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Introdução à Execução Penal 2 Terá a execução penal uma abordagem preponderantemente dogmática, a qual realiza análise da legislação e a partir dela sedimenta seu conhecimento. Uma perspectiva zetética visa questionar a ordem das coisas, de forma a refletir sobre o sistema. A Execução Penal será dividida num conceito legal, a qual estará prevista no artigo primeiro da LEP, trazendo consigo os objetivos da lei de execução penal (efetivar a sentença e a ressocialização) e doutrinário, sendo fase processual que concretiza a pretensão executória da pena e as finalidades da sanção penal. Vale salientar que a Execução Penal prosseguirá por meio de incidentes, sendo acontecimentos no decorrer da pena (exemplo do incidente de progressão de regime). Finalidades da Pena Teoria da finalidade retributiva ou absoluta: retribuir o mal causado com outro mal, de forma a não compreender a pena como uma ferramenta capaz de produzir algo para o indivíduo, ou seja, não virá a prevenir novos crimes. Para essa teoria a pena é um fim em si mesmo, visando apenas retribuir o mal causado pelo infrator, este através da restrição de liberdade, patrimônio, entre outros. Teoria da finalidade preventiva ou utilitarista: para essa teoria a pena terá uma utilidade para sociedade ou para o indivíduo, estando ela voltada para prevenção (evitar a prática de novos crimes). Divide-se em prevenção geral, destinada para toda a sociedade ou prevenção individual (especial). Para a teoria da prevenção geral a pena comunica a existência de uma ordem social sólida, em que os cidadãos poderão confiar (prevenção geral positiva), bem como representa meio de intimidação o qual promove efeito dissuasório, o qual inibe a prática de novos crimes (prevenção geral negativa). Enquanto para teoria da prevenção especial compreende que a pena busca ressocializar o indivíduo (prevenção especial positiva) ou ao menos neutralizá-lo, em razão da sua restrição da sua ação (prevenção especial negativa). Teoria agnóstica de Zaffaroni: para ele, as teorias tradicionais não seriam capazes de justificar racionalmente a pena, sendo questionada a possibilidade de compreensão dos fins da pena – para Zaffaroni apenas se sabe que a pena é uma forma de violência institucional contra a pessoa. Teoria crítica da pena: a pena tem por finalidade a redução de danos e a diminuição da vulnerabilidade. Para LEP, prevalece a finalidade retributiva e a prevenção especial positiva. Já para o STF a pena no Brasil é polifuncional, produzindo diversas funções a depender do momento (a pena em abstrato objetiva a prevenção geral, a aplicação da pena em concreto a prevenção especial negativa e retribuição, a execução da pena visa a realização da prevenção especial positiva). Autonomia e natureza jurídica da execução penal São três as teorias que discutem a natureza jurídica da execução penal. A primeira será a administrativa, sendo a execução atividade do Poder Executivo, sem interferência do Poder Judiciário. A segunda será mista, contemplando atividades administrativas e judiciais. Mesmo que a atividade de gestão da unidade prisional venha a ser atividade do Poder Executivo, o Poder Judiciário exerce fiscalização – algumas situações serão exclusivas do Judiciário, como a homologação de falta grave, regressão de regime e prisão domiciliar. A terceira teoria será a jurisdicional em que para essa vertente todos os atos estariam sujeitos a intervenção judicial – prevalece em nosso sistema a teoria mista. Será a LEP aplicável naquilo que couber ao preso provisório. O alvará de soltura em termos será quando for solto em razão de um processo, mas preso devido a outro (preso definitivo em um, mas provisório em outro). Será a execução definitiva a regra, ocorrendo após o trânsito em julgado, com início a partir da expedição do documento de guia definitiva de execução (expedida pelo juízo da condenação). Execução provisória ocorrerá quando a prisão preventiva for decretada e confirmada em sentença, havendo a expedição da guia de execução provisória – provisória visto possibilidade de ser modificada por recursos. No tema 1.068 do STF foi decidido que as sentenças condenatórias proferidas no Tribunal do Júri estão sujeitas a execução imediata, mesmo que haja ou não recurso, independendo de vir a ser execução definitiva ou provisória – será expedida guia provisória em razão da possibilidade de modificação da decisão. Tanto a guia de execução definitiva, quanto a guia de execução provisória poderão gerar unificação. Não será possível a execução de pena restritiva de direitos antes do trânsito em julgado da condenação (Súmula 643, STJ). Sendo a condenação em regime semiaberto, será discutida a compatibilidade da prisão preventiva em sede recursal. Assim, haverá a previsão de dois posicionamentos pelo STF, em que um verifica-se a incompatibilidade, em razão a violação ao princípio da proporcionalidade a tentativa de compatibilizar a prisão com o regime. Em outro posicionamento pelo STF, verifica-se a compatibilidade desde que realizada a efetiva adequação ao regime intermediário. Dito isso, em regra não poderá ocorrer, mas se verificar fundamentação concreta pelo juízo da condenação, é possível. Instrumentos normativos da execução Será feito uso da LEP, do estatuto penitenciário, resoluções do CNJ (ênfase as resoluções 113, trata da execução; 213, sobre a custódia; 391, remição; 487, antimanicomial), princípios de Yogyakarta (documento não vinculante sobre direitos humanos nas áreas de orientação sexual e identidade de gênero), regras de mandela (documento não vinculante que tratará de pessoas presas num geral). Leis penais especiais, CPP, lei nº 10.216/2001, lei nº 13.146/2015 (reforma psiquiátrica), direitos humanos das pessoas privadas de liberdade e tratados internacionais aplicáveis, súmulas e jurisprudências. Princípios da execução penal Legalidade (art. 45, LEP): não será possível a aplicação de sanções disciplinares sem que haja previsão legal ou regulamentar. Devido a esse princípio, veda-se analogias contra o réu e na execução penal contra a pessoa presa, a irretroatividade da lei penal. Humanidade das penas (DUDH, regras de mandela, art. 45, §2º e 3º da LEP): impossibilidade de penas que venham a dispor de caráter cruel e degradante, bem como o trabalho forçado imposto ao condenado. Personalidade ou intranscedência da pena (art. 5º, XLV, CF): o cumprimento da pena pelo preso não poderá acarretar em reflexos para terceiros se não a ela mesma – exemplo da isenção da pena de multa quando verificado prejuízo ao patrimônio pessoal da família. Individualização da pena (art. 5º, XLVI, CF): aplicação de pena compatível com o ato praticado, bem como sua individualização. Será aplicado na fase legislativa, judicial (considera as individualidades no momento da sentença) e na execução da pena (a partir do momento em que se considera as habilidades para trabalho do preso). Responsabilidade subjetiva (art. 45, §3º, LEP): para punir deverá ter prova concreta do dolo ou culpa do acusado. Isonomia ou vedação à discriminação (art. 3º da LEP – less eligibility). Classificação O exame de classificação (art. 5º, LEP) será direito do condenado, havendo exame de antecedentes e personalidade (biológico, psicológico, psiquiátrico e social), tendo como objetivo orientar a execução da pena. O exame criminológico visa avaliar, de forma concreta, o grau de periculosidade de uma pessoa. Será dividido em exame de entrada (art. 8º, LEP – restrito aos que estiverem em regime fechado e facultativo aos que estiverem em regime semiaberto) e de saída (Súmula Vinculante 26, STF – será feito apenas nos casos em que vir a dispor de fundamentação concreta, visto não ser feita de fato). São exames que acabam por não acontecer na prática, havendo apenas a separação por risco. Identificação de perfil genético A Lei de Identificação Criminal (art. 5º, lei nº12.037/2009) prevê a sua realização com autorização judicial para pessoa certa, porém, sem autorização judicial para coleta de material de pessoa incerta no localdo crime –estarão relacionadas com um fato certo. A LEP (art. 9-A) autoriza que seja criado um banco de dados, o qual visa armazenar dados de pessoas condenadas por determinados crimes, visando auxiliar investigações futuras – ficarão com esses dados por tempo indeterminado, ressaltando não precisarem de autorização judicial para realizarem a coleta. Banco de dados de perfil genético com criação autorizada pela LEP, traz discussões sobre o direito de não produzir provas contra si mesmo e direito a privacidade, vindo a dispor de duas correntes – a primeira considera não violar, visto não demandar um comportamento ativo e dispor de método indolor; outra considera violar, por ser uma intervenção corporal invasiva. · Tema objeto de Recurso extraordinário no STF com repercussão geral reconhecida desde 2016 – admitido pelo STJ e TJPR. Serão submetidos os que forem condenados por crime doloso, contra a vida, contra liberdade sexual ou por crime sexual contra vulnerável, ressaltando que somente presos condenados serão submetidos a identificação. O preso que se recusar a fornecer o material para exame cometerá ato de indisciplina o qual incide em falta grave (art. 9º, §8º, 50, VIII, LEP). Identificação criminal será o ato que visa a identificação de pessoa ou coisa que venha a ser de interesse da justiça. Identificação de perfil genético será técnica a qual realiza análise de dados de DNA. Assistência ao preso Refere-se a conjunto de prestações positivas que visam viabilizar o cumprimento da pena pelo preso de forma digna, a qual será subdividida em sete modalidades: Material (art. 12, LEP), bens materiais para o cumprimento da pena de forma digna (higiene pessoal, vestuário e alimentação); saúde (art. 14, LEP), assistência de saúde dentro da unidade prisional. Caso o preso venha a ter doença grave, será possível a prisão domiciliar (art. 117, LEP); grávidas poderão tirar a tornozeleira para o parto e coloca-las posteriormente. Jurídica (art. 15, LEP), em regra, a assistência será feita pela Defensoria Pública – inconstitucionalidade progressiva da advocacia dativa; Defensoria pode atuar como custos vulnerabilis (intervenção da Defensoria em processos para defender os direitos de pessoas em situações de vulnerabilidade); educacional (art. 17, LEP); social (art. 22, LEP), amparo e preparo ao retorno à sociedade; religiosa (art. 24, LEP); egresso (art. 25, LEP). Trabalho Objetivo em promover o equilíbrio orgânico e psíquico, fonte de renda e meio de redução da pena (remição). Dispõe de finalidade educativa e produtiva (art. 28, LEP). Discussões sobre vir a ser dever (art. 39, V, 50, VI, LEP) ou direito (art. 41, II, LEP), sendo verificada permissão para realização do trabalho obrigatório (preso que não trabalhar estará sujeito a falta), mas inconstitucional o trabalho forçado. Trabalho interno será feito dentro estabelecimento prisional, relacionado a atividades da unidade, enquanto o trabalho externo será feito fora do estabelecimento, com o uso de tornozeleira e realização em estabelecimento conveniado a unidade prisional. Aquele que realizar trabalho interno não estará sujeito a CLT, bem como o trabalho externo em regime fechado. O preso que estiver em regime semiaberto encontrará divergência. Caso haja acidente de trabalho só será processado mediante a Justiça do Trabalho se possuir vínculo com a CLT, nos casos em que não possuir será mediante a VEP. São espécies de canteiros de trabalho o artesanato; CLT, com a possibilidade do preso ter registro CLT com empresas conveniadas a unidade prisional; cooperado; próprio; voluntário. Alocação e deslocação do canteiro de trabalho será feito mediante exame da CTC somada a decisão do diretor do estabelecimento prisional o qual levará em conta critérios de aptidão, disciplina e responsabilidade. Deve ressaltar que o diretor quem decidirá se o preso virá a trabalhar ou não e onde trabalhará. O preso do regime fechado só poderá passar para o trabalho externo caso tenha cumprido 1/6 da pena, sendo tempo considerado relevante para que o diretor do estabelecimento prisional possa analisar a aptidão, disciplina e responsabilidade do preso. Para o regime semiaberto haverá a previsão de duas correntes, em que o réu foi condenado ao regime fechado e, após cumprir lapso correspondente, progride para o regime semiaberto, não sendo necessário cumprir um 1/6 da pena do regime semiaberto para trabalho externo, aproveitando o cumprido pelo regime fechado; o réu condenado a iniciar o cumprimento da pena no regime semiaberto, não será exigido o requisito objetivo de cumprimento de 1/6 da pena. Não será vedado para crimes hediondos ou graves, porém, a lei nº 14.843/2024 prevê no art. 122, §2º, LEP que terá direito à saída temporária ou ao trabalho externo sem vigilância direta. O condenado perde o direito ao trabalho nos casos em que vier a praticar crime, falta grave ou comportamento contrário a aptidão, disciplina e responsabilidade. Remuneração no patamar mínimo de ¾ do salário-mínimo, porém, encontra divergência sobre a constitucionalidade dessa diferenciação entre pessoas presas e livres. Destinação da remuneração será de 80% para o beneficiário, valor o qual só poderá ser utilizado quando progredir do regime semiaberto para o aberto, e 20% para poupança ou pecúlio. Liberação antecipada de pecúlio se dará apenas mediante autorização do juízo da execução em caso de prisão domiciliar ou semiaberto monitorado, falecimento de titular, enfermidade grave, decisão judicial. Jornada de trabalho de 6 a 8 hora, com a possibilidade de horário especial. Estabelecimentos penais Haverá a penitenciária (regime fechado); colônia agrícola, industrial ou similar (regime semiaberto), em que trabalha durante o dia dentro do estabelecimento e a noite dorme numa cela, sem dispor de contato com o mundo exterior. Casa de albergado (regime aberto e PRD de limitação de final), ficando fora dela durante o dia, laborando em local diverso e a noite vem a dormir nela, porém, não existe na prática; hospital de custódia e tratamento psiquiátrico (medida de segurança); cadeia pública (presos provisórios). Pessoas trans terão o direito de escolha no que concerne ao cumprimento da pena num estabelecimento prisional feminino ou masculino, desde que sua segurança venha a ser garantida. Cela especial será prevista apenas para prisão processual (prisão preventiva), de forma que a sala de estado maior seguirá o mesmo entendimento. Concessão de prisão especial até decisão penal definitiva para pessoas com diploma de ensino superior violam o princípio da isonomia. Regimes de cumprimento de pena Não deve estabelecimento ser confundido com regime, de forma que no estabelecimento haverá a aplicação do regime. Regime será o meio pelo qual se efetiva o cumprimento da pena, de forma que as espécies serão o fechado, semiaberto ou aberto, com fixação pelo juiz da sentença. Os critérios para fixação do regime será a dosimetria, a qual será dividida em três fases, sendo elas a pena base (circunstâncias judiciais do art. 59 do CP, podendo elas serem neutras, positivas ou negativas), pena intermediária (agravante e atenuante) e a pena definitiva (causas de aumento e diminuição), somados ao art. 33 do CP + Súmula 269 do STJ. Caso as circunstâncias judiciais venham a ser positivas ou neutras elas poderão manter ou diminuir a pena, mas se forem negativas servirá para aumentar a pena em 1/6 ou um 1/8 a pena mínima, sendo aplicada para cada circunstância. · Maus antecedentes referem-se ao histórico criminal do acusado (decorrido o prazo de cinco anos, deixa o indivíduo de ser considerado reincidente, mas carregará em sua ficha o gravame de maus antecedentes), enquanto a reincidência (circunstância agravante) diz respeito à prática de um novo crime por parte de um indivíduo que já foi condenado anteriormente. Regime inicial será fechado se a pena for superior a 8 anos, semiaberto se for maior que 4 anos e menor ou igual a 8 anos (caso o condenado venha a ser reincidente o regime inicial será fechado), aberto se a pena forde até 4 anos (condenado reincidente o regime será semiaberto ou fechado, o qual será definido pelas circunstâncias judiciais – desfavoráveis será fechado e favorável para o aberto). Detenção o regime inicial nunca poderá ser fechado, semiaberto caso a pena venha a ser maior que quatro anos e aberto se a pena for de até quatro anos (caso o condenado venha a ser reincidente o regime inicial será o semiaberto). Período depurador será período considerado para limpar a imagem do sujeito, sendo período de cinco anos após o cumprimento ou extinção da pena, em que os efeitos da reincidência estão vigentes. Deve ressaltar que não será contado do trânsito em julgado, mas sim da extinção da pena. Regime semiaberto harmonizado: falta de estabelecimento penal adequado não autoriza a manutenção do condenado em regime prisional mais gravoso, devendo ser observado os parâmetros previstos no RE 641.320/RS do STF. Os parâmetros do RE prevê que, havendo a viabilidade, ao invés da prisão domiciliar deve ser observada a saída antecipada de sentenciado no regime com falta de vagas, a liberdade eletronicamente monitorada do recorrido (enquanto em regime semiaberto) ou o cumprimento de penas restritivas de direito e/ou estudo ao sentenciado após progressão ao regime aberto. Poderão os juízes da execução penal avaliarem os estabelecimentos destinados aos regimes semiaberto e aberto, verificando sua qualificação como adequado para tais regimes. Serão aceitáveis estabelecimentos que não se qualifiquem como colônia agrícola / industrial (regime semiaberto) ou casa de albergado / estabelecimento adequado (regime aberto). Não poderá existir alojamento conjunto de presos dos regimes semiaberto e aberto com presos do regime fechado – entendimento sumulado, havendo custódia de presos num mesmo estabelecimento carcerário. Regime aberto harmonizado: em regra, ficará o dia fora e a noite numa casa de albergado, porém, justificada pela falta das casas de albergado, ficará o dia fora e a noite em casa (finais de semana também ficará em casa). Comprovação de trabalho ou a possibilidade de fazê-lo de forma imediata é obrigatória, podendo ser flexibilizada mediante demonstração do desempregado. · Monitoração eletrônica será admitida no regime semiaberto harmonizado, sendo ainda possível a defesa da sua incompatibilidade com o regime aberto. Progressão de regime Caminhar de um regime mais grave para um menos grave. Terá como requisito objetivo o tempo de pena cumprida, enquanto o subjetivo será disciplinar e comportamental. Caso o crime tenha sido praticado antes do pacote anticrime (23/01/2020) haverá aplicação de uma regra (uma para crimes comuns e outra para crimes hediondos) e se cometido após o pacote terá aplicação de outra regra.