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Código Logístico 58866 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6527-1 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 2 7 1 A Educação Física se mostra como um importante componente curricular que contribui efetivamente para que o aluno possa atuar no mundo de maneira crítica, responsável e ética. Dividido em cinco capítulos, este livro apresenta aspectos pedagógicos e metodológicos da Educação Física escolar, bem como seus conteúdos e objetivos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, além do planejamento e avaliação do processo de ensino-aprendizagem. A obra traz um breve histórico sobre a Educação Física escolar, as concepções e as principais teorias pedagógicas que influenciaram e ainda influenciam as práticas docentes atuais. Apresenta também as bases legais da Educação e como é abordada a área da Educação Física nos seguintes documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Parâmetros Curriculares Nacionais, Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e Base Nacional Comum Curricular. Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental IESDE BRASIL S/A 2019 Claudinara Botton Dal Paz Vera Lucia Rodrigues de Moraes Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2019 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito das autoras e do detentor dos direitos autorais. Capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Mile Atanasov/ Rawpixel.com/ Robert Kneschke/ Maria Sbytova/ wavebreakmedia/ KAZLOVA IRYNA/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P368m Paz, Claudinara Botton Dal Metodologia da educação física escolar : educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental / Claudinara Botton Dal Paz, Vera Lucia Rodrigues de Moraes. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE Brasil, 2019. 126 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6527-1 1. Educação física para crianças. 2. Esportes escolares. 3. Profes- sores de educação física - Formação. I. Paz, Claudinara Botton Dal. II. Moraes, Vera Lucia Rodrigues de. III. Título. 19-58498 CDD: 372.86 CDU: 373.2/.3.016:613.71 Claudinara Botton Dal Paz Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Deficiência Intelectual pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Graduada em Educação Física pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). Possui experiência como professora na rede pública, coordenadora de curso de graduação em Educação Física e como docente no ensino superior em cursos de Educação Física e Pedagogia. Vera Lucia Rodrigues de Moraes Mestre em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Especialista em Pedagogia Social pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Especialista em Ginástica Escolar e graduada em Educação Física pela instituição Faculdades Reunidas de Administração Ciências Contábeis e Econômicas de Palmas/PR (Facepal). Tem experiência como docente no ensino superior em cursos de Educação Física (licenciatura e bacharelado). Sumário Apresentação 7 1. A Educação Física escolar 9 1.1 Breve histórico da Educação Física 9 1.2 Teorias pedagógicas da Educação Física 15 1.3 Manifestações da cultura corporal do movimento 23 2. Bases legais da Educação Física escolar 31 2.1 Leis de Diretrizes e Bases da Educação 32 2.2 Parâmetros Curriculares Nacionais 35 2.3 Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil 38 2.4 Base Nacional Comum Curricular 46 3. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 57 3.1 Características dos alunos 57 3.2 Conteúdos e objetivos a serem desenvolvidos 61 3.3 Procedimentos metodológicos 69 3.4 Tipos de planejamento e estruturação de aulas de Educação Física 74 4. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 81 4.1 Atividades sem uso de materiais 81 4.2 Atividades com uso de materiais 95 5. Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física 105 5.1 A avaliação na disciplina de Educação Física 105 5.2 Dimensões, critérios e instrumentos de avaliação na Educação Física 110 Gabarito 121 Apresentação A escola é um espaço de saber e convivência no qual o aluno adquire os conhecimentos e habilidades necessários para a vida. Com base nesse pressuposto e possuindo objetivos e competências específicas para cada etapa do ensino, a Educação Física se mostra como um importante componente curricular que contribui efetivamente para que o aluno possa atuar no mundo de maneira crítica, responsável e ética. Essas características aprendidas por meio do movi- mento promovem o desenvolvimento do aluno sob a ótica da integralidade, ou seja, consideram as dimensões motora, cognitiva, social e afetiva do ser humano. Entretanto, para que ocorra a aprendizagem significativa, deve-se considerar o contexto social e cultural no qual o aluno está inserido. Dividido em cinco capítulos, este livro apresenta aspectos pedagógicos e metodológicos da Educação Física escolar, bem como seus conteúdos e objetivos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, além do planejamento e avaliação do processo de ensino-aprendizagem. A obra inicia com um breve histórico sobre a Educação Física escolar, as concepções e as principais teorias pedagógicas que influenciaram e ainda influenciam as práticas docentes atuais, apresentando as manifestações da cultura corporal do movimento. 8 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Apresenta também as bases legais da Educação e como é abordada a área da Educação Física nos seguintes documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Parâmetros Curriculares Nacionais, Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e Base Nacional Comum Curricular. Na sequência, destacam-se as características dos alunos, os conteúdos e objetivos da Educação Física para cada etapa de ensino, os procedimentos metodológicos para o trabalho com a disciplina e como ela se organiza no ambiente escolar. Por fim, são apresentadas atividades com e sem o uso de materiais, e de que forma é possível avaliar o aprendizado dos alunos nessa disciplina. Bons estudos! 1 A Educação Física escolar Começamos este capítulo com um breve histórico sobre a Educação Física escolar, indicando como era a sua prática nas escolas e como se modificou ao longo dos anos. Para isso, apontamos as principais teorias pedagógicas que influenciaram e ainda influenciam as práticas realizadas pelos professores de Educação Física. Por fim, destacamos as manifestações da cultura corporal do movimento que são hoje objeto de estudo da Educação Física Escolar. Quer saber qual é a sua origem e por que existem tantas formas e conteúdos diferentes ensinados na escola? Venha conosco! 1.1 Breve histórico da Educação Física Entender o que é a Educação Física envolve conhecer suas origens e sua capacidade enquanto prática pedagógica. Essa reflexão faz sentido para compreender como a sua prática na escola evoluiu ao longo do tempo, buscando transformá-la e adequá-la aos propósitos da educação brasileira. Segundo Darido e Rangel (2011, p. 1): Os objetivos e as propostas educacionais foram se modificando ao longo dos últimos anos, e todas as tendências, de algum modo, ainda hoje influenciam a formação profissional e suas práticas pedagógicas. Na Educação Física escolar, assim como em outros componentes curriculares, não existe uma única forma de se pensar e implementar a disciplina da escola. Nesse sentido, a Educação Física, assim como outras áreas, assumiu os objetivos que a sociedade gestou em cada momento histórico. Na primeira metade do séculoatingir a consciência corporal, melhor dizendo, a corporeidade, em vivências que levam o domínio do movimento. É importante que as atividades propostas possam despertar as potencialidades criativas das crianças, isto é, que por meio dessas aulas o aluno consiga desenvolver-se como um todo. (NISTA- -PICCOLO; MOREIRA, 2012, p. 32-33) Além de centrar as ações na corporeidade, ludicidade, jogo e motricidade, é importante que o professor de Educação Física desenvolva as capacidades motoras dos alunos, a fim de que os objetivos nessa fase de ensino sejam atingidos. Dentre essas capacidades motoras estão os movimentos essenciais para as necessidades básicas, como os movimentos de manipulação que a criança utiliza para alimentar-se sozinha. No trabalho com movimento, o RCNEI indica que deverão ser consideradas as diferentes capacidades das crianças em cada faixa etária e diversas culturas corporais presentes nas regiões do país, sendo que, “ao brincar, jogar, imitar e criar ritmos e movimentos, as crianças também se apropriam do repertório da cultura corporal na qual estão inseridas” (BRASIL, 1998, p. 15). Com relação ao equilíbrio e coordenação, o RCNEI destaca que as atividades devem estar ligadas a essas capacidades motoras, uma vez que são essenciais para o cotidiano da criança que está em formação integral. Tais atividades precisam ser trabalhadas de forma progressiva e coordenadas com outras capacidades, como força, velocidade e flexibilidade. Juntamente com os conteúdos, o RCNEI fala em orientações didáticas para o desenvolvimento das aulas, como organização dos espaços, do tempo da aula, da observação e registro e também a avaliação do aprendizado das crianças – o que será abordado em outro capítulo deste livro. 46 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental É indiscutível a contribuição que o RCNEI e os PCNs trouxeram para a educação brasileira, sendo até hoje muito utilizados na orientação do trabalho pedagógico de professores nas mais diversas localidades do Brasil. Contudo, temos um novo documento balizador, construído a partir de fóruns regionais, estaduais e nacionais e com a participação da população. Sabe dizer qual é? Dica: esse documento já está sendo utilizado na construção de referências estaduais e municipais. Conseguiu descobrir? Está em dúvida? Falaremos dele na próxima seção. 2.4 Base Nacional Comum Curricular O cenário educacional tem acompanhado as modificações sociais, com relação à adequação de currículo e estruturas didático- -pedagógicas. Nesse sentido, modificações são constantemente realizadas nos documentos legais que norteiam a educação, para, a partir destes, realizar os encaminhamentos necessários para a melhoria no processo educacional. Na atualidade, as mudanças estão ocorrendo com muito mais rapidez. Desse modo, foram necessárias novas reflexões para suprir as lacunas existentes em documentos anteriores, criados em realidade social diferente. Foi construída, então, com novas perspectivas para a educação, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE). (BRASIL, 2017, p. 7) Bases legais da Educação Física escolar 47 O documento traz elementos de outros marcos legais, como LDB e PCNs. No entanto, considera questões como o avanço tecnológico e o novo perfil de aluno que temos na educação básica. Trata-se de uma espécie de compêndio sobre a educação brasileira, desde a educação infantil até o ensino médio, com o objetivo de nortear os currículos dos sistemas e redes de ensino de todo o país. Para esta obra, consultamos a terceira versão do documento, revisada e publicada em 20171. De acordo com esse documento, são necessárias novas metodologias que se identifiquem com o perfil de aluno que se quer formar, pois a sociedade atual requer um olhar inovador e inclusivo às questões do processo educativo, ou seja, “o que aprender, como ensinar, como promover redes de aprendizagem colaborativa e como avaliar o aprendizado” (BRASIL, 2017, p. 12). Nessa nova abordagem trazida pela BNCC (BRASIL, 2017), são consideradas as diferentes dimensões da natureza humana, entendendo o aluno a partir de aspectos físicos, intelectuais e sociais, ou seja, em sua integralidade. Gonçalves (1994 apud BRANDL, 2010, p. 3) “define o ser humano como unidade, totalidade, entidade que integra sentimentos, pensamentos e ações. Homem e mundo formam uma dialética. Concebe-se, então, o ser humano como uma totalidade indivisível, como ser imbricado e inter-relacionado com o meio”. Nessa perspectiva, a BNCC utiliza elementos trazidos por outros documentos que a antecederam e aspectos relacionados ao cenário atual, a fim de proporcionar uma aprendizagem significativa aos alunos. Está organizada para as três etapas da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio), como ilustrado a seguir: 1 Disponível no site do Ministério da Educação (MEC) em versão digitalizada. 48 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Figura 1 – Estrutura geral da BNCC para as três etapas da educação básica EDUCAÇÃO BÁSICA COMPETÊNCIAS GERAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA Etapas Áreas do conhecimento Competências específicas de área Componentes curriculares Áreas do conhecimento Bebês (0-1 a 6m) Unidades temáticas Objetos de conheci- mento Habilidades Crianças bem pequenas (1 a 7m – 3 a 11m) Crianças bem pequenas (1 a 7m – 3 a 11m) Crianças pequenas (4a – 5a 11m) Anos Iniciais Anos Finais Competências específicas de componente Língua Portuguesa Matemática Habilidades EDUCAÇÃO INFANTIL Direitos de aprendizagem e desenvolvimento Campos de experiências ENSINO FUNDAMENTAL Competências específicas de área ENSINO MÉDIO Fonte: BRASIL, 2017, p. 24. Para a educação infantil, primeira etapa da educação básica, a BNCC tem como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, no sentido de garantir às crianças conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se. Para a organização curricular da educação infantil, a Base apresenta cinco campos de experiências: Bases legais da Educação Física escolar 49 O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; e Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Já os objetivos são estabelecidos e organizados em três grupos de faixa etária: Bebês (zero a um ano e seis meses); Creche – crianças bem pequenas (um ano e sete meses a três anos e onze meses); e Crianças pequenas (quatro anos a cinco anos e onze meses) (BRASIL, 2017). Como se observa, a Educação Física também está presente nas orientações dadas pela BNCC (BRASIL, 2017). Para a educação infantil, especialmente quando se afirma que as interações e brincadeiras são eixos estruturantes das práticas pedagógicas nessa etapa de ensino, de acordo com as DCNEI2, essas são experiências “nas quais as crianças podem construir e apropriar-se de conhecimentos por meio de suas ações e interações com seus pares e com os adultos, o que possibilita aprendizagens, desenvolvimento e socialização” (BRASIL, 2017, p. 37). Conforme a BNCC, a interação das crianças durante o brincar traz aprendizagens para o seu desenvolvimento integral, expressando os afetos, as frustrações, a resolução dos problemas e a regulação das emoções. Na educação infantil, vivenciar desafios faz com que as crianças se sintam provocadas a resolvê-los, e isso contribui para a construção dos significados sobre si, os outros e o mundo social e natural (BRASIL, 2017). Assim,é direito da criança da educação infantil: Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais. (BRASIL, 2017, p. 38) 2 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, datadas de 2010, que estabelecem diretrizes a serem observadas para a organização de propostas pedagógicas na educação infantil. 50 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental O ensino fundamental, com nove anos de duração, é a etapa mais longa da educação básica, atendendo estudantes entre 6 e 14 anos. A BNCC do ensino fundamental – anos iniciais considera ser necessário articular essa etapa com as experiências vivenciadas na educação infantil (BRASIL, 2017). Assim, Ao longo do Ensino Fundamental – Anos Iniciais, a progressão do conhecimento ocorre pela consolidação das aprendizagens anteriores e pela ampliação das práticas de linguagem e da experiência estética e intercultural das crianças, considerando tanto seus interesses e suas expectativas quanto o que ainda precisam aprender. (BRASIL, 2017, p. 59) Com relação às aulas de Educação Física, a BNCC preconiza que “as práticas corporais devem ser abordadas como fenômeno cultural dinâmico, diversificado, pluridimensional, singular e contraditório” (BRASIL, 2017, p. 213), uma vez que esse componente curricular está articulado à área de Linguagens, pois “as atividades humanas realizam-se nas práticas sociais, mediadas por diferentes linguagens: verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e, contemporaneamente, digital” (BRASIL, 2017, p. 63). Conforme consta no documento, fazem parte dessa área os componentes curriculares Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e, no ensino fundamental – anos finais, Língua Inglesa. Eles têm a função de possibilitar aos alunos participar de práticas de linguagem diversificadas, que lhes permitam ampliar suas capacidades expressivas em manifestações artísticas, corporais e linguísticas (BRASIL, 2017). Em se tratando da linguagem corporal, ressalta-se a importância de oportunizar diferentes atividades para que o aluno possa se expressar e se desenvolver de maneira integral, pois “cada prática corporal propicia ao sujeito o acesso a uma dimensão de conhecimentos e de experiências aos quais ele não teria de outro modo” (BRASIL, 2017, p. 214). Bases legais da Educação Física escolar 51 Com isso, entende-se que a Educação Física, em sua singula- ridade, oferece, por meio do movimento, a oportunidade para que o aluno possa se comunicar e se expressar, exercitando a sua criatividade e interagindo socialmente no meio em que vive. A BNCC traz ainda as práticas corporais estruturadas em seis unidades temáticas: Brincadeiras e jogos; Esportes (marca, precisão, técnico-combinatório, rede/quadra dividida ou parede de rebote, campo e taco, invasão ou territorial e combate); Ginásticas; Danças; Lutas; e Práticas corporais de aventura. “Em princípio, todas as práticas corporais podem ser objeto do trabalho pedagógico em qualquer etapa e modalidade de ensino” (BRASIL, 2017, p. 217), e, para isso, determinam-se critérios de progressão do conhecimento, que consideram as características dos alunos e os contextos de atuação. Assim, são feitas adaptações conforme a fase de aprendizagem dos alunos, materiais e espaço físico disponível. Especificamente sobre a Educação Física nos anos iniciais, a BNCC recomenda que: Diante do compromisso com a formação estética, sensível e ética, a Educação Física, aliada aos demais componentes curriculares, assume compromisso claro com a qualificação para a leitura, a produção e a vivência das práticas corporais. Ao mesmo tempo, pode colaborar com os processos de letramento e alfabetização dos alunos, ao criar oportunidades e contextos para ler e produzir textos que focalizem as distintas experiências e vivências nas práticas corporais tematizadas. Para tanto, os professores devem buscar formas de trabalho pedagógico pautadas no diálogo, considerando a impossibilidade de ações uniformes. (BRASIL, 2017, p. 224) Como podemos observar, considera-se que, nos anos iniciais, a Educação Física é responsável por trabalhar a vivência das práticas corporais, ficando explícita a necessidade de que os professores procurem formas de trabalho interdisciplinares aliadas aos demais componentes curriculares, buscando a aprendizagem da leitura e escrita. 52 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental A BNCC traz dez competências gerais e dez competências específicas de Educação Física para o ensino fundamental. As competências específicas são: 1. Compreender a origem da cultura corporal de movimento e seus vínculos com a organização da vida coletiva e individual. 2. Planejar e empregar estratégias para resolver desafios e aumentar as possibilidades de aprendizagem das práticas corporais, além de se envolver no processo de ampliação do acervo cultural nesse campo. 3. Refletir, criticamente, sobre as relações entre a realização das práticas corporais e os processos de saúde/ doença, inclusive no contexto das atividades laborais. 4. Identificar a multiplicidade de padrões de desempenho, saúde, beleza e estética corporal, analisando, criticamente, os modelos disseminados na mídia e discutir posturas consumistas e preconceituosas. 5. Identificar as formas de produção dos preconceitos, compreender seus efeitos e combater posicionamentos discriminatórios em relação às práticas corporais e aos seus participantes. 6. Interpretar e recriar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam. 7. Reconhecer as práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupos. 8. Usufruir das práticas corporais de forma autônoma para potencializar o envolvimento em contextos de lazer, ampliar as redes de sociabilidade e a promoção da saúde. 9. Reconhecer o acesso às práticas corporais como direito do cidadão, propondo e produzindo alternativas para sua realização no contexto comunitário. 10. Experimentar, desfrutar, apreciar e criar diferentes brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura, valorizando o trabalho coletivo e o protagonismo. (BRASIL, 2017, p. 223) Com base nessas competências, o planejamento deve ser realizado para que o aluno possa mobilizar o conhecimento obtido na escola, a fim de solucionar problemas relacionados às manifestações da cultura corporal. Bases legais da Educação Física escolar 53 Com essas colocações, apresentamos, neste capítulo, documentos pontuais para os caminhos já percorridos da educação e da Educação Física, bem como para os novos rumos do processo de ensino e aprendizagem. Percebemos elementos inovadores na BNCC, que corroboram com o novo momento social e interagem com as perspectivas dos documentos precursores. Considerações finais A educação brasileira estabeleceu suas finalidades e objetivos por meio de documentos legais que serviram como guia para as áreas de atuação nos ambientes escolares. Neste capítulo, apresentamos quatro documentos que marcaram profundamente a atuação de todos os envolvidos com a educação brasileira: a LDBEN, de 1996; os PCNs, de 1997; o RCNEI, de 1998; e a BNCC, de 2017. Apresentamos de que forma a área de Educação Física está presente nesses documentos, o que contribuiu muito para a afirmação da disciplina no ambiente escolar. Assim, é notória a importância da Educação Física na educação infantil e no ensino fundamental. Logo, identificar os objetivos, finalidades e conteúdos a seremtrabalhados na Educação Física a partir desses documentos balizadores é fundamental para o futuro professor. Para tanto, faz-se necessário conhecer as realidades sociais, econômicas e culturais da comunidade em que os professores atuarão. Ampliando seus conhecimentos • CONFEF. Confederação Brasileira de Educação Física. Disponível em: https://www.confef.org.br/confef/. Acesso em: 18 jul. 2019. O site traz diversos conteúdos sobre a área da Educação Física, marcos legais, notícias e matérias atualizadas, e eventos nacionais e internacionais para formação complementar. 54 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental • BNCC e Educação Física: o que você precisa saber. Nova Escola, 30 out. 2018. Disponível em: https://novaescola.org. br/conteudo/12980/bncc-e-educacao-fisica-o-que-voce- precisa-saber. Acesso em: 18 jul. 2019. Esse artigo aborda com clareza como a Educação Física está estruturada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Atividades 1. O que de mais importante a LDBEN trouxe para a área da Educação Física, na opinião de Darido e Rangel (2011)? 2. Por que o RCNEI deve ser estudado pelos professores de Educação Física? 3. Qual é a diferença existente entre os PCNs e a BNCC com relação à organização dos conteúdos de Educação Física? Referências BRANDL, C. E. H. (org.). Educação Física escolar: questões do cotidiano. Curitiba: CRV, 2010. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/ldb.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/ SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rcnei_ vol1.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf Bases legais da Educação Física escolar 55 BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/ BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física no ensino superior: Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2011. FINCK, S. C. M. A Educação Física e o esporte na escola: cotidiano, saberes e formação. Curitiba: Ibpex, 2011. GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 3. ed. São Paulo: Phorte, 2005. GALLARDO, J. S. P. Prática de ensino em Educação Física: a criança em movimento: livro do professor. 1. ed. São Paulo: FTD, 2009. NISTA-PICCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo em movimento na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2012. 3 Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física No capítulo anterior, estudamos os documentos que fundamentam e norteiam a educação. Essas bases legais também trazem a Educação Física como componente curricular, seus objetivos e conteúdos. Cada um desses documentos apresenta avanços, adequando a educação e os componentes curriculares ao contexto social e educacional atual. Neste capítulo, apresentaremos as características dos alunos da educação infantil e anos inicias, os conteúdos e objetivos da Educação Física para essas etapas de ensino, os aspectos didáticos e metodológicos para o ensino da Educação Física, e, por fim, a organização da disciplina no ambiente escolar, ou seja, como é seu planejamento. Com contribuições teóricas de autores e com base em nossas próprias experiências, trazemos neste capítulo elementos essenciais para a docência do professor de Educação Física na educação infantil e anos iniciais, buscando oportunizar conhecimentos que, de forma pontual, auxiliarão na execução de estágios e na atuação docente futura. E aí, futuro professor? Vamos iniciar nossa jornada na docência? 3.1 Características dos alunos Este livro trata da Educação Física nas primeiras etapas da educação básica, mais especificamente, na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. Para que possamos entender os conteúdos, objetivos, procedimentos metodológicos e planejamento 58 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental de aulas, é preciso, antes, conhecer as características dos alunos dessas etapas, isso porque as atividades devem estar de acordo com a fase de desenvolvimento da criança, trazendo, em sua estruturação, dinâmicas que despertem nela o interesse em aprender. O desenvolvimento do ser humano, segundo Nista-Piccolo e Moreira (2012, p. 41), ocorre por meio do amadurecimento e é dividido em períodos: “da vida uterina ao nascimento, do recém- -nascido aos 3 anos, contemplando a primeira infância, e dos 3 aos 6 anos, fase denominada de segunda infância”. A educação infantil compreende o atendimento de alunos de 0 a 6 anos, e os anos iniciais do ensino fundamental são responsáveis pelos alunos de 6 a 11 anos (1º ao 5º ano). Vamos conhecer, agora, como é a criança na educação infantil. Conhecer a criança nessa etapa de ensino é fundamental, pois, segundo a LDBEN (BRASIL, 1996, s/p), é dever do Estado garantir “atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de 0 a 6 anos de idade”, sendo que a Emenda Constitucional n. 59/2009 determinou a obrigatoriedade da educação básica dos 4 aos 17 anos, ou seja, é obrigatória, no território nacional, a presença das crianças a partir dos 4 anos em ambiente escolar. Assim, os profissionais que atendem essas crianças precisam compreender as suas características para que possam planejar suas ações junto ao educandário. Sendo a primeira etapa da educação básica, é na educação infantil que ocorre a primeira separação da criança do ambiente familiar, o primeiro contato com um ambiente formal e institucionalizado, o que exige uma atenção especial para que a adaptação ocorra de forma natural e sem traumas. Para Freire e Scaglia (2009), nessa etapa, as crianças estão aprendendo a lidar com os símbolos, assim, caracterizam-se por exercitar intensamente as suas funções simbólicas, sendo a escola um local de imaginação e fantasia. Com relação ao desenvolvimento motor, Freire e Scaglia (2009) afirmam que, antes de a criança se expressar verbalmente, já são Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 59 desenvolvidas as capacidades motoras a serem utilizadas até o fim da vida, e, a partir do início da fala, a motricidade vai se aperfeiçoando e se tornando mais complexa. Com isso, “ela dedica-se ao exercício da fantasia, da imaginação, isto é, de ver dentro de si todas as coisas que percebe do mundo real” (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 15). Uma criança, nos anos iniciais de sua vida, possui capacidade de criar situações diferentes com um mesmo objeto. Por exemplo, um pote que possui finalidade de guardar mantimentos é visto pela criança como um chapéu, uma cama para bonecas, ou até mesmo um carrinho. Esse pote, então, pode servir de brinquedo e deter a atenção da criança durante horas. Em se tratando do crescimento infantil, Gallahue e Ozmun (2005) afirmam que, no primeiro ano de vida, as crianças aumentam no comprimento e no peso rapidamente. Dizem, ainda, que “o período pré-natal e a primeira infância preparam para o que está por vir no desenvolvimento do repertório de movimentos e habilidades físicas fundamentais” (GALLAHUE; OZMUN, 2005, p. 144). As crianças também têm características cognitivas e afetivas próprias, sendo que uma delas é a curiosidade e o desejode saber o porquê das coisas. Elas têm boa imaginação e são criativas, sempre ansiosas para aprender e agradar os adultos, porém precisam de orientação para tomar decisões (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Para Nista-Piccolo e Moreira (2012), os gestos das crianças podem refletir o seu estado emocional, sendo que o corpo é o acesso à emoção. Os limites e capacidades são demonstrados pelas expressões do corpo. Na primeira infância, existe uma forte relação entre estado emocional e atividade física. Desse modo, as diferentes manifestações de linguagem possibilitam a compreensão de si mesmas, oferecem possibilidades de criar e de se comunicar corporalmente. Ao ingressar no ensino fundamental, Freire e Scaglia (2009) afirmam que não há grandes diferenças em termos de 60 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental desenvolvimento, o que não dificulta o trabalho do professor de Educação Física. Segundo Gallardo (2009), crianças de 6 e 7 anos apresentam dificuldades em se organizar, embora bem menos que nas fases anteriores. Nessa fase, elas já conseguem compreender normas e valores. No primeiro e segundo anos do ensino fundamental, a criança consegue realizar operações mentais de classificar e conservar. Ela pensa, cria, critica e organiza o pensamento de acordo com o tempo e espaço, e faz isso socialmente, compreende suas próprias ações e se desafia a superar suas habilidades. As noções de espaço e tempo constituem-se inicialmente no plano motor e, posteriormente, no intelectual (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Nesse estágio, a criança apresenta um crescente desenvolvimento dos sentidos (visão, olfato, tato e audição), e estes, ao serem combinados com a motricidade, mostram a capacidade perceptiva e de exploração que ela tem (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Entre os 8 e 9 anos, ocorre a passagem dos jogos de faz de conta para jogos com regras ou marcados por construções mais conceituais, e, por volta dos 9 e 10 anos, a vida social da criança apresenta características crescentes de colaboração, envolvendo discussões de diferentes pontos de vista (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Intelectualmente, podemos observar as mudanças que ocorrem nos primeiros anos do ensino fundamental. A partir das palavras de Freire e Scaglia (2009, p. 20), a criança passa “a se deparar com elementos concretos. Era preciso considerar o real para resolver problemas, especialmente porque eles eram coletivos. No quarto ano, a criança já está bem adaptada a suas novas tarefas intelectuais. O pensamento dirige-se mais ao coletivo que ao individual”. Segundo os autores, nos anos iniciais, as crianças aventuram-se com mais facilidade aos desafios motores e apresentam aumento da força física e crescimento corporal, que contribui para sua confiança em desempenhar determinadas funções. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 61 Com relação aos aspectos morais, percebe-se que, no quarto e quinto anos, as crianças apresentam um bom entendimento de regras e as discutem com seus pares. Há uma diminuição do egocentrismo e favorecimento do coletivo. As maiores diferenças entre o quarto e quinto anos referem-se aos traços de pré-adolescência que podem aparecer, porém, no que tange aos aspectos físicos, intelectuais e motores, não apresentam mudanças significativas. Elucidadas as características dos alunos, podemos conhecer os conteúdos e objetivos para cada fase de ensino com base em autores e documentos legais, o que será abordado na próxima seção. 3.2 Conteúdos e objetivos a serem desenvolvidos As bases legais para a disciplina de Educação Física, apresentadas no capítulo anterior, abordam conteúdos e objetivos a serem desenvolvidos com os alunos, tema este de grande importância para a docência do professor da educação básica. Entendemos que o currículo escolar é formado não só por conteúdos, mas também por elementos que privilegiam todas as dimensões do ser humano. Por isso a disciplina de Educação Física, assim como as demais, possui objetivos e competências a serem atingidos pelos alunos que frequentam o ambiente escolar. Nesta seção, trataremos dos conteúdos e objetivos para as etapas da educação básica enfatizadas no livro. 3.3.1 Conteúdos Entendemos que o conhecimento escolar se constrói com base no conhecimento prévio do aluno, no seu interesse em aprender e na mediação do professor. Com base nisso, vamos conhecer os conteúdos escolares da Educação Física para a educação infantil e para os anos iniciais do ensino fundamental. 62 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Coll et al. (2000 apud DARIDO; RANGEL, 2011, p. 64) definem conteúdo como uma seleção de formas ou saberes culturais, conceitos, explicações, raciocínios, habilidades, linguagens, valores, crenças, sentimentos, atitudes, interesses, modelos de conduta, etc. cuja assimilação é considerada essencial para que se produzam desenvolvimento e socialização adequada no aluno. Castellani Filho et al. (2009) utilizam o termo conhecimento para designar conteúdo. Desse modo, é possível entender que conteúdo abrange um conjunto de elementos essenciais para o desenvolvimento do aluno e que favorece a sua formação integral. A LDBEN traz orientações das aprendizagens essenciais, e não apenas de conteúdos mínimos a serem ensinados. Assim, os conteúdos curriculares estão a serviço do desenvolvimento de competências – noções fundantes da BNCC – e devem ter base nacional comum complementada pelas características regionais e locais de cada estabelecimento escolar (BRASIL, 2017). Complementarmente, Castellani Filho et al. (2009) afirmam que a seleção e organização de conteúdos deve objetivar a promoção da leitura da realidade, analisando o que determinou a necessidade do seu ensino. Para os autores, é preciso considerar a realidade da escola quanto aos materiais, pois para o ensino de algumas habilidades se exige material específico. Destacamos, assim, a importância de adaptar as atividades à realidade local, no que diz respeito ao espaço e material disponíveis. Conforme o exposto, conteúdos envolvem aspectos que vão além de informações conceituais. Entendemos que a formação, e isso inclui os saberes da Educação Física, envolve o aluno como um todo. Com relação às atividades oferecidas na Educação Física, “esse universo compreende saberes corporais, experiências estéticas, emotivas, lúdicas e agonistas, que se inscrevem, mas não se restringem, à racionalidade típica dos saberes científicos que, Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 63 comumente, orienta as práticas pedagógicas na escola” (BRASIL, 2017, p. 209). Darido e Rangel (2011) abordam três dimensões do conhe cimento: conceitual, procedimental e atitudinal. A dimensão conceitual refere-se ao conhecimento acerca das atividades, como conhecer o modo correto de executar práticas corporais; a dimensão procedimental vincula-se às habilidades práticas, como vivenciar situações de brincadeiras e jogos; já a dimensão atitudinal diz respeito à parte comportamental, por exemplo, respeitar os adversários e os colegas. Para a educação infantil, cujas características foram apresentadas na seção anterior, o RCNEI (BRASIL, 1998, p. 48) aponta que as diferentes aprendizagens se dão por meio de sucessivas reorganizações do conhecimento, e este processo é protagonizado pelas crianças quando podem vivenciar experiências que lhes forneçam conteúdos apresentados de forma não simplificada e associados a práticas sociais reais. É importante marcar que não há aprendizagem sem conteúdo. A BNCC explicita que as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira. Assim, as atividades devem priorizar essa característica, assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se. O documento estrutura ocurrículo dessa etapa em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (BRASIL, 2017). Em todas as mudanças de etapas da educação básica, é necessário que a transição seja gradativa e que seja respeitado o tempo de adaptação necessário. Nos anos iniciais, “as crianças estão vivendo mudanças importantes em seu processo de desenvolvimento que repercutem em suas relações consigo mesmas, com os outros e com o mundo” (BRASIL, 2017, p. 58). Segundo Gallardo (2009), embora 64 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental as crianças de 6 e 7 anos já tenham condições físicas e cognitivas para realizar diferentes tarefas motoras, é importante incluir no planejamento conteúdos significativos e que possibilitem o trabalho de reflexão e análise no decorrer das aulas. Atividades escritas podem ser trabalhadas, como jogos de construção, simbólicos ou com regras, em que se priorize o desenvolvimento de capacidades sociais, motoras, efetivas, cognitivas, de relação interpessoal e inserção do aluno no mundo. Para a BNCC, é necessário, nessa etapa, dar continuidade às experiências em torno do brincar, desenvolvidas na educação infantil (BRASIL, 2017). Além disso, problematizar os seus conhecimentos nas vivências escolares contribui para a compreensão de mundo e sua inserção na sociedade. Segundo a BNCC, “cada uma das práticas corporais tematizadas compõe uma das seis unidades temáticas abordadas ao longo do Ensino Fundamental” (BRASIL, 2017, p. 14). A proposta curricular, adequada à realidade local, está organizada em dois blocos (1º e 2º anos; 3º ao 5º ano) e se refere aos seguintes objetos de conhecimento em cada unidade temática, conforme o Quadro 1: Quadro 1 – Proposta curricular para os anos iniciais UNIDADES TEMÁTICAS OBJETOS DE CONHECIMENTO 1º E 2º ANOS 3º AO 5º ANO Brincadeiras e jogos Brincadeiras e jogos da cultura popular presentes no contexto comunitário e regional Brincadeiras e jogos populares do Brasil e do mundo Brincadeiras e jogos de matriz indígena e africana Esportes Esportes de marca Esportes de precisão Esportes de campo e taco Esportes de rede/parede Esportes de invasão Ginásticas Ginástica geral Ginástica geral (Continua) Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 65 UNIDADES TEMÁTICAS OBJETOS DE CONHECIMENTO 1º E 2º ANOS 3º AO 5º ANO Danças Danças do contexto comunitário e regional Danças do Brasil e do mundo Danças de matriz indígena e africana Lutas Lutas do contexto comunitário e regional Lutas de matriz indígena e africana Práticas corporais de aventura Fonte: Brasil, 2017, p. 225. Podemos observar que, para os anos iniciais, as práticas corporais de aventura não são indicadas, e as demais unidades temáticas apresentam os objetos de conhecimentos (conteúdos) a serem desenvolvidos nos 1º e 2º anos e nos 3º e 4º anos, de forma geral. A unidade temática Brincadeiras e jogos refere-se a atividades voluntárias com limites de tempo e espaço, “caracterizadas pela criação e alteração de regras, pela obediência de cada participante ao que foi combinado coletivamente, bem como pela apreciação do ato de brincar em si” (BRASIL, 2017, p. 214). Na unidade Esportes, a BNCC orienta o trabalho nos anos iniciais com cinco classificações para os esportes: os esportes de marca são aqueles que utilizam o tempo e distância ou o peso, podendo ser esportes da modalidade de atletismo (corridas) ou aqueles em que há uma busca pela superação de resultados anteriores; os esportes de precisão são caracterizados pelo lançamento ou arremesso de objeto que acerte um alvo ou que atinja uma distância maior; os esportes de campo e taco são aqueles que utilizam este material para 66 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental sua realização, como beisebol e críquete; os esportes de rede/parede possuem como característica o arremesso de implemento sobre uma rede ou parede, como voleibol, badminton, squash, tênis e tênis de mesa; os esportes de invasão são aqueles em que as equipes precisam transpor um implemento para um alvo, por exemplo, basquetebol, futebol, handebol, entre outros (BRASIL, 2017). A ginástica geral corresponde a práticas corporais que têm como elemento organizador a exploração das possibilidades acrobáticas e expressivas do corpo, a interação social, o compartilhamento do aprendizado e a não competitividade. Podem ser constituídas de exercícios no solo, no ar (saltos), em aparelhos (trapézio, corda, fita elástica), de maneira individual ou coletiva, e combinam um conjunto bem variado de piruetas, rolamentos, paradas de mão, pontes, pirâmides humanas etc. Integram também essa prática os denominados jogos de malabar ou malabarismo. (BRASIL, 2017, p. 215) As danças são “o conjunto das práticas corporais caracterizadas por movimentos rítmicos, organizados em passos e evoluções específicas, muitas vezes também integradas a coreografias”, e, nesses anos de ensino, são enfatizadas as danças do contexto comunitário e regional dos alunos, os tipos de danças realizadas no Brasil e aquelas de origem indígena e africana (BRASIL, 2017, p. 215). Por fim, as lutas são caracterizadas por disputadas corporais, em que os participantes podem “mobilizar, desequilibrar, atingir ou excluir o oponente de um determinado espaço” (BRASIL, 2017, p. 2018), como a capoeira, o judô, a esgrima, entre outras. Explicitados os conteúdos a serem trabalhados e podendo o professor adentrar nas classificações acima de acordo com a sua realidade local, é importante conhecer os objetivos da Educação Física para cada uma das etapas. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 67 3.3.2 Objetivos Segundo Nista-Piccolo e Moreira (2012), os objetivos da educação visam à possibilidade de desenvolvimento no sentido de preparar o sujeito para atuar na sociedade. Para a educação infantil, os autores dizem que o espaço não deve ser somente para crianças que apresentam bom desempenho, mas deve proporcionar experiências de movimento, em que o aluno se desenvolva nos aspectos sociais, cognitivos, motores e afetivos, com possibilidades de criar, tomar decisões, conhecer e avaliar suas potencialidades. Nessa fase, as atividades não devem ter caráter competitivo. Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento estão sequencialmente organizados em três grupos por faixa etária, sendo que a creche compreende bebês (zero a um ano e seis meses) e crianças bem pequenas (um ano e sete meses a três anos e onze meses), e a pré-escola, crianças pequenas (quatro anos a cinco anos e onze meses). Assim, os objetivos correspondem às possibilidades de aprendizagem e às características do desenvolvimento das crianças. “Todavia, esses grupos não podem ser considerados de forma rígida, já que há diferenças de ritmo na aprendizagem e no desenvol- vimento das crianças que precisam ser consideradas na prática pedagógica” (BRASIL, 2017, p. 44). Na BNCC, encontram-se os objetivos relacionados aos campos de experiências, já mencionados no capítulo anterior, por exemplo “corpo, gestos e movimentos”, cujo objetivo para crianças bem pequenas é “apropriar-se de gestos e movimentos de sua cultura no cuidado de si e nos jogos e brincadeiras” (BRASIL, 2017, p. 47). Diante disso, entende-se que, para a educação infantil, as atividades deverão ter caráter lúdico, sendo privilegiadas as brincadeiras e os jogos, sempre considerando as características dessa fase e o potencial de aprendizagem dos alunos. 68 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Nos anos iniciais do ensino fundamental, Gallardo (2009, p. 56) estabelece alguns objetivos, entre os quais “organizar atividades que auxiliem as crianças a alcançar o estágio maduro de execução de movimentos fundamentais; facilitara apropriação teórico-prática das manifestações da cultura corporal (familiar e do meio físico- -social próximo)”. Além disso, participar de atividades em grupo favorece as relações de sociabilidade e desenvolve a afetividade, elemento importante para a aprendizagem e para as relações interpessoais na escola, na família e na sociedade. Atividades em grupo podem ser utilizadas nas práticas com jogos, brincadeiras e atividades desportivas. Essas práticas permitem, segundo Gallardo (2009, p. 65), “ampliar e aperfeiçoar as habilidades motoras desenvolvidas nos anos anteriores”, bem como apropriar-se do conhecimento necessário para combinar habilidades motoras fundamentais e desenvolver capacidades de socialização, que contribuem para a realização das atividades em grupo, como a construção e estabelecimento de regras a serem seguidas durante a atividade. Na BNCC, encontramos as habilidades previstas para os anos iniciais, entre as quais destacamos: “Descrever, por meio de múltiplas linguagens (corporal, oral, escrita, audiovisual), as brincadeiras e os jogos populares do Brasil e de matriz indígena e africana, explicando suas características e a importância desse patrimônio histórico cultural na preservação das diferentes culturas” (BRASIL, 2017, p. 225). Diante dos objetivos e conteúdos da Educação Física escolar, faz-se necessário conhecer os procedimentos metodológicos que levarão a uma aprendizagem significativa. Mas o que são esses procedimentos metodológicos? Vamos conhecer? Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 69 3.3 Procedimentos metodológicos Os procedimentos metodológicos para o ensino da Educação Física são os meios utilizados pelo professor para ministrar sua aula, objetivando o aprendizado de seus alunos. Método “é o caminho para se atingir um objetivo” (GALLARDO, 2009, p. 42) e a sua escolha depende da visão de homem e de mundo que o professor tem – e isso depende também do contexto histórico em que ele vive. Vale ressaltar que, atualmente, busca-se utilizar métodos que estimulem o aluno a ser ativo e participativo no processo de ensino- -aprendizagem. Para isso, o professor é mediador e incentiva o aluno a intervir na construção do conhecimento. Essa abordagem é chamada de metodologia ativa e condiz com o que consta na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sobre “um olhar inovador e inclusivo a questões centrais do processo educativo”, pois no novo cenário mundial: reconhecer-se em seu contexto histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações. Requer o desenvolvimento de competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, atuar com discernimento e responsabilidade nos contextos das culturas digitais, aplicar conhecimentos para resolver problemas, ter autonomia para tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as diversidades. (BRASIL, 2017, p. 12) Todas essas características e competências citadas pela BNCC exigem do professor o conhecimento ampliado sobre métodos e estratégias que promovam o aprendizado dos alunos. Esse aprendizado precisa atender às necessidades dos alunos diante do cenário mundial, um cenário que está em constante evolução. Podemos, a partir disso, identificar métodos e estratégias de ensino que podem estar presentes nas ações dos professores em sala de aula. 70 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Com influência das tendências higienista, militarista e esportivista, temos o método tradicional de ensino, centrado no professor como detentor do conhecimento, “onde impera uma forma de planejamento unidirecional, elaborado pelo professor, que obedece às normas e regras preestabelecidas” (GALLARDO, 2009, p. 43). Quando abordamos, neste livro, a importância da cultura corporal de movimento dos alunos, automaticamente estamos nos afastando desse método de ensino e nos aproximando de metodologias que consideram o aluno como elemento central de sua aprendizagem, dotado de experiências motoras, interesses diversos e inserido em determinado contexto socioeconômico-cultural. Nesse sentido, concordamos com Darido e Rangel (2011) quando dizem que os meios que o professor utilizará devem estar contextualizados, ou seja, o professor precisa conhecer a realidade dos alunos e do local em que o ensino será realizado. Por isso, o professor, ao optar por determinada forma de agir, deve estar constantemente refletindo sobre sua prática social, como ser um professor que, além de pensar sobre suas ações, e, consequentemente, nas reações de seus alunos (interação professor aluno), é integrante de uma escola e de uma sociedade, ou seja, de uma cultura escolar. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 103) A Educação Física possui diferentes métodos de ensino ou procedimentos metodológicos. Neste livro, abordamos esses métodos divididos nas etapas de ensino, respeitando as características dos alunos apresentadas na seção anterior. Para tal, com base nas teorias dos livros de Darido e Rangel (2011), Gallardo (2009), Nista-Piccolo e Moreira (2012), vamos expor os procedimentos metodológicos para se trabalhar na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Quando pensamos em procedimentos metodológicos para a Educação Física, devemos ter consciência de que se referem à maneira como o professor vai conduzir a aula, sempre com o objetivo Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 71 da aprendizagem do aluno. Uma vez selecionados os conteúdos, escolhem-se os meios para que sejam apropriados pelos alunos. Dentre os procedimentos metodológicos, podemos citar o ensino por meio da imitação, a demonstração, a resolução de problemas e desafios, os quais precisam considerar a progressão pedagógica, isto é, que as atividades são organizadas da forma mais simples para a mais complexa. Juntamente com os procedimentos metodológicos, existem as técnicas ou estratégias de ensino, em que os alunos podem aprender de forma individual ou em grupos (duplas, trios, quartetos), dispondo-os espalhados pelo ambiente ou em círculos, colunas, filas, entre outros. O ambiente, os recursos materiais, o conhecimento da realidade dos alunos e suas características são fatores que precisam ser observados quando o professor estabelece o percurso para o aluno aprender, ou seja, os procedimentos metodológicos que vai adotar. Vale ressaltar a importância de elementos como a ludicidade, a musicalidade e a recreação, que atraem os alunos para a realização das atividades. Com relação à ludicidade na educação infantil, Nista-Piccolo e Moreira (2012, p. 70) afirmam que: É preciso que o ambiente preparado seja um espaço de vivências alegres (inclusive se este ambiente for o interior da escola), de momentos de descobertas que permitam o fazer novamente. Mas esta repetição do movimento deve acontecer por iniciativa da própria criança, de querer sentir novamente a emoção da alegria, a sensação da satisfação. Isso exige que a proposta lúdica não possa se distanciar das metas estabelecidas pelo professor. Se ele quiser ensinar determinado conteúdo, esquecendo-se de oferecê-lo no mundo mágico que a criança vive, isto é, desconectado da ludicidade, isso poderá significar para ela que a atividade não é brincadeira, afastando o prazer de brincar daquela situação. Sendo assim, podemos destacar que, na educação infantil, os procedimentos metodológicos utilizados enfatizam a exploração 72 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental do aluno sobre o seu corpo, o ambiente (espaço e objetos) e seu corpo no ambiente. Essa exploração pode ocorrer quando o aluno encontra determinados obstáculosou desafios, ou quando, por meio da demonstração do professor, ele busca adquirir um conhecimento novo. Segundo o RCNEI (1998, p. 24), “as práticas culturais predominantes e as possibilidades de exploração oferecidas pelo meio no qual a criança vive permitem que ela desenvolva capacidades e construa repertórios próprios”. Nos anos iniciais, os procedimentos metodológicos utilizados vão se aperfeiçoando de acordo com o nível de entendimento dos alunos. Vale ressaltar que, além dos procedimentos mencionados na educação infantil, pode-se utilizar diferentes formas para a participação dos alunos no processo de aprendizagem, como “participação individual, em grupo, com tarefas, com avaliação comparativa etc.” (GALLARDO, 2009, p. 51). Procedimentos metodológicos que permitem ao aluno desenvolver a criatividade e a autonomia na resolução de problemas são importantes para a sua formação integral. Para Gallardo (2009), as atividades em grupos estimulam a cooperação, a responsabilidade e a independência. Nos anos iniciais do ensino fundamental, podemos observar uma evolução no conhecimento dos alunos, assim, procedimentos metodológicos que propiciam responsabilidade e autonomia podem ser trabalhados nesse nível de ensino. Um exemplo seria o “dia do ajudante”, em que o aluno auxilia o professor no andamento da aula. A partir do 4º ano, a iniciação aos jogos pré-desportivos acontece e há a possibilidade de diferentes estratégias de ensino para essa etapa, por exemplo, diferentes formas de organizar as equipes, Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 73 auxílio dos mais habilidosos aos menos habilidosos, participação e competição com igualdade de condições (GALLARDO, 2009). A associação de conteúdos de outras disciplinas como Ciências ou Português pode incidir sobre os procedimentos metodológicos, o que chamamos de trabalho interdisciplinar, e este deve ser planejado em conjunto com os demais professores da escola. Rever os procedimentos metodológicos e buscar contribuições teóricas faz parte de uma metodologia reflexiva, que, segundo Schon (1992 apud DARIDO; RANGEL, 2011, p. 105), resume-se em “conhecimento da ação; reflexão na ação e reflexão da ação” e pode ser entendida como: O conhecimento na ação acontece um pouco antes de o professor iniciar sua aula e é um momento em que reflete sobre as possibilidades humanas e materiais que possui. Já a reflexão na ação ocorre durante a aula, no instante exato em que esta está acontecendo, possibilitando ao professor tomar novas decisões sobre os problemas que vão surgindo. Imediatamente após a aula (e durante um certo tempo depois), o professor passa a refletir sobre os acontecimentos da mesma, como tomou as decisões, quais poderiam ser diferentes, o que faltou para que a mesma fosse melhor, enfim, o que deu certo ou errado. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 105) Sendo assim, definir os procedimentos metodológicos vai além de selecionar os conteúdos e os objetivos a serem desenvolvidos. O professor precisa conhecer a realidade e trabalhar de acordo com a cultura corporal de movimento dos alunos, permitindo que se desenvolvam em suas autonomias de forma criativa e responsável. Para tanto, o planejamento do professor é elemento indispensável para atingir os objetivos da Educação Física na educação infantil e anos iniciais. A seguir, vamos conhecer como se faz um planejamento para a disciplina de Educação Física. 74 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 3.4 Tipos de planejamento e estruturação de aulas de Educação Física Identificadas as características dos alunos, os conteúdos, objetivos e procedimentos metodológicos, é hora de aprender como realizar um bom planejamento em Educação Física. Em conformidade com a LDBEN, artigo 13, incisos I e II, os docentes serão incumbidos de “participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino” (BRASIL, 1996). Com relação ao planejamento na área educacional, este busca atender às necessidades da educação para o século XXI. Deve levar em conta os desafios, como conteúdos fragmentados, e ter como propósito preparar as gerações para as incertezas e imprevistos do futuro, sendo o planejamento um processo contínuo e em constante movimento (FONSECA; MACHADO, 2015). Planejar é organizar o trabalho docente para o ano letivo. Esse planejamento requer uma atenção importante aos objetivos que são propostos para a disciplina e para a organização das ações docentes. Segundo Turra (1991 apud FONSECA; MACHADO, 2015, p. 49), “qualquer proposta de trabalho em qualquer área de ação, para ser desenvolvida com êxito, implica num mínimo de organização”. Existem três tipos de planejamento no ambiente escolar: o plano de estudo ou de curso, o plano de trabalho ou de unidade, e o plano de aula. O plano de estudo ou plano de curso é o planejamento utilizado para um ano letivo inteiro. Ele é individual para cada turma na qual o professor irá trabalhar. O plano de trabalho ou de unidade é um planejamento realizado durante um período. Esse período pode ser de quinze dias, um mês, um bimestre, um trimestre ou um semestre. O plano de aula contém o planejamento das atividades da disciplina que serão realizadas em um dia. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 75 Para Fonseca e Machado (2015), um plano de curso deve conter: • Dados de identificação: contendo nome da escola, ano letivo, nome do professor, disciplina, ano e turma. • Diagnóstico da turma: “sondagem inicial para conhecimento do contexto da escola, das características, conhecimentos, necessidades e interesses dos alunos” (FONSECA; MACHADO, 2015, p. 59). • Objetivos: da escola, do nível de ensino (educação infantil ou anos iniciais) e da disciplina. • Conteúdos: podem ser acompanhados de um cronograma. • Procedimentos ou metodologia: como a disciplina será desenvolvida durante o ano. • Recursos existentes (humanos, físicos, audiovisuais etc.). • Avaliação. • Referências: fontes bibliográficas. O plano de unidade ou de trabalho deve conter as informações: dados de identificação, objetivos da disciplina para determinado período, conteúdos, procedimentos, recursos, avaliação e referências, assim como foi detalhado no plano de curso. Por fim, um plano de aula precisa conter: dados de identificação, como nome da escola, do professor, disciplina, turma, turno, data, duração da aula, tema da aula (tema geral e amplo – ex.: ginástica geral), conteúdo (ex.: rolamentos), objetivo da aula, parte inicial (aquecimento), parte principal (atividades que atendam ao objetivo da aula e ao conteúdo) e parte final (chamada também de volta à calma, para estabilizar a frequência cardíaca dos alunos); e procedimentos metodológicos, recursos e observação, esta última realizada após a aula, contendo informações referentes à aula, o 76 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental que deu certo ou errado, o que foi flexibilizado ou observação com relação aos alunos, de forma individual ou no grande grupo. Na concepção de Fonseca e Machado (2015, p. 54), “o plane- jamento escolar é um processo que envolve o antes, o durante e o depois da ação educativa, nas diferentes instâncias em que ela ocorre”. Assim, é um processo que precisa ser pensado de acordo com as necessidades da realidade dos alunos, ser claro e flexível, observar as condições de espaço, materiais e tempo disponíveis e atender aos objetivos. Mas, afinal, como elaborar um objetivo para o meu planejamento? Primeiramente, há de se considerar os objetivos para cada fase de ensino estabelecidos pelas bases legais. Segundo a BNCC, Na Educação Infantil, as aprendizagens essenciais compreendem tanto comportamentos, habilidades e conhecimentos quanto vivências quepromovem aprendizagem e desenvolvimento nos diversos campos de experiências, sempre tomando as interações e a brincadeira como eixos estruturantes. Essas aprendizagens, portanto, constituem-se como objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. (BRASIL, 2017, p. 44) Logo, estruturar um objetivo para o planejamento em Educação Física na educação infantil recai sobre a promoção das vivências e experiências que as crianças vão ter a partir das brincadeiras. Para elaborar um objetivo para a aula, é preciso pensar no quê, para quem e para que vamos realizar determinada aula. Nesse sentido, primeiramente delimita-se um verbo, por exemplo, proporcionar, promover ou propiciar. Em seguida, coloca-se o que será desenvolvido e para quem será a aula (ex.: alunos do 2º ano), e, então, o para quê, a fim de que essas atividades sejam realizadas. A seguir, no Quadro 2, temos o exemplo de um plano de aula, com algumas informações preenchidas. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 77 Quadro 2 – Plano de aula PLANO DE AULA Dados de identificação Plano nº: 2º ano Data: Horário: Duração: Turma: 21 Turno: Tarde Nº de alunos: Escola/Município: Professora: Disciplina: Tema: Jogos populares Conteúdo: Queimada Objetivo da aula: Proporcionar aos alunos do 3º ano atividades lúdicas e recreativas de queimada com variações para desenvolver coordenação motora ampla e noção espaço-temporal. Estrutura da aula Parte inicial: Aquecimento Parte principal Atividade n° 01: Atividade n° 02: Atividade n° 03: Atividade n° 04: Atividade n° 05: Atividade nº 06: Parte final: Dados complementares Material/recursos: Referências: Observação final: Fonte: Elaborado pelas autoras. 78 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Há de se considerar que, ao desenvolver as atividades da parte principal da aula, o professor precisa organizá-las de forma a obedecer a progressão pedagógica para o seu desenvolvimento, ou seja, iniciar com a atividade de menor grau de dificuldade e aumentar esse grau ao longo da aula. Na parte final, é possível desenvolver atividades que exijam a cognição dos alunos, de forma a utilizar em menor escala o esforço físico, a fim de diminuir a frequência cardíaca. Vale ressaltar que cada estabelecimento de ensino possui seu Projeto Político Pedagógico (PPP), construído com todos os agentes participantes da educação dos alunos. Este documento segue regimentos legais, de acordo com a cidade, o estado e o país, e descreve os planos de estudo das disciplinas, que podem ser alterados em tempo determinado pelos órgãos responsáveis pela educação da cidade ou estado. Cabe aos professores organizar seus planejamentos e trabalhar pela educação de qualidade que o país almeja. Considerações finais Encerramos este capítulo com a certeza de que ele servirá como importante material de apoio ao futuro professor de Educação Física ou profissional que atuará na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Compreender os processos que envolvem o ensino da Educação Física nessas etapas de ensino recai pontualmente sobre a prática docente, sendo de extrema importância a reflexão acerca das ações – antes, durante e depois de serem realizadas. Atingir os objetivos a que se propõe a Educação Física exige um planejamento adequado, considerando a realidade dos alunos e a sua cultura corporal de movimento. Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 79 Proporcionar atividades que enriquecem o repertório motor é tarefa indispensável do professor de Educação Física, pois elas promovem o desenvolvimento dos alunos em todos os aspectos: físicos, sociais, afetivos e psicológicos. Preparado para esse desafio? Ampliando seus conhecimentos • BARBOSA, C. L. A. Educação Física e didática: um diálogo possível e necessário. Petrópolis: Vozes, 2010. Esse livro traz elementos sobre didática e planejamento de ensino em Educação Física, mostra exemplos de planos de aula completos para anos finais do ensino fundamental e adentra na forma de avaliação da disciplina. • NEIRA, M. G. Educação Física: desenvolvendo competências. 3. ed. São Paulo: Phorte, 2009. Esse livro aborda a prática docente em Educação Física, os objetivos educacionais, as dimensões dos conteúdos e as concepções de aprendizagem. Traz, ainda, elementos sobre planejamento de ensino e formação dos professores. Atividades 1. O que Freire e Scaglia (2009) afirmam a respeito das características motoras dos alunos da educação infantil e dos anos iniciais? 2. Quais procedimentos metodológicos podem ser utilizados para a docência do professor de Educação Física? 3. Explique os tipos de planejamento existentes para as aulas de Educação Física. 80 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Referências BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/ SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ volume3.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/ BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. CASTELLANI FILHO, L. et al. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 2009. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física no ensino superior: Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2011. FONSECA, D. G. da.; MACHADO, R. B. (orgs.). Educação Física: (re)visitando a didática. Porto Alegre: Sulina, 2015. FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2009. GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 3. ed. São Paulo: Phorte, 2005. GALLARDO, J. S. P. Prática de ensino em Educação Física: a criança em movimento: livro do professor. São Paulo: FTD, 2009. NISTA-PICCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo em movimento na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2012. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf 4 Atividades práticas para as aulas de Educação Física Após conhecer as características dos alunos das etapas da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, e entender sobre os procedimentos metodológicos e o planejamento e estruturação das aulas, você vai conhecer atividades com e sem o uso de materiais, para que possa utilizá-las nas aulas, vinculando- -as à metodologia adequada às características de seus alunos e estruturando-as conforme o planejamento que foi apresentado no capítulo anterior. Vamos conhecer as atividades? 4.1 Atividades sem uso de materiais Nesta seção, vamos conhecer atividades que podem ser realizadas sem o uso de materiais e saber como utilizá-las de maneira criativa, possibilitando o desenvolvimento integral do aluno. Como consta no Capítulo 1 deste livro, o objeto de estudo da Educação Física é o movimento humano, e este pode ser concebido por meio de diferentes manifestações corporais. O aluno tem preferência por determinadas atividades corporais de acordo com o que lhe é transmitido de gerações anteriores, ou com o que ele observa na mídia e no local onde vive. Assim, quando são escolhidas as atividades para incluir em seu planejamento, é preciso considerar as características dos alunos e a cultura na qual estão inseridos, para despertar o interesse em aprender e tornar as aulas agradáveis e prazerosas. Para a etapa da educação infantil, vamos utilizar as atividades na perspectivade um ensino menos sistematizado e incentivando a 82 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental liberdade de imaginar, conforme indicam Freire e Scaglia (2009). Para os autores, “a Educação Infantil deveria ser a escola da imaginação. As crianças precisariam ser livres para explorar a imaginação que se revela a cada instante nos jogos que elas buscam realizar o tempo todo” (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 108). É importante oportunizar atividades em que a criança experimente novos movimentos a partir das habilidades motoras básicas, como correr, rolar, equilibrar-se, pendurar-se, entre outras, possibilitando o conhecimento do corpo, os sentidos e o desenvolvimento psicomotor, na perspectiva da imaginação e da criatividade. Nesse sentido, apresentamos, a seguir, atividades a serem realizadas sem a utilização de materiais. Expressando emoções: o professor conversa com os alunos sobre as emoções que sentimos e, depois, estimula a expressão dos sentimentos que conhecem por meio da linguagem corporal, sem emitir som. Pode-se oferecer desafios em forma de perguntas, como: Quem consegue expressar a raiva sem manifestar som? Em duplas, eles tentam adivinhar o sentimento que o colega está expressando (NISTA-PICCOLO; MOREIRA, 2012). Podemos desenvolver as emoções com atividades que utilizem o faz de conta e a fantasia, tão importantes nessa faixa etária. Uma possibilidade seria uma viagem a uma floresta encantada. Ao encontrar o grande urso feroz, os alunos expressam o sentimento de espanto, de medo, por exemplo. Nessa viagem, outras emoções podem ser sentidas, como alegria ao encontrar um tesouro perdido, a raiva e a tristeza ao perdê-lo na correnteza de um rio, ou a felicidade em encontrar o caminho de volta para casa. Nesse mundo imaginário, muitas emoções podem ser sentidas, e a educação infantil é terreno fértil para isso. Identificar os sons do ambiente: o professor conversa sobre os diferentes sons que existem e que ouvimos na escola. Pode-se perguntar: Quais sons você ouve na escola? Quais sons fazem você Atividades práticas para as aulas de Educação Física 83 ficar feliz quando ouve? Quais sons você não gosta de ouvir? A partir dessas indagações, o professor estimula os alunos a realizarem os sons com a boca. Dependendo do local onde fica a escola, diferentes tipos de sons podem ser escutados, como: barulho do avião, do mar, do rio, do trem, dos pássaros, de uma indústria ou fábrica próxima da escola, do trânsito, entre outros. Identificar os cheiros e sabores: nessa linha de percepção dos sentidos, estimula-se o aluno a identificar cheiros característicos, de quais ele mais gosta e de quais não gosta. Esses cheiros podem ser: o cheiro do almoço, cheiro do lixo, cheiro do banheiro, cheiro do perfume, das flores. É possível fazer o mesmo com os sabores, promovendo um momento de degustação de diferentes alimentos, com a experimentação do doce, azedo, quente, frio, identificando tipos e alimentos, o que auxilia também na promoção de hábitos alimentares saudáveis. Adivinhar o bicho: pergunta-se ao aluno se ele sabe imitar um bicho. O professor chama um aluno de cada vez para fazer a imitação. Os demais tentam adivinhar qual bicho o colega está imitando. Essa atividade é também um jogo simbólico para desenvolver a noção do próprio corpo e a imaginação (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Nesse sentido, pode-se fazer questionamentos que vão estimular a expressão oral e motora, como: Você sabe como faz o sapinho? E o leão? Assim, os alunos vão se expressando em nível motor por meio da imaginação e da fantasia. Família de bichos: o professor escolhe cinco animais e sussurra para cada aluno o animal que ele vai representar. Depois, todos se espalham pelo ambiente e fazem gestos e sons relacionados ao animal que representam. A tarefa dos alunos é procurar e aproximar-se dos seus pares, ou seja, da sua família, que está imitando o mesmo bicho. Acorda, seu urso: em um ambiente amplo e com espaço razoável para movimentação, um aluno representando o urso fica de costas e longe dos demais, de olhos fechados, “dormindo”. Os colegas se 84 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental aproximam do urso e falam, ao mesmo tempo: “Acorda, seu urso!”. Nesse momento, o urso acorda e corre atrás dos demais, que fogem para o local de origem. Aqueles que ele encostar viram urso também e ajudam a pegar os outros. Coelhinho, sai da toca: em trios, dois alunos fazem a toca do coelho encostando as mãos acima da cabeça do terceiro aluno, que é o coelho e deve ficar dentro da toca. Ao sinal do professor, “coelhinho, sai da toca”, os coelhos precisam procurar outra toca. Para que todos vivenciem a situação de coelho, pode-se trocar as funções dos alunos no decorrer da atividade. Raposa e pintinhos: os alunos ficam dispostos de um lado do espaço/quadra sendo os pintinhos e, no centro, fica um aluno denominado raposa. Ao sinal do professor, os pintinhos precisam atravessar o espaço e chegar ao outro lado sem serem tocados pela raposa. Se forem tocados, passam a ser raposas e ajudam a pegar os outros pintinhos. Corrida dos opostos: o professor forma dois grupos de alunos e os posiciona em duas fileiras uma de frente para a outra, a dois passos de distância. Um grupo representa o quente e o outro, o frio. O professor fala elementos quentes e frios, alternadamente. A equipe que representa o elemento vai correr e pegar o outro grupo, que deve fugir. A atividade ocorre da seguinte maneira: quando todos estiverem alinhados, o professor dirá, por exemplo, “picolé”. O grupo que representa o frio vai correr atrás do grupo que representa o quente, para pegá-los, e quem for pego passa para a outra fileira. Depois, todos se posicionam novamente e a atividade continua. Essa atividade pode ser realizada com outros comandos do professor, como: sol e lua, maçã e laranja, uma e duas palmas, ou comando visual, como levantar um braço e levantar os dois, ou apontar o lado para o qual os alunos devem correr. Pisando na sombra: essa atividade é desenvolvida em local aberto e em dia ensolarado. As crianças tentam pisar na sombra Atividades práticas para as aulas de Educação Física 85 do colega e evitar que pisem em suas próprias sombras (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Identificar os batimentos: o professor solicita aos alunos que verifiquem, no próprio corpo, os locais em que se percebem com maior nitidez os batimentos cardíacos. Depois, dialoga sobre quando estamos em repouso e quando nos movimentamos. Por fim, solicita que os alunos verifiquem e comentem o que sentiram em repouso, depois de caminharem e depois de correrem. Estátua: o professor solicita aos alunos que realizem algum movimento. Ao seu sinal (pode ser apito, palma ou comando de voz), os alunos param de realizar os movimentos, posicionando- -se como estátuas. Em seguida, indica o próximo movimento a ser realizado. Temos como exemplos de movimentos nessa atividade: caminhar pelo espaço, nas linhas da quadra (se o espaço for uma quadra poliesportiva), correr, rastejar, rolar, girar, saltar, andar de marcha ré, entre outros. Esses exemplos, acompanhados da fantasia, trazem maior prazer para a realização, ou seja, se o objetivo é saltar, o comando pode ser imitar um coelho ou canguru; se o objetivo é rastejar, imitar uma cobra ou lagarto; se o objetivo é correr rápido, imitar um foguete, e assim por diante. Atividades em círculos: formando círculos, é possível realizar diversas atividades, como rodas cantadas tradicionais da sua região. Outros exemplos de atividades para serem realizadas em círculo que compreendem diferentes movimentações são: correr no lugar, saltar num pé só, com os dois pés, equilibrar-se, dançar, girar, desenvolver noção de espaço como perto e longe, rápido e devagar, em cima e embaixo, em pé, sentado ou deitado, marchar ao som das palmas do professor,frente e atrás, partes do corpo, entre outros. Sendo assim, podemos trabalhar as seguintes atividades: dar as mãos e realizar o deslocamento para os dois lados do círculo (podendo cantar músicas tradicionais da sua região, por exemplo, “roda cutia”); passar o abraço para o colega ao lado e assim por 86 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental diante; telefone sem fio; vivo e morto (em pé ou abaixado); oi e tchau (quando o professor fala “oi”, os alunos se aproximam do centro do círculo, e quando o professor fala “tchau”, se afastam); encostar em suas partes do corpo e encostar nas partes do corpo dos colegas (mãos, pés, dedos, ombros e joelhos). Vale ressaltar a importância de o professor conduzir os alunos ao aprendizado sobre as partes do corpo que podem ser tocadas no colega, instruindo-os sobre aquilo que pode ser abusivo. Nessa formação, existem muitas possibilidades de atividades. Seja criativo! Atividades em colunas e filas: existem diferentes possibilidades de atividades em colunas e filas. Os alunos podem ficar com as pernas afastadas e o último aluno da coluna passa pelo “túnel de pernas” e se posiciona do outro lado, afastando também as pernas para os demais passarem. Perfilados um ao lado do outro, com o professor na outra extremidade do espaço, os alunos executam passos de acordo com a orientação do professor, por exemplo, “vamos todos fazer cinco passos de formiguinha”, ou “três passos de sapinho”, entre outros, até todos chegarem ao local onde o professor está. Outra atividade em coluna é realizar um trem, em que cada aluno encosta suas mãos nos ombros do outro e o trem desloca-se pelos ambientes da escola, com os alunos imitando os seus sons e fazendo os comandos do professor: “acelera o trem”, “velocidade máxima”, “vamos parar na estação, “o trem descarrilhou”, “está bem devagar” etc. Sombra: crianças formam duplas e espalham-se pelo espaço. Um dos alunos da dupla é a sombra, se posicionando atrás do outro. O aluno que está na frente desloca-se livremente pelo espaço, executando movimentos livres e variados, e a sombra precisa imitar esses movimentos. Ao sinal do professor, invertem-se os papéis (NISTA-PICCOLO; MOREIRA, 2012). Esconde-esconde: pode ser realizado nas diferentes etapas de ensino enfatizadas nesta obra. Existem variações quanto à sua Atividades práticas para as aulas de Educação Física 87 execução, lembrando que, na educação infantil, o simples fato de esconder o rosto com as mãos é característica dessa atividade. Segundo Freire (2009, p. 47), As crianças menores que conseguem realizar este brinquedo costumam esconder apenas o rosto, julgando que assim o pegador não as vê. As crianças um pouco mais velhas escondem parte do corpo, tornando-se assim, facilmente visíveis. Somente as maiores (final da primeira infância) sabem ocultar todo o corpo, de modo a não serem vistas. Assim, executa-se essa brincadeira em diversos espaços, onde um aluno fecha os olhos encostando-se virado para a parede e os demais escondem-se pelo ambiente. Após todos terem se escondido e ao sinal do professor, este aluno vai procurar os escondidos, e aquele que for encontrado primeiro será o próximo aluno a procurar os outros depois de todos serem encontrados. Atividades com elementos da ginástica e que trabalham qualidades físicas das crianças também podem ser realizadas na educação infantil, como: fazer estrelinha ou roda, avião, ponte e vela; corrida de carrinho de mão em duplas, em que um colega segura as pernas do outro e este se desloca movimentando os braços com as mãos no chão; ainda em duplas e com as mãos unidas, puxar ou empurrar o colega para determinado lugar. Segundo Castellani Filho et al. (2009, p. 77), é importante trabalhar com “formas ginásticas que impliquem as próprias possibilidades de saltar, equilibrar, balançar e girar em situações de” desafios no ambiente natural, como árvores, declives, barrancos, desafios no próprio espaço da escola, como pátio e parquinho, e desafios com a utilização de materiais ginásticos ou alternativos. Com esses exemplos de atividades, é possível adaptar espaços e regras e usar a criatividade para fazer variações. É importante, também, que as crianças ajudem na construção de regras e que proponham novos elementos, pois isso incentiva a sua criatividade. Para a educação infantil, é preciso inserir as atividades em um 88 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental contexto de faz de conta, considerando as características dessa faixa etária. Para os anos iniciais do ensino fundamental, vamos propor atividades considerando a transição da educação infantil para essa etapa. Além da possibilidade de realizar algumas descritas na educação infantil, principalmente para 1º e 2º anos, apresentamos um conjunto de atividades que possuem elementos motores, cognitivos, sociais e afetivos que exigem um grau e conhecimento maior dos alunos para que eles possam realizá-los de forma efetiva. Por isso, é importante o diagnóstico da turma e dos alunos, a fim de organizar o planejamento das atividades, bem como repensar as ações a partir da metodologia reflexiva, descrita no capítulo anterior. Gallardo (2009, p. 63) traz exemplos de atividades a serem desenvolvidas nos anos iniciais: Caminhar executando passos largos, curtos ou alternando passos curtos e longos; explorar o deslocamento do corpo no espaço (para frente, para trás, para os lados, em linhas curvas, retas ou misturando linhas retas e curvas); explorar diferentes posições do corpo (deitado, em repouso ventral ou dorsal, andando de cócoras ou engatinhando, sentado com ou sem apoio, utilizando quadrupedia ventral ou dorsal); identificar variações do centro de gravidade (centro de gravidade baixo, médio ou alto; caminhar na ponta dos pés, de cócoras etc.); explorar diferentes expressões gestuais ou afetivas que indiquem alegria, raiva, tristeza, desânimo, rejeição, aceitação, competição etc. Para os anos iniciais, dividiremos as atividades de acordo com a formação/posição dos alunos no ambiente: posicionados aleatoriamente pelo ambiente, em círculos ou em filas e colunas. Posicionados aleatoriamente pelo ambiente, os alunos podem realizar diferentes atividades sem o uso de materiais. Espaços amplos e que oferecem segurança contribuem para a realização de atividades em que os alunos ficam dispostos aleatoriamente e livres para movimentarem-se em todas as direções. Esses espaços favorecem Atividades práticas para as aulas de Educação Física 89 a realização de atividades dinâmicas e com grande movimentação. De acordo com as características dos alunos, podem possuir regras simples e que vão se tornando complexas a partir da compreensão dos alunos, ou seja, uma mesma atividade pode ter variações que acrescentam a ela complexidade. Com os alunos dispostos de forma aleatória no espaço, as atividades de pegar podem ser realizadas das mais diversas formas. A seguir apresentamos alguns exemplos. Pega-pega: é a mais tradicional forma de brincar, sendo comum a prática em momentos que vão além da sala de aula, como no recreio e nas ruas. Conforme explica Freire (2009, p. 121), “escolhe- -se um pegador que tentará pegar as demais crianças dentro de um espaço limitado. Aquele que for pego passa a ser o pegador”. O autor ainda sugere que a escolha do pegador seja feita pelas crianças e que elas também auxiliem na determinação das regras da brincadeira. Além disso, há opções de variações quanto às dimensões espaciais (redução ou ampliação do espaço de fuga) e formas de captura (acrescentando pegadores ou estabelecendo um local onde estão salvos dos pegadores) (FREIRE, 2009, p. 10). Pega-cola: escolhe-se um aluno para ser o pegador e os demais fogem dele. Quem for pego permanece “colado”, como uma estátua, e só pode continuar fugindo se outro colega o “descolar”, encostando aXX, por exemplo, a 10 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental sociedade privilegiava apenas a aptidão física e a higiene, por causa do desenvolvimento econômico do país. Nessa época, o cenário tinha como característica a formação de pessoas como força de trabalho para a produção. Em termos cronológicos, a Educação Física escolar sistematizada teve início no final do século XIX. Nesta época, o país iniciava sua transição de sociedade escravista para uma formação social capitalista. Acompanhando as tendências que dominavam na Europa em diferentes campos do saber, existia a preocupação de construir um homem novo, que pudesse dar suporte à nova ordem política econômica e social emergente. (GALLARDO, 2009, p. 11) Diante do exposto, especificam-se diferentes concepções – ou tendências – com relação à Educação Física escolar, as quais acompanharam os diferentes contextos históricos e econômico- -sociais pelos quais passou o país. Assim, historicamente, a Educação Física apresentou as seguintes tendências pedagógicas. 1.1.1 Higienista e militarista Na concepção higienista, a preocupação estava centrada nos hábitos de higiene, valorizando o desenvolvimento físico e moral a partir da atividade física. Para Darido e Rangel (2011), o higienismo é uma das concepções dominantes na Educação Física. Gallardo (2009) afirma que, no Brasil, existia uma classe de médicos que buscava a reformulação de hábitos de higiene na família para libertar a população do vício do período colonial, como a preguiça, a imoralidade e a indolência, o que prejudicava a saúde, a moral e a vida coletiva. Assim, para alcançar os objetivos dessa sociedade, os higienistas recorreram às práticas de Educação Física, que, “com base em critérios estabelecidos pelas ciências biológicas, encarregaram-se de implementar programas disciplinares e de exercitação corporal nas escolas, a fim de desenvolver e fortalecer A Educação Física escolar 11 física e moralmente os indivíduos, tornando-os aptos para a construção da nova sociedade” (GALLARDO, 2009, p. 11). Nessa concepção, as aulas de Educação Física eram separadas entre meninos e meninas, pois, para os meninos, era importante a formação de corpos saudáveis, produtivos, fortes, para se tornarem futuros militares, e, para as meninas, o essencial era a formação de mães saudáveis, para se tornarem futuras donas de casa com muitos filhos (GALLARDO, 2009). Dessa forma, as práticas motoras da época fundamentavam-se em movimentos ginásticos oriundos dos métodos alemão, sueco e francês. A Educação Física tinha como premissa básica, portanto, a necessidade de atividades somente práticas, a fim de formar corpos fortes e saudáveis, tal como exigido pelo momento histórico, econômico e social (DARIDO; RANGEL, 2011). Assim como a higienista, a concepção ou tendência militarista também reduzia a Educação Física apenas a atividades práticas, sem necessidade de uma reflexão e fundamentação teórica para dar suporte a ela (DARIDO; RANGEL, 2011). A concepção militarista surgiu sob forte influência de um acontecimento histórico: a Primeira Guerra Mundial. Mesmo a guerra tendo início em 1914, o movimento com as alianças entre os países buscava a formação de contingentes militares a fim de defender os territórios. Assim, os militares começaram a ditar um novo modelo de homem a ser formado: o homem forte e capaz de defender a sua pátria. Essa influência militar pôde ser observada em 1907, com a criação da Escola de Educação Física da Força Policial do Estado de São Paulo, a primeira escola de formação de instrutores de Educação Física no Brasil, e, em 1922, com a criação do Centro Militar de Educação Física do Rio de Janeiro. Além de dar continuidade à concepção higienista, a concepção militarista introduziu nas escolas a necessidade de formar futuros militares (GALLARDO, 2009). 12 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Somente em 1939, no Brasil, foi criada a primeira escola civil de formação de professores de Educação Física (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Nesse período, a Educação Física escolar possuía como princípio “o adestramento físico como maneira de preparar o aluno para o cumprimento do seu dever de defender a nação dos perigos internos e externos” (GALLARDO, 2009, p. 12), sendo que, na época, diversas abordagens ginásticas para a prática surgiram no país, como o método francês, a calistenia e o método natural austríaco. Dentre esses métodos, o que inicialmente teve maior influência nas práticas de Educação Física no Brasil foi o método alemão, que caracteriza-se por considerar o corpo humano uma máquina composta de eixos de movimentos (articulações) e alavancas a serem movimentadas (segmentos corporais). Dessa forma, são propostos movimentos padronizados que tenham a mesma amplitude, intensidade e velocidade para todos, sejam esportistas, trabalhadores ou estudantes. A disciplina, a obediência às ordens superiores e a exatidão dos movimentos são a chave do êxito. Quanto maior o número de indivíduos atuando sincronizadamente, maior é o poder atribuído a esse tipo de organização. (GALLARDO, 2009, p. 12) Posteriormente, o êxito desse método em função de sua relação com o trabalho coletivo necessário na produção industrial começou a ser imitado e interpretado por outros países e grupos sociais, de diferentes formas, como a utilização de grandes aparelhos (ginástica artística) e pequenos aparelhos (ginástica rítmica). Originaram-se, assim, outros movimentos ginásticos, como o método francês, que interpretava as idiossincrasias do método alemão, o austríaco, que promovia a liberdade individual e a livre expressão, e a calistenia, que deu origem à ginástica localizada (GALLARDO, 2009). Observa-se, também, nessa época, que as aulas eram uma extensão da prática realizada pelos soldados. Os exercícios eram pautados em métodos ginásticos estrangeiros, contudo, não havia idiossincrasias: característica de comportamento peculiar de um indivíduo ou de determinado grupo. A Educação Física escolar 13 consenso entre os profissionais sobre os tipos de atividades que deveriam ser ministradas nas aulas de Educação Física (FINCK, 2011). Segundo Darido e Rangel (2011, p. 3), no modelo militarista, os objetivos da Educação Física na escola eram vinculados à formação de uma geração capaz de suportar o combate, a luta, para atuar na guerra; por isso, era importante selecionar indivíduos perfeitos fisicamente e excluir os incapacitados. Além da preocupação com as questões higiênicas, morais, disciplinares e militares associadas à Educação Física, ainda existia uma grande importância no condicionamento dos alunos em relação ao progresso econômico do país, e essa tendência predominou nas redes de ensino (GALLARDO, 2009). Além dessas concepções, temos uma tendência muito forte e que até hoje tem influência na Educação Física escolar: a esportivista. Conte-nos: você chegou a praticar esportes como futebol, basquete ou corrida nas aulas de Educação Física? Apostamos que sim e vamos explicar como surgiu essa valorização do esporte nas aulas de Educação Física. 1.1.2 Esportivista Seguindo a ordem da produtividade que privilegia a eficiência e a eficácia, os esportes atendem ao modelo vivido pela ordem econômica do mundo. Essa tendência da Educação Física desportiva, divulgada no Brasil por Auguste Listello, coincidiu com o final da Segunda Guerra Mundial, quando novas correntes disputavam supremacia no interior da instituição escolar (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Uma das concepções que mais observamos quando se fala em Educação Física escolar é a esportivista, pois os esportes são um dos conteúdos a serem desenvolvidos nas aulas dessa disciplina e estão claramente presentes nos documentos legais, como os Parâmetros 14 Metodologia da Educação Física escolar: educaçãomão em qualquer parte do corpo. Essa atividade possui muitas variações, como: permanecer colado com as pernas afastadas e um colega passa por baixo delas para “descolar”; permanecer colado em posição agachada e o colega passa por cima, com as pernas afastadas para descolar; permanecer colado com as mãos para cima e o colega encosta nas mãos para descolar; para descolar, é necessário dar um abraço no colega; e assim por diante. Aqui, você pode exercitar sua criatividade! Vale lembrar da possibilidade de variar a quantidade de pegas, colocando um, dois ou três alunos, dependendo do número de alunos da turma (quando há mais de 15 ou 20 alunos, 90 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental sugere-se um número de dois ou três pegas). Outra variação é a troca de pegadores. Pega-tubarão: os alunos ficam dispostos nas duas extremidades do ambiente e são denominados peixes. Um aluno fica no centro do ambiente e é denominado tubarão. Ao sinal do professor, os alunos trocam de lado, atravessando o centro, onde está o tubarão. Este, por sua vez, precisa tentar capturar os peixes, que, ao serem capturados, se transformam em tubarão. O professor passa a dar outro sinal até que todos os peixes sejam capturados nessa travessia. Pega-fruta: o professor estabelece dois grupos com número igual ou semelhante de crianças (meninos e meninas, crianças com camisetas coloridas e camisetas escuras, alunos com bermudas e com calças, e assim por diante). Após a definição dos grupos, um deles é maçã e o outro é laranja. Quando o professor falar “maçã” ou “laranja”, o grupo correspondente tenta capturar o outro. Quem for capturado fica colado em posição de estátua, até um companheiro do mesmo grupo encostar e descolar. O professor vai alternando os comandos de acordo com a motivação dos alunos em fugir ou em tentar capturar. Pega-corrente: indicado para alunos a partir do 3º ano. Escolhe- -se um pegador e os demais fogem. Quem for capturado pelo pegador precisa dar as mãos para ele e, juntos, vão formando uma corrente para pegar os demais. Essa atividade pode ser variada com os alunos em duplas, de mãos dadas, que fogem, ou escolhendo dois ou mais pegadores que formam duas ou mais correntes. Pega-mímica: a turma deve ser dividida em dois grupos e estes se posicionam cada um em uma extremidade do espaço. O grupo escolhe uma mímica para realizar, de acordo com a orientação do professor (pode ser de animal, esporte, brincadeira ou qualquer outra mímica – que também pode ser escolhida pelos alunos), e vai ao encontro do outro grupo para realizar a mímica. Se as crianças adivinharem a mímica, elas tentam capturar os alunos que a fizeram, Atividades práticas para as aulas de Educação Física 91 os quais fogem na direção do seu lado de origem. Quem for pego passa a pertencer ao outro grupo e a atividade segue alternando os grupos que realizam as mímicas. Pega partes do corpo: escolhe-se um pegador e os demais alunos fogem. Ao serem tocados pelo pegador, precisam continuar fugindo, porém colocando uma das mãos no local onde o pegador encostou, e assim também com a outra mão, caso o pegador encostar novamente. Ao ser encostado pela terceira vez, este passa a ser o pegador e o pegador passa a ser o fugitivo, como os demais. Pega nunca três: é uma variação do pega-pega tradicional, porém há apenas um fugitivo e um pegador, enquanto os demais alunos estão espalhados pela quadra em duplas e de mãos dadas. Para “se livrar do pegador, o fugitivo, além de correr, pode salvar-se pegando na mão de um dos componentes da dupla” (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 94). Ao dar a mão para um colega, automaticamente, o aluno que está no outro lado da dupla passa a fugir do pegador. Caso o fugitivo seja pego, invertem-se os papéis. As atividades em círculos também possuem muitas formas de serem realizadas e podem ser adaptadas em diferentes espaços, com as crianças posicionadas em pé, sentadas ou deitadas no chão. A seguir apresentamos algumas opções para essa forma de posição dos alunos. Ovo choco sem bola: os alunos posicionam-se em pé e em círculo, sendo que um deles caminha ao redor do círculo. Este encosta nas costas de um colega escolhido e foge, correndo ao redor do círculo. O escolhido tenta capturá-lo antes de o fugitivo chegar ao local vago pelo escolhido. Se o fugitivo for pego, este encosta novamente em outro colega, caso contrário, o aluno que não conseguiu capturar vai encostar em outro colega do círculo. Para que todos participem da brincadeira, sem exclusão, orienta-se que aqueles alunos que já participaram sentem-se nos seus lugares no círculo até todos realizarem a tarefa de capturar e fugir. 92 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Jogo do maestro: os alunos se posicionam em círculo e sentados no chão. Escolhe-se um aluno que irá se ausentar do espaço enquanto os demais decidem quem será o maestro. Chama- -se o aluno ausente e o maestro começa a fazer gestos repetitivos (bater palmas, tocar partes do corpo, bater no chão), os quais serão imitados pelos demais colegas. O aluno que se ausentou deve se posicionar no centro do círculo e tentar descobrir quem é o maestro. O professor pode dar três ou mais tentativas para que ele descubra quem é o maestro. Depois, este passa a ser o aluno que se ausenta (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Gato e rato: é uma brincadeira muito conhecida, na qual os alunos ficam em círculo, em pé e de mãos dadas. Dois alunos são designados como o gato e o rato, sendo que o rato fica dentro do círculo e o gato fora. Um dos alunos do círculo é a porta, e o gato, ao tocar na porta, dialoga com ela: Gato: Bate três vezes na porta. Porta: – Quem é? Gato: – É o gato. Porta: – E o que você quer? Gato: – O rato está? Porta: – Não. Gato: – Que horas ele volta? Porta: – Às cinco horas. Então, o círculo gira com os alunos contando até cinco para que o gato novamente toque a porta. O mesmo diálogo acontece, porém a porta deixa o gato entrar para tentar pegar o rato. O rato tenta fugir com o apoio dos demais componentes do círculo, podendo passar por baixo dos braços dos colegas em qualquer parte do círculo. A atividade se repete para que todos passem pelas funções de gato e rato. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 93 Jogo do vai ou vem: os alunos ficam dispostos em círculo e em pé, e um aluno caminha ao redor do círculo, do lado de fora. Este deve tocar as costas de algum colega e falar “vai” ou “vem”. Ao falar “vai”, os dois alunos apostam uma corrida ao redor do círculo, cada um por um lado, para ocupar o lugar vago. Se falar “vem”, os dois alunos correm na mesma direção para ocupar o lugar vago. Aquele que não conseguir ocupar o lugar deve tocar em outro aluno do círculo para realizar novamente a ação. Máquina de lavar: cada grupo, de cinco alunos, forma um círculo com quatro alunos e o outro se posiciona fora, sendo designado como o pegador. O pegador escolhe um aluno do círculo para tentar capturar, e os que estão no círculo movimentam-se para impedir que o pegador consiga encostar no aluno escolhido. Essa movimentação assemelha-se ao movimento da máquina de lavar, pois o círculo não pode soltar as mãos. Invertem-se os papéis para que todos os alunos vivenciem a função de pegador. Atividades em colunas ou filas e sem utilização de materiais podem ser adaptadas para qualquer ambiente da escola, desde que não interfiram nas atividades das outras turmas. Filas são organizadas com os alunos posicionados um ao lado do outro e colunas com os alunos um atrás do outro. A seguir, apresentamos algumas possibilidades nessa formação. Cabeça pega o rabo: deve-se dispor a turma em colunas com cinco alunos cada, e as mãos devem ser colocadas nos ombros do colega da frente. O aluno posicionado na frente da coluna é a cabeça, e o que está no final da coluna é o rabo. Assim, a atividadese realiza com a cabeça tentando encostar no rabo, que tenta escapar sem soltar as mãos do ombro do colega da frente. Trocam-se os papéis para que todos possam desempenhar as funções de cabeça e rabo. As sombras: os alunos são dispostos em colunas, sendo que o que está posicionado na frente realiza movimentos diversos e os que estão atrás precisam imitá-lo. Invertem-se os papéis para que 94 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental todos fiquem na frente da coluna e consigam realizar movimentos de forma criativa. Telefone sem fio gestual: os alunos são posicionados em coluna e não podem olhar para trás. O último aluno toca no colega da frente, que se vira para trás para receber um gesto, o qual deverá ser repassado para o próximo aluno. Ao chegar no final da coluna, o gesto deve ser compartilhado com todos para analisarem se foi parecido com o gesto inicial. Jokenpô em duas filas: os alunos, em duplas, ficam dispostos em duas filas, uma de frente para a outra. A dupla joga jokenpô (pedra, papel e tesoura) e quem ganha a atividade parte para capturar o outro colega, que precisa fugir até um local determinado. A atividade se repete até que todos vivenciem as funções de pegador e fugitivo algumas vezes. Par ou ímpar: os alunos, em duplas, ficam dispostos em duas filas, uma de costas para a outra. Uma fila é designada como a fila par, e a outra, a fila ímpar. Quando o professor fala um número par, a fila par persegue os alunos da fila do ímpar, que fogem para um local determinado; se o professor falar um número ímpar, os alunos da fila do ímpar serão os perseguidores. Essa atividade pode ter variações, como usar o resultado de uma conta feita pelo professor ou definir as filas com outras palavras ou comandos como: pelo (falar um animal que possui pelos) ou pena (um animal que possui penas), quente (falar um elemento que é quente) e frio (um elemento que é frio, gelado), sol e lua. Os guias: formam-se colunas com quatro ou cinco alunos e com as mãos posicionadas nos ombros do colega da frente. O aluno da frente da coluna fecha os olhos, enquanto o último passa o comando para os demais, até chegar ao primeiro da coluna. O comando é feito pressionando os dedos nos ombros (direito ou esquerdo) e, assim que o comando chegar ao primeiro aluno, este descola-se para o Atividades práticas para as aulas de Educação Física 95 lado correspondente. Invertem-se os papéis para todos serem os primeiros da coluna. Tora humana: os alunos ficam deitados no chão, em colunas, bem próximos uns dos outros. Recomenda-se que seja realizada em um piso de tatame e/ou em colchonetes. O aluno de uma das extremidades da coluna inicia a atividade rolando por cima dos demais e se posicionando da mesma forma na outra extremidade, e assim por diante, até que todos os alunos também o façam. O professor orienta para que o rolamento aconteça com os alunos posicionando os braços juntos ao corpo e alinhados, para que evitem machucar os colegas com os cotovelos. Os alunos deitados não podem flexionar os joelhos, pois isso impede a passagem. Essa atividade pode ser variada com os alunos posicionados mais afastados uns dos outros para realizar saltos e chegar à outra extremidade. As opções de atividades sem uso de materiais dependem também da criatividade do professor, que poderá adaptar as sugestões descritas nesta seção e proporcionar brincadeiras que considerem a cultura corporal de movimento dos alunos. Danças e cantigas de roda sem utilização de recurso sonoro são desenvolvidas de acordo com a região onde a escola se localiza. A seguir, apresentamos opções de atividades com a utilização de materiais diversificados. 4.2 Atividades com uso de materiais Na educação infantil, os recursos materiais possibilitam a realização de diversas atividades que atendem aos objetivos da Educação Física para essa etapa do ensino. Além de oferecer subsídios para os professores, esses recursos, quando coloridos e atrativos, promovem a motivação dos alunos para a realização das atividades. De acordo com Freire e Scaglia (2009), as escolas de educação infantil precisam ter um farto material à disposição e é importante que ele “seja colorido, diversificado, atraente e versátil, para permitir uma variedade grande de brincadeiras” (FREIRE; 96 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental SCAGLIA, 2009, p. 108). Cabe ao professor usar sua criatividade com os materiais para proporcionar experiências significativas aos alunos, contribuindo para a sua formação. Segundo Nista-Piccolo e Moreira (2012, p. 36-37), na educação infantil, a criança quer explorar o espaço ao seu redor e precisa se movimentar; portanto é muito importante que ela possa vivenciar diferentes sensações provocadas para experimentar novos movimentos. Por exemplo, a sensação que ela exprime ao se pendurar em uma barra fixa ou ao pular num trampolim acrobático, as variações que consegue descobrir brincando com um arco ou uma bola nas mãos, a criatividade de movimentos que faz com uma fita, ou ainda, a superação da insegurança em andar pela primeira vez sobre uma trave de equilíbrio, são todas experiências inesquecíveis para a criança quando vivenciadas com prazer. Portanto, cabe ao professor organizar o ambiente para que o aluno possa vivenciar diferentes formas de se movimentar, sendo os recursos materiais ferramentas que auxiliam nesse processo. A seguir, trazemos sugestões para serem trabalhadas na educação infantil. Tapete ou corredor de texturas: o professor constrói um tapete ou corredor com diferentes texturas (areia, água, grama, terra, algodão, lã etc.) para que os alunos pisem de pés descalços ou engatinhando, e possam tocar com as mãos, a fim de identificar o que sentiram sobre aquela textura. Depois, o professor pode promover um diálogo, indagando qual sensação tiveram ao tocar, e associar com emoções que vivenciam no dia a dia. Outra forma de as crianças identificarem texturas pode ser tocando-as com os olhos vendados, o que aguça o sentido do tato. Desenhar o corpo: em duplas, um colega se deita no solo e o outro faz o contorno do corpo com giz. Depois, pode acrescentar detalhes, como roupa, olhos, nariz, cabelos, acessórios, entre outros, o que incentivará a criatividade. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 97 Atividades com bola: na educação infantil, é possível trabalhar diferentes atividades usando bola, por exemplo: passar a bola em círculo com os alunos sentados ou em pé; passar a bola em colunas ou filas por cima da cabeça, ao lado do corpo ou por baixo das pernas, sentados e com pernas afastadas; rolar a bola no chão em duplas; conduzir a bola com as mãos quicando-a ou rolando-a em determinado espaço, entre outras. Atividades com corda: várias atividades podem ser realizadas com esse material: caminhar por cima da corda, desenvolvendo o equilíbrio; cabo de guerra; saltar por cima da corda estando esta parada ou em movimento; passar por baixo da corda rastejando ou rolando, entre outras. Segundo Freire e Scaglia (2009, p. 111), “as brincadeiras de corda desenvolvem bastante as habilidades de saltar e correr, além de desenvolver as noções de tempo e espaço”. Atividades em colchão ou colchonetes: o professor pode solicitar aos alunos que realizem o movimento de rolar, rastejar, saltar em cima com um pé ou com os dois juntos ou girar (executar uma cambalhota). Atividades com arcos: são exemplos de atividades com esse material: passar por dentro; posicionados no chão, saltar dentro deles com os dois pés juntos; girar o arco nos braços, cintura e cabeça; conduzir os arcos rolando-os pelo ambiente. Atividades com jornais: os alunos podem equilibrar o jornal com diferentes partes do corpo (mão, cabeça, costas, joelhos); equilibrar e conduzir o jornal; amassar o jornal; fazer bolinhas e acertar um alvo determinado; usá-loscomo peteca; conduzir a bolinha com os pés pelo ambiente; encher o cesto acertando o alvo. Atividades com músicas: o professor pode promover rodas cantadas, dança da cadeira (que pode ser feita com arcos no chão ou círculos desenhados com giz), danças do folclore; usar a música como comando para fazer o jogo da estátua; e usar músicas que possuem comando para realização de diversos movimentos. 98 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Além dos materiais e atividades descritos, na educação infantil o professor pode trabalhar com outros materiais diversos, a fim de que seus alunos tenham experiências diversificadas de movimentos. Por exemplo: túneis, piscinas de bolinhas, balões, bastões, panos e lenços, giz, papel pardo, cones, brinquedos diversos, materiais alternativos/recicláveis (pneus, latas, embalagens plásticas, caixas de papelão, sacolas plásticas), entre outros. A seguir, alguns exemplos. Roubo do rabo: os alunos ficam dispostos livremente pelo espaço, cada um com uma sacola plástica presa com uma das extremidades no elástico da calça ou calção atrás do corpo. Ao sinal do professor, correm e tentam capturar os rabos dos colegas. Quando todos tiverem seus rabos capturados, verifica-se quem conseguiu capturar mais rabos da turma. Após isso, cada aluno devolve o rabo que capturou e a atividade pode ser realizada mais vezes. Boliche: com garrafas pet, construir pinos de boliche, podendo ser enfeitados e enumerados. Estes são agrupados e, com o auxílio de uma bola e estipulando uma distância, os alunos tentam acertar os pinos para derrubá-los. Estilingue com garrafa pet e balão: recorta-se a extremidade de uma garrafa pet e coloca-se a ponta de um balão no gargalo da garrafa. Usando um pedaço pequeno de papel amassado como munição, pede-se aos alunos para que acertem determinado alvo, que pode ser uma garrafa pet vazia no chão ou um alvo feito pelo professor no quadro. Jogo com bolinha de jornal e pet: recorta-se a extremidade de uma garrafa pet para cada aluno, sendo esta segurada por eles pelo gargalo. Com uma bolinha de jornal, lançam-na uns para os outros utilizando apenas o material construído. Essa atividade pode ser realizada em duplas ou trios e variando a bolinha – de tênis ou tênis de mesa. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 99 Para os anos iniciais do ensino fundamental, além da possibilidade de os alunos executarem atividades descritas para a educação infantil, vamos apresentar atividades que são realizadas com o uso de materiais e que podem possuir regras com um nível ou grau maior de dificuldade. Estafetas em colunas: com os alunos divididos em duas ou mais colunas, o primeiro de cada coluna, com uma bola em mãos, desloca-se até um cone e volta entregando-a para o próximo colega da sua coluna. Esse tipo de atividade pode ser realizado com muitas variações, que dependem do conhecimento motor dos alunos, por exemplo: • com a bola nas mãos, saltar em um pé só; • deslocar-se rolando a bola no chão; • quicar a bola com as duas ou uma das mãos; • lançar para cima e segurá-la sem deixar cair no chão; • deslocar-se em “marcha ré”, com outro tipo de material que não seja uma bola (cone, arco, jornal etc.); • deslocar-se com uma colher na boca, equilibrando uma bolinha de jornal ou de tênis na ponta da colher; • deslocar-se saltando com os pés dentro de um saco; • deslocar-se e pendurar um pano com um prendedor de roupas em um barbante; • duas equipes em colunas deslocam-se para jogar o jogo da velha. Essa última atividade é realizada em duas equipes dispostas em duas colunas. Ao sinal do professor, o primeiro aluno de cada coluna desloca-se até determinado local onde está um jogo da velha riscado no chão ou feito com nove arcos. Junto ao jogo, estão três cones para cada equipe que serão utilizados para jogar (três amarelos e três vermelhos, por exemplo). Quando o aluno realiza uma jogada, corre 100 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental de volta à sua coluna, então, o próximo corre e faz o mesmo. Ganha a equipe que conseguir vencer o jogo da velha. Se, após três jogadas, as equipes não conseguirem vencer o jogo da velha, a atividade continua com o próximo aluno trocando de lugar um de seus cones, até que alguma equipe vença o jogo. Queimada ou caçador: essa é uma brincadeira muito popular com a utilização da bola e pode ser desenvolvida de diferentes formas: • Queimada livre: os alunos são dispostos livremente pelo espaço com duas bolas de posse de dois alunos. Estes precisam queimar os demais, que também podem tomar posse da bola e queimar os outros. Não é permitido ao aluno lançar a mesma bola duas vezes consecutivas. Quem for queimado senta-se no chão e espera a atividade terminar, até que reste apenas um aluno sem ser queimado. Inicia-se novamente a atividade, entregando a bola para outros dois alunos. • Queimada maluca: formam-se duas equipes – uma fica dentro do espaço delimitado e a outra do lado de fora. A equipe do lado de fora precisa queimar os alunos que estão dentro do espaço, enquanto o professor cronometra em quanto tempo estes conseguem queimar todos os participantes da equipe. Ao ser queimado, o aluno espera do lado de fora do jogo. O professor marca o tempo e inverte-se a posição das equipes. A equipe que queimar os adversários em menor tempo é a vencedora. • Queimada em dois campos: o professor separa os alunos em duas equipes com número igual ou semelhante. Os que estão no centro da quadra precisam fugir e queimar os alunos da outra equipe, e os que estão na “reserva” apenas queimam os que estão no centro. Ao ser queimado, o aluno dirige-se para a reserva e um aluno da reserva entra no seu lugar, conforme a Figura 1 a seguir. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 101 Figura 1 – Figura explicativa da queimada em dois campos Reserva equipe B Centro Equipe A Centro Equipe B Reserva equipe A Fonte: Elaborada pelas autoras. Cabra-cega: utilizando um lenço, o professor venda um aluno que deverá tentar encostar nos demais colegas, os quais terão um espaço delimitado para se deslocar. Ao ser encostado, o aluno vendado deverá, por meio do toque, descobrir quem é o seu colega. Segundo Gallardo (2009), nessa etapa do ensino, o professor pode utilizar diferentes jogos e adaptá-los conforme a cultura de movimento dos alunos, por exemplo: jogos e brincadeiras ligados à cultura corporal regional trazidos ou ensinados por colegas. Alguns exemplos: queimada, taco, pique bandeira, gol a gol, controle, chute ao gol, bobinho, dois toques, amarelinha, pular corda, bambolê, esconde-esconde, bolinha de gude, pião, lenço atrás, corre cutia, pega-pega, duro ou mole, mão de rua, cabo de guerra, cirandas e brincadeiras de roda. (GALLARDO, 2009, p. 63) É possível que você conheça algumas das brincadeiras e jogos citados. O importante é resgatar as brincadeiras e jogos vivenciados nos locais de atuação do professor, bem como em suas memórias da infância. Circuitos motores: o professor monta um circuito com obstáculos construídos com diferentes materiais, proporcionando a vivência dos elementos motores fundamentais: correr, saltar, rastejar, equilibrar, arremessar, entre outros. A realização do circuito pode ser feita cronometrando o tempo de cada aluno, o tempo da equipe ou o tempo de todos os alunos como sendo de uma equipe só, desafiando-os, assim, a superar esse tempo. Zerinho: é uma brincadeira que utiliza a corda, conhecida como o jogo de passar, em que um aluno corre pela corda enquanto duas 102 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental pessoas a giram. Conforme explica Freire (2009, p. 79), a atividade é feita da seguinte maneira: “Duas pessoas batem a corda, segurando-a nas extremidades; a corda é batida em direção às crianças, as criançassão colocadas em coluna perpendicular à corda; uma a uma passa correndo sob a corda sem serem interrompidas por esta; duas a duas as crianças se revezam batendo corda”. O autor propõe que essa atividade seja realizada da forma como os alunos preferirem, para que se estimule a sua autonomia, isto é, podem passar em duplas, na hora em que se sentirem confiantes e quantas vezes quiserem. A atividade pode ter variações, incluindo o salto juntamente com a corrida, ou seja, a criança corre para o centro, salta uma ou mais vezes e depois corre para fora. Atividades em círculo com bolas: podemos identificar diferentes atividades realizadas em círculos utilizando bolas, por exemplo: batata-quente; lançar sem deixar cair no chão; jogo do bobinho sentado ou em pé; entre outras. Passar o arco em círculo: essa atividade se realiza com os alunos de mãos dadas e em círculo. As mãos de dois alunos estão entre um arco e este deverá ser passado pelo corpo dos alunos sem que soltem as mãos uns dos outros. É possível acrescentar um ou mais arcos. Atividades pré-desportivas: ao final dos anos iniciais, as atividades pré- desportivas estão elencadas como conteúdos a serem desenvolvidos. Com caráter lúdico e recreativo, podem ser trabalhadas em diferentes jogos, trazidos pelo professor ou pelos alunos. São exemplos: queimada ou caçador – já visto anteriormente – (pré-desportivo do handebol), jogo de câmbio (pré-desportivo do voleibol), jogo de bobinho com os pés (futebol), jogo de acertar o alvo ou o cesto (basquete), jogo da velha utilizando elementos esportivos, entre outros. Atividades práticas para as aulas de Educação Física 103 Considerações finais Neste capítulo, oferecemos um rico material de apoio que auxi- liará na construção dos planos de aula dos professores. Entendemos que cada região do nosso país possui seu contexto histórico e cultural, por isso, cabe ao professor explorar ao máximo as potencialidades do ambiente em que está inserido, transformando a aula em um momento de aprendizado, mas ao mesmo tempo prazeroso para o aluno. Ao conseguir proporcionar aos alunos um ensino e aprendizado de forma eficiente, que atenda às suas necessidades e à sua formação de forma integral, o professor estará incentivando nesses alunos o gosto pelo hábito saudável de manter o corpo em movimento, o que auxilia na prevenção de doenças decorrentes do sedentarismo. A prática de movimentos de forma prazerosa, além de contribuir para o desenvolvimento motor dos alunos, traz benefícios para os aspectos psicológicos, cognitivos, afetivos e sociais, essenciais para a formação de um aluno autônomo, responsável e comprometido com a sociedade em que vive. Ampliando seus conhecimentos • MATTOS, M. R. G.; NEIRA, M. G. Educação Física infantil: construindo o movimento. São Paulo: Phorte, 2008. Esse livro, em sua 7ª edição, faz uma introdução sobre elementos do movimento (esquema corporal, estruturação espacial e orientação temporal) e traz construtos teóricos sobre a Educação Física infantil em uma perspectiva construtivista, orientações para planejamento e sugestões de atividades para a educação infantil e anos iniciais. 104 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental • CASTRO, A. de. Jogos e brincadeiras para Educação Física: desenvolvendo a agilidade, a coordenação, a velocidade e a força. Trad. de Guilherme L. Summa. Petrópolis: Vozes, 2012. Esse livro traz uma coletânea de jogos e brincadeiras para serem desenvolvidos nas aulas de Educação Física no ensino fundamental. Ele apresenta atividades que possuem uma infinidade de variações e podem ser adaptadas e moldadas. Atividades 1. Como deve ser o ensino na educação infantil, segundo a perspectiva de Freire e Scaglia? 2. É possível trabalhar a mesma atividade na educação infantil e nos anos iniciais? 3. Como podem ser as atividades pré-desportivas realizadas no final dos anos iniciais do ensino fundamental? Referências CASTELLANI FILHO, L. et al. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 2009. FREIRE, J. B. Educação de corpo inteiro. São Paulo: Scipione, 2009. FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2009. GALLARDO, J. S. P. Prática de ensino em Educação Física: a criança em movimento: livro do professor. São Paulo: FTD, 2009. NISTA-PICCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo em movimento na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2012. 5 Avaliação do processo de ensino- -aprendizagem da Educação Física Até aqui, apresentamos a história, legislação, características dos alunos, procedimentos metodológicos, formas de planejamento e atividades para as aulas de Educação Física escolar, isso tudo na perspectiva de promover uma aula adequada no que tange à cultura corporal de movimento. Salientamos que a avaliação é uma fase importante das ações educativas e deve ser realizada desde o início do processo de ensino- -aprendizagem. Além disso, justifica-se a sua realização se utilizada para contribuir com esse processo, e não com o intuito de selecionar e rotular os alunos. A seguir, trazemos elementos importantes para que você compreenda como ocorre o processo avaliativo da aprendizagem na disciplina de Educação Física. Como podemos definir o que é avaliação? Como e quando devemos avaliar? Vamos entender? 5.1 A avaliação na disciplina de Educação Física A avaliação é um elemento contínuo no processo de ensino- -aprendizagem. Desse modo, faz sentido quando utilizada como contribuição para o currículo escolar, sempre partindo do princípio de que cada criança é única e, por esse motivo, não deve ser comparada às demais. Avaliar é um processo muito importante no contexto educacional, mas é uma atividade difícil de se realizar, pois envolve juízo de valores, observação, reflexão e conhecimento sobre 106 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental cada aluno, a fim de elaborar e planejar ações que contribuirão para o seu aprendizado e desenvolvimento. Na perspectiva de Castellani Filho et al. (2009), a avaliação não pode ser reduzida ao universo técnico de seu entendimento, mas deve levar em conta a observação, análise e conceituação de elementos no desenvolvimento das atividades. Estes elementos compõem a totalidade da conduta humana e se expressam por meio de diferentes atividades da Educação Física. A avaliação é utilizada tanto para o diagnóstico como para a retroalimentação na ação educativa. Ela aponta os erros e permite uma recuperação para o aluno e para o professor. Segundo Brandl (2010, p. 113), “o ato de avaliar pode ser entendido como um posicionar-se constante frente ao realizado, confrontando-o com o desejado”. Nessa perspectiva, fazemos a avaliação diagnóstica a fim de conhecer os alunos para, então, realizar o planejamento das ações. A partir daí, avalia-se para saber se as ações planejadas e executadas estão atingindo os objetivos, a fim de que os alunos adquiram as competências indicadas nos documentos legais mencionados anteriormente. Com isso, entende-se que o processo de ensino- -aprendizagem exige a avaliação constante, para planejar e replanejar, caso necessário. Castellani Filho et al. (2009) abordam a avaliação considerando uma perspectiva dialógica e interativa entre os envolvidos no processo. Esse diálogo permite decidir em conjunto, com os alunos assumindo responsabilidades, o que é caracterizado como uma avaliação participativa. Gallardo (2009, p. 91) utiliza e explica o termo avaliação por compromisso: a avaliação por compromisso envolve a participação conjunta e a definição de um processo interessante. Partir para esse tipo de avaliação não é jogar fora o que já existe 107Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física em termos de conceito e instrumentos de avaliação, mas simplesmente refletir sobre o que avaliar e por que avaliar na EducaçãoFísica escolar. Considerando essas colocações, entende-se que, atualmente, nas ações educativas, o aluno é o protagonista, podendo participar desde o planejamento até a reflexão sobre a sua evolução no aprendizado. Isso se caracteriza como uma metodologia ativa e reflexiva, na qual o professor é um mediador no processo de ensino-aprendizagem. No início do ano letivo, é importante que o aluno conheça o processo avaliativo, podendo opinar sobre ele, tornando-o, assim, mais significativo. Porém nem sempre foi assim. Como lembram Darido e Rangel (2011), na década de 1970, a avaliação era utilizada com o intuito de atribuir nota e compará-la com o modelo padrão, estabelecido por normas e tabelas. Nessa época, as classificações eram obtidas a partir de testes de suficiência física no início do ano e eficiência física no final do ano. Utilizavam-se testes de força e coordenação, nos quais os alunos eram classificados nas categorias: fraco, regular, bom e excelente. A aplicação dos testes era “mecânica, descontextualizada e aleatória” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 123) e essa forma de avaliação muitas vezes submetia os alunos ao sentimento de incompetência e vergonha. Para as autoras, tal concepção servia para classificar, punir a indisciplina ou os erros e também selecionar os alunos. Vale ressaltar que o processo avaliativo acompanhava as tendências vigentes da Educação Física, sendo que, quando prevaleciam o militarismo e o tecnicismo, a avaliação era essencialmente quantitativa, mensurando o biológico, uma vez que a prática pedagógica se restringia à repetição de movimentos e à aptidão física. A partir da década de 1970, houve muitas mudanças nas concepções da Educação Física. No Capítulo 1, vimos que surgiram novas teorias pedagógicas e novas formas de conceber a avaliação nesse componente curricular. Segundo Fonseca e Machado 108 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental (2015), visar novas perspectivas para a Educação Física escolar envolve a retomada de concepções que influenciam implícita ou explicitamente nas ações avaliativas. Assim, na década de 1970, devido a críticas acerca do processo avaliativo, surgiu uma nova visão nesse aspecto. Dessa forma, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) afirma que “a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais” (BRASIL, 1996, art. 24, inc. V). Esse documento aborda a avaliação sob outra perspectiva, diferente da que se tinha em décadas anteriores. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), tem-se que “tradicionalmente, a avaliação, na área da Educação Física, se resume a alguns testes de força, resistência e flexibilidade, medindo apenas a aptidão física do aluno” (BRASIL, 1997, p. 55). O documento lembra, também, que a aptidão física é apenas um dos aspectos a serem avaliados. É preciso considerar que cada aluno é único, com expectativas e motivações diferentes. Segundo a Base Nacional Comum Curricular, as aprendizagens se materializam mediante o conjunto de decisões que caracterizam o currículo em ação, resultam do envolvimento e participação das famílias e da comunidade, e referem-se, entre outras ações, a “construir e aplicar procedimentos de avaliação formativa de processo ou de resultado que levem em conta os contextos e as condições de aprendizagem, tomando tais registros como referência para melhorar o desempenho da escola, dos professores e dos alunos” (BRASIL, 2017, p. 15). Nesse sentido, a Educação Física possui um novo formato de avaliação, que difere da abordagem essencialmente quantitativa, 109Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física centrada exclusivamente na aptidão física e testes motores, utilizada décadas atrás. Nesse novo enfoque, a Educação Física propõe uma avaliação na qual professor e aluno definem o que e como avaliar. Para isso, combinam instrumentos de avaliação e critérios dentro do trabalho proposto. Na Educação Física, cujo objeto de estudo é a cultura corporal do movimento, a avaliação é tema de constantes discussões a respeito dos elementos que a envolvem. Nessas reflexões, entende-se que deve ser dada uma atenção ao tempo necessário para que o aluno efetive a sua aprendizagem, ou seja, ao número de aulas adequado para que a aprendizagem ocorra de acordo com o ritmo da turma (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Sendo assim, considera-se o ritmo da turma e o ritmo individual dos alunos para estabelecer os instrumentos e critérios, lembrando que a avaliação é um processo contínuo. Freire (2009, p. 174) reflete: “Se é difícil avaliar a aprendizagem da leitura e da escrita, do cálculo, da geografia etc., que dirá quanto à aprendizagem da Educação Física?”. Segundo o autor, não é fácil avaliar o movimento, pois ele abrange vários elementos, como força, flexibilidade, coordenação, resistência, equilíbrio, agilidade, cognição, afetividade, entre outros. São vários os fatores que envolvem as atividades na Educação Física e, por isso, esse componente curricular não deve avaliar somente a parte motora. Como os outros componentes, precisa também considerar a criança como um todo. Nesse sentido, Gallardo (2009, p. 91-92) afirma que: Avaliar o desenvolvimento do aluno na aula de Educação física escolar implica ressaltar os aspectos da formação humana. Avaliar atitudes é complicado e requer a participação de todos os envolvidos no processo ensino- -aprendizagem. O resultado desse tipo de avaliação contribui expressivamente para a formação do cidadão, pois o aluno é avaliado no contexto escolar e por suas ações na comunidade a que pertence. 110 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Isso está de acordo com os objetivos da educação, que perpassam a formação do aluno de forma integral, considerando as diferentes dimensões que envolvem os aspectos biológicos, cognitivos, afetivos e sociais. Para exemplificar a avaliação do processo de ensino- -aprendizagem, considerando que este deve ocorrer em todos os momentos, trazemos a avaliação de uma aula segundo Nista- -Piccolo e Moreira (2012). Nessa avaliação, os autores afirmam que é importante identificar os alunos que demostraram dificuldades ao brincar em grupos e realizar as tarefas, os que estimularam e auxiliaram os colegas, bem como aqueles que respeitaram as regras de convivência, que envolvem o momento certo de falar e de ouvir. Nesta seção, trouxemos reflexões sobre a avaliação como elemento fundamental do processo de ensino-aprendizagem. A seguir, abordaremos os instrumentos, critérios e dimensões da avaliação, importantes para o conhecimento do futuro docente. 5.2 Dimensões, critérios e instrumentos de avaliação na Educação Física Nesta seção, vamos refletir sobre o que, quando e como avaliar. Como vimos anteriormente, a avaliação na Educação Física não deve ser centrada apenas no domínio motor, já que o movimento envolve também relações cognitivas, afetivas e sociais. Desse modo, segundo Darido e Rangel (2011, p. 128), “a avaliação em Educação Física deve considerar a observação, análise e conceituação de elementos que compõem a totalidade da conduta humana, ou seja, a avaliação deve estar voltada para a aquisição de competências, habilidades, conhecimentos e atitudes dos alunos”. Para avaliar, é preciso conhecer o aluno, observá-lo em suas ações durante as aulas, buscando entender suas atitudes e a evolução no 111Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física aprendizado. Como um suporte para o planejamento das atividades e da avaliação, é importante conhecer a família e o contexto em que ela está inserida, pois, com essas informações, é possível saber se o alunoestá tendo um rendimento satisfatório e condizente com o seu potencial. Nessa perspectiva, a observação é um instrumento fundamental no processo avaliativo e deve ser utilizada durante todos os momentos na prática educativa. Darido e Rangel (2011) afirmam que, ao avaliar, o professor deve responder às seguintes questões: O que o aluno sabe em relação ao conteúdo? Quais experiências anteriores teve? Quais os seus interesses e qual o seu estilo de aprendizagem? Para as autoras, com essas respostas, o professor pode formular ações para facilitar a aprendizagem, sendo que esse levantamento faz parte de uma avaliação diagnóstica. É preciso, então, avaliar o aluno considerando-o em sua individualidade e integralidade, como ser social e cultural, bem como deve-se levar em consideração o seu conhecimento prévio e a evolução deste. A avaliação deve abranger as dimensões cognitiva (competências e conhecimento), motora (habilidades motoras e capacidades físicas) e atitudinal (valores), verificando a capacidade de o aluno expressar sua sistematização dos conhecimentos relativos à cultura corporal em diferentes linguagens – corporal, escrita e falada. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 128) Para avaliar o aluno em todos os aspectos que envolvem a cultura corporal do movimento, os instrumentos podem ser provas teóricas, trabalhos escritos, seminários, observações sistemáticas, testes de habilidades e capacidades físicas, gravações em vídeo, entre outros. A partir desses materiais, é possível coletar os dados para que a sua análise seja feita posteriormente (DARIDO; RANGEL, 2011). 112 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Segundo Freire (2009), instrumentos que não se materializam em anotações podem ser práticos e úteis para um professor que possui muitos alunos e para escolas com poucas condições. Desse modo, a observação pode ser o seu instrumento da avaliação, considerando que essa proposta deve ser adequada à fase de aprendizagem dos alunos. Entende-se que a avaliação é um processo preponderante para o êxito nas ações de ensino e aprendizagem. Desse modo, a escolha dos instrumentos é muito importante, além disso, os instrumentos de avaliação precisam ser diversificados. Contudo, segundo Darido e Rangel (2011), o problema não consiste na escolha dos instrumentos, mas na concepção que envolve a sua utilização. Nas palavras das autoras, “o problema não reside no modo de coletar as informações, e sim no sentido da avaliação, que deve exercer-se como um contínuo diagnóstico das situações de ensino e de aprendizagem, útil para todos os envolvidos no processo pedagógico” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 128). Para Luckesi (1997 apud BRANDL, 2010), utilizar provas como forma de ameaça ou castigo à indisciplina não tem relação com o ensino e aprendizagem de conteúdos, tem a ver com doutrinamento por meio do medo, agindo para controlar ações indesejáveis. Essa afirmação nos leva a compreender o quanto é importante levar em consideração o que foi pontuado nos capítulos anteriores no que tange ao ensino da Educação Física, conteúdos, objetivos e métodos, assim como o planejamento. Se o processo for condizente com o que se espera de uma aula, com todas as considerações já mencionadas, não será necessário o professor usar de provas como ameaça para obter o respeito e a atenção dos alunos nas atividades. Na Educação Física, qualquer instrumento de avaliação que seja adotado apresenta limitações. Se for um instrumento quantitativo, não é adequado, pois a atividade humana é imensurável. Se for qualitativo, faltará a objetividade. Para os testes físicos, em função 113Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física de que levaria muito tempo para executá-los, muitos professores escolhem apenas alguns e solicitam que os alunos auxiliem no controle da atividade. Além desses elementos, existem outros que são qualitativos e dependem da análise do professor e de seu conhecimento sobre o aluno e o seu desenvolvimento (FREIRE, 2009). Castellani Filho et al. (2009) explicitam que utilizar instrumentos de avaliação bem elaborados, estimulando a curiosidade dos alunos e empregando os dados coletados de forma precisa, é algo possível de ser realizado em todas as partes da aula. Assim, instrumentos, técnicas e procedimentos podem motivar os alunos e coletar informações sobre o seu desempenho. Para Fonseca e Machado (2015), três concepções orientam as reflexões a respeito da avaliação: a tradicional, de caráter classificatório, com princípios quantitativos; a formativa ou mediadora, com princípios qualitativos, que acompanha o processo, visando perceber as dificuldades do aluno e do professor e contribuir para a aprendizagem; e a emancipatória, que visa mobilizar o senso crítico do aluno e da escola como um todo, na perspectiva de emancipação individual e institucional. Essa terceira concepção vem ao encontro do que é almejado: formar um aluno com autonomia, consciente de sua responsabilidade na aquisição do conhecimento. Contudo, utilizar a avaliação apenas como estratégia para a aprendizagem prejudica a noção de consciência crítica do aluno, uma vez que este focará o seu interesse no resultado da avaliação, e não no verdadeiro sentido do aprender (BRANDL, 2010). Nesse sentido, Fonseca e Machado (2015) afirmam que, para o aluno superar a prática de apenas copiar e memorizar, e para que desenvolva a capacidade de criatividade, criticidade, coletividade, senso estético e autonomia, é preciso ser responsável por seu conhecimento. E para esse processo ocorrer, 114 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental o professor deve alargar o seu olhar sobre o que acontece nas suas aulas, incluindo a avaliação na sua prática cotidiana. Lançar mão de práticas diversificadas, diversificar também o conteúdo de suas aulas, utilizar diferentes instrumentos que auxiliem no registro e acompanhamento das ações do aluno, bem como mobilizar experiências auto avaliativas, são ações que encaminharão possíveis rupturas ao encontro de novas perspectivas. (FONSECA; MACHADO, 2015, p. 87-88) Para Castellani Filho et al. (2009), o uso de medidas e avaliação deve possibilitar uma leitura crítica sobre a cultura corporal, para, então, ampliar e aprofundar a compreensão dessa realidade. Conforme as colocações, a avaliação deve ocorrer continuamente durante o ano letivo, considerando a individualidade do aluno, seu conhecimento prévio, suas expectativas e as expectativas do professor com relação ao conteúdo. Em se tratando de quando deve ser feita, a avaliação deve integrar as suas três modalidades básicas: diagnóstica, formativa e somativa, que, no processo tradicional, são consideradas modelos estanques. No entanto, diagnosticar é um processo contínuo que deve ser feito não apenas no início do ano letivo, mas acompanhando o aluno, a fim de reformular a trajetória, caso seja necessário (FONSECA; MACHADO, 2015). Com relação à avaliação formativa, Darido e Rangel (2011) pontuam que a observação avaliadora deve ser feita em todos os momentos, e o resultado dessa avaliação deve ser comunicado aos alunos, informando-lhes as suas dificuldades e os seus avanços. A somativa envolve avaliar o produto final, ou seja, avaliar o aluno ao final de um processo. No Capítulo 3, apresentamos os conteúdos e suas dimensões, as quais envolvem também a avaliação, isto é, podemos utilizar diferentes instrumentos para avaliar os conteúdos sob diferentes dimensões, que são: conceitual, procedimental e atitudinal. 115Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física Na dimensão conceitual, segundo Darido e Rangel (2011), poderia ser utilizada uma prova teórica, entretanto, esta deverá ir além de reproduzir somente o que foi apresentado pelo professor; deve solicitar a interpretação dos conteúdos apresentados. Segundo as autoras,“não se trata de fazer o aluno decorar qual o papel do futebol para a cultura brasileira, mas sim localizar no seu cotidiano como é possível perceber a força da cultura do futebol nas artes, na linguagem, nas atitudes, além de outros” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 130). A dimensão procedimental se refere às habilidades do aluno, ao saber fazer, com relação aos movimentos. Diferentemente de décadas atrás, quando apenas eram utilizados testes de habilidades e capacidades para avaliar os alunos, hoje estes são utilizados como processo contínuo de avaliação, identificando-se progressões ou regressos quanto aos conteúdos. São realizados no sentido de comparar os alunos com o seu próprio rendimento anterior, e não com padronizações gerais (BRANDL, 2010). Darido e Rangel (2011) afirmam que, nessa dimensão, pode-se avaliar a capacidade dos alunos de coletar notícias, acrescentando seus comentários pessoais para o que está vigente na mídia sobre assuntos relacionados aos conteúdos da Educação Física, como a importância da atividade física, problemas de postura, Copas do Mundo, Olimpíadas, entre outros. A terceira dimensão é a atitudinal, que se vincula às atitudes do aluno, e, por conta disso, é consideravelmente difícil de avaliar. Afinal, como examinar elementos como tolerância e solidariedade? Na tradição da escola, esse aspecto não era avaliado, sendo considerado não quantificável e não importante (DARIDO; RANGEL, 2011). Desse modo, essa avaliação é cercada de dúvidas, pois é necessário transformar dados qualitativos em quantitativos. Para avaliar o aluno sob esse aspecto, o instrumento mais utilizado é a observação nas aulas. A observação é um instrumento cercado de subjetividade, 116 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental pois os aspectos observados e mais considerados por um professor podem variar para outro professor da mesma disciplina e formação, ou seja, cada professor faz a análise sob a sua ótica, de acordo com as suas vivências, experiências e expectativas (BRANDL, 2010). Segundo a autora, para isso, é necessário que a avaliação tenha critérios bem definidos, por exemplo: participa ativamente das aulas de Educação Física? Mostra-se interessado em aprender os diversos conteúdos da Educação Física? Demonstra atitudes de respeito com o professor? Coopera com os colegas durante a realização das atividades? Durante as atividades, de que forma resolve os atritos ou perdas? Demonstra atitudes de discriminação em relação aos menos habilidosos, de etnias ou gêneros diferentes? Esses são alguns critérios que poderão nortear a observação como instrumento de avaliação da dimensão atitudinal dos conteúdos. Como mencionado anteriormente, a observação é um instrumento muito importante no processo avaliativo e pode contribuir efetivamente para a aprendizagem. Porém, ao observar, é preciso que existam critérios preestabelecidos, ou seja, deve-se saber de antemão o que se quer avaliar por meio da observação. Salientamos que os critérios devem ter coerência com os objetivos dos conteúdos para a aprendizagem. Com o instrumento escolhido para a sua avaliação, juntamente com critérios predeterminados, o professor tem subsídios para a elaboração de um parecer descritivo sobre a evolução do aluno no decorrer do tempo estabelecido no planejamento, seja esse parecer resultante do planejamento anual (plano de estudo), trimestral ou bimestral (plano de trabalho), ou diário (plano de aula). O parecer descritivo precisa contemplar os aspectos motor, afetivo, cognitivo e social, por meio dos quais o aluno demonstra seu aprendizado. Atualmente, na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, os boletins escolares são elaborados a partir de pareceres, considerando o desenvolvimento e aprendizado dos 117Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física alunos em sua totalidade, a fim de verificar se possuem condições de avançar a etapa de ensino ou se são necessárias outras estratégias para promover esse avanço. Vale ressaltar que, para essas etapas, o instrumento mais utilizado é a observação sistemática, em que são verificados os aspectos mencionados anteriormente e que buscam atingir os objetivos e competências da disciplina e a etapa da educação básica. Considerando o exposto, entende-se que a avaliação é uma parte importante do processo de ensino-aprendizagem. Ela é contínua, utilizada desde o planejamento ao feedback das ações do professor e dos alunos, e traz subsídios para novas ações e novas possibilidades de aprendizagens significativas. A avaliação, segundo Castellani Filho et al. (2009, p. 110), “deve servir para indicar o grau de aproximação ou afastamento do eixo curricular fundamental, norteador do projeto pedagógico que se materializa na aprendizagem dos alunos”. Sendo assim, a avaliação na disciplina de Educação Física é de fundamental importância para o planejamento dos professores. Somente com ela é possível identificar a evolução dos alunos em seus aprendizados. Tão importante quanto os conteúdos, objetivos e procedimentos metodológicos, a avaliação permite que o professor reflita sobre suas ações na busca pelo aprendizado dos alunos. Considerações finais A avaliação envolve muitas questões pontuais para a educação, como a escolha dos instrumentos e critérios, a fim de que possa contribuir de maneira significativa para a aprendizagem dos alunos. Ela envolve uma reflexão constante acerca do seu propósito e está alinhada aos conteúdos, objetivos e métodos de ensino na Educação Física. Deve ser realizada na perspectiva da inclusão, evitando-se a seleção e a rotulação. Os alunos podem participar do processo 118 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental de construção dos instrumentos com base nas dimensões dos conteúdos, o que faz com que se tornem autônomos e responsáveis pela aquisição de seu conhecimento. Ampliando seus conhecimentos • SANTOS, W. dos. et al. Avaliação na Educação Física escolar: construindo possibilidades para a atuação profissional. Educação em Revista, v. 30, n. 4, p. 153-17, 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/edur/v30n4/08.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. Esse artigo aborda práticas avaliativas para a Educação Física escolar, traz vivências de aulas com uma turma dos anos iniciais do ensino fundamental e aponta sugestões para se projetar a avaliação com base em experiências práticas. • D-19: didática da Educação Física: avaliação. 2012. 1 vídeo (7 min.). Publicado pelo canal UNIVESP. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Grket2uAscU. Acesso em: 18 jul. 2019. O vídeo aborda a avaliação na Educação Física sob a ótica multidimensional, trazendo relatos de professores sobre a avaliação, os quais convergem com o conteúdo apresentado neste capítulo. Atividades 1. Como era a avaliação na década de 1970? 2. A Lei de Diretrizes e Bases aborda a avaliação no artigo 24. O que consta sobre o tema no artigo? Qual é a diferença com relação à avaliação na década de 1970? 119Avaliação do processo de ensino-aprendizagem da Educação Física 3. A dimensão atitudinal dos conteúdos vincula-se às atitudes do aluno. Qual instrumento é mais apropriado para a avaliação nessa dimensão? Referências BRANDL, C. E. R. (org.). Educação Física escolar: questões do cotidiano. Curitiba: CRV, 2010. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Base NacionalComum Curricular. 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/ BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. CASTELLANI FILHO, L. et al. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 2009. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física no ensino superior: Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2011. FONSECA, D. G. da.; MACHADO, R. B. (org.). Educação Física: (re)visitando a didática. Porto Alegre: Sulina, 2015. FREIRE, J. B. Educação de corpo inteiro. São Paulo: Scipione, 2009. GALLARDO, J. S. P. Prática de ensino em Educação Física: a criança em movimento: livro do professor. São Paulo: FTD, 2009. NISTA-PICCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo em movimento na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2012. Gabarito 1 A Educação Física escolar 1. As concepções que embasaram a Educação Física Escolar no início do século XIX até o final da década de 1970 foram a higienista, a militarista e a esportivista, cada qual com sua justificativa. A concepção higienista, segundo Gallardo (2009), se justificava por meio de uma classe de médicos que buscava a reformulação dos hábitos de higiene da população para libertá-la de vícios do período colonial, como a preguiça, que prejudicavam a saúde, a moral e a vida coletiva. Por sua vez, a concepção militarista, surgida sob forte influência da Primeira Guerra Mundial, buscava a formação de contingentes militares a fim de defender os territórios. Assim, o novo modelo de homem a ser formado era o homem forte e capaz de defender a sua pátria. Já a concepção esportivista seguia a ordem de eficiência e eficácia de uma sociedade capitalista, com influência nas vitórias da Seleção Brasileira de Futebol nas Copas do Mundo de 1958 e 1962, levando ao forte predomínio dos esportes nas aulas de Educação Física. 2. Psicomotricidade, desenvolvimentista, crítico-superadora, crítico-emancipatória e teoria do ensino aberto foram as teorias que surgiram em meados da década de 1980, quando a Educação Física começou a ser debatida em função do período de redemocratização política do país e das novas formas (concepções e tendências) para o ensino/prática da Educação Física na escola. 122 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 3. O movimento humano é o objeto de estudo da Educação Física e pode ser concebido por meio de diferentes manifestações corporais. É natural que o aluno apresente preferências por determinadas modalidades de acordo com o que lhe é transmitido de geração a geração, ou com o que ele observa na mídia e no local em que vive. Além disso, sendo um país com grande espaço territorial e que possui diferentes manifestações culturais, entender a cultura corporal de movimento dos alunos e trabalhar com ela no ambiente escolar é de extrema importância para o professor, pois esse entendimento e apropriação da cultura corporal dos alunos influenciam diretamente no processo de ensino- -aprendizagem da Educação Física. 2 Bases legais da Educação Física escolar 1. Darido e Rangel afirmam que a LDBEN trouxe grandes avanços para a Educação Física escolar, entre eles ter passado a vê-la como um componente curricular e, talvez até o mais importante, a ligação da disciplina ao PPP da escola, o que possibilita a sua integração ao cotidiano escolar. 2. Porque este é o documento que trata da importância do movimento na primeira infância, o movimento que é o elemento essencial de trabalho do professor de Educação Física. 3. Nos PCNs, os conteúdos são divididos em três blocos – Conhecimento sobre o corpo; Atividades rítmicas e expressivas; e Jogos, esporte, lutas e ginástica –, enquanto na BNCC, os conteúdos são divididos em seis unidades temáticas –Brincadeiras e jogos; Esportes; Ginásticas; Danças; Lutas; e Práticas corporais de aventura. Gabarito 123 3 Aspectos didático-metodológicos do ensino da Educação Física 1. Com relação ao desenvolvimento motor, Freire e Scaglia (2009) afirmam que, antes de a criança se expressar verbalmente, já forma as capacidades motoras que vai utilizar até o final da sua vida, e, com o início da fala, a motricidade vai se aperfeiçoando e se tornando mais complexa. A partir disso, “ela dedica-se ao exercício da fantasia, da imaginação, isto é, de ver dentro de si todas as coisas que percebe do mundo real” (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 15). 2. Dentre os procedimentos metodológicos, podemos citar o ensino por meio da imitação, demonstração e resolução de problemas e desafios. Eles precisam considerar a progressão pedagógica, na qual as atividades são organizadas da forma mais simples para a mais complexa. Existem ainda as técnicas ou estratégias de ensino, nas quais os alunos podem aprender de forma individual ou em grupos (duplas, trios, quartetos), espalhados pelo ambiente ou em círculos, colunas ou filas. 3. Existem três tipos de planejamento no ambiente escolar: o plano de estudo ou de curso, o plano de trabalho ou de unidade, e o plano de aula. O plano de estudo ou plano de curso é o planejamento utilizado para um ano letivo inteiro, individual para cada turma. O plano de trabalho ou de unidade é um planejamento realizado durante um período. O plano de aula contém o planejamento das atividades da disciplina que serão realizadas em um dia. 124 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 4 Atividades práticas para as aulas de Educação Física 1. Para os autores, na educação infantil, é preciso utilizar as atividades em uma perspectiva menos sistematizada, incentivando a liberdade de imaginar. A educação infantil, segundo eles, “deveria ser a escola da imaginação” (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 108), onde as crianças estariam livres para explorar a imaginação a cada novo jogo, experimentando novos movimentos a partir das habilidades motoras básicas, como correr, rolar, equilibrar-se, pendurar-se, entre outras, o que possibilita o conhecimento do corpo, dos sentidos e o desenvolvimento psicomotor, na perspectiva da imaginação e da criatividade. 2. Sim. Existe a possibilidade de realizar nos anos iniciais as atividades descritas na educação infantil, principalmente para 1º e 2º anos. Contudo, é importante o diagnóstico da turma e dos alunos, a fim de organizar o planejamento das atividades, adequando-as à fase de aprendizagem, e de repensar as ações considerando o grau de dificuldade. 3. Ao final dos anos iniciais, as atividades pré-desportivas estão elencadas como conteúdos a serem desenvolvidos com caráter lúdico e recreativo, podendo ser trabalhadas em diferentes jogos trazidos pelo professor ou pelos próprios alunos. Temos como exemplos: a queimada ou caçador (pré- -desportivo do handebol), jogo de câmbio (pré-desportivo do voleibol), jogo de bobinho com os pés (futebol), jogo de acertar o alvo ou o cesto (basquete), jogo da velha utilizando elementos esportivos, entre outros. Gabarito 125 5 Avaliação do processo de ensino- -aprendizagem da Educação Física 1. Na década de 1970, a avaliação tinha o intuito de atribuir nota e comparar o desempenho dos alunos a um modelo padrão, estabelecido por normas e tabelas. Nessa época, as classificações eram feitas a partir de testes de suficiência física, no início do ano, e de eficiência física, no final do ano, e utilizavam-se testes de força e coordenação, nos quais os alunos eram classificados nas categorias: fraco, regular, bom e excelente. Nessa época, a aplicação dos testes era mecânica, descontextualizada e aleatória. E essa forma de avaliação muitas vezes submetia os alunos ao sentimento de incompetência e vergonha. 2. Em seu artigo 24, inciso V, a LDBEN diz que os seguintes critérios devem ser observados para a verificação do rendimento escolar: “a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativose dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”. A diferença é que a avaliação tem maior prevalência do qualitativo sobre o quantitativo e é feita ao longo do período, e não só em provas ao final do período. 3. Para avaliar o aluno sob a dimensão atitudinal, o instrumento mais utilizado é a observação nas aulas. Código Logístico 58866 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6527-1 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 2 7 1 A Educação Física se mostra como um importante componente curricular que contribui efetivamente para que o aluno possa atuar no mundo de maneira crítica, responsável e ética. Dividido em cinco capítulos, este livro apresenta aspectos pedagógicos e metodológicos da Educação Física escolar, bem como seus conteúdos e objetivos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, além do planejamento e avaliação do processo de ensino-aprendizagem. A obra traz um breve histórico sobre a Educação Física escolar, as concepções e as principais teorias pedagógicas que influenciaram e ainda influenciam as práticas docentes atuais. Apresenta também as bases legais da Educação e como é abordada a área da Educação Física nos seguintes documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Parâmetros Curriculares Nacionais, Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e Base Nacional Comum Curricular. Página em branco Página em brancoinfantil e anos iniciais do ensino fundamental Curriculares Nacionais (PCNs) e a Base Nacional Comum Curri- cular (BNCC). Na BNCC, o esporte é uma das unidades temáticas dos conteúdos a serem desenvolvidos nas aulas de Educação Física. Essa influência do esporte no sistema escolar é de tal magnitude que temos, então, não o esporte da escola mas sim o esporte na escola. Isso indica a subordinação da educação física aos códigos/sentido da instituição esportiva. Caracterizando-se o esporte na escola como um prolongamento da instituição esportiva: esporte olímpico, sistema desportivo nacional e internacional. Esses códigos podem ser resumidos em: princípios de rendimento atlético/ desportivo, competição, comparação de rendimento e recordes, regulamentação rígida, sucesso no esporte como sinônimo de vitória, racionalização de meios e técnicas etc. (CASTELLANI FILHO et al., 2009, p. 53-54) As vitórias da Seleção Brasileira de Futebol nas Copas do Mundo de 1958 e 1962 contribuíram muito para a associação da Educação Física aos esportes, principalmente ao futebol. A satisfação da população em assistir às disputas da Seleção e acompanhá-las teve seu auge com a terceira vitória do Brasil, em 1970, influenciando fortemente o predomínio dos esportes nas aulas. Essa concepção esportivista, que também pode ser chamada de mecanicista, tradicional ou tecnicista, sofreu e sofre muitas críticas, pois a sua relação com a eficiência e a eficácia faz com que muitos alunos sejam excluídos das aulas. Apesar disso, os esportes continuam a ser muito praticados nas aulas atualmente. Com a chegada da década de 1980 e o período de redemocra- tização política do país, profissionais de Educação Física começaram a se encontrar e a debater sobre novas formas (concepções e tendências) de ensino. Tais discussões contribuíram para um rompimento com a excessiva valorização esportiva, que tinha o desempenho dos alunos nas aulas como único objetivo (DARIDO; RANGEL, 2011). A Educação Física escolar 15 Essa crítica aos conteúdos esportivos foi influenciada por pes- quisas na área da educação, as quais ocasionaram o que chamamos de crise da Educação Física, em que vários novos movimentos começaram a surgir no final de 1970. Esses movimentos, que chamaremos aqui de teorias pedagógicas da Educação Física, procuraram romper com o modelo esportivista e tradicional da época. Vamos conhecer algumas dessas teorias? A seguir, apontaremos as principais. 1.2 Teorias pedagógicas da Educação Física Como vimos na seção anterior, foi a partir dos anos 1980 que a Educação Física começou a ser debatida no que diz respeito aos seus objetivos, conteúdos e métodos, passando a ser repensada no âmbito das propostas pedagógicas da educação. Assim, observamos o surgimento de algumas teorias pedagógicas da Educação Física, como veremos a seguir. 1.2.1 Psicomotricidade Segundo Darido e Rangel (2011), foi na década de 1970 que a educação psicocinética tornou-se relevante em alguns programas de Educação Física escolar. É conhecida também por educação psicomotora ou psicomotricidade, divulgada em alguns programas de escolas com alunos portadores de deficiência física e mental. Tendo como autor de maior influência o francês Jean Le Boulch, a psicocinética ou psicomotricidade surgiu como uma contestação à visão dualista do corpo e mente a que a Educação Física estava ligada. Le Boulch afirma que a psicocinética não é um método para a Educação Física, mas uma teoria geral do movimento que deve ser utilizada como um meio para o aprendizado dos alunos (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Mesmo utilizando o movimento apenas como um meio para o aprendizado dos alunos, essa teoria vincula-se fortemente à 16 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Educação Física para justificar sua importância no ambiente escolar, sendo uma das responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo das crianças a partir do movimento realizado por elas. Gallardo (2009) explica o trabalho do profissional de Educação Física e aponta para a importância do movimento na educação da criança, ou seja, a educação pelo movimento, e não para o movimento. O trabalho do profissional passa a organizar-se em torno do desenvolvimento das estruturas psicomotoras de base: coordenação motora, equilíbrio, lateralidade, organização espaço temporal e esquema corporal, buscando integrar homem e espaço, corpo e alma. O desenvolvimento psicomotor torna-se pré-requisito para a aquisição dos conteúdos cognitivos, e a educação do movimento dá lugar à educação pelo movimento. (GALLARDO, 2009, p. 16) Conforme Darido e Rangel (2011, p. 8), “a psicomotricidade defende uma ação educativa que deva ocorrer com base nos movimentos espontâneos da criança e das atitudes corporais, favorecendo a gênese da imagem do corpo, núcleo central da personalidade”. Segundo os autores: O discurso e a prática da Educação Física sob essa influência da psicomotricidade conduz à necessidade do professor se sentir com responsabilidades escolares e pedagógicas. Busca desatrelar sua atuação na escola dos pressupostos da instituição esportiva, valorizando o processo de aprendizagem e não mais a execução de um gesto técnico isolado. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 8) Nessa teoria, a prática do movimento e o estímulo por meio dos exercícios de esquema corporal e aptidões motoras possibilitam a mudança dos hábitos, ideias e sentimentos da criança (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Portanto, é muito difundida mundialmente e utilizada pelos educadores para o trabalho na educação infantil e A Educação Física escolar 17 nos anos iniciais do ensino fundamental. O professor de Educação Física, inserido nesse contexto, utiliza a psicomotricidade como auxílio no aprendizado cognitivo dos alunos. 1.2.2 Desenvolvimentista A teoria desenvolvimentista tem como principal autor Go Tani e, ao contrário da psicomotricidade, baseia-se no desenvolvimento motor como principal meio para a aprendizagem, sendo defendida a ideia de que o movimento é o principal meio e fim da Educação Física. Assim, não é função da Educação Física o desenvolvimento de capacidades que auxiliem na alfabetização e no pensamento lógico- -matemático, embora isso possa ocorrer como uma consequência da prática motora (DARIDO; RANGEL, 2011). Dirigida inicialmente para crianças de 4 a 14 anos, a teoria utiliza as fases do desenvolvimento motor como elemento central para a construção das aulas de Educação Física, considerando o estágio motor em que a criança se encontra. Gallahue e Ozmun (2005), em sua obra Compreendendo o desenvolvimento motor: crianças, bebês, adolescentes e adultos, trazem detalhadamente as fases do desenvolvimento motor, mostrando os movimentos que as crianças são capazes de realizar. Nessa teoria, Os conteúdos devem ser desenvolvidos segundo uma ordem de habilidades básicas e específicas. As básicas podem ser classificadas em habilidades locomotoras (p. ex.: andar, correr, saltar), manipulativas (p. ex.: arremessar, chutar e rebater) e de estabilização (p. ex.: girar, rolar, e realizar posições invertidas), e as específicas são mais influenciadas pela cultura e estão relacionadas à prática do esporte, do jogo, da dança e das atividades industriais. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 9) 18 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Contudo, há uma crítica com relação à teoria desenvolvimentista, no sentido de que as pessoas podem não apresentar um mesmo padrão de desenvolvimento motor, ou seja, podem não estar no período correspondente à idade em que se encontram. Para Gallardo (2009), isso compromete a participação dos alunos nas atividades esportivas e culturais, pois não apresentam o mesmo desenvolvimento motor que seus pares, isto é, não possuem maturação na execução das habilidades motoras. Segundo Darido e Rangel (2011, p. 10), “há uma tentativa defazer corresponder o nível de desenvolvimento motor à idade em que o comportamento deve aparecer. Por exemplo, aos 7 anos, a criança deve apresentar padrões maduros nas habilidades, ou seja, movimentos executados com qualidade próxima à execução de um adulto”. Outra limitação da teoria seria que, dependendo do contexto cultural e ambiental em que estão inseridos os alunos, uma habilidade motora pode ser mais complexa que a outra, por exemplo: chutar uma bola para uma criança brasileira pode ser menos complexo do que para uma criança de outro país; ou nadar em uma cidade litorânea e nadar em uma cidade longe do litoral (DARIDO; RANGEL, 2011). Apesar disso, nessa teoria, a Educação Física tem um papel importante no processo de aperfeiçoamento do movimento motor, oferecendo experiências de novos movimentos. Nessa abordagem, devemos proporcionar condições para que o comportamento motor seja desenvolvido, oferecendo, assim, experiências de movimento adequadas à faixa etária dos alunos, observando os erros e oferecendo estratégias de atividades para que sejam superados. Considerando o nível de desenvolvimento motor, é função do professor de Educação Física possibilitar à criança um repertório grande de movimentos, para que ela desenvolva, de forma ampla, as habilidades motoras e capacidades físicas. A Educação Física escolar 19 1.2.3 Teoria do ensino aberto A teoria do ensino aberto ou de aulas abertas foi proposta por Reiner Hildebrandt e Ralf Laging, em 1986, e caracteriza-se pela participação dos alunos em decisões sobre os objetivos, conteúdos, metodologia e avaliação da disciplina. Nesse caso, o aluno é o centro do processo de ensino, sendo considerada a possibilidade de ele ajudar e decidir no planejamento da disciplina. Segundo Hildebrandt (apud FINCK, 2011, p. 39), nessa teoria, o “objeto de estudo é o mundo do movimento e suas implicações sociais, que têm como principal objetivo trabalhar o movimento em sua amplitude e complexidade, com a intenção de proporcionar aos participantes autonomia para as capacidades de ação”. Ao contrário do que se pensa inicialmente, o professor de Educação Física não estaria deixando os alunos livres para fazerem o que querem nas aulas; eles apenas auxiliam e ajudam na decisão do planejamento e execução da disciplina. O que acontece é uma interação entre professor e aluno que agrega pontos positivos ao aprendizado dos alunos, construído por meio da escolha de temas, de estímulos e de tarefas a serem realizadas. Para Fonseca e Machado (2015), na escola, o perfil da Educação Física era de mera atividade de prática corporal destituída de compromisso e, devido a isso, a disciplina passou a ser pouco valorizada em relação aos outros componentes curriculares, embora os alunos gostassem de praticar as atividades. 1.2.4 Teoria construtivista Essa teoria, que se contrapõe à tendência mecanicista da Educação Física, tem suas bases nos estudos teóricos de Jean Piaget, o qual afirma que a construção do conhecimento no sujeito ocorre por meio da interação dele com o mundo (DARIDO; RANGEL, 2011). 20 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Na área da Educação Física, João Batista Freire é considerado um representante dessa teoria ao propor uma pedagogia do movimento. Fundada na ideia de complexidade, a teoria do movimento deveria definir como conteúdos básicos as atividades que, ao contrário de estabelecer padrões de movimento e fechar as possibilidades de ação, criassem um leque de possibilidades (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Dessa forma, diante de um problema ou situação nova, o organismo abre uma série de possibilidades antes de tentar resolver o obstáculo (FREIRE; SCAGLIA, 2009). Essas possibilidades criam hipóteses de escolhas para a resolução do problema, sendo a escolha pela melhor hipótese dependente da história de vida da pessoa e das experiências que ela teve anteriormente. Assim: Tudo leva a crer, portanto, que, quanto mais diversificadas forem as situações novas, maior o leque de possibilidades que se formará, o que equivale dizer que mais ampla poderá ser a atuação da inteligência, independente de se tratar de motricidade, de racionalidade, de afetividade ou de outra dimensão qualquer. (FREIRE; SCAGLIA, 2009, p. 154) A teoria construtivista, na área da Educação Física, considera o conhecimento prévio do aluno, resgatando a cultura de jogos e brincadeiras que eles carregam. Portanto, envolve a cultura no processo de ensino-aprendizagem, em que o “aluno constrói o seu conhecimento a partir da interação com o meio, resolvendo problemas” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 11). Assim, ao colocar o jogo como principal conteúdo, considerando as experiências do aluno, sua bagagem cultural de jogos e brincadeiras, a teoria construtivista permite que o aluno aprenda enquanto brinca. Da mesma forma, o movimento pode ser um instrumento para aprendizagem de outros conteúdos, como leitura e escrita, por exemplo. 1.2.5 Teoria crítico-superadora Apresentando grande número de representantes e estudiosos, a teoria crítico-superadora utiliza o discurso da justiça social como A Educação Física escolar 21 ponto de apoio. Na Educação Física, há uma grande obra a respeito dessa teoria, construída pelo coletivo de autores Bracht, Castellani Filho, Escobar, Soares, Pinto Varjal e Taffarel, em 1992, intitulada Metodologia do Ensino da Educação Física. Para Finck (2011), a teoria contribui para que ocorram mudanças sociais, diminuindo, assim, as desigualdades sociais, afirmando que a escola se faz como um todo na organização e na efetivação do trabalho comprometido de todos os educadores. Com relação ao conteúdo a ser desenvolvido nas aulas de Educação Física, os adeptos desta abordagem propõem que se considere a relevância social dos conteúdos, sua contemporaneidade e sua adequação às características sociais e cognitivas dos alunos. Para a organização do currículo, ressaltam que é preciso fazer com que o aluno confronte os conhecimentos do senso comum com o conhecimento científico, para ampliar o seu acervo de conhecimento. (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 13) Essa teoria tem como objeto de estudo a cultura corporal, que se concretiza em diferentes temas, como jogos, esportes, lutas, danças, ginásticas, entre outros. As habilidades motoras são consideradas, porém não como objeto central de conhecimento da Educação Física (FINCK, 2011). A organização dos conteúdos deve ter coerência com a leitura da realidade. Deve-se, portanto, analisar o que determinou a escolha e a necessidade do ensino do conteúdo (CASTELLANI FILHO et al., 2009). Sendo assim, nessa abordagem, temos uma Educação Física contextualizada com a cultura corporal dos sujeitos e com a busca de autonomia em seus aprendizados. 1.2.6 Teoria crítico-emancipatória A teoria crítico-emancipatória é uma abordagem didática- -pedagógica da Educação Física que tem como autor o professor 22 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Elenor Kunz, que sugere uma reflexão sobre o ensino dos esportes (apud FINCK, 2011). Essa proposta possibilita uma educação por intermédio do desenvolvimento e do esporte na escola, podendo contribuir para que crianças e jovens tenham uma apreciação crítica a respeito do conhecimento da cultura corporal. Finck (2011, p. 67) destaca a relevância dessa teoria para o trabalho com os esportes nas escolas, ao falar dos “encaminhamentos metodológicos, evidenciando seus valores e mostrando a relevância desse fenômeno social de uma forma crítica e significativa, vindo, assim, a contribuir para a emancipação do aluno como cidadão”. Seguindo a lógica do aluno emancipado, Kunz afirma que existem dois aspectos que precisam ser considerados nessa teoria: a busca pela emancipação do aluno, que poderá, por meio das aulas de Educação Física, “aprender a analisar e questionar a realidade, construindoseus próprios conceitos na busca de uma sociedade mais justa”, e “a preocupação com a construção de propostas práticas, possíveis de serem desenvolvidas e que possam contribuir para o atendimento dos objetivos” (apud Finck, 2011, p. 67). Assim como a teoria crítico-superadora, o objeto de estudo da teoria crítico-emancipatória é a cultura corporal, sendo os jogos, ginásticas, esportes, capoeira e dança os elementos a serem compreendidos e contextualizados (DARIDO; RANGEL, 2011). A partir do exposto, Darido e Rangel (2011) afirmam que o objetivo do ensino crítico é compreender a estrutura autoritária dos processos institucionalizados que formam falsas convicções, interesses e desejos, e, portanto, “promover condições para que essas estruturas autoritárias sejam suspensas e o ensino encaminhado para uma emancipação, possibilitada pelo uso da linguagem, que tem papel importante no agir comunicativo” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 15). A Educação Física escolar 23 Sendo assim, conforme visto nas teorias pedagógicas que se originaram a partir de estudos que buscam compreender a Educação Física como área de relevância no ambiente escolar, é por meio da cultura corporal do movimento que o trabalho dos professores precisa ser fundamentado. Mas, afinal, o que é cultura corporal do movimento e como ela se manifesta? 1.3 Manifestações da cultura corporal do movimento Para compreendermos o aluno como um todo, é preciso considerar diversos aspectos que influenciam suas ações nas atividades propostas na Educação Física escolar. Nesse sentido, entende-se que o aluno traz características do meio em que vive e estas se expressam por meio de diferentes atitudes. Para que ocorra a aprendizagem, é necessário que o aluno tenha interesse e que estabeleça conexões com a sua realidade, ou seja, com o meio social e cultural em que vive. O ser humano, desde suas origens, produziu cultura. Sua história é uma história de cultura, na medida em que tudo o que faz está inserido num contexto cultural, produzindo e reproduzindo cultura. O conceito de cultura é aqui entendido como produto da sociedade, da coletividade à qual os indivíduos pertencem, antecedendo-os e transcendendo-os. (BRASIL, 1997, p. 23) Nessa perspectiva, considera-se que o aluno está inserido em uma cultura e que se expressa por diferentes linguagens, entre as quais a do movimento. A criança tem características próprias que precisam ser respeitadas, assim como as atividades propostas devem estar de acordo com a fase de seu desenvolvimento. Para isso, existem diferentes recursos utilizados para proporcionar elementos de desenvolvimento da criança por meio do movimento, os quais atendem a aspectos cognitivos, motores e socioafetivos. Apesar disso, para Brandl (2010), ainda existe um desconhecimento das 24 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental características e necessidades da criança e de como acontece o seu desenvolvimento e a sua aprendizagem, ou seja, há um desrespeito com a sua corporeidade infantil. “Corporeidade pode ser entendida como corpo em movimento que busca a vida num determinado tempo histórico e cultural” (NISTA-PICCOLO; MOREIRA, 2012, p. 50). Os autores complementam que a leitura do corpo é um processo de conscientização, afirmação da personalidade, da individualidade, do sentido de presença à etnia humana, e que esse entendimento resulta na compreensão de que a realidade do corpo vai além da dicotomia corpo e mente, natureza e cultura. Kolyniak (2005 apud BRANDL, 2010, p. 32) explicita que, desde o nascimento, por meio da consciência, o corpo vai se conformando como corporeidade, a qual é observada nos movimentos, na expressividade, na postura e no significado atribuído ao padrão estético, assim, “humano vivo é corporeidade, é cultura encarnada”. As primeiras interações do ser humano consigo mesmo e com o ambiente ocorrem por meio do movimento, ou seja, a criança se expressa e se desenvolve a partir de atos motores, que se concretizam no âmbito de resolver problemas relacionados ao ambiente. De acordo com Darido e Rangel (2011), as formas básicas de movimentação se combinam de diferentes maneiras para atender às demandas ambientais, que estão inseridas na cultura. E o conjunto de manifestações expressivas corporais se denomina cultura corporal de movimento. Logo, o movimento humano, objeto de estudo da Educação Física, pode ser concebido por meio de diferentes manifestações corporais. O aluno tem preferência por determinadas modalidades de acordo com o que lhe é transmitido de geração em geração, ou com o que ele observa na mídia e no local em que vive. A Educação Física escolar 25 Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), “dentre as produções da cultura corporal, algumas foram incorporadas pela Educação Física em seus conteúdos: o jogo, o esporte, a dança, a ginástica e a luta. Estes têm em comum a representação corporal com características lúdicas e de diversas culturas humanas”. Essas produções “ressignificam a cultura corporal humana e o fazem utilizando uma atitude lúdica” (BRASIL, 1997). Já a BNCC (2017) afirma que a Educação Física se constitui como um componente curricular cujo objeto de estudo é a cultura corporal do movimento humano, envolvendo as diferentes manifestações do movimento, entre elas os esportes, jogos, lutas e ginásticas. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), A Educação Física é o componente curricular que tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, produzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história. Nessa concepção, o movimento humano está sempre inserido no âmbito da cultura e não se limita a um deslocamento espaço-temporal de um segmento corporal ou de um corpo todo. (BRASIL, 2017, p. 213) Ainda segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Educação Física deve oferecer uma série de possibilidades para enriquecer a experiência das crianças, jovens e adultos na Educação Básica, permitindo o acesso a um vasto universo cultural, Esse universo compreende saberes corporais, experiências estéticas, emotivas, lúdicas e agonistas [...] Para além da vivência, a experiência efetiva das práticas corporais oportuniza aos alunos participar, de forma autônoma, em contextos de lazer e saúde. (BRASIL, 2017, p. 213) 26 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Ao abordar a cultura corporal dos alunos, a Educação Física utiliza suas experiências e práticas culturais, e o currículo escolar é construído com base nessas práticas e saberes – e não na prática hegemônica e esportiva da escola tradicional (GALLARDO, 2009). Assim, todos os alunos devem participar das atividades numa perspectiva inclusiva que pondere suas características e a fase da aprendizagem, adequando espaços, materiais, regras e outros procedimentos metodológicos. As atividades precisam ser motivadoras, não muito fáceis que tornem a aula tediosa, nem além da capacidade de entendimento e execução dos alunos, para que estes tenham êxito no que é proposto pelo professor. Além disso, deve-se organizar os conteúdos em ordem crescente de dificuldade, conforme as capacidades de ordem motora, cognitiva e afetivo-social dos alunos e em concordância com os objetivos da Educação Física escolar. Para Gallardo (2009), as sugestões de atuação da Educação Física para os cinco primeiros anos servem como indicadores iniciais, e não como pontos de chegada. Nesse sentido, a riqueza propiciada pelas manifestações da cultura corporal não se esgota em sua realização pura e simples, mas leva a uma reflexão que contribui para a formação de valores e convivência social. “O conhecimento do mundo na criança depende das relações que esta estabelece com os outros e com as coisas”(FREIRE, 2009, p. 17). E, considerando essa fase, as atividades devem ter caráter lúdico, proporcionando o desenvolvimento de habilidades por meio de jogos e brincadeiras. O professor de Educação Física, então, deve ter conhecimento da cultura corporal do movimento, entendendo o conhecimento prévio do aluno, suas expectativas e as competências e habilidades que devem ser desenvolvidas na Educação Física escolar. A Educação Física escolar 27 Considerações finais A Educação Física escolar é marcada por uma evolução histórica e influenciada por propósitos econômicos, sociais e ideológicos do Brasil e do mundo. De acordo com o que foi exposto neste capítulo, observamos que muitos estudiosos e pensadores concentraram seus esforços em mostrar a importância dessa disciplina para a vida humana e, por isso, da sua inclusão no ambiente escolar. Optamos por apresentar, em forma de concepções, de que maneira a Educação Física escolar foi trabalhada, desde o seu surgimento no ambiente escolar e a partir da chamada crise da Educação Física dos anos 1980. Assim, descrevemos algumas das principais teorias pedagógicas que sustentam a área da Educação Física e que influenciam de maneira significativa a prática do professor nas escolas. A escola é um espaço de saber e de convivência, onde o aluno, por meio de diferentes áreas, adquire conhecimentos, competências, habilidades e experiências. Estas, em particular, se desenvolvem nos aspectos cognitivo, motor, afetivo e social, com o intuito de que o aluno possa atuar no mundo de maneira comprometida, responsável e ética. Sendo assim, ao refletir sobre a cultura corporal de movimento na prática docente, objeto de estudo da Educação Física escolar, todos os aspectos citados anteriormente devem ser considerados de forma equivalente. Pelo fato de vivermos em um país com grande espaço territorial e diferentes manifestações culturais, entender a cultura corporal dos alunos e considerá-la, no trabalho escolar, é de extrema importância para o professor, pois esse entendimento e apropriação influenciam diretamente no processo de ensino e aprendizagem da Educação Física. 28 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Ampliando seus conhecimentos • ABORDAGENS pedagógicas em Educação Física escolar parte 01. 2010. 1 vídeo (9 min.). Publicado pelo canal Omar Schneider. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=wlSdK7lduD4. Acesso em: 18 jul. 2019. Trata-se de um vídeo sobre a história da Educação Física, que traz um complemento sobre as teorias pedagógicas da área. Além disso, apresenta contribuições importantes sobre ensino-aprendizagem da Educação Física escolar. • NEIRA, M. G.; NUNES, M. L. F. Educação Física, currículo e cultura. São Paulo: Phorte, 2009. Essa obra trata da função social da escola, das tendências do ensino da Educação Física e da importância da cultura no momento histórico. Aborda, ainda, o atual contexto, fazendo um convite à sua investigação e às concepções pedagógicas que o influenciam. Atividades 1. Quais foram as concepções que embasaram a Educação Física escolar no início do século XIX até o final da década de 1970? Explique o motivo da existência dessas concepções. 2. Quais foram as teorias pedagógicas da Educação Física que surgiram na década de 1970 e que são relatadas neste capítulo? Explique o porquê do surgimento dessas teorias. 3. O conjunto de manifestações expressivas corporais se denomina cultura corporal de movimento. Por que devemos considerá-lo nas aulas de Educação Física? A Educação Física escolar 29 Referências BRANDL, C. E. R. (org.). Educação Física escolar: questões do cotidiano. Curitiba: CRV, 2010. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular. 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/ BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 18 jul. 2019. CASTELLANI FILHO, L. et al. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 2009. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física no ensino superior: Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2011. FINCK, S. C. M. A Educação Física e o esporte na escola: cotidiano, saberes e formação. Curitiba: Ibpex, 2011. FONSECA, D. G. da.; MACHADO, R. B. (org.). Educação Física: (re)visitando a didática. Porto Alegre: Sulina, 2015. FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2009. GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 3. ed. São Paulo: Phorte, 2005. GALLARDO, J. S. P. Prática de ensino em Educação Física: a criança em movimento: livro do professor. São Paulo: FTD, 2009. NISTA-PICCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo em movimento na educação infantil. São Paulo: Cortez, 2012. 2 Bases legais da Educação Física escolar As concepções e abordagens pedagógicas da Educação Física, tratadas no capítulo anterior, surgiram e se firmaram com objetivos, conteúdos e métodos influenciados pelos contextos econômicos e momentos históricos vividos pela sociedade. De acordo com os diferentes momentos históricos, podemos observar a formulação de políticas públicas educacionais que legitimam e norteiam a área da Educação Física na escola, e esses documentos são revistos e reformulados pelos governos com o passar dos anos. Este capítulo trata das bases legais da educação e de como é colocada a área da Educação Física nessas bases, iniciando com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN (BRASIL, 1996), um marco para a educação nacional. A partir da LDBEN, documentos importantes norteadores foram criados e são referência para autores e pesquisadores da educação, por isso, serão abordados neste livro: os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,1997), o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (BRASIL, 1998) e, por fim, o mais novo documento que temos em vigência, a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017). Vale lembrar que as políticas públicas educacionais assumem um papel fundamental na resolução de problemas enfrentados pela sociedade em geral e legitimam a atuação das diversas áreas do conhecimento em um determinado território de abrangência. Nesse contexto, insere-se a área da Educação Física, que, ao longo dos anos, vem se destacando no cenário educacional, uma vez que sua atuação é debatida e defendida por pessoas que buscam sua valorização mediante pesquisas que afirmam a sua importância. 32 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Sendo assim, é essencial conhecer as bases legais que fundamentam a prática educacional e como a Educação Física se faz presente nesses documentos para a afirmação e valorização da área como componente curricular escolar. Vamos conhecer esses documentos e o que eles nos dizem sobre a Educação Física na escola? 2.1 Leis de Diretrizes e Bases da Educação Em meio ao surgimento de concepções, abordagens e discussões acerca dos caminhos que a educação e a Educação Física deveriam seguir no país, novas leis são formuladas para atender ao desenvolvimento socioeconômico da nação. Dentre as bases legais que orientam o papel das diferentes áreas de conhecimento dentro do ambiente escolar, temos a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDBEN. Assim como outras leis, a LDBEN, que teve sua primeira versão em 1961, vem se modificando até os dias atuais por meio de outras leis que aprimoram o seu texto em busca da qualidade da educação nacional. Segundo Darido e Rangel (2011), a LDBEN foiresultado de diversas discussões entre sociedade, deputados, senadores e Poder Executivo durante um período de oito anos. Ela trouxe uma série de mudanças, em que se destacam a mudança da estrutura didática, a autonomia dos estabelecimentos escolares e o enfoque na formação do cidadão. A principal mudança de estrutura e nomenclatura foi a divisão em dois níveis de ensino: a educação básica, formada por educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; e a educação superior. Dentro da educação básica, como afirma a LDBEN, segundo Darido e Rangel (2011, p. 53), existem outros três níveis de Ensino, sendo que cada um deles deve contribuir para o alcance dos seus objetivos, Bases legais da Educação Física escolar 33 sempre adequado à faixa etária dos alunos. A Educação Infantil tem como objetivo principal a preocupação com o desenvolvimento integral da criança até 6 anos de idade, complementando a ação da família e da comunidade. O Ensino Fundamental, com duração mínima de 9 anos, voltado para crianças a partir de 6 anos, tem como objetivo principal a formação básica do cidadão. Em conformidade com a Constituição Federal, a LDBEN “reforça os princípios constitucionais da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber, do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas” (GALLARDO, 2009, p. 80). A referida lei traz como objetivo da educação infantil a autonomia e independência da criança para o seu autocuidado, e como objetivo principal do ensino fundamental a apropriação de valores e conhecimentos do aluno para que ele viva em sociedade (GALLARDO, 2009). A motivação de trabalhar com a referida lei neste livro é que ela serviu para a formulação e implementação de outros documentos, como as Diretrizes Curriculares Nacionais, os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Referencial Curricular para a Educação Infantil – estes dois últimos vamos conhecer mais adiante. Com relação à presença da Educação Física na LDBEN, no parágrafo 3° do artigo 26, tem-se que: “A Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos” (BRASIL, 1996). Anos depois, esse parágrafo foi reformulado pela Lei n. 10.328 de 2001, acrescentando-se a palavra obrigatório logo após “componente curricular”. No artigo 27 da LDBEN, constam as diretrizes para os conteúdos curriculares da educação básica, reforçando, no inciso IV, o lugar da Educação Física: 34 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática; II - consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento; III - orientação para o trabalho; IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não formais. (BRASIL, 1996) Em seu artigo 26, a LDBEN prevê que os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base comum e uma base diversificada, exigidas pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. No ano de 2013, na redação desse artigo, foi acrescentado, além dos currículos do ensino fundamental e médio, o da educação infantil, e o termo clientela foi substituído pela palavra educandos. Como podemos observar, a LDBEN trouxe referenciais essenciais para a elaboração de novas orientações em busca da qualidade da educação nacional. Para a área da Educação Física, Darido e Rangel (2011, p. 56) afirmam que a LDBEN trouxe grandes avanços: Um desses aspectos é o fato de a Educação Física ser encarada como um componente curricular, e, talvez, mais importante ainda, seja o fato de a disciplina dever se ligar ao projeto político pedagógico da escola, oferecendo a possibilidade de que se integre ao cotidiano escolar e demonstre sua importância. Os documentos criados com base na orientação da LDBEN são hoje muito utilizados pelos profissionais da área, uma vez que orientam o trabalho pedagógico nas escolas. A partir desses documentos, formações de professores são realizadas a fim de atingir os objetivos da educação. Na LDBEN, assim como nos demais documentos que serão apresentados neste livro, podemos perceber a nítida presença da Educação Física como conteúdo curricular obrigatório da educação Bases legais da Educação Física escolar 35 básica, sendo debatida e reformulada ao longo dos anos. Portanto, faz-se necessário ter conhecimento sobre a legislação que norteia a educação, bem como as responsabilidades de cada área do conhecimento no ambiente escolar. Vamos conhecer mais bases legais importantes para a Educação Física? 2.2 Parâmetros Curriculares Nacionais Apresentamos, agora, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), de 1997, documento criado para todas as áreas do conhecimento presentes no ambiente escolar. Eles sugerem e orientam o encaminhamento das áreas nas escolas e estão divididos em livros separados. Surgidos a partir de um enfoque dado pela LDBEN, a qual reforça a necessidade de se propiciar a todos uma educação básica comum, o que pressupõe a formulação de um conjunto de diretrizes capazes de nortear os currículos e seus conteúdos mínimos, os PCNs foram organizados tendo como base temas transversais e documentos que abordam a especificidade de cada componente curricular. Para a disciplina de Educação Física, segundo Finck (2011), os PCNs orientaram a elaboração dos currículos de estados e municípios e serviram de reflexão para a prática de professores. Já no entendimento de Brandl (2010), os PCNs abordam os conteúdos em procedimentos, conceitos e atitudes, nos quais, conceitos e procedimentos mantêm grande proximidade, pois o movimento gira em torno do compreender e sentir, embora a ênfase, na prática, esteja no fazer. Os PCNs utilizaram como fundamentação elementos de diferentes teorias pedagógicas que convergiram para a sua formação, buscando entender a Educação Física desde sua concepção. Desse modo, encontra-se nos parâmetros a seguinte colocação: “Para que 36 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental se compreenda o momento atual da Educação Física é necessário considerar suas origens no contexto brasileiro, abordando as principais influências que marcam e caracterizam essa disciplina e os novos rumos que estão se delineando” (BRASIL, 1997, p. 19). Essa afirmação demonstra a preocupação em entender o processo percorrido, a situação atual e de que modo se constituirá futuramente, de acordo com o cenário social, preconizando a autonomia do aluno para a utilização de seu potencial de movimento e para exercê-lo de maneira social e culturalmente significativa e adequada. Já ao abordar a cultura corporal de movimento como objeto de estudo da Educação Física, os PCNs “apontam alguns caminhos por meio da Cultura corporal de Movimento, como colaboradores da formação do cidadão, que se pretende participativo, solidário, crítico e autônomo” (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 59). Preocupando-se com a formação do ser humano e considerando a cultura corporal de movimento colaboradora desse processo, temos um documento organizado que orienta o trabalho da Educação Física no ambiente escolar. Os PCNs da Educação Física estão divididos em duas partes. A primeira trata dos princípios e das características da área da Educação Física no ensino fundamental, evidenciando as influências, tendências e o quadro atual da disciplina na escola. Apresenta o objeto de estudo da Educação Física relacionando-o com os temas transversais, bem como aspectos conceituais, atitudinais e procedimentais concernentes à metodologia, conteúdos, objetivos e avaliação na disciplina. A segunda parte traz os critérios para a seleçãodos conteúdos com base nos conhecimentos da cultura corporal de movimento, objetivos, metodologia e avaliação e também quanto a orientações didáticas para o ensino da Educação Física nas séries finais, hoje, anos finais do ensino fundamental (FINCK, 2011). Bases legais da Educação Física escolar 37 Conforme os PCNs, a cultura corporal é fundamental para o desenvolvimento da Educação Física na escola, pois O ser humano, desde suas origens, produziu cultura. Sua história é uma história de cultura, na medida em que tudo o que faz está inserido num contexto cultural, produzindo e reproduzindo cultura. O conceito de cultura é aqui entendido como produto da sociedade, da coletividade a qual os indivíduos pertencem, antecedendo-os e transcendendo-os. (BRASIL, 1997, p. 26) Nesse sentido, respeitar a cultura é fundamental para que as atividades façam sentido ao aluno e promovam aprendizagens significativas. Segundo os PCNs, “a área de Educação Física hoje contempla múltiplos conhecimentos produzidos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento” (BRASIL, 1997, p. 27). Encontramos também neste documento que, entre esses conhecimentos, são de grande importância as atividades com fins de lazer e expressão de sentimentos, as quais promovem a saúde. Assim como a LDBEN estabelece as diretrizes para a educação nacional, os PCNs são instrumentos que definem a orientação que cada disciplina deve seguir para formar o cidadão que vai atuar e viver em sociedade. Para a Educação Física, os PCNs definem que: Cabe à escola trabalhar com o repertório cultural local, partindo de experiências vividas, mas também garantir o acesso a experiências que não teriam fora da escola. Esta diversidade de experiências precisa ser considerada pelo professor quando organiza atividades, toma decisões sobre encaminhamentos individuais e coletivos e avalia procurando ajustar a sua prática às reais necessidades de aprendizagem dos alunos. (BRASIL, 1997 p. 59) Aulas diversificadas, assim como a inclusão, progressão das atividades e adequação ao nível de ensino são princípios metodológicos a serem considerados quando se planeja atividades com os alunos. São conhecimentos que a graduação em Educação Física proporciona para o ensino formal. 38 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Nesse sentido, cabe ao professor elaborar o seu planejamento de aulas, a fim de que os alunos possam fazer escolhas, decidir, resolver problemas, tornando-se cada vez mais independentes e responsáveis. Os PCNs trazem os conteúdos divididos em três grandes blocos que se articulam entre si, mas possuem suas especificidades. São eles: Conhecimentos sobre o corpo; Esportes, jogos, lutas e ginástica; e Atividades rítmicas e expressivas. Para cada bloco, o documento traz uma gama de possibilidades a serem trabalhadas nas aulas em diferentes níveis de ensino. Os alunos do primeiro ciclo, compreendendo estudantes que se encontram nos anos iniciais do ensino fundamental, devem atingir os seguintes objetivos com as aulas de Educação Física: participar de diferentes atividades corporais, procurando adotar uma atitude cooperativa e solidária, sem discriminar os colegas pelo desempenho ou por razões sociais, físicas, sexuais ou culturais; conhecer algumas de suas possibilidades e limitações corporais de forma a poder estabelecer algumas metas pessoais (qualitativas e quantitativas), conhecer, valorizar, apreciar e desfrutar de algumas das diferentes manifestações de cultura corporal presente no cotidiano; e organizar autonomamente alguns jogos, brincadeiras ou outras atividades corporais simples. (BRASIL, 1997, p. 63) Vamos ver agora o que diz o Referencial Curricular para a Educação Infantil, que integra a série de documentos dos PCNs. Afinal, como deve ser o ensino na educação infantil? E onde entra a Educação Física nessa fase de ensino? 2.3 Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil O Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI) é um documento, pós-promulgação da LDBEN, a considerar a educação infantil a primeira etapa da educação básica. Bases legais da Educação Física escolar 39 Portanto, o primeiro espaço formal e institucional que a criança frequenta regularmente, um espaço de educação dos direitos humanos e de movimentos que garantem a vida individual e em sociedade. A finalidade da educação infantil é desenvolver a criança de maneira integral nos aspectos físico, intelectual, linguístico, afetivo e social, complementando a educação recebida na família e na comunidade em que vive, conforme determina a LDBEN (NISTA-PICCOLO; MOREIRA, 2012). Assim, partindo de orientação da LDBEN para que a educação brasileira estabeleça e siga diretrizes curriculares nacionais, Paulo Renato Souza, então ministro da educação no governo Fernando Henrique Cardoso, afirma que O Referencial foi concebido de maneira a servir como um guia de reflexão de cunho educacional sobre objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais que atuam diretamente com crianças de zero a seis anos, respeitando seus estilos pedagógicos e a diversidade cultural brasileira. (BRASIL, 1998, p. 7) O RCNEI é um conjunto com três volumes, organizado da seguinte forma: o volume 1 contém uma reflexão sobre creches e pré- -escolas do Brasil, trazendo as concepções da criança, da educação e dos profissionais que serviram para a construção dos objetivos da educação infantil, e organiza os eixos de trabalho sobre Formação Pessoal e Social e Conhecimento de Mundo; o volume 2 refere-se à experiência de Formação Pessoal e Social que favorece os processos de construção da Identidade e Autonomia das crianças (BRASIL, 1998); por fim, o volume 3 é relativo ao âmbito de experiência Conhecimento de Mundo que contém seis documentos referentes aos eixos de trabalho orientados para a construção das diferentes linguagens pelas crianças e para as relações que estabelecem com os objetos de conhecimento: Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade e Matemática. (BRASIL, 1998, p. 9) 40 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Para este livro, vamos manter o foco no volume 3, pois nele encontramos a importância do movimento na primeira infância, elemento essencial de trabalho do professor de Educação Física. O movimento é tão importante na educação infantil que, no volume 3 do RCNEI, é apresentado como o primeiro elemento a ser considerado pelo professor. Do total de 40 páginas destinadas a orientar o trabalho com as crianças, já no primeiro parágrafo da introdução, podemos encontrar a ênfase que é dada ao movimento na educação infantil: As crianças se movimentam desde que nascem, adquirindo cada vez maior controle sobre seu próprio corpo e se apropriando cada vez mais das possibilidades de interação com o mundo. Engatinham, caminham, manuseiam objetos, correm, saltam, brincam sozinhas ou em grupo, com objetos ou brinquedos, experimentando sempre novas maneiras de utilizar seu corpo e seu movimento. Ao movimentar-se, as crianças expressam sentimentos, emoções e pensamentos, ampliando as possibilidades do uso significativo de gestos e posturas corporais. O movimento humano, portanto, é mais do que simples deslocamento do corpo no espaço: constitui-se em uma linguagem que permite às crianças agirem sobre o meio físico e atuarem sobre o ambiente humano, mobilizando as pessoas por meio de seu teor expressivo. (RCNEI, 1998, p. 15) Nessa perspectiva, Nista-Piccolo e Moreira (2012) afirmam que é função da Educação Física possibilitar o pensamento das crianças, que as leva à imaginação, sendo esta área uma das linguagens da expressão humana. É importante, também, estimular diferentes formas de movimento, pois é por meio dele que a criança se expressa, se comunica com os demais e interage com o ambiente. Noprimeiro ano de vida da criança, o RCNEI afirma que os movimentos de preensão e locomoção são as maiores conquistas e que a relação do seu corpo com o ambiente é desenvolvida por meio da experimentação ou exploração. Bases legais da Educação Física escolar 41 Ao observar um bebê, pode-se constatar que é grande o tempo que ele dedica a explorações do próprio corpo – fica olhando as mãos paradas ou mexendo-as diante dos olhos, pega os pés e diverte-se em mantê-los sob o controle das mãos – como que descobrindo aquilo que faz parte do seu corpo e o que vem do mundo exterior. Pode-se também notar o interesse com que investiga os efeitos dos próprios gestos sobre os objetos do mundo exterior, por exemplo, puxando várias vezes a corda de um brinquedo que emite um som, ou tentando alcançar com as mãos o móbile pendurado sobre o berço, ou seja, repetindo seus atos buscando testar o resultado que produzem. (BRASIL, 1998, p. 21) Para Gallahue e Ozmun (2005), o aprendizado efetivo do movimento de locomoção se dá a partir da possibilidade de vivenciá- -lo de diversas formas, em diferentes ambientes e com diversos obstáculos, sendo que o domínio dos movimentos se amplia com a exploração da criança. A partir do primeiro ano até os três, a criança apresenta um aumento da autonomia em sua locomoção, sendo a fase em que mais se movimenta e faz descobertas. Segundo o RCNEI, “a grande independência que andar propicia na exploração do espaço é acompanhada também por uma maior disponibilidade das mãos: a criança dessa idade é aquela que não para, mexe em tudo, explora, pesquisa” (BRASIL, 1998, p. 22). Os gestos manuais usados para a alimentação, ainda que praticados com um pouco de insegurança, e gestos simbólicos utilizados no faz de conta, como embalar uma boneca, surgem a partir da imitação existente no meio em que vivem. Além disso, nessa fase, a criança começa a reconhecer a imagem do seu corpo e suas características físicas, essenciais para a construção de sua identidade (BRASIL, 1998). 42 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Sendo assim, é importante que o professor utilize a imitação como uma das estratégias para o aprendizado no plano do movimento. Para Nista-Piccolo e Moreira (2012), as crianças, nessa fase, se expressam por meio dos movimentos, e as atividades de Educação Física devem contemplar os grandes grupos musculares e promover valores como honestidade, cooperação, participação e responsabilidade. Já após os quatro anos de idade e até os seis, de acordo com o RCNEI, constata-se uma ampliação do repertório de gestos instrumentais, os quais contam com progressiva precisão. Atos que exigem coordenação de vários segmentos motores e o ajuste a objetos específicos, como recortar, colar, encaixar pequenas peças etc., sofisticam-se. Ao lado disso, permanece a tendência lúdica da motricidade, sendo muito comum que as crianças, durante a realização de uma atividade, desviem a direção de seu gesto; é o caso, por exemplo, da criança que está recortando e que de repente põe-se a brincar com a tesoura, transformando-a num avião, numa espada etc. (BRASIL, 1998, p. 24) É nessa fase que as brincadeiras e os jogos culturais possuem um repertório maior, o que contribui sobremaneira para o desenvolvimento e aprimoramento da coordenação motora das crianças, bem como para a precisão nos movimentos essenciais ao cotidiano. Nessa fase, ainda é importante destacar a cultura na qual a criança está inserida, pois dependendo do ambiente em que vive, ela pode possuir um maior desenvolvimento motor em relação às demais crianças. O RCNEI destaca isso quando afirma que Uma criança que vive à beira de um rio utilizado, por exemplo, como forma de lazer pela comunidade provavelmente aprenderá a nadar sem que seja preciso entrar numa escola de natação, como pode ser o caso de uma criança de ambiente urbano. Habilidades de subir Bases legais da Educação Física escolar 43 em árvores, escalar alturas, pular distâncias, certamente serão mais fáceis para crianças criadas em locais próximos à natureza, ou que tenham acesso a parques ou praças. (BRASIL, 1998, p. 24-25) Além das características do movimento de zero a seis anos que o RCNEI traz, ele apresenta os objetivos para cada fase: de zero a três anos e de três a seis anos de idade. De zero a três anos, a prática educativa deve ser organizada no sentido de a criança: familiarizar-se com a imagem do próprio corpo; explorar as possibilidades de gestos e ritmos corporais para expressar- -se nas brincadeiras e nas demais situações de interação; deslocar-se com destreza progressiva no espaço ao andar, correr, pular etc., desenvolvendo atitude de confiança nas próprias capacidades motoras; explorar e utilizar os movimentos de preensão, encaixe, lançamento etc., para o uso de objetos diversos. (BRASIL, 1998, p. 27) Para as crianças de três a seis anos, tais objetivos deverão ser aprimorados, e o RCNEI acrescenta: ampliar as possibilidades expressivas do próprio movimento, utilizando gestos diversos e o ritmo corporal nas suas brincadeiras, danças, jogos e demais situações de interação; explorar diferentes qualidades e dinâmicas do movimento, como força, velocidade, resistência e flexibilidade, conhecendo gradativamente os limites e as potencialidades de seu corpo; controlar gradualmente o próprio movimento, aperfeiçoando seus recursos de deslocamento e ajustando suas habilidades motoras para utilização em jogos, brincadeiras, danças e demais situações; utilizar os movimentos de preensão, encaixe, lançamento etc., para ampliar suas possibilidades de manuseio dos diferentes materiais e objetos; apropriar-se progressivamente da imagem global de seu corpo, conhecendo e identificando seus segmentos e elementos e desenvolvendo cada vez mais uma atitude de interesse e cuidado com o próprio corpo. (BRASIL, 1998, p. 24) 44 Metodologia da Educação Física escolar: educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Finda a parte que cabe ao movimento na educação infantil, o RCNEI destaca os conteúdos que devem ser trabalhados e que são organizados em dois blocos: possibilidades expressivas dos movimentos e seu caráter instrumental, trazendo a expressividade, o equilíbrio e a coordenação como conteúdos a serem desenvolvidos por meio das atividades. Sobre a expressividade, o RCNEI afirma que a dimensão subjetiva do movimento deve ser contemplada e acolhida em todas as situações do dia a dia na instituição de educação infantil, possibilitando que as crianças utilizem gestos, posturas e ritmos para se expressar e se comunicar. Além disso, é possível criar, intencionalmente, oportunidades para que as crianças se apropriem dos significados expressivos do movimento. A dimensão expressiva do movimento engloba tanto as expressões e comunicação de ideias, sensações e sentimentos pessoais como as manifestações corporais que estão relacionadas com a cultura. (BRASIL, 1998, p. 30) Desse modo, considera-se importante oferecer uma gama de atividades que possibilitem as mais diversas formas de se movimentar, como: engatinhar, rolar, escalar, manusear objetos, entre outras. Isso é proporcionado por meio de “brincadeiras que compõem o repertório infantil e que variam conforme a cultura regional” e “apresentam-se como oportunidades privilegiadas para desenvolver habilidades no plano motor, como empinar pipas, jogar bolinhas de gude, atirar com estilingue, pular amarelinha etc.” (BRASIL, 1998, p. 24). Considerar a cultura regional na qual a criança está inserida é primordial na construção de ações que vão favorecer a sua formação integral. A Educação Física, a fim de contribuir para essa formação, deve centrar suas ações na corporeidade, ludicidade, jogo e motricidade. Portanto, Bases legais da Educação Física escolar 45 Com um trabalho do professor voltado à exploração e à descoberta do próprio corpo, é possível