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EPIDEMIOLOGIA Epidem iologia Aline Carvalho de Azevedo Aline Carvalho de Azevedo GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro Caros leitores, é com imensa satisfação que apresento a vocês a disciplina de epide- miologia. Aqui, vocês encontrarão os principais conceitos que envolvem a epidemiolo- gia e observarão a importância das ações em saúde no campo da saúde pública. Veremos como a evolução dos métodos possibilitou um maior engajamento entre as políticas públicas em saúde. A integração entre os gestores, as esferas governamen- tais, os pro� ssionais da saúde e a população permeiam a epidemiologia e são essen- ciais para sua contextualização. Como uma ciência da saúde, a epidemiologia faz-nos entender como o monitoramen- to de doenças pode auxiliar e fornecer informações relevantes para os sistemas de saúde. No contexto da medicina veterinária, abordaremos a elaboração de programas sanitários para o controle e erradicação de doenças de grande impacto na saúde hu- mana e animal. Podemos dizer que o foco dessa disciplina é o entendimento do processo saúde-doen- ça, o funcionamento biológico de cada indivíduo e sua inserção na comunidade. Assim, faz-se necessário, também, o entendimento das variáveis envolvidas no processo de adoecimento, em busca de garantir o bem-estar e a qualidade de vida da população. EPIDEMIOLOGIA Capa_formatoA5.indd 1,3 09/11/2020 13:45:58 © Ser Educacional 2020 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE – CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Shutterstock Presidente do Conselho de Administração Diretor-presidente Diretoria Executiva de Ensino Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Diretoria de Ensino a Distância Autoria Projeto Gráfico e Capa Janguiê Diniz Jânyo Diniz Adriano Azevedo Joaldo Diniz Enzo Moreira Aline Carvalho de Azevedo DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. SER_EPIDE_UNID1.indd 2 09/11/2020 11:15:43 Boxes ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. EXEMPLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. SER_EPIDE_UNID1.indd 3 09/11/2020 11:15:43 Unidade 1. Conceitos básicos em epidemiologia Objetivos da unidade ........................................................................................................... 12 Epidemiologia: contexto histórico .................................................................................... 13 História da epidemiologia no Brasil ............................................................................. 15 Conceito de saúde ................................................................................................................ 16 Direito à saúde ................................................................................................................. 20 Saúde pública e a promoção à saúde ......................................................................... 22 Conceito de doença ............................................................................................................. 26 Conceito de danos à saúde ................................................................................................ 29 Riscos à saúde ................................................................................................................. 30 Prevenção à saúde ......................................................................................................... 31 História natural da doença ................................................................................................. 31 Sintetizando ........................................................................................................................... 34 Referências bibliográficas ................................................................................................. 35 Sumário SER_EPIDE_UNID1.indd 4 09/11/2020 11:15:43 Sumário Unidade 2 - Epidemiologia: conceito, objetivos e aplicabilidade no campo da saúde Objetivos da unidade ........................................................................................................... 40 Epidemiologia: conceito ..................................................................................................... 41 Estudos epidemiológicos ............................................................................................... 43 O conceito de causa em epidemiologia ...................................................................... 45 Epidemiologia: objetivos .................................................................................................... 47 Importância como eixo das ações de saúde e como base de informações ............. 49 Coleta de dados ............................................................................................................... 50 Sistemas de informação ................................................................................................. 52 Determinantes do processo saúde-doença .................................................................... 56 Adoção de políticas nos determinantes do processo saúde-doença .................... 60 Estrutura epidemiológica ................................................................................................... 61 Componentes da estrutura epidemiológica ................................................................ 62 Cadeia epidemiológica ................................................................................................... 63 Sintetizando ........................................................................................................................... 64 Referências bibliográficas ................................................................................................. 65 SER_EPIDE_UNID1.indd 5 09/11/2020 11:15:43 Sumário Unidade 3 - Indicadores epidemiológicos Objetivos da unidade ........................................................................................................... 68 Indicadores de saúde: indicador e índice ....................................................................... 69 A iniciativa Ripsa ................................................................................................................. 73 Indicadores de saúde e estatísticas públicas ................................................................ 75 Avaliação de indicadores............................................................................................... 76 Prevalência ....................................................................................................................... 77 Incidência ......................................................................................................................... 79 Mortalidade ......................................................................................................................acometem a população (GOMES, 2015, p. 10). É levado em conta variações encontradas dentro de uma população (Figura 1) no método descritivo do estudo epidemiológico, as quais permitem classifi- car as pessoas em grupos de acordo com algumas características específicas, Transversal Ecológico Coorte Caso-controle Relato de casos Série de casos Observacionais Experimentais *Ensaio clínico *Ensaio de comunidade Estudos epidemiológicos Descritivos Analíticos EPIDEMIOLOGIA 44 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 44 09/11/2020 11:42:37 chamadas de epidemiologia de categorias. Por exemplo, o grupo sanguíneo, quando são classifi cados pacientes que apresentam o grupo sanguíneo A fator RH positivo. Outras categorias periodicamente avaliadas nos estudos epide- miológicos são: estado imunológico, condição sociocultural, condições traba- lhistas, entre outros. É importante salientar que algumas variáveis podem estar conectadas, como a variável sexo, que aborda tanto a questão biológica quanto a social; a variável raça, que engloba uma abordagem biológica e social; a variável faixa etária, que permeia o aspecto biológico e social; a variável condição fi nanceira de uma família, que se refere aos aspectos sociais e culturais. Pes soa “Q ue m es tá exp ost o?” Tempo “Quando aconteceu?” Lugar “Onde ocorreu?” Figura 1. Método descritivo do estudo epidemiológico analisa a população/ pessoa, o tempo e o lugar. O conceito de causa em epidemiologia Em epidemiologia é importante conhecer as causas que levam os indiví- duos a desenvolver determinadas doenças e agravos à saúde. Com esse co- nhecimento, é possível, consequentemente, sugerir maneiras pelas quais esse EPIDEMIOLOGIA 45 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 45 09/11/2020 11:42:37 processo pode ser modificado. Atualmente, com o avanço da medicina e da genética, sabe-se que algumas doenças podem ser causadas exclusivamente por características genéticas, enquanto outras se destacam pela interação dos fatores genéticos com fatores ambientais. Logo, certos indivíduos podem se apresentar mais vulneráveis do que outros. Em geral, os desfechos em saúde são determinados por diferentes causas, ao que é definido como causalidade multifatorial das doenças. A causa de uma doença ou agravo à saúde é um evento, condi- ção, característica ou uma combinação desses fatores que de- sempenham um papel importante no desenvolvimento de um desfecho em saúde. Logicamente, uma causa deve preceder o efeito (desfecho) (BONITA, 2010, p. 83). A epidemiologia está vinculada a diferentes relações intraespecíficas. Pode- -se afirmar que a classe social é um fator estritamente relacionado a problemas de saúde. As condições socioeconômicas, como a renda familiar, acesso à edu- cação, condições de moradia e condições trabalhistas, torna o indivíduo mais ou menos suscetível a uma determinada condição de saúde. Tais condições (sociais, culturais e fitossanitárias) podem explicar o porquê de um determina- do País ou região apresentar piores condições de saúde: a maior exposição a agentes microbiológicos devido à falta de espaço dentro das moradias, difi- culdade de acesso à água tratada, fal- ta de saneamento básico, alimentação precária, entre outros. Para exemplificar a casualidade multifatorial, podemos tomar como base a tuberculose. O homem (hospe- deiro) apresenta tanto fatores gené- ticos (predisposição) quanto fatores ambientais/ externos (pobreza, des- nutrição, aglomeração domiciliar, en- tre outros) que favorecem a infecção, o que aumenta o risco de contrair a doença (Diagrama 3). EPIDEMIOLOGIA 46 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 46 09/11/2020 11:42:37 DIAGRAMA 3. MODELO DE CASUALIDADE DA TUBERCULOSE Fonte: BONITA, 2010. (Adaptado). O trabalho de Pasteur sobre os microrganismos levou à formula- ção dos seguintes postulados para determinar se um organismo vivo específi co causava uma doença em particular: • O organismo deve estar presente em todos os casos da doença; • O organismo deve ser capaz de ser isolado e crescer em cultura pura; • O organismo deve, quando inoculado em um animal suscetível, causar a doença específi ca; • O organismo deve, então, ser recuperado do animal e identifi - cado (BONITA, 2010, p. 86). Epidemiologia: objetivos A epidemiologia, ciência que estuda a dinâmica do processo saúde-doença possui objetivos e princípios básicos para o seu cumprimento. Para que re- sultados sejam alcançados é necessário que a epidemiologia analise como as doenças se distribuem e se desenvolvem, qual é a relação com os determinan- Hospedeiro suscetível Fatores genéticos Aglomeração domiciliar Fatores de risco para tuberculose Mecanismo para tuberculose Invasão tecidual Exposição às bactérias Desnutrição Pobreza Infecção Tuberculose EPIDEMIOLOGIA 47 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 47 09/11/2020 11:42:38 tes em saúde e que proponha novas medidas com a intenção de prevenção e controle de doenças, prevenção de riscos à saúde (danos à saúde) e demais eventos relacionados à saúde, bem como forneça subsídios úteis para que se- jam feitos planejamento, administração e adoção de medidas em saúde. Do ponto de vista do alvo do estudo epidemiológico, encontra-se a popu- lação, que são as pessoas envolvidas nesse processo avaliativo, que permite impor as articulações necessárias e propor o controle de doenças infecciosas. Para cumprir seus propósitos, a epidemiologia possui como objetivos: • A descrição da ocorrência da distribuição de problemas de saúde na população: como primeiro passo para um estudo epidemiológico, é necessário que sejam tomadas notas e referências do que acontece de novo e diferente ou reemergente em um determinado período e, assim, podem ser feitos relatos do que precisa ser levado em consideração para a adoção de medidas cabíveis em saúde pública; • A identificação de fatores de riscos no que se refere ao processo saú- de-doença: depois de visto que novas doenças ou alterações na saúde da po- pulação humana acontecem, é necessário que sejam investigados e identifica- dos o que leva a essa população apresentar maior ou menor risco à sua saúde. Aqui, pode-se dizer que é a peça-chave para encontrar caminhos que levem a novas descobertas e sugestões; • A análise de fatores externos (ambientais e socioeconômicos) que pos- sam estar relacionados às condições de vida e saúde da população: é sabido que não apenas condições individuais ou predisposições genéticas de cada pes- soa são fatores únicos para deixar o indivíduo mais propício ao adoecimento. Fatores externos, ambientais ou socioeconômicos estão comprovadamente re- lacionados a algumas doenças. Dessa forma, a epidemiologia tenta interferir de maneira que amenize os riscos à população; • A geração de dados e elaborações de planos em saúde: começa nesse ponto, a partir dos dados coletados, a elaboração de ações que visam garantir a prevenção e promoção da saúde. A geração de dados garante informações fidedignas que levam as esferas en- volvidas a investir em medidas de contenção e me- lhoria na qualidade de vida da população; EPIDEMIOLOGIA 48 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 48 09/11/2020 11:42:38 • A fundamentação de planos de ação, planejamento e execução de práticas preventivas e de controle e o tratamento de doenças: nesse mo- mento, fala-se em execução, ao colocar em prática tudo que até esse momento foi relatado, calculado e embasado. As ações de prevenção são tão importan- tes quanto as ações de promoção da saúde, cada uma em um momento opor- tuno para sua implementação; • A fundamentação e consistência de novos programas e tecnologias que visem à assistência e vigilância em saúde: em um último pla- no de um processo inteiramente integrado, chega-se à fundamen- tação, isto é, a confi rmação e adoção de programas baseados em evidências. Tudo o que foi coletado, proposto, estudado e aceito até o momento se tor- nauma medida palpável. Nesse momento, a averi- guação das medidas tomadas se torna uma função da vigilância em saúde. Importância como eixo das ações de saúde e como base de informações A epidemiologia é uma ciência dentro do campo das ciências naturais. Ainda assim, de acordo com seus objetivos e campos de atuação, é possível classifi - cá-las em subgrupos como a epidemiologia clínica, epidemiologia investigativa, epidemiologia nutricional, epidemiologia de campo e epidemiologia descritiva. Independente da classifi cação da epidemiologia, todas as suas categorias possuem em comum objetivos claros: identifi car as condições de saúde de uma determinada população a fi m de construir indicadores de saúde; inves- tigações das razões sociais para uma determinada situação de saúde; avaliar como as ações propostas impactam na vida da população, visando sua me- lhoria e bem-estar. A epidemiologia é a ciência utilizada como eixo norteador nas tomadas de decisões e na implementação das ações em saúde. Analisar como uma doença se distribui, quais os fatores envolvidos nessa distribuição e qual é sua duração são trabalhos importantes dos epidemiologistas para compreender o que se passa em determinada população em um período específi co. EPIDEMIOLOGIA 49 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 49 09/11/2020 11:42:38 Coleta de dados A aquisição de dados e informações forma o alicerce para que um es- tudo epidemiológico contemple a organização, a gestão e a consolidação de ações em saúde. Deve ser considerado que a variedade e quantidade de dados aumentem de acordo com o desenvolvimento e aquisição de novas tecnologias. A geração de dados, como de coleta, monitoramento e comu- nicação são pontos importantes para o planejamento e para a execução de ações em saúde. Em saúde pública, compreende-se dado como registro de ob- servações e de medidas objetivas de características de pes- soas e de fatos que compõem determinado evento ou ocor- rência de saúde em determinado tempo e lugar. Nessa linha, o dado agrega significado aos eventos de saúde (CUNHA; VARGENS, 2016, p. 73). A primeira etapa é a coleta de dados através da produção da infor- mação e posterior registro do que foi coletado. De maneira geral, esse re- gistro é feito em papel ou em plata- forma eletrônica (sites e aplicativos), mais comumente utilizado. Em casos de registro manual em papel, esse documento necessita ser arquivado para fi ns de comprovação de fatos. Para que as etapas seguintes sejam realizadas, é imprescindível que a qualidade dos dados esteja atendendo aos requisitos básicos. A coleta de dados ocorre em três esferas de atuação do sistema de saúde. As unidades ambulatoriais de saúde, hospitais e outras fontes de informa- ções em saúde relatam à esfera municipal, como a secretaria municipal de saúde. Em seguida, passam a confi gurar responsabilidade da rede regional de saúde, no âmbito estadual e consequentemente ao Ministério da Saúde, no âmbito federal (Diagrama 4). EPIDEMIOLOGIA 50 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 50 09/11/2020 11:42:38 DIAGRAMA 4. FLUXO DE INFORMAÇÃO DO SINAN Fonte: GUSMÃO; FILHO, 2015, p. 23. (Adaptado). Unidades ambulatoriais de saúde Hospitais Secretaria municipal de saúde Municipal Regional de saúde Estadual Secretaria estadual de saúde Ministério da Saúde Nacional Outras fontes São classificados como requisitos básicos no controle da qualidade da cole- ta/ geração de dados: ser fidedigno (corresponder com exatidão à realidade do fato); ser atual (os dados devem ser traçados com periodicidade e divulgados no momento oportuno) e ser completo (deve relatar o máximo de característi- cas possíveis de um determinado evento). A coleta de dados ocorre em todos os níveis de atuação do sistema de saúde. A força e o valor da informação (o dado analisado) dependem da qualidade e f idedignidade com que o mesmo é gerado. Para isso, faz-se necessário que os res- ponsáveis pela sua geração estejam bem preparados para diagnosticar corretamente o caso, como também para rea- lizar uma boa investigação epidemiológica, e fazer registros claros e objetivos destes e de outros dados de interesse, para que possam refletir a realidade da forma mais f idedigna possível (BRASIL, 2002, p. 14). As informações que passaram pelas etapas de coleta e registro são in- seridas em um banco de dados, que permitirá o acesso rápido no momento da análise. Após essa etapa, os dados passam pela codificação, isso é, são EPIDEMIOLOGIA 51 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 51 09/11/2020 11:42:38 transformados em valores numéricos ou letras (códigos) e por classifi cação em grupo ou categorias determinadas previamente, fase conhecida como processamento de dados. Por fi m, a divulgação é realizada e pode variar de acordo com o perfi l da análise ou das variações utilizadas no estudo. Dados e informações constituem um bem público, portanto, de- vem estar acessíveis à população. Geralmente, no serviço de saú- de, a divulgação da informação é realizada em formato de boletins ou de relatórios e é disseminada na Rede de Serviços, via sistemas de informação específi cos (CUNHA; VARGENS, 2016, p. 75). EXEMPLIFICANDO Dados podem ser conceituados como as características das variáveis analisadas em um estudo epidemiológico, por exemplo, pessoas, regiões e aspectos sociais. Na saúde pública, um dado está vinculado à descri- ção de uma situação ou fato, e não a um contexto explicativo. Quando os dados adquiridos são processados e convertidos em um contexto com signifi cância é possível afi rmar que o dado gerou uma informação, pois possui uma realidade associada. Sistemas de informação Os sistemas de Informação em saúde foram desenvolvidos por inter- médio do SUS para facilitar o acesso à situação de saúde em um determi- nado local. Essa averiguação deve ter como referencial regiões pequenas e homogêneas, sem deixar de levar em conta as condições socioculturais da população em questão. Um ponto a ser ressaltado é a necessidade de integração dos sistemas de geração de dados para que contribuam para as ações da vigilância em saúde. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) define siste- ma de informação em saúde como conjunto de componen- tes (estruturas administrativas, departamento de estatística de saúde, unidades de informação em saúde) que atua, de forma integrada, com finalidade de produzir informação ne- cessária e oportuna para implementar processos de decisão na área (ORGANIZACION PANAMERICANA DE SALUD, 1984 citado por CUNHA; VARGENS, 2016, p. 78). EPIDEMIOLOGIA 52 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 52 09/11/2020 11:42:38 O desenvolvimento dos sistemas de informação - sistemas que foram desen- volvidos com a finalidade de gerar dados baseados nas variações epidemiológi- cas - foi possível graças ao avanço da tecnologia. O surgimento e o crescimento da informática aumentaram o acesso à tecnologia, tornando a aquisição dessas informações um recurso relevante e frequente em diversos setores da comuni- cação. A década de 1990 foi marcante para o Brasil pelo exponencial crescimento do setor de processamento de dados. Nesse período, pode-se considerar que a epidemiologia entrou em um processo de transição e evolução. Para que a demanda de serviço fosse realizada com eficiência de acordo com a consolidação da tecnologia, era necessário deter conhecimentos espe- cíficos, além de conhecer as técnicas de manipulação dos equipamentos. Para isso, mão de obra qualificada era extremamente necessária na época. Os profissionais envolvidos nos estudos epidemiológicos iniciam uma in- vestigação epidemiológica por meio de dados e informações periodicamen- te coletados para saber como está o estado de saúde de uma determinada população. Assim, é possível averiguar as necessidades básicas e quais serão as medidas necessárias de acordo com o que foi analisado. EXPLICANDO A investigação epidemiológicaconsiste em um procedimento que não apenas vincula-se a informações da notificação (como fonte de infecção, transmissibilidade, patogenicidade, riscos) mas, sobretudo, possibilita a descoberta de novos casos que não foram notificados. A importância da notificação promove uma maior robustez dos dados gerados pela epide- miologia, o que favorece a aplicabilidade de políticas e ações em saúde. De forma geral, os países registram nos atestados de óbito as causas da morte do paciente e informações como idade, sexo e região de residência. A Classifica- ção Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados à Saúde (CID) for- nece informações sobre classificação dos óbitos. O CID é revisado e avaliado pe- riodicamente de acordo com a relevância e emergência das doenças e surgimento de novas doenças infecciosas, assim como quais são os critérios de diagnósticos estabelecidos. Assim, é possível relacionar os óbitos de um grupo de pessoas à localidade, condição social, idade e outras variações com a finalidade de comparar e incluir dados sobre mortalidade e avaliar as mudanças ao longo do tempo. EPIDEMIOLOGIA 53 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 53 09/11/2020 11:42:38 O objetivo dos sistemas de informação é transformar os dados gerados em informações úteis e contextualizá-los. Pa ra que esse processo linear (dado - in- formação) ocorra é necessário a integração de alguns passos importantes, como: entrada (alocação de dados na plataforma virtual); processamento (conversão dos dados iniciais em informação, ou seja, em um formato contextualizado levan- do em conta aspectos externos); armazenamento (maneira de manter os dados armazenados para posteriores análises); saída (geração de uma informação final, por exemplo, a produção de um relatório) e controle de desempenho (ajusta e formaliza as funções de entrada e saída para que ambas apresentem uma conec- tividade, efetivando uma conclusão do relatório). Enquanto os sistemas de informação em saúde agregam dados e informações necessários ao planejamento, à avaliação e à operacionalização de ações e de serviços de saúde na perspectiva do cuidado individual e da saúde coletiva, as tecnologias de informação e comunicação permitem acesso a dados armazenados nos diferentes sistemas de informação (CUNHA; VARGENS, 2016, p. 86). No Brasil, a oficialização dos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) ocorreu a partir do estabelecimento das declarações de óbito na década de 1970. A partir de 1990, o desenvolvimento do SIS acompanha a regulamentação do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo acelerado processo de crescimento e consolidação das tecnologias de informação no País. O SIS propôs o estabelecimento de dife- rentes bases de dados de abrangência nacional que contemplam o registro de diferentes naturezas (Quadro 1). A utilização dos sistemas de informação nacio- nais é uma etapa pré-analítica para o desenvolvimento de informações a serem disponibilizadas pelo SUS. CONTEXTUALIZANDO O CID tornou-se o padrão de classificação diagnóstica para todos os propósitos epidemiológicos e de registros em saúde. O CID-10 é utilizado para classificar doenças e outros problemas de saúde em diferentes tipos de registros, incluindo atestados de óbito e registros hospitalares. Essa classificação permite resgatar informações clínicas e epidemiológicas e compará-las com estatísticas nacionais de morbimortalidade. A Classifica- ção Internacional de Doenças está, atualmente, em sua 10ª revisão, sendo, por essa razão, chamada de CID-10 (BONITA, 2010, p. 23). EPIDEMIOLOGIA 54 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 54 09/11/2020 11:42:38 Sistemas de informação de saúde Objeto de registro Usos Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação Agravos e doenças notifi cáveis Estudos de morbidade de agravos e doenças sob notifi cação. SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade Óbito Perfi l de mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Internações fi nanciadas pelo SUS Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Nascido vivo Perfi l das condições de nascimento Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica Ações e procedimentos da Atenção Básica Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição Monitoramento do perfi l alimentar e da situação nutricional. Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Gestante. Ações do Programa de pré-natal Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e complexidade Sinan – Sistema de Informação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Agravos e doenças notifi cáveis SIM – Sistema de Informação SIH-SUS – Sistema de Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Agravos e doenças notifi cáveis Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Agravos e doenças notifi cáveis Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Agravos e doenças notifi cáveis Informações Hospitalares do SUS Sinasc – Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Agravos e doenças notifi cáveis Internações fi nanciadas pelo Sinasc – Sistema de Informação Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Agravos e doenças notifi cáveis Óbito Internações fi nanciadas pelo Sisab – Sistema de Informação em Saúde paraa Atenção SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Agravos e doenças notifi cáveis Óbito Internações fi nanciadas pelo Sisab – Sistema de Informação em Saúde para a Atenção SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Agravos e doenças notifi cáveis Internações fi nanciadas pelo SI-PNI – Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Agravos e doenças notifi cáveis Internações fi nanciadas pelo SUS Nascido vivo Ações e procedimentos da Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Estudos de morbidade de Internações fi nanciadas pelo Nascido vivo Ações e procedimentos da Informações do Programa Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Estudos de morbidade de agravos e doenças sob Internações fi nanciadas pelo Nascido vivo Ações e procedimentos da Atenção Básica Nacional de Imunizações. Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Estudos de morbidade de agravos e doenças sob Internações fi nanciadas pelo Nascido vivo Ações e procedimentos da Atenção Básica Ações assistenciais e administrativas do Programa Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Estudos de morbidade de agravos e doenças sob Ações e procedimentos da Atenção Básica Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Sisvan – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Estudos de morbidade de agravos e doenças sob notifi cação. Perfi l de mortalidade Ações e procedimentos da Atenção Básica Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Estudos de morbidade de agravos e doenças sob notifi cação. Perfi l de mortalidade Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Ações e procedimentos da Atenção Básica Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Estudos de morbidade de agravos e doenças sob notifi cação. Perfi l de mortalidade Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Ações e procedimentos da Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Estudos de morbidade de agravos e doenças sob Perfi l de mortalidade Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Perfi l de mortalidade Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos Ações assistenciais e administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Perfi l de mortalidade Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de nascimento Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos administrativas do Programa Nacional de Imunizações Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de nascimento Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas administrativas do Programa Nacional de Imunizações Monitoramento da cobertura Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição Perfi l de morbidade e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de nascimento Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de nascimento Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque Ações previstas na Política Nacional de Alimentação e mortalidade hospitalar no SUS Perfi l das condições de Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação Monitoramento das condições de vida e saúde dos indivíduos e famílias cadastradas Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação Monitoramento da atenção de vida e saúde dos indivíduos Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação Monitoramento da atenção Monitoramento da cobertura vacinal e dos eventos adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação nutricional. Monitoramento da atenção adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação nutricional. Monitoramento da atenção adversos, controle de estoque e distribuição de insumos. Monitoramento do perfi l alimentar e da situação nutricional. Monitoramento da atenção Monitoramento do perfi l alimentar e da situação Monitoramento da atenção alimentar e da situação Monitoramento da atenção Monitoramento da atenção Monitoramento da atenção Sisprenatal – Sistema de Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Gestante. SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Gestante. SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da Gestante. SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Sisprenatal – Sistema de Acompanhamento da SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Acompanhamento da SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. SIA-Apac – Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Ações do Programa de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Ações do Programa de Informações Ambulatoriais do SUS e Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Ações do Programa de pré-natal Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo. Ações do Programa de pré-natal de Alta Complexidade/Custo. Ações do Programa de pré-natal Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Ações do Programa de pré-natal Procedimentos de altacomplexidade ou alto custo. Ações do Programa de Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Monitoramento da atenção Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Procedimentos de alta complexidade ou alto custo. Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) complexidade ou alto custo. Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) procedimentos de alto custo e Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e Monitoramento da atenção à gestante e à puérpera cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e cadastrada no Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e complexidade Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN) Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e complexidade Monitoramento do quantitativo de procedimentos de alto custo e complexidade do quantitativo de procedimentos de alto custo e complexidade procedimentos de alto custo e complexidade procedimentos de alto custo e Há um consenso sobre a importância central da informação para avaliar o sucesso das políticas de saúde. Este consenso se mani- festa em relatórios e recomendações de Conferências de Saúde, ofi cinas de trabalho do SUS e eventos de sociedades científi cas. Informações epidemiológicas, fi nanceiras, orçamentárias, legais, normativas, socioeconômicas, demográfi cas e sobre recursos fí- sicos e humanos, oriundas de dados de qualidade são capazes de revelar a realidade de serviços e ações de saúde e a situação de saúde da população, evidenciando vantagens e problemas de prioridades e investimentos defi nidos (BRASIL, 2004, p. 21). QUADRO 1. SISTEMAS DE INFORMAÇÃO DE ABRANGÊNCIA NACIONAL DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE Fonte: CUNHA; VARGENS, 2016, p. 87 (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 55 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 55 09/11/2020 11:42:39 Os sistemas de informação em saúde têm como objetivo a gestão, a vigi- lância em saúde e os sistemas de prevenção e atenção primária. Logo, pode-se afi rmar que as informações em saúde obtidas e processadas são importantes insumos para que os profi ssionais de saúde possam trabalhar de maneira efi - caz em um sistema de gestão integrado aos órgãos competentes. O Ministério da Saúde, por meio do Portal da Saúde, leva informações con- cretas sobre a situação de saúde no País. É possível utilizar fi ltros no portal eletrônico e pesquisar o que a vigilância considerar ser mais interessante. É um sistema de fácil acesso para estudantes e pesquisadores da área biomédica que queiram acompanhar a situação epidemiológica de determinada doença no Brasil (Figura. 2). Figura 2. Portal da Saúde, mídia eletrônica do Governo Federal: disponibiliza informações sobre o estado de saúde da população brasileira. Determinantes do processo saúde-doença Os determinantes do processo saúde-doença incluem diferentes fatores que podem afetar o estado de saúde de um indivíduo, por exemplo, os fatores EPIDEMIOLOGIA 56 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 56 09/11/2020 11:42:39 biológicos, socioculturais, econômicos e comportamentais. A união e o equilí- brio desses fatores resultam na definição de saúde (Figura 3). A Organização Mundial da Saúde (OMS) define que os determinantes sociais da saúde estão intimamente relacionados às condições de vida e trabalho de um determinado indivíduo na sociedade. A situação econômica é um dos fatores mais importan- tes na concepção do processo saúde-doença, pois irá impactar diretamente no estado de saúde do paciente. Renda Alimentação Emprego Condições de moradia Posse de terra Meio ambienteAcesso à educação Transporte Trabalho Liberdade Acesso à saúde Lazer Figura 3. A saúde é resultante do equilibro entre diferentes fatores. Alguns estudos experimentais foram desenvolvidos na tentativa de modificar os determinantes envolvidos no processo saúde-doença, como interrom- per uma doença por meio de um tratamento. No entanto, esses tipos de estudos experimentais passam por uma série de restri- ções, pois impactam diretamente na vida das pessoas. Para o entendimento de como tais determinan- tes interferem no processo saúde-doença é pre- ciso retomar o conceito de saúde e doença como eventos opostos, mas que possuem uma conexão. EPIDEMIOLOGIA 57 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 57 09/11/2020 11:42:40 O processo saúde-doença marca a epidemiologia social, isso é, aquela que considera a saúde e doença como razões no coletivo. Dessa forma, o processo saúde-doença deve sempre ser embasado no bem-estar social da população, objeto de pesquisa da saúde pública. Esse processo ocorre por processos bio- lógicos e sociais de desgaste que tem como consequência o adoecimento dos indivíduos (Figura 4). Figura 4. Aspectos sociais e ambientais podem interferir no bem-estar e na qualidade de vida dos indivíduos. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 01/09/2020. O processo saúde-doença é um dos pontos centrais para os profissionais da saúde que buscam promovê-la, cuidando para que as pessoas possam ter, tanto quanto possível, uma boa qualidade de vida, mesmo quando as limitações se estabele- cem. Para essa relação especial com os clientes, é necessário o aprendizado do uso dos instrumentos e das tecnologias para o cuidado que compõe a formação desses profissionais (VIANNA, 2012, p. 86). A busca pela saúde é um propósito em comum a toda população. Para isso, os profissionais da saúde e gestores trabalham pelo acesso à inclusão e ade- rência de políticas de saúde que promovam ações em saúde. EPIDEMIOLOGIA 58 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 58 09/11/2020 11:42:40 Alguns fatores intrínsecos e extrínsecos ao homem estão relacionados ao processo saúde-doença, que incluem causas suficientes para que uma doença seja adquirida e desenvolvida. Em alguns casos, a exposição a diversos deter- minantes nem sempre podem subsidiar alterações imediatas ao indivíduo. Os casos em que a tríade ambiente-determinante-susceptibilidade se manifesta tardiamente, mas da mesma forma, acometem o bem-estar da população em um momento ou outro. Carvalho e colaboradores (2005) citado por Lima e colaboradores (2008) sugere alguns dos fatores determinantes do processo saúde-doença: seden- tarismo, tabagismo, obesidade, alcoolismo, estresse, baixa autoestima, uso incorreto de medicamento, uso inadequado da alimentação, problemas cola- borativos e preexistentes, relações interpessoais prejudicadas, renda insufi- ciente, educação inadequada, disposição ineficaz de agenda para tratamento e problemas com os cuidadores dos parciais ou totalmente dependentes. A política de saúde engloba ações de promoção a saúde que cobrem os determinantes sociais, econômicos e ambien- tais da saúde. A política de saúde pode ser vista como um conjunto de decisões sobre os objetivos estratégicos para o setor saúde e os meios para alcançar esses objetivos. A política é expressa em normas, práticas, regulamentos e leis que afetam a saúde da população e que em conjunto dão formato, direção e consistência às decisões tomadas ao lon- go do tempo (BONITA, 2010, p. 165). As políticasde saúde são referidas principalmente aos cuidados médicos ou pela organização assistencial de serviços de saúde. As decisões políticas tam- bém influenciam as tomadas de decisões em saúde. Uma política verdadeira deve se empenhar em fornecer ações de saúde, como prevenção e promoção. Para que isso ocorra os determinantes do processo saú- de-doença necessitam ser constantemente avaliados. Os últimos 50 anos demonstraram a importância da epidemiologia como ciência. Hoje, seu maior de- safio é avaliar como os determinantes de saúde e doença influenciam o processo saúde-doença. Os epidemiologistas estão preocupados não somente EPIDEMIOLOGIA 59 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 59 09/11/2020 11:42:40 com a vida ou morte de um indivíduo, mas também com a melhoria dos indica- dores de saúde e com maneiras de promover saúde. Uma nova maneira de pensar a saúde e a doença deve incluir explicações para os achados universais de que a mortalidade e a morbidade obedecem a um gra- diente, que atravessa as classes socioeconômicas, de modo que menores rendas ou status social estão associados a uma pior condição em termos de saúde. Tal evidência constitui-se em um indicativo de que os determinantes da saúde estão localizados fora do sistema de assistência à saúde (VIANNA, 2012, p. 78). Em algu- mas situações é importante se atentar para não culpar as pessoas quanto a deter- minadas condições em que as mesmas se encontram, por exemplo, condições de trabalho insalubres que podem interferir na vida e nos cuidados de um indivíduo. Adoção de políticas nos determinantes do processo saúde-doença Os determinantes do processo saúde-doença infl uenciam diretamente o estilo de vida das pessoas. Por isso, foram pensadas e propostas políticas que garantam e estimulam a mudança no comportamento através de práticas e ações educativas, facilitando o acesso às comunidades menos favorecidas, pro- movendo assim equidade social. O estilo de vida e o comportamento dos cidadãos formam a entrave do início da promoção a saúde. A facilidade ao acesso a uma alimentação saudável, criação de academias ao ar livre e espaços para práticas de atividades físicas são algumas das atitudes propostas. Além disso, as redes de solidariedade, que visam o aco- lhimento da comunidade, a implementação de redes de apoio e participação dos envolvidos, também pretendem aprimorar medidas e assim reduzir os possíveis danos no processo saúde-doença. Condições socioeconômicas, culturais, sanitá- rias e trabalhistas envolvem diretamente as condições de vida de um indivíduo. Para elucidar como a promoção da saúde vincula-se à adoção de medidas e po- líticas nos determinantes do processo saúde-doença, podemos citar o tabagismo. Atualmente, é sabido que a principal causa do aumento do número de pessoas com câncer de pulmão é o tabagismo. Os primeiros estudos epidemiológicos que fi zeram a relação do tabagismo com o câncer de pulmão são datados de 1950. O tabagismo é uma prática que pode ser iniciada pela infl uência familiar ou de ami- EPIDEMIOLOGIA 60 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 60 09/11/2020 11:42:40 gos ou pela ausência de estrutura emocional e educacional. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) conta hoje como uma rede de apoio que se baseia em campa- nhas e projetos para o controle do tabagismo. Diferentes locais (escolas, universi- dades, unidades de saúde, empresas, entre outros) participam de um Plano Global de Controle do Tabagismo e Prevenção Primária do Câncer (Diagrama 5). DIAGRAMA 5. PLANO GLOBAL DE CONTROLE DO TABAGISMO E PREVENÇÃO PRIMÁRIA DO CÂNCER Fonte: BONITA, 2010, p. 84 (Adaptado). As políticas que atuam no nível sanitário e com condições de trabalho normalmente são de responsabilidade de vários setores, como ofere- cer a população água limpa e tratada, saneamento básico, habitação, alimentos saudáveis e nutritivos, emprego, ambientes de trabalho saudáveis, serviços de saúde e educação de qualidade etc. (BUSS, 2007 citado por GUSMÃO; FILHO, 2015, p. 18). Estrutura epidemiológica A estrutura epidemiológica é defi nida como a relação das diferentes verten- tes que determinam o agravo de uma doença: o meio ambiente, os hospedei- ros e agente causador, podendo esse último ser químico, biológico ou físico. A integração entre esses três fatores leva a uma determinação do comportamen- to da saúde da população em um determinado período de tempo. INCA Contapp Centro de Tratamento da Dependência à Nicotina Escolas Ambientes de trabalho Unidades de Saúde Legislação e economia Avaliação e monitoramentoProjetos para o controle de fatores de risco de câncer EPIDEMIOLOGIA 61 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 61 09/11/2020 11:42:40 Os principais alicerces epidemiológicos envolvidos na estrutu- ração da epidemiologia são a frequência e como uma determinada doença se distribui em uma população ao longo do tempo (de acordo com variáveis, como espaço e tempo). A estrutura epidemiológica é di- nâmica, possuindo a capacidade de se transformar com o tempo e no espaço. Componentes da estrutura epidemiológica Agente etiológico é o agente causador, responsável pela manifestação de determinada doença. Ele pode ser do tipo físico, como aqueles causados por acidentes, como traumatismos e queimaduras, químico, em casos de envene- namento ou exposição a algum agente químico ou biológico, como infecções microbiológicas. Alguns aspectos do agente etiológico podem interferir na infec- ção: sua morfologia (que facilita ou difi culta a penetração do agente no hospe- deiro), a patogenicidade (a manifestação clínica da doença), a virulência (o quão grave e severo pode ser a manifestação), imunogenicidade (capacidade de gerar resposta imune ao hospedeiro), a resistência (capacidade de o agente sobreviver no ambiente), entre outros. O hospedeiro de um agente infeccio- so também apresenta condições favorá- veis ou não ao início de um processo de adoecimento. É ele quem vai abrigar e tornar promissor a relação com o agente etiológico. Algumas das características do hospedeiro que favorecem essa re- lação são: espécie, sexo, idade e estado fi siológico. As características do agente e hospedeiro, em sua maioria, são ditadas pela genética. O ambiente constitui um fator essencial na estrutura epidemiológica, pois é o responsável pela conexão agente/ hospedeiro. São as características do ambiente que vão ditar o comportamento do agente dentro da população. Características ambientais como a variação de temperatura, umidade do ar, hidrografi a, entre ou- tras, são condicionantes relevantes na estruturação do processo saúde-doença. EPIDEMIOLOGIA 62 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 62 09/11/2020 11:42:41 Cadeia epidemiológica Cadeia epidemiológica é assim denominada por ser um processo cíclico onde um agente etiológico é eliminado de um hospedeiro, em seguida é inse- rido a um ambiente e atinge um novo hospedeiro susceptível. A partir daí se inicia novamente o ciclo: o agente penetra, evolui e é novamente eliminado. O conhecimento da cadeia epidemiológica pode ser útil no reconhecimento da história natural da doença e pode vir a quebrar a transmissão e dissemina- ção da doença se a prevenção for realizada corretamente. Assim, é de extrema relevância para saber como atuar de forma a interromper a doença e assim não a deixar chegar a atingir o próximo estágio do ciclo. As etapas da cadeia epidemiológica são: fonte de infecção – organismo que serve como hospedeiro do agente etiológico, via de eliminação – meio por onde o agente é eliminado para o ambiente, meio de transmissão – meio por onde ocorre a transmissão de um agente e porta de entrada – meio por onde o agente penetra em um novo hospedeiro (Figura 5). Figura 5. Representação de uma cadeia epidemiológica: o etiológico é eliminado de um hospedeiro, passa a fazer parte do ambiente até atingir um novo hospedeiro. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 01/09/2020. EXPLICANDOProfi laxia é o conjunto de medidas adotadas com o objetivo de interromper a cadeia de transmissão de uma doença, e conta com: prevenção (ma- neiras para evitar o surgimento de uma doença), controle (medidas que possuem como objetivo a redução da frequência da ocorrência de uma doença) e erradicação (medidas adotadas com o intuito de eliminar deter- minada doença de uma região). EPIDEMIOLOGIA 63 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 63 09/11/2020 11:42:41 Sintetizando A epidemiologia é a ciência que estuda o comportamento das doenças em uma população, em um determinado período. Sua relevância é demonstrada pela importância do conhecimento do processo saúde-doença. Saber como uma doença surge, seu método de transmissão, os riscos que oferece à população, as maneiras de preveni-la e como promover a saúde, são ações essenciais no estudo epidemiológico. A epidemiologia utiliza-se de ferramentas como os indicadores de saúde e sistemas de informação de alta capacidade que mantém os dados sempre atua- lizados. Assim, as análises epidemiológicas ditam as tomadas de decisão e auxi- liam de forma direta a saúde pública do País, permitindo a elaboração e prática das políticas públicas. Toda investigação epidemiológica é feita baseada na população. É ela que direciona todo o estudo de acordo com a apresentação de características es- pecíficas. O estudo epidemiológico conta com uma análise descritiva, de total demonstração da real situação que uma determinada população está passando. Os métodos analíticos atuam na tentativa de formular hipóteses, construir fer- ramentas e prevenir fatores de risco, evitando maiores consequências futuras. O Brasil acompanhou o surgimento da informática e de outras ferramentas tecnológicas eficazes para o melhoramento na geração de dados e consequente processamento das informações. A estrutura epidemiológica composta pelo agente infeccioso, hospedeiro e meio ambiente revelam a pluralidade e a extensão da epidemiologia. A epide- miologia visa manter a população o mais longe possível das novas ou reemer- gentes doenças. Sua intenção como prática social é fornecer subsídios para um planejamento e gestão de medidas e políticas em saúde. A casualidade multifatorial das doenças impulsiona a aborda- gem de que não somente de fatores genéticos os indi- víduos estão condicionados, mas de todas as demais características que podem afetar a incidência e pre- valência de uma enfermidade. Aspectos sociocul- turais e ambientais são comprovadamente capazes de interferir na qualidade de vida dos indivíduos. EPIDEMIOLOGIA 64 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 64 09/11/2020 11:42:41 Referências bibliográficas BONITA, R.; BEAGLEHOLE, R.; KJELLSTROM, T. Epidemiologia básica. 2. ed. São Paulo: Grupo Editorial Nacional, 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica. Fundação Nacional de Saúde. 5. ed. Brasília: FUNASA, 2002. Disponível em: . Acesso em: 01 set. 2020. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Executiva. Departamento de Informação e Informática do SUS. Política Nacional de Informação e Informática em Saúde, Brasília, v. 2, 29 mar. 2004. Disponível em: . Acesso em: 09 set. 2020. BUSS, P. M.; P. F.; FILHO, P. A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, jan./abr. 2007. Disponível em: . Acesso em: 13 ago. 2020. CUNHA, E. M.; VARGENS, J. M. C. Sistemas de informação do Sistema Único de Saúde. Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saú- de, Fiocruz, Rio de Janeiro, v. 2, 2016. Disponível em: . Acesso em: 01 set. 2020. GOMES, E. C. S. Conceitos e ferramentas da epidemiologia. Recife: Ed. Uni- versitária da UFPE, 2015. Disponível em: . Acesso em: 09 set. 2020. GONDIM, G. M. M.; CHRISTÓFARO, M. A.; MIYASHIRO, G. (Org.). Técnico de vigi- lância em saúde: fundamentos. Rio de Janeiro: EPSJV, 2017, v. 2. GUSMÃO, J. D.; FILHO, W. M. S. Epidemiologia aplicada à saúde pública. Cur- so Técnico em Agente Comunitário de Saúde. Instituto Federal do Norte de Mi- nas Gerais, Montes Claros, maio 2015. Disponível em: . Acesso em: 08 set. 2020. LIMA, P. C.; SILVA, A. B.; TRALDI, M. C. Determinantes do processo saúde-doença: identificação e registro na consulta de enfermagem. Revista Intellectus, Jagua- EPIDEMIOLOGIA 65 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 65 09/11/2020 11:42:41 riúna, ano 4, n. 5, jul./dez. 2008. Disponível em: . Acesso em: 09 set. 2020. MORABIA, A. Reflexões históricas ao redor do livro Epidemiologia & Saúde: Fundamentos, Métodos, Aplicações. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 29, n. 6, p. 1059-1062, jun. 2013. Disponível em: . Acesso em: 01 set. 2020. VIANNA, L. A. C. Processo saúde-doença. Universidade Aberta do SUS, UNA- -SUS, São Paulo, 2012. Disponível em: . Acesso em: 01 set. 2020. EPIDEMIOLOGIA 66 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 66 09/11/2020 11:42:41 INDICADORES EPIDEMIOLÓGICOS 3 UNIDADE SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 67 09/11/2020 12:17:33 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Conceituar indicadores de saúde; Identificar métodos de avaliação de um indicador de saúde; Diferenciar indicador de saúde e índice; Compreender a importância da criação da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa); Compreender os fatores associados a medidas de prevalência e incidência; Definir mortalidade e compreender as diferentes variações da mortalidade geral; Reconhecer as medidas de esperança de vida e suas variáveis em uma população; Identificar as medidas de natalidade e fecundidade em uma população. Indicadores de saúde: indicador e índice A iniciativa Ripsa Indicadores de saúde e estatísticas públicas Avaliação de indicadores Prevalência Incidência Mortalidade Esperança de vida Fecundidade Natalidade EPIDEMIOLOGIA 68 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 68 09/11/2020 12:17:33 Indicadores de saúde: indicador e índice A Epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde/doença em cer- ta população por meio da análise da distribuição populacional e dos fatores determinantes das doenças, danos à saúde e eventos associados à saúde co- letiva. Na prática, dessa forma, ela propõe medidas específi cas de prevenção, redução ou eliminação de enfermidades, além de fornecer indicadores que servem de parâmetros para planejar, administrar e avaliar ações na saúde. Os conhecimentos e estratégias desenvolvidos pelos profi ssionais de saúde e gestores são essenciais durante todo o estudo epidemiológico: na investiga- ção de doenças emergentes e reemergentes e na indicação de quais os melho- res determinantes e indicadores de saúde ligados à origem de uma doença. Os avanços na tentativa de controlar doenças infecciosas melhoraram a compreensão do estado de saúde, e os determinantes sociais passaram a fazer parte do quadro avaliativo de uma população. São exemplos práticos os dados de morbidade, prevalência, incidência, acesso a serviços de saúde, qualidade de vida, fatores socioambientais envolvidos na saúde pública etc. As informações disponibilizadasa partir de uma base de dados válidos são requisitos fundamen- tais para avaliar os cidadãos e suas condições de saúde, visto que são essas as premissas que sustentarão e programarão as ações e políticas na saúde. Os valores que avaliam o estado de saúde de uma população possuem um papel capital para a ciência; são eles: indicadores e índices de saúde. Nota-se a partir disso a importância de eventos relacionados à saúde com a intenção de conhecer suas condições em dado local. Os indicadores de saúde são realizados de modo a facilitar o desenvolvi- mento de informações conforme elementos gerados pela quantifi cação e ava- liação dos conhecimentos produzidos. Pode-se dizer que os indicadores refe- rem-se a ferramentas imprescindíveis para a dimensão do estado de saúde e avaliação de desempenho dos sistemas de saúde. Eles, pois, refl etem na real situação sanitária e servem como guia para ações de vigilância. Valores absolutos não são ideais para a epidemiologia, pois há uma gama de informações referentes ao estado de saúde das pessoas: como chances de algum agravo à saúde, grupos de riscos de certas doenças, sexo, faixa etária etc. Tais informações são obtidas por meio dos indicadores. EPIDEMIOLOGIA 69 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 69 09/11/2020 12:17:33 Além de importante instrumento gerencial, de planejamento e de vigilância da saúde, tornar as informações acerca dos indicadores de saúde disponíveis e acessíveis a todos, especialmente aos usuá- rios dos serviços de saúde, é passo essencial para a efetivação do controle social do SUS, um dos pilares de democratização de nosso sistema de saúde (SANTIAGO et al., 2002, p. 803). A idealização de um indicador é um processo de complexidade variável – desde a contagem de casos de uma doença até cálculos estatísticos, como pro- babilidades, taxas e razões. Se construídos e atualizados constantemente em um sistema dinâmico, os indicadores são ferramentas valiosas para a gestão de saúde. São evidências que constituem a situação e suas propensões permitem identificar, por exemplo, grupos com maiores necessidades de saúde e até mes- mo localizar áreas mais críticas. Eles estabelecem, assim, subsídios que devem ser colocados rapidamente em prática de acordo com a precisão da população. Os indicadores assentem que o número de pessoas ou animais afetados por uma doença favoreça a comparação de níveis de forma espacial e tempo- ral. Destaca-se a importância dos indicadores de saúde e como sua construção e consolidação influenciam as definições e perspectivas de um grupo estudado. Para atuar na perspectiva da vigilância da saúde é imprescindível a utilização de indicadores sociais e de saúde que, articulados, ajudam a medir problemas e avaliar resultados da intervenção em saúde. Estes indicadores, utilizados de forma pactuada, constituem-se ca- minho apropriado para o envolvimento de diferentes atores sociais na construção de projetos intersetoriais capazes de influenciar a for- mulação de políticas públicas que melhor respondam às demandas sociais de saúde (SANTIAGO et al., 2002, p. 799). Existem indicadores positivos, negativos e neutros. Indicadores negativos são mostras que traduzem dados negativos – morbidade, letalidade e morta- lidade. Indicadores positivos referem-se àqueles que fornecem dados relacio- nados à saúde e à qualidade de vida. E aqueles que não encaixam-se em indi- cadores positivos ou negativos são definidos como indicadores neutros. Em Epidemiologia, no que tange à saúde de uma população, os dados negativos são os mais utilizados. Em Medicina Veterinária, por exemplo, há indicadores que medem a produtividade em explorações animais. EPIDEMIOLOGIA 70 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 70 09/11/2020 12:17:33 Os indicadores de saúde são continuadamente elaborados e atualizados con- forme a necessidade de um estudo epidemiológico (Diagrama 1), apesar de se- rem os indicadores negativos os mais empregados para esse fim. Eles identificam, monitoram e avaliam as ações e todo o planejamento que subsidiam as decisões do gestor. Torna-se possível identificar, por exemplo, áreas com maior ou menor risco de uma doença ocorrer e quais as tendências em dada época do ano. Os indicadores fortalecem as informações e os dados, auxiliam no direciona- mento da tomada de decisões e evitam o desperdício de tempo em ações não pla- nejadas. O acompanhamento de todo o processo, desde o recolhimento de dados até a confecção do relatório final, é de amplo valor: a segurança da informação reflete na realidade, e não em uma simples percepção sem fundamentação. Quanto à qualidade e cobertura dos dados de saúde, é preciso transformar esses dados em indicadores que possam servir para comparar o observado em determinado local com o observado em outros locais ou com o observado em diferentes tempos. Por- tanto, a construção de indicadores de saúde é necessária para analisar a situação atual de saúde; fazer comparações e avaliar mudanças ao longo do tempo (VAUGHAN; MORROW, 1992, n.p.). DIAGRAMA 1. PROCESSO DE UM ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO. OS INDICADORES SÃO UTILIZADOS NO INTERMÉDIO ENTRE O DADO E A INFORMAÇÃO Indicadores Medidas corretivas Planejamento Juízo de valor Informação DecisãoDado Ação Fonte: VOSGERAU; CANAVASSE, 2001. p. 45. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 71 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 71 09/11/2020 12:17:33 Entre os principais indicadores de saúde, estão: • Aspectos demográficos; • Morbidade/gravidade/incapacidade funcional; • Mortalidade/sobrevivência; • Nutrição/crescimento e desenvolvimento; • Saúde ambiental; • Condições socioeconômicas; • Serviços de saúde. Na proposta de vigilância da saúde, as ações de saúde dirigidas ao coletivo não devem se resumir a intervenções sobre o hospedeiro, o agente etiológico e o meio ambiente, mas devem focalizar os de- terminantes que estão por trás dessa tríade (CARVALHO, 1998, n.p.). Os indicadores são expressos mediante proporções, médias, taxas, índi- ces, distribuições por classes e valores absolutos; estes podem referir-se à to- talidade da população ou a grupos sociodemográficos específicos. EXPLICANDO Os indicadores são diferentes de índices, pois retratam apenas um aspecto, como a mortalidade. O índice, por sua vez, exprime circunstâncias com múltiplas dimensões e incorpora diferentes indicadores em uma única medida. Um índice cotidiano na saúde pública é o índice de desenvolvimento humano (IDH). Índice é um tipo de indicador de saúde cuja relação entre frequências atribuídas de determinado evento é avaliada. Os índices são expressos em valores percentuais. Eles são valores menores que a unidade pelo motivo de estarem como frequências de eventos associados ao numerador, significati- vamente, menor que os valores do denominador. Pode-se considerar o índice um indicador multidimensional. O índice é utilizado em alguns casos como sinônimo de indica- dor, ora com uma conotação mais abrangente expondo situa- ções multidimensionais do problema estudado e incorporan- do, em uma medida única, diferentes aspectos ou diferentes indicadores (PEREIRA, 1995 apud PEREIRA, 2007, p. 12). EPIDEMIOLOGIA 72 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 72 09/11/2020 12:17:33 A iniciativa Ripsa Perante a grande necessidade de integrar a saúde com equidade, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) promoveram uma coo- peração de informação sobre saúde para atender a dois objetivos convergentes. O primeiro diz respeito ao aumento da utilização das bases de informações a fi m de apoiar a idealização do Sistema Único de Saúde (SUS). Dessa maneira, seria possível atingir o segundo objetivo: o de contribuir ativamente para a confecção e sistematização de dados gerados para a saúde, em especial aqueles produzidos pelos países das Américas, pela Iniciativa Regional de Dados Básicos em Saúde. Tal estratégia de cooperação entre as duas instituiçõesincentivou a cria- ção da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa). A Ripsa promove parcerias entre grupos representativos de segmentos brasileiros en- volvidos diretamente na produção, avaliação e divulgação de resultados, com o único objetivo de somatizar informações essenciais para o conhecimento e compreensão do real perfi l das condições sanitárias do País e suas tendências. A Ripsa favorece a organização e a constante atualização a partir de uma base de indicadores associados ao estado de saúde e aspectos socioambientais de uma população; fatores que infl uenciam diretamente e determinam a situa- ção de saúde. Todo o processo faz parte de uma construção coletiva em que as instituições parceiras fornecem informações de forma a contribuir para o que há de mais importante, por meio de profi ssionais treinados e bases científi cas. A partir das informações analisadas, foi criado o primeiro produ- to da Ripsa: a publicação regular de indicadores e dados básicos (IDB). Essa base reúne informações que serão utilizadas para uma compreensão de circunstâncias reais de saúde, me- diante o acompanhamento das tendências. No início de seu desenvolvimento, a Ripsa dedicou-se ao processo de construção do IDB e, com o passar dos anos, vem aperfeiçoando os métodos. A campanha do IDB em 2013 abordou como tema as doenças imunopreveníveis em homenagem aos 40 anos do Programa Na- cional de Imunizações (PNI). Nesse período, o Brasil alcançou uma política pública efi ciente que garantiu confi ança por parte da população (Figura 1). EPIDEMIOLOGIA 73 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 73 09/11/2020 12:17:33 Acredita-se que outros países possam se beneficiar da expe- riência e dos produtos desenvolvidos pela Ripsa e que também possa ser estimulada a troca de experiências de sistematização de informações semelhantes e de relevância para a saúde glo- bal. O projeto é coordenado pela Opas Brasil, por intermédio da Unidade Técnica de Informação e Gestão do Conhecimento, em parceria com o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde – ICICT/Fiocruz (BVS RIPSA, 2008). Os indicadores de saúde utilizados pela Ripsa são: • Demográficos: analisam a distribuição das condições de saúde relaciona- das à população em determinada região; • Socioeconômicos: analisam a distribuição das condições de saúde concernen- tes ao perfil social e econômico da população residente em determinada região; • Mortalidade: revelam informações sobre a ocorrência e distribuição das causas de morte da população residente em determinada região; • Morbidade: relatam a ocorrência e distribuição de doenças e agravos à saúde na população residente em determinada região; Indicadores e dados básicos para a saúde IDB 2012, Brasil Coberturas, vacinas e homogeneidade* de coberturas da vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) em crianças de 1 ano de idade, 2012. Rede Interagencial de Informações para a Saúde - Ripsa Homogeneidade (61,4)% N = 3419/5585 · 100 reprodutibilidade ou fi dedignidade): método avaliativo que revela o quanto um teste é confi ável por meio da obtenção de resultados semelhantes; quando são repetidas várias vezes e se há concordância de re- sultados, ponto-chave para tal critério. Em uma análise epidemiológica, devem ser escolhidas características com maior confi abilidade; valores que delimitem uma baixa confi abilidade tornam-se sem utilização; • Representatividade ou cobertura: uma característica importante para utilização e efi ciência de um indicador é sua taxa de cobertura, principalmente quando questões sociais, econômicas e geográfi cas estão envolvidas. Quanto maior a cobertura, mais fi éis serão as informações trazidas; • Aspectos éticos: toda a abordagem dos indicadores deve ser feita de maneira a não ferir princípios éticos; assim, não pode haver malefícios, cons- trangimentos ou prejuízos às pessoas. A confi abilidade e o sigilo são fatores importantes para a epidemiologia clínica, e também devem ser considerados. Os profi ssionais e gestores envolvidos na produção, geração de informação e análise de resultados são consideráveis aliados para a confecção e atuali- zação dos indicadores de saúde. São eles os responsáveis e mais habilitados para conhecer as etapas a serem realizadas e, assim, conseguir monitorar as tendências em todas as esferas governamentais. Ressalte-se que os dados produzidos em certa localidade necessitam retratar os pontos fortes e as limitações de cada dado ou informação. Sugere-se que um profi ssional local participe da primeira fase do pro- cesso. Os demais profi ssionais e usuários dos dados devem estimular a valorização da informação, o incentivo à coleta e o gerenciamen- to de dados. As iniciativas de capacitação (coleta, gerenciamento, avaliação e análise de dados) são fundamentais, portanto, para a melhora da capacidade nacional, sobretudo em nível local. Prevalência A prevalência (P) de uma doença é representada pelo número de casos pre- sentes ao somar casos novos aos casos antigos em determinada região em certo período. A prevalência pode ser estabelecida pela Equação (1) (BONITA et al., 2010, p. 19). EPIDEMIOLOGIA 77 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 77 09/11/2020 12:17:36 A taxa de prevalência é de maneira geral expressa como casos por 100 (%) ou por mil pessoas. Nesse caso, P precisa ser multiplicado por 10n. Em algumas situações, a população de uma área avaliada dá-se por meio de aproximação, pois nem sempre os dados estão disponíveis ou atualizados. A prevalência como indicador de saúde é afetada, além dos casos emer- gentes (incidência), pela duração da doença, que pode ser diferente entre as comunidades, graças a motivos como assistência à saúde, facilidade de acesso aos serviços públicos de saúde etc. Pode-se concluir que a duração média da doença é proporcional à diferença entre os valores de prevalência e incidência. A prevalência é ainda afetada pelos casos que emergem (entram) na comuni- dade e por aqueles que emigram (saem) por curas e por mortes (Diagrama 2). A prevalência não mede o risco de ocorrência de enfermidades na popula- ção, mas consegue ser empregada pelos gestores da área de saúde para o pla- nejamento da estrutura e dos recursos necessários ao processo saúde/doença, bem como ser utilizada durante o tratamento de doenças. P = (· 10n) (1) População em risco (Número de pessoas com a doença) DIAGRAMA 2. ILUSTRAÇÃO DAS ENTRADAS E SAÍDAS QUE CONSTITUEM A PREVALÊNCIA EM DETERMINADO TEMPO Fonte: SOARES et al., 2001. (Adaptado). Casos novos Imigração Cura Óbito Emigração Prevalência Visto que a prevalência é influenciada por diversos fatores (Quadro 1) que não relacionam-se diretamente à origem da doença, os coeficientes de prevalência em geral não proporcionam grandes certificações do conceito de causa. Medidas de prevalência são importantes ferramentas para avaliação e histórico de necessida- EPIDEMIOLOGIA 78 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 78 09/11/2020 12:17:36 des em saúde, sejam elas por caráter curativo, sejam elas por caráter preventivo, além da sua utilidade no planejamento dos serviços de saúde. A análise de preva- lência é útil em condições em que o início ocorre de forma gradual (como diabetes). QUADRO 1. FATORES QUE PODEM INFLUENCIAR AS TAXAS DE PREVALÊNCIA DE UMA DOENÇA • À duração maior da doença; • Ao aumento de sobrevida do paciente, mesmo sem a cura da doença; • Ao avanço de novos casos (aumento da incidência); • À imigração de casos; • À emigração de pessoas sadias; • À imigração de pessoas susceptíveis; • À melhora dos recursos diagnósticos (melhora do sistema de registro). • À duração menor da doença; • À letalidade maior da doença; • À redução de novos casos (diminuição da incidência); • À imigração de pessoas sadias; • À emigração de casos; • Ao aumento da taxa de cura da doença. Aumento devido: Diminuição devido: Incidência A incidência refere-se à velocidade com que as novas doenças (emergentes ou reemergentes) ocorrem em uma população. A incidência considera o período em que os indivíduos não foram acometidos pela doença, mas que, ainda assim, pos- suem o risco de desenvolvê-la. O risco de ocorrência de doenças entre populações deve ser avaliado de acordo com a incidência (I), pois esta contabiliza os novos casos da doença em uma população em dado período. Ela pode ser calculada por regra de três ou por meio da Equação (2) (BONITA et al., 2010, p. 20). I = · (10n) (2) Pessoa-tempo em risco Número de pessoas que adoeceram no período Na Tabela 1, nota-se que no período de 1990 a 2005 a taxa de incidência da hanseníase no Brasil variou entre 20 e 27 casos por 100 mil habitantes. Tal variação pode ser justifi cada pelas alternativas de diagnóstico e tratamento. Destacam-se as regiões Norte e Centro-Oeste pelas elevadas taxas quando comparadas com as demais regiões brasileiras. EPIDEMIOLOGIA 79 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 79 09/11/2020 12:17:36 TABELA 1. TAXA DE INCIDÊNCIA DE HANSENÍASE (POR 100 MIL HABITANTES) POR ANO, CONFORME REGIÕES DO BRASIL, ENTRE 1990 E 2005 Região 1990 1993 1996 1999 2002 2005 Brasil 20 23 26 26 27 21 Norte 57 60 80 79 78 56 Nordeste 20 23 27 29 33 31 Sudeste 15 14 15 15 14 9 Sul 7 6 9 8 8 7 Centro-Oeste 50 73 70 64 67 44 57 20 15 60 7 23 50 14 80 6 27 73 15 79 29 9 29 70 15 78 33 64 14 56 31 67 9 7 44 Fonte: Datasus, 2006. (Adaptado). A compreensão das medidas de prevalência e incidência na epidemiologia pode ser conferida na Figura 2. Uma população composta por 50 mil habitan- tes apresenta 7 casos incidentes (novos casos) e 11 casos prevalentes (conti- nuativos) no período de um ano. Na Equação (3), é representada a evidente relação entre a prevalência e a incidência (BONITA et al., 2010, p. 22). Coefi ciente de prevalência = coefi ciente de incidência · duração média da doença (3) 01 janeiro 31 dezembro = Início da doença = Duração da doença = Término da doença Símbolos Figura 2. Casos de doenças (início, desenvolvimento e fi m) de 01 de janeiro a 31 de dezembro em uma comunidade. População: 50 mil habitantes. Casos incidentes: 7. Casos prevalentes: 11. Fonte: SOARES et al., 2001. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 80 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 80 09/11/2020 12:17:37 A relação entre incidência e prevalência varia entre as doenças. Uma mes- ma doença pode apresentar baixa incidência e alta prevalência – como no dia- betes – ou alta incidência e baixa prevalência – como no resfriado comum. Isso implica dizer que o resfriado ocorre mais frequentemente do que o diabetes, mas por um curto período, enquanto que o diabetes aparece menos frequen- temente, mas por um longo período (BONITA et al., 2010, p. 18). Mortalidade A mortalidade representa o número de mortes totais em todas as faixas etárias, na população residente em algum espaço de tempo (Diagrama 3). As taxas de mortalidade crescem81 Esperança de vida ........................................................................................................... 82 Fecundidade ..................................................................................................................... 84 Natalidade ........................................................................................................................ 86 Sintetizando ........................................................................................................................... 88 Referências bibliográficas ................................................................................................. 89 SER_EPIDE_UNID1.indd 6 09/11/2020 11:15:43 Sumário Unidade 4 - Investigação e vigilância epidemiológica Objetivos da unidade ........................................................................................................... 92 Composição da população em idade e sexo .................................................................. 93 Variável idade ................................................................................................................... 94 Variável sexo .................................................................................................................... 97 Projeções populacionais ................................................................................................ 98 Epidemiologia das doenças transmissíveis (doenças infecciosas) ........................ 100 Doenças transmissíveis com tendência declinante ................................................ 103 Doenças transmissíveis com quadro de persistência ............................................ 104 Doenças transmissíveis emergentes e reemergentes ........................................... 106 Epidemiologia das doenças não transmissíveis (doenças não infecciosas) ......... 107 Doenças crônicas não transmissíveis ....................................................................... 108 Vigilância epidemiológica ............................................................................................... 109 Avaliação dos sistemas de vigilância epidemiológica ........................................... 112 Métodos de investigação epidemiológica .................................................................... 112 Desafios e perspectivas para a saúde ...................................................................... 116 Sintetizando ......................................................................................................................... 118 Referências bibliográficas ............................................................................................... 119 SER_EPIDE_UNID1.indd 7 09/11/2020 11:15:43 SER_EPIDE_UNID1.indd 8 09/11/2020 11:15:43 Caros leitores, é com imensa satisfação que apresento a vocês a disciplina de epidemiologia. Aqui, vocês encontrarão os principais conceitos que envol- vem a epidemiologia e observarão a importância das ações em saúde no cam- po da saúde pública. Veremos como a evolução dos métodos possibilitou um maior engajamento entre as políticas públicas em saúde. A integração entre os gestores, as esferas governamentais, os profi ssionais da saúde e a população permeiam a epide- miologia e são essenciais para sua contextualização. Como uma ciência da saúde, a epidemiologia faz-nos entender como o mo- nitoramento de doenças pode auxiliar e fornecer informações relevantes para os sistemas de saúde. No contexto da medicina veterinária, abordaremos a elaboração de programas sanitários para o controle e erradicação de doenças de grande impacto na saúde humana e animal. Podemos dizer que o foco dessa disciplina é o entendimento do processo saúde-doença, o funcionamento biológico de cada indivíduo e sua inserção na comunidade. Assim, faz-se necessário, também, o entendimento das variáveis envolvidas no processo de adoecimento, em busca de garantir o bem-estar e a qualidade de vida da população. Permitam-se embarcar nessa jornada e aproveitem esse material da me- lhor maneira possível. Desejo a vocês bons estudos e sucesso na carreira! EPIDEMIOLOGIA 9 Apresentação SER_EPIDE_UNID1.indd 9 09/11/2020 11:15:43 Dedico este livro a todos que, de alguma forma, contribuíram para a saúde pública no Brasil. A todos os profi ssionais da saúde e estudantes pela incessante busca por conhecimento e por nunca deixarem de acreditar na ciência e na pesquisa brasileira. A professora Aline Carvalho de Aze- vedo é doutora em Ciências pelo Pro- grama de Pós-graduação em Vigilância Sanitária (2019) do Instituto Nacional de Controle de Qualidade, da Fiocruz; mestra em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Bioprocessos (2013) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; bacha- rel em Ciências Biológicas (2010) e li- cenciada em Ciências Biológicas (2009) pela Universidade do Grande Rio – Uni- granrio. Atua com projetos que envol- vem técnicas de biologia molecular, imunologia e microbiologia, com a fi na- lidade de geração de dados de saúde em epidemiologia. Ministra aulas de biologia para o ensino médio. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3586555578332948 EPIDEMIOLOGIA 10 A autora SER_EPIDE_UNID1.indd 10 09/11/2020 11:15:44 CONCEITOS BÁSICOS EM EPIDEMIOLOGIA 1 UNIDADE SER_EPIDE_UNID1.indd 11 09/11/2020 11:15:54 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Conhecer o histórico da epidemiologia em nível nacional e mundial; Identificar as principais contribuições dos pesquisadores pioneiros e sua importância na evolução da epidemiologia; Identificar os conceitos de saúde e doença por meio de trabalhos de conceituados pesquisadores em epidemiologia e saúde pública; Identificar o direito à saúde como um processo gradual de democracia e cidadania; Estabelecer uma correlação entre promoção e prevenção à saúde e sua importância para a saúde pública; Reconhecer os aspectos e etapas da história natural da doença; Epidemiologia: contexto histó- rico História da epidemiologia no Brasil Conceito de saúde Direito à saúde Saúde pública e promoção à saúde Conceito de doença Conceito de danos à saúde Riscos à saúde Prevenção à saúde História natural da doença EPIDEMIOLOGIA 12 SER_EPIDE_UNID1.indd 12 09/11/2020 11:15:54 Epidemiologia: contexto histórico Diante da notícia de uma doença emergente ou reemergente, ou de uma nova epidemia, percebemos a importância dos dados epidemiológicos. Es- ses dados são imprescindíveis para tomadas de decisões e desenvolvimento de estratégias em saúde, especialmente quando se referem a doenças con- tra as quais ainda não há métodos preventivos. Entretanto, o que grande parcela da população não imagina é como a epidemiologia evoluiu e se de- senvolveu na história. A epidemiologia, como a conhecemos, passou por inúmeras transforma- ções ao longo dos anos. No entanto, a importância dos dados e das análises realizadas no passado embasa todo o conhecimento que temos hoje. Alguns dos métodos de monitoramento criados há séculos foram aperfeiçoados, mas seus princípios, por exemplo, ainda têm grande valor para a ciência atual. Como disciplina, a epidemiologia iniciou-se somente a partir da Segunda Guerra Mundial – mas o pensamento epidemiológico foi traçado muito antes, por Hipócrates, John Graunt, William Farr e John Snow, entre outros. Embora não haja exatidão sobre quem empregou ou quando o termo “epi- demiologia” foi empregado pela primeira vez, Hipócrates recebeu reconhe- cimento por seu pioneirismo. Conhecido como pai da medicina, Hipócrates deixou um legado pelas contribuições iniciais à epidemiologia, já que foram seus primeiros relatos (há aproximadamente 2,5 mil anos) que alicerçaram os conhecimentos vigentes. Hipócrates sugeriu que fatores ambientais podiam infl uenciar o apareci- mento e desenvolvimento de doenças e que, portanto, tais doenças ocorre- riamde acordo com a faixa etária, por isso, é incomum comparar o impacto da saúde com diferentes populações, pois a taxa de mortalidade sempre apresentará maior elevação se houver maior população de idosos. Um coefi ciente alto de mortalidade para populações mais idosas signifi ca apenas uma tendência natural, já que os idosos pos- suem menos tempo de vida que os mais jovens. Em uma população jovem, esse signifi cado seria de mortalidade prematura. DIAGRAMA 3. COEFICIENTE DE MORTALIDADE GERAL E SUAS PRINCIPAIS VARIAÇÕES Coefi ciente de mortalidade geral Coefi ciente de mortalidade infantil Coefi ciente de mortalidade específi co Coefi ciente de mortalidade materna Coefi ciente de mortalidade pós-natal Coefi ciente de mortalidade neonatal tardia Coefi ciente de mortalidade neonatal precoce Fonte: RODRIGUES, et al., 2015. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 81 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 81 09/11/2020 12:17:37 As variações da mortalidade geral englobam: • Mortalidade infantil: número de mortes de menores de um ano de idade por mil nascidos vivos na população residente em uma região por determinado período; • Mortalidade neonatal precoce: número de mortes de 0 a 6 dias de vida completos por mil nascidos vivos na população residente em uma região por determinado período; • Mortalidade neonatal tardia: número de mortes de 7 a 27 dias de vida completos por mil nascidos vivos na população residente em uma região por determinado período; • Mortalidade pós-natal: número de mortes de 28 a 364 dias de vida completos por mil nascidos vivos na população residente em uma região por determinado período; • Mortalidade materna: número de mortes maternos por 100 mil nascidos vivos de mães residentes em uma região por determinado período; • Mortalidade específi ca: percentual de mortes por grupos de causas defi - nidas em uma região por determinado período. Esperança de vida Pode-se defi nir esperança de vida como o número médio de anos que ainda res- tam para serem vividos por uma pessoa de certa idade. Antigamente, esse indicador era vinculado ao termo expectativa de vida; no entanto, expectativa de vida remete a uma frustração; ou seja, tempo contado até chegar à morte. O uso do termo espe- rança de vida conota um sentido de alerta à saúde, deixando de ser visto como quan- to tempo falta para a morte, mas sim quanto tempo ainda há para aproveitar a vida. Esse indicador sintetiza a experiência de vida de um grupo de indivíduos, geralmente nascidos no mesmo lugar e no mesmo período, denominado coor- te. De fácil interpretação, a esperança de vida expressa o número médio de anos a ser vivido pela coorte a partir de determinada idade. A esperança de vida tem sido utilizada como parâmetro de longevidade, isto é, quanto tempo uma pessoa tem de vida. É um indicador, portanto, considerado adequado para sugerir as condições correntes de mortalidade. A estimativa, en- tretanto, apresenta desvantagem se levado em consideração aproximadamente um século de vida, estando sujeita a falhas na projeção da esperança de vida. EPIDEMIOLOGIA 82 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 82 09/11/2020 12:17:37 Assim, não é uma das tarefas mais fáceis inter- pretar as razões para as diferenças encontradas na expectativa de vida entre os países, porque cada um apresenta uma cultura diferente e distin- tos padrões podem surgir de acordo com a escolha da medida a ser utilizada. Em nível global, a esperança de vida aumentou de 46,5 anos (entre 1950 e 1955) para 65,0 anos (entre 1995 e 2000) (Gráfico 1). A esperança de vida relaciona-se especialmente a épocas de epidemias e pandemia, quando algumas doenças es- tão diretamente conexas a um maior número de mortes. A Tabela 2 fornece dados de esperança de vida em alguns países em 2004; tais dados demons- tram grandes diversidades nos países. Para exemplificar, é possível observar que as mulheres nascidas no Japão em 2004 têm esperança de vida de 86 anos; as mulheres nascidas no Zimbábue, contudo, apresentam esperança de vida de 30 a 38 anos. A relação de esperança de vida com as condições de vida das mulheres de países diferentes (acesso à educação, situação econômica, emprego, clima, condição fitossanitária) fica evidente. Na quase totalidade dos países, as mulheres vivem mais que os homens. GRÁFICO 1. TENDÊNCIA MUNDIAL DE ESPERANÇA DE VIDA AO NASCER (1950-2000) 1950 Período Ex pe ct at iv a de v id a ao n as ce r (a no s) 55 80 70 60 50 40 30 60 65 70 80 85 90 95 2000 América do Norte Oceania Europa América latina e Caribe Mundo Ásia África Fonte: BONITA et al., 2010, p. 29. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 83 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 83 09/11/2020 12:17:37 Um estudo feito em 2015 mostra a evolução da esperança de vida ao nascer (característica fundamental para validação de esperança de vida). De acordo com o Gráfi co 2, nota-se que entre o período de 1950 e 1955 houve baixa es- perança de vida em comparação com o período de 2010 a 2015. Essa diferença é evidente por causa das melhores condições de saúde, acesso à saúde, me- dicamentos etc. Espera-se que, em estudos futuros (Gráfi co 3), a tendência de esperança de vida tenha maiores valores comparados com os de 2010 a 2015. TABELA 2. ESPERANÇA DE VIDA AO NASCER PARA HOMENS E MULHERES EM ALGUNS PAÍSES (2004) GRÁFICO 2. EVOLUÇÃO DE ESPERANÇA DE VIDA AO NASCER POR REGIÕES (1950-2015) Expectativa de vida ao nascer (anos) País Mulheres Homens Zimbábue 34 (30-38) 37 (34-40) Rússia 72 59 Egito 70 66 China 74 70 México 77 72 Estados Unidos 80 75 Japão 86 79 34 (30-38)34 (30-38)34 (30-38) 72 70 74 77 80 86 37 (34-40)37 (34-40)37 (34-40)37 (34-40) 59 66 70 72 75 79 Fonte: BONITA et al., 2010, p. 29. (Adaptado). Fonte: FERREIRA; LOPES, 2015, p. 7. (Adaptado). Mundo África Ásia Europa Oceania BrasilAmérica latina e Caribe América do norte Estado de São Paulo 90,0 e0 (em anos) 1950-1955 2010-2015 80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 EPIDEMIOLOGIA 84 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 84 09/11/2020 12:17:37 GRÁFICO 3. AUMENTO NA EXPECTATIVA DE VIDA DOS BRASILEIROS Fonte: O Tempo, 2016. (Adaptado). Fecundidade O indicador fecundidade relaciona-se à população feminina em idade fértil. É co- mum, por exemplo, que a fecundidade seja expressa pela média de fi lhos por mulher (exemplo: três fi lhos por mulher). O coefi ciente de fecundidade é dado por fórmula ou calculado por regra de três, conforme a Equação (3) de Soares e colaboradores, 2001: EXPLICANDO Fertilidade é a capacidade de gerar fi lhos. Toda mulher teoricamente nasce com essa capacidade, representada desde a primeira menstruação até a menopausa. Fecundidade refere-se à realização do potencial de gerar fi lhos, que pode ser alterado por esterilidade ou uso de métodos anticoncepcionais. Evolução da expectativa de vida SC Estados onde se vive mais 78,7 77,9 77,8 77,8 77,5 77 ES DF SP RS MG Idade Quanto vivem os brasileiros 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 45,5 48 52,5 57,6 62,5 66,9 69,8 75,5 É o quanto aumentou a expectativa de vida dos brasileiros desde 1940 · 1000 (3) Mulheres de 15 a 49 anos da mesma área, no meio do período Nascidos vivos em determinada área e período EPIDEMIOLOGIA 85 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 85 09/11/2020 12:17:39 A queda nos valores de fecundidade e a queda nos valores de mortalidade evi- denciaram importantes modifi cações estruturais na população de acordo com a faixa etária e sexo (Figura 3). Houve uma diminuição no ritmo de crescimento da população e seu consequente envelhecimento, signifi cando maior número de pes- soas idosas por região. A esse fenômeno dá-se o nome de transição demográfi ca. Conhecer a taxa de fecundidade de uma população é um fator considerado favorável para a qualidade de vida das pessoas que ali vivem.Tal informação auxilia no planejamento dos serviços direcionados à saúde da mãe e do bebê, como exames, internações etc. A preocupação com mulheres grávidas pelo sis- tema de saúde é tamanha que políticas e ações são constantemente elabora- das para melhorar as condições de vida das gestantes. Os serviços devem ser dimensionados a partir do conhecimento do número de mulheres grávidas e dos recursos a serem utilizados por elas nesse momento de vida. No Brasil, a taxa de fecundidade total caiu de aproximadamente 6 fi lhos por mulher, na déca- da de 1960, para 2,4 fi lhos por mulher, em 2000 (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2000). Figura 3. A taxa de fecundidade caiu, segundo estudos comparativos entre os dados da década de 1960 e anos 2000. Fonte: BOING; D’ORSI; JUNIOR REIBNITZ, 2010. Natalidade O coefi ciente de natalidade está pertinente ao tamanho da população; o nú- mero de nascidos vivos por mil habitantes em uma região em determinado perío- do. Tal coefi ciente sofre infl uência da faixa etária, sexo, condições socioculturais e econômicas da população O coefi ciente de natalidade, portanto, consegue ser cal- culado pela fórmula apresentada na Equação (4) de Soares e colaboradores, 2001: EPIDEMIOLOGIA 86 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 86 09/11/2020 12:17:40 Algumas atribuições e importância para conhecer a natalidade englobam: a formação de subsídios para planejamentos e ações políticas que envolvem a atenção à saúde da gestante e do bebê, o favorecimento de cálculo do cres- cimento natural da população e, por fim, a contribuição para estimativa da variação demográfica da população. Exemplificando a importância da natalidade em epidemiologia, uma ava- liação da região Sudoeste foi realiza a fim de estimar os nascidos vivos. A taxa de natalidade equivaleu a 16,5 nascimentos por mil habitantes. A taxa de na- talidade variou dentro da mesma região em diferentes localidades: Taguatinga variou em 13,3 e Águas Claras, em 22,0. A variação observada pode ser decor- rente tanto da composição etária das populações das diferentes localidades quanto das condições socioeconômicas específicas. GRÁFICO 4. TAXA DE NATALIDADE DA REGIÃO SUDOESTE EM 2012 Fonte: Distrito Federal, 2015, p. 5. (Adaptado). Águas Claras Taguatinga Vicente Pires Samambaia Recanto das Emas Região Sudoeste 2540 3110 898 3993 2285 12.826 22,0 13,3 13,5 17,8 16,3 16,5 14.000 Nascidos vivos Nú m er o de n as cid os v iv os Ta xa d e na ta lid ad e Tx natalidade 25,0 20,0 15,0 10,0 5,0 0,0 12.000 10.000 8000 6000 4000 2000 0 “A correlação desse indicador com a fecundidade exige cautela. Além de se referir apenas à população feminina, a taxa de fecundidade não é influenciada por variações na sua composição etária” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.). · 1000 (4) População da mesma área, no meio período Nascidos vivos em determinada área e período Distrito Federal, 2015, p. 5. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 87 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 87 09/11/2020 12:17:40 Sintetizando A Epidemiologia como ciência que estuda o processo saúde/doença e o bem-es- tar da população põe em prática medidas de prevenção, redução ou eliminação de enfermidades. Ela concede indicadores que auxiliam no planejamento de atividades administrativas e gestão, a fim de oferecer informações sobre a saúde populacional. Os indicadores são importantes marcadores que contêm informações relevantes acerca da dimensão do estado de saúde da população e contribuem com o desempe- nho do sistema de saúde. Tais mostras devem refletir na real situação sanitária de uma população e gerar subsídios a novas propostas e estratégias para a vigilância em saúde. A qualidade de um indicador tem que ser mensurada, sendo dependente das características dos componentes usados na sua formulação. A qualidade do indi- cador é definida pela validade (capacidade de medir e discriminar o fenômeno) e confiabilidade (reprodução dos mesmos resultados quando em condições simi- lares), representatividade (cobertura) e aspectos éticos. A intenção do uso de indicadores é para que estes possam ser interpretados facil- mente, tanto para os profissionais quanto para os gestores. Para garantir a confiança das informações produzidas, o monitoramento da qualidade dos indicadores é imprescindí- vel; deve-se revisar constantemente o histórico e a disseminação de dados. Os indicadores possuem o objetivo de facilitar o monitoramento e metas referentes à saúde, estimular o pensamento crítico e analítico das equipes e desenvolver sistemas de informações. O Ministério da Saúde e a Opas acordaram uma solução para o aperfeiçoa- mento das informações de saúde no Brasil; tal cooperação resultou na criação da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa). O projeto apoia-se em parcerias institucionais técnicas e científicas envolvidas na produção, avaliação e disseminação de informação, de modo a reunir elementos úteis à compreensão da realidade das condições sanitárias e sociais do país. Alguns indicadores de saúde utilizados rotineiramente em epidemiologia são: prevalência (número de pessoas com determinada doença, novos casos somados aos casos antigos), incidência (novos casos de dada doença que acomete uma re- gião em determinado período), mortalidade (número de mortes na população), esperança de vida (tempo que uma pessoa possui de vida), fecundidade (expressa pela média de filhos de uma mulher) e natalidade (número de nascidos vivos). EPIDEMIOLOGIA 88 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 88 09/11/2020 12:17:40 Referências bibliográficas BOING, A. F.; D’ORSI, E., JUNIOR REIBNITZ, C. Conceitos e ferramentas da epidemiolo- gia: Eixo I: Reconhecimento da realidade. Indicadores de fecundidade. Florianópolis: UFSC, 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. BONITA, R.; BEAGLEHOLE, R.; KJELLSTRÖM, T. Epidemiologia básica. 2. ed. São Paulo: Santos, 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. BRASIL. Lei n. 12.527, de 18 de novembro de 2011. Diário Oficial da União, Bra- sília, DF, Poder Legislativo, 18 nov. 2011. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. BRASIL. Ministério da Saúde. Rede Interagencial de Informações Para a Saúde (RIPSA). Indicadores e dados básicos – Brasil – 2012: folheto do IDB-2012. Bra- sília, DF: MS, 2012. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. BRASIL. Ministério da Saúde. Rede Interagencial de Informações Para a Saúde (RIPSA). Taxa bruta de natalidade (coeficiente geral de natalidade): ficha de qualificação. Brasília, DF: MS, [s. d.]. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. BVS RIPSA. Cooperação internacional. [S. l.], 13 maio 2008. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. CARVALHO, A. I.; RIBEIRO, J. M. Modelos de atenção à saúde. In: CARVALHO, A. I.; GOU- LART, F. A. Gestão em saúde - Unidade II: planejamento da atenção à saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998. DATASUS - DEPARTAMENTO DE INFORMÁTICA DO SUS/MS. Taxa de incidência de hanseníase – D.2.6, 2006. Disponível em:. Acesso em: 29 set. 2020. DISTRITO FEDERAL (Estado). Secretaria de Estado de Saúde. Relatório Epide- miológico Sobre Natalidade Região de Saúde Sudoeste, 2015. Distrito Fede- ral: Gerência de Informação e Análise de Situação em Saúde, 2015. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. EPIDEMIOLOGIA 89 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd89 09/11/2020 12:17:40 FERREIRA, C. E. C.; LOPES, L. L. C. Sobrevivência e esperança de vida em São Paulo. 1ª Análise Seade. São Paulo, n. 28, jul. 2015. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. O TEMPO. Expectativa de vida no Brasil é afetada por violência e trânsito, 2016. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2020. PEREIRA, S. D. Conceitos e definições da saúde e epidemiologia usados na Vigi- lância Sanitária. Centro de Vigilância Sanitária - CVS, São Paulo, mar. 2007. Disponível em: . Acesso em: 28 set. 2020. OPAS – ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. OMS – ORGANIZAÇÃO MUN- DIAL DA SAÚDE. Indicadores de saúde: elementos conceituais e práticos (Capítulo 4). 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EPIDEMIOLOGIA 90 SER_MEDVET_EPIDE_UNID3.indd 90 09/11/2020 12:17:40 INVESTIGAÇÃO E VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA 4 UNIDADE SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 91 09/11/2020 13:01:05 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Identificar a importância dos indicadores idade e sexo em um estudo epidemiológico e, a partir desse conhecimento, propor ideias de programas e políticas; Identificar a urbanização e a transição demográfica como um processo de modificação epidemiológica no Brasil e no mundo; Reconhecer o processo de envelhecimento da população e sua importância para a epidemiologia; Saber interpretar gráficos de pirâmide etária, bem como fórmulas para cálculos de índice de envelhecimento e razão de sexo; Compreender a epidemiologia de doenças transmissíveis e não transmissíveis; Identificar quais são as maneiras de transmissão direta e transmissão indireta nas doenças transmissíveis e entender a relação das doenças crônicas não transmissíveis com a epidemiologia; Compreender a vigilância epidemiológica, suas ferramentas e sua importância para a saúde pública; Conhecer os princípios de uma investigação epidemiológica. Composição da população em idade e sexo Variável idade Variável sexo Projeções populacionais Epidemiologia das doenças transmissíveis (doenças infecciosas) Doenças transmissíveis com tendência declinante Doenças transmissíveis com quadro de persistência Doenças transmissíveis emergentes e reemergentes Epidemiologia das doenças não transmissíveis (doenças não infecciosas) Doenças crônicas não transmissíveis Vigilância epidemiológica Avaliação dos sistemas de vigilância epidemiológica Métodos de investigação epidemiológica Desafios e perspectivas para a saúde EPIDEMIOLOGIA 92 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 92 09/11/2020 13:01:05 Composição da população em idade e sexo As características da população brasileira têm apresentado signifi cativas mudanças com o passar dos anos. Algumas dessas mudanças estão estrita- mente relacionadas aos padrões do processo saúde-doença e sua interação com determinantes sociais, demográfi cos e econômicos. A essa transição, deu- -se o nome de transição epidemiológica. Essas modifi cações trazem conse- quências para os estudos epidemiológicos, enfatizando a importância da epi- demiologia como uma ciência em constante atualização. Para enfrentar os desafi os relacionados com as mudanças ocasionadas pe- las características de uma população, a informação epidemiológica é essencial. Sem uma vigilância adequada e atualizada sobre a dinâmica epidemiológica do País, é impossível encaminhar soluções e estratégias para os problemas apon- tados. Tomar decisões e defi nir prioridades em um cenário complexo e cheio de instabilidade é uma ação que merece fundamentação. Para isso, a geração de dados epidemiológicos é importante e, diga-se de passagem, essencial para o conhecimento da estrutura epidemiológica que se deseja avaliar. O Centro Nacional de Epidemiologia é a instituição responsável por prover informações epidemiológicas ao Ministério da Saúde. Para que essas informa- ções cheguem até lá, os sistemas hospitalares e ambulatoriais do SUS contri- buem fornecendo os materiais necessários para a produção técnica. Em termos mundiais, a melhoria nos níveis de saúde em alguns países foi notória e ocorreu principalmente a partir das transformações ocasionadas pela Revolução Industrial, que trouxe modifi cações em alguns setores produtivos, como a demanda de alimento, as condições fi tossanitárias e a moradia. Houve, então, uma alteração nos padrões de mortalidade e morbidade nos países, em especial no hemisfério norte. Os países desenvolvidos apresentaram uma transformação ex- pressiva em seu perfi l epidemiológico com a queda no número de doenças infectocontagiosas e com o aumento no número de doenças degenerativas, em particular, doenças rela- cionadas a problemas cardiorrespiratórios. No Brasil, a chegada da urbanização promoveu uma série de mudanças na estrutura populacional, em EPIDEMIOLOGIA 93 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 93 09/11/2020 13:01:05 especial, mudanças demográfi cas. A inserção da mulher no mercado de traba- lho e o direito ao voto foram algumas das referências para tais mudanças. A família tradicional brasileira ganhou novos formatos. O aumento da tecnologia, a queda na fecundidade e o aumento da esperança de vida foram algumas das modifi cações mais notadas, que iniciaram uma nova era na epidemiologia moderna. A partir da década de 1990, o Brasil iniciou um processo de polariza- ção epidemiológica, onde foram necessárias novas avaliações nas políticas de saúde que pudessem nivelar as causas e consequências do sistema de saúde. Informações geradas que relatem a composição da população brasileira de acordo com a idade e sexo são marcadores signifi cantes em epidemiologia. Elas refl etem as mudanças na dinâmica populacional desde um passado dis- tante até os dias atuais. Por meio desse indicador, é possível alinhar as necessi- dades da população e a efi cácia do planejamento em saúde. Variável idade Em epidemiologia, a variável idade refl ete a diversidade do país de acordo com a faixa etária da população residente. Por meio do conhecimentoda pre- dominância de determinada faixa de idade, é possível inferir dados importan- tes que serão levados em conta pelos órgãos gestores. Assim, algumas caracte- rísticas marcantes na população podem ser notadas. Para o cálculo do número de pessoas com uma determinada idade em uma população, deve-se avaliar o número de nascimentos que ocorreram anos atrás e as taxas de mortalidade às quais esses indivíduos estiveram suscetíveis des- de seu nascimento. Para exemplifi car podemos pensar da seguinte forma: o nú- mero de mulheres de 20 anos no ano 2020 dependerá de quantos nascimentos ocorreram no ano 2000, além de contabilizar as mortes ocorridas de 2000 até 2020 de acordo com os dados do Censo. Ao se avaliar uma população por idade, essa análise está sujeita a algumas variações. Essas variações tendem a diminuir quando se avalia grupos etários quinquenais, isto é, grupos a cada cinco anos. Alguns grupos etários importantes em um estudo epidemiológico são crian- ças e jovens; população em idade produtiva; e a população de idosos, visto que os programas e políticas devem ser voltados a uma população-alvo de certa EPIDEMIOLOGIA 94 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 94 09/11/2020 13:01:05 região. Por exemplo, uma população mais jovem necessita de cuidados dife- renciados quando comparada a uma população idosa. O primeiro grupo pode- ria ser associado a uma cultura mais engajada, na qual a tecnologia está 100% presente. A essas pessoas, programas e políticas públicas relacionadas à práti- ca de esportes, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e acesso à cultura seriam interessantes. Para a população mais idosa, programas de pro- moção à saúde, prevenção ao câncer de próstata, câncer de mama, doenças cardiovasculares são mais indicados. ASSISTA A diversidade do país por faixa etária demonstra histórias reais de milhões de brasileiros. O vídeo mostra a trajetória de Jair, nascido em 1960, e de Cristina, nascida em 2000, e algumas das diferenças mais marcantes nas característi- cas da população brasileira. O Gráfico 1 demonstra a distribuição da população mundial por continente de acordo com a faixa etária. A África é a região que apresenta uma população mais jovem (41%), enquanto a Europa apresenta uma população idosa (24%). Essas características tão extremas relacionam-se com a qualidade de vida e o acesso à saúde da população. GRÁFICO 1. DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO, SEGUNDO FAIXAS ETÁRIAS, POR CONTINENTES, 2015 Fonte: ONU, 2015. (Adaptado). África Oceania Europa 0 10 20 30 40 50 Porcentagem 60 70 80 90 100 Ásia América Latina e Caribe América do Norte 0-14 15-24 25-59 60+ 41 46 48 49 47 45 11 11 12 26 24 24 1419 16 23 21 17 16 1615 19 34 5 EPIDEMIOLOGIA 95 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 95 09/11/2020 13:01:05 As modificações observadas na população refletem uma tendência para maiores índices de envelhecimento, o que pode ser associado a outros fatores como menores taxas de fecundidade e acréscimo de anos vividos. Essas carac- terísticas resultam em um aumento de número de indivíduos com problemas de saúde crônicos que devem prestar mais atenção à saúde nos anos seguintes. Um parâmetro estudado em epidemiologia quando se avalia a idade de uma população é o índice de envelhecimento. O índice de envelhecimento é cal- culado a partir da razão entre os componentes etários extremos da população representados por idosos e jovens. Assim: Índice de envelhecimento = População ≥ 60 anos . 100 População ≤ 15 anos Valores elevados desse índice indicam que a transição demográfica se encontra em estágio avançado. Uma criteriosa avaliação do índice de envelhecimento da po- pulação permite o acompanhamento da evolução de uma determinada população e sua relação com as demais regiões e grupos sociais, o que contribui para uma rique- za de informações referentes à dinâmica geográfica e ao fornecimento de subsídios, com a formulação e atualização de políticas públicas na área da saúde (Gráfico 2). GRÁFICO 2. ÍNDICE DE ENVELHECIMENTO, BRASIL E REGIÕES, 1991-2010 Fonte: IBGE, 2010; 2015. (Adaptado). 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 1991 1996 2000 2001 2002 2003 2004 2007 2008 2009 2010 0,0 Região Norte Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-Oeste Brasil (1) EPIDEMIOLOGIA 96 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 96 09/11/2020 13:01:05 De acordo com os resultados ob- tidos, observa-se que para a maioria dos países a razão de sexo é maior que 100, com uma variação de 102 a 107. Nos países mais desenvolvidos, ocorre em torno de 105, demonstran- do que o sexo masculino é favorecido sobre o sexo feminino. De acordo com o Gráfi co 3, conforme avança a idade, as taxas de mortalidade masculinas são mais altas em comparação às ta- xas femininas em todas as idades. Conclui-se, então, que o excesso de homens contabilizados ao nascer vai sendo gradualmente reduzido até o momento em que, nas idades avançadas, o número de mulheres ultrapasse o número de homens. Algumas caracterís- ticas importantes que implicam nesses dados são a idade da mãe, a ordem de nascimento ou a raça. Variável sexo Em um estudo epidemiológico, a variável sexo depende de alguns fenôme- nos como migração, força de trabalho, mortalidade e fecundidade. Um dos principais motivos para se conhecer a estrutura da população pelo sexo é sua relevância na formação de uma família. O equilíbrio entre os sexos em diferen- tes faixas etárias da população irá infl uenciar o número possível de uniões em um país. A medida mais utilizada é a razão de sexo ou também conhecida como ín- dice de masculinidade. Pode ser calculado de acordo com o número total da população ou por subgrupos. A razão de sexo permite uma comparação da composição quanto ao número de homens e mulheres entre populações dife- rentes, independentemente do tamanho, época ou lugar. Observe: Razão de sexo = nº de homens . 100 nº de homens (1) EPIDEMIOLOGIA 97 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 97 09/11/2020 13:01:06 GRÁFICO 3. RAZÃO DE SEXO (HOMENS POR 100 MULHERES), ESTADO DE SÃO PAULO, 1980-2010 1980 2010 100,0 30,0 35,0 40,0 45,0 50,0 55,0 60,0 65,0 70,0 75,0 80,0 85,0 90,0 95,0 105,0 Men or de 1 an o 1 a 4 an os 5 a 9 an os 10 a 1 4 a no s 15 a 1 9 a no s 20 a 2 9 a no s 30 a 3 9 a no s 40 a 4 9 a no s 50 a 5 9 a no s 60 a 6 9 a no s 70 a 7 9 a no s Acim a d e 8 0 a no s 101,2 95,4 92,4 88,7 97,0 89,9 83,5 83,6 73,7 65,7 56,2 Fonte: IBGE, 2010. (Adaptado). Projeções populacionais As projeções populacionais são idealizadas a partir das informações sobre os elementos da dinâmica demográfi ca – mortalidade, fecundidade, migração, entre outros – e investigadas pelos Censos Demográfi cos. É importante que revisões e atualizações sejam feitas com frequência, pois cada revisão da pro- jeção adiciona informações atualizadas sobre esses elementos e/ou mudanças metodológicas de cálculo da projeção, que devem ser devidamente explicita- dos nas respectivas metodologias. Desta forma, recomenda-se o uso da revi- são de projeção de população mais recente. As projeções são importantes para dar um embasamento na escolha dos indicadores sociodemográfi cos, além de servirem como um parâmetro para a implementação ou atualização de políticas públicas que norteiam o direciona- mento dos Ministérios e Secretarias. EPIDEMIOLOGIA 98 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 98 09/11/2020 13:01:07 Uma ferramenta bastante utilizada nas projeções e que demonstram a di- nâmica demográfica é o gráfico do tipo pirâmide etária (Gráfico 4). Trata-se de um gráfico representativo sobre a quantidade de habitantes de um determinado local em relação às distintas faixas etárias. Um lado da pirâmide representa pes- soas do sexo masculino e o outro lado pessoas do sexo feminino. Se a pirâmide tiver muitas faixas etárias, significa que exibirá um maior número de detalhes.GRÁFICO 4. REPRESENTAÇÃO DA PIRÂMIDE ETÁRIA. NAS ORDENADAS SÃO INDICADAS AS IDADES E NA ABSCISSA SÃO REGISTRADAS AS PORCENTAGENS Idade Por meio da visualização de uma pirâmide etária é possível compreender o cenário da população, conhecer a faixa etária e a composição da população com base no sexo. Com isso, é possível projetar a facilidade de acesso a servi- ços públicos e a qualidade de vida a que estão submetidos. Todos esses fatores auxiliam a gestão pública e fornecem subsídios para investimento nas áreas da segurança, educação e, principalmente, saúde. Assim, novas políticas públicas podem ser sugeridas e avaliadas por apresentar um maior embasamento teó- rico. Posteriormente, as políticas públicas adotadas devem ser avaliadas para acompanhar se elas surtiram efeito na população de um país. Em 2017, a Divisão de População da ONU divulgou as projeções mais atuais da população para todos os países e para a população mundial. No Brasil, esses dados indicam um pico populacional em 2047, quando a população poderá atingir a marca EPIDEMIOLOGIA 99 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 99 09/11/2020 13:01:07 de 232,8 milhões de habitantes. Em 2055, a população brasileira passa a cair gra- dualmente para 231,5 milhões. Na revisão anterior, realizada em 2015, as projeções da ONU propuseram que o pico populacional ocorreria em 2050 com 238,3 milhões de pessoas. Já as projeções mais recentes do IBGE (2013) indicam um pico popula- cional em 2042 no Brasil, com 228,4 milhões de habitantes. É possível concluir com essas informações de projeção da ONU (2017) se aproximam da projeção do IBGE (2013), o que é um bom sinal para os estudos futuros. É evidente que o número da população brasileira e mundial no futuro dependerá das taxas de natalidade, das taxas mortalidade e do coefi ciente migratório (Gráfi co 5). GRÁFICO 5. PROJEÇÕES DA POPULAÇÃO BRASILEIRA, SEGUNDO ONU E IBGE, 2015-2055 Fonte: ONU, 2015, 2017; IBGE, 2013. (Adaptado). 240 230 220 210 200 20 15 20 20 20 25 20 30 20 35 20 40 20 45 20 50 20 55 Po pu la çã o (e m m ilh õe s) 20 42 = 2 28 ,4 m ilh õe s 20 47 = 2 32 ,8 m ilh õe s 20 50 = 2 38 ,3 m ilh õe s Revisão 2015 Revisão 2017 IBGE, revisão 2013 Epidemiologia das doenças transmissíveis (doenças infecciosas) De acordo com a implicação dos determinantes da saúde no âmbito da epi- demiologia, reconhece-se a origem multicausal das doenças. As doenças trans- missíveis possuem um agente etiológico infeccioso ou biológico associados a elas, as doenças não transmissíveis referem-se a um agente não biológico. Os avanços na área da microbiologia permitiram o progresso no conhecimen- to das doenças transmissíveis. Com as informações adquiridas, foi possível EPIDEMIOLOGIA 100 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 100 09/11/2020 13:01:07 obter o controle das doenças, o que levou a uma notória redução dos índices de morbidade e mortalidade no mundo. Inicialmente, esses índices caíram nos países desenvolvidos e nos grupos de população em risco (por exemplo, idosos), que foram privilegiados com a adoção de práticas e programas de saúde pública. O espectro das doenças transmissíveis está evoluindo rapidamen- te em relação ao conjunto de fortes mudanças sociais e ambientais contemporâneas. O crescimento populacional com expansão da pobreza e migração urbana, a globalização da tecnologia são, entre outros, mudanças que afetam a suscetibilidade ao risco de exposi- ção a agentes infecciosos (OPAS, 2010, p. 13). Na década de 1930, as doenças transmissíveis eram a principal causa de óbito nas principais capitais brasileiras, percentual muito divergente e inferior quando comparado à área rural (apesar dos poucos registros da época). EXPLICANDO Doença transmissível é qualquer doença causada por um agente infeccioso específico ou seus produtos tóxicos. Se manifesta pela transmissão deste agente ou de seus produtos – de um reservatório a um hospedeiro suscetível –, seja diretamente de uma pessoa ou animal infectado, ou indiretamente por meio de um hospedeiro intermediário, de natureza vegetal ou animal, de um vetor ou do meio ambiente inanimado (OPAS, 2010, p. 13). Com o passar dos anos, muita coisa se modificou levando a um panorama diferenciado, gerando melhorias para a população. Foram as melhorias sanitá- rias; o desenvolvimento de antibióticos e vacinas; e a maior facilidade de acesso aos serviços de saúde - com medidas de promoção e prevenção - que fizeram que esse cenário se modificasse consideravelmente. Hoje, as doenças trans- missíveis são responsáveis por aproximadamente 6% dos óbitos no mundo. Apesar da redução significativa na participação desse grupo de doen- ças no perfil da mortalidade do nosso país, ainda há um impacto im- portante sobre a morbidade, principalmente naquelas doenças para as quais não se dispõe de mecanismos eficazes de prevenção e/ou que apresentam uma estreita correlação com fatores externos ao se- tor saúde. A alteração do quadro de morbimortalidade com a perda de importância relativa das doenças transmissíveis faz com que haja uma percepção de que essas doenças estariam todas “extintas” ou EPIDEMIOLOGIA 101 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 101 09/11/2020 13:01:07 próximas a isso, porém esse quadro não é verdadeiro no Brasil ou mesmo em países desenvolvidos (CARMO et al., 2013, p. 67). Embora existam fatores que comprovadamente promoveram a prevenção e controle de várias doenças transmissíveis nas últimas décadas, isso não sig- nifica que, nos dias atuais, não existam doenças infecciosas que causem preo- cupação à saúde pública. Por isso, é importante deixar claro que a eliminação completa de tais doenças é uma utopia – pelo menos no século XX – levando em conta os meios tecnológicos disponíveis hoje. A princípio, existia uma ideia de que as doenças transmissíveis seriam er- radicadas de forma natural. Partindo dessa afirmativa, as ações de controle e prevenção foram subestimadas, gerando graves prejuízos para o desenvolvi- mento de propostas e respostas nas esferas governamentais, que seriam im- portantes para um menor impacto das doenças na população. Com diferenças associadas às condições sociais, sanitárias e am- bientais, as doenças transmissíveis ainda são um dos principais problemas de saúde pública no mundo. Doenças antigas ressurgem com outras características e doenças novas se disseminam com uma velocidade impensável há algumas décadas. A erradicação completa de doenças, como no caso da varíola, ainda o único e solitário exem- plo em escala mundial, é produto de anos e décadas de esforço con- tinuado de governos e sociedade, e da disponibilidade de medidas amplamente eficazes (SILVA JUNIOR, 1999, p. 3). Um ponto importante na cadeia de infecção é o modo de transmissão ou difusão do agente infeccioso para o ambiente ou para outra pessoa, que pode ser de forma direta ou indireta. A transmissão direta ocorre a partir do agente infeccioso de um hospedeiro ou reservatório para uma porta de entrada por onde a infecção poderá ocorrer. Alguns exemplos de transmissão direta são: contato físico (toque, beijo, relação sexual) ou pela disseminação de perdigotos ao tossir ou espirrar. A transfusão de sangue e a infecção transplacentária da mãe para o feto são outras impor- tantes formas de transmissão direta. A transmissão indireta pode acontecer por meio de veículo, a partir de ma- teriais contaminados como: alimentos, vestimentas, roupas de cama e utensí- lios de cozinha; vetor, quando o agente é carregado por um inseto ou animal – o EPIDEMIOLOGIA 102 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 102 09/11/2020 13:01:07 vetor – para um hospedeiro suscetível; e transmissão aérea de longa distância, disseminação de partículas de poeira e gotículas a longo alcance. Veja as possi- bilidades de transmissão direta e indireta no Quadro 1. QUADRO 1. MÉTODOS DE TRANSMISSÃO DE AGENTES INFECCIOSOS: TRANSMISSÃODIRETA E TRANSMISSÃO INDIRETA Transmissão direta Transmissão direta Mãos Beijo Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, espirro) Transfusão (sangue) Transplacentária Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Outro contato (por exemplo, durante o parto, Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Mãos Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Mãos Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Beijo Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Relações Sexuais Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Transfusão (sangue) Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, espirro) Transfusão (sangue) Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, amamentação) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, espirro) Transfusão (sangue) Transplacentária Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, espirro) Transfusão (sangue) Transplacentária Veículos (alimentos contaminados, água, toa- Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Transfusão (sangue) Transplacentária Veículos (alimentos contaminados, água, toa- Outro contato (por exemplo, durante o parto, procedimentos médicos, injeção de drogas, Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Transfusão (sangue) Transplacentária Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Transfusão (sangue) Transplacentária Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Aérea, curta distância (via gotículas, tosse, Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- lhas, instrumentos agrícolas, etc.) Vetores (insetos, animais) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Veículos (alimentos contaminados, água, toa- Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Aérea, longa distância (poeira, gotículas) Parenteral (injeção com seringas contaminadas)Parenteral (injeção com seringas contaminadas)Parenteral (injeção com seringas contaminadas) Apesar do grande número de doenças transmissíveis conhecidas, o Bra- sil dispõe de instrumentos efi cazes de prevenção e controle, trazendo êxito para o sistema de saúde unifi cado. As doenças transmissíveis são classifi cadas em grupos de acordo com a duração e efetividade da doença, sendo: doenças transmissíveis com tendência declinante, doenças transmissíveis com quadro de persistência e doenças transmissíveis emergentes e reemergentes. Doenças transmissíveis com tendência declinante Algumas doenças transmissíveis apresentam uma tendência de declínio com o passar do tempo. A esse declínio, estão associadas metodologias efi cazes de prevenção, controle e tratamento. A varíola, em 1973, e a poliomielite, em 1989, são exemplos de doenças com tendência declinante e que foram erradicadas. A transmissão do sarampo foi interrompida desde o fi nal dos anos 2000, ocorrendo casos esporádicos em 2005 e 2006. Posteriormente, os casos de sarampo só voltaram a aparecer no país em 2018. O tétano apresentou taxa EPIDEMIOLOGIA 103 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 103 09/11/2020 13:01:07 de incidência abaixo do preconizado pela OMS. Outras doenças transmissíveis com tendência declinante são a difteria, a coqueluche e o tétano acidental. A mesma tendência também foi observada para a doença de Chagas, endêmica há várias décadas no país, a febre tifoide, a oncocercose, a fi lariose e a peste. Doenças transmissíveis com tendência declinante: • Difteria; • Coqueluche; • Tétano; • Poliomielite; • Sarampo; • Rubéola; • Raiva humana; • Doença de Chagas; • Hanseníase; • Febre tifoide; • Oncocercose; • Filariose; • Peste. Doenças transmissíveis com quadro de persistência Doenças transmissíveis com quadro de persistência são aquelas que apresentam como característica princi- pal a predominância na população. Algumas doenças transmissíveis apresentam quadro de persistência, ou de redução em pe- ríodo ainda recente, confi gurando uma agenda inconclusa nessa área. Para essas doenças é ne- cessário o fortalecimento de novas estratégias, recentemente adotadas, que propõem uma maior integração entre as áreas de prevenção e controle e a rede assistencial, já que um impor- tante foco da ação nesse conjunto de doenças está voltado para o diagnóstico e tratamento das pessoas doentes, visando à in- terrupção da cadeia de transmissão (CARMO et al., 2003, p. 68). EPIDEMIOLOGIA 104 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 104 09/11/2020 13:01:07 São exemplos as hepatites virais, especialmente as B e C, em função das altas prevalências, ampla distribuição geográfica e potencial para evoluir para formas graves, que podem levar ao óbito. Apesar da taxa de incidência de tuberculose apresentar um declínio a partir do ano 2000, a persistência da doença prevalece. A leptospiroseé uma doença comum em locais que apresentam condi- ções sanitárias precárias, o que favorece sua transmissão e persistência na população. Apresenta uma considerável importância para a saúde pública em função do grande número de casos que ocorre nos meses mais quentes e chuvosos, quando o contato com a água das chuvas é maior. As meningites bacterianas sorogrupo B e C apresentam altos níveis de trans- missão, e sua letalidade média é acima de 10%. No Brasil, os registros chegam a 24.000 casos de meningites por ano. As leishmanioses e a esquistossomose são doenças com elevadas prevalên- cias, que, de maneira geral, estão relacionadas às mudanças ambientais provo- cadas pelo homem, aos deslocamentos populacionais e à falta de infraestrutura do sistema sanitário – água e esgoto. A malária apresentou uma forte tendência em sua elevação a partir da dé- cada de 70, em função da ocupação desenfreada da região amazônica, com im- plantação de novos projetos de colonização e mineração. Além da falta de uma estrutura básica de saúde para atender à população. A febre amarela possui um número de notificações variável de acordo com a região onde é avaliada. A vacinação foi ajustada em regiões que apresentavam maior necessidade com base no número de casos de efeitos adversos. De acordo com a situação descrita para esse grupo de doenças, é necessário o fortalecimento das ações e programas para prevenção e controle, que exigem uma maior integração entre as áreas de vigilância epidemiológica e do sistema gestor. Adicionalmente, enfatiza-se a necessidade de ações multissetoriais para enfrentamento da situação, haja vista que a manutenção de endemicidade reside na persistência dos seus fatores determinan- tes, externos às ações típicas do setor saúde, como alterações do meio ambiente: desmatamento, ampliação de fronteiras agrícolas, processos migratórios e grandes obras de infraestrutura (rodovias e hidroelétricas), entre outras (BRASIL, 2010, p. 41). EPIDEMIOLOGIA 105 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 105 09/11/2020 13:01:07 Doenças transmissíveis com quadro de persistência: • Malária; • Tuberculoses; • Meningites; • Leishmaniose visceral; • Leishmaniose tegumentar americana; • Febre amarela silvestre; • Hepatites; • Esquistossomose; • Leptospirose; • Acidentes por animais peçonhentos; • Tracoma. Doenças transmissíveis emergentes e reemergentes Doenças emergentes são aquelas que aparecem na população ou que são apenas identifi cadas em um pequeno espaço de tempo. Doenças reemergentes são assim denominadas pois já foram controladas no passado, mas algum fator foi responsável por inseri-las novamente na sociedade. As doenças reemergen- tes podem reaparecer por diversos motivos, um deles relaciona-se a modifi ca- ções no agente infeccioso. Assim, essa categoria de doença constitui um sério problema para a saúde pública. Algumas doenças emergentes são a AIDS e a cólera. A taxa de incidência da AIDS entrou em estabilidade, característica favorecida pelo aumento da sobre- vida dos pacientes soropositivos. Os portadores passaram a ter uma maior ex- pectativa de vida depois que novas drogas antivirais entraram em sua rotina. A cólera é uma doença relacionada às características ambientais precárias e seu controle tem sido realizado de forma efi caz. Assim, a incidência da doença dimi- nuiu consideravelmente. Entre as doenças reemergentes, pode-se destacar a dengue. Ela foi reintro- duzida no país em 1982. No continente americano, retornou na década de 1970, principalmente pela falta de atenção à saúde básica e pelo acelerado processo de urbanização. Para a prevenção da dengue a nível global, o trabalho precisa ser mobilizado por políticas públicas, além de ter atenção de todos: gestores e EPIDEMIOLOGIA 106 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 106 09/11/2020 13:01:07 população. A conscientização e mobilização da sociedade sobre os métodos pre- ventivos fazem toda a diferença na luta contra a dengue. Independente da forma como se apresentam, as doenças emergentes e ree- mergentes precisam de total atenção. São elas que mostram o panorama real da epidemiologia em um país e auxiliam na adoção de medidas de controle e prevenção. O Centers for Disease Control and Prevention defi ne doenças in- fecciosas emergentes como novas infecções que têm aparecido re- centemente em determinada população ou que já existiam e vêm aumentando rapidamente, tanto em incidência como no alcance geográfi co. Podem ocorrer pela introdução do agente etiológico em outras espécies ou como variante de uma infecção humana existente em outra população hospedeira ou pelo reconhecimento do caráter não detectável em uma infecção que já estava presente na população e da origem infecciosa de uma doença já estabeleci- da (GRISOTTI, 2010, p. 1096). Doenças transmissíveis emergentes e reemergentes: • AIDS; • Cólera; • Dengue; • Hantaviroses (doenças provocadas por roedores); • Febre maculosa brasileira. Epidemiologia das doenças não transmissíveis (doenças não infecciosas) Novas tendências de um mundo pós-moderno demonstram o aumento de doenças não transmissíveis. O “estilo de vida moderno”, a que toda a população está sujeita, traz um grande risco à saúde. A esse novo modelo de vida, estão relacionadas algumas mudanças drásticas, como: os hábitos alimentares – pelo aumento do consumo de fast-food –, o sedentarismo, e o tabagismo. Esses são os principais hábitos apontados como causas para o desenvolvimento das doenças não transmissíveis (doenças não infecciosas). EPIDEMIOLOGIA 107 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 107 09/11/2020 13:01:07 As doenças que fazem parte do grupo de doenças não transmissíveis são consideravelmente abrangentes, pois envolvem doenças que, na maio- ria das vezes, não podem ser controladas. Por exemplo: doenças cardio- vasculares; doenças degenerativas (câncer, doenças reumáticas, diabetes etc.); os agravos ocorridos por causas externas (como acidentes); e trans- tornos psíquicos. Todas contribuem igualitariamente na carga global de doenças que atingem o país. Doenças crônicas não transmissíveis Dentro do grande grupo de doenças não transmissíveis, existem as doenças crônicas não transmissíveis, que compõem o conjunto de condições crônicas re- lacionadas a múltiplas causas. Elas são caracterizadas por apresentar um início gradual, de duração incerta, que pode apresentar um curso clínico, que se trans- forma com o passar do tempo, intercalando períodos de fase aguda, podendo comprometer o paciente. No cenário nacional, as doenças cardiovasculares, que têm a hi- pertensão e diabetes como um importante fator de risco para seu desenvolvimento, representam a principal causa de mortalidade no país (OPAS, 2010, p. 18). Além dos índices de mortalidade, um fator considerável nas doenças crônicas é a grande morbidade relacionada a essas doenças. São números expressivos de pacientes internados; que têm perda de membros; de mobilidade; ou disfunções neurológicas. Essas morbidades levam a uma consequente perda da qualidade de vida e traz mais sofrimento cada vez que a doença avança. Essa situação levou o Brasil a elaborar o Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis. O objetivo desse plano é garantir a idealização e a implementação de políticas públicas baseadas especialmente na prevenção, na pro- moção e no controle das doenças crônicas. Políticas que precisam levar em conta o público-alvo e os fato- res de risco. Em 2012, foi proposta a construção da Rede de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas (Portaria nº 252, de 19 de fevereiro de 2013). EPIDEMIOLOGIA 108 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 108 09/11/2020 13:01:08 Vigilância epidemiológica A vigilância epidemiológica é defi nida pela Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, como: […] um conjunto de ações que proporciona o conhecimento, a de- tecção ou prevençãode qualquer mudança nos fatores determi- nantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a fi nalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos (BRASIL,1990). Alguns dos objetivos da vigilância epidemiológica são: fornecer parecer técni- co para ser utilizado pelo pessoal capacitado na execução de ações; programas de controle de doenças e agravos pelos profi ssionais de saúde; criação de sistemas de alerta que confi gurem em uma resposta rápida a doenças infecciosas. Os objetivos da vigilância epidemiológica visam melhorias na estruturação do sistema de saúde pública, para torná-lo mais efi ciente por meio de planejamento e organização. As informações oriundas da vigilância epidemiológica devem assegurar efi ciên- cia e fi delidade de dados. A vigilância requer o domínio e atualização constante de todos os fatores que envolvam a ocorrência e a disseminação de uma doença, por meio de métodos práticos e de fácil execução. Para isso, é preciso que sejam cons- tantemente atualizadas com novos resultados e inovações técnico-científi cas, que sejam capazes de arcar com melhorias à sua abrangência e qualidade. A análise de dados em um sistema de vigilância epidemiológica fornece infor- mações a respeito do aumento ou diminuição de casos. Algumas das funções que cabem à vigilância epidemiológica estão descritas no Quadro 2. Coleta de dados (dados demográfi cos, ambientais, socioeconômicos, morbidade, mortalidade); Representatividade dos dados; Processamento de dados coletados; Análise e interpretação dos dados processados; Recomendação das medidas de prevenção e controle apropriados; Promoção das ações de prevenção e controle indicados; Avaliação da efi cácia e efetividade das medidas adotadas; Divulgação de informações pertinentes (BRASIL, 2005). QUADRO 2. FUNÇÕES DA VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA Fonte: BRASIL, 2009. (Adaptado). EPIDEMIOLOGIA 109 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 109 09/11/2020 13:01:08 A vigilância epidemiológica pode ser estruturada como um processo, de acordo com seu ciclo de funções, sejam elas específicas ou complementares. A cada momento, é possível conhecer o comportamento da doença ou agravo que será o alvo da ação, criando assim medidas de intervenção precoces e di- recionadas a uma determinada finalidade (Diagrama 1). DIAGRAMA 1. CICLO DE FUNÇÕES DA VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA: CONHECIMENTO, DETECÇÃO, PREVENÇÃO E AÇÃO A ções Conhecim ento Detecção P re ve nç ão Vigilância epidemiológica Fonte: SOUZA, 2014. (Adaptado). A vigilância é uma característica essencial da prática epidemiológica e pode ser usada na identificação de casos isolados ou de grupos; na avaliação do impacto de eventos relacionados à saúde pública e de suas tendências; na mensuração de fatores e agravos à saúde; no monitoramento e avaliação do impacto das medidas protetivas e de controle; no monitoramento das estratégias utilizadas para inter- venção e modificações nas políticas públicas; na atenção ao paciente. A maioria dos países tem leis regulando a notificação compulsória de algumas doenças. As doenças que devem ser notificadas frequen- temente incluem as que são preveníveis pela vacinação, tais como, poliomielite, sarampo, tétano e difteria, além de outras doenças transmissíveis, como, por exemplo, tuberculose, hepatite, meningite e lepra. Também pode ser requerida a notificação de óbito materno, EPIDEMIOLOGIA 110 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 110 09/11/2020 13:01:08 acidentes e doenças ocupacionais e ambientais, como, por exemplo, a intoxicação por pesticidas. A notificação compulsória de algumas doenças constitui parte da vigilância (BONITA et al., 2010, p. 127). CITANDO Segundo a Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba: “a escolha das doen- ças e agravos de notificação compulsória obedece a critérios como: magni- tude, potencial de disseminação, transcendência, vulnerabilidade e disponi- bilidade de medidas de controle, sendo a lista periodicamente revisada, tanto em função da situação epidemiológica da doença, como pela emergência de novos agentes e por alterações no Regulamento Sanitário Internacional. Os dados coletados sobre as doenças de notificação compulsória são incluídos no Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN)” (2016). Além da utilização dos dados gerados pela vigilân- cia epidemiológica, as estimativas de abrangência e magnitude de uma epidemia ou surto auxiliam no monitoramento da sua tendência. Os dados também podem ser usados no engajamento da comunidade com os setores de saúde, e na defesa da utilização de mais re- cursos disponibilizados para a saúde. Em países subdesenvolvidos, os sistemas de vigilância e notificação são escassos, levando à uma subnotificação e enfraquecimento do sistema de saúde. A fim de tentar unificar a geração de informações em saúde, uma grande rede – que inclui organizações não governamentais, ferramentas de busca na internet, grupos de discussão eletrônica e redes de treinamento e laboratórios – oferece mecanismos eficazes, que visam reunir informações que possam levar a uma resposta internacional unificada. A dinâmica do perfil epidemiológico das doenças, o avanço do conhecimento científico e algumas características da sociedade contemporânea têm exigido não só constantes atualizações das normas e procedimentos técnicos de Vigilância Epidemiológica, como também o desenvolvimento de novas estruturas e estraté- gias capazes de atender aos desafios que vêm sendo colocados (BRASIL, 2018, p.14). EPIDEMIOLOGIA 111 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 111 09/11/2020 13:01:08 Avaliação dos sistemas de vigilância epidemiológica A vigilância epidemiológica é um sistema que precisa ser alimentado e atuali- zado constantemente. Seu funcionamento deve ser avaliado regularmente para garantir a efi ciência do planejamento e seu aprimoramento. A avaliação do sistema é aferida pelo demonstrativo dos resultados obtidos com a ação ou programa desenvolvido. Eles precisam justifi car de maneira clara os recursos fi nanceiros investidos em sua execução. Assim, é importante utilizar os indicadores de saúde: morbidade, mortalidade, incapacidade, fecundidade, entre outros. A vigilância necessita avaliar e informar com precisão e clareza cada etapa de um estudo epidemiológico, que envolva vigilância e investigação, para verifi car se as tendências estão ocorrendo como previsto e impactando de forma positiva a população-alvo. Os resultados provenientes do conjunto de ações desenvolvidas e executa- das no sistema são mensurados pelos benefícios sociais e econômicos adquiri- dos, como um termômetro. São avaliados, por exemplo, a porcentagem de vidas poupadas pelos programas de prevenção e promoção; os casos evitados; os cus- tos de assistências etc. A manutenção de um sistema de vigilância ativo abrange complexas e diferenciadas atividades, que, em conjunto, têm o intuito de apri- morar a qualidade, efi cácia, efi ciência e efetividade das ações. Métodos de investigação epidemiológica O surgimento de novos casos de uma doença, sejam elas emergentes ou reemergentes, que possuam formas de prevenção, controle ou tratamento por meio dos serviços de saúde, sugere que a população está vulnerável a riscos e agravos à saúde. Esses riscos se apresentam como uma ameaça à saúde, e por isso precisam ser identifi cados e controlados da forma mais rápida possível, em seu estágio inicial. O exame cuidadoso do paciente e de seus contatos é fundamental, porque dependendo da enfermidade, pode-se identifi car seu estágio inicial e come- çar o tratamento rapidamente – aumentando as chances de sucesso – ou re- correr ao isolamento social, com objetivo de evitar que a doença se dissemine nacomunidade. EPIDEMIOLOGIA 112 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 112 09/11/2020 13:01:08 Para que o sistema de saúde funcione de maneira adequada, é necessário um controle baseado nos fatores de risco que uma população está submetida; nas falhas na assistência à saúde; ou no comprometimento das medidas de proteção. Nestes casos, a investigação epidemiológica torna-se uma atividade obrigatória de qualquer sistema de saúde local ou regional. O Diagrama 2 retrata um esquema de surgimento de uma doença e a identificação de fatores de risco pela investiga- ção sistemática. DIAGRAMA 2. ETAPAS QUE GERAM UM PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA: DEFINIÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DIAGRAMA 3. FLUXOGRAMA DE COMO OCORRE UMA INVESTIGAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA: A DETECÇÃO E CONTROLE DOS FATORES DE RISCO SÃO PEÇAS-CHAVE Não ocorrem por acaso Causais e preveníveis Identificação de fatores Doenças Fatores Investigação epidemiológica A investigação epidemiológica é um trabalho de campo, estritamente prático, que deve ser iniciado assim que haja notificação de casos, sejam eles únicos ou de grupos; apenas suspeitos; declarados clinicamente; ou de contatos. A investigação funciona como uma alerta à população de risco, e seu controle errôneo pode gerar falhas na assistência à saúde e nas medidas preventivas (Diagrama 3). Controle inadequado Fatores Como ocorre uma investigação epidemiológica? Novos casos de uma doença População em risco Falha na assistência à saúde e/ou medidas de proteção Identificação e controle de fatores EPIDEMIOLOGIA 113 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 113 09/11/2020 13:01:08 Os principais objetivos da investigação epidemiológica são: a identificação da fonte de infecção e do modo de transmissão; a avaliação dos grupos que apresen- tam maior risco e os fatores de risco associados a eles; a confirmação do diagnós- tico; e a determinação das principais medidas a serem tomadas. O seu propósito é orientar medidas de controle para impedir que novos casos ocorram. Apesar da investigação epidemiológica se assemelhar com a pesquisa epide- miológica, a investigação epidemiológica distingue-se da pesquisa por duas prin- cipais diferenças: • O início de uma investigação epidemiológica de campo se inicia sem hipótese clara, o que requer o uso da epidemiologia descritiva na formulação de hipóteses, que serão corroboradas por meio da epidemiologia analítica (por exemplo, estu- dos de caso-controle). • Na ocorrência de problemas que impliquem na adoção de medidas de prote- ção à saúde da comunidade, a investigação deve ser seletiva na coleta dos dados e acelerar a análise para favorecer a resolução imediata das ações de controle. A gravidade do evento representa um fator que condiciona a urgên- cia no curso da investigação epidemiológica e na implementação de medidas de controle. Em determinadas situações, especialmente quando a fonte e o modo de transmissão já são evidentes, as ações de controle devem ser instituídas durante ou até mesmo antes da realização da investigação (BRASIL, 2009, p. 29). A investigação epidemiológica possui papel fundamental na definição das me- lhores medidas a serem tomadas; no controle de doenças infecciosas em menor tempo possível; e na orientação de formas de tratamento antes que tomem maio- res proporções. Essas medidas dependem, essencialmente, das informações gera- das pela investigação, o que justifica sua importância no processo saúde-doença. O principal objetivo da vigilância epidemiológica é um grande desafio para todos os envolvidos, pois se trata da resolução de um aspecto individual, que implica na comunidade como um todo. A investigação epidemiológica de campo consiste na repetição das etapas listadas a seguir, até que os objetivos sejam alcançados: con- solidação e análise de informações já disponíveis; conclusões preli- minares a partir dessas informações; apresentação das conclusões preliminares e formulação de hipóteses; definição e coleta das infor- EPIDEMIOLOGIA 114 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 114 09/11/2020 13:01:08 mações necessárias para testar as hipóteses; reformulação das hipó- teses preliminares, caso não sejam confi rmadas, e comprovação da nova conjectura, caso necessária; defi nição e adoção de medidas de prevenção e controle, durante todo o processo (BRASIL, 2009, p. 30). Na investigação epidemiológica, quando existe uma suspeita de doença trans- missível classifi cada como doença de notifi cação compulsória, os profi ssionais da vigilância epidemiológica devem responder questionamentos essenciais para orientar a investigação e as medidas de controle à doença (Quadro 3). Investigação epidemiológica Questões a serem respondidas Informações produzidas Trata-se realmente de casos da doença que se suspeita? Confi rmação do diagnóstico Quais são os principais atributos individuais dos casos? Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais A partir do quê ou de quem foi contraída a doença? Fonte de infecção Como o agente da infecção foi transmitido aos doentes? Modo de transmissão Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? Determinação da abrangência da transmissão A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Identifi cação de novos casos/contatos/ comunicantes Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Identifi cação de fatores de risco Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Determinação do período de transmissibilidade Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Medidas de controle Trata-se realmente de casos da doença que se Trata-se realmente de casos da doença que se Trata-se realmente de casos da doença que se Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais Trata-se realmente de casos da doença que se suspeita? Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a Trata-se realmente de casos da doença que se suspeita? Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a Trata-se realmente de casos da doença que se suspeita? Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais dos casos? A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais dos casos? A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais dos casos? A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a doença? Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? Trata-se realmente de casos da doença que se Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a doença? Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fontede infecção? Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a doença? Como o agente da infecção foi transmitido aos doentes? Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos doentes? Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter Que fatores determinaram a ocorrência da do- Quais são os principais atributos individuais A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos doentes? Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter Que fatores determinaram a ocorrência da do- A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos doentes? Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, A partir do quê ou de quem foi contraída a Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Como o agente da infecção foi transmitido aos Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Outras pessoas podem ter sido infectadas/afe- tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter transmitido a doença? Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Fonte de infecção tadas a partir da mesma fonte de infecção? A quem os casos investigados podem ter Que fatores determinaram a ocorrência da do- Confi rmação do diagnóstico Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Fonte de infecção Determinação da abrangência da transmissão A quem os casos investigados podem ter Que fatores determinaram a ocorrência da do- Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Fonte de infecção Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Que fatores determinaram a ocorrência da do- Identifi cação de características biológicas, ambientais e sociais Fonte de infecção Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Que fatores determinaram a ocorrência da do- Identifi cação de características biológicas, Fonte de infecção Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Que fatores determinaram a ocorrência da do- Identifi cação de características biológicas, Fonte de infecção Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Modo de transmissão Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ comunicantes Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ comunicantes Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ comunicantes Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ comunicantes Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/ Determinação da abrangência da transmissão Identifi cação de novos casos/contatos/Identifi cação de novos casos/contatos/ Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem Como os casos encontram-se distribuídos no Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem Como os casos encontram-se distribuídos no Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-sede forma natural, o que as desvinculava dos pensamentos sobrenaturais da época, como, por exemplo, aqueles que defi niam doença como “castigo di- vino”. Seus estudos retratavam a relação saúde/doença com o ambiente. Hipó- crates relatou, assim, que os hábitos de higiene podiam auxiliar na prevenção de doenças. John Graunt também é considerado um dos pioneiros no estudo da epide- miologia pela marcante atuação na geração de dados epidemiológicos. Graunt confeccionou tabelas sobre taxas de natalidade e mortalidade em Londres, re- lacionando tais resultados a fatores como sexo, idade e localidade (ambiente EPIDEMIOLOGIA 13 SER_EPIDE_UNID1.indd 13 09/11/2020 11:15:54 urbano e rural). Dessa maneira, foi o primeiro a fazer um monitoramento das doenças infecciosas e medir os riscos de mortalidade em uma determinada po- pulação. Seus métodos, apesar de desenvolvidos há muito tempo, ainda fazem parte do cenário atual da epidemiologia. William Farr, por sua vez, desenvolveu um sistema moderno de estatística baseado nas ideias propostas por Graunt. Farr defendeu a ideia de que algu- mas doenças, principalmente as crônicas, teriam uma etiologia multifatorial. Dessa maneira, é considerado um dos fundadores da epidemiologia moderna. Um de seus trabalhos marcantes em epidemiologia foi a correlação entre o encarceramento e o risco de mortalidade dos prisioneiros, utilizando fatores como idade e tempo da sentença. Com esses dados, Farr sugeriu que a popula- ção carcerária apresentava um maior risco de morte. Por fim, John Snow teve grande destaque na história da epidemiologia ao iniciar uma investigação que identificou onde as pessoas com cólera re- sidiam e de qual fonte coletavam água para consumo. Snow observou uma relação entre o consumo de água e as mortes por cólera e supôs ser a água o fator responsável pela transmissibilidade da doença. Um mapa das ruas de Londres foi, então, confeccionado, relacionando as principais fontes de água (bombas d’água) aos casos confirmados de cólera. Na Figura 1, é pos- sível observar a proximidade da bomba A (pump A) com o maior número de casos na população. Com essa descoberta, novas medidas de políticas em saúde puderam ser tomadas em Londres, evitando o aumento do número de pessoas contaminadas. A partir das conclusões de Snow, melhorias foram realizadas no abasteci- mento de água e na questão fitossanitária, o que claramente ressalta o aporte dado à saúde pública. Dessa forma, a partir de 1850, os estudos epidemiologi- cos têm demonstrado, cada vez mais, sua relevância no que concerne à saúde das populações. No entanto, apesar de o trabalho de Snow ter-se apresentado como pionei- ro na adoção de medidas contra a cólera, as epidemias ainda são relativamente frequentes nas populações menos favorecidas socioeconomicamente nos dias atuais. Em 2006, houve, em Angola, 40 mil casos de cólera, com 1,6 mil óbitos; no Sudão, foram 13.852 casos e 516 mortes, somente nos primeiros meses do mesmo ano. EPIDEMIOLOGIA 14 SER_EPIDE_UNID1.indd 14 09/11/2020 11:15:54 Além das ideias revolucionárias dos cientistas citados anteriormente, não podemos deixar de lembrar que as descobertas na área da microbiologia, a partir do século XIX, proporcionaram um novo rumo para a ciência. Os traba- lhos do francês Louis Pasteur favoreceram uma maior compreensão e aprofun- damento na epidemiologia, pois a microbiologia permitiu o conhecimento de agentes infecciosos – uma nova e relevante informação para a compilação de dados estatísticos e monitoramento de doenças infecciosas. Figura 1. Mapa de ruas de Londres e casos de cólera. Fonte: CDC, 2012. História da epidemiologia no Brasil No fi nal do século XIX, várias tentativas de análise quantitativa da ocorrên- cia de doenças foram registradas no Brasil, no entanto, sem empregar técnicas estatísticas já de uso corrente no cenário europeu e norte-americano. Em 1903, o médico Oswaldo Cruz (Figura 2) foi nomeado para a Diretoria- -Geral de Saúde Pública com o importante desafi o de sanear o Rio de Janeiro, capital do País, e, assim, combater a febre amarela, a peste bubônica e a varío- la, principais epidemias que assolavam a cidade. Como medidas de controle, foram impostas multas e intimações à população. Bomba B Casa de trabalho Bomba A Bomba Bomba Rua Broad Rua Poland Rua Berw ick Bomba C Praça dourada Rua Regent Rua Carnaby Pulteney Rua Grea Rua M arshall Rua Silver EPIDEMIOLOGIA 15 SER_EPIDE_UNID1.indd 15 09/11/2020 11:15:55 Figura 2. Retrato de Oswaldo Cruz em nota de 50 cruzados, 1986. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/08/2020. Dois anos depois, Carlos Chagas conseguiu controlar um surto de malária em uma cidade do interior de São Paulo, e sua experiência acabou por torná-lo referência no combate à doença no mundo inteiro. Em 1909, Chagas descobriu o protozoário causador da tripanossomíase americana, denominado por ele Trypanosoma cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. A doença fi cou conhecida mundialmente como doença de Chagas. No plano de organização do ensino, duas instituições de pes- quisa e formação especializadas no campo da saúde pública foram criadas na primeira metade do século XX: a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, então capital da República; e a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Pau- lo, na metrópole economicamente mais dinâmica no período. Conceito de saúde Popularmente, é comum ouvirmos dizer: “Fulano tem uma saúde de ferro!”, ou então: “Ele tem saúde para dar e vender!”. Esses jargões são muito utilizados pela população para remeter a uma pessoa considerada saudável. No entanto, para considerarmos alguém saudável, isto é, prezando por saúde, primeiramente, temos que conhecer o conceito de saúde e como surgiu a necessidade de conceituação. EPIDEMIOLOGIA 16 SER_EPIDE_UNID1.indd 16 09/11/2020 11:15:58 A preocupação histórica dos povos pela busca de um ideal de saúde tem sido constante e natural, visando ao fortalecimento do grupo e até mesmo por instinto de preservação da espécie humana, tantas vezes ameaçada por lutas fratricidas, guerras de conquista e epidemias de caráter destrutivo. O surgi- mento de médicos, ao lado dos “mágicos”, curandeiros ou feiticeiros, data dos primórdios da humanidade, com notícias que remontam ao ano de 4.000 a.C., na Mesopotâmia (OLIVEIRA, 2001). Fundada em 1948, após a Segunda Guerra, a Organização Mundial da Saú- de (OMS) definiu saúde como: “um estado de completo bem-estar físico, men- tal e social e não somente ausência de afecções e enfermidades” (OPAS, 1948, p. 2). Apesar de ser um conceito deliberado há décadas, essa foi, por muito tempo – e, diga-se de passagem, ainda é – a definição mundialmente aceita. A partir da divulgação do conceito de saúde pela OMS, um dilema instalou-se na sociedade acadêmica. Como em tudo que nos cerca, existem aqueles que são favoráveis e aqueles que são contrários. Tal divergência entre os cientistas sobre a “saúde definida em palavras” leva-nos a uma boa reflexão sobre o tema. Em um trabalho recente, Souza e Silva, Schraiber e Mota (2019) descreve- ram como diferentes grupos se posicionaram sobre a conceituação de saúde pela OMS. Vejamos alguns deles: • Grupo dos que defendem o conceito de saúde da OMS sem levantar ques- tionamentos; • Grupo dos que defendem mais de uma percepção sobre o conceito de saúde, sendo o conceito da OMS majoritário; • Grupo dos que defendem o conceito de saúde como ausência de doença; • Grupo dos que defendem que o conceito de saúde é subjetivo; • Grupo dos que defendem uma não conceituação de saúde. Como favoráveis ao conceito da OMS, vamos citar os autores Brugnerotto e Simões (2009). Eles analisaram o conceito de saúde nos projetos político-peda- gógicos de cursos de formação em educação física nas principais universidades do estado do Paraná. A compreensão de saúde ocorreu por duas vertentes: pordistribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Que fatores determinaram a ocorrência da do- ença ou podem contribuir para que os casos possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem transmitir a doença? Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? possam transmitir a doença a outras pessoas? Durante quanto tempo os doentes podem Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Durante quanto tempo os doentes podem Como os casos encontram-se distribuídos no espaço e no tempo? Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Identifi cação de fatores de risco Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Identifi cação de fatores de risco Como os casos encontram-se distribuídos no Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Identifi cação de fatores de risco Como evitar que a doença atinja outras pesso- as ou se dissemine na população? Identifi cação de fatores de risco Determinação do período Determinação de agregação espacial e/ou tem- Como evitar que a doença atinja outras pesso- Identifi cação de fatores de risco Determinação do período Determinação de agregação espacial e/ou tem- Identifi cação de fatores de risco Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- Identifi cação de fatores de risco Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- Identifi cação de fatores de risco Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- Identifi cação de fatores de risco Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Identifi cação de fatores de risco Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Medidas de controle Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Medidas de controle Determinação do período de transmissibilidade Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Medidas de controle Determinação de agregação espacial e/ou tem- poral dos casos Medidas de controle Determinação de agregação espacial e/ou tem- Medidas de controle Determinação de agregação espacial e/ou tem- Medidas de controle Determinação de agregação espacial e/ou tem-Determinação de agregação espacial e/ou tem- QUADRO 3. QUESTÕES ESSENCIAIS E INFORMAÇÕES PRODUZIDAS EM UMA INVESTIGAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA Fonte: BRASIL, 2009, p. 30. EPIDEMIOLOGIA 115 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 115 09/11/2020 13:01:09 Desafios e perspectivas para a saúde No Brasil, o quadro epidemiológico apresenta alguns desafios que ain- da precisam ser replanejados. O primeiro deles é a batalha contra doenças antigas e persistentes, como a AIDS, a dengue, a doença de Chagas e a cólera. Ao mesmo tempo em que tais doenças ocupam a atenção do siste- ma de saúde, há o aparecimento de novas doenças que, muitas vezes, são classificadas como doenças negligenciadas. Conforme demonstrado em estudos realizados nos Estados Unidos e Europa, as doenças cardiovasculares podem ser evitadas, principalmen- te por medidas de promoção da saúde (como a redução do tabagismo, a atividade física, a redução do consumo de sal e gorduras na alimentação, entre outros) e de medidas de prevenção secundária (como diagnóstico precoce e tratamento imediato), que devem ser prioritárias na atenção básica do SUS. Outro desafio para a saúde brasileira chama-se equidade. Por apre- sentar proporções continentais, o Brasil é um país diverso e multicultu- ral. Essas características diferentes entre regiões podem ser observadas por meio dos índices de morbidade e mortalidade entre diferentes grupos sociais. Tal situação não reflete apenas a condição social, mas também a dificuldade de acesso a serviços de saúde, instalados, preferencialmente, em regiões mais favorecidas. Na tentativa de enfrentar esses desafi os, a informação epidemiológica é essencial. A vigilância epidemiológica precisa ser efi ciente, adequada e atual, a fi m de refl etir a real dinâmica das taxas de morbidade e da mortalidade no Bra- sil e, assim, encaminhar estratégias robustas para os problemas apontados. A informação epidemiológica é a base do planejamento de saúde. Acredita-se que as informações oriundas do sistema de atendimento ambulatorial e hospitalar do SUS possam forne- cer o material de que o Centro Nacional de Epidemiologia (Ce- nepi) necessita para prover o Ministério da Saúde com as infor- mações epidemiológicas indispensáveis (ARAÚJO, 2012, p. 537). A evolução da tecnologia, em especial da informática, juntamente com a redução dos seus custos, vem possibilitando o desenvolvimento de sis- EPIDEMIOLOGIA 116 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 116 09/11/2020 13:01:09 temas de informações mais rápidos e eficientes, que contribuem signifi- cativamente para tornar mais oportunas as intervenções neste campo da saúde pública. Os profissionais de saúde necessitam trabalhar de forma árdua para o desenvolvimento da consciência sanitária dos gestores municipais dos sistemas de saúde. É essencial enfatizar a importância de colocar as ações de saúde em primeiro plano. O panorama proposto pela vigilância epide- miológica é o que fornece o alicerce necessário para a luta contra os pro- blemas de saúde de uma população. EPIDEMIOLOGIA 117 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 117 09/11/2020 13:01:09 Sintetizando A epidemiologia se baseia na investigação e aquisição de informações referentes à uma população em um determinado período. A população é o alvo de um estudo epidemiológico. É por meio dela que conhecemos a melhor maneira de intervir nos sistemas públicos de saúde. Um fator importante em um estudo epidemiológico refere-se à composição da população em idade e sexo. São essas informações que levam a um melhor acom- panhamento das necessidades da população, e auxiliam na adoção de medidas ca- bíveis. É possível compreender as modificações ocorridas ao longo do tempo, a dis- tribuição populacional e propor quais são as maiores necessidades para uma região, além de fazer prospecções do que poderá acontecer em um futuro próximo. Um acontecimento visualizado a nível mundial é o envelhecimento da população, fator que ocorre por motivos como: melhoria no acesso aos serviços de saúde, promoção da saúde, inovação tecnológica, entre outros. As doenças que assolam a uma população servem, também, como um bom pa- râmetro para conhecer essa população. Doenças transmissíveis são as mais preo- cupantes, pois apresentam risco de acometer mais indivíduos, chegando ao ponto de ser difícil seu controle e tratamento.Doenças não transmissíveis são aquelas as- sociadas a comportamentos individuais ou genéticos, também importantes para a vigilância, no entanto, não possuem risco de transmissibilidade. A vigilância epidemiológica é um setor bem estruturado da epidemiologia, pois é por meio dela que as informações são organizadas para o bom planejamento dos serviços públicos. A investigação epidemiológica conta com a participação de toda a comunidade, população suscetível, profissionais de saúde e gestores. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pela epidemiologia para se tornar uma ciência de relevância reconhecida, a perspectiva atual é de grandes avanços na área. Deve-se levar em conta tudo o que já foi estabelecido e compreender que, como uma ciência em constante atualização, os desafios estarão sempre presentes. EPIDEMIOLOGIA 118 SER_MEDVET_EPIDE_UNID4.indd 118 09/11/2020 13:01:09 Referências bibliográficas 80 ANOS contando a história do Brasil e dos brasileiros [1936-2016] • IBGE Institucional. Postado por IBGE. (03min. 25s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 28 out. 2020. ARAÚJO, J. D. Polarização epidemiológica no Brasil. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 21, n. 4, p. 533-538, dez. 2012. Disponível em: . Acesso em: 28 out. 2020. BONITA, R.; BEAGLEHOLE, R.; KJELLSTRÖM, T. Epidemiologia básica. 2. ed. São Paulo: Santos, 2010. BRASIL. Lei n. 8080, de 19 de setembro 1990. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Poder Executivo, 20 set. 1990. Disponível em: . Acesso em: 28 out. 2020. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departa- mento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de vigilância epide- miológica de eventos adversos pós-vacinação. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departa- mento de Vigilância Epidemiológica. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso. 8. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departa- mento de Vigilância Epidemiológica. Investigação Epidemiológica de Casos e Epidemias. 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Eles alegam que a falta de clareza no que se entende por “completo bem-estar físico, mental e social” é uma das razões pela busca de um novo conceito. Segre e Ferraz (1997), por exemplo, publicaram um repúdio ao conceito de saúde da OMS. Os autores a consideram ultrapassada, por visar uma perfeição inatingível, atentando contra as próprias características da personalidade. Suas principais notas mostram a inadequação de se fazer distinção entre o físico, o mental e o social. Segundo os autores, trata-se de uma definição irreal porque, aludindo ao “perfeito bem-estar”, propõe uma utopia. O que é “perfeito bem-es- tar?” É, por acaso, possível caracterizar-se a “perfeição”? Scliar afirma que “o con- ceito de saúde deve refletir a conjuntura social, econômica, política e cultural”, ou seja, “saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas” (SCLIAR, 2007, p. 30). Existem, ainda, aqueles que aderem a uma “não conceituação” de saúde, ale- gando o fato de que saúde é um lema. De acordo com Czeresnia (1999), nenhum conceito, ou sistema de conceitos, pode esperar explicar a característica de uni- dade na singularidade. Os conceitos expressam identidades, enquanto a unida- de singular é uma expressão da diferença. Ainda que muito potencial explicativo um conceito possa ter e por mais operativo que possa ser, é incapaz de expres- sar o fenômeno em sua totalidade; isto é, não pode representar a realidade. Agora, conhecendo os dois lados da história e antes da tentativa de concei- tuar saúde, devemos refletir o quão (in)atingível isto pode ser: definir uma condi- ção em palavras. Afinal, o que deve ser levado em conta? Interpretar o conceito de saúde ou vivenciá-lo? É notória que a interpretação de texto é uma questão individual. Cada pessoa pode interpretar de diferentes maneiras, motivo esse para tanta divergência. A vivência segue a mesma tendência, com a ideia de que cada indivíduo é único, com particularidades e experiências próprias. Vivemos em um País de proporções continentais que tem passado por gran- des transformações tanto sociais quanto econômicas. Esses fatores geram uma diferença na qualidade de vida do brasileiro. Logo, as peculiaridades de cada indivíduo, família ou população são importantes passos na tentativa de conceituar saúde. EPIDEMIOLOGIA 18 SER_EPIDE_UNID1.indd 18 09/11/2020 11:15:58 Não podíamos imaginar o quanto isso seria difícil – parece ser um desafio e tanto –: generalizar um conceito tão amplo como saúde. Apesar da discordân- cia entre aqueles que não aceitam o conceito da OMS, independentemente se preferem uma atualização ou uma não conceituação, uma coisa é fato: há uma preocupação de todos com a promoção da saúde, como veremos adiante. A epidemiologia mostra-se, assim, como uma ciência com constantes desa- fios de contextualização. Essa ciência parece não ser capaz de referenciar de maneira teórica o conceito de saúde. Entre todos os parâmetros e definições estudados pela epidemiologia, a conceituação de saúde pode constituir um ponto cego, capaz de abranger diferentes causas e permear diferentes campos de visão. Ainda assim, as Conferências Inter- nacionais sobre Promoção da Saúde mostraram seu valor quando o concei- to de saúde começou a ser produzido e avaliado teoricamente. A primeira conferência de importância interna- cional emergiu com a necessidade de aperfeiçoar a saúde das populações, em especial por parte dos países que implementaram as recomendações sugeridas na Conferência Internacio- nal sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada em 1978 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Alma-Ata, no Cazaquistão. Posteriormente, a definição de saúde sofreu uma atualização no Brasil com a promulgação da Lei Orgânica da Saúde (LOS), sob o nº 8.080, de 1990. A LOS procura abordar aspectos mais abrangentes do que os apresentados pela OMS e incita fatores determinantes e condicionantes do processo saúde-doença. De acordo com a lei, alguns dos fatores determinantes e condicionantes são: alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho, renda, educação, entre outros. Além disso, a LOS regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS) e é complementada pela lei n° 8.142, de 1990, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do SUS e sobre as transferências inter- governamentais de recursos financeiros na área da saúde. EPIDEMIOLOGIA 19 SER_EPIDE_UNID1.indd 19 09/11/2020 11:15:59 Atualmente, alguns fatores estão intimamente relacionados ao processo saúde-doença, e, por isso, simples atitudes do dia a dia tornam-se importantes na intenção de manter uma rotina e um hábito de vida mais saudáveis. Alimen- tar-se corretamente (principalmente pela ingestão de frutas, legumes e ver- duras), praticar exercícios físicos com regularidade, manter uma regularidade no sono e ingerir um volume sufi ciente de água por dia são alguns exemplos de conselhos médicos para que uma pessoa mantenha uma boa qualidade de vida, o que impactará diretamente a sua saúde. Direito à saúde A saúde, no Brasil, passou por processos em busca da melhoria do aces- so pela população. Historicamente, o acesso aos serviços de saúde foi ins- taurado com a industrialização. Apenas os trabalhos inseridos no mercado de trabalho formal, porém, tinham direitos sobre o sistema público de saú- de – e, até a década de 1970, a maioria da população fazia parte da classe de trabalhadores do campo ou daqueles que trabalhavam no mercado infor- mal, desprovidos de direitos pela legislação trabalhista. O direito à saúde, então, mostrava-se elitista e excludente, defi nido pelas condições empre- gatícias, e não por uma questão de cidadania. Foi a partir de intensas lutas por direitos iguais e pela democracia que a cidadania foi posta em prática a partir da década de 1980. Após a conquista do acesso ao sistema de saúde, tornou-se necessária a de- fi nição da expressão “direito à saúde”. Após duas Guerras Mundiais, que mos- traram ainda mais veementemente a importância da saúde, e a solidifi cação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), o direito a saúde passou a ter uma contextualização. A saúde passou a fazer parte das constituições nacionais como direito fundamental – e foi reco- nhecida por diversos documentos internacionais, como a Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU, de 1948, e o Pacto Internacional de Direitos Eco- nômicos, Sociais e Culturais, de 1976. A partir de 1988, a saúde passou a ser direito de todo brasileiro. De acordo com o artigo 196 da Constituição Federal de 1988, “a saúde é direito de to- dos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que EPIDEMIOLOGIA 20 SER_EPIDE_UNID1.indd 20 09/11/2020 11:16:00 visem à redução do risco de doença e de outros agravos ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (BRASIL, 1988). Embora tenha existido uma grande luta pelo direito à saúde e uma de- longa para que o direito fosse consolidado – afinal, são aproximadamente 40 anos de existência da Constituição –, o direito à saúde veio para tentar amenizar a estratificação de classes no Brasil, como um direito para todos. Na realidade brasileira, no entanto, não é bem isso que é visto e sentido:a crise no sistema de saúde está diretamente relacionada à questão política do País, e a crise na gestão afeta a saúde pela falta de profissionais e falta de insumos, medicamentos, leitos, entre outros itens. Desse modo, uma política que deveria consolidar acaba por afastar e separar aqueles que necessitam do sistema público de saúde daqueles que conseguem optar por um plano de saúde privado. Na Constituição Brasileira de 1988, por sinal, instituiu-se o Sistema Único de Saúde (SUS), que assume o direito à saúde como obrigação do Estado. EXPLICANDO A lei que regulamentou o Sistema Único de Saúde, previsto na constitui- ção federal, foi a de nº 8.080, que definiu claramente os objetivos do SUS: identificar e divulgar os condicionantes e determinantes da saúde, formu- lar a política de saúde para promover os campos econômico e social para diminuir o risco de agravos à saúde e fazer ações de saúde de promoção, proteção e recuperação, integrando ações assistenciais e preventivas. Ao se colocar a epidemiologia social no contexto do Sistema Único de Saú- de, é possível percebê-la como fundamental para a realização do princípio da integralidade, haja vista sua capacidade de articulação das dimensões de sin- gularidade, particularidade e estruturação da realidade objetiva dos sujeitos sociais e das comunidades, necessárias para a compreensão dos fenômenos e para o planejamento e execução de ações que transformem o quadro da saúde no País. Como exemplo de ações e programas trazidos pelo SUS está a atenção in- tegral à saúde das pessoas no sistema prisional. A iniciativa prevê a inclusão da população penitenciária no SUS, garantindo que o direito à cidadania se efetive na perspectiva dos direitos humanos. EPIDEMIOLOGIA 21 SER_EPIDE_UNID1.indd 21 09/11/2020 11:16:00 Saúde pública e a promoção à saúde A saúde pública pode ser considerada como a adoção de medidas que al- mejam manter populações saudáveis, por meio da promoção e da prevenção em saúde. Manter e promover a saúde para um grupo de pessoas é muito mais complexo do que se possa imaginar: deve haver um engajamento e colabo- ração de todos os envolvidos nesse processo para um bom planejamento de práticas em saúde. O auxílio do conhecimento científi co pode ser usado aqui para oferecer um maior embasamento na formulação e organização de políti- cas públicas em saúde. CITANDO “A epidemiologia exerce importante papel ao se preocupar não apenas com o controle de doenças e de seus vetores, mas, sobretudo, com a melhoria da saúde da população antes mesmo que a doença a alcance. Os estudos que privilegiam temáticas da saúde pública, em geral, estão frequentemente interessados em investigar o modo pelo qual as condi- ções sociais infl uenciam e determinam o processo saúde-doença das populações, o que tem gerado uma forte articulação entre a epidemiologia e as ciências sociais” (RAMOS et al., 2016, p. 221). No campo da saúde pública, abordamos a saúde sob a perspectiva de um conceito de coletividade, sobre o quão é importante promover a saúde em gru- po, seja ele um grupo pequeno, como a família, sejam grupos maiores, como a população de um município, por exemplo. Para que essa estratégia tenha funcionalidade e cumpra os objetivos, é importante ressaltar a autoconsciên- cia de fazer parte do coletivo. Nesse sentido, é importante que cada um faça sua parte, que se integre à comunidade e favoreça o bom funcionamento dos serviços de saúde. Em 2008, a Comissão da OMS elaborou um relatório sobre determinantes sociais da saúde, enfatizando a importância da ação sobre os determinantes sociais para reduzir as iniquidades em saúde (Figura 3). ASSISTA Entenda mais sobre os determinantes sociais de saúde por meio da explicação do Professor Dr. Alberto Pellegrini Filho, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. EPIDEMIOLOGIA 22 SER_EPIDE_UNID1.indd 22 09/11/2020 11:16:00 Figura 3. Determinantes sociais em saúde: modelo de Dahlgren e Whitehead, adotado pela OMS. Fonte: GARBOIS; SODRÉ; DALBELLO-ARAÚJO, 2017. O relatório também destacou a importância de construir um movimento global para diminuir as desigualdades em saúde tanto entre países como em seu interior no curso de uma geração. Uma representação de desigualdade social em saúde é divulgada em cartaz da OMS (Figura 4). Figura 4. Cartaz da Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde da OMS. Fonte: BUSS, 2010. Idade, sexo e fatores hereditários Educação Produção agrícila de alimentos Serviços sociais de saúde Habitação Condições de vida e de trabalho DesempregoAmbiente de trabalho Água e esgoto EPIDEMIOLOGIA 23 SER_EPIDE_UNID1.indd 23 09/11/2020 11:16:00 A vulnerabilidade das classes sociais menos favorecidas sempre foi percep- tível em questões que envolviam o acesso à saúde e os riscos à população. As- sim, tornou-se necessária a busca por intervenções e o combate às iniquidades em saúde. Para que ações que diminuíssem as diferenças sociais pudessem ser colocadas em práticas, alguns fatores foram levados em conta, como o acesso ao mercado de trabalho, à educação e à seguridade social, entre outros. As políticas públicas visavam a diminuir as diferenças sociais e buscavam redu- zir a exposição da população. Neste último objetivo, podem ser considerados alvos das políticas os trabalhadores que vivem em condições insalubres, sem saneamento básico e aqueles que trabalham em locais sem segurança básica. Um exemplo claro de intervenção no sistema de saúde é mostrado no Grá- fico 1. Apesar de ser uma imagem de 2003, ainda é comprovadamente atual. No gráfico, é possível visualizar que as mulheres com mais tempo de instrução e estudo (15 anos ou mais) apresentam-se como aquelas que mais realizam o exame de mamografia. A partir daí, tiramos uma conclusão que remete clara- mente ao que foi relatado, sobre o combate às diferenças e a estratificação sociocultural, na promoção de um acesso igualitário. GRAFICO 1. PROPORÇÃO (%) DE MULHERES DE 25 ANOS OU MAIS DE IDADE QUE JÁ REALIZARAM ALGUMA VEZ EXAME DE MAMOGRAFIA, POR ANOS DE ESTUDO Fonte: BRASIL, 2008. (Adaptado). % 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Sem instrução e menos de 1 ano Anos de estudo 1 a 3 anos 24,3 34,4 42,0 45,9 51,5 68,1 4 a 7 anos 8 a 10 anos 11 a 14 anos 15 ou mais EPIDEMIOLOGIA 24 SER_EPIDE_UNID1.indd 24 09/11/2020 11:16:00 A proposta de promoção à saúde está atrelada ao conceito de qualidade de vida. Mais um termo abrangente, mas que vamos, nesse momento, generalizar como uma condição favorável e satisfatória para se viver. Então, o investimento na promoção à saúde interfere diretamente na qualidade de vida. A promo- ção à saúde sugere encontrar a saúde a partir da doença. A linha de frente da promoção visa ao enfrentamento no que concerne à vivência particular do indivíduo e coletiva, para assim buscar, na história, o que faz com que ocorra o adoecimento da população. A Figura 5 mostra um exemplo de promoção da saúde implementado em Quatinga, no município de Mogi das Cruzes, São Paulo. Figura 5. Academia da Terceira Idade em Quatinga, Mogi das Cruzes. Fonte: PREFEITURA DE MOGI DAS CRUZES. Acesso em: 04/08/2020. A Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Otta- wa, fez surgir a contextualização do termo promoção da saúde, definido como processo que capacita os indivíduos para agir e controlar os seus determinan- tes de saúde, impactando diretamente a saúde da população. No Brasil, a promoção da saúde vem sendo implementada de maneira gra- dual e pode ser observada em propostas provenientes da Reforma Sanitária, em especial pela construção do SUS, que envolve a formulação de políticas e programas nos serviços de saúde em diferentes esferas do governo. EPIDEMIOLOGIA 25 SER_EPIDE_UNID1.indd 25 09/11/2020 11:16:01 A estratégia de promoção da saúde conduzida pela SUS refere-se prefe- rencialmente aos aspectos condicionantesparticulares que interferem no pro- cesso saúde-doença da população brasileira. O Ministério da Saúde levanta fatores como violência, desemprego, escassez de saneamento básico, habita- ção inadequada, difi culdade de acesso à educação, alimentação, urbanização, entre outros. As políticas públicas saudáveis precisam demonstrar potencial para pro- duzir saúde socialmente, para que sejam consideradas no campo da promoção da saúde. Alguns exemplos de políticas saudáveis comuns à nossa sociedade são o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Estatuto da Cidade, a Po- lítica Nacional de Trânsito e a Política Nacional de Promoção da Saúde do Mi- nistério da Saúde. A atuação das políticas públicas saudáveis na promoção à saúde tem como objetivo reduzir as desigualdades mediante ações sobre os determinantes dos problemas de saúde, nos múltiplos setores em que estes se localizam. Tais políticas podem ser vinculadas a qualquer setor, uma vez que os determinantes sociais da saúde podem se originar de diferentes setores. A elaboração da Política Nacional de Promoção da Saúde tem boa aceitação e produz bons resultados: a interação das várias esferas de gestão do SUS com o setor sanitário e os demais setores das políticas públicas e da sociedade altera a maneira de organização, planejamento, realização, análise e avaliação do trabalho proposto para a saúde. Conceito de doença A doença, no sentido amplo da palavra, remete-nos a maus pensamentos, ideia generalizada de adoecer e risco de morte. Não que essa ideia seja errada ou exagerada, mas é um conceito que, historicamente, vem atrelado a algum mal para o corpo ou para a mente. Desde os primórdios da humanidade, a as- sociação doença-morte sempre foi encarada como uma mazela. Dos males que acometem o homem sempre resultaram grandes questionamentos: qual a ori- gem de uma doença? Como é sua maneira de transmissão? Como se prevenir? Atualmente, reconhece-se que o conceito de doença está relacionado a múltiplos fatores. Alguns cientistas levam em conta a defi nição de doença EPIDEMIOLOGIA 26 SER_EPIDE_UNID1.indd 26 09/11/2020 11:16:01 como ausência de saúde, mas seria a melhor definição? Seria doença um ter- mo conceituável? O conceito de doença tem gerado um grande impasse na ciência, especial- mente por médicos e profissionais que lidam diretamente com pacientes. O que considerar para atestar uma doença é uma questão difícil de ser respondi- da. O estado “doente” pode estar atrelado a diferentes perspectivas: psíquicas, médicas e sociais, e um novo olhar para o conceito de doença vem-se reinven- tando com o passar dos anos. É de grande relevância uma consulta com um médico quando um indiví- duo apresenta queixas ou um mau funcionamento do organismo. Apesar das dificuldades socioeconômicas encontradas pelo caminho, a visita a um profis- sional de saúde é a melhor escolha a ser feita. Por intermédio da consulta, o profissional avaliará o paciente e chegará, em um momento, a um diagnóstico. Estar doente e sentir-se doente são estados diferentes e que geram constan- tes reflexões. É possível estar doente sem sentir-se doente? É possível sentir-se doente e não estar, de fato, doente? Quais são os requisitos básicos para uma pessoa ser considerada doente? O que levar em conta para um diagnóstico de doença? Essas e muitas outras perguntas que envolvem o cenário médico e epi- demiológico contam com a abordagem histórica e cultural do conceito de doença. A conceituação de doença não é simples. Deverá levar em consideração diversas condições, como a história, as consequências, os determinantes e condicionantes do processo de adoecimento. Não é pensar apenas no fato da relação agente-hospedeiro, mas partir desse princípio para melhorar sua compreensão. A definição de doença é um desafio tanto no âmbito clínico quanto na epi- demiologia, na saúde pública e nas ciências sociais em saúde. É a partir da com- preensão de como o processo de adoecimento e de como a história natural da doença e de determinação das doenças ocorrem que o sistema previdenciário é organizado. Existe uma contextualização diferenciada de doença que a classifica em três metáforas ou categorias em que não somente aparece como um fator negativo para a vida do indivíduo: • Doença como destruidora. Nesse enfoque, pode-se notar a maneira mais clássica da doença, aquela que pode limitar a capacidade pessoal do paciente, EPIDEMIOLOGIA 27 SER_EPIDE_UNID1.indd 27 09/11/2020 11:16:01 por exemplo, ao privá-lo de assumir responsabilidades. Nota-se a concomitan- te perda da posição social e o isolamento social, considerando-se as condições em que se encontra; • Doença como libertadora. Nesse sentido, há a concepção de doença como libertadora das responsabilidades ou das pressões que a vida coloca. Ao se manifestar a doença, o indivíduo livra-se de compromissos que antes deveriam ser rigorosamente cumpridos. A doença como libertadora vincula be- nefícios e privilégios, incluindo os cuidados e a simpatia dos outros. A doença traduz um ganho secundário; • Doença como desafio. A doença concebida como um desafio refere-se a um mal contra o qual devemos lutar com todas as nossas forças. É uma con- cepção em que é necessária muita energia e positividade, com o intuito dedicar nossa capacidade e tudo que nos rodeia à intenção de melhoria e recuperação. Sabe-se que, apesar de algumas doenças serem causadas apenas por fatores genéticos, a maioria delas resulta da interação destes e de outros com fatores ambientais. Por isso, a importância da vigilância aos fatores externos e como eles interferem no processo saúde-doença. Para exempli- ficar, pode-se relatar a diabetes (tipo 1 e tipo 2), que apresenta componen- tes genéticos e ambientais. Vê-se, então, como o ambiente é a inclusão de qualquer elemento que possa afetar a saúde, seja ele biológico, químico, físico, social, psicológico, econômico ou cultural. A maneira como as pessoas encaram o desafio de viver e manter uma qualidade de vida diz muito a res- peito da importância da conexão socioeducativa. A epidemio- logia é aqui utilizada como uma ferramenta de intervenção, pela adoção de medidas preventivas através da promoção da saúde. O motivo pelo qual o processo saúde- -doença se manifesta de forma única e diferenciada entre as populações está estreitamente relacionado aos aspec- tos socioculturais e econômicos de de- terminada comunidade, em como ela se inclui como principal agente interessado no melhor conhecimento de tais fatores ambientais. EPIDEMIOLOGIA 28 SER_EPIDE_UNID1.indd 28 09/11/2020 11:16:01 Conceito de danos à saúde Ao refl etirmos sobre saúde e como prezar por ela, remetemos a um con- ceito importante: a prevenção e os riscos à saúde. Sabemos que nosso País apresenta desigualdades em diferentes campos – social, educacional e eco- nômico –, assim como uma estratifi cação ocorre nessas vertentes. Apesar do apelo e do desenvolvimento de políticas públicas em saúde que visem a uma equidade da população, tais medidas ainda parecem distantes da realidade. É visível que as classes menos favorecidas estão mais expostas a danos à sua saúde, acometidas por diferentes fatores. Para exemplifi car, podemos citar as populações de baixa renda (no caso, uma desigualdade socioeconômica), que vivem sem as condições sanitárias básicas. Essas pessoas possivelmente apresen- tarão riscos à sua saúde, que estarão diretamente ligados à questão sanitária, di- ferentemente daquelas que usufruem das condições sanitárias adequadas. A Figura 6 apresenta como um despejo inadequado de esgoto sanitário pode alterar o equilíbrio de uma determinada região. É possível observar a presença de pombas, que são vetores de zoonoses e outros riscos à saúde. CITANDO “Fatores demográfi cos de países pobres, defi nidos pela aglomeração de população vivendo em espaço reduzido, com saneamento inadequado,em condições precárias de habitação, proliferação de fauna sinantrópica, infraestrutura urbana defi citária e elevada degradação ambiental. Esses indicadores criam condições favoráveis para a multiplicação e propaga- ção de determinados agentes, seus vetores e reservatórios – por exemplo, a emergência da dengue” (RAMOS et al., 2016, p. 226). Figura 6. As águas residuais mal tratadas são lançadas na área da praia e atraem vetores de doenças para o homem. Este caso é em Odessa, na Ucrânia. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/08/2020. EPIDEMIOLOGIA 29 SER_EPIDE_UNID1.indd 29 09/11/2020 11:16:02 Do lado oposto, podemos citar os danos à saúde que acometem a popu- lação de uma determinada região que sofreu um grande impacto – e até toda a população de um País. ASSISTA Assista ao vídeo que mostra os danos à saúde causados pela tragédia de Brumadinho e seu impacto na saúde pública. O pesquisador Carlos Machado Freitas, coorde- nador do Centro de Estudos para Emergências e Desas- tres em Saúde (Cepedes/Fiocruz) conversou com o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz sobre os principais impactos da tragédia na barragem. Riscos à saúde Em epidemiologia, quando estudamos os conceitos de danos à saúde, re- metemo-nos aos métodos de promoção e prevenção à saúde para evitar o adoecimento da população. Assim, entende-se por risco a possibilidade de ocorrer uma doença em uma determinada região. A garantia da saúde implica asse- gurar o acesso universal e igualitário dos cidadãos aos serviços de saúde, como também à formulação de políti- cas sociais e econômicas que operem na redução dos riscos de adoecer. Para que medidas sejam elabora- das sobre o risco à saúde, é preciso que alguns determinantes em saúde sejam utilizados como parâmetros. Os coefi cientes de incidência e prevalência, as taxas de letalidade e mortalidade, a exposição e os fatores socioambientais são alguns dos critérios utilizados para esse fi m. Logo, por intermédio das análises estatísticas e ferramentas matemá- ticas, pode-se defi nir uma estratégia. Além disso, a mudança do pensamento social deve ser um parâmetro que todos os componentes de uma população precisam praticar: a coletividade, mais uma vez, ganhando forças em prol de um bem maior, a saúde. EPIDEMIOLOGIA 30 SER_EPIDE_UNID1.indd 30 09/11/2020 11:16:04 Prevenção à saúde Em algumas situações, é considerável que a população não enxergue as políticas públicas em Saúde do jeito que os profi ssionais da saúde enxer- gam. A utilização de serviços públicos, por exemplo, pode ser mais sentida por uma parte da população do que por outra. No entanto, o sistema de saúde é único para todas as classes (uma alusão à sigla SUS – Sistema Único de Saúde), independentemente se utilizado constantemente ou não. Algu- mas notas de repúdio contra o sistema de saúde público são frequentemen- te relatadas: “Eu não uso o SUS” ou “Eu não dependo de hospital público”. Esses são exemplos clássicos de uma aversão ao sistema. No entanto, em casos de vacinação, acidentes de trânsito, acidentes domésticos, entre ou- tros, o serviço público é o serviço a ser lembrado e utilizado e, na maioria dos casos, salva vidas. As práticas de prevenção e promoção caminham juntas no cenário da saú- de pública. São apresentadas e moldadas em critérios de constante atualização das condições de vida da população, para que, assim, as práticas em saúde pública possam ser direcionadas. Proteção à saúde é o campo da saúde que trabalha com os riscos de adoe- cer. As medidas diretas, como as vacinas, os exames preventivos, o uso do fl úor na água ou associado à escovação são medidas preventivas comuns ofertadas pelo SUS. História natural da doença Leavell e Clark foram os pioneiros na descrição da ocorrência das doenças no homem e publicaram suas ideias no livro Medicina preventiva, em 1976. Os autores sugeriram o que acontece a um paciente em cada fase de uma doença, desde seu período de susceptibilidade até à conclusão (recuperação, defi ciências ou óbito). Reconhecidos pela importância do seu trabalho, Leavell e Clark ressal- taram a tríade epidemiológica (ou tríade ecológica) – agente, hospedeiro e meio ambiente – como a relação fundamental para defi nir a causa das doen- ças (Figura 7). EPIDEMIOLOGIA 31 SER_EPIDE_UNID1.indd 31 09/11/2020 11:16:04 Figura 7. Modelo da tríade epidemiológica. Fonte: ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2010. Todo processo saúde-doença se sustenta em uma dimensão de temporali- dade, seja o começo da exposição a um fator de risco que inicialmente causará danos biológicos imperceptíveis, mas que se desenvolverá plenamente como dano à saúde depois de certo tempo; seja o dinamismo da própria doença, que cursa com um padrão evolutivo clínico, a chamada história natural das doenças. Assim, os delineamentos dos estudos, comumente, levam em consi- deração esse dinamismo e transformações no tempo, que é dimensão crucial para a interpretação dos dados do estudo para o teste de hipóteses causais. A epidemiologia, enfocando, inicialmente, doenças infecciosas e nutri- cionais e, mais tarde, estudando enfermidades crônicas e outras de origem ambiental e ocupacional, acumulou um imenso patrimônio de conhecimento que tem sido relevante para o entendimento da história natural de muitas dessas doenças, suas causas e consequências, cruciais para a elaboração de propostas de prevenção e controle. Ao contexto de história natural da doença, pode-se adicionar o conceito de processo epidêmico, como o conhecimento das relações entre o agente etiológico e os demais componentes que interferem na história da doença. Hospedeiro Agente Ambiente Vetor EPIDEMIOLOGIA 32 SER_EPIDE_UNID1.indd 32 09/11/2020 11:16:04 A detecção e tratamento em qualquer estágio podem alterar a história natural de uma doença, mas o efeito do tratamento somente pode ser deter- minado se a história natural da doença for conhecida. Atualmente, a epidemiologia é um ramo indispensável da ciência, como discutido no início desta unidade: os dados gerados são essenciais para uma visualização do cenário em saúde pública. Devemos ressaltar, ainda, a importância dos epidemiologistas – de todas as gerações –, profissionais capacitados e motivados pela busca de conhe- cimento. A epidemiologia como método investigativo e sua contribuição na aplicação das políticas Públicas são essenciais no combate e na prevenção dos riscos à população. EPIDEMIOLOGIA 33 SER_EPIDE_UNID1.indd 33 09/11/2020 11:16:04 Sintetizando Nessa unidade, observamos a importância do contexto histórico, com os principais e pioneiros pesquisadores em saúde, que forneceram contribuições importantes para a epidemiologia atual. Vimos que, apesar de passadas déca- das, algumas das pesquisas e metodologias permanecem bastante atuais, como é o caso da utilização de tabelas e monitoramento como fonte de informações para a geração de dados epidemiológicos. Observamos também o grande desafio da conceituação dos termos saúde e doença. O conceito proposto pela OMS pareceu vago e desatualizado, mas a Lei Orgânica da Saúde abordou, no Brasil, questões mais abrangentes, chegan- do mais próxima à realidade. Definir saúde e doença mostrou-se mais difícil do que se esperava. Saúde e doença devem ser, então, tratadas como um lema, de forma individualizada, levando sempre em consideração os aspectos psíquicos, sociais e culturais de cada indivíduo. A saúde deve ser vivida, de maneira preven- tiva, e promovida pela adoção de medidas de políticas públicas. Por falar em políticas públicas, são elas que conectam a epidemiologia à me- dicina. São ciências que caminham de mãos dadas, uma dando o suporte que a outra precisa. Não seria mais fácil a caminhada pelo saber se cada uma tomasse direções opostas. Precisamos entender aqui como a epidemiologia se tornou e se torna cada vez mais importante para a saúde Pública.Afinal, a criação do SUS mostra-nos a relevância da criação de um Sistema Único, unificado para todos, que ainda tem muito a se transformar e melhorar, sempre em busca de alternativas para permitir a qualidade de vida do brasileiro. EPIDEMIOLOGIA 34 SER_EPIDE_UNID1.indd 34 09/11/2020 11:16:04 Referências bibliográficas ALBUQUERQUE, C. M. S.; OLIVEIRA, C. P. F. Saúde e doença: significações e perspectivas em mudança. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. ALMEIDA FILHO, N. O conceito de saúde: ponto-cego da epidemiologia? Dispo- nível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & saúde: fundamentos, mé- todos, aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. AQUINO, V. Redução de riscos de desastres também é função da saúde públi- ca”, defende secretário de Vigilância em Saúde. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. BACKES, M. T. 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Acesso em: 04 ago. 2020. EPIDEMIOLOGIA 35 SER_EPIDE_UNID1.indd 35 09/11/2020 11:16:04 BRUGNEROTTO, F.; SIMÕES, R. Caracterização dos currículos de formação profissional em educação física: um enfoque sobre saúde. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. BUSS, P. M. O conceito de promoção da saúde e os determinantes sociais. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. CARLOS Machado: tragédia de Brumadinho e a saúde pública. Postado por Fiocruz. (5min. 12s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. CARVALHO, G. A saúde pública no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. CDC – Centers for Disease Control and Prevention. Lesson 1: introduction to epi- demiology. Section 2: historical evolution of epidemiology. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. CZERESNIA, D. O conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promo- ção. Disponível em: . Acesso em: 04 ago. 2020. DETERMINANTES sociais de saúde – Alberto Pellegrini Filho. Postado por EdPopSUSSGEPFIOCRU. 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EPIDEMIOLOGIA 38 SER_EPIDE_UNID1.indd38 09/11/2020 11:16:04 EPIDEMIOLOGIA: CONCEITO, OBJETIVOS E APLICABILIDADE NO CAMPO DA SAÚDE 2 UNIDADE SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 39 09/11/2020 11:42:36 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Conhecer os conceitos em epidemiologia; Ser capaz de formular ideias sobre conceitos em epidemiologia; Identificar a importância do processo saúde-doença para a epidemiologia; Compreender como a população é o objeto de estudo da epidemiologia e como sua classificação pode ser útil no processo saúde-doença; Conhecer as etapas do processo de análise epidemiológica através da abordagem em objetivos; Ser capaz de conectar as ações de coleta e registro de dados ao processo analítico; Identificar a estrutura epidemiológica de uma doença; Reconhecer as etapas da cadeia epidemiológica como um desafio para a saúde pública. Epidemiologia: conceito Estudos epidemiológicos O conceito de causa em epidemiologia Epidemiologia: objetivos Importância como eixo das ações de saúde e como base de informações Coleta de dados Sistemas de informação Determinantes do processo saúde-doença Adoção de políticas nos determi- nantes do processo saúde-doença Estrutura epidemiológica Componentes da estrutura epidemiológica Cadeia epidemiológica EPIDEMIOLOGIA 40 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 40 09/11/2020 11:42:36 Epidemiologia: conceito Conceituar epidemiologia é uma tarefa um tanto quanto complexa, pois pode ser apresentada em diferentes sentidos, por exemplo, a epidemiologia é notada facilmente como disciplina e nas atividades práticas na área da saúde, de forma totalmente atuante na sociedade. A epidemiologia como ciência nos mostra a relevância de estudar o pro- cesso saúde-doença nas populações. Para isso, é de fundamental importância conhecer como uma doença surge, quais são os motivos que a faz ter alta ou baixa transmissibilidade, as razões pelas quais os processos de prevenção e tratamento são efi cazes, entre outros. Logo, a epidemiologia descreve, explica e explora as possíveis causas e consequências e como uma determinada doen- ça impacta na vida da população. A palavra epidemiologia vem do grego epi “sobre”, demos “povo” e logos “estudo”. A epidemiologia é defi nida como “o estudo da distribuição e dos de- terminantes de estados ou eventos relacionados à saúde em populações es- pecífi cas, e sua aplicação na prevenção e controle dos problemas de saúde” (MORABIA, 2013, p. 1060). Epidemiologia é um termo de origem grega que signifi ca estu- do sobre a população. A epidemiologia pode ser conceituada como a ciência que estuda o processo saúde-doença na socie- dade, analisando a distribuição e os fatores determinantes das doenças, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específi cas de prevenção, controle ou erra- dicação de doenças e fornecendo indicadores que sirvam de su- porte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde (BRASIL, 2005, citado por GUSMÃO; FILHO, 2015, p. 20). O conceito de epidemiologia demonstra como a abrangência de suas infor- mações possui uma estreita relação e funcionalidade com a saúde pública. As- sim, é notável que nada nesse processo de identifi cação e conhecimento fun- ciona de maneira singular. A epidemiologia com seus indicadores e sistemas de informação favorece a saúde pública que, por sua vez, formula estratégias de promoção e prevenção e políticas públicas (Diagrama 1), sendo uma “chave que abre portas” para o conhecimento da saúde da população. EPIDEMIOLOGIA 41 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 41 09/11/2020 11:42:36 DIAGRAMA 1. RELAÇÃO ENTRE A EPIDEMIOLOGIA E A SAÚDE PÚBLICA: INTERAÇÃO IMPLICA DIRETAMENTE NO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA Para que a epidemiologia se fortaleça, diversas disciplinas como Biologia, Medicina, Enfermagem, Matemática, Estatística, Geografia e Sociologia estão envolvidas nesse processo. Todas em prol de um interesse comum, o conheci- mento para o bem-estar da sociedade. A Biologia, Medicina e Enfermagem são ciências atuantes diretamente nas condições e nos determinantes de saúde. É a partir delas que existe a conscientização e o alerta do que pode estar acome- tendo uma comunidade ou população. A Matemática e Estatística participam da etapa de geração e elaboração de resultados concretos que irão embasar a disseminação de informações em saúde. A Geografia e Sociologia atuam de forma mais generalizada pela obtenção de dados demográficos e pelo estudo das condições sociais os quais um grupo é exposto. A integração entre as ciên- cias permite que o processo saúde-doença seja o mais explorado e estudado possível. O conhecimento gerado se torna um subsidio para as ações da Vigi- lância em Saúde, que tem como princípio a atenção na saúde das populações a partir do que é coletado de informações. É importante salientar que os epidemiologistas não estão preocupados apenas com a saúde e a doença de uma população, mas também, e primor- dialmente, em como podem contribuir aos fatores que estão intima- mente relacionados ao processo saúde-doença, como nas práticas de promoção e prevenção à saúde e a avaliação de da- nos à saúde. O elemento base para que a epidemiologia se demonstre como uma ciência é a população humana, que é dividida em grandes grupos siste- matizados, podendo ser uma família, um grupo de Indicadores de saúde Sistemas de Informação Epidemiologia Promoção e prevenção Políticas públicas Saúde pública EPIDEMIOLOGIA 42 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 42 09/11/2020 11:42:36 trabalhadores de uma empresa, pacientes da ala oncológica de um hospital, alunos de uma escola, entre outros. De certa forma, a população deve se localizar em uma área em um determinado período. Isso favorece a formação de subgrupos, como sexo, faixa etária, raça, aspectos sociais e econômicos. Deven- do ainda ser levado em consideração é a variação da estrutura de um grupo de acordo com a área e o tempo, fator esse que deverá ser estimado em todo processo epidemiológico. Estudos epidemiológicos Os estudos epidemiológicos são divididos em estudos/métodos des- critivos e estudos/métodos analíticos (Diagrama 2). O principal papel de um estudo descritivo é relatar, descrever o que está acontecendo e acometen- do uma população, sem que haja in- terferência nesse processo. Exemplos claros são: a descrição de dados de prevalência e incidência de uma deter- minada enfermidade. As vertentes do processo descritivo são: pessoa/ po- pulação, tempo e lugar. Os estudos analíticos, por sua vez, estão associados à relação causa e efeito. Aqui são sugeridas hipóteses a partir das medidas abordadas em diferentes fatores, que incluem: vigilância, observação, pesquisa analítica e experimento. O estudo transversal é uma abordagem que sugere uma com- paração entre dois grupos, um exposto e um não exposto. Assim, é possível sugerir a prevalência de risco ao grupo exposto. Já nos estudos ecológicos o alvo do estudo não é o indivíduo, mas sim a população e a sua exposição a um evento externo (ambiental), como à poluição do ar. O estudo de coorte EPIDEMIOLOGIA 43 SER_MEDVET_EPIDE_UNID2.indd 43 09/11/2020 11:42:37 também conta com a avaliação de dois grupos (exposto e não exposto), no entanto, o que é medida é a incidência (presença ou ausência) de uma doen- ça. A avaliação de casos-controle explora, em suma, a criação de hipóteses em uma investigação epidemiológica. DIAGRAMA 2. CLASSIFICAÇÃO DO ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO A epidemiologia se firmou enquanto ciência, baseada em pes- quisas e evidências científicas que visam à determinação das condições de saúde da população e à busca sistemática dos agentes etiológicos das doenças ou dos fatores de risco envol- vidos no seu aparecimento, através de diferentes tipos de es- tudos (ex.: estudos de coorte, caso-controle) e da avaliação de intervenções em saúde para o efetivo controle das doenças que