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HISTÓRIA 
ANTIGA
Caroline Silveira Bauer
Os hebreus e o 
reino de Israel
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar as características geográficas do local onde viviam os povos 
hebreus e a relação desse território com a religião judaica.
  Descrever as características do judaísmo e as raízes do cristianismo.
  Explicar o processo de formação do reino de Israel e as suas 
características.
Introdução
Diferentemente de sociedades da Antiguidade que se caracterizam por suas 
cidades-estados ou por seus Estados, os hebreus constituem mais um povo 
do que uma organização política. Na Antiguidade, eles formaram pequenos 
reinos e, por inúmeros motivos, foram obrigados a migrar para diferentes 
regiões do Oriente Médio. O seu legado, portanto, não se relaciona às 
suas estruturas econômicas, políticas e sociais, mas ao aspecto religioso: 
os hebreus foram os criadores de uma religião monoteísta, o judaísmo.
Neste capítulo, você vai estudar as características geográficas do 
território ocupado pelos hebreus e ver qual é a sua relação com o surgi-
mento do judaísmo. Você também vai conhecer a religião judaica e as 
suas características, verificando de que forma o cristianismo derivou de 
suas práticas. Por fim, você vai ver como se formou o reino de Israel e 
quais são as suas principais características.
Aspectos geográficos e cultura hebraica
A Palestina, região ocupada pelos hebreus, era um território banhado pelo 
rio Jordão, que se localiza ao sudoeste do atual Líbano. Nessa região pro-
pícia à agricultura, estabeleceram-se grupos nômades que se dedicavam a 
atividades pastoris. Esses grupos, de origem semita, organizavam-se em 
clãs patriarcais e seriam originários de povos criadores de gado que viviam 
nos desertos da Arábia.
Entre as fontes utilizadas para o estudo e a escrita da história dos hebreus na 
Antiguidade estão a Bíblia e relatos sobre a dispersão dos judeus pelo Império 
Romano, como o de Flávio Josefo. Além disso, há a cultura material, ou seja, 
os achados arqueológicos encontrados em escavações. Existem as origens 
históricas — aquelas que podem ser atestadas por meio de evidências — e 
as narrativas mitológicas sobre a origem dos hebreus. Uma das principais 
narrativas sobre a origem do povo hebreu é a Torá, que corresponde ao Pen-
tateuco, ou seja, aos primeiros cinco livros do Antigo Testamento da Bíblia: 
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Além da Torá, os outros 
41 livros do Antigo Testamento também fornecem dados sobre a história, os 
costumes, os mitos, as ciências, as leis, a moral, as práticas sociais e o padrão 
de comportamento do povo judeu.
De acordo com a Bíblia, mais especificamente com o Gênesis, Abraão 
nasceu em Ur, uma cidade dos caldeus na Mesopotâmia, e teria recebido de 
Deus a incumbência de se estabelecer na terra de Canaã, a terra prometida. 
Isso teria ocorrido por volta de 2000 a.C. Os descendentes de Abraão teriam 
dado origem aos hebreus.
Você deve ter em mente que o compromisso da Bíblia é com a unidade do povo 
hebreu, não com a fidelidade aos acontecimentos históricos. Atualmente, muitos 
autores, inclusive religiosos, questionam a existência dos três patriarcas (Abraão, Isaac 
e Jacó). Contudo, esse tipo de questionamento não significa que não seja possível 
apreender elementos interessantes da história narrada. Afinal, a Bíblia refere-se a 
costumes e comportamentos que caracterizam uma época, bem como a mitos 
de determinada região. Dessa forma, como pontua Pinsky (1987, p. 83), “[...] não há 
contradição entre questionar a historicidade de personagens bíblicos, colocar em 
dúvida alguns dos fatos milagrosos ali narrados e utilizar o material como fonte para 
o trabalho do historiador [...]”.
Quanto às origens históricas, existem teorias que afirmam serem os hebreus 
um povo mesopotâmico, em função das semelhanças linguísticas e narrativas 
(como o mito do dilúvio). Veja o que afirma Pinsky (1987, p. 83):
Os hebreus e o reino de Israel2
As origens dos hebreus localizam-se na Mesopotâmia. Isso é contado na Bíblia 
e comprovado por diversas evidências. O hebraico é uma língua semita, per-
tencente ao mesmo grupo do aramaico e de outras faladas na Mesopotâmia, 
baseada em estrutura de raízes triconsonantais, uma particularidade delas. No-
tável mesmo é verificar a utilização de mitos mesopotâmicos entre os hebreus.
Essa informação é corroborada por Dresc (2018, p. 101), que afirma o 
seguinte:
Os hebreus descendem de grupos nômades de origem semita que habitavam 
o noroeste da Mesopotâmia e que migraram para a região da Palestina por 
volta do século XX AEC, buscando terras mais favoráveis à agricultura. 
Diferente de sua origem descrita na Bíblia hebraica, estudos arqueológicos 
demonstraram haver bases culturais semelhantes com os Cananeus, merecendo 
destaque para concluirmos que se trata, provavelmente, do mesmo grupo que 
se originou daqueles semitas nômades.
A sociedade hebraica era patriarcal, formada por famílias numerosas. Era 
uma sociedade escravista, e os escravizados se dividiam em dois grupos: os 
escravos hebreus e os escravos estrangeiros, prisioneiros de guerras. Mesmo 
na condição de escravizados, eles possuíam direitos assegurados pela religião 
(PINSKY, 1987).
O primeiro período da história hebraica, que corresponde à fase inicial de 
organização econômica e política dos hebreus, é chamado de “período dos 
patriarcas”. Além de exercerem funções jurídicas, militares e sacerdotais, eles 
eram as autoridades morais e políticas do clã. Por muitas gerações, os hebreus 
foram “governados” pelos patriarcas e se dedicaram à agricultura e ao pastoreio.
Sobre esse período, Pinsky (1987, p. 85) afirma:
embora reconhecendo as origens dos hebreus nos descendentes de Jacó (José e 
seus irmãos, na narrativa bíblica), só podemos aceitar o início do povo hebreu 
a partir do momento em que se instalam na região de Jericó algumas tribos que 
lutam juntas, sob a chefia de Jesus, para conquistar um espaço onde possam 
viver. Com isso, inaugura-se o ciclo de mais ou menos duzentos anos que vai 
até o início da monarquia, com Saul, em 1030.
Segundo a tradição judaica, foi durante o retorno à Palestina que Moisés 
recebeu de Deus, no monte Sinai, as tábuas da lei ou os dez mandamentos. Os 
dez mandamentos explicitavam as regras civis, morais e religiosas dos hebreus. 
A partir dessa crença em um único Deus, e das leis por ele ditadas, surgiu 
a primeira grande religião monoteísta, o judaísmo, do qual se originaram, 
posteriormente, o cristianismo e o islamismo.
3Os hebreus e o reino de Israel
O judaísmo e o cristianismo
O judaísmo, assim como o cristianismo e o islamismo, é uma religião mo-
noteísta. Em uma região em que predominavam cultos politeístas, os judeus 
defi niram a sua identidade cultural por meio da crença em um único deus, 
Javé (ou Yahweh, em hebraico). De acordo com a narrativa bíblica, Abraão 
era chefe de um clã semita, estabelecido na cidade de Ur, na Mesopotâmia.
Os hebreus que viviam nessa região se organizavam em 12 tribos, lideradas 
pelos patriarcas. Abraão iniciou o processo de unificação dessas tribos e pre-
gava a existência de um único deus. Segundo as revelações divinas recebidas 
por Abraão, ele deveria retirar os hebreus da Mesopotâmia e conduzi-los à 
“terra prometida”, Canaã, na Palestina. Abraão teve vários filhos, um deles 
chamado Jacó ou Israel, que, por sua vez, teve 12 filhos, que deram origem 
às 12 tribos de Israel.
Conforme Silva e Silva (2009, p. 247), os judeus declaram-se semitas porque 
seriam descendentes de Sem, um dos filhos de Noé, o patriarca do Dilúvio, de 
acordo com o relato bíblico: “Consideravam-se o povo eleito e adquiriam forças 
para manter sua unidade cultural e suportar o peso dos poderosos impérios 
que lutavam então pelo domínio da Mesopotâmia [...]”. Veja:
Os praticantes do Judaísmo se definem como o povo dos livros, uma vez que sua 
fé se assenta em três grupos de textoscanônicos básicos: a Bíblia judaica, ou lei 
escrita, cujo nome é Torá, também conhecida entre os católicos pelo nome grego 
Pentateuco; a chamada lei oral, os Midrashim, e, por fim, o Talmude, escritos 
de interpretação do texto bíblico. O Judaísmo desconsidera a parte da Bíblia 
nomeada Novo Testamento, tal como não considera Cristo o Messias anunciado 
pelos seus profetas. Apenas o Antigo Testamento é o cerne da religião judaica, 
originalmente escrito em hebraico e aramaico (SILVA; SILVA, 2009, p. 247).
A Bíblia dos hebreus foi reunida em 90 d.C. por rabinos que selecionaram 24 livros e os 
organizaram em três grupos: a Torá (ou Lei), os Profetas e os Escritos. O primeiro narra 
a fundação do judaísmo, quando Deus se alia ao povo escolhido. O segundo conta a 
história dos judeus da conquista de Canaã até o exílio na Babilônia. Já o terceiro reúne 
textos de oração e sabedoria. Além disso, outros textos foram escritos com base na 
Bíblia. Tais textos originaram o Talmude. Há duas principais escolas de interpretação da 
lei bíblica: a escola talmúdica de Jerusalém e a da Babilônia. Existem ainda os midrashim, 
que, por meio de sermões e paráfrases, buscam interpretar a lei bíblica. Torá, Talmude 
e Midrash constituem o código judaico principal (SILVA; SILVA, 2009).
Os hebreus e o reino de Israel4
Conforme as análises de Dresc (2018), o povo hebreu estabeleceu contato 
com mitos e lendas sumério-acadianos. Por vezes, tais narrativas eram tomadas 
de empréstimo e reunidas às lendas e mitos hebreus. Em outros casos, novas 
narrativas surgiam. Foi assim que esse povo escreveu a sua própria história, 
reunindo fatos próprios em lendas grandiosas e adaptando mitos antigos aos 
seus intuitos.
O judaísmo, no entanto, extrapola as dimensões religiosas e se configura 
como um conjunto de práticas e valores que influenciam diretamente o co-
tidiano de seus seguidores. Por exemplo: cerimônias (como a circuncisão 
masculina), rituais (como o bar mitzvá, o início da leitura da Torá), uso de 
símbolos de distinção, como o kippá, ou ainda uma série de regras alimentares 
que impedem os judeus de consumir certas comidas.
De acordo com Goucher e Walton (2011, p. 108),
[...] além do ritual religioso centrado no templo de Jerusalém ou em uma 
sinagoga em outro local, uma questão central da crença hebraica tornou-se 
o comportamento justo e moral entre os seres humanos. Tal comportamento 
era o resultado de obedecer às leis de Jeová, enquanto a transgressão dessas 
leis resultava em punição. No quinto século a.C., o templo foi reconstruído 
e um código de leis foi introduzido para guiar o provo hebreu, de forma que 
eles não errassem novamente. Nessa época, o judaísmo era uma cosmologia 
baseada em um deus, que era o criador e quem fez as leis, e em humanos, que 
governavam, idealmente, a terra de forma justa, guiados pelas leis de Deus.
Os judeus também celebram datas importantes da história dos hebreus e 
da constituição da religião judaica por meio de festas e rituais, relevantes para 
a memória cultural e a manutenção de tradições. Antes de conhecer algumas 
dessas festas, lembre-se de que os judeus possuem um calendário distinto do 
gregoriano: eles contam o tempo em relação à criação do mundo, ou seja, em 
2019 (calendário cristão), eles estariam no ano de 5779.
As principais festas são o ano novo judaico (que ocorre em setembro ou 
outubro) e a Páscoa, que coincide com a Páscoa católica, mas que lembra a 
saída dos judeus do Egito. Essas práticas são importantes para assentar o 
relato de uma origem comum dos judeus e a sua identidade marcada pelo 
exílio e pela diáspora.
Considere o que pontuam Silva e Silva (2009, p. 248):
Historicamente, o exílio dos hebreus na Babilônia, depois de conquistados 
por Nabucodonosor e desterrados da Judeia, influenciou muito o modo de 
vida judaico. A convivência com os babilônicos trouxe frutos para os ju-
5Os hebreus e o reino de Israel
deus, e muitos deles preferiram não voltar para a Palestina, mantendo casas 
comerciais abertas em Babilônia. Já a diáspora hebraica se deu em 70 d.C., 
após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos. Tal acontecimento 
esteve relacionado à resistência cultural dos judeus, que dificultava o domínio 
romano e promovia rebeliões.
A seguir, você vai ver outros aspectos da história judaica para compreender 
melhor o funcionamento da religião desse povo.
O reino de Israel e as suas características
Coube a Josué, um chefe militar, iniciar a luta pelo controle de Canaã, ou Pa-
lestina, onde já viviam outros povos. Ao se estabelecerem na região, os “fi lhos 
de Israel” dividiram-se em 12 tribos, lideradas pelos juízes. As tribos eram 
autônomas e somente se uniam diante de ameaças comuns, principalmente 
nos enfrentamentos contra os cananeus e fi listeus.
Além disso, como você viu, essas tribos possuíam algumas característi-
cas culturais em comum. Por serem povos de origem semita, provenientes 
do Oriente, compartilhavam características filosóficas, jurídicas e morais. 
A exceção era a questão religiosa, pois os hebreus desenvolveram a crença 
em um deus único, diferentemente dos outros povos, que eram politeístas.
Em relação à composição dessas tribos, você já sabe que a sua organização 
era patriarcal. Agora, atente ao que afirma Mazzinghi (2017, e-book):
De um ponto de vista social, a base da sociedade daquele tempo parece ser a famí-
lia a bet-‘ab, em hebraico a “casa do pai”, compreendida como família patriarcal, 
composta pelo avô, os filhos e os netos, todos por sua vez com as respectivas 
famílias, à qual se deve acrescentar ainda outros parentes próximos e os servos. 
Esta família ampliada, unida a outras famílias, com frequência vinculadas por 
parentesco entre si, forma um clã que poderia corresponder aproximativamente 
a uma vila inteira. Os clãs que viviam em um determinado território, ligados 
entre si por tradições comuns, se consideram uma “tribo”, isto é, uma entidade 
independente, ligada apenas ocasionalmente a outras tribos [...] em geral por 
motivos religiosos (peregrinações a um único santuário) ou militares (defesa 
contra um inimigo comum). As tribos que se encontravam reunidas pela fé em 
um único Deus, YHWH (Javé), além dos laços étnicos, econômicos e políticos, 
formarão aquilo que em seguida se tornará o povo de Israel.
Os hebreus e o reino de Israel6
De acordo com Sorj (2014, p. 59),
Inicialmente, as tribos que povoaram Canaã eram dirigidas por conselhos de 
anciãos, sem um comando central, coligando-se, em caso de perigo externo, 
em torno de um líder que a Bíblia denomina Juiz, embora em certos casos 
tratar-se [sic] de guerreiros por excelência, como foi o caso de Sansão. 
A aliança do povo de Israel com Deus, pela qual os judeus cumprem os 
mandamentos divinos e Deus os protegeria, se mostra insuficiente frente 
aos ataques dos povos vizinhos. As guerras constantes com os povos do 
entorno, enfrentadas com o apoio de Deus (antes da construção do Templo, 
o Tabernáculo contendo as Tábuas da Lei acompanhava os exércitos), 
teriam levado as tribos a apoiar a consagração de um rei. Certamente 
algo estranho à tradição, e, de acordo com a Bíblia, quando o povo pede a 
Samuel, último juiz e primeiro profeta, que nomeie um rei, tanto Samuel 
como Deus se opõem.
Em função desses enfrentamentos com outros povos, surgiu a necessidade 
de reforçar a unidade por meio da organização política, mediante um reino e 
uma monarquia. Saul, o primeiro rei de Israel, realizou conquistas militares, 
mas depois de sofrer algumas derrotas começou a enfrentar movimentos de 
oposição de seu povo. Em uma batalha contra os filisteus, frente à iminente 
derrota, suicidou-se, sendo sucedido por Davi.
Davi foi proclamado, inicialmente, rei de Judá, ao sul do território, e, mais 
tarde, de todo o reino. Ele foi o responsável pela organização do reino e pela 
conquista de Jerusalém, escolhendo-a como capital política e religiosa. Veja 
o que Rodrigues (2017, p. 1031) afirma sobre Jerusalém:
A cidade é consideradasagrada por três das principais religiões monoteístas 
do mundo contemporâneo: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Já con-
siderada o centro do mundo, Jerusalém é há séculos cenário de peregrinação 
e disputas em nome da fé. A narrativa bíblica apresenta Jerusalém como a 
capital da Monarquia de Davi e Salomão, o centro do poder político e religioso 
de um reino rico e poderoso.
No governo do filho de Davi, Salomão, houve o apogeu da monarquia. 
Salomão fortaleceu o poder político, criou uma administração organizada, 
promoveu a expansão comercial e militar e construiu palácios e templos. Em 
seu reinado, a organização do Estado se tornou mais complexa. Além disso, 
se formou uma aristocracia composta pelos antigos chefes de clãs e militares, 
7Os hebreus e o reino de Israel
que enriqueceram com o comércio e a apropriação de terras. Contudo, os 
altos impostos cobrados e o recrutamento forçado para o trabalho nas obras 
públicas levaram ao descontentamento da população, acarretando diversas 
revoltas sociais.
De acordo com Pinsky (1987, p. 88),
A mitificação de Salomão decorre do fato de ter sido ele o construtor do famoso 
templo de Jerusalém, ponto de referência espiritual e material do povo, tanto 
na época em que foi construído, como depois. O templo passou a funcionar 
como referência nacional; da mesma forma como Jerusalém, metaforicamente, 
tinha o significado de Israel toda, o templo significava Jerusalém. Até hoje, 
judeus religiosos pedem a deus a honra de estarem “o ano que vem em Jeru-
salém” para poderem rezar junto ao que se imagina sejam os restos do templo.
Com a morte de Salomão, em 935 a.C., instalou-se uma crise política 
sucessória que levou à ruptura entre as tribos, formando dois Estados: o 
reino de Israel, constituído pelas 10 tribos do norte, lideradas por Jeroboão, 
com capital em Samaria; e o Reino de Judá, governado por Roboão, filho de 
Salomão, com capital em Jerusalém. Os habitantes do norte passaram a ser 
chamados israelitas, e os do reino do sul, judeus.
Conforme Sorj (2014, p. 60),
O Pentateuco constrói o judaísmo como sendo a expressão da aliança entre 
o povo judeu e Deus, pela qual cabe ao povo cumprir com os mandamentos 
estabelecidos por Moisés, e a Deus, proteger o povo eleito de Israel. Mas a 
história dos judeus na terra de Israel parece desmentir esta aliança. Os judeus 
são derrotados em várias guerras, seus reinos, destruídos, e parte do povo 
enviado para o exílio. A duração do reino de Israel será em torno de dois 
séculos, e o de Judá, quatro. O primeiro, destruído pelo império Assírio, e o 
segundo, pelo babilônico, que desterra a elite para a capital, onde passam a 
formar parte da corte do imperador.
Essa interpretação é corroborada por Rodrigues (2017, p. 1040), que pro-
blematiza as narrativas heroicas e mitológicas sobre o reino de Israel:
Anos de pesquisa arqueológica no território de Judá mostram, no entanto, que 
sua história foi sempre determinada por sua condição geográfica, como uma 
porção espremida de terra, dentro da grande região que separava os principais 
Os hebreus e o reino de Israel8
poderes do Crescente Fértil: Egito ao sul, os impérios mesopotâmios, ao 
leste, e os do norte. Do ponto de vista demográfico, a população estimada de 
Judá e sua urbanização eram bastante inferiores aos de Israel, assim como 
os projetos públicos de construção desenvolveram-se muito antes no norte 
que em Judá [...] Deve-se descrever Judá do século X e início do IX AEC., 
portanto, como um reino pequeno, com uma atividade econômica bastante 
modesta e isolada pelos seus vizinhos: o reino de Israel ao norte, as cidades 
filisteias a oeste, o governo do deserto, centrado em Tel Massos, ao sul, e 
o deserto ao leste. Jerusalém, sua capital, é descrita pelos estudiosos como 
uma pequena fortificação, habitada por um grupo reduzido de pessoas que se 
concentravam majoritariamente na parte da cidade conhecida como Cidade 
de Davi, situada a sul das muralhas da Cidade Velha atual.
O reino de Israel, enfraquecido pelas revoltas internas e pelos constantes 
conflitos contra Judá, foi dominado em 723 a.C. pelos assírios. O reino de 
Judá foi conquistado pelos caldeus, liderados por Nabucodonosor, em 586 a.C., 
sendo que os judeus foram escravizados e levados para a Babilônia.
Os assírios destruíram Israel em 721 a.C. e deportaram muitos israelitas 
para o leste. Foi durante esse tempo de tribulação que os ensinamentos de 
grandes críticos e reformistas sociais e morais — os profetas Ezequiel, Amos 
e Isaías, entre outros — confirmaram que o deus tribal de Abraão, Jeová, não 
era apenas o deus mais poderoso, mas também o único deus. Em 587 a.C., os 
babilônicos invadiram Jerusalém, destruíram o templo e deportaram muitas 
das principais famílias judias para a Babilônia, junto com trabalhadores ha-
bilidosos como ferreiros e escribas. Essa era a origem da diáspora (palavra 
grega para “dispersão” ou “difusão”), na qual os judeus foram deportados 
à força ou fugiram de sua terra natal para se estabelecer em outros lugares 
(GOUCHER; WALTON, 2011, p. 108).
Quando os persas, comandados por Ciro, conquistaram a Babilônia, os 
judeus recobraram certa independência, o que se consolidou com as conquistas 
de Alexandre, o Grande, na região. Com a expansão do Império Romano, os 
judeus permaneceram com certa autonomia até 70 d.C. Nessa data, os romanos 
tentaram construir um templo para Júpiter em Jerusalém, levando o povo a 
se rebelar. O Império destruiu a cidade e expulsou os judeus da Palestina, 
proibindo-os de retornar à região e os dispersando.
9Os hebreus e o reino de Israel
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