA, 2004, p. 356) é nominada 
de “cadeira”.
Já o adjetivo é igualmente da classe de lexemas, que tem como objetivo ca-
racterizar o substantivo e dar a ele a referenciação necessária para que o nome 
passe a existir plenamente. Voltando ao exemplo dado, para “cadeira” você po-
derá pensar em inúmeras possibilidades que poderão ou não ser defi nidoras 
de uma cadeira específi ca. No entanto, “cadeira de madeira, com apoio lombar 
e assento estofados em couro, na cor marrom, com quatro pés, sem apoio de 
mãos”, apresenta um signifi cado que irá se aproximar bem mais daquilo que 
espera o interlocutor. É desse modo que atuam os adjetivos em nossa língua.
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Ao longo do tempo, algumas alterações foram ocorrendo em relação a essas 
duas classes. Na passagem do galego-português para o português moderno, o 
“l” e o “n” fi nais caem na forma plural de nomes e de adjetivos, como em “sinal” 
e “cruel”, que passam a pluralizar como “sinais” e “cruéis”, respectivamente, no 
português moderno.
Já aqueles com terminação em “ão”, “an” e “on” foram se constituindo por meio 
da perda do “n” intervocálico. 
EXEMPLOS DE PALAVRAS MODIFICADAS PELA PERDA DO “N” INTERVO-
CÁLICO
Substantivo
manu- > mano > mão manos > mãos
cane- > can(e) > can canes > cães
leone- >leon(e) > leão leones > leões
Adjetivo
masculino: sanu- > sano > são sanos > sãos
feminino: sana > sãa > sã sanas > sãs
Fonte: Adaptado de TEYSSIER, 2001.
A nasalização fi nal das palavras “cão” e “leão” 
pode ser explicada pela transformação por-
que passaram esses termos desde sua ori-
gem latina, “cane” e “leone”, respectivamen-
te, que tiveram a supressão do “e” fi nal bem 
cedo, ou seja, o “n” não era mais intervocáli-
co, mas fi nal, indicativo de nasalização. 
Os nomes atemáticos são aqueles terminados pelos fonemas /l/, /r/, /s/ e /n/, 
como em “animal”, “senhor”, “luz” e “baron”. Contudo, a vogal temática irá apa-
recer no plural desses termos: “animais”, “senhores”, “luzes” e “barones”, res-
pectivamente. Esta última palavra perdeu o /n/ fi nal, indicativo de nasalização, 
passando a “barão”, plural “barões”.
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Uma fala simples, de fácil compreensão, 
bem-humorada, produzida pelo linguista e 
professor Ataliba Teixeira de Castilho sobre o 
certo e o errado no português falado. É o que 
você vai ver no vídeo “Quando se trata de 
português falado, não existe certo e errado”.
Uma das situações de mudança na língua inclui a derivação, tanto que há 
uma linha da morfologia que se ocupa disso, a morfologia derivacional, que 
atua sobre a formação de palavras a partir da integração de afi xos ao radical 
da palavra. A derivação pode ocorrer de três formas: (1) prefi xação, isto é, o 
acréscimo de um prefi xo ao radical, como em “pré-natal”, “antirracismo” e 
“extracurricular); (2) sufi xação, ou seja, adição de um sufi xo ao radical, como 
em “polimento”, “hepatite” e “sorveteiro”; e (3) parassintética, com a inclusão 
de um prefi xo e um sufi xo no radical da palavra, como em “empobrecer”, 
“desratização” e “anoitecer”. 
Essa aglutinação de prefi xos e sufi xos com o radical das palavras não ocorre 
de qualquer forma. Há, pelo contrário, uma norma que atende à necessidade 
de aplicação às palavras da língua, de acordo com suas classes gramaticais.
Veja, no quadro a seguir, alguns casos de prefi xação e sufi xação no português 
brasileiro.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
PALAVRAS DO PORTUGUÊS DO BRASIL FORMADAS POR PREFIXOS E SU-
FIXOS
PREFIXO SUFIXO
a- asséptico -ismo paralelismo
anti- antiecológico -ista especialista
des- desbloqueado -ando mestrando
ex- ex-governador -ento casamento
in(im)- impopular, insegurança -ável amável
pós- pós-moderno -udo cabeçudo
pré- pré-lavagem-aço golaço
re- remarcar -ite bronquite
super- superprodução -ês francês
tele- telepizza -esco carnavalesco
hiper- hipermercado -arada cabeçada
sub- subprefeitura -ar deletar
Fonte: Adaptado de Basso e Ilari, 2007.
Dizem que o brasileiro é criativo por natureza e com a língua que usa, não 
poderia ser diferente. Alguns vocábulos foram sendo construídos por meio do 
cruzamento vocabular, algo como a junção de dois ou mais vocábulos para 
formar um só. 
= chafé
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= pãe
= namorido
= portunhol
= lixeratura
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
6.3 O PAPEL DO VERBO E SUAS MUDANÇAS
No galego-português, o verbo herda algumas características temporais e de 
modo do latim, como o tempo mais-que-perfeito, tanto na forma simples, 
como em “cantara”, “comera” ou “ouvira”, como na forma composta, “tinha 
cantado”, “tinha comido” e “tinha ouvido” (TEYSSIER, 2001).
O futuro, no modo subjuntivo, também já se fazia presente nos momentos 
em que se desejava defi nir algo com possibilidade de que acontecesse, como 
em “quando eu chegar”, “quando eles partirem”.
No quadro a seguir, você poderá verifi car as principais ocorrências verbais que 
permaneceram no galego-português a partir do latim.
 PRINCIPAIS OCORRÊNCIAS VERBAIS NO GALEGO-PORTUGUÊS
Situação Ocorrência Exemplo Observação
Infi nitivo fl exionado 
ou “pessoal”
Infi nitivo com 
desinências 
pessoais
teer
teeres
teer
teermos
teerdes
teeren
É um traço específi co do galego e 
do português, sendo desconhecido 
do leonês e do castelhano.
Formas arcaicas de 
alguns verbos 
Primeira 
pessoa do 
singular - EU
senço
menço
arço 
perço 
moiro 
paresco 
Em português moderno:
sinto
minto
ardo
perco
morro
pareço
As formas 
etimológicas com -d- 
são todas conservadas
Segunda 
pessoa do 
plural - VÓS
amades
vendedes 
partídes 
seeredes
Futuro do indicativo
As conjugações 
encontram-se lado a 
lado nos perfeitos fortes.
Terceira 
pessoa do 
singular - ELE
fi zo e fez
disso - dixo
 e disse
poso e pôs
fazer
dizer
poer (atualmente, pôr)
Verbos da segunda 
conjugação (-er) no 
particípio passado 
Terminação 
em -udo
avudo
conhoçudo
perdudo
sabudo
vençudo
apareçudo
Em português moderno, representa 
a terminação -ado ou -ido
havido
conhecido
perdido
sabido
vencido
aparecido
Fonte: Adaptado de Teyssier, 2001.
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Situação que causa curiosidade é o verbo 
ser. Originário do latim “esse”, passou por 
diversas transformações, como em “éssere”, 
que, conforme Bagno (2007), não causou 
resultado no português nem no espanhol. 
Nessas duas línguas, a origem de “ser” está 
apoiada em “sedēre”, mesmo que tenha 
mantido formas mais aproximadas do latim 
“esse”, como nas formações “sou”, “és”, “é” 
e “és”, originadas das formas latinas “sum”, 
“es”, “est” e “sumus”, respectivamente. 
Na passagem para o português moderno, algumas mudanças ocorrem, tam-
bém, no que diz respeito à vogal temática que passa para : cinger, fi n-
ger, caer, traer, confonder passam a “cingir”, “fi ngir”, “cair”, “trair” e “confundir”, 
respectivamente. 
O latim clássico apresentava uma divisão de palavras com cinco classes ou 
declinações, como eram denominadas, identifi cadas pelas desinências, con-
forme explicitado por Bagno (2007, p. 30).
DESINÊNCIAS NOMINAIS NO LATIM CLÁSSICO
1ª decl. 2ª decl. 3ª decl. 4ª decl. 5ª decl.
hora, -ae lupus, -i mare, -is cantus, -us dies, -ei
Fonte: BAGNO, 2007, p. 30.
Já no latim vulgar, essas declinações sofreram redução para três, as mesmas 
existentes no português moderno: .
A situação que se observa é em relação à primeira conjugação, cuja vogal 
temática é , a mais numerosa desde as primeiras formações e a preferida 
para qualquer novo verbo que a língua portuguesa possa acolher, tanto que, 
em latim, era denominada conjugação produtiva. São casos como “deletar” 
(comando “delete” do computador), “sextou” (“sextar”, algo que acontece na a 
sexta-feira), “xerocar” (fazer uma cópia com uma máquina de Xerox), além de 
muitas outras. 
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Para as demais conjugações, Bagno (2007) aponta as seguintes alterações:
Quarta conjugação 
Com infi nitivos em -ire no latim vulgar, ganhou um espaço cada 
vez maior, incorporando inúmeros verbos da segunda e da terceira 
conjugações clássicas: lucēre > lucire (donde luzir, em português), 
fl orēre > fl orire (port. fl orir), cingĕre > cingire (port. cingir), fugĕre > 
fugire (port. fugir). Há, ainda, muitos verbos que passaram da segunda 
para a terceira conjugação: affl uĕre > afl uir; imbuĕre > imbuir; illudĕre > 
iludir; obstruĕre > obstruir.
Segunda e terceira conjugações
havia uma oscilação entre essas duas conjugações, observada desde o 
latim clássico: fervēre ~ fervĕre; tergēre ~ tergĕre. De modo previsto, a 
terceira conjugação foi eliminada, com o tempo.
Desse modo, é possível conceber as mudanças por que passaram as conjuga-
ções até chegar ao português moderno. Observe o quadro a seguir.
CONJUGAÇÃO NO LATIM VULGAR LUSITANO COM OS SEUS CORRESPON-
DENTES NO LATIM CLÁSSICO E RESPECTIVOS RESULTADOS EM PORTU-
GUÊS MODERNO
Fonte: BAGNO, 2007, p. 30.
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O verbo pôr, cuja origem é o latim ponĕre, 
pertence à segunda conjugação. Com o uso, 
ele foi sofrendo síncope do -n-, passando a 
“poer” e, fi nalmente, para “pôr”, no portu-
guês moderno. Esse fato explica porque não 
há uma quarta conjugação, fi nalizada em 
-or, e é por isso, também, que se classifi ca 
como anômalo, com o -e- (vogal temática) 
retornando em formas como “põe”, “porei”, 
“puseram” e “puséssemos” (BAGNO, 2007).
Em relação aos tempos verbais, algumas mudanças foram ocorrendo, sendo 
que muitas se mantiveram e permanecem no português moderno. Presente, 
pretérito perfeito e imperfeito do indicativo, além do presente do subjuntivo, 
mantiveram-se tal como se apresentam hoje. 
Alguns tempos não se mantiveram, como o futuro imperfeito do latim clás-
sico, passando a uma forma composta de verbo no infi nitivo mais o presente 
do indicativo de “habere” (haver”) no latim vulgar: hei de morrer. Constitui-se, 
desse modo, pela gramaticalização, as terminações -ei nos verbos: amarei, co-
merei, partir, em lugar de hei de amar, hei de comer, hei de partir. Também é 
essa a possível explicação para o caso do pronome oblíquo em meio ao infi ni-
tivo e a terminação -ei: falar-te-ei.
A síncope existente nas formas do pretérito mais-que-per-
feito do indicativo 
originaram as conjugações que hoje conhecemos. Bagno (2007 p. 
36) traz os seguintes exemplos: “amaram (por amaveram) > amara; 
deberam (por debuieram) > devera; venderam (por vendideram) > 
vendera; puniram (por puniveram) > punira”.
O pretérito imperfeito do subjuntivo, 
por sua vez, origina-se do pretérito mais-que-perfeito desse modo 
verbal: debuissem > devesse; vendidissem > vendesse.
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O presente do imperativo 
também manteve sua conjugação original em latim, o que não ocorre 
com o imperativo negativo, que procede da conjugação do subjuntivo: 
Não quer que ele diga o que fez > Não diga o que ele fez. 
O infi nitivo do presente, 
no latim, adquiriu a forma de infi nitivo impessoal no português 
moderno: vendere > vender; punire > punir.
Ao fi nal das transformações que os verbos sofreram, temos as seguintes situ-
ações de tempo e modo verbais:
TEMPOS E MODOS VERBAIS DO PORTUGUÊS MODERNO
MODO
TEMPO INDICATIVO SUBJUNTIVOIMPERATIVO
PRESENTE amo ame ama [tu]
IMPERFEITO amava amasse
FUTURO DO PRESENTE amarei amar
PRETÉRITO PERFEITO amei
MAIS-QUE-PERFEITO amara
FUTURO DO PRETÉRITO amaria
Fonte: BAGNO, 2007, pp. 37-38.
Essas são as formas verbais já consagradas pelos gramáticos, sobretudo os 
tradicionais da nossa língua.
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EVOLUÇÃO SINTÁTICA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA 
6.4 A SINTAXE DA LÍNGUA PORTUGUESA
A sintaxe diz respeito ao estudo da ordem e da organização frasal de uma 
língua. Quando se identifi ca uma construção frasal que permite a compre-
ensão de seu sentido, analisando seus constituintes, estamos realizando 
uma análise sintática. Se uma frase estiver sintaticamente desorganizada, 
certamente sua compreensão será prejudicada.
Se na morfologia temos uma organização da palavra, entendendo que cada 
uma terá uma função morfológica diferente, como o substantivo ligado ao 
nome, o adjetivo ligado à caracterização, o verbo ligado à ação, na sintaxe, a 
palavra terá seu sentido relacionado ao lugar que ocupa na frase. Assim, um 
substantivo será um sujeito ou um complemento, muito embora o verbo 
ocupe sempre a posição de verbo na frase.
Observe a frase a seguir:
ESTRUTURA SINTÁTICA BÁSICA DA LÍNGUA PORTUGUESA
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
A frase representa a estrutura básica da língua portuguesa, formada por S-V-O 
(sujeito, verbo e objeto). À essa estrutura denominamos de canônica, ou seja, 
aquela que serve como base para a língua, a mais usada por seus usuários.
Na sentença “Gabriela andou de bicicleta”, vemos que as palavras que, mor-
fologicamente, podem ser classifi cadas como substantivo, verbo, preposição 
e novamente substantivo, respectivamente, irão ocupar os espaços sintáticos 
de sujeito, verbo e objeto. 
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Desse modo, podemos compreender que uma estrutura morfológica como o 
substantivo pode ocupar ora o lugar do sujeito, ora o lugar de objeto, somente 
para citarmos um exemplo. Na frase dada, o substantivo “bicicleta” ocupa o 
lugar do complemento do verbo “andou”; em outra, no entanto, poderá ocu-
par o lugar de sujeito, como em “bicicleta usada à venda”.
O tempo futuro da língua portuguesa é um 
ótimo exemplo de como as línguas mudam 
e, por vezes, retornam às suas origens. No 
latim, essa conjugação apresentava a se-
guinte forma: vendere + habeo > vender 
hei > venderei. Atualmente, o que podemos 
observar é o uso cada vez mais frequente 
da forma composta em detrimento da sim-
ples: “vou vender” ou “irei vender” em lugar 
de “venderei” (BAGNO, 2013).
 
A estrutura de uma frase não está tão propensa a mudanças como a estrutu-
ra de uma palavra ou de um fone, como o que ocorre na mudança fonética. 
Por isso mesmo, a mudança sintática costuma ser mais lenta que a mudança 
morfológica ou fonológica, mas, isso não signifi ca que não mude.
Dentre as mudanças que vêm ocorrendo na estruturação das frases, cita-
mos a seguinte:
EXEMPLO DE MUDANÇA NA ESTRUTURA SINTÁTICA DO PORTUGUÊS DO BRASIL
O prefeito, ele disse que não renunciaria.
EM LUGAR DE
O prefeito disse que não renunciaria.
Fonte: Elaborado pela autora, 2020.
Essas formações são cada vez mais frequentes na fala dos brasileiros, que uti-
lizam o pronome pessoal “ele” para reforçar sobre quem ou sobre aquilo que 
se está falando. Outra situação de mudança é a de retomada na fala, como 
em “o prefeito, vi-o conversando com seus assessores”, contudo, também é 
uma forma cada vez menos usada pelos falantes brasileiros, que preferem o 
pronome oblíquo nulo: “o prefeito, vi(Ø) conversando com seus assessores”.
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Na produção escrita, os sinais de pontuação 
são o que dão sentido à melodia que é pro-
duzida na fala, a entonação das palavras que 
compõem a frase. Sendo assim, os sinais de 
pontuação são fundamentais para separar 
palavras em frases e orações, a fi m de que 
sua compreensão não fi que prejudicada. 
Uma pontuação inadequada poderá provo-
car ambiguidade no sentido, além de outras 
situações que difi cultam a comunicação.
6.5 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA 
EVOLUÇÃO SINTÁTICA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
A morfologia dos nomes latinos foi simplifi cada e suas frases reorganizadas 
quando da passagem para as línguas românicas, e isso foi consequência dire-
ta das mudanças morfológicas ocorridas por conta, sobretudo, da mudança 
fônica da língua (MATTOS e SILVA, 2006).
A sintaxe e a morfologia do galego-português apresentam características que 
determinaram as mudanças da língua, com termos que apresentam diferen-
ças entre esta língua e o português moderno. As mudanças que se sucederam 
com o passar do tempo constituem parte do nosso sistema morfossintático. 
Desse modo, podemos conceber que as mudanças sintáticas da língua são 
resultado direto das mudanças morfológicas desencadeadas pelo uso de 
seus falantes. Por exemplo, os elementos que hoje constituem o sintagma 
nominal são remanescentes da primeira fase do português, sendo eles a vo-
gal temática, o marcador do feminino -a e do plural, -s.
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Sintagma - unidade mínima que constitui 
uma oração, com a função de relacionar um 
determinante e um determinado. O sintag-
ma nominal, nesse caso, irá ocupar a função 
sintática de sujeito, de complemento verbal 
ou de complemento de uma preposição. 
Algumas situações sintáticas foram ocorrendo na passagem do português 
arcaico para o moderno. Conforme Mattos e Silva (2006), o português arcai-
co dava preferência pelo uso dos verbos “haver” e “ser” ou, ainda, “fazer” para 
os fenômenos da natureza e tempo: Non avia padres santos. Em seguida, a 
língua dá preferência ao uso do verbo “haver”: non ha ainda quarenta anos. 
Atualmente, assim como o verbo ser deu lugar a haver, os verbos existir e ter 
passam a ocupar o espaço de haver: há pouca gente matriculada; existe pou-
ca gente matriculada; tem pouca gente matriculada.
A ordem direta (S-V-O) é a mais usual na língua portuguesa, e é essa a ordem 
também preferida na oralidade, pois é a mais simples e espontânea. Duas 
situações podem servir de exemplo. O caso do deslocamento do pronome 
oblíquo e da concordância verbal com verbos transitivos indiretos.
No primeiro caso, a ênclise está sendo substituída pela próclise nos casos 
como “Me refi ro ao assunto anterior” em vez de “Refi ro-me ao assunto ante-
rior”. Essa mudança é percebida não só na fala como já mostra sua atuação, 
também, na escrita de textos mais elaborados, dando indícios de que poderá 
se afi rmar como nova regra de utilização do pronome em posição proclítica, 
substituindo a posição enclítica.
O segundo caso é a concordância de verbos que exigem, de acordo com a 
norma padrão da língua portuguesa, um complemento, o que quase não se 
vê na fala. Em “vamos assistir o fi lme”, temos um caso típico de fala em que 
não se observa o uso da preposição como complemento, conforme exige a 
norma padrão da língua, ou seja, “assistir ao fi lme”. O mesmo ocorre com a 
sentença “estou no telefone” em lugar de “estou ao telefone”.
Essa situação é usada por uma parcela signifi cativa de falantes, até mesmo na 
imprensa, tanto falada quanto escrita. Assim como acontece com as demais 
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sentenças da língua, esse certamente será mais um caso em que a fala aca-
bará por orientar a norma escrita.
Você quer ampliar seus conhecimentos sobre 
a história da gramática e da sintaxe da língua 
portuguesa? Sugerimos o capítulo II “Dois de-
dos de história”, obra de Azeredo (2012, p. 15-
26), queirá complementar seus estudos.
Todas as mudanças da língua são importantes e necessárias, e a sintática é 
uma em que a oralidade mais a representa, refl etindo a economia linguística 
e a necessidade de agilidade em momentos de fala. No entanto, essas situa-
ções acabam por ganhar a escrita, o que é típico da evolução da língua.
6.6 PORTUGUÊS EUROPEU X PORTUGUÊS 
BRASILEIRO
A importância do desenvolvimento linguístico brasileiro é fundamental para 
a compreensão da situação de evolução do português brasileiro, que foi se 
distanciando do português europeu a partir, sobretudo, da independência do 
Brasil. Teyssier (2001), descreve muito bem a situação que passou a viver nossa 
nação a partir desse período.
De acordo com o autor, é a partir da independência do Brasil que a valoriza-
ção da cultura local vai se distanciando da de Portugal, já que o brasileiro tem 
necessidade de preservar e cultuar tudo aquilo que é do seu território. Prova 
disso é a importância que se dá à cultura indígena, e nisso está inclusa a lín-
gua. A cultura francesa validou, ainda mais, essas mudanças. Além disso, a 
chegada de imigrantes vindos das mais diversas regiões da Europa também 
foram fundamentais para o enraizamento cultural brasileiro.
Há um entrelaçamento mestiço brasileiro, já que o tráfi co de negros deixou 
de existir nos anos de 1850 e os índios, em número cada vez mais reduzido, 
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tornam o Brasil um país multirracial e, por conseguinte, multilíngue. A indus-
trialização torna a urbanização maior, que se desenvolve, sobretudo, em dire-
ção ao Centro-Sul do país.
O autor encerra o cenário com a seguinte ilustração:
Com a explosão demográfi ca e o crescimento econômico, o antigo 
Brasil rural transformou-se, nos nossos dias, num “subcontinente”, 
onde zonas desenvolvidas de civilização urbana coexistem com regiões 
subdesenvolvidas. É nas vastas megalópoles de São Paulo (7 milhões de 
habitantes) e do Rio de Janeiro (5 milhões), assim como nas outras cinco 
cidades de mais de um milhão de habitantes (Porto Alegre, Belo Horizonte, 
Salvador, Recife e Fortaleza), que se elabora, nos dias de hoje, a forma 
particular de português que é a língua do Brasil. (TEYSSIER, 2001, p. 64).
É neste cenário que o português vai criando raízes brasileiras, distanciando-se 
do português de Portugal. A diversidade linguística refl ete diretamente nos 
usos da língua, que vai se diversifi cando e criando regionalismos, de acordo 
com os povos que vivem em cada canto do país.
As palavras da nossa língua foram, com o pas-
sar dos anos, sofrendo infl uência de outros 
povos que imigraram para cá, sobretudo en-
tre os séculos XIX e XX. Foram italianos, fran-
ceses, alemães, poloneses, japoneses, chine-
ses, árabes, dentre outros que viram no Brasil 
uma possibilidade de vida nova em meio às 
difi culdades enfrentadas em seus países de 
origem. Ainda hoje vivemos essa cultura de 
acolhimento do imigrante, com a chegada de 
senegaleses, haitianos e colombianos, dentre 
outros. A leitura do artigo “Línguas de imi-
grantes”, de Carmen Zink Bolognini e Maria 
Onice Payer, poderá agregar conhecimento e 
ajudar você a compreender como as línguas 
de outros povos infl uenciam diretamente no 
português do Brasil.
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A maior mudança, como já abordamos nesta disciplina, é a que diz respeito 
aos sons da língua. Porém, na morfologia e na sintaxe também observamos 
mudanças, descritas resumidamente, com base em Teyssier (2001).
• A junção estar + gerúndio (está cantando) se perpetua no Brasil, 
diferentemente de Portugal, que dá preferência a estar a + infi nitivo (está a 
cantar), assim como a ausência do artigo em enunciados com o possessivo: 
(a) minha caneta; e a construção com o uso do pronome átono: me levantei. 
Esses são casos de conservadorismo da língua.
• Outras situações do português brasileiro que não ocorrem no português 
europeu: conosco e não connosco; dezesseis e não dezasseis; ausência 
de artigo em enunciados como “toda (a) mulher é maravilhosa”; uso da 
preposição “em”: estou no telefone (ao telefone), vou na farmácia (à farmácia).
• Na colocação dos pronomes pessoais átonos, o distanciamento é bem mais 
notado. Em sentenças como “me diz uma coisa” e “me ajuda com essa tarefa”, 
há uma aceitação natural por parte dos falantes brasileiros, assim como no 
caso do pronome como complemento das formas nominais do verbo: “Pode 
me dizer uma coisa?” (Pode-me) ou “Não tinha se convencido da mudança” 
(Não se tinha convencido).
• Alguns registros da língua são vistos como vulgares, mas usados de modo 
normal pelos falantes brasileiros e aceito como familiaridades com a língua 
de uso. É o caso de frases negativas como “não sei não”; o uso do sujeito 
“mim” no lugar do “eu” em orações infi nitivas: “é pra mim (eu) fazer”; “feito” 
no sentido de “como”: “corria feito (como) louco”.
• A forma tônica do pronome pessoal de terceira pessoa (ele/ela), usada como 
objeto direto em lugar das formas átonas: recebi ele (recebi-o).
• Supressão do -s em fi nal de plural: os estudo(s), aquelas casa(s), meus livro(s).
Omissão do -r em fi nal de verbo no infi nitivo: vou busca(r) minha fi lha, não 
conseguiu faze(r) a atividade.
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O povo brasileiro tem um sotaque diferente 
dos outros povos de fala portuguesa? Assista 
ao vídeo “O Tamanho da Língua: os sotaques 
do português” e descubra como os falares se 
diferenciam nas regiões brasileiras e nos paí-
ses de fala portuguesa.
Várias são as situações de mudança na língua e que tentamos, aqui, dar uma 
breve explanação de como ocorreram e como ainda ocorrem, sobretudo no 
que diz respeito às diferenças entre o português de Portugal e o brasileiro.
CONCLUSÃO
A morfologia da língua pressupõe o estudo da estrutura interna da palavra. 
Nesta unidade, você viu que essa situação só fará sentido se se souber o que 
é uma palavra, como ela é entendida. Viu, ainda, que a palavra é formada por 
morfemas, unidades mínimas de signifi cado da morfologia. A categorização 
das palavras irá seguir certas características, que você compreendeu serem 
indispensáveis para classifi cá-las.
Com esses conhecimentos, você poderá tornar sua prática pedagógica mais 
abrangente, sem o uso das categorizações soltas que nada contribuem para 
o aprendizado do aluno, mas, sim, a refl exão sobre como a gramática da lín-
gua funciona a partir da formação das palavras.
A sintaxe da língua também foi tema dos nossos estudos. Ela diz respeito à 
estruturação da frase, de como as palavras estão organizadas na frase. A gra-
mática da língua portuguesa apresenta uma estrutura sintática padrão que 
poderá ser compreendida a partir de fatos históricos que envolveram a língua 
portuguesa e sua evolução, incluindo as principais diferenças entre o portu-
guês de Portugal e o brasileiro.
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 REFERÊNCIAS 
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AMARANTE, J. Latinitas: Uma introdução à língua latina através dos textos. Salvador: Edufba, 
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EAD.MULTIVIX.EDU.BR
CONHEÇA TAMBÉM NOSSOS CURSOS DE PÓS-GRADUAÇÃO A DISTÂNCIA NAS ÁREAS DE:
SAÚDE • EDUCAÇÃO • DIREITO • GESTÃO E NEGÓCIOSfoi dado 
pelos dinamarqueses Rasmus Rask (1787-1832) e Karl Verner (1846-1896), que 
traçaram um comparativo entre essas línguas e as línguas germânicas (GA-
BAS JR., 2008). Veremos sobre o método comparativo mais adiante.
O latim, por sua vez, foi a língua dos literatos durante muito tempo, mas, aos 
poucos, foi perdendo espaço para as línguas românicas, como o português, o 
francês e o espanhol, bem como para o alemão, o inglês e o holandês, só para 
citar algumas que não têm sua origem no latim. Desse modo, o latim foi se 
extinguindo, porém ainda manteve o status de prestígio, sobretudo entre os 
gramáticos mais tradicionais.
TRONCO DO LATIM, COM SUAS RAMIFICAÇÕES ATÉ AS LÍNGUAS ROMÂNICAS
Fonte: Adaptada de Amarante (2018).
#PraCegoVer
Ilustração mostra esquema com o tronco do latim e suas 
ramifi cações, até chegar às línguas românicas.
Sobre a origem das línguas europeias, é fato que todas nasceram faladas, isto 
é, a partir de dialetos falados que foram se misturando às línguas românicas. 
O caráter de língua culta, usada pelos sábios e diplomatas, foi dado em de-
trimento da linguagem coloquial, que era rechaçada e condenada por esses 
grupos de pessoas, algo que ainda ocorre atualmente.
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1.2 PROTOLÍNGUA, A LÍNGUA ANTECESSORA
Todos nós temos histórias de vida, sobre como e onde nascemos, quem são 
nossos pais e familiares mais próximos e o que nos constituiu como seres hu-
manos que somos, pertencentes a uma determinada sociedade.
E com as línguas? Você já parou para pensar que 
uma língua é viva? Que ela nasce e, portanto, 
poderá morrer, também?
É exatamente isso o que ocorre com as línguas, que nascem ou derivam de 
outra língua e vão se constituindo com algumas características próprias, que 
a irão determinar com uma forma e não com outra. Guardam particularida-
des de sua língua-mãe, mas se desenvolvem por meio de empréstimos lin-
guísticos ou permutações ou, ainda, pelo uso de seus falantes.
Como uma língua precisa de usuários para existir, ela poderá morrer se não 
houver mais ninguém que a reproduza. Foi o caso do latim, assim como o 
é de línguas indígenas, por exemplo. Inúmeras línguas indígenas morreram 
porque as tribos deixaram de existir e, como raramente tinham registro escri-
to, com o último índio morria, também, a língua daquele povo.
No Brasil, há o registro de, pelo menos, 160 
línguas e dialetos falados pelos índios brasileiros. 
Porém, antes da colonização, acreditasse 
que existia em torno de 1.000 línguas usadas 
pelos povos indígenas que aqui viviam. Para 
saber mais sobre esse assunto, acesse o site do 
Instituto Socioambiental. Lá você irá encontrar 
tudo sobre as línguas indígenas brasileira, com 
ilustrações dos troncos dessas línguas. 
19
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
A palavra protolíngua apresenta raiz grega: protos, que signifi ca “primeiro”, 
mais a partícula “língua”. Sendo assim, podemos defi nir protolíngua como 
a língua que deu origem a outras línguas. De acordo com o dicionário Auré-
lio (FERREIRA, 2004, p. 1648), o termo designa toda “língua não diretamente 
atestada, mas que se supõe ter existido e dado origem a uma família linguísti-
ca, em virtude das semelhanças existentes entre um grupo de língua que lhe 
são posteriores, estabelecidas pelo método comparativo”.
Dessa forma, denomina-se uma língua ancestral a outras como o protoger-
mânico, ancestral das línguas germânicas como o inglês, o alemão e o holan-
dês, por exemplo, ou o protoeslavo, que teria dado origem ao russo, polonês, 
tcheco, dentre outras línguas eslavas.
No caso das línguas românicas, Lyons (2013, p. 175) explica que o proto-roman-
ce apresenta uma peculiaridade.
Embora o dialeto do latim do qual elas descendem certamente diferisse em 
muitos detalhes de gramática e vocabulário dos textos que nos chegaram 
às mãos, por mais coloquiais que fossem, temos uma noção muito melhor 
do que podemos chamar de proto-romance do que da maioria das outras 
protolínguas.
Indicamos a leitura do subtítulo “Famílias de 
línguas” da obra de John Lyons (2013, pp. 174-
181), para compreender o que signifi ca uma 
protolíngua e como ela auxiliar nãos estudos de 
línguas ancestrais.
As protolínguas, é importante destacar, foram defi nidas pelos estudiosos 
como forma de se chegar a uma ou mais línguas existentes, por meio de hi-
póteses de formação das palavras que compõem tais línguas. Assim, os pes-
quisadores utilizavam comparações entre línguas para chegar ao que se de-
nomina de famílias de línguas.
1.3 MÉTODO COMPARATIVO ENTRE LÍNGUAS
Para determinar como uma língua teria a mesma raiz de outra, Rask e, mais 
tarde, o linguista Jacob Grimm (1785-1863), compararam o latim, o grego e 
o sânscrito com as línguas germânicas. De acordo com Gabas Jr. (2008), foi 
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Grimm quem refi nou esse método, traçando comparações entre os sons das 
línguas.
Para você compreender como os sons ocorrem 
na língua, indicamos o projeto Fonética & 
Fonologia: sonoridade em artes, saúde e 
tecnologia. Há diversos temas com sonoridade 
que você poderá acompanhar. Em especial, 
recomendamos o quadro fonético para 
exploração dos fones. Acesse o link e conheça.
A Lei de Grimm, como fi cou conhecida, usou um método que foi reproduzido, 
mais tarde, por outros pesquisadores para determinar a alteração de som das 
palavras de uma língua em relação a outra. Essa lei, no entanto, não foi sufi -
ciente para explicar uma mudança de som em palavras germânicas, quando 
comparadas ao latim ou ao grego. Sobre essa situação, Gabas Jr. (2088, p. 79) 
explica que
[...] um grupo de palavras da família germânica parecia desafi ar as leis de 
Grimm, quando comparadas ao grego e ao latim. Foi constatado que, em 
algumas palavras da família germânica, as consoantes sonoras /b/, /d/ e 
/g/ correspondiam às consoantes surdas /p/, /t/ e /k/ do grego, em vez 
de corresponder à série de consoantes fricativa /f/, /ø/ e /x/, como previa 
a “Lei de Grimm”.
Após longos estudos, o pesquisador Karl Verner descobriu que essa mudança 
ocorreu quando Grimm concluiu seus estudos, ou seja, não havia como pre-
ver tal comportamento. A descoberta de Verner, assim como ocorreu com 
Grimm, foi denominada de “Lei de Verner”.
As pesquisas sobre as línguas indo-europeias tiveram grande contribuição 
desses três estudiosos: Verner, Rask e Grimm, tanto que o método utilizado 
por eles foi largamente reproduzido ao longo do século XIX. No entanto, tais 
estudos eram realizados levando em conta muito mais a escrita das palavras, 
ou seja, a gramática dos literatos, já que foram estes que deixaram registros 
escritos na história da língua portuguesa.
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O método comparativo foi confrontado por 
outro grupo de estudiosos, pertencente à 
escola dos neogramáticos. A principal queixa 
desse grupo era que as pesquisas não levavam 
em conta a fala, isto é, a língua produzida pelos 
indivíduos e usada no cotidiano à época.
Os neogramáticos afi rmavam que, quando um fonema sofria alteração em 
uma língua, essa mudança ocorria como regra, sem exceção. Outro preceito 
desses cientistas era o da analogia, um processo linguístico de modifi cação 
ou criação de uma palavra associada à outra já existente. É por analogia, por 
exemplo, que uma criança diz “eu fazi” em vez de “eu fi z”, pois fala “eu comi”, 
“eu bebi”, “eu ouvi”.
QUANDO APRENDE A PRODUZIR VERBOS, A CRIANÇA FAZ ANALOGIAS COM AQUILO 
QUE JÁ SABE
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
#PraCegoVer
A imagem mostra duas crianças brincando com duas latas. 
Um dos meninos está sentado no chão, com a lata na boca. 
O outromenino está ajoelhado no chão, mais ao fundo, com a lata no ouvido, 
como se reproduzissem uma forma de comunicação.
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Até meados do século XIX, os neogramáticos, grupo de estudiosos que per-
tencia à escola da Universidade de Leipzig, na Alemanha, se posicionaram 
contra a metodologia comparatista, já que esta pesquisava a escrita em de-
trimento da fala.
Veja uma relação dos principais teóricos estudiosos da história da língua por-
tuguesa e suas respectivas obras, bem como a data de publicação (ILARI, 
2018).
Rasmus Rask (1787-1832)
Investigação da origem do antigo escandinavo e do islandês (1814).
Jakob Grimm (1785-1863)
Teoria de Grimm.
Franz Bopp (1791-1867)
Gramática comparativa do sânscrito, zenal (avestano), grego, latim, 
lituano, eslavo antigo, gótico e alemão (1833-1852).
August Schleicher (1821-1868)
Compêndio de gramática comparativa das línguas indo-germânicas 
(1861-1862).
Esses teóricos foram tidos como os principais estudiosos das línguas indo-
-europeias e inúmeras pesquisas se seguiram, resultando em contribuições 
relevantes para os estudos linguísticos.
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ESTUDOS LINGUÍSTICOS
Fonte: Plataforma Deduca (2020).
#PraCegoVer
A imagem ilustra um livro antigo que representa os estudos linguísticos.
A controvérsia foi instaurada com a “Teoria da Difusão”, liderada pelo linguista 
Shiyuan Wang, em 1969. Segundo Gabas Jr. (2008), os neogramáticos prega-
vam que a mudança de som de uma palavra ocorria gradualmente, e lexical-
mente de forma bem mais súbita; já para os difusionistas, o processo sucedia 
ao contrário: fonologicamente súbita e lexicalmente gradual.
A difusão lexical constitui uma oposição teórica direta à proposta neogramá-
tica.
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Neogramáticos
Propõem que a mudança sonora segue leis fi xas e não apresenta 
exceções. Portanto, sons podem mudar a forma de uma palavra. Esta 
proposta prevê que a mudança sonora é foneticamente gradual e 
lexicalmente abrupta.
Difusionistas
Sugerem que uma mudança sonora é aplicada a algumas palavras 
e pode atingir (ou não) o léxico como um todo. Portanto, é a palavra 
que muda em relação a sons específi cos. Esta proposta prevê que a 
mudança sonora é foneticamente abrupta e lexicalmente gradual 
(CRISTÓFARO-SILVA, 2001, p. 211).
Labov (1981) resolveu o impasse, afi rmando que as mudanças de som são me-
nos potentes que as mudanças ocorridas no vocabulário de uma língua, ou 
seja, no léxico. Com isso, cada palavra que sofre uma mudança de som irá 
apresentar essa mudança de modo mais lento e gradual (GABAS JR., 2008).
De qualquer modo, todas essas teorias tiveram papel fundamental nos estu-
dos da mudança das línguas indo-europeias, abrindo caminho para questões 
sobre a língua que motivaram outros e novos estudos na área da Linguística.
LINGUÍSTICA ROMÂNICA
1.4 ORIGEM DA LINGUÍSTICA ROMÂNICA
As línguas românicas ou neolatinas teriam sido derivadas de uma língua co-
mum. Esse fato foi estudado a partir da construção de sistematizações que 
possibilitaram a comparação entre as línguas, fazendo com que fossem per-
cebidas semelhanças a partir da chamada língua-mãe. O sistema utilizado é 
o da correspondência sistêmica.
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COMPARATIVO ENTRE O LATIM E AS LÍNGUAS NEOLATINAS
LATIM PORTUGUÊS ESPANHOL FRANCÊS ITALIANO
movet move mueve meut muove
populu povo pueblo peuple popolo
solu só solo seul solo
juvenoe jovem joven jeune giovane
luna lua luna lune luna
Fonte: Adaptada de Ilari (2018).
#PraCegoVer
A tabela compara algumas palavras do Latim com o português, 
o espanhol, o francês e o italiano. Exemplo: luna em latim, lua em português, 
luna em espanhol, lune em francês e luna em italiano.
O quadro apresentado aponta as semelhanças existentes entre a palavra lati-
na e suas descendentes no português, espanhol, francês e italiano. Essas se-
melhanças poderiam ser percebidas somente pela leitura das palavras, porém, 
uma análise mais aprofundada em relação ao som de cada uma delas possibi-
litará reconhecer mudanças fonéticas, que aparecem sublinhadas no quadro.
Acesse o link e assista ao vídeo A origem da 
língua portuguesa, produzido pelo MultiRio, 
canal de mídia interativa da cidade do Rio de 
Janeiro. No vídeo, você verá, de forma alegre 
e explicativa, como se originou nossa língua, 
as contribuições de outras línguas que a 
antecederam, além de muita história, com 
misturas de literatura e textos informativos.
A correspondência sistemática entre palavras provenientes da língua-mãe, 
nesse caso o latim, demonstra uma similaridade que nem sempre é percebi-
da na fala, mas em seu signifi cado. Ou seja, a relação existe ou na forma ou no 
sentido ou, ainda, em ambas as situações.
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As mudanças fonéticas foram observadas pelos estudiosos que concluíram 
na evolução das línguas a partir de uma língua-mãe, ou seja, da gênese co-
mum em todas as línguas estudadas (SOUSA, 2006).
1.5 SINCRONISMO E DIACRONISMO 
LINGUÍSTICOS
O ser humano evolui e a língua acompanha essa evolução, já que uma de 
suas principais características é a versatilidade, o que a torna de fácil adapta-
ção. Nas situações interativas, com o passar do tempo o homem vai sentido 
a necessidade de reajustar sua fala por motivos diversos. Esse reajuste pode 
se dar tanto na reorganização da fala de uma palavra quanto em sua signi-
fi cação. Os termos usados na informática podem nos auxiliar a compreen-
der esse processo. A palavra “vírus”, por exemplo, até meados de 1990, trazia a 
seguinte signifi cação: “Diminuto agente infeccioso que não tem capacidade 
metabólica autônoma e apenas se reproduz no interior de células vivas” (FER-
REIRA, 1993, p. 1876). Após a consagração da internet, o termo “vírus” incor-
porou mais um signifi cado: “Programa estranho ao sistema de computador 
capaz de copiar e instalar a si mesmo, geralmente concebido para provocar 
efeitos nocivos ou estranhos à funcionalidade do sistema ou aos dados nele 
armazenados” (FERREIRA, 2004, p. 2067).
Um caso clássico da língua portuguesa é a palavra “você”. O dicionário etimo-
lógico traz o seguinte percurso desse termo ao longo do tempo:
EVOLUÇÃO DA PALAVRA “VOCÊ” AO LONGO DO TEMPO
Vossa Mercê  vossemecê  vosmecê  você
Fonte: CUNHA, 2012, p. 681.
#PraCegoVer
A fi gura mostra a evolução da palavra você ao longo do tempo: 
Vossa Mercê> vossmecê> vosmecê> você
Como você pode perceber, a palavra “você” sofreu três alterações desde sua 
origem. Mas, poderíamos, ainda, dizer que ela apresenta mais uma confi gu-
ração, dessa vez somente na fala: “cê”. Em falares de determinadas comunida-
des brasileiras, o “você” é substituído, na fala, pela expressão “cê”, não perden-
do sua signifi cação: “Cê vai de carro ou de bicicleta?”.
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O que percebemos, com esses exemplos, é que as palavras que compõem 
uma língua sofrem variações e se acomodam conforme a necessidade de 
uma determinada comunidade linguística.
Indicamos a leitura do arquivo “A variação 
linguística: um recorte”. Nele, Tânia Maria 
Alkmim (2008, pp. 33-39) aborda sobre as 
variações diacrônica e sincrônica dos estudos 
linguísticos.
As variações podem ser estudadas sob um enfoque sincrônico ou diacrônico. 
De acordo com Petter (2010, p. 18), “a descrição sincrônica analisa as relações 
existentes entre os fatos linguísticos num estado de língua. Já a diacronia diz 
respeitoao estudo das transformações ocorridas na língua ao longo do tem-
po, ou seja, leva em conta a história da língua”. 
Tomando o exemplo dado anteriormente em relação ao termo “você”, temos 
a seguinte representação:
ESQUEMA REPRESENTATIVO DOS ESTUDOS DIACRÔNICOS E SINCRÔNICOS 
DA EVOLUÇÃO DO TERMO “VOCÊ”
D
IA
C
R
O
N
IA
Vossa Mercê SINCRONIA
vossemecê
vosmecê
você
Fonte: Elaborado pela autora (2020).
É de responsabilidade dos estudos sincrônicos analisar as alterações ocor-
ridas no uso do pronome de tratamento Vossa Mercê, como era produzido 
oralmente em um período da história. Já a diacronia diz respeito ao estudo 
extensivo desse processo, ou seja, vai analisar o termo do modo como se de-
senvolveu desde sua constituição. 
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1.6 A ROMANIZAÇÃO DA LÍNGUA
A língua ofi cial de uma nação nem sempre nasce de modo natural. Nas situ-
ações de tomada de regiões, como o que houve com o império romano, ou 
de colonização, como as ocorridas pelos portugueses com o Brasil e outras 
nações, por exemplo, o que ocorre é a imposição de uma língua sobre a outra, 
ou seja, a do povo dominador sobre a do povo dominado.
Para compreender um pouco mais sobre o 
surgimento da língua portuguesa, ouça o 
podcast do PET-Letras da UFPE. A conversa é 
sobre os principais eventos do processo histórico 
de formação da Língua Portuguesa, com ênfase 
nas mudanças linguísticas atreladas a esses, 
pelas quais pouco a pouco o latim foi sendo 
substituído pelas línguas românicas. Acesse o 
link e acompanhe!
Desse modo, durante algum tempo as duas línguas convivem em situação de 
bilinguismo, ou seja, os falantes lidam com ambas as línguas, a nativa e a do 
colonizador. Desse modo, características da língua nativa acabam por penetrar, 
de modo mais ou menos intenso, na língua que chega com o colonizador.
De acordo com Bagno (2007, p. 45), o:
Bilingüismo
“(sic), num jogo de compromisso entre hábitos articulatórios da língua 
materna e a aquisição de uma nova língua, permite que tendências 
lingüísticas (sic) pré-existentes atuem sobre a marcha evolutiva da 
língua que se adquire”. 
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A esse processo 
dá-se o nome de substrato, um processo que não irá determinar uma 
nova língua de modo instantâneo, já que a evolução da língua é dada 
de modo lento.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, a língua que dominava a maior 
parte destas terras era o tupi, língua que os indígenas falavam e usavam para 
se comunicar. Com os portugueses, veio junto a língua portuguesa, e o povo 
colonizador fez com que sua língua prevalecesse sobre a do povo colonizado.
Essas misturas e infl uências são denominadas de substrato, superstrato e ads-
trato linguístico. De acordo com Assis (2011) e Garcia (2002), podemos com-
preender conforme apresentado a seguir.
CARACTERÍSTICAS DO SUBSTRATO, SUPERSTRATO E ADSTRATO LINGUÍS-
TICOS
Tipo de 
infl uência 
ou mistura 
linguística
Características Caso prático Exemplos
Substrato 
linguístico
A língua dos colonizadores sobrepõe 
à língua do povo colonizado, 
passando a prevalecer. 
Substrato 
ibérico do 
português 
europeu.
Barro 
Cama
Balsa
Esquerdo
Garra
Manto
Sapo 
Superstrato 
linguístico
A língua do povo colonizado, ou 
seja, a língua nativa, embora com 
marcas da língua do colonizador, se 
sobrepõe à língua deste, acabando 
por permanecer.
Superstrato 
germânico 
do português 
europeu. 
Branco
Espiar
Fralda
Sopa
Trégua 
Adstrato 
linguístico
Duas ou mais línguas convivem uma 
ao lado da outra, sem supremacia de 
uma sobre a outra.
Adstrato árabe 
do português 
europeu. 
Alface
Tambor
Alicate
Armazém
Álcool
Quintal
Arroba
Fonte: Elaborada pela autora (2020).
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Essas são situações que envolvem a mudança ou a criação de uma língua. No 
caso do português europeu, as infl uências ocorridas foram inúmeras.
Um exemplo de superstrato é a infl uência da língua árabe na constituição da 
língua portuguesa e alguns exemplos são palavras pertencentes ao campo 
semântico da administração e da guerra, como “almirante”, “alfândega”, “al-
gazarra”; da arquitetura e da organização urbana, como “alpendre”, “azulejo”, 
“armazém”, “bairro”; plantas e frutas como “alfazema”, “algodão”, “laranja”, “li-
mão”; referente à alimentação, como “almôndega” e “xarope”, além de muitos 
outros vocábulos que enriqueceram o léxico da língua portuguesa (BAGNO, 
2007).
CONCLUSÃO
Esta unidade teve como principal objetivo reconhecer e compreender a im-
portância dos estudos históricos da língua portuguesa para sua formação e 
constituição.
Nesta unidade você viu sobre a história das línguas, tema de estudo da Lin-
guística Histórica e se inteirou sobre a denominação de uma protolíngua. 
Além disso, conheceu o método comparativo entre línguas, utilizado pelos 
pesquisadores para compreender como uma língua nasce e sua evolução.
O estudo apresentou, ainda, a origem da Linguística Românica, a sincronia e 
a diacronia nos estudos históricos e a chamada romanização da língua.
Esperamos que esses temas possam agregar conhecimento à sua formação, 
pois conhecer a origem da língua portuguesa é fundamental para o entendi-
mento do que é e como uma língua se difunde em seu meio, de acordo com 
seus falantes, não sendo estática, mas mudando e sendo alterada por esses 
indivíduos a partir de suas necessidades comunicativas.
UNIDADE 2
> Caracterizar o 
latim vulgar como 
precedente da 
língua portuguesa.
> Reconhecer as 
línguas românicas 
como originárias de 
outras línguas.
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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 2 O LATIM VULGAR E A 
FORMAÇÃO DAS LÍNGUAS 
ROMÂNICAS
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
O latim é considerado a língua-mãe da língua portuguesa e esse é um dos 
principais motivos para estudar o seu percurso histórico. Para isso, você verá 
nesta unidade o latim e suas ramifi cações, tomando conhecimento sobre o 
lugar onde o latim era falado, além da história que envolveu os romanos, povo 
que usava essa língua durante suas conquistas territoriais.
Os diferentes dialetos falados também foram alvo de estudos pelos linguis-
tas para, a partir deles, defi nir quais falares deram origem a outras línguas 
românicas. Estas, por sua vez, estão historicamente divididas em românicas 
ocidental e oriental e são as que deram origem ao português, ao francês e ao 
espanhol, dentre outras.
Bons estudos!
2.1 O QUE É O LATIM VULGAR? ALGUMAS 
TEORIAS DE ESTUDO DO LATIM 
Muito embora no século XIX o latim já fosse considerado uma língua morta, 
não mais utilizada por comunidades linguísticas, ele permaneceu vivo, ainda, 
por mais longos 2.000 anos, aproximadamente. Ele é, inclusive, a língua ofi cial 
do Vaticano, sendo usada pelos sacerdotes católicos em seus ritos religiosos. 
Mas, para estudar o latim e seus herdeiros linguísticos, é necessário compre-
ender como ele se dissipou pelo mundo ocidental.
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Comparatistas
as pesquisas históricas das línguas ocidentais tiveram início com os 
comparatistas, grupo de estudiosos que usava o método histórico-
comparativo para analisar e comparar uma língua com outras 
assemelhadas estruturalmente. No entanto, no período compreendido 
entre o fi nal do século XIX e início do século XX, outro grupo de 
estudiosos se voltou contra esse método, muito embora se saiba 
que a comparação seria o padrão que permaneceriacomo modo de 
comprovar a similaridade genética entre línguas até nossos tempos.
Neogramáticos
os estudos dos neogramáticos, como eram denominados esses 
pesquisadores, levavam em conta não só a escrita, mas também a 
fala, algo que não foi considerado pelos histórico-comparatistas. Novas 
orientações vão surgir com base nessa teoria, como o denominado 
idealismo linguístico e a geografi a linguística, centralizando os estudos 
nas línguas românicas, com investigações dos dialetos que compõem 
o galego e o romance (ILARI, 2018).
O que se pode conceber é que os pesquisadores dessa época davam mais 
atenção e acreditavam mais nas pesquisas de campo do que naquelas pro-
vindas de documentos escritos, isso porque tais documentos não valorizavam 
a fala cotidiana das pessoas. Esse movimento, como destaca Ilari (2018), con-
siderava bem mais o estudo das “coisas” do que o estudo das “palavras”, en-
tendendo-se coisas como aquilo que era nominado pelos falantes da língua, 
aqueles que a usavam de modo efetivo, e palavras como a escrita.
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O exemplo mais comum para ilustrar este 
enfoque, o de palavras e coisas, é a história 
da palavra fígado e de seus cognatos 
românicos (espanhol hígado, francês foie, 
italiano fegato, catalão e provençal fetge, 
engadino fi yat, romano fi cát). Embora essas 
palavras sejam a tradução exata do latim 
iecur, não é possível, evidentemente, traçar 
entre essa e aquelas uma derivação fonética 
regular. Entre iecur e as formas *fi catu, 
*fícatu que resultam da comparação das 
línguas românicas, encontra-se, contudo, 
um elo quando se considera mais de perto 
a “coisa”, no caso o interesse gastronômico 
que os antigos tinham no fígado das aves 
e a técnica de sua produção. O fígado era 
um prato altamente apreciado e, para 
obter fígados maiores e mais saborosos, era 
hábito alimentar os gansos com grandes 
quantidades de fi gos. Da expressão iecur 
fi catu, que indicava o fígado engordado 
com fi gos, sobreviveu fi catu, que remetia 
de início aos fi gos mas acabou substituindo 
iecur com o signifi cado genérico de “fígado” 
(por uma derivação análoga, pêssego se 
origina de malum pesicum, signifi cando 
“maçã pérsica”, isto é, “maçã da Pérsia”) 
(ILARI, 2018, p. 36).
Na esteira dos estudos históricos da língua, Ferdinand de Saussure adota a 
concepção de língua como um sistema composto por unidades que se rela-
cionam entre si. Desse modo, as pesquisas linguísticas passaram a apresentar 
outro caráter, o do estudo sincrônico, ou seja, são estudadas de acordo com o 
momento em que ocorrem. Com isso, os estudos dos sons da língua ganham 
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um espaço maior, resultando no desenvolvimento de uma nova disciplina, a 
Fonologia.
O latim, mais uma vez, será fonte dessas pesquisas e dará grande contribui-
ção para os estudos sincrônicos do Estruturalismo, escola de Saussure.
2.2 HISTÓRIA DO LATIM
A língua portuguesa é classifi cada como uma língua neolatina ou indo-euro-
peia, pois deriva do latim introduzido na Península Ibérica, região situada no 
sudoeste do continente europeu, durante a expansão e dominação do Impé-
rio Romano.
Assim sendo, o contexto histórico em que se criou e desenvolveu a língua por-
tuguesa está intrinsecamente ligado aos acontecimentos da história geral da 
Península, a qual, antes dos romanos, já era habitada por vários povos, cada 
qual com a sua cultura (COUTINHO, 1976).
 FIGURA 1 – INSCRIÇÃO EM PAREDE DE PEDRA EM LATIM
Fonte: Pixabay (2020).
#PraCegoVer
Parede de pedra com escritos em latim
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Ao tratar da expansão do latim e da romanização peninsular, Ilari (2008) afi r-
ma que, após a submissão dos povos, os romanos adotavam uma política 
bastante aberta para a época, pois, apesar de explorarem economicamente 
a região conquistada, eles respeitavam as tradições religiosas dos vencidos e 
permitiam que eles utilizassem a língua materna no contato entre si. Para os 
romanos, o uso do latim, pelos vencidos, era motivo de honra. Por causa disso, 
a língua latina acabou entrando em contato com línguas de famílias linguís-
ticas bastante diferentes.
O termo “família linguística” surgiu no 
contexto dos estudos biológicos do 
século XIX. Porém, atualmente entende-
se que a história das línguas não é de 
caráter genético, mas, sim, um processo 
complexo de diferenciação resultante da 
história, social e cultural, das sociedades. 
A família designada como indo-europeia 
diz respeito a uma variedade de línguas 
faladas na Ásia e na Europa, do norte da 
Índia até a Península Ibérica (FARACO, 
2012)
De acordo com Faraco (2012), foi o latim do povo considerado inculto, o sermo 
vulgaris, plebeius ou rusticus, conhecido como latim vulgar, que se expandiu 
pelo território ibérico e tornou-se instrumento diário de comunicação entre 
indivíduos que se encontravam em um vasto território. Consequentemente, 
pelo fato de ser utilizado por diferentes povos e culturas, o latim vulgar aca-
bou passando por mudanças. Paralelamente, o latim, urbanus, eruditus ou 
perpolitus, considerado o latim clássico, restringiu-se à produção literária por 
ser a variante de prestígio do idioma. Atualmente, o latim clássico é represen-
tado pelos escritos de autores consagrados como Cícero, Virgílio e Horácio, os 
quais são considerados autores fundadores da literatura ocidental.
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2.3 DIALETAÇÃO DO LATIM
Dialeto, para muitos, tem o signifi cado de um falar diferenciado, até mesmo 
“errado”, “incorreto”, de uma mesma língua. No Brasil, assim como em ou-
tros países do globo, há inúmeros dialetos, diferentes falares da mesma língua 
portuguesa com sotaques distintos entre si. No entanto, dialeto representa 
o que poderíamos chamar de subdivisões de uma mesma língua, falada em 
diferentes regiões geográfi cas ou por distintas camadas sociais, e é nesta que, 
algumas vezes, o dialeto é visto como algo depreciativo por parte de alguns 
falantes.
O Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita 
(Ceale), da Universidade Federal de Minas 
Gerais (UFMG), formulou um glossário 
com termos ligados à alfabetização, leitura 
e escrita e nele consta a defi nição do 
termo “dialeto”, incluindo sua história. Vale 
a pena você dar uma olhada e ampliar seu 
conhecimento sobre essa palavra ainda 
com signifi cados tão distorcidos. Acesse o 
link e conheça o Glossário.
O que nos interessa, aqui, são os diferentes dialetos de latim usados na re-
gião da Península Ibérica e que deram origem às línguas românicas. Para que 
você compreenda quais eram esses dialetos, é necessário ter a noção do que 
se denominava língua naquele contexto histórico.
Situando historicamente, no período pré-renascentista, eram as línguas lite-
rárias que tinham reconhecimento linguístico. Em relação ao status de língua 
adotado, Lyons (2013) observa que havia uma distinção entre as línguas literá-
rias e as não literárias, sendo estas desmerecidas em detrimento daquelas. O 
autor afi rma que “quaisquer diferenças que os gramáticos observavam entre 
o literário e o coloquial, ou entre a língua-padrão e os dialetos não-padrão ten-
diam a ser condenadas e atribuídas a desleixo ou à falta de instrução” (LYONS, 
2013, p. 171).
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
A língua nativa, aquela que era de fato a originária e que determinava o uso 
pela sociedade, era desconsiderada na maioria das vezes, o que nos leva a crer 
que, ainda hoje, há um desprezo considerável da fala em comparação à escri-
ta, sendo esta tida como a correta e afala, como a incorreta.
Ainda hoje, nas escolas, alunos são taxados 
de errados pela sua linguagem falada, como 
se somente a escrita fosse a correta. Muito 
embora o papel do professor seja o de instruir 
para a correção, é importante que ele consiga 
elaborar estratégias para identifi car os erros 
como parte da construção de seu aluno. 
Desse modo, ao omitir o “r” fi nal de verbos no 
infi nitivo, por exemplo, certamente o aluno 
não erra, totalmente, pois essa situação se 
refere a um ato de fala. O que é possível fazer, 
nesses casos, é informar ao aluno que, embora 
sua fala seja assim, a escrita ainda conserva o 
“r” fi nal de palavras como “escrever”, “dormir”, 
“falar” e assim por diante. Com isso, o professor 
não só respeitará a linguagem nativa dele 
como contribuirá para com seu aprendizado 
da língua portuguesa padrão.
Ao mesmo tempo em que a sociedade romana ia se organizando, de acordo 
com as conquistas territoriais, a língua também sofria alterações, algo consi-
derado natural, como aponta Ilari (2018), em uma estratifi cação social com-
posta por plebeus, escravos e aristocratas.
É bom lembrar que do latim vulgar existem poucos registros, sendo que isso 
se deve ao fato que explicamos anteriormente, ou seja, o de que era um dia-
leto do latim e, portanto, devia ser evitado. Para opor um a outro, usamos o 
termo latim culto em contraposição ao latim vulgar.
Há, no entanto, alguns documentos que trazem palavras escritas em latim 
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vulgar, como o Appendix Probi (ILARI, 2018), uma lista de palavras com os er-
ros mais comuns, elaborada por alguém que queria deixar claro que o modo 
correto de falar ̶ ou escrever, conforme o caso ̶ era o latim culto, e que o latim 
vulgar deveria ser evitado. Um fato curioso dessa lista é que alguns estudiosos 
atribuem sua autoria a Marco Valério Probo, isso porque foi encontrada junto 
a outros manuscritos desse gramático, mas não há certeza disso. De igual 
modo, o período em que foi elaborada não é claro, com alguns atribuindo ao 
século IV d.C., outros ao século III a.C.
O quadro a seguir apresenta algumas das 227 palavras que estão nesta lista, 
para que você tenha contato, mesmo que breve, com o latim vulgar.
AMOSTRA DE ALGUMAS PALAVRAS ESCRITAS EM LATIM VULGAR EM CON-
TRAPOSIÇÃO COM O LATIM CULTO
Appendix Probi Tradução para o português
columna non colomna coluna
murus non mura muro
neptis non nepticla neta
olim non oli outrora, certa vez
plebes non plevis plebeu (povo comum)
socrus non socra sogra
Fonte: Adaptada de Ilari (2018).
#PraCegoVer
A tabela traz do lado esquerdo palavras escritas em latim e do 
lado direito palavras traduzidas para o português.
Exemplo: socrus non socra que em português é sogra.
A primeira palavra equivale ao latim clássico e a segunda, ao latim vulgar, 
ambas separadas entre si pelo advérbio non (“não”), o que signifi ca, de fato, 
que deveria ser usada a primeira e não a segunda: diga “columna” e não “co-
lomna”. Algo que podemos perceber nessa lista é que as mudanças da língua 
eram perceptíveis desde então. Sobre isso, Ilari (2018, p. 72) aponta que
A lista é sufi cientemente rica para revelar muitas tendências do latim vulgar 
que o exame das línguas românicas confi rma; por exemplo, as seis palavras 
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acima (e muitas outras da lista) confi rmam que a quarta declinação tinha 
sido absorvida pela primeira e segunda; e exemplifi cam o uso generalizado 
do diminutivo -iculus, -icula (aliás reduzido a -iclus, -icla), a passagem de u 
breve para o, o enfraquecimento e queda do m fi nal, a alternância de b inter-
vocálico com v etc.
Acesse o link e tenha a lista completa do 
Appendix Probi para conhecer os outros 
termos.
Outros escritos da época registram, também, a oposição entre o latim vulgar 
e o clássico, como em Cícero e Quintiliano, o gramático Varrão, o poeta Catulo, 
dentre outros (ILARI, 2018). O latim vulgar era “misturado” com o latim clássi-
co, já que os autores apresentavam pouco conhecimento literário.
Por fi m, há as inscrições latinas, deixadas aos milhares, e que, quando não se 
tratavam de documentos ofi ciais, apresentavam marcas fortes do vulgarismo. 
É o caso das tabuinhas execratórias (defi xionum tabellae), com inscrições que 
representavam o costume dos romanos de rogar pragas aos seus inimigos 
(ILARI, 2018).
O artigo “As ‘tabellae defi xionum’: carac-
terísticas e propósitos” (2006), traz infor-
mações sobre essas tabuinhas, incluindo 
diversas imagens com as inscrições ori-
ginais e suas traduções em português. 
Acesse o artigo por este link .
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2.4 LÍNGUAS ROMÂNICAS: O INDO-EUROPEU
A expansão do território romano deu-se a passos largos, iniciando no século 
VI a.C., no ano 27 a.C., permanecendo por cinco séculos, vindo a sucumbir em 
476 d.C., no século V. Para você ter uma ideia do tamanho desse império, con-
siderado o maior da civilização ocidental, ele se estendia do Egito, chegando à 
Grã-Bretanha e à Ásia Menor, um território de aproximadamente seis milhões 
de quilômetros quadrados (6.000.000km²). Com toda essa extensão, foi ne-
cessário dividir o império em Ocidental, cuja capital era Roma, e Oriental, com 
capital situada em Bizâncio.
Os romanos adotavam, geralmente, 
uma política bastante aberta para a épo-
ca. Impunham o direito romano e explo-
ravam economicamente a região, mas 
respeitavam as tradições religiosas dos 
vencidos e permitiam que estes conti-
nuassem a utilizar a sua língua materna, 
ao menos nos contatos entre si (ILARI, 
2018, p. 55)
 FIGURA 2 – MAPA DO IMPÉRIO ROMANO EM SEU AUGE
Fonte: Encyclopedia Britannica, Inc. (2010) . 
#PraCegoVer
Mapa do Império Romano durante o ano de 117 d.C. Nele aparecem os países que faziam
 parte do império, os continentes que fazem limite (Ásia e África) e o Oceano Atlântico. 
O Império está localizado em torno do Mar Mediterrâneo.
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Agora que você já se situou histórica e geografi camente, pense na igual gran-
deza e diversidade linguística existente nesse imenso império. A dominação 
romana também impunha sua língua ofi cial, o latim, como língua de comu-
nicação com o império e, sendo assim, foi inevitável a mistura de línguas. Des-
se modo, novas línguas foram se constituindo, resultando em um conjunto 
denominado indo-europeu.
O site do Museu da Língua Portuguesa 
disponibiliza leituras interessantes sobre 
a nossa língua, suas origens, mudanças 
e tudo o mais que lhe diz respeito. O lin-
guista Ataliba de Castilho escreveu so-
bre as famílias linguísticas e sobre como 
as línguas nascem e morrem.
O indo-europeu pertence a uma grande família de línguas, tanto que está di-
vidida em cinco ramifi cações: helênico, germânico, céltico, eslavo e românico. 
Para nós, interessa o românico, que teria dado origem às línguas europeias 
como o português, o espanhol, o italiano, o francês, além de várias outras lín-
guas derivadas do latim, constituindo, desse modo, as línguas latinas que se 
espalharam pelo globo.
 FIGURA 3 – ÁRVORE GENEALÓGICA DAS LÍNGUAS INDO-EUROPEIAS
Fonte: Adaptada de Lynch [s.d.].
#PraCegoVer
A árvore traz as ramifi cações da língua Proto-Indo-Européias como 
o Indo-Iranian, o Hellenic, o Celtic, o Talic, o Balto-Slavic e o Alemão.
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O esquema apresentado foi elaborado pelo professor de língua inglesa Jack 
Lynch. Ele conta que, de modo pensado, deixou inúmeras línguas de fora do 
esquema, além de omitir todas as famílias da Anatólia, da Albâniae da Tochar, 
bem como as fases históricas de algumas línguas, como sueco antigo, sueco 
médio, sueco moderno; Sânscrito Védico e Índico Médio. Sua intenção foi a de 
simplifi car o máximo possível a origem da língua inglesa. E como nesse es-
quema há as principais ramifi cações da língua indo-europeia, reproduzimos 
a ramifi cação da língua latina, indicada com a seta em vermelho.
Muito embora o império romano tenha desaparecido como regime, sucum-
bindo aos domínios de outros povos, toda sua organização política e admi-
nistrativa foi tida como um legado de um ideal de universalidade, tanto que 
houve a vontade de restaurar o império de algum modo. A própria igreja ca-
tólica concentra, em sua organização, detalhes das divisões administrativas 
romanas.
Ao longo de toda a Idade Média, o acervo linguístico deixou os povos roma-
nos ou bárbaros impressionados. Ilari (2008) ressalta que, mesmo após a sua 
derrocada, a civilização romana continuou a ser vista, ao longo dos séculos, 
como exemplo de ordem universal, passível de imitações e restaurações. O 
cristianismo, por exemplo, acabou herdando esse ideal de universalidade e a 
igreja aproveitou, em grande parte, as divisões administrativas do Império. Os 
próprios estados bárbaros se autodenominaram romanos e nasceram com o 
propósito de restaurar o Império.
Autores como Dante e Maquiavel também estavam inseridos nesse contexto 
e restaurar o Império tornou-se o propósito dos pensadores da época, para 
que o mundo reencontrasse uma ordem política estável. Ainda, pelo fato de 
o Império estar vivo como um ideal de ordem política na Idade Média, as suas 
unidades linguística e cultural também permaneceram.
Com a fi nalidade de denominá-las, empregou-se o termo Romania, que deri-
va de romanus, termo ao qual recorreram os povos latinizados para se distin-
guirem da cultura dos bárbaros. Nesse contexto histórico, a partir de romanus, 
formou-se o advérbio romanice, que signifi ca “a maneira romana”; “segundo 
o costume romano”. Outra expressão que podemos citar aqui é romanice lo-
qui, que se estabeleceu para indicar as falas vulgares de origem latina como 
oposição à barbarice loqui, que indicava as línguas não românicas dos bárba-
ros. Também vale citar a expressão latine loqui, que era aplicada ao latim da 
escola. Assim, destacamos que o advérbio romanice deu origem ao substan-
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tivo romance que, originalmente, aplicava-se a qualquer composição escrita 
em uma das línguas vulgares. Atualmente, o termo “România” designa a área 
ocupada por línguas latinas.
Coutinho (1976), por sua vez, também aponta algumas infl uências confl itantes 
sofridas pelo latim após a Península começar a ser invadida por outros povos:
No século V, os bárbaros invadiram a Península Ibérica:
vândalos, suevos e visigodos, cada um com seu dialeto próprio. Os 
visigodos, porém, erigiram o mais forte e duradouro reino bárbaro 
e admitiram a civilização romana. Era o começo da perda da 
superioridade do latim. 
Os árabes surgiram no solo peninsular no século VIII e mui-
tos hispano-godos:: 
foram seduzidos pela civilização árabe, adotando seus costumes e 
língua. Pelo fato de a civilização árabe ser superior à da Península, o 
árabe tornou-se a língua ofi cial, enquanto o povo subjugado continuou 
a falar o latim vulgar modifi cado, o romance.
Durante a dominação muçulmana: 
os cristãos organizaram as cruzadas a fi m de libertarem o território 
peninsular e, para incentivá-los, os papas agraciaram os combatentes 
com indulgências. Com a efi ciência das cruzadas, os reinos de Leão, 
Castela e Aragão foram constituídos. Além disso, D. Afonso VI, rei de 
Leão e Castela, concedeu a fi lha D. Tareja em casamento a D. Henrique, 
em reconhecimento aos serviços, além de lhe outorgar o Condado 
Portucalense. Com o nascimento de D. Afonso Henriques, fi lho do 
casal, ocorre a primeira nacionalidade portucalense.
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2.5 ROMÂNIAS OCIDENTAL E ORIENTAL: ORIGEM 
DAS LÍNGUAS ROMÂNICAS
Por romance pode se conceber, assim, uma língua europeia decorrente dos 
inúmeros dialetos do latim vulgar. Como se alterava muito, em virtude da vas-
tidão geográfi ca que alcançava, a denominação romance foi mais apropriada; 
por outro lado, não indica nenhuma das línguas românicas hoje conhecidas.
Alguns estudiosos dedicaram-se a pesquisar a separação das regiões dialetais 
defi nidas já ao fi nal do período que compreendeu o romance, uma divisão 
que compreendia os dialetos italianos e romenos: a România Ocidental e a 
România Oriental.
Dentre eles, podemos destacar Robert Anderson Hall Jr., Frederick B. Agard, 
Walther von Wartburg e Theodoro Henrique Maurer Jr., linguistas romanistas 
de renome na história do romance (ILARI, 2018). Cada um deles utilizou um 
tipo de metodologia, porém, suas pesquisas apresentaram as mesmas con-
fi rmações, a de que havia uma divisão entre o Oriente (Romênia e parte da 
Itália) e o Ocidente (norte da Itália, Récia, Gália e Ibéria).
Os linguistas constataram, também, que foi no Ocidente que ocorreu a va-
riação linguística dialetal na Gália (região composta atualmente pela França, 
parte da Bélgica e Alemanha, e da Itália) e na Itália, com os dialetos galo-itáli-
cos, por exemplo, e na Ibéria, com o catalão e os dialetos moçárabes.
Veja as principais diferenças linguísticas entre as duas Românias, segundo 
Castilho (2017).
România Oriental: 
é subdividida em Daco-România (de que derivou o Romeno), Ítalo- 
România (de que derivou o Italiano) e Reto-România (de que derivou 
o Rético). As línguas da România Oriental se caracterizam por: 1) 
manterem a vogal postônica, como em Latim Vulgar tegula > Italiano 
tegola, “telha”, em Português; 2) manterem as consoantes surdas 
intervocálicas, como em Latim focu >Italiano fuocu, em Português 
“fogo”; 3) assimilarem o grupo consonantal octo > otto; 4) terem o 
Nominativo como caso único, donde fazem o plural em – e para as 
palavras femininas, e em – i para as palavras masculinas: Italiano sorella 
– sorelle “irmã – irmãs”, bambino – bambini “menino – meninos”.
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România Ocidental: 
é subdividida em Galo-România (de que derivaram o Francês, 
o Catalão e o Provençal) e Ibero-România (de que derivaram o 
Castelhano, o Português e o Galego). As línguas da România Ocidental 
se caracterizam por: 1) perderem a postônica, como em Latim tegula 
> tegla > Português “telha”; 2) sonorizarem as consoantes surdas 
intervocálicas, como em “fogo”; 3) semivocalizarem a primeira 
consoante do grupo ct, como em “oito”; 4) terem o Acusativo como 
caso único, donde fazem o plural em –s, independentemente do 
gênero: Francês les hommes [lezom], em que não se pronuncia o –s do 
substantivo, Espanhol los hombres, Português os homens.
Essas são apenas algumas das inúmeras características apontadas pelos lin-
guistas e que dão conta da diferença de pronúncia entre as duas Românias, 
que deram origem ao português e ao italiano, por exemplo. Aliás, é possível 
notar que, comparando-se essas duas línguas, a formação do plural não foi a 
única distinção verifi cada. Vejamos o quadro a seguir.
DIFERENÇAS ENTRE O PORTUGUÊS (ROMÂNIA OCIDENTAL) E O ITALIANO 
(ROMÂNIA ORIENTAL)
LATIM VULGAR PORTUGUÊS ITALIANO
nos, post nós, pois noi, poi
lupu, amatu, amicu lobo, amado, amigo lupo, amato, amico
octo, nocte, factu oito, noite, feito otto, notte, fatto
cera, certu [dito kera, kertu] cera, certo (dito sera, sertu) cera, certo (dito tchera, tcherto)
Fonte: CASTILHO, 2017, 14-15
Das palavras apresentadas no quadro, podemos perceber as diferenças entre 
as três línguas, que se dá tanto na escrita quanto na fala. Contudo, no último 
par, “cera” e “certo”, a distinção ocorrebem mais na fala do que na escrita. 
Apenas a palavra “certo” sofreu alteração escrita. Assim é a língua, mudando, 
alterando-se, reorganizando-se conforme a necessidade de seus usuários.
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 FIGURA 4 – PRINCIPAIS VARIEDADES DE LATIM ESCRITO E FALADO E SUAS RELAÇÕES 
COM AS LÍNGUAS ROMÂNICAS
Fonte: ILARI, 2018, p. 69.
#PraCegoVer
Imagem mostra um esquema com linhas pontilhadas ligadas entre si. Nele há a indicação 
do latim arcaico e suas variantes, o latim culto, subdividido em escrito e falado, e o popular, 
que deu origem ao proto-romance e este, às línguas românicas.
Esse esquema preparado por Ilari (2018) mostra como o latim arcaico, que era 
somente falado dos séculos VI a.C. a III a.C., sofreu algumas ramifi cações até 
chegar às línguas românicas do século VIII a XV d.C.
2.6 AS LÍNGUAS HERDEIRAS DAS LÍNGUAS 
ROMÂNICAS
Para reconhecer quais são as línguas herdeiras das línguas românicas, é pre-
ciso compreender o que se considera como a língua desde aqueles tempos. 
Aliás, costuma-se dar cognomes às línguas, como língua materna, língua na-
tiva e língua nacional.
O termo língua nacional é usado por Ilari (2018, p. 219), que a defi ne como 
“um idioma que responde a todas as necessidades de uma sociedade. Essas 
necessidades variam conforme a época, alterando-se fortemente os pesos re-
lativos do discurso técnico, estético, religioso, legal etc.”.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
Para ampliar seus conhecimentos sobre 
língua nacional, indicamos a subseção 
“Língua nacional e literatura”, do capítu-
lo sobre a Constituição das Línguas na-
cionais, da obra de Ilari (2018).
A família das línguas nacionais românicas é composta pelo português, ita-
liano, espanhol, francês, catalão e romeno, que tiveram origem em dialetos 
regionais, transformando-se em línguas nacionais de acordo com situações 
específi cas de cada região. Da Ibéria veio o português, o castelhano e o cata-
lão; da Gália, o francês, o provençal, o italiano e o romeno.
As línguas ibéricas são herança da Reconquista, um movimento militar e re-
ligioso que envolveu a luta para recuperar os territórios que os muçulmanos 
haviam perdido para os cristãos.
O português constituiu-se como língua nacional com a formação do Condado 
Portucalense, independente no ano de 1143. A literatura galego-portuguesa 
era representada pela poesia lírica, que teve seu auge no século XIII. Ao mes-
mo tempo, essa língua seria estabelecida como padrão para os documentos 
ofi ciais do reino.
Já o castelhano foi desenvolvido no sul da Ibéria, sendo falado em quase toda 
a região que compreendia a Espanha no século XII. Com a união de Isabel de 
Castela e Fernando de Aragão, um só reino se constituiu, fazendo com que o 
castelhano avançasse e invadisse os espaços dialetais do aragonês e do ca-
talão. Atualmente, o catalão é considerado uma língua nacional, ao lado do 
castelhano.
Sobre as línguas da Gália, ao fi nal da Idade Média o provençal já era tido como 
língua nacional, mas deu lugar ao francês, com o passar do tempo. O francês, 
língua nacional da França, da Bélgica e da Suíça, originou-se do francês de-
nominado literário. Dos textos originais em francês do século XIII, podemos 
perceber uma evolução no que compete à fala, sobretudo, se comparado ao 
latim vulgar, alcançando a morfologia e a sintaxe de modo rigorosamente 
sistematizado (ILARI, 2018).
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Já o italiano originou-se do fl orentino entre os séculos XIII e XIV. Dante Alighie-
ri é considerado o pai do italiano, pois escreveu sua obra em fl orentino e não 
em latim, isso já no século XIV.
Por fi m, o romeno somente iria se tornar língua nacional no século XVII, perí-
odo em que a Bíblia teria sido fi nalmente traduzida.
Sobre as difi culdades de estabelecer o romeno como língua nacional, Ilari 
(2018, p. 228) afi rma que
Junto com a consciência de que o romeno era uma língua latina — uma 
verdade mais difícil de reconhecer enquanto prevaleceu o uso do alfabeto 
cirílico — os escritores romenos tomaram consciência de que sua língua 
não havia usufruído da infl uência do latim literário, que nas outras línguas 
românicas foi bastante enriquecedora em todas as áreas de sua estrutura e 
particularmente no léxico.
Atualmente, o romeno é falado na República Romena, sendo que há, na Re-
pública Socialista da Moldávia, uma ramifi cação do romeno.
 CONCLUSÃO
Nesta unidade você viu como o latim vulgar originou as línguas indo-euro-
peias, além de sua oposição em relação ao latim clássico, dos literatos e da 
escrita. Esse fato pode ser observado em registros escrito históricos que apon-
tavam o latim vulgar como uma língua errada, que não devia ser pronunciada 
nem escrita.
Da dialetação do latim vulgar, várias outras línguas surgiram, de acordo com 
a história de expansão e decadência do Império Romano, pois foi com as con-
quistas territoriais desse império que as línguas românicas foram se estabe-
lecendo.
A România Ocidental e a România Oriental deram origem a duas línguas ro-
mânicas que carregavam seus nomes, sendo que destas temos, hoje, as her-
deiras dessas línguas.
Essa é uma parte da história das línguas que você deverá conhecer para auxi-
liar na compreensão da evolução linguística, sobretudo do português, nossa 
língua nacional.
UNIDADE 3
> Compreender 
o começo da 
constituição da 
língua portuguesa.
> Identifi car as 
fases do português 
moderno até os dias 
atuais.
OBJETIVO 
Ao fi nal desta 
unidade, 
esperamos que 
possa:
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
3 COMO SE CONSTITUIU A LÍNGUA 
PORTUGUESA
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Estudar a constituição da língua portuguesa é, antes de tudo, fazer uma via-
gem no tempo. Se traçássemos uma linha, ela começaria no século XI, com 
a formação do galego-português, entre os anos de 1100 e 1350, a partir da in-
fl uência que o latim sofreu dos vários dialetos falados pelos povos que foram 
habitando a Península Ibéria retomada. Depois disso, o português europeu 
se constitui como língua e, até o ano de 1540, domina todo o território luso, 
ganhando novas terras com as explorações marítimas de Portugal, chegando 
ao Brasil e outras nações.
Seguindo o estudo da língua portuguesa, é importante compreender que, 
historicamente, ela ainda é dividida em dois tipos distintos: português mo-
derno, que compreende duas fases - a primeira, considerada pelos linguistas 
de 1540 a 1750, e a segunda fase, até o fi nal do século XIX; e o português con-
temporâneo, constituído do século XX até nossos dias.
Pensando que a língua está em constante mutação e que o português é a 
língua ofi cial de Portugal, do Brasil, de Angola, de Cabo Verde, do Timor-Leste, 
da Guiné-Bissau, da Guiné Equatorial, de Moçambique e de São Tomé e Prín-
cipe, signifi cando um total de, aproximadamente, 300 milhões de pessoas, 
acreditamos que essa história ainda tem muitos aspectos a serem revelados.
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LÍNGUA PORTUGUESA VII
MULTIVIX EAD
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
O COMEÇO DA HISTÓRIA DA LÍNGUA 
PORTUGUESA
3.1 PORTUGUÊS ARCAICO: O GALEGO-
PORTUGUÊS
A língua portuguesa não se constituiu de um momento para o outro. Ela tem 
raízes, ou seja, uma língua da qual originou: o latim. Porém, o próprio latim 
foi infl uenciado por outras línguas de povos que com ele tiveram contato. Até 
chegar ao português que usamos hoje, a língua portuguesa passou por inú-
meras mudanças, pois sua história atravessa e chega a se confundir com a 
própria

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