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1 
 
INTUSSUSCEPÇÃO DUODENAL POR CORPO ESTRANHO EM UM CANINO DA 
RAÇA BULDOGUE CAMPEIRO – RELATO DE CASO 
 
Caroline Dall’Igna
1
; Maria Eduarda Moraes
1
; Elieser Reis
2
; Susane Werle Dill
3
; Giovani 
Jacob Kolling
4
 
1 Acadêmica do curso de Medicina Veterinária. Atitus. carolldalligna@gmail.com; 
mariaduardamo@gmail.com 
2 Médico Veterinário. Bicho Vip Clínica Veterinária. mvelieserreis@gmail.com 
3 Médica Veterinária. Clínica Veterinária Estimação. susiwdill@gmail.com 
4 Orientador. Doutor e professor do curso de Medicina Veterinária. Atitus. 
giovani.kolling@atitus.edu.br 
 
1 INTRODUÇÃO 
A intussuscepção é uma desordem obstrutiva do trato gastrointestinal que apresenta 
considerável incidência entre os animais de companhia, podendo ser definida como a 
invaginação de um segmento do trato gastrointestinal, o intussuscepto, no lúmen de um 
segmento adjacente, o intussuscepiente. Embora as intussuscepções possam ocorrer em 
qualquer ponto do trato digestório, a maioria se dá no intestino delgado e nas junções 
ileocólica ou cecocólica (OLIVEIRA, 2015). 
Corpo estranho é considerado todo e qualquer objeto deglutido que não permite a digestão e, 
que pode causar obstrução intraluminal parcial ou total (RADLINSKY, 2014). Alguns 
exemplos de objetivos obstrutivos rotineiramente relatados na rotina veterinária podem ser as 
pedras, ossos, brinquedos de plásticos, tecidos, objetos lineares, agulhas, moedas, gravetos, 
caroço de fruta e sacolas plásticas (FOSSUM, 2015). O objeto pode se aderir ou se estabiliza 
em algum local do trato gastrointestinal e é deslocado caudalmente efetuando atrito sobre o 
tecido por meio de ondas peristálticas, ocasionando pregueamento intestinal e algumas vezes 
intussuscepções (WILLARD, 2010). 
O grau, a localização da obstrução, duração e comprometimento vascular causado pelo corpo 
estranho reflete diretamente os sinais clínicos do paciente (VASCONCELOS, 2014). Nas 
obstruções completas, onde não há deslocamento do objeto pelo trato gastrointestinal, 
complicações como choque hipovolêmico ou peritonite séptica são bem prováveis. Perante 
essas condições, a estabilização imediata e intervenção cirúrgica devem ser inevitáveis 
(RADLINSKY, 2014). Diante das informações coletadas pelo diagnóstico clínico e exames 
mailto:mariaduardamo@gmail.com
mailto:mvelieserreis@gmail.com
mailto:susiwdill@gmail.com
2 
 
complementares o cirurgião deve optar pela técnica cirúrgica de acordo com a causa e o local 
da obstrução (VASCONCELOS, 2014). 
O presente trabalho tem por objetivo relatar um caso de intussuscepção duodenal causada por 
um corpo estranho em um canino da raça Buldogue Campeiro. 
 
2 METODOLOGIA 
Um canino, fêmea, com 6 anos de idade, castrada, da raça Buldogue Campeiro, pesando 23 kg 
foi atendida em uma clínica veterinária particular da região dos Campos de Cima da Serra do 
Rio Grande do Sul. O tutor relatou durante a anamnese que o animal apresentou vômito 
esverdeado há cerca de dois dias, amanhecendo apática, com anorexia e eliminação constante 
de gases intestinais. 
Durante a o exame físico observou-se escore de condição corporal 5 (em uma escala de 0 a 9), 
frequência cardíaca de 172 batimentos por minuto, frequência respiratória de 56 movimentos 
respiratórios por minuto, temperatura retal de 38,6
o
C, tempo de perfusão capilar menor que 2 
segundos, mucosas congestas, presença de algia abdominal em quadrante cranial durante 
palpação e linfonodos regionais sem alterações. 
A partir da avaliação clínica foram solicitados exames hematológicos de hemograma e 
bioquímicos (albumina, alanina aminotransferase, creatinina, fosfatase alcalina, glicose, 
globulina, proteína sérica total e ureia), além da avaliação por diagnóstico por imagem de 
radiografia e ultrassonografia. Após a confirmação dos exames complementares foi realizada 
a cirurgia de enterotomia. 
 
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 
A partir dos exames de imagem foi possível chegar ao diagnóstico definitivo, com a presença 
de gases intestinais no exame radiográfico (Figura 1) e apresentação de um corpo estranho 
visualizado através da ultrassonografia, juntamente com um aumento de volume do duodeno 
de 5 cm, que estava causando uma sombra acústica (Figura 2). Segundo Amado e Assis 
(2019), é possível detectar um corpo estranho ultrasssonograficamente se este objeto 
apresentar uma interface hiperecogênica que forme forte sombreamento acústico. Juntamente 
com o corpo estranho, foi visualizada uma intussuscepção duodenal. 
3 
 
Figura 1: Presença de gases na região do duodeno 
(radiografia) 
Figura 2: Sombra acústica 
(ultrassonografia) 
 
 
 
Conforme Riedesel e Thrall (2014), o acúmulo de gases em alças intestinas é um dos sinais 
radiográficos observados em pacientes que apresentem objetos estranhos que causem 
obstrução intestinal parcial ou completa. As imagens radiográficas de região abdominal 
obtidas no exame do paciente em questão não permitiram a visualização de nenhum objeto 
estranho em trato gastrointestinal, porém evidenciaram o acúmulo de gás em alças intestinais. 
Os exames de radiografia não contrastada são úteis para identificar distensões gástricas, 
deslocamento e/ou mau posicionamento do órgão e corpos estranhos radiopacos, enquanto 
que na ultrassonografia podem observar-se o espessamento das camadas gástricas em caso de 
suspeita de neoplasias, gastrites crônicas, hiperplasia de piloro e visualização de alguns 
corpos estranhos (JERICÓ et al., 2015). Segundo Willard et al. (2014), o uso da endoscopia 
na remoção de corpos estranhos, embora não seja aplicável para todos os casos, é muito 
vantajoso, sendo mais rápido que um procedimento cirúrgico, menos estressante ao paciente, 
reduzindo o trauma tecidual, morbidade e tempo de recuperação. A remoção de corpos 
estranhos através da endoscopia, sem a necessidade de cirurgia, se provou um método eficaz. 
De acordo com o tipo de corpo estranho envolvido e o grau de obstrução, os quadros podem 
ser classificados como emergências cirúrgicas, devido aos sinais clínicos gerados e também à 
possibilidade de gerar maiores complicações como a ruptura de alças intestinais (HALL et al., 
2015). A intussuscepção aqui relatada apresentou desenvolvimento na porção duodenal. De 
acordo com Juvet et al. (2010), vômitos, inapetência e anorexia são alguns dos sintomas 
apresentados por pacientes que ingeriram corpos estranhos. No presente relato foi observado 
que a paciente apresentava seletividade para alimentação e episódios de vômito, além de dor à 
palpação abdominal, o que embora possam ser considerados sinais inespecíficos, são indícios 
importantes da presença de corpos estranhos gastrointestinais. 
Na avaliação dos exames sanguíneos solicitados pode-se observar no eritrograma alteração na 
concentração de hemoglobina globular média em 30,9%, com seu valor normal entre 32 e 
36%, indicando uma leve anemia. No leucograma a contagem de neutrófilos segmentados 
relativos resultou em 92%, sendo seu valor de referência entre 60 e 77%,
4 
 
indicando neutrofilia relativa; a contagem de linfócitos relativos e absolutos resultou em 3% 
e 215 /µL, respectivamente, sendo os valores de referência relativos entre 12 e 30% e 
absolutos entre 1000 e 4800 /µL, indicando linfopenia. Os demais parâmetros encontram-se 
dentro da normalidade para a espécie canina. 
Thrall et al. (2015) descrevem que as principais alterações observadas no leucograma de 
estresse são linfopenia, podendo ser desencadeada por doenças sistêmicas, distúrbios 
metabólicos e a dor. Como citado pelo autor, as alterações no leucograma podem ser 
relacionadas ao estresse induzido pelo quadro clínico. A contagem das plaquetas resultou em 
186x10
3
 /µL, abaixo dos valores de referência (entre 200 e 500x10
3
 /µL), indicando discreta 
trombocitopenia. No exame bioquímico encontrou-se leve hipoalbuminemia (2,1 g/dL) devido 
a má absorção de nutrientes, sendo os níveis de referênciapara a espécie de 2,6 a 3,3 g/dL; 
elevação nos níveis de alanina aminotransferase (125 U/L), devido a inflamação intestinal, 
com valores de referência entre 21-102 U/L; fosfatase alcalina (190 U/L), devido a obstrução 
do fluxo biliar, sendo os valores de fisiológicos de 20 a 156 U/L e aumento no nível de 
glicose (146 mg/dL) com valores de referência entre 65-118 mg/dL. 
Para a retirada do corpo estranho foi realizada uma enterotomia, iniciando-se com a realização 
de uma incisão abdominal na linha alba média ventral, desde o apêndice xifoide até a zona 
púbica. A cirurgia foi realizada caudal ao corpo estranho, que foi onde se encontrou uma 
viabilidade melhor do tecido, já que o intestino estava distendido e com a área desvitalizada, 
sendo susceptível a possibilidade de deiscência de incisão. Foi optado pela abertura maior 
cranial ao corpo estranho, pois o tecido estava em melhor estado para obter um sucesso na 
cirurgia. Foi realizada a incisão e a retirada do corpo estranho. A sutura foi feita com um 
padrão de isolado simples com fio poligrecaprone 3-0, que são fios monofilamentares e de 
longa absorção, foi necessário pontos próximos, ao contrário provocaria a deiscência. Foi 
possível corrigir a intussuscepção, realizando um ponto absorvível ancorado no peritônio na 
região de piloro para evitar que aconteça o mesmo. Para a sutura, utilizou-se na musculatura a 
sutura contínua festonada com fio vicryl® 2-0, para o subcutâneo, a sutura contínua simples 
3-0 e a pele com intradérmico 3-0. 
Após a retirada do corpo estranho do duodeno, observou-se que se tratava de um caroço de 
manga (Figura 3), que por ventura encontrava-se no pátio da residência. 
Figura 3: Imagem do corpo estranho (caroço de manga). 
5 
 
A literatura relata a possibilidade de complicações após o procedimento cirúrgico intestinal, 
entre as quais recidiva, peritonite séptica que pode resultar de deiscência intestinal pós- 
operatória ou de contaminação intraoperatória (APPLEWHITE et al., 2001), contudo a 
paciente em questão não apresentou nenhuma das complicações citadas e teve uma boa 
recuperação. A intussuscepção é uma enfermidade causada por contrações vigorosas que 
forçam o intestino até o lúmen do segmento relaxado adjacente. Os componentes da 
intussuscepção são o segmento invaginado, denominado intussusceptum, e o segmento 
envoltório, denominado intussuscepiens (ORSHER; ROSIN, 1998). 
A paciente ficou internada até recuperação pós-cirúrgica recebendo fluidoterapia e após a alta, 
optou-se então pelo tratamento de suporte com Dipirona; Escopolamina 25 mg/kg (VO, TID, 
por 5 dias) para controlar a dor e diminuir o peristaltismo intestinal, afim de evitar que ocorra 
uma intussuscepção novamente ou possa ocorrer a deiscência nos pontos, Meloxicam 0,1 
mg/kg (VO, SID, por 4 dias) age como anti-inflamatório, Cefalexina 30 mg/kg (VO, SID, por 
7 dias) para controle de infecções de pele, Omeprazol 0,5 mg/kg (VO, BID, por 10 dias) como 
protetor gástrico, Sucralfato 1 g → 5 mL (VO, BID, por 10 dias) para promover uma película 
protetora no estômago, mais especificamente, na região do piloro e duodeno, Ondansetrona 
0,4 mg/kg (VO, TID, por 5 dias) para evitar vômito e Metronidazol 15 mg/kg (VO, BID, por 
15 dias) age como anti-inflamatório. 
Para evitar ruptura nos pontos, o tutor foi orientado a oferecer somente alimentação pastosa 
durante 30 dias. Após isso, entrar com a ração gastrointestinal por 90 dias, já que é uma ração 
apropriada para diminuir a inflamação, pois o fio da sutura pode desenvolver uma doença 
inflamatória intestinal secundária, em razão do aço cirúrgico. Ademais, foi solicitado realizar 
a limpeza no local da cirurgia 2 vezes ao dia, com solução fisiológica e gaze e manter cone ou 
roupa cirúrgica até o retorno. Após 10 dias foi realizado o retorno da paciente, que desde a 
cirurgia não apresentou sinais de vômito e já estava aumentando o peso, com o escore de 
condição corporal 6. 
 
4 CONSIDERAÇÕES 
Conclui-se que a ingestão de corpos estranhos por animais de companhia é considerada 
comum e vem ocupando destaque na rotina clínica veterinária, portanto é importante realizar 
o diagnóstico precocemente para evitar complicações do quadro e avaliar o melhor método de 
resolução, considerando o porte do animal, estado clínico e características do corpo estranho, 
sendo de suma importância a realização dos exames complementares, como radiografia e 
ultrassonografia. 
6 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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