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ESPAÇO, SOCIEDADE E 
NATUREZA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Rafaela Pacheco Dalbem 
2 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Seguindo a organização informada na etapa anterior, hoje vamos explorar 
uma categoria de análise essencial para o entendimento espacial: região. 
Vamos discutir como o conceito de região evoluiu ao longo do tempo e de 
que maneira a comunidade científica utiliza essa categoria, seja em estudos da 
geografia humana ou da geografia física. Ao longo desta etapa, faremos um 
percurso que vai desde as concepções mais tradicionais até as abordagens mais 
contemporâneas. 
Você já deve ter ouvido falar em regiões administrativas, culturais ou 
econômicas. Mas fica a pergunta: essas divisões são naturais? Ou seriam 
resultado de escolhas feitas pela sociedade? Inicialmente, as regiões eram 
classificadas por critérios como clima ou vegetação. Contudo, à medida que 
avançamos no estudo da Geografia, percebemos que as análises sobre essas 
regiões começam a ter interpretações sociais e políticas. Ou seja, as regiões não 
são apenas áreas com características físicas semelhantes, mas áreas que refletem 
a história, as relações de poder e as necessidades de cada sociedade. 
Depois, vamos entender o que significa regionalizar. A regionalização é um 
modo de pensar geograficamente o espaço. É uma ferramenta poderosa utilizada 
para organizar o espaço e, muitas vezes, serve a propósitos econômicos e 
políticos. Vamos analisar exemplos concretos, como a divisão regional feita pelo 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e ver como essas divisões 
influenciam o modo como os recursos naturais são utilizados e como as dinâmicas 
sociais se estabelecem. Será que essas regionalizações beneficiam todas as 
partes da sociedade igualmente? 
A seguir, vamos ver como o conceito de região aparece nas pesquisas 
acadêmicas. Muitos estudos sobre desenvolvimento sustentável, economia 
regional e desigualdades sociais usam a noção de região como ponto de partida 
para entender as relações entre sociedade e espaço. Veremos alguns exemplos 
de trabalhos que mostram como essas divisões ajudam a entender as diferenças 
entre áreas mais desenvolvidas e aquelas que enfrentam desafios maiores. Isso 
também nos ajuda a refletir sobre como a apropriação do espaço pode ocorrer de 
maneiras desiguais. 
Além disso, vamos refletir sobre como o conceito de região é tratado na 
escola, especificamente no ensino de Geografia. Sabemos que é por meio do 
3 
 
 
estudo de sua própria região que muitos alunos começam a entender questões 
locais e globais. Vamos refletir sobre o modo como os livros didáticos abordam 
esse tema e se eles ajudam a formar uma visão crítica a respeito do espaço em 
que vivemos. Existe uma maneira de ensinar “região” que vá além da simples 
divisão física? Vamos ver juntos! 
Por fim, vamos falar sobre a aplicação do conceito de região no bacharelado 
e no mercado de trabalho. Profissionais que atuam com planejamento urbano, 
políticas públicas e desenvolvimento regional precisam compreender 
profundamente como as regiões são formadas e transformadas. Vamos discutir 
como o conhecimento sobre regionalização pode ser uma ferramenta prática para 
lidar com desafios como urbanização, sustentabilidade e a gestão de territórios. 
Esse é o momento em que conectamos a teoria com a prática. 
• Compreender a noção de região e o ato de regionalizar. 
• Discutir o processo de regionalização com foco no contexto brasileiro. 
• Analisar a importância do conceito de região nas práticas profissionais 
de uma pessoa formada em Geografia, seja na licenciatura ou no 
bacharelado. 
TEMA 1 – VISÕES DE REGIÃO 
Uma coisa que gostaríamos de dizer, já no início deste tema, é que 
concordamos com o professor doutor Paulo Cesar da Costa Gomes (Gomes, 1995, 
p. 59-60) quando ele diz que “a região é um produto mental, uma forma de ver o 
espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização diferenciada do 
espaço”. 
No entanto, há inúmeras formas de utilizar a categoria de região, inclusive 
associadas a outros conceitos. A professora doutora Maria Laura da Silveira (citada 
por Contel, 2015, p. 456), por exemplo, coloca que “a região pode ser 
compreendida como um tecido contínuo e heterogêneo de modernidades e formas 
herdadas, materiais e imateriais, que constituem horizontalidades”. O professor 
doutor Fabio Betioli Contel (Contel, 2015, p. 456) ressalta ainda que esses 
conceitos de horizontalidades e verticalidades, apresentados pelo professor doutor 
Milton Santos, são uma forma de olhar e compreender as regiões no mundo 
contemporâneo e nos ajudam a formar uma nova ordem mental. Para o autor 
(Santos citado por Contel, 2015, p. 456) as horizontalidades dizem respeito às 
4 
 
 
relações internas de uma região e as verticalidades refletem as influências 
externas, como normas globais e fluxos econômicos. 
Em termos de regiões ou regionalização oficiais, uma das mais divulgadas 
no Brasil é a do IBGE, inicialmente proposta em 1970 e atualizada em 1990, 
acompanhando as mudanças nas unidades federativas. Essa regionalização divide 
o Brasil em cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. 
Essa proposta buscou agrupar 
semelhanças históricas, sociais, econômicas e naturais que 
apresentavam, respeitando seus limites político-administrativos. Com 
base nestas divisões, os governos na época criaram as superintendências 
de desenvolvimento regional (Superintendência do Desenvolvimento do 
Nordeste – Sudene; Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia 
– Sudam; Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste – 
Sudeco; e Superintendência do Desenvolvimento da Região Sul – 
Sudesul). (Boscariol, 2017, p. 189) 
No entanto, essa divisão reflete uma visão simplificada do espaço brasileiro, 
pois, em muitas situações, não consegue captar a complexidade de cada região 
em seus detalhes socioeconômicos e ecológicos. 
Para além dessa regionalização administrativa, a obra de Aziz Ab'Sáber 
(Ab'Sáber, 2007) oferece uma abordagem profundamente inovadora. Ab'Sáber, um 
dos geógrafos mais renomados do Brasil, desenvolveu o conceito de domínios 
morfoclimáticos, que leva em consideração os fatores físicos e ecológicos para a 
delimitação das regiões. Em seu mapa, ele propôs seis grandes domínios naturais 
no Brasil: Amazônico, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Araucária e Pradarias. 
Ao contrário da classificação do IBGE, que se baseia em critérios econômicos e 
populacionais, a regionalização de Ab'Sáber foca a interação entre clima, relevo e 
vegetação. Essa abordagem proporciona uma visão mais completa do território 
brasileiro, destacando as características físicas que moldam as paisagens e os 
ecossistemas do país. 
Para encerrar esta seção sobre as diferentes visões de região, é importante 
destacar que nos próximos temas – “Afinal, o que é regionalizar?” e “Região e 
geografia física” – aprofundaremos tanto a perspectiva mais humana quanto a 
física do conceito de região. Isso nos permitirá compreender de forma mais ampla 
suas múltiplas aplicações, desde a organização territorial e social até os elementos 
naturais que configuram o espaço. Essas abordagens complementares nos 
ajudarão a entender como a regionalização pode ser um instrumento de análise 
relevante tanto para estudos sociais quanto ecológicos. 
5 
 
 
TEMA 2 – AFINAL, O QUE É REGIONALIZAR? 
Neste tópico, nossa intenção é discutir o processo de regionalização, 
destacando como esse processo é utilizado para organizar o espaço geográfico, 
tanto em políticas públicas quanto em análises acadêmicas. 
Já abordamos a ideia antes, mas gostaríamos de retomar a noção de que 
regionalizar é uma forma de organizar o espaço geográfico com base em critérios 
que dividem territórios em áreas menores chamadas de regiões. Essas divisões 
podem ser feitas de diferentes formas e essas formas dependem dosobjetivos e 
dos critérios utilizados. No contexto geográfico, a regionalização busca identificar 
características comuns a determinados espaços para agrupá-los em categorias 
que ajudem a compreender sua dinâmica interna e suas relações com o todo. É 
importante aqui lembrar que esses critérios em comum farão com que outros 
critérios sejam generalizados. 
O geógrafo Paulo César da Costa Gomes reforça essa ideia com a ideia que 
já trouxemos anteriormente: “a região é um produto mental, uma forma de ver o 
espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização diferenciada do 
espaço” (Gomes, 1995, p. 59-60). Ou seja, a regionalização revela tanto uma 
interpretação espacial quanto uma construção social moldada por fatores históricos 
e políticos. 
O aspecto histórico remete-nos à ideia de que a regionalização, além de 
técnica, é também um processo social. A maneira como regiões são delimitadas 
revela relações de poder, seja no passado, com o controle exercido por Roma que 
citamos anteriormente, seja hoje, com a divisão administrativa de territórios por 
Estados modernos. No Brasil, por exemplo, a divisão regional utilizada pelo IBGE 
reflete questões econômicas e culturais, mas também interesses políticos e 
disputas de poder, como indicado pela geógrafa Rita de Cássia Ariza da Cruz em 
seu texto Ensaio sobre a relação entre desenvolvimento geográfico desigual e 
regionalização do espaço brasileiro (Cruz, 2020). Assim, regionalizar não é apenas 
identificar características geográficas. É, antes de tudo, tomar decisões sobre o 
que deve ser incluído ou excluído de uma área, com implicações diretas na vida 
das pessoas que nela habitam. 
O artigo supracitado faz uma proposta de regionalização para o Brasil em 
sete Brasis (Cruz, 2020, p. 44) (Figura 1). 
6 
 
 
Figura 1 – Síntese da divisão regional do Brasil 
 
Crédito: João Miguel. 
Ao explicar suas regiões, a autora aponta que adotou faixas de transição 
nessa interpretação de Brasil. Afirma que “ao tratar de aspectos socio-histórico-
econômicos, a passagem de uma região para outra também é raramente abrupta, 
sobretudo quando lidamos com a escala macrorregional” (Cruz, 2020, p. 45). Com 
isso em mente, a autora coloca: 
Concluímos, desse modo, não existirem “dois ou quatro Brasis”, mas sete 
grandes regiões, que são fragmentos de um espaço total, uma totalidade 
aberta, una e contraditória em movimento, entre as quais três regiões de 
transição que amalgamam características das grandes regiões com as 
quais fazem fronteira sem identificar-se integralmente, conforme critérios 
adotados, com uma ou com outra. (Cruz, 2020, p. 45) 
Olhando diretamente para o mapa proposto por Cruz, o que ela quer dizer é 
que as regiões Amazônia Ocidental, Arco Centro-Norte, Região Su-Sul e Arco 
Atlântico conseguem destacar-se de maneira individual através dos aspectos 
sócio-histórico e econômicos definidos pela autora. Por outro lado, as regiões 
Amazônia Oriental, Centro-Nordeste e Centro-Atlântica acabam agregando 
características de pelo menos duas regiões e, por isso, serão denominadas regiões 
de transição. 
7 
 
 
O artigo ainda traz um resgate das propostas acadêmicas de crítica e 
contraposição à regionalização apresentada pelo IBGE em 1970 (Cruz, 2020, p. 
31) (Figura 2). 
Figura 2 – Regionalização do espaço brasileiro 
 
Crédito: João Miguel. 
De forma resumida e citando a autora, essas propostas que antecederam à 
sua regionalização de sete Brasis foram organizadas da seguinte forma: 
Pouco mais de uma década depois, em 1964, Pedro Pinchas Geiger 
(1922-) definiu três regiões geoeconômicas, baseando-se na história da 
formação territorial e “nos efeitos da industrialização” no território 
brasileiro. Fundado na noção de divisão territorial do trabalho (DTT), 
Roberto Lobato Corrêa (1939-) identificou, em sua proposta de 
regionalização de 1989, o que ele chamou de “três Brasis” (bastante 
semelhante à regionalização de Geiger, com a diferença de haver optado 
por respeitar os limites estaduais) (Corrêa, 1989). Em 1999, Milton Santos 
(1926-2001) propôs a existência de “quatro Brasis”, levando em conta a 
geografização do meio técnico-científico-informacional pelas diferentes 
regiões brasileiras definidas pelo IBGE (Santos; Silveira, 2001). Por fim, 
em 2004, Ruy Moreira (1941-) identificou “tendências de regionalização” 
8 
 
 
relativas à DTT e o fez rompendo com os paradigmas das propostas 
anteriores, desrespeitando limites estaduais, sobrepondo regiões e 
definindo regiões não contíguas. (Cruz, 2020, p. 30) 
A apresentação desse artigo tem o intuito de construir um repertório de 
experiências de regionalização do Brasil pensando através de critérios históricos, 
culturais e econômicos. A contraposição à regionalização do IBGE surge na 
intenção de exercitar o pensamento regional e de apresentar trabalhos da 
academia que se propuseram a análises mais complexas das realidades regionais 
brasileiras. 
Como Gomes (1995) sugere, o surgimento de regiões é uma resposta às 
necessidades de organização e controle, especialmente em contextos de 
diversidade espacial. Ao regionalizar, interpretamos o espaço com base em 
diferentes propósitos, o que nos permite identificar tanto as particularidades de um 
lugar quanto suas interações com o todo. 
Além disso, é importante reconhecer que a regionalização afeta diretamente 
a formulação de políticas públicas. Quando governos criam regiões administrativas, 
por exemplo, estão estabelecendo prioridades e focos de ação que influenciam a 
alocação de recursos e a execução de projetos sociais. A divisão regional 
(territorial), portanto, não é neutra; ela favorece certos interesses e grupos. Ao 
compreendermos isso, ganhamos uma visão crítica das divisões regionais e suas 
consequências para o desenvolvimento econômico, social e cultural das regiões. 
Portanto, regionalizar é uma prática fundamental para compreender a 
organização do espaço, suas dinâmicas e suas desigualdades. Como um conceito 
que evoluiu ao longo da história e que continua a moldar a forma como nos 
relacionamos com o território, a regionalização é uma ferramenta poderosa de 
análise geográfica e de planejamento, mas também exige uma visão crítica sobre 
os processos de dominação e transformação que a acompanham. 
TEMA 3 – REGIÃO E GEOGRAFIA FÍSICA 
A discussão sobre a categoria de região é fundamental para a Geografia e 
remonta a diversas teorias e abordagens, que buscam compreender a maneira 
como o espaço é organizado e dividido. Um dos primeiros pensadores a tratar da 
questão da região foi o geógrafo francês Vidal de la Blache, para quem a região 
possui uma dimensão concreta e palpável. Como ele afirmou, a “região é uma 
realidade concreta, física, ela existe como um quadro de referência para a 
população que aí vive. [...] O método recomendado é a descrição, pois só através 
9 
 
 
dela é possível penetrar na complexa dinâmica que estrutura este espaço” (Vidal 
de la Blache citado por Gomes, 1995, p. 57, grifo nosso). Essa visão revela a 
importância de observar o espaço de maneira empírica, buscando entender a 
complexidade que caracteriza a vida e a interação dos fenômenos regionais, mas 
tendo um método para tratar essa observação. 
Essa questão metodológica é imprescindível na pesquisa acadêmica. 
Quando apresentamos o trabalho de Cruz (2020) em sete Brasis, ressaltamos que 
a autora defendeu a existência de faixas de transição. Essas faixas de transição 
são uma referência aos trabalhos de Moacir Silva e Ab’Sáber. 
Nesta parte do texto, gostaríamos de apresentar a regionalização de 
Ab’Sáber para analisarmos uma proposta que parte de elementos físicos. A 
importância do trabalho de Ab’Sáber reside no fato de que seu estudo vai além da 
descrição das paisagens, oferecendo uma leitura integrada do ambiente natural 
(Figura 3), crucial para a gestão dos recursos e o planejamento territorial. Ao se 
compreenderas interações entre os fatores naturais, como o solo, o clima e a 
vegetação, torna-se possível planejar o uso sustentável dos recursos de cada 
região, levando em conta suas particularidades e limitações. Com base nessa 
visão, podemos pensar em estratégias mais eficazes para a conservação 
ambiental e o desenvolvimento de políticas públicas que respeitem as 
especificidades dos diferentes domínios naturais brasileiros, contribuindo para um 
planejamento territorial mais equilibrado e sustentável. 
Após anos de viagens e análise de dados cartográficos e ambientais, 
Ab'Sáber propôs uma nova forma de olhar para o Brasil, por meio dos chamados 
domínios morfoclimáticos. Esses domínios representam uma síntese de 
informações sistematizadas sobre grandes áreas naturais do país, a saber: 
Amazônico; Cerrado; Mares de morros; Caatingas; Araucárias; Pradarias; Faixas 
de transição. 
10 
 
 
Figura 3 – Domínios morfoclimáticos brasileiros (áreas nucleares – 1965) – 2007 
 
Crédito: João Miguel. 
Todos os artigos que falam dos domínios estão hoje organizados no livro 
intitulado Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas 
(Ab'Sáber, 2007), considerado uma literatura básica da geografia física no Brasil. 
Na abertura dessa obra, o autor coloca no primeiro parágrafo: 
Todos os que se iniciam no conhecimento das ciências da natureza – mais 
cedo ou mais tarde, por um caminho ou por outro – atingem a ideia de 
que a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança 
em todos os sentidos da palavra: herança de processos fisiográficos e 
biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as 
herdaram como território de atuação de suas comunidades. (Ab’Sáber 
2007, p. 9) 
Nesse momento o autor, embora apresente uma organização regional que 
privilegie as questões físicas, não deixa de se posicionar ao explicitar como essa 
regionalização deveria ser olhada: “uma herança” e “patrimônio coletivo dos povos 
que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades”. 
Como vamos cuidar dessas heranças, que têm relação com a vegetação, com a 
água, com o relevo? 
11 
 
 
TEMA 4 – REGIÃO NA ESCOLA 
Ao longo desta etapa, exploramos o desenvolvimento da categoria de região 
no contexto acadêmico geográfico, desde as ideias de Vidal de La Blache até as 
interpretações mais recentes aplicadas ao território brasileiro. 
Isso é trabalhado na escola? Sim, principalmente por meio da regionalização 
do IBGE (geografia humana) e de Ab’Sáber (geografia física). Essas abordagens 
aparecem no estudo da geografia do Brasil e na apresentação de grandes 
organizações espaciais mundiais, como mapas de clima, biomas e níveis de 
desenvolvimento. A Geografia na educação básica tem grande potencial para 
ajudar na leitura de mundo, e as atividades de regionalização podem desempenhar 
um papel crucial na compreensão das interações complexas entre os aspectos 
físicos e humanos do espaço. 
Apresentar a região como um polígono que delimita áreas com 
características comuns – sejam físicas, culturais, econômicas ou políticas – permite 
que os estudantes desenvolvam uma visão contextualizada das diferentes partes 
do mundo e suas particularidades. Além disso, o ensino da região pode (ou deve) 
enfatizar a interconexão entre características físicas e humanas, como a influência 
dos fatores econômicos e políticos na formação e na dinâmica das regiões. 
Por exemplo, a análise de regiões econômicas, como áreas industriais ou 
agrícolas, revela como a atividade econômica molda a paisagem e afeta a vida das 
pessoas. Essa abordagem pode ser conectada à regionalização dos quatro Brasis 
de Milton Santos, debatendo-se o tema também na educação básica. 
O conceito de região é, portanto, uma ferramenta essencial na educação 
básica, ajudando os alunos a compreender a diversidade e a complexidade do 
espaço geográfico. Através de metodologias práticas e de uma abordagem 
multidisciplinar, o ensino de Geografia e da região contribui para a formação de 
cidadãos informados, conscientes e capazes de interagir com o mundo de maneira 
mais profunda e significativa. 
TEMA 5 – REGIÃO NO BACHARELADO (E NA VIDA) 
Quando alguém se dedica ao bacharelado em Geografia e avança na 
atuação profissional em órgãos de planejamento, o conceito de região torna-se um 
alicerce fundamental. Como vimos ao longo do texto, a região, como unidade de 
análise, permite examinar áreas específicas com base em características comuns, 
12 
 
 
sejam elas físicas, culturais, econômicas ou políticas. Essa compreensão é 
essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de planejamento e 
gestão territorial. 
No planejamento regional, o conceito de região é utilizado para organizar e 
coordenar o desenvolvimento territorial, promovendo o equilíbrio e a 
sustentabilidade. Trabalhos como os de Cruz e Ab’Sáber ilustram bem como o 
conhecimento detalhado das características regionais é aplicado na prática. 
Para você que está iniciando a graduação, é essencial entender como o 
conceito de região é aplicado no planejamento regional. Isso envolve a análise de 
diferentes formas de regionalização, como a criação de regiões administrativas ou 
funcionais. Além disso, a definição dessas regiões pode ser complexa, levando em 
conta fatores que vão muito além das fronteiras políticas ou geográficas 
tradicionais. Essa abordagem multiescalar é necessária para que o planejamento 
atenda às necessidades específicas de cada área, levando em consideração 
questões sociais, ambientais e econômicas. 
A prática do planejamento regional também tem acontecido em conjunto 
com o uso de ferramentas específicas, como os sistemas de informação geográfica 
(SIGs). O uso de SIGs é fundamental para a análise espacial e a visualização de 
dados regionais. Com essas ferramentas, os planejadores podem mapear padrões 
e identificar soluções, facilitando a criação de estratégias de intervenção mais 
precisas. Para quem segue o bacharelado em Geografia, a familiarização com 
essas tecnologias é crucial para ingressar no mercado de trabalho, especialmente 
em funções ligadas ao planejamento territorial. 
A padronização e a interpretação de dados fornecidos por softwares de SIG, 
por exemplo, ajudam na identificação de áreas prioritárias de intervenção e na 
definição de regiões com maior clareza. Um exemplo claro da aplicação prática do 
conceito de região é a divisão regional oficial do IBGE, que segmenta o Brasil em 
cinco grandes regiões: Nordeste, Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa 
divisão, apesar de amplamente conhecida, é apenas uma das muitas formas de 
regionalização, como as propostas mais complexas e menos visíveis que 
abordamos ao longo desta etapa. 
Em resumo, o conceito de região oferece a base para análise e 
compreensão do espaço, enquanto o planejamento regional transforma essa 
análise em estratégias práticas de desenvolvimento e gestão territorial. A aplicação 
desse conhecimento vai além do campo acadêmico e concretiza-se nas políticas 
públicas e nas ações de planejamento. Por isso, entender essa relação é essencial 
13 
 
 
para aqueles que buscam atuar de forma eficaz no mercado de trabalho, seja no 
campo da pesquisa acadêmica ou no planejamento e gestão de territórios. 
NA PRÁTICA 
REGIONALIZANDO 
Uma vez que falamos sobre região e regionalização nas últimas páginas, 
vamos agora propor um exercício prático de análise e criação de regiões. 
Nosso objetivo com essa atividade é buscar a aplicação do conceito de 
região e desenvolver habilidades individuais de análise e criação de regiões, com 
base em características específicas, definidas por você. 
Para isso, você vai precisar de: mapas em branco; papel; recursos visuais; 
canetas; e, talvez, um computador ou tablet (exemplificaremos tudo na aula online; 
para os mapas em branco, indicamos sugestões de fonte no fim do passo a passo). 
1.Parta do princípio de que “a região é um produto mental, uma forma de ver 
o espaço que coloca em evidência os fundamentos da organização 
diferenciada do espaço” (Gomes, 1995, p. 59-60). 
2. Escolha sua região ou unidade federativa do Brasil. 
3. Pense, em linhas gerais, como sua região ou unidade federativa geralmente 
é apresentada na mídia nacional ou mesmo em materiais didáticos ao longo 
de sua vida escolar. 
4. Elabore uma regionalização de sua região ou unidade federativa diferente 
daquela que geralmente é veiculada. Pense que essa regionalização é uma 
forma que você gostaria que também estivesse presente na mídia ou 
disponível em livros didáticos. 
5. Responda: no que ela difere da imagem de que você se lembrou no item 3? 
Por que você defende que o critério que você escolheu é um critério de 
regionalização? 
Após essa sequência, analise a matriz a seguir, com critérios que o(a) 
ajudarão a verificar como você apreendeu a noção de região e a regionalizar no 
fim desta etapa. 
14 
 
 
Quadro 1 – Região e regionalização: matriz de critérios de verificação de 
aprendizado 
Critério Excelente (4) Bom (3) Satisfatório (2) Insatisfatório (1) 
Compreensão 
do conceito de 
região 
Demonstra 
excelente 
compreensão 
do conceito de 
região, com 
aplicação clara 
e precisa no 
exercício. 
Demonstra boa 
compreensão 
do conceito, 
mas com 
pequenas 
imprecisões. 
Compreensão 
básica, mas com 
lacunas no 
entendimento ou 
na aplicação. 
Compreensão inadequada 
do conceito de região. 
Escolha da 
região/unidade 
federativa 
A escolha da 
região é bem 
justificada e 
relevante para o 
exercício. 
A escolha da 
região é 
razoável, mas 
a justificação 
poderia ser 
mais clara. 
A escolha da 
região é feita 
sem uma 
justificativa 
sólida. 
A escolha da região é 
inadequada ou sem 
justificativa. 
Análise crítica 
da 
representação 
Análise 
profunda e 
crítica da 
representação 
da região na 
mídia e em 
materiais 
didáticos. 
Análise 
adequada, mas 
com pouca 
profundidade 
crítica. 
Análise básica, 
com pouca 
reflexão crítica. 
Análise superficial ou 
inexistente da 
representação. 
Criação de 
nova 
regionalização 
A nova 
regionalização 
é criativa, bem 
elaborada e 
fundamentada 
em critérios 
claros. 
Nova 
regionalização 
bem elaborada, 
mas com 
pequenos 
detalhes a 
melhorar. 
Nova 
regionalização 
apresentada, 
mas falta 
clareza ou 
profundidade. 
Nova regionalização pouco 
desenvolvida ou sem 
critério claro. 
Justificativa da 
nova 
regionalização 
Justificativa 
clara e coerente 
sobre as 
diferenças e os 
critérios 
utilizados. 
Justificativa 
razoável, com 
alguns pontos 
pouco 
desenvolvidos. 
Justificativa 
básica e com 
pouca reflexão 
sobre os 
critérios. 
Justificativa confusa ou 
ausente. 
Clareza e 
organização 
Trabalho bem 
organizado e 
claro, sem erros 
de estrutura ou 
linguagem. 
Trabalho claro e 
bem organizado, 
com pequenos 
erros de 
estrutura ou 
linguagem. 
Trabalho com 
organização e 
clareza 
mínimas. 
Trabalho desorganizado e 
com pouca clareza. 
15 
 
 
Fonte: Dalbem, 2024. 
Instruções 
• Autoavaliação: complete a tabela avaliando seu próprio trabalho em cada 
critério. 
• Justificativa: para cada critério, forneça uma breve justificativa para a nota 
que você deu, destacando pontos fortes e áreas para melhorias. 
• Reflexão adicional: escreva uma breve reflexão adicional sobre o que você 
aprendeu com a atividade e como pretende melhorar no futuro. 
Fontes dos materiais do exercício que será apresentado em aula online 
• Mapas em branco: ; 
(acesso em: 21 nov. 2024). 
• Atlas das representações literárias de regiões brasileiras / IBGE, 
Coordenação de Geografia – 4 volumes: 
; (acesso em: 21 nov. 2024). 
− Volume 1 – Brasil meridional (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e 
Paraná). 
− Volume 2 – Sertões brasileiros (partes de São Paulo, Minas Gerais, 
Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará). 
− Volume 3 – Sertões brasileiros II (partes de Mato Grosso, Mato Grosso 
do Sul, Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Goiás). 
− Volume 4 – Costas brasileiras. 
FINALIZANDO 
A categoria de região ocupa uma posição central na Geografia, pois permite 
a articulação entre o espaço e a sociedade de uma forma que tenta ser organizada 
e compreensível. Ao longo desta etapa, buscamos apresentar diferentes 
interpretações dessa categoria, desde conceituação até as tentativas de 
representar visualmente os exercícios de regionalização do espaço brasileiro, 
como a divisão do IBGE ou os domínios de natureza de Ab'Sáber. 
Não deixamos de ressaltar que ao regionalizar também iremos fazer 
generalizações e, por isso, qualquer que seja a regionalização, ela apresentará 
visões mais simples da realidade – o que é uma das coisas que a ciência faz. 
16 
 
 
Ao discutirmos essas diferentes abordagens, esperamos que tenha ficado 
evidente que a regionalização é um processo interpretativo, carregado de escolhas 
e interesses e, portanto, de repertório do(a) profissional que está propondo a 
unidade regional. As regiões não são unidades naturais e imutáveis; pelo contrário, 
elas são construídas e reconstruídas conforme as demandas sociais, econômicas 
e políticas transformam-se. A ideia de que as regiões podem ser definidas com 
base em critérios estáticos e universais é desafiada por estudos mais recentes, que 
sugerem uma visão mais dinâmica e fluida do espaço. Isso implica que devemos 
sempre questionar quem define essas fronteiras e com quais objetivos. Essa 
reflexão é fundamental não só para os estudos acadêmicos, mas também para as 
práticas profissionais em Geografia. 
No contexto do ensino de Geografia, o conceito de região também 
desempenha um papel importante. Para muitos estudantes, é através do estudo 
de sua própria região que começam a compreender questões maiores, como as 
relações entre o local e o global, ou entre o natural e o social. Por isso, o modo 
como a regionalização é apresentada nas escolas pode influenciar a formação de 
uma visão crítica do espaço e da sociedade. Ensinar “região” sob diferentes 
abordagens é uma oportunidade de ampliar a compreensão dos estudantes sobre 
as interações complexas que moldam o território e, assim, prepará-los para atuar 
de maneira consciente no mundo. 
Por fim, ao conectarmos essas discussões teóricas com as práticas do 
mercado de trabalho, reforçamos a importância do conceito de região para uma 
atuação profissional sólida e responsável para o(a) geógrafo(a). Seja no âmbito da 
pesquisa acadêmica, do planejamento territorial ou da docência, compreender as 
múltiplas dimensões da regionalização é importante para enfrentar desafios 
contemporâneos, como as desigualdades sociais, a crise ambiental e o 
ordenamento do território. 
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REFERÊNCIAS 
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