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ERGONOMIA UNIDADE IV LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO Autoria Lígia Rocha Cavalcante Feitosa Atualização Elisa Maria Amate Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO UNIDADE IV LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO ............5 CAPÍTULO 1 NORMA REGULAMENTADORA 17 ............................................................................................................................. 5 CAPÍTULO 2 INSTRUMENTOS DE ANÁLISE E PREVENÇÃO DE RISCOS ERGONÔMICOS ...................................... 13 PARA (NÃO) FINALIZAR ......................................................................................................................24 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................26 5 UNIDADE IV LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO CAPÍTULO 1 NORMA REGULAMENTADORA 17 1.1. NR 17: orientação e aplicação O bem-estar dos trabalhadores, dos usuários e o alcance dos objetivos organizacionais inter-relacionam-se favoravelmente quando colocados nas políticas cotidianas das organizações e ao se tornarem pertinentes na temática da qualidade de vida no trabalho (QVT) e da saúde do trabalhador (Ferreira; Ferreira; Antloga; Bergamaschi, 2009). As questões ergonômicas constituem-se pela análise do ambiente de trabalho, posturas, ritmos de trabalho, layout, conforto térmico, ruído, iluminação, formas de trabalho, aspectos envolvendo quantidade de horas trabalhadas, entre muitos outros elementos que podem levar ao desconforto ou até mesmo a doenças ocupacionais. Dessa forma, caberá ao ergonomista, por meio de suas técnicas, proporcionar ao trabalhador a aproximação com o equilíbrio entre si mesmo, o seu contexto de trabalho e a infraestrutura na qual ele é realizado, em todas as suas dimensões. São, portanto, imprescindíveis para a aplicação da ergonomia nos ambientes de trabalho por conta da existência de elevado número de equipamentos e pessoas nesses ambientes, para os quais não foram considerados os princípios ergonômicos quando da realização de seus projetos de instalação. 1.2. O dispositivo legal da ergonomia Atualmente, o Brasil dispõe de 37 Normas Regulamentadoras (NRs) que obrigam as empresas a cumprirem o disposto nas normas relativas à segurança e à Medicina do Trabalho. A NR 17, especificamente, orienta a respeito da adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, possuindo fundamentos jurídicos na legislação brasileira, incluindo a Consolidação das Leis do Trabalho e até mesmo a Súmula do Tribunal Superior do Trabalho n. 346. 6 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO Trata-se de uma regulamentação resultante da intervenção das entidades sindicais sobre o reconhecimento das doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho informatizado e de enfrentamentos para melhoria das condições de trabalho de bancários, digitadores, entre outros. Por conta do seu processo de elaboração, a NR 17 foi aplicada especialmente na área de informática, porém, sua redação contém parâmetros que devem ser observados e seguidos de forma ampla e abrangente e em todos os segmentos laborais. A redação atual da NR 17, Ergonomia, prescrita pela Portaria Ministério do Trabalho e da Previdência Social n. 3.751, de 23 de novembro de 1990, dispõe sobre os seguintes subitens, que são imprescindíveis para os trabalhadores que executam suas atividades laborais sentados e possam ter à disposição um posto de trabalho adaptado às suas capacidades psicofisiológicas, antropométricas e biomecânicas humanas. Dentre os vários aspectos investigados pela NR 17, destacam-se os seguintes: » postura e movimentos corporais: trabalho sentado, trabalho em pé, movimentação de cargas, levantamento de peso; » informações captadas pela visão e audição; » controle (relação de mostradores e controles); » cargos e tarefas. O objetivo geral da norma é viabilizar a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, incluindo os aspectos relacionados à organização do trabalho, as condições ambientais dos postos de trabalho, os equipamentos utilizados, o mobiliário, o transporte e a descarga de materiais. Sob essa ótica, Wachowicz (2008) acrescenta que a investigação ergonômica deve buscar os seguintes objetivos: » Ajustar as exigências do trabalho às possibilidades do homem, a fim de reduzir a carga externa. » Conceber máquinas, equipamentos e instalações pensando na maior eficácia, precisão e segurança. » Estudar cuidadosamente a configuração dos postos de trabalho, com o intuito de assegurar ao trabalhador uma postura correta. » Adaptar o ambiente físico às necessidades físicas do homem. 7 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV Entende-se que, com a criação da NR 17, Ergonomia, tem-se uma inovação nos marcos regulatórios das instituições organizacionais, porque gera parâmetros para um ambiente de trabalho mais adequado e, consequentemente, pode auxiliar na prevenção de doenças ocupacionais, como lesão por esforços repetitivos (LER) ou distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). A NR 17 contém orientações a respeito dos levantamentos ergonômicos das atividades de trabalho, inclusive nas operações que exigem posturas rígidas e fixas, introdução de novas tecnologias, absenteísmo elevado, rotatividade elevada de pessoal, conflitos frequentes, trabalho em turnos, situações essas que estão diretamente ligadas ao tema principal desse trabalho, o teleatendimento. 1.2.1. Atualização da NR-17, o que teve de novidade? No dia 3 de janeiro de 2022, a NR-17 entrou em vigor, conforme o art. 4o da Portaria 423, de 7 de outubro de 2021. Essa portaria foi publicada no Diário Oficial da União, pelo Ministério do Trabalho e Previdência (MTP), aprovando a nova redação. É importante compreender a nova redação apenas após a leitura da NR-01, que vem como um normativo preliminar com diretrizes às normas subsequentes. Dentre as mudanças realizadas na NR-17, pode-se citar as principais abaixo: 1.2.1.1. Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) é a principal novidade da nova NR-17 sendo obrigatória a todas as organizações com o objetivo de subsidiar a implementação das medidas de prevenção e adequações previstas na norma. Segundo subitem 17.3.1.1, a AEP pode ser realizada através de abordagens qualitativas, semiquantitativas, quantitativas ou conjuntamente, conforme os riscos e os requisitos legais aplicáveis, visando identificar os perigos e produzir informações para o planejamento e a adoção das medidas de prevenção necessárias. A avaliação preliminar é contemplada nas etapas do processo de identificação de perigos e de avaliação dos riscos descritos no item 1.5.4 da NR-1: “Pontos de verificação ergonômica: soluções práticas e de fácil aplicação para melhorar a segurança, a saúde e as condições de trabalho” é um manual da Fundacentro (2018) que auxiliaria a elaboração da AEP. 8 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO 1.2.1.2. Análise Ergonômica do Trabalho (AET) A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) passa a ser mandatória quando há necessidade de análise aprofundada da situação; quando são observadas insuficiência ou inadequação das ações tomadas; quando indicado o acompanhamento de saúde dos trabalhadores, expresso no Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) e da alínea “c” do subitem 1.5.5.1.1 da NR-1 e quando há indicação de causa vinculada às condições de trabalho na análise de agravos relacionados ao trabalho (acidentes e doenças), conforme Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Além disso, a novaredação da NR-17 incluiu as etapas da AET: » análise da demanda e, quando aplicável, reformulação do problema; » análise do funcionamento da organização, dos processos, das situações de trabalho e da atividade; » descrição e justificativa para definição de métodos, técnicas e ferramentas adequados para a análise e sua aplicação, não estando adstrita à utilização de métodos, técnicas e ferramentas específicos; » estabelecimento de diagnóstico; » recomendações para as situações de trabalho analisadas; » restituição dos resultados, validação e revisão das intervenções efetuadas, quando necessárias, com a participação dos trabalhadores. A empresa deve registrar e garantir que os trabalhadores sejam ouvidos durante a AEP e AET. 1.2.1.3. Microempresas (ME), Empresas de Pequeno Porte (EPP) e o Microempreendedor Individual (MEI) Uma vez enquadradas como graus de risco 1 e 2 e o MEI não há obrigatoriedade de elaboração da AET, mas devem atender as disposições previstas na NR-17, devendo elaborar a AEP. Existem também exceções para este caso: caso PCMSO indicar o acompanhamento de saúde dos trabalhadores e o PGR indicar causa relacionada ao ambiente de trabalho gerador de acidentes e doenças, haverá a elaboração também da AET. 1.2.1.4. Interface com o PGR Com a sua revisão, houve a integração da NR-17 com a NR-1. A partir de sua vigência, também em 3 de janeiro de 2022, quanto ao inventário de riscos e planos de ação do PGR, respectivamente, os subitens 17.3.5 e 17.3.6 da NR-17 estabelecem que: 9 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV 17.3.5 Devem integrar o inventário de riscos do PGR: a) os resultados da avaliação ergonômica preliminar; e b) a revisão, quando for o caso, da identificação dos perigos e da avaliação dos riscos, conforme indicado pela AET. 17.3.6 Devem ser previstos planos de ação, nos termos do PGR, para: a) as medidas de prevenção e adequações decorrentes da avaliação ergonômica preliminar, atendido o previsto nesta NR; e b) as recomendações da AET. Por fim, cumpre destacar, os aspectos cognitivos que comprometem a saúde do trabalhador foram incluídos na organização do trabalho previstos nos itens 17.4.2 e 17.4.3.; o conceito de posição ideal foi superado e outros quesitos foram mais detalhados, como no caso de levantamento, transporte e descarga individual de cargas: 17.4.5 A concepção dos postos de trabalho deve levar em consideração os fatores organizacionais e ambientais, a natureza da tarefa e das atividades e facilitar a alternância de posturas. 17.5.2 [...] a) os locais para pega e depósito das cargas devem ser organizados de modo que o trabalhador não efetue flexões, extensões e rotações excessivas do tronco e outros posicionamentos e movimentações forçadas e nocivas dos segmentos corporais. 17.4.3.3 Deve ser assegurada a saída dos postos de trabalho para satisfação das necessidades fisiológicas dos trabalhadores [...] independentemente da fruição das pausas. 17.6.2 Sempre que o trabalho puder ser executado alternando a posição de pé com a posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para favorecer a alternância das posições. 17.6.6 [...] b) sistemas de ajuste e manuseio acessíveis; 17.6.7 Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados em pé, devem ser colocados assentos com encosto para descanso em locais em que possam ser utilizados pelos trabalhadores durante as pausas. 10 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO 17.7.3.2 Nas atividades com uso de computador portátil de forma não eventual em posto de trabalho, devem ser previstas formas de adaptação do teclado, do mouse ou da tela a fim de permitir o ajuste às características antropométricas do trabalhador e à natureza das tarefas a serem executadas. (Brasil, 2022) A rigor, muitos dos quesitos alterados na norma não precisariam ficar explícitos, atribuindo à AEP a identificação desses fatores de risco ou, a depender do caso, podendo até ser objeto de análise na AET. Recomendamos que a norma seja consultada, na íntegra, para complementar o estudo desta disciplina. Ainda sobre esse assunto, a Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO) publica estudos e promove cursos e eventos sobre Ergonomia. Como sugestão de pesquisa complementar desta unidade, acesse o site disponível em: https://www.abergo.org.br/. Nesta disciplina, você conheceu parte do conteúdo da Norma Regulamentadora 17 (NR- 17), que se refere à regulamentação do trabalho informatizado e de enfrentamentos para melhoria das condições de trabalho de bancários, digitadores, entre outros, resultante da intervenção das entidades sindicais contra as doenças osteomusculares oriundas dessas atividades específicas. A Portaria MTPS n. 3.751, de 23 de novembro 1990; art. 7o, XXII e XXXIII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988; arts. 72, 198, 199, 253; 390 da Consolidação das Leis do Trabalho e Súmula do Tribunal Superior do Trabalho no 346 foram os marcos legais que deram respaldo à NR-17. Cabe ainda falar dos aspectos psicossociais relacionados ao trabalho, cujo aprofundamento se faz imprescindível dentro da nova realidade do trabalho no Brasil: o aumento de casos de transtornos mentais entre os trabalhadores. A NR 17 menciona algo sobre os aspectos psicossociais interferentes no ambiente de trabalho. Assim, como forma de preencher essa lacuna, dentro do campo da psicologia organizacional e do trabalho, foram criadas várias metodologias de abordagem do sofrimento e prazer relacionados ao trabalho, bem como instrumentos valiosos na identificação e diagnóstico de riscos à saúde mental, tais como questionário de Lipp, ICT, entre outros. Sobre aspectos psicossociais faça a leitura complementar do artigo a seguir: PEREIRA, A. C. L. et al. Fatores de riscos psicossociais no trabalho: limitações para uma abordagem integral da saúde mental relacionada ao trabalho. Rev. Brasileira de Saúde Ocupacional – RBSO, 2020. ISSN: 2317-6369. Disponível em: http:// dx.doi.org/10.1590/2317-6369000035118. Acesso em: fev. 2024. 11 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV 1.2.2. O que é ser ergonomista? Segundo a ABERGO (2024), os ergonomistas atuam em setores econômicos, indústrias ou campos de aplicação específicos, mas a prática e a ciência dessa área não são oriundas de um domínio. A Ergonomia é multidisciplinar e centrada no trabalhador. Tem um olhar sistêmico e uma abordagem holística de sistemas na aplicação de teorias, princípios e dados das diversas áreas do saber que sejam relevantes ao projeto e avaliação de trabalhos, tarefas, ambientes, produtos e sistemas. A ergonomia leva em consideração os fatores físicos, ambientais, cognitivos, organizacionais, sociotécnicos e outros fatores relevantes, bem como as complexas interações entre o ser humano e outros humanos, o meio ambiente, ferramentas, produtos, equipamentos e tecnologia. (ABERGO, 2024) É necessário que a prática de ergonomia tenha uma visão integrada para que seja efetiva. Daí, os profissionais especializados em um determinado campo de saber devem abordar elementos importantes da Ergonomia – o que pressupõe um vasto campo de conhecimento. Contudo, a solução de problemas necessita a abordagem participativa de outros especialistas em Ergonomia, em diferentes domínios do saber, assim como especialistas com know-how em áreas correlatas (ABERGO, 2024). Insta destacar que a profissão de ergonomista ainda é pouco conhecida no Brasil, pela população em geral. A autora Débora Dengo (2020), afirma em seu site, Soluções Ergonômicas, que é comum esse desconhecimento do que faz um ergonomista e que muitas pessoas até poderiam estar atuando como tal, mas, por não possuírem informações sobre a profissão, acabam tendo pouca adesão (Dengo, 2020). Segundo a mesma autora, o ergonomista é aquele profissional responsável pelaadequação do posto de trabalho, tarefas, equipamentos para prevenir acidentes, doenças, desconfortos e lesões corriqueiras no desempenho funcional: Ele analisa tudo que envolve um determinado trabalho: o colaborador e o ambiente em que ele atua, as questões organizacionais, ambientais, equipamentos e mobiliários além dos fatores psicossociais e cognitivos. A partir daí, ele prepara um estudo profundo de todas as informações coletadas e sua relação com os trabalhadores, para chegar ao diagnóstico ergonômico que pode indicar se alguns desses itens avaliados podem levar a um desconforto no trabalho, uma dor, uma queixa ou até mesmo uma doença. (Dengo, 2020) 12 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO O ergonomista se propõe a agir no ambiente de trabalho e até mesmo no equipamento que executa a atividade na organização, focando em soluções viáveis para a execução de tarefas, sem prejudicar o trabalhador e gerando benefícios à organização (Dengo, 2020). A sua atuação pode envolver desde o ambiente industrial, até mesmo escritórios, hospitais etc. No meio industrial, por exemplo, o ergonomista poderá fazer uma análise do manuseio de carga e tudo que envolve o seu transporte: a forma de execução, frequência, horários, movimentos envolvidos, cargas transportadas, distâncias e alturas percorridas manuseando a carga, entre outras informações. Após essa análise, com a identificação do cenário e o diagnóstico, caso encontre riscos, é fundamental trazer soluções, seja a modificação do layout até mesmo a mudança dos horários de trabalho, a fim de minimizar lesões. Essa seria uma prévia do que é a Análise Ergonômica do Trabalho (AET) – mas esse profissional pode atuar de outras formas (Dengo, 2020). 1.3. Certificação de Ergonomista e Código de Ética Conforme orientações da ABERGO (2024), a única forma de candidatura é pelo Processo Regular, divulgado no seu site e apresentado anualmente no Edital do ENERGO – Exame Nacional de Ergonomia. Nesse edital, constam as regras vigentes, o cronograma para a submissão dos documentos, o local e a data da prova – que acontecem junto ao Congresso Brasileiro de Ergonomia, no geral. Após a aprovação, cabe a todo o associado da ABERGO observar o Código de Ética do Ergonomista (Norma ERG BR 1002 – Código de Deontologia do Ergonomista Certificado) conforme o artigo 8o do Estatuto da ABERGO. Para conhecer a respeito do código de ética do ergonomista certificado pela Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO), acesse a Norma ERG BR 1002 – Código de Deontologia do Ergonomista Certificado, disponível em: https://www. abergo.org.br/_files/ugd/18ffee_5eb6d7909124416bba8f0626945105ae.pdf. 13 CAPÍTULO 2 INSTRUMENTOS DE ANÁLISE E PREVENÇÃO DE RISCOS ERGONÔMICOS 2.1. Índice de capacidade para o trabalho (ICT) Diversas pesquisas mostram a necessidade de medidas preventivas para a manutenção ou mesmo a promoção da capacidade para o trabalho, em qualidade, impactando na redução da incapacidade do indivíduo e nas aposentadorias precoces, com aumento da produtividade do indivíduo (Martinez; Latorre; Fischer, 2010). O nível de escolaridade e a remuneração têm entre si uma associação direta e positiva na capacidade para o trabalho. Isso acontece porque o elevado nível de escolaridade possibilita acesso aos empregos mais bem remunerados e qualificados. Essas condições impactam de maneira favorável no estado de saúde e na manutenção da capacidade para o trabalho por mais tempo. O índice de capacidade para o trabalho (ICT) é um instrumento que avalia a percepção do trabalhador em relação ao quão bem está, ou estará, neste momento ou em um futuro próximo, e quão bem ele pode executar seu trabalho, em função das exigências, de seu estado de saúde e capacidades físicas e mentais (Silva Junior et al., 2016). Esse instrumento serve para medir a capacidade para o trabalho e foi desenvolvido na década de 1980 por uma equipe multiprofissional do Finnish Institute of Occupational Health (FIOH, em português, Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional), constituída por psicólogos, médicos, bioestatísticos, epidemiologistas e pesquisadores da área de Saúde Ocupacional, para acompanhamento de funcionários municipais em processo de envelhecimento (Marinho et al., 2011). O ICT é construído com base em um questionário autoaplicável, composto de dez itens, sintetizados em sete dimensões: 1. Capacidade para o trabalho comparada com o melhor de toda vida. 2. Capacidade para o trabalho em relação a exigências físicas. 3. Número de doenças atuais diagnosticadas pelo médico. 4. Perda estimada para o trabalho por causa de doenças. 5. Faltas ao trabalho por doenças nos últimos 12 meses. 6. Prognóstico próprio da capacidade para o trabalho daqui a 2 anos. 7. Recursos mentais. 14 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO A pontuação do ICT varia de 7 (pior índice) a 49 pontos (melhor índice). Sua aplicação no Brasil demanda como escolaridade mínima a quarta série do Ensino Fundamental 1. A versão em português e as instruções detalhadas para o cálculo do escore são encontradas em “Índice de Capacidade para o Trabalho”, de Kaija Tuomi. Quadro 8. Estrutura do Índice de Capacidade para o Trabalho. Item N. de questões Pontuação Capacidade atual para o trabalho comparada com o melhor de toda vida. 1 De 0 a 10 pontos. Capacidade para o trabalho em relação às exigências do trabalho. 2 De 0 a 10 pontos (considera a natureza do trabalho física e ou mental). Número de doenças atuais diagnosticadas por médico. 1 (lista de 51 doenças) De 0 a 7 pontos (inversamente proporcional ao número de doenças diagnosticadas apenas, sendo nenhuma doença de 0, e 5 ou mais doenças, 1 ponto). Perda estimada para o trabalho por causa de doenças. 1 De 1 a 6 pontos Faltas ao trabalho (dias) por doenças nos últimos 12 meses. 1 De 1 a 5 pontos (inversamente proporcional ao valor apontado). Para nenhum dia 5 pontos e no mínimo 100 dias 1 ponto. Prognóstico próprio da capacidade para o trabalho daqui a 2 anos. 1 1,4 ou 7 pontos (respectivamente incapaz, incerto e capaz). Capacidade de apreciar a vida, de se sentir alerta e da esperança no futuro. 3 Cada questão varia de 0 a 4, sendo respectivamente nunca e sempre. Os valores das questões são somados e a pontuação final varia de 1 a 4 proporcional a soma. Fonte: adaptação de Tuomi et al., 2010. Quadro 9. Pontos do ICT e seus objetivos. Pontos Capacidade para o trabalho Objetivos das medidas Ações 7-27 Baixa Restaurar a capacidade para o trabalho. Agir sobre o ambiente de trabalho e a capacidade de restaurar as condições do trabalhador. 28-36 Moderada Melhorar a capacidade para o trabalho. Incentivar atitudes positivas como a prática de exercícios físicos, dieta, sono, repouso e atividades sociais. 37-43 Boa Apoiar a capacidade para o trabalho. Esclarecer o trabalhador acerca dos fatores ligados ao trabalho e ao estilo de vida que auxiliam ou deterioram sua capacidade para o trabalho. 44-49 Ótima Manter a capacidade para o trabalho. Esclarecer o trabalhador acerca dos fatores ligados ao trabalho e ao estilo de vida que auxiliam ou deterioram sua capacidade para o trabalho. Fonte: adaptado de Tuomi et al., 2010. 15 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV A capacidade para o trabalho é uma condição oriunda da junção entre as necessidades humanas em relação às demandas biopsicossociais, cultura organizacional e ambiente de trabalho, expressando como estará o estado do trabalhador atual e ou a curto prazo, na capacidade de poder trabalhar. Segundo Martinez, Latorre e Fisher (2009), a versão brasileira do Índice de Capacidade para o Trabalho apresentou propriedades psicométricas satisfatórias para a validade de critério, de construção e de confiabilidade, representando uma opção adequada para avaliação da capacidade para o trabalhoem âmbito individual e ou coletivo. Individualmente, o ICT possibilita a identificação de trabalhadores com capacidade funcional comprometida e a adoção de medidas de apoio para a redução de danos ou mesmo eliminação. Coletivamente, serve para identificar um perfil geral de capacidade para o trabalho e os fatores determinantes que comprometem a capacidade laboral, direcionando ações interventivas. Fora que o preenchimento do formulário é rápido e simples, de fácil aplicação e de baixo custo. 2.2. Inventário de estresse Até o século XVII o termo estresse era utilizado na literatura inglesa esporadicamente com o significado de aflição e adversidade. No século XVIII foi utilizado pelo fisiologista francês Claude Bernard e posteriormente por Walter Cannon referindo-se às reações que produziam um colapso nos mecanismos de homeostase orgânica. (Maslach; Leiter, 1999) Na conjuntura atual, falar de trabalho na vida contemporânea está muito relacionado ao estresse, mecanismo corpóreo explicitado na unidade I e que pode a vir ser um problema de saúde relacionado ao ambiente de trabalho. Para mensurar o estresse, a autora e pesquisadora Marilda Lipp e Guevara desenvolveram o Inventário de Sintomas de Stress (ISS), baseando-se em um modelo trifásico desenvolvido por Selye. O ISSL é um instrumento validado no nosso país e amplamente aplicado em trabalhos clínicos e pesquisas na área de estresse, no Brasil e no mundo. 16 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO Figura 19. Dra. Marilda Emmanoel Novaes Lipp, 2024. Fonte: Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS), 2024. Esse inventário vem com o intuito de identificar, mensurar o quadro de sinais e sintomas preponderantes (física ou psicológica) e indicar a fase em que o indivíduo se encontra, dentro daquelas quatro fases clínicas de alerta, resistência, quase-exaustão e exaustão. O ISSL contém três quadros que detalham a sintomatologia do último dia, semana e do último mês, sendo que cada um desses quadros correlaciona os sintomas físicos e psicológicos à sua respectiva fase de estresse. Como o pesquisador sabe que o indivíduo está com o agravo e em que status (fase)? É realizado um somatório dos sintomas físicos e psicológicos em cada quadro. Acesse o INVENTÁRIO DE SINTOMAS DE STRESS DE LIPP (ISSL) disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/conexoes/article/ view/8637630/19568. No quadro 0, fase de alerta, o indivíduo apresenta mais de seis sintomas; na fase de resistência ou quase-exaustão. No quadro 2, se a pessoa apresentar mais que três sintomas, ela está na resistência enquanto, se marcar mais que nove, estará na quase-exaustão. Já o quadro 3, representa a sintomatologia da exaustão, tendo a sua constatação feita quando o indivíduo apresenta mais de oito sintomas (Santos et al., 2024). O inventário de Lipp é bem conhecido, ainda que não seja uma ferramenta livremente disponível, mas para mensurar estresse e a capacidade para o trabalho tem-se inúmeros questionários, como o Job Content Questionnarie (JCQ), criado por Karasek (1998), cujo objetivo é avaliar o conteúdo do trabalho através de 49 questões, abordando demanda psicológica, suporte social além do controle proveniente do ambiente de trabalho, incluindo-se chefia e colegas de trabalho, a demanda física e a insegurança no emprego (Karasek, 1998). 17 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV Esse é só mais um exemplo de instrumento dentre tantos disponíveis na literatura atual. Além disso, existem outros instrumentos que medem estresse, tal como descrito no artigo “Instrumentos de avaliação do estresse na população brasileira: uma revisão integrativa”, disponível em: https://www.uclastresslab.org/pubs/Cazassa_ RevistaBrasileira_2023.pdf. Você pode conhecer melhor a estrutura do Inventário de LIPP, adentrando em alguns estudos e os critérios utilizados na pesquisa como esse trabalho científico publicado neste outro link: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/rbtc/v4n2/v4n2a08.pdf. Antes de finalizarmos esta unidade, é importante atentarmos que a Ergonomia vai além do aspecto físico e de prevenção de dores musculares – ainda que seja essa a definição para grande parte da população quando se pergunta: o que é Ergonomia para você? Essa ciência extrapola em muito a prevenção de dores e tensões musculares provocadas por posturas prolongadas ou mesmo o estresse que o trabalho pode gerar. Ela permeia a gestão de competências, estrutura organizacional, governança, gestão de riscos etc. Vamos falar um pouco do que representa a Ergonomia na prevenção de dores e até mesmo algumas medidas de prevenção para evitá-las, antes de concluirmos esta disciplina do curso. 2.3. A prevenção de tensões musculares Imagine o seu dia! Excluindo-se as horas de sono, quase todo o restante é dedicado ao estudo e ao trabalho. Agora, pense nas suas preocupações! Em sua maioria, elas vêm desses compromissos que assumimos em nossas vidas. Daí vem a necessidade de dar atenção ao ambiente, local e até mesmo pessoas com quem convivemos nesses momentos. É comum aos indivíduos estarem cercados de inseguranças e incertezas oriundas ou relacionadas ao trabalho, deixando o indivíduo apreensivo, o que, comumente, facilita o surgimento de sintomas estressantes. Independentemente da ocupação laboral, formal ou informal, trabalhador ou estudante, as condições ergonômicas do posto de trabalho e ou estudo são fundamentais para a manutenção da saúde. Pressões emocionais e operações repetitivas podem levar ao adoecimento, sendo as altgerações do sistema musculo esquelético uma das principais causas de redução de produtividade e absenteísmo (Iida; Guimarães, 2016). 18 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO Pesquisadores constataram que há uma forte relação entre dores físicas e altos índices de estresse, aliada às posturas inadequadas, cansaço físico-mental, dentro dos aspectos ergonômicos irregulares (Yaribeygi et al., 2017; Xiao et al., 2020). Como preveni-las? Vejamos a seguir. 2.3.1. Fortalecimento muscular Quando gerada a tensão muscular, ocorre a contração do músculo, de forma constante, mesmo na ausência de estímulos contínuos com potenciais de ação, que levam ao surgimento de trigger points miofasciais – pontos dolorosos de hiperirritabilidade tecidual que surgem devido ao acúmulo metabólico causado pela tonicidade aumentada dentro de um músculo (Miyamoto et al., 1999). Segundo pesquisas realizadas no nosso país, as dores causadas pela tensão muscular devido ao estresse aparecem em 65% dos brasileiros na lombar e em 41% no restante das costas. Constatou-se também que essas dores afetam a capacidade produtiva dos brasileiros, limitando o desempenho profissional, dificultando a concentração e provocando alterações do humor, desinteresse pelo trabalho, irritação, incapacidade física e psicológica, diminuição da produtividade e absenteísmo. Essas pesquisas apontam a importância da intervenção em saúde, por meio da análise ergonômica, para identificar a origem do estresse e, intervir nas condições de trabalho do indivíduo, adaptando o trabalho ao trabalhador, minimizando os impactos à saúde do processo de adoecimento previamente instalado: Diante dessa definição bastante abrangente do construto de estresse, torna-se possível identificar que qualquer medida que avalie a exposição biológica ou neural, bem como a percepção do sujeito sobre o contexto e/ou as respostas despertadas pelos estímulos estressores, podem ser consideradas pertinentes à mensuração do construto. (Epel et al., 2018) A realização de um programa de fortalecimento muscular gera benefícios significativos, como o reforço muscular, para além das questões estéticas e padrões de beleza a ele correlacionados. Os músculos fornecem estabilidade para o bom funcionamento das articulações, que são as estruturasresponsáveis pelos movimentos durante a vida inteira. Caso elas não tenham estabilidade, não havendo a contração muscular efetiva ao movimento, não há contração muscular suficiente, aumentando as chances de desgaste das estruturas anatômicas. 19 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV Figura 20. Exercício muscular na UFCG. Fonte: Barbosa, 2013 Principalmente após os 30 anos de idade, o processo natural de envelhecimento envolve queda progressiva da força muscular, com a diminuição articular progressiva, reduzindo a estabilidade ao longo dos anos e, por conseguinte, o desgaste será cada vez maior. Isso propicia o aparecimento de diversas patologias, como artroses, tendinites, bursites, condropatias patelares, degenerações de discos da coluna vertebral, entre outras. Portanto, a fraqueza muscular é um dos fatores principais envolvidos no surgimento de dores e patologias articulares. Outro aspecto positivo é a melhora da capacidade funcional do indivíduo e a sua autonomia nas atividades diárias. Quanto mais força muscular tiver, melhor será a capacidade para andar, correr, subir escadas, carregar pesos, praticar esportes e realizar atividades recreativas. Esse fortalecimento pode ser estimulado por exercícios de alongamento e exercícios físicos, como a musculação ou a prática de esportes. A ginástica laboral também é uma grande aliada. Ela não substitui as outras atividades de fortalecimento, mencionadas anteriormente, ela ajuda na recuperação e ainda prepara o trabalhador para a sua jornada, podendo ser realizada antes, durante ou ao final do dia, sendo realizada dentro do ambiente de trabalho. Além disso, contribui para a prevenção de Distúrbios Músculos Esqueléticos (DME) relacionados ao trabalho, tais como as Doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT) e outros problemas, promovendo ambientes mais saudáveis e melhorando a sensação de disposição e bem-estar no trabalho. 2.3.2. Ginástica laboral (GL) Segundo Martinez (2020), a ginástica laboral é uma ferramenta que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida e as condições de trabalho por meio de um programa de 20 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO exercícios físicos – alongamento, mobilidade e fortalecimento – adaptados ao trabalho, podendo reduzir a fadiga e a satisfação dos beneficiários. Estudos científicos têm demonstrado que a prática da ginástica laboral diminui de maneira considerável o absenteísmo em diversas instituições, podendo ser realizada de duas a três vezes por semana, com duração média de 15 minutos, podendo incluir alongamentos, relaxamento e/ou práticas de fortalecimento muscular e atividades de massagem. A ginástica laboral é uma atividade física que integra o corpo, a mente e o espírito. Pode ser realizada a qualquer momento do dia, objetivando dinamizar o ambiente, para evitar a monotonia. As atividades podem ser, por exemplo: caminhadas, exercícios respiratórios e metabólicos, auto alongamento global, exercícios ativos resistidos, técnicas de percepção corporal, técnicas de relaxamento, entre outras. Estas atividades podem ser acompanhadas por músicas com ritmo adequado para cada atividade. (Fernandes, 2019) A exemplo da atividade de digitação, muito comum na área administrativa das organizações, a manutenção de posições por longos períodos, em especial a posição sentada, associada à digitação, predispõem ao surgimento da fadiga dos músculos da região cervical, ombros, cotovelos, punhos e mãos, da região baixa da coluna, que frequentemente acometem os trabalhadores expostos a esses tipos de riscos ergonômicos. A prática da ginástica laboral é uma alternativa viável para a recuperação desses grupos musculares, reduzindo a sobrecarga e o acometimento musculoesquelético. Figura 21. Ginástica laboral. Fonte: UFMG, 2016. 2.3.2.1. Tipos de ginástica laboral A ginástica laboral é uma prática que detém mais de um tipo de atividade, cujas modalidades mudam de acordo com a percepção de diversos autores. Martinez (2020), descreve pelo menos cinco tipos principais em seu artigo: 21 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV GL preparatória - Condiz com a prática de ginástica antes do turno de trabalho do funcionário (início da manhã, tarde ou noite), podendo ser utilizada como um “despertar” matinal, principalmente para os trabalhadores que manuseiam ferramentas e utensílios que apresentam risco de acidentes por erros humanos. GL compensatória - Também conhecida como ginástica de pausa ou pausa ativa, é a modalidade mais comumente utilizada, sendo aplicada durante o expediente ou no horário de pico de fadiga dos indivíduos. Assim, é executada após 3 ou 4 horas do início do trabalho, visando prevenir a adoção de vícios posturais errôneos nas atividades de vida diária e no ambiente de trabalho. Essa modalidade inclui exercícios que alongam a musculatura solicitada durante o expediente (agonista) e fortalecem a musculatura menos solicitada nos afazeres diários (antagonista). GL relaxante - É executada no fim da jornada de trabalho e deve ser iniciada de 10 a 15 minutos antes do término do expediente. É indicada para trabalhadores que atendem o público diretamente, como bancários e funcionários do serviço de atendimento ao cliente. Esses trabalhadores necessitam de relaxamento devido ao estresse acumulado ao longo do dia; podem receber massagens nas regiões dorsal, cervical, lombar, ombros e pés ou em outra área dolorosa. GL corretiva - O objetivo desse tipo de aula é a correção postural, visando restabelecer possíveis desequilíbrios musculares e articulares. Engloba exercícios físicos específicos, de modo a alongar a musculatura encurtada (frequentemente utilizada na atividade laboral) e fortalecer a enfraquecida (menos utilizada). Para tanto, define-se um grupo específico de trabalhadores com o mesmo problema (10 a 12 pessoas) e, então, é realizada uma sessão comum de GL com foco nos problemas do grupo em questão. GL de manutenção - A GL de manutenção visa ao equilíbrio morfofisiológico dos indivíduos, de modo a prevenir ou evitar doenças crônico-degenerativas. Essa modalidade pode ser executada antes da jornada de trabalho, durante o intervalo do almoço, após o expediente ou em um contraturno do trabalho. O tempo aproximado para a execução é de 30 a 60 minutos, podendo ser divido ao longo do dia em pequenas sessões de 10, 15 ou 20 minutos de duração. As principais atividades exercidas nesse tipo de aula são os exercícios aeróbios, que aumentam a capacidade respiratória, e os exercícios localizados, que visam ao ganho de massa muscular, fatores que auxiliam e promovem o bem-estar do trabalhador no dia a dia. (Martinez, 2020, p. 525) 22 UNIDADE IV | LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO 2.3.3. Pausas na jornada de trabalho com planejamento de folgas Ao longo da jornada de trabalho, é importante estabelecer um bom planejamento de pausas e folgas de trabalhadores, organizando-se rodízios dos postos de trabalho, quando possível e, assim, evitando a fadiga mental e a sobrecarga muscular. Essas pausas vão depender da atividade do trabalhador, do ambiente que ele labora e as posturas adotadas ao longo da sua jornada. Ressalta-se também que, a depender das condições de trabalho e da atividade executada, além das folgas e pausas, a organização fornece equipamentos e ou itens de proteção ao trabalhador para evitar ou reduzir o surgimento de doenças relacionadas ao trabalho. 2.3.4. Readequação ergonômica A readequação ergonômica é recomendada após a análise ergonômica do posto de trabalho atentando-se à melhoria das condições funcionais e biomecânicas. Essa readequação pode ser feita com registro em fotos e filmagens da rotina de trabalho, observando-se hábitos e posturas adotadas ao longo da jornada, aspectos domobiliário, ambiente físico em geral (Iida; Guimarães, 2016). Podem ser utilizados diversos instrumentos e formulários de avaliação; alguns citados nas unidades anteriores deste caderno de estudo. Em resumo, ainda abordando as formas de evitar a tensão muscular proveniente do estresse, a intervenção ergonômica é capaz de eliminar inconformidades e minimizar os fatores de risco que levam ao aparecimento de distúrbios musculoesqueléticos (DME). Até o século passado, a relação produtividade versus competitividade estava associada ao reconhecimento dos trabalhadores no desenvolvimento da organização, dado que eles eram os agentes das mudanças organizacionais. Mas, paulatinamente, o corpo de trabalhadores foi visto como peça fundamental para o funcionamento da engrenagem, sendo alvo de ações de qualificação profissional, de educação, de desenvolvimento de competências, de qualidade de vida, entre outras. A temática da qualidade de vida no trabalho é marcada pela satisfação da pessoa e a promoção do bem-estar físico e mental. (Fidelis et al, 2020). Diante de tudo isso, a ergonomia é promotora de prevenção de agravos, combatendo e solucionando problemas organizacionais de diversas maneiras, inclusive por meio da conscientização e informação. A conscientização na organização perpassa por momentos de educação para saúde, que podem incluir a realização de palestras, encontros, oficinas (além de outros recursos em comunicação) que abordem temas como: ergonomia, estresse, exercícios físicos e relaxamento, postura etc. 23 LEGISLAÇÃO RELACIONADA E OUTROS MÉTODOS DE ANÁLISE DE RISCOS ERGONÔMICO | UNIDADE IV As informações e a forma como serão passadas ao trabalhador ficam a critério da equipe de especialistas, que pode usar meios ilustrativos facilitadores à compreensão fácil e rápida, adotando uma linguagem simples, com exemplos da rotina dos trabalhadores, dentro e fora da empresa, com o objetivo de estimular a participação e gerar engajamento para a mudança de hábitos e uma conscientização mais eficiente. Não é apenas a informação em saúde que vai mudar o cenário do ambiente de trabalho, tampouco transformar imediatamente a postura do trabalhador frente a uma condição insegura de trabalho, mas a educação transforma e é uma forte aliada em quase todas as frentes de prevenção em saúde, em quaisquer espaços de convívio humano. 24 PARA (NÃO) FINALIZAR A análise da relação homem-trabalho revela, de modo geral, como as contradições existentes no contexto de trabalho podem dificultar e/ou provocar no trabalhador o enfrentamento das condições adversas, fazendo com que ele desprenda esforço nas esferas física, cognitiva e afetiva. Ao considerar o conjunto de exigências presentes no ambiente laboral, que se exemplificam por meio do excesso de ritmo de trabalho, do aumento dos prazos e cobranças, do incentivo à polivalência e da individualização da tomada de decisão, tem-se mais uma vez a confirmação da premissa, tão criticada pela ergonomia da atividade, do trabalhador como a “variável de ajuste” (Ferreira, 2008). Esse contexto crítico se tornou um desafio para as organizações repensarem os modelos de gestão que questionam o possível diálogo entre bem-estar e produtividade. Um importante salto foi a atualização das normas, incluindo a Norma Regulamentadora 17 – ainda que distante das atualizações frequentes das normas internacionais de higiene ocupacional – preconizando que as organizações apresentem ações ergonômicas, fazendo uso da Análise Preliminar e ou Ergonômica do Trabalho englobando quatro frentes principais: 1. levantamento, transporte e descarga individual de materiais; 2. mobiliário do posto de trabalho; 3. condições ambientais de trabalho; 4. organização do trabalho. Fora todas as considerações tecidas ao longo deste material, reforça-se a necessidade de todos compreenderem que a Ergonomia ganhou mais destaque quando passou de elemento prescindível para essencial no levantamento detalhado dos fatores de risco no ambiente de trabalho, os chamados fatores ergonômicos, considerados não apenas na NR 17, mas exigência para o e-Social. Sem falar da discussão em volta dos fatores psicossociais do trabalho etc. Frente aos desafios atuais gerados pela tecnologia, relações humanas moldadas pelas redes sociais e outros fatores da modernidade, a Ergonomia tem como ponto crítico exceder o cumprimento de obrigações legais e promover espaços de trabalho saudáveis e acolhedores aos trabalhadores. Essa realidade punge e demonstra cada vez mais o 25 PARA (NÃO) FINALIZAR aumento de adoecimentos e afastamentos por transtornos mentais, gerados muitas vezes pela pressão de produtividade, relações sociais fragilizadas e até mesmo o isolamento, a depender do modus operandi do trabalho. Da complexidade da temática às exigências normativas estabelecidas pelo Estado, as empresas deveriam olhar para além da produtividade e compreender que o ser humano é a mola propulsora do seu negócio. Sendo que esse Ser é movido por outras motivações, fora salário, carreira e empregabilidade: a satisfação, a saúde física e mental, a qualidade de vida podem ser fatores determinantes para uma boa produção no ambiente de trabalho. 26 REFERÊNCIAS ABERGO. O que é Ergonomia. Disponível em: https://www.abergo.org.br/o-que-%C3%A9-ergonomia. Acesso em: nov. 2024. ABRAHÃO, Júlia; SZNELWAR, Laerte. Entre a tarefa e a atividade: a dor do trabalhar. In: MENDES, A. M. (org.). Trabalho e saúde: o sujeito entre emancipação e servidão. Curitiba: Juruá, 2008. ANTLOGA, Carla; LIMA, Helena. Qualidade de vida no trabalho. Rede 2020, v. 3, n. 5, pp. 8-9, 2007. BACHION, M. M.; PERES, A. S.; BELISÁRIO, V. L.; CARVALHO, E. C. Estresse, ansiedade e coping: uma revisão dos conceitos, medidas e estratégias de intervenção voltadas para a prática de enfermagem. Revista Mineira de Enfermagem, v. 2, n. 1, 33-39, 1998. BARSANO, P. R. Segurança do Trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. BOISVERT, Maurice. 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