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Resenha Crítica Referência da Obra: · Elizabeth Goraieb e Paulo Emílio Vauthier Borges de Macedo · A Ampliação da Jurisdição Internacional: · O Surgimento de uma Jurisdição Internacional em Matéria Penal · Brasília: · Revista de Direito Internacional: · 2022: · 19 Páginas: 1. Introdução Este artigo analisa a expansão da jurisdição internacional, com foco especial na jurisdição penal internacional. 2. Descrição da Obra O artigo busca demonstrar como o surgimento da jurisdição internacional, em matéria penal, derivou da expansão da noção original de jurisdição internacional. Para isso, o artigo está dividido em quatro seções: · A facultatividade da jurisdição na primeira metade do século XX. · As regras de jurisdição e competência da CPJI e da CIJ. · Os limites da jurisdição internacional. · O surgimento da jurisdição penal internacional. 2.1. O Surgimento da Jurisdição Internacional O estudo se iniciou com o surgimento da jurisdição da Corte Permanente Internacional de Justiça (CPJI), que se baseava no princípio da facultatividade da jurisdição internacional na primeira metade do século XX. Durante esse período, o Direito Internacional foi caracterizado pela concepção clássica, fortemente influenciada pelo voluntarismo. 2.2. Expansão das Questões de Jurisdição Internacional Direitos Humanos: Antes considerados como domínio reservado dos Estados, os direitos humanos agora estavam sob a competência de várias cortes internacionais. Direito Penal: O Direito Penal, que tradicionalmente se relacionava ao jus puniendi do Estado, estaria se tornando parte da jurisdição internacional, com indivíduos sendo responsabilizados diretamente. 2.3. A Transição para a Corte Internacional de Justiça Mesmo após a segunda metade do século XX, com o estabelecimento da ONU, a substituição da CPJI pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) e o crescente interesse internacional na proteção dos direitos humanos, a ideia da facultatividade da jurisdição internacional persistiu entre muitos juristas. No entanto, esse princípio começou a perder força gradualmente. A CIJ se mostrava mais "ativa" que a CPJI. Um exemplo disso é que, na CPJI, pedidos de consulta de uma organização internacional, que não fosse a Liga das Nações, necessitariam de ser aprovados pelo Conselho. Na CIJ, essa aprovação seria feita pela Assembleia Geral, o que conferia maior legitimidade democrática à decisão e facilitava a promoção de consultas por organizações especializadas. O texto descreve a proliferação de tribunais internacionais, como o Tribunal Internacional de Direitos do Mar, os Tribunais Penais Internacionais e os tribunais estabelecidos no âmbito dos sistemas de integração econômica regional. Esse aumento no número de tribunais refletiria uma expansão das questões que poderiam ser tratadas pela jurisdição internacional. 3. Análise Crítica Caracterização da Facultatividade da Jurisdição Como Princípio na Primeira Metade do Século XX A jurisdição da Corte Permanente Internacional de Justiça (CPJI) era baseada na premissa da facultatividade da jurisdição internacional. A lógica era que, como não existia um Estado mundial e a Sociedade das Nações não desempenhava esse papel, a Corte não poderia ser o Judiciário de um Estado inexistente. A soberania residia nos Estados, portanto a jurisdição da CPJI não poderia ser compulsória, mas apenas facultativa, semelhante aos procedimentos arbitrais. O estatuto da Corte, suas regras de procedimento e os casos julgados refletiam essa perspectiva. Essa lógica era tão arraigada que poderia impedir a Corte de exercer sua função primordial de resolver conflitos, levando a decisões de non liquet (quando um tribunal se abstém de decidir por falta de lei aplicável ou por falta de provas suficientes). Em 1923, o Conselho da SDN (Sociedade das Nações) submeteu a autonomia da região da Carélia Oriental, conforme previsto no Tratado de Dorpat, à jurisdição consultiva da CPJI. No entanto, tratava-se de um caso real entre a Finlândia e a URSS, que não havia sido submetido à jurisdição contenciosa da Corte por falta de consentimento. O Conselho tentou usar a jurisdição consultiva para resolver a controvérsia indiretamente, mas a Corte recusou-se a emitir um parecer, afirmando que "era bem estabelecido, em Direito Internacional, que nenhum Estado estaria obrigado a submeter as suas controvérsias com outros Estados, a qualquer procedimento de solução pacífica sem o próprio consentimento". A facultatividade da jurisdição internacional estava estabelecida, em princípio, por autores e juízes importantes como Dionísio Anzilotti e Max Huber, e era considerada uma das normas mais fundamentais do Direito Internacional, a qual estruturava a sociedade de Estados soberanos sem restrições às suas ações além de sua própria vontade. No início do século XX, o Direito Internacional seria influenciado por teorias voluntaristas. Carl Heinrich Triepel, em sua obra Völkerrecht und Landerecht e em seu curso na Academia de Direito Internacional da Haia, desenvolveu uma teoria que o Estado deveria ser visto como uma pessoa distinta da soma de suas partes, e não um mero "ponto de imputação" como propunha Kelsen. Para Triepel, a vontade de um Estado criaria o direito interno, e a vontade combinada dos Estados (Vereinbarung) formaria o direito internacional. Mesmo após a segunda metade do século XX, com o surgimento da ONU e a crescente preocupação com a proteção da pessoa humana, a facultatividade da jurisdição internacional ainda era defendida por autores relevantes. Paul Guggenheim, em seu curso na Haia em 1952, afirmou que a facultatividade da jurisdição internacional era uma regra bem estabelecida do Direito Internacional Geral. Ele argumentava que, na ausência de um Estado mundial e de hierarquia na sociedade internacional, os Estados só poderiam se comprometer por meio de sua própria vontade, sendo livres para submeterem-se, ou não, à jurisdição de um tribunal internacional. Embora Guggenheim reconhecesse a existência de normas permanentes e imutáveis ao longo dos séculos, ele não afirmou que essas normas estariam fora da esfera da vontade dos Estados. As Regras Sobre Jurisdição e Competência Da CPJI e da CIJ A Corte Internacional de Justiça (CIJ) sucedeu a sua predecessora, a CPJI, em todos os aspectos, incluindo instalações físicas, estrutura de nomeação de juízes, obrigações convencionais, declarações de aceitação de jurisdição e jurisprudência. O estatuto da CIJ seria elaborado de forma muito semelhante ao da CPJI, com a ideia inicial de total continuidade. No entanto, a CIJ demonstrava-se mais "ativa" do que a CPJI. Além do declínio das doutrinas voluntaristas e do surgimento de normas internacionais para proteger os direitos humanos, algumas diferenças sutis nas normas que estabeleciam a competência das duas cortes, indicavam uma diminuição do princípio da facultatividade da jurisdição internacional. Diferentemente da CIJ, a CPJI não era um órgão da Sociedade das Nações (SDN), mas fazia parte do sistema da Liga. O Artigo 14 do Pacto da SDN previa a sua criação pelo Conselho da Liga. Em fevereiro de 1920, o Conselho da Liga nomeou uma comissão de dez juristas de diversas nacionalidades para elaborar um projeto. O projeto seria aprovado pelo Conselho em outubro do mesmo ano e, com algumas emendas, foi aprovado por unanimidade pela Assembleia em 13 de dezembro. Em 16 de dezembro, o texto seria convertido em um Protocolo e aberto à ratificação dos Membros da SDN. Esse procedimento tornaria o estatuto um tratado internacional, obrigatório e que só poderia ser modificado pela vontade das partes. Após o número necessário de ratificações em setembro de 1921, os juízes foram eleitos, e a Corte começou a funcionar em janeiro de 1922. Posteriormente, o estatuto seria revisado, resultando em um novo Protocolo em 14 de setembro de 1929. O Artigo 14 do Pacto da SDN também delimitou a jurisdição consultiva da CPJI. Apenas o Conselho e a Assembleia da SDN poderiam solicitar pareceres consultivos. A Carta da ONU, em seu Artigo 96, ampliouessa representação, permitindo que outros órgãos da ONU e agências especializadas também fizessem solicitações, mediante autorização da Assembleia Geral. Embora essa diferença pudesse parecer pequena, houve uma distinção política relevante, ou seja, na CPJI, os pedidos de consulta de organismos internacionais que não faziam parte da SDN, precisariam da aprovação do Conselho. Na CIJ, a aprovação era da Assembleia Geral, o que garantiria maior legitimidade democrática. Além disso, o Artigo 5(1) do Pacto da SDN exigia unanimidade para solicitar uma opinião consultiva, enquanto na Carta da ONU bastaria a maioria simples, facilitando o processo de consulta. “Dessa maneira, revela-se muito mais fácil hoje para um organismo especializado promover uma consulta. É claro que, além da autorização da AGNU, esses outros organismos precisam, ainda, observar outros requisitos, como a consulta se restringir a uma questão jurídica e não de fato, e a matéria se encontrar dentro do seu escopo de competência. Mas, embora formalmente os órgãos competentes ainda sejam os mesmos, de fato, houve uma ampliação dos legitimados. Há um risco menor de o pedido sofrer entraves de ordem política. Por isso, a CIJ já se pronunciou sobre pedidos do ECOSOC, FAO, UNESCO, OMI, OIT, entre vários outros. Não há dúvidas de que existia uma variedade menor de organismos internacionais à época da SDN. Todavia, essa pequena distinção de competência é o que permite dar voz a esse maior número de organismos”. Houve também uma diferença significativa na interpretação da jurisdição consultiva. O Artigo 14 do Pacto da SDN permitia que o Conselho e a Assembleia solicitassem pareceres consultivos sobre "qualquer disputa ou questão", enquanto o Artigo 96 da Carta da ONU substituiu essa expressão por "qualquer questão de ordem jurídica", que a CIJ interpretou de forma ampla. Ao contrário da CPJI, que no caso da Carélia Oriental enfatizou o consentimento dos Estados e não emitiu parecer, a CIJ teria uma jurisprudência consistente de que o consentimento do Estado seria irrelevante para a emissão de pareceres consultivos. O Artigo 83 do Regulamento da Corte de 1946 previa a possibilidade de nomear um juiz ad hoc em uma questão legal pendente na jurisdição consultiva, admitindo implicitamente a possibilidade de emitir pareceres sobre casos reais. Em seu parecer sobre a Interpretação de Tratados entre Bulgária, Hungria e Romênia (1950), a CIJ rejeitava a objeção desses países de que a questão estava pendente, afirmando que essa objeção confundia os princípios do procedimento contencioso com os do procedimento consultivo. A CIJ enfatizava que, enquanto o consentimento dos Estados é a base da jurisdição nos casos contenciosos, no procedimento consultivo, o parecer seria apenas consultivo e não vinculante, e nenhum Estado poderia impedir a emissão de um parecer consultivo que as Nações Unidas considerasse desejável. A CIJ tinha emitido pareceres consultivos sobre casos reais, como nos casos Bernadotte e da Construção do Muro na Palestina, onde estabelecia obrigações para Israel e imposição de obrigações erga omnes de não reconhecimento do estado de coisas resultante da construção do muro. Essa imposição de obrigações a Estados na jurisdição consultiva seria inconcebível para o Princípio da Carélia Oriental. Shigeru Oda observou que, enquanto na CPJI a falta de consentimento impedia a Corte de se pronunciar, tanto na jurisdição contenciosa quanto na consultiva, na CIJ a jurisdição consultiva seria usada justamente nos casos em que não houvessem consenso suficiente à jurisdição contenciosa, ou seja, o que impedia uma Corte de se pronunciar tornaria motivo para a outra se pronunciar. OS LIMITES MATERIAIS DA JURISDIÇÃO INTERNACIONAL Expansão da Jurisdição Internacional pós-Segunda Guerra Mundial Após a Segunda Guerra Mundial, a criação da jurisdição internacional sobre direitos humanos representou uma expansão significativa da jurisdição internacional, o que antes eram considerados parte do domínio reservado da jurisdição nacional. Para compreender a dimensão dessa expansão, é necessário examinar como a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e a Corte Permanente de Justiça Internacional (CPJI) definiram "controvérsia internacional". A noção de "controvérsia internacional" foi estabelecida no Caso Mavrommatis como "discordância sobre um ponto de Direito ou de fato, um conflito de pontos de vista legais ou de interesses entre duas partes". Embora vaga, essa fórmula permitia que as cortes abrangessem todo o Direito Internacional. No entanto, essa prática nem sempre seria óbvia. Para restringir o conteúdo dessa noção, as normas que estabelecessem a competência material das duas cortes, utilizariam a técnica de enumeração. O Artigo 13, II, do Pacto da Sociedade das Nações, incluía "os litígios relativos à interpretação de um Tratado, qualquer ponto de direito internacional, a realidade de qualquer fato que, se fosse determinado, constituiria rompimento de um compromisso internacional, ou a extensão ou natureza da reparação devida pelo mesmo rompimento". O Artigo 36 do Estatuto da CIJ (e o antigo Estatuto da CPJI) compreendia: a) a interpretação de um tratado; b) qualquer ponto de direito internacional; c) a existência de qualquer fato que, se verificado, constituiria a violação de um compromisso internacional; d) a natureza ou a extensão da reparação devida pela ruptura de um compromisso internacional". Apesar disso, Guggenheim considerava essa enumeração "defeituosa", pois não era taxativa nem tratava expressamente de matérias específicas. No final do século XIX e início do século XX, havia um debate sobre os limites da competência material da jurisdição internacional, com o uso de fórmulas vagas como "questões sobre a honra e a dignidade nacionais" ou "interesses vitais". Hersh Lauterpacht argumentava que a ideia de limites materiais à jurisdição internacional seria mais antiga, remontando a Emmerich de Vattel. Além das exceções materiais relacionadas a altos interesses nacionais, também se desenvolveu a distinção entre controvérsias jurídicas e políticas. Essa distinção, relacionada às fórmulas vagas anteriores, foi intelectualmente desenvolvida por autores como Kaltenborn, Lorimer e Westlake, que traduziram para o Direito Internacional o pensamento militarista alemão do século XIX, conhecido como "borussionismo". Para os adeptos desse pensamento, a força seria exaltada como criadora do Direito e da Moral, e a guerra seria vista como o teste da História que unificaria as hordas naturais em Estado. A guerra seria considerada um conflito de poderes, não de interesses jurídicos, com causas sociológicas mais profundas do que as jurídicas, o que transcenderia o Direito. Assim, tentar resolver conflitos que pudessem levar à guerra, por meio de litígios jurídicos era visto como uma impossibilidade racional. Essa distinção foi criticada por autores como Kelsen, Hambro e Lauterpacht, mas estava generalizada no início do século XX. Até mesmo pacifistas brasileiros como Alberto Torres e Clóvis Beviláqua acreditavam em alguma versão dessa ideia. Alberto Torres, em suas obras em francês Vers la paix e Le problème mondial, argumentava que soluções jurídicas não resolveriam um mal com raízes profundas na História e que a paz não resultaria da criação de um corpo judiciário ou da promulgação de códigos internacionais, assim como a ordem interna não surgiria do estabelecimento da justiça. Clóvis Beviláqua, Consultor Jurídico do Itamaraty, ao ser convidado para ajudar a elaborar o estatuto da CPJI, publicou uma obra em francês para esse trabalho. O artigo 22 de seu projeto estabelecia que a Corte não teria competência para julgar questões entre indivíduos, nem entre pessoas jurídicas de direito privado e pessoas de direito público, e que questões de Direito Internacional Privado deveriam permanecer com os tribunais nacionais. Apesar da oposição, optou-se por uma fórmula que abrangesse qualquer controvérsia interestatal, sem restrições adicionais como "questões políticas"ou "dignidade nacional", embora essa concepção também teria sido revisada posteriormente. O Surgimento da Jurisdição Penal Internacional Após a segunda metade do século XX, as situações jurídicas individuais começavam a entrar no âmbito da jurisdição internacional. A ideia de uma Corte Penal Internacional permanente para julgar crimes contra a humanidade foi proposta por Gustave Moynier, um dos fundadores da Cruz Vermelha, em 1872, inspirado pelas atrocidades da guerra franco-prussiana. Durante o genocídio armênio, França, Grã-Bretanha e Rússia alertaram os turcos de que seriam pessoalmente responsabilizados por esse crime. No entanto, a ideia de um código penal universal e de um tribunal criminal internacional ganhou força no século XX, tanto em relação aos indivíduos quanto aos Estados e outras pessoas jurídicas. Durante a primeira parte do século XX, impulsionados pelas duas guerras mundiais, vários projetos foram desenvolvidos no âmbito da Sociedade das Nações e por outras associações de direito internacional, com o objetivo de codificar o direito penal universal em termos materiais e processuais. Esses projetos formariam a base para a codificação que, a partir da década de 1950, levaria a ONU a elaborar o Projeto de Código de Crimes contra a Paz e a Segurança da Humanidade e o Estatuto do Tribunal Penal Internacional. Em 1899, Franz Von Liszt lançou a ideia de um Código Penal universal, que seria retomada por Garofalo em 1905. No início do século XX, alguns autores começavam a admitir que a intenção criminosa e a criminalidade poderiam ser encontradas, tanto na consciência coletiva quanto na individual. O Professor Quintiliano Saldaña defendeu uma justiça penal permanente em seu curso na Academia de Haia em 1928, e a obra de Ernest Hafter, "Die Delikts- und Straffähigkeit der Personenverbände"(A responsabilidade penal e a capacidade penal das associações de pessoas), 1903, abordou a responsabilidade penal das pessoas jurídicas. A Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, foi marcada pela violação da neutralidade da Bélgica e por atrocidades como o uso de gás, o ataque a navios desarmados e sobreviventes, a destruição de monumentos históricos e religiosos e a deportação e massacre de civis e reféns. Jean Graven criticou o sistema que permitia a impunidade dos responsáveis por esses crimes. Em 1917, o Presidente Wilson declarou que as mesmas regras de conduta e responsabilidade deveriam ser aplicadas entre as nações e seus governantes como entre os cidadãos. Em 1918, o governo francês declarou que os autores e organizadores desses crimes seriam responsabilizados. A questão da punição dos crimes de direito comum, cometidos pelos exércitos austríacos e alemães nos territórios ocupados, já havia sido debatida por especialistas, que também expressaram preocupação com o extermínio de armênios, sírios e gregos na Turquia e outras atrocidades cometidas nos Bálcãs e em outros lugares. Em 1919, a Conferência Preliminar de Paz criou uma comissão que investigaria as responsabilidades da guerra e proporia sanções, com o objetivo de julgar os culpados por iniciar a guerra ou cometer crimes de guerra e contra a humanidade. A comissão era composta por membros das grandes potências com interesses específicos que teriam a tarefa de informar sobre a criação de um tribunal para julgar esses crimes. O Presidente da Comissão, ao iniciar os trabalhos, expressou a intenção de defender princípios de justiça, igualdade e paz. No entanto, a reação alemã ao "Livro do Ódio", uma lista de supostos criminosos de guerra, atrasou o processo. As memórias da delegação Sérvia, sobre as atrocidades búlgaras cometidas em 1919, revelariam as bases das acusações apresentadas ao Tribunal Militar Internacional de Nuremberg em 1945-1946. Os crimes denunciados incluiriam assassinatos, estupros, pilhagens e massacres, e a responsabilidade foi atribuída ao governo e ao quartel-general búlgaro, bem como às autoridades locais e organizações criminosas. Além dos crimes contra a paz e crimes de guerra, as acusações também incluíam "procedimentos atrozes" e "contrários às regras mais elementares da humanidade", como pilhagem, incêndio sistemático, estupros, deportações, trabalho forçado e massacres de civis. A questão central concentrar-se-ia em quais seriam os meios legais para punir os responsáveis por esses crimes e quais leis deveriam ser aplicadas. Durante a Conferência Preliminar de Paz, reconheceu-se que a guerra havia sido conduzida pelas potências derrotadas de maneira "bárbara ou ilegítima", violando as leis e costumes da guerra e os princípios da humanidade. A Comissão identificou duas categorias de atos culpáveis: os atos que provocaram a guerra mundial e os que constituíram violações das leis e costumes da guerra e dos princípios da humanidade. A ideia de criar um Tribunal Internacional para julgar os responsáveis por tais crimes ganharia força. Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes de 1919 estabeleceu o princípio da perseguição aos criminosos de guerra e ordenou que o Kaiser Guilherme II fosse julgado por um Tribunal Internacional (artigo 227). O Tratado também ordenou que a Alemanha entregasse os alemães acusados de crimes de guerra para serem julgados por tribunais militares aliados (artigo 228), e convidou os aliados a constituir tribunais militares nacionais para esse fim (artigo 229). Apesar da criação de uma comissão para identificar os responsáveis e de um relatório que listava 896 criminosos de guerra, apenas 12 foram julgados pela Corte Suprema do Reich em Leipzig. A criação de um Tribunal Internacional, desejada pela opinião pública inglesa e francesa, foi adiada. O Tratado de Versalhes, nos artigos 227 a 229, estabeleceu a responsabilidade penal pela violação de tratados, mas seu fracasso foi em grande parte devido à oposição dos Estados Unidos à ideia de um procedimento penal perante uma jurisdição internacional. No final, Guilherme II não foi extraditado pelos Países Baixos, onde havia buscado refúgio. No entanto, o Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919, responsabilizou a Alemanha e seus aliados pelas perdas e danos causados durante a Primeira Guerra Mundial (artigo 231). O artigo 227 responsabilizou Guilherme II pela "ofensa suprema contra a moral internacional e a autoridade sagrada dos Tratados", e os artigos 228 a 230 impuseram penas aos "reconhecidos como culpados". Apesar da falta de aplicação, o Tratado representou uma inovação histórica e legal ao reconhecer, em um instrumento internacional, os princípios da responsabilidade criminal e da repressão de atos contrários às leis e costumes da guerra, bem como delitos supremos contra a moral e a autoridade dos tratados internacionais. Os artigos 11 a 16 do Pacto da Liga das Nações, adotado em abril de 1919 e incluído no Tratado de Versalhes, bem como os Tratados de Saint-Germain, Trianon e Neuilly, consideravam a guerra de agressão uma violação erga omnes e estabeleceram um regime especial de sanções a serem aplicadas por todos os Estados membros em caso de agressão. Assim, a ideia de crime de guerra foi estabelecida no direito internacional. A Assembleia Geral da Sociedade das Nações, em 1927, confirmou essa tendência ao afirmar que a guerra de agressão não deveria ser usada para resolver disputas entre Estados e constituía um crime internacional. Até a Segunda Guerra Mundial, as propostas de sanções para Estados e indivíduos que violassem o direito internacional eram insignificantes para os primeiros e se limitavam ao direito interno para os segundos. Embora a Liga das Nações não tenha incentivado o trabalho nessa área, várias organizações científicas se dedicaram ao estudo da questão. As associações internacionais de advogados, penalistas e publicistas defenderam consistentemente a criação de um organismo criminal internacional. A União Interparlamentar, a International Law Association e a Association Internationale de Droit Pénal adotariam textos que apoiavam o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional.No entanto, os relatórios e projetos de estatutos raramente detalhavam as especificidades e garantias processuais do procedimento penal. Em 1920, o Comitê Consultivo de Juristas da Sociedade da Liga das Nações, encarregado de preparar um projeto para a criação da CPJI, recomendou a instituição de um "tribunal superior de justiça internacional" para julgar crimes contra a ordem pública internacional e o direito internacional universal. O Terceiro Comitê, no entanto, opinou que ainda não existiria um direito penal internacional reconhecido por todas as nações e que seria mais prático criar uma câmara especial dentro da Corte Internacional de Justiça para julgar certos crimes. O Conselho e a Assembleia da Liga das Nações decidiram que o assunto ainda não estava maduro e deveria ser estudado por organizações especializadas em direito internacional, com vistas à convocação de uma conferência sobre o tema. A Assembleia convidou o Conselho a consultar as instituições mais autorizadas para obter suas opiniões sobre os meios de trabalho e colaboração mais adequados que garantissem a definição e coordenação mais precisas das normas de direito internacional a serem aplicadas nas relações entre as nações. Em 1925, a XXIII Conferência da União Interparlamentar adotou uma resolução que instituía uma subcomissão para estudar as causas da guerra de agressão e elaboraria um anteprojeto de código penal mundial para crimes internacionais. A conferência anexou à resolução os "Princípios Fundamentais para um Código Repressivo das Nações", que previa o estabelecimento de uma Câmara Criminal dentro da CPJI para julgar crimes de Estados e indivíduos. Alguns desses princípios tratavam da jurisdição penal internacional, reconhecendo a responsabilidade penal de indivíduos e Estados em casos de violação da ordem pública internacional e do Direito Internacional. No entanto, esses crimes deveriam ser definidos previamente em textos precisos, e a repressão internacional deveria se basear no princípio nulla poena sine lege. A resolução também recomendava que a Corte Permanente de Justiça Internacional decidisse sobre todos os crimes e delitos internacionais, e que fossem organizados um Ministério Público internacional e uma Câmara internacional de acusação dentro da Corte. Crimes cometidos por Estados deveriam ser julgados pelas câmaras combinadas com a Corte Permanente, enquanto casos de responsabilidade individual deveriam ser examinados por uma Câmara Penal especial criada de acordo com o artigo 26 do Estatuto da Corte. Essa câmara teria jurisdição sobre todos os crimes internacionais cometidos por indivíduos. Os projetos desenvolvidos pelas organizações especializadas que se seguiram, preveriam o estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional competente para julgar indivíduos, Estados e outras pessoas jurídicas. A International Law Association, por exemplo, discutiu questões relacionadas à justiça penal internacional e à criação de uma jurisdição penal internacional em suas sessões de 1922, 1924 e 1926. Em 1926, um Comitê de Estudo Especial da Associação considerou a criação de um Tribunal Penal Internacional não apenas útil, mas necessária, argumentando que o julgamento de nacionais de um Estado por tribunais de outro Estado é frequentemente visto com suspeita. A Association Internationale de Droit Pénal também defendeu que a Corte Permanente de Justiça Internacional deveria ter jurisdição em matéria penal internacional para julgar Estados responsáveis por agressão injusta e indivíduos culpados de crimes internacionais, desde que as infrações fossem definidas e as sentenças fixadas antecipadamente. Na segunda sessão, realizada em 21 de novembro de 1947, a Assembleia Geral aprovou a Resolução nº 177 (II), que encarregou a Comissão de Direito Internacional de elaborar os princípios de Direito Internacional reconhecidos pelo Estatuto e pelas sentenças do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg. Durante o exame preliminar, a Comissão concluiu que sua tarefa seria formular esses princípios, e não os julgar. A Comissão aprovou o texto naquela mesma sessão. Posteriormente, a Assembleia Geral, por meio da Resolução nº 96/I de 11 de dezembro de 1946, solicitou ao Conselho Econômico e Social um estudo para a redação de um Projeto de Convenção sobre o Crime de Genocídio. A Comissão de Direito Internacional, utilizando projetos elaborados pela Secretaria Geral e pela Comissão especial sobre Genocídio, previu a possibilidade de jurisdição de um tribunal internacional e apresentou um projeto à Assembleia Geral em 1948. Após encaminhamento à Sexta Comissão, alguns representantes propuseram a inclusão de uma cláusula que tornaria a CIJ competente em casos de genocídio envolvendo a responsabilidade dos Estados. O texto final, adotado pela Sexta Comissão e aprovado pela Assembleia Geral na Resolução nº 260 (III) de 9 de dezembro de 1948, previa a possibilidade de julgamento de indivíduos acusados de genocídio por um Tribunal Penal Internacional (artigo VII) e a possibilidade de submeter controvérsias sobre a interpretação, aplicação, execução da Convenção ou responsabilidade de um Estado em casos de genocídio à CIJ (artigo IX). Além disso, a Assembleia Geral, por meio da Resolução nº 260 (III) B de 19 de dezembro de 1948, solicitou à Comissão de Direito Internacional um estudo sobre a viabilidade de criar uma Jurisdição Penal Internacional para julgar pessoas acusadas de genocídio e outros crimes que seriam de competência desse órgão em virtude de tratados internacionais. Após decidir a favor de tal estabelecimento, a Comissão de Direito Internacional submeteu um relatório à Assembleia Geral, que então constituiu uma comissão composta por representantes de dezessete Estados membros para formular propostas concretas sobre a criação e o estatuto de uma Corte Penal Internacional. A Comissão se reuniu em Genebra em agosto de 1951 e elaborou um projeto de estatuto para um organismo penal internacional, prevendo que o tribunal seria um órgão permanente composto por nove juízes eleitos entre pessoas de reconhecida competência em Direito Internacional, com competência para julgar crimes internacionais e garantir aos acusados um julgamento justo. O projeto da Comissão de 1951 limitou a jurisdição do tribunal a pessoas físicas, excluindo a responsabilidade penal de Estados e outras pessoas jurídicas. A Assembleia Geral, em 1952, criou uma nova comissão para examinar as implicações da criação de um órgão penal internacional, os procedimentos a serem adotados, as relações entre o tribunal e as Nações Unidas, e para revisar o projeto de estatuto elaborado pela primeira comissão. Essa segunda comissão, reunida em Nova York em 1953, fez modificações no projeto de 1951 e propôs variantes para o caso de o tribunal ter vínculos estreitos com as Nações Unidas ou ser independente delas. No entanto, em 1954 e 1957, a Assembleia Geral decidiu adiar a questão do estabelecimento de uma jurisdição penal internacional, por considerá-la intimamente ligada ao Projeto de Código dos Crimes Contra a Paz e Segurança da Humanidade e à definição de agressão. Quase meio século se passou até que o projeto de um tribunal penal internacional se concretizou com o Estatuto de Roma, que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional. A Guerra Fria foi considerada um dos principais motivos desse atraso, já que somente após a queda do Muro de Berlim foram criados os Tribunais Penais Internacionais ad hoc para a ex-Iugoslávia e Ruanda, e finalmente o Tribunal Penal Internacional. A Assembleia Geral da ONU retomou a recomendação à Comissão de Direito Internacional para que elaborasse um projeto de Estatuto para o Tribunal, e os trabalhos da Comissão se intensificaram com a criação dos tribunais ad hoc pelo Conselho de Segurança para julgar crimes de guerra, genocídio e contra a humanidade cometidos na ex-Iugoslávia e em Ruanda. Essa movimentação gerou a expectativa de que um Tribunal Penal Internacional pudesse promover a punição de crimes internacionais em situações ondeos sistemas judiciários nacionais não pudessem ou não tivessem condições de fazê-lo. Assim, estabeleceu-se o princípio de que a humanidade, como titular dos interesses e valores essenciais ameaçados por esses crimes, teria o direito de assegurar sua repressão. Em relação à situação dos direitos humanos na antiga Iugoslávia, o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, descreveu violações cometidas no Kosovo contra a etnia albanesa, incluindo tortura, fuzilamentos, deslocamentos forçados, execuções sumárias e detenções ilegais. Diante dessas violações, o Conselho de Segurança da ONU criou o Tribunal Penal Internacional ad hoc para a ex-Iugoslávia, com o objetivo de julgar os responsáveis por graves violações aos direitos humanos cometidas na região a partir de 1991. O Tribunal iniciou suas atividades em 1996, em Haia, e tinha competência para julgar crimes como infrações às Convenções de Genebra de 1949, violações das leis ou costumes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade. A pena máxima prevista era a prisão perpétua. Outro tribunal ad hoc importante foi o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado em resposta ao genocídio de 1994, que resultou em cerca de oitocentas mil mortes. O Conselho de Segurança da ONU estabeleceu o Tribunal para julgar crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e violações do artigo 3º das Convenções de Genebra de 1949, cometidos em Ruanda e nos países vizinhos entre janeiro e dezembro de 1994. O Tribunal iniciou suas atividades em novembro de 1995 e, em 1998, proferiu as primeiras condenações por genocídio desde a Segunda Guerra Mundial. A criação desses tribunais ad hoc evidenciou a necessidade de uma corte internacional permanente para julgar crimes de maior gravidade. Em 17 de julho de 1998, foi adotado o Estatuto de Roma da Corte Penal Internacional, um marco histórico para o Direito Internacional Penal. O Estatuto, que contou com a participação de 160 países, estabeleceu o Tribunal Penal Internacional como uma corte permanente, com jurisdição complementar às jurisdições nacionais para julgar indivíduos responsáveis pelos crimes mais graves de repercussão internacional, como genocídio, crimes de guerra, crimes de agressão e crimes contra a humanidade. Atualmente, o Estatuto de Roma conta com 123 Estados partes, incluindo países da América do Sul, Europa e África, embora ainda haja ausências significativas de países do Oriente Médio, norte da África e Ásia, além de potências como China, Índia e Estados Unidos. O Artigo 11 do Estatuto de Roma tratou da competência temporal do Tribunal Penal Internacional, estabelecendo que o Tribunal teria competência apenas sobre crimes cometidos após a entrada em vigor do Estatuto de Roma. O Artigo 12 estabelece a competência ratione loci e ratione personae do Tribunal. Os Artigos 13 a 16 e as Regras 45 a 50 das Regras de Procedimento e Prova, forneceriam as condições sob as quais o Tribunal exerceria sua jurisdição. Os critérios de competência do Tribunal definiriam seu quadro de ação, de modo que apenas as situações dentro dos critérios material, temporal, territorial ou pessoal, conforme os Artigos 5 a 8 bis, 11 e 12 do Estatuto, estariam dentro de sua esfera de competência. O Tribunal só poderia iniciar uma investigação quando sua jurisdição é provocada por um dos mecanismos previstos no Estatuto, que são: 1. Denúncia de um Estado Parte ao Procurador, nos termos do Artigo 14. 2. Denúncia do Conselho de Segurança, agindo nos termos do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, ao Procurador. 3. Início de um inquérito pelo Procurador, nos termos do Artigo 15. O Artigo 16 regularia o poder do Conselho de Segurança de suspender o início ou o curso de uma investigação ou procedimento criminal perante o Tribunal. Os Artigos 15 bis e 15 ter, adicionados na Conferência de Revisão de Kampala em 2010, regulariam o exercício da jurisdição do Tribunal em relação aos crimes de agressão. Desde Nuremberg até a criação do Tribunal Penal Internacional, houve uma evolução na responsabilidade internacional criminal dos indivíduos. Os Tribunais Internacionais criados no século XX julgariam indivíduos responsáveis por crimes internacionais, e não Estados. A evolução do Direito Internacional Penal na segunda metade do século XX foi considerável, com a justiça penal internacional começando a tomar forma e os crimes internacionais deixando de ocorrer impunes. O aumento de delitos internacionais após a Segunda Guerra Mundial levaria a comunidade internacional a estabelecer um Tribunal Penal Internacional permanente com poder suficiente para aplicar o Direito Internacional aos acusados de crimes violadores do Direito Internacional Humanitário. A multiplicidade de tribunais internacionais indicaria a expansão da jurisdição internacional e a descentralização da ordem jurídica internacional para além da ótica puramente interestatal, reforçando a primazia do Direito Internacional sobre a força. O diálogo entre os tribunais internacionais seria de grande relevância para a realização da justiça no plano internacional. Considerações Finais Demonstrou-se, no presente trabalho, como o desenvolvimento do Direito Internacional conduziu a ampliação da jurisdição internacional, desde seu nascimento, com a Corte Permanente Internacional de Justiça, no início do século XX, baseada em uma premissa da facultatividade da jurisdição internacional, até os dias atuais, com a expansão da sua competência material e a criação de uma jurisdição penal internacional. A jurisdição internacional, no século XIX, deveria ser limitada por questões políticas e honra nacional e circunscrever-se apenas a disputas interestatais. Mas a prática da CIJ não seria dócil com esses limites. Destacam-se os célebres Pareceres Consultivos sobre as Reparações de Danos (1949) e sobre a Namíbia (1971) proferidos pela CIJ. No caso do Parecer Consultivo de Folke Bernadotte, a decisão trouxe enormes mudanças para o cenário internacional, atribuindo personalidade jurídica às Organizações que contribuíram à evolução do direito internacional contemporâneo e, no caso da Namíbia, a Corte afirmou o Princípio da autodeterminação dos povos. Ademais, em breve, passou a CIJ a conviver com outros tribunais internacionais, como os tribunais internacionais de direitos humanos, o Tribunal Internacional de Direito do Mar, os tribunais penais internacionais, e os tribunais criados no âmbito de esquemas de integração econômica nos planos regionais. O fenômeno mais significativo da expansão da jurisdição internacional, após a Segunda Guerra Mundial, foi a criação da jurisdição internacional sobre direitos humanos. Até então, as propostas de sanção para os Estados e indivíduos infratores do Direito Internacional eram insignificantes para os primeiros e se restringiria ao recurso do direito interno para os segundos. A Segunda Guerra Mundial confirmou a necessidade do estabelecimento de um sistema internacional de justiça independentemente de considerações políticas. Todos os esforços para criar um organismo criminal internacional foram infrutíferos até 8 de agosto de 1945, quando foi concluído o Acordo de Londres para a criação do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg e do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente em Tóquio para julgar os criminosos de guerra, um marco decisivo para o estabelecimento da responsabilidade criminal no plano do Direito Internacional. Os tribunais penais internacionais instituídos pelo Conselho de Segurança, nomeadamente o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia e o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, abriram caminho à criação do Tribunal Penal Internacional. A criação desses dois Tribunais ad hoc, por decisão do Conselho de Segurança, à luz do capítulo VII da Carta das Nações Unidas, não somente atendeu às pressões públicas ante as atrocidades cometidas na ex-Iugoslávia e em Ruanda, como também contribuiu para a preservação da crença em um ordenamento jurídico internacional em que os responsáveis por violações graves dos direitos humanose do Direito Internacional Humanitário sejam julgados e sancionados, prevenindo assim crimes futuro. A criação e o funcionamento dos dois Tribunais ad hoc, enfim, contribuíram para a luta contra a impunidade de criminosos de guerra e de responsáveis por atos de genocídio e crimes contra a humanidade, superando assim uma das carências do Direito Internacional clássico. Ademais, abriram caminho ao estabelecimento de uma jurisdição penal internacional permanente. Ao lado do TPI, além dos supracitados Tribunais ad hoc para a ex-Iugoslávia e para Ruanda, também têm operado em nossos dias os tribunais penais “internacionalizados” ou “híbridos” ou “mistos” (para Serra Leoa, Timor-Leste, Kosovo, Bósnia-Herzegovina, Camboja e Líbano), que contam com juízes internacionais e nacionais. Constituem uma experiência nova e criativa em busca da justiça internacional. Cada um a seu modo, contribui para a determinação da responsabilidade dos responsáveis por violações graves do direito internacional humanitário. Os Estados Partes do TPI têm a responsabilidade primária de processar crimes internacionais graves e outras violações graves dos direitos humanos. Comprometeram-se em garantir que a impunidade por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, bem como violações do direito internacional humanitário e graves violações dos direitos humanos não sejam toleradas, e que essas violações estejam sujeitas a investigações e sanções apropriadas, em particular garantindo que os autores desses crimes ou violações sejam levados à justiça de acordo com o procedimento previsto na legislação nacional ou, se for o caso, de acordo com um mecanismo regional ou internacional, em conformidade com o Direito Internacional. As concepções clássicas do Direito Internacional foram gradativamente substituídas por um novo modelo de justiça internacional, que penetra esferas de domínio reservado do direito nacional. Novos tribunais internacionais surgiram, e antigas cortes expandiram a sua competência material. A introdução das “situações jurídicas individuais” na jurisdição internacional foi muito significativa. A jurisdição internacional de direitos humanos criou mudanças ainda maiores, ao se voltar a perquirir sobre a personalidade e capacidade jurídicas internacionais do ser humano. Esse cenário impôs restrições ao voluntarismo estatal. Não há mais espaço para limitações como “honra nacional” e “questões políticas”, quando existe um tribunal internacional capaz de julgar chefes de Estado por seus crimes, protegendo direitos humanos. O indivíduo é titular de direitos e de obrigações internacionais, dotado de capacidade ativa (legitimatio ad causum), perante tribunais internacionais de direitos humanos e sujeito passivo diante dos tribunais penais internacionais. Osiel Rodrigues dos Santos