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10. 1 Princípio do da Prova e a inversão do ônus da prova Como exposto, artigo 373 do CPC consagra a regra de quem compete a iniciativa probatória. Via de regra, sistema processual defereao autor o ônus de provar o fato constitutivo de seu direito (inciso I) e ao réu acerca do fato impeditivo, modificativo e extintivo do direito do autor (inciso II). Daí que o ônus de provar sempre recairá sobre fato positivo, ou seja daquele que aconteceu na realidade social e que fora alegado pela parte e controvertido por outra. A despeito do ônus da prova ser um encargo da parte, o Novo CPC em seu artigo 370 consagrou como regra geral (e não apenas pontualmente, como fazia o CPC revogado) a possibilidade do juiz determinar ex officio, ou a pedido, a produção de provas que entender necessária para a comprovação de fatos necessários para o julgamento do mérito. Todavia, essa possibilidade da determinação ex officio da produção de provas cria controvérsias quando se trata de realização de prova pericial em virtude do custo que gera; neste caso, é recomen- dável que o Poder Judiciário realize convênios com universidades e instituições de pesquisa das mais variadas áreas, a fim de viabilizar a efetivação das provas determinadas ex officio, especialmente as periciais, com o menor custo possível. Igualmente o juiz poderá indeferir diligências inúteis ou mera- mente protelatórias. o que prevê o parágrafo único do referido artigo 370 do CPC e sua norma visa assegurar a celeridade do processo, sem obstar a produção de prova que se revela propositadamente séria. Por outro lado, diz o artigo 374 do CPC, que não haverá a ne- cessidade de provar os fatos: I notórios; II afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária; III admitidos no processo como incontroversos; e IV em cujo favor milita presunção legal de exis- tência ou de veracidade. Também não se prova o direito legislado. É um efeito do iura novit curia, pois se o juiz conhece o direito como diz esse ditado, não haveria necessidade de ser provado nos autos. No entanto, o Novo CPC reitera uma exceção aplicada em códigos anteriores: o juiz pode determinar que a parte prove o teor e a vigência do direito estadual, municipal, estrangeiro ou consuetudinário que tenha alegado no processo (art. 376). Essa norma tem aplicação sobremaneira quando os parâmetros jurídicos da lide estão delineados por decretos, portarias ou resoluções de poderes públicos, como sói acontecer em demandas ambientais e fiscais. A prova do direito legislado (legal ou infralegal) pode ser obtida mediante certidão da respectiva Assembléia Legislativa ou Câmara Mu-nicipal, ou diretamente do sítio do órgão público. A prova do direito estrangeiro se faz mediante certidão do texto legal em língua original e a respectiva ambas certificadas pela Por fim a prova dos costumes pode ser obtida por meio de certidão da Junta Comercial (caso se trate de usos e costumes comerciais) ou por amplos meios de prova, como documentos e testemunhas. Por outro lado o § 1° do artigo 373 do CPC prevê a possibilidade da distribuição por modo diverso do ônus da prova nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossi- bilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário. Na primeira hipótese casos previstos em lei é possível haver até mesmo a inversão do ônus da prova quando a demanda envolver direito do consumidor (CDC, art. 6°, VIII) ou nos casos de ação civil pública da Lei n° 7.347/1985, em vista da aplicação do CDC a essas ações como previsto no artigo 21 da lei supracitada. Assim, é possível haver a inversão do ônus da prova nas ações civis públicas que envol- verem direito do consumidor ou direito ambiental, por exemplo. Na segunda hipótese peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo pro- batório - pode ocorrer de duas maneiras distintas.A primeira reside na impossibilidade fática, em virtude de algum obstáculo ou material sobre a prova a ser produzida em prejuízo contra quem tem o ônus da prova. É o caso, por exemplo, num litígio entre um industrial e o seu fornecedor do produto-base químico, ao qual a prova da integridade desse produto deverá ficar a cargo do fornecedor, pois somente este detém a fórmula química que compõe o produto-base, eis que mantido sem segredo. Não há como falar em impossibilidade jurídica em obter a prova, pois neste caso compete à parte interessada requerer a exibição em juízo do documento ou coisa (CPC, arts. 380, 396-404) ou ainda requerer ao juízo que se expeça ofício a fim de requisitar informações ou documentos (CPC, art. 438) caso sofra algum obstáculo jurídico para a obtenção de uma prova. A segunda ocorre na chamada hipossuficiência técnica e advém dos casos em que somente uma parte detém conhecimento técnico sobre a questão fática submetida à prova. É o caso do Ministério Público, que a despeito de ser hipersuficiente economicamente, também é hipos- suficiente tecnicamente para comprovar a causa do derramamento depetróleo na camada pré-sal discutido numa ação civil pública por dano ambiental. Neste caso, igualmente haverá a inversão do ônus da 240 Assentou o STJ: "PROCESSUAL CIVIL E AMBIENTAL. AÇÃO CIVIL BLICA. RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL. CONTAMINAÇÃO COM DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. ÔNUS DINÂMICO DA PROVA. CAMPO DE APLICAÇÃO DOS ARTS. 6°, VIII, E 117 DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO. POSSIBILIDADE DE INVERSÃO DO ONUS PROBANDI NO DIREITO AMBIENTAL. PRINCÍPIO IN DUBIO PRO NATURA. 1. Em Ação Civil Pública proposta com o fito de reparar alegado dano ambiental causado por grave contaminação com mercúrio, o Juízo de 1° grau, em acréscimo à imputação objetiva estatuída no art. 14, § 1°, da Lei 6.938/81, determinou a inversão do ônus da prova quanto a outros elementos da responsabilidade civil, decisão mantida pelo Tribunal a quo. 2. regime geral, ou comum, de distribuição da carga probatória assenta-se no art. 333, caput, do Código de Processo Trata-se de modelo abstrato, apriorístico e estático, mas não absoluto, que, por isso mesmo, sofre abrandamento pelo próprio legislador, sob o influxo do ônus mico da prova, com o duplo objetivo de corrigir eventuais iniquidades práticas (a probatio diabólica, p. ex., a inviabilizar legítimas pretensões, mormente dos sujeitos vulneráveis) e instituir um ambiente ético-processual virtuoso, em cumprimento ao espírito e letra da Constituição de 1988 e das máximas do Estado Social de Direito. 3. No processo civil, a técnica do ônus dinâmico da prova concretiza e aglutina os cânones da solidariedade, da facilitação do acesso à Justiça, da efetividade da prestação jurisdicional e do combate às desigualdades, bem como expressa um renovado due process, tudo a exigir uma genuína e sincera cooperação entre os su- jeitos na demanda. 4. legislador, diretamente na lei (= ope legis), ou por meio de poderes que atribui, específica ou genericamente, ao juiz (= ope judicis), modifica a incidência do ônus probandi, transferindo-o para a parte em melhores condições de suportá-lo ou cumpri-lo eficaz e eficientemente, tanto mais em relações jurídicas nas quais ora claudiquem direitos indisponíveis ou intergeracionais, ora as vítimas transitem no universo movediço em que convergem incertezas tecnológicas, informações cobertas por sigilo industrial, conhecimento especializado, redes de causalidade complexa, bem como danos futuros, de manifestação diferida, protraída ou prolongada. 5. No Direito Ambiental brasileiro, a inversão do ônus da prova é de ordem substantiva e ope legis, direta ou indireta (esta última se manifesta, p. ex., na derivação inevitável do princípio da precaução), como também de cunho estritamente processual e ope judicis (assim no caso de hipossuficiência da vítima, verossimilhança da alegação ou outras hipóteses inseridas nos poderes genéricos do juiz, emanação natural do seu ofício de condutor e administrador do processo). 6. Como corolário do princípio in dubio pro natura, 'Justifica-se a inversão do ônus da prova, transferindo para o empreendedor da atividade potencialmente perigosa o ônus de demonstrar a segurança do empreendimento, a partir da interpretação do art. VIII, da Lei 8.078/1990 c/c o art. 21 da Lei 7.347/1985, conjugado ao Princípio Ambiental da (REsp 972.902/RS, Rel. Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 14.9.2009), técnica que sujeita aquele que supostamente gerou o dano ambiental a comprovar'que não o causou ou que a substância lançada ao meio ambiente não lhe é potencialmente lesiva' (REsp 1.060.753/SP, Rel. Min.Em termos concretos, o TJPR admitiu a inversão do ônus da prova em favor de pessoa jurídica em virtude de sua hipossuficiência técnica: Ação revisional de contrato - Cédulas de crédito bancário. 1. Pretensão de afastamento de aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC) Impossibilidade Pessoas jurídicas que, embora não seja destinatárias finais, são vulneráveis Hipossuficiência técnica caracterizada Mitigação da teoria finalista Precedentes desta Corte. 2. Inversão do ônus da prova CDC, art. inc. VIII - Possibilidade - Hipossufi- ciência do consumidor E nesse sentido o TJPR vem reconhecendo hipossuficiência técnica nas ações movidas contra instituições financeiras a fim de rediscutir a co- brança indevida de juros abusivos e taxas e outros encargos O fundamento nuclear da inversão do ônus da prova é uma forma de equalizar a relação processual, a fim de que o instrumento seja um efetivo meio de composição do conflito social sob a égide de regras democráticas. E na democracia tanto se respeita a liberda- Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 14.12.2009). 7.A inversão do ônus da prova, prevista no art. 6°, VIII, do Código de Defesa do Consumidor, contém comando normativo estritamente processual, o que a sob o campo de aplicação do art. 117 do mesmo estatuto, fazendo-a valer, universalmente, em todos os domínios da Ação Civil Pública, e não só nas relações de consumo (REsp 1049822/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, Primeira Turma, Dje 18.5.2009). 8. Destinatário da inversão do ônus da prova por hipossuficiência juízo perfeitamente compatível com a natureza coletiva ou difusa das vítimas não é apenas a parte em juízo (ou substituto processual), mas, com maior razão, o sujeito-titular do bem jurídico primário a ser protegido. 9. Ademais, e este o ponto mais relevante aqui, importa salientar que, em Recurso Especial, no caso de inversão do ônus da prova, even- tual alteração do juízo de valor das instâncias ordinárias esbarra, como regra, na Súmula 7 do STJ. 'Aferir a hipossuficiência do recorrente ou a verossimilhança das alegações lastreada no conjunto probatório dos autos ou, mesmo, examinar a necessidade de prova pericial são providências de todo incompatíveis com o recurso especial, que se presta, exclusivamente, para tutelar o direito federal e conferir-lhe uniformidade' (REsp 888.385/RJ, Segunda Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 27.11.2006. No mesmo sentido, 927.727/MG, Primeira Turma, Rel. Min. José Delgado, DJe de 4.6.2008). 10. Recurso Especial não provido". Cf: RESP n° 883656/RS, T., rel. Min. Herman Benjamin, j. 09/03/2010. 241 A.I. 1688128-2, CCiv., CCiv., rel. Des. Rabello Filho, j. 18/10/2017. 242 Apel. Civ. 1696999-6, CCiv., rel. Des. Octavio Campos Fischer,j 18/10/2017; e A.I. 1717111-4, CCiv., CCiv., rel. Des. Rabello Filho,j 11/10/2017.de individual como também se busca a promoção de indivíduos em situação de hipossuficiência. Por isso acresce o § 2° do artigo 373 do CPC que a distribuição do modo diverso não pode gerar situação em que a do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente Ou seja, noutras palavras, a inversão do ônus da prova não é meio de transferên- cia de obstáculos de uma parte à outra; ocorrendo isso, o juiz deverá refazer a distribuição do ônus da prova. É o caso, por exemplo, de uma ação de indenização por erro médico em que a autora reclama a sua hipossuficiência, o que motivou o juiz determinar a inversão do ônus da prova, impondo ao hospital filantrópico tal encargo, que por sua vez reclamou a hipossuficiência econômica em vista de interdição judicial. Neste caso, será preciso redistribuir o ônus da prova. Outra possibilidade de distribuição diversa da prova se dá por convenção entre as partes, ocorrida antes ou durante o processo 3° e 4° do art. 374 do CPC). Mas essa convenção não será admitida pelo juiz - o que significa que o juiz poderá determinar outro modo de distribuição do ônus da prova - se recair sobre direito indisponível da parte, ou tornar excessivamente dificil a uma parte o exercício do direito. Essa cláusula de reserva já era prevista no CPC revogado (art. 333, parágrafo único). Típico exemplo ocorre num contrato de cons- trução de uma obra, onde as partes já estipulam em cláusula contratual a distribuição do ônus da prova acerca de detalhes técnicos dessa obra, como do construtor acerca das fundações e do dono da obra acerca da qualidade do material fornecido.