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Bioquímica aplicada: Sangue e equilíbrio hidroeletrolítico Bioquímica aplicada: processo de hematopoiese, equilíbrio hidroeletrolítico e equilíbrio acidobásico. Profa. Ursula Raquel do Carmo Fonseca da Silva 1. Itens iniciais Propósito Compreender os processos bioquímicos que envolvem o sangue, a água corpórea, os eletrólitos e os sistemas tamponantes do organismo é fundamental para correlacionar o padrão de normalidade aos quadros clínicos dos animais em estados patológicos, o que é imprescindível durante a rotina do profissional clínico médico- veterinário. Objetivos Descrever o processo de hematopoiese, de síntese e degradação da hemoglobina, e de hemostasia. Reconhecer a importância do equilíbrio hidroeletrolítico e dos sistemas tamponantes do organismo animal. Introdução A bioquímica aplicada apresentará a você uma conexão entre a teoria e a sua aplicação prática envolvendo temas de grande interesse na Medicina Veterinária, como a hematologia, os equilíbrios hidroeletrolíticos e acidobásico. Ao longo deste conteúdo, você entenderá o motivo pelo qual, na maioria das vezes, associamos os quadros de anemia à carência de ferro. Não é à toa que os animais aceleram a frequência respiratória diante de alguns estados patológicos, assim como precisam ingerir água, mesmo sem a ativação do centro da sede. Esses questionamentos e muitos outros serão abordados de forma clara e objetiva neste material que foi desenvolvido para que você domine essas informações e faça a diferença em sua atuação profissional. • • Hemácias, leucócitos e plaquetas na circulação sanguínea. 1. Sangue Tecido sanguíneo Aspectos gerais O sangue é um tecido conjuntivo especializado que apresenta uma matriz extracelular fluida e é composto por uma fração celular representada pelos elementos figurados (hemácias ou eritrócitos, leucócitos e plaquetas ou trombócitos) e por uma fração líquida (plasma sanguíneo). Composição do sangue. Dentre as funções do sangue estão o transporte de nutrientes, o transporte de gases (principalmente O2 e CO2), o transporte de hormônios, produtos metabólicos e de excreção das células para os órgãos excretores – como o rim, por exemplo, e o controle da temperatura corporal e a defesa orgânica contra agentes patogênicos. As hemácias apresentam como função a realização do transporte de uma proteína denominada hemoglobina, a qual transporta o oxigênio e gás carbônico. Os leucócitos (neutrófilos, basófilos, eosinófilos, monócitos e linfócitos) estão envolvidos na defesa do organismo e as plaquetas estão relacionadas à hemostasia primária. Já o plasma é composto por água (91%), proteínas (8%) e outras moléculas (1%). Dentre as proteínas presentes no plasma estão a albumina (auxilia na pressão coloidosmótica e transporte de moléculas), as globulinas (realizam transporte de moléculas e participam da defesa contra agentes patogênicos – imunoglobulinas), o fibrinogênio e a protrombina (auxiliam na hemostasia) e o sistema complemento (participa das defesas inatas e adquiridas). Pressão coloidosmótica Pressão que ajuda a manter o sangue no interior dos vasos sanguíneos. As outras moléculas presentes no plasma incluem os eletrólitos (Na+, K+, Ca2+, Mg2+, Cl-, HCO3 -, SO4 2- e PO4 3-), as substâncias nitrogenadas não proteicas (ureia, ácido úrico e creatinina), os nutrientes (glicose, colesterol, triglicerídeos, aminoácidos), as vitaminas (hidrossolúveis e lipossolúveis), os gases sanguíneos (O2, CO2 e N2) e as substâncias reguladoras (enzimas e hormônios). Curiosidade A cor do plasma sanguíneo é diferente entre as espécies animais, sendo límpido e incolor em caninos e felinos, e ligeiramente amarelado em equinos e bovinos. A coloração amarelada do plasma dos herbívoros se deve aos pigmentos caroteno e xantofila presentes nas plantas que compõem sua alimentação. O volume de sangue corpóreo (volemia) corresponde à cerca de 7,5% do peso corporal do animal, e varia entre as espécies, variando também em função da idade e das condições de saúde do indivíduo. O tempo de vida das células sanguíneas também varia entre as espécies, além de variar de acordo com o tipo celular e, em geral, é um período curto. Dessa forma, o sistema hematopoiético-lítico atua para manter a quantidade de células sanguíneas estáveis. Esse sistema é composto por: Medula óssea: responsável pela hematopoiese e o estoque de ferro (hemossiderina e ferritina). Timo: diferenciação de linfócitos T. Baço: produção de linfócitos B, reserva de hemácias, plaquetas e ferro, e destruição de hemácias velhas. Sistema monocítico-fagocitário: hemocatarese (destruição de células sanguíneas malformadas), reserva de ferro e degradação de hemoglobina. Fígado: produção de proteínas e fatores coagulantes, conversão de bilirrubina e reserva de vitamina B12 e de ferro. Rins: síntese de eritropoetina e de trombopoetina, excreção de bilirrubina e degradação de hemoglobina excretada. Estômago e intestinos: auxílio na absorção de ferro e de vitamina B12. Hemácias e hemoglobina As hemácias são os glóbulos vermelhos do sangue, sendo produzidas na medula óssea a partir da célula-tronco pluripotente (célula capaz de se diferenciar em quase todos os tecidos humanos), de origem mesodérmica. Apresentam como principal função a produção de hemoglobina, que é a proteína responsável pelo carreamento de oxigênio para todo o organismo. As hemácias nos mamíferos são bicôncavas, anucleadas e desprovidas de mitocôndrias, e consequentemente, são incapazes de realizar o ciclo de Krebs e a cadeia respiratória mitocondrial para a produção de ATP em níveis adequados. Dessa forma, a produção energética desses glóbulos ocorre única e exclusivamente a partir da glicólise de forma anaeróbica, levando à produção de lactato. O lactato, por sua vez, é utilizado na gliconeogênese hepática, sendo responsável pela produção contínua de glicose a partir desta via do metabolismo dos carboidratos. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Curiosidade Em peixes, anfíbios, répteis e aves as hemácias são ovais ou elípticas e nucleadas. Entretanto, nos mamíferos, as hemácias são arredondadas, bicôncavas, anucleadas com o tamanho variando em relação à espécie. Os cães apresentam a morfologia muito semelhante aos humanos, e os caprinos a mais diferente. As hemácias precisam manter uma produção energética não só para a produção de ATP necessário para manter a integridade estrutural e funcional deste glóbulo, mas também, com base em um desvio que ocorre na glicólise, há a produção de um composto denominado 2,3-difosfoglicerato, necessário para o perfeito funcionamento das milhares de moléculas de hemoglobina que são carreadas pelas hemácias e responsáveis pelo transporte dos gases sanguíneos. Na imagem a seguir, podemos ver a composição do sangue com a proporção de cada elemento nos animais vertebrados. Elementos constituintes do sangue em animais vertebrados. Você sabia que o tempo de vida das hemácias também é diferente entre as espécies animais? Vamos ver estas diferenças: Caninos: 120 dias. Felinos: 70 dias. Equinos: 150 dias. Bovinos: 160 dias. Caprinos: 125 dias. Aves: 30 dias. Répteis: 3 anos. No interior das hemácias, está presente a hemoglobina, que é composta por quatro estruturas proteicas (globinas contendo duas cadeias alfa e duas beta) ligadas a quatro estruturas não proteicas associadas ao ferro (grupos heme), como na imagem a seguir. • • • • • • • Estrutura da hemoglobina. Isso é importante porque o ferro é o responsável por transportar o gás oxigênio, pois esse íon se liga ao O2 com facilidade. A ligação e a liberação do gás oxigênio do ferro são reguladas por mudanças na estrutura da hemoglobina provocadas pela própria ligação desse gás ao grupo heme. Variações na cadeia polipeptídica promovem a existência de três tipos de hemoglobinas: A HbA1, HbA2 e HBF. Se a hemoglobina é o composto responsável por carrear o gás oxigênio, por que ela não se encontra livre no sangue em vez de no interior das hemácias?Isso ocorre porque a hemoglobina apresenta uma meia vida de apenas algumas horas quando está livre no plasma sanguíneo, o que é comum em grupos animais de morfologia mais simples. Outro fator importante é que as hemácias têm a capacidade metabólica de manter o ferro ligado à hemoglobina em seu estado funcional, além de controlar a afinidade do gás oxigênio por ela, alterando as concentrações de fosfatos orgânicos (especialmente o 2,3-difosfoglicerato, o DPG). Podemos perceber então que não há vida sem hemoglobina, já que o metabolismo celular para a produção de energia está intimamente ligado à disponibilidade de O2 para a respiração celular. A ligação da hemoglobina com o O2 forma o complexo oxihemoglobina (HbO2), que, quando alcança as células por meio da vascularização sanguínea, libera o gás oxigênio, tornando o sangue rico em oxigênio (vermelho) em pobre em oxigênio (vermelho arroxeado). Você sabe qual é a relação entre a eritrocitose fisiológica e a alta performance de animais atletas? O aumento fisiológico da quantidade de hemácias no sangue (eritrocitose) geralmente se dá por uma adaptação do organismo em locais de altitude elevada, nos quais a concentração de gás oxigênio no ar é menor. A eritrocitose fisiológica, portanto, favorece o transporte de O2 para as células, melhorando a performance de animais atletas, principalmente em esportes que necessitam de muita resistência. Por isso, é importante que o animal permaneça por um tempo antes da prova nesse ambiente, para que a eritrocitose possa ser estimulada e uma melhor performance possa ser alcançada. Além disso, ao retornar às baixas altitudes, o animal terá resistência física maior. Esse fato explica a localização de muitos haras em regiões de elevadas altitudes. Assim como a eritrocitose fisiológica melhora o desempenho físico do animal, a diminuição da quantidade de hemácias (eritropenia) provoca diminuição de hemoglobina, levando a uma hipóxia tecidual, que gera cansaço exagerado seguido de apatia e aumento da frequência respiratória, para tentar melhorar a oferta de oxigênio aos tecidos. Essa é uma condição patológica muito comum na clínica médico-veterinária, sendo conhecida como anemia, que provoca também palidez das mucosas. Essa condição pode ser notada na imagem a seguir: Paciente canino exibindo palidez de pele e mucosas em função de severa anemia. A anemia pode ser provocada por alguns fatores, tais como: perda excessiva de sangue pelo animal como em uma hemorragia; excesso de destruição de hemácias (hemólise), pela ação de hemoparasitos ou por falta de ferro para produção de hemoglobina, por exemplo; diminuição da produção de hemácias, por patologias na medula óssea ou nos rins, já que eles são responsáveis por produzir eritropoetina, hormônio que participa da hematopoiese. Hematopoiese Neste vídeo, a especialista Ursula Raquel Fonseca, responde às cinco perguntas mais procuradas na internet sobre a hematopoiese. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Síntese e degradação de hemoglobina Síntese de hemoglobina Para que ocorra a produção de hemoglobina pelas hemácias, há necessidade de compostos denominados de porfirinas, que atuam como intermediários na biossíntese do grupamento heme, que é formado pelo encontro de uma molécula de succinil-CoA com uma molécula de glicina pela entrada de um átomo de ferro no interior da porfirina. Por esse motivo, muitos leigos sempre associam os quadros de anemia, ou seja, uma menor quantidade de hemoglobina, à falta de ferro, já que esse mineral faz parte da composição da molécula de hemoglobina. Outro ponto que merece destaque ao se pensar em ferro é que, na diminuição dos níveis sanguíneos de hemoglobina, é comum a ocorrência de palidez das mucosas e da pele. As porfirinas mais importantes para a formação do grupo heme são uroporfirina, coproporfirina e protoporfirina. Saiba mais As porfirinas formam compostos metabólicos importantes para o organismo, estando a maioria delas associadas a íons metálicos, sendo chamadas de metaloporfirinas. Esses compostos possuem quatro anéis heterocíclicos (I, II, III, IV), que estão ligados entre si por grupos meteno (-CH=). Veja, a seguir, um esquema relacionado às etapas de formação do grupo heme, que representa o grupo prostético da molécula de hemoglobina. Etapas da biossíntese do grupo heme. Caso aconteçam alterações genéticas na biossíntese do grupo heme, pode ocorrer acúmulo de compostos envolvidos na sua produção, principalmente na medula óssea e no fígado. De maneira geral, esses acúmulos são denominados de porfirias, que podem levar à fotossensibilidade ou à ocorrência de lesões nervosas. Degradação de hemoglobina Como vimos, a hemácia tem tempo de vida variado de acordo com a espécie animal. Quando ela envelhece, passa pelo processo de hemocaterese, que inclui a degradação da hemoglobina. Essa degradação é responsável pela produção de um pigmento denominado urobilinogênio, cuja maior parte deve ser excretada pelas fezes. Quando as hemácias são jovens, sua membrana celular é flexível, o que permite sua passagem pelos vasos sanguíneos sinuosos do baço. Porém, à medida que as hemácias completam seu tempo de vida útil, algumas moléculas de superfície começam a ser expostas, o que diminui a flexibilidade da sua membrana. Os macrófagos presentes no baço não as reconhecem mais e iniciam a hemocaterese com a fagocitose dessas células Vamos conhecer esse processo agora! Estágio 1 Após a fagocitose por macrófagos especializados, as hemácias são rompidas, liberando hemoglobina intracelular. Em seguida, essa hemoglobina é clivada em duas frações: a heme, composta pelo ferro e pela protoporfirina IX, e a globina, composta pelas quatro cadeias polipeptídicas. Estágio 2 Os aminoácidos das cadeias polipeptídicas e o ferro são reaproveitados, sendo o ferro estocado no interior dos macrófagos na forma de ferritina. Já a protoporfirina IX sofre uma série de transformações catalisadas por ações enzimáticas a fim de se tornar um composto solúvel para que possa ser excretado. Estágio 3 A protoporfirina IX, por ação da enzima heme oxigenase, dá origem a um pigmento verde chamado biliverdina, que, por ação da enzima biliverdina redutase, é transformada em bilirrubina indireta ou não conjugada. A bilirrubina indireta é lipossolúvel e apolar, sendo carreada no plasma sanguíneo por meio de proteínas transportadoras plasmáticas, predominantemente a albumina. Estágio 4 A bilirrubina indireta presente no plasma sanguíneo é encaminhada ao fígado para sofrer ação da enzima UDP-glicuroniltransferase, responsável por adicionar o ácido glicurônico à molécula da bilirrubina, convertendo-a em bilirrubina direta ou conjugada, que é hidrossolúvel e polar. Essa fração de bilirrubina é lançada juntamente com a bile ao intestino, no qual, por ação de enzimas bacterianas, é convertida em urobilinogênio, que, em sua maioria, é excretado diretamente nas fezes na forma de estercobilinogênio. Uma pequena fração retorna ao fígado, por meio da circulação entero-hepática, para novamente ser excretado pela bile. Vale destacar que, dessa pequena fração que retorna ao fígado, há passagem pela circulação sistêmica de cerca de 1 a 3% de urobilinogênio aos rins, determinando o aparecimento de pequena quantidade deste pigmento na urina. O esquema a seguir mostra a degradação da protoporfirina IX. Degradação da hemoglobina. O acúmulo da fração direta, da fração indireta ou de ambas as frações de bilirrubina no sangue leva a uma condição patológica definida como icterícia, que é clinicamente detectada pela coloração amarelada na pele e mucosas, visualizada na imagem a seguir. Gato apresentando icterícia por lipidose hepática. O plasma sanguíneo apresenta coloração bastante amarelada. Cristais de bilirrubina podem ser eliminados na urina, como observados a seguir. Cristais de bilirrubina em amostra urinária de cão. Aumento: 40x. Como a transformação da bilirrubina inclui sua passagem pelo fígado, o acúmulo debilirrubina no sangue dos animais pode acontecer de três diferentes maneiras: pré-hepática, hepática ou pós-hepática. Icterícia pré-hepática (ou hemolítica) Ocorre quando há destruição acentuada de hemácias, normalmente levando ao acúmulo de bilirrubina indireta no sangue. Algumas hemoparasitoses, como a babesiose e a anaplasmose, provocam esse tipo de icterícia. Icterícia hepática (ou hepatocelular) Ocorre quando há prejuízo no funcionamento hepático, normalmente ligado à falha na excreção da bilirrubina direta ou conjugada para o intestino. Esse tipo de icterícia é encontrado em quadros de hepatites, por exemplo. Icterícia pós-hepática (ou obstrutiva) Ocorre quando há quadros de obstruções do fluxo biliar, determinando também o acúmulo de bilirrubina direta ou conjugada no sangue. Isso acontece em casos de litíases (cálculos) biliares e de lipidose (principalmente, em gatos), por exemplo. Vale destacar que os equinos podem apresentar “icterícia fisiológica”, comum nessas espécies, a qual é induzida por privação alimentar por intervalos relativamente curtos, devido a uma menor captação de bilirrubina pelos hepatócitos. Hemostasia Definição O processo de hemostasia corresponde ao conjunto de mecanismos bioquímicos e funcionais responsáveis por manter o sangue fluido e no interior dos vasos. Assim, podemos concluir que existe um controle muito preciso do organismo entre perder sangue (hemorragia) e coagular sangue (hemostasia). Esse controle ocorre pelo processo de hemostasia, que é dividido em três tipos: hemostasia primária, secundária e terciária. Esquema dos processos envolvidos na hemostasia. Hemostasia primária A hemostasia primária engloba a interação entre os vasos sanguíneos e as plaquetas. Havendo uma lesão endotelial, fenômenos relacionados à chamada tromborresistência são quebrados. Assim, haverá, inicialmente, uma vasoconstricção da musculatura lisa da parede do endotélio. Em função da exposição de estruturas subendoteliais, as plaquetas são rapidamente atraídas para o local da lesão, ocorrendo a chamada adesão plaquetária. Para que ocorra uma adesão consistente, há necessidade da participação do Fator de von Willebrand, que funciona como uma espécie de “cimento”, permitindo a ligação entre as plaquetas e as estruturas subendoteliais. As plaquetas são, então, ativadas, liberando uma série de substâncias no meio, as quais atraem mais plaquetas para a área da lesão, ocorrendo a agregação plaquetária. Esquema da adesão plaquetária. Após a adesão e a agregação plaquetárias, há uma parada no tempo de sangramento, uma vez que se forma o tampão plaquetário primário. Contudo, muitas vezes, quando a lesão é muito extensa, o próprio fluxo sanguíneo consegue deslocar esse tampão do lugar e o sangramento reinicia. Nesses casos, a hemorragia só é contida com a hemostasia secundária, ou seja, há necessidade da atuação dos fatores de coagulação. Hemostasia secundária A hemostasia secundária é representada pela atividade dos fatores de coagulação. A maior parte desses fatores é de proteínas pró-coagulantes presentes no plasma sanguíneo e produzidas pelo fígado (exceção dos fatores III e IV), sendo lançadas na corrente sanguínea em forma de zimogênios (forma inativa). Desse modo, os fatores e a coagulação são classificados como enzimas, fatores (XII, XI, X, IX, VII, II e XIII) ou como cofatores (V, VIII e cininogênio de alto peso molecular - HMWK). A hemostasia secundária tem início a partir de duas vias da coagulação: via intrínseca e via extrínseca. Ambas convergem para a via comum. Via intrínseca Envolve elementos do sangue e aqueles que não costumam estar presentes no espaço intravascular. Via extrínseca Envolve a liberação do fator tecidual pelo tecido vascular. Via comum Envolve a ativação do fator X. Atualmente, existem dois modelos propostos para o sistema de coagulação: o modelo clássico da coagulação e o modelo baseado em evidências. Vamos conhecê-los melhor a seguir. Modelo clássico Fazem parte do modelo clássico as vias intrínseca, extrínseca e comum. As vias intrínseca e extrínseca convergem para a ativação de protrombina em trombina – via comum. Todo esse processo acontece de maneira muito rápida e simultânea. Podemos dizer que a geração de trombina, proveniente de lesão tecidual, ocorre em duas “ondas”: Agora, é muito importante que você acompanhe a explicação prestando atenção na imagem que acompanha, para compreender o modelo clássico da cascata de coagulação. 1ª onda Para a iniciação da coagulação, na qual concentrações bem baixas de trombina são formadas – via extrínseca. 2ª onda Para amplificação da cascata e formação de concentrações maiores de trombina – via intrínseca. Via extrínseca Tem início a partir de uma sinalização que não se encontra normalmente disponível na luz do vaso, que é o fator tecidual (FT - tromboplastina tecidual – fator III). Esse fator tecidual é liberado quando o tecido é lesionado, formando um complexo com o fator VII, mediado por íons cálcio. O complexo VIIa + FT irá agir sobre o fator X estimulando sua ativação (fator Xa), que, por sua vez, ao ligar-se ao cofator Va, age na conversão da protrombina em trombina (II – IIa). Via intrínseca Tem início com a ativação do fator XII, também chamado de fator de contato, que se ativa a partir da exposição ao ambiente gerado pela hemostasia primária (liberação de vários compostos pelas próprias plaquetas ativadas) e pelo contato do fator XII (FXII) e do fator XI (FXI) com cargas elétricas negativas, como as do colágeno liberado pelo subendotélio ou as de endotoxinas produzidas por microrganismos. Uma vez o fator XII tornando-se ativo, inicia um efeito em cascata, ativando o fator XI, que ativa o IX que, juntamente com o VIII, o cálcio e o fator plaquetário 3 (FP3), ativa o fator X (já pertencente à chamada via comum da cascata de coagulação). A ativação do fator X em Xa representa a via comum do modelo clássico da coagulação. Assim, podemos representar a cascata de coagulação por um “Y”, uma vez que as vias intrínseca e extrínseca estão convergindo para esta via comum, que tem início com o fator X, o qual torna-se ativo e, juntamente com o fator V, o cálcio e o FP3, ativa o fator II, que, em seguida, ativa o fator I. O fator II, quando inativo, é denominado protrombina; quando ativo, se chama trombina. Já o fator I inativo é denominado fibrinogênio, e quando ativo se chama fibrina. Com a ativação do fator I, o fibrinogênio é convertido em fibrina, que tem a capacidade de formar o coágulo sanguíneo. Modelo baseado em evidências Com base no modelo clássico, e com o avanço dos estudos na área, hoje em dia acredita-se que, além dos fatores de coagulação e das plaquetas, a coagulação seja um processo mais amplo e diversificado, que inclui componentes celulares e moleculares. Além disso, tem-se suspeitado cada vez mais que a cascata de coagulação não siga vias tão lineares, e sim vias com comunicações intermediárias. Nesse novo modelo, acredita-se que o complexo VIIa + FT da via extrínseca do modelo clássico também possa atuar na ativação da via intrínseca, e que a trombina pode se comportar como ativadora fisiológica do fator XI. Desse modo, as fases iniciais induzidas pelo contato não seriam mais tão essenciais. No novo modelo, o maior desencadeador da hemostasia seria o complexo VIIa + FT, que ocorre em três fases concomitantes: iniciação, amplificação e propagação. A seguir vemos uma representação das etapas desse modelo: Modelo de coagulação baseado em superfícies celulares compreendendo as fases de iniciação, amplificação e propagação. Hemostasia terciária e distúrbios da coagulação Fibrinólise Após a formação do coágulo de fibrina e a recuperação vascular, é de grande importância que esse coágulo seja desfeito e que a circulação local seja restabelecida por completo. Durante a formação do coágulo, grande quantidade de plasminogênio fica retida nele, junto com outras proteínas do plasma. Desse modo, o tecido lesionado libera inibidores da fibrinólise, comoo inibidor da fibrinólise ativável pela trombina (TAFI) e o inibidor do ativador do plasminogênio (PAI-1), o que impede que o plasminogênio retido no coágulo seja ativado. Quando o sangramento é interrompido e o tecido se recupera da lesão, o endotélio vascular libera o ativador do plasminogênio tecidual (AP-t), que converte o plasminogênio em plasmina. A plasmina, por sua vez, digere a fibrina e o fibrinogênio, gerando os produtos de degradação de fibrina/fibrinogênio (PDF), removendo o coágulo sanguíneo e restabelecendo o fluxo sanguíneo normal. Observe a seguir um resumo do processo de hemostasia: Estágio 1 Agregação plauquetária. Estágio 2 Formação da tromboplastina. Hematúria. Estágio 3 Tromboplastina ativa a protrombina que é convertida em trombina. Estágio 4 A trombina atua no fibrinogênio, que é convertido à fibrina. Estágio 5 Formação do coágulo. Distúrbios da coagulação Na maioria das vezes, a observação criteriosa do médico-veterinário, analisando a natureza clínica dos distúrbios hemorrágicos, pode auxiliar, de forma muito positiva, na identificação da natureza do problema, ou seja, se a causa da hemorragia é por algo que esteja afetando a hemostasia primária, secundária ou terciária. Os principais sinais clínicos associados a defeitos hemostáticos primários, ou seja, relacionados à hemostasia primária, são o aparecimento de áreas de equimose (grande mancha avermelhada ou arroxeada na pele), petéquias (pequenas manchas ou pontos avermelhados ou arroxeados na pele) ou púrpuras (manchas roxas ou avermelhadas de tamanho médio na pele). Já os principais sinais associados a defeitos hemostáticos secundários (relacionados à hemostasia secundária) são hemartrose (extravasamento de sangue no interior da cápsula articular), hematoma (acúmulo de sangue no espaço intersticial de órgão ou tecido) e hemoptise (tosse com eliminação de sangue). Os sinais relacionados à hemostasia terciária (defeitos hemostáticos terciários) são epistaxe (sangramento nasal), hematêmese (presença de sangue no vômito), hematoquezia (presença de sangue nas fezes), hematúria (presença de sangue na urina), melena (fezes escuras e com odor fétido), hemorragia prolongada ou espontânea. Particularidades da hemostasia O uso de antagonistas da vitamina K (como, por exemplo, warfarin) resulta na falha da hemostasia secundária. Isso ocorre porque não haverá vitamina K suficiente para permitir uma carboxilação final nas moléculas desses fatores. Desse modo, toda a cascata de coagulação fica prejudicada, podendo causar hemorragias de grandes proporções. O cálcio (fator IV) é oferecido com base na dieta e apresenta função de cofator na cascata de coagulação, sendo necessário nas três vias em quantidade muito pequena, logo não é possível haver hemorragia por deficiência desse fator, pois ele exerce outras funções vitais, sendo necessário em quantidade superior àquela na coagulação sanguínea. Hepatopatias graves correspondem à lesão de mais de 70% do fígado e determinam falha na produção dos fatores de coagulação, causando hemorragias de grandes proporções. As hemofilias são raras em Medicina Veterinária, sendo que a hemofilia clássica é a hemofilia A, que compreende a deficiência de FVIII da coagulação sanguínea, sendo uma doença decorrente de alterações nos genes codificantes do FVIII que se localizam no cromossomo X. Existem ainda relatos de hemofilia B, que é a deficiência do fator IX, bem como de hemofilia C, que é a deficiência ou anormalidade do fator XI. Para o estabelecimento do diagnóstico de hemofilias, é de primordial importância, além do histórico detalhado de anamnese, a realização de hemogramas e coagulogramas. O coagulograma é responsável pela caracterização do tempo de coagulação, por meio dos fatores da via extrínseca e comum, bem como da via intrínseca e comum. Curiosidade O primeiro relato de hemofilia em animais ocorreu em 1947, quando um criador de cães notou um sangramento prolongado enquanto cortava as unhas de seu cão. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Tecido sanguíneo Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Hemácias e hemoglobina Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Síntese e degradação de hemoglobina Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Hemostasia Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Vimos que a hemácia tem tempo de vida variado de acordo com a espécie animal e, quando envelhece, passa pelo processo de hemocaterese, que inclui a degradação da hemoglobina. Sobre esse assunto, analise as afirmativas a seguir e assinale a alternativa correta. A Os macrófagos presentes na medula óssea são responsáveis pela fagocitose das hemácias envelhecidas. B Alguns equinos podem apresentar “icterícia fisiológica” induzida por privação alimentar por intervalos relativamente curtos. C A biliverdina é convertida em bilirrubina indireta ou não conjugada, que é hidrossolúvel e polar. D A bilirrubina indireta é transformada no fígado em bilirrubina direta ou conjugada, que é lipossolúvel e apolar. E A bilirrubina direta é excretada do organismo apenas pelas fezes. A alternativa B está correta. Alguns equinos alimentam-se por intervalos curtos e, por isso, captam menos bilirrubina pelos hepatócitos, gerando um quadro comum de icterícia, que é chamada de icterícia fisiológica. Os macrófagos do baço fagocitam as hemácias envelhecidas, a bilirrubina indireta é lipossolúvel, enquanto a direta é hidrossolúvel. A bilirrubina direta, em sua maioria, é excretada nas fezes, mas uma pequena porção pode ser excretada na urina. Questão 2 Vimos que a coagulação pode ser didaticamente dividida em hemostasia primária, secundária e fibrinólise. Sobre a hemostasia secundária, analise as afirmativas a seguir e marque a alternativa correta. I. A hemostasia secundária visa à resolução rápida da injúria vascular. II. A hemostasia secundária consiste na conversão de fibrinogênio em fibrina mediada pela trombina. III. Os fatores de coagulação envolvidos na hemostasia secundária são basicamente produzidos pelas plaquetas. É correto o que se afirma em: A II e III. B I e II. C I. D II. E III. A alternativa D está correta. A alternativa II está correta. A hemostasia pode ser dividida em primária, secundária e fibrinólise. Na hemostasia secundária, participam os fatores de coagulação produzidos pelas plaquetas, tecido conjuntivo local ou pelo fígado. Nessa etapa, a produção de fibrina, a partir da conversão do fibrinogênio, mediada pela trombina, é essencial para consolidar o tampão plaquetário e assim produzir uma resposta mais eficiente e duradoura. 2. Equilíbrio hidroeletrolítico e sistemas tamponantes Introdução ao equilíbrio hidroeletrolítico A importância da água para a célula Os seres vivos, diferentemente da matéria inerte, são constituídos por moléculas complexas que interagem entre si. Desse modo, esses seres podem extrair, transformar e utilizar a energia que encontram no meio ambiente em benefício próprio, seja na forma de nutrientes químicos seja em luz solar, fato não observado nos seres inanimados. A unidade que está nos bastidores de toda a justificativa para essas marcantes diferenças é a célula. As células estão imersas em meios aquosos. São constituídas também, internamente, por grande quantidade de água, tendo-se cuidado no que diz respeito à separação eficaz entre os compartimentos intra e extracelular, já que ambos não são hermeticamente fechados. É de extrema importância manter o equilíbrio dos compartimentos intra e extracelular, tanto em volume quanto em composição bioquímica, o que inclui os eletrólitos, para que os eventos fisiológicos que mantêm a vida sejam garantidos. Os eletrólitos são minerais que apresentam carga elétrica quando dissolvidos em líquidos corporais. Como a água é o principalcomponente dos compartimentos intra e extracelular, sendo considerada um solvente universal, os eletrólitos se encontram dissolvidos nesse líquido. Saiba mais O organismo precisa manter os eletrólitos em equilíbrio, para que, mesmo com grande variação na entrada e saída de água no organismo, as concentrações dos eletrólitos nos compartimentos corporais não sofram grandes variações. Caso haja variações, precisam ser imediatamente corrigidas, em busca do retorno à homeostase. Esse mecanismo se dá por meio das regulações do equilíbrio hidroeletrolítico e acidobásico. Composição dos líquidos intra e extracelular A distribuição de água no organismo é intracelular e extracelular. De maneira geral, a proporção média de água do organismo é de aproximadamente 60 a 70%, sendo composta por cerca de 35% de líquido intracelular e 25% de líquido extracelular. Este, por sua vez, contém 19% de líquido intersticial, 4,5% de água do plasma sanguíneo e 1,5% de água transcelular (líquor, lágrimas e secreção das glândulas intestinais, por exemplo). Compartimentos líquidos do organismo e seu equilíbrio. Curiosidade Animais jovens possuem uma porcentagem de água corpórea maior que a dos adultos. A composição dos compartimentos de água é bastante variada. O plasma sanguíneo é rico em proteínas, e os líquidos intra e extracelular se diferenciam em sua composição iônica. Para uma perfeita compreensão dos eventos fisiológicos necessários à homeostase, é preciso conhecermos como os eletrólitos, que são sais inorgânicos que participam de eventos fisiológicos intra e extracelulares, estão distribuídos entre ambos os compartimentos no organismo. Os eletrólitos são adquiridos a partir da dieta e absorvidos pelo trato digestivo, havendo excreção da concentração em excesso, por: urina, fezes, suor, saliva e bile. Quando absorvidos, sofrem pouco ou nenhum processamento hepático, sendo transferidos aos tecidos periféricos para exercer suas funções fisiológicas. As diferenças na composição entre o líquido intra e o extracelular são mantidas ativamente pela membrana plasmática, que é semipermeável (totalmente permeável à água, que passa de um compartimento a outro via aquaporinas, e seletiva para outras substâncias como os íons). Alterações do volume de água e do teor salino são contrabalanceadas por meio da sede, determinando um aumento ou uma redução de sais e água, assim como poderá ocorrer também a regulação da diurese pelos rins, aumentando ou reduzindo a excreção salina e de água. O sódio, que existe principalmente no compartimento extracelular, determina o volume extracelular. Já no líquido intracelular, há predomínio de potássio. O controle da concentração desses eletrólitos é realizado principalmente pela bomba de sódio-potássio ATPase. Observe, na imagem, que existe maior concentração de sódio no meio extracelular (MEC) e maior concentração de potássio no meio intracelular (MIC), graças à ação da bomba de Na+-K+ ATPase. Transporte ativo de sódio e potássio. Os íons cloreto e bicarbonato, sendo este último o único íon que pode ser tanto formado como excretado com grande rapidez pelo organismo, apresentam as suas concentrações dependentes das concentrações de sódio. Exemplo Se o excesso de sódio for excretado pelos rins, geralmente o cloreto vai acompanhar essa excreção. Como também haverá excreção de cloreto, pode ocorrer uma condição de alcalose (aumento do pH sanguíneo) por acúmulo de bicarbonato, com o propósito de manter a eletroneutralidade do líquido extracelular. Distúrbios hidroeletrolíticos Conceitos iniciais Como aprendemos, a concentração de eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, cloreto, magnésio, fosfato e bicarbonato) e de água deve se manter em equilíbrio entre os meios intra e extracelular. Portanto, qualquer prejuízo no controle do equilíbrio eletrolítico no interior da célula determina uma perda significativa no funcionamento das rotas metabólicas. Dessa maneira, recursos serão desviados para alcançar a homeostase em detrimento das demais funções orgânicas, tais como crescimento e produção. Os distúrbios eletrolíticos surgem quando o nível de algum dos eletrólitos não está na faixa normal. Na maioria dos casos, os distúrbios ocorrem pelo aumento da concentração do eletrólito quando há ingestão excessiva ou redução na eliminação de um eletrólito, ou pela diminuição da sua concentração quando há ingestão diminuída ou eliminação excessiva dele. Atenção O médico-veterinário clínico deve estar atento a quadros que envolvam vômitos, diarreias ou aumento do volume de urina, que são os principais responsáveis pela perda de eletrólitos e água, ou seja, pela alteração do balanço hidroeletrolítico fisiológico. Assim, é muito importante que o médico-veterinário realize a dosagem de eletrólitos de seus pacientes para que possa auxiliar na correção de qualquer desbalanço. Sódio Esse eletrólito tem maior concentração no líquido extracelular, participando da regulação da osmolaridade. Mas o que é osmolaridade? A osmolaridade, ou concentração osmótica, é a concentração de um soluto em um solvente. Como já aprendemos, a água é o principal solvente do organismo, e o sódio é o principal soluto responsável por regular quase a metade da osmolaridade do plasma. O sódio é o principal cátion no meio extracelular e o responsável por regular a distribuição de água no organismo, a pressão osmótica. Além disso, é importante para atividade neuromuscular e ação da bomba de sódio-potássio. A regulação da concentração de sódio e de água corpórea é realizada pelos rins. Participam desse processo a aldosterona (hormônio antidiurético produzido pela glândula adrenal) e o peptídeo natriurético atrial (hormônio produzido principalmente pelo átrio cardíaco direito). De forma simplificada, a aldosterona promove retenção de sódio enquanto o peptídeo natriurético atrial promove sua excreção. Vamos entender melhor as alterações da concentração plasmática de sódio: Hipernatremia É o aumento da concentração plasmática de sódio e pode ser resultado do aumento de sua ingestão ou da perda excessiva de água, como em casos de hiperadrenocorticismo, restrição da ingestão de água, diabetes insipidus e insuficiência renal, por exemplo. Nesses casos, os pacientes costumam apresentar aumento da sede, fraqueza, irritabilidade, depressão, ataxia, mioclonias e coma. Hiponatremia É a diminuição da concentração plasmática de sódio. Costuma ser resultado do aumento de sua excreção, como em casos de vômitos, diarreia, diabetes mellitus, insuficiência cardíaca, tratamento diurético, queimaduras graves, hipoalbuminemia, doenças renais, cirrose hepática, hipoadrenocorticismo, dentre outros. Os animais com hiponatremia podem apresentar anorexia, letargia, taquicardia, choque, mioclonias, convulsões e coma. Potássio Diferentemente do sódio, o potássio está mais concentrado no meio intracelular (95%), sendo responsável pela manutenção do volume intracelular e do potencial de membrana. A regulação da concentração de potássio entre os meios intra e extracelular se dá pela bomba de sódio- potássio ATPase. Os desequilíbrios entre essas concentrações levam a alterações neurológicas e musculares. Já a regulação da concentração de potássio no plasma sanguíneo é feita pelos rins e conta com a participação da aldosterona. As alterações na concentração de potássio no plasma são chamadas hipocalemia ou hipercalemia. Podemos compreendê-las melhor a seguir. Hipocalemia Também chamada de hipopotassemia, é o nome dado à diminuição da concentração de potássio no plasma sanguíneo. Pode ocorrer pela ingestão insuficiente, perda excessiva ou redistribuição do potássio extracelular, como em casos de anorexia, vômitos, diarreia, poliúria, tratamento diurético ou insulínico, por exemplo. O animal nessa situação apresenta fraqueza muscular, poliúria, polidipsia, letargia, íleo paralítico, ventroflexão de pescoço em gatos, dentre outros sinais. Hipercalemia Também chamada de hiperpotassemia, é o nome dado ao aumento de potássiono plasma sanguíneo. Normalmente, está relacionado com a redução de excreção renal que ocorre em casos de insuficiência renal com pouca produção de urina, obstrução uretral e ruptura de vesícula urinária, por exemplo. Animais sob essa condição apresentam fraqueza e bradicardia, sendo contraindicada a realização de procedimentos anestésicos. Cães da raça Akita apresentam grande quantidade de potássio no interior de suas hemácias, portanto quadros de hemólise podem provocar hipercalemia. Por essa razão, bancos de sangue não costumam estocar bolsas de sangue total ou de hemácias de cães dessa raça. Cálcio O cálcio apresenta uma maior concentração na matriz óssea (99%), estando presente também na membrana plasmática e no retículo endoplasmático das células corpóreas (0,9%) e no compartimento extracelular (0,1%). Mais da metade do cálcio extracelular encontra-se em sua forma ativa, enquanto o restante liga-se à albumina ou a ânions, formando o citrato, fosfato, bicarbonato e lactato, por exemplo. A regulação da concentração de cálcio entre esses compartimentos ocorre pelo paratormônio (produzido pelas glândulas paratireoides), pela calcitonina (produzida pela glândula tireoide) e pela vitamina D (proveniente da ingestão). As alterações na concentração de cálcio são chamadas hipocalcemia e hipercalcemia. Hipocalcemia É a diminuição da concentração de cálcio plasmática. Ocorre devido a doenças hepáticas, patologias renais, má absorção intestinal, hipertireoidismo em gatos e obstrução uretral, por exemplo. Os sinais clínicos de hipocalcemia incluem irritabilidade, marcha rígida, hipertermia, tremores, tetania e convulsões. Hipercalcemia É o aumento da concentração de cálcio no plasma e pode ser induzida por hiperparatireoidismo, intoxicação por vitamina D, insuficiência renal e tumores, e acarreta quadro de poliúria, polidipsia, vômitos, fraqueza muscular, bradicardia e depressão do SNC. Um exemplo de consequência provocada pela deficiência de cálcio no sangue animal é a tetania puerperal ou febre do leite, que acomete principalmente cadelas e vacas no período pós-parto, durante a lactação. Saiba mais A diminuição da ingestão de alimentos no período pré-parto, associada ao aumento da necessidade de cálcio para a produção do colostro e leite, provoca diminuição súbita dos níveis de cálcio no período puerperal, o que acarreta inicialmente tetania e tremores musculares, seguidos de decúbito e fraqueza muscular severa, podendo levar ao coma seguido de morte. Por isso, o manejo nutricional de fêmeas prenhes realizado pelo médico-veterinário é tão importante! Cloreto A concentração plasmática de cloreto é influenciada pela concentração de sódio e bicarbonato. As alterações na concentração de cloreto no plasma sanguíneo são chamadas hipercloremia e hipocloremia. Magnésio A maior parte do magnésio é encontrada nos ossos enquanto no sangue há uma pequena concentração desse eletrólito. Além de o magnésio ser necessário para a formação saudável de dentes e ossos e para a função fisiológica de nervos e músculos, diversas enzimas o utilizam para seu funcionamento, além de ele participar do metabolismo do potássio e do cálcio. As alterações dos níveis de magnésio são a hipermagnesemia e a hipomagnesemia, conforme vemos a seguir: A tetania das pastagens é uma condição clínica encontrada em bovinos que se alimentam em pastagens com predomínio de gramíneas com baixo teor de fibras e magnésio e alta concentração de proteínas. O quadro ocorre também em animais que se alimentam de pastagens adubadas com fertilizantes ricos em nitrogênio e potássio, pois eles provocam uma diminuição da concentração de cálcio e magnésio nas plantas, já que o potássio e o magnésio concorrem pelos mesmos sítios de absorção nas plantas. Hipercloremia É o aumento da concentração de cloreto no plasma sanguíneo. Pode ocorrer em casos de acidose metabólica, intoxicações por etilenoglicol e salicilatos, diarreias, terapia com cloreto de amônio em gatos ou hiperfluidoterapia, podendo levar à fraqueza. Hipocloremia É a diminuição de cloreto no plasma sanguíneo e geralmente está associada à alcalose metabólica causada por vômitos agudos e terapia diurética, por exemplo, podendo levar à fraqueza e a espasmos musculares. Hipermagnesemia É o aumento dos níveis de magnésio no sangue. Essa condição costuma ocorrer em quadros de insuficiência renal, constipação e ingestão excessiva de magnésio, por exemplo, provocando diminuição das respostas pós- sinápticas na junção neuromuscular, acometendo principalmente os sistemas cardiovascular, muscular e nervoso. Hipomagnesemia É a diminuição dos níveis de magnésio no sangue e costuma estar relacionada à insuficiência renal, à insuficiência de ingestão de magnésio, a quadros de má absorção intestinal, dentre outros casos. Os sinais clínicos incluem tetania, tremores e fasciculações musculares. Casca de ovo com deformidade. Da mesma maneira, a digestão dos altos níveis de proteínas presentes em forragens mais novas provoca o aumento da concentração de amônia no rúmen, o que acarreta redução da absorção do magnésio. Saiba mais Os sintomas da tetania das pastagens incluem hiperirritabilidade, contrações musculares involuntárias, sialorreia e ranger dos dentes, incoordenação, hiperestesia, tetania, espasmos musculares e convulsões. Podemos então perceber a importância da atuação do médico-veterinário não somente no manejo nutricional dos animais, mas também na avaliação e escolha de plantas forrageiras para nutrição de animais de produção. Fósforo Quase todo fósforo existente no organismo está na forma de fosfato ou associado ao oxigênio. A maior concentração de fosfato corpóreo encontra-se nos ossos, e o restante no meio intracelular, participando da produção de energia para a célula. A condição de aumento de fosfato no sangue é chamada de hiperfosfatemia e sua diminuição de hipofosfatemia. Em animais jovens, a hiperfosfatemia pode ser fisiológica devido à ação do hormônio do crescimento, que aumenta a reabsorção renal de fósforo para o crescimento ósseo. Já a hiperfosfatemia patológica pode estar relacionada com hipervitaminose D, intoxicação por jasmim em cães e gatos, ingestão alimentar em excesso, tumores ósseos, insuficiência renal aguda, dentre outras causas, podendo ocorrer sinais neuromusculares. A hipofosfatemia está relacionada com a ingestão deficitária de fósforo ou vitamina D, ou ainda com a ingestão excessiva de cálcio. Pode causar fragilidade óssea, raquitismo em jovens e deficiência da mineralização dos ossos (osteomalácia) em adultos, além de retardo no crescimento e deformação na casca dos ovos em aves. Bicarbonato Devido à sua importância na regulação do equilíbrio acidobásico, estudaremos o bicarbonato junto com os sistemas de tamponamento orgânicos. Saiba mais As relações de cátions e ânions de algumas dietas, especialmente para vacas leiteiras no período de transição, têm sido pensadas para auxiliar alguns distúrbios metabólicos que acometem esses animais. Por exemplo, dietas aniônicas (ânions em maior quantidade que cátions) têm sido utilizadas em vacas no pré-parto no sentido de reverter e prevenir distúrbios relacionados com o cálcio. Essas dietas determinam uma pequena redução no pH sanguíneo, ocasionando uma leve acidose metabólica que, por sua vez, favorece a ação de hormônios que liberam cálcio dos ossos e aumentam a sua absorção. Sistemas de tamponamento orgânicos pH Algumas substâncias têm a capacidade de se ionizar quando dissolvidas em água, produzindo prótons (H+) ou íons hidroxila (OH-). Assim, as soluções compostas por essas substâncias podem ser classificadas em ácidas (contêm maior quantidade de H+) ou básicas (contêm maior quantidade de OH-) de acordo com a escala de pH. Essa escala varia de zero a 14 e uma solução neutra, ou seja, com equivalência entre prótons e hidroxilas, tem pH igual a sete. Valores menores que sete indicam uma solução ácida e os maiores que sete indicam uma solução básica oualcalina. Assim como toda solução, o sangue não é uma exceção! O sangue possui uma faixa de pH considerada fisiológica, entre 7,35 e 7,45 (ligeiramente alcalino), na qual os processos metabólicos ocorrem adequadamente, culminando na disponibilização de quantidades apropriadas de gás oxigênio para os tecidos orgânicos. Porém, como as reações químicas celulares são capazes de gerar uma elevada quantidade de íons H+, o equilíbrio acidobásico se perde e o sangue pode ter sua faixa fisiológica de pH alterada, prejudicando os processos metabólicos e, portanto, a homeostase. Para que isso não aconteça, o organismo conta com alguns sistemas e órgãos que buscam manter o equilíbrio acidobásico sanguíneo e, portanto, seu pH fisiológico. Esses sistemas são denominados sistemas de tamponamento orgânicos ou de sistemas-tampão ou ainda de tampões biológicos, enquanto esses órgãos são chamados de emunctórios. Tampões biológicos Um sistema-tampão pode ser formado a partir de um ácido fraco e de seu sal, sendo capaz de retirar e liberar H+ dos compartimentos orgânicos no sentido de manter a faixa fisiológica do pH sanguíneo. Mas qual é a grande importância da existência desses sistemas-tampão? A importância está fundamentada na própria vida celular, pois pequenas variações no pH podem afetar a estrutura das proteínas, diminuindo a velocidade das reações químicas ou impedindo que elas ocorram, o que acarreta a morte celular. Além disso, diversos processos de absorção e excreção são mediados por proteínas ou dependem do grau de ionização de determinados compostos, o que é influenciado pelo pH sanguíneo. No organismo, existem tampões extracelulares e intracelulares. O principal tampão extracelular é o bicarbonato, já os tampões intracelulares incluem a hemoglobina, o fosfato e as proteínas. No sistema-tampão bicarbonato, o íon bicarbonato pode ser formado ou removido do organismo com grande rapidez, possibilitando a manutenção do pH sanguíneo dentro da normalidade. Mas como isso acontece? Nesse sistema, o gás carbônico (dióxido de carbono) proveniente da respiração celular se associa à água do plasma sanguíneo, produzindo ácido carbônico que, por ação da enzima anidrase carbônica, se dissocia em próton e bicarbonato. Na imagem a seguir, podemos ver o funcionamento desse sistema. Sistema-tampão bicarbonato. Já no sistema-tampão hemoglobina, a hemácia transporta em seu interior o H+ para que esse íon não permaneça livre no plasma e não provoque alteração do pH sanguíneo. Nos alvéolos pulmonares, a alta concentração de gás oxigênio proveniente da respiração pulmonar desloca o H+ da hemoglobina para se associar a ela e ser então transportado às células para participar da respiração celular. O H+ deslocado permaneceria livre no plasma sanguíneo, o que diminuiria seu pH. Porém, esse próton se associa ao bicarbonato, formando ácido carbônico, que se dissocia em água e gás carbônico, que é eliminado durante a expiração. A equação química e a esquematização que resumem a interação entre esses dois sistemas tampão são apresentadas a seguir. Tampão bicarbonato. O tampão fosfato é importante pela sua alta concentração no interior das células, e o tamponamento ocorre pela dissociação ou associação de prótons ao ácido fosfórico ou seus ânions derivados. A perda de íon hidrogênio o transforma em dihidrogenofosfato que, quando perde um íon hidrogênio, se transforma em hidrogenofosfato que, por sua vez, se transforma em fosfato pela perda de um íon hidrogênio, como mostra a equação química a seguir. Tampão fosfato. Portanto, esse sistema pode doar ou captar íons hidrogênio livres, contribuindo para a regulação do pH. O sistema-tampão relacionado às proteínas ocorre porque elas são compostas por aminoácidos que, por sua vez, são formados por um grupamento amino e um carboxila. Desse modo, nas extremidades da cadeia polipeptídica, esses grupamentos podem se dissociar e liberar um próton ou podem recebê-lo, o que ocorre em função do pH do meio. Tampão proteínas. Controles respiratórios e renais do pH sanguíneo Órgãos emunctórios Os órgãos emunctórios que participam do equilíbrio acidobásico sanguíneo são os pulmões, com a excreção de dióxido de carbono, e os rins, com a excreção ou retenção de prótons e ácido carbônico, como podemos ver a seguir. Participação pulmonar e renal no equilíbrio acidobásico orgânico. Controle respiratório do pH Como sabemos, a respiração pulmonar auxilia no controle do pH sanguíneo, pois realiza excreção de gás carbônico. A seguir, vamos compreender melhor como funciona este mecanismo: Aumento da frequência respiratória Quando ocorre aumento da frequência respiratória (taquipneia), a concentração sérica de dióxido de carbono diminui. Assim, a reação é deslocada para a produção de H2CO3 a partir de H+ e HCO3 -, reduzindo assim a concentração de prótons no plasma e tornando o pH mais básico. Diminuição da frequência respiratória Já quando a frequência respiratória diminui (bradipneia), a concentração sérica de dióxido de carbono aumenta e o acúmulo desse gás aumenta a concentração de ácido carbônico, consequentemente liberando o H+ no plasma. Como forma compensatória para o retorno do pH sanguíneo, em uma situação de diminuição do pH (acidose), o organismo estimula o centro respiratório que promove taquipneia, ocorrendo maior eliminação de CO2 pelos pulmões. Já a elevação do pH (alcalose) estimula o centro respiratório que induz bradipneia, ocorrendo maior retenção de CO2. Ao mesmo tempo, em casos de acidose, a hemoglobina diminui sua afinidade pelo oxigênio, permanecendo mais tempo ligada aos íons H+, o que diminui a concentração desses íons livres no sangue circulante. Já nos casos de alcalose, ocorre uma elevação na afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, o que determina um aumento de íons H+ livres no sangue. Mecanismo de compensação de pH exercido pelos rins. Algumas condições patológicas que interferem direta ou indiretamente no controle respiratório do animal podem contribuir para a diminuição do pH sanguíneo (acidose respiratória) ou para o seu aumento (alcalose respiratória). A acidose respiratória corresponde à diminuição do pH do sangue causada pelo acúmulo de dióxido de carbono em decorrência de um mau funcionamento pulmonar ou de bradipneia, como em casos de enfisema, bronquite crônica, pneumonia grave, edema pulmonar, asma e patologias neurais ou musculares localizadas na caixa torácica que comprometam a mecânica respiratória. Atenção Procedimentos sedativos que induzem sedação profunda promovem redução na frequência respiratória, podendo levar a quadro de acidose respiratória, assim como a colocação de talas torácicas muito apertadas. A alcalose respiratória corresponde à elevação do pH do sangue causada pela redução de dióxido de carbono em decorrência de um mau funcionamento pulmonar ou de taquipneia, como ocorre em situações de medo, ansiedade, dor, calor e febre. Controle renal do pH Além da compensação pulmonar, os rins, quando não são a causa desencadeante do distúrbio do equilíbrio acidobásico, vão auxiliar de forma muito eficiente o controle do pH sanguíneo, evitando variações bruscas incompatíveis com a manutenção da saúde ou mesmo com a vida do animal. De uma maneira geral, os rins conseguem efetuar a nível tubular a troca entre Na+ e H+, conseguem promover a secreção tubular de K+, a reabsorção tubular de HCO-3 e ainda atuam na produção do íon amoníaco, que carreia H+ e pode ser sintetizado pela célula tubular renal a partir do metabolismo da glutamina. Assim, nos casos de acidose respiratória, os sistemas fosfato e bicarbonato atuam na excreção renal de H+ e reabsorção de Na+ e ocorre o aumento da produção do íon amoníaco pela célula tubular dos rins. Já nos casos de alcalose, os sistemas fosfato e bicarbonato atuam nas trocas entre Na+ por H+, conservando o íon H+, e não ocorre a formação do íon amoníaco a partir do metabolismo da glutamina pelos rins. Podemos concluir que os rins auxiliam no tamponamento do pH por meioda bomba de troca de Na+- H+, pela excreção de ácidos tituláveis como sulfatos e fosfatos e, ainda, pelo mecanismo de produção do amoníaco NH4 + a partir do metabolismo da glutamina, auxiliando na excreção de H+, como vemos na imagem. Mecanismos de compensação dos distúrbios acidobásicos Como já comentamos, quando ocorre situações de acidose metabólica (aumento da acidez plasmática pelo acúmulo de ácidos não voláteis provenientes do metabolismo celular que causam a redução dos níveis de bicarbonato plasmático ou então pela perda de bicarbonato para meio extracelular) ou respiratória, ou de alcalose metabólica (aumento primário na concentração sanguínea de bicarbonato) ou respiratória, mecanismos de compensação são ativados para que o equilíbrio acidobásico biológico retorne o mais breve possível a fim de evitar maiores danos à saúde do animal. Mecanismo de compensação do equilíbrio ácido-base biológico. Quer saber mais sobre como funcionam os mecanismos de compensação de distúrbios acidobásico? Assista ao vídeo a seguir! Mecanismos de compensação dos distúrbios acidobásico Confira os mecanismos renais e pulmonares empregados para compensar a alcalose e a acidose respiratórias e metabólicas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Na prática clínica médico-veterinária, o exame de eleição para o diagnóstico e a investigação dos distúrbios acidobásicos é a gasometria (ou hemogasometria), que é utilizada na avaliação, no monitoramento e no diagnóstico de doenças, principalmente as de natureza respiratória e metabólica. Esse exame fornece informações concretas sobre a oxigenação e ventilação do paciente, possibilitando a avaliação e a identificação de seu estado clínico, bem como a orientação da melhor conduta terapêutica a ser adotada. Esse exame é realizado por meio de um gasômetro. Os principais parâmetros analisados são saturação de oxigênio (SatO2), pressão parcial do gás carbônico (pCO2), concentração de bicarbonato (H2CO3) e pH. Também fornece resultados sobre concentração de eletrólitos sanguíneos, tais como sódio, potássio e cloreto. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Introdução ao equilíbrio hidroeletrolítico Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Distúrbios hidroeletrolíticos Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Sistemas de tamponamento orgânicos Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Controles respiratórios e renais do pH sanguíneo Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Qual cátion é responsável por quase a metade da osmolaridade do plasma e desempenha um papel central na manutenção da distribuição de água? A Cálcio B Potássio C Sódio D Bicarbonato E Cloro A alternativa C está correta. No compartimento extracelular (LEC), o sódio é o principal cátion, sendo relevante para a determinação da osmolaridade nos líquidos vasculares. Ele garante o bom funcionamento tecidual, a distribuição de água entre os compartimentos corpóreos e a pressão osmótica. Além disso, é importante para atividade neuromuscular e ação da bomba de sódio-potássio. Questão 2 Anormalidades no equilíbrio acidobásico corporal são sempre acompanhadas por alterações características nas concentrações plasmáticas de eletrólitos. O distúrbio acidobásico caracterizado pela redução da concentração sérica de bicarbonato causada por aumento primário da produção de ácidos é: A Acidose metabólica. B Acidose respiratória. C Alcalose metabólica. D Alcalose respiratória. E Alcalose metabólica e respiratória. A alternativa A está correta. A acidose metabólica é causada pela redução da concentração sérica de bicarbonato, que, por sua vez, é causada pelo acúmulo de ácidos não voláteis (provenientes do metabolismo celular) ou pela perda de bicarbonato para meio extracelular. Com a redução de bicarbonato, o organismo promove a compensação pelo aumento da ventilação alveolar. 3. Conclusão Considerações finais Ao longo deste conteúdo, estudamos os constituintes do tecido sanguíneo, as principais funções das células sanguíneas e a importância do sistema hematopoiético-lítico na produção e degradação das hemácias. Além disso, vimos que, dependendo da espécie, a coloração do plasma e a sobrevida das hemácias na corrente sanguínea varia, podendo estas sobreviver dias ou até mesmo anos, como acontece com os répteis. Estudamos também que as hemácias apresentam em seu interior a hemoglobina, importante molécula que transporta o gás oxigênio e o gás carbônico e que, além de suprir o organismo com os gases essenciais da respiração, tem uma contribuição para manutenção do pH sanguíneo em uma faixa estável. Vimos que a degradação da hemoglobina gera a bilirrubina direta e indireta e que, dependendo do tipo de desbalanço que acontecer nesse metabolismo, pode levar a um quadro de icterícia nos animais. Visitamos a composição dos compartimentos líquidos do corpo, compreendendo os principais eletrólitos e a importância do balanço hidroeletrolítico, como também as principais classificações e etiologias dos distúrbios hidroeletrolíticos. Por fim, aprendemos sobre os distúrbios do equilíbrio acidobásico, muito presentes em diversas patologias, e conhecemos as causas, os tipos de distúrbios e os mecanismos de compensação gerados fisiologicamente por cada distúrbio específico. Todas essas informações que estudamos são empregadas na atuação do médico-veterinário, tanto na área da clínica médica quanto na produção e reprodução animal. Podcast Ouça um pouco mais sobre a correlação entre as doenças carenciais e os eletrólitos em animais. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para aprofundar seus conhecimentos sobre a temática: Leia o artigo Equilíbrio ácido-base e hidroeletrolítico em equinos submetidos à simulação de enduro FEI, de Bernardi, et al. 2018. Lá você entenderá como a concentração dos principais eletrólitos variam no exercício e quais os benefícios do metabolismo aeróbio para os animais durante o enduro, uma modalidade que requer alta exigência metabólica para a manutenção do equilíbrio do organismo. Leia o livro Hematologia veterinária: Produção de material didático, de Malena Noro Silva (2017). Lá você poderá se aprofundar mais sobre as características e morfologia das células pertencentes ao sistema sanguíneo dos animais. Leia o artigo: Deficiências minerais em animais de fazenda, principalmente bovinos em regime de campo, de Tokarnia, Döbereiner e Peixoto (2000), e o documento da Embrapa: Principais deficiências minerais em bovinos de corte I, elaborado por Sheila da Silva Moraes (2001), para entender como a deficiência dos minerais em bovinos com dieta exclusiva de pasto causam alterações patológicas que podem levar a morte do animal. Referências FERREIRA, C. N. et al. O novo modelo da cascata de coagulação baseado nas superfícies celulares e suas implicações. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, v. 32, n. 5, pp. 416-421, 2010. FRANCO, R. F. Fisiologia da coagulação, anticoagulação e fibrinólise. Medicina, v. 34, pp. 229-237, jul./dez., 2001. GROTTO, H. Z. W. Fisiologia e metabolismo do ferro. 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Sangue Tecido sanguíneo Aspectos gerais Curiosidade Hemácias e hemoglobina Curiosidade Se a hemoglobina é o composto responsável por carrear o gás oxigênio, por que ela não se encontra livre no sangue em vez de no interior das hemácias? Você sabe qual é a relação entre a eritrocitose fisiológica e a alta performance de animais atletas? Hematopoiese Conteúdo interativo Síntese e degradação de hemoglobina Síntese de hemoglobina Saiba mais Degradação de hemoglobina Estágio 1 Estágio 2 Estágio 3 Estágio 4 Icterícia pré-hepática (ou hemolítica) Icterícia hepática (ou hepatocelular) Icterícia pós-hepática (ou obstrutiva) Hemostasia Definição Hemostasia primária Hemostasia secundária Via intrínseca Via extrínseca Via comum Modelo clássico Via extrínseca Via intrínseca Modelo baseado em evidências Hemostasia terciária e distúrbios da coagulação Fibrinólise Estágio 1 Estágio 2 Estágio 3 Estágio 4 Estágio 5 Distúrbios da coagulação Particularidades da hemostasia Curiosidade Vem que eu te explico! Tecido sanguíneo Conteúdo interativo Hemácias e hemoglobina Conteúdo interativo Síntese e degradação de hemoglobina Conteúdo interativo Hemostasia Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Equilíbrio hidroeletrolítico e sistemas tamponantes Introdução ao equilíbrio hidroeletrolítico A importância da água para a célula Saiba mais Composição dos líquidos intra e extracelular Curiosidade Exemplo Distúrbios hidroeletrolíticos Conceitos iniciais Atenção Sódio Mas o que é osmolaridade? Hipernatremia Hiponatremia Potássio Hipocalemia Hipercalemia Cálcio Saiba mais Cloreto Magnésio Saiba mais Fósforo Bicarbonato Saiba mais Sistemas de tamponamento orgânicos pH Tampões biológicos Mas qual é a grande importância da existência desses sistemas-tampão? Controles respiratórios e renais do pH sanguíneo Órgãos emunctórios Controle respiratório do pH Aumento da frequência respiratória Diminuição da frequência respiratória Atenção Controle renal do pH Mecanismos de compensação dos distúrbios acidobásicos Mecanismos de compensação dos distúrbios acidobásico Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Introdução ao equilíbrio hidroeletrolítico Conteúdo interativo Distúrbios hidroeletrolíticos Conteúdo interativo Sistemas de tamponamento orgânicos Conteúdo interativo Controles respiratórios e renais do pH sanguíneo Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + Referências