Prévia do material em texto
Unidade I – Direito Processual Civil III Sentença e Coisa Julgada SENTENÇA Sentença é o instrumento da prestação do Estado, na relação jurídico processual de primeiro grau de jurisdição, quando a parte vier a juízo, exercer sua pretensão à tutela jurídica. Sentença é, tanto o ato que extingue o processo sem resolução de mérito, como o que resolve o mérito causa (Art. 316 - A extinção do processo dar-se-á por sentença). Classificação quanto à natureza do bem jurídico visado a) Condenatórias (prescreve um certo comportamento para o obrigado, consistente no cumprimento de uma prestação passível de execução); b) Constitutivas (cria, modifica ou extingue um estado ou relação jurídica - ex. separação de cônjuges; rescisão de contrato; anulação de casamento etc); c) Declaratórias (seus efeitos são, apenas, de declarar a existência ou inexistência de relação jurídica; autenticidade ou falsidade de documento etc). d) Homologatórias (o ato judicial não penetra no mérito do negócio jurídico realizado, restringindo-se a homologar a autocomposição da lide pelas partes) Classificação quanto ao "alcance" a) Terminativas: Tem função, exclusivamente, de por fim à relação processual, extinguindo o processo sem resolução do mérito (art. 267). Nota: Art. 317 - Antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício. b) Definitivas: É a que exaure a instância, através da definição do juízo, dando solução ao litígio, com resolução do mérito, no todo ou em parte (art. 459 e 269) Art. 485 - O juiz não resolverá o mérito quando: I - indeferir a petição inicial; II - o processo ficar parado por mais de 1 ano por negligência das partes; III - o autor abandonar a causa, por mais de 30 dias ou não promover os atos e diligências que lhe incumbir; IV - na ausência de pressupostos de constituição e desenvolvimento, válido e regular, do processo; V - na existência de perempção, litispendência ou coisa julgada; VI - na ausência de legitimidade ou interesse processual; VII - acolher a existência de convenção de arbitragem ou se o juízo arbitral reconhecer sua competência; VIII - homologar desistência da ação; IX - se ocorrer morte da parte, e a ação for considerada intransmissível; e X - nos demais casos prescritos no CPC. NOTAS - Nos casos de abandono ou negligência (II e III), a parte será intimada pessoalmente para suprir a falta em 5 dias. - O juiz conhecerá de ofício, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito em julgado, a ausência de pressupostos do processo; perempção; litispendência; coisa julgada; ilegitimidade ou desinteresse processual; e os casos das ações intransmissíveis. - A desistência da ação pode ser apresentada até a sentença mas, após oferecida a contestação, esta depende do consentimento do réu. Após o oferecimento da contestação, a extinção do processo por abandono da causa, depende de requerimento do réu. - Interposta a apelação, o juiz terá 5 dias para retratar-se. - A sentença que não resolve o mérito, não obsta a que a parte proponha de novo a ação, mas a nova petição inicial não será despachada sem a prova do pagamento das custas e honorários advocatícios do processo anterior (art. 486). - Se ocorrer, por 3 vezes, sentença fundada em abandono da causa pelo autor, este não poderá propor nova ação contra o réu com o mesmo objeto (perempção - art. 486, §3 o ). Art. 487 - Haverá resolução de mérito quando o juiz: I - acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou reconvenção; II - decidir sobre ocorrência de decadência ou prescrição; III - homologar: (a) reconhecimento da procedência do pedido (na ação ou reconvenção); (b) transação; (c) renúncia; Art. 490 - O juiz resolverá o mérito acolhendo ou rejeitando, no todo ou em parte, os pedidos formulados pelas partes. Estrutura da Sentença Conteúdo São requisitos essenciais da sentença (art. 489): I – o relatório; II – os fundamentos de fato e de direito (motivação); e III – o dispositivo (conclusão) --- Sua inobservância leva à nulidade da sentença, podendo ser rescindida em grau de apelação ou objeto de ação rescisória. Relatório: Importante para estabelecer os limites da lide (art. 460), deve conter nomes das partes, identificação do caso, suma do pedido e contestação, registro das principais ocorrências do processo. Motivação: Cumpre ao juiz motivar sua decisão, expondo os fundamentos de fato e de direito que geraram sua convicção -- Sua inobservância acarreta nulidade do ato (art. 93, IX CF). Dispositivo: É o fecho da sentença e contém a decisão da causa, com a resolução das questões principais submetidas pelas partes (sentença sem dispositivo é ato inexistente). Requisitos básicos da sentença (Condições Formais) a) clareza (é clara a sentença que se apresenta inteligível e insuscetível de interpretações ambíguas ou equívocas); b) precisão (refere-se à certeza da decisão - para ser precisa, deve conter-se nos limites do pedido - art. 492). Defeitos da sentença - Não se considera fundamentada a decisão judicial que: - se limitar à indicação, reprodução ou paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou questão decidida; - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo de sua incidência no caso; - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo; - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar seu ajuste ao caso sob julgamento; - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a distinção no caso sub judice ou a superação do entendimento. - No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da ponderação efetuada. Nota: A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé. Correção e integração da sentença São duas as exceções ao princípio de irretratabilidade da sentença de mérito, pelo mesmo julgador que a proferiu (art. 494): I – Quando houverem "inexatidões materiais" e "erros de cálculo" (vícios que se percebam à primeira vista, sem necessidade de maior exame); II – Nos casos de oposição de Embargos Declaratórios (recurso endereçado ao próprio prolator da sentença e que, quando acolhidos, o juiz profere uma nova sentença, que complementa a primitiva). Importante: Art. 493 - Se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento do mérito, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento da parte, no momento de proferir a decisão (§ú - Se constatar, de ofício, o fato novo, o juiz ouvirá as partes antes de decidir - princípio do contraditório). Sentença ultra petita, citra petita e extra petita Segundo o artigo 492 CPC, é vedado ao juiz proferir decisão de natureza diversa da pedida, bem como condenar a parte em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado. Sentença extra petita é a que soluciona "causa de natureza diversa" ou "objeto diverso" do que foi proposto, através do pedido (incide em nulidade, a exemplo da que acolhe, contra o pedido, exceção não constante da defesa, salvo se a matéria for daquelas de conhecimento de oficio pelo juiz - art. 128). Sentença ultra petita é a que o juiz decide "além" do pedido, "em quantidade superior", dando mais do que fora pleiteado. Sentença citra petita é aquela que não examina todas as questões propostas pelas partes (art. 515, §1º 490). Coisa Julgada (art. 463) --- A entrega efetiva da prestação jurisdicional só se efetua quando a sentença transita em julgado (impossibilidadede recurso), operando a Coisa Julgada ---- Modernamente, a coisa julgada é concebida como qualidade especial da sentença, que torna imutável e indiscutível as questões decididas dentro (coisa julgada formal) ou fora (coisa julgada material) do processo. Coisa Julgada Formal Ocorre nos casos em que a sentença julga o processo, sem a resolução do mérito, ou de indeferimento da petição inicial, não mais se sujeitando a nenhum recurso, ordinário ou extraordinário (preclusão máxima, impeditiva da impugnação e reexame da sentença, na mesma relação processual: sua eficácia se limita ao processo no qual foi proferida) --- Atua dentro do processo em que a sentença foi proferida (art. 468), sem impedir que o objeto do julgamento volte a ser discutido em outro processo. Coisa Julgada Material Denomina-se coisa julgada material o contido na sentença, que julga total ou parcialmente o mérito, não mais sujeita a nenhum recurso, ordinário ou extraordinário (art. Art. 502). Sua ocorrência a torna o conteúdo da sentença irretratável, imutável e indiscutível, adquirindo "força de lei entre as partes e o juiz", impedindo que novas discussões e julgamentos a seu respeito venham a acontecer (arts. 467, 468 e 471 Art. 503). Diz respeito ao conteúdo da sentença (res judicata): envolve o direito discutido e provado --- A imutabilidade vai além dos limites daquele processo, não podendo a matéria ser discutida em nenhum outro --- Tão grande é o apreço da ordem jurídica pela coisa julgada que sua imutabilidade não é atingível, sequer, pela lei ordinária - art. 5º. XXXVI CF. Importante: As razões de decidir não fazem coisa julgada material, apenas o DISPOSITIVO (art. 504) - também não fazem coisa julgada a "verdade dos fatos" (art. 469, II) e a apreciação de questão prejudicial, decidida incidentemente (art. 469, III). Limites da coisa julgada Limite subjetivo: Em regra, sentença faz coisa julgada apenas às partes, não prejudicando terceiros (art. 506) Excepcionalmente pode alcançar terceiros, como o sucessor (causa mortis), o responsável subsidiário etc - art. 472 CPC. Limite objetivo: a autoridade da coisa julgada é baseada no pedido do autor e na resposta do réu (parâmetros para decidir): a não observância desses parâmetros acarreta vício na sentença. Relativização da coisa julgada Art. 505 - Nenhum juiz decidirá, novamente, questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito: a parte poderá pedir a revisão do estatuído na sentença; II - nos demais casos prescritos em lei. Art. 507 - É vedado à parte discutir, no curso do processo, questões já decididas, em que já se operou a preclusão. Art. 508 - Transitada em julgado a decisão de mérito, considerar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor.