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1 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 2 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 3 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Núcleo de Educação a Distância GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO Diagramação: Rhanya Vitória M. R. Cupertino PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira. O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho. O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem. 4 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Prezado(a) Pós-Graduando(a), Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional! Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as suas expectativas. A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra- dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a ascensão social e econômica da população de um país. Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida- de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos. Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas pessoais e profissionais. Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi- ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atu- ação no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe- rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de ensino. E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a) nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial. Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos conhecimentos. Um abraço, Grupo Prominas - Educação e Tecnologia 5 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 6 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo- sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve- rança, disciplina e organização. Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho. Estude bastante e um grande abraço! Professora: Adriana Penna 7 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc- nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela conhecimento. Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in- formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao seu sucesso profisisional. 8 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 01 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO BRASIL Apresentação do Módulo ______________________________________ 10 22Seus Objetivos _________________________________________________ CAPÍTULO 02 EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR Definições, Embasamento Teórico e Concepções _______________ 17 Os Conteúdos _________________________________________________ A Educação Física em uma Perspectiva Transformadora ________ 24 27 22O que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais _____________ Enquanto Promotora de Saúde _________________________________ 28 CAPÍTULO 03 OS CAMPOS DE ABORDAGEM Na Educação Infantil __________________________________________ No Ensino Médio _____________________________________________ 32 36 No Ensino Fundamental _______________________________________ Coordenação __________________________________________________ Destreza _______________________________________________________ 34 39 40 9 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Socialização _____________________________________________________ 40 Raciocínio ______________________________________________________ 40 CAPÍTULO 04 A ESCOLA, MATERIAIS, RECURSOS, ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS 54Referências ____________________________________________________ CAPÍTULO 05 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA Fatores que levam a um Bom Trabalho _________________________ 48 10 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S A finalidade desta apostila, sem dúvida, é compilar pontos refe- rentes à educação física escolar, passando por sua história, pelos seus ob- jetivos, seus fins, os procedimentos a serem adotados, a sua importância para o desenvolvimento psicomotor do aluno, além de levar os professores à reflexões sobre sua prática educativa no campo da educação física es- colar. Aqui desejo fazer um parêntese e justificar minhas próximas linhas. Analisar! Refletir! Posicionar-se! Questões muito importantes que parecem fugir um pouco ao objetivo inicial, mas, como podemos “ensinar” quando não sabemos o que é ensinar, para que ensinar, qual o fundamento da educação, quer seja ela geral ou específica como é o caso da Educação Física Escolar. Por isso, o parêntese. Serão lançados alguns pontos nesta introdução que esperamos levá-los a pararem, refletirem, analisarem e po- sicionarem-se diante das necessidades do mundo atual. Qual o tipo de educação queremos? Com certeza autônoma, de- mocrática, libertária (relembrando Paulo Freire), na qual o conhecimento não seja mero repasse de conteúdos, em que as crianças, os adolescentes e os professores sejam recebidos sem discriminação de cor, credo, condi- ção social, financeira, enfim, uma educação real, efetiva, de qualidade. Como atingir essa “situação-condição” bonita? Cada um fazen- do sua parte, evidentemente. Sabemos que muitas crianças que estão na escola, vêm de famílias desestruturadas ou ambientes não muito saudáveis. Sabemos que a escola, enquanto pública, muitas vezes ain- da deixa a desejar em vários aspectos (gestão, materiais e recursos didáticos, espaço, dentre outros). Entretanto, somos profissionais e devemos encarar a incum- bência de educar (que nós escolhemos, não foi imposto) não como “mais um emprego”. Com certeza, a missão do professor/educador não é reconhecida muitas vezes, mas é preciso superar essa dificuldade e ver que lá na frente seu trabalho terá reconhecimento, pois terá contri- buído na formação dos jovens que farão parte da nossa sociedade. Isso é muito importante. Queremos jovens saudáveis, críticos, autônomos, conscientes, justos, empreendedores ou o contrário? Se for muito difícil pensar na educação enquanto missão, seja- mos egoístas e pensemos no futuro que queremos para nósinfantil quanto adulta se torna um grande desafio, pois o espaço requer pleno domínio do sujeito para a perfeita integração do ser ao ambiente. Reconhecer e interferir no ambien- te à sua volta, tal como portas, janelas, entradas e saídas, ruas, prédios, é um grande desafio da psicomotricidade e da educação física escolar. O nosso corpo possui características que são somente nossa, embora sejamos semelhantes. Prazer, dor, sensações são percepções pessoais, que embora aconteçam com todos, em cada um terá uma intensidade. Assim, o desenvolvimento da percepção corporal é mais um dos objetivos do professor que deve trabalhar o indivíduo para que perceba e reconheça questões relativas às estruturas do corpo. DESTREZA A destreza diz respeito ao desenvolvimento de atividades nas quais os alunos tenham que transpor barreiras, ser arrojados, direcio- nando-os a não terem receio dos obstáculos; mostrar-lhes que na vida encontrarão várias dificuldades e terão que enfrentá-las sozinhos. SOCIALIZAÇÃO Para Batista (2003), significa conduzi-los ao convívio em gru- po, abranger o companheirismo em sua sociedade, desenvolver as ati- vidades de ajuda recíproca, mostrar para eles que todos necessitam de todos e, dentro desse conceito, mostrar que a sociedade é competitiva e que a partir do início de suas atividades escolares, eles já farão parte dela, claro que de maneira mais passiva. RACIOCÍNIO Escolher atividades que despertem o interesse em “pensar”, 41 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S iniciar o progresso da capacidade de tirar conclusões sobre isso ou aquilo, ser crítico. Para tanto, é necessário realizar trabalhos nos quais o enfoque principal esteja no intelecto e não só no físico. 42 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S As instituições ou organizações não são somente instrumentos de organização, regulação e controle social, mas também, são um ins- trumento de regulação e de equilíbrio de personalidade. Uma vez que a escola é formalizada a partir de regras e nor- mas estabelecidas, que devem propiciar aos alunos oportunidade de questionar e introjetar o existente, ela se torna uma destas instituições promotoras da socialização dos indivíduos. Para Coll, Pozo e Sarabia (1997, p. 134) citados por Guimarães (2001): “[...] na escola, além das tarefas meramente educacionais, fazem-se ami- zades, aprende-se o funcionamento do poder, conhece-se o que significa a competência, pratica-se esporte, desenvolvem-se habilidades manuais; em resumo, aprende- se em viver em comunidade.” (COLL, POZO E SARABIA, 1997, p. 134 apud GUIMARÃES, 2001). A ESCOLA, MATERIAIS, RECURSOS, ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS 42 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 43 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Dessa forma, de acordo com Guimarães (2001), a escola é um ambiente em que são reforçados valores correntes na sociedade conven- cional, mas pode e deve ser também ambiente de problematização de va- lores, já que na escola estão presentes, no seu dia-a-dia, vários conflitos entre valores. A reflexão sobre os conflitos e sobre valores na escola se faz com a presença da ética que serve para verificar a coerência entre práticas e princípios, e questionar, reformular ou fundamentar os valores e as nor- mas, componentes de uma moral, sem ser em si mesma normativa. Assim, para o mesmo autor, citado anteriormente, o objetivo da ética na escola é desenvolver a autonomia dos indivíduos, propiciando a eles refletir sobre algo, assimilar e questionar este conjunto de regras e normas para permitir que tenham consciência de uma série de com- portamentos adequados para crescer em sociedade. Valores e atitudes podem, se estiverem incluídos nos conteúdos de ensino, ser trabalhados em todas as disciplinas. Portanto, a educação física, como qualquer outra disciplina, tem responsabilidade na concretização de todo esse processo. Precisamos perceber e entender que o responsável em desen- volver a cidadania na escola é principalmente o professor, porque esse, dentro da instituição, tem mais contato com os alunos, dispõe de vários meios de reforços, estabelece um vínculo afetivo que serve de modelo e de referência para o aluno. Além disso, o professor tem os conteúdos específicos de cada disciplina como objeto da discussão ética e dispõe de espaço para abordá-la, ou seja, ele representa as normas e expec- tativas que existem sobre os alunos na escola. Segundo Bracht (1992, p.74) apud Guimarães (2001, p. 19), “O educador na sua prática, quer queira quer não, é um veiculador de valores. É nesse sentido que reside a ligação da forma de ensino com seu conteúdo”. Parece estranho falar sobre ética, mas ela deve permear todo processo de ensino-aprendizagem e uma vez que a educação física mantém um contato maior com os alunos torna-se uma questão que deve ser discutida, incorporada no dia-a-dia da prática física na escola. De acordo com Silveira (2004), as aulas de Educação Física deveriam se caracterizar, além da prática de jogos, esportes, ginásti- cas, danças e lutas, pela preocupação do desenvolvimento corporal dos alunos. Não se esquecendo do desenvolvimento psicológico de cada um, além de estimular as atividades normais que os alunos conhecem desde que entram na escola, ou veem os irmãos e amigos praticarem, trabalhando a autoestima dos mesmos. Este autor apresenta alguns exemplos que podem ser utiliza- dos, mas sem se restringir a eles. O professor deve procurar variar o máximo possível as atividades, sempre buscando um equilíbrio entre o desenvolvimento das diversas habilidades corporais, correspondendo à 44 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S faixa etária atendida. Alguns exemplos são citados abaixo: • Pular corda – desenvolve coordenação, agilidade, velocidade e resistência; • Saltos em corda elástica esticada – desenvolve resistência muscular (pernas) e resistência cardiorespiratória; • Vôlei – ajuda a desenvolver no aluno a noção de tempo e espaço; • Jogos de Xadrez – trabalha a concentração dos alunos. Segundo Silveira (2004), para trabalhar essas atividades com as crianças, o professor deve respeitar a potencialidade de cada aluno, pois nem sempre quem gosta de xadrez, gosta de voleibol ou vice-ver- sa. É salutar propor atividades onde tenha a oportunidade de fazer o que gosta, mas que esteja dentro do planejamento escolar. De acordo com os estudos de Ferraz (1996) para que o de- senvolvimento das habilidades básicas de locomoção, manipulação e equilíbrio possam ser construídos com base em um acervo motor com ampla variabilidade de movimentos, o professor deve organizar as ta- refas de aprendizagem considerando-se os seguintes aspectos consti- tuintes do movimento: 1. Espaço: a) direção – frente, atrás, lado, subindo, descendo; b) níveis – alto, médio, baixo; c) planos – sagital, frontal, horizontal; d) extensões – pequena, grande. 2. Tempo: a) lento, rápido, acelerando, desacelerando. 3. Esforço: a) forte, fraco. 4. Objetos: a) corda, bola, arco, jornal, etc. 5. Capacidades físicas: a) resistência, força, flexibilidade, velocidade. 6. Núcleos do movimento: a) articulações do ombro, joelho, cotovelo, etc. 7. Relacionamentos: a) dupla, trios, grupos. Ferraz (1996) pondera que mesmo que o currículo seja elabo- rado cuidadosamente resultando em um excelente programa, terá pou- ca eficiência se o ambiente de aprendizagem não for devidamente orga- nizado e se não forem tomados os cuidados especiais no planejamento e implementação das atividades; cuidados estes relacionados com o 45 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S local, equipamentos(que correspondem à estruturação do ambiente), instrução e comportamento do professor. Alguns cuidados básicos devem ser tomados pelo professor, quando utiliza de locais amplos, descobertos e variedade de materiais, tais como: • Verificar a segurança das quadras/espaços com relação a existência de buracos, garrafas, pregos, etc.; • O espaço deve ter seus limites definidos com a visualização constante do professor; • Os materiais devem possibilitar modificações na sua estrutura e formato para que se acomode as variações dos diferentes níveis de desenvolvimento das crianças; • A novidade do equipamento estimula o grau de interesse da criança, enquanto a complexidade mantém o interesse em um nível ele- vado. Em relação às instruções e ao comportamento do professor, também com o intuito de auxiliar na criação de uma atmosfera que ma- ximize o potencial de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, al- guns aspectos devem ser considerados: • O problema a ser resolvido deve ser compreendido comple- tamente pela criança; • Solicitar uma grande variedade de respostas e estimular refle- xão no modo de execução da tarefa; • Permitir identificação dos estímulos mais importantes; • Garantir que todos os membros da classe estejam envolvidos com a aula e evitar longas filas; • Estabelecer rotinas e regras claras, pois frequentemente o professor necessita mover grandes grupos e modificar as tarefas; • Preocupar-se para que as atividades tenham grande ludicida- de em suas ações e não superestimular a competição; • Incentivar o auxílio de um aluno para o outro, mostrando a importância do trabalho coletivo. Como bem diz Ferraz (1996) conhecendo-se o aluno em suas características de crescimento e desenvolvimento e o universo da cul- tura de movimento desde a infância, têm-se subsídios para selecionar a maneira de ensinar e, dessa forma, aproximar-se de estratégias mais adequadas de ensino. 46 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Segundo Neira (2003) e baseando-se na Lei nº 9.696/98, que regulamenta a profissão de Educação Física, é de competência do pro- fissional da área coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinami- zar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e as- sessoria, realizar treinamentos especializados, participar em equipes multidisciplinares, além de elaborar informes técnicos, pedagógicos e científicos, todos nas áreas de atividade física e do esporte. Mas, Neira também pondera que somente após a determinação da real função da escola no processo de Educação, é que poderá definir-se o papel espe- cífico desta instituição, que é, por meio da construção do conhecimento, a promoção e desenvolvimento das potencialidades. Somente através do conhecimento é que o aluno estará rece- bendo uma educação efetiva e voltada para os preceitos da cidadania, A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA 46 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 47 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S para que esta condição seja atingida, o professor precisa, além do co- nhecimento para atuar, praticamente no ensino de determinado conteú- do, conhecimento teórico para embasar e justificar seu desenvolvimento. Isso quer dizer que ao selecionar um conteúdo, o professor deve cuidar para que este possua algum significado para o aluno, trazendo-lhe um importante suporte para sua ação efetiva como ser atuante e consciente. Voltando nossos olhos para o professor de educação física, sua base de formação precisa ser geral e consistente proporcionando- -lhe percorrer quaisquer caminhos que surgirem, ao mesmo tempo em que precisa se especializar no campo que deseja atuar para trabalhar com mais domínio. Conforme Galvão (2008), o papel do professor e seu perfil in- fluenciam não só no ensino de habilidades, mas também na formação integral do aluno. Segundo a autora, o relacionamento entre professor e aluno deve ser prazeroso, em clima agradável, com respeito entre am- bos. Os laços afetivos devem existir, não como um professor bonzinho, e sim maduro. O professor deve ser motivador, criativo, deve despertar interesse, ser flexível. Além disso, deve adaptar seus conteúdos às ne- cessidades do aluno, deixar claros seus objetivos, comunicar aos alu- nos o que espera deles, saber usar os materiais didáticos, ter um bom domínio sobre o seu conteúdo, incentivando a participação, utilizar-se da teoria e prática aproveitando seu tempo útil para atender o aluno. Segundo Almeida (1996), o Professor de Educação Física, deve ser um profissional que se preocupa com a qualidade de vida dos alunos, com destaque para o aspecto educacional/formativo, utilizando- -se para isso, atividades regulares, equilibradas, adequadas, cuja inten- cionalidade visa o bem-estar, a saúde e o equilíbrio mental e social das crianças, no meio em que vive (contexto social); deve também, exercer a função de socializador da cultura erudita, de forma que sua aula ve- nha a transformar-se num ambiente de riqueza cultural onde se estabe- leça um trampolim para a crítica. O professor atua como ponto de orientação que os alunos de- vem observar, pois ele é o início e o fim do que se há para fazer. Ele representa não só a autoridade adulta e a necessidade de ordem e dis- ciplina, como também valores de conhecimento. Assim, a atração exercida pela figura do professor e o esta- belecimento de laços afetivos positivos criados facilitam a imitação de suas atitudes. Segundo Coll et al (1997, p.155) apud Guimarães (2001): [...] as pessoas que exercem um processo de influência social são consi- deradas pessoas significativas para os que são influenciados e no contexto escolar os responsáveis diretos por tal processo são os professores, os co- 48 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S legas de sala e os demais alunos da escola. (COLL et al, 1997, p. 155 apud GUIMARÃES, 20001). Para Guimarães (2001), o professor durante suas aulas deve- ria, portanto, ter a atitude de tomar a iniciativa para poder proporcionar situações que, dentro do seu planejamento prévio, aproveitaria as opor- tunidades de educar, formar ou desenvolver valores e atitudes conside- radas desejáveis. Segundo Coll et al (1997) apud Guimarães (2001), o professor tem grande capacidade de persuasão sobre seus alunos e deveria usu- fruir disso para o desenvolvimento ou a formação de atitudes e valores. Na escola, cabe a ele o papel de intervir tanto em situações em que as crianças não quiserem participar quanto nas situações em que participam, no sentido de integrá-las ao grupo, discutindo, se necessário, a postura deste último. Dessa forma, aqueles alunos que ficam expostos à avaliação e comentários dos colegas podem se sentir mais fortalecidos e acolhidos. FATORES QUE LEVAM A UM BOM TRABALHO Concepção De acordo com Almeida (2006), todo e qualquer trabalho pre- cisa primeiramente ser planejado. O professor de educação física pode sofrer sérios problemas, os quais decorrem da falta de planejamento, da má condução dos mesmos, da falta de direcionamento das práticas e da perda do seu foco. Os objetivos precisam ser claros, pois ao contrário, não havendo uma linha de pensamento a seguir, o que vai acontecer? Provavelmente, o professor pegará tudo que aparecer pela frente e acabará perdendo a direção e os objetivos que deveriam ter sido propostos. O resultado com certeza será caótico uma vez que ele não conseguirá avaliar o trabalho executado, se as ações que desencadeou valeram ou não. Com certeza o professor se sentirá desmotivado e desanimado por não perceber mu- danças de comportamento e crescimento nos seus alunos. Comportamento O comportamento de umprofessor que quer trabalhar com educação física, voltada para o desenvolvimento psicomotor é, antes de tudo, de um observador, pois são nas atividades diárias que ele introduz 49 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S as práticas com tais objetivos. A motricidade caminha lado a lado com a afetividade e ao juntar esses aspectos forma-se uma concepção maior que o professor precisa atentar-se. Ele não pode desqualificar as relações vividas pelos alunos nos ambientes educativos, pelo contrário, precisa fazer com que cada ação, por mais simples que seja, possa ser percebida pelo aluno na sua complexidade e na sua essência. Como diz Almeida (2006) o comportamento é o combustível que move as relações diárias de um professor que quer construir coleti- vidade na multiplicidade dos seres com as diferenças de cada um. Compromisso O professor precisa aproveitar totalmente o seu tempo de tra- balho. Quando se racionaliza, planeja e operacionaliza, as ações se tornam mais claras fazendo com que o compromisso do professor se torne também mais limpo e mais consciente. Materiais É óbvio que os materiais são sempre parte importante em uma prática docente e deveriam estar presentes o tempo todo, pois eles am- pliam as ações do professor, possibilitam que o aluno possa intervir e se relacionar com objetos concretos, tornando o processo educativo mais próprio, mais próximo e mais pertinente. Entretanto, é preciso conciliar teoria e método, pois tendo a concepção e o material, com certeza as coisas irão funcionar, e muito bem. Mas, existem situações em que eles não co-existem, e nessas situações, o professor pode tornar um espaço, ainda que pobre de re- cursos, em um rico ambiente educativo, humanizado e criativo. Espaços Salas, cadeiras, mesas, armários, livros, quadros e todos os outros recursos físicos que podem existir em um espaço fazem parte da estrutura física de um local. Desse modo, os espaços podem ser ricos de recursos mas que precisam de vida, de ações acontecendo neles, senão, as relações não irão acontecer. Eles tem que emanar vida! Até mesmo um supermercado pode ser um espaço que promova ou aconte- ça a educação, dependente das relações e ações que ali se construam. 50 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S De acordo com Almeida (2006), ao professor cabe estimular e desencadear ações tornando os espaços vivos e ricos. Esperamos que a mensagem tenha chegado aos corações e às mentes! Motivar o aluno, preocupar-se com seu bem-estar, planejar uma boa aula que tenha objetivos reais, integrar o aluno em todas as suas possibilidades (cultura corporal de movimento, transmissão de co- nhecimentos sobre a saúde, conhecer as várias modalidades de espor- tes, adaptar os conteúdos das aulas à individualidade de cada aluno e a cada fase do seu desenvolvimento) enfim, possibilitar-lhe desenvolver suas potencialidades, não numa forma seletiva, mas incluindo a todos, faz parte da missão do professor de educação física. Mostrar aos alunos que uma aula de educação física tem sen- tido, que não é apenas hora de lazer e recreação, mas portadora de conhecimentos, de benefícios que são essenciais para que ele compre- enda e “tome gosto”. Enfim, as aulas devem ser dinâmicas, estimulantes e interes- santes. Os conteúdos precisam ter uma complexidade crescente a cada série acompanhando o desenvolvimento motor e cognitivo do aluno. Inovar e diversificar são verbos que deveriam permear a práti- ca docente, para tanto, basta o professor ser responsável, ter seriedade e muita criatividade. O texto que segue abaixo, retirado na íntegra, sintetiza muito bem, tudo que falamos acima. Aula ideal de Educação Física Certa vez um professor de Educação Física encontrou um me- nino muito esperto e inteligente e perguntou como ele acreditava que deveria ser uma aula de Educação Física para que ele se sentisse re- almente feliz. Esse menino pensou um pouco, pois era uma criança bri- lhante e disse que uma AULA IDEAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA deveria: 01. Ser num local apropriado, limpo, espaçoso, preferencial- mente que a natureza estivesse por perto; 02. Ser atrativa, motivante, interessante, sociabilizadora, cati- vante, saudável, organizada, com um ambiente harmônico; 03. Estar composta com muita dança, recreação, jogos, enfim que enfocasse a ludicidade; 04. Estar repleta de coisas que, muitas vezes, eu não tenho em casa e sinto muita falta: alegria, espírito crítico, oportunidade de falar, afeto, educação, conforto, segurança, paz, diálogo, disciplina, respeito mútuo e paz; 51 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 05. Ter competição para que eu possa aprender perder e ga- nhar, possa descobrir meus limites e testar minha força de vontade, que eu possa me descobrir mais; 06. Permitir aprender comigo mesmo, com o professor e meus colegas, que desperte minha curiosidade e criatividade; 07. Ensinar, reforçar e zelar pelos princípios da moral, da ética e dos bons costumes; 08. Não me deixar sentir discriminado e que eu tivesse no pro- fessor alguém que possa confiar, que fique contente com meus progres- sos, alguém amigo; 09. Valorizar o respeito a si e ao semelhante, o companheiris- mo e a amizade. 10. Não permitir que “pulasse” etapas do meu desenvolvimento (estimulação precoce); 11. Favorecer a descoberta minha mente e meu corpo (minhas capacidades) e dominá-los; 12. Permitir que eu adquira o gosto pela Atividade Física, pelo Exercício Físico e pelos Esportes; 13. Ser um lugar onde eu seja elogiado sempre que faça ou tente fazer as coisas certas; 14. Ser cheia de novidades, de desafios, de conhecimentos científicos e teóricos ligados a prática que estou realizando; 15. Ter ensinamentos úteis para minha vida; 16. Ser agradável, desafiadora, prazerosa, divertida e que per- mita meu crescimento como Ser Humano; O pequeno e exigente menino ainda concluiu: “Eu acredito que a aula ideal ainda está por vir, pois é na constante busca de uma aula que seja a melhor que você vai tornar todas elas ideais!”. Este mesmo Professor, estava num dia de sorte fora do comum e teve a oportunidade de poder encontrar um sábio ou grande mestre que lhe deu alguns conselhos de como poderia ser bem sucedido e feliz com a profissão que escolheu. Ele listou estes itens abaixo: 01.Não improvise, vá sempre preparado em todas suas aulas, lembrando que aquela aula é um parte importante de uma “construção” maior. A aula deve ser uma novidade, uma surpresa para o aluno, não para o professor, planeje suas aulas; 02.Proporcione um ambiente propício para o aprendizado. Estimule a manutenção e prática dos exercícios físicos regulares, na dosagem adequada, para a Saúde do Ser Humano. Informe sobre os benefícios dos Exercícios Físicos; 03.Seja audacioso, não tenha medo de inovar; 04.Crie uma atmosfera harmoniosa, tranquila para trabalhar, 52 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S assim os alunos sentirão este ambiente acolhedor; 05.Tenha muito cuidado e responsabilidade no que diz e no que faz. Muitos alunos se espelham no professor. A palavra dita tem muito poder e pode transformar a vida de um indivíduo, fazendo-o tor- nar-se um derrotado ou uma pessoa realizada. Seja sincero e honesto. Seja um modelo de cidadão e de Ser Humano; 06.Procure se exercitar, falar e fazer, mostrará que você é coeren- te, além de lhe fazer bem à saúde. Encontre tempo para investir em você; 07.Seja um pesquisador no seu campo profissional, para me- lhor entendimento da realidade. Atualize-se constantemente, veja as coisas corriqueiras sob outra ótica, isto evitará a rotina e a acomodação; 08.Tenha a convicção de que sua função profissional é promo- ver o desenvolvimento bio-psico-fisiológico e social do aluno;09.Buscar contribuir para a formação de cidadãos modelos, educados, críticos, conscientes e com objetivo na vida. Acredite naquilo que faz; 10.Sempre termine uma aula dizendo: “fiz o melhor que pude”; 11.Seja organizado e disciplinado no horário; 12.Trabalhe com os olhos no amanhã, para que o que faz no presente, crie um futuro melhor para seus alunos; Esteja sempre aberto a novos aprendizados. Possua uma ampla concepção de mundo para além da especificada da sua profissão; 13.Crie objetivos para os grupos com os quais trabalha, colo- que suas forças em prol de atingi-los; 14.Saiba ser crítico, há momentos para calar e momentos es- senciais para expressar suas ideias; 15.Faça da sua profissão uma forma de se auto-realizar. Dê o melhor de si, ensine “tudo” que sabe. Amor é a palavra-chave; 16.Respeite seu aluno assim como deveria respeitar a si mesmo; 17.Tenha competência técnica (saber fazer) com compromisso político (a favor de quem está fazendo, qual a intencionalidade da ação); 18.Não seja um professor repassador de conteúdos, seja um educador comprometido com a categoria e consciente da legislação que a rege; 19.Seja coerente com o que prega, consciente de que é um modelo. 20.Veja cada aula como uma oportunidade de mostrar suas qualidades, seus dons, e a força que ganhou de Deus. Não veja como uma obrigação. Seu trabalho foi algo que você escolheu, tem que pro- porcionar-lhe prazer. Finalizando, o mestre, muito sábio, disse: comece a trabalhar com a tranquilidade de alguém que vai contribuir para a Educação e de 53 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S alguém que aprende a todo momento, porque cada grupo, ou um sim- ples indivíduo que você ministrar aulas fará você completar uma lista com recomendações muito maior que essas. Trabalho realizado pelos acadêmicos de Tênis de Campo no Curso de Educação Física das Faculdades Integradas Católicas de Pal- mas, com auxílio de alguns professores e a coordenação do professor Aluísio – MAI/2004 Aluísio Menin Mendes. Palmas, 12 de maio de 2004. Disponível em: www.cdof.com.br/escola1.htm Acesso em: 20 mai.2008. 54 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S ALMEIDA, Geraldo Peçanha de. 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No capítulo dois discorremos sobre a importância da educação física escolar, seus objetivos, o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, quais os conteúdos e discutimos ainda a educação física numa perspectiva transformadora e promotora de saúde. No capítulo três são apresentados os campos de abordagem no Ensino Infantil, Fundamental e Médio. A importância da coordena- ção, destreza, socialização e raciocínio. A escola, os materiais, recursos e orientações didáticas são os assuntos expostos no capítulo quatro, e por fim, no capítulo cinco, o tema é a formação do professor de Educação Física e os fatores (con- cepção, comportamento, compromisso, materiais e espaços) que levam a um bom trabalho. Ressaltamos que o assunto não se esgota e deixamos várias re- ferências ao término da apostila para complementação. Lacunas e falhas podem surgir, somos todos humanos, sujeitos a errar. Pedimos desculpas de antemão. Boa leitura a todos e que façam da educação física escolar um caminho pontuado por novos desafios e novas conquistas sempre! 12 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Os primeiros pensamentos voltados para a educação física no Brasil, em termos de escola, passavam por propósitos profiláticos, mo- rais e culturais. Embora, Educação Física e Educação Física escolar pareçam ser a mesma coisa, não são sinônimos. Pouco se sabe quando, exata- mente, a escola chamou a si a responsabilidade sobre uma educação física, ou se essa responsabilidade foi chamada e quando. Hoje, outros são os adjetivos colocados para a educação física. Por exemplo: educa- ção física infantil para a pré-escola; educação física de academia para praticantes de exercícios em academias; educação física adaptada para deficientes físicos, para terceira idade e para gestantes. Principalmente nos dois últimos casos, a chamada educação física escolar não prevê atividade. Aliás, na escola, as pessoas nessas condições são dispen- sadas da educação física. Ela só vai aparecer, com novos nomes, em HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO BRASIL 12 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 13 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S academias, em clínicas de fisioterapia ou congêneres. Já na primeira metade deste século, vamos encontrar autores, como Azevedo e Miranda citados por Beltrami (2001) que defendiam a necessidade de atividades físicas para crianças, fora da escola. Elas de- veriam ser realizadas em parques, em passeios públicos ou em outros locais adequados. Essas atividades tinham propósitos os quais são ainda defendidos nas políticas e nos planos de atividades físicas e desportivas elaborados por organismos educacionais nacional, estadual ou local. A partir dos anos 70, é possível verificar a intensa construção de Centros Esportivos, Educacionais e Comunitários ou Quadras Po- liesportivas públicas destinadas a atender, prioritariamente, o público infantil e juvenil. De acordo com Beltrami (2001), também não se pode esque- cer que as práticas de exercícios físicos eram atividades obrigatórias para a formação de milícias e os objetivos daquelas visavam à prepa- ração para o "agon". Por falta até mesmo de formação adequada, mui- tos dos professores, chamados no passado de "instrutores", aplicavam para crianças, na escola, exercícios ginásticos praticados nos quartéis. A introdução da ideia de recreação como a atividade física para o antigo ensino primário foi uma proposta de peso para a Educação Física escolar. A ideia de recreação, ora tinha sentido semelhante, ora distinto. Pensada enquanto atividade da Educação Física, apresentava caráter formativo quando dizia respeito à importância da formação de valores físicos e morais da criança, ou caráter preventivo quando dizia respeito à ocupação "sadia" do tempo pela criança. Segundo Marinho (1957 apud BELTRAMI, 2001), a necessidade da Recreação se dava, naquele momento, de forma imprescindível, porque as horas/permanên- cia da criança na escola haviam diminuído. Antes, a criança permanecia entre 6 e 8 horas na escola e, depois, passou a permanecer apenas 3 e, no máximo, 4 horas. Isso, para ele, criava um problema. De acordo com Beltrami (2001), diferentemente do que se pos- sa pensar, os estudos sobre recreação destinados à escola primária na primeira metade deste século, no Brasil, foram muito profundos. Nos anos 40 e 50, temos os estudos de Inezil Pena Marinho com as obras Os jogos: principais teorias, em 1956 e Educação Física: recreação- -jogos, em 1957; Ethel Bauzer Medeiros cujas obras mais conhecidas são Manual de Recreação, publicada na Revista brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 21, n. 54, em 1954 e Jogos para recreação na escola primária, em 1959; Nicanor Miranda com Técnica do jogo infantil orga- nizado, separata da Revista do Arquivo Municipal, v. LXCVI, em 1940 e 200 jogos infantis, em 1947. Hoje, outros estudos são realizados, mas pouco se recupera dos realizados no passado, embora algumas ideias 14 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S se tenham tornado perenes. Já nos anos 70, segundo Pereira citado por Beltrami (2001), vin- gou uma política de expansão da prática do desporto, tornando-se um novo paradigma para toda a Educação Física. Nesse período, a Educa- ção Física tornou-se sinônimo de desporto. Tal prática privilegiou, tanto para a escola como para fora dela, o desporto como meio educativo “por excelência” porque a sua prática poderia inspirar o “espírito de disciplina” e a “lealdade”. O Plano Nacional de Educação Física e Desportos-PNED, para o período de 1976 a 1979, faz as seguintes observações: A atividade física é hoje considerada como um meio educativo privilegiado, porque abrange o ser na sua totalidade. O caráter de unidade da educação, por meio das atividades físicas, é reconhecido universalmente. Ela objetiva o equilíbrio e a saúde do corpo, a aptidão física para a ação e o desenvolvi- mento dos valores morais. Sob a denominação comum de Educação Física e desportiva o consenso mundial reúne todas as atividades físicas dosadas e programadas, que, embora pareçam idênticas na sua base, têm finalidades e meios diferenciados e específicos. O meio específico da Educação Física é a atividade física sistemática, concebida para exercitar, treinar e aperfeiçoar. De acordo com a intenção principal que anima a atividade física, ela se des- dobra em exercícios educativos propriamente ditos, os jogos e os desportos. Face à informalidade de que se reveste sua prática, os jogos e os desportos têm um poder maior de mobilização que os exercícios educativos, sendo re- comendável, portanto, para melhor eficácia da Educação Física, a integração das formas (BRASIL, 1976, p. 59 apud BELTRAMI, 2001). Vê-se que o plano dos anos 70 de fato dá uma direção à prá- tica desportiva, até porque um de seus objetivos é o de “aprimorar as representações desportivas do país”. A partir dos anos 80, segundo Beltrami (2001), houve um novo impulso de estudos e de debates sobre a temática “Educação Física es- colar”. Isso pode ser observado através das publicações de novos auto- res e da difusão sobreo assunto em eventos científicos, em programas de disciplinas nas escolas de Educação Física e em bibliografias nos concursos públicos para ingresso no magistério do ensino fundamental e médio para a cadeira de Educação Física. Voltando ao início do século XX, encontramos os valores higie- nistas preconizados pela Educação Física escolar e que permaneceram até o Estado Novo. Com a mudança do quadro político, em 1930, o Brasil preparou-se para entrar no mundo industrializado e tinha a preo- cupação de levantar a autoestima de seu povo e consolidar novos inte- resses políticos. Dentro desse contexto, o esporte é visto como uma das formas de passar para o mundo uma imagem de um país em ascensão. A partir desse novo paradigma, o esporte passa a ter grande 15 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S importância na Educação Física, e esse na escola passa a funcionar como forma de detectar talentos para as seleções das diversas moda- lidades esportivas do país, assumindo um caráter de competitividade. Com o início da Nova Republica e até os dias atuais, a Edu- cação Física vem tendo contornos diferentes nas escolas, não só por questões de interesse políticos ou classes dominantes, mas também porque a partir de 1980, várias pesquisas vêm sendo feitas nessa área analisando a sua práxis metodológica e seus valores sociocultural, polí- tico e educacional. Segundo Caparroz (2000): os anos 80 aparecem como o nascimento de concepções e práticas peda- gógicas libertadoras, transformadoras, na perspectiva de desenvolver uma Educação Física voltada para o ser humano e não mais às necessidades do capital. As elaborações traziam em seu bojo uma nova proposta de Educa- ção Física, totalmente diferente de tudo o que havia sido pensado ou experi- mentado, visto que a Educação Física que se tinha, até então, só servia para a manutenção do status quo. (CAPARROZ, 2000) 16 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Encontramos no artigo 26, parágrafo 3º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.9394/96) que “A Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa também nos cursos noturnos”. Para Vago (1999) ela é: • Criadora de uma raça forte e cheia de energia; • Promotora da saúde e qualidade de vida; • Aprendizagem de habilidades motoras, psicomotoras; • Terapia e incentivadora de atletas; • Forma de expressão de movimentos socioculturais criados. As qualificações acima deixam bem claro o seu importante pa- pel na formação do indivíduo, devendo ser iniciada sua prática ainda EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR 16 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 17 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S na pré-escola, levando as crianças a se acostumarem com movimentos dinâmicos, incentivando atividades das quais elas venham a conhecer seu corpo, criando atividades que trabalhem as expressões corporais e, assim, ao chegarem ao terceiro e quarto ciclo do Ensino Fundamental (5ª a 8ª série), essas crianças já possuam certo domínio dos movimen- tos do seu corpo. Para Soares et al (1996): a educação física é uma prática pedagógica que busca desenvolver uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas de representação do mun- do que o homem tem produzido no decorrer da história, exteriorizados pela expressão corporal: jogos, danças, lutas, exercícios ginásticos, esporte, ma- labarismo, contorcionismo, mímica e outros, que podem ser identificados como formas de representação simbólica de realidades vividas pelo homem, historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas. (SOARES et al, 1996) Além dos gestos físicos, uma boa aula de educação física leva a internalização de valores, concepções de mundo e formas de comporta- mento socialmente existentes, assim, ela se insere no âmbito da Educação e dessa forma extrapola a ideia de simples repasse de conhecimentos. O trabalho docente, contudo, não é neutro. Ele envolve, antes de mais nada, uma dimensão política importante e da qual os educado- res não podem se esquivar sob pena de favorecer a manutenção das relações de dominação presentes na sociedade. Gadotti (1988 apud Alves, 2008) ressalta o caráter político no educativo ao defender que o pedagogo fazendo prática social, está exercendo seu papel específico dentro da sociedade, que é o de vincular o ato educativo e o ato político, a teoria e a prática da transformação. De acordo com Alves (2008), a Educação Física é uma prática educativa, carrega de modo orgânico um sentido político, mas no con- texto escolar, as práticas desenvolvidas vão além da mera ação indivi- dualizada dos sujeitos envolvidos, pois, as referidas práticas delineiam um projeto em curso e esse guarda estreita relação com a perspectiva que a escola organiza globalmente seu trabalho pedagógico. DEFINIÇÕES, EMBASAMENTO TEÓRICO E CONCEPÇÕES De acordo com Borges (2001) “Educação Física é um seg- mento da educação que utiliza as atividades físicas, orientadas por pro- cessos didáticos e pedagógicos, com a finalidade do desenvolvimento integral do homem, consciente de si mesmo e do mundo que o cerca.” Segundo as concepções, ela é vista dentro de abordagens igualmente diferenciadas, ou seja, desenvolvimentistas, construtivista- 18 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S -interacionista, crítico-superadora, sistêmica ou plural. Na abordagem construtivista-interacionista, que se opõem ao mecanicismo, respeitando as experiências vividas pelos alunos e as di- ferenças individuais, resgatando a cultura da brincadeira e jogos pro- postos pelos alunos, objetiva ao aluno construir seu conhecimento a partir da interação com o meio, resolvendo problemas. A construção do conhecimento se dá a partir da interação do sujeito com o mundo. Existem algumas críticas à abordagem construtivista-intera- cionista, como por exemplo, que a educação física poderia perder sua identidade própria ao servir de base para outras disciplinas e que os conteúdos podem não ter relação com a prática do movimento em si. De acordo com Darido (2001, p. 9) dentro da perspectiva cons- trutivista a intenção é a construção do conhecimento a partir da intera- ção do sujeito com o mundo, e para cada criança a construção desse conhecimento exige elaboração, ou seja, uma ação sobre o mundo. Nesta concepção, a aquisição do conhecimento é um processo cons- truído pelo indivíduo durante toda a sua vida, não estando pronto ao nascer nem sendo adquirido passivamente de acordo com as pressões do meio. Conhecer é sempre uma ação que implica em esquemas de assimilação e acomodação, num processo de constante reorganização. Segundo o mesmo autor, citado anteriormente, a principal vantagem dessa abordagem é a de que ela possibilita uma maior inte- gração com uma proposta pedagógica ampla e integrada da Educação Física, nos primeiros anos de educação formal. Porém, desconsidera a questão da especificidade da Educação Física. Nesta visão o que pode ocorrer com certa frequência, é que conteúdos que não tem relação com a prática do movimento em si poderiam ser aceitos para atingir objetivos que não consideram a especificidade do objeto que estaria em torno do eixo corpo/movimento. Quanto ao modelo Desenvolvimentista, que tem como objetivo oferecer ao aluno condições de desenvolver comportamento motor através da diversidade e complexidade de movimentos, é dirigido para alunos na faixa de 4 a 14 anos. Acredita que a melhor capacidade de controle e mo- vimento contribui no conhecimento próprio e aplicação do movimento. No Brasil, a obra de Tani é a mais representativa:“Educação Física Escolar: fundamentos de uma abordagem desenvolvimentista” (TANI et al, 2005). A proposta elaborada por eles é uma abordagem dentre várias possíveis, e busca nos processos de aprendizagem e desenvolvimen- to uma fundamentação para a Educação Física escolar. Segundo eles é uma tentativa de caracterizar a progressão normal do crescimento físico, do desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social, na apren- dizagem motora e, em função dessas características, sugerir aspectos ou 19 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S elementos relevantes para a estruturação da Educação Física Escolar. Os autores dessa abordagem defendem a ideia de que o mo- vimento é o principal meio e fim da Educação Física, propugnando a especificidade do seu objeto. Em suma, uma aula de Educação Física deve privilegiar a aprendizagem do movimento, embora possam ocorrer outras aprendizagens em decorrência da prática das habilidades mo- toras. Aliás, habilidade motora é um dos conceitos mais importantes dentro dessa abordagem, pois é através dela que os seres humanos se adaptam aos problemas do cotidiano, resolvendo problemas motores. Os conteúdos devem ser desenvolvidos segundo uma ordem de habilidades, da mais simples, que são as habilidades básicas, para as mais complexas, as habilidades específicas. As habilidades básicas podem ser classificadas em habilidades locomotoras (andar, correr, saltar, saltitar), manipulativas (arremessar, chutar, rebater, receber) e de estabilização (gi- rar, flexionar, realizar posições invertidas). Sendo que os movimentos es- pecíficos são mais influenciados pela cultura e estão relacionados à prática dos esportes, do jogo, da dança e, também, das atividades industriais. Com relação às críticas que sofrem, temos as que não se refe- rem ao contexto sociocultural e o desenvolvimento dos domínios afetivo, cognitivo e sociais são feitos ocasionalmente e não intencionalmente. De acordo com Dario (2001), existe uma abordagem conside- rada mais uma vertente, a qual defende a educação física escolar den- tro de uma matriz biológica, conhecida por Modelo da Saúde Renovada. Essa vertente é representada por Nahas (1997) e Guedes & Guedes (1996). É importante ressaltar que ao longo do século XX, foram mui- tos os autores que defenderam a Educação Física numa perspectiva biológica. No entanto, é a partir de meados da década de 90, que essa vertente se torna mais visível. Guedes & Guedes (1996) apud Darido (2001), por exemplo, res- saltam que uma das principais preocupações da comunidade científica nas áreas da Educação Física e da saúde pública é levantar alternativas que possam auxiliar na tentativa de reverter a elevada incidência de distúrbios orgânicos associados à falta de atividade física. Os autores, baseados em diferentes trabalhos americanos, entendem que as práticas de atividade física vivenciadas na infância e adolescência se caracterizam como impor- tantes atributos no desenvolvimento de atitudes, habilidades e hábitos que podem auxiliar na adoção de um estilo de vida ativo fisicamente na idade adulta. E como proposta sugerem a redefinição do papel dos programas de Educação Física na escola, agora como meio de promoção da saúde, ou a indicação para um estilo de vida ativa proposta por Nahas (1997). De acordo com Darido (2001), ela é denominada de biológica renovada porque incorpora princípios e cuidados já consagrados em 20 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S outras abordagens com enfoque mais sociocultural. Nahas (1997), por exemplo, sugere que o objetivo da Educação Física na escola de ensino médio é ensinar os conceitos básicos da relação entre atividade física, aptidão física e saúde. O autor observa que esta perspectiva procura atender a todos os alunos, principalmente os que mais necessitam, se- dentários, baixa aptidão física, obesos e portadores de deficiência. Os defensores dessa abordagem criticam os professores que apenas trabalham as modalidades esportivas tradicionais como volei- bol, basquetebol, futebol, isto porque os alunos ficam impedidos de ter acesso às atividades esportivas alternativas que podem encontrar maior campo fora do ambiente escolar e também consideram que as ativida- des esportivas são menos interessantes para a promoção da saúde, devido a dificuldade no alcance das adaptações fisiológicas e segundo porque não prediz sua prática ao longo de toda a vida. Segundo Darido (2001), para eles, a adoção de diversas es- tratégias de ensino contempla não apenas os aspectos práticos, mas também, a abordagem de conceitos e princípios teóricos que proporcio- nam subsídios aos escolares, no sentido de tomarem decisões quanto à adoção de hábitos saudáveis de atividade física ao longo de toda vida. A abordagem crítico-superadora levanta questões de poder, interesse, esforço e contestação, uma vez que a educação deve ver- sar não somente sobre questões de como ensinar, mas também sobre como se adquiri esses conhecimentos, valorizando a questão da con- textualização dos fatos e do resgate histórico. Para Darido (2001), essa percepção possibilita a compreensão, por parte do aluno, de que a produção da humanidade expressa uma de- terminada fase e que houve mudanças ao longo do tempo. Essa reflexão pedagógica é compreendida como sendo um projeto político-pedagógico. Político porque encaminha propostas de intervenção em determinada di- reção e pedagógico no sentido de que possibilita uma reflexão sobre a ação dos homens na realidade, explicitando suas determinações. Segundo o mesmo autor, quanto à seleção de conteúdos para as aulas de Educação Física propõem que se considere a relevância social dos conteúdos, sua contemporaneidade e sua adequação às características sócio-cognitivas dos alunos. Enquanto organização do currículo, ressaltam que é preciso fazer com que o aluno confronte os conhecimentos do senso comum com o conhecimento científico, para ampliar o seu acervo de conhecimento. Além disso, é sugerido que os conteúdos selecionados para as aulas de Educação Física devam pro- piciar a leitura da realidade do ponto de vista da classe trabalhadora. Nessa visão, deve-se, também, evitar o ensino por etapas e adotar a simultaneidade na transmissão dos conteúdos, ou seja, os 21 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S mesmos conteúdos devem ser trabalhados de maneira mais aprofunda- da ao longo das séries, sem a visão de pré-requisitos. Segundo Dario (2001), uma das principais obras já publicadas dentro da perspectiva crítico emancipatória no escopo da Educação Fí- sica é de autoria do Professor Elenor Kunz e intitulada “Transformação didático-pedagógica do esporte”, inspirada, especialmente, nos pressu- postos da teoria crítica da escola de Frankfurt. Neste livro, o autor busca apresentar uma reflexão sobre as possibilidades de ensinar os esportes pela sua transformação didático-pedagógica, de tal modo que a Educa- ção contribua para a reflexão crítica e emancipatória das crianças e jo- vens. Para o autor, o ensino na concepção crítico-emancipatória deve ser um ensino de libertação de falsas ilusões, de falsos interesses e desejos, criados e construídos nos alunos pela visão de mundo que apresentam a partir do conhecimento. O ensino escolar necessita, dessa forma, ba- sear-se numa concepção crítica, pois é pelo questionamento crítico que chega a compreender a estrutura autoritária dos processos instituciona- lizados da sociedade que formam as convicções, interesses e desejos. Kunz (1994 apud Darido, 2001) ao longo do seu trabalho tece algumas críticas à proposta crítico-superadora e apresenta algumas de suas limitações. A primeira delas diz respeito a deficiência das práticas efetivamente testadas na realidade concreta, que questionava, criticavae dava a entender que tudo estava errado na Educação Física e nos esportes, sem, no entanto, fornecer elementos para uma mudança ao nível de prática. Assim, o autor apresenta os resultados do desenvol- vimento de uma proposta prática em algumas escolas, dentro de uma nova concepção de ensino para modalidades esportivas, baseada na perspectiva crítico-emancipatória. O autor relata que a abordagem crítico-superadora, na questão metodológica para o ensino dos esportes, não apresenta elementos que norteiam o ensino, considerando a dimensão do "conhecimento" que os alunos precisam adquirir para criticar o esporte e para compreendê-lo em relação a seus valores, normas sociais e culturais. Segundo Darido (2001), do ponto de vista das orientações di- dáticas, o papel do professor na concepção crítico-emancipatória con- fronta, num primeiro momento, o aluno com a realidade do ensino, o que denominou de transcendência de limites. Concretamente, a forma de ensinar pela transparência de limites pressupõe três fases: na pri- meira, os alunos descobrem, pela própria experiência manipulativa, as formas e meios para uma participação bem sucedida em atividades de movimentos e jogos; devem também manifestar, pela linguagem ou re- presentação cênica, o que experimentaram e o que aprenderam numa forma de exposição; e por último, os alunos devem aprender a pergun- 22 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S tar e questionar sobre suas aprendizagens e descobertas, com a finali- dade de entender o significado cultural da aprendizagem. SEUS OBJETIVOS Segundo Batista (2003) o objetivo da educação física consiste em desenvolver no indivíduo, a coordenação de uma forma geral, atra- vés de jogos recreativos, que levem a assimilação de tudo que acontece a sua volta. Os objetivos englobam o aluno como um todo, por isso não basta apenas que ele desenvolva habilidades motoras, ele também pre- cisa aprender a desenvolver–se socialmente, sabendo utilizar regras de jogos coletivamente e percebendo que o adversário não é seu inimigo. De acordo com Caparroz (1997), a Educação Física escolar pode ser vista e entendida de duas maneiras, ou melhor, pode ser defi- nida por duas teorias. Na primeira, a Educação Física é vista somente como parte da matriz curricular escolar, ou seja, é uma disciplina do en- sino escolar. Na segunda, vai além da prática escolar e vê a Educação Física integrada às práticas sociais, pois abrange não só a escola, mas também o lazer, as práticas desportivas, terapêuticas entre outras. Essa segunda linha de raciocínio entende que mesmo sendo ministrada no ambiente escolar, sua proposta é transmitir além dos con- teúdos necessários, a ludicidade, o prazer pelo movimento humano, pelo corpo físico e mental. Soares (1992) apresenta como Educação Física no meio esco- lar todas as formas de expressões corporais como jogo, esporte, dança, que são áreas do conhecimento que se entende por cultura corporal. Enfim, a educação física escolar visa a formação integral dos indivíduos, corpo, mente e espírito, que tem por finalidade o desenvolvi- mento pleno da personalidade, ou seja, ela vem integrar–se à educação intelectual e moral. O QUE DIZEM OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS O Ministério da Educação e do Desporto, através da Secreta- ria de Ensino Fundamental, inspirado no modelo educacional espanhol, mobilizou a partir de 1994 um grupo de pesquisadores e professores no sentido de elaborar os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Segundo Brasil (1998), em 1997, foram lançados os documen- tos referentes aos 1º e 2º ciclos (1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental) 23 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S e no ano de 1998, os relativos aos 3º e 4º ciclos (5ª a 8ª séries), incluin- do um documento específico para a área da Educação Física. Segundo Darido (2001), de acordo com o grupo que organizou os Parâmetros Curriculares Nacionais, estes documentos têm como função primordial subsidiar a elaboração ou a versão curricular dos estados e municípios, dialogando com as propostas e experiências já existentes, incentivando a discussão pedagógica interna às escolas e a elaboração de projetos educativos, assim como, servir de material de reflexão para a prática de professores. De acordo com o mesmo autor citado acima, as propostas elen- cadas na área de Educação Física para os terceiros e quartos ciclos apresentam alguns avanços e possibilidades importantes para a discipli- na, embora, muitas dessas ideias já estivessem presentes no trabalho de alguns autores brasileiros (BETTI, M.,1991; BETTI, M., 1994; 1995; CO- LETIVO DE AUTORES, 1992, só para citar alguns), em discussões aca- dêmicas, bem como no trabalho de alguns professores da rede escolar de ensino. Porém, Darido concorda que o texto auxiliou na organização desses conhecimentos, articulando-os nas suas várias dimensões. De acordo com Brasil (1998), o eixo norteador – a cidadania – nos leva a entender que a Educação Física na escola é responsável pela formação de alunos que sejam capazes de: • Participar de atividades corporais adotando atitudes de res- peito mútuo, dignidade e solidariedade; • Conhecer, valorizar, respeitar e desfrutar da pluralidade de manifestações da cultura corporal; • Reconhecer-se como elemento integrante do ambiente, ado- tando hábitos saudáveis, relacionando-os com os efeitos sobre a pró- pria saúde e de melhoria da saúde coletiva; • Conhecer a diversidade de padrões de saúde, beleza e de- sempenho que existem nos diferentes grupos sociais, compreendendo sua inserção dentro da cultura em que são produzidos, analisando criti- camente os padrões divulgados pela mídia; • Reivindicar, organizar e interferir no espaço de forma autôno- ma, bem como reivindicar locais adequados para promover atividades corporais de lazer. Três aspectos da proposta para a Educação Física represen- tam aspectos relevantes a serem buscados dentro de um projeto de melhoria da qualidade das aulas, quais sejam: princípio da inclusão, as dimensões dos conteúdos (atitudinais, conceituais e procedimentais) e os temas transversais. Para Darido (2001), essa proposta destaca uma Educação Físi- ca na escola dirigida a todos os alunos, sem discriminação, ressaltando 24 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S também a importância da articulação entre o aprender a fazer, a saber por quê está fazendo e como relacionar-se neste fazer, explicitando as dimensões dos conteúdos, e propõe um relacionamento das atividades da Educação Física com os grandes problemas da sociedade brasileira, sem, no entanto, perder de vista o seu papel de integrar o cidadão na esfera da cultura corporal. Sem dúvida, tais aspectos se constituem em enormes desafios para os profissionais da área. OS CONTEÚDOS Darido (2001) ao falar dos conteúdos, da sua dimensão e o pa- pel no interior da escola, esclarece de imediato que o conceito de con- teúdo é mal utilizado e mal compreendido, tanto que é comum ouvir que tal disciplina tem muito conteúdo. Na realidade, os conteúdos formam a base objetiva da instrução-conhecimento sistematizado. Tanto para Coll et al (2000), Libâneo (1994) quanto para Zaballa (1998), citados por Darido (2001) os conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua prática de vida. Desta forma, para Darido (2001), quando nos referimos a conte- údos, estamos englobando conceitos, ideias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras, habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudos, de trabalho, de lazer e de convivência social, valores, convicçõese atitudes. Em relação a sua dimensão na escola, Darido nos diz que ao longo de sua história, a Educação Física priorizou os conteúdos numa dimensão quase que exclusivamente procedimental, o saber fazer e não o saber sobre a cultura corporal ou como se deve ser. Embora, esta última categoria aparecesse na forma do currículo oculto. Para a Educação Física, não basta ensinar aos alunos a técni- ca dos movimentos, as habilidades básicas ou, mesmo, as capacidades físicas. É preciso ir além e ensinar o contexto em que se apresentam as habilidades ensinadas, integrando o aluno na esfera da sua cultura corporal. Mas, a Educação Física na escola também não pode se trans- formar num discurso sobre a cultura corporal e sim uma ação pedagógi- ca com ela. O autor argumenta que a linguagem deve auxiliar o aluno a compreender o seu sentir corporal, o seu relacionar-se com os outros e com as instituições sociais de práticas corporais. Assim, dentro de uma perspectiva de educação e também de Educação Física seria fundamental, considerar os procedimentos, os 25 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S fatos e conceitos, as atitudes e os valores como conteúdos, todos no mesmo nível de importância. Segundo Darido (2001, p.15), quanto à organização dos con- teúdos, essa se refere às relações e a forma de vincular os diferentes conteúdos de aprendizagem que formam as unidades didáticas. Na ver- dade, quanto mais relacionados entre si, maior a potencialidade de uso e compreensão. No quadro a seguir, Darido (2001) apresenta os principais con- teúdos sugeridos por cada uma das abordagens nas dimensões proce- dimentais, atitudinais e conceituais. 26 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Na Educação Física, as tendências crítico-superadora e aque- las propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais se manifesta- ram, favoravelmente, na busca de interfaces dos conteúdos da Educa- ção Física com os grandes problemas da sociedade brasileira. Ainda sobre os critérios que norteiam a seleção de conteúdos por parte do professor temos, segundo Silva (1966), os seguintes: • A possibilidade dos professores permitirem o crescimento pes- soal dos alunos e, ao mesmo tempo, a consideração a respeito da sua re- levância social, ou seja, a consideração a respeito de quanto um conteúdo é capaz de contribuir para a promoção de uma convivência social respon- sável, digna, justa, pautada pelo diálogo, solidariedade e respeito mútuo. Entende-se que, ao longo do ensino fundamental, os conteú- dos podem ser organizados sequencialmente considerando que, nesse processo, os alunos ampliam a percepção de si mesmos e do meio circundante através da experiência motora individual, em pequenos e grandes grupos e em relação a diversos espaços, ritmos e objetos. Nessa ampliação de percepção, é possível selecionar conteú- dos que sejam relativos ao contexto atual vivido pelos alunos e ampliar sua abrangência através da referência a outros contextos históricos ou socioculturais. Por exemplo: ao trabalhar uma escalada sobre bancos inclinados, os alunos podem executar sua movimentação individualmen- te, ou combinando sua movimentação ao modelo e a um ritmo marcado por um companheiro, ou escalar ao mesmo tempo em que manuseiam um bastão e, a partir desta atividade, o professor pode dialogar com a classe comentando as alterações do espaço urbano através do tempo que, pelo excesso de construções, eliminou os espaços naturais onde as escaladas poderiam ser realizadas a critério dos alunos. • As características dos alunos no que tange à sua capacidade de compreensão de fatos, conceitos e princípios (aspecto cognitivo), sua capacidade de movimentar-se (aspecto motor), como também a capacidade de relacionar-se a outras pessoas (aspecto afetivo-social). No quadro abaixo, sintetizado por Silva (1996, p. 67), estão os conteúdos da área de Educação Física remetendo às outras áreas e conteúdos de maneira a percebermos a importância da seleção e troca entre ambos. 27 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S A EDUCAÇÃO FÍSICA EM UMA PERSPECTIVA TRANSFORMADORA Segundo Mello (2006), a educação física, como parte de um siste- ma maior de Educação, está sujeita às influências de diferentes conotações 28 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S que atuam nos seus diversos níveis e medidas que fazem fluir esse siste- ma de forma adequada podendo atingir a educação física escolar, mas, da mesma forma, ela está sujeita à problemas de diferentes dimensões. No que diz respeito à educação pública, encontramos eficiên- cias e deficiências. Em relação às deficiências, temos baixo percentual orçamentário destinado à Educação, inoperância de certos setores ad- ministrativos; defasagens curriculares nos cursos de formação face ao contexto sociocultural onde os profissionais atuarão; a baixa remunera- ção dos mesmos e suas implicações no trabalho e, ainda, a incapaci- dade de atender adequadamente à crescente demanda do número de crianças que atingem a idade escolar, gerando, evidentemente, super- lotação em algumas classes. Essas são apenas algumas deficiências gerais, não entraremos aqui nos pormenores, o que creio faz parte de uma outra análise, voltada para educação geral. Nosso interesse é pon- derar sobre a educação física escolar. Por outro lado, não bastam recursos materiais ou físicos. Eles sozinhos não educam ninguém a não ser o próprio egoísmo. Por trás dos materiais, precisamos de profissionais capazes de utilizá-los, explorá-los e, principalmente, estar comprometidos com sua práxis educativa. Eles precisam pensar e buscar o desenvolvimento global dos seus alunos. Numa perspectiva transformadora, os trabalhos da educação física escolar não devem ser isolados do contexto histórico e cultural, em suas implicações sociais, políticas e econômicas. Na atualidade, segundo Mello (2006), a educação física esco- lar pode ser caracterizada pela busca de: 1. Participação dos educandos; 2. Trabalho com as funções psicomotoras e as qualidades fí- sicas; 3. Respeito à individualidade da criança; 4. Incentivo à pesquisa, observação, exercitando a reflexão e a expressão crítica; 5. Desestímulo à competição e o treinamento em idade precoce; 6. Relacionar sempre a educação física com as demais disci- plinas; 7. Estimular as atitudes favoráveis à prática permanente das atividades físicas; 8. Valorizar a cultura popular. ENQUANTO PROMOTORA DE SAÚDE Segundo Guedes (2000), a Educação Física e a saúde sempre 29 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S tiveram uma relação histórica, influenciada ora por tendência militar, ora por tendência médica ou desportiva. Quanto à promoção da saúde, a influ- ência médica é a que mais aparece no contexto da Educação Física, pois se dá através da aptidão física, baseando-se principalmente nos benefícios orgânicos causados pelo exercício, visando à saúde. Foi através do desen- volvimento da Fisiologia e suas importantes descobertas, principalmente em relação aos benefícios dos exercícios físicos para a saúde, que a Edu- cação Física se tornou alvo dos interesses da Medicina e das instituições educacionais, devido a sua importância para a sociedade norte-americana. De acordo com Ferreira (2001), no início dos anos 80, surgiu nos países como a Grã-Bretanha, Canadá, Estados Unidos e Austrália um movimento chamado “Aptidão Física Relacionada à Saúde – AFRS”, o qual tinha como proposta contribuir na formulação das Diretrizes Cur- riculares Nacionais destes países, definindo que o currículo nacional de educação física objetivasse principalmente a aptidão física relacionada à saúde. A ideia era oferecer aos alunosconhecimentos dos benefí- cios da prática regular do exercício físico, além de como os mesmos benefícios podem ser alcançados e mantidos. Tal proposta tinha como intenção que a educação física escolar, segundo Ferreira (2001, p. 44), criasse “nos alunos o prazer e o gosto pelo exercício e pelo desporto de forma a levá-los a adotar um estilo de vida saudável e ativa”, como meio de garantir a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Segundo Carvalho (2001) apud Mezzaroba (2002), a promoção à saúde sob a perspectiva da Saúde Pública considera, além do individu- al, o coletivo. Quanto ao individual, prega que são as pessoas que devem buscar e selecionar as atividades que elas gostam, ou seja, que as mes- mas avaliem seus níveis de aptidão e, ao mesmo tempo, resolvam seus problemas de aptidão. Assim, espera-se que no decorrer da sua vida, o indivíduo seja capaz de adquirir uma autonomia quanto a atividade física. Eis a grande crítica a esse modelo: supõe-se que todos os indivíduos são iguais, e, assim, possam adotar os mesmos comportamentos, desconsi- derando-se toda a realidade socioeconômica, principalmente num país como o Brasil, com um sistema de saúde ainda muito precário. Não po- demos também homogeneizar o físico, o biológico e o fisiológico, pois se têm cargas hereditárias variadas, pessoas que vivem nos mais variados ambientes, que se alimentam de forma diferenciada (alguns bem, outros mal), que têm dificuldades em encontrar tempo para a prática de ativida- de física, de realidades econômicas e histórias de vida diferentes, enfim, condições de vida que determinam mudanças de natureza biológica. No Brasil, de acordo com Ferreira (2001), a proposta de Edu- cação Física escolar que trabalha com a promoção da saúde serve dos mesmos métodos utilizados nos países de origem dessa proposta, ou 30 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S seja, atribui-se à Educação Física um compromisso com a promoção à saúde, o qual deve ser de “educar” as pessoas a aderirem à prática regu- lar de exercícios físicos e com isso, torná-las pessoas com estilo de vida ativo e hábitos de vida saudáveis. Isso também não significa, conforme as bases da proposta, que deva ser concretizada através da prática de desportos, nem que os mesmos devam ser excluídos deste processo, apenas redimensioná-los na esfera da educação física escolar. Pode-se considerar com isso um avanço naquilo que é oferecido na Educação Fí- sica Escolar brasileira, a qual, ultimamente, utilizou-se dos esportes (bas- quete, handebol, vôlei e futebol) como conteúdo a ser dado aos alunos. Segundo Ferreira (2001), aqui no Brasil, o principal agente no binômio atividade física e saúde também é a aptidão física, e conteúdos como o exercício, o desporto e a aptidão física aparecem como essen- ciais da Educação Física. Busca-se, através desses conteúdos, que os alunos pratiquem alguma atividade física, adotem um estilo de vida sau- dável, e gradualmente, adquiram autonomia (mesmo que mínima) para “praticar essas atividades por conta própria” (FERREIRA, 2001, p.45). Para isso, acredita-se que transmissão de informações quanto à fisiologia, biomecânica, nutrição e anatomia será fundamental para a compreensão deste processo por parte dos alunos. Este excessivo poder que o indivíduo tem em alterar seu próprio estilo de vida acaba atribuindo a ele uma responsabilidade que na verdade seria do Estado, o qual deveria oferecer condições justas e dignas a seus cidadãos, para que esses soubessem o verdadeiro sentido do que é ser saudável ou ter “qualidade de vida”. Entende-se por "verdadeiro sentido" condições de trabalho e de saúde básicas, renda, habitação, acesso à educação, ao lazer, alimentação adequada etc. De forma alguma se desconsidera o verdadeiro papel do indivíduo em ter uma vida saudável, apenas o que se observa é que ele é o único responsável por tais mudanças, “igno- rando” todo o contexto socioeconômico de um país. Conforme dados do PNUD (1998) apud PALMA (2001, p.37) apud MEZZAROBA (2001), ao se utilizar de um modelo americano ou ca- nadense como referência (“importar”), ignora-se que enquanto o Canadá aparece como o primeiro país em desenvolvimento humano e os Estados Unidos em quarto, o Brasil se apresenta no sexagésimo segundo lugar. Para Ferreira (2001), a grande tarefa da Educação Física Escolar, então, é unir os conhecimentos dos determinantes sociais, econômicos, políticos e ambientais (como a história, ecologia, política e sociologia) aos seus conteúdos (os da área biológica, como a anatomia, fisiologia, nutrição e biomecânica), com o objetivo de tornar as pessoas autônomas não só para a prática de exercícios físicos no decorrer de suas vidas, mas também com conhecimento para discernir sobre a realidade em que vivem. 31 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Além do mais, a Educação Física brasileira também busca uma melhor identificação quanto àquilo que ela tem a oferecer aos seus alunos, enquanto disciplina escolar, sem perder de vista o contexto real do mundo. Na sua relação com a promoção da saúde, a educação física não deve desconsiderar a importância da atividade física (aptidão física), mas não deve fazer com que a prática de exercícios físicos seja apontada como a solução para os demais problemas de saúde. Ela também deve aproveitar esse momento histórico para rever seu papel perante a sociedade, sem esquecer de informar às pessoas que, segundo Mazzaroba (2001), a “me- lhoria da qualidade de vida depende também das condições básicas de saúde, habitação, renda, trabalho, alimentação, educação etc.” 32 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S NA EDUCAÇÃO INFANTIL De acordo com Quintão et al (2008), a aprendizagem e o de- senvolvimento estão inter-relacionados desde que a criança passa a ter contato com o mundo. Na interação com o meio social e físico a criança passa a se desenvolver de forma mais abrangente e eficiente. Isso sig- nifica que a partir do envolvimento com seu meio social são desenca- deados diversos processos internos de desenvolvimento que permitirão um novo patamar de desenvolvimento. A criança, por meio da observação, imitação e experimenta- ção das instruções recebidas de pessoas mais experientes, vivencia diversas experiências físicas e culturais, construindo, dessa forma, um conhecimento a respeito do mundo que a cerca. OS CAMPOS DE ABORDAGEM 32 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S 33 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Segundo Quintão et al (2008), para que esses conceitos sejam desenvolvidos e incutidos no aprendiz, o meio ambiente tem que ser desafiador, exigente, para poder sempre estimular o intelecto e a ação motora desta pessoa. No entanto, não basta apenas oferecer estímulos para que a criança se desenvolva normalmente, a eficácia da estimula- ção depende também do contexto afetivo em que esse estímulo se in- sere, essa ação está diretamente ligada ao relacionamento entre o esti- mulador e a criança. Portanto, o papel da escola no âmbito educacional deve ser o de sistematizar esses estímulos, envolvendo-os em um clima afetivo que serve para transmitir valores, atitudes e conhecimentos que visam o desenvolvimento integral do ser humano. O principal instrumento da educação física é o movimento, por ser o denominador comum de diversos campos sensoriais, assim, o desenvolvimento do ser humano se dá a partir da integração entre a motricidade, a emoção e o pensamento. No caso específico da educa- ção física, o profissional dessa área possui ferramentas valiosas para provocar estímulos que levem a esse desenvolvimento de forma bas- tante prazerosa: a brincadeira,o jogo e o esporte. De acordo com Rego (1995, p.81) apud Quintão et al (2008), a partir da brincadeira e do jogo, a criança utiliza a imaginação que “é um modo de funcionamento psicológico especificamente humano, que não está presente nos animais nem na criança muito pequena”, pois a partir da utilização da imaginação, a criança deixa de levar em conta as características reais do objeto, se detendo no significado determinado pela brincadeira. Segundo o mesmo autor: Mesmo havendo uma significativa distância entre o comportamento na vida real e o comportamento no brinquedo, a atuação no mundo imaginário e o estabelecimento de regras a serem seguidas criam uma zona de desenvolvi- mento proximal, na medida em que impulsionam conceitos e processos em desenvolvimento" (REGO, 1995, p. 83 apud QUINTÃO et al, 2008). Esse impulso dado aos “conceitos e processos em desenvol- vimento” deverá ser fornecido pela educação física ao propiciar jogos e brincadeiras que, intencionalmente, estimulem a imaginação e a criativi- dade. Além disso, o processo de desenvolvimento dos indivíduos tem re- lação direta com o seu ambiente sociocultural e eles não se desenvolve- riam plenamente sem o suporte de outros indivíduos da mesma espécie. Dessa forma, segundo Quintão et al (2008), percebe-se que a es- cola, e neste caso específico a educação física, tem um papel fundamental no aprendizado, e consequentemente no desenvolvimento dos indivíduos, desde que estabeleça situações desafiadoras para seus alunos. A interferência de outras pessoas (professor e outros alunos) é 34 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S fundamental para o desenvolvimento do indivíduo. O papel do professor deve ser o de interventor intencional, estimulando o aluno a progredir em seus conhecimentos e habilidades através de propostas desafiado- ras que o leve a buscar soluções, por intermédio da sua própria vivência e das relações interpessoais. Isto não deve significar uma educação autoritária, mas sim, uma educação que possibilite ao aluno, por meio de estratégias estabelecidas pelo professor, construir o seu próprio co- nhecimento, com a reestruturação e reelaboração dos significados que são transmitidos ao indivíduo pelo seu meio sociocultural. Qualquer processo de ensino para ser eficiente deve levar em conta o nível de desenvolvimento real da criança e o seu nível de de- senvolvimento potencial adequado a sua faixa etária, conhecimentos e habilidades que já possui. De acordo com Quintão et al (2008), o profissional de educa- ção física ao trabalhar na educação infantil deve conhecer os estágios do desenvolvimento dessa fase para proporcionar os estímulos adequa- dos a cada etapa. Agindo dessa forma, o desenvolvimento será mais harmônico no campo motor, cognitivo e afetivo-social, trabalhando as- sim, o ser na sua forma integral. Para o mesmo autor, citado anteriormente, pela importância que a infância representa na formação da personalidade do indivíduo, a prática pedagógica deve levar a uma organização didática, modificando a visão de aulas de educação física de embasamentos estritamente empíricos, para uma visão mais científica, evitando-se um choque entre teoria e prática o que poderá refletir negativamente na formação de nossos jovens. NO ENSINO FUNDAMENTAL Segundo Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006, p. 134), ao entrar na primeira série, normalmente aos seis anos de idade, a crian- ça já tem desenvolvido sua noção de esquema corporal, reconhece as partes do corpo e relaciona-se bem com objetos. Nesta fase ela está apta a se envolver em uma intensa gama de atividades, tem apreço pela reprodução e imitação de ações e está aberta a aprendizagem escolar, porque seus interesses tornam-se mais sistemáticos. Para Bee (1996) citado por Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006), na primeira série, a criança entra num estágio de desenvolvi- mento cognitivo coerente, utiliza-se do raciocínio lógico sendo capaz de perceber o mundo que a cerca. Nesta época, começa a ter a possibilida- de do pensamento abstrato, sua formação de consciência contém fatos de conhecimentos, sujeitos e objetos, posse e elaboração das ideias. 35 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Gallahue (2003) citado por Bezerra, Ferreira Filho e Felicia- no (2006) ressalta a habilidade crescente de expressar pensamentos e ideias. Seu autoconceito está se desenvolvendo rapidamente e neces- sita de experiências bem orientadas e encorajamento positivo. A criança da segunda série, com idade aproximada de 8 anos, possui um grande desejo de crescer e manifesta interesse por sua ana- tomia interna, na parte motora, a criança está apta a executar tarefas com ritmo mais acelerado, gosta de participar de atividades que exijam força, agilidade, velocidade e destreza. Na terceira série, por volta dos nove anos de idade a criança torna-se mais acessível e mais responsá- vel sendo capaz de planejar e executar. De acordo com Meinel (1984) apud Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006), o rápido aumento da habilidade de aprendizagem mo- tora é especialmente visto no terceiro ano escolar, uma vez que está li- gado a requisitos como o aumento de capacidade de concentração, ca- pacidade de percepção global analítica e detalhada e a capacidade de compreensão verbal e mental da realidade. Acrescenta-se a isso, seu progresso no desenvolvimento físico e sua experiência de movimentos, o desenvolvimento está equilibrado com o desenvolvimento intelectual, pois é uma fase de tanto querer fazer como aprender. É nesta fase que a criança atinge a maturidade do sistema motor, sendo capaz de ana- lisar seus movimentos tanto antes como durante a ação e também são persistentes facilitando a aprendizagem de gestos específicos. De acordo com Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006, p. 134), aos dez anos a criança possui um grande poder de assimilação, gosta de memorizar, identificar, classificar, reconhecer e sente muito prazer nas atividades físicas, havendo um grande salto de evolução das estruturas anatômicas e nervosas. Nesta fase, a criança possui um domínio psicomotor equivalente ao adulto, seu domínio motor global é bem favorecido pela facilidade de assimilação e disponibilidade motora, favorecendo a prática de atividades mais complexas que envolvem des- locamentos, precisão e equilíbrio. Segundo Silva (1996), nas séries iniciais do ensino fundamen- tal, o professor deve privilegiar conteúdos que permitam aos alunos a experimentação das capacidades do próprio corpo, possibilitando-lhes o conhecimento da organização e funcionamento corporais e da sua relação com o espaço, o tempo, outros objetos e outras pessoas. O co- nhecimento das atividades motoras como forma de promoção da saúde e auxiliar na busca de uma melhor qualidade de vida deve ser introduzi- do desde o início da escolaridade, sendo ampliado, progressivamente; por exemplo, nas séries iniciais, o aluno é levado a constatar a exis- tência de órgãos responsáveis pela circulação sanguínea e respiração, 36 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S deve-se, até atingir o término do ensino fundamental, utilizar a informa- ção a respeito do número de batimentos por minuto do próprio coração como uma forma de controlar a intensidade de seu exercício físico. Da mesma forma, nas séries iniciais, deve-se conhecer a exis- tência de alimentos com características e funções diferentes (constru- tores, energéticos e reguladores) para, posteriormente, ser capaz de adequar uma dieta ao seu ritmo de atividade corporal diário. De acordo com Silva (1996, p. 68), não é preciso esperar o aluno chegar à puberdade para que se introduzam as informações e discussões a respeito das diferenças entre gêneros e a referência ao corpo sexuado (orientação sexual). Alunos dasséries iniciais costumam preocupar-se com a forma pela qual foram gerados e vieram ao mundo e o conhecimento do corpo durante as aulas de Educação Física pode vir a gerar tal questionamento, ocasião em que o professor pode em- preender um diálogo esclarecedor, mostrando-lhes um corpo que dá e recebe afeto e que pode ser uma fonte de alegria e prazer. NO ENSINO MÉDIO De acordo com Correia (1996) a finalidade da Educação Física no Ensino Médio aponta a formação para o exercício da Cidadania, pressu- pondo que a condição de cidadão é anterior a uma ocupação ou profissão. Essa condição nos leva a concordar com Correia quando ele diz que já no ensino médio o aluno deve ser orientado no sentido de uma formação crítica. Para tanto, ele precisa ter acesso a uma educação abrangente e diversificada, podendo assim, ter melhores condições para exercer os seus direitos e deveres, com níveis de autonomia cada vez mais amplos. O desenvolvimento dessa cidadania e autonomia através da Educação física dar-se-á pelo movimento, do qual, além de promover experiências motoras, também promove entendimentos e conhecimen- tos sobre as implicações do movimento humano, nos mais diversos ní- veis, do biológico ao sociocultural. O adolescente possui algumas características em seu proces- so de desenvolvimento que apontam para a necessidade de uma disci- plina como a Educação Física. No que diz respeito às transformações do ponto de vista físico, após o estirão da adolescência, o adolescente apresenta um crescimento acelerado principalmente em relação aos membros inferiores e superiores em comparação ao tronco, o que impli- ca em uma necessidade de vivenciar experiências motoras, no sentido de proporcionar a exploração e a reorganização deste “novo” corpo e dessas “novas” possibilidades de movimento. 37 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Já no domínio cognitivo, a sua capacidade de operar formalmen- te o pensamento permite ao jovem efetuar níveis cada vez mais amplos de abstrações, comparações, análises, o que justificaria a possibilidade de enfatizarmos no ensino de Educação Física as implicações do movi- mento nos domínios biológicos, psicológicos, antropológicos, sociocultu- rais e outros. Além disso, nos sugere também, a necessidade do exercí- cio da autonomia no processo de escolha de temas da cultura corporal a serem desenvolvidos no programa de Educação Física, uma vez que é desejável que esse jovem, ao final do Ensino Médio, tenha condições de selecionar e escolher as atividades que mais lhe interessam, e principal- mente, ter consciência das repercussões dessas no seu cotidiano. Esses argumentos suscitam a ideia de que uma proposta de Educação Física para o Ensino Médio deverá ser um processo que per- mita tanto as experiências múltiplas nas mais variadas atividades moto- ras, de maneira à favorecer escolhas mais apropriadas ao indivíduo na sua vida futura, bem como, compreender as possíveis repercussões no seu processo de desenvolvimento. Correia (1996, p. 44) diz que, frente a um adolescente que ne- cessita de movimento, que amplia a sua capacidade de analisar a rea- lidade que está em sua volta, o trabalho no Ensino Médio deve, então, apresentar um caráter essencialmente participativo, diversificado, equi- librado na relação entre propostas teóricas e práticas. Numa outra visão, de interdisciplinaridade, Pereira (2008) nos mostra como podemos trabalhar a educação física relacionando-a a di- versas outras áreas. Com a Física: No estudo do movimento uniforme (progressivo e retrógra- do). Por conceito temos que movimento progressivo é quando o móvel caminha em favor da orientação positiva da trajetória e seus espaços crescem. O retrógrado é quando o móvel caminha contra a orientação positiva da trajetória e seus espaços decrescem. Pode-se fazer uma caminhada com os alunos estabelecendo o ponto de partida e de che- gada, discutindo esses conceitos com eles. No cálculo da velocidade média que é a divisão da distância pelo tempo, faríamos uma corrida onde demarcaríamos uma pista e, com a ajuda de um cronômetro, mediríamos o tempo e teríamos o cál- culo da velocidade média. A análise dos sistemas de alavanca pode ser ilustrada com os movimentos feitos pelo corpo para vencer uma resistência. Perguntas 38 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S como: “por que para levantar um peso temos que flexionar os joelhos?” podem ser respondidas com a biomecânica. Com a Geografia: No estudo da influência do tempo para a prática de exercícios poderemos discutir conceitos trabalhados na geografia, como: umidade relativa do ar, condições do tempo para a prática de exercícios em di- versas regiões do país e do mundo. Com a Biologia: No estudo do sistema energético aeróbico e anaeróbico, faría- mos teste onde analisaríamos as sensações e os efeitos desses siste- mas no corpo humano. Questão-exemplo: Qual a importância dos carboidratos, prote- ínas e gorduras para a prática do exercício? Com a Sociologia: Podemos fazer um estudo da composição corporal dos alunos, refletindo sobre a importância de se ter um equilíbrio entre a massa gor- durosa e a muscular no nosso corpo e faríamos uma análise das condi- ções socioeconômicas de nossa população e seus reflexos na saúde e estrutura do corpo dessas pessoas. Esses são apenas alguns exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas nas aulas de Educação Física, abordando temas li- gados a outras disciplinas. Segundo Pereira (2008), são apenas os primeiros passos para uma reflexão maior sobre práticas metodológicas e o compromisso com a necessidade emergente de novas propostas pedagógicas adequadas à realidade atual, buscando desenvolver o espírito investigativo no alu- no de forma que, ao sair da escola, esteja apto a interagir no mundo, percebendo-o de forma crítica. Àqueles que se interessarem pela educação física no Ensino Médio sugerimos aprofundamento baseados nos seguintes autores e trabalhos: 39 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S Voltando um pouco ao ensino fundamental, Batista (2003) nos apresenta quatro abordagens específicas: coordenação, destreza, socialização e raciocínio, todas as capacidades que são intrínsecas a cada pessoa e deverão ser trabalhadas e desenvolvidas, mas nunca de maneira específica, acontecendo durante jogos e brincadeiras, ou seja, sob a forma lúdica. São elas: COORDENAÇÃO A coordenação desenvolve as atividades de forma global, tra- balhando todos os segmentos do corpo, simultânea ou separadamente, em todas as direções. Os Tipos de Coordenação Segundo Almeida (2006, p. 17), embora encontremos na Psi- comotricidade, o campo que estuda o homem por meio de seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os obje- tos e consigo mesmo, assunto este que será tratado em uma apostila específica, acreditamos ser necessário pelo menos citar ou introduzir os tipos de coordenação trabalhados na educação física, uma vez que são os pontos mais observados pelo professor em sua atuação diária. 40 P R Á TI C A S D E E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A E SC O LA R - G R U P O P R O M IN A S A coordenação motora ampla ou global – é a condição que deve ser desenvolvida principalmente no espaço infantil. Apura os mo- vimentos dos membros superiores e inferiores. A coordenação motora fina – são aqueles executados com as mãos e os pés. Ao desenvolver tal coordenação a criança também apre- sentará uma boa tonicidade muscular nos membros superiores e inferiores. A lateralidade – é a capacidade de a criança poder olhar e agir para todas as direções, com equilíbrio, com coordenação mínima corpo- ral e com noções de espaço. A percepção espacial – tanto na vida