Prévia do material em texto
Atividade 2 A descolonização da construção do pensamento A compreensão do pensamento contemporâneo exige uma abordagem crítica sobre a transitoriedade das concepções científicas e filosóficas. No contexto das reflexões de Ailton Krenak, essa transitoriedade se revela na necessidade de repensar as relações entre humanidade e natureza, questionando paradigmas hegemônicos. Paralelamente, a análise das maquinarias, sistemas e conceitos da sociedade atual pode ser enriquecida a partir da perspectiva dos processos maquínicos de Deleuze em Mil Platôs, que propõem uma visão rizomática da realidade. Além disso, a filosofia nietzschiana convida à superação do pensamento cartesiano e sintético, estimulando percursos cognitivos alternativos que desafiam a lógica pragmática predominante. Dessa forma, este estudo busca articular essas diferentes correntes teóricas para explorar novas formas de compreender e interpretar o mundo contemporâneo. Essa atividade versa, em especial, sobre os seguintes conteúdos: · Desdobramentos e mutações do pensamento científico e filosófico na contemporaneidade na visão de Ailton Krenak; · Rupturas e deslizamentos epistemológicos em: Nietzsche, Deleuze, Derrida e Krenak; · Maquinarias, sistemas e conceitos da sociedade contemporânea nos processos maquínicos de Deleuze em Mil Platôs; · O avesso da ideia de síntese: o pensamento como campo inesgotável de multiplicidades de conceitos da filosofia nietzschiana. Ao longo do curso, falamos sobre a lógica binária instaurada pelo pensamento platônico. A nossa lógica nos dispersa de ver que a natureza não é um objeto que controlamos e domamos como inferior aos interesses humanos e nossos modos de vida. O pensamento filosófico, as artes, aqui apresentadas e desenvolvidas por você, são processos maquínicos, gestos que nos levam a pensar sem as vendas de uma lógica binária. A partir das suas anotações, reflexões e exercícios de pensamento solicitadas a seguir, elabore o entregável proposto. Leia os textos motivadores para elaborar seu texto, respondendo as questões de pensamento apresentadas após cada texto. Texto I Esse Mundo Já era: Como viver no Antropoceno “Numa sexta-feira de agosto, foram abertas as inscrições para Os Mil Nomes de Gaia, colóquio que reuniria no Rio de Janeiro pensadores de vários países que vêm refletindo sobre a mudança do clima e a crise ambiental global. Atraído pelas estrelas acadêmicas de primeira grandeza, o público esgotou em cerca de uma hora e meia os ingressos para cada um dos cinco dias de programação (...). Nascida em 1949, Stengers é uma senhora de olhar vivo e fala envolvente. Numa entrevista no último dia do colóquio, ela falou sobre a situação inédita com que se deparam as ciências naturais. “Os cientistas do clima precisam de apoio. Eles devem desconfiar de seus aliados tradicionais – as empresas e o Estado –, que podem se apropriar completamente do problema com consequências catastróficas.” Para a pensadora belga, o momento é de cooperação. “As ciências humanas podem lhes dar a imaginação que a sua formação não lhes deu sobre as consequências que não lhes são familiares”, afirmou. “Se eles puderem povoar sua imaginação, talvez fiquem menos vulneráveis.” Escalada para a conferência de encerramento, Stengers fez um balanço das discussões travadas durante a semana. Em tom grave, observou que no futuro talvez sejamos confrontados por questionamentos similares aos dos jovens alemães nascidos no pós-guerra, quando descobriram os horrores do Holocausto: “Vocês sabiam, e o que fizeram?” Ela se disse hesitante entre o pesadelo e a vergonha. “Daqui a trinta ou quarenta anos seremos a geração mais odiada.” Berbardo Esteves - Repórter da Piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/esse-mundo-ja-era/Links to an external site. Após essa leitura, faça a seguinte reflexão e anote suas ideias. De acordo com a pensadora Stengers, por que as ciências humanas precisam pensar situações como ciências naturais sobre a crise ambiental? Texto II “Parei de andar mundo afora, cancelei compromissos. Estou com a minha família na aldeia Krenak, no médio rio Doce. Há quase um mês, nossa reserva indígena está isolada. Quem estava ausente regressou, e sabemos bem qual é o risco de receber pessoas de fora. Sabemos o perigo de ter contato com pessoas assintomáticas. Estamos todos aqui e até agora não tivemos nenhuma ocorrência. A verdade é que vivemos encurralados e refugiados no nosso próprio território há muito tempo, numa reserva de 4 mil hectares — que deveria ser muito maior se a justiça fosse feita –, e esse confinamento involuntário nos deu resiliência, nos fez mais resistentes. Como posso explicar a uma pessoa que está fechada há um mês num apartamento numa grande metrópole o que é o meu isolamento? Desculpem dizer isso, mas hoje já plantei milho, já plantei uma árvore… Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava que o mundo nos traria esse outro luto. Está todo mundo parado. Quando engenheiros me disseram que iriam usar a tecnologia para recuperar o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: “A minha sugestão é muito difícil de colocar em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a cem quilômetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida”. Então um deles me disse: “Mas isso é impossível”. O mundo não pode parar. E o mundo parou. Vivemos hoje esta experiência de isolamento social, como está sendo definido o confinamento, em que todas as pessoas têm de se recolher. Se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados da ruptura ou da extinção do sentido da nossa vida, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Assistimos a uma tragédia de gente morrendo em diferentes lugares do planeta, a ponto de na Itália os corpos serem transportados para a incineração em caminhões. Essa dor talvez ajude as pessoas a responder se somos de fato uma humanidade. Nós nos acostumamos com essa ideia, que foi naturalizada, mas ninguém mais presta atenção no verdadeiro sentido do que é ser humano. É como se tivéssemos várias crianças brincando e, por imaginar essa fantasia da infância, continuassem a brincar por tempo indeterminado. Só que viramos adultos, estamos devastando o planeta, cavando um fosso gigantesco de desigualdades entre povos e sociedades. De modo que há uma sub-humanidade que vive numa grande miséria, sem chance de sair dela — e isso também foi naturalizado. (...) E temos agora esse vírus, um organismo do planeta, respondendo a esse pensamento doentio dos humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos por livre escolha, essa fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas ninguém se pergunta qual o seu preço. Esse vírus está discriminando a humanidade. Basta olhar em volta. O melão-de-são-caetano continua a crescer aqui do lado de casa. A natureza segue. O vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise. É terrível o que está acontecendo, mas a sociedade precisa entender que não somos o sal da terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de Vida, de existência e de hábitos. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam se manter agarrados nessa Terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nasmargens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. Esta é a sub-humanidade: caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes. Existe, então, uma humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios. E uma camada mais rústica e orgânica, uma sub-humanidade, que fica agarrada na Terra. Eu não me sinto parte dessa humanidade. Eu me sinto excluído dela. Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade e nos alienamos desse organismo de que somos parte, a Terra, passando a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo que exista algo que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza. Nós, a humanidade, vamos viver em ambientes artificiais produzidos pelas grandes corporações, que são os donos da grana. Agora esse organismo, o vírus, parece ter se cansado da gente, parece querer se divorciar da gente como a humanidade quis se divorciar da natureza. Ele está querendo nos “desligar”, tirando o nosso oxigênio. Quando a covid-19 ataca os pulmões, o doente precisa de um respirador, um aparelho para alimentação de oxigênio, senão ele morre. Quantas máquinas dessas vamos ter de fazer para 7 bilhões de pessoas no planeta?” Ailton Krenak, O Amanhã não está à venda. Disponível em: https://www.ufrgs.br/Links to an external site.historiasepraticasartisticasLinks to an external site./Links to an external site.wp-contentLinks to an external site./uploads/2020/06/Ailton-Krenak-O-amanhã-não-está-à-venda-1.pdfLinks to an external site. ISBN: 978-85-5451-732-8 A partir da fala de Krenak, “Então um deles me disse: ‘Mas isso é impossível’. O mundo não pode parar. E o mundo parou.”, faça uma reflexão sobre esses e outros aspectos que impactam a natureza e as demandas humanas e escreva sobre suas reflexões. Por que a natureza não suporta as demandas humanas? Qual a relação dessas demandas com o sistema político e formas de vida que adotamos? Texto III Fotógrafo baiano Christian Cravo lança exposição sobre a tragédia de Mariana “Quando fui a Minas não tinha a pretensão de construir livro ou exposição. Tinha em mim uma revolta como cidadão. Vivi três dias intensos na região. Voltei e fui viver a vida. Três meses depois revirei o trabalho e, expostas na parede, percebi que aquelas imagens tinham um valor”, conta o fotógrafo, que faz questão de ressaltar uma formação onde a definição da imagem é obtida não no visor da câmera fotográfica, mas depois que a imagem é impressa no papel. Para essa exposição, Christian trabalhou com duas expressões distintas do restante da sua obra: a imagem em cores e com títulos.” Era necessário não comprometer o realismo do momento”, complementa o fotógrafo. Beleza na tragédia Para ele, da mesma forma que aconteceu com Pompéia (cidade italiana destruída durante a grande erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79, que ficou escondida por lama e cinzas por 1600 anos até ser reencontrada por acaso em 1748), a tragédia ficou registrada nas camadas de detritos que cobriram a vida cotidiano que ocorria ali. “Fiz questão de não tocar em nada, pois cada um daqueles objetos deixados para trás assumiram um caráter sagrado de testemunhas oculares”, diz Christian, ressaltando que cada uma das fotografias presta uma grande homenagem às vítimas. Fotógrafo baiano Christian Cravo lança exposição sobre a tragédia de Mariana : www.correio24horas.com.br Pesquise sobre as duas tragédias e responda. As tragédias citadas de Pompéia e de Mariana são da mesma ordem? Faça uma reflexão para responder. Texto IV Foto: Christian Cravo Livro 'Mariana' mostra o que restou de belo em meio à tragédia https://www.uai.com.br/app/noticia/e-mais/2016/05/08/noticia-e-mais,179664/livro-mariana-mostra-o-que-restou-de-belo-em-meio-a-tragedia.shtmlLinks to an external site. Escreva após observá-la. Qual a sensação causada por essa fotografia? Que experiência pode registrar a partir do olhar? O que se desautomatiza no seu encontro com essa obra de arte? Texto V Foto: Christian Cravo Qual a sensação causada em você ao olhar para essa fotografia? Como pensamos a nossa relação com a natureza? O que essa foto faz pensar em relação à natureza. Registe essa reflexão sem preocupação com a forma do texto. Pode estabelecer relação com o texto de Krenak? Procedimentos para elaboração do TD Seu texto deve ser enviado em formato pdf. ou word e deve ter no mínimo 1(uma) página e no máximo 2(duas) páginas. Elabore um texto dissertativo-argumentativo no qual faça uma reflexão criativa sobre o tema dos textos apresentados nesse roteiro de atividade. Relacione as ideias desenvolvidas pelos autores e por você na reflexão realizada. É importante que: · Apresente uma reflexão realizada por você a partir das leituras realizadas nas unidades; · Cite os textos aqui propostos; · Estabeleça relações entre os textos e as reflexões que vem realizando. · Insira uma fotografia de sua autoria, em algum local do texto. A fotografia deve estar relacionada ao texto que produzirá. A ideia não é ilustrar, mas produzir sensações no leitor do seu texto que promova o pensamento criativo. O tema do seu texto deve ser: Como criar verdades, quando se sabe que ela nada mais é do que aquilo que um sujeito faz dela? Referências · AGAMBEN, G. A potência do pensamento: ensaios e conferências. Tradução de Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. · DELEUZE, G; GUATTARI, F. O Que é filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010. · DELEUZE, G. Nietzsche e a filosofia. São Paulo: N-1, 2018. · JASPERS, K. Introdução à filosofia de Friedrich Nietzsche. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense, 2015. Minha Biblioteca. · MACHADO, R. O professor e o filósofo. In: Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015. Disponível em: TRÁGICA: Estudos de Filosofia da Imanência (ufrj.br)Links to an external site.. Acesso em: 15 jan. 2021. · MOSÉ, V. Especial Nietzsche no café filosófico. 29/03/2009. YouTube. Disponível em:Especial Nietzsche Viviane Mosé-Café FilosóficoLinks to an external site.. Acesso em: 15 jan. 2021. · NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. São Paulo: Hedra, 2007. · PELBART, P. P. Políticas da vida, produção do comum e a vida em jogo... Saúde soc., São Paulo, v. 24, supl. 1, p. 19-26, jun. 2015. Disponível em: Políticas da vida, produção do comum e a vida em jogo... (scielo.br).Links to an external site. Acesso em: 10 dez. 2020. · KRENAK, A. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das letras, 2020. Disponível · em: O amanhã não está à vendaLinks to an external site.. Acesso em: 10 de março de 2021. · LARROSA, J. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. image1.png