Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

ROTEIRO DE APRESENTAÇÃO 
 
 
 
 
 
 
VIROLOGIA – ARBOVIROSES 
 
 
 
 
 
PROFESSOR RODRIGO CUNHA 
 
 
 
 
 ARBOVIROSES 
Os arbovírus são um grupo de vírus transmitidos à espécie humana por vetores 
artrópodes. A infecção se dá normalmente através da picada desses insetos, que em 
sua maioria são hematófagos (aqueles que se alimentam de sangue). Apesar de 
geralmente estarem associados à espécie humana, as doenças causadas pelos 
arbovírus também podem acometer outros animais como aves, suínos, macacos e 
roedores, que passam a ser reservatórios. 
Segundo definição da OMS, estes vírus mantem-se na natureza através da 
transmissão biológica entre os hospedeiros vertebrados suscetíveis a artrópodes, ou 
por via transovariana, em que o vírus é transmitido para ovos e larvas do vetor, a 
exemplo do mosquito Aedes Aegypti, que pode ser contaminado pelo vírus da dengue, 
zika, febre amarela e chikungunya através desta via. A partir disso, há a possibilidade 
de dois ciclos de transmissão: homem – artrópode – homem, em que neste caso o 
reservatório pode ser tanto o homem, quanto o vetor artrópode, podendo neste meio 
ocorrer a transmissão transovariana; animal – artrópode – homem, em que o 
reservatório é o animal, que mantém relação de transmissão com o vetor artrópode, 
podendo o homem ser incidentalmente infectado. 
Os arbovírus pertencem a três tipos de família, sendo elas a Flaviviridae, Togaviridae 
e Bunyaviridae, podendo cada família estar relacionada a diferentes tipos de doença. 
O diagnóstico mais utilizado para as arboviroses é por meio de sorologia, podendo 
também ser utilizado o cultivo (em camundongos ou linhagens de células) e testes de 
detecção de antígenos. 
 
 
 
 
Dengue 
 Classificação biológica 
O vírus da dengue pertence à família flaviviridae, esta família diz respeito aos vírus 
transmitidos por artrópodes. Seu gênero é o flavivírus, que inclui os vírus transmitidos 
por mosquitos e carrapatos. Seu domínio, riboviria, abrange os vírus em que o 
material genético é o RNA. Das arboviroses, é a que mais causa problema no mundo, 
somando mais de 2 milhões de casos por ano. 
 
 Diversidade genética 
A diversidade genética da dengue é o que leva a diferentes quadros da doença. Isso 
porque possui 4 sorotipos, e todos eles podem causar tanto a forma mais comum da 
doença (dengue clássica) como evoluir para o estado mais grave (dengue 
hemorrágica). São eles: DENV-1; DENV-2; DENV-3 e DENV-4. Sendo os tipos 2 e 3 
os mais associados à forma grave, o tipo 1 de maior disseminação e o tipo 3 o maior 
responsável por apresentar os sintomas mais graves da doença. Cada sorotipo possui 
ainda os seus subtipos, os genótipos, que diferenciam em si com base na sequência 
do genoma. Devido essas diferenciações, contrair o vírus em determinado sorotipo, 
não garante imunidade a outros, sendo assim indivíduos já infectados anteriormente, 
poderão ser reinfectados por uma manifestação diferente do vírus. 
Toda essa diversidade genética, bem como o tipo de material genético deste vírus 
(RNA), acarreta em diferentes mutações ao longo do tempo, fornecendo-lhe 
vantagens adaptativas. O DENV, como outros vírus de RNA, apresenta uma alta 
taxa de mutação devido à ausência de atividade de proofreading (capacidade de 
correção do erro cometido) da RNA polimerase viral. Esta alta taxa de mutação do 
DENV seria o fator determinante da alta variabilidade genética observada neste vírus. 
Assim, as endemias poderão ser disseminadas por um determinado sorotipo ou mais 
de um, o que altera a patogenicidade, virulência e transmissão do vírus em diferentes 
locais, afetando os quadros epidemiológicos e dificultando o controle. 
 Estrutura viral 
São vírus esféricos, envelopados e com cerca de 40 a 50 nanômetros de diâmetro. O 
virion consiste de RNA de fita simples (ssRNA) de polaridade positiva e envolto por 
um nucleocapsídeo de simetria icosaédrica, composto por uma única proteína, a 
proteína de capsídeo (C) e circundada por uma bicamada lipídica associada às 
proteínas de membrana (M) e envelope. 
 Organização genômica 
Quanto ao seu material genético, o vírus da dengue é formado por RNA de fita 
simples, envelopado e de senso positivo. Isto significa que o RNA, com todas as 
informações necessárias, quando entra na célula já pode partir diretamente para o 
processo de produção de proteínas, o que é uma vantagem sobre o RNA de senso 
negativo, que acaba precisando participar de mais algumas etapas antes da tradução. 
O genoma da DENV possui aproximadamente 10,7 a 11 KB (quilobases), que é a 
quantidade de pares de base em um genoma. Cada KB possui 1.000 pares de base, 
portanto multiplicando, a cadeia desse RNA pode ter de 10.700 a 11.000 PB. 
Esses pares codificam um quadro de leitura aberto (sequência de códons que pode 
ser traduzida, contendo códon de início e de parada) de aproximadamente 3.400 
códons, que formarão as proteínas. 
Levando em conta os tipos de proteínas que serão traduzidas nesse quadro de leitura 
aberto, o genoma se divide em duas regiões; a que codifica as proteínas estruturais: 
capsídio (C), proteína de membrana (prM) e de envoltura (E); e a região que codifica 
as proteínas não estruturais (NS). Sendo assim, o genoma da DENV se organiza da 
seguinte forma: 
5’ – C – prM – E – NS1 – NS2A – NS2B – NS3 – NS4A/2K – NS4B –NS5 – 3’ 
 
As proteínas estruturas auxiliam na formação da partícula viral e sua entrada nas 
células hospedeiras. A proteína C, por exemplo, é muito importante no processo de 
montagem viral. A proteína de membrana (prM) estabiliza a proteína de envoltura (E), 
que é a principal proteína estrutural, por fazer a ligação com o receptor viral e a fusão 
membranar, além de estar envolvida na resposta humoral do hospedeiro. 
 
Já as proteínas não estruturais possuem papel na replicação viral e na supressão da 
resposta imunológica do hospedeiro. A proteína não estrutural 1 (NS1) por exemplo 
tem um papel fundamental na replicação e na patogênese da doença. Ela inclusive é 
testada como marcador porque já nos primeiros dias da infecção é liberada no plasma 
sanguíneo, e o teste ELISA tem bastante sensibilidade para detectá-la. Ela também 
pode ajudar a identificar quais pacientes podem desenvolver o quadro mais grave da 
doença, que é a febre hemorrágica, por que já se percebeu que nesses casos o nível 
desta proteína é muito mais alto, porque ela é liberada da célula infectada e se liga 
em outra célula não infectada causando extravasamento capilar, pelo dano às células 
epiteliais que se tornam alvo de anticorpo anti-NS1. A maioria dos anticorpos são para 
proteínas estruturais, mas alguns experimentos já mostram a produção de anticorpos 
para NS1. Também se descobriu que essa proteína estimula uma grande quantidade 
de citocinas, o que pode ser um indicativo do seu papel na patologia da dengue. Uma 
delas, por exemplo, é a interleucina-6, que é mediadora do processo inflamatório 
conhecido como tempestade de citocina, que vemos na Sars-cov. 
 
As proteínas NS2A, NS2B, NS4A e NS4B são pequenas proteínas hidrofóbicas. A 
NS2A tem um importante papel no processamento da NS1e a NS2B está associada 
à membrana. A proteína NS3, é altamente conservada entre os flavivírus e está 
relacionada a funções enzimáticas na replicação e no processamento da poliproteína, 
como sua clivagem. Enquanto NS4A e NS4B apesar de suas funções serem 
desconhecidas, podem estar associadas aos complexos de replicação funcionando 
como co-fatores. 
A NS5 é a maior proteína entre os flavivírus e altamente conservada, atua como RNA 
polimerase RNA dependente e localiza-se no citoplasma. 
 
Por esses motivos, essa organização precisa do genoma do DENV é importante para 
seu ciclo de replicação e capacidade de causar infecção. Conhecer essa organização 
permite desenvolver estratégiasde diagnóstico, vacinas, tratamento e controle da 
disseminação da doença. 
 
 
 Ciclo viral 
 
A fêmea do Aedes Aegypti é o principal transmissora da dengue no brasil. Em 
condições de laboratório, o mosquito Aedes albopictus também já se mostrou 
capaz de transmitir a dengue no Brasil, mas nenhum inseto do tipo foi 
encontrado naturalmente infectado. Essa informação se dá a partir da 
transmissão no ciclo endêmico/epidêmico urbano. O outro ciclo é zoonótico o 
qual tem sido descrito nas floretas das África e da Malásia envolvendo primatas 
não humanos como hospedeiros. 
O ciclo de transmissão da DENV se dá início a partir da picada do mosquito em 
uma pessoa infectada, onde o vírus presente na circulação é ingerido pelo 
artrópode. Uma vez presente no mosquito, o vírus se multiplica no intestino 
médio e, após algum tempo de incubação extrínseca que varia de 8 a 10 dias, 
são encontrados vírus também no ovário, sistema nervoso e nas glândulas 
salivares, local este por onde o vírus é passível de transmissão horizontal. Após 
a pessoa receber a picada infectante, o vírus passa por um período de 
incubação intrínseco que pode variar de 3 a 14 dias até que ocorra o 
aparecimento dos sintomas. 
O primeiro contato com o vetor atinge a derme e a epiderme através da picada 
da femea contaminada, uma vez na circulação sanguínea do humano 
hospedeiro, as primeiras células que vão tentar atacar esse vírus são as 
dendríticas, macrófagos e monofagos responsáveis por englobar o vírus e 
tentar fagocitar, o vírus passa a se multiplicar em células permissivas de órgãos 
específicos, como baço, fígado e tecidos linfáticos. Após o DENV ser 
introduzido no hospedeiro, inicia-se o ciclo de replicação viral, e este consiste 
no desencadeamento de uma série de eventos ao nível da célula hospedeira 
permissiva, os quais são: adsorção, penetração, desnudamento, tradução, 
replicação, montagem, e brotamento das partículas virais. 
Estudos recentes sugerem que a entrada do vírus via endocitose envolva dois 
ou mais receptores: um receptor de baixa afinidade, que inicialmente capturaria 
o vírus na superfície celular aumentando a concentração local; e outro, menos 
comum, mas de alta afinidade, que possibilitaria a internalização da partícula 
viral. Pelo DENV ser um vírus envelopado de RNA positivo, o primeiro evento 
realizado pelo vírus no citoplasma das células é a tradução do seu genoma 
para gerar o complexo de RNA replicase viral, a fim de estabelecer uma 
infecção produtiva. A tradução e replicação de vírus fita positiva ocorre em 
associação com estruturas membranosas intracelulares. A tradução de DENV 
ocorre em associação com membranas derivadas do retículo endoplasmático 
rugoso, como o genoma viral exerce o papel de RNA mensageiro, há a tradução 
das proteínas virais produzindo uma longa poliproteína, esta é clivada em três 
proteínas estruturais, atividade realizada por uma peptidase da célula 
hospedeira, e sete proteínas não estruturais, atividade da serina protease NS3 
viral. O genoma viral atua também como fita molde para sua replicação, então 
após a sua tradução inicial, começa-se a produção de RNA viral, que envolve 
a síntese de fita de RNA negativa intermediária, a qual serve de molde para a 
síntese de novas fitas de RNA genômico de polaridade positiva. 
 
 
O Aedes aegypti tem se caracterizado como um inseto de comportamento 
estritamente urbano, sendo raro encontrar amostras de seus ovos ou larvas em 
reservatórios de água nas matas, Devido as femeas praticarem hematofagia, 
visto que o sangue humano é essencial para o desenvolvimento dos ovos, a 
presença do vetor no ciclo de transmissão da doença, qualquer epidemia de 
dengue está diretamente relacionada à concentração da densidade do 
mosquito, ou seja, quanto mais insetos, maior a probabilidade de elas 
ocorrerem. Por isso, é importante conhecer os hábitos do mosquito, a fim de 
combatê-lo como forma de prevenção da doença. 
 
 
 
 
 Epidemiologia local e mundial 
 
O Aedes Aegypti surgiu na região norte da África e se espalhou na asia e nas 
américas, principalmente por tráfego marítimo. No Brasil, chegou durante o 
século 18, provavelmente nas embarcações que transportavam escravos, já 
que os ovos do mosquito podem resistir, sem estar em contato com a água, por 
até um ano. Há referências de epidemias de dengue em 1916, em São Paulo, 
e em 1923, em Niterói, ambas sem diagnóstico laboratorial. 
 
Em 1955, uma grande campanha realizada pela Organização Pan-Americana 
de Saúde levou a erradicar o A. aegypti no Brasil e em diversos outros países 
americanos. No entanto, a campanha não foi chegou até seu final e o mosquito 
permaneceu presente em várias ilhas do Caribe, Guianas, Suriname, 
Venezuela e sul dos Estados Unidos, voltando a espalhar-se. Em 1963, foi 
comprovada circulação dos sorotipos DENV-2 e DENV-3 em vários países. No 
fim da década de 60, o Brasil novamente contava com a presença do vetor em 
suas principais metrópoles. Em 1974, o mosquito já infestava Salvador, 
chegando ao Rio de Janeiro novamente no final da década de 70. Em 1977, o 
sorotipo DENV-1 foi introduzido nas Américas, inicialmente pela Jamaica. A 
primeira epidemia documentada clínica e laboratorialmente ocorreu em 1981-
1982 em Roraima. A partir de 1980, foram notificadas epidemias em diversos 
países., causada pelos sorotipos DENV-1 e DENV-4. A doença no Brasil 
apresenta ciclos endêmicos e epidêmicos, com epidemias explosivas 
ocorrendo a cada 4 ou 5 anos. Mais de 7 milhões de casos já foram notificados 
desde a inserção do vírus no país 
 
 
 
 Sintomatologia 
 
A doença pode ser assintomática ou pode evoluir até quadros mais graves, 
como hemorragia e choque. O paciente pode apresentar sintomas como febre 
alta, dor de cabeça e nos olhos, dores pelo corpo, náuseas, falta de apetite, 
erupções na pele ou em alguns casos pode ser assintomática. O aparecimento 
de manchas vermelhas na pele, sangramentos (nariz, gengivas), dor abdominal 
intensa e contínua e vômitos persistentes indicam a forma mais grave da 
enfermidade, um sinal de alarme conhecida como dengue hemorrágica. Esse 
é um quadro grave que necessita de imediata atenção médica, pois pode ser 
fatal. 
É importante procurar ajuda médica assim que os primeiros sintomas aparecem 
pois pode ser confundida com outras infecções virais, como febre amarela, 
malária ou leptospirose e não servem para indicar o grau de gravidade da 
doença. O choque é decorrente do aumento de permeabilidade vascular, 
seguida de hemoconcentração e falência circulatória. Alguns pacientes podem 
ainda apresentar manifestações neurológicas, como convulsões e irritabilidade. 
Além disso, condições prévias ou associadas como referência de dengue 
anterior, idosos, hipertensão arterial, diabetes, asma brônquica e outras 
doenças respiratórias crônicas graves podem constituir fatores capazes de 
favorecer a evolução com gravidade. A dengue hemorrágica não tem relação 
com a baixa imunidade do organismo infectado. 
Diversos estudos parecem indicar o contrário: as formas mais graves poderiam 
estar associadas a uma "excessiva resposta imunológica do organismo ao 
vírus, causando uma espécie de hipersensibilidade que acarretaria na 
produção de substâncias responsáveis pelo aumento da permeabilidade 
vascular. Esse processo leva a perda de líquidos, o que, por sua vez, acarreta 
a queda da pressão arterial e o choque, principal causa de óbito. 
 
Com relação à imunidade ao vírus, alguns estudos apontam que quando uma 
pessoa é infectada por um dos quatro sorotipos, torna-se imune a todos os tipos 
de vírus por alguns meses e mantém-se imune, pelo resto da vida, ao tipo pelo 
qual foi infectado. Caso volte a ter dengue, dessa vez, um dos outros três tipos 
do vírus que ainda não teria contraído, poderá apresentar ou não uma forma 
mais grave. A maioria dos casos de dengue hemorrágica ocorrem empessoas 
anteriormente infectadas por um dos quatro tipos de vírus. 
Os primeiros sintomas como febre, dor de cabeça e mal-estar surgem após um 
período de incubação que pode variar de 2-10 dias. 
 
 Tratamento e vacina 
 
Não existe vacina pra essa virose, mas o tratamento exige muita hidratação e 
não devem ser usados medicamentos à base de ácido acetil salicílico e anti-
inflamatórios, como aspirina e AAS, pois podem aumentar o risco de 
hemorragias. No que se refere à dengue hemorrágica, o tratamento é realizado 
a partir de internação hospitalar do paciente. 
A OMS vem patrocinando o desenvolvimento da vacina desde a decada de 70, 
existem várias dificuldades que ainda impedem o projeto, A infecção por um 
sorotipo do vírus da dengue, geralmente, induz imunidade apenas homóloga, 
portanto, é necessário que as vacinas contra a dengue sejam polivalentes, o 
que dificulta o seu desenvolvimento. Além da falta de modelos de animais para 
testar a efetividade das vacinas contra as formas hemorrágicas da doença, é 
um dos principais desafios para o desenvolvimento das vacinas contra a 
dengue. A existência de lacunas no conhecimento sobre a estrutura do vírus 
da dengue, epítopos responsáveis pela ligação e penetração nas células do 
hospedeiro, assim como da indução da resposta imune, dificultam o 
desenvolvimento de vacinas. Também não há conhecimento sobre a taxa de 
mutação do vírus selvagem e a possibilidade de recombinação dos vírus 
vacinais com os vírus da dengue ou outros flavivírus. Apesar das dificuldades 
citadas, a OMS reconhece a prioridade no desenvolvimento da vacina contra a 
dengue. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CHIKUNGUNYA 
 
 CLASSIFICAÇÃO BIÓLOGICA 
 
O vírus Chikungunya (CHIKV) pertence à família Togaviridae, gênero Alphavirus, é 
um RNA vírus de cadeia positiva, cujo material genético codifica duas poliproteínas, 
uma estrutural e uma não estrutural. Transmitida pela picada dos mosquitos fêmeas 
do Aedes aegypti e Aedes albopictus. Ele foi isolado pela primeira vez a partir de 
amostras de soro humano e de mosquitos entre os anos de 1952 e 1953, em 
decorrência de uma epidemia ocorrida na Tailândia. O vírus foi introduzido no 
continente americano em 2013 e ocasionou uma importante onda epidêmica em 
diversos países da América Central e ilhas do Caribe. No segundo semestre de 2014, 
o Brasil confirmou, por métodos laboratoriais, a presença da doença nos estados do 
Amapá e Bahia. Atualmente, todas os Estados registram transmissão desse 
arbovírus. 
 
 CICLO VIRAL 
 
Estudos acerca do tropismo de CHIKV em seres humanos tem demonstrado que o 
vírus não replica em linfócitos e monócitos primários. Entretanto, macrófagos 
derivados de monócitos são suscetíveis à infecção. Assim, CHIKV infecta células 
epiteliais, endoteliais e fibroblastos humanos. O vírus penetra nas células alvo por 
endocitose mediada por receptor. Após esse processo, o meio ácido do endossoma 
desencadeia mudanças conformacionais no complexo E1-E2 do envelope viral 
expondo o peptídeo E1. Esse processo promove a fusão da membra do vírus na 
célula hospedeira, permitindo a liberação do nucleocapsídeo no citoplasma dessa 
célula. 
 
O genoma viral, por ser de polaridade positiva, serve como um RNA mensageiro 
(mRNA) para a tradução dos precursores das proteínas não estruturais (P1234) e das 
proteínas estruturais (RNA subgenômico 26S). A poliproteína precursora P1234 é 
inicialmente clivada em nsP4 (RdRp). Essa nsP4 estará envolvida na replicação do 
material genético do vírus, originando fitas intermediária de RNA com polaridade 
negativa que servirão de moldes para a síntese de novas fitas de RNA com polaridade 
positiva que irão fazer parte das novas partículas virais. 
A nsP123 é simultaneamente crivada originando outras proteínas não estruturais 
maduras (nsP1, nsP2 e nsP3) que regulam a síntese de RNA cadeia positiva e à 
amplificação de 26S RNA subgenômico. Esse RNA subgenômico serve como mRNA 
para a tradução da poliproteína precursora C-pE2-6k-E1 e produção de proteínas 
estruturais. No final do ciclo replicativo a poliproteína pE2-6k-E1-C é processada pós-
tradução em proteínas estruturais maduras. A atividade de serina protease libera o 
capsídeo C. 
O precursor do envelope insere na bicamada o retículo endoplasmático por meio de 
uma sequência de sinal processada para pE2 e E1. As glicoproteínas E1 e pE2 
associados são exportados para a membrana plasmática por meio do complexo de 
Golgi. Enquanto isso, ocorre a liberação e maturação do heterodímero E1-E2 no 
envelope viral. Em paralelo, nucleocapsídeos maduros difundem-se livremente no 
citoplasma para a membrana. A montagem viral é guiada eletrostaticamente pela - 6 
- ligação do nucleocapsídeo e o recrutamento de glicoproteínas associadas às 
membranas. A partícula montada, de forma icosaédrica, finalmente, brota na 
membrana da célula e torna-se um vírion envelopado. 
 
 EPIDEMIOLOGIA LOCAL E MUNDIAL 
 
LOCAL: Tratando-se do Brasil, até a 52° (quinquagésima segunda) semana de 
2022, segundo o Ministério da Saúde, através do último boletim epidemiológico sobre 
arboviroses, ocorreram 174.517 casos prováveis de chikungunya (taxa de incidência 
de 81,8 casos por 100 mil hab.) no Brasil. Em comparação com o ano de 2019, houve 
aumento de 32,4% de casos registrados para o mesmo período analisado. Quando 
comparado com o ano de 2021, ocorreu um aumento de 78,9% casos até a respectiva 
semana. Para o ano de 2022, a Região Nordeste apresentou a maior incidência 
(257,4 casos/100 mil hab.), seguida das Regiões Centro-Oeste (36,6 casos/100 mil 
hab.) e Norte (26,4 casos/100 mil hab.) A taxa de mortalidade está em 4,9%. 
 
 
Tratando-se da Bahia, existe um boletim mais atualizado, datado em setembro de 
2023, mostra que foram notificados 20.714 casos de Chikungunya até a SE 38, em 
315 municípios, dos quais 6.176 casos foram descartados (29,8%) e 14.588 casos 
prováveis, o que corresponde a CI de 97,3 casos/100.000 habitantes. Há 01 óbito 
confirmado no período. Apesar do período avaliado apresentar redução de 15,6% dos 
casos em relação a 2022, observa-se nas 06 últimas SE a dispersão da doença em 
95 municípios (Figura 3). As Regionais que apresentaram maiores CI no acumulado 
do ano foram: Ilhéus (673,1 casos/100.000 hab.), Eunápolis (553,5 
casos/100.000hab.), Itabuna (457,9 casos/100.000 hab), Santo Antônio de Jesus 
(261,1 casos/100.000 hab.) e Teixeira de Freitas (247,3 casos/100.000 hab). Os 
municípios que apresentaram os maiores CI de Chikungunya foram: Piripá (4.954,6 
casos/100.000 hab.), Itapé (2.180,7 casos/100.000 hab.), Campo Alegre de Lourdes 
(1.723,4 casos/100.000 hab.), Itapebi (1.720,2 casos/100.000 hab.) e Alcobaça 
(1.479,4 casos/100.000 hab.). 
 
 
 
MUNDIAL: Segundo boletim publicado pela Organização Pan-Americana de Saúde, 
junto a Organização Mundial de Saúde, datado em junho de 2023, Durante os 
primeiros meses de 2023, foram reportados surtos de chikungunya no mundo, de 
magnitude importante principalmente na América do Sul. Na Região das Américas, 
entre a semana epidemiológica (SE) 1 e a SE 52 de 2022, foram notificados 3.125.367 
casos1 de arboviroses, sendo 273.685 (8,7%) casos de chikungunya, incluindo 87 
óbitos, em 14 dos países e territórios da Região das Américas; esse número é maior 
do que o observado no mesmo período de 2021 (138.358 casos, incluindo 12 óbitos). 
Durante o mesmo período de 2022, 96,9% dos casos foram notificados pelo Brasil 
(265.289 casos suspeitos de chikungunya). Em 2023, entre a SE 1 e a SE 21, foram 
notificados 213.561 casos de chikungunya1 , incluindo 281 mortes, em 13 dos países 
e territórios da Região das Américas; esses números são maiores do que os 
observados no mesmo período em 2022 (162.836 casos e 49 mortes). Para o período 
de 2023, 98% dos casos foram notificados pelo Brasil (124.270) e pelo Paraguai 
(85.889). A taxa de incidência acumuladana Região foi de 22 casos por 100.000 
habitantes. Os países com as taxas de incidência mais altas foram o Paraguai, com 
1.137 casos notificados por 100.000 habitantes, e o Brasil, com 58 casos por 100.000 
habitantes. 
 
 
 
 TRATAMENTO/VACINA 
 
O tratamento da chikungunya é feito de acordo com os sintomas. Até o momento, não 
há tratamento antiviral específico para chikungunya. A terapia utilizada é analgesia e 
suporte. É necessário estimular a hidratação oral dos pacientes e a escolha dos 
medicamentos devem ser realizadas após a avaliação do paciente, com aplicação de 
escalas de dor apropriadas para cada idade e fase da doença. 
Em casos de sequelas mais graves, e sob avaliação médica conforme cada caso, 
pode ser recomendada a fisioterapia. Em caso de suspeita, com o surgimento de 
qualquer sintoma, é fundamental procurar um profissional de saúde para o correto 
diagnóstico e prescrição dos medicamentos, evitando sempre a automedicação. Os 
tratamentos são oferecidos de forma integral e gratuita por meio do Sistema Único 
de Saúde (SUS). Como a doença é transmitida por mosquitos, é fundamental reforçar 
as medidas de eliminação dos criadouros de mosquitos nas casas e vizinhança. As 
recomendações são: evitar acúmulo de inservíveis, não estocar pneus em áreas 
descobertas, não acumular água em lajes ou calhas, colocar areia nos vasos de planta 
e cobrir bem tonéis e caixas d'água, receber a visita do agente de saúde, são algumas 
iniciativas básicas. 
 
 SINTOMATOLOGIA: 
Bom, existem os sintomas de fase aguda que consiste em sintomas clássicos de 
doenças causadas por vírus, como, dor de cabeça, febre, náuseas, vômitos. dores 
articulares preexistentes ou osteoartrite e indivíduos com grande intensidade de dor 
articular na fase aguda são predispostos a apresentarem a fase crônica. Se a dor nas 
articulações persistir já é considerado fase crônica. (poliartralgia, está presente em 
87 - 98% dos casos), apresentam artralgia nos dedos, punhos, tornozelos, cotovelos, 
dedos dos pés e joelhos, podendo estar acompanhada de inchaços (em 25 a 42% 
dos casos). 
E bem característico da doença são erupções cutâneas pelo corpo, causando um 
imenso desconforto, atinge principalmente o tronco e as extremidades, incluindo 
palmas e plantas, podendo atingir a face. 
Em poucos casos, a infecção pode causar sintomas neurológicos, como por exemplo, 
encefalite, paralisia flácida aguda, síndrome de Guillain-Barré. 
Em crianças, as principais manifestações neurológicas da infecção, são, convulsões, 
encefalite, síndrome meníngea ou encefalopatia aguda. 
 
Erupções cutâneas típicas da infecção pelo vírus Chikungunya. Erupção 
maculopapular nos braços (A), manchas petequiais nas pernas (B) e eritroderma nos 
pés (C). Fonte: BURT et al., 2012. 
 
 ESTRUTURA 
CHIKV possui um envelope lipídico, capsídeo com simetria icosaédrica e genoma 
constituído de uma molécula de RNA fita simples. Medem cerca de 60-70 nm de 
diâmetro (KENDALL et al., 2019). Na superfície do envelope encontram-se as 
glicoproteínas virais E1 e E2, as quais se associam em heterodímeros, formando 80 
trímeros. Além da presença na periferia da glicoproteína E3 (UCHIME et al., 2013). O 
nucleocapsídeo é constituído de uma proteína C do capsídeo viral e de uma molécula 
de RNA 
 
 ORGANIZAÇÃO DO GENOMA 
 
 O genoma do CHIKV é composto de uma molécula de RNA de fita simples, 
polaridade positiva de aproximadamente 11,8 kb. Esse genoma possui dois sentidos 
de leitura aberta (ORFs), um na extremidade inicial e outro na cauda, respectivamente 
cap 5’ e poly-A 3’ (WÖLFEL et al., 2015).A primeira leitura compreende cerca de dois 
terços do genoma e codifica quatro proteínas não estruturais (nsP1, nsP2, nsP3, 
nsP4) que participam da replicação, nivelamento do RNA, clivagem poliprotéica e 
outras funções de replicação viral. A segunda leitura corresponde a uma proteína que 
será clivada em cinco proteínas estruturais (C, E3, E2, 6K e E1), que participam do 
processo de fusão e interagem com receptores celulares. Desse modo, o genoma do 
CHIKV está organizado em: 5'cap_nsP1-nsP2-nsP3-nsP4-26S (região de junção) -C-
E3-E2-6k-E1_poli (A) -3'. 
A proteína nsP1 está relacionada à síntese da fita negativa de RNA, já a nsP2 possui 
ação de helicase e atividade proteásica; a nsP3 apresenta ação de síntese de RNA e 
a nsP4 evidencia ação de polimerase, contudo, RNA-dependente (WEAVER e 
LECUIT, 2015). Com relação às proteínas estruturais, a proteína C representa o 
capsídeo viral; E1 e E2 são proteínas do envelope; 6K faz parte de um canal de íons 
seletivos que apresenta potencial para afetar a permeabilidade da membrana e, por 
fim, E3 evidencia papel no direcionamento das proteínas para o reticulo 
endoplasmático rugoso (RER), proporcionando a montagem adequada das mesmas 
(LUM e NG, 2015). Além disso, Uchime et al. (2013) relataram que a proteína E3 
poderia desempenhar uma função mantenedora do potencial hidrogeniônico (pH) 
durante a formação do vírus. 
 
 
 
 DIVERSIDADE GENÉTICA 
 
Atualmente são conhecidos três grandes grupos de CHIKV. O primeiro clado consiste 
no vírus isolado de Senegal, Nigéria e Costa do Marfim, que representa o genótipo 
Oeste africano; o segundo contém cepas isoladas do Leste/Centro/Sul da África 
(ECSA) e o terceiro representa a linhagem Asiática do vírus 
Acredita-se que o vírus se originou na África, sendo a linhagem Oeste africana a mais 
antiga, uma vez que a mesma apresenta uma divergência genética maior em 
comparação aos outros dois grupos. Além disso, os genótipos ECSA 
(Leste/Centro/Sul aficana) e Asiático são parafiléticos em simulações de parentesco. 
A linhagem asiática apresenta um menor tempo de divergência ancestral em 
comparação às linhagens africanas, evidenciando que a mesma é o clado mais 
recente, sendo introduzida da África para a Ásia. 
Na primeira confirmação de casos autóctones de CHIKF nas Américas em dezembro 
de 2013, curiosamente, a linhagem circulante não era IOL (linhagem do oceano 
índico), a qual havia ocasionado os surtos mais recentes da doença, mas sim a 
linhagem asiática, a qual circula no ciclo urbano pelo menos desde 1960 e continuava 
causando surtos na Ásia. Quanto aos primeiros casos de CHIKF no Brasil, em 
Oiapoque, a linhagem circulante era a Asiática, possivelmente relacionada a um surto 
ocorrido na Guiana Francesa, contudo, a cepa circulante em Feira de Santana 
pertencia à linhagem ECSA. 
Estudos filogenéticos possibilitam inferir novos dados sobre CHIKV no Brasil e no 
mundo, possibilitam avaliar a diversidade genética viral, a fim de observar se 
diferentes variantes estão associadas a diferentes manifestações clínicas e/ou à 
persistência da doença. Com base nisso inclusive, associa-se o genótipo ECSA ao 
surgimento e persistência dos casos da CHIKF no nordeste do Brasil 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Zika vírus 
 ● Classificação biológica 
 
O Zika vírus pertence à família flaviviridae, esta família diz respeito aos vírus 
transmitidos por artrópodes. Seu gênero é o flavivírus, tem esse nome devido à 
floresta onde foi identificado pela primeira vez, que inclui os vírus transmitidos por 
mosquito e carrapatos. Seu agente transmissor é o mosquito Aedes aegypti. 
 ● Diversidade genética 
 
As duas principais linhagens do mosquito Aedes aegypti são Asiática e Africana, 
sendo a linhagem Asiática encontrada no Brasil. Os sintomas da infecção de ZIKV 
geralmente são brandos, mas existem relatos de casos de óbitos e manifestações 
neurológicas. Variações genéticas virais estão relacionadas com as diferenças nas 
manifestações clínicas da doença. Os sintomas clínicos da Zika podem ser 
confundidos com outras duas arboviroses circulantes no Brasil, a Dengue e a 
Chikungunya, portanto não se pode descartar a possibilidade de que casos com 
resultado negativo para pesquisa de umas dessas duas arboviroses ocorridos antes 
de 2015 pudessem estar relacionados à infecçãopelo ZIKV. Para o Brasil e para as 
Américas, o arbovírus mais recente é o ZIKV. Estudos recentes descrevem três 
grandes linhagens: a Linhagem Africana II, a Linhagem Africana I e a Linhagem 
Asiática. Sendo que as duas últimas foram descritas fora do continente africano, 
espalhando-se para Ásia e Américas, a partir de 2007. Desde então o ZIKV passou a 
apresentar comportamento epidêmico, gerando surtos em vários países da região do 
Pacífico e nas Américas. Estima-se que haja mais de 545 espécies de arbovírus, 
dentre as quais, mais de 150 deles estão relacionados com doenças em seres 
humanos, onde a maioria é zoonótica. 
 ● Organização genômica 
 
Flavivírus são estruturas minúsculas formadas por proteínas, RNA (uma molécula 
relacionada ao DNA) e membrana lipídica. Cada partícula viral consiste de uma cadeia 
simples de RNA dobrada dentro de uma cápsula proteica, denominada capsídeo, 
envolta por uma esfera externa conhecida como envelope. Os ZIKV são pequenas 
partículas esféricas e envelopadas de aproximadamente 40 nm de diâmetro. Contém 
três proteínas estruturais: proteína do capsídeo (componente estrutural do 
nucleocapsídeo), membrana (proteína transmembrana que interage com a proteína 
do envelope) e envelope (principal e maior proteína 24 estrutural; Intervém na 
montagem da partícula viral; interação com receptores celulares e fusão de 
membranas; principal alvo para anticorpos neutralizantes). Múltiplas cópias da 
proteína do capsídeo encapsulam o RNA de cadeia simples e polaridade positiva, que 
contém aproximadamente 11 kb de comprimento, formando o nucleocapsídeo. Este 
nucleocapsídeo tem de 25 a 30 nm de diâmetro com simetria icosaédrica e é envolto 
por lipídios derivados da célula hospedeira, no qual estão ancoradas as proteínas de 
membrana e do envelope. O RNA genômico tem uma única fase aberta de leitura 
(ORF) que é flanqueada por regiões 5' e 3' não codificantes que atuam como sítio de 
ligação e ativação da polimerase viral, contém uma sequência complementar a outra 
na região 3', uma região que atua promovendo a replicação viral e contém estruturas 
essenciais para a replicação viral. O genoma é traduzido para 25 uma única 
poliproteína que é subsequentemente clivada por enzimas virais e da célula 
hospedeira, resultando em três proteínas estruturais que formam o vírus (capsídeo, 
pré-membrana e envelope) e sete proteínas não estruturais: NS1, NS2a, NS2b, NS3, 
NS4a, NS4b e NS5, que estão envolvidos na replicação, montagem, e repressão da 
resposta inata do hospedeiro à infecção. A proteína NS3 é conservada entre os 
flavivírus, apresentando atividade de protease e helicase (Henchal; Putnak, 1990). É 
uma grande proteína multifuncional (~70 KDa), contendo diversas atividades 
necessárias para o processamento da 26 poliproteína e replicação do RNA. A 
extremidade N-terminal da proteína é o domínio catalítico do complexo de serina 
protease da NS2B-NS3. 
 
 ● Ciclo viral: 
 
O período estimado de incubação (tempo entre a exposição e o aparecimento dos 
sintomas) é de 3 a 14 dias. O ZIKV, nas Américas, é mantido na natureza por um ciclo 
de transmissão que envolve hospedeiros vertebrados e mosquitos hematófagos do 
gênero Aedes, com o homem atuando como fonte de infecção. O principal meio de 
contrair a infecção pelo ZIKV é através da picada do vetor. Fatores relacionados ao 
ambiente, do vetor, do ZIKV e do hospedeiro influenciam a transmissão deste 
patógeno e seu controle. O isolamento do vírus no sêmen, dezessete dias após o 
diagnóstico clínico de infecção aguda, e a detecção do RNA do ZIKV no sêmen, 
sessenta e dois dias após o início dos sintomas, embasam a transmissão sexual, e 
uma vez que o risco de transmissão sexual do ZIKV existe, há uma recomendação 
para que homens que residam ou tenham viajado para uma área de transmissão do 
ZIKV e apresentem sintomas compatíveis considerem a abstinência sexual ou o uso 
do preservativo durante a relação sexual, especialmente se a parceira é uma mulher 
grávida. sugerindo que a transmissão pode ser possível através da doação de sangue 
infectado. Também houve relatos de transmissão através de transplante de órgãos e 
acidente de laboratório. Também ocorre transmissão transplacentária e transmissão 
perinatal, com o RNA do ZIKV sendo encontrado no líquido amniótico e em amostras 
de sangue pareadas colhidas de neonatos e mães. 
ZIKV se inicia a partir da ingestão de partículas virais infecciosas (presentes no sangue 
humano) durante o repasto sanguíneo. Após o período do repasto, há o período de 
incubação que varia de oito a 12 dias para que o vírus possa replicar-se no estômago 
do mosquito e chegar às glândulas salivares. O vírus será inoculado em um novo 
hospedeiro, durante um novo repasto sanguíneo, pelas glândulas salivares do vetor, 
agora contaminadas, iniciando assim um novo ciclo. Outra forma de infecção do 
mosquito vetor se dá pela transmissão transovariana ou vertical, passando da fêmea 
contaminada aos seus descendentes sem a necessidade de outro hospedeiro 
 ● Epidemiologia local e mundial 
 
O ZIKV teve origem na África e se espalhou por diferentes rotas para outros locais, 
incluindo as regiões Africanas (Senegal, Costa do Marfim e Uganda) e Asiáticas 
(Malásia, Micronésia, Polinésia Francesa). Os dados epidemiológicos suportam a 
hipótese de que as cepas epidêmicas do ZIKV surgiram através de alteração genética 
no vírus da cepa asiática e foram introduzidas no Brasil em 2015. Grandes proporções 
das regiões tropicais e subtropicais do mundo possuem condições ambientais para 
manutenção da transmissão do ZIKV e mais de 2,17 bilhões de pessoas vivem nestas 
áreas. Atualmente, mais de 73 países nos cinco continentes relataram a infecção pelo 
ZIKV. Os países mais afetados e com maior risco de ser infectado pelo ZIKV são: 
Nigéria, Congo, Uganda e Tanzânia na África, Índia, Indonésia, China e Bangladesh 
na Ásia e nas Américas: Brasil, Colômbia, México e Venezuela. Diversos casos 
importados de zika foram relatados em viajantes que retornaram de áreas endêmicas 
e epidêmicas. Estas importações aumentam o risco de disseminação do ZIKV para 
áreas onde potenciais vetores competentes estão presentes, especialmente Aedes 
aegypti e Aedes albopictus. O primeiro caso importado de zika na Europa foi relatado 
em um viajante alemão infectado na Tailândia em novembro de 2013. Outros casos 
na Alemanha teriam sido importados de Borneo e Malásia em setembro de 2014 e do 
Haiti em dezembro de 2015. Zika nas Américas, Do início 2015 até agosto de 2017, 
48 países nas Américas confirmaram casos autóctones de transmissão vetorial do 
ZIKV, e cinco países relataram casos de zika por transmissão sexual. 
 ● Gráfico mundial 
 
Zika no Brasil - O Brasil foi o país mais afetado pelo ZIKV durante a epidemia nas 
Américas, tendo seu início possivelmente em 2014. Em 2015 foram confirmados 
laboratorialmente três óbitos pelo ZIKV no país: em São Luís/MA, Benevides/PA e 
Serrinha/RN. Em 2016, foram registrados 216.207 casos prováveis de zika no país. 
Foram confirmados laboratorialmente oito óbitos - Rio de Janeiro (4), no Espírito Santo 
(2), no Maranhão (1) e na Paraíba (1). Em 2017, até a semana epidemiológica (SE) 
35, foram registrados 15.586 casos prováveis de zika no país, com taxa de incidência 
de 7,6 casos/100 mil hab., destes, 6.679 (42,9%) foram confirmados. As regiões 
Centro-Oeste e Norte apresentaram as maiores taxas de incidência: 35,9 casos/100 
mil hab. e 13,9 casos/100 mil hab., respectivamente. Entre os estados, destacaram-
se Tocantins (62 casos/100 mil hab). O número de casos de zika no país caiu 
drasticamente entre 2016 e 2017, uma queda de mais de 92%. 
O Centro-Oeste apareceu em 2017 com a maior quantidade de casos confirmados 
5.625, com uma incidência de 35,9 casos/100 mil hab., bem diferente do ano anterior, 
que mesmo com 33.712 casos registrados a região ficou em terceiro lugar de casosno país, o que sugere que o vírus continua migrando e/ou as medidas preventivas para 
eliminação do vetor não estão sendo eficazes. 
Até o momento, o genótipo detectado no país é o asiático e, pouco se sabe sobre o 
impacto de linhagens deste genótipo na evolução da doença e sua relação com o vetor 
e as epidemias. 
 ● Gráfico local 
 
 
 ● Sintomatologia 
48 países nas tem como principais sintomas febre baixa, erupções cutâneas 
(principalmente exantema maculopapular), dor de cabeça, dor nas articulações, dor 
muscular, mal-estar geral e conjuntivite não purulenta que aparecem entre 2 a 7 dias 
após a picada do mosquito vetor. A fase crônica da Zika é caracterizada por sintomas 
persistentes que podem durar meses ou até mesmo anos após a infecção inicial. 
Alguns dos sintomas comuns incluem fadiga, dores nas articulações, dores de cabeça 
recorrentes e problemas de visão. A sintomatologia de uma infecção pelo ZIKV é 
semelhante à de outros vírus transmitidos por mosquitos, como DENV e CHIKV, que 
costumam circular em conjunto nas áreas onde o ZIKV é endêmico. Além disso, outras 
doenças febris agudas devem ser consideradas, como: soroconversão do HIV, 
escarlatina, infecção por rickettsias, leptospirose, parvovirose, enterovírus, rubéola e 
sífilis, entre outras. Portanto, o diagnóstico diferencial é amplo e complicado. Sendo 
assim, são necessários exames laboratoriais para auxiliar o diagnóstico etiológico. 
podem ocorrer alterações inespecíficas em exames laboratoriais, como: 
hipoalbuminemia, aumento de transaminases, leucopenia, trombocitopenia, aumento 
da desidrogenase láctica e de marcadores de atividade inflamatória. O diagnóstico 
laboratorial das infecções pelo ZIKV pode ser realizado por métodos diretos que visam 
isolar ou identificar o vírus ou por métodos indiretos, os quais consistem na detecção 
de anticorpos específicos do tipo IgM e IgG decorrentes da infecção. É importante 
considerar o período da doença em que o paciente se encontra para se decidir qual o 
tipo mais apropriado de teste que será utilizado para que se possa fazer uma correta 
interpretação dos resultados obtidos. 
 ● Gráfico de sintomatologia 
 
 ● Tratamento/ vacina 
Não há um tratamento específico nem vacina contra o vírus zika. O tratamento voltado 
para os casos sintomáticos é baseado no uso de antitérmicos (paracetamol e dipirona) 
e anti-inflamatórios livres de ácido acetilsalicílico (AAS), devido ao risco de 
hemorragias descritas nas infecções por outros flavivírus. No caso de manchas 
vermelhas e coceira na pele, os anti-histamínicos podem ser considerados. Ainda não 
existe vacina para zika, sendo assim, as medidas de prevenção se baseiam no 
controle vetorial e proteção individual, evitando a exposição ao vetor com o uso de 
camisas de mangas compridas, calças e chapéus e repelentes. As mulheres grávidas 
devem fazer a avaliação de sintomas da doença, o diagnóstico laboratorial durante o 
pré-natal e uma avaliação cuidadosa do feto para verificar anomalias cerebrais, 
incluindo microcefalia e calcificações intracranianas. Estas devem evitar viagens para 
áreas de circulação do vírus e o contato sexual desprotegido com parceiros que estão 
em risco de infecção. O controle que é feito para o vetor transmissor da dengue 
fornece as bases para uma preparação adequada contra o ZIKV, uma vez que os dois 
vírus são transmitidos pelo mesmo mosquito. Um controle vetorial eficaz depende de 
uma abordagem integrada que envolva a eliminação de criadouros de Aedes aegypti, 
aplicação de larvicidas e aplicação de inseticidas para matar os mosquitos adultos. O 
controle do vetor e o uso de repelentes são considerados as melhores estratégias para 
a prevenção desta arbovirose. A transmissão sexual e a transmissão por transfusão 
sanguínea também são descritas como vias de transmissão, sendo assim, enquanto 
não houver a disponibilidade de uma vacina ou um antiviral para o tratamento da 
doença, também devem ser consideradas como medidas de controle na prevenção 
da zika, o uso de preservativo e o controle dos bancos de sangue. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Febre Amarela 
 
 
 Classificação biológica 
A febre amarela foi a primeira doença de seres humanos em que se demonstrou a 
presença de um agente filtrável (posteriormente chamado de vírus) como agente 
etiológico, sendo também a primeira na qual se comprovou a transmissão por um 
artrópode. Apesar de a transmissão por mosquitos ter sido proposta desde 1848, a 
comprovação ocorreu somente em 1901, por Walter Reed, que identificou o mosquito 
Aedes aegypti como vetor do vírus. Em 1927, Mahaffy e Bauer isolaram o vírus 
(estirpe Asibi) após inoculação do sangue de um paciente em macaco rhesus. Dez 
anos depois, Theiler e Smith conseguiram atenuar a estirpe Asibi do YFV (Yellow 
fever virus), por meio de passagem seriada em cultura de tecido de embrião de 
galinha. Essa estirpe atenuada foi denominada 17D e vem sendo empregada até hoje 
para imunização de seres humanos. Atualmente, a febre amarela ainda é considerada 
uma das doenças mais importantes que atingem o homem, com participação em 
diferentes eventos históricos ao longo das décadas. 
Os vírus da febre amarela pertencem à família Flaviviridae, gênero Flavivirus, 
espécies Yellow fever virus, em que, até o momento, só foi descrito um único sorotipo. 
A partícula dos flavivírus mede de 40 a 60 nm de diâmetro, possui um capsídeo 
proteico, com simetria icosaédrica, envolvido por um envelope lipídico onde estão 
inseridas pequenas proteínas de membrana e espículas de natureza glicoproteica. A 
partícula viral completa apresenta densidade de 1,19 a 1,23 g/cm3 em gradiente de 
sacarose, e é inativada por solventes lipídicos, como éter, clorofórmio e desoxicolato 
de sódio; ureia; betapropiolactona; aldeídos; lipases e proteases. A radiação 
ultravioleta e o aquecimento a 56°C durante 30 minutos também inativam o vírus. 
 
 Diversidade genética 
Estudos envolvendo análise filogenética sugerem a origem do YFV na região da África 
há 3.000 anos (42, 43) e demonstram que os genótipos de YFV africanos são mais 
heterogêneos em relação aos genótipos circulantes na América do Sul, o que 
corrobora a ideia de que o vírus não é originário das Américas (42). Estudos baseados 
nas análises das proteínas: prM/M, E e 3'UTR do genoma do YFV permitiram (44) a 
identificação de 7 genótipos diferentes, sendo 5 genótipos Africanos (Oeste Africano 
I e II, Leste Africano, Leste e Centro Africano, Angolano) e dois Americanos (América 
do Sul I e II) (45, 46). O genótipo Angolano é extremamente divergente dos outros 
genótipos de origem Africana (17,1%-25,0%) sugerindo que tenha se desenvolvido 
independentemente (3, 26, 44). As cepas do Oeste Africano I possuem uma dispersão 
mais heterogênea em relação ao Oeste Africano II e em relação ao genótipo Leste e 
Centro africano, foi demonstrada, uma ampla distribuição e surtos menos intensos 
(47). Em relação aos genótipos Americanos, estudos envolvendo análises 
filogenéticas sugerem que o genótipo Sul-Americano I é mais encontrado no Brasil, 
Colômbia, Equador, Venezuela e Caribe. Por outro lado, o genótipo II é mais 
encontrado no Peru, Bolívia, com alguns isolados no Brasil e Trinidad e Tobago (26, 
50). A divergência entre os aminoácidos dos genótipos Sul-Americano I e II está 
próximo aos 7,6% (26). O genótipo Sul-Americano I apresenta cinco subgrupos 
denominadas:1A,1B,1C,1D,1E. Esses subgrupos foram associados a epidemias que 
ocorreram no Brasil e outros países das Américas tropicais e subtropicais nos últimos 
anos (51). No Brasil, nos anos 2000, apenas os subgrupos 1D e 1E foram detectados 
e desde 2008, apenas o subgrupo 1E vem sendo descrito durante os surtos (50). 
 
 Organização genômica 
O genoma desses dois flavivírus é constituído por um RNA de fita simples com 
polaridade positiva (RNAfs+) contendo aproximadamente 10 quilobases(kb), com a 
extremidade 5′ capeada, mas não apresentando a extremidade 3′ poliadenilada. Esse 
genoma possui uma única sequência de leitura aberta (ORF, open reading frame) 
com 10.233 nucleotídeos (nt), que codificam as proteínas virais, que é flanqueada por 
duas regiões não codificantes (NCR, non coding region) de tamanho variável, sendo 
uma grande denominada de 3′ NCR, com cerca de 400 a 700 nt e uma pequena, 5′ 
NCR, que possui aproximadamente 100 nt. As regiões não codificantes são 
importantes para a regulação e a expressão do vírus (Figura 18.2A). 
 O genoma viral codifica uma poliproteína que é processada durante e após a 
tradução por proteases virais e celulares. Uma peptidase-sinal (SPase) do hospedeiro 
(setas verdes) é responsável pela clivagem entre C/prM, prM/E e E/NS1. Uma serino-
protease (NS2B-NS3) codificada pelo vírus cliva as junções entre NS2A/NS2B, 
NS2B/NS3, NS3/NS4A e NS4B/NS5. A enzima responsável pela clivagem da junção 
NS1/NS2A não é conhecida. A proteína C nascente contém uma região 
carboxiterminal hidrofóbica que é clivada em duas etapas, primeiro pela protease viral 
e posteriormente pela peptidase-sinal celular. A proteína prM é posteriormente clivada 
por uma enzima celular furina ou furina-like. A porção aminoterminal dessa 
poliproteína codifica três proteínas estruturais (capsídeo, C; prM, precursora da 
proteína de membrana, M; envelope, E), além de sete proteínas não estruturais (NS1-
NS2A-NS2B-NS3-NS4A-NS4B-NS5) responsáveis pelas atividades reguladoras e de 
expressão do vírus, incluindo biossíntese, virulência e patogenicidade. 
 
 
 Ciclo Viral 
O processo de replicação dos Flavivirus envolve mecanismos complexos de 
interações entre proteínas virais e celulares, no caso do YFV, alguns desses 
mecanismos ainda não estão bem estabelecidos (25). A replicação viral ocorre dentro 
do citoplasma das células susceptíveis ao YFV logo após a entrada do vírus (Figura 
3). A proteína E do YFV liga-se de maneira inespecífica aos receptores de 
glicosaminoglicanos altamente sulfatados na superfície celular dos hepatócitos ou de 
células dendríticas (DCs - do inglês, dendritic cells) (37). 
A partir dessa interação, a entrada da partícula viral na célula ocorre via endocitose 
mediada por clatrina. Um rearranjo conformacional ocorre no endossomo com pH 
baixo, facilitando a fusão. A eficiência dessa ligação depende da composição do 
lipídio da membrana alvo (o colesterol, por exemplo, facilita a fusão) (23, 38). 
 A liberação do nucleocapsídeo no citoplasma da célula hospedeira ocorre assim 
que a fusão das membranas é realizada (envelope viral e membrana das vesículas 
endossomais). Em seguida, o genoma viral é liberado e pode ser diretamente 
traduzido, uma vez que é uma molécula de RNA de fita simples (ssRNA) com 
polaridade positiva que funciona como RNA mensageiro (mRNA) (25). 
 A síntese do RNA viral inicia-se a partir de uma fita de RNA complementar com 
polaridade negativa que serve de molde para gerar a fita de RNA positiva (22, 39). A 
nova fita de RNA positiva poderá ser usada em um novo ciclo de tradução ou ser 
empacotada por proteínas estruturais gerando uma nova partícula viral que será 
liberada na superfície celular. 
 A montagem das partículas virais é pouca entendida. Acredita-se que durante esse 
processo, o nucleocapsídeo do YFV seja envolvido por membranas do RE cobrindo 
a glicoproteína E e a PrM. As partículas virais imaturas são direcionadas para o 
Complexo de Golgi pela via secretora, onde se tornam maduras ao passarem por um 
processo de glicosilação, o qual ocorre a clivagem da PrM em M pela protease furina 
(25, 40). O próximo passo será um rearranjo entre a proteína E e a subunidade M 
formando assim a partícula viral madura que será transportada para a membrana 
plasmática por meio de vesículas que se fundem com a membrana celular, liberando-
as por meio da exocitose (25, 40, 41). 
 O YFV liga-se à superfície da célula hospedeira e entra na célula via endocitose. 
Dentro da célula, o vírus funde-se com a membrana endossomal e libera seu material 
genético para o citoplasma. O RNA viral (vRNA) é traduzido numa única poliproteína 
que será traduzida em dez proteínas diferentes, com auxílio da enzima CAP (do inglês 
capping enzyme) responsável pela estabilidade da molécula de RNA durante a 
tradução e posteriormente ocorre a replicação do material genético. A montagem do 
vírus ocorre na superfície do retículo endoplasmático (RE). As partículas virais 
imaturas são transportadas através do Complexo de Golgi (CG), onde amadurecem 
e convertem a sua forma infecciosa. Os vírus maduros são liberados via exocitose. 
 
 
 
 
 
 Epidemiologia local e mundial: 
 
A primeira epidemia de febre amarela ocorreu em 1647, na cidade de Yucatán, que 
fazia parte do vice-reinado espanhol da Nova Espanha (atualmente México). Essa 
epidemia foi a primeira registrada em qualquer lugar do mundo. A epidemia de febre 
amarela no Yucatán teve um impacto devastador na população local e entre os 
colonizadores europeus. A doença era altamente letal, e muitas pessoas morreram 
como resultado. 
Na época, as medidas de controle eram limitadas e, em grande parte, ineficazes. Não 
havia compreensão sobre a necessidade de combater os mosquitos como vetor da 
doença. 
A primeira epidemia de febre amarela no Brasil ocorreu em 1685, em Recife, 
possivelmente trazida por um navio de São Tomé, na África, via Santo Domingo. A 
doença persistiu em Recife por uma década, espalhando-se esporadicamente. 
Na época, a febre amarela era vista como uma doença contagiosa e pestilencial, 
sendo atribuída a "ar pestilencial". As medidas de controle enfocavam a segregação 
dos doentes e a purificação do ambiente. 
Durante mais de um século, não há relatos de infecção amarílica no Brasil, sugerindo 
seu desaparecimento epidêmico. 
Epidemia de 1849 em Salvador: A febre amarela ressurgiu em 1849 em Salvador 
devido à chegada de um navio americano. A epidemia se espalhou para várias 
cidades portuárias, incluindo o Rio de Janeiro. 
Regulamento Sanitário de 1850: Em 1850, o "Regulamento Sanitário" foi instituído, 
estabelecendo normas para a segunda campanha contra a febre amarela no Brasil. 
As práticas incluíam desinfecção de navios, quarentena e medidas sanitárias 
coletivas. 
Criação de Comissões de Higiene Pública: Com o sucesso da campanha, o governo 
criou a Comissão de Engenheiros e a Junta de Higiene Pública para promover 
melhorias sanitárias. Essa foi a primeira organização governamental dedicada ao 
controle da febre amarela no Brasil. 
Estrutura Institucional e Vigilância: A estrutura institucional focou em registrar os 
componentes insalubres do ambiente e o estado de saúde dos indivíduos, além de 
implementar medidas de isolamento e quarentena. A vigilância inicialmente estava 
centrada na observação sistemática de casos suspeitos e seus contatos. 
Era Oswaldo Cruz - 1903 a 1913: 
Transmissão da Doença: Oswaldo Cruz baseou suas ações na compreensão da 
transmissão da febre amarela, que havia sido estudada por cientistas como Finlay em 
Cuba. A Comissão Reed confirmou a transmissão pelo mosquito após a filtração do 
sangue em voluntários humanos. 
Criação do Serviço de Profilaxia: Em 1903, foi criado o Serviço de Profilaxia da Febre 
Amarela, com o objetivo de eliminar a doença do Rio de Janeiro em quatro anos. A 
campanha foi baseada no conhecimento sobre a transmissão da doença e na não 
contagiosidade. 
Campanhas Sanitárias Militarizadas: As campanhas de controle da febre amarela 
foram organizadas de maneira militarizada, com "exércitos de mata-mosquitos" indo 
de casa em casa em busca de focos do mosquito transmissor. 
Medidas de Vigilância: Foram instituídas medidas de vigilância, incluindo a notificação 
imediata de casos suspeitos, medidas repressivas para ocultação de doentes e a 
criação dos "Conselhos ao Povo" para orientara população sobre a eliminação de 
mosquitos. 
Era da Fundação Rockefeller - 1923 a 1939: 
Descoberta do Ciclo Silvestre: Em 1932, a Fundação Rockefeller descobriu o ciclo 
silvestre da febre amarela, demonstrando que a doença não era apenas urbana, mas 
também ocorria em áreas rurais. 
Pesquisas Epidemiológicas e Entomológicas: A Fundação Rockefeller realizou 
extensas pesquisas epidemiológicas e entomológicas para identificar vetores, 
hospedeiros e áreas geográficas de ocorrência da febre amarela silvestre. 
Imagens e Dados científicos: A Fundação criou um acervo de imagens e dados 
científicos valiosos para caracterizar os cenários da doença e orientar as medidas 
profiláticas, incluindo o combate ao Aedes aegypti nas cidades e a vacinação. 
Esses dois períodos históricos demonstram a evolução do conhecimento sobre a 
febre amarela e a implementação de estratégias de vigilância e controle, tanto no 
âmbito local quanto global, contribuindo para a compreensão e prevenção da doença. 
 
No Brasil, o ciclo urbano, que tem o Aedes aegypti como vetor, teve seu último registro 
em 1942. Nas últimas décadas, somente foi identificada a transmissão pelo ciclo 
silvestre, cujos principais vetores são os mosquitos dos gêneros Haemagogus e 
Sabethes. No período de 2007 a 2009, houve expansão da circulação do vírus 
amarílico para regiões extra-amazônica, com reemergência no período sazonal de 
2014/2015, cuja atividade de circulação do vírus permanece até os dias de hoje, tendo 
atingido a Região Sudeste com maior intensidade nos períodos 2016/2017 e 
2017/2018, alcançando a Região Sul do país nos períodos sazonais de 2018/2019 e 
2019/2020, seguindo em atividade no atual período 2020/2021, incluindo a Região 
Centro-oeste. 
A África responsabiliza-se por mais de 90% dos casos de febre amarela anualmente 
notificados à OMS. Isto corresponde a cerca de 5000 casos anuais. Na América do 
Sul estima-se a ocorrência de 300 casos anuais. Em alguns países da África há 
transmissão urbana da doença 
 
 SINTOMATOLOGIA 
 
A gravidade dos sintomas pode variar de leve a grave, e os sintomas da febre amarela 
geralmente aparecem após um período de incubação de 3 a 6 dias. A maioria das 
pessoas com febre amarela apresenta sintomas leves ou não apresenta sintomas. No 
entanto, em casos mais graves, a doença pode progredir rapidamente e ser 
potencialmente fatal. 
Os sintomas da febre amarela podem incluir: 
Fase inicial (sintomas inespecíficos): 
● Febre alta. 
● Calafrios. 
● Dores de cabeça intensas. 
● Dores musculares, especialmente nas costas e membros. 
● Cansaço e fadiga. 
● Perda de apetite. 
● Náuseas e vômitos. 
● Fase tóxica (forma grave): 
Após um período inicial de melhora dos sintomas, em alguns casos a doença pode 
progredir para uma forma mais grave. 
● Febre alta persistente. 
● Icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos). 
● Hemorragias, que podem levar a hemorragias nasais, gengivais ou 
gastrointestinais. 
● Insuficiência hepática e renal. 
● Delírio e confusão. 
● Convulsões. 
● Coma. 
Em casos graves, a febre amarela pode causar danos graves a múltiplos órgãos, 
levando a falência de órgãos e, em última instância, à morte. A taxa de mortalidade 
entre aqueles que desenvolvem a forma grave da doença é alta. 
É importante destacar que a maioria das pessoas que contrai a febre amarela não 
desenvolve sintomas graves e se recupera completamente após a fase inicial da 
doença. No entanto, devido à gravidade potencial da febre amarela, a vacinação é 
uma medida importante de prevenção, especialmente em áreas onde a doença é 
endêmica ou em regiões onde ocorrem surtos. A vacina contra a febre amarela é 
altamente eficaz na prevenção da doença. 
 
 Tratamento/vacina 
Não há medicamento específico para o tratamento da doença. Como os exames 
diagnósticos da febre amarela demoram em média até uma semana, o tratamento de 
apoio deve ser iniciado em caso de suspeita clínica dessa virose. O tratamento 
medicamentoso deve se voltar para o combate aos sintomas e os sinais manifestos 
da doença. Portanto, a medicação a ser prescrita depende das manifestações 
clínicas, mas é comum o uso de analgésicos e antitérmicos nas doses usualmente 
indicadas para o peso e a idade. Se contra-indica, entretanto, o uso de medicamentos 
que contenham em sua fórmula o ácido acetil-salicílico ou seus derivados pois eles 
podem agravar os fenômenos hemorrágicos. 
 
O método mais eficaz para se prevenir a febre amarela é a vacinação com a amostra 
17D. A criação da vacina contra a febre amarela deve muito ao trabalho do cientista 
sul-africano Max Theiler. Ele desenvolveu a vacina 17D, uma cepa atenuada do vírus 
da febre amarela, na década de 1930. A vacina foi desenvolvida através de um 
processo de passagens sucessivas do vírus em culturas de tecidos e ovos de galinha, 
enfraquecendo-o o suficiente para que não causasse a doença, mas ainda 
estimulasse uma resposta imunológica. Atualmente, duas subcepas são usadas na 
produção de vacinas: 17DD no Brasil e 17D-204 no resto do mundo. A diferença é 
que a 17DD tem 81 passagens a mais17. A OMS recomenda que sejam vacinadas 
todas as pessoas hígidas com mais de 6 meses de idade que residem nas áreas de 
risco ou que se dirijam a elas. Uma única dose da vacina protege o indivíduo por pelo 
menos 10 anos, quando então é recomendada a aplicação de nova vacinação. Abaixo 
de 6 meses há elevados riscos de desenvolvimento de encefalite pós vacinal. Como 
a vacina é produzida com vírus vivo atenuado, não é recomendada a vacinação de 
pessoas com imunodeficiência face aos riscos de reversão da virulência num 
hospedeiro com depressão do sistema imune. Portanto, pacientes com SIDA/AIDS, 
câncer e em uso de medicação imunossupressora não devem ser vacinados, salvo 
em casos particulares e após cuidadosa avaliação dos riscos e benefícios. Pessoas 
com antecedentes de alergia à proteína do ovo também não devem ser vacinadas 
pelo risco acentuado de desenvolverem reação alérgica do tipo I (choque anafilático). 
Finalmente, gestantes não devem ser vacinadas, considerando o risco de 
transmissão para o feto. De modo semelhante aos pacientes com imunodepressão, 
os poucos casos de gestantes vacinadas não desenvolveram infecção grave 
tampouco seus conceptos. No entanto, sempre que possível, deve-se evitar a 
vacinação desses grupos.