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ESPAÇO, SOCIEDADE E NATUREZA AULA 2 Prof.ª Rafaela Pacheco Dalbem 2 CONVERSA INICIAL Seguindo a organização informada na etapa anterior, hoje vamos explorar uma categoria de análise essencial para o entendimento espacial: região. Vamos discutir como o conceito de região evoluiu ao longo do tempo e de que maneira a comunidade científica utiliza essa categoria, seja em estudos da geografia humana ou da geografia física. Ao longo desta etapa, faremos um percurso que vai desde as concepções mais tradicionais até as abordagens mais contemporâneas. Você já deve ter ouvido falar em regiões administrativas, culturais ou econômicas. Mas fica a pergunta: essas divisões são naturais? Ou seriam resultado de escolhas feitas pela sociedade? Inicialmente, as regiões eram classificadas por critérios como clima ou vegetação. Contudo, à medida que avançamos no estudo da Geografia, percebemos que as análises sobre essas regiões começam a ter interpretações sociais e políticas. Ou seja, as regiões não são apenas áreas com características físicas semelhantes, mas áreas que refletem a história, as relações de poder e as necessidades de cada sociedade. Depois, vamos entender o que significa regionalizar. A regionalização é um modo de pensar geograficamente o espaço. É uma ferramenta poderosa utilizada para organizar o espaço e, muitas vezes, serve a propósitos econômicos e políticos. Vamos analisar exemplos concretos, como a divisão regional feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e ver como essas divisões influenciam o modo como os recursos naturais são utilizados e como as dinâmicas sociais se estabelecem. Será que essas regionalizações beneficiam todas as partes da sociedade igualmente? A seguir, vamos ver como o conceito de região aparece nas pesquisas acadêmicas. Muitos estudos sobre desenvolvimento sustentável, economia regional e desigualdades sociais usam a noção de região como ponto de partida para entender as relações entre sociedade e espaço. Veremos alguns exemplos de trabalhos que mostram como essas divisões ajudam a entender as diferenças entre áreas mais desenvolvidas e aquelas que enfrentam desafios maiores. Isso também nos ajuda a refletir sobre como a apropriação do espaço pode ocorrer de maneiras desiguais. Além disso, vamos refletir sobre como o conceito de região é tratado na escola, especificamente no ensino de Geografia. Sabemos que é por meio do 3 estudo de sua própria região que muitos alunos começam a entender questões locais e globais. Vamos refletir sobre o modo como os livros didáticos abordam esse tema e se eles ajudam a formar uma visão crítica a respeito do espaço em que vivemos. Existe uma maneira de ensinar “região” que vá além da simples divisão física? Vamos ver juntos! Por fim, vamos falar sobre a aplicação do conceito de região no bacharelado e no mercado de trabalho. Profissionais que atuam com planejamento urbano, políticas públicas e desenvolvimento regional precisam compreender profundamente como as regiões são formadas e transformadas. Vamos discutir como o conhecimento sobre regionalização pode ser uma ferramenta prática para lidar com desafios como urbanização, sustentabilidade e a gestão de territórios. Esse é o momento em que conectamos a teoria com a prática. • Compreender a noção de região e o ato de regionalizar. • Discutir o processo de regionalização com foco no contexto brasileiro. • Analisar a importância do conceito de região nas práticas profissionais de uma pessoa formada em Geografia, seja na licenciatura ou no bacharelado. TEMA 1 – VISÕES DE REGIÃO Uma coisa que gostaríamos de dizer, já no início deste tema, é que concordamos com o professor doutor Paulo Cesar da Costa Gomes (Gomes, 1995, p. 59-60) quando ele diz que “a região é um produto mental, uma forma de ver o espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização diferenciada do espaço”. No entanto, há inúmeras formas de utilizar a categoria de região, inclusive associadas a outros conceitos. A professora doutora Maria Laura da Silveira (citada por Contel, 2015, p. 456), por exemplo, coloca que “a região pode ser compreendida como um tecido contínuo e heterogêneo de modernidades e formas herdadas, materiais e imateriais, que constituem horizontalidades”. O professor doutor Fabio Betioli Contel (Contel, 2015, p. 456) ressalta ainda que esses conceitos de horizontalidades e verticalidades, apresentados pelo professor doutor Milton Santos, são uma forma de olhar e compreender as regiões no mundo contemporâneo e nos ajudam a formar uma nova ordem mental. Para o autor (Santos citado por Contel, 2015, p. 456) as horizontalidades dizem respeito às 4 relações internas de uma região e as verticalidades refletem as influências externas, como normas globais e fluxos econômicos. Em termos de regiões ou regionalização oficiais, uma das mais divulgadas no Brasil é a do IBGE, inicialmente proposta em 1970 e atualizada em 1990, acompanhando as mudanças nas unidades federativas. Essa regionalização divide o Brasil em cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Essa proposta buscou agrupar semelhanças históricas, sociais, econômicas e naturais que apresentavam, respeitando seus limites político-administrativos. Com base nestas divisões, os governos na época criaram as superintendências de desenvolvimento regional (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – Sudene; Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia – Sudam; Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste – Sudeco; e Superintendência do Desenvolvimento da Região Sul – Sudesul). (Boscariol, 2017, p. 189) No entanto, essa divisão reflete uma visão simplificada do espaço brasileiro, pois, em muitas situações, não consegue captar a complexidade de cada região em seus detalhes socioeconômicos e ecológicos. Para além dessa regionalização administrativa, a obra de Aziz Ab'Sáber (Ab'Sáber, 2007) oferece uma abordagem profundamente inovadora. Ab'Sáber, um dos geógrafos mais renomados do Brasil, desenvolveu o conceito de domínios morfoclimáticos, que leva em consideração os fatores físicos e ecológicos para a delimitação das regiões. Em seu mapa, ele propôs seis grandes domínios naturais no Brasil: Amazônico, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Araucária e Pradarias. Ao contrário da classificação do IBGE, que se baseia em critérios econômicos e populacionais, a regionalização de Ab'Sáber foca a interação entre clima, relevo e vegetação. Essa abordagem proporciona uma visão mais completa do território brasileiro, destacando as características físicas que moldam as paisagens e os ecossistemas do país. Para encerrar esta seção sobre as diferentes visões de região, é importante destacar que nos próximos temas – “Afinal, o que é regionalizar?” e “Região e geografia física” – aprofundaremos tanto a perspectiva mais humana quanto a física do conceito de região. Isso nos permitirá compreender de forma mais ampla suas múltiplas aplicações, desde a organização territorial e social até os elementos naturais que configuram o espaço. Essas abordagens complementares nos ajudarão a entender como a regionalização pode ser um instrumento de análise relevante tanto para estudos sociais quanto ecológicos. 5 TEMA 2 – AFINAL, O QUE É REGIONALIZAR? Neste tópico, nossa intenção é discutir o processo de regionalização, destacando como esse processo é utilizado para organizar o espaço geográfico, tanto em políticas públicas quanto em análises acadêmicas. Já abordamos a ideia antes, mas gostaríamos de retomar a noção de que regionalizar é uma forma de organizar o espaço geográfico com base em critérios que dividem territórios em áreas menores chamadas de regiões. Essas divisões podem ser feitas de diferentes formas e essas formas dependem dosobjetivos e dos critérios utilizados. No contexto geográfico, a regionalização busca identificar características comuns a determinados espaços para agrupá-los em categorias que ajudem a compreender sua dinâmica interna e suas relações com o todo. É importante aqui lembrar que esses critérios em comum farão com que outros critérios sejam generalizados. O geógrafo Paulo César da Costa Gomes reforça essa ideia com a ideia que já trouxemos anteriormente: “a região é um produto mental, uma forma de ver o espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização diferenciada do espaço” (Gomes, 1995, p. 59-60). Ou seja, a regionalização revela tanto uma interpretação espacial quanto uma construção social moldada por fatores históricos e políticos. O aspecto histórico remete-nos à ideia de que a regionalização, além de técnica, é também um processo social. A maneira como regiões são delimitadas revela relações de poder, seja no passado, com o controle exercido por Roma que citamos anteriormente, seja hoje, com a divisão administrativa de territórios por Estados modernos. No Brasil, por exemplo, a divisão regional utilizada pelo IBGE reflete questões econômicas e culturais, mas também interesses políticos e disputas de poder, como indicado pela geógrafa Rita de Cássia Ariza da Cruz em seu texto Ensaio sobre a relação entre desenvolvimento geográfico desigual e regionalização do espaço brasileiro (Cruz, 2020). Assim, regionalizar não é apenas identificar características geográficas. É, antes de tudo, tomar decisões sobre o que deve ser incluído ou excluído de uma área, com implicações diretas na vida das pessoas que nela habitam. O artigo supracitado faz uma proposta de regionalização para o Brasil em sete Brasis (Cruz, 2020, p. 44) (Figura 1). 6 Figura 1 – Síntese da divisão regional do Brasil Crédito: João Miguel. Ao explicar suas regiões, a autora aponta que adotou faixas de transição nessa interpretação de Brasil. Afirma que “ao tratar de aspectos socio-histórico- econômicos, a passagem de uma região para outra também é raramente abrupta, sobretudo quando lidamos com a escala macrorregional” (Cruz, 2020, p. 45). Com isso em mente, a autora coloca: Concluímos, desse modo, não existirem “dois ou quatro Brasis”, mas sete grandes regiões, que são fragmentos de um espaço total, uma totalidade aberta, una e contraditória em movimento, entre as quais três regiões de transição que amalgamam características das grandes regiões com as quais fazem fronteira sem identificar-se integralmente, conforme critérios adotados, com uma ou com outra. (Cruz, 2020, p. 45) Olhando diretamente para o mapa proposto por Cruz, o que ela quer dizer é que as regiões Amazônia Ocidental, Arco Centro-Norte, Região Su-Sul e Arco Atlântico conseguem destacar-se de maneira individual através dos aspectos sócio-histórico e econômicos definidos pela autora. Por outro lado, as regiões Amazônia Oriental, Centro-Nordeste e Centro-Atlântica acabam agregando características de pelo menos duas regiões e, por isso, serão denominadas regiões de transição. 7 O artigo ainda traz um resgate das propostas acadêmicas de crítica e contraposição à regionalização apresentada pelo IBGE em 1970 (Cruz, 2020, p. 31) (Figura 2). Figura 2 – Regionalização do espaço brasileiro Crédito: João Miguel. De forma resumida e citando a autora, essas propostas que antecederam à sua regionalização de sete Brasis foram organizadas da seguinte forma: Pouco mais de uma década depois, em 1964, Pedro Pinchas Geiger (1922-) definiu três regiões geoeconômicas, baseando-se na história da formação territorial e “nos efeitos da industrialização” no território brasileiro. Fundado na noção de divisão territorial do trabalho (DTT), Roberto Lobato Corrêa (1939-) identificou, em sua proposta de regionalização de 1989, o que ele chamou de “três Brasis” (bastante semelhante à regionalização de Geiger, com a diferença de haver optado por respeitar os limites estaduais) (Corrêa, 1989). Em 1999, Milton Santos (1926-2001) propôs a existência de “quatro Brasis”, levando em conta a geografização do meio técnico-científico-informacional pelas diferentes regiões brasileiras definidas pelo IBGE (Santos; Silveira, 2001). Por fim, em 2004, Ruy Moreira (1941-) identificou “tendências de regionalização” 8 relativas à DTT e o fez rompendo com os paradigmas das propostas anteriores, desrespeitando limites estaduais, sobrepondo regiões e definindo regiões não contíguas. (Cruz, 2020, p. 30) A apresentação desse artigo tem o intuito de construir um repertório de experiências de regionalização do Brasil pensando através de critérios históricos, culturais e econômicos. A contraposição à regionalização do IBGE surge na intenção de exercitar o pensamento regional e de apresentar trabalhos da academia que se propuseram a análises mais complexas das realidades regionais brasileiras. Como Gomes (1995) sugere, o surgimento de regiões é uma resposta às necessidades de organização e controle, especialmente em contextos de diversidade espacial. Ao regionalizar, interpretamos o espaço com base em diferentes propósitos, o que nos permite identificar tanto as particularidades de um lugar quanto suas interações com o todo. Além disso, é importante reconhecer que a regionalização afeta diretamente a formulação de políticas públicas. Quando governos criam regiões administrativas, por exemplo, estão estabelecendo prioridades e focos de ação que influenciam a alocação de recursos e a execução de projetos sociais. A divisão regional (territorial), portanto, não é neutra; ela favorece certos interesses e grupos. Ao compreendermos isso, ganhamos uma visão crítica das divisões regionais e suas consequências para o desenvolvimento econômico, social e cultural das regiões. Portanto, regionalizar é uma prática fundamental para compreender a organização do espaço, suas dinâmicas e suas desigualdades. Como um conceito que evoluiu ao longo da história e que continua a moldar a forma como nos relacionamos com o território, a regionalização é uma ferramenta poderosa de análise geográfica e de planejamento, mas também exige uma visão crítica sobre os processos de dominação e transformação que a acompanham. TEMA 3 – REGIÃO E GEOGRAFIA FÍSICA A discussão sobre a categoria de região é fundamental para a Geografia e remonta a diversas teorias e abordagens, que buscam compreender a maneira como o espaço é organizado e dividido. Um dos primeiros pensadores a tratar da questão da região foi o geógrafo francês Vidal de la Blache, para quem a região possui uma dimensão concreta e palpável. Como ele afirmou, a “região é uma realidade concreta, física, ela existe como um quadro de referência para a população que aí vive. [...] O método recomendado é a descrição, pois só através 9 dela é possível penetrar na complexa dinâmica que estrutura este espaço” (Vidal de la Blache citado por Gomes, 1995, p. 57, grifo nosso). Essa visão revela a importância de observar o espaço de maneira empírica, buscando entender a complexidade que caracteriza a vida e a interação dos fenômenos regionais, mas tendo um método para tratar essa observação. Essa questão metodológica é imprescindível na pesquisa acadêmica. Quando apresentamos o trabalho de Cruz (2020) em sete Brasis, ressaltamos que a autora defendeu a existência de faixas de transição. Essas faixas de transição são uma referência aos trabalhos de Moacir Silva e Ab’Sáber. Nesta parte do texto, gostaríamos de apresentar a regionalização de Ab’Sáber para analisarmos uma proposta que parte de elementos físicos. A importância do trabalho de Ab’Sáber reside no fato de que seu estudo vai além da descrição das paisagens, oferecendo uma leitura integrada do ambiente natural (Figura 3), crucial para a gestão dos recursos e o planejamento territorial. Ao se compreenderas interações entre os fatores naturais, como o solo, o clima e a vegetação, torna-se possível planejar o uso sustentável dos recursos de cada região, levando em conta suas particularidades e limitações. Com base nessa visão, podemos pensar em estratégias mais eficazes para a conservação ambiental e o desenvolvimento de políticas públicas que respeitem as especificidades dos diferentes domínios naturais brasileiros, contribuindo para um planejamento territorial mais equilibrado e sustentável. Após anos de viagens e análise de dados cartográficos e ambientais, Ab'Sáber propôs uma nova forma de olhar para o Brasil, por meio dos chamados domínios morfoclimáticos. Esses domínios representam uma síntese de informações sistematizadas sobre grandes áreas naturais do país, a saber: Amazônico; Cerrado; Mares de morros; Caatingas; Araucárias; Pradarias; Faixas de transição. 10 Figura 3 – Domínios morfoclimáticos brasileiros (áreas nucleares – 1965) – 2007 Crédito: João Miguel. Todos os artigos que falam dos domínios estão hoje organizados no livro intitulado Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas (Ab'Sáber, 2007), considerado uma literatura básica da geografia física no Brasil. Na abertura dessa obra, o autor coloca no primeiro parágrafo: Todos os que se iniciam no conhecimento das ciências da natureza – mais cedo ou mais tarde, por um caminho ou por outro – atingem a ideia de que a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todos os sentidos da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades. (Ab’Sáber 2007, p. 9) Nesse momento o autor, embora apresente uma organização regional que privilegie as questões físicas, não deixa de se posicionar ao explicitar como essa regionalização deveria ser olhada: “uma herança” e “patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades”. Como vamos cuidar dessas heranças, que têm relação com a vegetação, com a água, com o relevo? 11 TEMA 4 – REGIÃO NA ESCOLA Ao longo desta etapa, exploramos o desenvolvimento da categoria de região no contexto acadêmico geográfico, desde as ideias de Vidal de La Blache até as interpretações mais recentes aplicadas ao território brasileiro. Isso é trabalhado na escola? Sim, principalmente por meio da regionalização do IBGE (geografia humana) e de Ab’Sáber (geografia física). Essas abordagens aparecem no estudo da geografia do Brasil e na apresentação de grandes organizações espaciais mundiais, como mapas de clima, biomas e níveis de desenvolvimento. A Geografia na educação básica tem grande potencial para ajudar na leitura de mundo, e as atividades de regionalização podem desempenhar um papel crucial na compreensão das interações complexas entre os aspectos físicos e humanos do espaço. Apresentar a região como um polígono que delimita áreas com características comuns – sejam físicas, culturais, econômicas ou políticas – permite que os estudantes desenvolvam uma visão contextualizada das diferentes partes do mundo e suas particularidades. Além disso, o ensino da região pode (ou deve) enfatizar a interconexão entre características físicas e humanas, como a influência dos fatores econômicos e políticos na formação e na dinâmica das regiões. Por exemplo, a análise de regiões econômicas, como áreas industriais ou agrícolas, revela como a atividade econômica molda a paisagem e afeta a vida das pessoas. Essa abordagem pode ser conectada à regionalização dos quatro Brasis de Milton Santos, debatendo-se o tema também na educação básica. O conceito de região é, portanto, uma ferramenta essencial na educação básica, ajudando os alunos a compreender a diversidade e a complexidade do espaço geográfico. Através de metodologias práticas e de uma abordagem multidisciplinar, o ensino de Geografia e da região contribui para a formação de cidadãos informados, conscientes e capazes de interagir com o mundo de maneira mais profunda e significativa. TEMA 5 – REGIÃO NO BACHARELADO (E NA VIDA) Quando alguém se dedica ao bacharelado em Geografia e avança na atuação profissional em órgãos de planejamento, o conceito de região torna-se um alicerce fundamental. Como vimos ao longo do texto, a região, como unidade de análise, permite examinar áreas específicas com base em características comuns, 12 sejam elas físicas, culturais, econômicas ou políticas. Essa compreensão é essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de planejamento e gestão territorial. No planejamento regional, o conceito de região é utilizado para organizar e coordenar o desenvolvimento territorial, promovendo o equilíbrio e a sustentabilidade. Trabalhos como os de Cruz e Ab’Sáber ilustram bem como o conhecimento detalhado das características regionais é aplicado na prática. Para você que está iniciando a graduação, é essencial entender como o conceito de região é aplicado no planejamento regional. Isso envolve a análise de diferentes formas de regionalização, como a criação de regiões administrativas ou funcionais. Além disso, a definição dessas regiões pode ser complexa, levando em conta fatores que vão muito além das fronteiras políticas ou geográficas tradicionais. Essa abordagem multiescalar é necessária para que o planejamento atenda às necessidades específicas de cada área, levando em consideração questões sociais, ambientais e econômicas. A prática do planejamento regional também tem acontecido em conjunto com o uso de ferramentas específicas, como os sistemas de informação geográfica (SIGs). O uso de SIGs é fundamental para a análise espacial e a visualização de dados regionais. Com essas ferramentas, os planejadores podem mapear padrões e identificar soluções, facilitando a criação de estratégias de intervenção mais precisas. Para quem segue o bacharelado em Geografia, a familiarização com essas tecnologias é crucial para ingressar no mercado de trabalho, especialmente em funções ligadas ao planejamento territorial. A padronização e a interpretação de dados fornecidos por softwares de SIG, por exemplo, ajudam na identificação de áreas prioritárias de intervenção e na definição de regiões com maior clareza. Um exemplo claro da aplicação prática do conceito de região é a divisão regional oficial do IBGE, que segmenta o Brasil em cinco grandes regiões: Nordeste, Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa divisão, apesar de amplamente conhecida, é apenas uma das muitas formas de regionalização, como as propostas mais complexas e menos visíveis que abordamos ao longo desta etapa. Em resumo, o conceito de região oferece a base para análise e compreensão do espaço, enquanto o planejamento regional transforma essa análise em estratégias práticas de desenvolvimento e gestão territorial. A aplicação desse conhecimento vai além do campo acadêmico e concretiza-se nas políticas públicas e nas ações de planejamento. Por isso, entender essa relação é essencial 13 para aqueles que buscam atuar de forma eficaz no mercado de trabalho, seja no campo da pesquisa acadêmica ou no planejamento e gestão de territórios. NA PRÁTICA REGIONALIZANDO Uma vez que falamos sobre região e regionalização nas últimas páginas, vamos agora propor um exercício prático de análise e criação de regiões. Nosso objetivo com essa atividade é buscar a aplicação do conceito de região e desenvolver habilidades individuais de análise e criação de regiões, com base em características específicas, definidas por você. Para isso, você vai precisar de: mapas em branco; papel; recursos visuais; canetas; e, talvez, um computador ou tablet (exemplificaremos tudo na aula online; para os mapas em branco, indicamos sugestões de fonte no fim do passo a passo). 1.Parta do princípio de que “a região é um produto mental, uma forma de ver o espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização diferenciada do espaço” (Gomes, 1995, p. 59-60). 2. Escolha sua região ou unidade federativa do Brasil. 3. Pense, em linhas gerais, como sua região ou unidade federativa geralmente é apresentada na mídia nacional ou mesmo em materiais didáticos ao longo de sua vida escolar. 4. Elabore uma regionalização de sua região ou unidade federativa diferente daquela que geralmente é veiculada. Pense que essa regionalização é uma forma que você gostaria que também estivesse presente na mídia ou disponível em livros didáticos. 5. Responda: no que ela difere da imagem de que você se lembrou no item 3? Por que você defende que o critério que você escolheu é um critério de regionalização? Após essa sequência, analise a matriz a seguir, com critérios que o(a) ajudarão a verificar como você apreendeu a noção de região e a regionalizar no fim desta etapa. 14 Quadro 1 – Região e regionalização: matriz de critérios de verificação de aprendizado Critério Excelente (4) Bom (3) Satisfatório (2) Insatisfatório (1) Compreensão do conceito de região Demonstra excelente compreensão do conceito de região, com aplicação clara e precisa no exercício. Demonstra boa compreensão do conceito, mas com pequenas imprecisões. Compreensão básica, mas com lacunas no entendimento ou na aplicação. Compreensão inadequada do conceito de região. Escolha da região/unidade federativa A escolha da região é bem justificada e relevante para o exercício. A escolha da região é razoável, mas a justificação poderia ser mais clara. A escolha da região é feita sem uma justificativa sólida. A escolha da região é inadequada ou sem justificativa. Análise crítica da representação Análise profunda e crítica da representação da região na mídia e em materiais didáticos. Análise adequada, mas com pouca profundidade crítica. Análise básica, com pouca reflexão crítica. Análise superficial ou inexistente da representação. Criação de nova regionalização A nova regionalização é criativa, bem elaborada e fundamentada em critérios claros. Nova regionalização bem elaborada, mas com pequenos detalhes a melhorar. Nova regionalização apresentada, mas falta clareza ou profundidade. Nova regionalização pouco desenvolvida ou sem critério claro. Justificativa da nova regionalização Justificativa clara e coerente sobre as diferenças e os critérios utilizados. Justificativa razoável, com alguns pontos pouco desenvolvidos. Justificativa básica e com pouca reflexão sobre os critérios. Justificativa confusa ou ausente. Clareza e organização Trabalho bem organizado e claro, sem erros de estrutura ou linguagem. Trabalho claro e bem organizado, com pequenos erros de estrutura ou linguagem. Trabalho com organização e clareza mínimas. Trabalho desorganizado e com pouca clareza. 15 Fonte: Dalbem, 2024. Instruções • Autoavaliação: complete a tabela avaliando seu próprio trabalho em cada critério. • Justificativa: para cada critério, forneça uma breve justificativa para a nota que você deu, destacando pontos fortes e áreas para melhorias. • Reflexão adicional: escreva uma breve reflexão adicional sobre o que você aprendeu com a atividade e como pretende melhorar no futuro. Fontes dos materiais do exercício que será apresentado em aula online • Mapas em branco: ; (acesso em: 21 nov. 2024). • Atlas das representações literárias de regiões brasileiras / IBGE, Coordenação de Geografia – 4 volumes: ; (acesso em: 21 nov. 2024). − Volume 1 – Brasil meridional (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). − Volume 2 – Sertões brasileiros (partes de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará). − Volume 3 – Sertões brasileiros II (partes de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Goiás). − Volume 4 – Costas brasileiras. FINALIZANDO A categoria de região ocupa uma posição central na Geografia, pois permite a articulação entre o espaço e a sociedade de uma forma que tenta ser organizada e compreensível. Ao longo desta etapa, buscamos apresentar diferentes interpretações dessa categoria, desde conceituação até as tentativas de representar visualmente os exercícios de regionalização do espaço brasileiro, como a divisão do IBGE ou os domínios de natureza de Ab'Sáber. Não deixamos de ressaltar que ao regionalizar também iremos fazer generalizações e, por isso, qualquer que seja a regionalização, ela apresentará visões mais simples da realidade – o que é uma das coisas que a ciência faz. 16 Ao discutirmos essas diferentes abordagens, esperamos que tenha ficado evidente que a regionalização é um processo interpretativo, carregado de escolhas e interesses e, portanto, de repertório do(a) profissional que está propondo a unidade regional. As regiões não são unidades naturais e imutáveis; pelo contrário, elas são construídas e reconstruídas conforme as demandas sociais, econômicas e políticas transformam-se. A ideia de que as regiões podem ser definidas com base em critérios estáticos e universais é desafiada por estudos mais recentes, que sugerem uma visão mais dinâmica e fluida do espaço. Isso implica que devemos sempre questionar quem define essas fronteiras e com quais objetivos. Essa reflexão é fundamental não só para os estudos acadêmicos, mas também para as práticas profissionais em Geografia. No contexto do ensino de Geografia, o conceito de região também desempenha um papel importante. Para muitos estudantes, é através do estudo de sua própria região que começam a compreender questões maiores, como as relações entre o local e o global, ou entre o natural e o social. Por isso, o modo como a regionalização é apresentada nas escolas pode influenciar a formação de uma visão crítica do espaço e da sociedade. Ensinar “região” sob diferentes abordagens é uma oportunidade de ampliar a compreensão dos estudantes sobre as interações complexas que moldam o território e, assim, prepará-los para atuar de maneira consciente no mundo. Por fim, ao conectarmos essas discussões teóricas com as práticas do mercado de trabalho, reforçamos a importância do conceito de região para uma atuação profissional sólida e responsável para o(a) geógrafo(a). Seja no âmbito da pesquisa acadêmica, do planejamento territorial ou da docência, compreender as múltiplas dimensões da regionalização é importante para enfrentar desafios contemporâneos, como as desigualdades sociais, a crise ambiental e o ordenamento do território. 17 REFERÊNCIAS AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. 4. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007. BOSCARIOL, R. A. Região e regionalização no Brasil: uma análise segundo os resultados do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). In: MARGUTI, B. O.; COSTA, M. A.; PINTO, C. V. da S. (Org.). Territórios em números: insumos para políticas públicas a partir da análise do IDHM e do IVS de municípios e Unidades da Federação brasileira. Brasília: Ipea, 2017. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2024. CÔELHO, L. R. S.; MACÊDO, L. S. M. de; MARTINS FILHO, J. O conceito de região na geografia escolar. Ensino em Perspectivas, v. 4, n. 1, p. 1-15, 2023. Disponível em: . Acesso em: 21 nov.2024. CONTEL, F. B. Os conceitos de região e regionalização: aspectos de sua evolução e possíveis usos para a regionalização da saúde. Saúde e Sociedade, v. 24, n. 2, p. 447-460, 2015. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2024. CRUZ, R. C. A. Ensaio sobre a relação entre desenvolvimento geográfico desigual e regionalização do espaço brasileiro. Geousp – Espaço e Tempo, v. 24, n. 1, p. 27-50, abr. 2020. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2024. GOMES, P. C. da C. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, I. E. de; GOMES, P. C. da C.; CORRÊA, R. L. (Org.). Geografia: conceitos e temas. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.