Prévia do material em texto
Indaial – 2022 Espaço Mundial Profª. Márcia da Silva Profª. Tatiellen Cristina Prudentes 2a Edição REgionalização E oRganização do Elaboração: Profª. Márcia da Silva Profª. Tatiellen Cristina Prudentes Copyright © UNIASSELVI 2022 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: S586r Silva, Márcia da Regionalização e organização do espaço mundial. / Márcia da Silva; Tatiellen Cristina Prudentes. – Indaial: UNIASSELVI, 2022. 235 p.; il. ISBN 978-85-515-0542-7 ISBN Digital 978-85-515-0538-0 1. Regionalização. – Brasil I. Prudentes, Tatiellen Cristina. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 900 Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático de Regionalização e Organização do Espaço Mundial! Nesta disciplina, abordaremos conceitos relacionados à região, à globalização, à regionalização, redes, articulações sociais e a multidimensionalidades ou dimensões analíticas do espaço geográfico, pois, na contemporaneidade, observa-se a configuração de uma nova (des)organização espacial mundial de produção e de consumo, o que reflete na (des)ordem política, social, ambiental e cultural. Dessa forma, é mais que necessária a contribuição da Geografia para o entendimento das transformações do espaço geográfico. Para o acadêmico de Geografia, o conhecimento desses espaços é essencial para que tenha uma visão crítica da realidade, pois só assim será possível olhar o mundo de forma consciente e responsável, podendo utilizar esse conhecimento como estratégia geradora de melhorias em prol da sociedade. Ao elaborar esse material, procurou-se problematizar diversas questões do mundo. O material didático foi elaborado de forma que possibilite um estudo mais dinâmico, prazeroso e que o leve a compreender as grandes problemáticas e desafios do mundo. O material aqui apresentado foi planejado com a finalidade de colaborar para a sua formação acadêmica, ajudando na compreensão acerca dos processos, das evoluções e das transformações da regionalização e organização do espaço mundial. Pensando nisso, discutiremos nesta disciplina sobre vários conceitos e categorias do pensamento geográfico, que elucidaram o seu processo de ensino e aprendizagem. Os conhecimentos aqui compartilhados são de extrema importância para a so- ciedade atual, que vivencia o aprofundamento das relações sociais, culturais, econômi- cas, políticas (entre diversas outras) no contexto da chamada globalização. Nas últimas décadas, diversas transformações vêm ocorrendo na divisão e organização do espaço mundial, como as relações comerciais entre os países, tendo, entre suas consequên- cias, a redução das distâncias entre eles. Nesse contexto, vemos um processo que se converte em uma noção de redução também das distâncias no espaço geográfico. Para contemplar a ementa, optamos por distribuir o conteúdo em três unidades, com cada unidade dividida em tópicos. A Unidade 1 apresenta uma discussão sobre o conceito de região, marcado pela globalização, constituindo-se em uma regionalização. A unidade compreende o processo de regionalização, suas abordagens e características, aprofundando as suas divisões do espaço mundial e exemplificando-as. Trabalhamos e entendemos a regionalização do espaço geográfico brasileiro, e, por fim, finalizamos com as questões que vinculam geografia, modernidade e pós-modernidade, portanto, o acadêmico vai entender as multidimensões do espaço geográfico atual. APRESENTAÇÃO Na Unidade 2, discutimos sobre a complexidade do estudo entre geografia e organização do espaço geográfico e a globalização, exemplificando os seus processos das transformações econômicas e suas dinâmicas de poder e a criação dos blocos econômicos, que se articulam em redes e fluxos no espaço mundial, gerando impacto nas relações e no mundo do trabalho. A Unidade 3 traz uma abordagem sobre as múltiplas leituras da relação entre territórios e redes, a exemplo das guerras irregulares e assimétricas, dos fluxos financeiros globais e as novas modalidades de finanças, como as operações em criptomoedas e do ciberterrorismo como uma das novas formas de terrorismo. Esperamos que você encontre aqui elementos que contribuam para o entendimento dessa realidade e que seja capaz de realizar a sua própria investigação sobre as causas e consequências do aprofundamento da regionalização e a organização do espaço mundial. Bons estudos! Profª. Márcia da Silva Profª. Tatiellen Cristina Prudentes Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO QR CODE Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremosjuntos nesta caminhada! SUMÁRIO UNIDADE 1 - GEOGRAFIA E PÓS-MODERNIDADE – LEITURAS DO ESPAÇO MULTIDIMENSIONAL ...........................................................................1 TÓPICO 1 - PRINCIPAIS CONCEITOS GEOGRÁFICOS PARA COMPREENDER A REGIONALIZAÇÃO ................................................................... 3 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 2 A REGIÃO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE DA GEOGRAFIA ............................. 3 3 REGIONALIZAÇÃO E ESCALAS: A QUESTÃO ESPAÇO/TEMPORAL ................. 9 4 OS DIFERENTES TIPOS DE ESPAÇO ................................................................. 12 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................... 16 AUTOATIVIDADE ....................................................................................................17 TÓPICO 2 - MÉTODO REGIONAL DE DIVISÃO E ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL: REGIONALIZAÇÃO ......................................................... 19 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 19 2 O CONCEITO DE REGIONALIZAÇÃO .................................................................. 19 3 REGIONALIZAÇÃO COMO PROCESSO DE DIVISÃO DO ESPAÇO MUNDIAL ........22 4 PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS DOS ESTUDOS REGIONAIS ................28 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................30 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 31 TÓPICO 3 - A REGIONALIZAÇÃO DO BRASIL NO CONTEXTO MUNDIAL ............33 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................33 2 AS REGIÕES GEOECONÔMICAS DE PEDRO PINCHAS GEIGER .......................33 3 OS TRÊS BRASIS – ROBERTO LOBATO CORRÊA..............................................35 4 OS QUATRO BRASIS – MILTON SANTOS ...........................................................38 5 AS DIVISÕES REGIONAIS SEGUNDO O INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE) .............................................................. 40 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................45 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................46 TÓPICO 4 - GEOGRAFIA, MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE .....................49 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................49 2 ANÁLISE GEOGRÁFICA DA MODERNIDADE À PÓS-MODERNIDADE ..............49 3 O FINAL DO XIX E O INÍCIO DO SÉCULO XX COMO LIMIARES DA MODERNIDADE ................................................................................................ 51 4 A SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E A PÓS-MODERNIDADE ..................... 57 5 DO ESPAÇO LISO AOS ESPAÇOS ESTRIADO E MULTIDIMENSIONAL .............66 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................. 76 RESUMO DO TÓPICO 4 ..........................................................................................86 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................87 REFERÊNCIAS .......................................................................................................89 UNIDADE 2 — A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO E A GLOBALIZAÇÃO ..............................................................................................93 TÓPICO 1 — GLOBALIZAÇÃO (ASPECTOS TEÓRICOS E CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO NO ÂMBITO GEOGRÁFICO) ......................................95 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................95 2 A GLOBALIZAÇÃO COMO CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DO ESPAÇO GEOGRÁFICO ........................................................................................................95 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................108 AUTOATIVIDADE .................................................................................................109 TÓPICO 2 - A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL E OS BLOCOS ECONÔMICOS ....................................................................................................... 111 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 111 2 OS GRANDES POTENCIAIS ECONÔMICOS E O PAPEL NA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO ESPAÇO ......................................................... 111 3 MUNDO GLOBALIZADO E OS BLOCOS ECONÔMICOS ................................... 116 4 OS PRINCIPAIS BLOCOS ECONÔMICOS MUNDIAIS ...................................... 118 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................ 127 AUTOATIVIDADE .................................................................................................128 TÓPICO 3 - REFLEXÕES SOBRE AS REDES E FLUXOS NO ESPAÇO MUNDIAL ..........................................................................................131 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................131 2 REDES E FLUXO NO ESPAÇO GEOGRÁFICO ...................................................131 3 MODELOS DE REDES GEOGRÁFICAS NO ESPAÇO MUNDIAL .......................134 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................ 139 AUTOATIVIDADE .................................................................................................140 TÓPICO 4 - O TRABALHO NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL ...................143 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................143 2 EMPREGABILIDADE E DESIGUALDADE DE RENDA NO CENÁRIO MUNDIAL .......................................................................................144 3 AS TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS E OS IMPACTOS NO MUNDO DO TRABALHO .................................................................................150 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................ 155 RESUMO DO TÓPICO 4 ........................................................................................ 162 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 163 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 165 UNIDADE 3 — POR ENTRE TERRITÓRIOS E REDES: MÚLTIPLAS LEITURAS ........169 TÓPICO 1 — “DOS NÓS ÀS LINHAS” NA REDE DE CONFLITOS MUNDIAIS: DAS GUERRAS CONVENCIONAIS AOS CONFLITOS IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS .................................................................................................171 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................171 2 ASPECTOS CONCEITUAIS E CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS CONVENCIONAIS, IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS ........................................171 3 CONFLITOS IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS CONTEMPORÂNEOS: CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS E CONJUNTURAS ................................................ 178 3.1 CASO 1: AS GUERRILHAS COLOMBIANAS ..................................................................178 3.2 CASO 2: HAMAS – ENTRE O TERRORISMO, GUERRILHA E AÇÃO POLÍTICA E DE CONTROLE DA FAIXA DE GAZA ...................................................... 182 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................ 187 AUTOATIVIDADE .................................................................................................188TÓPICO 2 - OS FLUXOS FINANCEIROS GLOBAIS E A EMERGÊNCIA DAS CRIPTOMOEDAS: POSSIBILIDADES E DESAFIOS .....................................191 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................191 2 ENTRE TERRITÓRIOS E REDES: OS FLUXOS FINANCEIROS GLOBAIS ..........191 3 OS FLUXOS FINANCEIROS E A EXPANSÃO/CONCENTRAÇÃO GEOGRÁFICA GLOBAL DE OPERAÇÕES COM CRIPTOMOEDAS ...................... 196 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................201 AUTOATIVIDADE ................................................................................................ 202 TÓPICO 3 - NOVAS FORMAS DE TERRORISMO: O CIBERTERRORISMO E A ESCALA GLOBAL.......................................................................................... 205 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 205 2 A INTERNET E A CRESCENTE CONEXÃO EM ESCALA GLOBAL: O CIBERESPAÇO COMO FERRAMENTA E ALVO PARA O CIBERTERRORISMO ......... 205 3 APONTAMENTOS SOBRE O CIBERTERRORISMO .......................................... 209 4 O DEBATE SOBRE CIBERTERRORISMO NO BRASIL ...................................... 215 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................ 219 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................... 228 AUTOATIVIDADE ................................................................................................ 229 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 232 1 UNIDADE 1 - GEOGRAFIA E PÓS- MODERNIDADE – LEITURAS DO ESPAÇO MULTIDIMENSIONAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • explicar as categorias de análise de região, regionalização e redes e articulações sociais; • identificar temas vinculados à reorganização do espaço mundial; • entender os conceitos de região e organização espacial e as propostas de regionalização do espaço brasileiro; • compreender a vinculação e a complexidade do estudo entre Geografia e pós- modernidade; • assimilar os conceitos de espaço liso e espaço estriado, espaço complexo e espaço multidimensional. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – PRINCIPAIS CONCEITOS GEOGRÁFICOS PARA COMPREENDER A REGIONALIZAÇÃO TÓPICO 2 – MÉTODO REGIONAL DE DIVISÃO E ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL: REGIONALIZAÇÃO TÓPICO 3 – A REGIONALIZAÇÃO DO BRASIL NO CONTEXTO MUNDIAL TÓPICO 4 – GEOGRAFIA, MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 PRINCIPAIS CONCEITOS GEOGRÁFICOS PARA COMPREENDER A REGIONALIZAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Este tópico trará um dos conceitos fundamentais da ciência geográfica, a região. É uma grande ferramenta de análise das transformações da natureza e do homem, que, por vezes, é caracterizada como métodos: a regionalização e a análise regional. Vamos demonstrar aqui, por meio da análise do conceito de região, a suma importância da sua compreensão que ocorre da interação entre o homem e a natureza. Desse modo, vamos dividir o tópico em três partes. Na primeira parte abordaremos os fundamentos e conceitos de região, tendo como base as categorias de análise da geografia, reforçando assim, o princípio normativo da prática pedagógica. Na segunda parte será abordada a regionalização, método regional, com a reflexão sobre o contexto do seu processo dentro de transformações da sociedade. Por fim, na terceira parte, realizamos uma leitura das perspectivas contemporâneas dos estudos regionais, das redes e suas articulações sociais. Desejamos bons estudos! TÓPICO 1 - UNIDADE 1 2 A REGIÃO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE DA GEOGRAFIA Qual é o conceito de região? “Região é um dos conceitos mais difundidos e tradicionais da Geografia. Sua concepção remonta às origens do próprio pensamento geográfico, através do contraponto entre leituras do espaço mais gerais, “sistemáticas” e mais específicas, descritivas” (HAESBAERT, 2019, p. 117). Para compreender o conceito de região, entendemos que região é um espaço que foi dividido seguindo um critério específico para a compreensão de uma determina área. É uma categoria espacial de análise da geografia, constitui-se a região como entidade geográfica concreta, e a regionalização como um processo de diferenciação de recorte do espaço, sendo estes coesos, articulados (HAESBAERT, 2010a). 4 Neste contexto, o conceito de região, em virtude do processo de globalização, é marcado pela regionalidade, e, nesses termos, ganha grande importância a discussão sobre as reconfigurações e desarticulações em um embate global versus o local. A regionalidade, enquanto propriedade do "ser" regional (especialmente em sua dimensão simbólica e vivida), enfrentam hoje, num mundo globalizado, reconfigurações que atestam uma crescente complexidade em termos do seu desenho espacial e do entrecruzamento dos sujeitos e dimensões que as constroem. A região, assim, deve ser vista muito mais dentro de um processo mutável de desarticulações, em rede (num jogo nem sempre coincidente entre coesões funcionais e coesões simbólicas), do que nas formações zonais integradas e bem delimitadas com que tradicionalmente era trabalhada (HAESBAERT, 2010, p. 2). Verifica-se assim que o conceito de região é a parte de um todo, pois em um mundo globalizado não existe uma região isolada, sendo sempre a região uma parte de um espaço maior, compreendendo-se como a divisão do espaço em áreas menores. Lembre aqui como exemplo a regionalização do seu bairro, do seu município, do seu estado, como vemos na Figura 1. Podemos ver a identificação de regiões distintas que fo- ram divididas em espaços menores, mas que trazem características e traços em comum. FIGURA 1 – MAPA DA DELIMITAÇÃO DOS BAIRROS DE SÃO PAULO FONTE: <http://www.mapas-sp.com/bairros.htm>. Acesso em: 18 out. 2021. 5 Nesta perspectiva, entendemos que o conceito de região não se abstém como uma simples definição, mas um dos mais tradicionais conceitos da geografia. Inicialmente, está ligado à concepção fundamental de diferenciação de áreas, mas, que no decorrer do tempo perpassa por transformações conceituais e se insere em correntes do pensamento geográfico. Os conceitos de região e de organização espacial são básicos para se compreender o caráter distinto da geografia no âmbito das ciências sociais, indicando a via geográfica de conhecimento da sociedade, quer dizer, das relações entre natureza e história. A discussão destes termos, por outro lado, pressupõe que se tenha uma certa informação da evolução do pensamento geográfico desde, pelo menos, o final do século XIX, quando a geografia assume o caráter de disciplina acadêmica, dotada de um processo de mudança de paradigmas que se insere no bojo da história (CORRÊA, 2000, p. 12). Para Gomes (2001), em sua análise histórica, há três grandes debates que contribuem para as discussões geográficas no tema, permeando debates de noções de região natural, de região geográfica e o peso à região natural, como região quantificada e analítica, região como realidade autoevidente e como a possibilidade de mutação dos critérios de definição do espaço. É importante reconhecer que a própria origem etimológica do termo região já traz a alusão a “recorte” ou delimitação. Segundo o Dictionnaire Étimologique de la Langue Latine, “regio” designa as linhas retas traçadas no céu pelos áugures [adivinhos romanos] para aí delimitarem as partes; daí o sentido de “limites, fronteiras‟e, em consequência, “porção delimitada, bairro, região ‟. Por outro lado, ao mesmo tempo se refere a limite, área delimitada; devemos lembrar que a raiz “reg” indicava também movimento (em linha reta) (HAESBAERT, 2010, p. 24). Os geógrafos passam, então, a adjetivar a noção de região como uma tentativa de “diferenciá-la de seu uso pelo senso comum”. Nos últimos dois séculos surgiram os conceitos de região natural, região geográfica, região homogênea etc. As discussões que passam a ser travadas sobre eles acabaram provocando debates nos quais o tema predominante passou a ser a natureza, o alcance e o estatuto do conhecimento geográfico (GOMES, 2001). Como procuramos apontar, todas essas mudanças quanto às novas discussões partimos da realidade, e, nesta parte, vamos ver os principais conceitos de região apresentada por Corrêa, bem como de região natural ao de região geográfica de Vidal de La Blache, e por fim de região como classe de área (CORRÊA, 2000). Temos, assim, a região natural: surge no final do século XIX, sendo impulsionada pela expansão imperialista, com o determinismo ambiental suas principais correntes de pensamento. A região natural é entendida como uma parte da superfície da Terra, 6 dimensionada segundo escalas territoriais diversificadas, e caracterizadas pela unifor- midade resultante da combinação ou integração em área dos elementos da natureza: o clima, a vegetação, o relevo, a geologia e outros adicionais que diferenciariam ainda mais cada uma destas partes. Em outras palavras, uma região natural é um ecossistema onde seus elementos se acham integrados e são interagentes (CORRÊA, 2000). Com relação aos critérios de diferenciação, alguns poderão responder que o elemento ou, se quisermos, a dimensão do espaço geográfico mais relevante diz respeito aos aspectos naturais. Como ocorria numa das primeiras concepções de região, a região natural, elementos relativos à Geografia Física seriam os mais importantes pela diferenciação do espaço geográfico. Interpretações como aquelas do chamado determinismo ambiental defenderiam essa leitura, na qual a própria ação humana estaria subordinada a ou seria uma decorrência do meio físico-natural (HAESBAERT, 2019, p.118). A figura a seguir apresenta uma classificação dos climas do Brasil: FIGURA 2 – CLASSIFICAÇÃO DOS CLIMAS DO BRAISL FONTE: <https://bit.ly/3hMgxWB>. Acesso em: 18 out. 2021. 7 Utilizando-se o conceito de região natural, temos um exemplo do mapa que o IBGE confeccionou, classificando os tipos de climas zonais no Brasil. É sustentado pelos preceitos de região natural e baseado no clima que o autor Delgado de Carvalho apresenta o conceito de região natural ao Brasil em 1913. Para Gomes, (2001, p. 55), “o conceito de região natural nasce, pois, desta ideia de que o ambiente tem um certo domínio sobre a orientação do desenvolvimento da sociedade." A maior parte dessas definições tinha um viés determinista ou "ambientalista". Outros geógrafos fariam restrições a essa concepção mais generalizante e racionalista em que um elemento, no caso, natural (sobretudo o clima), acabava sempre por vencer. Numa primeira flexibilização dessa ideia alguns propuseram que o elemento físico que melhor definiria a região poderia variar conforme a área e a escala (numa o clima, noutra o relevo, por exemplo). Foi o caso de Paul Vidal de la Blache num de seus primeiros trabalhos. Mas foi ele também, enquanto autor clássico que defendeu distintas concepções de região, um dos proponentes de uma região que obrigatoriamente vinculava o natural (o “meio”) e o cultural (o “homem”) (HAESBAERT, 2019, p.118). Posteriormente, surge a questão do possibilismo e a região, que se atribuiu de modo diferente à questão da região. Nesta visão, Corrêa (2000, p.14) salienta que: O possibilismo considera de modo diferente a questão da região. Não é a região natural, e sua influência sobre o homem, que domina o temário dos geógrafos possibilistas. É, sem dúvida, uma região humana vista na forma da geografia regional que se torna seu próprio objeto. A região considerada é concebida como sendo, por excelência, a região geográfica. O possibilismo vai considerar a evolução das relações homem e a natureza, reagindo ao determinismo ambiental, adaptando a uma ação modeladora, em que o ser humano com sua cultura vai revelar uma paisagem e um gênero de vida, “ambos próprios e peculiares a cada porção da superfície da Terra” (CORRÊA, 2000, p. 14). A identificação da região como elemento de análise da geografia, surge ao final do século XIX, com o grande pensador da geografia, Vidal de La Bache. Foi ele quem considerou os princípios da Geografia Regional, remontando a relação homem-meio. Nascia o período áureo da Geografia Regional – verdadeiro paradigma da Geografia como um todo, com a região transformada quase num personagem, uma “entidade viva”, um dado que caberia ao geógrafo reconhecer, principalmente através da morfologia da paisagem identificada em trabalho de campo. Daí a analogia entre região e paisagem (morfológica) (HAESBAERT, 2019, p. 118). Surgindo de forma ampla, La Blache expõe o conceito de “região geográfica” para denominar essas parcelas da superfície terrestre que apresentam certa homoge- neidade de características, derivadas da combinação entre elementos do meio natural e da ação humana. 8 A região geográfica abrange uma paisagem e sua extensão territorial, onde se entrelaçam de modo harmonioso componentes humanos e natureza. A ideia de harmonia, de equilíbrio, evidente analogia organicista que Vidal de Ia Blache adota, constitui o resultado de um longo processo de evolução, de maturação da região, onde muitas obras do homem fixaram-se, ao mesmo tempo com grande força de permanência e incorporadas sem contradições ao quadro final da ação humana sobre a natureza (CORRÊA, 2000, p. 12). A partir dos pressupostos estabelecidos por este ramo da ciência geográfica, aborda-se a região geográfica como uma entidade concreta, palpável, em estágio de evolução. Nesta perspectiva, o geógrafo tem como objetivo reconhecê-la, descrevê-la e explicá-la, deixando claros os seus limites e escalas da sua formação e evolução. O autor, por meio de uma discussão histórica, entende que: a região geográfica dos possibilistas não se diferenciava da região natural. No processo de reconhecimento, descrição e explicação dessa unidade concreta, o geógrafo evidenciava a individualidade da região, sua personalidade, sua singularidade, aquela combinação de fenômenos naturais e humanos que não se repetiria (CORRÊA, 2000, p. 14). Para não esquecer sugerimos a leitura do trecho do artigo do Professor Dr. Rogério Haesbaert (2019, p. 118): “Para outros geógrafos e “cientistas regionais” (em geral economistas) o principal elemento diferenciador/ identificador de regiões refere-se à dinâmica econômica – nascem assim regiões como a região polarizada ou funcional urbana, comandada pelas diferentes funções econômicas de cada centro urbano e a hierarquia estabelecida entre eles, especialmente através do seu papel comercial e de prestação de serviços. Essa abordagem funcionalista da região teve origem na região nodal de geógrafos como Halford Mackinder e o próprio La Blache. Ela foi sofisticada nos anos 1930 por teorias como a do lugar central de Walter Christaller. Em outras bases filosóficas, como a materialista dialética, encontramos a região como produto da divisão espacial capitalista do trabalho ou das relações desiguais e combinadas entre centros e (semi)periferias. A força dessas concepções faz com que a disciplina que até hoje mais dialogou com a Geografia através do conceito de região seja a Economia. Daí o fato de que muitas das abordagens mais difundidas de região estejam focadas sobretudo na reprodução econômica, enfatizando a articulação espacializada das práticas econômico funcionais. Entre concepções mais recentes de região, poucas são aquelas que não dão destaque aosprocessos econômicos. O conceito de cidade-região, por exemplo, leva em conta o papel crescente das dinâmicas de urbanização e de metropolização na conformação não apenas hierárquica, mas também mais horizontalizada das relações econômicas. O aumento da urbanização praticamente equivale, em muitos casos, a falar do próprio urbano como região. Outra concepção é a da “região com buracos”, de um grupo de geógrafos britânicos, entre os quais Doreen Massey, que considera a dinâmica do capitalismo pós-fordista ou de acumulação flexível e sua articulação espacialmente desigual, criando “buracos”, diversas áreas excluídas das redes articuladoras dessa nova dinâmica”. DICA 9 Por fim, temos o conceito de região como uma conceitualização de classe de área, que evolui a partir da década de 1950. Os estudos regionais sofrem mudanças consideráveis, a nova geografia é fundamentada no positivismo lógico e na dedução. Assim, o conceito de região deixa de ser objeto concreto de análise e se transforma em uma criação intelectual, dando destaque aos procedimentos espaciais, por meio das teorias de localização e desenvolvimento regional. 3 REGIONALIZAÇÃO E ESCALAS: A QUESTÃO ESPAÇO/ TEMPORAL Como exposto até aqui, a regionalização global se desenvolve em rede, e atualmente o mundo é um espaço de encontros e conexões, ou seja, conectado e interligado por meio de redes. Corrêa (2011) relata os inúmeros tipos de redes geográficas, como: redes urbanas, redes de multinacionais, redes bancárias, redes digitais, redes viárias, redes sociais, redes comerciais e dentre outras. Por rede geográfica entendemos “um conjunto de localizações geográficas interconectadas” entre si “por um certo número de ligações”. Este conjunto pode ser constituído tanto por uma sede de cooperativa de produtores rurais e as fazendas a ela associadas, como pelas ligações materiais e imateriais que conectam a sede de uma grande empresa, seu centro de pesquisa e desenvolvimento, suas fabricas, depósitos e filiais de venda. Pode ser constituído pelas agências de um banco e os fluxos de informações que circulam entre elas, pela sede da Igreja Católica, as dioceses e paróquias, ou ainda pela rede ferroviária de uma dada região. Há, em realidade, inúmeras e variadas redes que recobrem, de modo visível ou não, a superfície terrestre (CORRÊA, 2011, p. 107). Algumas das dimensões de análise das redes geográficas são de múltiplas diferenciações, e Corrêa (2012, p. 205) sugere três dimensões que são básicas e independentes entre si: a organizacional, a temporal e a espacial. As redes geográficas, como qualquer construção social, são passíveis de análise segundo diferentes dimensões. Sugerimos que três dimensões básicas e independentes entre si, cada uma delas incluindo temas pertinentes para análises específicas, podem descrever a complexidade da rede geográfica: envolvendo a estrutura interna, o tempo e o espaço. Assim distribuídos: • Organizacional 10 No que tange à dimensão organizacional, sugeriu-se que se considerassem os agentes sociais (Estado, empresas, instituições e grupos sociais), a origem (planejada ou espontânea), a natureza dos fluxos (mercadorias, pessoas, informações), a função (realização, suporte), a finalidade (dominação, acumulação, solidariedade), a existência (real, virtual), a construção (material, imaterial), a formalização (formal, informal) e a organicidade (hierárquica e complementaridade). • Temporal A dimensão temporal, por sua vez, envolveria o conhecimento da duração (longa, curta), da velocidade dos fluxos (lenta, instantânea) e da frequência (permanente, periódica, ocasional). • Espacial Abrangeria o conhecimento da escala (local, regional, nacional, global), da forma espacial (solar, dendrítica, circuito, barreira) e das conexões (interna e externa). É evidente que o autor propôs as dimensões de análise como uma proposição de um estudo de uma rede geográfica, ou seja: A sugestão constitui, em realidade, uma proposição para o estudo de uma dada rede geográfica. Cada rede situa-se em cada um dos quinze aspectos indicados, o que não significa, porém, que todos eles devam ser considerados com a mesma intensidade. É a partir da problemática construída sobre uma dada rede que serão selecionados os aspectos a serem estudados. Assim, os agentes sociais podem ser analisados vendo-se, para cada um, a função, a frequência dos fluxos e a forma da rede. Ou, com base em outra problemática, é possível estabelecer relações entre a origem da rede, sua finalidade, a velocidade dos fluxos e a conexão (CORRÊA, 2012, p. 205). Partindo desta perspectiva, as redes geográficas nos ajudam a compreender e perceber a sociedade, o espaço contemporâneo em um mundo desigual e globalizado, com grandes e profundas articulações sociais, econômicas, culturais, espaciais e históricas. É determinante assim compreender a rede geográfica e a regionalização. 11 SINAL VERDE – PODEMOS AVANÇAR Na tentativa de apreender a época em que vivemos, recorremos a entender a Região como ARTE-FATO, conceitualização realizada por Haesbaert (2010, p. 6-8). “Podemos afirmar que a região caminhou, ao longo da história do pensamento geográfico, mais ou menos como num pêndulo entre posições mais idiográficas ou valorizadoras das diferenças e posições mais nomotéticas ou que enfatizavam as generalizações. É claro que ela, enquanto conceito, foi majoritária sobretudo nos momentos mais idiográficos ou voltados para a realidade empírica, numa valorização da região como “fato” (seja como “fato” concreto, material, seja como “fato” simbólico, vivido), do que nos períodos em que se afirmava uma Geografia Geral, voltada para a construção teórica, mais racionalista, onde a região adquiriu um papel mais de “artifício” (analítico) do que de realidade efetivamente construída e/ou vivida. [...] Conforme vimos ao longo deste trabalho propomos aqui um caminho mais complexo, para o entendimento da região não simplesmente como um “fato” (em sua existência efetiva) nem como um mero “artifício” (enquanto recurso teórico, analítico) ou como instrumento normativo, de ação (visando a intervenção política, via planejamento). Propomos então tratar a região como um “artefato” (sempre com hífen), tomada na imbricação entre fato e artifício e, de certo modo, também, enquanto ferramenta política. A região vista como arte-fato é concebida no sentido de romper com a dualidade que muitos advogam entre posturas mais estritamente realistas e idealistas, construto ao mesmo tempo de natureza ideal- simbólica (seja no sentido de uma construção teórica, enquanto representação “analítica” do espaço, seja de uma construção identitária a partir do espaço vivido) e material-funcional (nas práticas econômico-políticas com que os grupos ou classes sociais constroem seu espaço de forma desigual/diferenciada). “Arte-fato” também permite indicar que o regional é abordado ao mesmo tempo como criação, autofazer-se (“arte”) e como construção já produzida e articulada (“fato”). Assim, sintetizando, a partir da discussão da região como arte-fato, nossa proposta se pauta em algumas questões fundamentais, notadamente: • a região como produto-produtora das dinâmicas concomitantes de globalização e fragmentação, em suas distintas combinações e intensidades, o que significa trabalhar a extensão e a força das principais redes de coesão ou, como preferimos, de articulação regional, o que implica identificar também, por outro lado, o nível de desarticulação e/ou de fragmentação de espaços dentro do espaço regional em sentido mais amplo; • a região construída através da atuação de diferentes sujeitos sociais (genericamente: o Estado, as empresas, as instituições de poder não-estatais e os distintos grupos socioculturais e classes econômico-políticas) em suas lógicas espaciais zonal e reticular, acrescentando-se ainda a “i-lógica” dos aglomerados resultante principalmente de processos de exclusão e/ou precarizaçãosocioespacial (HAESBAERT, 2004a e 2004b), cuja consideração é hoje, cada vez mais, imprescindível. • a região como produto-produtora dos processos de diferenciação espacial, tanto no sentido das diferenças de grau (ou desigualdades) quanto das diferenças de tipo ou de natureza (diferença em sentido estrito), tanto das diferenças discretas quanto das diferenças contínuas (nos termos de BERGSON, 1993, 2006). [...]”. FONTE: Adaptado de HAESBAERT, R. Região, regionalização e regionalidade: questões contemporâneas. Antares, n. 3 – jan. / jun., 2010, p. 2-24. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile. php/4553781/mod_resource/content/1/3.haesbaert.pdf. Acesso em: 18 out. 2021. INTERESSANTE https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4553781/mod_resource/content/1/3.haesbaert.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4553781/mod_resource/content/1/3.haesbaert.pdf 12 O conceito de Rede Geográfica: conjunto de localizações humanas articuladas entre si por meio de vias e fluxos. Ou seja, ela constitui caso particular de rede em geral, esta forma advém da topologia, que tem grande importância para a Geografia, pois é parte fundamental da espacialidade humana (CORRÊA, 2012). NOTA 4 OS DIFERENTES TIPOS DE ESPAÇO Transformando-se de um conceito associado determinismo ambiental e do possibilismo, para a versão fundamentada no positivismo lógico (CORRÊA, 2000). Com o mundo cada vez mais globalizado, a região é definida como um Conjunto de lugares onde as diferenças internas entre esses lugares são menores que as existentes entre eles e qualquer elemento de outro conjunto de lugares. As similaridades e diferenças entre lugares são definidas através de uma mensuração na qual se utilizam técnicas estatísticas descritivas como o desvio padrão, o coeficiente de variação e a análise de agrupamento. Em outras palavras, é a técnica estatística que permite revelar as regiões de uma dada porção da superfície da Terra (CORRÊA, 2000, p. 14). Determinismo: é a teoria caracterizada pelo pensamento de que o meio natural determinava o homem, sendo o homem fruto direto do meio. Assim, o ser humano não possui liberdade total de decidir e influenciar no que acontece ao seu redor. Possibilismo: é a teoria de pensamento geográfico que tem como base que o ambiente natural é um mero fornecedor de possibilidades para modificação humana; assim, o possibilismo discute as relações homem-meio natural. Apresentando-nos um viés interpretativo diferente daquele apresentado por Ratzel que entende a natureza, como fator determinante do comportamento humano. O ser humano tem plena liberdade para utilizar a natureza como quiser. Determinismo é o contrário do Possibilismo e vice- versa. Determinismo diz que o meio influencia o homem e o Possibilismo diz que o homem influencia o meio. Para compreender melhor esses conceitos, indicamos que assista ao vídeo: Determinismo e Possibilismo Geográfico na Compreensão da Sociedade, com o professor Me. Thiago Hernandes, graduado em Geografia pela Unesp, mestre em Geografia pela UEM e doutorando em História pela Unesp. O vídeo tem cerca de cinco minutos e se encontra disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=ZjkO1tlS1-E . DICA https://www.youtube.com/watch?v=ZjkO1tlS1-E 13 Nesse sentido, o autor observa que região passa a ser um conceito de sistema de regiões, que apreciava conhecimentos elaborados com princípios na classificação. FIGURA 3 – CLASSIFICAÇÃO DOS TERMOS REGIONAIS E OS TERMOS CLASSIFICATÓRIOS FONTE: Corrêa (2000, p. 19) Passa a ter similaridade com as ciências naturais, e Corrêa (2000) apresenta esta comparação entre os termos regionais e os termos classificatórios, que são utilizados por vertentes diferentes. No que se refere à nova geografia, as regiões podem ser: FIGURA 4 – ENFOQUES DE DIVISÃO REGIONAL FONTE: Corrêa (2000, p. 18) As regiões simples são aquelas originadas de um único critério ou variável; as regiões complexas levam em conta muitos critérios ou variáveis. As regiões homogêneas caracterizam-se pela inalterabilidade de critérios ou variáveis analisadas, levando ao agrupamento de áreas; as regiões funcionais são definidas de acordo com os fluxos de pessoas, mercadorias, informações, decisões e ideias. As regiões homogêneas e funcionais são excludentes, mas podem ser simples ou complexas. O método empregado para estabelecer as regiões pode ser a divisão lógica, na qual se procura diferenciações entre os lugares, ou o agrupamento, que consiste na procura de regularidades. 14 O que ocorre é a criação de uma tipologia, as regiões, que são distinguidas pelos seus atributos específicos, não havendo a necessidade de contiguidade espacial. O con- ceito de organização espacial é apresentado pela nova geografia como padrão espacial resultante de decisões locacionais, privilegiando as formas e os movimentos sobre a superfície da Terra, ou seja, “o objeto da geografia é, portanto, a sociedade, e a geografia viabiliza o seu estudo pela sua organização espacial. Em outras palavras, a geografia re- presenta um modo particular de se estudar a sociedade” (CORRÊA, 2000, p. 28). Indicamos, para a leitura mais aprofundada do tema, o livro “Regional- Global: dilemas da região e da regionalização na geografia contemporânea”, de Rogerio Haesbaert, que reúne elementos suficientes para apresentar múltiplas vertentes sobre o conceito de Região. O autor relata a região no âmbito da história do pensamento geográfico, dialogando com autores fundamentais como Vidal de la Blache, Sauer e Hartshorne, mas também com nomes mais recentes que vêm retrabalhando o conceito, tais como Massey, Werlen e Thrift. Referência da obra: HAESBAERT, R. Regional-Global: dilemas da região e da regionalização na geografia contemporânea. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. DICA Como vemos nas indicações, a região é um conceito polissêmico, ou seja, sob a perspectiva que o conceito região é constituída por idas e vindas, no decorrer vão aparecendo e reaparecendo na história do pensamento geográfico, “mortes e ressurreições” (HAESBAERT, 2019), de sua construção como categoria da geografia, são como uma categoria de análise normativa, prática e pedagógica. Assim, é preciso reconhecer a importância de seu uso ao mesmo tempo como categoria da prática, amplamente difundida no âmbito do senso comum, cotidiano; como categoria analítica, no circuito acadêmico, e como categoria normativa, na esfera, por exemplo, das políticas estatais de planejamento. Ao mesmo tempo que se distinguem, essas perspectivas se cruzam, sendo indispensável, em diversos momentos, estabelecer o diálogo entre elas. Dependendo da corrente teórica, a região pode estar mais próxima do espaço vivido onde se moldam as identidades regionais, por exemplo. Em outros, quando se enfatiza uma visão mais pragmática, podemos ter forte presença das “regiões-plano” ou “regiões-programa”, vinculadas ao planejamento regional (HAESBAERT, 2019, p.). Para Haesbaert (2019), a principal problemática do conceito Região em primeiro lugar são as questões elementares da “diferenciação do espaço geográfico, permitindo identificar suas partes ou singularidades através de diferenças de natureza ou tipo e diferenças de grau (como as desigualdades)”. 15 Para compreender melhor o conceito de Região e para colaborar com o entendimento para os próximos tópicos, indicamos que assista ao vídeo: Revendo questões regionais: de(s)colonização da região em Geografia, com o Prof. Dr. Rogério Haesbaert, o vídeo é uma aula que o professor foi convidado a participar na pandemia direcionado pelo PET Geografia UFGD. O vídeo tem cerca de duas horas e se encontra disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=lrMlgWE3WXQ&t=1642s. DICA Mesmo como categoria da prática, difundida pelo senso comum, comumente região é tratada como sinônimo de porção do espaço delimitada por algum critério ou dotada de alguma característica própria, distintiva. Numa leiturabastante genérica, que alguns preferem associar a processos mais amplos de regionalização, mais do que a região propriamente dita, essa concepção é retomada no âmbito acadêmico, ao serem discutidos os critérios e/ou as características mais marcantes na diferenciação do espaço geográfico ou, se quisermos, na definição de uma região (HAESBAERT, 2019, p.117). De sua raiz etimológica “Regere”, temos sua dimensão política, e, entre outras, regionalizar é uma forma de recortar, classificar, nomear e identificar um espaço. Para muitos, trata-se ainda hoje de uma das questões geográficas fundamentais: ao lado de outras ligadas à extensão/escala e à localização/situação de um fenômeno, em que medida e com base em que critérios o espaço geográfico pode ser diferenciado? Desse modo, a regionalização como método intelectual para analisar o espaço e nele encontrar partes, “recortes” (ou, como preferimos, hoje, “articulações”) regionais, pode utilizar distintos caminhos, dependendo dos critérios, do local e da extensão ou escala do espaço geográfico pertinentes ao pesquisador (HAESBAERT, 2019, p. 118). https://www.youtube.com/watch?v=lrMlgWE3WXQ&t=1642s 16 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: RESUMO DO TÓPICO 1 • Conforme Haesbaert (2010), Região constitui-se uma categoria espacial de análise da geografia, a Região como entidade geográfica concreta, e a Regionalização como um processo de diferenciação de recorte do espaço, sendo estes coesos, articulados. • O conceito de região é o espaço geográfico dividido, seguindo um critério específico para a compreensão de uma determinada área, que se constituiu em uma categoria espacial de análise da geografia. Sendo como uma categoria de análise, normativa, prática e pedagógica. • A região é um conceito polissêmico, constituído de idas e vindas, com mortes e ressureições. • A construção de região como categoria da geografia, são como uma categoria de análise normativa, prática e pedagógica. • A globalização realiza em seu processo a estruturação de uma regionalização em várias escalas, que são: locais, estaduais, nacionais e internacionais. • A regionalização global acontece em rede, pois atualmente o mundo é um espaço de encontros e conexões, ou seja, conectado e interligado por meio de redes. • Nos últimos dois séculos surgiram os conceitos de região natural, região geográfica, região homogênea, e tiveram muitas discussões e debates sobre o conceito de região. 17 1 “Região é um dos conceitos mais difundidos e tradicionais da Geografia. Sua concepção remonta às origens do próprio pensamento geográfico, através do contraponto entre leituras do espaço mais gerais, “sistemáticas” e mais específicas, descritivas (HAESBAERT, 2019, p.117)”. Sobre o conceito de região, analise as sentenças a seguir: I- Constitui-se uma categoria espacial de análise da geografia. II- Pode ser entendida como uma área que foi dividida seguindo um critério específico para a compreensão de uma determina área. III- Algumas regiões surgem em classes de áreas, ou seja, derivadas da combinação entre elementos do meio natural e da ação humana. IV- As regiões naturais são aquelas que foram estabelecidas de acordo com critérios como vegetação, clima e relevo, com um viés determinista ou ambientalista. V- Essa categoria refere-se aos aspectos perceptíveis do espaço geográfico, isto é, a forma como compreendemos o mundo a partir de nossos sentidos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II, IV e V estão corretas.. b) ( ) As sentenças I, III e V estão corretas. c) ( ) As sentenças I, II, III e IV estão corretas. e) ( ) Somente a sentença V está correta. 2 Para o autor Corrêa (2000), o termo região não apenas faz parte do linguajar do homem comum, como também é dos mais tradicionais em geografia. Sendo assim, considerando os conceitos de região apresentados por Corrêa (2000) sobre a Região Natural, analise as sentenças a seguir: I- Uma região natural é um ecossistema onde seus elementos acham-se integrados e são interagentes. II- A Região natural vai considerar a evolução das relações homem e a natureza, reagindo ao determinismo ambiental, adaptando a uma ação modeladora. III- A Região natural surge no final do século XIX, com o determinismo ambiental suas principais correntes de pensamento. IV- Tem a combinação ou integração em área dos elementos da natureza: o clima, a vegetação, o relevo, a geologia e outros. AUTOATIVIDADE 18 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença I está correta. 3 Por meio da nova geografia relatada por Corrêa (2000), que se refere aos termos da ampla possibilidade de aparecimento dos propósitos de divisão regional, há dois enfoques que não se excluem mutuamente. Apresente e discorra sobre as regiões simples, complexas, homogêneas e funcionais. 4 É uma categoria espacial de análise da geografia. Constitui-se como entidade geográfica concreta, e a regionalização como um processo de diferenciação de recorte do espaço, sendo estes coesos, articulados. A que categoria geográfica se refere a definição? a) ( ) Paisagem. b) ( ) Lugar. c) ( ) Espaço geográfico. d) ( ) Região. 5 “Para outros geógrafos e “cientistas regionais” (em geral economistas) o principal elemento diferenciador/ identificador de regiões refere-se à dinâmica econômica – nascem assim regiões como a região polarizada ou funcional urbana, comandada pelas diferentes funções econômicas de cada centro urbano e a hierarquia estabelecida entre eles, especialmente através do seu papel comercial e de prestação de serviços (HAESBAERT, 2019, p. 117).” Conforme o autor analisa as questões regionais no Brasil, verificamos diferenças econômicas entre as regiões. Desta maneira, podemos afirmar que há regiões que são mais industrializadas, enquanto outras são mais agrícolas. Portanto, disserte sobre quais são as regiões mais industrializadas do Brasil. 19 MÉTODO REGIONAL DE DIVISÃO E ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL: REGIONALIZAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Iniciaremos a nossa reflexão ponderando que as leituras realizadas e traba- lhadas nesta unidade passaram por desdobramentos ao longo do tempo, o que nos possibilitou o aprofundamento em diferentes abordagens e discussões geográficas. O método regional de divisão e de organização do espaço mundial, a regionalização, não ficou somente na ciência geográfica, e sim expandiu-se por outras áreas de conheci- mentos, e nos fez dialogar por meio de regionalizações dos espaços. Desse modo, vamos dividir o tópico em três partes. Na primeira serão abordados os fundamentos do conceito de regionalização, atrelado à globalização, que provoca uma regionalização em várias escalas, uma regionalização geopolítica. Na segunda parte será abordada a regionalização como processo de divisão do espaço mundial, pois a realidade é dinâmica. Os processos de regionalização dos espaços também acompanham essa dinâmica espacial, o que nos possibilita entender as diferentes formas de regionalização. Por fim, na terceira parte, vamos iniciar os assuntos referentes às perspectivas contemporâneas dos estudos regionais, que contribuirá para visualizar futuramente nas próximas unidades os tipos de regionalizações abordadas. UNIDADE 1 TÓPICO 2 - 2 O CONCEITO DE REGIONALIZAÇÃO É importante que façamos agora uma reflexão sobre o contexto do processo de transformações da sociedade, que a partir dos séculos XX e XXI aceleram-se e trazem grandes dificuldades para quem tem que refletir sobre as regionalizações e a globalização. A globalização, ao mesmo tempo em que tenta unificar espaço geográfico, estimula novas diferenciações, dando margem a novas formas de regionalizações e de transformações no meio geográfico, gerando, em consequência, o surgimento de uma nova fase com novas características(ANDRADE, 2001, p. 8). 20 Vemos a globalização em seu processo provocar uma estruturação de uma regionalização em várias escalas, sendo elas, locais, estaduais, nacionais e internacionais, se configurando não mais como na geografia tradicional, uma regionalização natural, mas agora como uma regionalização geopolítica. Como foi apresentado por Corrêa (2000, p. 22), “a aceitação do conceito está na ideia de que a “superfície da terra é constituída por áreas diferentes entre si”, ou seja, a região é um recorte espacial de um determinado espaço geográfico em que, existam características homogêneas internas e características heterogêneas externas de outros recortes do espaço geográfico, formando assim regiões que se diferenciam entre si. Dessa forma, regionalizar é uma maneira de recortar, classificar, nomear e identificar um espaço. A regionalização, é a ação de construir regiões. O conceito de região evoluiu epistemologicamente com base nessas perspectivas filosóficas. Regionalizar, no seu sentido mais amplo e relacionado a uma de suas raízes etimológicas, enquanto “recortar” o espaço ou nele traçar li- nhas, é uma ação ligada também ao sentido de orientar(-se) – como na antiga concepção de “região” dos áugures (adivinhos) romanos que, através de linhas ou “regiões” traçadas no céu pretendiam pre- ver o destino de nossa vida aqui na Terra. Mas como “orientar-se” através de nossas regionalizações num mundo que, para muitos, encontra-se marcado mais pela desordem do que pela ordem, mais pela precarização e vulnerabilidade do que pelo fortalecimento e es- tabilidade de nossos vínculos territoriais? (HAESBAERTb, 2010, p. 4). Para Gomes (2001, p. 72), as propostas de regionalização estão alicerçadas numa reflexão política de base territorial, com controle e gestão de um território. A regionalização não se define somente a essa divisão de áreas que se assemelham e diversificam uma das outras, mas que “região, como foi dito anteriormente em sua etimologia, significa domínio da relação entre um poder central e um espaço diversificado. Há sempre uma proposição política, vista sob o ângulo regional”. Um primeiro pressuposto é o de que “regionalizar” significa, de saída, assumir a natureza do regional, hoje, ao mesmo tempo como condicionado e condicionante em relação aos chamados processos globalizadores – ou melhor, como seu constituinte indissociável – a ponto de, muitas vezes, regionalização e globalização se tornarem dinâmicas tão imbricadas e complementares que passam a ser, na prática, indiscerníveis, muitos apelando para neologismos como “glocalização” para entender a complexidade desses processos. Mas a globalização, como bem sabemos, está longe de ser um consenso, em primeiro lugar por não representar um processo uniforme e, neste sentido, não ser propriamente “global”. Muitos pesquisadores preferem mesmo utilizar o termo sempre no plural, “globalizações”, distinguindo aí suas múltiplas dimensões, a enorme desigualdade com que é produzida/difundida e seus diferentes sujeitos – tanto no sentido daqueles que prioritariamente a promovem e a desencadeiam, quanto daqueles que a ela, basicamente, encontram- se subordinados (HAESBAERTb, 2010, p. 4). 21 Como relatado por Haesbaert (2010), elencar o processo globalizador é elencar juntamente o processo regionalizador, ou seja, “em nome de uma lógica individualista-contábil mundial, este movimento propõe de alguma maneira integrar as mais distintas áreas do planeta, “regionalizando” sobretudo na forma que melhor convém às suas estratégias geográficas de circulação, acumulação e dominação” (HAESBAERT, 2010b, p. 4). O autor ainda nos apresenta um contraponto a essa articulação, processos contraditórios e/ou ambivalentes, bem como ele denominou de contra hegemônico, contraglobalizadores/regionalizadores, e outra a globalização e regionalização. Mas há sempre, é claro, articulado de forma contraditória e/ ou ambivalente, um processo que podemos denominar de contra-hegemônico – ou, mais simplesmente, de destruição das hegemonias (no sentido da hierarquia que elas implicam), tanto de forma mais localizada quanto mais global, como nos movimentos contraglobalizadores (que são também, concomitantemente, contra regionalizadores), ou melhor, por uma outra globalização- regionalização, capitaneada fundamentalmente pelos grupos ou classes subalternos (HAESBAERT, 2010b, p. 4). Nessa perspectiva, temos que uma fração de espaço diferenciada pelo seu caráter individual e singular, seja natural, social, econômico ou político, observamos que este processo contínuo e desigual de diferenciação de áreas pode ser denominado regionalização. É relevante salientarmos que as questões referentes à regionalização, o autor traz como um processo em constante rearticulação e de ser regional. Com isso, entendemos que por várias décadas a definição de região e as metodologias de regionalização vêm sendo revisados em várias disciplinas do conhecimento, notadamente no âmbito da ciência geográfica. Culminando em muitas propostas de regionalização, mesmo que fossem sujeitas de crítica e ressalvas. IMPORTANTE Nesse sentido, por exemplo, entre as divisões de denominação clássicas, podemos citar a divisão em hemisférios (norte/sul e oriental/ocidental), em continentes (América, Europa, África, Ásia e Oceania), além de destacar e descrever de maneira sucinta, alguns processos de regionalização do espaço mundial, que contribuíram para que o mundo se configurasse no quadro atual, pois vocês terão oportunidade de visualizar futuramente nos tópicos específicos os tipos de regionalizações abordadas. 22 3 REGIONALIZAÇÃO COMO PROCESSO DE DIVISÃO DO ESPAÇO MUNDIAL Vamos pensar, ainda, que se as áreas apresentam semelhanças entre si, deve- se uni-las, e desta maneira teremos uma região. Ainda assim, quais os critérios que as unem e as regionalizam? No âmbito dessa discussão, as características e as diferenças para regionalizar os espaços foram pautadas em divisões que levaram em consideração aspectos históricos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e outros. As regionalizações, portanto, retratam o dinamismo dos processos produtivos pautados em diferentes maneiras de apropriação de áreas, a partir do colonialismo, imperialismo, socialismo e capitalismo que desenharam a composição regional em: Velho Mundo, Novo Mundo e Novíssimo Mundo; países centrais e periféricos ou países capitalistas e socialistas; países do primeiro, segundo e terceiro mundo; países desenvolvidos e subdesenvolvidos; países do norte (ricos) e países do sul (pobres). Vamos pensar quais critérios e tipos de regionalização já foram pensadas. Compreende-se que cada proposta de regionalização é fundamentada por finalidades e critérios, como exemplo, portanto, se a finalidade do estudo é realizar uma análise das atividades econômicas dos países da América Latina, os critérios adotados terão como referência os elementos e os tipos de atividades econômicas, como, volume de produção, matéria-prima, indústrias, comércio, exportação, importação, entre outros elementos. Outro exemplo que também podemos resgatar são as paisagens naturais do estado do Amazonas, os critérios que serão adotados terão como referência os elementos e fatores naturais, bem como clima, hidrografia, relevo, solo, vegetação. Assim, para realizar a regionalização vai depender do foco e tema do estudo, com critérios finalidades bem alinhadas. As regionalizações mundiais podem ocorrer através de diversas formas, como já relatado anteriormente. Seguem exemplos de formas e maneiras que podemos de- limitar o espaço por meio das características elegidas, bem como as regionalizações mundiais mais comuns e conhecidas é por continentes, paisagens naturais, cultura e aspectos econômicos. • Continentais Abordam o critério da distribuição geográfica dos países pelos continentes da Terra. Regionalizando o mundo desta forma, temos seis continentes: África, Ásia,Europa, América, Oceania e Antártica. 23 FIGURA 5 – REGIONALIZAÇÃO POR CONTINENTES FONTE: <https://www.estudopratico.com.br/continentes-quais-sao-e-paises/>. Acesso em: 18 out. 2021. Para valorizar e aprender mais sobre mapas e continentes, acesse a página do IBGE, ao Atlas Geográfico Escolar na internet! Você vai encontrar ilustrações animadas sobre geografia e cartografia, e consulta a mapas do Brasil e do Mundo de uma forma fácil e atraente, onde poderá levar o seu aluno a realizar pesquisas e buscas interativas. IBGE traz até você o Atlas Geográfico Escolar em duas diferentes versões, revisadas e atualizadas e que abordam vários aspectos da nossa realidade e de outras nações, tais como: diversidade ambiental e cultural, características demográficas, espaço econômico, urbanização, espaço de redes, regionalização, desigualdades socioeconômicas, estrutura da população, recursos naturais, redes de transportes e indicadores econômicos, ambientais e sociais. O Atlas traz também explicações sobre a formação dos continentes, forma da terra, coordenadas geográficas, altitude, GPS, projeções, escala, sensoriamento remoto, aerofotogrametria, convenções cartográficas e mapeamento temático. O Atlas do IBGE também contempla os parâmetros e Referências Curriculares Nacionais (PCN) do MEC. Reunindo informações geográficas, cartográficas e estatísticas, o Atlas oferece um conjunto de informações imprescindíveis para o estudo e a análise das dimensões política, ambiental e econômica do Brasil e de outros países. Apresenta-se em duas versões: livro ou internet. Seguem os links de ambos para você realizar a pesquisa: Link do atlas escolar: https://atlasescolar.ibge.gov.br/mapas-atlas/ mapas-do-mundo/divisoes-politicas-e-regionais.html Link do Livro: https://atlasescolar.ibge.gov.br/versoes-do-atlas/livro Link do material da internet: https://atlasescolar.ibge.gov.br. DICA https://www.estudopratico.com.br/continentes-quais-sao-e-paises/ https://atlasescolar.ibge.gov.br/mapas-atlas/mapas-do-mundo/divisoes-politicas-e-regionais.html https://atlasescolar.ibge.gov.br/mapas-atlas/mapas-do-mundo/divisoes-politicas-e-regionais.html https://atlasescolar.ibge.gov.br/versoes-do-atlas/livro https://atlasescolar.ibge.gov.br 24 • Paisagens Naturais – BIOMAS Abordam a regionalização da unidade geográfica com um tipo de vegetação característica, ou seja, o bioma é uma grande extensão de terra que possui características climáticas e de vegetação próximas. FIGURA 6 – REGIONALIZAÇÃO POR BIOMAS FONTE: <https://querobolsa.com.br/enem/biologia/ecossistema>. Acesso em: 18 out. 2021. • Cultural Regionaliza e cria regiões de acordo com a cultura da sociedade, em divisões de idioma, hábitos, religiões, etnias, entre outras. Segue, na Figura 7, o exemplo de refugiados em 2017 e do deslocamento por turismo no mundo em 2016. https://querobolsa.com.br/enem/biologia/ecossistema 25 FIGURA 7 – REFUGIADOS – 2017 FONTE: <https://atlasescolar.ibge.gov.br/mapas-atlas/mapas-do-mundo/estrutura-e-dinamica-da-popula- cao.html>. Acesso em: 18 out. 2021. 26 FIGURA 8 – TURISMO – 2016 FONTE: <https://atlasescolar.ibge.gov.br/images/atlas/mapas_mundo/mundo_turismo.pdf>. Acesso em: 18 out. 2021. • Aspectos econômicos Abordam a classificação de ricos ou pobres; desenvolvidos ou subdesenvolvidos; blocos econômicos, como os BRICs, os Tigres Asiáticos, a União Europeia; países ricos ou pobres, dentre outras divisões. Podemos pensar os Blocos Econômicos como um grande quebra-cabeça e nele está a regionalização atual dos diferentes arranjos econômicos e políticos. Ou seja, os países se organizam em blocos para criar e proteger mercados regionais e a concorrência da globalização das relações econômicas. A seguir, vemos os Blocos Econômicos mapeados pelo IBGE (2020): 27 FIGURA 9 – BLOCOS ECONÔMICOS – 2018 FONTE: <https://atlasescolar.ibge.gov.br/images/atlas/mapas_mundo/mundo_blocos_economicos.pdf>. Acesso em: 18 out. 2021. Historicamente, no contexto mundial, os blocos são associações criadas entre os países e que estabelecem relações entre eles. Surgem através da constante concorrência das economias mundiais, com o objetivo de dinamizar e intensificar a cooperação econômica no mundo globalizado, em que as barreiras do comércio são reduzidas ou eliminadas. Com a participação nesse bloco, os países tendem a levar os seus produtos e serviços para outros lugares com algumas vantagens, como: Zonas de Livre Comércio, União Aduaneira, Mercado Comum e União Econômica e Monetária. 28 Para nos aprofundarmos mais do conceito de globalização, o livro do geógrafo Milton Santos nos ajuda a refletir sobre o tema. Leia: SANTOS, M. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal, 19. ed., Rio de Janeiro: Record, 2010. Para compreender a transformação e a regionalização político- administrativa do capitalismo, indicamos para a leitura mais aprofundada do tema, o livro: HARVEY, David. A transformação político-econômico do capitalismo do final do século XX. In:_____. A Condição Pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Edições Loyola, 1992. DICA 4 PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS DOS ESTUDOS REGIONAIS Como vimos no decorrer da leitura, os movimentos e perspectivas revelam complexos processos sociais de múltiplas dimensões da região. De acordo com Haesbaert (2010, p. 21), esses processos podem ser vistos por processos de articulação e desarticulação regional: Eles podem ser vistos dentro de um amplo continuum de construção daquilo que propomos denominar de des-articulação regional (sempre dentro de um movimento de mão dupla), desde aquelas articulações dominadas por uma maior coesão simbólica, até aquelas marcadas muito mais por uma coesão de ordem funcional. Não é pelo fato de não termos uma forte consciência ou identidade regional que a região, obrigatoriamente, deixará de existir, pois ela pode estar sustentada pelos laços funcionais de um arranjo socioeconômico que lhe dota de especificidade dentro das dinâmicas de diferenciação geográfica em sentido mais amplo. A especificidade dessa articulação (ou “combinação”) de elementos pode ou não se articular a uma coesão também ao nível simbólico-cultural, identitário. Conforme o autor, o mundo atualmente se configuraria como regiões zonas e regiões redes com uma articulação espacial consistente, e relata que é colocada a diferenciação de áreas e a articulação e desarticulação das redes Propomos manter o termo região, em sentido mais estrito, para esses espaços momento que resultam efetivamente em uma articulação espacial consistente (ainda que mutável e “porosa”), complexa, seja por coesões de dominância socioeconômica, política e/ou simbólico- cultural. Nesse caso cabe sempre discutir a força espacial/regional, ao mesmo tempo articuladora e desarticuladora, a partir dos sujeitos (socioeconômicos e/ou culturais) e interesses políticos envolvidos. Muitas vezes é para ou em relação a apenas algum(ns) grupo(s) que a região efetivamente se constitui – e, nesse sentido, sem dúvida, o que representa articulação para uns pode representar desarticulação 29 para outros. Uma das questões mais relevantes, hoje, pela força crescente de sua evidência, é que articulações regionais do espaço podem se manifestar não apenas na tradicional forma zonal, geralmente contínua, mas também em redes, dentro de uma lógica descontínua de articulação reticular (HAESBAERT, 2010, p. 21). Portanto, isso é fundamental para entender as configurações regionais atuais, pois inicia-se a intensificação da mobilidade e dos processos de exclusão social. Isso se deve tanto à intensificação da mobilidade – especialmente das migrações – quanto dos chamados processos de exclusão social (ou de precarização da inclusão. No primeiro caso, da intensificação da mobilidade humana, podemos ter a formação de “redes regionais” (HAESBAERT, 1997), onde elementos de regionalidade se reproduzem num espaço maisfragmentado, enquanto no segundo podem surgir “regiões com buracos” (ALLEN; MASSEY; COCHRANE, 1998), em que a articulação regional efetivamente só alcança determinados grupos ou classes e, consequentemente, espaços, deixando outros à margem do processo de coesão. 30 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • O processo da globalização provoca a estruturação de uma regionalização, delimitando o espaço geográfico em várias escalas: locais, estaduais, nacionais e internacionais. Assim, não se configura mais como na geografia tradicional, uma regionalização natural, mas agora como uma regionalização geopolítica. • As regionalizações mundiais podem ocorrer através de diversas formas, bem como por continentes, paisagens naturais, culturais e os aspectos geoeconômicos. • O conceito de rede geográfica é o conjunto de localizações humanas articuladas entre si por meio de vias e fluxos. • O mundo é um espaço de encontros e conexões, ou seja, conectado e interligado por meios de redes. • As redes geográficas nos ajudam a compreender e perceber a sociedade, o espaço contemporâneo em um mundo desigual e globalizado, com grandes e profundas articulações sociais, econômicas, culturais, espaciais e históricas. 31 1 Um dos aspectos que caracterizam o processo de globalização é a formação de blocos econômicos regionais, criados e mantidos com base em realidades e anseios dos países membros. Os blocos são associações criadas entre os países e que estabelecem relações entre eles. Com base nisso, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A participação em algum bloco os países tendem-se a levar seus produtos e serviços para outros lugares com algumas vantagens. ( ) Surgem através da constante concorrência das economias mundiais, com o objetivo de dinamizar e intensificar a cooperação econômica no mundo globalizado, onde as barreiras do comercio são reduzidas ou eliminadas. ( ) Os blocos econômicos questionam os caminhos percorridos pela economia global dos tempos atuais, tendo por lema “uma outra globalização é possível”. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 2 Em 2020, o mundo foi surpreendido pela pandemia de COVID-19, que além de pa- ralisar a vida e o sistema econômico dos países, também expôs a fragilidade do sistema capitalista. Desde então, diversos campos da ciência, especialmente, a biotecnologia, tem sido explorada em busca de respostas e soluções para que a vida seja normaliza de forma imediata. Selecione ao menos três fatos que ocorre- ram durante a pandemia que chamaram sua atenção. Pesquise matérias em sites, jornais e veículos de comunicação confiáveis e disserte sobre os fatos e identifique se o conceito de redes geográficas está presente. 3 No contexto mundial, os blocos são associações criadas entre os países e que estabelecem relações entre eles. Surgem através da constante concorrência das economias mundiais, com o objetivo de dinamizar e intensificar a cooperação econômica no mundo globalizado, em que as barreiras do comércio são reduzidas ou eliminadas. Sobre o exposto, comente acerca de um bloco econômico relatado no Tópico 2. AUTOATIVIDADE 32 4 “A regionalização caracterizada pela divisão entre Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo foi amplamente utilizada durante a Guerra Fria, período em que prevaleceu a rivalidade entre duas superpotências. No começo da década de 1990, o termo Segundo Mundo tornou-se obsoleto, pois deixou de ser representativo. Nesse contexto, foram estabelecidas novas regionalizações com o objetivo de expressar com maior exatidão a organização do espaço mundial contemporâneo”. FONTE: BOLIGIAN, L.; ALVES, A. Geografia: espaço e vivência (Ensino Médio). São Paulo: Atual Editora, 2007 (volume único). p. 410 (Adaptação). A partir do trecho, qual é a regionalização que não expressa com “maior exatidão a organização do espaço mundial contemporâneo”? a) ( ) Países ricos / países pobres (regionalização fundamentada no desenvolvimento econômico e tecnológico). b) ( ) Países centrais / países periféricos (regionalização fundamentada no papel exercido no sistema capitalista). c) ( ) Países desenvolvidos / países subdesenvolvidos (regionalização fundamentada nas desigualdades socioeconômicas e nível de vida da população). d) ( ) Países capitalistas / países socialistas (regionalização fundamentada na realidade político-econômica global). 5 Entendemos que por várias décadas a definição de região e as metodologias de regionalização vêm sendo revisados em várias disciplinas do conhecimento, notadamente no âmbito da ciência geográfica, culminando em muitas propostas de regionalização, mesmo que fossem sujeitas de crítica e ressalvas. Neste contexto, qual divisão aborda a regionalização pela classificação da vegetação? a) ( ) Continentes. b) ( ) Paisagens naturais. c) ( ) Cultura. d) ( ) Aspectos econômicos. e) ( ) Religiosos. 33 TÓPICO 3 - A REGIONALIZAÇÃO DO BRASIL NO CONTEXTO MUNDIAL 1 INTRODUÇÃO Como vimos, a definição de região e as metodologias de regionalização foram por vezes desenvolvidas e revisadas na geografia por vários autores. Notadamente, diversas propostas de regionalização foram elaboradas. Neste sentido, no Tópico 3 iremos trabalhar e entender a regionalização do espaço geográfico brasileiro. O tópico que segue procura apresentar que o Brasil foi dividido de várias formas ao longo de toda a sua história, com fundamentos como: o contexto histórico e a geografia quantitativa, o processo histórico de formação do território brasileiro e também alguns autores levam em conta as regiões com semelhanças históricas, econômicas e culturais. Este tópico é divido em quatro partes, a primeira engloba a regionalização do espaço brasileiro a partir do geógrafo Pedro Pinchas Geiger, a segunda parte faz recordar os Três Brasis do autor Roberto Lobato Corrêa, que atualizou a divisão regional das três grandes regiões geoeconômicas do território brasileiro. A terceira parte irá apresentar a proposta de regionalização elaborada por Milton Santos e Maria Laura Silveira, em 2001. Por fim, surge, assim, a divisão regional do Brasil, em que se destacam a divisão geoeconômica e a divisão político-administrativa (IBGE), conjunto de estados e municípios em regiões, para desenvolver o conhecimento regional do país e a definição de uma base territorial com levantamentos de dados estatísticos, e desenvolver o conhecimento do território para a implantação de políticas públicas e a sua gestão, utilizando os dados e atualizando até os dias atuais pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, como veremos posteriormente no texto. UNIDADE 1 2 AS REGIÕES GEOECONÔMICAS DE PEDRO PINCHAS GEIGER Primeiramente, vamos relatar as regionalizações do geógrafo Pedro Pinchas Geiger, que em 1967 propôs uma divisão regional do país em três Regiões Geoeconômicas ou Complexos Regionais, baseada nos processos históricos de formação do território brasileiro, direcionado pelos efeitos da industrialização. 34 Na década de I960, a organização regional do Brasil é representada fundamentalmente por três unidades maiores: o CENTRO-SUL, o NORDESTE e a AMAZÓNIA. Esta organização resultada evolução económica e social pela qual o país passa nos tempos atuais e de diferenciações regionais estabelecidas ao longo de toda nossa história (GEIGER, 1969, p. 36). O autor buscou refletir a realidade do país que vivenciava e assim compreender seus contrastes. Assim, na sua organização regional observou as relações sociais e políticas associadas aos espaços em concordância com seus processos históricos, culturais e principalmente econômicos. De acordo com Geiger (1969) são três as regiões geoeconômicas: Amazônia, Centro-Sul e Nordeste. FIGURA 10 – AS REGIÕES GEOECONÔMICAS DE PEDRO PINCHAS GEIGER – 1967 FONTE: <https://bit.ly/3tBHW2X>.Acesso em: 18 out. 2021. A figura nos mostra que as regiões geoeconômicas propostas por Geiger, não se limitam apenas às fronteiras entre os Estados, elas se entrelaçam através das fronteiras. Significante característica, pois o autor não levou em conta os limites político- administrativos dos estados nacionais, permitindo uma delimitação das regiões com 35 contornos mais precisos. Como exemplo, temos o sul do Mato Grosso, que se encontra no Centro-Sul, enquanto o restante do território do Mato Grosso está localizado na região geoeconômica da Amazônia. Portanto, essa regionalização ofereceu uma nova maneira de entender a história da produção do espaço brasileiro. Como podemos ver, essa proposta de divisão regional não delimita suas regiões geoeconômicas por meio dos limites estaduais, levam-se em consideração as condições naturais e humanas, como os aspectos econômicos, históricos e sociais referentes à realidade do nosso país. Portanto, o critério utilizado por Geiger é o socioeconômico, e não leva em conta os limites estaduais, pois, cada complexo regional tem suas características próprias e relevantes em comum que ultrapassam as divisões político- administrativas dos estados, que foram caracterizadas pelo IBGE. Desenvolveu-se como uma proposta com um novo discurso com relação as outras regionalizações que existiam nas décadas de 1960 e 1970, levando em conta novos parâmetros que se davam em outros países também, como a homogeneidade de elementos ou fatores do espaço, verificando qual o elemento ou critério mais dinâmico e que interfere, tendo destaque na organização da vida regional e na evolução de outros fenômenos geográficos. Nesse sentido, esse processo de regionalização refletiu a nova realidade nacional pós décadas de 1950 e 1960, ou seja, o Brasil saía de um modelo econômico agrário- rural para o industrial-urbano, produzindo assim um novo processo de homogeneização e novas relações produziam o espaço nacional, e escala nacional e mundial. 3 OS TRÊS BRASIS – ROBERTO LOBATO CORRÊA Tal proposta analisada e desenvolvida por Geiger teve transformações e modificações nas últimas décadas, as regiões se redefiniram na divisão territorial do trabalho, das relações sociais e econômicas entre as diversas áreas do Brasil. A sua análise foi fundamental para as próximas regionalizações sobre a realidade nacional. Em seguida, outros autores atualizaram a divisão regional das três grandes regiões geoeconômicas do território brasileiro e que foi realizada por Roberto Lobato Corrêa, que discute a realidade destas regiões no final da década de 1980 e início dos anos 1990, que apresenta o espaço brasileiro em os Três Brasis, que reflete sobre os processos sociais e econômicos que a partir da década de 1950 passam a atuar sobre a organização espacial brasileira, e geraram uma nova regionalização e que se caracterizaram em três grandes regiões (CORRÊA, 1989). Para Corrêa (1989), os Três Brasis são a Região Amazônia, Região Centro-Sul e Região Nordeste, como segue na figura a seguir: 36 FIGURA 11 – OS TRÊS BRASIS – ROBERTO LOBATO CORRÊA – 1989 FONTE: (SILVA, 2010, p. 11). Para Corrêa (1989), as regiões são expressões de uma nova divisão territorial do trabalho, que vem vinculada à dinâmica da acumulação capitalista internacional e brasileira e os conflitos de classes. A nova divisão territorial do trabalho desfaz e refaz a organização espacial e a cada etapa a desigualdade socioespacial é refeita; a regionalização é refeita, desfazendo antigas regiões que tiveram existência sob outros processos e condições. Neste aspecto o Brasil é um amplo laboratório de experiências já realizadas e a se realizarem, isto e, de construção e reconstrução do território (CORRÊA, 1989, p. 9). Esta compreensão da regionalização do território brasileiro diferencia os Três Brasis entre as especializações produtivas, distintos modos e intensidades de circulação e consumo, pela gestão das atividades, distintas organizações espaciais e níveis de circulação interna, inter-regional e internacional, como vemos a seguir (CORRÊA, 2001): ✓ Região Amazônia: tem a presença ainda marcante dos elementos naturais, com apro- priação indevida dos recursos naturais, como a terra, os recursos minerais e a madeira, sendo considerada, então, a fronteira do capital na atualidade; considera a ocupação 37 humana escassa, concentrada em áreas do litoral e de certos rios, e ao mesmo tempo apresenta forte processo de dizimação física e cultural de elementos humanos, como o índio, e parte da população local, como os seringueiros, além de diferentes tipos de conflitos sociais ligados, por exemplo, à terra; Região que recebe variadas correntes migratórias oriundas, por exemplo, do Centro-Sul, através da chamada ‘modernização dolorosa’ e excludente vivenciada nessa região, e do Nordeste, principalmente, a par- tir dos graves problemas sociais do seu meio rural; Recebe investimentos pontuais de capital e uma política de integração ao mercado do Centro-Sul, principalmente através da construção de rodovias; Na economia predominam o extrativismo animal, vegetal e mineral. Destacam-se, também, o polo petroquímico da Petrobras e a Zona Franca de Manaus, que fabrica a maior parte dos produtos eletrônicos brasileiros. ✓ Região Nordeste: é caracterizada como subordinada economicamente ao Centro- Sul, inclusive no que diz respeito ao controle externo de suas atividades mais dinâmicas, e à incipiente articulação interna, visto que suas principais vias a ligam à região Centro-Sul; O setor agropecuário tem perdido gradativamente seu destaque em nível nacional; como exemplo está a menor importância no mercado nacional de produtos como a cana-de-açúcar, o algodão e o cacau; Constitui região de perda demográfica, em um primeiro momento para o Centro-Sul, e pós-1970 para a Amazônia. Acentuam se, no entanto, mais recentemente, os fluxos migratórios intrarregionais em direção às capitais estaduais; existem muitos contrastes sociais, com baixos níveis de escolaridade e qualidade de vida, mas, ao mesmo tempo, destaque de um pequeno e influente grupo de elevada renda; Menor variedade e densidade das formas espaciais, e, por outro lado, destaque no plano político nacional através da influência de grupos dominantes no poder. ✓ Região Centro-Sul: é a região política e economicamente mais dinâmica do país, mais urbanizada do país, com os estados mais importantes e se destacando, sendo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e que concentra os principais centros de gestão econômica e política. Tem as sedes sociais das grandes corporações privadas vinculadas à produção, distribuição e circulação, bem como a sede das empresas estatais; Concentra a produção industrial do país, sendo as principais áreas aquelas do entorno de São Paulo, Belo Horizonte, Joinville e Porto Alegre; Com uma promissora megalópole entre São Paulo e Rio de Janeiro; Possui densa rede de circulação, com a localização dos principais portos e aeroportos, bem como uma ampla rede rodoferroviária e modernos meios de comunicação, Principal área agropecuária do país, é também a mais afetada pela modernização da agricultura; Principal área de mobilidade demográfica, intra e inter-regional; Área de grandes contrastes sociais, com profundos desníveis de renda, de consumo e de qualidade de vida; Sua população representa 70% da população nacional. 38 Vale a pena assistir aos vídeos em homenagem ao geógrafo Milton Santos para compreender os trabalhos realizados por ele em defesa da Geografia, em especial, da Geografia Humana. Acesse: https://www. youtube.com/watch?v=Y51aSaBC614> e https://www.youtube.com/ watch?v=9jOmsQ-2sg8>. Para complementar seus estudos, assista ao vídeo disponível no link a seguir, que discorre sobre como Milton Santos, em 2001, interpretou o Brasil em quatro Brasis. Partilhe com o tutor e colegas o que aprendeu com o vídeo. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=JSa_pHOheeY. Vamosrecordar o conceito de meio geográfico. Ele é fundamental para compreender a regionalização. Milton Santos, em seus livros, aborda que o espaço geográfico é produto e condição para a realização da vida social e contém elementos naturais (rios, planaltos, montanhas etc.) e artificiais (objetos criados pelo homem). A história de nossa sociedade sobre o planeta é a história do trabalho humano no processo contínuo de transformação da natureza para conseguir atender as suas necessidades historicamente dadas, criando, assim, um meio no qual a vida pode ser progressivamente mais confortável. Neste processo, o homem produz objetos geográficos por meio da constante criação de novas técnicas e com isso “tecnifica” seu meio, afastando-o cada vez mais de suas condições naturais originais. Os grandes períodos da história humana, de forma sucinta, seriam marcados pela complexidade das técnicas incorporadas neste espaço. No estágio atual de desenvolvimento, predomina o meio técnico-científico- informacional, caracterizado pela grande presença de objetos técnico- científicos e da informação no território. É a partir deste conceito que Milton Santos aborda o território nacional (BOSCARIOL, 2017, p. 193). DICA ATENÇÃO 4 OS QUATRO BRASIS – MILTON SANTOS Seguimos, agora, com a proposta de regionalização elaborada por Milton Santos e Maria Laura Silveira, em 2001. Os autores propõem a regionalização do Brasil em “quatro brasis”, com o propósito de compreender os aspectos socioeconômicos e o meio geográfico presente nas regiões. Apresentando o entendimento do meio técnico-científico-informacional, ou seja, a informação e as finanças estão irradiadas de maneira desiguais e distintas pelo território brasileiro. Para Santos e Silveira (2001), as quatro regiões que denominaram “quatro brasis”, são a Região Amazônica, Região Nordeste, Região Centro-Oeste, Região Concentrada (Sul-Sudeste). https://www.youtube.com/watch?v=Y51aSaBC614> https://www.youtube.com/watch?v=Y51aSaBC614> https://www.youtube.com/watch?v=9jOmsQ-2sg8> https://www.youtube.com/watch?v=9jOmsQ-2sg8> https://www.youtube.com/watch?v=JSa_pHOheeY 39 FIGURA 12 – OS QUATRO BRASIS – MILTON SANTOS FONTE: Santos (2001, p. 268). Os Quatro Brasis compreendem uma proposta de divisão regional com critérios e elementos por meio das heranças e a difusão diferencial do meio técnico-científico- informacional, ao realizar o modelo de regionalização utilizaram critérios econômicos e tecnológicos, que estão ligadas às áreas de financeiras, comercial, serviços, industrial e da agropecuária, bem como: O uso do território pode ser definido pela implantação de infraestru- tura, para as quais estamos igualmente utilizando a denominação sistemas de engenharia, mas também pelo dinamismo da economia e da sociedade. São os movimentos da população, a distribuição da agricultura, da indústria e dos serviços, o arcabouço normativo, in- cluídas a legislação civil, fiscal e financeira, que, juntamente com o alcance e a extensão da cidadania, configuram as funções do novo espaço geográfico (SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 21). Tendo como base esses entendimentos, os autores realizam uma caracterização do território com seus vínculos de dependência, independência, subordinação, controle entre as várias regiões nacionais e para melhor entendimento da proposta, observe com atenção a espacialização dessa proposta. ✓ Região Amazônica: é apresentada com baixas densidades técnicas e demográficas, rarefação, tanto de população quanto de técnicas, sendo uma região de tempo lento, com enclaves modernos (megaprojetos econômicos), em um meio pré-técnico, vinculada a um sistema informacional que se configura externo a esta. ✓ Região Concentrada: é a região que concentra a maior população, as maiores indústrias, os principais portos, aeroportos, shopping centers, supermercados, as principais rodovias e infovias, as maiores cidades e universidades. Portanto, é a região que reúne os principais meios técnico-científicos e informacionais do país, concentrando e centralizando o controle do capitalismo nacional. 40 ✓ Região Nordeste: primeira região a ser povoada, como um espaço de rugosidades ou marcas de herança do passado no espaço geográfico, oferecendo resistências à difusão do meio técnico-científico informacional, apresenta uma agricultura pouco mecanizada se comparada à Região Centro-Oeste e à região Concentrada. ✓ Região Centro-Oeste: apresenta uma agricultura globalizada, isto é, moderna, mecanizada, produtiva e competitiva. de ocupação periférica e subordinada aos interesses das firmas da região concentrada. Para um melhor entendimento sobre o processo de análise de Milton Santos e Maria Laura Silveira, sobre a divisão do país em “Quatro Brasis”, leia o livro O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. A obra relata as especificidades do território brasileiro, mas usam como mediação o homem: o como, por quê, para quê e onde da interação dele com o espaço geográfico. DICA 5 AS DIVISÕES REGIONAIS SEGUNDO O INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE) Por fim, chegamos às divisões realizadas pelo IBGE, em que atualmente o Brasil é dividido em cinco regiões que englobam os estados das regiões Região Norte, Região Nordeste, Região Centro-Oeste, Região Sudeste e Região Sul. A divisão regional do Brasil é responsabilidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As divisões regionais do Brasil, segundo o IBGE, adotaram várias divisões em 1940, 1960, 1968, 1976 e 1990. Contemplando os conceitos de Zonas Fisiográficas (década de 1940 e 1960), Microrregiões e Mesorregiões Homogêneas (1968 e 1976, respectivamente) e Mesorregiões e Microrregiões Geográficas (1990). Além disso, diversos trabalhos e artigos foram e são publicados na Revista Brasileira de Geografia tratando da regionalização do país (IBGE, 2020). Conforme o IBGE, as divisões regionais se estabeleceram em diversas escalas de abrangência ao longo do tempo, conduzindo, em 1942, à agregação de Unidades da Federação em Grandes Regiões definidas pelas características físicas do território brasileiro e institucionalizadas com as denominações de: Região Norte, Região Meio- Norte, Região Nordeste Ocidental, Região Nordeste Oriental, Região Leste Setentrional, Região Leste Meridional, Região Sul e Região Centro-Oeste. 41 Nas décadas seguintes, 1950 e 1960, houve transformações ocorridas no es- paço geográfico brasileiro, e portanto uma nova divisão em Macrorregiões foi elaborada em 1970, introduzindo conceitos e métodos reveladores da importância crescente da articulação econômica e da estrutura urbana na compreensão do processo de orga- nização do espaço brasileiro, do que resultaram as seguintes denominações: Região Norte, Região Nordeste, Região Sudeste, Região Sul e Região Centro-Oeste, que per- manecem em vigor até o momento atual, conforme figura a seguir: FIGURA 13 – MAPA POLÍTICO ADMINISTRATIVO BRASILEIRO FONTE: <https://bit.ly/3Kt0SHV>. Acesso em: 24 jan. 2022. 42 A divisão regional constitui uma tarefa de caráter científico e, desse modo, está sujeita às mudanças ocorridas no campo teórico-metodológico da Geografia, que afetam o próprio conceito de região. Assim, as revisões periódicas dos diversos modelos de di- visão regional adotados pelo IBGE foram estabelecidas com base em diferentes aborda- gens conceituais, visando traduzir, ainda que de maneira sintética, a diversidade natural, cultural, econômica, social e política coexistente no Território Nacional (IBGE, 2020). Portanto, vemos que o IBGE adotou várias divisões regionais do Brasil, sendo a última delas em 1990 resultante do papel de definir uma única divisão regional do país, e o instituto é o órgão responsável por propor mudanças para o mesmo, quando necessárias, sendo assim, realiza várias regionalizações apresentadas como um conjunto de informações divulgadas em livros, artigos e também disponibilizadas no portaldo IBGE na internet, com o objetivo de oferecer aos órgãos das esferas governamentais e privadas subsídios de planejamento e tomada de decisões e para o conhecimento científico um aprofundamento de conhecimento geográfico territorial acerca da complexa realidade espacial do Brasil. Você sabe como o IBGE considera o conceito de Região de influência? O IBGE realiza a regionalização de influências das cidades, sendo uma pesquisa denominada “Regiões de Influência das Cidades – REGIC”. Que define a hierarquia dos centros urbanos brasileiros e delimita as regiões de influência a eles associados. É nessa pesquisa em que se identificam, por exemplo, as metrópoles e capitais regionais brasileiras e qual o alcance espacial da influência delas. Considerando que a região de influência de uma centralidade é o território resultante de um processo de formações, compreendendo históricas, coesões territoriais, culturais e identitárias, relacionadas as características naturais e sociais. Com a nova e atualizada publicação da pesquisa Regiões de influência das cidades – 2018, o IBGE traz o quadro de referência da rede urbana brasileira, com estudo que se constitui a quinta versão dessa linha de pesquisa. O estabelecimento das hierarquias e dos vínculos entre as Cidades, bem como a delimitação das áreas de influência, foram construídos com base em pesquisa específica que mobilizou a Rede de Agências do IBGE para o levantamento de dados primários com o uso de dispositivos móveis de coleta que facilitam a crítica e a verificação do processo de pesquisa e agilizam a geração de resultados. Além disso, a caracterização da rede urbana também contou com o levantamento de registros administrativos úteis para a temática sobre a qual a presente publicação se debruça. A pesquisa atual dá continuidade aos trabalhos anteriores publicados em 1972, 1987, 2000 e 2008, mantendo e aprimorando os aportes teóricos e a metodologia, especificamente em relação à última versão do trabalho. Além da própria publicação, que contém a rede urbana e as análises setoriais que auxiliam a melhor qualificação dos resultados, o IBGE também disponibiliza, em seu portal na Internet, a base de dados levantada, útil para estudos que enfoquem outros temas ou áreas em outras escalas além da nacional. Além disso, considerando que o IBGE realiza essa linha de pesquisa há cinco décadas, a presente publicação contribui para a compreensão da evolução histórica do fenômeno urbano no País. Espera-se que, como nas versões anteriores, este estudo INTERESSANTE 43 seja útil tanto para o planejamento da localização de investimentos e da implantação de serviços públicos e privados, que levem em consideração as relações espaciais que afetam o seu funcionamento, quanto como quadro de referência para pesquisas de avaliação das condições de acesso da população aos bens e serviços que lhe são disponibilizados. Segundo o IBGE, os objetivos do Regic são: hierarquizar os centros urbanos, delimitar as regiões de influência associadas aos centros urbanos, compreender a articulação entre as cidades e subsidiar o planejamento e as decisões quanto à localização das atividades econômicas de produção e consumo, das atividades culturais, dos serviços públicos, entre tantas outras possibilidades (IBGE, 2018), como vemos na figura: REDE URBANA DO BRASIL – 2018 FONTE: IBGE (2018) Para compreender melhor a regionalização de influências das cidades por meio dos levantamentos do IBGE (2018), acesse o site do IBGE, na plataforma geográfica interativa (PGI) e encontre diversos mapas para consulta, download e impressão, e na plataforma interativa pode estar trabalhando com o aluno e desenvolvendo com eles os seus próprios mapas. FONTE: <https://www.ibge.gov.br/apps/regic/>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://www.ibge.gov.br/apps/regic/ 44 Portanto, no Brasil, o conceito de região foi desenvolvido nos Departamentos de Geografia e de Estudos Geográficos do IBGE, surgindo os estudos de tipologia e divisão regional. Em 2018, como exemplo, o IBGE atualizou o quadro de referência da rede urbana brasileira, chegando à quinta versão da pesquisa, que dá continuidade aos trabalhos anteriores publicados em 1972, 1987, 2000 e 2008, com o aprimoramento dos aportes teóricos e metodológicos, contribuindo ao entendimento da evolução histórica do fenômeno urbano no país. 45 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • O Brasil foi regionalizado de várias formas ao longo de toda a sua história. • Na divisão do Brasil foi levado em conta o contexto histórico, a geografia quantitativa, o processo histórico de formação do território brasileiro e as regiões com semelhanças históricas, econômicas e culturais. • O geógrafo Pedro Pinchas Geiger propôs uma divisão regional do país em três Regiões Geoeconômicas ou Complexos Regionais, baseada nos processos históricos de formação do território brasileiro. • O Brasil é apresentado em “Quatro Brasis” pelo geografo Milton Santos, com o propósito de compreender os aspectos socioeconômicos e o meio geográfico presente nas regiões. • As divisões das regiões do Brasil realizadas pelo IBGE adotaram várias divisões em 1940, 1960, 1968, 1976, 1990, que se desenvolvem até os dias atuais. • O IBGE realiza a regionalização de influências das cidades, sendo uma das pesquisas denominada “Regiões de Influência das Cidades – REGIC”, que define a hierarquia dos centros urbanos brasileiros e delimita as regiões de influência a eles associados. 46 1 Os geógrafos Milton Santos e Maria Laura Silveira elaboraram em 2001 uma proposta de divisão regional baseada na difusão diferencial dos meios técnicos-científicos- informacionais e nas heranças do passado, resultando no que se chamou de quatro Brasis. Sobre o exposto, assinale com V ou F conforme seja verdadeiro ou falso o que se diz a seguir sobre a regionalização dos Quatro Brasis, realizada pelo geografo Milton Santos: ( ) A Região Centro-Oeste é marcada pela ocupação periférica e subordinada, que apresenta uma agricultura globalizada. ( ) A Região Nordeste é a primeira região a ser povoada, constituição do meio mecanizado se deu de forma pontual e pouco densa. ( ) A Região Amazônica é apresentada com altas densidades técnicas e demográficas. ( ) É composta pela Região Concentrada, Região Amazônia, Região Nordeste, Região Centro-Oeste, e Região Sul, sendo que os limites que separam os complexos regionais não são os mesmos dos territórios dos estados. a) ( ) V – V – F – F. b) ( ) F – F – V – V. c) ( ) F – V – V – F. d) ( ) V – F – V – F. 2 O autor Roberto Lobato Corrêa (1989) realizou a discussão sobre a realidade das regiões no final da década de 1980 e início dos anos 1990, e apresentou o espaço brasileiro em os Três Brasis, que refletia sobre os processos sociais e econômicos que a partir da década de 1950 passam a atuar sobre a organização espacial brasileira, e geraram uma nova regionalização e que se caracterizaram em três grandes regiões. Sendo assim, delimite, no mapa a seguir, cada um dos Três Complexos Regionais, desenvolvida por Corrêa. AUTOATIVIDADE 47 3 Para Santos e Silveira (2001), as quatro regiões que denominaram “quatro brasis”, são a Região Amazônica, Região Nordeste, Região Centro-Oeste, Região Concen- trada (Sul-Sudeste). Considerando essa regionalização, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Região Concentrada II- Região Centro-Oeste III- Região Amazônica IV- Região Nordeste ( ) Região de ocupação recente, apresenta uma agricultura moderna mecanizada e produtiva. ( ) Região com baixa densidade técnica e demográfica. ( ) Região que concentra maior população, maior número de indústrias, portos e aeroportos, rodovias e infovias, maiores centros urbanos e universitários, entre outros. ( ) Região cuja agricultura apresenta uma mecaniza- ção inferior à da região Centro-Oeste e à da região Concentrada. Assinale a alternativaque apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) II – III – I – IV. b) ( ) I – II – IV – III. c) ( ) IV – III – II – I. d) ( ) III – II – I – IV. 48 4 O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é uma instituição do Governo Federal que reúne aspectos de ordem natural e humana para dividir o território brasileiro em regiões. Assim, como o IBGE propõe a divisão regional do Brasil? Justifique. 5 O IBGE realiza a regionalização de influências das cidades, sendo uma pesquisa denominada “Regiões de Influência das Cidades – REGIC”. Qual o objetivo dessa regionalização? Justifique. 49 TÓPICO 4 - GEOGRAFIA, MODERNIDADE E PÓS- MODERNIDADE 1 INTRODUÇÃO No Tópico 4, por meio de uma abordagem teórico-empírica, estudaremos as questões que vinculam geografia, modernidade e pós-modernidade, tendo por fundamento os conceitos de espaço liso e espaço estriado e espaço multidimensional, além de conceitos-chave da Geografia contemporânea, como os derivados de territorialização, desterritorialização e reterritorialização. Além desta Introdução, o Tópico 4 está dividido em dois temas: a) Análise geográfica da modernidade à pós-modernidade e b) Do espaço liso aos espaços estriado e multidimensional. Por fim, há um resumo dos principais temas discutidos deste Tópico 4 e um exercício de autoatividade. UNIDADE 1 2 ANÁLISE GEOGRÁFICA DA MODERNIDADE À PÓS- MODERNIDADE Ao apresentar o conceito e os atributos de análise geográfica vinculados à pós- modernidade, faz-se necessário explicar, como entrelaçamento filosófico-científico, o que é a modernidade. Para isso, recorremos a Ribeiro (2008, p. 1), quando o autor resenha essa relação até certo ponto indissociável. Assim, nos séculos XV e XVI, a expansão marítimo-comercial euro- peia, a Reforma protestante e a desagregação do feudalismo foram elementos fundamentais no desenvolvimento de uma interpretação racional, metódica e laica de mundo, configurando as linhas gerais do que conhecemos por Modernidade. Igualmente, a partir da segunda metade do século XX, o fim da II Guerra Mundial, a descolonização e o advento da globalização foram condicionantes empíricos na eclosão de abordagens de cunho desconstrucionista e irracionalista, refletindo a emergência da Pós-Modernidade. Esses processos fazem parte das várias maneiras de compreensão daquilo que chamamos de realidade, decorrente das dinâmicas social, econômica, política, cultural e territorial, que impelem o debate em torno do próprio conhecimento. 50 Dentre as possíveis mudanças de cunho empírico e teórico observadas atualmente podemos determinar a do espaço geográfico, que traz como condicionante significativa a constatação de que os lugares se tornaram mais próximos uns dos outros e que, cada vez mais, elementos de várias partes do mundo podem se materializar no cotidiano dos lugares, inclusive dos mais empobrecidos e desprivilegiados, como os dos países periféricos. Apesar de este processo ter se acelerado nas últimas décadas, não há dúvidas de que este é um processo histórico e, por isso, há possibilidades de o abordar a partir de determinados momentos-chave, comparando-os. Para falar de modernidade e de pós- modernidade, os momentos mais marcantes, de forma geral, são os dois que seguem. a) Virada do século XIX para o século XX: participação importante em sua interpretação (mudanças escalares) realizada pelo geógrafo francês Paul Vidal de la Blache. b) Final do século XX: autores de matizes diversas, como Anthony Giddens, Zygmunt Bau- man e Paul Virilio ajudaram a explicar as mudanças escalares demonstrando que elas podem inclusive se confundir, a ponto, mesmo, de alguns decretarem o fim do espaço. FIGURA 14 – PINTURA DE PARIS NA BELLE ÉPOQUE (1900), REPRESENTANTE DO MODERNISMO FONTE: <https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/belle-epoque.htm>. Acesso em: 18 nov. 2021. 51 FIGURA 15 – ÓPERA DE SYDNEY (1973), REPRESENTANTE DO PÓS-MODERNISMO ARQUITETÔNICO FONTE: <https://bit.ly/3CuTlWE>. Acesso em: 18 nov. 2021. Na sequência, então, aprofundamos o debate sobre Modernidade e Pós- Modernidade, a partir de suas temporalidades e de seus rebatimentos espaciais. Cabe a você, acadêmico, observar as diferenças e similitudes também a partir de sua própria realidade e concepção de mundo. IMPORTANTE 3 O FINAL DO XIX E O INÍCIO DO SÉCULO XX COMO LIMIARES DA MODERNIDADE As profundas transformações ocorridas na organização social da Europa (com início no século XVII) que configuravam “[...] a identificação do indivíduo com o local, as influências das concepções individuais no coletivo [...] modificaram a concepção de espaço e tempo, lançando sobre o mundo processos sociais diferenciados” (GOMES, 2007, p. 223). 52 Esses e outros acontecimentos ganharam velocidade assustadora durante o século XX e, juntamente com a expansão capitalista, com o crescimento urbano e com um competitivo poder de acumulação, moldaram uma sociedade de anseios, visões e manifestações – artísticas, culturais, sociais e territoriais – ainda não vivenciadas até então. De fato, essas transformações levaram a reflexões de que tudo era rápido demais e, por essa e por outras razões elas seriam, também, transitórias (HARVEY, 1999). Assim, a modernidade: [...] apresentada como um período totalmente dominado pela ra- cionalidade, constrói sua identidade [...] sob a forma de um duplo caráter: de um lado o território da razão, das instituições do saber metódico e normativo; do outro, diversas “contracorrentes”, contes- tando o poder da razão, os modelos e métodos da ciência institucio- nalizada e o espírito científico universalizante (GOMES, 2007, p. 26). Gomes (2007) afirma, ainda, que existem três elementos fundamentais no discurso moderno: o caráter de ruptura, a constante imposição do novo e a pretensão de alcançar a totalidade, permitindo, por mais que alguns estudos apontem possibilidades outras, que se configure um debate permanente entre o tradicional e o novo. Este, por sua vez, acaba por se tornar tradicional e é, então, contraposto por um novo “novo”. Max Weber referiu-se ao Modernismo como o processo de “desencantamento do mundo”, no qual o sujeito moderno passou a despir-se de costumes e crenças baseados em tradições aprendidas que se apoiavam nos pilares fixos das religiões. IMPORTANTE Em termos histórico-filosóficos, o pensamento moderno teve início com as reflexões e práticas desenvolvidas a partir do século XV, a começar pelo Renascimento, estendendo-se até meados do século XX. De forma mais ampla, configura-se como modernidade a ruptura com a tradição, um ideário ou visão de mundo empreendido em diversos momentos ao longo da Idade Moderna e consolidado com a Revolução Industrial (BAUMAN, 1999). Ainda de acordo com Bauman (1999), é nesse contexto que o pensamento tradicional, vinculado ao pensamento teológico e religioso, foi progressivamente sendo abandonado. Não é possível afirmar, no entanto, que o tenha sido em toda e qualquer 53 parte do mundo, mas em contraposição a ele, sem dúvida, outras formas de viver, de ver e de compreender a realidade foram sendo pensadas e criadas, colocando em dúvida essas e outras concepções até então estabelecidas. Para que o seu raciocínio seja lógico, neste momento do texto, apresentamos uma linha do tempo para ajudá-lo na compreensão das passagens e/ou possíveis rupturas no tempo histórico mundial. FIGURA 16 – LINHA DO TEMPO FONTE: <https://pt.slideshare.net/skarson60/linha-do-tempo-histria>. Acesso em: 18 nov. 2021. A linha do tempo exposta permite observar os principais acontecimentos que marcaram as mudanças de pensamento em cada período histórico. Como o próprio nome indica, é apenas uma ilustração dos movimentos sociopolíticos, econômicos e culturais mais representativos de cada um deles. Assim, a Idade Antiga é estabelecida do fim da Pré-história (aparecimento da escrita) até o século V d.C., com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476. A Idade Média édemarcada do final da Antiguidade até o século XV, com a queda de Constantinopla, em 1453. A Idade Moderna configura-se do final da Idade Média até o fim do século XVIII, com a Revolução Francesa, em 1789. A Idade Contemporânea, por sua vez, corresponde do fim da Idade Moderna até os dias atuais. Esses breves aspectos, decorrentes do início e fim dos diversos tempos históricos, buscam apenas situá-lo na proposta de compreensão da modernidade, que se afigura na Idade Contemporânea, na passagem do século XX para o século XXI. O contexto histórico de constituição do modernismo foi o período temporal que separou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), portanto, tempo configurado por conflitos e transformações econômicas, sociais e https://pt.slideshare.net/skarson60/linha-do-tempo-histria 54 político-culturais bastante profundas. Decorrente dessas transformações ou instigador das mesmas pode-se citar o processo de industrialização e os avanços na técnica e nas tecnologias que permitiram mudanças significativas, de cunho coletivo, a partir daí, movidos também pelo ideal de progresso. O modernismo foi, assim, um dos movimentos que mais impactaram as formas como as pessoas pensam, pois congrega um conjunto de correntes culturais e artísticas que se sobressaíram a outros tantos movimentos existentes na primeira metade do século XX, ganhando notoriedade a partir de críticas a denominada cultura tradicional e, segundo seus idealizadores, ultrapassada. Assim, fazia-se necessário encontrar novas concepções de mundo e seus conceitos, que representassem, na prática e na teoria, a ideia de moderno. Essas correntes procuravam a ruptura com os padrões, as normas, não só nos modos de criar, mas também de viver e agir em sociedade. Nesse contexto, a Europa de forma geral e a França de forma particular, foram os primeiros a constituir a ideia de modernidade e de vida moderna, tanto culturalmente quanto espacialmente, a exemplo da arquitetura moderna., cujo dinamismo envolvia a simultaneidade entre destruição e reconstrução. Apesar de suas diversas formas de configuração e expressão nas mais diferen- tes partes do mundo, é possível identificar algumas características modernistas conside- radas transversais, como a ruptura com a tradição, a postura experimentalista, a valori- zação do cotidiano, a busca e/ou reconstrução da identidade, a inovação e a criatividade. No Brasil, o modernismo constituiu-se por um movimento transformador da arte e da cultura nacionais. A sua maior expressão ou o seu marco deu-se pela denominada Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal, em São Paulo, com apresentação de várias modalidades artísticas, palestras, leituras, exposições e recitais de música. FIGURA 17 – COMPILAÇÃO DE OBRAS DE ARTE CONSIDERADAS MODERNISTAS NO BRASIL FONTE: <https://bit.ly/3HWwOCX>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://www.culturagenial.com/semana-de-arte-moderna/ 55 FIGURA 18 – ARTISTAS E INTELECTUAIS BRASILEIROS NA PRIMEIRA SEMANA DE ARTE MODERNA, EM SÃO PAULO: COMO MÁRIO DE ANDRADE (ESCRITOR), ARTICULADOR DO EVENTO FONTE: <https://blog.grafittiartes.com.br/historia-da-semana-de-arte-moderna-de-1922/>. Acesso em: 18 nov. 2021. René Descartes foi uma das figuras mais proeminentes desse período. Suas obras são vistas como fonte de inspiração e base de construção da filosofia moderna. Em sua principal obra, Discurso do Método, Descartes apresenta o que foi chamado de método cartesiano, o ápice de sua filosofia, que estipulava o caminho a ser tomado para a construção do conhecimento científico: a evidência, a análise, a síntese e a enumeração. INTERESSANTE Assim como a França, exemplificada anteriormente, outros países também passaram por este processo, mais ou menos no mesmo tempo, ou seja, até a primeira metade do século XX. Foi aí que a desordem inicial, provocada pelo abandono dos princípios religiosos e outros, levou a uma das principais características da modernidade: a busca pela ordem! É o que afirma Bauman (1999). Além disso, os conflitos de ordem ideológica que sustentavam costumes e as organizações sociais, em escalas local e global, ajudaram a marcar a divisão e a segregação de classes, indivíduos e nações. Os Estados modernos, seus territórios e a constituição de suas fronteiras, por exemplo, deram-se a partir dessa lógica de exclusão e inclusão, como explica Bauman (1999). https://brasilescola.uol.com.br/historiag/a-razao-cartesiana.htm 56 A ciência geográfica, certamente, não poderia ficar imune a essas transforma- ções e contradições. Os geógrafos francês e alemão, Paul Vidal de La Blache e Ale- xander von Humboldt, respectivamente, são considerados os precursores das novas concepções do pensamento geográfico a partir da modernidade. Cabe destacar que a concepção da obra mais famosa e conhecida de Alexander von Humboldt, o “Kosmos”, remete-se ao momento histórico- científico iluminista e não aos efeitos da Modernidade. A obra sistematiza as suas cosmografias entrelaçadas a métodos rigorosos e aos relatos de suas viagens. FONTE : HUMBOLDT, A. de. Cosmos: essai d’une description physique du monde (traduction de M. H. Faye). Milan: Charles Turati, v. 3, 1851. 436p. DICA Assim, em termos de análise ou geográfica, cabe destacar, para a modernidade, investimentos em amplas construções que demonstrassem grandeza e modernidade, como ferrovias, estradas, túneis, pontes e outros que, importante, não modificavam somente a natureza dos lugares, mas a dinâmica espacial como um todo e investimentos na indústria. Estes, desenhavam uma outra apropriação e organização do território e suas relações, como a busca de matérias-primas em outros países, mobilidade populacional, dissolução de aldeias e vilas, surgimento de cidades, dinâmicas e incentivos ao consumo. A Geografia, assim, recolhe e examina as grandes questões que afligiam a Europa da modernidade, cabendo-lhe [...] ensinar a leitura de mapas, promover excursões de campo e, com efeito, fortalecer a identidade nacional do cidadão francês. Nesse sentido, aos poucos a geografia deixava de ser um catálogo toponímico e estatístico para assumir posição estratégica nos projetos de desenvolvimento das nações e de seus impérios. Seu objetivo consistia-se, entre outros, no mapeamento dos recursos naturais, na análise da dinâmica da cidade e do urbano, na observação e descrição da circulação de produtos, informações e pessoas, na descrição da diversidade regional, na análise de conflitos entre Estados territoriais, dentre outros (RIBEIRO, 2008). NOTA 57 Gomes (2007) contribui para a análise geográfica sobre a modernidade por meio do estudo de seus dois polos epistemológicos, quais sejam, o de continuidade ou de ruptura e o de racionalidade e contra racionalidade que, para o autor, mantêm o movimento permanente da ciência e a renovação dos ritos do “novo”. Nesse sentido, cabe questionar: o mundo moderno ainda se reinventa? Estamos numa continuidade ou estamos num momento de ruptura? 4 A SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E A PÓS- MODERNIDADE A pós-modernidade, também denominada de pós-modernismo, pode ser definida a partir das mudanças sociais, culturais, artísticas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, as transformações marcantes nas relações travadas entre as práticas capitalistas, as ciências, a arte e a realidade socioeconômica e cultural. Foi a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, assim, que as inovações tec- nológicas, os investimentos financeiros e a indústria de massa se desenvolveram e marcaram intensas e profundas alterações na sociedade e na forma pela qual os in- divíduos passaram a encarar muitas de suas relações cotidianas, em especial, as de consumo e cultura. Enquanto limite temporal a pós-modernidade ainda não está claramente definida, nem em seu início nem em seu fim, posto para muitos pesquisadores, a exemplo de FriederichJameson, ela ainda está em curso e corresponde à terceira etapa do capitalismo. Para Zygmunt Bauman e Boaventura de Sousa Santos, cientistas sociais, e Eduard Soja e David Harvey, geógrafos, é possível apontar algumas das mais marcantes características (gerais e específicas) que permitem identificar a pós-modernidade. Essas características, no entanto, não são consensuais entre os estudiosos da temática, mas, em geral, servem de base para as suas diversas concepções, como aquelas apontadas a seguir: • Ausência de regras e/ou valores muito rígidos 58 FIGURA 19 – TROCA DE BENS IMATERIAIS, INFORMAÇÃO E SERVIÇOS MENTALIDADE RELATIVISTA FONTE: <https://www.estudopratico.com.br/pos-modernismo/>. Acesso em: 18 nov. 2021. • Individualismo FIGURA 20 – INDIVIDUALISMO: O EU COMIGO MESMO FONTE: <https://amzn.to/3tLfprO>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://www.estudopratico.com.br/pos-modernismo/ 59 • Pluralidade e diversidade FIGURA 21 – PÓS-MODERNIDADE E DIVERSIDADE CULTURAL FONTE: <https://boavista.ifrr.edu.br/noticias/21-de-maio-dia-mundial-da-diversidade-cultura>. Acesso em: 18 nov. 2021. • Combinações de tendências, gostos e estilos FIGURA 22 – ARQUITETURA PÓS-MODERNA FONTE: <http://arquitetofala.blogspot.com/2011/12/arquitetura-pos-moderna.html>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://boavista.ifrr.edu.br/noticias/21-de-maio-dia-mundial-da-diversidade-cultura http://arquitetofala.blogspot.com/2011/12/arquitetura-pos-moderna.html 60 • Produção em série de cultura voltada para o consumo rápido FIGURA 23 – INDÚSTRIA DE FILMES E A MULTIPLICAÇÃO DAS SALAS DE CINEMA FONTE: <https://veja.abril.com.br/cultura/bilheterias-de-cinema-no-brasil-sofrem-queda-brutal-por-corona- virus/>. Acesso em: 18 nov. 2021. • Liberdade de expressão e pensamento FIGURA 24 – THE FREEDOM OF EXPRESSION AND CIVIL DISCOURSE FONTE: <https://uwm.edu/philosophy/freedom-of-expression-civil-discourse-series/>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://uwm.edu/philosophy/freedom-of-expression-civil-discourse-series/ 61 • Mistura entre realidade e imaginação – hiper-realismo FIGURA 25 – MADISON SQUARE FONTE: <https://bit.ly/3IYVR9W>. Acesso em: 18 nov. 2021. • Disponibilização de grande quantidade de informações FIGURA 26 – PÓS-MODERNIDADE E A GRANDE QUANTIDADE DE INFORMAÇÕES FONTE: <https://encenasaudemental.com/noticias/caos-pos-modernidade-mal-estar-existencial-e-saude- -psiquica-dos-jovens/>. Acesso em: 18 nov. 2021. https://encenasaudemental.com/noticias/caos-pos-modernidade-mal-estar-existencial-e-saude-psiquica-dos-jovens/ https://encenasaudemental.com/noticias/caos-pos-modernidade-mal-estar-existencial-e-saude-psiquica-dos-jovens/ 62 • Incertezas e vazios existenciais FIGURA 27 – MELANCOLIA, ESCULTURA DE ALBERT GYORGY (GENEBRA) FONTE: <https://ijep.com.br/artigos/show/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitu- de-da-vida>. Acesso em: 18 nov. 2021. A Geografia ingressa mais intensamente no debate do pós-modernismo no final dos anos 1980, no nível da reflexão epistemológica, com o texto de Michael Dear, sob o título “O desafio pós-moderno: reconstruindo a geografia humana” (1988). O autor convidava, naquele momento, os demais geógrafos a pensarem também a Geografia como um desafio em resposta “ao desafio da pós-modernidade”. Em termos mais específicos das práticas da ciência geográfica, partimos daquilo que David Harvey, ao final dos anos 1990 (1999), denomina de “Condição Pós-Moderna”, contribuindo para o estudo das espacialidades e consequências sociais “[...] vinculadas à emergência de novas maneiras pelas quais experimentamos o tempo e o espaço” (HARVEY, 1999, p. 7). Em 1987, em outro clássico da Geografia, “Postmodernism and the politics of social theory, environment and planing”, Derek Gregory discorre sobre o pós-modernismo e as políticas da teoria social, do meio ambiente e dos diversos tipos de planejamento. Com relação aos impactos da modernidade e da pós-modernidade na ciência geográfica, Harvey (1999) aponta os elementos que ganham expressão espacial diante das transformações político-econômicas os projetos urbanos, a passagem do fordismo https://ijep.com.br/artigos/show/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitude-da-vida https://ijep.com.br/artigos/show/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitude-da-vida 63 para a acumulação flexível, a compressão do tempo-espaço formando a condição pós- moderna, dentre outros. A condição pós-moderna apontada por Harvey (1999) permite observar e analisar, geograficamente, as formas sociais e materiais em suas experiências do espaço e do tempo, bem como compreender as transformações pelas quais ambas têm passado. Neste sentido, a Geografia coloca-se como possibilidades de leituras das diversas ordens no mundo, seja através da ciência, da sociedade ou pelas manifestações delas. Em síntese, o que é a modernidade e a pós-modernidade? Como essas formas de pensamento e de expressões da realidade podem ser expressas na Geografia? Como a Geografia as interpreta? As respostas podem ser diversas, a depender da formulação teórica, da análise do lugar de onde se fala, das possibilidades de transformação econômica e social imputadas pelas formas espaciais, pelas formas de expressão cultural e simbólica, bem como pelas ideologias. Como desmembramentos e adjetivação do conceito de modernidade, é possível trazer, ainda, outros conceitos, como o de hipermodernidade, que tem como idealizador o filósofo Gilles Lipovetsky (2007, p. 20). Para este: [...] a pós-modernidade possibilitou realizar aqueles ideais das Luzes que a modernidade anunciara em termos meramente legalísticos, sem ter-lhes dado força real. Só que (e trata-se aqui de um ponto fundamental que ‘A era do vazio’ já assinalava) essa libertação em face das tradições, esse acesso a uma “autonomia real” em relação às grandes estruturas de sentido, não significa nem que desapareceu todo o poder sobre os indivíduos, nem que se adentrou num mundo ideal, sem conflito e sem dominação. Os mecanismos de controle não sumiram; eles só se adaptaram, tornando-se menos reguladores, abandonando a imposição em favor da comunicação (LIPOVETSKY, 2007, p. 20). Para este autor, desde os anos 1980, entramos na era do “hiper”: uma hipermodernidade, representação da terceira fase do capitalismo, caracterizada pelo hiperconsumo, aquele que ocorre de forma emocional, pelo hipernarcisismo ou pelo hiperindividualismo, com preocupação, antes de tudo, com a saúde e a segurança, e por paradoxos ainda mais visíveis que os da pós-modernidade. Assim, Lipovetsky (2007) argumenta que vivemos, há algum tempo, a hipermodernidade, ou seja, aquela que invoca a importância do passado e a inquietação com o futuro substitui a crença no progresso, abalando a certeza do presente que caracteriza a pós-modernidade. Ainda para o autor, a hipermodernidade deu-se a partir do momento em que a horizontalização dos laços sociais eclodidos a partir da globalização permitiu o surgimento dessa que, segundo Lipovetsky (2007), é uma nova era, ou seja, a modernidade elevada a sua máxima potência, a hipermodernidade. 64 Nessa lógica, os tempos hipermodernos caracterizam-se pela primazia do aqui- agora, pela rápida expansão do consumo e da comunicação, pelo enfraquecimento das normas e regras e, principalmente, pela individualização, que conforma a sociedade atual. Na hipermodernidade há um sentimento de ultrapassagem dos limites, em que as coisas caminham cada vez mais rapidamente porque os limites da tradição, como o Estado, a religião, a família etc., se perderam. Instala-se uma cultura que se identifica com o excesso: deve-se aproveitar tudo o que for possível, ingerir o máximo de álcool, consumir o máximo de drogas, ir ao máximo de festas, ter milhões de amigos, inclusive e principalmente virtuais. Ao mesmo tempo, no entanto, como contradição, a sociedade hipermoderna valoriza princípios como a saúde, a prevenção, o equilíbrio,o retorno da moral ou de religiões orientais. Logo, se de um lado há o excesso, de outro há a recomposição de certa ordem no comportamento: eis uma das características mais marcante da hipermodernidade. Esse paradoxo pode ser tributado à existência de normas contraditórias. De um lado, a hipermodernidade é a destruição de limites – é preciso ir sempre mais longe, conquistar sem cessar novos territórios, a ciência persegue a inovação a todo custo, as mídias se tornam cada vez mais radicais porque é preciso conquistar audiência –, mas ao mesmo tempo existem normas – como o respeito aos direitos do homem, aos valores éticos, a saúde, o amor – que não deixaram de existir e que continuam a orientar o comportamento de grupos e indivíduos (FIGUEIREDO, 2015). A hipermodernidade, então, fundamenta-se na combinação de lógicas contraditórias respaldadas em princípios historicamente constituídos. Ainda na sequência de derivações e adjetivações do conceito de modernidade, Zygmunt Bauman (2001) cunhou o termo “modernidade líquida”, caracterizada por um período em que as relações sociais, econômicas, de produção, amorosas, familiares e até institucionais são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos, pois estes, diferentemente dos sólidos, não asseguram o espaço nem prendem o tempo. Para Bauman (2001), a modernidade líquida está em igual existência com a pós-modernidade, mas em outro nível em termos de concepções e de relações. Já a modernidade, para o autor, é um momento de relações sólidas, ou seja, quando estas eram fortemente assentadas e duradouras. Como crítico da pós-modernidade, Bauman (2001) percebeu que o novo período não era, como outros autores indicavam, uma ruptura com a modernidade, portanto, não era algo que vinha após a modernidade, mas sim uma continuidade desta, apesar de estabelecida de forma diferente. Por isso, Bauman (2001) nominou-a de “modernidade líquida” em oposição à “modernidade sólida”. Outro elemento importante apresentado pelo autor é que os impactos da modernidade líquida, como a fluidez que é contínua, disforme, passou da condição do coletivo para a condição do indivíduo. É por isso que Bauman (2001) utiliza o indivíduo 65 como obra mestra de suas análises, afirmando, também, que o que marca a modernidade líquida são as sociedades de indivíduos, isto é, o processo intenso de individualização que é diferente daquele de um século atrás. Qual é o espaço produzido pela individualidade? Esse espaço, na modernidade líquida, é o espaço virtual, que se desenvolveu no início do século XXI, pela urgência de se estar em qualquer lugar ou em muitos lugares ao mesmo tempo ou no momento que quiser, sem efetivamente estar enquanto materialidade. Para complementar esta informação, nos fundamentamos em Levy (1996, p. 21), que afirma que quando [...] “uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam ‘não- presentes’, se desterritorializam [...] mas, nem por isso, o virtual é imaginário”. Assim, na medida em que os meios de comunicação congregam uma diversidade cada vez maior de signos, que permitem uma interpretação diversa e mutável, aumenta ainda mais a importância do virtual, admitindo o surgimento de uma cultura da virtualidade real, a exemplo das redes sociais. Nelas, os laços são frágeis, e o indivíduo pode se conectar ou desconectar muito rapidamente, muitas vezes, sem implicar qualquer tipo de sentimento. Nesse espaço virtual, da modernidade líquida, a priori, tudo é possível pelo princípio da liberdade individual. A modernidade líquida, então, produz outro tipo de espaço desterritorializado, o espaço virtual. Confira o seguinte vídeo: https://bit.ly/3IWp7hj. DICA Por fim, para reforçar elementos do tema modernidade, pós-modernidade e seus derivados (hipermodernidade e modernidade líquida), descritos e explicados aqui, resumimos o período como aquele que trouxe muitas mudanças, rápidas e profundas, de várias características, nas relações sociais, nas instituições, nas formas de Estado, nas construções culturais e em várias outras configurações do mundo que se arquitetou durante esse período. 66 5 DO ESPAÇO LISO AOS ESPAÇOS ESTRIADO E MULTIDIMENSIONAL Os conceitos de espaço liso e de espaço estriado foram criados pelos filósofos Deleuze e Guattari (1997) como categorias de análises para pensar a produção de uma determinada realidade social. Dentre os vários significados filosóficos deles, o que os associa à leitura do espaço geográfico parte do princípio de que, ambos, dizem respeito à condição de determinados territórios. O espaço liso ou nômade constitui-se, então, pela formação de territórios marcados por fluxos e fluidos, sujeitos ao acaso, ao inesperado e às forças e lutas de criação coletiva. O espaço estriado ou sedentário refere-se aos estratos e forças instituídas pelos aparelhos de Estado. Todavia, ainda, que aparentemente dicotômicos, a relação estabelecida entre ambos não é de ordem maniqueísta. O espaço liso e o espaço estriado estabelecem entre si uma relação de tensão permanente, implicando-se mutuamente. Ao espaço liso cabem referências a conceitos que conduzem à ideia do inesperado, do desconhecido, do inventivo, de fluxos, de linhas tênues e, enfim, de desterritorialização. Ao espaço estriado associam-se os territórios demarcáveis, das identidades, da repetição e das linhas mais sedimentadas. No entanto, como citado, um espaço faz-se necessário à existência do outro (COSTA et al., 2013). Tudo isso fez com que os conceitos de espaço liso e de espaço estriado se colocassem de diversas formas: pelas oposições simples entre ambos; pelas diferenças complexas; pelas misturas de fato, pelas passagens de um a outro e, ainda, “pelas razões da mistura que de modo algum são simétricas, e que fazem com que ora se passe do liso ao estriado, ora do estriado ao liso, graças a movimentos inteiramente diferentes” (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Os autores afirmam, ainda, que para a constituição de espaços lisos e de espaços estriados é preciso considerar alguns modelos, que seriam como que aspectos variáveis dos dois espaços e de suas inter-relações. Assim, Deleuze e Guattari (1997) indicam os modelos tecnológico, musical, marítimo, matemático, físico e estético. A seguir, apresenta-se uma exposição abreviada de cada um destes modelos, não no sentido de explicá-los a partir dos conhecimentos geográficos, mas para que você, acadêmico, possa saber a importância deles e utilizá-los à medida que suas demandas de vida acadêmica permitirem.d 67 Modelo Tecnológico O tecido é o estriado por excelência: é formado por dois tipos de elementos paralelos (linhas horizontais e verticais) que não possuem uma função: enquanto um é fixo, o outro é móvel; enquanto uma linha fica estendida, a outra passa por cima e por baixo para compor a trama. O espaço do tecido é um espaço delimitado, fechado, ao menos de um lado: por mais que a trama possa prosseguir indefinidamente em uma direção (digamos, comprimento), o ir-e-vir dos fios móveis compõe um limite fixo (digamos, largura). Por fim, o tecido sempre tem um avesso e um direito, mesmo que constituído pelo no final das linhas. Por outro lado, o feltro é o liso: não há distinção entre os fios, nem entrecruzamento, mas apenas emaranhados de fibras. Ele é infinito, aberto ou ilimitado; pode-se estender indefinidamente em todas as direções. Não tem direito nem avesso nem centro. Não estabelece fixos e móveis, mas variação contínua de fibras heterogêneas. Espaço liso não implica homogeneidade (DELEUZE; GUATTARI, 1997. Modelo Musical A partir da teoria musical de Pierre Boulez, temos a ideia de um espaço liso, onde se ocupa sem contar, com cortes irregulares e indeterminados e uma distribuição intensiva/intervalar das frequências sonoras. Por outro lado, no espaço estriados e conta para poder ocupar, a partir de um tipo de corte modulado e padronizado, com intervalos fixos e distinção entre harmonia emelodia (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Modelo Marítimo É o modelo cuja discussão tem mais rendimento em relação com os mitos tukano. Os dois tipos de espaço possuem pontos, linhas e superfícies; porém o que muda é a forma como eles são tratados: o espaço estriado subordina as linhas aos pontos, enquanto o liso faz o inverso. No espaço liso a linha funciona como vetor/direção, e não como dimensão/distância. O espaço liso é ocupado por acontecimentos, muito mais do que por coisas formadas e percebidas, é um espaço de afetos mais do que de propriedades; espaço intensivo mais do que extensivo; percepção feita de sintomas e avaliações mais do que de medidas e propriedades. No espaço liso há corpos sem órgãos, no estriado há organismos e organização. “Enquanto no espaço estriado as formas organizam uma matéria, no liso os materiais assinalam forças ou lhes servem de sintomas”. A superfície em um espaço estriado “é repartida” segundo espaços determinados, fechada, conforme cortes assinalados; enquanto no liso ela “distribui-se” num espaço aberto, conforme frequências e ao longo dos percursos (DELEUZE; GUATTARI, 1997). 68 Modelo Matemático As distâncias de um espaço liso não são indivisíveis, porém, mudam de natureza a cada vez que se dividem. O que povoa um espaço liso é uma multiplicidade que muda de natureza ao dividir-se. Ele é amorfo e heterogêneo, em variação contínua (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Modelo Físico A estriagem constitui duas séries de paralelas que se entrecruzam perpendicularmente: variáveis horizontais, fixas verticais. Quanto mais regular o entrecruzamento, mais cerrada a estriagem, mais o espaço tende a homogeneidade, que é a forma-limite do espaço estriado. Há ali verticais paralelas de gravidade que formam um centro, ao mesmo tempo que horizontais paralelas de velocidade tendem a uma periferia e a uma relação com o fora. O espaço liso é constituído pelo ângulo mínimo que desvia da vertical, formando um turbilhão que desarranja as paralelas verticais e horizontais, é o transversal (DELEUZE; GUATTARI, 1997). Modelo Estético: a arte nômade Várias noções, práticas e teóricas são apropriadas para definir uma arte nômade e seus prolongamentos (bárbaros, góticos e modernos). Primeiramente, trata-se de uma "visão aproximada", por oposição a visão distanciada; é também o "espaço tátil", ou antes o "espaço háptico", por diferença ao espaço óptico. Háptico é um termo melhor do que tátil, pois não opõe dois órgãos dos sentidos, porém deixa supor que o próprio olho pode ter essa função que não é óptica O Liso nos parece ao mesmo tempo o objeto por excelência de uma visão aproximada e o elemento de um espaço háptico (que pode ser visual, auditivo, tanto quanto tátil). Ao contrário, o Estriado remeteria a uma visão mais distante, e a um espaço mais óptico – mesmo que o olho, por sua vez, não seja o único órgão a possuir essa capacidade. Ademais, é sempre preciso corrigir por um coeficiente de transformação, onde as passagens entre estriado e liso são a um só tempo necessárias e incertas e, por isso, tanto mais perturbadoras. É a lei do quadro, ser feito de perto, ainda que seja visto de longe, relativamente. A partir desse momento pode nascer a estriagem: o desenho, os estratos, a terra, a "cabeçuda geometria", a "medida do mundo", as "camadas geológicas", "tudo cai a prumo". Sob pena de que o estriado, por sua vez, desapareça numa "catástrofe", em favor de um novo espaço liso, c de um outro espaço estriado (DELEUZE; GUATTARI, 1997). 69 Estes modelos, apresentados por Deleuze e Guattari (1997), podem ser asso- ciados a diversas áreas de conhecimento, inclusive à Geografia, pela leitura dos territó- rios, como já apontado. Os autores foram os idealizadores do termo desterritorialização, um dos mais trabalhados na Geografia brasileira e derivado do conceito de território/ territorialização, junto a seu par dialético, a reterritorialização, em especial por intermé- dio de Rogerio Haesbaert, em suas várias obras. [...] construímos um conceito de que gosto muito, o de desterrito- rialização / como proponente dos espaços lisos. [...] precisamos às vezes inventar uma palavra bárbara para dar conta de uma noção com pretensão nova. A noção com pretensão nova é que não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do terri- tório, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esfor- ço para se reterritorializar em outra parte (SÃO PAULO, 2009, s.p.). Os territórios e seus derivados, assim, explicitam uma Geografia preocupada com as delimitações, os enraizamentos e as hierarquias territoriais, regionais e de lugares, associados aos espaços estriados. Em contraposição, mas nunca em exclusão, os espaços lisos ou nômades remetem-se a instituir a força do movimento, uma espécie de Geografia dos espaços da mobilidade, da fluidez, da flexibilidade, mesclados por entidades como os territórios-rede, as redes regionais, os lugares móveis de conexão e/ou de passagem. Reconhece-se, assim, a multiplicidade das des(re)territorializações, em especial contemporâneas, conforme buscam exemplificar as figuras na sequência. FIGURA 28 – RUA, BUENOS AIRES, ARGENTINA (2006) ESPAÇO LISO FONTE: NOGUEIRA (2013, p. 14) 70 FIGURA 29 – PAOLA DI BELLO, LA DISPARITION – MAPA SUBTERRÂNEO DO METRÔ DE PARIS (1994) FONTE: NOGUEIRA (2013, p. 46) É possível observar, nas figuras anteriormente que o cerne da reflexão geográfica sobre o espaço se encontra na relação sociedade-natureza ou, como bem demonstraram Deleuze e Guattari (1997), nas des(re)territorializações, resultantes de metamorfoses concretas, dinâmicas e complexas, ou seja, numa relação que incorpora tanto os fatores naturais (e como estes influenciam e condicionam a organização social (o territorializar, o desterritorializar e o reterritorializar, num processo completo), como os modos pelos quais as práticas humanas transformam a natureza (o territorializar e o reterritorializar, num processo parcial), em variados níveis e escalas (SOUZA, 2013). Neste momento, pedimos a sua atenção, no sentido de observar como esse processo acontece, retomando as duas figuras e o texto anterior. Por fim, faz-se importante demonstrar, a partir de todo o processo exposto no Tópico 4, vinculado aos conceitos de espaço e de território e de suas derivações, que o espaço geográfico se revela e é multidimensional. O que isso significa? ATENÇÃO Vamos refletir. 71 Afirmar que o espaço geográfico é multidimensional significa dizer que este, apesar de ser uma totalidade, como afirma Santos (1996), é constituído de diversas dimensões ou partes, podendo ser elas materiais e imateriais, expressas em objetividades e/ou em subjetividades (SOUZA, 2013). Para facilitar a sua compreensão, então, apresentamos os aspectos que compõem a multidimensionalidade do espaço ou as dimensões do espaço. Estas devem ser pensadas, no entanto, como elementos de um todo espacial, divididos em partes apenas para que você, discente, possa abstrair suas características de forma mais direcionada. FIGURA 30 – MULTIDIMENSIONALIDADES OU DIMENSÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO FONTE: <https://www.revistas.usp.br/rdg/article/view/132516>. Acesso em: 18 nov. 2021. A multidimensionalidade do espaço geográfico pode ser representada, ainda, pelas interconexões, como é o caso da análise realizada por Milton Santos, em toda a sua obra, para a concepção do termo meio técnico-científico-informacional, que demonstra as vinculações e não somente as diferenças das dimensões do espaço. https://www.revistas.usp.br/rdg/article/view/132516 72 FIGURA 31 – MULTIDIMENSIONALIDADES OU DIMENSÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO FONTE: (COSTA, 2020, p. 14) A figura foi produzida por Costa (2020) para demonstrar as múltiplas possibi- lidades de constituição do espaço geográfico, a partir de suas diferentes (e comple- mentares) dimensões. Trata-se da mesma análise observada nas figuras, com outro formato. A seguir, detalhamos cada uma delas,contribuindo para sua compreensão, discente, dos significados delas. Lembramos, mais uma vez, que é preciso observá-las como um todo espacial, dividido em partes apenas para que você, discente, possa abstrair suas características de forma mais direcionada. A dimensão natural-ambiental envolve os elementos da natureza como: o clima, a base geológica, as formas de relevo, as bacias hidrográficas, o ciclo da água, a vegetação, os tipos de solo, a biodiversidade, a dinâmica presente nos processos da natureza, a paisagem natural, a importância do meio ambiente para a qualidade de vida da população, a necessidade de preservação da natureza; bem como os problemas ambientais ligados ao uso social inadequado da natureza, ocasionado pela ação antrópica (poluição do ar, poluição da água, uso inadequado do solo, erosão, assoreamento, desmatamento, queimadas, desertificação, efeito estufa, ilhas de calor, descarte irregular de lixo etc.) (COSTA, 2020). A dimensão econômica aborda as formas de produção, circulação e consumo da mercadoria, os modais de transporte, os setores da economia (primário, secundário, terciário), o sistema financeiro internacional integrado em redes, as empresas multinacionais e transnacionais e a sua influência no espaço geográfico mundial, os blocos econômicos regionais (ex. Mercosul e União Europeia), o poder econômico exercido pelos países centrais, as organizações internacionais e a sua influência econômica (ex. 73 Organização Mundial do Comércio – OMC, Organização das Nações Unidas – ONU), os fluxos comerciais pelo mundo, as redes e os nós de poder e dominação econômica, a Divisão Internacional do Trabalho – DIT, a globalização e as suas contradições, as desigualdades na distribuição da renda e da riqueza em uma sociedade constituída por classes sociais, a concentração de renda e seus efeitos perversos para a população (especialmente para os que vivem em países periféricos) (COSTA, 2020). A dimensão política diz respeito à apropriação e uso do território, as relações de poder estabelecidas no uso do território, as contradições na gestão do território, as disputas políticas pelo território, às diferentes formas de governos, as políticas públicas e os seus objetivos/interesses, a democracia representativa, a participação da comunidade na gestão democrática do território, as territorialidades, a desterritorialização e a reterritorialização, a complexidade do espaço urbano e rural e a sua gestão, o conceito de cidadania, o direito à cidade e a justiça social. A dimensão social trata das questões inerentes à organização social da população, as relações sociais estabelecidas entre as pessoas no espaço geográfico, a divisão de classes produzida pelo modo de produção capitalista, a luta de classes no interior do modo de produção capitalista, o trabalho social humano e a produção do espaço, as contradições na produção do espaço, as limitações para a mobilidade social (vertical), os conflitos sociais existentes no uso do território, as relações de gênero, o respeito às diferenças e aos grupos minoritários, os direitos humanos e a sua efetivação na vida cotidiana das pessoas (COSTA, 2020). A dimensão cartográfica envolve a linguagem cartográfica, a localização absoluta e relativa no espaço geográfico, a leitura e produção de mapas, as escalas cartográficas, as coordenadas geográficas, os fusos horários, o geoprocessamento, o uso de dados georreferenciados, o Sistema de Posicionamento Global (GPS), o Sistema de Informação Geográfica (SIG) e o mapeamento do espaço virtual produzido pelo avanço nas técnicas (COSTA, 2020). A dimensão histórica aborda o tempo e a sua relação indissociável com o espaço, os processos históricos e as transformações na paisagem ocorridas no transcorrer do tempo, a luta de classes no tempo e no espaço, a ocupação social do território e suas contradições, assim como as relações historicamente instituídas (COSTA, 2020). A dimensão cultural trata da diversidade étnica e cultural presente no espaço geográfico, a paisagem cultural, as distintas formas de manifestações humanas, a religiosidade, as crenças e costumes, as tradições (permanência e ruptura), a ética e a moral presentes em cada comunidade/território, a produção artística, os símbolos e os seus significados, a arte e sua relação social, o lugar e as suas representações simbólicas, o lugar e as suas identidades culturais, a cultura global x a cultura local e a resistência cultura estabelecida pelas comunidades tradicionais frente às imposições da globalização (COSTA, 2020). 74 A dimensão demográfica aborda a dinâmica da população, as migrações e os motivos dos fluxos migratórios (internos e externos), os tipos de mobilidade humana no espaço geográfico, a mobilidade do consumo, o processo de transição demográfica, as taxas de natalidade e mortalidade, a mortalidade infantil e sua relação com a saúde pública, os desafios existentes com o envelhecimento da população, a xenofobia, a problemática dos refugiados, as barreiras para a imigração, as questões de gênero, os quilombolas, os grupos indígenas, o movimento LGBT e os direitos humanos da população (COSTA, 2020). A figura a seguir apresenta diversas possibilidades de você, discente, reconhe- cer e analisar a multidimensionalidade ou as dimensões do espaço. Faça este exercício intelectual e de reflexão e compartilhe com seus colegas de turma e com seu professor. Vamos começar? Para colaborar, seguem alguns tópicos que podem ajudá-lo a realizar esta tarefa! Características das multidimensionalidades ou dimensões analíticas do espaço geográfico: ✓ fundamento material para a reprodução da vida, mas também como um constructo do imaginário social; ✓ produzido pelas ações da sociedade ao longo da história, mas também com retorno a e sobre ela, interferindo nos seus mais variados níveis escalares; ✓ concebido como estratégia de dominação, mas vivido como apropriação coletiva; ✓ constituído de forma desigual e combinada, na atualidade do capitalismo, mas que revela múltiplos desenvolvimentos e sustentabilidades geográficas existentes, possíveis e aparentemente impossíveis. FIGURA 32 – EXEMPLOS DA MULTIDIMENSIONALIDADE DO ESPAÇO GEOGRÁFICO FONTE: <https://bit.ly/3hQVTEO>. Acesso em: 18 nov. 2021. 75 Por fim, como perspectiva de resumir este momento de aprendizagem, pode- se afirmar que as dimensões do espaço são resultantes da sobreposição e da inter- relação do homem com a natureza, que nelas ganham novas possibilidades. São a sobreposição e a inter-relação, sem dúvida, que devem ser identificadas e retomadas a todo momento pelos geógrafos como você, como forma de releitura e de aprendizado. 76 BRASIL: GLOBALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO MANUEL CORREIA DE ANDRADE Universidade Federal de Pernambuco Fundação Joaquim Nabuco Introdução O processo de transformação da sociedade e da economia, na segunda metade do século XX e certamente no século XXI, que ora se inicia, acelerou-se consideravelmente, trazendo dificuldades sérias tanto para os que vivem atualmente como para aqueles que têm, por profissão, a obrigação de refletir e procurar caminhos para a sociedade. Atualmente, emprega-se com frequência palavras como globalização e regionalização, expressões que têm grandes implicações geográficas e políticas. Alguns autores, devido a sua formação filosófica ou interesses políticos e econômicos, costumam analisar estes termos e a sua concretização, de forma estática, como se o fenômeno da globalização tivesse ocorrido de forma súbita, em um determinado momento, sem qualquer conexão com o passado. Daí a pregação do “fim da história”, feita pelo nipo-americano Fukuyama (1989), como se a história pudesse ser interrompida ou, pior ainda, ter um fim. Na verdade, a globalização é uma fase da evolução do sistema capitalista, que suplantou o imperialismo e certamente será suplantada por outra fase, ainda neste século XXI. Ela não extinguirá os Estados, mas atuarásobre a estrutura e as relações com os outros Estados, de forma que em cada um deles as classes dirigentes sigam as direções indicadas pelo processo mundial, procurando defender os interesses dos grupos econômicos ou os interesses do povo. No extremo oposto ao processo de globalização encontra-se o não menos importante processo de regionalização. aquele ligado ao local, em unidades mais modestas em dimensões do que o Estado. A região tem grande importância política e econômica, sabendo-se dos fatos que ocorreram nos fins do século passado e continuam latentes no novo século, sobretudo em regiões multiétnicas, como os Bálcãs e o Cáucaso e, em grande escala, na África. Na verdade, as fronteiras políticas internacionais estão sendo ameaçadas e muitas vezes esfaceladas, em função de conflitos regionais, as mais das vezes com fundamentações étnicas. Para citar apenas um exemplo, é interessante observar-se como a população albanesa não se conforma com o território, formalmente albanês, e tenta unir ao mesmo os territórios de Kossovo, ocupados pela Sérvia; do noroeste da Macedônia, país em que os albaneses constituíam 30% da população, formada em sua maioria por eslavos, e do sul do Montenegro. Parece até que querem formar a LEITURA COMPLEMENTAR 77 Grande Albânia, como os Sérvios pretendem transformar a Iugoslávia em uma Grande Sérvia. Embora os problemas da globalização e da regionalização sejam eminentemente geográficos, eles estão profundamente ligados a origens históricas e antropológicas. A questão da globalização A globalização ou mundialização, como preferem chamar os franceses, é fase de um processo que se iniciou com o surgimento do modo de produção capitalista que, a partir da Europa Ocidental, estendeu-se por toda a superfície da Terra. O processo de territorialização do modo de produção capitalista pode ser analisado, de forma esquemática, em três fases ou períodos: o do colonialismo, o do imperialismo e o do globalismo. O colonialismo desenvolveu-se a partir do século XV, quando alguns países europeus conseguiram a sua unificação política em tomo de monarquias absolutas, fazendo desaparecer gradualmente o domínio do modo de produção feudal, e privilegiaram as atividades comerciais com povos que viviam em outros continentes ligados à Europa, como a África e a Ásia. No período medieval, as comunicações com essas áreas, chamadas orientais, eram feitas, sobretudo, através de cidades italianas que usavam a navegação no mar Mediterrâneo. e continuadas por navegadores árabes no Mar Vermelho e no Oceano Índico, ou por grandes caravanas que chegavam até a China e a Índia. O comércio direto com o Oriente e a eliminação da intermediação dos árabes era o grande objetivo dos europeus. a fim de aumentarem os seus lucros e o volume dos seus negócios. O desenvolvimento das técnicas de navegação e a criação de barcos mais velozes e seguros, além da existência de capitais, estimularam a abertura da Europa ao mundo não europeu. Unida ao desenvolvimento tecnológico. a acumulação de capitais, feita, sobretudo, nas cidades italianas e do mar do Norte, e as divulgações de velhas crenças, serviram de base ao incentivo às navegações. Procurando legitimar as atividades altamente rendosas e violentas – saques às cidades do Oriente foram urna constante – achavam que era preciso contatar os povos cristãos que viviam cercados e perseguidos por muçulmanos na África – o reino de Preste João, na atual Etiópia – e na Índia as minorias nestorianas convertidas por São Tomé, no início da era cristã. Nesta fase os europeus expandiram consideravelmente o mundo conhecido, fazendo acordos comerciais com povos do Oriente e guerra aos árabes que dominavam o oceano Índico, fundando entrepostos de comércio em pontos favoráveis aos contatos com os nativos. Para isto, utilizaram a catequese com o fim de cristianizar os povos que consideravam pagãos, possibilitando aos mesmos alcançar a salvação de suas almas. Nessas terras, os europeus criaram formas diversas de exploração; nas áreas de clima temperado fundaram colônias de povoamento, transferindo para elas colonos que se estabeleciam com a intenção de lá permanecer, como ocorreu nos Estados Unidos e no Canadá. Nas áreas de clima tropical e produtoras de mercadorias típicas do trópico, difíceis de serem obtidas na Europa, criaram colônias de exploração (HARDY, 1933), estabelecendo feitorias como as criadas na Índia, no Brasil, nas primeiras décadas da colonização, e na costa africana. Na Índia, as feitorias exploraram, sobretudo, o rendoso comércio das 78 especiarias, na África, o comércio de negros escravos e, inicialmente, da malagueta e do ouro, enquanto no Brasil se dedicaram, inicialmente, ao comércio da madeira de tinta (AZEVEDO, 1947). No Brasil, eles evoluíram para a implantação da cultura da cana de açúcar utilizando a força de trabalho indígena e depois a negra. O negro tornou- se tão importante para a economia portuguesa, tanto na Europa como no Brasil, que as relações entre o Brasil e a África se tornaram fundamentais à vida econômica e à sociedade colonial (ALENCASTRO 2000). O Brasil tornou-se, após trezentos anos de colonização, um país que é, ao mesmo tempo, europeu e africano, o que levou Gilberto Freyre (1933) a admitir que o negro teria sido também um colonizador do país. Segundo Caio Prado Júnior (1943), o sistema implantado no nosso território foi tipicamente capitalista, voltado para a exploração de produtos agrícolas e em seguida os minerais para o mercado europeu, baseado na grande propriedade da terra e na exploração monocultora dos recursos aí existentes. Vê-se, no caso brasileiro, que já no século XVI, começava-se a passar do colonialismo puro e simples para o imperialismo, mas essa passagem de uma fase a outra foi lenta e não de forma abrupta e vertical, com avanços e recuos, conforme o momento histórico favorável ou não à expansão das forças do capital. Sabe-se que a evolução capitalista se dá com uma sucessão de sucessos e de crises. A expansão colonial permitiu que os colonizadores, que inicialmente se instalavam em pontos estratégicos na costa, como o forte de São João da Mina, na Guiné, e Luanda, na Angola, começassem a se dirigir para o interior, quase sempre acompanhando o curso dos rios. No caso brasileiro, rios como o Amazonas, o Parnaíba, o São Francisco e, até certo ponto, os formadores do rio da Prata, foram da maior importância para a penetração quando alcançados no médio curso. Na América Espanhola, os colonizadores se expandiram pelo rio da Prata e, como ocupassem a costa ocidental, bastante montanhosa e sem rios caudalosos, tiveram que escalar a serra Madre Oriental, no México, e os Andes, na América do Sul, à procura de metais preciosos. Os franceses utilizaram em larga escala as vias fluviais, ao fundar suas colônias americanas drenadas pelos rios São Lourenço e Mississipi. Na África, os portugueses e espanhóis foram sendo afastados dos territórios onde haviam fundado feitorias, e os ingleses e franceses foram subindo rios, como o Nilo, o Senegal, o Níger, o Zaire e o Cuanza, vencendo corredeiras e cachoeiras, para dominar e explorar a população que vivia no interior. Tribos que ao serem atacadas e dominadas já estavam organizadas em reinos de certa expressão territorial, como o do Mali, o do Congo, o de Monomotapa etc. A luta pela dominação do Egito, pelos ingleses, foi muito longa e eles só conseguiram dominar completamente o país em 1882, quando o Império turco, já decadente, era considerado o “homem doente da Europa”. 79 No Congo, os belgas chegaram na segunda metade do século XIX e estabe- leceram o chamado Estado Livre, que era propriedade privada do rei Leopoldo II, até 1908, quando se tornou uma colônia da Bélgica. A disputa pela África, entre as nações imperialistas da Europa, sobretudo entre a Inglaterra e a França, tornou-se tão acirrada que foi necessária a realização do Congresso de Berlim, para determinar uma espéciede partilha do continente, sem ouvir, naturalmente, os interesses dos povos africanos. Feita a partilha, cada um consagrou a forma de exploração do território que lhes coube de acordo com os próprios interesses, dividindo povos e nações sem levar em conta as suas etnias e tradições. O nível de civilização e de estruturas mais ou menos rígidas, variava de um para outro estado da região, fazendo com que uma oposição maior ou menor ao colonizador fosse sentida. Assim, não foi fácil ao europeu controlar e submeter os povos árabes e arabizados do Norte da África, devido não só ao espírito de independência destes povos, como a sua cultura religiosa, islâmica, e às difíceis condições naturais, com áreas desérticas e semidesérticas. No Norte da África, apenas a Argélia e a Líbia foram transformadas em colônias, permanecendo o Egito, a Tunísia e o Marrocos como protetorados, gozando de uma autonomia relativa. Na África do Sul, onde, além da população majoritária, negra, havia fortes contingentes brancos de origem holandesa, os “böers”, e ingleses. além de expressivas minorias hindus, eles gozaram de um sistema menos forte de dominação britânica, logo se tornando um domínio, onde os próprios brancos da colônia estabeleceram um sistema altamente discriminatório contra a população negra, o chamado “apartheid”. Na Ásia, o sistema colonialista foi imposto apenas parcialmente pelos portugueses e espanhóis, mas foi tornado imperialista com a ação dos ingleses, que construíram o chamado Império das Índias, com os franceses na Indochina e com os holandeses na Indonésia. Alguns enclaves portugueses e franceses permaneceram na Índia, mesmo após a independência política e subsistiram como sistemas mais ou menos autônomos, como a Arábia Saudita, o Omã, o Irã, o Afeganistão, a Tailândia etc. O caso do Japão foi diferente porque ele modernizou-se e tornou-se também um país imperialista; a China, face a sua extensão territorial, a sua população e à sua cultura, foi dominada em certos pontos com as “concessões territoriais” às potências ocidentais e em seguida retaliadas pelo Japão, até a derrota dele na Segunda Guerra Mundial. O imperialismo russo obedeceu a características próprias, porque foi feito em terras contínuas, diferentemente do inglês, francês e holandês, e deu margem a um estado multinacional em que os eslavos ortodoxos dominavam os povos muçulmanos do Cáucaso e da Ásia Central e com grupos primitivos da região Ártica. Derrubado o Império, os soviéticos conseguiram, em grande parte, manter o domínio territorial, com a formação de uma confederação dominada pelos russos e que subsistiu até os fins do século XX. 80 Na Oceania, os ingleses dominaram a Austrália e a Nova Zelândia, enquanto muitas das ilhas habitadas por povos diversos, foram ocupadas por europeus, - ingleses, franceses e alemães -, ou por japoneses e americanos, que nos fins do século XIX. passaram a disputar espaços no Oceano Pacífico. No início do século XX, via-se o mundo dividido entre os países imperialistas que dominavam colônias e protetorados e controlavam países formalmente independentes. destacavam-se entre os países imperialistas mais importantes, a Inglaterra e a França; em imperialistas em expansão ― a Alemanha e a Itália -; em imperialistas em terras contínuas a Rússia; em imperialistas médios a Bélgica e a Holanda; em imperialistas em decadência a Espanha e Portugal; em países com forte vocação imperialista e em expansão, os Estados Unidos e o Japão. A Primeira Guerra Mundial eliminou a Alemanha do grande clube, e a Segunda Guerra Mundial, ao se concluir, enfraqueceu as demais potências imperialistas, fazendo com que o mundo ficasse dividido em duas áreas de influência: a americana e a soviética. A primeira era de maior extensão, mais populosa e, sobretudo, mais rica, e a segunda, que compreendia um terço do território emerso, era fortalecida por um sistema de governo que condenava formalmente o capitalismo, mas, apesar de oficialmente socialista fazia uma política de grande potência, fato que a enfraqueceu devido a divergências surgidas com a China. A disputa, chamada de “guerra fria”, deu a vitória aos Estados Unidos, com o desmembramento da União Soviética e o abandono do socialismo real como forma de governo, passando o primeiro a ser a grande potência mundial. Surgia, assim, o mundo globalizado em que vivemos. Com a globalização, as grandes empresas multinacionais passaram a fazer o controle da economia mundial, em função dos seus interesses estabelecendo fusões e criando unidades financeiras gigantescas que não só controlam a economia e o governo dos vários países, como se dedicam, sobretudo, à exploração do capital financeiro. Desse modo, enquanto no colonialismo dominou o capital comercial e no imperialismo o industrial, no globalismo domina o capital financeiro, passando uma série de atividades industriais dos países do Primeiro Mundo, aos que se chamam hoje, formalmente, de países emergentes. Defende-se, porém, o comércio livre para a entrada das mercadorias dos países do Primeiro Mundo naqueles emergentes e excluídos, mas se mantêm tarifas protecionistas quando interessa aos países do Primeiro Mundo. A transferência de estabelecimentos industriais para os países emergentes permite a utilização de força de trabalho pior remunerada – daí a destruição dos sistemas trabalhistas e de previdência social – e um menor investimento em defesa do meio ambiente. O capitalismo, chegado ao máximo, não permite que haja preocupações com o homem ou com a Terra, como planeta, desde que a destruição de um ou de outro possa contribuir para o aumento dos lucros. 81 A política de globalização tem provocado a queda da oferta de empregos, a queda no padrão de qualidade do ensino, a volta de endemias e epidemias, na qualidade de vida e no sentimento da nacionalidade; destruindo os padrões morais existentes, ela estimula a corrupção, sobretudo nas esferas que detêm o poder, e a ânsia do enriquecimento rápido. Este é o mundo globalizado previsto por Karl Marx, no Manifesto Comunista de 1848, onde o capitalismo encara a superfície da Terra como um todo a ser explorado e dominado. Ocorre, porém, que dentro deste espaço “americanizado”, pode-se distinguir várias categorias territoriais, como: países ricos, formados pelos Estados Unidos e Canadá, na América, a Europa Ocidental, Central e Setentrional, no Velho Mundo, e o da Ásia Oriental, com o Japão. Não se pode saber onde se colocaria a Rússia, hoje inteiramente desorganizada em vista da transição do socialismo de Estado para o capitalismo mal dirigido. Uma segunda categoria seria formada pelos países chamados emergentes, aqueles que têm uma expressiva exploração mineral e uma evoluída indústria de transformação, caso do México, do Brasil, da Argentina, do Chile e, até certo ponto, do Uruguai, na América: na África, da África do Sul; na Europa Mediterrânea e alguns países da Europa de Leste, da China, da Austrália e Nova Zelândia e, finalmente, dos Estados excluídos que se encontram abandonados, super explorados, ocupados por companhias exploradoras de minérios e de produtos agrícolas, o que se observa sobretudo na África e em numerosos países da América, da Ásia e da Oceania. A globalização é feita em função de uma uniformização dos hábitos e costumes nos vários países, mas ela encontra resistência de povos que desejam melhorar os seus padrões de vida, desejam manter um mínimo de fidelidade a sua etnia e a sua cultura. Daí a intensificação de movimentos étnicos nacionalistas e as lutas intensas que se travam no Cáucaso, nos Bálcãs e na África: ocorre que entre os países ricos continua a haver divergências que os vêm levando a formar conjuntos regionais – ALCA, MERCOSUL, União Europeia etc. – que podem aspirar à liderança, a médio e longo prazos. Também a concentração da riqueza e as facilidades de transportes e comunicações vêm provocando migrações em massa dos países pobres para os países ricos,como se pode observar nos Estados Unidos onde o percentual de antilhanos de origem africana e de latino-americanos é cada vez mais elevado; na Alemanha, onde há uma grande população turca, alimentando movimentos neonazistas; na Inglaterra, com uma grande quantidade de imigrantes hindus; na França e na Espanha, com o crescimento da população árabe, com fortes diferenças étnicas e religiosas. Teme-se até uma muçulmanização da França, de vez que os árabes se reproduzem mais rapidamente do que os franceses. O trabalhador que encontra dificuldade de sobrevivência em seu país de origem tende a procurar trabalho nos países onde há maior oferta de empregos, e, após algumas gerações, sente-se natural do país que acolheu os seus antepassados, sem abdicar de suas origens. 82 Este fato pode provocar uma implosão social no país em que ele vive, tornando-se uma espécie de germe de destruição ou de transformação do processo de globalização. Isto porque, os modos de produção, como ensina Oskar Lange (1963), não são estáticos e sempre o modo de produção dominante traz em si resíduos do modo de produção anterior e, ao mesmo tempo, as sementes propícias ao surgimento de um novo modo de produção. Os processos de regionalização Como acabamos de ver, o processo de globalização vem provocando a for- mação de uma regionalização em escala mundial, com o surgimento de blocos de países nos vários continentes. Não é aquela regionalização característica da geografia tradicional, que teve tanta importância no início do século XX, baseada sobretudo nas condições naturais, mas uma regionalização geopolítica. O mesmo ocorre em escala continental e nacional. No Brasil, poderíamos até falar em uma regionalização em escala continental, já que o país tem dimensões de um continente e uma grande diversificação tanto em suas condições naturais como nas humanas. Desde o período imperial foram numerosos os estudiosos que procuraram distinguir regiões diversas no nosso país, falando-se sempre em uma contraposição entre o Norte e o Sul. A primeira divisão regional estabelecida oficialmente ocorreu em 1941, quando o governo Vargas resolveu desenvolver uma política de organização territorial, comandada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O geógrafo Fábio de Macedo Soares Guimarães, dispondo, ainda, de pouco conhecimento do território brasileiro (1941) e poucos recursos, fez a divisão em grandes regiões naturais, seguindo a orientação de Ricchieri. admitindo a existência de cinco unidades: a Amazônia ou região Norte, o Nordeste, compreendendo duas sub-regiões. a Oriental e a Ocidental, o Leste, também dividido em duas porções, a Setentrional e a Meridional, o Sul e o Centro-Oeste (ANDRADE, 1987). Logo ficou claro que a divisão proposta era inadequada, de vez que era difícil colocar toda a Amazônia, cerca de mais de 50% do território nacional, em uma única região, ou incluir o Maranhão no Nordeste, enquanto Sergipe e Bahia não estavam bem situados no Leste e muito menos São Paulo no Sul. As críticas levaram o IBGE a fazer uma reformulação, mantendo apenas as regiões menos conhecidas – a Amazônia e o Centro-Oeste – passando o Nordeste a absorver também Sergipe e Bahia e o Leste a ser substituído pelo Sudeste, compre- endendo Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. O Sul ficou reduzido apenas aos três estados meridionais. O dinamismo econômico levou o governo a criar novas divisões regionais, sem eliminar a do IBGE, criando, em consequência da aplica- ção da Constituição de 1946, uma Superintendência de Desenvolvimento Econômico do Vale do Amazonas, compreendendo além dos estados considerados nortistas, as 83 porções setentrionais de Mato Grosso e Goiás, drenadas para o grande rio. No Nor- deste, ao criar a SUDENE, estendeu a região até o norte de Minas Gerais. A criação do Estado do Tocantins, em 1988, estabeleceu que ele passaria a pertencer à região Norte, reduzindo o Centro-Oeste apenas aos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal. As preocupações regionais levaram os geógrafos e administradores a formular conceitos e estabelecer delimitações de regiões urbanas, de regiões agrárias, de regiões extrativistas, de regiões homogêneas, de regiões funcionais urbanas, de regiões polarizadas (ANDRADE, 1987), etc. Hoje, são mantidas as grandes regiões, mas elas estão divididas em mesorregiões e estas em microrregiões; os critérios para classificação e divisão regionais estão baseados muito mais em variáveis humanas do que em variáveis físico-naturais. Reconhecendo-se que as regiões se transformam, vêm sendo feitas, a cada dez anos, reformulações delas, coexistindo uma regionalização em escala nacional, ao lado de regionalizações em escala estadual. Pernambuco, por exemplo, está hoje dividido em 12 regiões de desenvolvimento, estabelecidas em função da ação política do governo estadual. A regionalização do território brasileiro vem sofrendo vários impactos, como o da expansão do povoamento, o da criação de novas unidades político-administrativas e a do relacionamento com o Mercosul e com os países vizinhos. No primeiro caso, o crescimento do Centro-Oeste e da Amazônia vem provocando o povoamento de áreas anteriormente subpovoadas e isoladas, criando novos fluxos e ampliando a produção econômica, muitas vezes com o sacrifício das populações locais – índios e posseiros – e com a destruição da floresta. A expansão do povoamento é altamente predatória, podendo-se admitir que a destruição da floresta pelas madeireiras, seguida da cultura da soja e da pecuária extensiva, provocam fortes impactos sobre a população local e os imigrantes que chegam à área e modificam as paisagens e as condições ecológicas. Este avanço provocará a criação de novas unidades territoriais, como já ocorreu em 1975, com o Mato Grosso do Sul, e em 1988, com o Tocantins e, tudo indica, ocorrerá dentro em pouco com a criação dos estados do Araguaia ou Mato Grosso do Norte e o do Tapajós e dos Territórios do Alto Rio Negro, do Solimões e do Juruá. Isto, para não mencionarmos outras possíveis redivisões de novos estados e territórios, em futuro próximo (ANDRADE, 1987). A criação de unidades administrativas organizará o espaço em áreas que se mantinham em um certo isolamento e redefinirá formas de uso do solo e direção de fluxos, provocando a definição de novas regiões. No Norte, por exemplo, já é difícil manter-se uma unidade da região Amazônica, observando- se a divisão dela em duas grandes regiões, a Amazônia Ocidental, liderada por Manaus, e a da Amazônia Oriental, polarizada para Belém. E isto ocorre, sobretudo, com a perda da importância do transporte fluvial, em vista do desenvolvimento das rodovias. 84 O impacto do Mercosul, sobretudo na região meridional, será muito grande, já que grandes empresas transnacionais podem se instalar no Uruguai e expandir sua influência na Argentina e no Brasil, criando problemas para os nacionais da área. Também é possível que a produção de um país, pior localizado, ou que utiliza menos técnicas, não tenha condições de competitividade com os países vizinhos. Como exemplo, temos o caso do trigo da região Sul brasileira; será que ele tem condições de competitividade com a produção do Pampa argentino? Qual será o impacto, no Sul do país, da formação de um eixo de desenvolvimento São Paulo-Buenos Aires? E o que ocorrerá com regiões tradicionalmente produtoras de açúcar, como o Noroeste da Argentina e o Nordeste do Brasil, frente à concorrência de regiões melhor dotadas, como o Centro-Oeste e o Sudeste brasileiros, onde numerosas usinas vêm sendo implantadas e outras ampliadas (ANDRADE, 1994)? Até que ponto continuará a ocorrer a transferência de usinas das áreas tradicionalmente produtoras para as áreas em expansão canavieira? Há uma expansão do povoamento brasileiro em países Vizinhos, como ocorre no Paraguai com os chamados brasiguaios e na Bolívia, onde Santa Cruz de la Sierra estápraticamente polarizada para São Paulo, apesar da grande distância entre as duas cidades; observando-se ainda uma migração de empresários e de técnicos brasileiros para países vizinhos mais pobres e de trabalhadores rurais, não qualificados profissionalmente, destes países para o Brasil. Outro movimento de menor expressão ocorre no norte da Bolívia, onde muitos dos seringueiros do departamento de Pando são brasileiros que migraram de Rondônia e do Acre, expulsos pelo avanço das relações capitalistas de produção no meio rural, que expropriam os chamados “homens da floresta”. Também um intercâmbio de influência é observado no noroeste do país, onde a cidade brasileira de Tabatinga está praticamente conturbada com a de Letícia, na Colômbia. criando problemas sérios de convivência fronteiriça, devido à dinamização do contrabando e do narcotráfico, comprometendo, muitas vezes, nações indígenas que são nômades e não respeitam as fronteiras políticas. Fora isto, as relações internacionais podem ser perturbadas em função da presença de guerrilha no território colombiano. Nas fronteiras com a Venezuela. o Brasil avança à procura do Caribe. área de disputa de domínio geopolítico do Brasil, do México e da própria Venezuela, como nações de influência regional, e dos Estados Unidos como potência hegemônica, desde os fins do século XIX, de onde os imperialistas europeus foram praticamente afastados, passando os minipaíses do Caribe ao controle americano, mesmo quando participantes da Comunidade Britânica de Nações. A vocação imperialista norte-americana foi praticamente consagrada pela vitória sobre a Espanha, em 1898, quando anexaram Porto Rico e estabeleceram um protetorado em Cuba, mantido até 1959, quando Fidel Castro derrotou Fulgêncio Batista. Pode-se admitir ainda uma série de tensões territoriais do Brasil com a Guiana e o Suriname, em áreas praticamente despovoadas e, ao mesmo tempo, possíveis confrontos com a França, na área fronteiriça do Amapá com a Guiana Francesa. 85 É bem verdade que na fase anterior à globalização já havia uma tendência a alterações nas formações regionais, mas agora, com a evolução acelerada da tecnologia e com a globalização do sistema de relações internacionais, o processo de transformação regional pode e tende a acelerar-se, convocando os geógrafos e outros cientistas sociais a maiores reflexões, a estudos mais detalhados. A globalização, ao mesmo tempo em que tenta unificar o espaço geográfico, estimula novas diferenciações, dando margem a novas formas de regionalizações e de transformações no meio geográfico, gerando, em consequência, o surgimento de uma nova fase com novas características. FONTE: Adaptado de <https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13396>. Acesso em: 18 nov. 2021. 86 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os conceitos de modernidade e de pós-modernidade e suas derivações, como hipermodernidade (Gilles Lipovetsky) e modernidade líquida (Zigmunt Bauman). • O papel da geografia para a leitura de mundo na modernidade e na pós-modernidade, bem como seus limites. • Os conceitos de espaço liso e espaço estriado (Gilles Deleuze e Felix Guattari). • Os conceitos de territorialização e de desterritorialização na relação com o espaço liso e o espaço estriado. • O conceito de espaço multidimensional ou de multidimensionalidade do espaço (Gilles Deleuze e Felix Guattari, dentre outros). • Exemplos para a análise dos conceitos supracitados. 87 RESUMO DO TÓPICO 4 1 “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. Essa é uma das frases mais famosas do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em janeiro de 2017, aos 91 anos. Com relação à passagem da modernidade à pós-modernidade, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A compreendia como uma ruptura (acabou a modernidade e teve início a pós- modernidade). b) ( ) A compreendia como uma continuidade (a pós-modernidade é continuidade da modernidade). c) ( ) Não acreditava na existência nem da modernidade nem da pós-modernidade. d) ( ) Era adepto aos argumentos de existência apenas da modernidade. e) ( ) Era adepto aos argumentos de existência apenas da pós-modernidade. 2 Os processos de Modernidade e Pós-Modernidade fazem parte das várias maneiras de compreensão daquilo que chamamos de realidade, decorrente das dinâmicas social, econômica, política, cultural e territorial, que impelem o debate em torno do próprio conhecimento. Ou seja, para falar de modernidade e de pós-modernidade, os momentos mais marcantes, de forma geral, são: a) ( ) Início do século XV com as grandes navegações na Europa e início do século XX com a Revolução. b) ( ) Início e fim da Guerra Fria. c) ( ) Início e fim do Iluminismo. d) ( ) Semana da Arte Moderna, no Brasil, e Revolução dos Cravos, em Portugal. e) ( ) Virada do século XIX para o século XX e final do século XX. 3 A pós-modernidade, também denominada de pós-modernismo, pode ser definida a partir das mudanças sociais, culturais, artísticas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, as transformações marcantes nas relações travadas entre as práticas capitalistas, as ciências, a arte e a realidade socioeconômica e cultural. Cite e explique três características do pós-modernismo. 4 Como foi visto no Tópico 4, podemos compreender que o espaço geográfico é multidimensional, ou seja, apesar de ser uma totalidade, é constituído de diversas dimensões ou partes, podendo ser elas materiais e imateriais, expressas em objetividades e/ou em subjetividades (SOUZA, 2013). Cite e explique três características do espaço geográfico multidimensional. AUTOATIVIDADE 88 5 Deleuze e Guattari (1997) pensaram os conceitos de espaço liso e de espaço estriado, criados pelos filósofos como categorias de análises para pensar a produção de uma determinada realidade social. Dentre os vários significados filosóficos deles, o que os associa à leitura do espaço geográfico parte do princípio de que ambos dizem respeito à condição de determinados territórios. Portanto, sobre de que constitui-se o espaço liso ou nômade, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Dos estratos e forças instituídas pelos aparelhos de Estado; b) ( ) De ordem maniqueísta; c) ( ) Pela formação de territórios marcados por fluxos e fluidos; d) ( ) Um espaço faz-se necessário à inexistência do outro; e) ( ) Movimentos inteiramente diferentes. REFERÊNCIAS 89 REFERÊNCIAS ADORNO, T. L. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Tradução: Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. ALLEN, J.; MASSEY, D.; COCHRANE, A. Rethinking the Region. Londres: Routledge, 1998. ANDRADE, M. C. de. Brasil: Globalização e Regionalização. Revista GEOgraphia, v. 3 n. 5. 2001. p. 7-14. Disponível em: https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13396. Acesso em: 24 jan. 2022. ARRIGHI, G. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. São Paulo: Edunesp, 1996. BAUMAN, Z. Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. BENKO, G. A pós-modernidade e o geógrafo. GEOUSP Espaço e Tempo (On-line), v. 3, n. 2, p. 95-104, 2006. DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.1999.123367. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/123367. Acesso em: 15 ago. 2021. BOSCARIOL, R. Região e regionalização no Brasil: uma análise segundo os resultados do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). In: MARGUTI, B. O.; COSTA, M. A.; PINTO, C. V. da S. Territórios em números: insumos para políticas públicas a partir da análise do IDHM e do IVS de municípios e das Unidades da Federação Brasileira. Brasília: IPEA/INCT, 2017, pp. 185-208. CLAVAL, P. O território na transiçãopós-Modernidade. GEOgraphia, v. 1, n. 2, p. 7-26, 1999. Disponível em: https://doi.org/10.22409/GEOgraphia1999.v1i2.a13349. Acesso em: 16 ago. 2021. CORRÊA, R. L. A organização do espaço brasileiro. Revista GEOSUL, n. 8, 1989, pp. 07-16. CORRÊA, R. L. Região e organização espacial. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000. CORRÊA, R. L. Trajetórias Geográficas. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13396 https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/123367 https://doi.org/10.22409/GEOgraphia1999.v1i2.a13349 90 CORRÊA, R. L. Redes geográficas: reflexões sobre um tema persistente. In: Revista Cidades, vol. 9, n. 16, 2012, p. 200-220. COSTA, F. R. Por uma geografia multidimensional, relacional e crítica. Boletim Goiano de Geografia. Goiânia, 2020, v. 40. COSTA, L. B. et al. Hoje tem consulta de quê? Projeto Espaço Liso. 31º SEURS. Seminário de Extensão da Região Sul – SEURS. Florianópolis, 4 a 7 de agosto de 2013. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O liso e o estriado. In: Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34, v. 5, 1997, p.179-214. FERREIRA, G. Z. A linha e os pontos. Arquitextos, Ano 17, mar. 2017. Disponível em: https:// vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.202/6483. Acesso em: 19 jan. 2022. FIGUEIREDO, R. R. A hipermodernidade e a expectativa de felicidade individual na sua relação com o sistema democrático e os direitos humanos na sociedade atual. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 20, n. 4397, 16 jul. 2015. Disponível em: https://jus.com.br/ artigos/40929. Acesso em: 21 out. 2021. GEIGER, P. P. Regionalização do Brasil. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, ano 31, n. 1, 1969. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/ periodicos/115/rbg_1969_v31_n1.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. GIDDENS, A. Capitalismo e moderna teoria social. Lisboa: Editorial Presença, 1972. 335p. GOMES, P. C. da C. Geografia e modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007. GOMES, P. C. da C. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, I. E. de; GOMES, P. C. da C.; CORRÊA, R. L. (Org.) Geografia: conceitos e temas. 3. ed. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 49-76. GREGORY, D. Postmodernism and the politics of social theory, environment and planing. Society and Space. v. 5, n. 3, 245-248.1987. Disponível em: https://journals.sagepub. com/doi/10.1068/d050245. Acesso em: 15 ago. 2021. HAESBAERT, R. Região, regionalização e regionalidade: questões contemporâneas. Antares, n. 3 – jan./jun., 2010a. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index. php/antares/article/view/416. Acesso em: 18 nov. 2021. HAESBAERT, R. Regional-global: dilemas da região e da regionalização na geografia contemporânea. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010b. https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.202/6483 https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.202/6483 https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/115/rbg_1969_v31_n1.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/115/rbg_1969_v31_n1.pdf http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/antares/article/view/416 http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/antares/article/view/416 91 HAESBAERT, R. REGIÃO. Revista GEOgraphia, 21(45), 117-120, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.22409/GEOgraphia2019.v21i45.a28995. Acesso em: 18 nov. 2021. HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1999. HARVEY, D. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2003. HARVEY, D. A transformação político-econômico do capitalismo do final do século XX. In: HARVEY, D. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Edições Loyola, 1992. Disponível em: https://edisciplinas.usp. br/pluginfile.php/3100977/mod_resource/content/1/516_12_apoio_HARVEY_ transforma%C3%A7%C3%A3o%20politica%20economica%20do%20capitalismo%20 fim%20XX_condicao%20pos%20moderna.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Regiões de influência das Cidades: 2018. Rio de Janeiro: IBGE, 2020, 192 p. JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Revista Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº 12, 1985. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile. php/2918778/mod_resource/content/1/516_13_base_JAMESON_%20pos%20 modernidade%20e%20sociedade%20de%20consumo_novos%20estudos.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2007. NOGUEIRA, M. L. M. Espaço e subjetividade na cidade privatizada. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós‐graduação em Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2013. PINHEIRO, C. A. K.; VALE, C. C. A Compartimentação do Parque Natural Municipal de Jacarenema Segundo a Hierarquia da Paisagem Proposta por Bertrand. Revista do Departamento De Geografia. Vitória, p. 38-47, 2017. Disponível em: https://doi. org/10.11606/rdg.v0ispe.132516. Acesso em: 18 nov. 2021. RIBEIRO, G. Modernidade e espaço, pós-modernidade e mundo: a crise da geografia em tempos de globalização. Diez años de cambios en el mundo, en la Geografía y en las Ciencias Sociales, 1999-2008. Actas del X Coloquio Internacional de Geocrítica. Universidad de Barcelona, 26-30 de mayo de 2008. Disponível em: http://www.ub.es/ geocrit/-xcol/154.htm. Acesso em: 13 ago. 2021. SANTOS, M. A natureza do espaço – Técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996. https://doi.org/10.22409/GEOgraphia2019.v21i45.a28995 https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3100977/mod_resource/content/1/516_12_apoio_HARVEY_transforma%C3%A7%C3%A3o politica economica do capitalismo fim XX_condicao pos moderna.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3100977/mod_resource/content/1/516_12_apoio_HARVEY_transforma%C3%A7%C3%A3o politica economica do capitalismo fim XX_condicao pos moderna.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3100977/mod_resource/content/1/516_12_apoio_HARVEY_transforma%C3%A7%C3%A3o politica economica do capitalismo fim XX_condicao pos moderna.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3100977/mod_resource/content/1/516_12_apoio_HARVEY_transforma%C3%A7%C3%A3o politica economica do capitalismo fim XX_condicao pos moderna.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2918778/mod_resource/content/1/516_13_base_JAMESON_ pos modernidade e sociedade de consumo_novos estudos.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2918778/mod_resource/content/1/516_13_base_JAMESON_ pos modernidade e sociedade de consumo_novos estudos.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2918778/mod_resource/content/1/516_13_base_JAMESON_ pos modernidade e sociedade de consumo_novos estudos.pdf https://doi.org/10.11606/rdg.v0ispe.132516 https://doi.org/10.11606/rdg.v0ispe.132516 http://www.ub.es/geocrit/-xcol/154.htm http://www.ub.es/geocrit/-xcol/154.htm 92 SANTOS, B. de S. Pela mão de Alice: o social e político na pós-modernidade. Lisboa: Almedina, 1994. SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001, pp. 23-54. SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2003. SÃO PAULO. Univesp TV apresenta única entrevista de Gilles Deleuze. 2009. Disponível em: https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/univesp-tv-apresenta- unica-entrevista-de-gilles-deleuze/. Acesso em: 18 nov. 2021. SOJA, E. Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. SOUZA, M. L. de. Os conceitos fundamentais da pesquisa socioespacial. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. SPOSITO, E. S. Geografia e filosofia: contribuição para o ensino do pensamento geográfico. São Paulo: UNESP, 2004. SUERTEGARAY, D. M. A. Espaço geográfico uno e múltiplo. Scripta Nova. Universidad de Barcelona, n. 93, 2001. Disponível em: http://www.ub.edu/geocrit/sn-93.htm. Acesso em: 18 nov.2021. TAFFARELLO, T. M. O espaço-sonoro como a criação de uma relação [imagem visual- tempo] – [som-espaço]. Revista Digital Art&. n. 10, 2008. Disponível em: http://www. revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/01.htm. Acesso em: 18 nov. 2021. https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/univesp-tv-apresenta-unica-entrevista-de-gilles-deleuze/ https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/univesp-tv-apresenta-unica-entrevista-de-gilles-deleuze/ http://www.ub.edu/geocrit/sn-93.htm http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/01.htm http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/01.htm 93 A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO E A GLOBALIZAÇÃO UNIDADE 2 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender a vinculação e a complexidade do estudo entre Geografia e organização do espaço geográfico e a globalização; • explicar os processos das transformações econômicas da globalização e suas dinâmicas de poder e a criação dos Blocos Econômicos. • analisar as redes e fluxos no espaço mundial nos processos socioespaciais contemporâneos e suas articulações sociais. • identificar temas vinculados às modificações no mercado de trabalho, na empregabilidade e desigualdade de renda no cenário mundial as transformações tecnológicas e os impactos no mundo do trabalho. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – GLOBALIZAÇÃO (ASPECTOS TEÓRICOS E CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO NO ÂMBITO GEOGRÁFICO) TÓPICO 2 – A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL E OS BLOCOS ECONÔMICOS TÓPICO 3 – REFLEXÕES SOBRE AS REDES E FLUXOS NO ESPAÇO MUNDIAL TÓPICO 4 – O TRABALHO NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 94 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 95 TÓPICO 1 — GLOBALIZAÇÃO (ASPECTOS TEÓRICOS E CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO NO ÂMBITO GEOGRÁFICO) UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Este tópico irá abordar os fundamentos da globalização como construção e análise do espaço geográfico. Através das mudanças que se tem acerca dos conceitos geográficos, temos que compreender como essas transformações se modificam ao longo do tempo. Este tópico retrata as concepções acerca do espaço geográfico, da breve história à margem do conceito, até suas novas concepções na sociedade contemporânea, na forma de um novo espaço, ou seja, o ciberespaço. Analisando a forma com que o conceito de espaço geográfico vem sofrendo alterações de acordo com a corrente de pensamento geográfico que o categoriza, e a forma que este se insere no mundo atual, se observa que ele, em tempos atuais, está também associado a uma nova forma, inexiste materialmente, mas ainda assim tem reflexos no mundo real. Nesse sentido, entende-se que a categoria espaço se subdivide na sociedade contemporânea, dando lugar a novos conceitos, como o ciberespaço. A finalidade está em discorrer sobre reflexões que possam subsidiar as posteriores discussões sobre a evolução histórica do pensamento sobre a globalização e a geografia, como categoria na análise geográfica, através da abordagem histórica de alguns autores que participaram na própria evolução da ciência geográfica, como as concepções de espaço abordadas por grandes pensadores, principalmente, na geografia crítica, como no caso de Milton Santos, até a virtualização desse espaço, com sua relação com o ciberespaço. Desejamos bons estudos! 2 A GLOBALIZAÇÃO COMO CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DO ESPAÇO GEOGRÁFICO "O espaço se globaliza, mas não é mundial como um todo senão como metáfora. Todos os lugares são mundiais, mas não há um espaço mundial. Quem se globaliza mesmo são as pessoas" (SANTOS, 1994, p. 31). 96 Dentro do universo da globalização, as sociedades, ao longo do tempo, se transformaram e estão particularmente mudando nas formas de organização espacial, voltadas para os processos de produção, reprodução, transformação e apropriação do ambiente construído, incluindo as infraestruturas e estruturas físicas, os serviços e equipamentos urbanos e rurais, sua localização relativa ao território e às práticas sociais aos quais se articulam e dos quais não podem ser separadas. Primeiramente, quando o ser humano deixa de ser nômade e passa a ocupar o território nas margens dos rios, inicia-se a modificação das estruturas naturais, sendo as primeiras tentativas de adaptar a natureza aos interesses e contextos humanos. Nesta dinâmica, o ser humano viveu em harmonia com o meio natural até meados do século XV, quando surgem as relações comerciais promovidas por uma Divisão Internacional do Trabalho, que exigiam um saque maior de recursos naturais. Nesta estrutura do espaço geográfico contemporâneo, reflete-se um espaço engendrado por uma ordem capitalista, que produzia não mais para subsistência, mas para a acumulação de capitais, advindo do capitalismo comercial. Com isso, as estruturas espaciais sofriam intensas modificações e as cidades eram os exemplos mais genuínos das transformações naturais. Tendo como ideia inicial as preposições de Immanuel Kant no século XVIII, principalmente, como se davam as formas de percepção, em que, segundo Kant, nós podemos perceber tudo que está enfocado em nossa realidade, ou seja, observamos toda a realidade espacial das coisas que nos cercam, mas a categoria espaço é algo que não pode ser visto através dessa percepção, é algo que permite essa percepção, ou seja, na concepção de espaço de Kant, este está separado dos demais fenômenos que ocorrem no campo do real, ou seja, da própria superfície da terra. Contudo, dentre os avanços que Kant nos apresenta, podemos destacar as suas considerações para o avanço dos estudos regionais, mas nessa visão ainda não temos a ideia de um espaço constituído, que propõe significados ou possua uma estrutura própria. Avançando na ideia da concepção do espaço, temos também as proposições de La Blache e Ratzel, em que o pensador francês propunha que o meio era tido como o local onde se coabitavam as diversidades, onde a geografia é a ciência dos lugares, e a paisagem é abordada e relatada através de métodos descritivos e o espaço seria o local onde se davam as relações entre o homem e o meio natural. Já o pensador alemão se firma na definição do espaço através da própria política, onde em seus pensamentos tem-se a definição do “espaço-vital”, ou seja, o homem deve conquistar espaços, a fim de garantir sua própria sobrevivência, não apenas física, mas também baseada em política e dominação de territórios, onde o domínio do espaço se torna elemento essencial na própria história do homem. 97 Com a evolução do pensamento acerca do espaço, também podemos relatar a ideia de Hartshorne (1978), onde o espaço aparece na forma de um conceito abstrato, em que os fenômenos estão relacionados com a área e a definição dela está relacionada somente aos fenômenos que tal área contém. Para Hartshorne, o espaço é absoluto e independente onde se caracteriza um conjunto que tem existência em si. Corrêa (2005) determina que o espaço para Hartshorne aparece apenas como um receptáculo que contém coisas. Para Braga (2007), Hartshorne fornece 3 definições para o objetivo da geografia com relação ao espaço geográfico: a geografia tem por objetivo proporcionar a descrição e a interpretação, de maneira precisa, ordenada e racional, do caráter variável da superfície da terra; a geografia é a disciplina que procura descrever e interpretar caráter variável da terra, de lugar a lugar, como o mundo do homem e a geografia é o estudo que busca proporcionar a descrição cientifica da terra como o mundo do homem. Além dessas definições, temos a contribuição de Max Sorre (2003, p. 137), que buscou a relação entre a geografia humana e oespaço geográfico, onde o autor concebe a geografia humana como “a descrição cientifica das paisagens humanas e sua e sua distribuição pelo Globo”, onde ela é tida como a disciplina dos “espaços terrestres”. Na concepção de Sorre, o espaço é como localização e extensão, podendo ser representados por mapas. Seu conceito se difere da proposta de Hartshorne. Outro autor que tem grande relevância nos estudos acerca do espaço geográfico é Henri Lefebvre, o qual entende que o espaço possui quatro abordagens, sendo fruto das relações sociais de produção, em todas as suas totalidades. Lefebvre (1976) ressalta suas concepções de espaços denominadas: O espaço como forma pura; espaço como produto da sociedade; espaço como instrumento político e ideológico e o espaço socialmente produzido, apropriado e transformado pela sociedade. Santos (1978) coloca o espaço como uma estrutura que é organizada pelo homem, onde ele é organizado como as demais estruturas sociais, uma estrutura subordinada e subordinante. Avançando nesse pensamento, Santos (1982) nos diz que o espaço é fruto da acumulação desigual de tempos. Santos (1997) ainda nos dá uma grande contribuição acerca do espaço, em que relata que o espaço como uma instância da sociedade, ao mesmo título que a instância econômica e a instância cultural- ideológica. Como instância, ele contém e é por ele contida. Nesse sentido, Santos (1997) demonstra que a essência do espaço é puramente social. Outra contribuição de Santos são nos estudos do meio técnico-científico- informacional, que se iniciam na década de 1970, e hoje tem grande ligação com as novas formas de espaço que foram retratados no decorrer deste artigo, onde o meio técnico-cientifico-informacional é caracterizado pela aplicação da ciência à técnica, por isto meio técnico científico; mas este meio e estas técnicas são impregnadas de informação e transmitem, acumulam informação, por isto meio técnico-científico- informacional (MAIA, 2010). 98 Os espaços assim requalificados atendem sobretudo aos interesses dos atores hegemônicos da economia, da cultura e da política e são incorporados plenamente às novas correntes mundiais. O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização (SANTOS, 1997, p. 191). A partir desse breve histórico, se observa que o espaço geográfico vem mudando de acordo com o período da história geográfica em que está inserido. Observando esses aspectos, pode-se dizer que as ideias, principalmente de Lefebvre e Santos, estão relacionadas com a evolução do meio técnico-científico-informacional. Podem demonstrar como os estudos sobre o espaço vem tomando novos rumos e novas concepções, até chegar ao seu ápice na sociedade contemporânea: a globalização. Vamos pensar: a globalização é uma novidade? Ainda que seja uma palavra nova, empregada para caracterizar um mundo interligado, e a integração entre povos e territórios iniciou-se muito tempo atrás. As sociedades estão em processo de transformação e globalização desde o início da História, acelerado pela época dos descobrimentos, das Revoluções Industriais e Tecnológicas e das Guerras, como vemos a seguir: FIGURA 1 – IMAGEM DA PRÉ-HISTÓRIA FONTE: <https://cleofas.com.br/as-sepulturas-na-pre-historia-eb/>. Acesso em: 11 nov. 2021. 99 As pesquisas de paleontologia têm permitido mais e mais reconstituir os inícios do ser humano sobre a face da terra. A pré-história é o período que abrange as atividades do homem anteriores ao aparecimento da escrita, isto é, anteriores há 8.000 a.C., aproximadamente. Compreende os períodos da Idade da Pedra, em que os homens usavam exclusivamente armas e instrumentos de pedra, sem recurso ao bronze e ao ferro. Nesse uso da pedra, há aperfeiçoamento paulatino, de modo que se distinguem. Na Idade Paleolítica, os mais antigos instrumentos de pedra têm cerca de 2.500.000 anos. O homem, então, criou balas, martelos, machados de pedra; descobriu a produção do fogo; vivia da caça de animais e da coleta de frutas e raízes que encontrava. Morava em cavernas, abrigos naturais ou ao ar livre. Trata-se da Idade Mesolítica; a Idade Neolítica. FIGURA 2 – AS GRANDES NAVEGAÇÕES FONTE: <https://incrivelhistoria.com.br/grandes-navegacoes-era-dos-descobrimentos/>. Acesso em: 11 nov. 2021. O período das grandes navegações ou a era do Descobrimento, foi um período de grandes descobertas de territórios, por grande parte dos navegadores europeus. Assim, o sistema feudal sucumbiria, nascendo o mercantilismo (“embrião” do capitalismo), que visava à acumulação de metais preciosos, como exemplo, o ouro e prata. Com o pensamento de que para se criar uma nação poderosa e estruturada era necessário ter produtos valiosos a oferecer, nada melhor que as especiarias do Oriente. Assim, surgiram pactos coloniais, protecionismos, balanças comerciais para exportação e importação, vigorando até o final do século XVIII, que passa a um mundo com o imperialismo do fim do século XIX e início do século XX com a hegemonia da Inglaterra e dos Estados Unidos até chegar aos processos de transnacionalização e globalização do final do século XX. https://incrivelhistoria.com.br/grandes-navegacoes-era-dos-descobrimentos/ 100 FIGURA 3 – REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS E TECNOLÓGICAS FONTE: <https://c2ti.com.br/blog/o-que-e-a-quarta-revolucao-industrial-inovacao>. Acesso em: 11 nov. 2021. Vários autores analisam que as revoluções industriais são períodos que são transformados por mudanças nas relações de trabalho que surgem através das novas tecnologias, relatando que a humanidade já passou por quatro grandes períodos, sendo estes denominados de Revoluções Industriais e Tecnológicas. Como vimos na Figura 3, as quatro revoluções marcaram um período específico e apresentaram diversos avanços em setores distintos. ✓ 1° Revolução Ocorre na Europa Ocidental e nos Estados Unidos entre os anos de 1760 – 1840. Nela, as tecnologias de combustão e produção em massa surgiram entre a produção artesanal que vigorou por séculos, dando a configuração do que conhecemos hoje como produção industrial. ✓ 2° Revolução Ocorreu entre os anos 1850 – 1945, envolvendo o desenvolvimento das indústrias química, elétrica, petróleo e aço, além dos progressos nos meios de transporte e de comunicação. ✓ 3° Revolução Ocorreu após o fim da Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1950 – 2010. Essa Revolução ficou marcada pela substituição gradual da mecânica analógica pela digital, gerando, assim, a criação de microcomputadores e a internet. ✓ 4° Revolução Atualmente estamos passando pela quarta revolução, que alguns autores denomi- nam de Revolução 4.0, que se utiliza das tecnologias criadas nas revoluções anterio- res para gerar conhecimento e produtividade. Trata-se de uma confluência de prati- camente todas as tecnologias já existentes. https://c2ti.com.br/blog/o-que-e-a-quarta-revolucao-industrial-inovacao 101 Santos (2008, p. 33) apresenta que a globalização tem sua origem por um longo processo de evolução da tecnologia e de seu uso, com formas espaciais específicas. A sua propagação ocorre através da historicidade do espaço, classificado por ele por três períodos históricos, cada um marcado por uma grande revolução: • O primeiro iniciado no fim no século XV é marcado pela revolução dos transportes marítimos, quando o mundo começa a ser conhecido como um todo sob o comando comercial de Espanha e Portugal. • O segundo começa em meados do século XVIII, caracterizado pela revolução industrial; e o terceiro marcado pela revolução tecnológica, o período atual, cujas texturas se verificam após a Segunda Guerra Mundial. • O período histórico atual, muito distinto dos que os precederam, tem como fundamento marcante o tripé: técnica, ciência e informação. Por isso denominado por Milton Santos de meio técnico-científico-informacional, conforme enunciado anteriormente. Técnica universalizada relacionalmente e presente em cada lugar de forma potencial. Vive-seum mundo em que a ciência é o motor do desenvolvimento, onde o trabalho intelectual ganha importância primária e as informações em massa se processam vertiginosamente. Nesse sentido, Ribeiro (2002, p. 1995) corrobora para o fato: A difusão do termo globalização ocorreu por meio da imprensa financeira internacional, em meados da década de 1980. Depois disso, muitos intelectuais dedicaram-se ao tema, associando-a à difusão de novas tecnologias na área de comunicação, como satélites artificiais, redes de fibra ótica que interligam pessoas por meio de computadores, entre outras, que permitiram acelerar a circulação de informações e de fluxos financeiros. Globalização passou a ser sinônimo de aplicações financeiras e de investimentos pelo mundo afora. Além disso, ela foi definida como um sistema cultural que homogeneíza, que afirma o mesmo a partir da introdução de identidades culturais diversas que se sobrepõem aos indivíduos. Por fim, houve quem afirmasse estarmos diante de um cidadão global, definido apenas como o que está inserido no universo do consumo, o que destoa completamente da ideia de cidadania. Evidenciando a perversidade e os conflitos existentes na globalização, Ribeiro (2002) elenca a globalização baseada na política, segundo as categorias tempo e espaço, como um sistema mundo, como um paradigma para a ação, refletindo nos Estados- Nação e exigindo um protecionismo que, em tese, se contradiz com a demanda "livre e global" apregoada pelos liberais de plantão. A globalização é discutida, segundo as categorias tempo/espaço, no âmbito do sistema-mundo, na pós-modernidade e à luz dos conceitos de nação, mercado mundial e lugar. Tornada paradigma para a ação, a globalização reflete nos Estados-nação. Porém, ao olhar para o lugar, para onde as pessoas vivem seu cotidiano, identifica-se o lado perverso e excludente da globalização, em especial quando os lugares ficam nas áreas pobres do mundo. 102 Ao reafirmar o mesmo, a globalização econômica não consegue impedir que aflorem os outros, resultando em conflitos que muitos tentam dissimular como competitividade entre os Estados-nação e/ou corporações internacionais, sejam financeiras ou voltadas à produção. A globalização é fragmentação ao expressar no lugar os particularismos étnicos, nacionais, religiosos e os excluídos dos processos econômicos com objetivo de acumulação de riqueza ou de fomentar o conflito (RIBEIRO, 2002, p. 2). Podemos entender a globalização como um processo em que os fenômenos (economia, política, cultura, questão ambiental) passam a ocorrer em uma escala global. IMPORTANTE Os diferentes aspectos do processo de globalização são analisados por Santos (2000, p. 80): A globalização econômica e o neoliberalismo, a globalização social e as desigualdades, a globalização política e o Estado-nação, a globalização cultural ou cultura global, globalização hegemônica e contra-hegemônica, os graus de intensidade da globalização além de uma perspectiva do futuro da globalização. A ideia de globalização evoca a noção de um mundo único, uma aldeia global, um mundo sem fronteiras, de integração da economia mundial, de onde resultam expressões como: cultura mundial, civilização mundial, governança mundial, economia mundial, cidadania global. Portanto, Santos (2000) destaca que as atividades hegemônicas do mundo globalizado estão todas fundadas na técnica e na tecnociência. Como exemplo temos o fato de que há cerca de 150 anos era usado o Código Morse como meio de comunicação, que foi substituído pela tecnologia dos satélites, permitindo localizar qualquer pessoa, usando um GPS, por exemplo. FIGURA 4 – ILUSTRAÇÃO DO CÓDIGO MORSE FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/geografia/codigo-morse.htm>. Acesso em: 11 nov. 2021. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/codigo-morse.htm 103 Desenvolvido em 1835, pelo pintor e inventor Samuel Finley Breese Morse, o Código Morse é um sistema binário de representação à distância de números, letras e sinais gráficos, utilizando-se de sons curtos e longos, além de pontos e traços para transmitir mensagens. Esse sistema é composto por todas as letras do alfabeto e todos os números. Os caracteres são representados por uma combinação específica de pontos e traços, conforme exposto na tabela. Para formar as palavras, basta realizar a combinação correta de símbolos. As mensagens são transmitidas por meio e intervalos de som (apito) ou luz (lanterna), podendo ser captadas por diversos aparelhos, como, por exemplo, o radiotelégrafo e o telégrafo. Esse meio de comunicação foi muito utilizado por marinheiros durante o século XIX. O primeiro registro de resgate marítimo depois de pedido de socorro utilizando o Código Morse ocorreu em 1899, no Estreito de Dover. FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/geografia/codigo-morse.htm>. Acesso em: 11 nov. 2021. NOTA FIGURA 5 – MODELO DE GPS FONTE: Adaptado de <https://www.hardware.com.br/artigos/gps/>. Acesso em: 11 nov. 2021. A globalização tem sua origem por um longo processo de evolução da tecnologia (Figura 6) e de seu uso, com formas espaciais específicas, bem como foi favorecida pelo casamento entre a ciência e a técnica, que é condicionado pelo mercado: a ciência e a técnica passam a produzir aquilo que interessa ao mercado e não a humanidade em geral. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/codigo-morse.htm%3e. Acesso em: 11 nov. 2021 https://brasilescola.uol.com.br/geografia/codigo-morse.htm%3e. Acesso em: 11 nov. 2021 104 FIGURA 6 – LINHA DO TEMPO DA EVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA A PARTIR DOS ANOS 2000 ATÉ 2009 FONTE: <https://bit.ly/3Kw5HQZ>. Acesso em: 11 nov. 2021. O mundo da técnica promoveu uma maior fluidez e rapidez nas relações sociais, mas uma fluidez que não é para todos, e sim para os agentes que têm a possibilidade de utilizá-la. A “compartimentação dos territórios ganham esse novo ingrediente [...], tudo hoje está compartimentado; incluindo toda a superfície do planeta” (SANTOS, 2000, p. 84). É dessa forma que se potencializa a força das grandes empresas em detrimento de outras, que são forçadas em suas formas “de ser e agir” a adaptar-se ao “epicentro” das empresas hegemônicas. “Com a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro fluido, relativamente invisível, praticamente abstrato” (SANTOS, 2000, p. 100). A partir da década de 1970, se tem uma nova forma de se aprimorar os meios de produção, quando se começa a pensar numa forma de substituir as massas de trabalho braçal por novas concepções “modernas” de se utilizar no processo produtivo. Tendo esse enfoque, começa a surgir, nessa década, uma nova forma de revolução, que parte através da indústria e da ciência, ponto que se pode chamar de início da revolução digital, na forma mais primitiva, pois nessa década começa o desenvolvimento e comercialização dos microcomputadores para as grandes empresas, a fim de acelerar os processos econômicos e de produção. FIGURA 7 – LINHA DO TEMPO DA EVOLUÇÃO DOS COMPUTADORES FONTE: <https://www.todamateria.com.br/historia-e-evolucao-dos-computadores/>. Acesso em: 11 nov. 2021. https://www.todamateria.com.br/historia-e-evolucao-dos-computadores/ 105 Então, a partir da década de 1980, os processos informatizados se fundem com as telecomunicações, e o processo de informatização passa a ser explorado como um novo recurso. Com as inovações tecnológicas ao longo da década de 1980 e o surgimento de novas interfaces gráficas para esses sistemas computacionais, os processos informatizados começam a se tornar parte do cotidiano da sociedade, e, utilizando da sua fusão com os processos midiáticos, esses começam a ter mais alcance em todo o planeta. Essa “digitalização” do mundo moderno, ou seja, no final do século XX, se intensifica a partir dos anos 1990, quando começa uma ruptura de paradigmas. A própria evolução tecnológica e a massificação dos sistemas digitais se tornam o início de uma infraestruturapara o ciberespaço, em que um dos mais importantes processos que contribuíram para essa infraestrutura foi a criação da internet e sua popularização através de novas interfaces gráficas, atraindo cada vez mais a sociedade. Então, as diferentes redes, que coexistiam nesse “novo mundo cibernético”, começam a se interligar, criando uma nova corrente, de diferentes culturas, aspectos que não conseguimos prever, em que predomina a velocidade da informação e novas relações espaciais começam a tomar forma através de novas maneiras de comunicação, sociabilidade, organização e também um novo mercado de produção e consumo. Com isso, a evolução, através das décadas desses meios informacionais digi- tais, o novo mundo cibernético começa a ter um reflexo na própria sociedade, que o criou e o mantém, em que a mercadoria muda de forma, deixa de ser física e se torna virtual, e a matéria-prima não vem mais da apropriação da natureza pela sociedade, mas da própria sociedade, uma vez que a informação e o conhecimento se tornam essa matéria, sintetizadas e objetivas em uma nova concepção do tempo/espaço, ou seja, o ciberespaço. FIGURA 8 – CIBERESPAÇO INTERCONECTADO FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/geografia/o-que-e-globalizacao.htm>. Acesso em: 21 fev. 2022. https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/geografia/o-que-e-globalizacao.htm 106 CIBERESPAÇO: Termo que advém da ficção científica, criada por William Gibson, em 1984 com a sua obra o Neuromante, onde o termo se refere a um universo de redes digitais, o qual é tido como um campo de batalha entre as multinacionais, gerando uma nova fronteira econômica-cultural, em que predomina a velocidade da informação e alguns podem entrar fisicamente neste espaço para viver aventuras dos mais variados tipos. Observe que a ficção de Gibson, criada em 1984, surge em um momento de ascensão dos sistemas digitais, mas não se difere muito da própria realidade vivida pela sociedade contemporânea. INTERESSANTE Devido à própria criação do ciberespaço estar correlacionada com a evolução da sociedade, há de se pensar em uma nova forma de se explicar tais fenômenos e buscar sua essência natural, principalmente no âmbito da geografia, ciência que sempre vem acompanhando essas transformações da sociedade moderna. Como o ciberespaço vem das transformações da sociedade através dos meios digitais, pode-se dizer que o próprio conceito de espaço geográfico vem evoluindo, pois, a partir dos estudos de Milton Santos, na década de 1990, já se apontava uma necessidade de entender essa Geografia das redes, a fim de fundamentar uma crítica à própria geografia crítica, tornando de suma importância os estudos do ciberespaço e da internet na geografia contemporânea. Todavia, o estudo do ciberespaço, segundo o olhar da geografia, constitui um esforço recente que vem se expandindo e se consolidando rapidamente, impulsionado principalmente pela necessidade de se estabelecer as bases conceituais que expliquem e elucidem como essa estrutura de rede, através da internet, afeta e é influenciada pela dinâmica territorial produzida com o crescimento de e-commerce e de atividades eletrônicas (PIRES, 2009). Então, a relação entre espaço geográfico e ciberespaço está na própria técnica, conforme sugere Santos (2002, p. 29): “a própria ideia de meio geográfico é inseparável da noção de técnica”. Milton Santos (2002, p. 29) entende as técnicas como “um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço”. É, então, a técnica um intermediário entre o homem e o meio, ou, até mesmo, entre o homem e suas relações sociais, uma vez que a partir da evolução dessa técnica, se tem as ideias do ciberespaço em nossas relações contemporâneas. 107 Nunes (2003), em sua conceituação do que seria o ciberespaço, diz que esse é um espaço dinâmico de informações sígnias, que se entrelaçam de maneira recorrente, remetendo-nos infinitamente para novas informações, dada sua natureza pluritextual. Definição bem mais técnica e filosófica que adota o fator de descrição do ciberespaço, dando-nos, em breves palavras, a sensação de que se trata de um espaço caracterizado por redes informacionais (AZEVEDO, MONTEIRO, 2010). Machado (2002, p. 1), em seus estudos, defende que o ciberespaço é um espaço e não apenas um meio de comunicação: Mais que em outras formas de comunicação, no ciberespaço a expressão simbólica está temporalmente sempre presente: mensagens, sons, imagens, informação, não há limites de tempo e espaço para sua existência e a interação é sempre possível. Por essas razões, o ciberespaço está mais para espaço que para meio. A partir dessas novas formas de se ler o ciberespaço, observa-se que ele está mais relacionado às concepções clássicas de espaço do que um novo meio, onde as relações sociais que estão presentes em uma estrutura o legitimam como um novo campo de estudos da geografia pós-moderna. Partindo dessas abordagens desse grande tema de estudo, vemos que no decorrer da história da sociedade, o espaço construído em cada instante atendia aos interesses de uma nova classe social, totalmente adaptado às necessidades econômicas e sociais da época. É interessante lembrar que o espaço geográfico em sua essência é dinâmico e em processo de transformações, e se mostra diferente em cada época, ou seja, analisando a forma com que o conceito de espaço geográfico vem sofrendo alterações de acordo com a corrente de pensamento geográfico que o categoriza, e a forma que este se insere no mundo atual, se observa que ele, em tempos atuais, está também associado a uma nova forma, inexiste materialmente, mas ainda assim tem reflexos no mundo real. Nesse sentido, entende-se que a categoria espaço se subdivide na sociedade contemporânea, dando lugar a novos conceitos, como a globalização, chegando ao conceito do ciberespaço. 108 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A globalização se transformou e particularmente mudou as formas de organização espacial, voltadas para os processos de produção, reprodução, transformação e apropriação do ambiente construído, incluindo as infraestruturas e estruturas físicas, os serviços e equipamentos urbanos e rurais. • O espaço vem tomando novos rumos e novas concepções, até chegar ao seu ápice na sociedade contemporânea: a globalização. • A globalização é um processo em que os fenômenos de economia, política, cultura, questão ambiental, entre outros, passam a ocorrer em uma escala global. • O mundo da técnica promoveu uma maior fluidez e rapidez nas relações sociais. • A informação e o conhecimento se tornam uma mercadoria virtual, sintetizadas e objetivas em uma nova concepção do tempo/espaço, ou seja, o ciberespaço. • A categoria espaço se subdivide na sociedade contemporânea, dando lugar a novos conceitos, como a globalização, chegando ao conceito do ciberespaço. 109 RESUMO DO TÓPICO 1 1 O processo de globalização, iniciado com as grandes navegações, atravessa os séculos e apresenta-se hoje, em todo o mundo. Acerca da globalização, analise as sentenças a seguir: I- A ideia de globalização evoca a noção de um mundo único, uma aldeia global, um mundo sem fronteiras, de integração da economia mundial. II- O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização. III- A globalização econômica é o estágio supremo da internacionalização e o maior destaque desse mais recente período é o extraordinário progresso das ciências e das técnicas, a permitir que o mundo se torne socialmente mais justo e igualitário. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença III está correta. b) ( ) As sentenças I e II estão corretas. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) As sentenças II e III estão corretas. 2 As revoluções industriais são períodos que são transformados por mudanças nas relações de trabalho, que surgem através das novas tecnologias,relatando que a humanidade já passou por quatro grandes períodos, denominados de Revoluções Industriais e Tecnológicas. Assim, diante das transformações ocorridas, analise as sentenças a seguir: I- Na primeira revolução industrial teve a expansão da mecanização, com a introdução da máquina a vapor do carvão. II- As transformações alcançadas pela terceira revolução industrial foi a produção automatizada, com a substituição gradual da mecânica analógica pela digital. III- A quarta revolução industrial é a integração de diferentes tecnologias como in- teligência artificial, robótica, internet das coisas e computação em nuvem com o objetivo de promover a digitalização das atividades industriais melhorando os processos e aumentando a produtividade. IV- A segunda revolução representou o aumento de indústrias e a inserção de novos meios de produção, com base em petróleo e eletricidade. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença IV está correta. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) Somente a sentença III está correta. d) ( ) As sentenças I, II, III e IV estão corretas. AUTOATIVIDADE 110 3 Observe a charge a seguir. FONTE: VESENTINI, J. W. Geografia: o mundo em transição. São Paulo: Editora Ática, 2012. p.323. A ilustração de Millôr Fernandes é uma crítica à ordem global atual. Além disso, ela faz referência às fronteiras Norte e Sul se tornam metáforas frente à hegemonia capitalista e a geopolítica contemporânea. Sobre a atual regionalização socioeconômica mundial, Norte e Sul, correspondem, respectivamente, a qual classe de países? a) ( ) Pobres e ricos. b) ( ) Socialistas e capitalistas. c) ( ) Desenvolvidos e subdesenvolvidos. d) ( ) Situados acima da Linha do Equador e abaixo desse marco divisório. 4 Com o avanço das tecnologias informáticas de comunicação, observamos o surgimento de novas formas de interação humana. A expansão de usos do computador, o desenvolvimento formidável de interfaces "amigas" e a expansão das redes (sobretudo da Internet) gerou uma superação das limitações impostas pelo tempo e pelo espaço. Isso resultou em uma série de implicações no cotidiano das pessoas, especialmente no que se refere às formas de comunicação humana (MACHADO, 2002). Sendo assim, qual o significado do conceito Ciberespaço? 5 Como vimos no texto, com as inovações tecnológicas ao longo da década de 1980 e o surgimento de novas interfaces gráficas para esses sistemas computacionais, os processos informatizados começam a se tornar parte do cotidiano da sociedade, e utilizando da sua fusão com os processos midiáticos, esses começam a ter mais alcance em todo o planeta. Por meio do que você viu no decorrer do tópico, disserte sobre a digitalização do mundo moderno. 111 A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL E OS BLOCOS ECONÔMICOS 1 INTRODUÇÃO Este tópico abordará a concepção da globalização representada pelo processo de integração em escala mundial da economia de mercado, das relações, interações humanas, relações econômicas, relações políticas e relações culturais entre as nações. Por consequência, da velocidade do crescimento do processo crescente dos meios de transporte e comunicação, como exemplo, temos as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Desta maneira, a globalização não é apenas um fenômeno de natureza econômica, mas é também política, tecnológica, cultural. Trata-se de novos territórios anexados ao sistema da globalização, se tornando um mercado global, constituindo as nações em blocos econômicos. Desse modo, vamos dividir o tópico em três partes: a primeira abordará as grandes potências econômicas e o papel na organização mundial do espaço; a segunda parte identificará o termo blocos econômicos do mundo globalizado e suas características; e, por fim, na terceira parte, apresentaremos os principais blocos econômicos mundiais. Ao final desta unidade, esperamos que você, acadêmico, possa compreender melhor qual a relação das grandes potências econômicas com a organização mundial do espaço, analisando como o poder é um processo complexo e profundo. Buscamos, assim, destacar os principais blocos e seus objetivos, além de apontar novos caminhos de leitura e pesquisa para compreensão do papel do Estado e seus atores/agentes. UNIDADE 2 TÓPICO 2 - 2 OS GRANDES POTENCIAIS ECONÔMICOS E O PAPEL NA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO ESPAÇO Por meio da globalização, o espaço geográfico se transforma e começa a criar um mercado e sociedades globais, com uma grande aceleração na intensificação da circulação de mercadorias e de pessoas, reduzindo as distâncias e mudando a percepção de mundo. Passamos a viver um novo momento que abalou os modos de ser, de sentir, de pensar (IANNI, 2007). Nessa perspectiva, surgem diferentes definições para o processo de globaliza- ção, como apresenta Ianni (2007, p. 15-16): 112 Há metáforas, bem como expressões descritivas e interpretativas fundamentadas, que circulam combinadamente pela bibliografia sobre a globalização: “economia-mundo”, “sistema-mundo”, “shopping Center global”, “Disneylândia global”, “nova visão internacional do trabalho”, “moeda global”, “cidade global”, “capitalismo global”, “mundo sem fronteiras”, “tecnocosmo”, “planeta terra”, ‘’desterritorialização”, “miniaturização”, “hegemonia global”, “fim da geografia”, “fim da história” e outras mais. Em parte, cada uma dessas e outras formulações abrem problemas específicos também relevantes. Suscitam ângulos diversos de análise, priorizando aspectos sociais, econômicos, políticos, geográficos, históricos, políticos, demográficos, culturais, religiosos, linguísticos etc. Indicamos para a leitura mais aprofundada do tema globalização a revista DIGE – Direito Internacional e Globalização Econômica (ISSN:2526-6284). Trata-se de uma publicação de acesso aberto coordenada pelo Prof. Dr. Antônio Márcio da Cunha Guimarães, Professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da PUC/SP. A ideia principal é reunir estudos e trabalhos dos estudiosos sobre o tema, participantes da PUC/SP, mas também e especialmente, de outras universidades nacionais e estrangeiras, viabilizando assim a difusão do conhecimento e a troca de informações acadêmicas entre os diversos juristas do direito internacional. FONTE: <https://revistas.pucsp.br/index.php/DIGE>. Acesso em: 21 fev. 2022. DICA Para compreender todo esse processo e suas definições, vamos entender que os grandes agentes econômicos capitalistas da globalização são as empresas multinacionais, também definidas como transnacionais, que realizam estudos dos territórios para implementar suas sedes e indústrias, movimentando suas riquezas de um país para outro, e onde chegam influenciam as economias locais e nacionais, desde as suas leis, políticas e até suas culturas. Dá-se a todo esse processo o nome de globalização, que antes de ser um movimento que traga somente benefícios, acaba muitas vezes se transformando na imposição de culturas, economias e políticas, tudo de forma, muitas vezes, a tornar os pobres ainda mais pobres, subjugados pela força dos mais poderosos, vendo-se na iminência de perderem suas tradições e de sofrerem com as imposições imperialistas (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 105). Constituindo um poder local, nacional e internacional, são esses agentes que se aliam ao Estado, e revelam muito mais poder, dinamizando toda a configuração dos territórios. Nesse sentindo, Ianni (2001, p. 17-18) descreve que: 113 uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo além de todas as fronteiras, subsumindo formal ou realmente todas as outras formas de organização social e técnica do trabalho, da produção e reprodução ampliada do capital. Toda a economia nacional, seja qual for, torna-se província da economia global. O modo capitalista de produção entra em uma época propriamente global, e não apenas internacional ou multinacional. Assim, o mercado, as forças produtivas, a nova divisãointernacional do trabalho, a reprodução ampliada do capital, desenvolvem se em escala mundial. Uma globalização que progressiva e contraditoriamente, subsume real ou formalmente outra e diversas formas de organização das forças produtivas, envolvendo a produção material e espiritual. Regularmente, as empresas multinacionais são administradas por uma sede que controla todas as decisões, e se difunde por diversos espaços geográficos do mundo, com o objetivo de maximizar os lucros através de redução dos custos de produção. Para isso, buscam países nos quais a mão de obra é abundante e barata e cujos governos ofereçam incentivos fiscais para seu estabelecimento. Segundo Ianni (2001, p. 19), convém ressaltar: A fábrica global instala-se além de toda e qualquer fronteira, articulando capital, tecnologia, força de trabalho, divisão do trabalho social e outras forças produtivas. Acompanhada pela publicidade, a mídia impressa e eletrônica, a indústria cultural, misturadas em jornais, revistas, livros, programas de rádio, emissões de televisão, videoclipes, fax, redes de computadores e outros meios de comunicação, informação e fabulação, dissolve fronteiras, agiliza os mercados, generaliza o consumismo. Provoca a desterritorialização e reterritorialização das coisas, gentes e ideias. Promove o redimensionamento de espaços e tempos. Portanto, a globalização é um meio, um fenômeno que diminuiu distâncias entre nações e povos, mas não é um processo isolado, o que se globaliza enquanto fenômeno é o capitalismo, um capitalismo globalizado, “impondo costumes acima de tudo, com reflexos em toda uma realidade à sociedade hoje globalizada até no que veste, no que lê, na forma como se comporta” (MACHADO, MATSUSHITA, 2019, p. 107). A disseminação dessa cultura dominante, especialmente através das tecnologias implantadas aos meios de comunicação –desde o telégrafo e hoje com a internet, o rádio e a televisão -permite que se criem modelos de comportamento e de consumo, tudo a fornecer às Nações ricas meios de impor não só suas culturas capitalistas neoliberais, mas seu poder global, sem, entretanto, haver reciprocidade de ganhos às Nações menos empoderadas, que acabam muitas vezes sofrendo os efeitos dessa mesma cultura. Isto porque, se de um lado o capitalismo globalizado traz a tecnologia avançada, por outro cria pobrezas e exclui o trabalho humano, efeitos dessa mesma tecnologia, impondo uma nova ordem mundial de dominação (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 107). Vejamos a letra a seguir, para compreendermos mais sobre a sociedade globalizada: 114 Música: Geração Coca-Cola Legião Urbana/Compositores: Renato Junior Manfredini Quando nascemos fomos programados A receber o que vocês nos empurraram Com os enlatados dos U.S.A., de nove as seis Desde pequenos nós comemos lixo Comercial e industrial Mas agora chegou nossa vez Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês Somos os filhos da revolução Somos burgueses sem religião Somos o futuro da nação Geração Coca-Cola Depois de vinte anos na escola Não é difícil aprender Todas as manhas do seu jogo sujo Não é assim que tem que ser Vamos fazer nosso dever de casa E aí então, vocês vão ver Suas crianças derrubando reis Fazer comédia no cinema com as suas leis Somos os filhos da revolução Somos burgueses sem religião Somos o futuro da nação Geração Coca-Cola (4x) Depois de vinte anos na escola Não é difícil aprender Todas as manhas do seu jogo sujo Não é assim que tem que ser Vamos fazer nosso dever de casa E aí então, vocês vão ver Suas crianças derrubando reis Fazer comédia no cinema com as suas leis Somos os filhos da revolução Somos burgueses sem religião Somos o futuro da nação Geração Coca-Cola (4x) FONTE: <https://www.letras.mus.br/legiao-urbana/45051/>. Acesso em: 11 nov. 2021. Continue sua observação com a tirinha a seguir: 115 FIGURA 9 – QUESTIONAMENTO SOBRE A GLOBALIZAÇÃO FONTE: <https://bit.ly/3J3ngay>. Acesso em: 11 nov. 2021. “Fast foods”: exemplos da difusão de costumes e hábitos das culturas ocidentais. Os números de 2019 apontam que só no Brasil o mercado de fast food movimentou em torno de R$ 84 bilhões. Esse segmento tem atingido um crescimento elevado ano após ano no país, em comparação com outros países, que já têm o setor bem desenvolvido. A seguir, estão listadas as seis maiores empresas de fast food do mundo. Todas elas são empresas estadunidenses. McDonalds. Subway. Starbucks. KFC. Chipotle Mexican. Pizza Hut. FONTE: <https://bit.ly/35FxJLe>. Acesso em: 23 jan. 2022. NOTA 116 Tanto na música quanto na tirinha, fica evidente a existência de uma crítica social, política e econômica. Além disso, elas demonstram o poder que a mídia exerce sobre as pessoas, criando uma cultura de massa. As transformações econômicas mundiais que ocorrem Pós-Segunda Guerra Mundial são fundamentais para entendermos as dinâmicas de poder estabelecidas pelo grande capital e pelas grandes empresas transnacionais e também a importância das crescentes instituições supranacionais, que tem atuação neste jogo de interesses, tendo como exemplo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, entre outros. Nesse sentindo, Machado e Matsushita (2019, p. 118) nos revelam como surge a guerra na busca do controle dos mercadores consumidores e assim criam-se os blocos econômicos: Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os países capitalistas iniciaram uma verdadeira guerra na busca do controle dos mercadores consumidores. Esse foi o principal efeito do chamado “mundo globalizado”, pois diante da limitação unitária, resolveram as nações se unirem em blocos econômicos, inicialmente regionais, com o objetivo de facilitar o alcance dos mercados, além da mútua ajuda entre os membros. Assim, foram criados os chamados “blocos econômicos”, tipo de acordo intergovernamental onde as barreiras do comércio são reduzidas ou eliminadas. 3 MUNDO GLOBALIZADO E OS BLOCOS ECONÔMICOS Assim, os blocos econômicos são associações realizadas por países em prol do desenvolvimento social, político e econômico de seus membros. Essas alianças são feitas principalmente para garantir ajuda mútua e desenvolver a economia de todos os envolvidos. Várias são as vantagens para um país de se integrar a um bloco, como a eliminação de tarifas e barreiras alfandegárias e a garantia de desenvolvimento do comércio interno e externo. Por outro lado, algumas desvantagens emergem, como o impedimento de algumas parcerias comerciais. São associações criadas entre os países, com a finalidade do estabelecimento de relações econômicas entre si e entre os demais Estados-Nação, visando o crescimento das relações mútuas econômicas, com a integração das relações de comércio. Começaram a surgir após a Segunda Guerra Mundial, e foram viabilizados em razão da tecnologia das comunicações e do transporte, que diminuiu as distâncias e possibilitou a aproximação de Nações e culturas diferentes, em busca de ajuda mútua, efeito da globalização (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 118). Conforme Machado e Matsushita (2019, p. 118-119) sintetizaram, a proliferação dos blocos econômicos regionais se deu, especialmente, em razão dos seguintes fatores: 117 (i) é natural que países com políticas econômicas semelhantes avancem para alianças comerciais, buscando o comércio multilateral e aumento natural da competitividade; (ii) a conversão dos Estados Unidos da América ao regionalismo; (iii) o desmonte do Bloco do Leste, fazendo com que os países que giravam sobre a extinta União Soviética procurassem celebrar acordos de livre comércio; e (iv) o chamado “efeito dominó do regionalismo”, com o desejo de adesão dos países que ficam de fora da criação ou do aprofundamento dos blocos econômicos regionais. O acordo de maior relevância foi estabelecido em 1947. Chamado, em inglês, GATT – General Agreement on Tariffs and Trade – ou Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio,foi estabelecido em 1947, visando promover ou reduzir barreiras comerciais, visando obter vantagens mútuas. Os fundadores foram África do Sul, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Ceilão, Chile, China, Cuba, Checoslováquia, Estados Unidos, França, Holanda, Índia, Líbano, Luxemburgo, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Reino Unido, Rodésia do Sul e Síria. Esse acordo vigeu até 14 de abril de 1994, quando foi estabelecida a Organização Mundial do Comércio –OMC. Os blocos econômicos têm como objetivo o desenvolvimento social, político e econômico de seus membros, com alianças para garantir ajuda mútua e desenvolver a economia de todos os envolvidos. Com isso, são muitos os autores que destacam as vantagens e desvantagens de integrar um bloco. Tem-se várias vantagens, como a eliminação de tarifas e barreiras alfandegárias e a garantia de desenvolvimento do comércio interno e externo. Ademais algumas desvantagens emergem, como o impedimento de algumas parcerias comerciais. A partir desses objetivos, podemos observar as quatro classificações dos blocos econômicos, como nos apresentam Machado e Matsushita (2019): I- Áreas de livre comércio, onde há a isenção de taxas e impostos na comercialização de produtos e serviços entre os países que formam o bloco. II- União aduaneira, com a implementação de condutas de comércio com vistas a alcançar países fora do bloco. III- Mercado comum, com a integração da economia, possibilitando a passagem de mercadorias e pessoas entre os países. IV- União econômica e monetária, com a integração da economia e a criação de moeda única para os países do bloco. Os autores relatam que essas quatro classificações representam a fase de cons- tituição dos blocos, e exemplificam dois casos, o primeiro é o que ocorreu na União Eu- ropeia, antes designado Mercado Comum Europeu, todas as fases foram seguidas, até a criação da moeda única – o euro. Em segundo lugar, o Mercosul, por exemplo, ainda está no estágio da união aduaneira, não atingindo sequer a qualidade de mercado comum. 118 Para fixar o conteúdo vamos relembrar os tipos de blocos econômicos existentes: União aduaneira: consiste numa zona de livre comércio com uma Tarifa Externa Comum (TEC), que é uma taxa que encarece os produtos de países que não são do bloco. Exemplos: Mercado Comum do Sul (Mercosul). Zona de livre comércio: consiste na facilitação comercial com a eliminação de tarifas e barreiras alfandegárias, a fim de garantir o desenvolvimento econômico e comercial. Exemplo: Nafta (Tratado de Livre Comércio das Américas) e CAN (Comunidade Andina). Mercado comum: é um bloco econômico com elevado padrão de integração, no qual há livre comércio e livre circulação de pessoas, informações, capitais e bens. Nesses blocos as fronteiras físicas praticamente inexistem. Exemplos: Mercado Comum do Sul (Mercosul). União política e monetária: é uma integração ampla no campo econômico, com o desenvolvimento do comércio (importação e exportação) e do campo político – com políticas comuns adotadas entre os países –, além da criação e adoção de uma moeda única pelos membros. Exemplo: União Europeia. Zonas de preferência tarifária: tipo de integração em que são adotadas vantagens tarifárias apenas a alguns produtos, para torná-los mais baratos para países não participantes do bloco. Exemplo: Aladi (Associação Latino-Americana de Integração). NOTA O desenvolvimento em grande escala de integrações econômicas foi uma via para o nível da globalização, que rompe barreiras e unifica os mercados. Surgem no passar dos anos vários blocos econômicos, portanto, o surgimento dos blocos econômicos no capitalismo moderno colocou os países no sistema de concorrência global. Com isso, cada país integrante consegue participar da economia global. Em cada continente, cada região do mundo, há associações nesse formato, e vamos relatar os principais blocos econômicos, bem como a União Europeia, Nafta, entre outros. 4 OS PRINCIPAIS BLOCOS ECONÔMICOS MUNDIAIS A União Europeia é formada por Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos (Holanda), Polônia, Portugal, Reino Unido, República, Romênia e Suécia, que representam 20% do PIB mundial. Foi criada em 1957 e tem como principal função promover a livre circulação de pessoas e o desenvolvimento econômico entre os membros. Uma das intenções da União Europeia foi colocar um fim às guerras entre os países vizinhos, que se tornaram intensas na Segunda Guerra Mundial. Dentre as características comuns nos blocos econômicos estão a mútua ajuda para ser forte economicamente, https://brasilescola.uol.com.br/geografia/nafta.htm https://brasilescola.uol.com.br/geografia/uniao-europeia.htm https://brasilescola.uol.com.br/geografia/uniao-europeia.htm https://brasilescola.uol.com.br/geografia/uniao-europeia.htm https://brasilescola.uol.com.br/geografia/aladi.htm https://brasilescola.uol.com.br/geografia/aladi.htm 119 além de facilitar negócios entre os países integrantes. As políticas da UE são voltadas para a livre circulação de pessoas, serviços, bens e capital, bem como a legislação sobre assuntos relativos à justiça, mantendo também as políticas relativas ao comércio (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 122). FIGURA 10 – BANDEIRA DA UNIÃO EUROPEIA – MAIOR BLOCO ECONÔMICO DO MUNDO FONTE: <https://european-union.europa.eu/principles-countries-history/symbols/european-flag_pt>. Acesso em: 11 nov. 2021. O bloco da União Europeia é formado por sete instituições, que garantem sua estrutura, conforme Machado e Matsushita (2019, p. 122) relatam: São elas: o Parlamento Europeu, responsável pelo orçamento e pela formação das leis, e é composto por 751 deputados eleitos a cada cinco anos; Conselho da União Europeia, composto por ministros dos governos de cada país-membro, com a função de coordenar as políticas e aprovar as leis; Conselho Europeu, que estabelece as prioridades políticas da União, e é formado pelos Chefes de Estado e de Governo dos países-membros, que formulam a agenda política do bloco; Comissão Europeia, que tem por função a defesa dos interesses do bloco, e é formada por comissários de cada país- membro; o Banco Central Europeu, que realiza a gestão do euro e garante a estabilidade dos preços e coordena a política econômica, e é formado pelo presidente e pelo vice-presidente e pelos governadores dos bancos centrais da União; Tribunal de Justiça da União Europeia, que garante a aplicação da lei comum aos países- membro, e o Tribunal de Contas Europeu, órgão de controle externo que administra os fundos do bloco. Outro bloco econômico é o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), que foi criado em 1994 e tem como objetivo central desenvolver o comércio entre Estados Unidos da América, México e Canadá. 120 O NAFTA – North American Free Trade Agreement, ou Tratado Norte- Americano de Livre Comércio – entrou em vigor em 1º de janeiro de 1994, mas sua ideia foi concebida através do Acordo de Liberalização Econômica assinado pelos Estados Unidos e pelo Canadá em 1988. Apresenta-se como um acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e o Canadá, a princípio, depois com a associação do México em 1993. Tendo o Chile como associado, é um instrumento de integração das economias, visando o comércio regional da América do Norte, com a proteção dos direitos de propriedade intelectual e a proteção do trabalhador e do meio ambiente (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 125). FIGURA 11 – LOGO DO NAFTA FONTE: <https://bit.ly/3pPwG23>. Acesso em: 11 nov. 2021. FIGURA 12 – PAÍSES MEMBROS DO NAFTA FONTE: <https://bit.ly/3KBEqNc>. Acesso em: 11 nov. 2021. Como vemos nas figuras, o bloco NAFTA, tem como objetivo o fim das barreiras alfandegárias entre seus membros e a geração de oportunidades de investimentos, mas com as leis internas de cada paíspermanecendo vigentes: 121 Tem como objetivos o livre acesso aos mercados com o estabeleci- mento do fim das barreiras alfandegárias entre seus membros, di- minuindo os custos comerciais e aumentando a exportação e com isso maior competitividade, bem como a geração de oportunidades de investimentos, com a garantia de direitos entre os três países participantes do acordo. Ao contrário do que ocorre na União Euro- peia, o NAFTA procura viabilizar o comércio do bloco sem a imposi- ção de uma lei comum, e sem a criação de um órgão governamental supranacional: as barreiras comerciais são diminuídas, mas as leis internas permanecem vigentes, inclusive quanto a circulação de pessoas entre os membros (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 125). A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é formada pelos países que produzem e vendem petróleo em nível global: Argélia, Angola, Equador, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela, com a sua criação na década de 1960. FIGURA 13 – SÍMBOLO DA OPEP, REPRESENTANDO A SIGLA DO ORGANISMO EM INGLÊS (OPEC) FONTE: <https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/opep.htm>. Acesso em: 15 out. 2021. Apec é a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico, e foi criada em 1989 e é formada por Austrália, Brunei, Canadá, Indonésia, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Filipinas, Cingapura, Coréia do Sul, Tailândia, EUA (1989); China, Hong Kong (China), Taiwan (Formosa) (1991); México, Papua Nova Guiné (1993); Chile (1994); Peru, Federação Russa, Vietnã (1998). Sendo assim, um bloco econômico que não foi motivado pela proximidade geográfica, tendo como membros países de diversos continentes, todos localizados no Círculo do Pacífico. FIGURA 14 – LOGOMARCA DA APEC FONTE: <https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/apec.htm>. Acesso em: 11 nov. 2021. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/opep.htm https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/opep.htm 122 Tem como objetivo a promoção de uma área de desenvolvimento econômico e comercial entre os membros. Hoje, a APEC representa metade do PIB e 40% do comércio mundial, e foi formada para a livre troca de mercadorias até 2020. A APEC é formada por potencias mundiais e também por um grupo de países em fase de crescimento econômico, e isso é um dos fatores que contribuem para os bons resultados do bloco. Os países participam de mais da metade do PIB mundial e tendem acrescer, pois o desenvolvimento deles está baseado, no conhecimento. Esse crescimento se dá em áreas como informática e tecnologia, setores que aceleram e elevam o crescimento econômico de países com essas vertentes. A China apresenta a maior taxa de crescimento entre os países membros, e, por isso, é considerado um líder no crescimento do bloco como um todo. Isso se deve, de acordo com especialistas, em razão da chamada “economia de conhecimento”, pois quanto maior for o progresso científico e tecnológico maiores serão os índices econômicos (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 125). Você pode enriquecer sua leitura sobre o tema abordado com a leitura do site do Mercosul, (https://www.mercosur.int/pt-br/), onde você encontrará todas as suas decisões e documentos realizados, bem como seus temas, relacionamentos internos, política comercial, cartilhas e entre outros documentos muito importantes relacionados ao bloco, como vemos na figura a seguir: DICA FONTE: <https://www.mercosur.int/pt-br/>. Acesso em: 31 jan. 2022. O Mercosul é o Mercado Comum do Sul, formado por países da América do Sul. Atualmente, fazem parte os países: Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Venezuela. Surgiu em 1991, e teve como principal função promover uma área de livre comércio, desenvolvimento social e econômico entre os membros, além de permitir a livre circulação de pessoas, mercadorias e bens de modo geral. https://www.mercosur.int/pt-br/ 123 Bloco econômico surgido em 1991, foi criado por países da América do Sul -Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Posteriormente, outros ingressaram, sendo um deles a Venezuela, em 2012, e tem como objetivo principal garantir a integração política, econômica e social entre os países-membros. Atualmente, o bloco é formado por cinco membros plenos, sendo eles a Argentina, o Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela, estando esta última suspensa desde dezembro de 2016 por não cumprir o compromisso de proteção aos direitos humanos, e possui como associados o Chile, a Bolívia (em processo de adesão desde 2015), a Colômbia, o Equador e o Peru, tendo ainda como observadores Nova Zelândia e o México (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 123). FIGURA 15 – LOGOMARCA DO MERCOSUL FONTE: <https://www.mercosur.int/pt-br/quem-somos/em-poucas-palavras/>. Acesso em: 11 nov. 2021. O bloco tem quatro objetivos delimitados, que foram constituídos pelo Tratado de Assunção para um mercado comum, que implica: 1. A livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países, através, entre outros, da eliminação dos direitos alfandegários e restrições não-tarifárias à circulação de mercadorias e de qualquer outra medida de efeito equivalente. 2. O estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de Estados e a coordenação de posições em foros econômico-comerciais regionais e internacionais. 3. A coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados Partes – de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais, de serviços, alfandegária, de transportes e comunicações e outras que se acordem –, a fim de assegurar condições adequadas de concorrência entre os Estados Partes. 4. O compromisso dos Estados Partes de harmonizar suas legislações, nas áreas per- tinentes, para lograr o fortalecimento do processo de integração (MERCOSUL, 2021). 124 Protocolos complementares do Mercosul em Vigência: (i) Protocolo de Las Leñas, assinado em 1992, criando a similitude entre decisões judiciais sem a necessidade de homologação das sentenças, aprovado pelo Brasil em 1995 e promulgado pelo Decreto nº 2.067, de 1996; (ii) Protocolo de Buenos Aires sobre Jurisdição Internacional em Matéria Contratual, em 1994, aprovado no Brasil em 1995 e promulgado através do Decreto nº 2095, em 1996; (iii) Protocolo de Integração Educativa e Reconhecimento de Certificados, Títulos e Estudos de Nível Primário, Médio e Técnico, em 1994, promulgado no Brasil através do Decreto nº 2 726, em 1998; (iv) Protocolo de Ouro Preto, em 1994, que estabeleceu uma estrutura institucional ao Mercosul, dando personalidade jurídica de direito internacional ao bloco, promulgado no Brasil em 1996 através do Decreto nº 1901; (v) Protocolo de Medidas Cautelares, em 1994, promulgado no Brasil em 1998 através do Decreto nº 2626; (vi) Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais, em 1996, promulgado pelo Brasil em 2000 através do Decreto nº 3468; (vii) Protocolo de São Luis em Matéria de Responsabilidade Civil Emergente de Acidentes de Trânsito entre os Estados Partes do Mercosul, em 1996, promulgado pelo Brasil em 2001 através do Decreto nº 3856; (viii) Protocolo de Integração Educativa para a Formação de Recursos Humanos a Nível de Pós-Graduação entre os Países Membros do Mercosul, em 1996, promulgado no Brasil através do Decreto nº 2095; (ix) Protocolo de Integração Cultural do Mercosul, em 1996, promulgado no Brasil através do Decreto 3193; (x) Protocolo de Integração Educacional para o Prosseguimento de Estudos de Pós- Graduação nas Universidades dos Países Membros do Mercosul, em 1996, promulgado no Brasil por meio do Decreto nº 3194, em 1999; (xi) Protocolo de Ushuaia, em 1998, promulgado no Brasil através do Decreto nº 4210, em2002; (xii) Protocolo de Olivos, em 2002, que aprimorou o Protocolo de Brasília, de 1991,com a criação do Tribunal Arbitral Permanente de Revisão do Mercosul. Foi promulgado pelo Brasil através do Decreto4982,em 2004; (xiii) Protocolo de Assunção sobre o Compromisso com a Promoção e Proteção dos direitos Humanos no Mercosul, em 2005, promulgado no Brasil por meio do Decreto nº 7225, em 2010; (xiv) Protocolo Constitutivo do Parlamento do Mercosul, em 2005, promulgado no Brasil por meio do Decreto nº 6105, de 2007; (xiv) Protocolo de Adesão da República Bolivariana de Venezuela ao Mercosul, em 2006, promulgado no Brasil por meio do Decreto 3859, de 2012 (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 124). NOTA Além, desses blocos econômicos podemos citar várias alianças que se desenvolvem ao decorrer da história, que buscam o desenvolvimento social, político e econômico de suas nações e regionalizações. Como exemplo, temos a ALCA – Área de Livre Comércio das Américas –, os BRICS, ALIANÇA DO PACÍFICO (Pacific Alliance), Caricom – O Mercado Comum e Comunidade do Caribe –, CEI – Comunidade dos estados 125 Independentes –, CAFTA-DR – Central American Free Trade Agreement – Dominican Republic. O Congresso norte-americano aprovou o Cafta-DR (Acordo de Livre Comércio da América Central e República Dominicana), Pacto Andino, Sadc –Comunidade da África Meridional para o Desenvolvimento –, Unasul e a União Africana, entre outros. Podemos observar as integrações econômicas como uma tentativa de um ou mais país em reduzir suas barreiras comerciais, mostrando o jogo de poder exercido pe- las nações, tentando garantir suas áreas de influências e interesses, buscando ter um pensamento de ordenamento, movimento e consumo do território. O jogo de poder está externamente e internamente nos blocos, que estão em busca de controlar os mercados ou estabelecer parcerias com nações que despertem o interesse dos blocos econômicos. Para compreender sobre a globalização e seus efeitos adversos, leia a reportagem a seguir, escrita por Manuel Cambeses Júnior, no Site “Monitor Mercantil”. “O fenômeno da globalização é algo relativamente recente no acontecer mundial. Não existe dúvida de que a alta tecnologia, as comunicações instantâneas e a imbricação da economia em escala planetária conduzem a fazer do planeta uma unidade mais entrelaçada, complexa e inter-relacionada. Também é fato significativo que tal acontecimento tem efeitos em todas as áreas da vida social e, sensivelmente, na economia. É fora de dúvida que a globalização em si mesma é um progresso do qual nenhum país poderá escapar e algo irreversível. Porém, ao aceitarmos simplesmente essa constatação, não podemos admitir, necessariamente, que todas as suas consequências devam projetar-se em uma só direção, a qual, até agora, parece beneficiar basicamente a alguns países e prejudicar a muitos outros. Na globalização, existem ganhadores e perdedores porque, entre os países desenvolvidos, se está criando uma mentalidade em muitos sentidos excludente, e que não interpreta todos os fatores que entram no tabuleiro desse intrincado jogo. Tais fatos podem produzir desequilíbrios internacionais capazes de conduzir o mundo a dificuldades maiores do que as que se conheceram durante o período da Guerra Fria. É tremenda ingenuidade pensar que o final da Guerra Fria abriu as perspectivas de um paraíso para a humanidade. Pelo contrário, estão sendo geradas intensas contradições que poderão multiplicar os conflitos no alvorecer deste século e tornar mais difícil a vida para grande parte do gênero humano. Por esse motivo, é necessário que os países em desenvolvimento tenham claras as noções de interesse nacional. Em muitos casos pode haver tendência a uma "globalização ingênua" e a um "internacionalismo-irmão". Essa posição se alimenta na ideia de que existe uma espécie de progresso linear que, automaticamente, produzirá benefícios pelo simples fato de inscrever-se no "clube da globalização". Esquece-se, dessa maneira, que nesse clube existem membros de primeira classe, vários de segunda, muitos da terceira e inúmeros outros na lista de espera. A "globalização ingênua" pode conduzir-nos a erros fundamentais. O primeiro deles é o de prescindir do interesse nacional e do papel que os Estados e os governos nacionais têm que assumir para defender os interesses dos países que representam. É muito bom o diálogo, as negociações, as aberturas de mercado e todos os demais benefícios que produz o desenvolvimento tecnológico e comunicacional. Porém, dentro da complexa arquitetura desse jogo, temos alguns interesses a defender, uma posição a assumir e uma atitude a vigiar constantemente. Há alguns anos, li um livro que me intrigou profundamente. Está escrito por um homem sobejamente conhecido no cenário internacional, Kenichi Ohmae, cujo título é “The End of the Nation State”. É um livro inteligente, porém seus delineamentos e conclusões poderiam nos levar a admitir postulados que conduziriam ao prejuízo dos IMPORTANTE 126 interesses dos povos e das nações menos desenvolvidas. Os argumentos são muito bons para defender a posição dos países poderosos, porém inconsistentes para assumir a tribuna dos menos aquinhoados. Um dos argumentos que agora se costuma alardear é de que os Estados são apenas referências cartográficas dentro da estrutura geopolítica do planeta. Isso, em termos técnicos e comunicacionais, pode ser considerado correto. Porém, a realidade humana é outra. Os Estados estão formados por seres humanos que deveriam estar representados e encarnados por eles, mas sabemos que, muitas vezes, não é assim que as coisas ocorrem. Entretanto, é importante enfatizar essa dimensão histórica do Estado nacional: um elo entre as pessoas e a ordem política. Existe uma tecnocracia apátrida que voa sobre as fronteiras e possui fórmulas sintéticas e paradigmáticas para todas as realidades nacionais. Grande parte da crise financeira de hoje, que acomete os Estados Unidos e vários países da Europa, se deve a que as tecnocracias, particularmente aquelas que influem nas instituições econômicas e financeiras internacionais, não possuem pensamento histórico das realidades que manejam. Administram fórmulas, abstrações e jogam com os números e os deslocamentos financeiros sem ter em conta que a base de toda essa circulação financeira internacional está apoiada em complexas comunidades nacionais que têm seu direito a viver, suas expectativas ante o mundo, uma cultura e uma história que defender e preservar e uma lógica aspiração à dignidade e à reciprocidade. Com a crise estadunidense, ficou bem evidenciado que os mecanismos financeiros não se autorregulam, como ingenuamente alguns vinham pretendendo; que neles intervêm fatores psicológicos e políticos e que, ao final das contas, os árbitros não podem ser os interesses internacionais e sim os povos que elegem os seus governantes. Outro efeito da globalização ingenuamente aceito é o que supõe que o fato de proclamar a "adesão ao clube" pressupõe, automaticamente, a conquista do bem-estar. Para globalizar-se, é necessário desenvolver certas capacidades nacionais, a formação de recursos humanos, as infraestruturas básicas, a instantaneidade nas comunicações e todo um sistema cultural que lhe apoie e proporcione sustentação aos efeitos da globalização. Para criar competição e competência, é imprescindível preparar as pessoas, administrar inteligentemente a formação do capital humano e dar-lhe mística, entusiasmo e estímulo para que entenda que a riqueza se alicerça, fundamentalmente, na capacidade das pessoas. Para ser competitivo, é preciso ser capaz e, para atingir a capacidade, é necessário preparar-se e assumir o objetivo fundamental da educação, em bases totalmente distintas das que prevalecem na atualidade. Porém, também existem requisitos políticos para a globalização. O primeiro de todos é que os governos têm que ser representativos da vontade da sociedade. Isto supõe controle efetivo, por parte da opinião pública e do eleitor, do que fazem os governos, e um contrato social claramente definido para que aqueles que aspiram a falar em nome das unidades nacionais que entram nojogo global, possam ser, realmente, legítimos representantes dos povos. A globalização ingênua esquece a maior parte desses componentes. É necessária a [eventual] privatização de alguns segmentos parasitários do setor público, mas isso tem que estar orientado a que as iniciativas e os negócios que se empreendam em nome dos países e das nações beneficiem o interesse geral e não determinados setores excludentes. A conclusão é que a globalização sem a democracia não funcionará com eficácia, e para que haja bons governos tem que existir mecanismos de responsabilidade política ante o eleitorado e ante o povo que esses governos representam. Isso quer dizer que a liberdade e a amplitude dos mercados estão somente garantidas pela liberdade e dignidade democrática dos povos”. FONTE: <https://monitormercantil.com.br/globalizauuo-e- efeitos-adversos/>. Acesso em: 11 nov. 2021. https://monitormercantil.com.br/globalizauuo-e-efeitos-adversos/ https://monitormercantil.com.br/globalizauuo-e-efeitos-adversos/ 127 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Através da Globalização se transforma o espaço geográfico e começa a criar um mercado e sociedades globais. • Os grandes agentes econômicos capitalistas da globalização são as empresas multinacionais, também definidas como transnacionais. • Os blocos econômicos são associações realizadas por países em prol do desenvolvi- mento social, político e econômico de seus membros. • As áreas de livre comércio é onde há a isenção de taxas e impostos na comercialização de produtos e serviços entre os países que formam o bloco. • A união aduaneira tem como objetivo a implementação de condutas de comércio com vistas a alcançar países fora do bloco. • O mercado comum vem com a integração da economia, possibilitando a passagem de mercadorias e pessoas entre os países. • A união econômica e monetária é a integração da economia e a criação de moeda única para os países do bloco. • Temo que a globalização em si mesma é um progresso do qual nenhum país poderá escapar e algo irreversível. • No processo da globalização, existem ganhadores e perdedores porque, entre os paí- ses desenvolvidos, se está criando uma mentalidade em muitos sentidos excludente. 128 1 No processo de globalização, países de grande parte do mundo se organizaram em grupos, formando blocos econômicos com o objetivo de protegerem suas economias. Sobre a globalização nesse contexto histórico, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) As políticas da União Europeia são voltadas para a livre circulação de pessoas, serviços, bens e capital, bem como a legislação sobre assuntos relativos à justiça, mantendo também as políticas relativas ao comércio. ( ) O Mercosul é o Mercado Comum do Sul, formado por países da América do Sul, atualmente estão os países: a Argentina, o Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela. ( ) O bloco NAFTA procura viabilizar o comércio do bloco com a imposição de uma lei comum, e sem a criação de um órgão governamental supranacional: as barreiras comerciais não são diminuídas. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 2 Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os países capitalistas iniciaram uma verdadeira guerra na busca do controle dos mercadores consumidores. Esse foi o principal efeito do chamado “mundo globalizado”, pois diante da limitação unitária, resolveram as nações se unirem em blocos econômicos, inicialmente regionais, com o objetivo de facilitar o alcance dos mercados, além da mútua ajuda entre os membros (MACHADO; MATSUSHITA, 2019, p. 125). Com relação aos blocos econômicos, analise as sentenças a seguir: I- Na zona de livre comércio, os acordos comerciais visam à redução ou eliminação de tarifas e barreiras alfandegárias, a fim de garantir o desenvolvimento econômico e comercial. II- Na união aduaneira, além de reduzir ou eliminar as tarifas aduaneiras entre os membros do bloco, os países parceiros estabelecem as mesmas tarifas de exportação e importação para o comércio internacional fora do bloco. III- O Mercosul é um exemplo de mercado comum que, além de eliminar as tarifas aduaneiras internas, permite também a livre circulação de pessoas, investimentos e todos os tipos de serviços entre os países membros. IV- Estados Unidos da América, Canadá e México formam o NAFTA; já a ALCA engloba todos os países da América. AUTOATIVIDADE 129 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças III e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. d) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas. 3 Sabe-se que os blocos econômicos têm como objetivo o desenvolvimento social, político e econômico de seus membros, com alianças para garantir ajuda mútua e desenvolver a economia de todos os envolvidos, são integrados por nações de várias partes do planeta. Qual das organizações a seguir não é considerada um Bloco econômico, e sim um agrupamento econômico? a) ( ) MERCOSUL. b) ( ) União Europeia. c) ( ) OPEP. d) ( ) BRICS. e) ( ) APEC. 4 A eliminação de taxas alfandegárias, a regulamentação para importações, a per- missão para a livre circulação de bens, mercadorias e pessoas, além da adoção de moeda única, são tipos de acordos que são celebrados entre os blocos econômicos. Portanto, como podemos entender a união econômica e monetária? Justifique sua resposta. 5 Na globalização, existem ganhadores e perdedores, pois, entre os países desenvol- vidos, está se criando uma mentalidade em muitos sentidos excludente, e que não interpreta todos os fatores que entram no tabuleiro desse intrincado jogo. Cite e explique sobre a tendência a uma "globalização ingênua". https://brasilescola.uol.com.br/geografia/opep.htm 130 131 TÓPICO 3 - REFLEXÕES SOBRE AS REDES E FLUXOS NO ESPAÇO MUNDIAL 1 INTRODUÇÃO As redes geográficas são redes sociais espacializadas. São sociais em virtude de serem construções humanas, elaboradas no âmbito de relações sociais de toda ordem, envolvendo poder e cooperação, além daquelas de outras esferas da vida. As redes so- ciais são historicamente contextualizadas, portanto, mutáveis, das quais são exemplos a rede de parentesco, englobando os membros de uma grande família, ou a de um grupo de pessoas que se organiza em torno de um interesse comum (CORRÊA, 2012). Nos tópicos anteriores, estudamos as diferentes perspectivas de abordagens sobre a globalização, e com isso, daremos prosseguimento as análises sobre as redes e fluxos no espaço mundial nos processos socioespaciais contemporâneos. Portanto, o Tópico 3 está dividido em duas partes, iniciando com a primeira parte sobre as redes e fluxos no espaço geográfico globalizado e finalizando com a exemplificação de alguns modelos de redes geográficas existentes no espaço mundial. UNIDADE 2 2 REDES E FLUXO NO ESPAÇO GEOGRÁFICO Com as grandes transformações ocorridas na organização do espaço entre os últimos séculos, temos as inovações tecnológicas, a ciência e a informação como propulsoras de significativas mudanças nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais e ambientais, que possibilitaram intervenções no território e na organização do espaço mundial atual, reestruturando o local e o global, através das redes e fluxos. No âmbito da Geografia tais transformações exigiram um esforço ampliado na medida em que os efeitos da globalização provocaram mudanças significativas nos lugares, que passaram a contar, cada vez mais intensamente, com a influência de determinantes exógenos portadores de novas lógicas territoriais que tendem a alterar significativamente os conteúdos das identidades culturais locais. Todasessas transformações foram possibilitadas por intermédio das redes, através das quais fluxos de todas as naturezas circulam; fluxos materiais e imateriais geralmente relacionados àquelas inovações técnico informacionais. Atualmente as redes são indispensáveis à análise e explicação do espaço geográfico, instrumento analítico através do qual as relações mundo-lugar adquirem maior inteligibilidade (TRINDADE, 2009, p. 12). 132 Para entender as redes e fluxos, devemos entender o espaço, que pode ser lido via conceito de território. Logo, no que concerne à concepção de território, aponta-se que esta categoria é apreendida como um espaço definido por e a partir de relações de poder, que têm origem nas apropriações e usos dos substratos físicos espaciais, mas que se materializam nas relações sociais presentes nessa espacialidade, desde sua gênese a sua gestão (SOUZA, 1995). O conceito de território é amplo, para os geógrafos é um dos conceitos fundamentais, onde “há uma dimensão da realização da vida em sociedade que nomeamos de território [...] território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida” (SANTOS, 2002, p. 10). Andrade (2004, p. 19) destaca algumas considerações sobre o território, vincu- lando a questão do território à análise de espaço e tempo, a partir da superposição de estruturas de escalas diferentes. Atribuindo o território nas ciências naturais e sociais: Em ciências sociais, a expressão território vem sendo muito utilizada desde o século passado, por geógrafos, como Frederico Ratzel, preocupado com o papel desempenhado pelo Estado no controle do território, e também por Elisée Reclus que procurava estabelecer as relações entre classes sociais e espaço ocupado e dominado. Os especialistas em Teoria do Estado costumam afirmar que o Estado se caracteriza por três elementos essenciais: o território, o povo e o governo, ao passo que a nação é caracterizada pela coexistência do território e do povo, mesmo inexistindo governo, e consequentemente, o Estado. Contudo, “o conceito de território deve estar sempre ligado à ideia de poder, não deve ser confundido com o de espaço ou de lugar, estando muito ligado à ideia de domínio e de gestão de determinada área” (ANDRADE, 2004, p. 19). Raffestin (1993, p. 7-8) nos esclarece, o território poderia ser nada mais que: [...] o produto dos atores sociais. São esses atores que produzem o território, partindo da realidade inicial dada, que é o espaço. Há, portanto, um "processo" do território, quando se manifestam todas as espécies de relações de poder, que se traduzem por malhas, redes e centralidades cuja permanência é variável, mas que constituem invariáveis na qualidade de categorias obrigatórias. O território é também um produto "consumido", ou, se preferirmos, um produto vivenciado por aqueles mesmos personagens que, sem haverem participado de sua elaboração, o utilizam como meio. É então todo o problema da territorialidade que intervém permitindo verificar o caráter simétrico ou dissimétrico das relações de poder. Conforme exposto, o território é o produto dos atores sociais e um produto consumido, um espaço vivenciado, são eles que produzem o território, partindo da realidade inicial dada, que é o espaço. Evidenciando que o poder é conceito-chave para 133 o estudo do território, agora compreendido não só como capacidade do Estado, mas também exercido por atores que emergem da população. O espaço geográfico atua como substrato, ou seja, pré-existente ao território, como podemos observar a seguir: É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator "territorializa" o espaço. Lefebvre mostra muito bem como é o mecanismo para passar do espaço ao território: "A produção de um espaço, o território nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes, circuitos e fluxos que aí se instalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários, autoestradas e rotas aéreas etc.". O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a "prisão original", o território é a prisão que os homens constroem para si (RAFFESTIN, 1993, p. 143). Acione seus professores, colegas e acesse leituras sobre o tema para aprofundar seus argumentos sobre o tema. DICA Em vista disso, o território é onde as pessoas estão e onde as relações entre esses indivíduos ocorrem, se configurando, interagindo e criando uma diferenciação funcional, contribuindo para o ordenamento do território. Raffestin (1993, p. 150-151) nos esclarece: Os indivíduos ou os grupos ocupam pontos no espaço e se distribuem de acordo com modelos que podem ser aleatórios, regulares ou concentrados. São, em parte, respostas possíveis ao fator distância e ao seu complemento, a acessibilidade. Sendo que a distância pode ser apreendida em termos espaciais (distância física ou geográfica), temporais, psicológicos ou econômicos. A distância se refere à interação entre os diferentes locais. Pode ser uma interação política, econômica, social e cultural que resulta de jogos de oferta e de procura, que provém dos indivíduos e/ou dos grupos. Isso conduz a sistemas de malhas, de nós e redes que se imprimem no espaço e que constituem, de algum modo, o território. Não somente se realiza uma diferenciação funcional, mas ainda uma diferenciação comandada pelo princípio hierárquico, que contribui para ordenar o território segundo a importância dada pelos indivíduos e/ou grupos às suas diversas ações. 134 Nessa linha, Trindade (2009, p. 13) aponta como um aspecto importante sobre as transformações ocorridas no mundo nas últimas décadas, o espaço geográfico assume diferentes feições complexas, como a técnica, ciência e informação. A globalização alterou as relações políticas, econômicas e culturais entre os territórios; redes informacionais conectam fluxos, lugares e pessoas, instantaneamente; [...] Nesse contexto de aceleração contemporânea os lugares recebem cada vez mais influências de outras culturas, numa relação em que simultaneamente ganham e perdem conteúdos. A articulação necessária entre mundo e lugar, globalidade e localidade, tende a reforçar valores e comportamentos globais em detrimento de valores identitários territorialmente construídos pelos grupos sociais ao longo do tempo (TRINDADE, 2009, p. 13). Nessa perspectiva, é importante considerar que: Neste contexto diferentes autores desenvolveram discussões que continuam estimulantes e necessárias à compreensão do mundo a partir de então, entre os quais se destacam as interpretações acerca da compressão espaço-tempo (HARVEY, 1992), da aceleração contemporânea (SANTOS, 1994) e da sociedade em rede (CASTELLS, 1999); (TRINDADE, 2009, p. 13). Compreendendo que a história dos espaços é realizada da efetivação das possibilidades que o mundo oferece, ou seja, a efetivação de um conjunto de ações, que por sua vez tornam-se materializadas no território. Deste modo, mesmo que o território seja habitado por distintas ações e objetos, ele é configurado por um conjunto de agentes que modificam e modelam seu espaço. Para os autores analisados, as redes se constituem de instantaneidade e simultaneidade. As redes geográficas tornaram-se mais numerosas e cerradas a partir da segunda metade do século XIX. O desenvolvimento do capitalismo industrial necessitou e gerou novas demandas que suscitaram novos meios pelos quais as redes geográficas tornaram- se mais densas e eficientes, superando progressivamente o espaço pelo tempo. Instantaneidade e simultaneidade, quenos dias atuais caracterizam parte do funcionamento das redes geográficas, são o capítulo atual de uma história que não se concluiu (CORRÊA, 2012, p. 203). 3 MODELOS DE REDES GEOGRÁFICAS NO ESPAÇO MUNDIAL O autor Corrêa (2012, p. 204-205) nos apresenta alguns modelos de redes geográficas existentes no espaço mundial: 1. Rede ferroviária 135 É constituída por uma malha de trilhos que recobre uma dada área. Ao longo dos trilhos existem pequenas paradas nas quais nem todos os trens param, estações com paradas obrigatórias, porém breves, estações maiores, com paradas mais longas, segundo o movimento de passageiros, estações-entroncamento, onde cruzam-se duas ou mais linhas férreas, e que apresentam intenso movimento de passageiros e mercadorias, e uma estação-terminal, que abriga a sede ou gerência regional da empresa. Se este tipo de rede geográfica se tornou inexpressiva em muitos países, como no Brasil, sua existência, no entanto, é muito significativa na Europa. FIGURA 16 – REDE FERROVIÁRIA MUNDIAL FONTE: <https://massa.ind.br/transporte-ferroviario-no-mundo/>. Acesso em: 11 nov. 2021. 2. Bacia leiteira Uma bacia leiteira constitui outro exemplo de rede geográfica. O foco da rede é, em geral, um centro metropolitano, local de consumo final e de redistribuição de derivados do leite para a sua hinterlândia. A rede tem como pontos iniciais as fazendas produtoras do leite que é encaminhado regularmente para as usinas de pasteurização, numerosas e localizadas, via de regra, em pequenos centros. Algumas, em menor número, encontram-se em cidades maiores, onde se processam o empacotamento do leite e a produção de seus inúmeros derivados, como cremes, iogurtes, leite em pó etc. Esses produtos são encaminhados à metrópole e aos centros maiores. Outras unidades são vinculadas à rede e diversos técnicos prestam assistência aos produtores. Esta rede, por sua vez, vincula-se a outras, de produção de embalagens e de bens intermediários, bem como às redes bancárias. A bacia leiteira da Nestlé é um excelente exemplo de rede geográfica de expressão nacional (e global). 136 KitKat tem um histórico de melhoria da sustentabilidade de sua cadeia de fornecimento que remonta a mais de uma década. Em 2009, a Nestlé lançou o Nestlé Cocoa Plan, que procura melhorar a vida nas fazendas e a qualidade dos grãos de cacau. Em 2016, a KitKat se tornou a primeira marca de chocolates global a utilizar 100% de cacau com certificado de sustentabilidade e rastreável, fornecido através do programa. De acordo com o Plano, a Nestlé plantou mais de 15 milhões de árvores de cacau e investiu 300 milhões de francos suíços na sustentabilidade do cacau. Nestlé Cocoa Plan é o programa de sustentabilidade para a cadeia do cacau. No Brasil, através de parceiros implementadores, atua diretamente com mais de mil produtores participantes, nos estados da Bahia, Espírito Santo e Pará. A rastreabilidade passa por um constante processo de evolução dentro do programa Nestlé Cocoa Plan, que tem o objetivo de garantir a produção responsável, combinando o desenvolvimento sustentável na cadeia produtiva do cacau, com ênfase na produtividade e rentabilidade das lavouras, o atendimento a critérios de qualidade e a conformidade social e ambiental dos fornecedores. Podem participar produtores, cooperativas e parceiros agrícolas, que recebem treinamentos em boas práticas agrícolas e recomendações para adequar as suas propriedades dentro dos parâmetros estabelecidos pelo programa. Atualmente, são 1100 propriedades rurais participantes, que estão sendo geomonitoradas com o objetivo confirmar as boas práticas realizadas pelos produtores. Para se adequarem ao programa, os participantes recebem visitas anuais de agrônomos, que verificam o atendimento aos critérios e fornecem orientações sobre como se adaptarem para atender a esses quesitos e estimular boas práticas agrícolas. Por meio de parceiros implementadores, a Nestlé adquire o cacau com certificação Nestlé Cocoa Plan, e que tem como sustentação uma metodologia pautada por um código de conduta e reforçada por meio de inspeções com equipe própria e auditoria independente. FONTE: <https://corporativo.nestle.com.br/regeneracao/kitkat- tem-cacau-sustentavel>. Acesso em: 11 nov. 2021. INTERESSANTE 3. Redes bancárias, de partidos políticos e dos diversos órgãos do Estado As redes bancárias de partidos políticos e dos diversos órgãos do Estado (ministério, delegacia regional, unidade local) constituem mais alguns tipos de redes geográficas, assim como as grandes corporações e os blocos econômicos. Ressaltaremos aqui a mais significativa das redes geográficas, a rede urbana, definida pelo conjunto de centros urbanos articulados entre si. Considerada como uma síntese, senão de todas, de muitas e muitas redes geográficas cujos nós e fluxos específicos iniciam-se, finalizam ou passam pelas cidades – redes ferroviárias, de uma bacia leiteira, das dioceses, dos bancos, dos partidos políticos, dos órgãos públicos e das grandes corporações – a rede urbana pode, assim, ser vista como a rede-síntese das demais redes geográficas, sendo ela própria uma rede geográfica. https://corporativo.nestle.com.br/regeneracao/kitkat-tem-cacau-sustentavel https://corporativo.nestle.com.br/regeneracao/kitkat-tem-cacau-sustentavel 137 O debate pode ser empreendido por meio que a muito a se estudar sobre as redes geográficas em escala mundial e, sendo um tema interessante de investigação, que nos faz refletir sobre os processos, funções, nós e refuncionalização. As múltiplas redes geográficas entrelaçadas recobrem toda a superfície terrestre. Das milhares delas, algumas são nitidamente de âmbito global, com centros e interações em dezenas de países, tendo Londres, Nova York e Tóquio como seus epicentros. Existem redes, contudo, que ao menos no plano formal, não apresentam uma dimensão global, situando-se em escala nacional ou regional. Mas apenas no plano formal, porque, em diversos graus, interconectam- se, originando uma única rede multifacetada, que sugere a metáfora do caleidoscópio (CORRÊA, 2012, p. 207). Partindo dos exemplos apresentados, devemos reconhecer e compreender que as redes dispõem de um papel no ordenamento do espaço geográfico, constituindo relações hierárquicas no cerne das próprias redes, se apresentando de várias formas e tamanhos, ou seja, algumas redes com mais fluxos e fixos que as outras. Assim, se estabelecem como um elo entre as diferentes partes do espaço geográfico que integram o sistema mundial em tempos de globalização, que se desenvolvem e entrelaçam o transporte e a difusão das técnicas, da ciência, das informações e conhecimentos. A globalização alterou as relações políticas, econômicas e culturais entre os territórios; redes informacionais conectam fluxos, lugares e pessoas, instantaneamente; as paisagens são vendidas nos cartões postais e nas campanhas de city-marketing; satélites, GPS, aero- fotogrametria e os recursos da informática auxiliam o geógrafo no momento de cartografar o espaço. Os recursos estão disponíveis, mas não podem ser utilizados por todos. O espaço tornou-se fluido, o tempo sofreu compressão. Mas nem todos são fluidos. Se o mundo nesse início do século XXI é marcado pela fluidez, pela velocidade, são muitos os lugares e regiões que ainda são lentos e que não con- seguem atender às exigências desse tempo (TRINDADE, 2009, p. 15). Para complementar seu aprendizado, faça a leitura do artigo intitulado: Um vírus com DNA da globalização: o espectro da perversidade, do autor Denis Castilho, que traz uma análise da pandemia do Covid-19 e as redes, que apresenta a figura a seguir, com a sobreposição de dois mapas, o primeiro disponibilizado pelo Flightradar24, site que rastreia o transporte aéreo mundial, e o segundo pela plataforma da Universidade Johns Hopkins, que atualiza em tempo real o número de casos confirmados de Covid-19, revelando a geografia do novo coronavírus. DICA138 FLUXO AÉREO MUNDIAL (DEZ. 2019) E CASOS CONFIRMADOS DE COVID-19 (MAR. 2020) FONTE: <https://journals.openedition.org/espacoeconomia/10332>. Acesso em: 11 nov. 2021. É impressionante como essa geografia se confunde com os principais fluxos da economia mundial. Não é exagero, portanto, reiterar a metáfora de que se trata de um vírus urbano, das redes – aquele que, apesar de não se constituir biologicamente como adenovírus, é tributário da modernização contemporânea e, por isso, carrega figurativamente o DNA da globalização. É por isso que em seu gene há uma perversidade que antecede sua própria natureza epidêmica. Compreendê-la demanda considerar especialmente o tipo de sociedade que gestou o vírus, mas que se revela profundamente incapaz de enfrentá-lo. FONTE: <http://journals.openedition.org/espacoeconomia/10332>. Acesso em: 31 jan. 2022. 139 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os efeitos da globalização provocaram mudanças significativas nos lugares, possibilitadas por intermédio das redes. • Através das redes, fluxos de todas as naturezas circulam; fluxos materiais e imateriais, geralmente relacionados àquelas inovações técnico-informacionais. • As redes bancárias, de partidos políticos e dos diversos órgãos do Estado, constituem mais alguns tipos de redes geográficas, assim como as grandes corporações e os blocos econômicos. • O espaço geográfico assume diferentes feições complexas, como a técnica, ciência e informação. • As múltiplas redes geográficas entrelaçadas recobrem toda a superfície terrestre. Das milhares delas, algumas são nitidamente de âmbito global, com centros e interações em dezenas de países. • Redes informacionais conectam fluxos, lugares e pessoas, instantaneamente. 140 1 No âmbito da Geografia, algumas transformações exigiram um esforço ampliado na medida em que os efeitos da globalização provocaram mudanças significativas nos lugares, que passaram a contar, cada vez mais intensamente, com a influência de determinantes exógenos portadores de novas lógicas territoriais que tendem a alterar significativamente os conteúdos das identidades culturais locais. Todas essas transformações foram possibilitadas por intermédio das redes, através das quais fluxos de todas as naturezas circulam; fluxos materiais e imateriais geralmente relacionados àquelas inovações técnico informacionais. Atualmente, as redes são indispensáveis à análise e explicação do espaço geográfico, instrumento analítico através do qual as relações mundo-lugar adquirem maior inteligibilidade (TRINDADE, 2009, p. 12). A globalização provocou profundas mudanças nos sistemas globais. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A globalização alterou as relações políticas, econômicas e culturais entre os territórios; redes informacionais conectam fluxos, lugares e pessoas, instantaneamente. b) ( ) A instantaneidade e simultaneidade, que nos dias atuais caracterizam parte do funcionamento das redes geográficas, são o capítulo atual de uma história que se concluiu na última década. c) ( ) O espaço geográfico assume diferentes feições complexas, como a técnica, ciência e informação, reestruturando somente o local. d) ( ) A compreensão das redes e fluxos, deve-se inicialmente entender o lugar, que pode ser lido via conceito de território. 2 A globalização é um processo contínuo de integração, em especial, da econômica mundial. Para isso, é necessária a disponibilidade de ferramentas que permitem a organização das redes e dos fluxos entre as diferentes regiões do mundo. Desse modo, sobre onde está aparada a globalização, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Comprometimento com o desenvolvimento sustentável das nações. b) ( ) Processo industrial altamente concentrado nos países emergentes. c) ( ) Emprego de técnicas tradicionais de produção, como o fordismo. d) ( ) Protecionismo econômico praticado pelos países desenvolvidos. e) ( ) Desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação. 3 Com relação aos modelos de redes geográficas existentes no espaço mundial, o processo de globalização provoca uma homogeneização da produção e do consumo em nível global, porém esse processo não é uniforme em todo o planeta. Desse modo, sobre o que resultou a globalização, assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE 141 a) ( ) Melhoria da qualidade de vida das populações periféricas. b) ( ) Acentuação da desigualdade social entre diferentes regiões. c) ( ) Utilização de mão de obra com baixa qualificação profissional. d) ( ) Diminuição dos impactos ambientais gerados no globo. 4 A superfície da Terra é recoberta por inúmeras redes geográficas. Os povos nômades, sem localização fixa permanente, construíram suas próprias redes geográficas, constituídas por itinerários percorridos periodicamente e por paradas provisórias, junto a um poço de água, por exemplo. Há fixos e fluxos que refletem e condicionam a vida nômade. Os itinerários simbólicos, com geossímbolos associados a uma crença religiosa e santuários ou paradas para descanso, compõem outras redes geográficas, existentes nos mais diferentes contextos culturais (COREIA, 2009). A partir da formação das redes geográficas na contemporaneidade, conforme indicado pelo trecho, exemplifique alguns tipos de redes existentes no mundo contemporâneo. 5 A globalização alterou as relações políticas, econômicas e culturais entre os territórios; redes informacionais conectam fluxos, lugares e pessoas, instantaneamente; as paisagens são vendidas nos cartões postais e nas campanhas de city-marketing; satélites, GPS, aerofotogrametria e os recursos da informática auxiliam o geógrafo no momento de cartografar o espaço (TRINDADE, 2009, p. 15). Considerando que os recursos estão disponíveis, mas não podem ser utilizados por todos, disserte sobre. 142 143 TÓPICO 4 - O TRABALHO NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL 1 INTRODUÇÃO Quanto à divisão do trabalho atual, as características que interessam mais de perto ao nosso enfoque, são, em primeiro lugar, o fato de que, talvez pela primeira vez na história do homem, há uma completa superposição dos diversos níveis da divisão do trabalho. Desse modo, as divisões do trabalho internacional, nacional e local se imbricam de maneira necessária. Isso redefine, de um lado, a própria divisão do trabalho e, de outro lado, redefine o espaço em todos os seus níveis de organização ou, para guardarmos a velha denominação, em todas as suas escalas. Desse modo, a dimensão escalar poderia ser rediscutida como instrumento de trabalho em geografia. Em segundo lugar, é também a primeira vez em que a divisão do trabalho é fruto de uma organização deliberada, não sendo deixada ao sabor das combinações ocasionais, ainda que predeterminadas. Hoje, uma organização precede e preside a estruturação do trabalho, a partir do nível mundial, ditando as formas de vida das sociedades as mais diversas, e pretendendo mesmo impor as modalidades com as quais os diversos povos realizam o seu estatuto nacional. As formas de intervenção atual dos grandes organismos internacionais na vida íntima de cada país são um exemplo. Esse ditame organizacional, externo a cada nação, e que impõe, dentro de cada país, novas formas de convivência, termina por redefinir, redimensionar e reorganizar tudo, até mesmo o espaço. Isso, porém, não significa que haja uma submissão automática dos diversos níveis inferiores de organização aos respectivos níveis superiores. É, também, novo na organização territorial o fato de que, graças à universalização de tantos tipos de troca, os níveis inferiores de organização passem a ter um papel relevante na redefinição dos níveis superiores, da nação ao universo. Em terceiro lugar, ressalta-se o papel das diversas formas de circulação nessa reorganização da divisão internacional do trabalho, sobretudo no que toca à reorganização espacial. A circulação já não se define como antes,apenas pelos transportes e pelas comunicações. Já que um novo sistema se levanta e ganha um papel reitor nas relações sociais, isto é, o subsistema da regulação, sem o qual já não se podem entender os fenómenos espaciais (SANTOS, 1994). Neste tópico, por meio de uma abordagem teórico-empírica, estudaremos as questões que vinculam a geografia e o trabalho na produção do espaço mundial, tendo por fundamento que no âmbito da geografia, temos as diferentes ocupações do espaço geográfico e a sociedade se diferencia através de sua cultura, política, religião, economia e seus modos de vida. UNIDADE 2 144 Cada sociedade desenvolveu sua forma de trabalho e produção por meio do seu desenvolvimento cultural e as condições naturais oferecidas pela sua natureza e terri- tório. Portanto, as atividades de comércio foram potencializadas com as necessidades de matéria-prima, mão de obra e do mercado consumidor. Além desta Introdução, o Tópico 4 está dividido em dois temas: a empregabili- dade e desigualdade de renda no cenário mundial; e o as transformações tecnológicas e os impactos no mundo do trabalho. 2 EMPREGABILIDADE E DESIGUALDADE DE RENDA NO CENÁRIO MUNDIAL Estamos vivendo uma questão atual que é discutida por várias linhas de estudos e com grandes debates e discussões, denominada como globalização, desenvolvida por um processo de uma tendência cultural homogeneizante através dos meios e técnicas, condicionadas por atores políticos globais. Verifique a tirinha a seguir: FIGURA 17 – CHARGE SOBRE A GLOBALIZAÇÃO E A DESIGUALDADE SOCIAL FONTE: <https://bit.ly/3MFuaoG>. Acesso em: 11 nov. 2021. Como vemos e analisamos na figura, as pessoas que representam a classe baixa são desmoralizadas pelas suas aparências, sendo convidadas a entrar pela entrada de serviço. A globalização é um processo do modelo econômico capitalista, constituído pela mundialização do espaço geográfico desenvolvida pela interligação econômica, política, social e cultural. Ademais, todo esse processo vai ocorrer em escalas e redes diferentes e apresenta consequências distintas no espaço geográfico, se diferenciando em populações ricas e pobres, beneficiando as nações mais ricas, sendo essas capazes de expandir seu mercado consumidor em grandes empresas transnacionais. 145 É necessário entender que todo o processo da globalização é composto por diversas estruturas que estão interligadas de modo dinâmico. Assim, as transnacionais, como exemplo, são as corporações industriais, comerciais e de prestação de serviços, que iram atuar em distintos territórios dispersos pelo mundo, ultrapassando os limites territoriais dos países de origem das empresas. Vejamos algumas empresas que possuem grandes influências mundiais, sendo que as mais consumidas no mundo são controladas pelas mesmas empresas. FIGURA 18 – MARCAS MAIS CONSUMIDAS NO MUNDO FONTE: <https://bit.ly/3t0EGPN>. Acesso em: 11 nov. 2021. O avanço da globalização e das tecnologias crescentes apresentam marcas e produtos no mercado globalizado que são assimilados pela sociedade independente de classe social, lugar, raça, religião e cultura. São as novas relações do espaço e tempo, a globalização atravessa as fronteiras, integrando e conectando comunidades e organizações. No entanto, por outro lado, a velocidade da globalização, das novas tecnologias e das transformações do mercado engendram um novo trabalhador. Quanto ao espaço, ele também se adapta à nova era. Atualizar-se é sinônimo de adotar os componentes que fazem de uma determinada fração do território o locus de atividades de produção e de troca de alto nível e por isso consideradas mundiais. Esses lugares são espaços hegemónicos, onde se instalam as forças que regulam a ação em outros lugares (SANTOS, 1994, p. 13). Hoje, os territórios que apresentam as novas tecnologias e têm a velocidade das transformações no mercado de trabalho preconizam que o indivíduo tenha que aprender e tentar a lidar com situações totalmente novas e que são de fundamental importância para a realização dos seus sonhos para o futuro como ser humano e como trabalhador 146 que constrói a si mesmo e toda sua realidade. Os resultados destas transformações trazidas pela globalização têm caráter ainda mais devastador para os trabalhadores com menor grau de escolaridade e instrução ou que estão à margem do mercado formal de trabalho. Veja a figura a seguir: FIGURA 19 – REPORTAGEM SOBRE A DESIGUALDADE SOCIAL FONTE: <https://bit.ly/3pVrEkz>. Acesso em: 11 nov. 2021. Nos últimos dez anos, a desigualdade transformou-se em um dos desafios mais complexos e desconcertantes da economia mundial. Desigualdade de oportunidades . Desigualdade entre gerações . Desigualdade entre mulheres e homens. E, é claro, desigualdade de renda e de riqueza . Todas essas facetas da desigualdade estão presentes em nossas sociedades e, infelizmente, estão aumentando em muitos países. A boa notícia é que dispomos dos meios para enfrentar esses problemas, desde que tenhamos a vontade de fazê-lo. A implementação de reformas é um processo politicamente difícil, mas os ganhos em termos de crescimento e produtividade valem o esforço. https://blogs.imf.org/2019/11/07/the-threat-of-inequality-of-opportunity/ https://blogs.imf.org/2018/01/24/a-dream-deferred-inequality-and-poverty-across-generations-in-europe/ https://www.imf.org/external/themes/gender/ https://blogs.imf.org/2017/12/07/chart-of-the-week-sharing-the-wealth-inequality-and-who-owns-what/ 147 Políticas de combate à desigualdade Combater a desigualdade exige uma abordagem nova. Primeiro, é preciso repensar as políticas fiscais e a tributação progressiva . A tributação progressiva é um componente essencial de uma política fiscal eficaz. Nossos estudos mostram que é possível elevar as alíquotas tributárias marginais no topo da distribuição de renda sem sacrificar o crescimento econômico. O uso de ferramentas digitais na cobrança de impostos também pode ser um dos elementos de uma estratégia global para reforçar a receita interna. Reduzir a corrupção pode tanto melhorar a arrecadação como aumentar a confiança no governo. E, mais importante, tais estratégias podem gerar os recursos necessários para investir na ampliação das oportunidades para as pessoas e comunidades que estão ficando para trás. A adoção de uma perspectiva de gênero na preparação do orçamento, conhecida como gender budgeting , é outra ferramenta fiscal valiosa na luta para reduzir a desigualdade. Embora muitos países reconheçam a necessidade de igualdade de gênero e empoderamento das mulheres, os governos poderiam usar essa ferramenta para estruturar os gastos e a tributação de modo a dar novo ímpeto à igualdade de gênero, ampliando a participação das mulheres na força de trabalho e, dessa forma, impulsionando o crescimento e a estabilidade. Segundo, as políticas de gastos sociais são cada vez mais importantes para combater a desigualdade. Quando bem aplicadas, conseguem cumprir um papel fundamental na mitigação da desigualdade de renda e de seus efeitos nocivos sobre a igualdade de oportunidades e a coesão social. A educação, por exemplo, prepara os jovens para se tornarem adultos produtivos que contribuirão para a sociedade. A saúde salva vidas e também pode melhorar a qualidade de vida. Os programas de previdência social ajudam a preservar a dignidade dos idosos. A capacidade de aumentar os gastos sociais também é essencial para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Um novo estudo do FMI mostra que a elevação necessária varia bastante entre os países. Por exemplo: em áreas básicas como saúde, educação e infraestrutura prioritária, estimamos que as economias de mercados emergentes teriam que elevar os gastos a cada ano até chegar a cerca de 4 pontos percentuais do PIB em 2030, enquanto a média dos países em desenvolvimento de baixa renda teria de despender o equivalente a 15 pontos percentuais do PIB. https://blogs.imf.org/2017/10/11/inequality-fiscal-policy-can-make-the-difference/https://www.imf.org/pt/News/Articles/2019/03/06/blog-do-the-math-include-women-in-government-budgets https://blogs.imf.org/2019/11/07/the-threat-of-inequality-of-opportunity/ https://www.imf.org/en/Publications/Staff-Discussion-Notes/Issues/2019/01/18/Fiscal-Policy-and-Development-Human-Social-and-Physical-Investments-for-the-SDGs-46444 https://www.imf.org/en/Publications/Staff-Discussion-Notes/Issues/2019/01/18/Fiscal-Policy-and-Development-Human-Social-and-Physical-Investments-for-the-SDGs-46444 148 Terceiro, reformar a estrutura da economia poderia apoiar os esforços para combater a desigualdade ao reduzir os custos do ajuste, minimizar as disparidades regionais e preparar os trabalhadores para ocupar um número crescente de empregos verdes. Políticas ativas para o mercado de trabalho – como a assistência na procura de emprego, os programas de capacitação e, em alguns casos, o salário- desemprego – podem melhorar a qualificação dos trabalhadores e encurtar os períodos de desocupação. Facilitar a mobilidade dos trabalhadores entre empresas, setores e regiões minimiza os custos de ajuste e promove uma recolocação rápida. Políticas de habitação, crédito e infraestrutura podem ser úteis nesse sentido. Políticas e investimentos direcionados a determinadas áreas geográficas podem complementar as transferências sociais já existentes. Como o FMI apoia os países na redução da desigualdade Ao longo da última década, o combate à desigualdade passou a figurar como um dos elementos do trabalho do FMI nas áreas de supervisão, concessão de crédito, estudos e desenvolvimento de capacidades, uma tendência que será mantida na próxima década. Uma pedra angular de nossa abordagem às questões de inclusão econômica é nossa estratégia para os gastos sociais . Nosso envolvimento com os países parte da premissa de que os gastos sociais precisam ser adequados, mas também eficientes e financiados de forma sustentável. Não são apenas critérios. São princípios que norteiam nossa assessoria em políticas. Por exemplo, se os gastos sociais forem insuficientes para alcançar os ODS ou para proteger uma parcela significativa das famílias pobres e vulneráveis, então é preciso aumentá-los. De maneira análoga, com a evolução demográfica, as questões de sustentabilidade fiscal passarão para o primeiro plano da discussão sobre gastos sociais, abarcando os gastos com saúde e previdência. O mais importante é que mitigar os efeitos adversos do ajuste sobre os pobres e vulneráveis passou a ser, e continuará sendo, um objetivo fundamental. https://www.imf.org/en/Publications/Policy-Papers/Issues/2019/06/10/A-Strategy-for-IMF-Engagement-on-Social-Spending-46975 149 A implementação na prática Exemplos recentes de nosso envolvimento com os países na área de gastos sociais oferecem lições valiosas: Durante a implementação do programa apoiado pelo FMI, o Egito mais do que dobrou a cobertura das transferências de renda, beneficiando 2,3 milhões de famílias. Em Gana, ajudamos a criar espaço no orçamento para um aumento dos gastos com o ensino público – para que o país possa alcançar seu objetivo de universalização do ensino médio. Assessoramos o Japão na formulação de opções para uma reforma da previdência, uma medida indispensável diante do envelhecimento da sua população. Sabemos perfeitamente que mais um relatório bonito na estante não beneficia ninguém. Por isso, estamos empenhados em garantir que nossa estratégia para os gastos sociais esteja plenamente integrada a todas as nossas atividades, para que possamos adaptar melhor nossa assessoria às preferências e circunstâncias específicas de cada país. Colaboração com os parceiros Seja no combate à desigualdade, seja na assessoria sobre os gastos sociais, estamos conscientes de que não conseguiremos fazer tudo sozinhos. Vislumbramos uma parceria entre organismos internacionais, acadêmicos, autoridades nacionais, sociedade civil e setor privado, trabalhando juntos para me- lhorar as políticas de gastos sociais e lançar as bases para o cumprimento dos ODS. Por exemplo, reuni-me recentemente com os ministros do Trabalho do G-7, cuja ampla experiência em questões sociais e laborais pode enriquecer nossa assessoria em políticas. E nós do FMI podemos ajudar a destacar essas questões no contexto mais amplo do diálogo de política econômica sobre estabilidade e crescimento. Além disso, organismos internacionais como o Banco Mundial e a Organi- zação Internacional do Trabalho têm um conhecimento inestimável em matéria de gastos sociais. E a sociedade civil, o meio acadêmico, os centros de estudo e os sindicatos também oferecem perspectivas únicas, que enriquecem nossas opiniões, ajudam- nos a resistir ao pensamento de grupo e permitem-nos apreciar melhor aspectos nacionais específicos. 150 Naturalmente, em se tratando de gastos sociais, não existe uma solução que se aplique a todos os casos. Os países têm preferências distintas, enfrentam desafios variados e aspiram a coisas diferentes. Contudo, se trabalharmos juntos, é mais pro- vável que façamos as perguntas certas e, assim, encontremos as respostas certas. FONTE: <https://www.imf.org/pt/News/Articles/2020/01/07/blog-reduce-inequality-to-create-oppor- tunity>. Acesso em: 11 nov. 2021. Nesse contexto, a pandemia acaba provocando uma aceleração nos processos de desigualdade e desemprego, e transforma as relações de trabalho, consequentemente, o impacto no mercado de trabalho foi imediato. FIGURA 20 – A PANDEMIA E A POBREZA FONTE: <https://bit.ly/3KDagsz>. Acesso em: 11 nov. 2021. 3 AS TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS E OS IMPACTOS NO MUNDO DO TRABALHO As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, especialmente nos campos da informática e das telecomunicações, provocaram mudanças nas formas de produzir e consumir, sendo assim, vivemos em um mundo onde as relações entre a sociedade e o espaço são medidas, cada vez mais, pela tecnologia da informação. 151 FIGURA 21 – AS DIFERENTES EXPANSÕES TECNOLÓGICAS FONTE: <https://bit.ly/368UYx5>. Acesso em: 11 nov. 2021. Um mundo no qual as possibilidades de acesso à informação embora enormes, são restritas a uma parte da humanidade. A instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares, torna possível uma tomada de conhecimento imediata de aconteci- mentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma re- lação unitária na escala do mundo. E, como já não é possível medir a mais-valia, esta, tornada mundial pelo viés da produção e unificada por intermédio do sistema bancário, constitui o motor primeiro (SANTOS, 1994, p. 24). FIGURA 22 – GLOBALIZAÇÃO E O CAPITALISMO FONTE: <https://bit.ly/3KBl4Ys>. Acesso em: 11 nov. 2021. Então devemos pensar como mudar essa realidade globalizada? Segundo o geógrafo e escritor Milton Santos, vivemos um segundo momento da globalização, que é a fragmentação dos territórios. 152 É aí que se situa a base da mundialização de todos os indivíduos e de todos os lugares. O mundo oferece as possibilidades: e o lugar oferece as ocasiões. Não se trata aqui de um "exército de reserva" de lugares, senão da produção raciocinada de um espaço, no qual cada fração do território é chamada a revestir características específicas em função dos atores hegemónicos, cuja eficácia depende doravante de uma produtividade espacial, fruto de um ordenamento intencional e específico (SANTOS, 1994, p. 24). Milton Santos (1994) vai discutir que o processo global constitui o estágio supremo da internacionalização, uma nova fase na história humana ou conjunto de novas possibilidades concretas que modificam equilíbrios preexistentes e procuram impor sua lei. Nesse sentido, relata que a globalização se exprime por meio de funcionalização, e reflete no espaço geográfico. Salienta que, historicamente, tentou-se unificar o mundo e não unir. Atualmente constrói-se um mundo baseado num sistema de relações hierárquicas e para a perpetuação de um subsistema de dominação sobreoutros subsistemas, beneficiando poucos. Destaca a busca pela dominação e competição no mercado mundial, com atores mundiais, instituições supranacionais, organizações internacionais, universidades mundiais e igrejas dissolventes. Através das discussões geradas pelo questionamento, para compreender melhor esses conhecimentos adquiridos, indicamos que assista aos documentários do professor geógrafo Milton Santos: Durante o documentário, Santos se refere com frequência ao termo “globalitarismo”, termo utilizado por ele para expressar o totalitarismo que as nações hegemônicas impõem sobre as camadas populares, seja no âmbito econômico ou social. Segundo o geógrafo, estamos vivendo um segundo momento da globalização, em que se apresenta uma fragmentação dos territórios. Vídeo 1: Globalização Milton Santos, o mundo global visto do lado de cá. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=-UUB5DW_mnM. Acesso em: 3 nov. 2021. Sinopse: Um documentário com a participação do geógrafo Milton Santos, produzido pelo cineasta Silvio Tendler, discute os problemas da globalização sob as perspectivas das periferias. Procura explicar, ou até mesmo elucidar, essa tal globalização de que tanto ouvimos falar. Duração: 1 h, 29 min e 24 seg. Vídeo 2: Por uma outra globalização, Milton Santos. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=sdSwEezXrAk. Acesso em: 3 nov. 2021. DICA 153 Sinopse: O vídeo traz uma importante visão diferenciada de globalização, como perversidade e como abandono social, em nome da reprodução do capital. No filme, Milton Santos ressalta as três faces da globalização: A primeira seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; a segunda seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e a terceira, o mundo tal como ele pode ser: uma outra globalização. Duração: 55 min e 15 seg. Segundo Santos (1994), existem três etapas do meio geográfico. Primeiramente, existiu o meio natural, no qual não havia expressivas transformações humanas. Existiam técnicas simples, como a agricultura e a domesticação de animais, mas estas eram entrelaçadas simbioticamente à natureza, os sistemas técnicos eram locais e desprovidos de objetos técnicos. Em segunda etapa é o meio técnico, que é posterior à invenção e ao uso das máquinas, sendo caracterizado pelo espaço mecanizado, composto de objetos culturais e técnicos. Ademais, o espaço era tanto natural, quanto artificial, e o fenômeno técnico era geograficamente limitado às nações desenvolvidas. Na terceira etapa, por fim, o meio técnico-científico informacional, iniciado após a Segunda Guerra Mundial e consolidado no decênio de 1970. Nesta etapa, o mercado global une-se à técnica, ciência e informação, entendidas como as bases do espaço e da produção. Nos tempos correntes, os objetos, bem como as ações, são técnico-científico informacionais, havendo uma indissociabilidade entre estes três aspectos. Além disso, é válido sublinhar que os objetos técnicos conferem materialidade ao território. De um ponto específico, cresceu a generalização e a universalização de objetos, com aumento da produtividade e a redução do espaço produtivo. Com a grande importância dos capitais fixos e circulantes e com o passar do tempo, os objetos se tornam mais fixos ao solo e mais dependentes de outros objetos. “Há cada vez mais regiões que são apenas regiões do fazer, e, cada vez menos, regiões do mandar, regiões do reger. Aquelas que são regiões do fazer são cada vez mais regiões do fazer para os outros” (SANTOS, 1994, p. 114). Contemporaneamente, as empresas com as melhores técnicas e informações irão se posicionar em localizações privilegiadas, ou seja, otimizam a produção e tendem a vencer a concorrência. O conhecimento possui papel primordial no período atual e a crescente especialização acentua a divisão do trabalho. “Os objetos obedecem a quem tem o poder de comandá-los. Não é por acaso que a raiz da palavra ‘cibernética’ é a mesma da palavra ‘governador’” (SANTOS, 1994, p. 116). Hoje os territórios apresentam, conforme expõe Santos (1994), a Guerra dos Lugares, uma competição entre os lugares para a atração de empresas e investimentos. Atualmente, a informação comanda a Divisão Internacional do Trabalho, bem como determinam as decisões e a funcionalidade do setor financeiro, ou seja, a divisão territorial do trabalho cria uma hierarquia dos lugares e distribui a totalidade dos recursos, cada novo momento histórico modifica a divisão do trabalho (SANTOS, 1994). 154 Ao pensar o uso do território, pelo cenário do meio técnico-científico informa- cional e da pós-modernidade, as redes se tornam absolutas, surgindo com intencio- nalidades específicas, sendo fundamentais para a configuração da economia mundial. Nelas, a circulação e os fluxos são mais importantes que a produção. Portanto, as redes técnicas atuais necessitam de fluidez. Neste intento, são criados fixos para facilitação dos fluxos. As redes são tanto globais, quanto locais. Assim, elas propiciam a ação do global sobre o local e vice-versa. Na atual divisão territorial do trabalho, privilegiam al- guns atores, conferindo-lhes poder. Elas possuem expressivo valor, pois superam os obstáculos físicos, integrando diferentes espaços. São importantes ao atual estágio do capitalismo, visto que a produção carece de circulação (SANTOS, 1994). Atualmente, não é mais possível pensar o conceito de espaço sem considerar o processo de globalização e o período técnico-científico-informacional e suas nuances permeando entre as escalas: o nível planetário; o nível nacional e o nível regional e local. A unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e o motor único (mais-valia globalizada) resultam em uma globalização perversa, porém é possível outro uso político com novas formas de ações e valores (SANTOS, 1994). Certo é que os efeitos provocados por essas mudanças, como os desempregos, precarização do trabalho, serão o conteúdo do redirecionamento das políticas públicas de emprego. 155 MEIO TÉCNICO-CIENTÍFICO-INFORMACIONAL E AS CENTRAIS DE ABASTECIMENTO DE ALIMENTOS NO BRASIL Larissa Oliveira Dionísio Antonio Nivaldo Hespanhol Resumo: O advento do meio técnico-científico-informacional se deu após a Segunda Guerra Mundial e é caracterizado pela utilização de modernas tecnologias. No Brasil, o meio técnico- científico-informacional se efetivou somente na década de 1970 e teve grande influência no processo produtivo. As centrais de abastecimento foram criadas pelo Governo Federal, no mesmo período, e estão mais concentradas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. De tal modo, o objetivo deste artigo é abordar a articulação das centrais de abastecimento com o meio técnico-científico informacional, destacando as regiões Sul e Sudeste, tendo em vista que nestas duas regiões as inovações e a modernização da agricultura foram mais expressivas. Para elaboração do artigo foi realizado levantamento bibliográfico sobre o meio técnico-científico-informacional, as centrais de abastecimento e a modernização da agricultura, bem como o levantamento de dados e informações nas publicações da ABRACEN, CONAB e CEAGESP. Palavras-chave: CEASA. Abastecimento. Meio técnico-científico-informacional. Introdução Este trabalho aborda as centrais de abastecimento de alimentos nas suas articulações com o meio técnico-científico-informacional, com ênfase nas regiões Sul e Sudeste, tendo em vista que as inovações e a modernização da agricultura foram mais expressivas nestas duas regiões e as centrais de abastecimento possuem presença mais pronunciada nessas regiões. O surgimento do meio técnico-científico informacional se deu após a Segunda Guerra Mundial, mas só foi estabelecido no decorrer dos anos 1970, quando ganhou expressividade o processo de informatização do território. O meio técnico-científico- informacional foi responsável por conectar as atividades agrícolas com o conhecimentocientífico no Brasil, resultando nas novas localizações das indústrias, expansão agroindustrial, modernização dos transportes e no estabelecimento da agricultura científica globalizada. O advento das centrais de abastecimento no Brasil se deu na década de 1970, por meio da iniciativa do Governo Federal. A sua função era regular os preços, bem como fazer a conexão entre o produtor primário e o consumidor final. LEITURA COMPLEMENTAR 156 Para o desenvolvimento do trabalho foi utilizada a concepção de meio técnico científico-informacional, desenvolvida por Milton Santos a partir dos anos 1980. O texto está estruturado em duas seções, além da introdução e das considerações finais. A primeira trata do advento do meio técnico-científico- informacional bem como das inovações derivadas deste e do processo de modernização da agricultura. Na segunda seção analisa-se o surgimento das centrais de abastecimento, sua relação com a agricultura científica globalizada, derivada do meio técnico-científico-informacional, e os fatores que explicam a maior concentração das centrais de abastecimento nas regiões Sul e Sudeste do país. Para o desenvolvimento da pesquisa foram adotados os seguintes procedi- mentos metodológicos: levantamento bibliográfico sobre meio técnico-científico- -informacional, modernização da agricultura, produção regional do Sul e Sudeste brasileiro e centrais de abastecimento. Levantamento de dados em publicações da Associação Brasileira de Centrais de Abastecimento (ABRACEN), da Companhia Na- cional de Abastecimento (CONAB) e da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP). 1 Meio técnico-científico-informacional, inovações e modernização da agricultura De acordo com Santos (1994), o espaço é constituído por fluxos de níveis variados, vastos e com distintas orientações. Há fluxos hegemônicos e hegemonizados, isto é, fluxos mais rápidos, com maior eficiência, e fluxos vagarosos. O espaço global, segundo o autor, é estabelecido por fluxos e objetos. “A escala dos fluxos materiais e imateriais é tanto mais elevada quanto seus objetos dão prova de maior inovação” (SANTOS, 1994, p. 26). Santos (1985) salienta as conquistas árabes na história dos países subdesenvolvidos, contudo, tal influência foi limitada em razão da rusticidade do transporte, o que induziu a estruturação virtual das colônias, onde as cidades eram instrumentos que faziam a conexão entre as nações conquistadoras e seus espaços conquistados. Logo, o comércio se apoiou no excedente da produção agrícola. O período que o autor denomina de período do comércio em grande escala (final do século XV até 1620 aproximadamente) é marcado pela substituição da agricultura como elemento fundamental do sistema pelo aumento da capacidade de transporte, resultando na ampliação do comércio que, deste modo, estimula a manufatura de forma volumosa, “o comércio se torna motor da agricultura” (SANTOS, 1985, p. 25). No período manufatureiro (1620-1750), segundo Santos (1985), as cidades, agora enriquecidas, passam a concentrar suas atividades na manufatura. O terceiro período, nomeado de período da Revolução Industrial (1750-1870) é marcado por grandes transformações, já que a industrialização proporcionou grande aumento da 157 produtividade. O quarto período, denominado de industrial (1870-1945), é marcado pelo surgimento de novas tecnologias e é formado por uma nova organização, já que corresponde à segunda revolução industrial, onde nele ocorre a dissolução entre consumo e produção. O abandono das áreas rurais em países europeus não acarretou problemas de abastecimento, mesmo com o aumento crescente da população urbana, já que era possível fazer importações de alimentos de lugares longínquos, no entanto estas importações decorreram da criação de subsistemas políticos constituídos através das colônias. Desta forma os países dominantes, através de impérios coloniais, tinham domínio sobre os preços do subsistema que controlavam, gerando consequências na economia, se beneficiando de oscilações na conjuntura, ou seja. Se o cultivo da cana-de-açúcar ou tabaco na América nascera da necessidade do comércio, durante o primeiro período, o cultivo do trigo e a criação de gado na Argentina, Uruguai, Sul do Brasil, Austrália e Nova Zelândia foram respostas às necessidades da indústria. Esta resposta, que é o tema dominante do período, dá à indústria uma certa autonomia em comparação com os outros elementos do sistema. A demanda de tecnologia precede ou acompanha a respectiva oferta; há uma espécie de confusão ou coexistência entre as atividades de produção e a de inovação. Esta situação é contemporânea da concentração da produção em poucos países, como consequência do pacto colonial. O desenvolvimento do próprio pacto é uma consequência da diferença de nível tecnológico entre os países situados no centro do sistema econômico mundial, isto é, os países da Europa Ocidental que o controlavam (SANTOS, 1985, p. 26). Segundo Fernandes (1973), a maioria das nações latino-americanas experen- ciou, durante aproximadamente três séculos, o sistema básico de colonização o qual era constituído através de requisitos econômicos, políticos e culturais do “antigo sistema colonial”, ou seja, os colonizadores se subordinavam ao poder das Coroas de Portugal e Espanha, da qual apenas os colonizadores poderiam participar das estruturas de poder. O autor ainda salienta que o capitalismo que se consolidou na América Latina, derivado da luta armada pela independência política e emancipação nacional, irrompeu no antigo sistema colonial, reproduzindo seu dinamismo organizacional. Denominado de capitalismo dependente, este não ocorreu concomitantemente à criação de estruturas econômicas, políticas e sociais, fazendo o ritmo de sua evolução ser lenta e oscilante, ainda que sua forma de apropriação e expropriação seja intrínseca ao capitalismo moderno, isto é, referentes à organização da produção e circulação de mercadorias, há um elemento peculiar e típico a se considerar nesta forma do capitalismo: a acumulação de capital regularizada para propiciar a ampliação conjunta de núcleos hegemônicos externos e internos, em outros termos, o excedente econômico era repartido com agentes que atuavam em economias centrais. 158 O quinto período, intitulado de período tecnológico, “é o período da grande indústria e do capitalismo das grandes corporações” (SANTOS, 1985, p. 27), sua demarcação se dá através da tecnologia, que está acima de todos os outros elementos que constituem o sistema. Com o desenvolvimento das comunicações e dos transportes as inovações passaram a não ser mais dependentes dos centros existentes, ainda que tais centros recebessem as inovações. A inovação é determinante para o crescimento económico e desenvolvimento das regiões e cidades nas economias avançadas. [...] a inovação reflete a capacidade de criar valor econômico através da introdução de novos produtos no mercado, novos processos de produção, mudanças organizativas e práticas essenciais para a vantagem competitiva das empresas, indústrias e regiões (VALE, 2012, p. 18). A agropecuária brasileira, até os anos 1950, era arcaica, com elevado nível de concentração da propriedade da terra, aspecto que se estende até os dias atuais; outra característica era o forte vínculo com a economia agrário-exportadora e baixa eficiência na produção dos alimentos necessários ao abastecimento interno. A produção para o mercado interno passou a se tornar mais significativa somente depois da grande crise de 1929 e as inovações nos sistemas de produção da agropecuária nacional passaram a ser introduzidas em algumas áreas das regiões Sul e Sudeste do país a partir dos anos 1950, tornando-se expressivas no decorrer dos 1960 e 1970, com o forte estímulo oficial para que o pacote tecnológico da chamada “revolução verde” fosse incorporado, internalizando-se, assim, o chamado Complexo Agroindustrial (CAI). Atéo início dos anos 1960, as crises alimentares eram recorrentes, problema que se agravou nos anos 1950 com a intensificação dos processos de industrialização e ur- banização. Pelo menos três grandes crises de abastecimento levaram o Estado brasileiro a adotar medidas visando à reestruturação: as crises alimentares de 1910, 1937 e 1962. De acordo com Queiroz (2014), a primeira crise de abastecimento se deu em 1910, em razão da dificuldade de circulação, pois havia restrições ao transportar pro- dutos alimentícios para grandes centros urbanos brasileiros. Como medida para supe- ração, houve a intervenção do Estado, resultando no surgimento do Comissariado de Alimentação Pública no ano de 1918, transformado em 1920 na Superintendência de Abastecimento. Ainda foi adotada a política de preços mínimos; a concessão de isenção fiscal para alguns produtos, como: arroz, leite, milho e charque; a organização de coope- rativas, bem como de feiras livres para que os produtores pudessem vender diretamen- te seus produtos; além da constituição da Delegacia Executiva da Produção Nacional. Queiroz (2014) salienta que a segunda crise do abastecimento alimentar se deu na década de 1930, sendo consequência da crise econômica de 1929, que afetou vários segmentos em escala global. Conforme Linhares e Silva (1979), a ingerência do 159 governo federal em 1937, com o advento da Comissão Reguladora de Tabelamento, que investigava os mercados alimentícios, analisando preços, limitando lucros de atacadistas e varejistas e fiscalizando qualidade e quantidade da produção fornecida. Serra (2013) salienta que a crise econômica dos anos 1930 teve grande im- pacto no comércio mundial, levando a seu aniquilamento, bem como o declínio da oligarquia agrária brasileira, já que o café, principal produto brasileiro de exportação, ficou sem mercado. De acordo com Queiroz (2014), no período de guerra (1939-1945), foi instituído o Serviço Técnico de Alimentação Social e a Comissão de Financiamento da Produção; em 1945, houve a criação da Comissão Nacional de Alimentação e a Comissão Nacional de Preços. E, em 1947, houve o advento do Serviço Nacional de Alimentação. A crise internacional só foi superada na década de 1950, quando foi estabele- cido um novo modelo econômico no país, moldando a sua economia aos ditames do mercado externo. Foi instituído o modelo de substituição de importações, caracteri- zado pela “[...] busca e acumulação de capital internacional; incentivo a uma política de desenvolvimento do Complexo Agroindustrial (CAI), com a participação de capitais nacionais e internacionais” (SERRA, 2013, p. 17). No período entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o começo dos anos 1970, conforme Hespanhol (2010), ocorreu a redução da entrada de investimentos privados no país, em razão do impacto econômico negativo gerado pela primeira crise do petróleo ocorrida em 1973. Portanto, a intervenção do Estado foi imprescindível para países subdesenvolvidos, de modo que seu objetivo não era oferecer serviços públicos básicos para a população, mas sim favorecer o processo de expansão econômica. Contudo, a partir de 1973 houve o esgotamento do ciclo expansivo da economia, o que culminou, no contexto global, no enfraquecimento da ação dos Estados nacionais e na ampliação do liberalismo econômico, tanto em países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos. A terceira crise alimentar se instalou em 1962, em razão das dificuldades de circulação, ou seja, havia uma dificuldade de os produtos chegarem aos consumidores, conforme ressalta Queiroz (2014), esta crise foi intensificada pela crise do Petróleo que teve impacto global em 1973. Conforme Linhares e Silva (1979), a terceira crise de abastecimento resultou na criação das centrais de abastecimento brasileiras no decorrer dos anos 1970, que se deu com o surgimento da Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL), da Companhia Brasileira de Armazenamento (CIBRAZEM) e da Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB). Conforme Santos (1985), o denominado período técnico é marcado por um grande desenvolvimento da tecnologia para aplicação no processo produtivo e pela ampliação do trabalho intelectual, bem como pela expansão do capital em escala mundial. Desta maneira, a circulação se tornou central e relevante e a ciência ou o conhecimento passou a constituir uma força produtiva. 160 O advento do meio técnico-científico-informacional se deu após a Segunda Guerra Mundial, na medida em que possibilitou o processo de integração do território. Contudo, como Santos (2005) evidência, o período técnico-científico-informacional só foi estabelecido na década de 1970, marcado pelo advento da ciência e técnica nos processos de remodelação do território, desta forma as produções hegemônicas tinham necessidade de um novo meio geográfico para sua consecução. Desta maneira, “a informação, em todas as suas formas, é o motor fundamental do processo social e o território é, também, equipado para facilitar a circulação” (SANTOS, 2005, p. 38). Santos (2005) salienta que esse meio técnico-científico informacional foi responsável pela informatização do território, mediante investimentos maciços em infraestrutura. Lima e Simões (2010) ressaltam que, no caso do Brasil, o Estado foi fundamental para o processo de desenvolvimento econômico, ao passo que as atividades desenvolvidas entre 1950 e 1980 tiveram uma intervenção estatal fortíssima. No Brasil, segundo Santos (2005), alguns fatores devem ser evidenciados no período entre 1950 e 1980, o primeiro diz respeito ao desenvolvimento da configuração territorial. Seu desenvolvimento se deu através dos sistemas de telecomunicações e transportes, bem como da produção de energia. O segundo fator a ser considerado é o aprimoramento da produção material, no caso brasileiro se tratou da produção agrícola e industrial, que sofreu com a mudança na estrutura de sua circulação e distribuição. Hespanhol (2010) salienta que a descentralização orçamentária decorrente da Constituição Federal, promulgada em 1988, atrelada a crise econômica dos anos 1980 e ao neoliberalismo, culminaram no desmantelamento do arranjo de planejamento do Estado brasileiro, visto que “os órgãos de planejamento regional foram extintos e os recursos humanos a eles vinculados foram desvalorizados e realocados na máquina administrativa federal” (HESPANHOL, 2010, p. 313). De acordo com Santos (2005), neste período a informação se amplia, ganhando nova profundidade, ou seja, a informação é instantânea e os objetos são dotados de conteúdo informacional, já o espaço se torna fluído em razão dessa integração do território, fazendo com que fatores de produção, como mercadorias, trabalho, produtos e capital, desenvolvam mobilidade. ] Conforme Santos (2000), a produção agrícola passou a receber influências de leis que regem aspectos da produção econômica, ou seja, tendo à agricultura a necessidade de técnicas, informação e ciência. Isso culminou no surgimento das indústrias alimentares que, conforme Gazolla (2018), irão induzir o consumidor a consumir produtos processados, uma vez que gozam de poder econômico e de políticas e estratégias de marketing. 161 A função das centrais de abastecimento, segundo a CEAGESP (2019), é proporcionar uma infraestrutura para que as agroindústrias, atacadistas, cooperativas, exportadores, importadores, produtores rurais e varejistas possam desenvolver suas atividades com serviços qualificados, eficiência e segurança. A CEAGESP possui a maior rede pública de armazéns e silos que são utilizados para o depósito e conservação de produtos agrícolas, além de graneleiros, isto é, locais que armazenam mercadorias a granel. Santos e Silveira (2004) destacam que o meio técnico-científico-informacional inseriu os círculos de cooperação em uma escala geográfica de ação mais vasta, em um grau de complexidade mais amplo, os fluxos se tornaram seletivos e intensos, já a circulação passou a regulara produção, e os fluxos se tornaram seletivos com maior grau de intensidade. Os circuitos espaciais de produção e os círculos de cooperação facilitam a compreensão da hierarquia dos lugares entre escalas regionais até mundiais. Castillo e Frederico (2010) destacam que tanto a noção dos circuitos espaciais de produção quanto dos círculos de cooperação proporcionaram o entendimento da interdependência dos espaços produtivos, o que propiciou a análise da unicidade e circularidade do movimento, à vista disso promovendo a distinção e compreensão das fases de produção. Posto isso, é possível aferir que as centrais de abastecimento são agentes fundamentais do circuito espacial de produção hortifrutigranjeira no abastecimento brasileiro, no entanto por estipularem uma quantidade mínima a ser comercializada em suas dependências, desconsiderando que a produção hortifrutícola possui sazonalidade, criando demanda de ampliação da vida útil dos produtos hortifrutícolas e, por conseguinte, impondo a padronização e durabilidade, resultando em descartes despropositados, em razão de abastecerem mercados, atacados, redes de varejo, dentre outros estabelecimentos. FONTE: DIONISIO, L. O. HESPANHOL, A. N. Meio técnico-científico-informacional e as centrais de abastecimento de alimentos no Brasil. Formação (On-line), v.27, n.52, 2020, p.7-24. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/view/7454/5932. Acesso em: 31 jan. 2022. https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/view/7454/5932 162 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Na atualidade há uma completa superposição dos diversos níveis da divisão do trabalho. • O trabalho na produção do espaço mundial é desenvolvido por um processo de uma tendência cultural homogeneizante através dos meios e técnicas, condicionadas por atores políticos globais. • Todo o processo da globalização é composto por diversas estruturas que estão interligadas de modo dinâmico. • A desigualdade transformou-se em um dos desafios mais complexos e desconcertantes da economia mundial. • Vivemos em um mundo baseado num sistema de relações hierárquicas e para a perpetuação de um subsistema de dominação sobre outros subsistemas, beneficiando poucos. 163 RESUMO DO TÓPICO 4 1 A globalização é marcada pelo desenvolvimento do chamado período técnico- científico-informacional, marcado pelo incremento da técnica no desenvolvimento das atividades produtivas. Assim, as principais indústrias desse período estão relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, como as de informática. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A velocidade da globalização, das novas tecnologias e das transformações do mercado engendram um novo trabalhador. ( ) A tecnologia é apontada como um dos principais fatores responsáveis pela consolidação da globalização no século XX. ( ) No mundo globalizado, os trabalhadores perderam espaço para as máquinas devido à necessidade de produzir-se mais e de forma mais eficiente a um custo mais baixo. ( ) A globalização é um processo econômico, mas também sociocultural. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – V – F – V. c) ( ) F – F – V – V. d) ( ) V – V – V – V. 2 Segundo Santos (1994), a globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista e, para entendê-la, há de se considerar dois elementos fundamentais. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O estado das técnicas e o estado da política, necessários ao entendimento de qualquer fase da história. b) ( ) A economia e a ciência aplicada à produção material. c) ( ) A velocidade da mudança tecnológica e a informação em tempo real. d) ( ) A escassez, enquanto fenômeno econômico, e o estado da técnica, enquanto conhecimento. e) ( ) A redefinição do conceito de espaço geográfico e do conceito de fronteiras. 3 Conforme o geógrafo Milton Santos retrata, o meio geográfico teve três etapas. Inicialmente, era o meio natural, no qual não havia expressivas transformações humanas. Já o meio técnico, é posterior à invenção e ao uso das máquinas. Por fim, chega-se ao meio técnico-científico informacional, iniciado após a Segunda Guerra Mundial e consolidado no decênio de 1970. Exemplifique as três etapas do meio geográfico. AUTOATIVIDADE 164 4 O conceito de meio técnico-científico-informacional é um dos grandes legados do pensamento do geógrafo Milton Santos. Pode ser considerado a cara geográfica da globalização, pois os espaços territoriais atendem aos interesses dos atores hegemônicos da economia, da cultura e da política, ou seja, atendem à lógica global. Sobre a lógica global, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A desvinculação do espaço e dos processos históricos na leitura do modo de produção capitalista. b) ( ) O período que se inicia a partir da revolução industrial com a profunda transformação no modo de produção. c) ( ) A independência da técnica e das pesquisas científicas nos processos produtivos capitalistas. d) ( ) O papel dos comércios informais no desenvolvimento dos países de economias emergentes, em especial a do Brasil. e) ( ) A incorporação da ciência e da técnica e o aprofundamento do papel da comunicação nos sistemas produtivos. 5 Condicionados pelo avanço da globalização e das tecnologias crescentes, atualmen- te apresenta várias marcas e produtos no mercado globalizado que são assimilados pela sociedade independente de classe social, lugar, raça, religião e cultura. Faça uma pesquisa e cite marcas, empresas e produtos que você conhece e estão em seu local de vivência e tem uma abrangência global. 165 REFERÊNCIAS ANDRADE, M. C. de. 1922 – a questão do território no Brasil. 2. ed. São Paulo: Hucitee, 2004. AZEVEDO, H. L.; MONTEIRO, H. P. F. O ciberespaço em uma reflexão geográfica. Vértices, Campos dos Goytacazes/RJ, v. 12, n. 3, p. 139-147, set./dez. 2010. Disponível em: https://www.docsity.com/pt/o-ciberespaco-em-uma-reflexao- geografica/4848107/. Acesso em: 31 jan. 2022. BRAGA, R. M. O espaço geográfico: um esforço de definição. São Paulo: Geousp, 2007. CASTILHO, D. Um vírus com DNA da globalização: o espectro da perversidade. Espaço e Economia [on-line], 2020. Disponível em: http://journals.openedition.org/ espacoeconomia/10332. Acesso em: 31 jan. 2022. CAMBESES, M. J. Globalização e efeitos adversos. 2013. Disponível em: https:// monitormercantil.com.br/globalizauuo-e-efeitos-adversos/. Acesso em: 11 nov. 2021. CORRÊA, R. L. O espaço geográfico: algumas considerações. In: SANTOS, M. (Org.). Novos rumos da geografia brasileira. São Paulo: Hucitec, 2005. CORRÊA, R. L. Redes geográficas: reflexões sobre um tema persistente. Revista Cidades, v. 9, n. 16, 2012, p. 200-220. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index. php/revistacidades/article/view/2378. Acesso em: 31 jan. 2022. CORRÊA, R, L. O espaço urbano. 3. ed. São Paulo: Ática, 1995. DIONISIO, L. O. HESPANHOL, A. N. Meio técnico-científico-informacional e as centrais de abastecimento de alimentos no Brasil. Formação (on-line), v. 27, n. 52, 2020, p. 7-24. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/ download/7454/5932. Acesso em: 31 jan. 2022. HARTSHORNE, R. Propósitos e natureza da geografia. 2. ed. São Paulo: Hicitec, 1978. IANNI, O. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. IANNI, O. Teorias da globalização. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. LEFEBVRE, H. Espacio y política. Barcelona: Península, 1976. https://www.docsity.com/pt/o-ciberespaco-em-uma-reflexao-geografica/4848107/ https://www.docsity.com/pt/o-ciberespaco-em-uma-reflexao-geografica/4848107/ http://journals.openedition.org/espacoeconomia/10332 http://journals.openedition.org/espacoeconomia/10332 https://monitormercantil.com.br/globalizauuo-e-efeitos-adversos/https://monitormercantil.com.br/globalizauuo-e-efeitos-adversos/ https://revista.fct.unesp.br/index.php/revistacidades/article/view/2378 https://revista.fct.unesp.br/index.php/revistacidades/article/view/2378 https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/download/7454/5932 https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/download/7454/5932 166 MACHADO, M. W.; MATSUSHITA, T. L. Globalização e blocos econômicos. Revista DIGE, v. 1 n. 1-Ext: Edição Extraordinária – Direitos Humanos. 2019. Disponível em: https:// revistas.pucsp.br/index.php/DIGE/article/view/42353. Acesso em: 31 jan. 2022. MASI, D. de. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora UnB, 2000. MAIA, L. O conceito de meio técnico científico informacional em Milton Santos e a não visão da luta de classes. Anais do XVI Encontro Nacional de Geógrafos, AGB, 2010. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/atelie/article/view/15642. Acesso em: 31 jan. 2022. MERCOSUL. Em poucas palavras. Mercosul. 2021. Disponível em: https://www. mercosur.int/pt-br/quem-somos/em-poucas-palavras/. Acesso em: 31 jan. 2022. NUNES, P. Processos de significação: Hipermídia, Ciberespaço e Publicações Digitais. 2003. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/110056480/8. Acesso em: 10 fev. 2022. PEREIRA, W. E. N. Notas sobre a intervenção do Estado Capitalista no espaço urbano. Interface – Revista do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, v. 10, n. 1, p. 5-17, 2013. Disponível em: http://www.spell.org.br/documentos/ver/15841/notas-sobre- a-intervencao-do-estado-capitalista-no-espaco-urbano. Acesso em: 31 jan. 2022. PIRES, H. F. Reflexões sobre o Advento da cibergeografia ou o surgimento da geografia política do ciberespaço: contribuição a crítica à geografia crítica. In: ENCONTRO NACIONAL DE HISTÓRIA DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO, 2, São Paulo, 2009. Disponível em: https://enhpgii.files.wordpress.com/2009/10/hindenburgo-pires.pdf. Acesso em: 21 fev. 2022. RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. Tradução de Maria Cecília França. São Paulo: Ática, 1993. RIBEIRO, W. C. Globalização e geografia em Milton Santos. In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, n. 124, 2002. Disponível em: http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm. Acesso em: 31 jan. 2022. SANTOS, M. O espaço divido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. São Paulo: Edusp, 2008. SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2002. https://revistas.pucsp.br/index.php/DIGE/issue/view/2126 https://revistas.pucsp.br/index.php/DIGE/article/view/42353 https://revistas.pucsp.br/index.php/DIGE/article/view/42353 https://www.revistas.ufg.br/atelie/article/view/15642 http://www.spell.org.br/documentos/ver/15841/notas-sobre-a-intervencao-do-estado-capitalista-no-espaco-urbano http://www.spell.org.br/documentos/ver/15841/notas-sobre-a-intervencao-do-estado-capitalista-no-espaco-urbano https://enhpgii.files.wordpress.com/2009/10/hindenburgo-pires.pdf http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm 167 SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2000. SANTOS, M. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1997. SANTOS, M. Técnica espaço tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1994. SANTOS, M. Espaço e sociedade: ensaios. 2. ed. Petrópolis; Vozes, 1982. SANTOS, M. Por uma geografia nova. São Paulo: Hucitec,1978. SORRE, M. A geografia Humana (Introdução). Geographia, Rio de Janeiro, n. 10, p. 137-143, 2003. Disponível em: https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13461. Acesso em: 31 jan. 2022. SILVA, G. C. da. O Ciberespaço como Categoria Geográfica. 2013. 178 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Geografia, Universidade de Brasília, Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/14214. Acesso em: 31 jan. 2022. SOUZA, M. L. de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, I. et al. (Org.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. TRINDADE, G. A. Globalização, redes e relação mundas – lugar: insistindo em um debate ainda não esgotado na geografia. Revista Geonordeste, n. 2, Ano XX. p. 11-34. 2009. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/geonordeste/article/view/2454. Acesso em: 31 jan. 2022. https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13461 https://repositorio.unb.br/handle/10482/14214 https://seer.ufs.br/index.php/geonordeste/article/view/2454 168 169 POR ENTRE TERRITÓRIOS E REDES: MÚLTIPLAS LEITURAS UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender os conceitos de território e de redes como interligados, numa condição de territórios-rede, conforme apontado por Rogério Haesbaert, e estes em suas múltiplas leituras; • abordar elementos que permitiram a passagem dos conflitos armados de guerras convencionais a guerras irregulares e assimétricas e a transição hegemônica destes; • discutir os fluxos financeiros globais e a produção antagônica da realidade: novas modalidades de finanças, como as operações em criptomoedas (expansão/ concentração geográfica) e as desigualdades socioterritoriais; • entender ciberterrorismo como uma das novas formas de terrorismo, cuja característica principal é o uso do ciberespaço como ferramenta e alvo de suas ações. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – "DOS NÓS ÀS LINHAS" NA REDE DE CONFLITOS MUNDIAIS: DAS GUERRAS CONVENCIONAIS AOS CONFLITOS IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS TÓPICO 2 – OS FLUXOS FINANCEIROS GLOBAIS E A EMERGÊNCIA DAS CRIPTOMOEDAS: POSSIBILIDADES E DESAFIOS TÓPICO 3 – NOVAS FORMAS DE TERRORISMO: O CIBERTERRORISMO E A ESCALA GLOBAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 170 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 171 TÓPICO 1 — “DOS NÓS ÀS LINHAS" NA REDE DE CONFLITOS MUNDIAIS: DAS GUERRAS CONVENCIONAIS AOS CONFLITOS IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Este tópico será dividido em duas partes. Inicialmente serão discutidos os significados e as características dos conflitos à luz de diferentes exemplos. No segundo momento, discutiremos alguns casos mais profundamente, dialogando com autores as características dos conflitos, bem como seus rebatimentos sociais, políticos, econômicos e territoriais. Após esses textos, faremos o resumo e direcionaremos nossos esforços a alguns exercícios e atividades correlatas à temática discutida. 2 ASPECTOS CONCEITUAIS E CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS CONVENCIONAIS, IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS De início, nos debruçaremos sobre o significado e as características de cada um desses tipos de conflito, situando-os e diferenciando-os histórica (e temporalmente). Guerras convencionais são aquelas que, de maneira geral, envolvem atores estatais definidos, com exércitos regulares e mobilizados, ainda que possivelmente distintos e assimétricos (REIS, 2017). Clausewitz (2005) é um dos principais teóricos a sistematizar as características, conceitos, desafios e nuances dos conflitos e/ou guerras convencionais. Os objetivos que sustentam (ou justificam) tais guerras são vários, dentre eles: políticos, territoriais e econômicos. Nesse sentido, ressaltamos que condições assimétricas também estão presentes em conflitos convencionais. Afinal,as condições materiais e, portanto, bélicas dos Estados são diferentes. Todavia, os conflitos denominados como não regulares e assimétricos trazem significados, contextos e problemáticas específicas que merecem explicação detalhada: 172 [...] o que queremos significar com conflitos não convencionais, irregulares ou assimétricos? Estes termos são usados neste texto para referir dimensões diversas de uma mesma realidade funda- mental: conflitos armados intraestatais, mesmo que eventualmen- te internacionalizados, entre forças regulares e forças irregulares, grupos armados não profissionais e não estatais. Conflitos nos quais estes grupos de insurgentes recorrem necessariamente a táticas não convencionais de terrorismo e guerrilha para combater com a máxima eficácia possível as forças de segurança e as forças armadas de um Estado, tendo em conta a assimetria de meios que à partida favorece estas últimas em confrontos de tipo convencio- nal (CARDOSO, 2017, p. 12). Segundo Cardoso (2017), os conflitos irregulares e assimétricos não configu- ram uma novidade, mas apresentam-se como hegemônicos no século XXI, ao menos por enquanto. O autor relembra dois casos emblemáticos do potencial desse tipo de conflito na ordem geopolítica global, ainda no século XX: (I) o atentado terrorista orga- nizado por separatistas sérvios em junho de 1914, que culminou na morte de Francisco Ferdinando, herdeiro do império Austro-Húngaro, e consequentemente na 1° Guerra Mundial, bem como (II) a retirada forçada das tropas soviéticas do Afeganistão devido ao intenso e prolongado conflito com as guerrilhas afegãs, dentre elas o Talibã, que foi um marco importante na derrocada do regime soviético. Importante ressaltar o papel da Guerra Fria no fomento aos conflitos não convencionais e assimétricos, afinal, o impasse nuclear e as estratégias de dissuasão de grandes guerras que envolvessem frontalmente as duas potências do período (Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) encorajaram a proliferação de conflitos armados de tipo não convencional com ou sem o patrocínio das ditas superpotências (CARDOSO, 2017). O filme O senhor das armas (2005) apresenta a trajetória do traficante de armas Yuri Orlov, que ficou milionário ao se aproveitar da desordem das antigas Repúblicas Soviéticas com o fim da Guerra Fria e da própria URSS. O filme também demonstra como aquele contexto contribuiu no fomento a conflitos irregulares e assimétricos. NOTA Vemos então o retorno aos conflitos culturais e a consequente diminuição do embate entre Estados. As guerras irregulares ou não convencionais são hegemônicas nos atuais conflitos mundiais, caracterizadas como guerras entre Estados e entes não estatais como grupos terroristas, segmentos políticos radicalizados ou guerrilhas, tais como: Al-Qaeda, a Hamas, o Hezbollah e as FARC (DOURADO; LEITE; NOBRE, 2020). 173 Ressaltamos que há o debate acadêmico e político a respeito do conceito de terrorismo e no enquadramento de grupos como tal, resultando em dualidades sobre determina- dos grupos, como o Hamas, considerado terrorista por alguns países, enquanto para outros não é. Relembre as origens da 1° Guerra Mundial e o papel das guerrilhas afegãs na retirada das tropas soviéticas do país no final da década de 1980. Acesse: https://bit.ly/3tQwCjO. https://bit.ly/3KvPon8. DICA Já no século XXI, entre os exemplos recentes desta tendência de hegemonia de conflitos irregulares ou não convencionais, figura o caso do Iraque. Após rápida vitória militar “convencional” na invasão estadunidense ao país em 2003, o conflito transformou-se em uma prolongada campanha de contrainsurreição. Guardadas as diferenças, também podemos verificar tais características na presença dos Estados Unidos no Afeganistão, cuja retirada em 2021 resultou no retorno quase que imediato do Talibã ao poder no país. A formação do Talibã é um dos desdobramentos do período da Guerra Fria, marcada pela bipolaridade entre Estados Unidos (capitalista) e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a constante preocupação com a possível eclosão de um conflito bélico nuclear entre essas duas potências. O Talibã se consolidou ao final da invasão soviética no Afeganistão. Composto majoritariamente por estudantes que defendiam uma rígida interpretação do Alcorão, instrumento principal, na visão do grupo, para o governo do país. Devemos lembrar que o Talibã foi um dos grupos que recebeu ajuda militar estadunidense, afinal, os Estados Unidos atuavam geopolíticamente para impedir, limitar e/ou enfraquecer as áreas de influência soviética. FONTE: <https://bit.ly/3Cxa1g4>. Acesso em: 1 fev. 2022. IMPORTANTE 174 FIGURA 1 – VEÍCULOS DO EXÉRCITO ESTADUNIDENSE NO IRAQUE FONTE: <https://bit.ly/3I784bc>. Acesso em: 23 dez. 2021. FIGURA 2 – SOLDADOS DO TALIBÃ, GRUPO QUE TOMOU O PODER NO AFEGANISTÃO APÓS A RETIRADA DAS TROPAS ESTADUNIDENSES FONTE: <https://bit.ly/366iCtY>. Acesso em: 23 dez. 2021. Diferente das guerras convencionais, nas quais se objetivam vitórias rápidas possivelmente materializadas pelas diferenças de poder bélico entre os Estados, nos conflitos irregulares ou assimétricos a intenção é exaurir o inimigo e desgastá-lo física e psicologicamente. O objetivo central é a imobilização operacional do adversário, algo fundamental para a vitória na guerra (LEAL, 2011). 175 Nesses tipos de conflito não existem frentes de combate e o poder de fogo é menos relevante que a mobilidade. Não há necessidade real de ocupar, controlar e manter um determinado território. Nas palavras de Leal (2011), o espaço é “contaminado” e essa contaminação exige a presença do adversário, nesse sentido, outros elementos não militares tornam-se importantes, como o caráter político dos movimentos, grupos paramilitares ou guerrilhas: Ter o apoio popular se torna vantajoso, por exemplo, em um conflito cujo objetivo é derrubar um governo, grupos irregulares (que não possuem capacidade militar igual às do Estado) tendem a utilizar táticas irregulares. Além disso, a sua principal necessidade é conquistar o apoio popular nacional e internacional, fazendo com que a vontade do Estado de manter o conflito cesse. Isso faz com que esse tipo de conflito transcorra no campo psicológico, podendo tanto causar o terror psicológico ou a luta pela conquista dos “corações e mentes”. [...] o movimento da conquista da população dá-se por dois processos diferentes, um direto e outro indireto. Os métodos definidos como diretos englobam a execução de campanhas de operações psicológicas apoiadas no emprego de técnicas tradicionais de subversão e propaganda ideológica, na utilização de mídia clandestina, práticas assistencialistas e na execução de operações militares que causam perturbação psicológica. Já no meio indireto, observa-se o uso de mecanismos geradores de violência, por meio de ataques seletivos contra grupos sociais e colaboradores dos inimigos (DOURADO; LEITE; NOBRE, 2020, p. 46-47). Para os autores citados, a temporalidade ou durabilidade do conflito configura elemento fundamental nos conflitos irregulares. Não há duração determinada, média ou esperada para esse tipo de conflito, que inclusive pode caracterizar-se por períodos de inatividade de guerrilhas envolvidas ou por períodos de cessar fogo. A relação dos conflitos irregulares com o tempo está diretamente associada ao apoio popular, afinal, guerras muito longas carecem de boas justificativas. O caso da retirada do exército estadunidense do Vietnã é emblemático, pois ocorreu após a perda de apoio popular nos Estados Unidos devido ao prolongamento do conflito pelos grupos guerrilheiros vietnamitas (DOURADO; LEITE; NOBRE, 2020). Com objetivo de síntese, o Quadro 1 apresenta algumas diferenças entre os tipos de conflitos que buscamos explicar a luz da literatura e dos exemplos, sendo eles contemporâneos ou não: 176 QUADRO 1 – CARACTERÍSTICAS DOS CONFLITOS CONVENCIONAIS E IRREGULARESConvencional Irrelugares Guerra Convencional Guerrilha Terrorismo Unidades Grandes (Exércitos, Divisões, Corpos) Médias (Esquadras, Pelotões, Companhia, Batalhões) Pequenas (Geralmente 10 pessoas) Armas e táticas Gama completa de equipamentos militares (aéreo, blindados, artilharia etc.) Geralmente armas de infantaria, mas também de Artilharia Granadas, armas de assalto, carros- bombas, bombas por controle remoto, sequestros, assassinatos, tomada de reféns etc. Alvos Unidades militares, infraestruturas industriais e de transporte Militares, polícia e segmentos administrativos do Estado, bem como opositores políticos Símbolos do Estado, opositores políticos ou público em geral Controle do território Sim Sim Não FONTE: Adaptado de Leal (2011) Leal (2011) aponta que as guerrilhas são adaptadas a situações particulares e possuem suas peculiarides e nuances (objetivos, estratégias/táticas, poderio bélico etc). A complexidade das operações de guerrilha e contraguerrilha exigem saberes, líderes experientes e a capacidade de operação de forma independente, considerando os diferentes níveis de comando. Para o autor, o apoio popular também é fundamental para o fortalecimento e/ou sustentação desses grupos. Entre os conflitos assimétricos, destaca-se a atuação de grupos considerados terroristas. Existem diferentes ataques orquestrados por estes grupos ao longo da história, mas sem dúvidas o de 11 de setembro de 2001, de autoria da Al Quaeda, liderada naquele momento por Osama Bin Laden, figura entre os mais importantes, pois redefiniu a geopolítica global no início do século XXI, sobretudo as ações políticas, econômicas e militares dos Estados Unidos, como citamos anteriormente ao nos referirmos a Iraque e Afeganistão. 177 FIGURA 3 – ATENTADO AO WORD TRADE CENTER, EM 11 DE SETEMBRO DE 2001 FONTE: <https://bit.ly/3Cxa1g4>. Acesso em: 1 fev. 2021. Como observamos no Quadro 1, grupos terroristas não possuem localização geográfica estrita, nem possuem como propósito o controle de áreas territoriais a priori. As disputas são em outro terreno, sobretudo político e ideológico. Essas características dificultam o combate a esses grupos através de práticas aplicadas a conflitos convencionais, assim, têm ganhado relevância estudos e investimentos em aparatos tecnológicos e informacionais como ferramentas centrais no combate ao terrorismo. O filme Snowden – Herói ou traidor apresenta o caso do ex-funcionário terceirizado da Agência de Segurança dos Estados Unidos, Edward Snowden, responsável pela divulgação a jornalistas de uma série de documentos sigilosos que comprovavam atos de espionagem praticados pelo governo norte-americano contra cidadãos comuns e lideranças internacionais. Os argumentos em defesa da legalidade da captação dos dados realizada pela agência e que trouxeram o debate a respeito de espionagem voltaram-se à chamada Guerra ao Terror e a necessidade de antecipar ataques terroristas. DICA É importante que você tenha percebido que os conflitos brevemente citados nesse tópico não são isolados. Conflitos irregulares e assimétricos podem ou não estar geograficamente delimitados, ainda que não possuam frentes de batalha, dada suas características, mas demostramos que os contextos históricos e os interesses geopolíticos das potências globais são determinantes para a eclosão desses conflitos e pela forma como se desenvolvem. 178 Assim, observar e analisar criticamente as diferentes regionalizações do mundo, considerando áreas de influência dos países centrais ou hegemônicos (econômica e militarmente) são elementos fundamentais na compreensão desses conflitos e nas consequências socioespaciais deles, como é o caso dos movimentos migratórios e de refugiados, tema que ocupa protagonismo no cenário internacional há vários anos. Concluímos, então, que esses conflitos constituem elementos integrantes da dinâmica do espaço geográfico, acarretando, inclusive, outras espacialidades e territorialidades no decorrer deles ou a partir de seu desfecho. 3 CONFLITOS IRREGULARES E ASSIMÉTRICOS CONTEMPORÂNEOS: CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS E CONJUNTURAS 3.1 CASO 1: AS GUERRILHAS COLOMBIANAS Dois movimentos revolucionários importantes surgiram na Colômbia dentro do contexto de Guerra Fria, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN). A primeira surgiu a partir de um levante camponês em 1964 e se transformou em uma organização de inspiração marxista-leninista, cujo propósito principal seria a reforma agrária; enquanto, o segundo também emergiu em 1964, inspirado na revolução cubana e na Teologia da Libertação (corrente cristã latino- americana voltada, entre outros temas, à defesa dos pobres e da reforma agrária). Ambos os movimentos (também caracterizados como guerrilhas) têm influência em setores urbanos, estudantis, sindicais e estão presentes em diferentes partes do território, como podemos verificar na Figura 5: FIGURA 4 – FARC E ELN NA COLÔMBIA FONTE: <https://istoe.com.br/eln-e-farc-as-duas-faces-da-guerrilha-na-colombia/>. Acesso em: 1 fev. 2022. https://istoe.com.br/eln-e-farc-as-duas-faces-da-guerrilha-na-colombia/ 179 Todavia, o momento político e as ações militares dessas guerrilhas são distintos. Enquanto houve avanços no acordo de paz entre governo colombiano e as FARC, os conflitos com o ELN seguem. Vejamos síntese da notícia a seguir: Acordo de paz da Colômbia com as Farc completa 5 anos. O que mudou? Em 24 de novembro de 2016, o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos assinava um histórico acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Meses depois, o feito renderia também a Santos o prestigiado prêmio Nobel da Paz, pelo fim de uma guerra civil de meio século entre o governo colombiano e a guerrilha. Fruto de quatro anos de negociações em Havana, Cuba, o acordo de 2016 ainda é considerado um marco na história recente da Colômbia, ao mesmo tempo em que trouxe uma série de decepções desde então. Os feitos e desafios pós-acordo são lembrados nesta quarta-feira, 24, aniversário oficial da assinatura. Dentre os eventos que marcarão a data, autoridades como o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, estão em território colombiano nesta semana para reuniões com políticos, vítimas das Farc e ex-membros da guerrilha, e para observar o andamento da implementação das promessas do acordo. Nesta terça-feira, 23, Guterres visitou uma das regiões de atuação das Farc, se encontrou com o presidente colombiano, Iván Duque (radicalmente contra o acordo implementado pelo antecessor), e com o último líder da guerrilha, Rodrigo Londoño "Timochenko". No geral, observadores internacionais apontam frentes positivas como o fim do conflito armado após mais de 50 anos e o reestabelecimento de parte dos guerrilheiros à sociedade. Cumprindo um dos pontos do acordo, parte dos membros remanescentes das Farc viraram um partido legalizado sob a condição de deixar para trás os episódios de violência – a legenda mudou de nome no ano passado, passando a se chamar Comunes. Também nesta semana, o governo dos EUA anunciou que está avaliando retirar o grupo da lista de terroristas do país. Em 2017, as Farc entregaram suas armas e, em 2019, elegeram seu primeiro prefeito. Apesar disso, não houve anistia irrestrita, e vários membros tanto das Farc quanto do Estado colombiano têm tido de comparecer à Justiça para prestar esclarecimentos por crimes passados cometidos na guerra. 180 Ausência do Estado Mas a data de hoje também deixa latente os desafios que ainda restam, sobretudo no direito à segurança da população rural colombiana. Em muitos lugares antes controlados pelas Farc, a retirada da guerrilha não foi suficiente para que o governo colombiano se fizesse presente nas regiões. "O vácuo de poder deixado pela desmobilização das Farc levou a disputas territoriais entre grupos armados novos e existentes",diz a Acnur, agência de refugiados da ONU, na descrição sobre os resultados do acordo. A Colômbia segue como um dos países do mundo com mais refugiados internos. Todos os meses, dezenas de civis e líderes comunitários ainda são mortos, feridos ou vítimas de sequestro devido à violência na Colômbia. Um dos desafios é uma melhor distribuição de terras para plantio em regiões rurais e apoio estatal para pequenos agricultores, pontos que eram presentes no acordo de modo a garantir que a economia de locais antes controlados pela guerrilha funcione sem atividades ilegais, como o fornecimento de cocaína. Com as promessas de ampliar o desenvolvimento das regiões afetadas não cumpridas, muitos ex-guerrilheiros também voltaram a pegar em armas, e o novo partido dos ex-Farc está longe de ser uma unanimidade. FONTE: <https://exame.com/mundo/acordo-colombia-farc-cinco-anos/>. Acesso em: 1º fev. 2022. Após a leitura da notícia, reflita sobre a relação entre o contexto histórico da década de 1960 e o surgimento de guerrilhas revolucionárias na Colômbia. Em seguida, pesquise sobre movimentos semelhantes em outros países da América do Sul, inclusive no Brasil. NOTA Considerando o contexto político de conversações de paz que culminaram no acordo de paz em 2016, notamos que os dados apresentados na Figura 6 demonstram queda importante no número de ataques terroristas na Colômbia, atingindo seu nível mais baixo em 2021: https://exame.com/mundo/acordo-colombia-farc-cinco-anos/ 181 FIGURA 5 – ATAQUES TERRORISTAS NA COLÔMBIA (2003-2021) FONTE: <https://www.blog.cerac.org.co/reporte-del-conflicto-con-el-eln-13>. Acesso em: 21 fev. 2022. Ainda em atividade, os eventos e/ou conflitos com a participação direta do ELN tem causado mortes nos últimos anos, considerando seus integrantes, civis e forças policiais (Figura 7): FIGURA 6 – MORTES DE CIVIS, FORÇA PÚBLICA E DE MEMBROS DO ELN EM ATAQUES COM PARTICIPAÇÃO DIRETA DA GUERRILHA FONTE: <https://www.blog.cerac.org.co/reporte-del-conflicto-con-el-eln-13>. Acesso em: 21 fev. 2022. Conflitos dessa natureza trazem impactos econômicos e sociais importantes. A insegurança econômica oriunda da insegurança pública traz prejuízos econômicos ao país, mas os conflitos também causam reflexos na questão migratória e no número de deslocamentos internos no país, bem como impacta no número de refugiados, outra categoria geográfica de deslocamento espacial. IMPORTANTE https://www.blog.cerac.org.co/reporte-del-conflicto-con-el-eln-13 https://www.blog.cerac.org.co/reporte-del-conflicto-con-el-eln-13 182 Sugerimos a leitura de: PINHEIRO, M. R. dos S. FARC – EP: meio século de insurgência na Colômbia. Que paz é possível? Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense, 2015. Disponível em: https://bit.ly/3KGya6N. Para finalizarmos as considerações a respeito de um dos conflitos irregulares mais duradouros do mundo, na Colômbia, assista à reportagem elaborada pelo Intercept Brasil, a respeito do acordo de paz citado nesse tópico e a posição atual das FARC e do ELN. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NQalEJknOEM. 3.2 CASO 2: HAMAS – ENTRE O TERRORISMO, GUERRILHA E AÇÃO POLÍTICA E DE CONTROLE DA FAIXA DE GAZA O Hamas é um dos principais grupos envolvidos em conflitos no período contemporâneo, com atuação focada na faixa de Gaza, umas das principais regiões de disputa no mundo. Para entender a origem do grupo, suas estratégias de ação e comunicação, bem como as pautas defendidas, é necessário retomar seus conhecimentos a respeito do conflito entre árabes e judeus antes, durante e depois (incluindo atualmente) da criação do Estado de Israel. Para isso, assistam a GIO DICA a seguir, retome e informe-se sobre a temática antes de avançar no tópico. DICA DICA Sugerimos as três partes de uma reportagem da BBC sobre o tema: Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=t7LVfD8Rd5g. Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=qpoNFyGdz5M. Parte 3: https://www.youtube.com/watch?v=-z9Z0jw4WFk. DICA https://www.youtube.com/watch?v=NQalEJknOEM https://www.youtube.com/watch?v=t7LVfD8Rd5g https://www.youtube.com/watch?v=qpoNFyGdz5M https://www.youtube.com/watch?v=-z9Z0jw4WFk 183 Considerado, atualmente, o maior grupo islâmico na Palestina, o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) foi fundado em 1987 e luta contra a existência do Estado de Israel, criado após a Segunda Guerra Mundial para abrigar os judeus perseguidos, oriundo de um movimento global conhecido como sionismo, que defendia a criação de um Estado Judeu na palestina. Após anos de controle político do território palestino pelo Fatah (Movimento de Libertação Nacional da Palestina), desgastados politicamente pelos fracassos nas negociações de paz e pelos dramas econômicos e sociais dos territórios árabes na palestina, o Hamas passou a controlar o parlamento, tornando-se a liderança política da Faixa de Gaza a partir de 2006: Em janeiro de 2006, o Hamas – ou Movimento de Resistência Islâmica – obteve êxito ao participar e vencer as eleições no Conselho Legislativo Palestino da Autoridade Palestina, tanto na Cisjordânia como na Faixa de Gaza, surpreendendo a comunidade internacional. Seu triunfo parecia ser inevitável, levando-se em conta o insucesso em findar a ocupação israelense na Palestina, o que provocou duas consequências: aumento da frustração e radicalismo em segmentos da sociedade palestina. Vale salientar também que tal vitória proporcionou três resultados: trouxe popularidade ao Hamas; impactou os palestinos que vivem em Israel, nos Estados Unidos da América, na Europa e nos países árabes; e fragilizou o Fatah (em árabe, haraka al-tahrir al-uatani al-filastini) – ou Movimento de Libertação Nacional da Palestina – o qual vinha governando os territórios palestinos por mais de 40 anos (CHAMMA, 2016, p.45). Ainda que suas ações políticas e militares estejam limitadas ao território palestino, o Hamas não pode ser colocado como um movimento local, o que implica novamente a provocação que fizemos ao falarmos sobre redes de conflitos mundiais, não isolando os conflitos irregulares e assimétricos de suas relações internacionais. De acordo com Kramer (2007, p. 61), a palavra “glocal” – destinada a explicar a combinação de global com local, e utilizada para caracterizar empresas, movimentos e organizações – “pode ser usada para definir o movimento Hamas, visto que retira a sua força motriz tanto da luta palestina como da ascensão global de movimentos islâmicos”. O Hamas também nutre afinidades com grupos e pessoas, fora da arena palestina, e procura transformar a ordem mundial existente desde a sua fundação (CHAMMA, 2016, p. 47-48). De acordo com a autora, o Hamas possui um braço armado (Figura 8) e outro político, sendo o primeiro hegemônico sobre o segundo. Vale ressaltar que o chamado braço político possui dentre suas atividades a filantropia e ações sociais junto às famílias da Faixa de Gaza e Cisjordânia, o que traz ao Hamas significativo apoio popular. Junto ao necessário financiamento para as ações armadas do movimento, essas conexões nos remetem ao conceito de rede, nesse caso, de apoio político, econômico, logístico, humanitário, entre outros. 184 FIGURA 7 – BRAÇO MILITAR DO HAMAS FONTE: <https://www.politize.com.br/hamas-conflito-palestina-israel/>. Acesso em: 1 fev. 2022. TERRORISMO OU RESISTÊNCIA? O Hamas é mais um exemplo de como a classificação terrorista é uma questão de perspectiva. Enquanto países como Estados Unidos, Canadá e Japão consideram o grupo uma organização terrorista pela sua recusa em renunciar à violência e reconhecer o Estado de Israel, nações como Qatar e Turquia enxergam o Hamas como um movimento legítimo de resistência. A União Europeia classificou o grupo como terrorista em 2003, após um ataque à Jerusalém que resultou na morte de centenas de civis israelenses. FONTE: <https://www.politize.com.br/hamas-conflito-palestina-israel/>. Acesso em: 1º fev. 2022. No âmbito da políticaexterna do Hamas, alguns relacionamentos merecem destaque: O Qatar aparece como um dos principais financiadores do Hamas, pois forneceu US$ 400 milhões, em 2012, e concedeu abrigo à Meshaal desde que este deixou a Síria. O país também apoia a Irmandade Muçulmana, o que causou diversas divergências com outros países, principalmente com o Egito. A Turquia também vem demonstrando simpatia para com o movimento. Recep Tayyip Erdogan, presidente turco, tem feito críticas ferozes com relação à ação militar de Israel na Faixa de Gaza, chegando a compará-lo com a Alemanha nazista. O Hamas também vem demonstrando esforço para se reaproximar do Irã e do Hezbollah, com os quais https://www.politize.com.br/hamas-conflito-palestina-israel/ https://www.politize.com.br/hamas-conflito-palestina-israel/ 185 passou por alguns momentos difíceis, devido à sua recusa em apoiar o governo Assad na guerra civil da Síria. Houve indícios de uma reaproximação com a Jordânia, a qual pretende retornar ao cenário político palestino mediando uma reconciliação entre as facções rivais palestinas (CHAMMA, 2016, p.46-47, grifo nosso). A seguir, podemos observar os territórios palestinos e israelenses (Figura 9). É importante destacar que mesmo se tratando de territórios palestinos, a presença militar hegemônica é a de Israel, o que inclusive dificulta as negociações de paz e, consequentemente, a criação de um Estado Palestino, tal como era o objetivo da Organização das Nações Unidas ao final da Segunda Guerra Mundial. FIGURA 8 – ISRAEL, CISJORDÂNIA E FAIXA DE GAZA FONTE: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57114157>. Acesso em: 21 fev. 2022. Para compreender a situação atual de ocupação e de disputa por território que envolve palestinos e israelenses, assista ao documentário “Um mundo de muros”, da Folha de São Paulo. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=3Pf9_bmFxBk&t=404s. DICA https://www.youtube.com/watch?v=3Pf9_bmFxBk&t=404s https://www.youtube.com/watch?v=3Pf9_bmFxBk&t=404s 186 Ao longo do texto, apontamos algumas características que colocam o Hamas como organização central em um dos principais conflitos irregulares no mundo. As diferentes justificativas para o conflito, seu caráter étnico, cultural, político, religioso e territorial, se equiparam a outros conflitos dessa natureza espalhados por diversas regiões do planeta. A discrepância entre o poder bélico nos conflitos irregulares (Figura 9) é um dos fatores que os torna assimétricos. O conceito de terrorismo e, consequentemente, a definição de terrorista, ainda que não estritamente definidos, nos remetem a ações radicalizadas e violentas com base em justificativas e objetivos diversos, considerando os contextos locais, regionais ou internacionais nos quais estão envolvidos. Desse modo, podemos encontrar grupos terroristas com objetivos distintos, mas com de ação comuns. Mesmo que o domínio territorial não seja uma premissa de movimentos terroristas, o controle de porções do espaço geográfico e de recursos naturais de viabilidade econômica podem auxiliar na estruturação e financiamento de grupos terroristas. Mercadorias como pedras preciosas, petróleo, drogas, entre outros, podem ser comercializadas com a finalidade de equipar militarmente o grupo. FIGURA 9 – MÍSSEIS ISRAELENSES (ESQUERDA) LANÇADOS PARA INTERCEPTAREM MÍSSEIS LANÇADOS PELO HAMAS FONTE: <https://glo.bo/3I6WdKl>. Acesso em: 1 fev. 2021. 187 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • As características das guerras convencionais, conflitos irregulares e assimétricos. • O papel do contexto histórico como elemento fundamental na compreensão da origem de conflitos irregulares e assimétricos, bem como de sua hegemonia no período da Guerra Fria e também no século XXI. • O papel exercido pelo terrorismo como parte e também fomentador da continuidade dos conflitos assimétricos no mundo. Além disso, tornou-se elemento de justificativa para novas formas de combate por parte do Estado a esses grupos, especialmente aquelas de caráter informacional (captação de dados, espionagem etc.). • Os exemplos das FARC e ELN na Colômbia, bem como do Hamas na Palestina, como movimentos envolvidos em dois dos principais conflitos irregulares do mundo. 188 1 A imagem a seguir apresenta o chamado “Domo de Ferro” de Israel, a estrutura militar que intercepta mísseis inimigos para que não atinjam território israelense. Após observá-la, reflita e escreva sobre o que ocorre quando é Israel lança mísseis nos territórios palestinos. AUTOATIVIDADE FONTE: <https://glo.bo/3I6WdKl>. Acesso em: 1 fev. 2022. 2 Observe a tirinha a seguir e reflita sobre a seguinte indagação: existe relação entre ação de guerrilhas e biomas que possuem como característica a densidade da vegetação? Em sua resposta, estabeleça relações com as guerrilhas colombianas que discutimos neste tópico. FONTE: <https://bit.ly/3CJeoEY>. Acesso em: 21 fev. 2022. 189 3 Diferente das guerras convencionais, nas quais se objetivam vitórias rápidas possivelmente materializadas pelas diferenças de poder bélico entre os Estados, nos conflitos irregulares ou assimétricos a intenção é exaurir o inimigo e desgastá-lo física e psicologicamente. O objetivo central é a imobilização operacional do adversário, algo fundamental para a vitória na guerra (LEAL, 2011). Nesses tipos de conflito não existem frentes de combate e o poder de fogo é menos relevante que a mobilidade. Não há necessidade real de ocupar, controlar e manter um determinado território. Com base no entendimento sobre as características dos conflitos irregulares e assimétricos em curso atualmente, pesquise sobre quais estão em curso atualmente, em seguida, escolha um deles para realizar este exercício. Após escolher o conflito que lhe interessou, preencha o que se pede a seguir: Conflito escolhido: País: Ano de início: Atores envolvidos Motivações dos atores não estatais Recursos em disputa Há terceiros atores? Quais? Impactos econômicos, sociais e políticos 190 4 Existem diferentes grupos terroristas em atuação no mundo, que exercem suas atividades em regiões também distintas. Sobre qual deles assumiu o ataque de 11 de setembro, nos Estados Unidos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Al-Qaeda. b) ( ) Estado Islâmico. c) ( ) Boko Haram. d) ( ) ETA (Pátria Basca e Liberdade). 5 Leia o trecho a seguir: As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) surgiram no mesmo período. A primeira a partir de um levante camponês, transformando-se em uma organização de inspiração marxista-leninista, cujo propósito principal seria a reforma agrária; enquanto o ELN foi inspirado na revolução cubana e na Teologia da Libertação. Considerando o contexto histórico do surgimento das FARC e do ELN, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Surge na década de 1950, após o final da Segunda Guerra mundial, no qual havia o anseio de movimentos populares em superar as desigualdades sociais e os prejuízos causados pelo conflito. b) ( ) Surge na década de 1960, no contexto de Guerra Fria e de conflito ideológico entre capitalismo e socialismo, mas também ligado a revoluções em curso no mundo, sobretudo a cubana. c) ( ) Surge na década de 1980, no contexto de crise fiscal dos Estados nacionais, cuja consequência foi o declínio dos indicadores de qualidade de vida, bem como a queda do poder de compra das famílias, culminando em cenários de insatisfação que alimentaram grupos guerrilheiros. d) ( ) Surge na década de 1990, no momento de hegemonia do capitalismo global com a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 191 OS FLUXOS FINANCEIROS GLOBAIS E A EMERGÊNCIA DAS CRIPTOMOEDAS: POSSIBILIDADES E DESAFIOS 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, por meio de uma abordagem teórico-empírica, estudaremos questões que permeiam o termo fluxos financeiros globais, como as redes e a relação entreestas e os territórios, bem como, em particularidade, as possibilidades e os desafios decorrentes das operações com criptomoedas. Delas, buscamos demonstrar, também, a expansão e a concentração geográfica global, pensando no tema ainda como em desbravamento, pelos recentes estudos e busca de aprofundamento em curso. Por fim, cabe destacar que os exemplos são de eventos reais, mas que se transformam a todo momento, pois os próprios fluxos são dinâmicos e muitas vezes incertos, já que apresentam intensos movimentos. UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 2 ENTRE TERRITÓRIOS E REDES: OS FLUXOS FINANCEIROS GLOBAIS O espaço geográfico é formado e delimitado por vários conceitos de análises, como as de lugar, paisagem, ambiente, território, redes etc. Em termos de fluxos, constrói-se e articula-se a partir dessas últimas, visto serem formadas por um conjunto de linhas conectadas por meio dos pontos e/ou fixos, os nós dos territórios. As redes são formadas, também, por variados tipos e subtipos, com níveis de abrangência e necessidades de conexões diferentes uns dos outros. Apontamos como exemplos, no sentido de contribuir para a identificação delas, as redes de transportes, as redes técnicas, as redes digitais, as redes urbanas, as redes sociais, as redes financeiras, dentre outras. Portanto, ao estudarmos as redes, estamos abordando um conceito amplo, mas ao mesmo tempo específico quando apropriado como conceito, ou seja, quando identificado a partir dos diferentes fluxos da realidade. Assim, as redes geográficas relacionam-se a um conjunto de locais da superfície terrestre (territórios) interligados entre si por conexões que podem ser materiais e imateriais, além de envolver fluxos de informações, pessoas, mercadorias, financeiros, conhecimentos e outros. 192 Para a compreensão das redes como elementos que, apesar de serem forma- das por linhas, reais ou imaginárias, possuem pontos fixos nos territórios, cabe conver- sarmos um pouco sobre as transformações pelas quais as técnicas e as tecnologias passaram, já que são exatamente os investimentos em ciência de ponta, ao longo do tempo histórico, que permitiram o avanço – diga-se, a aceleração – das conexões em redes ou seus fluxos. Foram as transformações propiciadas e resultantes do meio técnico-científico que promoveram o uso, cada vez maior, no decorrer do século XX, dos diferentes tipos de redes e de suas vinculações a determinados territórios (SILVA, 2005). Desse modo, diferentes realidades, sejam grandes ou pequenas cidades ou continentes distantes, passaram a ter a oportunidade de se interligarem e, com isso, possibilitar o fluxo de pessoas, mercadorias e recursos em velocidade cada vez mais acelerada. Para que isso aconteça, no entanto, faz-se necessária a relação entre o homem e a natureza ou o homem e o meio, por meio da técnica, em um processo chamado por Milton Santos de mecanização do território: É por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. Essa forma de ver a técnica não é, todavia, completamente explorada (SANTOS, 1996, p. 29). A partir do avanço das informações, em complementaridade à consolidação do meio técnico-científico, outro fundamento permitiu a presença de fluxos em redes instantâneas, além de outros avanços, qual seja, o que Santos (1996) denominou de meio técnico-científico-informacional. O que sempre se criou a partir da fusão [do meio geográfico e do meio técnico] é um meio geográfico, um meio que viveu milênios como meio natural ou pré-técnico, um meio ao qual se chamou de meio técnico ou maquínico durante dois a três séculos, e que hoje estamos propondo considerar como meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 1996, p. 41). Nessa nova modalidade de ampliação das conexões, posterior à mecanização do território, inseriu-se o meio informacional, possibilitando a troca de informações em quase instantaneidade. Por isso é “[...] que estamos considerando o espaço geográfico do mundo atual como um meio técnico-científico-informacional” (SANTOS, 1996, p. 240), que permite ainda estar presente em diferentes lugares ao mesmo tempo, mesmo que virtualmente. Com relação aos fluxos como conjunto de movimentos decorrentes do pro- cesso de globalização, ou seja, da interconexão entre as diferentes partes do mundo que permite a circulação – nem sempre livre – de elementos econômicos, informa- ções e pessoas, estes podem ser considerados como a materialização da globalização no espaço geográfico, embora desigual e hierárquica. 193 FIGURA 10 – THE EXPANDING NETWORK OF GLOBAL FLOWS FONTE: <https://bit.ly/368WfUH>. Acesso em: 1 fev. 2022. Já os fluxos econômico-financeiros podem ser definidos como o deslocamento de capitais, empresas, mercadorias, finanças e investimentos nas mais diferentes esca- las globais, decorrentes dos avanços proporcionados no âmbito dos meios de transporte e comunicação e, consequentemente, da informação. No estágio capitalista da globali- zação está a financeirização, ou seja, os intensos fluxos de capitais nos mercados finan- ceiros, em bolsas de valores, fundos de investimentos, derivativos, criptomoedas etc. Assim, não há dúvidas de que os principais fluxos que acontecem no âmbito atual do capitalismo financeiro são os de capitais, como os “capitais especulativos” (títulos, juros de dívidas públicas e privadas, ações e outros) e as criptomoedas. Isso não seria um problema se a ausência de investimentos na produção não levasse a prejuízos em termos das economias nacionais e internacional. Diversos autores afirmam que tanto a crise financeira internacional dos anos de 2007 e 2008, impulsionada pela globalização em seu estágio técnico-científico- informacional, quanto à desregulamentação financeira, conduziram à instabilidade do valor das moedas em escala planetária, gerando um grande movimento de insegurança econômica. Os fluxos globais, em seus diversos sentidos, têm sido um fio condutor comum no crescimento econômico há séculos, desde os dias da Rota da Seda, passando pelos períodos mercantilista e colonial e pela Revolução Industrial. Mais recentemente, no entanto, o movimento de bens, serviços, finanças e pessoas atingiu níveis antes inimagináveis. Os fluxos globais estão criando novos graus de conexão entre as economias – e desempenhando um papel cada vez maior na determinação do destino de nações, empresas e indivíduos. 194 As tecnologias digitais permitem que até mesmo a menor empresa ou empreendedor solo sejam uma “micromultinacional”, vendendo e adquirindo produtos, serviços e ideias além das fronteiras. Os indivíduos podem trabalhar remotamente por meio de plataformas on-line, criando um fluxo virtual de pessoas. As plataformas de microfinanças permitem que empreendedores e inovadores sociais levantem dinheiro globalmente em quantias cada vez menores. FONTE: <https://mck.co/3hYEdan>. Acesso em: 1 fev. 2022. NOTA No interior desse processo e intensificado pelo meio técnico-científico e informacional, os fluxos financeiros têm se destacado justamente pela sua disseminação em todo o planeta e pela consequente demanda por inovações tecnológicas, especialmente as digitais e comunicacionais, que também ganharam relevância e intensidade com a pandemia de COVID-19. Quando falamos em fluxos globais, de toda e quaisquer natureza, estamos nos reportando, geograficamente, ao processo de globalização. Segundo Chesnais (1996), o sistema financeiro é o campo mais avançado da mundialização. Esta é a terminologia utilizada por alguns autores para designar a globalização. De maneira mais rigorosa, refere-se à globalização financeira ou, em outras palavras, “[...] a integração dos mercados [...] como consequência das políticas de liberalização e do desenvolvimento das novas tecnologiasda informação e da comunicação; é também a intensificação dos fluxos de investimento e de capital na escala planetária” (BENKO, 1996, p. 45). Neste sentido, como afirmam Tyson e Lund (2016), a globalização está entrando em uma nova era, definida não apenas por fluxos transfronteiriços de bens, pessoas e capitais, mas também, e cada vez mais, por fluxos de dados e informações. As autoras afirmam, ainda, que a globalização digital atua diretamente em pontos muito fortes e em constante aperfeiçoamento, ou seja, a tecnologia e a inovação. Esses fluxos, ainda de acordo com Tyson e Lund (2016), estão desproporcional- mente concentrados entre um pequeno conjunto de países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Cingapura. A China é a única economia emergente a figurar entre as dez primeiras do índice. Apesar desses dados, os fluxos digitais oferecem, também aos países em desenvolvimento, novas maneiras de engajar-se na economia digital do mundo globalizado, não mais em razão de seu potencial produtivo especificamente, mas a partir de seus fluxos financeiros. Assim, as empresas sediadas em países em desenvolvimento podem superar as restrições do mercado nacional e se conectar com clientes, fornecedores, financiadores e outros em todo o mundo (TYSON; LUND, 2016). 195 Apesar das informações apresentadas por Tyson e Lund (2016), as autoras, em artigo de 2017, são enfáticas em afirmar que, mesmo o processo de globalização colocando os países em desenvolvimento, conforme dados apresentados, em certo equilíbrio nos fluxos comerciais e financeiros mundiais, sendo, inclusive, responsável por certa redução dos índices de desigualdade entre os países, ela, por outro lado, agravou a desigualdade de renda no interior deles. De 1998 a 2008, a classe média nas economias avançadas não experimentou crescimento de renda algum, enquanto a renda aumentou quase 70% para aqueles no topo da distribuição de renda global. Os maiores ganhadores nos Estados Unidos, responsáveis por metade do 1% do mundo, colheram uma parcela significativa dos benefícios da globalização, em especial como resultado de fluxos do comércio mundial e financeiros. Mais recentemente, estes dados são ainda mais expressivos. FIGURA 11 – A CONCENTRAÇÃO EXTREMA DE CAPITAL: DESIGUALDADE DE RIQUEZA NO MUNDO (2021) FONTE: <https://outraspalavras.net/desigualdades-mundo/novo-mapa-da-desigualdade-global/>. Acesso em: 1 fev. 2022. No gráfico, é possível extrair informações que corroboram com as consequ- ências do processo de globalização em sua fase digital, comercial e financeirizada na produção de desigualdades mundiais. Observa-se, assim, que na Europa, os 10% mais ricos possuem 58% da riqueza total, contra 38% dos 40% intermediários e 4% dos 50% mais pobres. Já na América Latina, os 10% mais ricos possuem 77% da riqueza total, contra 22% para os 40% intermediários e 1% para os 50% mais pobres. Como finalização desse momento explicativo sobre os fluxos globais estabele- cidos pelas conexões em redes, vale a pena refletir, avaliar e escrever suas impressões daí decorrentes a partir da seguinte afirmação: http://www.mckinsey.com/global-themes/employment-and-growth/poorer-than-their-parents-a-new-perspective-on-income-inequality http://www.mckinsey.com/global-themes/employment-and-growth/poorer-than-their-parents-a-new-perspective-on-income-inequality http://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674737136 196 Os 10% mais ricos capturam 78% da riqueza mundial. Restam, à metade da população, 2%. Distorções devastam sociedades e planetas. Há alternativas: impostos redistributivos e políticas sociais potentes, pois a desigualdade é uma escolha política, não uma inevitabilidade. 3 OS FLUXOS FINANCEIROS E A EXPANSÃO/ CONCENTRAÇÃO GEOGRÁFICA GLOBAL DE OPERAÇÕES COM CRIPTOMOEDAS Paralelamente à crise de 2008, surgiram outros movimentos de ordens diversas, como geopolíticos, culturais e sociais, que aceleraram o aprofundamento científico e empírico da inovação tecnológica, em especial da denominada cadeia de blocos ou blockchain: a bitcoin ou Banco de Títulos CBLC (BTC). Criado em 2008 por Satoshi Nakamoto e em funcionamento desde 2009, a BTC é uma criptomoeda concebida como uma forma criptografada de dinheiro capaz de subverter ou transgredir a regulamentação jurídica de Estados e agentes financeiros globais territorializados. Em termos mais amplos e de vinculação ao mercado financeiro, criptomoedas são: [...] uma espécie de criptoativo [...] com o objetivo de se tornarem uma alternativa às moedas tradicionais (por isso também são chamadas de moedas digitais ou moedas virtuais). Não há nenhum tipo de "lastro" oficial para as criptomoedas - ou seja, elas não são relacionadas ao papel moeda, como o dólar, o euro ou o real, e nem a nenhum outro tipo de ativo, como o ouro. Por serem independentes e digitais, as criptomoedas são registradas de forma descentralizada, com operações realizadas e armazenadas sem barreiras geográficas. Usuários de diferentes países conseguem transacionar livremente esses ativos. Como não há nenhum banco central responsável pela emissão ou controle de criptoativos, elas não estão sujeitas a nenhum tipo de regulação oficial. Toda a estrutura de transações é baseada em uma rede de computadores independente de instituições estatais. O criptoativo mais conhecido é a bitcoin, mas existem hoje cerca de 5.000 deles (EXAME INVEST, 2021, s.p.). Como explica o próprio criador (NAKAMOTO, 2008), o sistema de bitcoin é um sistema de pagamento eletrônico baseado em garantia de criptografia, o que permite quaisquer duas partes dispostas a transacionar, diretamente, fazê-lo sem uma outra parte ou intermediário. Ainda segundo o autor, a BTC foi desenvolvida a partir de uma rede de computadores descentralizada, configurada por pontos de articulação interconectados, via Peer-to-Peer (P2P), ou seja, a partir de redes de fluxos validadas por algoritmos. O sistema é formado, então, por redes de computadores independentes, isto é, cada um deles funciona tanto como cliente quanto como servidor, permitindo compartilhamentos de serviços e dados sem a necessidade de um servidor central. 197 Esse tipo de arquitetura de rede, de acordo com Henrique (2018), tem auferido destaque pelo compartilhamento de arquivos, mas também é utilizada em outras áreas como universidades, pesquisas científicas e telecomunicações, por exemplo. Os registros dos dados transacionados na rede P2P são operados em uma cadeia e blocos de algoritmos, que realiza o processamento dos dados por meio de criptografia. Agner (s.d., p. 5) conceitua as bitcoins como: [...] a união de tecnologias e abstrações que possibilitam que o consenso entre atores não necessariamente conhecidos possa ser alcançado de forma descentralizada sem que a confiança tenha que ser depositada em um ponto de controle central ou que a segurança rede esteja sujeita à um único ponto de falha. Estas tecnologias em conjunto formam as bases para a existência de uma moeda digital descentralizada e para qualquer outro caso de uso que possamos abstrair para um modelo baseado em consenso – como contratos – de forma independente de autoridades centrais como bancos ou governos. Agner (s.d., p. 5) complementa, ainda, que “[...] o mesmo termo “Bitcoin” com “B” maiúsculo é comumente utilizado para designar a tecnologia como um todo, a rede P2P Bitcoin ou o protocolo Bitcoin enquanto bitcoin(s) com “b” minúsculo é utilizado para designar a unidade de conta usada na rede”. No mais, bitcoins são moedas digitais descentralizadas, ou seja, que não são controladas por órgãos ou países em específico, sendo criadas em uma rede blockchain, ou seja, uma rede que é a responsável por armazenar com segurança os mais diversos tipos de informações, a exemplo das transações financeiras, dos registros e dos dados de pessoas que participam dessas transações. O valor nominal da bitcoin é determinado pelo mercado, uma vez que é a modalidade