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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 5 1. EXECUÇÃO PENAL E JUSTIÇA RESTAURATIVA ................................................ 4 1.1. Jurisdição ....................................................................................................... 6 1.2. Finalidade da pena e justiça restaurativa ....................................................... 7 2. LEI DE EXECUÇÃO PENAL – LEI N.º 7.210/1984 ........................................ 9 3. DA ASSISTÊNCIA AO RECLUSO ................................................................ 12 4. EGRESSOS ................................................................................................. 15 5. DO TRABALHO ............................................................................................ 15 6. DOS DEVERES, DOS DIREITOS E DAS DISCIPLINAS DO PRESO ......... 17 6.1. Das disciplinas .............................................................................................. 19 6.2. Das faltas graves .......................................................................................... 21 6.3. RDD - Regime Disciplinar Diferenciado ........................................................ 25 7. ÓRGÃOS DE EXECUÇÃO PENAL .............................................................. 29 8. ESTABELECIMENTO PENAIS .................................................................... 30 9. REGIMES DE CUMPRIMENTO DE PENA .................................................. 32 10. AUTORIZAÇÕES DE SAÍDA ........................................................................ 33 11. OUTROS INSTITUTOS DA LEP .................................................................. 34 12. EXAME CRIMINOLÓGICO E LIVRAMENTO CONDICIONAL ..................... 35 13. PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS ......................................................... 38 14. NOVAS PREVISÕES DO PACOTE ANTICRIME – LEI N.º 13.964/2019 ..... 42 14.1. Colheita de DNA ........................................................................................... 42 14.2. Falta Grave ................................................................................................... 44 14.3. Regras mais rigorosas para o RDD...... ........................................................ 44 14.4. Progressão de Regime ................................................................................. 47 14.5. Saída Temporária ......................................................................................... 49 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 51 INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 1. EXECUÇÃO PENAL E JUSTIÇA RESTAURATIVA Sobre a lei de execução penal, Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 faz-se necessário iniciarmos com sua conceituação, Nucci (2021) como a fase processual a qual o Estado faz valer a pretensão executória da pena, tornando efetiva a punição do agente e concretizando as finalidades da sanção penal. A execução da pena se inicia após o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, sem necessidade de nova citação, pois, o sentenciado foi cientificado tanto da ação penal quanto da sentença condenatória e sabe o conteúdo do título a ser cumprido, com exceção quanto à pena de multa, que é cobrada como dívida ativa da Fazenda Pública. LEP, art. 1º. A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado. A doutrina o trata como um direito autônomo: O direito de execução penal deve ser considerado um ramo autônomo do ordenamento jurídico, regido por legislação própria, embora coligado ao direito penal e ao processo penal, disciplinas das quais aufere os princípios constitucionais que o inspiram. Trata-se de ciência independente, com metas próprias, embora jamais se desvincule do Direito Penal e do Direito Processual Penal, por razões inerentes à sua própria existência. A sua base constitucional e os direitos e garantias individuais que o norteiam advêm do Direito Penal e do Processo Penal, constituindo essa a sua vinculação. A autonomia decorre de legislação específica (Lei Federal 7.210/84), além de se poder apontar a existência de inúmeras Varas Privativas de Execução Penal, evidenciando a especialidade da atividade judiciária. Por outro lado, a natureza complexa de sua manifestação, abrangendo aspectos jurisdicionais e administrativos, compõe o seu quadro peculiar em face dos demais ramos do Direito. A insuficiência da denominação Direito Penitenciário, quando utilizada para se referir à execução penal, torna-se nítida, na medida em que a Lei de Execução Penal cuida de temas muito mais abrangentes do que o cumprimento de penas em regime fechado nas penitenciárias. (NUCCI, 2021). Com relação ao objeto da execução é certo de que seja a sentença penal. O objeto da execução penal é a sentença penal. Nesta, haverá uma pena concreta (que poderá ser suspensa) ou uma medida de segurança aplicada no que se chama absolvição imprópria. Diz-se que a sentença é condenatória quando dá provimento ao pedido da acusação, que é o de condenar o réu. Se a sentença não dá provimento ao pedido, absolvendo-o, será absolutória. Pressupõe-se que da absolvição não derive consequência penal ao réu. Porém, sendo ele inimputável, será absolvido por inexistência de culpabilidade, mas receberá uma medida de segurança. A doutrina intitula essa sentença de absolutória imprópria. De acordo com a legislação penal, http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%207.210-1984?OpenDocument 5 as penas permitidas são a privativa de liberdade, restritiva de direitos e multa. (BRITO, 2020). Segundo Nucci (2021): A sentença condenatória é o título principal a ser executado pelo juízo próprio (de preferência, na especializada Vara de Execuções Penais), mas há, também, decisões interlocutórias proferidas durante a execução da pena, que devem ser efetivadas, seguindo-se a individualização executória da sanção. As decisões mais comuns dizem respeito à transferência de regime (fechado ao semiaberto; semiaberto ao aberto), declaração de remição, deferimento de livramento condicional, aplicação de indulto ou comutação, dentre outras. Aguarda-se, ainda, a finalização da execução por meio de sentença, declarando-se extinta a punibilidade do sentenciado. (NUCCI, 2021). Na etapa em que a sanção penal será efetivada, a Constituição Federal de 1988 representa a principal norma reguladora no que diz respeito à execução penal. Destaquemos alguns dos incisos do artigo 5º da CRFB/88: XLVI - a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade;Disciplinar Diferenciado. Porém, os presídios brasileiros de segurança máxima não têm tido sucesso em evitar o celular. Eis porque a fiscalização de correspondências é o de menos, mas, pelo menos, ingressou, claramente, em lei. A outra modificação diz respeito à participação em audiências judiciais, apontando que se faça, preferencialmente, por videoconferência, assegurando-se a participação do defensor no mesmo ambiente do preso. Muitas vezes, atuando como juiz criminal, já tivemos notícia do presídio, distante da capital de São Paulo, de que o réu não queria comparecer à audiência porque enfrentaria horas em um veículo-presídio. O acusado tem direito à audiência e não é obrigado a comparecer. Eis que a videoconferência pode ser útil a todos. Manteve-se a regra, após a reforma da Lei 13.964/2019, que o RDD será aplicado tanto aos condenados como aos presos provisórios, nacionais ou estrangeiros. Esse regime pode ser impingido a todos os que apresentem alto risco à ordem e à segurança do estabelecimento penal ou da sociedade (art. 52, § 1.º, I). Na sequência, pode-se inserir os presos sob os quais recaiam suspeitas fundadas de envolvimento ou participação em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, independentemente da prática de falta grave. O que se observa são cláusulas abertas, permitindo a inserção do preso no RDD. A abertura se concentra em termos como “alto risco à ordem e à segurança do presídio” ou “fundadas suspeitadas de envolvimento em organismo criminoso de qualquer espécie”. Mas isto tem sido necessário e já vem sendo usado desde 2003, quando o RDD foi, formalmente, criado em lei. Outra novidade, inserida pela Lei 13.964/2019, consta do § 3.º do art. 52: “existindo indícios de que o preso exerce liderança em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, ou que tenha atuação criminosa em 2 (dois) ou mais Estados da Federação, o regime disciplinar diferenciado será obrigatoriamente cumprido em estabelecimento prisional federal”. A medida representa a prioridade à segurança da sociedade e do local onde está detido o preso ou condenado. Veja-se que, assim ocorrendo, o RDD pode ser prorrogado, sucessivamente, por períodos de um ano, sem limite, desde que continue apresentando alto risco à ordem e à segurança do presídio ou da sociedade, bem como ficar demonstrado que mantém vínculos com organização criminosa (Lei 12.850/2013), associação criminosa (art. 288, CP), ou milícia privada (art. 288-A, CP), conforme dispõe o art. 52, § 4.º, da LEP. Nestas últimas hipóteses, demanda-se a comprovação do perfil criminal do preso e a função desempenhada por ele no grupo criminoso, focando-se a operação do referido grupo – se extensa ou não – bem como a superveniência de outros processos criminais e o resultado do tratamento penitenciário. Quando se detectar a ligação do preso com organização criminosa e similares ou com atuação em mais de dois Estados brasileiros, o RDD precisa contar com alta segurança interna e externa, evitando o contato do preso com membros da sua organização. Na realidade, estando no RDD ou não, esta regra deveria valer para todos. O mais importante que se tem notícia nos casos concretos do dia a dia é a comunicação interior-exterior feita por condenados ou presos provisórios, inseridos no RDD, mas que têm 29 acesso ao celular para manter contato externo. Permite-se ao preso em RDD, quando não receba visita nos primeiros 6 meses, poder comunicar-se com a família por telefonema, gravado, duas vezes por mês, por 10 minutos (art. 52, § 7.º, LEP). Levando-se em consideração que os presídios federais, para onde devem ser levados os presos mais perigosos, funciona em modelo do RDD, para lá seguem aqueles que forem escolhidos pelo juiz da execução. Não há contraditório, nem ampla defesa, ou seja, inexiste o direito de contrariar essa decisão, impedindo a transferência. Toma-se a medida de urgência, sem oitiva da defesa. Se houver abuso, caberá, após a transferência ao presídio federal, agravo ou mesmo habeas corpus. Nesses termos, a Súmula 639 do STJ: Não fere o contraditório e o devido processo decisão que, sem ouvida prévia da defesa, determine transferência ou permanência de custodiado em estabelecimento penitenciário federal. (NUCCI, 2021). 7. ÓRGÃOS DE EXECUÇÃO PENAL A execução penal, regida pela legislação brasileira, encontra sua base normativa no Artigo 61 da Lei de Execução Penal (LEP), que estipula os órgãos responsáveis por sua condução. Cada um desses órgãos desempenha funções específicas, todos com o objetivo comum de garantir a execução das penas determinadas pelo Estado, após o trânsito em julgado da sentença condenatória, visando a punição individualizada do condenado. São órgãos da Execução Penal: Art. 61. São órgãos da execução penal: I – o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária; II – o Juízo da Execução; III – o Ministério Público; IV – o Conselho Penitenciário; V – os Departamentos Penitenciários; VI – o Patronato; VII – o Conselho da Comunidade. VIII – a Defensoria Pública. (BRASIL, 1984). Segundo Nucci (2021), a Lei de Execução Penal (LEP) estabelece a organização dos órgãos responsáveis pela execução penal em seu Título III, composto pelos Artigos 61 a 81. O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), vinculado ao Ministério da Justiça, é constituído por 13 membros, incluindo professores e profissionais especializados em Direito Penal, Processual Penal, Penitenciário e áreas afins, além de representantes da sociedade e dos Ministérios ligados à área social. Sua principal incumbência, conforme estipulado no Artigo 64 da LEP, é a formulação de diretrizes para a política criminal. 30 O Juízo da Execução é o responsável pela execução das penas, garantindo a aplicação de leis mais favoráveis e decidindo sobre questões descritas no Artigo 66 da LEP. O Ministério Público atua como fiscal da execução penal, conforme estabelecido no Artigo 68 da LEP, além de desempenhar outras funções acessórias. O Conselho Penitenciário, cujos membros são nomeados pelo Governador do Estado ou do Distrito Federal, tem mandato de 4 anos. Dentre suas atribuições, descritas no Artigo 70 da LEP, está a emissão de pareceres sobre indulto e comutação de penas, bem como a inspeção periódica dos estabelecimentos penais. Os Departamentos Penitenciários, seja em âmbito federal ou local, são responsáveis por diversas atividades, se destacando a fiscalização regular dos estabelecimentos e serviços penais em sua jurisdição. A direção e o pessoal dos estabelecimentos penais são regulados pelos Artigos 75 a 77 da LEP. Se Destaca que o diretor deve residir no estabelecimento ou nas proximidades, se dedicando integralmente à sua função. O Patronato é o órgão encarregado de prestar assistência aos egressos e orientar os condenados às penas restritivas de direitos. O Conselho da Comunidade, composto por representantes de diversas entidades, é responsável por realizar visitas mensais aos estabelecimentos penais de sua comarca, conforme estipulado na legislação. Já a Defensoria Pública, cuja inclusão se dá implicitamente pela sua importância no apoio jurídico aos indivíduos em situação de vulnerabilidade, incluindo os que estão cumprindo pena ou que são alvo de processos de execução penal. Há de se observar que os dispositivos da LEP refletem a busca por um sistema de execução penal objetivo e humanizado, onde todos os órgãos trabalham em conjunto para promover a ressocialização dos indivíduos e garantir o respeito aos seus direitos fundamentais. 8. ESTABELECIMENTO PENAIS Segundo Nucci (2021), o sistema penitenciário brasileiro, regulado pelo título IV da Lei de Execução Penal - LEP, artigos 82 a 104, abrange uma série de disposições que visam disciplinar os estabelecimentos penais. Estes locais são 31 designados para abrigarcondenados, internados e presos provisórios de acordo com suas circunstâncias individuais. Nos estabelecimentos penais destinados a mulheres, é estabelecido pela LEP que apenas mulheres devem compor o corpo de funcionários, salvo exceções para pessoal técnico especializado. Além disso, tais instalações devem estar equipadas com berçários, conforme estipulado no artigo 83, parágrafo 2º da LEP. Importante mencionar também a possibilidade de interdição do estabelecimento penal como medida punitiva devido à superlotação carcerária, podendo ser determinada pelo juiz da execução penal. Outra disposição relevante é a prevista no artigo 86 da LEP, que permite o cumprimento de uma condenação criminal imposta em um estado da federação em outro estado. Não obstante, há de se observar o conceito de prisão especial, descrito no art. 295 do Código de Processo Penal (CPP), que determina a alocação em quartéis ou prisões especiais de certas autoridades antes da condenação definitiva. Entre os indivíduos sujeitos a essa medida estão ministros de Estado, governadores, membros do Parlamento, magistrados, entre outros. Outrossim, é entendimento corrente que até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, a prisão especial deve ser realizada em cadeia pública, em cela separada dos demais presos. No que diz respeito à Prisão Especial, o art. 295 do CPP, estabelece: Art. 295. Serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, à disposição da autoridade competente, quando sujeitos a prisão antes de condenação definitiva: I – os ministros de Estado; II – os governadores ou interventores de Estados ou Territórios, o prefeito do Distrito Federal, seus respectivos secretários, os prefeitos municipais, os vereadores e os chefes de Polícia; III – os membros do Parlamento Nacional, do Conselho de Economia Nacional e das Assembleias Legislativas dos Estados; IV – os cidadãos inscritos no “Livro de Mérito”; V – os oficiais das Forças Armadas e os militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios; VI – os magistrados; VII – os diplomados por qualquer das faculdades superiores da República; VIII – os ministros de confissão religiosa; IX – os ministros do Tribunal de Contas; X – os cidadãos que já tiverem exercido efetivamente a função de jurado, salvo quando excluídos da lista por motivo de incapacidade para o exercício daquela função; XI – os delegados de polícia e os guardas-civis dos Estados e Territórios, ativos e inativos. (BRASIL, 1941). 32 Conforme demonstrado, o sistema penitenciário brasileiro, regido pela LEP pelo Código de Processo Penal, busca estabelecer diretrizes para garantir a humanização das penas. A disposição de instalações específicas para mulheres, a possibilidade de interdição de estabelecimentos superlotados e a aplicação de prisão especial para determinadas autoridades demonstram uma tentativa de equilibrar a punição com a dignidade e os direitos individuais. 9. REGIMES DE CUMPRIMENTO DE PENA A determinação do regime inicial de cumprimento de pena, está prevista no art. 33 do Código Penal, onde são definidos três regimes distintos: o fechado, aplicável a penas superiores a 8 anos; o semiaberto, destinado a condenados não reincidentes com penas entre 4 e 8 anos; e o aberto, reservado aos condenados não reincidentes com penas até 4 anos. (BRASIL, 1940). Segundo Nucci (2021), a Lei de Execução Penal, em seu artigo 111, estipula que, em casos de múltiplas condenações em processos separados, o regime de cumprimento será determinado pela soma dessas penas. Porém, é fundamental observar que no caso de uma nova condenação durante o cumprimento da pena, a nova pena é somada ao restante em execução para a definição do regime, podendo resultar na regressão para um regime mais rigoroso. Já em situações de concurso formal de crimes ou crime continuado, as penas não são somadas, mas sim unificadas, para efeitos de fixação do regime prisional. A questão do cálculo de benefícios também é relevante. Embora haja um limite de 40 anos estabelecido com advento da Lei 13.964/2019, o limite que antes era de 30 anos fora majorado ao novo limite de 40 anos de prisão. Alterando o artigo 75 do Código Penal Brasileiro, estabeleceu desta forma a novel lei, esse limite não é utilizado para calcular benefícios como progressão de regime. Em vez disso, a base de cálculo deve ser a pena imposta, independentemente desse limite legal. Os requisitos para progressão de regime foram substancialmente modificados pelo pacote anticrimes, um aspecto que será abordado em detalhes em uma seção específica da aula. Por outro lado, a regressão de regime, que implica em uma passagem para um regime mais severo, é prevista no artigo 118 da LEP. Tal regressão ocorre quando o condenado pratica crime doloso ou falta grave, ou quando sofre nova condenação https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1328885560/lei-13964-19 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10631203/artigo-75-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/91614/codigo-penal-decreto-lei-2848-40 33 que, somada à pena em execução, torna inviável o regime anteriormente estabelecido. Se destaca ainda o chamado efeito secundário da regressão, que interrompe o tempo de cumprimento da pena para efeitos de progressão, especialmente aplicável a apenados que já se encontram em regime fechado e cometem falta grave. Este efeito reflete como sanção ao condenado, demonstrando a severidade do sistema penal. 10. AUTORIZAÇÕES DE SAÍDA Segundo Nucci (2021), a concessão de saídas temporárias é uma medida regulada pela Lei de Execução Penal - LEP, visando possibilitar ao detento a oportunidade de deixar temporariamente o estabelecimento penal sob determinadas condições. Tais autorizações, estabelecidas nos artigos 120 a 125 da LEP, ao qual asseveram as autorizações para saída, mediante o preenchimento de requisitos específicos, onde o detento pode ser autorizado a deixar temporariamente as dependências do estabelecimento penal. A permissão de saída, concedida pelo diretor do estabelecimento penal, é viabilizada em casos de falecimento ou enfermidade grave do cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão, assim como para tratamento médico. Essa modalidade de saída requer escolta e é limitada ao tempo estritamente necessário. Já a saída temporária, que deve ser autorizada pelo juiz da execução, é destinada a detentos em regime semiaberto e tem como finalidades a visita à família, frequência a cursos supletivos ou profissionalizantes, prosseguimento da educação formal de nível médio ou superior, e participação em atividades de ressocialização. O detento tem direito a até cinco oportunidades de sete dias cada (totalizando 35 dias). Para a concessão da saída temporária, é exigido o cumprimento de pelo menos um sexto da pena, no caso de primários, ou um quarto, para reincidentes, além de demonstração de bom comportamento e compatibilidade entre o benefício e os objetivos da pena. Importante observar que o condenado por crime hediondo com resultado morte não tem direito a essa modalidade de saída, conforme estabelecido no artigo 122, parágrafo 2º, incluído pela Lei nº 13.964 de 2019. 34 11. OUTROS INSTITUTOS DA LEP Segundo Nucci (2021), um dos principais institutos que podem resultar na redução da pena é a remição. Essa ferramenta permite que o indivíduo reabilite parte de sua sentença por meio do trabalho ou estudo enquanto está sob custódia. Dessa forma, ao se dedicar a atividades laborais ou educacionais, o detento tem a oportunidade de diminuir o tempo a ser cumprido na prisão. A remição opera de duas maneiras distintas: através do trabalho e do estudo. O primeiro pode ser subdividido em regime fechado e semiaberto, enquanto o segundo abrange todos os regimes de encarceramento, incluindo a liberdadecondicional. A base legal para a remição se encontra no artigo 128 da LEP, o qual estipula que o tempo remido deve ser considerado como pena cumprida para todos os fins legais. Geralmente, a proporção é de um dia de pena a ser descontado para cada três dias de trabalho ou estudo. A previsão para a remição está no art. 128 da LEP: art. 128. O tempo remido será computado como pena cumprida, para todos os efeitos. (BRASIL, 1984). Em caso de cometimento de falta grave, o juiz tem a prerrogativa de revogar até um terço do tempo remido, reiniciando a contagem a partir da data da infração disciplinar, conforme estabelecido pelo artigo 127 da LEP. Outro instituto da LEP é o livramento condicional, conforme expresso no art. 131 da LEP, pode ser concedido pelo juiz da execução penal, desde que estejam presentes os requisitos estabelecidos no artigo 83 do Código Penal, além do parecer favorável do Ministério Público e do Conselho Penitenciário. Observe: Art. 131. O livramento condicional poderá ser concedido pelo juiz da execução, presentes os requisitos do artigo 83, incisos e parágrafo único do Código Penal, ouvidos o Ministério Público e o Conselho Penitenciário. (BRASIL, 1984). Para Brito (2020), esse benefício, consiste na liberação do indivíduo antes do término completo de sua pena, desde que ele cumpra determinadas condições estabelecidas pela lei. Durante esse período, denominado período de prova, o condenado deve demonstrar seu comprometimento com a reintegração social. 35 Os critérios para a concessão do livramento condicional podem ser divididos em requisitos subjetivos e objetivos. Conforme a Súmula 441 do STJ, que a prática de falta grave não interrompe o prazo para a obtenção do livramento condicional. Sendo assim, os requisitos para a concessão de liberdade condicional estão divididos em requisitos subjetivos e requisitos objetivos. Súmula 441 – STJ: A falta grave não interrompe o prazo para obtenção de livramento condicional. (BRASIL, 2010). 12. EXAME CRIMINOLÓGICO E LIVRAMENTO CONDICIONAL Segundo Nucci (2021), o exame criminológico, outrora mandatório, foi alterado para um caráter facultativo após a revisão da LEP em 2003. Dessa forma, não é mais obrigatório a concessão de liberdade provisória. Adicionalmente, o Superior Tribunal de Justiça - STJ estipulou que, caso o exame seja realizado, ele deve se basear exclusivamente em eventos ocorridos durante o cumprimento da pena, especialmente quando considerado para progressão de regime ou concessão de livramento condicional. Neste sentido, a T6 - SEXTA TURMA do STJ, definiu que: HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO. PROGRESSÃO DE REGIME. NECESSIDADE DE EXAME CRIMINOLÓGICO PARA A FORMAÇÃO DO CONVENCIMENTO DO JULGADOR. PRINCÍPIOS DO LIVRE CONVENCIMENTO E DA PERSUASÃO RACIONAL. PACIENTE COM REGISTRO DE FALTAS GRAVES. CONVENIÊNCIA NA REALIZAÇÃO DO EXAME. LEI Nº 11.464/2007. DELITO ANTERIOR À PUBLICAÇÃO DA LEI. IRRETROATIVIDADE. 1. O exame criminológico deixou de ser obrigatório para a progressão de regime com a entrada em vigor da Lei nº. 10.792/03, que alterou a Lei de Execução Penal (Lei nº. 7.210/84). Não obstante ser facultativo, é possível ao magistrado condicionar o deferimento do pedido de progressão de regime prisional à realização do exame, quando entender necessário, desde que por meio de decisão devidamente fundamentada. 2. No caso, o Tribunal a quo entendeu que o exame criminológico é necessário para atestar a viabilidade do benefício, tendo em vista que o paciente é detentor de um histórico carcerário maculado por faltas de natureza grave, revelando a ausência de assimilação da terapêutica penal. 3. Se o paciente cometeu crime hediondo antes do advento da Lei nº 11.464/07, deve ser mantida a exigência de cumprimento de 1/6 (um sexto) de pena para a concessão da progressão, nos termos do art. 112 da LEP. 4. Ordem parcialmente concedida para afastar a exigência, contida no acórdão, de cumprimento de 3/5 (três quintos) da pena, para fins de progressão de regime, devendo ser observado o requisito objetivo contido no art. 112 da Lei de Execução Penal. (HC n. 168.954/SP, relator Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 21/10/2010, DJe de 16/11/2010.) (BRASIL, 2010). 36 Em relação ao procedimento para a concessão do livramento condicional, é necessário compreender os conceitos fundamentais e os requisitos pertinentes. O juiz da execução é o responsável por conceder o livramento condicional, desde que os requisitos estejam presentes. Segundo Nucci (2021), a concessão da liberdade provisória não se resume apenas aos requisitos objetivos e subjetivos estabelecidos pela legislação. Além destes, o magistrado deve se atentar a outras condições que visam garantir a efetividade da medida cautelar. Entre as condições obrigatórias que devem ser consideradas estão: a necessidade de o indivíduo possuir uma ocupação lícita, garantindo assim sua subsistência de forma honesta; a obrigação de comunicar periodicamente ao juiz sobre sua ocupação, a fim de manter a transparência e o acompanhamento da sua situação; e a proibição de se mudar do território da comarca da execução penal sem autorização, assegurando a vinculação do acusado ao local onde responderá pelo processo. Segundo Nucci (2021), já as condições facultativas, embora não sejam obrigatórias, podem ser igualmente relevantes para a concessão da liberdade provisória. Entre elas, se destaca a exigência de não mudar de residência sem comunicação prévia ao juiz e à autoridade designada para monitorar a medida cautelar, garantindo assim a localização do acusado e facilitando eventuais contatos e diligências necessárias. Outra medida facultativa é o recolhimento à habitação em horários determinados, o que pode ser útil para controlar os deslocamentos do indivíduo e reduzir os riscos de reiteração delitiva. Por fim, a restrição de frequentar determinados locais também pode ser imposta como condição facultativa, visando evitar possíveis situações de conflito ou a reincidência em condutas ilícitas. Ao decidir sobre a concessão da liberdade provisória, o Juiz deve considerar os aspectos formais e subjetivos, além de as condições que garantam a concessão da medida cautelar, buscando conciliar o direito à liberdade individual com a necessidade de proteção da ordem pública e da segurança jurídica. Ademais, a na esteira da revogação da liberdade provisória, como qualquer benefício, pode ser realizada por motivos obrigatórios ou facultativos. Os casos de revogação obrigatória ocorrem em duas situações específicas: primeiramente, quando o indivíduo liberado é condenado, em uma sentença irrecorrível, por um crime 37 cometido durante o período de liberdade condicional. Em segundo lugar, se durante esse período ele comete um novo delito e é condenado por ele, também em uma sentença irrecorrível. Em ambos os casos, o tempo em liberdade condicional não é considerado como tempo cumprido de pena, não sendo possível uma nova concessão desse benefício para a mesma pena, nem a soma dos tempos de pena de ambos os delitos para a concessão da liberdade condicional. Por exemplo, se após um ano do início do período de prova, Fulano é condenado por outro roubo, recebendo uma nova pena de sete anos de reclusão, essa pena não será contada durante o período de liberdade condicional. Fulano terá que cumprir mais cinco anos para completar sua primeira condenação, e apenas após isso poderá ser considerado para uma nova liberdade condicional, levando em conta apenas a pena do segundo delito. A segunda situação de revogação obrigatória ocorre quando o liberado é condenado por um crime anterior ao período de prova, conforme o artigo 84 do Código Penal. Nesse caso, as penas de ambos os delitos devem ser somadas para efeito do livramento condicional. Aqui, o tempo em liberdade condicional deve ser considerado comotempo de cumprimento de pena, permitindo uma nova concessão desse benefício para a mesma pena e a soma dos tempos de pena de ambos os delitos para a concessão da liberdade condicional. Após um ano de sua liberdade condicional, Fulano é novamente condenado por um roubo, recebendo uma sentença adicional de sete anos de reclusão. É importante ressaltar que esse crime ocorreu antes do término do período de prova do primeiro delito. Inicialmente, Fulano foi condenado a sete anos de prisão por um roubo, dos quais cumpriu cinco anos antes de obter o livramento condicional. Portanto, agora ele tem um ano restante de sua sentença inicial. Desse modo, ao receber a nova condenação de sete anos, a pena remanescente do primeiro delito, um ano, será combinada com a pena do segundo delito, totalizando oito anos. Se os requisitos necessários forem atendidos, Fulano poderá solicitar o livramento condicional com base nessa soma de penas. 38 13. PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS Para Brito, (2020), as penas restritivas de direitos, previstas nos artigos 147 e 148 da LEP, constituem uma alternativa à privação de liberdade, buscando alcançar as finalidades da pena, como a ressocialização do indivíduo e a proteção da sociedade. Por meio dessas medidas, o sistema penal pretende promover a reinserção do apenado na comunidade, ao mesmo tempo, em que mantém o controle e a punição proporcional ao delito cometido. O Art. 147 da LEP estabelece que ao transitar em julgado a sentença que impôs a pena restritiva de direitos, o Juiz da execução é incumbido de promover a execução da pena. Tal execução pode ser iniciada de ofício pelo juiz ou a requerimento do Ministério Público. Além disso, o juiz tem a prerrogativa de requisitar, quando necessário, a colaboração de entidades públicas ou solicitar cooperação de particulares para a efetiva execução da pena. Já o Art. 148 da mesma legislação confere ao Juiz da execução a competência para, em qualquer fase da execução, modificar de forma fundamentada, a forma de cumprimento das penas de prestação de serviços à comunidade e de limitação de fim de semana. Essa modificação é feita com base nas condições pessoais do condenado e nas características do estabelecimento, da entidade ou do programa comunitário ou estatal. Essas disposições legais evidenciam a preocupação do sistema penal em individualizar a execução das penas restritivas de direitos, sendo adaptadas às necessidades específicas de cada condenado, com vistas a promover sua reintegração social. Ao proporcionar alternativas à prisão, o sistema busca a punição, bem como, reabilitar os indivíduos, contribuindo para a redução da reincidência e para a construção de uma sociedade justa e segura. Dessa forma, os artigos mencionados estabelecem que: Art. 147. Transitada em julgado a sentença que aplicou a pena restritiva de direitos, o Juiz da execução, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, promoverá a execução, podendo, para tanto, requisitar, quando necessário, a colaboração de entidades públicas ou solicitá-la a particulares. Art. 148. Em qualquer fase da execução, poderá o Juiz, motivadamente, alterar, a forma de cumprimento das penas de prestação de serviços à comunidade e de limitação de fim de semana, ajustando-as às condições pessoais do condenado e às características do estabelecimento, da entidade ou do programa comunitário ou estatal. (BRASIL, 1984). 39 Para Brito, (2020), dentre as modalidades de penas restritivas de direitos previstas elencadas na LEP e no Código Penal, se destacam a prestação pecuniária, a perda de bens e valores, a limitação de fim de semana, a prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas, a interdição temporária de direitos e a proibição de frequentar determinados lugares. O art. 43 do Código Penal apresenta as espécies das penas restivas de direito, qual seja: Art. 43. As penas restritivas de direitos são: I – prestação pecuniária; II – perda de bens e valores; III – limitação de fim de semana. IV – prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas; V – interdição temporária de direitos; VI – limitação de fim de semana. (BRASIL, 1940). A interdição temporária de direitos, por exemplo, apresenta cinco espécies no art. 47 do Código Penal. Essa modalidade inclui desde a proibição do exercício de cargos públicos até a suspensão de autorização para dirigir veículos, demonstrando a diversidade de aplicação dessas penas, observe: Art. 47. As penas de interdição temporária de direitos são: I – proibição do exercício de cargo, função ou atividade pública, bem como de mandato eletivo; II – proibição do exercício de profissão, atividade ou ofício que dependam de habilitação especial, de licença ou autorização do poder público; III – suspensão de autorização ou de habilitação para dirigir veículo. IV – proibição de frequentar determinados lugares. V – proibição de inscrever-se em concurso, avaliação ou exame públicos. (BRASIL, 1940). Importante mencionar que as penas restritivas de direitos são consideradas substitutivas, aplicáveis em substituição às penas privativas de liberdade, desde que preenchidos os requisitos legais estabelecidos pela legislação vigente. Não se ignora, que as penas restritivas de direitos surgem como uma ferramenta fundamental no sistema penal, permitindo a harmonia juntamente com os princípios da retribuição, ressocialização e prevenção, sem recorrer necessariamente à prisão. Há de se observar ainda que, a substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos, conforme previsto no art. 44 do Código Penal, é um 40 instituto que proporciona uma resposta proporcional ao cometimento de determinados crimes. No entanto, para que essa substituição ocorra, é necessário o preenchimento de requisitos específicos estabelecidos pela legislação, qual seja: Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando: I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo; II – o réu não for reincidente em crime doloso; III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa substituição seja suficiente. (BRASIL, 1940). É imprescindível que a pena privativa de liberdade não ultrapasse o limite de quatro anos, no caso de crime que não for cometido com violência ou grave ameaça. No entanto, se o crime for culposo, a substituição se torna cabível independentemente da duração da pena imposta. Esse critério garante uma aplicação equitativa da lei, considerando a gravidade da conduta praticada pelo condenado. Outro requisito importante é a ausência de reincidência em crime doloso por parte do réu. Nesse sentido, a reincidência deve ser entendida de forma específica, ou seja, como a prática de delitos da mesma natureza anteriormente. Determinando que a substituição seja concedida a indivíduos que não demonstrem um padrão de conduta criminal reiterado. Além disso, a análise da culpabilidade dos antecedentes da conduta social e da personalidade do condenado, bem como, dos motivos e das circunstâncias do crime, é importante para determinar se a substituição da pena privativa de liberdade é adequada. Vale mencionar que, não é cabível a substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos em casos de lesão corporal envolvendo violência doméstica contra a mulher. Essa exceção é uma medida protetiva diante da gravidade e recorrência desse tipo de crime, pois, sua função é garantir a segurança e integridade das vítimas. Segundo Brito (2020), quanto aos crimes hediondos, embora a Lei 8.072/90 não vede expressamentea substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos, a doutrina considera possível a aplicação desse instituto, desde que preenchidos os demais requisitos estabelecidos pela legislação. Essa 41 interpretação assegurar que, mesmo em casos de extrema gravidade, a individualização da pena possa ser realizada de forma justa e proporcional. No ordenamento jurídico brasileiro, as penas restritivas de direitos constituem uma alternativa à privação de liberdade, conforme fundamentado no art. 44, parágrafo 2º, do Código Penal. Este dispositivo legal estipula que, em casos de condenação igual ou inferior a um ano, é viável a substituição por multa ou por uma pena restritiva de direitos. Já em condenações superiores a um ano, a pena privativa de liberdade pode ser substituída por uma pena restritiva de direitos e multa, ou por duas penas restritivas de direitos. § 2º Na condenação igual ou inferior a um ano, a substituição pode ser feita por multa ou por uma pena restritiva de direitos; se superior a um ano, a pena privativa de liberdade pode ser substituída por uma pena restritiva de direitos e multa ou por duas restritivas de direitos. (BRASIL, 1940). No entanto, é importante ressaltar que se o condenado apresentar reincidência, ou seja, no mesmo tipo penal, a substituição por pena restritiva de direitos não é admissível. Porém, diante da reincidência genérica, o § 3º do mesmo art. estabelece que o juiz poderá optar pela substituição, desde que a medida seja socialmente recomendável e a reincidência não esteja relacionada à prática do mesmo crime. § 3º Se o condenado for reincidente, o juiz poderá aplicar a substituição, desde que, em face de condenação anterior, a medida seja socialmente recomendável e a reincidência não se tenha operado em virtude da prática do mesmo crime. (BRASIL, 1940). Outro ponto a ser considerado é a possibilidade de conversão da pena restritiva de direitos em privativa de liberdade, caso o condenado descumpra as condições impostas. Esta conversão é expressamente prevista no art. 181 da LEP, em consonância com o artigo 44, parágrafo 4º, do Código Penal. Este último dispositivo estabelece que a pena restritiva de direitos se converte em privativa de liberdade no caso de descumprimento injustificado da restrição imposta. No entanto, é assegurado o abatimento do tempo cumprido da pena restritiva de direitos no cálculo da pena privativa de liberdade a ser executada, desde que seja respeitado o saldo mínimo de trinta dias de detenção ou reclusão. 42 A própria LEP prevê expressamente essa possibilidade: art. 181. A pena restritiva de direitos será convertida em privativa de liberdade nas hipóteses e na forma do artigo 45 e seus incisos do Código Penal. (BRASIL, 1984). Em consonância ao art. 181 da LEP, está no art. 44, parágrafo 4º, CP: § 4º A pena restritiva de direitos converte-se em privativa de liberdade quando ocorrer o descumprimento injustificado da restrição imposta. No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo de trinta dias de detenção ou reclusão. (BRASIL, 1940). Assim, há de se observar que as formas de aplicação das penas restritivas de direitos estão condicionadas a diversos aspectos legais, como o tempo de condenação, a reincidência e a possibilidade de conversão em pena privativa de liberdade em caso de descumprimento das condições estabelecidas. Estas medidas buscam conciliar a punição do infrator com a necessidade de ressocialização por meio do sistema penal. 14. NOVAS PREVISÕES DO PACOTE ANTICRIME – LEI N.º 13.964/2019 Para Brito, (2020), o pacote anticrime trouxe consigo algumas novidades no que diz respeito a LEP, abordando questões que ainda não haviam sido contempladas. Entre as novidades, estão: 1. Previsões sobre a Colheita de DNA; 2. Nova hipótese de falta grave; 3. Regras mais rigorosas para o RDD; 4. Mudanças sobre a progressão de regime e 5. Mudanças sobre a saída temporária. Essas novidades trazidas pelo pacote anticrime estabelecidas pela LEP, demonstram um avanço para aprimorar o sistema de execução penal, garantindo punição adequada aos infratores, bem como, buscando promover a ressocialização e a segurança pública. Vejamos agora quais são as peculiaridades de cada um dos tópicos supramencionados! 14.1. Colheita de DNA Para Brito, (2020), a identificação do perfil genético de indivíduos condenados por crimes graves tem sido objeto de discussão e implementação de medidas legais 43 em diversos países ao redor do mundo. No Brasil, a Lei de Execução Penal – LEP, passou por algumas modificações, especialmente no art. 9º-A, estabelecendo a obrigatoriedade da extração de DNA para essa categoria de condenados. Essas alterações, que entraram em vigor com o advento da Lei nº 13.964/2019, introduziram novos dispositivos a garantir à proteção dos dados genéticos quanto à investigação criminal. Sendo assim, é importante compreender as implicações legais e práticas dessas mudanças, bem como, sua relevância no cenário da justiça penal brasileira. O artigo 9º-A determina que todo condenado por crime doloso com violência grave contra a pessoa, assim como por crimes contra a vida, liberdade sexual ou crimes sexuais contra vulneráveis, deve passar obrigatoriamente por identificação do perfil genético, mediante extração de DNA, de forma apropriada e indolor, no momento de sua entrada no estabelecimento prisional. Além disso, foi incluído o §1º-A, exigindo que a regulamentação contenha a proteção dos dados genéticos, em conformidade com as melhores práticas da genética forense. Esse requisito reflete procedimentos já adotados pelas autoridades policiais em todo o país, em decorrência da cadeia de custódia. Segundo Nucci (2021), o §3º, que visa garantir ao titular dos dados genéticos o acesso às suas informações, assim como os documentos relativos à cadeia de custódia. Essa disposição, está alinhada com os princípios do contraditório e da ampla defesa, agora expressamente incorporada ao Código de Processo Penal. O §4º traz uma novidade ao determinar que condenados pelos crimes mencionados no caput deste artigo, que não tenham sido submetidos à identificação do perfil genético no momento da entrada no sistema prisional, devem passar pelo procedimento durante o cumprimento da pena. Além disso, o §8º do artigo 9º-A introduz uma nova hipótese de falta grave, aplicável ao condenado que se recusar a passar pelo procedimento de identificação do perfil genético. Para melhor fixar, veja o que estabelece o art. 9º-A da Lei nº 13.964/2019: Art. 9º-A. O condenado por crime doloso praticado com violência grave contra a pessoa, bem como por crime contra a vida, contra a liberdade sexual ou por crime sexual contra vulnerável, será submetido, obrigatoriamente, à identificação do perfil genético, mediante extração de DNA (ácido desoxirribonucleico), por técnica adequada e indolor, por ocasião do ingresso no estabelecimento prisional. (Redação dada pela Lei n. 13.964, de 2019) (Vigência) 44 § 1º A identificação do perfil genético será armazenada em banco de dados sigiloso, conforme regulamento a ser expedido pelo Poder Executivo. (Incluído pela Lei n. 12.654, de 2012) § 1º-A. A regulamentação deverá fazer constar garantias mínimas de proteção de dados genéticos, observando as melhores práticas da genética forense. (Incluído pela Lei n. 13.964, de 2019) § 2º A autoridade policial, federal ou estadual, poderá requerer ao juiz competente, no caso de inquérito instaurado, o acesso ao banco de dados de identificação de perfil genético. (Incluído pela Lei n. 12.654, de 2012) § 3º Deve ser viabilizado ao titular de dados genéticos o acesso aos seus dados constantes nos bancos de perfis genéticos, bem como a todos osdocumentos da cadeia de custódia que gerou esse dado, de maneira que possa ser contraditado pela defesa. (Incluído pela Lei n. 13.964, de 2019) § 4º O condenado pelos crimes previstos no caput deste artigo que não tiver sido submetido à identificação do perfil genético por ocasião do ingresso no estabelecimento prisional deverá ser submetido ao procedimento durante o cumprimento da pena. (Incluído pela Lei n. 13.964, de 2019) § 8º Constitui falta grave a recusa do condenado em submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético. (Incluído pela Lei n. 13.964, de 2019). (BRASIL, 2019). 14.2. Falta Grave Conforme estabelecido anteriormente, o §8º da Lei nº 13.964/2019, estabelece que a recusa do condenado em se submeter ao procedimento de identificação genética constitui falta grave. Dessa forma, é importante mencionar também que, essa falta grave foi devidamente incluída no art. 50, por meio do inciso VIII, em conformidade com as disposições do artigo 9º-A, ao qual assevera: art. 50, VIII – recusar submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético. (BRASIL, 2019). A inclusão do inciso VIII no art. 50, alinha aos princípios estabelecidos no artigo 9º-A. Esta medida assegura a aplicação uniforme da lei e fortalece o procedimento de identificação do perfil genético como uma ferramenta na administração da justiça penal. Ao incluir o inciso VIII do art. 50 com os preceitos do artigo 9º-A, a legislação demonstra sua preocupação em manter a integridade do sistema penal, bem como, protege os direitos individuais dos condenados. 14.3. Regras mais rigorosas para o RDD Para Brito, (2020), com o advento do art. 52 incluído pela Lei nº 13.964/2019, houve um impacto significativo no chamado Regime Disciplinar Diferenciado - RDD. Uma das mudanças marcantes é a extensão do período do RDD para dois anos, com a possibilidade de renovação em caso de falta grave similar. Anteriormente, o prazo 45 era de 360 dias, renovável, com um limite máximo de 1/6 da pena. Além disso, o limite máximo foi removido do inciso I do artigo 52. Essas alterações representam um endurecimento na legislação em relação àqueles submetidos ao RDD. Não obstante, o art. 52 da Lei nº 13.964/2019, estabelece que: Art. 52. A prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave e, quando ocasionar subversão da ordem ou disciplina internas, sujeitará o preso provisório, ou condenado, nacional ou estrangeiro, sem prejuízo da sanção penal, ao regime disciplinar diferenciado, com as seguintes características: I - duração máxima de até 2 (dois) anos, sem prejuízo de repetição da sanção por nova falta grave de mesma espécie; II - recolhimento em cela individual; III - visitas quinzenais, de 2 (duas) pessoas por vez, a serem realizadas em instalações equipadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos, por pessoa da família ou, no caso de terceiro, autorizado judicialmente, com duração de 2 (duas) horas; IV - direito do preso à saída da cela por 2 (duas) horas diárias para banho de sol, em grupos de até 4 (quatro) presos, desde que não haja contato com presos do mesmo grupo criminoso; V - entrevistas sempre monitoradas, exceto aquelas com seu defensor, em instalações equipadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos, salvo expressa autorização judicial em contrário; VI - fiscalização do conteúdo da correspondência; VII - participação em audiências judiciais preferencialmente por videoconferência, garantindo-se a participação do defensor no mesmo ambiente do preso. § 1º O regime disciplinar diferenciado também será aplicado aos presos provisórios ou condenados, nacionais ou estrangeiros: I - que apresentem alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal ou da sociedade; II - sob os quais recaiam fundadas suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer título, em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, independentemente da prática de falta grave. § 2º (Revogado). § 3º Existindo indícios de que o preso exerce liderança em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, ou que tenha atuação criminosa em 2 (dois) ou mais Estados da Federação, o regime disciplinar diferenciado será obrigatoriamente cumprido em estabelecimento prisional federal. § 4º Na hipótese dos parágrafos anteriores, o regime disciplinar diferenciado poderá ser prorrogado sucessivamente, por períodos de 1 (um) ano, existindo indícios de que o preso: I - continua apresentando alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal de origem ou da sociedade; II - mantém os vínculos com organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, considerados também o perfil criminal e a função desempenhada por ele no grupo criminoso, a operação duradoura do grupo, a superveniência de novos processos criminais e os resultados do tratamento penitenciário. § 5º Na hipótese prevista no § 3º deste artigo, o regime disciplinar diferenciado deverá contar com alta segurança interna e externa, principalmente no que diz respeito à necessidade de se evitar contato do preso com membros de sua organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, ou de grupos rivais. 46 § 6º A visita de que trata o inciso III do caput deste artigo será gravada em sistema de áudio ou de áudio e vídeo e, com autorização judicial, fiscalizada por agente penitenciário. § 7º Após os primeiros 6 (seis) meses de regime disciplinar diferenciado, o preso que não receber a visita de que trata o inciso III do caput deste artigo poderá, após prévio agendamento, ter contato telefônico, que será gravado, com uma pessoa da família, 2 (duas) vezes por mês e por 10 (dez) minutos. (BRASIL, 2019). Para Marcão, (2021), além do novo prazo, o novo formato do RDD ampliou sua aplicabilidade. Agora, de acordo com o novo texto do caput do art. 52, o regime disciplinar diferenciado pode ser aplicado em casos de alto risco para a ordem e segurança do estabelecimento penal ou da sociedade, ou quando existirem suspeitas fundadas de envolvimento em organizações criminosas. Dessa forma, não é mais necessário que haja a comprovação de uma falta grave para a aplicação do RDD. Outro ponto de destaque diz respeito às visitas semanais, que antes não eram regulamentadas pela lei. Agora, há uma previsão legal: visitas quinzenais, limitadas a duas pessoas por vez, em instalações que impeçam o contato físico e a entrega de objetos. Outra mudança adicional importante está relacionada aos banhos de sol. Anteriormente, havia apenas uma menção ao período de duas horas. Agora, a previsão se tornou detalhada, permitindo a saída de até quatro presos simultaneamente, desde que não façam parte do mesmo grupo criminoso. Além disso, o legislador incluiu uma disposição no art. 52 indicando que, se houver indícios de que o preso é líder de uma organização criminosa, associação ou milícia com atuação em dois ou mais Estados, ele deve cumprir o RDD em um presídio federal. Por último, merece destaque a previsão de gravação das conversas entre as visitas e o preso, bem como, a possibilidade de autorização judicial para que um agente penitenciário monitore a visita. Se o preso não receber visitas durante seis meses enquanto estiver sob RDD, a lei concede o direito a duas conversas telefônicas por mês, com um membro da família, com duração de dez minutos cada. 47 14.4. Progressão de Regime O art. 112 também incluído pela Lei nº 13.964/2019, detalhou com precisão os novos prazos para progressão de regime, bem como, a exigência de comprovação de boa conduta carcerária pelo diretor da instituição. Para Brito, (2020), este artigo estabelece critérios graduais baseados na natureza do crime cometido e na situação do apenado. Para os primários que cometeram delitos sem violência ou grave ameaça, a progressão de regime ocorreapós cumprimento de 16% da pena, enquanto para os reincidentes nessas mesmas condições, o requisito é de 20%. Em casos de crimes cometidos com violência ou grave ameaça, os percentuais aumentam para 25% e 30%, respectivamente. Para crimes hediondos, a progressão se dá após o cumprimento de 40% da pena para primários e 60% para reincidentes. Em situações específicas, como crimes hediondos com resultado de morte, o cumprimento chega a 50% para primários e 70% para reincidentes. O requisito da boa conduta carcerária é essencial em todas as situações de progressão de regime, devendo ser atestada pelo diretor do estabelecimento prisional. Tal exigência busca garantir que o apenado demonstre um comportamento adequado durante o cumprimento da pena, conforme estabelecido no §1º do artigo 112. Não se ignora, que, a decisão do juiz para a progressão de regime deve ser devidamente fundamentada e precedida da manifestação do Ministério Público e do defensor, conforme previsto no §2º. Porém, no caso de mulheres gestantes, mães ou responsáveis por crianças ou pessoas com deficiência, há requisitos específicos a serem observados, tais como, não ter cometido crimes violentos, cumprimento mínimo de 1/8 da pena no regime anterior, ser primária e apresentar bom comportamento carcerário, além de não ter integrado organização criminosa. Para Marcão, (2021), é fundamental compreender as hipóteses e os novos critérios de progressão delineados nos incisos I a VIII do referido artigo e seus parágrafos: Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos: I - 16% (dezesseis por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça 48 II - 20% (vinte por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça; III - 25% (vinte e cinco por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; IV - 30% (trinta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido com violência à pessoa ou grave ameaça; V - 40% (quarenta por cento) da pena, se o apenado for condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, se for primário; VI - 50% (cinquenta por cento) da pena, se o apenado for: a) condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, se for primário, vedado o livramento condicional; b) condenado por exercer o comando, individual ou coletivo, de organização criminosa estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado; ou c) condenado pela prática do crime de constituição de milícia privada; VII - 60% (sessenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente na prática de crime hediondo ou equiparado; VIII - 70% (setenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime hediondo ou equiparado com resultado morte, vedado o livramento condicional. § 1º Em todos os casos, o apenado só terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão. § 2º A decisão do juiz que determinar a progressão de regime será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor, procedimento que também será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes. § 3º No caso de mulher gestante ou que for mãe ou responsável por crianças ou pessoas com deficiência, os requisitos para progressão de regime são, cumulativamente: I - não ter cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa; II - não ter cometido o crime contra seu filho ou dependente; III - ter cumprido ao menos 1/8 (um oitavo) da pena no regime anterior; IV - ser primária e ter bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento; V - não ter integrado organização criminosa. § 4º O cometimento de novo crime doloso ou falta grave implicará a revogação do benefício previsto no § 3º deste artigo § 5º Não se considera hediondo ou equiparado, para os fins deste artigo, o crime de tráfico de drogas previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. § 6º O cometimento de falta grave durante a execução da pena privativa de liberdade interrompe o prazo para a obtenção da progressão no regime de cumprimento da pena, caso em que o reinício da contagem do requisito objetivo terá como base a pena remanescente. § 7º O bom comportamento é readquirido após 1 (um) ano da ocorrência do fato, ou antes, após o cumprimento do requisito temporal exigível para a obtenção do direito. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). Ao analisar o art. 112 da Lei nº 13.964/2019, se percebe uma nova estruturação dos prazos para progressão de regime, sendo definidos com a gravidade do delito de cada apenado. A exigência de boa conduta carcerária, validada pelo diretor da instituição, resulta no laudo carcerário juntado ao processo, ao qual demonstra que o 49 preso está apto à ressocialização. Embora a decisão do juiz para a progressão de regime exija o chamamento do Ministério Público e ao defensor ao processo, a legislação também atenta para as circunstâncias específicas de mulheres em situações particulares, garantindo uma abordagem adequada à sua condição. Assim, o conjunto de normas elencadas nesse artigo, demonstra um avanço objetivo no sistema penal, buscando conciliar a punição dos condenados, com sua reintegração social. 14.5. Saída Temporária Para Marcão, (2021), foi incluído novos parágrafos no art. 122 da Lei nº 13.964/2019, que veda a saída temporária do condenado por praticar crime hediondo com resultado morte. Conforme estabelece o art. 122 da Lei nº 13.964/2019, os condenados que cumprem pena em regime semiaberto podem obter autorização para saída temporária do estabelecimento em determinadas circunstâncias específicas. Entre essas situações estão a visita à família, a frequência a cursos profissionalizantes ou educacionais, e a participação em atividades que contribuam para sua reinserção social. Observe a redação: Art. 122. Os condenados que cumprem pena em regime semiaberto poderão obter autorização para saída temporária do estabelecimento, sem vigilância direta, nos seguintes casos: I - visita à família; II - frequência a curso supletivo profissionalizante, bem como de instrução do 2º grau ou superior, na Comarca do Juízo da Execução; III - participação em atividades que concorram para o retorno ao convívio social. § 1º A ausência de vigilância direta não impede a utilização de equipamento de monitoração eletrônica pelo condenado, quando assim determinar o juiz da execução. § 2º Não terá direito à saída temporária a que se refere o caput deste artigo o condenado que cumpre pena por praticar crime hediondo com resultado morte. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). A nova adição do §2º determina que não terá direito à saída temporária prevista no caput do art. 122 da Lei nº 13.964/2019, o condenado que cumpre pena por praticar crime hediondo com resultado morte. Tal disposição visa a resguardar a sociedade, tendo em vista a extrema gravidade desses crimes e o potencial risco que representam para a comunidade. 50 A proibição da saída temporária para condenados por crimes hediondos com resultado morte é uma medida que busca conciliar a ressocialização do indivíduo com a proteção da sociedade. Sendo assim, a inclusão desse novo parágrafo no art. 122 remete a uma preocupação do legislador em garantir uma política penal mais equilibrada, que considere a reabilitaçãodo condenado, e a segurança da sociedade. 51 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 2023. Disponível em: https://abre.ai/jy3F. Acesso em: 15/02/2024. BRASIL. Decreto Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, Código Penal. Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1940; 119º da Independência e 52º da República. Brasília, DF: 1940. Disponível em: https://encurtador.com.br/luxM1. Acesso em: 19/02/2024. BRASIL. Decreto Lei nº 3.689 de 03 de outubro de 1941, Código de Processo Penal. Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 1941; 120o da Independência e 53o da República. Brasília, DF: 1941. Disponível em: https://encurtador.com.br/dlW69. Acesso em: 19/02/2024. BRASIL. LEI nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019. Aperfeiçoa a legislação penal e processual penal. Brasília, 29 de abril de 2021; 200º da Independência e 133º da República. Brasília, DF: 2021. Disponível em: https://encurtador.com.br/sEOS4. Acesso em: 12/02/2024. BRASIL. LEI nº 14.326, de 12 de abril de 2022. Altera a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 (Lei de Execução Penal). Brasília, 12 de abril de 2022; 201º da Independência e 134º da República. Brasília, DF: 2022. Disponível em: https://encurtador.com.br/uEMVX. Acesso em: 18/02/2024. BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Brasília, 11 de julho de 1984; 163º da Independência e 96º da República. Disponível em: https://abre.ai/jy3u. Acesso em: 06/02/2024. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 441. A falta grave não interrompe o prazo para obtenção de livramento condicional. TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 28/04/2010, DJe 13/05/2010. Disponível em: https://abre.ai/jy3v. Acesso em: 18/02/2024. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. T6 - Sexta Turma do STJ. (HC n. 168.954/SP, relator Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 21/10/2010, DJe de 16/11/2010). Brasília, DF: STJ, 2010. Disponível em: https://abre.ai/jy3z. Acesso em: 19/02/2024. BRITO, Alexis Couto de. Execução Penal. – 6. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. 52 MARCÃO, Renato. Curso de execução penal – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Execução Penal. – 4. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021.b) perda de bens; c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos; XLVII - não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; b) de caráter perpétuo; c) de trabalhos forçados; d) de banimento; e) cruéis; XLVIII - a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado; XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; L - às presidiárias serão asseguradas condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação. (BRASIL, 1988). É sabido que as diversas disciplinas do direito adotam princípios constitucionais a serem observados, e tal cenário não difere na esfera do direito penal e do processo penal. Essas áreas lidam com a liberdade individual, podendo também abranger a execução penal, normas penais, processuais e administrativas, conforme explicado por Nucci: Quanto à individualização da pena, sabe-se que há três aspectos a considerar: (a) individualização legislativa: feita pelo Poder Legislativo ao criar 6 um tipo penal incriminador inédito; (b) individualização judicial: na sentença condenatória, deve o magistrado fixar a pena concreta, escolhendo o valor cabível, entre o mínimo e o máximo, abstratamente previstos pelo legislador, além de optar pelo regime de cumprimento da pena e pelos eventuais benefícios (penas alternativas, suspensão condicional da pena etc.); (c) individualização executória: a terceira etapa da individualização da pena se desenvolve no estágio da execução penal. Esta parte é, normalmente, desconhecida – ou mal compreendida – dos estudiosos das ciências criminais. A sentença condenatória não é estática, mas dinâmica. Um réu condenado ao cumprimento da pena de reclusão de doze anos, em regime inicial fechado, pode cumpri-la exatamente em doze anos, no regime fechado (basta ter péssimo comportamento carcerário, recusar-se a trabalhar etc.) ou cumpri-la em menor tempo, valendo-se de benefícios específicos (remição, comutação, progressão de regime, livramento condicional etc.). Por fim, é preciso destacar que a execução penal não possui princípios constitucionais exclusivos; na realidade, os princípios penais e processuais penais são compartilhados com o Direito de Execução Penal. (NUCCI, 2021). Ainda sobre a execução penal de forma geral, o mesmo autor assevera sobre a observância acerca de sua natureza jurídica: Cuida-se da atividade jurisdicional, voltada a tornar efetiva a pretensão punitiva do Estado, em associação à atividade administrativa, fornecedora dos meios materiais para tanto. Portanto, um processo de natureza mista, abrangendo aspectos jurisdicionais e administrativos. É preciso frisar caber à União, privativamente, a competência para legislar em matéria de execução penal, quando as regras concernirem à esfera penal ou processual penal (art. 22, I, CF). Esse é o contexto básico da execução penal, abrangendo tanto penal quanto processo penal, no seu lado jurisdicional. Envolve-se, ainda, com o Direito Penitenciário, vinculado à organização e funcionamento de estabelecimentos prisionais, normas de assistência ao preso ou ao egresso, órgãos auxiliares da execução penal, entre outros temas correlatos à parte administrativa da execução, cuja competência legislativa é da União, mas concorrentemente com os Estados e Distrito Federal (art. 24, I, CF). (NUCCI, 2021). 1.1. Jurisdição Compete à União, exclusivamente, a competência para legislar acerca da execução penal, se tratarem de regras referentes ao direito penal ou processual penal, art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; (BRASIL, 1998). No entanto, seguindo com a leitura do art. 24, I: Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: I - direito tributário, financeiro, penitenciário, econômico e urbanístico. (BRASIL, 1988). Vimos que há uma concorrência da competência para legislar sobre o direito penitenciário e se tratando de execução penal é evidente o envolvimento do direito penitenciário, Nucci explica: 7 Envolve-se, ainda, com o Direito Penitenciário, vinculado à organização e funcionamento de estabelecimentos prisionais, normas de assistência ao preso ou ao egresso, órgãos auxiliares da execução penal, entre outros temas correlatos à parte administrativa da execução, cuja competência legislativa é da União, mas concorrentemente com os Estados e Distrito Federal (art. 24, I, CF). (NUCCI, 2021) Outro ponto importante é a explicação acerca da jurisdição ordinária e especial: Ordinária é a jurisdição comum – federal ou estadual – não concernente a nenhuma matéria específica, fixada pela Constituição. Por outro lado, em relação à chamada jurisdição especial, tratando de matéria específica, constitucionalmente prevista, somente há possibilidade de haver condenação criminal na Justiça Eleitoral ou na Justiça Militar. Para delimitar a competência do juízo da execução penal, segue-se a Súmula 192 do Superior Tribunal de Justiça: “Compete ao Juízo das Execuções Penais do Estado a execução das penas impostas a sentenciados pela Justiça Federal, Militar ou Eleitoral, quando recolhidos a estabelecimentos sujeitos à administração estadual”. Em suma, se o presídio é estadual, compete ao juiz estadual executar a pena. Se é federal, ao juiz federal. Se militar, cabe ao juiz militar. Portanto, depende do local para onde é levado o condenado para que se saiba o juízo das execuções competente. Lembremos a existência de presídios estaduais, federais e militares (mas não há eleitorais; condenados com fundamento em crime eleitoral, podem seguir para presídios estaduais ou federais). LEP, art. 2º. A jurisdição penal dos Juízes ou Tribunais da Justiça ordinária, em todo o Território Nacional, será exercida, no processo de execução, na conformidade desta Lei e do Código de Processo Penal. Parágrafo único. Esta Lei aplicar-se-á igualmente ao preso provisório e ao condenado pela Justiça Eleitoral ou Militar, quando recolhido a estabelecimento sujeito à jurisdição ordinária. (NUCCI, 2021). 1.2. Finalidade da pena e justiça restaurativa A introdução da pena de prisão, ao substituir as penas de morte ou corporais, representa um avanço, embora inicialmente tenha surgido não como uma sanção penal em si, mas para assegurar a execução de outras penalidades. Em seus estágios iniciais, a pena de prisão possuía predominantemente um caráter retributivo, cujo propósito era o de impor castigo. A discussão gira em torno do caráter preventivo da pena, que busca reeducação e ressocialização. Alguns doutrinadores contestam a ideia de que a execução penal possua essa característica, conforme explicado por Nucci (2021): Temos sustentado que a pena tem vários fins comuns e não excludentes: retribuição e prevenção. Na ótica da prevenção, sem dúvida, há o aspecto particularmente voltado à execução penal, que é o preventivo individual positivo (reeducação ou ressocialização). Uma das importantes metas da execução penal é promover a reintegração do preso à sociedade. E um dos mais relevantes fatores para que tal objetivo seja atingido é proporcionar ao condenado a possibilidade de trabalhar e, atualmente, sob enfoque mais 8 avançado, estudar. Já tivemos oportunidade de expor, em nossa obra Individualização da Pena, que o caráter retributivo da pena vem expresso em lei, como se vê no disposto no art. 59 do CP: “O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I – as penasaplicáveis dentre as cominadas; II – a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III – o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV – a substituição da pena privativa de liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível”. Deve-se mencionar, ainda, o disposto no art. 121, § 5.º, do Código Penal, salientando ser possível ao juiz aplicar o perdão judicial, quando as consequências da infração atingirem o próprio agente de maneira tão grave que a sanção penal se torne desnecessária, evidenciando o caráter punitivo da pena. Aliás, na origem do termo, que vem do grego “poine”, pena significa vingança, ódio, ou ainda, nas palavras de ANA MESSUTI “a retribuição destinada a compensar um crime, a expiação de sangue”. Por outro lado, o caráter preventivo da pena desdobra-se em dois lados: a) geral, subdividido noutros dois: a.1) preventivo positivo: a aplicação da pena tem por finalidade reafirmar à sociedade a existência e força do Direito Penal; a.2) preventivo negativo: a pena concretizada fortalece o poder intimidativo estatal, representando alerta a toda a sociedade, destinatária da norma penal; b) especial, também se subdivide em dois aspectos: b.1) preventivo positivo: é o caráter reeducativo e ressocializador da pena, buscando preparar o condenado para uma nova vida, respeitando as regras impostas pelo ordenamento jurídico. A Lei de Execução Penal preceitua: “a assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade” (art. 10, caput). Ademais, o art. 22, da mesma Lei, dispõe: “a assistência social tem por finalidade amparar o preso e o internado e prepará-los para o retorno à liberdade”; b.2) preventivo negativo: significa voltar-se a pena igualmente à intimidação do autor da infração penal para que não torne a agir do mesmo modo, além de, conforme o caso, afastá-lo do convívio social, garantia maior de não tornar a delinquir, ao menos enquanto estiver segregado. São as múltiplas facetas da pena. (NUCCI, 2021). Brito (2020), aborda o tema das finalidades da pena da seguinte forma: É evidente que a pena privativa de liberdade pessoal é em si mesma um mal: um mal para a pessoa sobre quem é imposta, mas também um mal para a sociedade constrangida a recorrer a ela, como mortificação pela falência da prevenção, falência da qual a pena é viva testemunha, com dispêndio de meios, com escassez de perspectiva de sucesso quanto à prevenção especial. Justamente por isso se propõe por meio da pena privativa de liberdade, como por meio da pena em geral, uma suposta finalidade educativa e socializante. Todavia, todos sabemos que a pena privativa de liberdade não nasceu de uma exigência de (re) educação ou de (res) socialização, mas sim de uma dupla intenção totalmente diversa: a necessidade de isolar o culpado da sociedade e a exigência de substituir com uma punição menos bárbara as penas desumanas, degradantes e extremas que marcaram por muito tempo o direito punitivo. Por quantos esforços se tenham feito e por quantos façamos sobre o terreno da humanização da pena detentiva e a favor de uma organização apta a assegurar-lhe uma função educativa, é certo que sobre este último aspecto a pena privativa de liberdade apresentará limites insuperáveis. Ela deverá procurar de todo modo absorver a finalidade de incremento, mas não poderá nunca ser prescrita como o melhor meio para realizar essa finalidade (Vassalli. Scritti giuridici, p. 1.628. t. 1. v. 2). (...) A Lei 9 de Execução Penal preocupou-se com o envolvimento da sociedade civil no processo de “ressocialização”. E a justificativa surge com clareza do texto de René Ariel Dotti: “a execução das penas e Medidas de Segurança à revelia da participação eficaz da sociedade, além de institucionalizar mais gravemente a pena de proscrição, ou seja, uma reprise em circuito fechado da antiga pena da perda da paz impede que o condenado possa alcançar a ressocialização como objetivo racional e dogmático de um fim social da pena e não como esperança mirífica da recuperação moral, tão recitada pelos samaritanos da redenção espiritual” (Dotti. Reforma penal brasileira, p. 273). A pena é sofrida pelo autor e percebida pelos seus contemporâneos (Welzel. Derecho penal alemán, p. 281). Nessa categoria incluem--se familiares, vítimas e toda a sociedade, enquanto o homem existir. Submeter o cidadão a uma pena deve significar proporcionar ao Estado a reprovação do fato cometido e, ao condenado as condições de acréscimos pessoais rumo à sintonia com os valores e a cultura vivida em sua comunidade. É por isso que todos os institutos ligados à Execução Penal devem ter como finalidade diminuir os efeitos ou evitar as consequências danosas do cárcere, o que significa formular e aplicar institutos sempre voltados a diminuir a permanência do condenado na prisão. Nos moldes de uma execução construtivista da pena, deve--se procurar restabelecer as relações interpessoais entre os envolvidos (condenados, funcionários, técnicos, cidadãos livres), ainda que na condução dessa finalidade se possa abrir mão de métodos rigorosos de “tratamento”. (BRITO, apud VASSALLI; DOTTI; WELZEL. 2020). 2. LEI DE EXECUÇÃO PENAL – LEI N.º 7.210/1984 Segundo Brito (2020), após a condenação de um indivíduo no âmbito criminal, o Estado assume a responsabilidade e o direito de aplicar as punições de acordo com as leis estabelecidas. Um ponto imprescindível nesse processo é a Lei 7.210/84, conhecida como Lei de Execução Penal, que estabelece os princípios e diretrizes para a correta execução das penas impostas. O Art. 1º desta lei enfatiza que a execução penal visa efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal, além de proporcionar condições para a harmoniosa reintegração social do condenado e do internado. Essa é uma missão que requer equilíbrio entre a punição justa pelo crime cometido e a oportunidade de ressocialização do indivíduo. A punição imposta pelo Estado não é somente uma forma de retribuição pelo delito, mas também tem o propósito de proteger a sociedade e promover a justiça. No entanto, a simples privação de liberdade não é suficiente para alcançar esses objetivos. É necessário um sistema que ofereça oportunidades para que o condenado possa se reabilitar e se reintegrar à sociedade de maneira positiva. A Lei de Execução Penal estabelece diretrizes para garantir que a execução da pena seja realizada de forma humana e respeitosa aos direitos fundamentais do 10 indivíduo. Ela prevê ações como o trabalho, a educação e o apoio psicossocial como meios de promover a ressocialização e evitar a reincidência criminal. Além disso, a lei também estabelece medidas como a progressão de regime e a liberdade condicional, que permitem ao condenado demonstrar seu progresso e sua disposição de se reintegrar à sociedade. Essas medidas incentivam a responsabilidade individual do condenado a buscar uma vida livre de crimes. No entanto, é importante mencionar que a aplicação da Lei de Execução Penal não deve ser vista apenas como um processo burocrático. Ela requer um compromisso real do Estado em fornecer os recursos e as condições necessárias para que a execução da pena seja objetiva. Isso inclui investimentos em infraestrutura prisional, programas de educação e capacitação profissional, assistência jurídica e psicossocial, entre outros. Sendo assim, para haver a correta execução das penas impostas, o art. 1º da Lei 7.210/84, estabelece que: art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado. (BRASIL, 1984). De acordo com o artigo 1º, a execução penal busca concretizar as decisões judiciais e criar condições para a reintegração social do condenado ou internado. É relevante destacar que a instituiçãoda prisão se divide em prisão cautelar (temporária ou provisória) e prisão-pena (sanção penal). O artigo 2º da Lei de Execuções Penais (LEP) refere-se à jurisdição penal dos Juízes e Tribunais de Justiça ordinária, estabelecendo que suas disposições se aplicam tanto ao preso provisório quanto ao condenado pela Justiça Eleitoral ou Militar quando recolhidos a estabelecimentos sujeitos à jurisdição ordinária. Portanto, é importante notar que a LEP também abrange os presos provisórios, além daqueles sob pena de prisão, conforme disposto no artigo 2º, o que amplia o alcance das normas além dos indivíduos detidos por condenação penal. Art. 2º A jurisdição penal dos juízes ou tribunais da justiça ordinária, em todo o território nacional, será exercida, no processo de execução, na conformidade desta lei e do Código de Processo Penal. Parágrafo único. Esta lei aplicar-se-á igualmente ao preso provisório e ao condenado pela Justiça Eleitoral ou Militar, quando recolhido a estabelecimento sujeito à jurisdição ordinária. (BRASIL, 1984). 11 Quanto aos objetivos da LEP, conforme delineado no artigo 1º, incluem-se o cumprimento das sanções penais impostas e a reintegração social do condenado ou internado. A competência para a execução penal é atribuída ao juiz designado pela legislação local ou, na ausência deste, ao juiz da sentença, conforme o artigo 65 da LEP, ao qual estabelece que: art. 65. A execução penal competirá ao Juiz indicado na lei local de organização judiciária e, na sua ausência, ao da sentença. (BRASIL, 1984). Os direitos do preso são garantidos pelo artigo 3º da lei, que estipula que serão assegurados todos os direitos não afetados pela sentença ou pela lei, sem qualquer discriminação de natureza racial, social, religiosa ou política. Ademais, o Estado deve buscar a cooperação da comunidade nas atividades de execução da pena e medida de segurança, conforme o artigo 4º. Art. 3º Ao condenado e ao internado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei. Parágrafo único. Não haverá qualquer distinção de natureza racial, social, religiosa ou política. Art. 4º O Estado deverá recorrer à cooperação da comunidade nas atividades de execução da pena e da medida de segurança. (BRASIL, 1984). Em síntese, a medida de prisão deve afetar apenas o direito à liberdade do preso, preservando os demais direitos não atingidos pela sentença, o que implica que os órgãos responsáveis pela execução penal devem garantir esses direitos durante o cumprimento da pena privativa de liberdade, como acesso à alimentação, saúde e integridade física. Segundo Brito (2020), conforme estabelecido, a privação de liberdade imposta pela medida de prisão deve, em sua essência, restringir apenas um dos direitos do indivíduo: o direito à liberdade. Nesse contexto, é fundamental que mesmo diante da privação da liberdade, os condenados mantenham intactos os demais direitos não afetados pela decisão judicial. Portanto, é incumbência dos órgãos responsáveis pela execução penal garantir que os direitos do condenado sejam respeitados e assegurados durante o cumprimento da pena privativa de liberdade, incluindo, mas não se limitando a, direitos como alimentação adequada, acesso à saúde e preservação da integridade física. 12 Nessa perspectiva, a Lei de Execução Penal (LEP) confere uma série de direitos aos condenados e aos presos provisórios, visando garantir condições dignas durante o período de reclusão: Art. 40. Impõe-se a todas as autoridades o respeito à integridade física e moral dos condenados e dos presos provisórios. Art. 41. Constituem direitos do preso: I – alimentação suficiente e vestuário; II – atribuição de trabalho e sua remuneração; III – Previdência Social; IV – constituição de pecúlio; V – proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação; VI – exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com a execução da pena; VII – assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa; VIII – proteção contra qualquer forma de sensacionalismo; IX – entrevista pessoal e reservada com o advogado; X – visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados; XI – chamamento nominal; XII – igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena; XIII – audiência especial com o diretor do estabelecimento; XIV – representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito; XV – contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes. XVI – atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilidade da autoridade judiciária competente. Parágrafo único. Os direitos previstos nos incisos V, X e XV poderão ser suspensos ou restringidos mediante ato motivado do diretor do estabelecimento. (BRASIL, 1984). 3. DA ASSISTÊNCIA AO RECLUSO Para Marcão, (2021), ao ser analisado os dispositivos da Lei de Execução Penal (LEP), é de se observar a relevância da assistência assegurada ao preso ou internado como um dever do Estado. O Artigo 10 ressalta que essa assistência tem como objetivos a prevenção do crime e a orientação para o retorno à convivência em sociedade. Nesse sentido, compreender que a assistência não se limita apenas ao período de encarceramento, mas se estende também ao egresso. Quanto aos aspectos da assistência, o Artigo 11 elenca diversas dimensões que devem ser contempladas. Em primeiro lugar, destaca-se a assistência material, que engloba condições dignas de vida, como alimentação adequada e condições de higiene. Esses aspectos são fundamentais visando sempre o bem-estar físico, além 13 de preservar a dignidade humana para a construção de uma cultura de respeito aos direitos fundamentais. Desta feita, a assistência à saúde se configura como uma dimensão primordial, garantindo o acesso a serviços médicos e psicológicos que possam tratar eventuais problemas de saúde física e mental dos detentos. A atenção jurídica também é essencial, assegurando que os presos tenham acesso à defesa legal e compreensão dos trâmites judiciais que envolvem sua situação. Segundo Brito (2020), à assistência educacional, deve-se oferecer oportunidades de aprendizado e capacitação, visando à reintegração social por meio da qualificação profissional e do desenvolvimento intelectual. A dimensão social da assistência busca promover a reinserção dos indivíduos na comunidade, fornecendo apoio para reconstrução de laços familiares e sociais. Já, a assistência religiosa representa o respeito à diversidade de crenças e a garantia do exercício da liberdade religiosa mesmo em contextos de privação de liberdade. Dessa forma, a LEP estabelece um amplo conjunto de medidas destinadas a promover a ressocialização e a garantir a dignidade dos indivíduos submetidos ao sistema prisional, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Conforme demostrado, observe o que estabelece os artigos 10 e 11 da LEP: Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade. Parágrafo único. A assistência estende-se ao egresso. Art. 11. A assistência será: I – material; II – à saúde; III – jurídica; IV – educacional; V – social; VI – religiosa. (BRASIL, 1984). Importante também mencionar sobre a Assistência à Saúde da mulher presa gestante ou puérpera demanda tratamento humanitário antes, durante e após o trabalho de parto, e no período de puerpério. Esta é uma questão que ganhou relevância com a inclusão do parágrafo §4º no artigo 14 da Lei nº 14.326/22, que estabelece medidas para garantir aassistência integral à saúde dessas mulheres e de seus recém-nascidos. 14 Essa legislação reflete um avanço significativo na proteção dos direitos das mulheres encarceradas em situação gestacional ou pós-parto. Ao incluir disposições específicas para esse grupo vulnerável, a lei reconhece a importância de garantir-lhes acesso a cuidados médicos adequados e humanizados, alinhados com os princípios de dignidade e respeito à sua condição. Para Marcão, (2021), no âmbito da Assistência à Saúde, é fundamental que as mulheres presas recebam acompanhamento médico regular durante a gestação, com exames pré-natais e orientações sobre cuidados com a saúde materna e fetal. Durante o trabalho de parto, é essencial proporcionar-lhes assistência qualificada e respeitosa, assegurando o acesso a uma estrutura adequada para o parto e a presença de profissionais capacitados para atender suas necessidades médicas e emocionais. Além disso, no período pós-parto, conhecido como puerpério, é imprescindível garantir às mulheres encarceradas o suporte necessário para a recuperação física e psicológica após o parto. Isso inclui cuidados com a amamentação, orientações sobre o manejo de possíveis complicações pós-parto e apoio emocional para lidar com as demandas da maternidade em um ambiente prisional. A implementação efetiva do parágrafo §4º do artigo 14 da Lei nº 14.326/22 requer a adoção de políticas públicas que assegurem o cumprimento dessas disposições em todas as unidades prisionais do país. Isso envolve a capacitação de profissionais de saúde, a disponibilização de recursos adequados e a criação de protocolos específicos para garantir a assistência integral à saúde das mulheres presas gestantes ou puérperas e de seus bebês. Sendo assim, a inclusão dessas medidas na legislação representa um avanço significativo na proteção dos direitos das mulheres encarceradas em situação gestacional ou pós-parto. No entanto, é fundamental que essas disposições sejam efetivamente implementadas e acompanhadas de políticas públicas que garantam o acesso universal e igualitário à Assistência à Saúde, respeitando a dignidade e os direitos humanos das mulheres presas e de seus filhos. Nessa esteira, a Lei nº 14.326/22 inclui no art. 14 da LEP o parágrafo § 4º, o qual prevê: §4º Será assegurado tratamento humanitário à mulher grávida durante os atos médico-hospitalares preparatórios para a realização do parto e durante o trabalho de parto, bem como à mulher no período de puerpério, cabendo 15 ao poder público promover a assistência integral à sua saúde e à do recém- nascido. (Incluído pela Lei nº 14.326, de 2022). (BRASIL, 1984). 4. EGRESSOS Para Marcão, (2021), a legislação brasileira define como egresso o indivíduo que foi condenado e liberado definitivamente, seja pelo cumprimento integral de sua pena ou pela concessão de livramento condicional. Esta liberação definitiva possui um período de observação de um ano, a contar da data de sua saída. Além disso, a Lei de Execução Penal (LEP) estipula medidas de amparo ao egresso, conforme estabelecido nos artigos 25 e 27, almejando sua reintegração social. O objetivo dessas disposições legais é proporcionar ao indivíduo recém- liberado as condições necessárias para sua reintegração social. Nesse sentido, é assegurado ao egresso orientação e apoio, visando facilitar sua adaptação à vida em liberdade. Isso inclui assistência na busca por alojamento e alimentação, fornecidos em estabelecimento adequado por um período de até dois meses, conforme previsto no Artigo 25, Inciso II, da LEP, ao qual determina: Art. 25. A assistência ao egresso consiste: [...] II - na concessão, se necessário, de alojamento e alimentação, em estabelecimento adequado, pelo prazo de 2 (dois) meses. (BRASIL, 1984). Ademais, a lei assevera que assistentes sociais auxiliem o egresso na procura de emprego, reconhecendo a importância do trabalho como um elemento fundamental para a reinserção na sociedade. Dessa forma, ao garantir essas medidas de suporte, a legislação visa evitar a reincidência criminal, bem como, promover a ressocialização do indivíduo e contribuir para a construção de uma comunidade mais segura e justa. 5. DO TRABALHO Para Marcão, (2021), a Lei de Execução Penal – LEP, é um instrumento normativo que regula diversos aspectos do sistema carcerário, incluindo o trabalho dos detentos. Esse tema é abordado entre os artigos 28 e 37 da referida legislação, cuja leitura é imprescindível para compreensão das disposições pertinentes. De acordo com os termos da LEP, fica estabelecido que o condenado está sujeito ao trabalho, tanto interno quanto externo, conforme suas habilidades e capacidades. É importante destacar que todo trabalho realizado pelo detento deve ser 16 remunerado, garantindo assim seu direito e assegurando uma contribuição digna para a sociedade. Entretanto, há exceções nesse contexto. Conforme disposto no artigo 31 da LEP, o trabalho interno é obrigatório apenas para os condenados à pena privativa de liberdade, ficando isentos dessa obrigatoriedade os presos provisórios. Para estes últimos, o trabalho interno só pode ser realizado no interior do estabelecimento prisional. Outra exceção relevante é abordada no artigo 200 da LEP, o qual estipula que o condenado por crime político não está sujeito ao trabalho, seja ele interno ou externo. Essa disposição visa resguardar direitos específicos relacionados a esse tipo de detenção, reconhecendo sua natureza dos crimes políticos. Sendo assim, apenas o preso provisório e o político não estão obrigados ao trabalho interno, observe: Art. 31. O condenado à pena privativa de liberdade está obrigado ao trabalho na medida de suas aptidões e capacidade. Parágrafo único. Para o preso provisório, o trabalho não é obrigatório e só poderá ser executado no interior do estabelecimento. Art. 200. O condenado por crime político não está obrigado ao trabalho. (BRASIL, 1984). Um outro aspecto crucial é que os serviços comunitários, como definidos pelo artigo 30 da Lei de Execuções Penais (LEP), não receberão remuneração. Essa disposição legal visa direcionar as atividades dos detentos para a contribuição à sociedade sem a expectativa de compensação financeira direta. É importante ressaltar que mesmo fora do escopo da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o preso detém direitos à previdência social, conforme delineado no artigo 41, III, da LEP. Isso significa que, apesar de sua condição de detento, ele mantém uma proteção social básica. Além disso, a legislação estipula que a remuneração pelo trabalho do preso, quando aplicável, jamais poderá ser inferior a ¾ (três quartos) do salário mínimo vigente. Este princípio está explicitado no artigo 29 da LEP, o qual define a remuneração mínima, bem como, especifica as destinações obrigatórias desse ganho, observe: 17 Art. 29. O trabalho do preso será remunerado, mediante prévia tabela, não podendo ser inferior a 3/4 (três quartos) do salário mínimo. §1º O produto da remuneração pelo trabalho deverá atender: a) à indenização dos danos causados pelo crime, desde que determinados judicialmente e não reparados por outros meios; b) à assistência à família; c) a pequenas despesas pessoais; d) ao ressarcimento ao Estado das despesas realizadas com a manutenção do condenado, em proporção a ser fixada e sem prejuízo da destinação prevista nas letras anteriores. § 2º Ressalvadas outras aplicações legais, será depositada a parte restante para constituição do pecúlio, em Caderneta de Poupança, que será entregue ao condenado quando posto em liberdade. (BRASIL, 1984). Consoante o parágrafo primeiro do referido artigo, a remuneração obtida pelo trabalho do detento deve ser destinada, prioritariamente, a quatro finalidades: indenização dos danos causados pelo crime, assistênciaà família, pequenas despesas pessoais e ressarcimento ao Estado das despesas com a manutenção do condenado. Essas destinações são fundamentais para promover a responsabilidade e a reintegração do indivíduo na sociedade. Já o parágrafo segundo, ressalta que o saldo remanescente, após o cumprimento dessas obrigações, deve ser depositado em uma Caderneta de Poupança para formação do pecúlio, que será entregue ao condenado ao término de sua pena, como uma forma de proporcionar um recomeço após a liberdade. Assim, a remuneração do trabalho realizado pelo preso é regulada pela lei de forma a garantir que sua execução cumpra um propósito social, além de contribuir para sua reintegração na comunidade após o cumprimento da pena. 6. DOS DEVERES, DOS DIREITOS E DAS DISCIPLINAS DO PRESO Para Marcão, (2021), a legislação penal brasileira estabelece uma série de deveres, direitos e disciplinas que regem a conduta dos indivíduos condenados, delimitando as responsabilidades inerentes ao seu estado. O Artigo 38 da LEP destaca a obrigação do condenado de aderir às normas legais, bem como, às diretrizes específicas para a execução da pena. O Artigo 39, por sua vez, delineia de maneira detalhada os deveres que recaem sobre o ombro do apenado, englobando desde o comportamento disciplinado e o cumprimento integral da sentença até a execução do trabalho, o respeito às autoridades penitenciárias, a indenização à vítima e ao Estado, quando possível, das despesas decorrentes de sua manutenção. 18 A observância da urbanidade e do respeito nas relações com outros condenados, a prevenção de atitudes contrárias à ordem e disciplina, bem como, a responsabilidade pela conservação de objetos pessoais e pela higiene pessoal e do ambiente de alojamento constituem aspectos importantes dessas normativas. O Parágrafo único ressalta a extensão dessas disposições também aos presos provisórios, adaptando-as à natureza transitória de sua situação. Assim, a compreensão e o acatamento dessas normas se tornam fundamentais para a manutenção da ordem e da dignidade no sistema prisional brasileiro. Observe as redações da norma que regulam sobre o assunto: Art. 38. Cumpre ao condenado, além das obrigações legais inerentes ao seu estado, submeter-se às normas de execução da pena. Art. 39. Constituem deveres do condenado: I - comportamento disciplinado e cumprimento fiel da sentença; II - obediência ao servidor e respeito a qualquer pessoa com quem deva relacionar-se; III - urbanidade e respeito no trato com os demais condenados; IV - conduta oposta aos movimentos individuais ou coletivos de fuga ou de subversão à ordem ou à disciplina; V - execução do trabalho, das tarefas e das ordens recebidas; VI - submissão à sanção disciplinar imposta; VII - indenização à vitima ou aos seus sucessores; VIII - indenização ao Estado, quando possível, das despesas realizadas com a sua manutenção, mediante desconto proporcional da remuneração do trabalho; IX - higiene pessoal e asseio da cela ou alojamento; X - conservação dos objetos de uso pessoal. Parágrafo único. Aplica-se ao preso provisório, no que couber, o disposto neste artigo. (BRASIL, 1984). Seguindo sobre direitos do preso, há previsão no artigo 5º, III da Constituição Federal de 1988, III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; (BRASIL, 1988) e XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral, (BRASIL, 1988), vejamos também a previsão no artigo 41 da LEP: Art. 41 - Constituem direitos do preso: I - alimentação suficiente e vestuário; II - atribuição de trabalho e sua remuneração; III - Previdência Social; IV - constituição de pecúlio; V - proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação; VI - exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com a execução da pena; 19 VII - assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa; VIII - proteção contra qualquer forma de sensacionalismo; IX - entrevista pessoal e reservada com o advogado; X - visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados; XI - chamamento nominal; XII - igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena; XIII - audiência especial com o diretor do estabelecimento; XIV - representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito; XV - contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes. XVI – atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilidade da autoridade judiciária competente. (Incluído pela Lei nº 10.713, de 2003) Parágrafo único. Os direitos previstos nos incisos V, X e XV poderão ser suspensos ou restringidos mediante ato motivado do diretor do estabelecimento. (BRASIL, 1984). 6.1. Das disciplinas A LEP ao discorrer sobre disciplina, em seu art. 44 estabelece que a disciplina é caracterizada pela colaboração com a ordem, obediência às autoridades e agentes, além do cumprimento do trabalho. Esta colaboração é especialmente relevante para os condenados à pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos, bem como, para os presos provisórios. Para Marcão, (2021), a garantia contra arbitrariedades é assegurada pelo art. 45, que veda a aplicação de falta ou sanção disciplinar sem previsão legal, ou regulamentar expressa e anterior. Além disso, as sanções impostas não devem comprometer a integridade física e moral do condenado, conforme §1º, sendo proibido o emprego de cela escura prevista no § 2º e as sanções coletivas previstas no § 3º. No que tange à informação, o art. 46 estipula que o condenado deve ser cientificado das normas disciplinares no início da execução da pena. Assim, assegura- se que o indivíduo esteja ciente das regras que regem sua conduta durante o cumprimento da pena. O exercício do poder disciplinar é claramente definido nos artigos 47 e 48. Na execução da pena privativa de liberdade, o poder disciplinar é atribuído à autoridade administrativa conforme as disposições regulamentares do art. 47. Já nas penas restritivas de direitos, tal poder é exercido pela autoridade administrativa à qual o condenado está sujeito, conforme o art. 48. No entanto, em casos de faltas graves, a autoridade deve representar ao Juiz da execução para as providências cabíveis. 20 Em se tratando das disciplinas vejamos os artigos responsáveis por sua previsão legal: Art. 44. A disciplina consiste na colaboração com a ordem, na obediência às determinações das autoridades e seus agentes e no desempenho do trabalho. Parágrafo único. Estão sujeitos à disciplina o condenado à pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos e o preso provisório. Art. 45. Não haverá falta nem sanção disciplinar sem expressa e anterior previsão legal ou regulamentar. § 1º As sanções não poderão colocar em perigo a integridade física e moral do condenado. § 2º É vedado o emprego de cela escura. § 3º São vedadas as sanções coletivas. Art. 46. O condenado ou denunciado, no início da execução da pena ou da prisão, será cientificado das normas disciplinares. Art. 47. O poder disciplinar, na execução da pena privativa de liberdade, será exercido pela autoridade administrativa conforme as disposições regulamentares. Art. 48. Na execução das penas restritivas de direitos, o poder disciplinar será exercido pela autoridade administrativa a que estiver sujeito o condenado. Parágrafo único. Nas faltas graves, a autoridade representará ao Juiz da execução para os fins dos artigos 118, inciso I, 125, 127, 181, §§ 1º, letra d, e 2º desta Lei. (BRASIL, 1984). As faltas disciplinares podem ser classificadas como leves, médias ou graves segundo o artigo 49da LEP: Art. 49. As faltas disciplinares classificam-se em leves, médias e graves. A legislação local especificará as leves e médias, bem assim as respectivas sanções. Parágrafo único. Pune-se a tentativa com a sanção correspondente à falta consumada. (BRASIL, 1984). Segundo Nucci (2021), ao comentar sobre as faltas leves e médias, aduz que: o art. 49 da Lei de Execução Penal classifica as faltas em leves, médias e graves, também preceitua que a legislação local especificará as leves e médias, bem como, as respectivas sanções. Para respeitar o princípio da legalidade, regente da execução penal, entende-se que a expressão legislação local deveria dizer respeito ao Poder Legislativo estadual, visto que cada Estado poderia ter o seu código de conduta para os presídios que administrar, mas sempre editado pelo Parlamento. Entretanto, o Judiciário tem aceitado a tipificação de faltas leves e médias através de atos administrativos do Poder Executivo. Outras faltas, que não gerem reflexos no prontuário do condenado, esgotando-se em sanções específicas a elas, podem ser 21 previstas em regulamentos de presídios. É previsto a equiparação entre falta consumada e tentada, e nessa questão se crê haver viabilidade para tal previsão, pois existem vários tipos penais que equiparam a figura tentada à consumada, motivo pelo qual se buscou, no art. 49, parágrafo único, da LEP o mesmo propósito. Sendo assim, fugir ou tentar fugir constitui, igualmente, falta grave. Para Marcão (2021), acerca de exemplos de faltas leves e médias, comenta: São exemplos de falta disciplinar de natureza leve, relacionados no Regimento Interno Padrão dos estabelecimentos prisionais do Estado de São Paulo: transitar indevidamente pela unidade prisional; comunicar-se com visitantes sem a devida autorização; comunicar-se com sentenciados em regime de isolamento celular ou entregar-lhes quaisquer objetos sem autorização; adentrar cela alheia sem autorização; improvisar varais e cortinas na cela ou alojamento, comprometendo a vigilância, salvo situações excepcionais autorizadas pelo diretor da unidade prisional; ter a posse de papéis, documentos, objetos ou valores não cedidos e não autorizados pela unidade prisional; estar indevidamente trajado; usar material de serviço para finalidade diversa da que foi prevista; remeter correspondência sem registro regular pelo setor competente; mostrar displicência no cumprimento do sinal convencional de recolhimento ou formação. No mesmo regimento padrão encontram-se relacionadas como falta disciplinar de natureza média, entre outras, as seguintes condutas: atuar de maneira inconveniente, faltando com os deveres de urbanidade perante autoridades, funcionários e sentenciados; portar material cuja posse seja proibida por portaria interna da direção da unidade; desviar ou ocultar objetos cuja guarda lhe tenha sido confiada; simular doença para eximir-se de dever legal ou regulamentar; induzir ou instigar alguém a praticar falta disciplinar grave, média ou leve; divulgar notícia que possa perturbar a ordem ou a disciplina; dificultar a vigilância em qualquer dependência da unidade prisional; praticar autolesão, como ato de rebeldia. (MARCÃO, 2021). 6.2. Das faltas graves É imperativo ressaltar que o rol de faltas graves no âmbito penitenciário é taxativo, como assevera o art. 50 da Lei de Execução Penal (LEP). Este dispositivo estabelece que são consideradas faltas graves as condutas perpetradas pelo indivíduo sujeito à pena privativa de liberdade que transgridam os preceitos ali descritos. O cumprimento rigoroso desse artigo é importe, pois, visa garantir a manutenção da ordem e da segurança no sistema prisional. Esse rigor, é essencial para assegurar um ambiente prisional estável. Desse modo, conforme estabelecido no art. 50 da LEP, configura-se como falta grave aquela conduta perpetrada pelo indivíduo submetido à pena privativa de liberdade que infrinja os seguintes preceitos: 22 Art. 50. Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que: I - incitar ou participar de movimento para subverter a ordem ou a disciplina; II - fugir; III - possuir, indevidamente, instrumento capaz de ofender a integridade física de outrem; IV - provocar acidente de trabalho; V - descumprir, no regime aberto, as condições impostas; VI - inobservar os deveres previstos nos incisos II e V, do artigo 39, desta Lei. VII – tiver em sua posse, utilizar ou fornecer aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com outros presos ou com o ambiente externo. (Incluído pela Lei nº 11.466, de 2007) VIII - recusar submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao preso provisório. (BRASIL, 1984). Há de se observar, que primeiramente esses preceitos, se enquadram na categoria de incitar ou participar de movimentos destinados a subverter a ordem, ou a disciplina, bem como, a prática de fuga das instalações prisionais. Outra conduta passível de ser considerada falta grave é a posse indevida de instrumento capaz de lesar a integridade física de terceiros, assim como, a provocação de acidentes de trabalho no ambiente carcerário. Outrossim, o descumprimento das condições impostas no regime aberto, assim como, a inobservância dos deveres estabelecidos nos incisos II e V do artigo 39 da Lei em questão, são igualmente classificados como faltas graves. Não menos relevante é a proibição de posse, utilização ou fornecimento de dispositivos de comunicação, como aparelhos telefônicos ou de rádio, que possibilitem a interação com outros detentos ou com o exterior. Além disso, a recusa em submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético, conforme estabelecido pela Lei nº 13.964/2019, também figura como falta grave, conforme explicitado no inciso VIII do Artigo 50. Importante frisar que o alcance das disposições contidas no art. 50 se estende, quando aplicável, ao preso provisório, conforme estipulado no parágrafo único do mesmo dispositivo legal. Ainda sobre o rol previsto no artigo 50, houve uma alteração produzida pela Lei nº 13.964, de 2019 que incluiu o inciso VIII, Nucci (2021) comenta que: Prevê-se a equiparação entre falta consumada e tentada, cremos haver viabilidade para tal previsão, pois existem vários tipos penais que equiparam a figura tentada à consumada, razão pela qual se buscou, no art. 49, 23 parágrafo único, da LEP o mesmo propósito. Logo, fugir ou tentar fugir constitui, igualmente, falta grave. (...) O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao preso provisório”. Foi acrescentado, pela Lei 13.964/2019, o inciso VIII ao art. 50, considerando falta grave “recusar submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético”. Como já salientamos, a identificação pelo perfil genético é mais uma forma de individualizar pessoas, como a colheita da impressão digital ou a fotografia. Por isso, é obrigação do condenado que se encaixe nas hipóteses do art. 9.º-A da LEP. A recusa gera falta grave, que vai atrapalhar, no futuro, o recebimento de benefícios, como progressão de regime ou recebimento de livramento condicional. Pode-se indagar quantas vezes o sentenciado, que se recusar a esse procedimento, pode cometer falta grave; segundo nos parece mais lógico, cada vez que ingressar no sistema penitenciário para cumprir pena. Não é viável anotar uma falta grave a cada recusa do preso, se ele não chegou a alterar sua situação no presídio; do contrário, poder-se-ia encaminhá-lo para a colheita do material diariamente e, havendo recusa, seria uma falta grave por dia, resultando em mais de 300 ao ano. Então, é preciso haver solução de continuidade, vale dizer, ele sai do regime fechado e, retornando por qualquer motivo, pode-se cobrar a colheita do materialnovamente. Havendo recusa, registra-se como falta grave. O rol previsto no art. 50 é taxativo. Não é possível o emprego de analogia para suprir eventual lacuna pelas mesmas razões proibitivas no tocante à ausência de lei penal incriminadora para qualquer situação. É preciso lembrar que a anotação de falta grave pode acarretar vários prejuízos ao condenado, incluindo regressão de regime, perda do livramento condicional, inviabilidade de recebimento do indulto, perda de dias remidos etc. Por outro lado, é incabível a criação de novas faltas graves por meio de Resolução, Portaria ou Decreto, sob pena de ofensa à legalidade. Há dois fundamentos básicos para esse impedimento: a) a própria Lei de Execução Penal houve por bem tipificar e enumerar as faltas graves, razão pela qual cabe somente a lei federal ampliar esse rol; b) o art. 49 da LEP permite que a legislação local edite apenas faltas leves ou médias, excluindo, por via de consequência, as graves. (NUCCI, 2021). Todavia, Marcão (2021) critica a alteração feita pelo pacote anticrime A Lei nº 13.964/2019 acrescentou ao art. 50 da LEP seu inc. VIII, essa adição trata que o condenado pratica falta grave na recusa em submeter-se ao procedimento de identificação do perfil genético. A regra também foi introduzida no art. 9º-A da LEP, §8º, mas é inconstitucional o fornecimento obrigatório de DNA e punir com falta grave a recusa ao fornecimento de material genético, visto que ofende ao princípio que ninguém é obrigado a produzir prova contra si. A recusa será então o exercício de um direito constitucional e certamente não há o que se falar em falta disciplinar, pois não cabe punição no exercício do direito. Nem mesmo a redundância legislativa, que é prova de incapacidade técnica e de ausência de visão sistêmica, se encontra apta a salvar a pretensão mal normatizada. Seguindo acerca das faltas graves, Marcão (2021), ensina “O rol de faltas graves é taxativo também se sujeitando aos princípios da reserva legal e da anterioridade. Deve-se observar, que o fato de o Conselho Disciplinar, ao decidir sobre determinada conduta de sentenciado qualificando-a como 24 grave, não impede que o Juiz baseado na Lei de Execução Penal, entenda de modo diferente, pois o Magistrado não está vinculado à classificação feita pela Administração Penitenciária. A prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave conforme prevê a redação do art. 52, caput, da LEP, pois nesse caso é evidente que o autor possui um elevado grau de desajustamento de seu autor aos padrões de conduta social, e seu descaso com a disciplina a ser mantida no estabelecimento prisional, de cujo dever também é sabedor. Não é necessário aguardar a condenação, tampouco o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, e não há violação ao princípio segundo o qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença condenatória (art. 5º, LVII, da CF). Ainda com relação às faltas graves, segue Marcão (2021): Basta a prática do crime doloso. Caso fosse necessário aguardar o trânsito em julgado definitivo da decisão no processo de conhecimento respectivo, por certo ficaria sem sentido a previsão legal, que resultaria de nenhum efeito prático, considerando o tempo demandado para a solução do novo processo. Se sobrevier o arquivamento do inquérito ou absolvição, a decisão proferida no processo execucional deverá ser desconstituída e cessados os seus efeitos. Somente a conduta dolosa deve ser considerada falta grave. O atual art. 83, alínea b, do CP, com a redação da Lei n. 13.964/2019, indica que para obter livramento é preciso que o executado não tenha cometido falta grave nos últimos 12 (doze) meses, e a correta interpretação da regra nos conduz a concluirmos que a prática de falta grave interrompe a contagem do prazo para obtenção de livramento condicional, e que, portanto, perdeu eficácia e deve ser cancelada a Súmula 441 do STJ, que diz: “A falta grave não interrompe o prazo para obtenção de livramento condicional”. Ainda sobre os efeitos da falta grave e o entendimento sumulado do Superior Tribunal de Justiça, conferir: Súmula 534: “A prática de falta grave interrompe a contagem do prazo para a progressão de regime de cumprimento de pena, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração”. A esse respeito, também tem relevo observar que, desde a vigência do atual art. 112 da LEP, com a redação da Lei n. 13.964/2019, dispõe seu § 6º que: “O cometimento de falta grave durante a execução da pena privativa de liberdade interrompe o prazo para a obtenção da progressão no regime de cumprimento da pena, caso em que o reinício da contagem do requisito objetivo terá como base a pena remanescente”. Súmula 535: “A prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de comutação de pena ou indulto”. No RE 972.598 RG/RS, pendente de julgamento, de que é relator o Min. Roberto Barroso, no dia 6 de abril de 2017 o Supremo Tribunal Federal reconheceu que há repercussão geral na questão relacionada à (im) prescindibilidade e/ou (ir) regularidade de procedimento administrativo disciplinar (PAD) para o reconhecimento da prática de falta grave. Essa matéria está delimitada nos seguintes termos: “Tema 941: Possibilidade de afastar-se o prévio procedimento administrativo disciplinar — PAD, ou suprir sua eventual deficiência técnica, na hipótese de oitiva do condenado em audiência de justificação no juízo da execução penal, realizada na presença do ministério público ou defensor”. Segue a ementa: “Execução Penal. Recurso Extraordinário. Prática de falta grave. Prévio procedimento administrativo disciplinar. Desnecessidade. Repercussão geral reconhecida. 1. Nos termos das recentes decisões proferidas pelo Supremo 25 Tribunal Federal, a oitiva do condenado pelo Juízo da Execução Penal, em audiência de justificação realizada na presença do defensor e do Ministério Público, afasta a necessidade de prévio Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD), assim como supre eventual ausência ou insuficiência de defesa técnica no PAD instaurado para apurar a prática de falta grave durante o cumprimento da pena. 2. Assim sendo, a apuração da prática de falta grave perante o juízo da Execução Penal é compatível com os princípios do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LIV e LV, da CF). 3. Reconhecimento da repercussão geral da questão constitucional suscitada. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, reputou constitucional a questão. O Tribunal, por unanimidade, reconheceu a existência de repercussão geral da questão constitucional suscitada. No mérito, não reafirmou a jurisprudência dominante sobre a matéria, que será submetida a posterior julgamento no Plenário físico”. (MARCÃO, 2021). 6.3. RDD - Regime Disciplinar Diferenciado Para Marcão (2021), o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) é uma modalidade de cumprimento de pena que impõe restrições especiais aos detentos, como a limitação ao direito de visita e o recolhimento em cela individual. Com as alterações promovidas pela Lei nº 13.964, de 2019, o RDD previsto no artigo 52 da Lei de Execução Penal (LEP) passou por diversas modificações. Antes das alterações, o RDD era aplicado de forma ampla e com critérios menos específicos, permitindo seu uso indiscriminado em algumas situações. No entanto, a nova legislação trouxe uma série de requisitos e procedimentos mais rigorosos para sua aplicação. Uma das mudanças significativas é a necessidade de uma justificativa fundamentada por parte da autoridade competente para a aplicação do RDD. Agora, exige-se que haja indícios de envolvimento do detento em organizações criminosas ou em casos de grave indisciplina no estabelecimento prisional. Outro ponto relevante é a garantia de acompanhamento médico e psicológico durante o período de cumprimento da pena no RDD. Isso visa assegurar que o detento não seja submetido a condiçõesque comprometam sua integridade física ou mental. Portanto, as alterações promovidas pela Lei nº 13.964/2019 no regime disciplinar diferenciado representam uma tentativa de balancear a necessidade de disciplina no sistema prisional com o respeito aos direitos humanos dos detentos. O objetivo é tornar o RDD uma medida mais justa, evitando seu uso abusivo e garantindo que sua aplicação seja realmente necessária e proporcional às circunstâncias de cada caso. 26 Dessa feita, segue a íntegra das alterações produzidas pela Lei nº 13.964, de 2019 ao regime disciplinar diferenciado previsto no artigo 52 da LEP: Art. 52. A prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave e, quando ocasionar subversão da ordem ou disciplina internas, sujeitará o preso provisório, ou condenado, nacional ou estrangeiro, sem prejuízo da sanção penal, ao regime disciplinar diferenciado, com as seguintes características: (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) I - duração máxima de até 2 (dois) anos, sem prejuízo de repetição da sanção por nova falta grave de mesma espécie; (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) II - recolhimento em cela individual; (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) III - visitas quinzenais, de 2 (duas) pessoas por vez, a serem realizadas em instalações equipadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos, por pessoa da família ou, no caso de terceiro, autorizado judicialmente, com duração de 2 (duas) horas; (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) IV - direito do preso à saída da cela por 2 (duas) horas diárias para banho de sol, em grupos de até 4 (quatro) presos, desde que não haja contato com presos do mesmo grupo criminoso; (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) V - entrevistas sempre monitoradas, exceto aquelas com seu defensor, em instalações equipadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos, salvo expressa autorização judicial em contrário; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) VI - fiscalização do conteúdo da correspondência; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) VII - participação em audiências judiciais preferencialmente por videoconferência, garantindo-se a participação do defensor no mesmo ambiente do preso. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 1o O regime disciplinar diferenciado também poderá abrigar presos provisórios ou condenados, nacionais ou estrangeiros, que apresentem alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal ou da sociedade. (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003) § 1º O regime disciplinar diferenciado também será aplicado aos presos provisórios ou condenados, nacionais ou estrangeiros: (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) I - que apresentem alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal ou da sociedade; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) II - sob os quais recaiam fundadas suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer título, em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, independentemente da prática de falta grave. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 2o Estará igualmente sujeito ao regime disciplinar diferenciado o preso provisório ou o condenado sob o qual recaiam fundadas suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer título, em organizações criminosas, quadrilha ou bando. (Incluído pela Lei nº 10.792, de 2003) § 2º (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) § 3º Existindo indícios de que o preso exerce liderança em organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, ou que tenha atuação criminosa em 2 (dois) ou mais Estados da Federação, o regime disciplinar diferenciado será obrigatoriamente cumprido em estabelecimento prisional federal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 4º Na hipótese dos parágrafos anteriores, o regime disciplinar diferenciado poderá ser prorrogado sucessivamente, por períodos de 1 (um) ano, existindo indícios de que o preso: (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) 27 I - continua apresentando alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal de origem ou da sociedade; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) II - mantém os vínculos com organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, considerados também o perfil criminal e a função desempenhada por ele no grupo criminoso, a operação duradoura do grupo, a superveniência de novos processos criminais e os resultados do tratamento penitenciário. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 5º Na hipótese prevista no § 3º deste artigo, o regime disciplinar diferenciado deverá contar com alta segurança interna e externa, principalmente no que diz respeito à necessidade de se evitar contato do preso com membros de sua organização criminosa, associação criminosa ou milícia privada, ou de grupos rivais. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 6º A visita de que trata o inciso III do caput deste artigo será gravada em sistema de áudio ou de áudio e vídeo e, com autorização judicial, fiscalizada por agente penitenciário. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 7º Após os primeiros 6 (seis) meses de regime disciplinar diferenciado, o preso que não receber a visita de que trata o inciso III do caput deste artigo poderá, após prévio agendamento, ter contato telefônico, que será gravado, com uma pessoa da família, 2 (duas) vezes por mês e por 10 (dez) minutos. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). (BRASIL, 2019). Acerca das alterações ocorridas no referido artigo Nucci (2021), estabelece que: com relação ao fato praticado como crime doloso, não é preciso que seja, efetivamente, julgado em definitivo, pois prejudicaria o curso da execução. Portanto, basta o cometimento do ato, que poderá ser avaliado pelo juiz das execuções para fins de eventual regressão ou para cortar um benefício. Associa-se o cometimento da falta grave à geração de subversão da ordem ou disciplina internas do presídio. A duração máxima do RDD de 360 dias, podendo ser prorrogada por igual período em caso de repetição da falta grave alterou para 2 (dois) anos, cabendo, igualmente, a prorrogação se houver nova falta grave da mesma espécie. Mantém-se o recolhimento em cela individual (o que muitos presos comuns não possuem, vivendo em ambientes superlotados e insalubres). A visitação quinzenal foi alterada para duas pessoas, retirando-se as crianças e acrescendo-se a existência de instalações equipadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos, por pessoa da família ou, no caso de terceiro autorizado judicialmente, com duração de duas horas. Outra mudança diz respeito ao banho de sol, que continua por duas horas diárias, mas se permite que haja o convívio com outros detentos com um limite de até 4 desde que não pertencentes ao mesmo grupo criminoso. Seguindo sobre as alterações da lei 13.964/19 Nucci (2021), ainda explica que: 28 A reforma da Lei 13.964/2019 introduziu que as entrevistas do preso em RDD serão sempre monitoradas (acompanhadas por um agente penitenciário), exceto as mantidas com seu defensor, valendo-se de instalações apropriadas para impedir o contato físico e a passagem de objetos (a menos que haja autorização em contrário). Incluiu, também, a fiscalização do conteúdo da correspondência. Esse ponto já vem ocorrendo em todos os presídios brasileiros, há muito tempo. Por evidente, não se pode permitir que quem perdeu a liberdade possa ter ampla liberdade de troca de correspondências; afinal, planos para matar autoridades e outras pessoas foram descobertos ao longo do tempo justamente pela verificação da correspondência. Lembre-se, ainda, que, atualmente, nem mesmo se pode falar em correspondência (carta escrita), pois as trocas de mensagens se fazem por celulares e computadores. Pode-se dizer que celular e computador não são permitidos nos presídios, mormente no âmbito do Regime