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Olhares Olhares AtentosAtentos M AI M AI18 D E M AI O GUIA PARA PREVENÇÃO, IDENTIFICAÇÃO E ENCAMINHAMENTOS EM CASOS DE SUSPEITA DE VIOLÊNCIA SEXUAL NO ÂMBITO ESCOLAR Assistente Social: Juliete Guerra Hiradai CRESS/PR Nº7182 Assistente Social:Luzinete Teixeira de Oliveira CRESS/PR nº8993 Psicóloga: Karina Soares da Silva - CRP/PR Nº08/37438 Psicóloga:Rayana Aparecida Costa - CRP/PR Nº08/29353 Técnica Pedagógica: Fabiana Galvão 2ª Edição/2025 1 APRESENTAÇÃO Esta é a segunda edição da cartilha “Olhares Atentos”, produzida pela equipe multiprofissional do Núcleo Regional de Educação de Goioerê (NRE-Goioerê), com o propósito de abordar um tema de extrema relevância: o 18 de Maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Instituída pela Lei Federal nº 9.970/00, a data é uma conquista que marca a luta pelos direitos humanos de crianças e adolescentes. Ao estabelecer o Dia Nacional, a lei oficializou a necessidade de ações contínuas e coordenadas para protegê-las da violência sexual, reforçando um compromisso coletivo. A iniciativa está em consonância com o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, que orienta políticas públicas em todo o território brasileiro, visando à prevenção, à proteção e à responsabilização nos casos de violação de direitos, promovendo uma cultura de proteção integral. Assim, reconhece-se o papel estratégico das instituições escolares no enfrentamento a esse tipo de violência, dada sua posição privilegiada no contato cotidiano com estudantes. Neste contexto, a equipe multiprofissional do NRE apresenta este material com o objetivo de promover reflexões sobre a prevenção, a identificação e o encaminhamento de situações de violência sexual contra crianças e adolescentes, valorizando os saberes, os olhares e as vivências das equipes escolares, de forma articulada e integrada. Esperamos que este material contribua de maneira reflexiva e fortaleça o compromisso das equipes diretivas das escolas para atuarem na garantia dos direitos de nossos alunos através de olhares atentos e ações efetivas. 2 A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA NO ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA SEXUAL A escola exerce um papel essencial no processo de identificação e proteção de crianças e adolescentes contra a violência, sendo frequentemente o primeiro ambiente, além do familiar, em que se observa alterações no comportamento, aparência ou desempenho dos alunos. A presença contínua dos educadores no cotidiano dos estudantes possibilita uma observação atenta às mudanças que possam indicar sinais de violência, sejam elas físicas, psicológicas, negligência ou outras formas de abuso. Diante desse protagonismo na relação escola- aluno no cotidiano escolar, é essencial compreender as principais manifestações de violência — física, psicológica, negligência ou outras formas de abuso —, bem como saber como registrar, observar e encaminhar adequadamente esses casos. A relação próxima entre educadores e alunos facilita a percepção das mudanças de comportamento e o reconhecimento de sinais de alerta. Essa proximidade também abre espaço para a construção de uma relação de confiança e transparência, essencial para que crianças e adolescentes se sintam seguros ao relatarem suas experiências, sem o risco de serem julgadas/os ou discriminadas/os. Entretanto, a atividade docente não é isenta de desafios. A rotina escolar é muitas vezes sobrecarregada por demandas burocráticas e operacionais, que podem dificultar a capacidade de observação e reflexão crítica do dia a dia. A carga de trabalho dos educadores, que envolve desde atividades em sala de aula até o planejamento, reuniões com pais e correção de avaliações, exige uma gestão cuidadosa do tempo. Esse contexto, somado ao cansaço diário, pode impactar na capacidade de perceber com clareza os sinais de violação de direitos. Por isso, é imperativo que as equipes escolares, especialmente os educadores, desenvolvam "olhares atentos". Mesmo diante de um contexto institucionalizado e sobrecarregado, é necessário criar condições para que as/os profissionais consigam se manter sensíveis às vivências de seus alunos. Essa sensibilidade deve ser cultivada por meio de vínculos, acolhimento e uma escuta ativa, capaz de identificar necessidades emocionais e comportamentais. 3 Violência Sexual o que é? Segundo o art. 4.º, inciso III, da Lei n.º 13.431, de 4 de abril de 2017, violência sexual é “entendida como qualquer conduta que constranja a criança ou o adolescente a praticar ou presenciar conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso, inclusive exposição do corpo em foto ou vídeo por meio eletrônico, ou não, que compreenda: abuso sexual, exploração sexual; importunação sexual e assédio sexual” (BRASIL, 2017). A violência sexual pode ocorrer dentro dos lares — um ambiente que, em tese, deveria representar proteção. O espaço doméstico, por ser privado, muitas vezes está envolto em segredos familiares e sociais, o que dificulta ainda mais a identificação do abuso. Em casos como esses, o autor da violência pode exercer poder moral, econômico e disciplinar sobre a vítima, tornando o rompimento do silêncio ainda mais difícil. A violência sexual representa uma grave ameaça ao bem-estar, à saúde e ao futuro de crianças e adolescentes, podendo comprometer seriamente seu desenvolvimento emocional, físico e cognitivo. A condição de vulnerabilidade inerente à infância e adolescência torna esse público mais suscetível a situações de abuso. No entanto, alguns grupos enfrentam riscos ainda maiores, como crianças e adolescentes em situação de pobreza, negras, com deficiência ou inseridas em contextos de exclusão social. SINAIS DE VIOLÊNCIA SEXUAL: O QUE OBSERVAR? Quando a violência não é identificada ou enfrentada adequadamente, e a vítima não recebe o acolhimento e o suporte necessários, há um risco significativo de que ela internalize a agressão como algo natural ou aceitável, perpetuando um ciclo de dor e silêncio. Os impactos no desenvolvimento da criança podem ser graves se não receberem o apoio necessário e o atendimento com profissionais capacitados. Nesse cenário, a escola tem um papel fundamental: Criar um ambiente seguro, acolhedor e protetivo, onde crianças e adolescentes possam expressar seus sentimentos e vivências. A escuta acolhedora é o primeiro passo para romper o ciclo da violência — e deve ser uma prática constante no cotidiano escolar e não apenas nas campanhas de 18 de maio. 4 A violência sexual contra crianças e adolescentes pode se manifestar por meio de diversos sinais físicos, comportamentais e contextuais. Em muitos casos, esses sinais não são explícitos, exigindo atenção qualificada por parte da equipe escolar, toda suspeita é importante, lembre-se de exercitar olhares atentos. Abaixo estão listados os principais indicadores que podem sugerir situações de abuso ou exploração sexual: SINAIS FÍSICOS Lesões genitais ou anais (dor, inchaço, sangramento, feridas). Dificuldade em sentar ou caminhar. Roupas íntimas rasgadas, manchadas ou fora do lugar. Hematomas ou machucados em locais incomuns para quedas acidentais. Infecções urinárias ou doenças sexualmente transmissíveis. Gravidez precoce ou aborto sem justificativa plausível. Problemas de saúde sem causa médica definida (distúrbios do sono, fala, alimentação). SINAIS COMPORTAMENTAIS Mudanças bruscas de comportamento (apatia, agressividade, isolamento). Regressão a comportamentos infantis (enurese, sucção do dedo, fala infantilizada). Baixa autoestima, medo de adultos ou figuras de autoridade. Desconfiança excessiva, sensação de constante ameaça. Auto agressões, ideação suicida ou comportamentos autodestrutivos. Interesse ou conhecimento sexual incompatível com a idade. Desenhos ou brincadeiras com conteúdo sexual explícito. 5 SINAIS OBSERVÁVEIS NA DINÂMICA FAMILIAR Justificativas contraditórias ou evasivas por parte dos responsáveis. Excesso de rigidez ou disciplina física imposta à criança. Falta deafeto e comunicação entre pais e filhos. Presença de familiares com histórico de violência ou abuso. Afastamento da criança de atividades escolares ou sociais. Quando uma criança ou adolescente revela, direta ou indiretamente, situações de violência sexual, é essencial que a equipe escolar saiba como agir de forma técnica, ética e acolhedora, sem julgamentos, oferecendo suporte adequado, ambiente seguro. A escuta e os encaminhamentos adequados são determinantes para a proteção e o bem-estar da vítima. COMO DEVE SER FEITA ESSA ESCUTA? Atenta e empática, sem julgamentos ou reações de choque. Reservada e individual, em ambiente seguro e sem interrupções. Respeitosa ao tempo e à forma de expressão da criança/adolescente. Livre de perguntas sugestivas ou detalhamento excessivo dos fatos. Não pressione a vítima para obter informações. Seja paciente e permita que ela fale livremente (revelação espontânea). 6 EVITE Fazer perguntas investigativas ou inquisitivas. Duvidar ou minimizar o que foi dito. Repetir o relato diversas vezes a diferentes profissionais. REFORCE COM FRASES COMO: "Você não tem culpa do que aconteceu." "Estou aqui para te ajudar." REGISTRO E DOCUMENTAÇÃO Faça anotações o mais breve possível após a escuta. Registre com fidelidade o que foi dito, utilizando as palavras da criança/adolescente sempre que possível. Evite incluir opiniões pessoais no relatório. Garanta a confidencialidade das informações – compartilhe apenas com as/os profissionais responsáveis pelo encaminhamento. ENCAMINHAMENTOS No Brasil, toda e qualquer prática sexual é proibida a pessoas com menos de 14 anos é limitada entre adolescentes de 14 a 18 anos. As primeiras regulamentações sobre esse assunto encontram-se registradas no Código Criminal do Império do Brasil (BRASIL, 1831). Desde então, foram estabelecidas normas com o intuito de proteger a sexualidade de crianças e adolescentes. Devemos considerar a violência sexual contra crianças e adolescentes uma violação à dignidade sexual desses sujeitos (alteração no Código Penal de 1940, Lei 12.015, Título VI – BRASIL). 7 A respeito de como encaminhar, use o documento de referência Guia de Orientações às Equipes Diretivas e Pedagógicas sobre os Protocolos a serem adotados em situações de violência intra e extra escolar envolvendo crianças e adolescentes: Clique aqui! Devemos considerar a violência sexual contra crianças e adolescentes uma violação à dignidade sexual desses sujeitos (alteração no Código Penal de 1940, Lei 12.015, Título VI – BRASIL). Se a equipe gestora da escola se recusar a IMPORTANTE: realizar a notificação, a/o profissional que recebeu o relato ainda tem a responsabilidade legal de comunicar o caso, neste caso, conte com o apoio da equipe multiprofissional do Núcleo de educação. O silêncio institucional pode configurar omissão e gerar responsabilização civil, administrativa e criminal. Após a escuta e o registro de uma suspeita ou confirmação de violência sexual, é dever da escola acionar imediatamente o Conselho Tutelar , conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Lei 13.431/2017. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS ÓRGÃOS NESSE PROCESSO DE PROTEÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES? A escola integra a rede de proteção à criança e ao adolescente, junto a diversos órgãos que atuam de forma articulada: 8 https://drive.google.com/file/d/1Crm_pUGGdoF2l5fG84_uqDM-V5yd3ZIg/view?usp=sharing Conselho Tutelar Responsável pela proteção dos direitos da criança e adolescente; aciona demais serviços da rede. Delegacia de Polícia/DPCA Investiga os fatos, instaura inquérito, solicita exames e provas. Ministério Público Fiscaliza o cumprimento das leis, acompanha denúncias e promove ações judiciais. Defensoria Pública Presta assistência jurídica gratuita às vítimas e suas famílias. Justiça da Infância e Juventude Aplica medidas de proteção e responsabilização, conforme o ECA. CREAS/CRAS Oferecem acompanhamento especializado multiprofissional às vítimas e suas famílias. Serviço de Saúde Atendimento clínico, psicológico e emissão de laudos médicos. 9 O QUE ACONTECE COM A NOTIFICAÇÃO DA VIOLÊNCIA A criança e o adolescente necessitam de atenção especial. Por isso, os órgãos competentes devem, simultaneamente, apurar os fatos e encaminhá-los aos serviços de assistência social, apoio médico e psicológico. ENCAMINHAMENTO AO INSTITUTO MÉDICO LEGAL (IML) A fase de apuração se inicia com a emissão de um Boletim de Ocorrência (B.O.), que é o primeiro passo para a instauração de um inquérito policial — peça fundamental para a responsabilização dos agressores. Em seguida, busca-se reunir dois tipos de provas da ocorrência: o laudo pericial e a prova testemunhal. Nos casos de suspeita de violência sexual ocorridos até 72 horas, as crianças ou os adolescentes devem ser encaminhados para hospitais de referência da região. Caso a violência tenha ocorrido há mais de 72 horas, as vítimas devem ser encaminhadas e acompanhadas pelos pais ou responsáveis legais (desde que estes não sejam suspeitos da violência) para Unidades de Saúde (US) da região. No laudo pericial, o(a) delegado(a) deve solicitar exames que verifiquem a ocorrência de ato sexual (conjunção carnal), lesões corporais (corpo de delito) e indícios de autoria do crime. Por isso, é essencial que as/os profissionais orientem pais e responsáveis quanto às providências imediatas após o abuso sexual, como não dar banho na criança e não lavar as roupas utilizadas. Laudos psicológicos também podem dar suporte a denúncias de violência sexual que não deixam marcas físicas visíveis. Nessa etapa, é necessário que a criança seja acompanhada ao IML por familiares, educadores ou outros responsáveis legais. O Conselho Tutelar também pode realizar esse encaminhamento. 10 APLICAÇÃO DE MEDIDAS DE PROTEÇÃO APÓS O IML Após os procedimentos no IML, a criança poderá retornar à sua residência. Caso isso não seja possível, ela deve ser encaminhada a família extensa ou a um abrigo, e o Juiz da Infância e Juventude deve ser informado, com posterior encaminhamento para acompanhamento psicológico. O Conselho Tutelar deverá aplicar outras medidas de proteção à criança e aos pais ou responsáveis, conforme previsto nos artigos 101 e 129 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). APURAÇÃO DOS FATOS A apuração prossegue com a oitiva da criança ou adolescente vítima de abuso, bem como de testemunhas. Uma postura cooperativa por parte do notificador pode amenizar o sofrimento da vítima, contribuindo para que o processo não se prolongue MITOS E VERDADES A desinformação e os estigmas sociais dificultam o reconhecimento da violência sexual e podem levar à negligência no atendimento. Abaixo estão alguns dos principais mitos que ainda circulam no imaginário social e profissional — e suas respectivas correções técnicas. desnecessariamente. Se a notificação for bem fundamentada, a autoridade competente pode optar por não ouvir o notificador. 11 MITOS VERDADES "O agressor é sempre um estranho." Na maioria dos casos, o agressor é alguém próximo da vítima: um familiar, vizinho ou pessoa conhecida e de confiança. "A criança inventa o abuso para chamar atenção." Crianças raramente inventam situações de abuso sexual. Quando relatam, mesmo que de forma fragmentada, é importante levar a sério e investigar. "Mulheres não cometem abuso sexual." Mulheres podem, sim, ser autoras de abuso sexual. No entanto, esses casos são menos denunciados por conta de estigmas sociais, preconceitos de gênero e até da forma como se entende o abuso — especialmente quando a vítima é um homem ou uma criança. "Dá para reconhecer um abusador só de olhar." Não há um perfil físico ou comportamental que identifique um abusador. Muitos são socialmente aceitos e ocupam posições de respeito na sociedade. "A violência sexual deixa sempre marcas físicas." Muitas vezes não há sinais físicos visíveis. Os indícios podem ser apenas comportamentais ou emocionais. "Educar sobre sexualidade incentiva asexualização precoce." Educação sexual é uma ferramenta de proteção. Ensinar sobre o corpo, os limites e o consentimento ou não, fortalece a autodefesa da criança. 12 AÇÕES DE PREVENÇÃO Educação Sexual e Prevenção da Violência Sexual A sexualidade tem importância fundamental em todas as fases do desenvolvimento humano, sendo indissociável da vida, pois envolve sentimentos, pensamentos e ações. Desde a década de 1970, a Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua a sexualidade como algo muito mais amplo do que a relação sexual e a reprodução: ela envolve desejo, busca de prazer, formas de expressão, comunicação e afeto. Inerente ao ser humano, desenvolve-se ao longo de toda a vida. Falar de sexualidade é, portanto, abordar tanto o individual quanto o cultural — crenças, valores, intimidades, sentimentos e emoções — e não apenas o sexo em si. Os direitos sexuais são direitos humanos universais, baseados na liberdade, dignidade e igualdade entre todas as pessoas. A saúde sexual, por sua vez, deve ser reconhecida como um direito fundamental, que precisa ser garantido com respeito à diversidade, sem moralismo e com base em fundamentos sólidos. Para que esse direito se efetive, é essencial que a educação sexual esteja presente de forma ética, informativa e respeitosa nos espaços educativos. Nesse contexto, a educação sexual se apresenta como a melhor forma de prevenção. Crianças e adolescentes que não recebem orientação adequada sobre sexualidade estão mais vulneráveis a informações distorcidas, incorretas e inadequadas, geralmente oriundas de meios de comunicação pouco confiáveis, como programas de televisão, redes sociais ou mesmo de seus próprios pares. A autodefesa, nesse cenário, torna-se um instrumento importante de proteção. Com acesso a conhecimentos apropriados sobre o próprio corpo, crianças e adolescentes desenvolvem, com mais segurança, a capacidade de tomar decisões, de reconhecer situações desconfortáveis e de dizer “não” quando necessário. Por isso, é imprescindível ensinar os direitos sexuais desde a infância, favorecendo um desenvolvimento saudável e integral. Conhecer as características de cada fase do crescimento ajuda educadores e responsáveis a evitar equívocos ao abordar o tema, respeitando as formas de expressão da sexualidade sem reprimi-las. 13 Cabe ao educador, portanto, estar sensibilizado e capacitado para observar e compreender as manifestações da sexualidade nas diferentes faixas etárias, respondendo às questões com linguagem simples, respeitosa e adequada ao nível de compreensão de cada criança ou adolescente. Além disso, é fundamental que cada educador utilize sua criatividade e sensibilidade para estabelecer vínculos com os estudantes, construindo uma abordagem acolhedora e significativa. A formação contínua e o compromisso com uma prática educativa que respeite as singularidades e a diversidade são caminhos essenciais para garantir uma educação sexual efetiva e humanizada. E ainda mais, a prevenção do abuso sexual envolve três frentes: PREVENÇÃO PRIMÁRIA Práticas recomendadas: Inserção da temática de sexualidade de forma transversal no currículo. Orientação sobre direitos do corpo, privacidade e consentimento. Desenvolvimento de projetos educativos com linguagem acessível e adequada à idade. Envolvimento das famílias e da comunidade escolar em campanhas de prevenção. Realização de oficinas, palestras e rodas de conversa com apoio da rede de proteção. Objetivo: Evitar que a violência ocorra. Ações voltadas à promoção de uma cultura de respeito, cuidado e proteção, com foco na conscientização e educação desde a infância. PREVENÇÃO SECUNDÁRIA Objetivo: Identificar precocemente situações de risco e evitar a repetição de abusos. 14 Ações focadas na detecção de sinais de violência e no fortalecimento da escuta e da vigilância ativa dentro da escola. Práticas recomendadas: Capacitação das equipes escolares para reconhecer sinais físicos, emocionais e comportamentais. Estabelecimento de protocolos internos claros de escuta e encaminhamento. Os educadores podem utilizar este material e o Guia de Orientações às Equipes Diretivas e Pedagógicas sobre os Protocolos a serem adotados em situações de violência intra e extra escolar envolvendo crianças e adolescentes. Registro sistematizado de observações e condutas adotadas. Parceria com os serviços da rede para acompanhamento de alunos em situação de desproteção social. PREVENÇÃO TERCIÁRIA Objetivo: Minimizar danos e prevenir novas ocorrências. Ações voltadas à proteção e acompanhamento de crianças e adolescentes que já sofreram violência sexual. Práticas recomendadas: Encaminhamento imediato aos serviços especializados (saúde, assistência, jurídico). No Guia de Orientações às Equipes Diretivas e Pedagógicas sobre os Protocolos a serem adotados em situações de violência intra e extraescolar envolvendo crianças e adolescentes, descreve-se passo a passo as orientações sobre como fazer a notificação. Acompanhamento pedagógico, garantindo a permanência e o vínculo com a escola. Apoio na reintegração segura no ambiente escolar e familiar. Participação da escola na articulação com o Conselho Tutelar, CREAS, Ministério Público e Judiciário. 15 PROPOSTAS DE AÇÕES PEDAGÓGICAS PARA O MAIO LARANJA O Maio Laranja é um momento estratégico para intensificar as ações de prevenção à violência sexual contra crianças e adolescentes. As escolas possuem papel fundamental na mobilização da comunidade escolar, na formação crítica de alunos e profissionais, e no fortalecimento da cultura de proteção e denúncia. A seguir, apresentamos sugestões de atividades pedagógicas e institucionais que podem ser organizadas de forma articulada com o currículo escolar e com o apoio da rede de proteção. Atividades com os estudantes Rodas de conversa temáticas com estudantes (adequadas à faixa etária), abordando temas como corpo, respeito, sentimentos, proteção e confiança. Oficinas de expressão artística (desenhos, cartazes, produção de vídeos ou teatro) com o tema "Você pode falar com a gente". Dinâmicas sobre confiança e cuidado: Quem são os adultos de confiança? Como pedir ajuda? Fortalecimento da Caixa “Escola escuta": reforçar e divulgar a caixa que é um espaço sigiloso para que estudantes deixem bilhetes com pedidos de ajuda ou sugestões. Envolvimento das famílias Reuniões formativas com pais e responsáveis sobre sinais de alerta e o papel da família na prevenção. Envio de materiais informativos (folders, vídeos curtos, links) sobre o 18 de Maio com canais de denuncia. Ações conjuntas com a comunidade e o Conselho Escolar para promoção de ambientes protetivos. 16 Formação de profissionais Mobilização da comunidade Campanhas internas de conscientização, com o uso da cor laranja (murais, laços, camisetas, faixas). Semana de Proteção com palestras, rodas de leitura e debates com profissionais da rede (CRAS, CREAS, Saúde, Conselho Tutelar, Promotoria, etc.). Participação em ações intersetoriais promovidas pelo município. Realização de formações internas sobre escuta, identificação de sinais e encaminhamentos. Discussão de casos fictícios para fortalecer a aplicação do protocolo de ação (estudos de caso). Mais do que cumprir um protocolo, trata-se de assumir um compromisso ético e institucional com a proteção integral de crianças e adolescentes, consolidando a escola como um espaço seguro e ativo na rede de proteção. A partir dessas orientações, esperamos fortalecer a atuação das equipes diretivas das escolas, atuando conectadas a equipe multiprofissional do Nucleo de Educação de Goioerê e incentivar a criação de práticas consistentes e permanentes no combate à violência sexual infantojuvenil. Seguimos todas/os com o compromisso firmado de exercitarmos nossos “olhares atentos” na luta por direitos de crianças e adolescentes enquanto uma conduta ética e humana. 17 REFERÊNCIAS BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm.Acesso em: 14 fev. 2025. BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2019/lei/L13935.htm. Acesso em: abr. 2025. BRASIL. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Altera o Código Penal e o ECA para dispor sobre crimes hediondos relacionados a crianças e adolescentes e institui o Programa de Prevenção e Enfrentamento do Abuso e Exploração Sexual da Criança e do Adolescente. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023- 2026/2024/lei/L14811.htm. Acesso em: abr. 2025. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de cuidado para atenção integral à saúde de crianças, adolescentes e suas famílias em situação de violência: orientação para gestores e profissionais de saúde. Brasília: MS, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_criancas _adolescentes_violencia.pdf. Acesso em: abr. 2025. BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde do Adolescente. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude- do-adolescente. Acesso em: 14 fev. 2025. BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos. Plano Nacional de Enfrentamento da Violência contra Crianças e Adolescentes. Brasília: MMFDH, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt- br/navegue-por-temas/crianca-e-adolescente/plano-nacional-de- enfrentamento-da-violencia-contra-criancas-e-adolescentes. Acesso em: abr. 2025. BRASÍLIA. Guia Escolar: métodos para identificação de sinais de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes: rede de proteção à infância. 2. ed. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Ministério da Educação, 2004. 163 p. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. A escola contra o abuso sexual infantil: guia de orientação aos profissionais de ensino – identificar, acolher e não se omitir. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 2018. 18 PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Guia de orientações às equipes diretivas e pedagógicas sobre os protocolos a serem adotados em situações de violência intra e extraescolar envolvendo crianças e adolescentes. 2. ed. Curitiba: SEED, 2024. PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação e do Esporte. Protocolo de fluxo para atendimento às situações de violência envolvendo crianças e adolescentes no ambiente escolar. Curitiba: SEED, 2021. Disponível em: https://www.educacao.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files /documento/2021- 06/protocolo_fluxo_atendimento_violencia_escolas.pdf. Acesso em: abr. 2025. 19