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ESPAÇO, SOCIEDADE E NATUREZA AULA 5 Prof.ª Rafaela Pacheco Dalbem 2 CONVERSA INICIAL Em momento anterior de nossos estudos, discutimos a categoria de lugar por meio da perspectiva de Doreen Massey (2011), que nos levou a pensar de forma dinâmica, superando as ideias tradicionais de localização fixa e fronteiras rígidas tradicionalmente associadas ao conceito de lugar. Retomando um dos parágrafos do texto anterior: Essa perspectiva mais dinâmica permite pensar o lugar como um ponto de interseção de múltiplas relações sociais e não como uma área com fronteiras rígidas. Ao pensar em adotar essa linha teórica, ao invés de imaginarmos que o lugar possui uma identidade e localização fixa, devemos reconhecer que, assim como as pessoas têm identidades múltiplas e em constante transformação, os lugares também são marcados por múltiplas identidades que emergem das interações entre as pessoas e suas relações com o mundo. Essas identidades podem ser fontes tanto de enriquecimento cultural quanto de conflitos, mas são sempre o resultado das redes de relações globais que permeiam cada localidade. (Massey, 2011, p. 183, grifos nossos). Esse entendimento de lugar como interseção de múltiplas identidades e relações globais será o ponto de partida deste capítulo, na qual aprofundaremos as categorias de redes e de globalização. A ideia de que o lugar é constantemente moldado por redes de relações nos permite entender como essas conexões são organizadas não apenas em escala local, mas também em escala global, transformando continuamente os lugares. Iniciaremos com uma abordagem conceitual das redes. Destacamos que o foco será nas redes artificiais (ou sociais), que dizem respeito às conexões entre pessoas, instituições e ideias, diferenciando-as das redes da natureza, que também existem e influenciam o espaço, mas não serão o centro da nossa discussão. Após essa introdução, exploraremos as redes de comunicação e transporte e, em seguida, passaremos para as redes urbanas, olhando para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao nos aproximarmos do final, voltaremos a atenção para a globalização, guiados pelas interpretações de Milton Santos, autor que temos privilegiado com o objetivo de criar um panorama abrangente dessas relações. Para concluir, faremos uma síntese das discussões no último tópico (Redes, Cultura e Desigualdades), em que tentaremos abordar a relação entre redes e globalização, enfatizando como as interconexões globais influenciam as culturas e hábitos locais. 3 Ao final, esperamos ter ampliado a compreensão sobre as categorias de redes e globalização, ajudando-os a entender melhor esses fenômenos no contexto geográfico. Nossos objetivos, orientados para a construção de conceitos, privilegiam: • compreender os conceitos de redes e globalização; • analisar a influência da globalização nas relações sociais e culturais; • refletir sobre as desigualdades globais. TEMA 1 – REDES: UMA ABORDAGEM CONCEITUAL Aqui, analisaremos como a noção de rede vai além da infraestrutura física, abarcando também fluxos de informações, capitais e dinâmicas culturais. Para compreendermos as complexidades do espaço geográfico (e da Geografia), é fundamental nos debruçarmos sobre o conceito de redes. Existem múltiplas interpretações, e nesta discussão, vamos nos apoiar no texto Redes Geográficas: Reflexões sobre um Tema Persistente (2011), do geógrafo Roberto Lobato Corrêa, e em A Natureza do Espaço (1996), de Milton Santos. Primeiramente, é relevante observar que: A voga que a palavra e a ideia de rede estão encontrando, tanto nas ciências exatas e sociais, como na vida prática, paga preço devido a essa popularidade. A polissemia do vocábulo tudo invade, afrouxa o seu sentido e pode, por isso, prestar-se a imprecisões e ambiguidades, quando o termo é usado para definir situações. Dá-se o mesmo com a geografia. (Santos, 1996, p. 261-262) Ou seja, é importante ressaltar que existem diversas compreensões de rede. Aqui, abordaremos um entendimento baseado nas obras de dois autores (que citam-se), reconhecendo que há outras interpretações possíveis. Em 1996, Santos levanta a questão, “Mas o que é uma rede?” seguindo a ideia de que “as definições e conceituações se multiplicam, mas pode-se admitir que se enquadram em duas grandes matrizes: a que apenas considera […] a sua realidade material, e uma outra, onde é também levado em contato o dado social” (Santos, 1996, p. 262). Pensando nos dois autores que já citamos, podemos definir que redes geográficas podem ser definidas como redes sociais espacializadas, constituídas por localizações interconectadas. Essas redes desempenham um papel essencial na organização do espaço e na configuração das relações humanas, facilitando a análise da espacialidade humana e das interações sociais. Mais uma vez: é 4 necessário retornar a discussões anteriores e relembrar que é por meio dessas redes que os lugares se conectam. As redes geográficas podem ser analisadas em três dimensões principais: organizacional, temporal e espacial. Para abordar a análise das redes geográficas em suas três dimensões principais, é fundamental compreender, ao menos a grosso modo, como cada uma dessas dimensões revela aspectos específicos da configuração e do impacto das redes. A dimensão organizacional refere-se à estrutura das relações e à forma como os agentes se conectam; um exemplo disso é a rede urbana, na qual cidades de diferentes portes se interligam formando hierarquias e dinâmicas próprias. Essa dimensão é essencial para entender como as redes criam estruturas de poder, consumo e circulação de mercadorias, facilitando e ordenando as interações no espaço. A dimensão temporal envolve a evolução e as mudanças nas redes ao longo do tempo, demonstrando como elas se adaptam a novas demandas sociais e econômicas. Um exemplo disso são as redes ferroviárias, que, inicialmente focadas em conectar centros industriais, foram adaptadas ao longo das décadas para atender tanto a demanda de transporte de passageiros quanto de cargas, passando por expansões, modernizações e até transformações para trens de alta velocidade. Obviamente não falamos aqui de um exemplo brasileiro, já que nosso transporte de passageiros por trem é ínfimo, mas em âmbito mundial, a rede ferroviária é um exemplo importante. Essa dimensão revela que, além de moldar o espaço, as redes refletem o desenvolvimento tecnológico e as necessidades da sociedade e respondem a ele. Por fim, a dimensão espacial considera a distribuição geográfica das interconexões, que se apresentam em formatos variados e múltiplos. Podemos observar essa dimensão em (i) redes de comunicação entre os fãs de divas pop, cuja importância vai além do cultural, tendo efeitos econômicos substanciais, ou na (ii) rede global de transferência de dados com o uso do Big Data, vital para o funcionamento da economia contemporânea. De acordo com Corrêa (2011), essa abordagem multidimensional (envolvendo as dimensões organizacional, temporal e espacial) permite destacar a complexidade das redes e realizar interpretações significativas sobre influências no cotidiano ou na organização do espaço, promovendo conexões que transcendem fronteiras geográficas e culturais. Ademais, as redes geográficas são dinâmicas e podem ser transformadas por novos processos econômicos, sociais e tecnológicos. A seleção de uma rede 5 específica para estudo deve levar em conta a problemática construída, reconhecendo que cada rede é parte de um contexto mais amplo e interconectado. Essas interpretações iniciais sobre redes, fundamentadas nas ideias de Roberto Lobato Corrêa e Milton Santos, servirão como base para a nossa discussão sobre as especificidades das redes de informação e comunicação, redesurbanas e a própria globalização. TEMA 2 – REDES DE COMUNICAÇÃO E TRANSPORTE No desenvolvimento deste tópico, partiremos das abordagens conceituais do tópico anterior para exemplificar mais concretamente a aplicação das redes geográficas, focando as redes de comunicação e transporte. Essas redes são centrais na organização do espaço e contribuem para o entendimento das interações econômicas, sociais e culturais, que se expandem e se transformam à medida que as tecnologias de conectividade e mobilidade avançam. Defendemos que as redes de comunicação podem ser classificadas dentro das três dimensões abordadas anteriormente — organizacional, temporal e espacial — pois apresentam tanto a estrutura de conexões como a evolução e a distribuição geográfica dessas interações. Por outro lado, as redes de transporte, quando relacionadas a elementos físicos como rodovias, ferrovias, aeroportos e portos, têm uma estrutura mais concreta e predominantemente organizacional e espacial. Enquanto as redes de comunicação dependem de um fluxo que envolve informações e capital, as redes de transporte são materializadas em infraestruturas que asseguram a mobilidade de mercadorias e pessoas. No entanto, ambas contribuem para o espaço geográfico, cada uma a seu modo, reforçando interações e moldando territórios. A rede de comunicação tem sido uma das principais viabilizadoras do que chamamos de “Aldeia Global” ou “Rede Global”, conceitos reforçados pela desmaterialização do dinheiro e pela possibilidade de fluxos instantâneos e generalizados de capital. A ideia de Milton Santos (1996, p. 269) reflete bem essa transformação: “graças à desmaterialização do dinheiro e ao seu uso instantâneo e generalizado. a noção de rede global se impõe nesta fase da história”. Nesse sentido, as redes de comunicação ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos econômicos e financeiros, eliminando a necessidade de proximidade física e criando um espaço econômico interconectado e em constante transformação. 6 Com a expansão das redes de comunicação, as grandes corporações encontram-se descentralizadas e organizadas de modo a operar globalmente, mesmo mantendo o controle centralizado em pólos de poder tradicionais. Roberto Lobato Corrêa (2011) exemplifica isso em sua descrição de uma corporação multifuncional e multilocalizada: Trata-se da rede de uma corporação que se estrutura a partir de uma empresa holding, que controla inúmeras subsidiárias dotadas, cada uma, de relativa autonomia, e uma unidade de pesquisa e desenvolvimento mantida sob forte controle […] No organograma que descreve essa rede social, […] o espaço está ausente, não se podendo falar em rede geográfica. (Corrêa, 2011, p. 201) Defendemos, no entanto, que não podemos falar em rede exclusivamente geográfica, mas entendemos que o autor fala da descentralização do capital e não necessariamente das estruturas físicas onde esse capital circula. Esse modelo corporativo revela que, embora a descentralização espacial seja evidente, a comunicação entre as sedes e as subsidiárias fortalece uma rede de circulação de informações e recursos. As redes de transporte também evoluíram substancialmente com o avanço técnico e tecnológico, possibilitando uma circulação cada vez mais rápida de mercadorias e capital. Estruturas como portos e terminais de carga se modernizaram, resultando em redes eficientes que priorizam o fluxo econômico e a logística, muitas vezes, mais voltadas para o transporte de bens e recursos financeiros do que de pessoas. Esse aumento da velocidade e capacidade de movimentação demonstra como a geografia e o tempo podem ser reconfigurados, facilitando e impulsionando o comércio global e a expansão do modo de produção que a maioria do globo está inserido (capitalismo). Portanto, ao explorarmos as redes de comunicação e transporte sob o olhar geográfico, entendemos que elas desempenham papéis distintos, mas inter- relacionados, na configuração e na dinâmica espacial. Ambas são essenciais para a manutenção de uma economia global e de uma sociedade cada vez mais interconectada, operando em sinergia e reforçando a complexidade dos fluxos que moldam o espaço. O entendimento dessas redes sob a perspectiva geográfica nos permite ver como o espaço se adapta e se organiza em resposta às demandas de comunicação e mobilidade, proporcionando novas formas de interação e organização, sendo importante ter consciência de que essa adaptação espacial tem acontecido mais em função do dinheiro e das mercadorias do que da própria humanidade. 7 Após essa análise das redes de comunicação e transporte, avançaremos agora para as redes urbanas, um tipo de rede cuja dinâmica está mais próxima da vida cotidiana e das interações dentro e entre cidades. A discussão sobre redes urbanas trará à tona as questões da hierarquia urbana e as relações entre cidades, considerando como elas compõem um tecido espacial integrado e diferenciado. TEMA 3 – REDES URBANAS No desenvolvimento deste tópico, retomamos a discussão sobre as formas espaciais e a importância das redes urbanas como redes geográficas materialmente constituídas. Segundo Roberto Lobato Corrêa (2011, p. 206), fazendo referência aos estudos de Milton Santos, “as formas espaciais (como as redes geográficas) são o resultado de complexas relações entre estrutura, processo e função, constituindo, as quatro categorias, uma unidade indissociável.” As redes urbanas não são apenas produtos da interação social, mas também condições de reprodução dessas interações, uma vez que são constituídas por cidades. Por isso, a forma espacial das redes urbanas expressa funcionalidades que refletem as características da estrutura social e alguns dos seus movimentos. Além disso, a complexidade funcional dos centros urbanos se deriva das múltiplas possibilidades que cada localização oferece para a implantação de atividades econômicas. No Brasil, a pesquisa sobre redes urbanas tem sido um foco de interesse do IBGE desde a década de 1960, com a produção de edições que analisam as regiões de influência das cidades, conhecidas como REGIC. O estudo do IBGE (2018, p. 11) aponta que “a rede urbana brasileira […] está estruturada em duas dimensões: a hierarquia dos centros urbanos, dividida em cinco níveis; e as regiões de influência, identificadas pela ligação das cidades de menor para as de maior hierarquia urbana”. Essa estruturação revela como as cidades se conectam e influenciam umas às outras, formando uma rede que compreende as interações sociais e econômicas que transcendem fronteiras locais. No Brasil, no nível mais alto da hierarquia urbana, encontram-se as 15 metrópoles, cujas regiões de influência são representadas em mapas que destacam as conexões entre as cidades (o mapa geral pode ser visualizado na Figura 1). Essas metrópoles não apenas concentram a maior população e renda, 8 mas também atuam como polos de atração para as cidades menores, demonstrando como as redes urbanas estão interligadas e são interdependentes. Figura 1 – Mapa da rede urbana brasileira – 2018 Fonte: IBGE, 2018. Algo interessante de observar no mapa é que essas regiões de influência se cruzam ao passo que recebem influência de duas ou mais metrópoles. As ligações traçadas (no caso do mapa da Figura 1, traçadas em laranja, vermelho, verde, azul, roxo) representam essas conexões complexas, indicando que as redes urbanas são dinâmicas e multifacetadas, exigindo um entendimento mais aprofundado sobre as interações que ocorrem dentro delas. Ainda observando o mapa, a mais robusta das redes é a da Grande Metrópole Nacional, São Paulo, enquanto as outras vão tendo suas redes mais localmente desenvolvidas, no sentido de que nem toda metrópole nacional tem o mesmo nível de relações dentro do território. 9 Isso enfatiza a importância da análisedas redes urbanas para a compreensão das desigualdades e da dinâmica econômica do território nacional. Ainda vale ressaltar um aspecto de reflexão aqui: a rede urbana brasileira se caracteriza por centros urbanos de menor hierarquia se ligando a centros maiores até convergirem nas 15 metrópoles. Isso faz com que a ligação entre as Cidades não sejam, a priori, hierárquicas, porém, o resultado agregado das ligações do conjunto de atividades no conjunto de Cidades, evidencia a existência de centros urbanos de maior importância, onde há concentração dos fluxos, sendo possível, a partir de seu mapeamento, estabelecer uma hierarquia entre as Cidades (IBGE, 2018, p. 17) A análise das redes urbanas no Brasil evidencia como as cidades se estruturam em uma complexa teia de interações que não apenas organiza o território nacional, mas também reflete as dinâmicas econômicas, sociais e políticas que caracterizam o país. Essa estruturação interna das redes urbanas no Brasil, com suas regiões de influência, intersecções e desigualdades, nos prepara para o próximo tópico: a globalização. Assim, o estudo das redes urbanas se torna essencial para compreender como essas cidades se inserem nas redes globais, evidenciando as particularidades do espaço brasileiro em um mundo cada vez mais interconectado. Dessa forma, passamos a analisar a globalização, que Milton Santos concebe como um fenômeno que reorganiza o espaço em escala global e que amplia as complexidades e interdependências nas redes de fluxos de pessoas, capitais, informações e mercadorias, aprofundando ainda mais as dinâmicas que moldam os territórios. TEMA 4 – GLOBALIZAÇÃO, PARA MILTON SANTOS Assim como a categoria de rede, o fenômeno da globalização pode ter algumas interpretações e aqui fazemos uma interpretação baseada nos pensamentos do geógrafo Milton Santos, do livro Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, lançado inicialmente no ano 2000. Com a incorporação desse conceito à categoria de redes, a globalização, segundo Milton Santos, pode ser compreendida como uma grande rede que, ao transcender limites locais, produz novas formas de organização e apropriações espaciais. No entanto, o que ele chama atenção, diferentemente de outros teóricos, é que, embora a globalização exista de maneira generalizada, no sentido de se 10 apresentar em basicamente todos os territórios, ela não é vivida da mesma forma por todos os seres humanos. E ela não é utilizada para o pleno desenvolvimento da humanidade. Ilustrando o que tentamos dizer no parágrafo anterior, o que trazemos aqui é uma visão inicial da globalização. Para Santos (2020, p. 18 a 21), devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. a. O mundo tal como nos fazem crer – a globalização como fábula (Santos, 2020, p. 18-19): retrata um mundo que, embora exaltado como interconectado e acessível, é sustentado por ilusões construídas e amplamente repetidas, criando uma interpretação superficial que esconde desigualdades. A ideia de “aldeia global”, por exemplo, sugere que todos têm acesso imediato e igual à informação, ignorando as barreiras reais que muitos enfrentam. A ideia de um mercado global homogêneo camufla a amplificação das diferenças locais e o controle exercido por atores hegemônicos, enquanto o consumo é incentivado como uma falsa expressão de liberdade. Além disso, a “morte do Estado” é propagandeada como um efeito inevitável da globalização, enquanto, na realidade, o Estado é fortalecido para atender aos interesses da elite financeira em detrimento das necessidades da população. Essa fábula não encerra a ideologia, mas a intensifica, fazendo do mundo globalizado um cenário onde fabulações ideológicas sustentam as desigualdades e moldam a realidade em favor de poucos. b. O mundo como é – a globalização como perversidade (Santos, 2020, p. 19- 20): essa visão do conceito é a que se materializa para a maioria das pessoas ao redor do mundo. Em outras palavras, a globalização, para a maioria da humanidade, revela-se como um sistema de desigualdades profundas e crescentes. Muito distante de cumprir promessas de desenvolvimento equitativo, a globalização perpetua a precarização do trabalho, a queda da qualidade de vida e o aumento da pobreza. Problemas crônicos, como a fome, o desemprego e o desabrigo, intensificam-se, enquanto doenças novas e antigas afligem as populações, e a educação de qualidade torna-se privilégio de poucos. Milton Santos ainda coloca que em um cenário onde a competição exacerbada domina as relações sociais e econômicas, males morais e espirituais, como egoísmo e corrupção, florescem, revelando uma perversidade sistêmica que se propaga e 11 compromete o bem-estar coletivo. Esse quadro de retrocessos é, direta ou indiretamente, produto das dinâmicas excludentes impostas pela globalização hegemônica. c. O mundo como pode ser: uma outra globalização (Santos, 2020, p. 20-21): é o lado otimista da interpretação de globalização por Milton Santos. Nesse momento da conceituação, o autor defende que, apesar das perversidades da globalização atual, é possível vislumbrar a construção de uma globalização mais humana, aproveitando as mesmas bases técnicas que sustentam o sistema vigente para fins sociais e políticos transformadores. A unicidade da técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento global podem ser redirecionados para promover diversidade cultural e intercâmbio filosófico, rompendo com o racionalismo europeu e valorizando uma “sociodiversidade” inédita. A aglomeração urbana, a cultura popular com acesso aos meios técnicos e a experiência cotidiana de universalidade permitem o surgimento de um novo discurso global, mais inclusivo, que celebra as diferenças e abre espaço para uma história coletiva mais justa e representativa. É importante pensar na ideia da fábula, pois, ao decorrer do livro que indicamos no início desse texto, o autor comenta que nos expõem a fábulas ou nos fazem acreditar em fábulas que criam essa ideia de unicidade. A velocidade é uma fábula da globalização. A tecnologia é uma fábula da globalização. Mas o acesso à velocidade ou à tecnologia é similar ao redor do globo? Sabemos que não, e essa faceta é a que se manifesta na perversidade. No próximo tópico, tentaremos abordar alguns exemplos que conversam com as discussões que abordamos até então. TEMA 5 – REDES, CULTURA E DESIGUALDADE A cultura pop, o turismo e as indústrias culturais transnacionais são exemplos claros de como as redes globais podem moldar e impactar o modo de vida local. Ao se inserirem no cotidiano das pessoas, esses elementos culturais geram uma mescla de influências que ultrapassa fronteiras, criando uma experiência global que atinge até as localidades mais remotas. No entanto, a presença dessas indústrias culturais transnacionais também impõe desafios para as culturas locais, que enfrentam pressões para se adaptar a essas tendências globais. Essa adaptação não ocorre de forma passiva: muitos lugares resistem e 12 reconstroem suas identidades, reformulando essas influências globais e criando uma identidade cultural única e adaptada à sua realidade. Essas redes culturais globais podem ser entendidas como parte do que Roberto Lobato Corrêa descreve ao tratar de “rede geográfica” — um conjunto de localizações humanas interconectadas por vias e fluxos (Corrêa, 2011, p. 200). Nesse caso, as vias não são apenas físicas, mas também simbólicas e midiáticas, facilitando o fluxo de ideias e referências culturais entre localidades. Esse conjunto de conexões transforma os espaços locais ao introduzir produtos, tendências e formas de expressão que, mesmo oriundas de contextos distantes, passam a influenciar os modos de vida, os valores e as práticas locais. No entanto, essa intensa circulação culturaltambém contribui para uma homogeneização superficial, onde identidades locais se encontram em constante negociação e adaptação às influências estrangeiras. Essa cultura globalizada não atinge todas as pessoas da mesma forma e, muitas vezes, contribui para a ampliação de desigualdades já existentes. As redes de comunicação e cultura não são neutras: elas refletem e intensificam as diferenças econômicas e sociais, criando exclusões e desigualdades em diversas regiões do mundo. Locais com menos acesso a essas redes tendem a ser menos influenciados pelas indústrias culturais globais, enquanto outras áreas, especialmente nas grandes cidades e regiões economicamente mais conectadas, veem-se intensamente impactadas. Isso gera um contraste entre regiões que têm acesso privilegiado aos produtos culturais e outras que se encontram marginalizadas, com menos acesso a esse fluxo cultural global. Apesar do forte impacto das indústrias culturais transnacionais, há também uma dimensão de resistência e adaptação nos lugares. A cultura pop e as influências criativas globais não são apenas absorvidas passivamente; elas são ressignificadas e incorporadas aos contextos locais de maneiras únicas. Esse processo de adaptação revela que, mesmo diante de redes globais que intensificam as desigualdades, as culturas locais mantêm-se ativas e reinventam- se. Esse é um exemplo de como a globalização, ao mesmo tempo que impõe desafios, também abre possibilidades para que novas formas de expressão cultural se afirmem, agregando valor e complexidade às identidades locais. Por fim, podemos ainda considerar que as redes culturais globais contribuem para a construção de uma nova espacialidade humana, onde diferentes influências se entrelaçam, mas de forma desigual. Essa espacialidade é marcada tanto pela expansão das indústrias culturais como pela diversidade das respostas 13 locais, que resistem, adaptam-se e redefinem as influências globais de acordo com suas realidades. Assim, o assunto “Redes, Cultura e Desigualdade” evidencia que as redes globais, ao mesmo tempo que ampliam o acesso a novas formas de cultura e informação, também reforçam hierarquias e disparidades, ressaltando a importância da análise geográfica para entender esses processos. Como nos aponta Roberto Lobato Corrêa, as redes geográficas são elementos essenciais da espacialidade humana, sendo fundamentais para compreender as dinâmicas de desigualdade e de resistência cultural que surgem em meio à globalização. NA PRÁTICA Proposta de atividade para Redes e Globalização • Objetivo: analisar o impacto das holdings alimentares, em especial a Nestlé e a Unilever, nos hábitos alimentares locais e nas relações sociais e culturais, considerando as dinâmicas de redes e globalização e suas implicações para as desigualdades globais. • Objetivo pedagógico: desenvolver a capacidade crítica ao pesquisar e refletir sobre as influências da globalização nas práticas alimentares e culturais, promovendo a compreensão dos conceitos de redes, globalização e desigualdade, além de incentivar a análise das interações entre grandes corporações e comunidades locais. Atividade: pensando sobre holdings e hábitos alimentares Após leitura do material você deve: • Escolher uma empresa: entre a Nestlé ou a Unilever para análise. • Pesquisa: realize uma pesquisa sobre a empresa escolhida, abordando os seguintes pontos: − Histórico e produtos: fornecer um breve histórico da empresa e uma descrição dos principais produtos alimentares que ela oferece. 14 − Influência nos hábitos alimentares: investigar como a presença da empresa influenciou os hábitos alimentares na comunidade em que você atua1. Isso pode incluir: − Mudanças nas preferências alimentares locais devido à introdução de produtos. − O papel das campanhas de marketing na formação de novas tendências de consumo. − Efeitos sociais e culturais: identificar como a presença da empresa pode ter impactado tradições alimentares da sua comunidade e a saúde pública. − Práticas sustentáveis e resistência: analisar se existem práticas sustentáveis promovidas pela empresa e se há resistência ou movimentos locais que contestem sua influência, como a valorização de produtos locais ou orgânicos. • Redação do relatório: com base na pesquisa, você deve escrever um relatório de 3-4 páginas que inclua: − uma introdução ao tema e à empresa escolhida; − uma análise detalhada dos pontos abordados (histórico, influência nos hábitos alimentares, efeitos sociais e culturais, práticas sustentáveis); − conclusões sobre o papel da empresa na formação dos hábitos alimentares e suas implicações para a saúde e a cultura local. • Reflexão pessoal: ao final do relatório, você deve incluir uma seção de reflexão pessoal (1 página), onde pode expressar: − o que aprendeu durante a pesquisa; − como a análise da empresa ampliou sua compreensão sobre as dinâmicas culturais e as desigualdades geradas pela globalização; − qual é a sua opinião sobre o impacto da Nestlé ou da Unilever nos hábitos alimentares e nas tradições locais. 1 Comunidade que você atua, aqui, para efeito de exercício, pode ser a sua escola, sua cidade, seu Estado. 15 Rubrica de autoavaliação: redes e globalização Critério Descrição Pontuação máxima Pontuação autoavaliada Compreensão de conceitos Demonstra entendimento claro dos conceitos de redes, globalização e desigualdade ao longo do relatório. 25 Análise crítica Realiza uma análise crítica da influência da Nestlé ou Unilever nos hábitos alimentares e nas tradições locais, com base em evidências. 25 Pesquisa e fundamentação Apresenta pesquisa bem fundamentada, incluindo histórico da empresa, produtos, e impactos sociais, culturais e ambientais. 25 Reflexão pessoal Inclui uma reflexão pessoal que expressa aprendizado e compreensão sobre as dinâmicas culturais e as desigualdades geradas pela globalização. 25 TOTAL 100 FINALIZANDO Para encerrar nosso conteúdo sobre redes e globalização, é essencial retomar os conceitos centrais discutidos. A ideia de redes, como apresentada por Roberto Lobato Corrêa, é fundamental para compreendermos as dinâmicas que permeiam a globalização. Segundo ele, entendemos por rede geográfica o conjunto de localizações humanas articuladas entre si por meio de vias e fluxos. Nesse sentido, ela constitui caso particular de rede em geral, esta forma que advém da topologia. Sua importância para a geografia, como se tentará evidenciar, é enorme, pois é parte fundamental da espacialidade humana. (Corrêa, 2011, p. 200) Essa definição nos ajuda a entender como as interações entre diferentes localidades moldam a dinâmica social, cultural e econômica em um mundo cada vez mais interconectado. A análise das indústrias culturais (e econômicas), como as promovidas por empresas como Nestlé e Unilever, nos permite observar como a globalização influencia os hábitos alimentares e as tradições locais. Essas empresas, inseridas em redes transnacionais, não apenas introduzem produtos em novos mercados, mas também moldam as preferências e as práticas alimentares das comunidades. Nesse sentido, Milton Santos nos alerta sobre a importância de considerar as relações entre o global e o local, enfatizando que “o global é o que forma a condição de possibilidade do local, mas o local é o que faz a resistência à globalização” (Santos, 2000). Essa interação cria um campo fértil para reflexões sobre as mudanças nas identidades culturais e as resistências locais, uma vez que as comunidades 16 frequentemente reagem e recontextualizam essas influências externas em busca de preservar suas tradições. Por outro lado, a presença dessas empresas nas comunidades pode gerar desigualdades. Os fluxos de recursos e informações que circulam nas redes globais frequentementerefletem e ampliam as disparidades existentes. Locais com maior conectividade tendem a absorver as influências culturais de forma mais intensa, enquanto regiões marginalizadas podem ficar à margem desse processo, evidenciando uma hierarquização nas relações sociais e culturais. Essa dinâmica é particularmente relevante quando consideramos o papel das campanhas de marketing na formação de novas tendências de consumo, que muitas vezes desconsideram os contextos locais. Nesse sentido, o exercício prático proposto visa proporcionar uma análise crítica e individualizada dos impactos da Nestlé ou da Unilever, permitindo que os(as) leitores(as) explorem as nuances das relações sociais e culturais em suas próprias comunidades. Outro aspecto importante discutido é a resistência e a adaptação que ocorrem em resposta à globalização. As comunidades não são meramente passivas; elas reinterpretam as influências externas, criando formas de expressão cultural que refletem suas realidades. Essa capacidade de resistência revela a complexidade das identidades locais, que se reinventam em meio às pressões das redes globais. Assim, a globalização, ao mesmo tempo que impõe desafios, também abre espaço para novas formas de criatividade e expressão cultural. Ademais, a relevância do documento do Registro das Informações Geográficas e das Cidades (Regic) do IBGE é notável nesse contexto. Como mencionado, “a hierarquização dos centros urbanos e as relações de interdependência entre as cidades mostram que as redes urbanas não se limitam a uma função de integração territorial, mas assumem um papel crucial na distribuição de recursos, oportunidades e serviços para a população” (IBGE, 2018, p. 7). Essa afirmação ressalta a importância de entender as redes urbanas não apenas como estruturas de conexão, mas como elementos que moldam a dinâmica de poder e a acessibilidade a recursos essenciais. Por fim, esperamos que a análise das relações entre redes e globalização, bem como suas implicações nos hábitos alimentares e nas tradições culturais, tenha proporcionado uma compreensão mais aprofundada das desigualdades que permeiam esses processos. A partir dessa reflexão, é essencial que continuemos a investigar como essas dinâmicas influenciam nossas vidas cotidianas e como podemos agir de forma crítica e consciente diante delas. A geografia, como campo 17 de estudo, nos oferece ferramentas valiosas para analisar e compreender essas complexas interações, promovendo um olhar mais atento às nuances das relações sociais e culturais em um mundo globalizado. 18 REFERÊNCIAS CORRÊA, Roberto Lobato. Redes geográficas: reflexões sobre um tema persistente. Revista Cidades – Grupo de Estudos Urbanos UFFS, v. 9, n. 16, p. 199-218, 2011. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Coordenação de Geografia. Regiões de influência das cidades: 2018. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2024 MASSEY, Doreen. Um sentido global de lugar. In: ARANTES, Antonio A. (org.). O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000. p. 176-185. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996. _____. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 31 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.