Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

SOCIOLOGIA
RICHARD T. SCHAEFER
6a EDIÇÃO
6a 
EDIÇÃO
As aulas de Sociologia, consideradas pelo autor deste livro “o laboratório ideal onde pode-
mos estudar nossa própria sociedade e as dos nossos vizinhos globais”, permitem ao aluno 
desenvolver o pensamento crítico, tornando-o capaz de aplicar as teorias e os conceitos 
sociológicos para avaliar as interações e as instituições humanas e, assim, encontrar expli-
cações sociológicas para os diversos fenômenos que permeiam as relações sociais. 
O aluno inicia estudando o que é Sociologia e o seu objeto de pesquisa para depois entrar em 
contato com temas de interesse imediato e, em sua maior parte, com temas mais abrangentes, que 
lhe permitirão desenvolver o pensamento crítico e a imaginação sociológica. As seções “Use a 
Sua Imaginação Sociológica” e “Pense Nisto”, por exemplo, dão suporte à proposta do autor.
Sociologia aborda temas que vão da educação bilíngüe à existência da escravidão em pleno 
século XXI, incluindo o estudo da imigração, da situação dos moradores de rua, da superpo-
pulação, do processo do envelhecimento das pessoas nas diferentes culturas, até problemas 
mais recentes como os ataques de 11 de setembro de 2001 e suas conseqüências sociais 
– como as pessoas passaram a lidar com a situação depois desse acontecimento e, em espe-
cial, como elas reagem diante das minorias.
Aplicações
Livro-texto para a disciplina Introdução à Sociologia dos cursos de graduação em Socio-
logia, Filosofia, Psicologia, Pedagogia, Administração de Empresas, Economia, História, 
Engenharia, entre outros, bem como dos cursos de pós-graduação (MBA e lato sensu) destas 
mesmas áreas, especialmente de Administração de Empresas.
R
ich
ard
 T. Sch
aefer SO
C
IO
LO
G
IA
Sociologia
www.grupoa.com.br
Sociologia Schaefer.indd 1 24/10/13 09:53
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
S294s Schaefer, Richard T.
 Sociologia [recurso eletrônico] / Richard T. Schaefer ;
 tradução: Eliane Kanner, Maria Helena Ramos Bononi ;
 revisão técnica: Noêmia Lazzareschi, Sérgio José Schirato. –
 6. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2014.
 Publicado também como livro impresso em 2006.
 ISBN 978-85-8055-316-1
 1. Sociologia. I. Título. 
CDU 316
Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052
Índice para catálogo sistemático:
1. Sociologia 301
Iniciais_eletronica.indd 2 23/10/13 15:15
Entendendo Sociologia 3
o que é sociologia?
“O que a sociologia tem a ver comigo ou com a minha 
vida?” Como estudante, você também poderia ter feito 
essa pergunta ao se matricular no curso de Introdução 
à Sociologia. Para obter a resposta, considere estes pon-
tos: Você é influenciado pelo que vê na televisão? Você 
usa a Internet? Você votou nas últimas eleições? Você 
participa das bebedeiras no campus? Você usa medicina 
alternativa? Essas são apenas algumas das situações do 
dia-a-dia descritas neste livro, sobre as quais a sociologia 
traz alguma luz. Mas, como indica o texto de abertura, a 
sociologia também observa grandes problemas sociais. 
Usamos a sociologia para investigar por que milhares de 
empregos migraram dos Estados Unidos e foram para 
países em desenvolvimento, que forças sociais promo-
vem o preconceito, o que leva alguém a se juntar a um 
movimento social e a trabalhar por mudanças sociais, 
como o acesso à tecnologia da computação pode reduzir 
a desigualdade, e por que as relações entre homens e mu-
lheres em Seattle são diferentes daquelas em Cingapura, 
por exemplo.
A sociologia é, de modo bem simples, o estudo sis-
temático do comportamento social e dos grupos huma-
nos. Ela focaliza as relações sociais, como essas relações 
influenciam o comportamento das pessoas, e como as 
sociedades, a soma de tais relações, se desenvolvem e 
mudam.
A Imaginação Sociológica
Na tentativa de entender o comportamento social, os 
sociólogos se baseiam em um tipo incomum de pensa-
mento criativo. Um importante sociólogo, C. Wright 
Mills, descreve tal pensamento como a imaginação 
sociológica – uma consciência da relação entre o indiví-
duo e a sociedade mais ampla. Essa consciência permite 
as suas tentativas de sobreviver disfar-
çada em uma trabalhadora de baixa 
renda disfarçada em diferentes cidades 
dos Estados Unidos, a jornalista Barbara 
Ehrenreich desvendou padrões de inte-
ração humana e usou métodos de estudo 
relacionados à investigação sociológica. Esse excerto 
do seu livro Nickel and Dimed: On (Not) Getting By in 
America [Miséria à americana] descreve como Ehren-
reich deixou sua casa confortável e assumiu a identi-
dade de uma dona-de-casa divorciada de meia-idade, 
sem diploma universitário, e com pouca experiência de 
trabalho. Ela foi em busca de um emprego que pagasse 
melhor e de uma forma de vida mais econômica para 
ver se conseguiria sobreviver. Meses depois, completa-
mente exausta e desmoralizada pelas regras de trabalho, 
Ehrenreich pôde confirmar o que já suspeitava antes de 
começar: sobreviver naquele país como um trabalhador 
de baixa renda é uma aposta difícil de ganhar.
O estudo de Ehrenreich revelou uma sociedade de-
sigual, o que constitui um tópico central da sociologia. 
A desigualdade social tem uma influência determi-
nante nas interações e instituições humanas. Certos 
grupos de pessoas controlam recursos escassos, usam 
o poder e recebem tratamento especial. A foto que abre 
este capítulo ilustra outro foco comum dos sociólogos, 
os elementos da cultura que definem uma sociedade. 
Na Índia, as histórias em quadrinhos são uma forma 
muito popular de mídia que reflete valores culturais 
centrais.
Embora possa ser interessante saber como um indi-
víduo faz para pagar suas contas, ou mesmo pode ser 
afetado pelos conteúdos de uma revista de aventura 
em quadrinhos, os sociólogos se preocupam em saber 
como grupos inteiros de pessoas são afetados por esses 
fatores, e como a própria sociedade pode ser alterada 
por eles. Assim, os sociólogos não estão preocupados 
com o que um indivíduo faz ou deixa de fazer, mas com 
o que as pessoas fazem como membros de um grupo, 
ou na interação com os outros, e o que isso significa 
para os indivíduos e para a sociedade como um todo.
Como campo de estudo, a sociologia tem uma 
abrangência extremamente ampla. Você verá neste 
livro a gama de tópicos que os sociólogos investigam 
– do suicídio ao hábito de ver televisão, da sociedade 
Amish aos padrões econômicos globais, da pressão 
entre os pares às técnicas de bater carteira. A sociologia 
observa como os outros influenciam o nosso compor-
tamento; como as grandes instituições sociais, como o 
governo, a religião e a economia, nos afetam; e como 
nós mesmos afetamos outros indivíduos, grupos ou até 
organizações.
Como se desenvolveu a sociologia? De que forma 
ela é diferente das outras ciências sociais? Este capítulo 
vai explorar a natureza da sociologia como um campo 
de pesquisa e como um exercício de “imaginação so-
cial”. Olharemos para a disciplina como uma ciência 
e considerar sua relação com as outras ciências so-
ciais. Conheceremos três pensadores pioneiros – Émile 
Durkheim, Max Weber e Karl Marx – e examinaremos 
as perspectivas teóricas que se desenvolveram a partir 
do trabalho deles. Por fim, vamos considerar as formas 
como a sociologia nos ajuda a desenvolver uma imagi-
nação sociológica. 
N
Capitulo 01.indd 3 23/10/13 14:58
Você é o que Você tem?
se sua imaginação sociológica para analisar 
o “mundo material” de três sociedades dife-
rentes. as fotos são do livro Material World: 
A Global Family Portrait [Mundo material: um retrato da 
família global]. os fotógrafos selecionaram uma família 
“estatisticamente média” em cada país que visitaram 
e fotografaram essa famílias com todos os seus bens, 
na casa onde moram. são mostradas, aqui, famílias nos 
estados Unidos (texas), em Mali e na islândia.
o que os bens materiais nos revelam sobre o tipo 
de transporte, os alimentos, o tipo de moradiaof Leeds e na Robert Gordon University.
_Livro_Giddens.indb ii_Livro_Giddens.indb ii 03/04/17 10:1903/04/17 10:19
Anthony Giddens26
Karl Marx
As ideias de Karl Mark (1818-1883) contrastam 
nitidamente com as de Comte e Durkheim, mas, como eles, 
Marx procu-rou explicar as mudanças que estavam ocorrendo 
na sociedade durante a época da Revolução Industrial. 
Quando jovem, as ati-vidades políticas de Marx o colocaram 
em conflito com as au-toridades alemãs; depois de uma breve 
estadia na França, ele se exilou permanentemente na Grã-
Bretanha. Marx testemunhou o crescimento de fábricas e da 
produção industrial, bem como as desigualdades resultantes. 
Seu interesse no movimento ope-rário europeu e nas ideias 
socialistas refletia em seus escritos, que cobriam uma 
diversidade de temas. Grande parte do seu trabalho se 
concentrava em questões econômicas, mas, como sempre se 
preocupou em conectar os problemas econômicos com 
instituições sociais, sua obra era, e ainda é, rica em visões 
sociológicas. Mesmo seus críticos mais severos consideram 
seu trabalho importante para o desenvolvimento da 
sociologia.
Capitalismo e luta de classe
Embora tenha escrito sobre várias fases da história, Marx 
concentrou-se principalmente nas mudanças nos tempos 
modernos. Para ele, as mudanças mais importantes estavam 
ligadas ao desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo é 
um sistema de produção que se diferencia radicalmente de 
todos os sistemas econômicos anteriores, envolvendo a pro-
dução de bens e serviços vendidos a uma ampla variedade de 
consumidores. Marx identificou dois elementos básicos nas 
empresas capitalistas. O primeiro é o capital – qualquer re-
curso, incluindo dinheiro, máquinas ou mesmo fábricas, que 
possa ser usado ou investido para criar recursos futuros. A 
acumulação do capital acompanha um segundo elemento, a 
mão de obra assalariada. A mão de obra assalariada refere-
-se ao conjunto de trabalhadores que não possuem os meios
para sua sobrevivência, mas que devem buscar emprego pro-
porcionado pelos donos do capital. Marx argumentava que
aqueles que possuem o capital – capitalistas – formam uma
classe dominante, ao passo que a massa da população forma
uma classe de trabalhadores assalariados – uma classe traba-
lhadora. À medida que a industrialização avançava, grandes 
quantidades de camponeses que se sustentavam trabalhando 
na terra se mudaram para as cidades em processo de expan-
são ajudaram a formar uma classe trabalhadora industrial ur-
bana. Essa classe trabalhadora também costuma ser chamada 
de proletariado.
Marx acreditava que o capitalismo era um sistema ineren-
temente classista, no qual as relações de classe se caracterizam 
pelo conflito. Embora os donos do capital e trabalhadores de-
pendam uns dos outros – os capitalistas precisam da mão de 
obra e os trabalhadores precisam do salário – a dependência 
é muito desequilibrada. A relação entre as classes é de explo-
ração, pois os trabalhadores têm pouco ou nenhum controle 
sobre o seu trabalho, e os empregadores podem obter lucro 
apropriando-se do produto da mão de obra dos trabalhadores. 
Marx enxergou que o conflito de classe quanto aos recursos 
econômicos se tornaria mais agudo com o passar do tempo.
Mudança social: a concepção materialista da história
O ponto de vista de Marx baseia-se naquilo que chamou de 
concepção materialista da história. Segundo essa visão, não 
são as ideias ou os valores que os seres humanos detêm que 
são as principais fontes de mudanças sociais; ao invés disso, 
as mudanças sociais são primordialmente induzidas por in-
fluências econômicas. Os conflitos entre as classes propor-
cionam a motivação para o desenvolvimento histórico – eles 
são o “motor da história”. Conforme escreveu Marx no co-
meço do Manifesto Comunista, “a história de todas a socieda-
des que existiram até nossos dias tem sido a história da luta 
de classe” (Marx e Engels 2001 [1848]). Embora Marx tenha 
concentrado sua atenção mais no capitalismo e na sociedade 
moderna, ele também analisou como as sociedades se desen-
volveram no decorrer da história. Segundo ele, os sistemas 
sociais fazem uma transição de um modo de produção para 
outro – às vezes gradualmente, às vezes por uma revolução – 
como resultado de contradições em suas economias. Ele pro-
pôs uma progressão de estágios históricos que começa com 
as sociedades comunistas primitivas de caçadores e coletores 
e passa pelos antigos sistemas escravagistas e sistemas feudais 
baseados na divisão entre proprietários de terras e servos. O 
surgimento de mercadores e artesãos marcou o começo de 
uma classe comercial ou capitalista, que deslocou a nobreza 
proprietária de terra. De acordo com essa visão da história, 
Marx argumentava que, assim como haviam se unido para 
derrubar a ordem feudal, os capitalistas também seriam su-
plantados por uma nova ordem instalada: o comunismo.
Marx teorizou a inevitabilidade de uma revolução de tra-
balhadores que derrubaria o sistema capitalista e anunciaria 
uma nova sociedade, na qual não haveria classes – nenhuma 
divisão de grande escala entre ricos e pobres. Ele não quis 
dizer que todas as desigualdades entre os indivíduos desapa-
receriam, pelo contrário, a sociedade não seria mais dividida 
em uma pequena classe que monopoliza o poder econômico 
e político e a grande massa de pessoas que recebem poucos 
benefícios pela riqueza que seu trabalho gera. O sistema eco-
nômico passaria a ser de propriedade comum, e se estabele-
ceria uma sociedade mais humana do que a que conhecemos 
_Livro_Giddens.indb 26_Livro_Giddens.indb 26 03/04/17 10:1903/04/17 10:19
Anthony Giddens28
atualmente. Marx argumentava que, na sociedade do futuro, 
a produção seria mais avançada e eficiente do que a produção 
sob o capitalismo.
O trabalho de Marx teve uma profunda influência no 
mundo do século XX. Até apenas uma geração atrás, mais de 
um terço da população da terra vivia em sociedades, como a 
União Soviética e os países do Leste Europeu, cujos governos 
afirmavam derivar sua inspiração das ideias de Marx.
Max Weber
Como Marx, Max Weber (1864-1920) não pode ser simples-
mente rotulado como sociólogo; seus interesses e preocu-
pações cobriam muitas áreas. Nascido na Alemanha, onde 
passou a maior parte da sua carreira acadêmica, Weber foi 
um indivíduo muito estudioso. Seus escritos cobriam os cam-
pos da economia, do direito, da filosofia e da história com-
parativa, além da sociologia. Grande parte do seu trabalho 
também estava relacionada com o desenvolvimento do capi-
talismo moderno e as maneiras em que a sociedade moderna 
era diferente de formas anteriores de organização social. Por 
uma série de estudos empíricos, Weber propôs algumas das 
características básicas das sociedades industriais modernas 
e identificou debates sociológicos cruciais que permanecem 
centrais para os sociólogos atualmente.
Em comum com outros pensadores da sua época, Weber 
buscou entender a natureza e as causas das mudanças sociais. 
Ele foi influenciado por Marx, mas também foi bastante crítico 
de algumas das principais visões de Marx. Ele rejeitava a con-
cepção materialista da história e considerava os conflitos de 
classe menos significativos do que Marx. Segundo a visão de 
Weber, os fatores econômicos são importantes, mas as ideias 
e os valores também têm um grande impacto nas mudanças 
sociais. A elogiada e discutida obra de Weber, A ética protes-
tante e o espírito do capitalismo (1992 [1904-195]), propõe 
que os valores religiosos – especialmente aqueles associados 
ao puritanismo – tinham importância fundamental para criar 
uma perspectiva capitalista. Ao contrário de outros pensado-
res sociológicos, Weber argumentava que a sociologia devia 
se concentrar na ação social, e não em estruturas sociais. Ele 
argumentava que a motivação e as ideias humanas eram as for-
ças por trás da mudança – ideias, valores e opiniões tinham 
o poder de causar transformações. Segundo Weber, os indiví-
duos têm a capacidade deagir livremente e de moldar o futuro. 
Ele não considerava, como Durkheim e Marx, que as estrutu-
ras existiam fora ou independentemente dos indivíduos. Pelo
contrário, as estruturas da sociedade eram formadas por uma
complexa inter-relação de ações. E era trabalho da sociologia
entender os significados por trás dessas ações.
Alguns dos textos mais influentes de Weber refletem sua 
preocupação com a ação social, ao analisar a peculiarida-
de da sociedade Ocidental em relação a outras civilizações 
importantes. Ele estudou as religiões da China, Índia e do 
Oriente Próximo e, no decorrer dessas pesquisas, fez gran-
des contribuições para a sociologia da religião. Comparando 
os principais sistemas religiosos da China e da Índia com os 
do Ocidente, Weber concluiu que certos aspectos das crenças 
cristãs tiveram grande influência na ascensão do capitalismo. 
Ele argumentava que a perspectiva capitalista nas sociedades 
Ocidentais não emergiu, conforme supunha Marx, apenas de 
mudanças econômicas. Na visão de Weber, as ideias e os va-
lores culturais ajudaram a moldar a sociedade e nossos atos 
individuais.
_Livro_Giddens.indb 28_Livro_Giddens.indb 28 03/04/17 10:1903/04/17 10:19
Sociologia 29
Um elemento importante na perspectiva sociológica 
de Weber foi a ideia do tipo ideal. Os tipos ideais são mo-
delos conceituais ou analíticos que podem ser usados para 
se entender o mundo. No mundo real, os tipos ideias rara-
mente, ou nunca, existem – muitas vezes, apenas alguns dos 
seus atributos estão presentes. Todavia, essas construções 
hipotéticas podem ser muito proveitosas, pois é possível en-
tender qualquer situação do mundo real comparando-a com 
um tipo ideal. Dessa forma, os tipos ideais servem como um 
ponto de referência fixo. É importante mostrar que, com o 
tipo “ideal”, Weber não queria dizer que a concepção era um 
objetivo perfeito ou desejável. Ao invés disso, Weber queria 
dizer que era uma forma “pura” de um certo fenômeno. We-
ber usou os tipos ideais em seus escritos sobre formas de bu-
rocracia e mercados econômicos.
Racionalização
Segundo a visão de Weber, a emergência da sociedade mo-
derna foi acompanhada por importantes mudanças em pa-
drões de ação social. Ele acreditava que as pessoas estavam 
se afastando de crenças tradicionais fundamentadas em su-
perstição, religião, costumes e hábitos antigos. Pelo contrário, 
os indivíduos estavam cada vez mais envolvidos em cálculos 
racionais e instrumentais, que levavam em conta a eficiência 
e as consequências futuras dos seus atos. Na sociedade in-
dustrial, havia pouco espaço para o sentimento e para fazer 
as coisas simplesmente porque vinham sendo feitas daquele 
modo há gerações. Weber descreveu o desenvolvimento da 
ciência, da tecnologia moderna e da burocracia coletiva-
mente como racionalização – a organização da vida social 
e econômica segundo os princípios da eficiência e com base 
no conhecimento técnico. Se, nas sociedades tradicionais, a 
religião e os costumes antigos definiam as posturas e valores 
das pessoas, a sociedade moderna foi marcada pela raciona-
lização de um número cada vez maior de áreas da vida, da 
política à religião e à atividade econômica.
Segundo Weber, a Revolução Industrial e a ascensão do 
capitalismo foram evidências da tendência mais ampla para 
a racionalização. O capitalismo não é dominado pelo confli-
to de classe, como argumentava Marx, mas pela ascensão da 
ciência e da burocracia: organizações de grande escala. We-
ber considerava o caráter científico do Ocidente como um 
de seus aspectos mais característicos. A burocracia, o único 
modo de organizar grandes quantidades de pessoas efetiva-
mente, expande-se com o crescimento econômico e político. 
Weber usou o termo “desencantamento” para descrever a 
maneira em que o pensamento científico no mundo moder-
no havia varrido as forças do sentimentalismo do passado.
Todavia, Weber não era totalmente otimista quanto ao 
resultado da racionalização. Ele temia que a disseminação da 
burocracia moderna para todas as áreas da vida nos aprisio-
nasse em uma “jaula de ferro”, da qual haveria pouca chan-
ce de escapar. A dominação burocrática, ainda que baseada 
em princípios racionais, poderia esmagar o espírito humano, 
tentando regular todas as esferas da vida social. Ele se preo-
cupava particularmente com os efeitos sufocantes e desuma-
nizantes da burocracia e suas implicações para o destino da 
democracia. A agenda aparentemente progressista da Era do 
Iluminismo do século XVIII, de progresso científico, aumen-
tando a riqueza e a felicidade produzida enquanto rejeitava 
costumes tradicionais e superstições, também tinha um lado 
obscuro e com novos perigos.
Abordagens teóricas modernas
Os primeiros sociólogos estavam unidos em seu desejo de 
compreender as mudanças nas sociedades em que viviam. 
Porém, eles queriam fazer mais que apenas representar e 
interpretar os acontecimentos momentâneos do seu tempo. 
Todos tentaram desenvolver maneiras de estudar o mundo 
social que pudessem explicar como as sociedades funciona-
vam e quais eram as causas das mudanças sociais. Ainda as-
sim, como já vimos, Durkheim, Marx e Weber empregaram 
abordagens bastante diferentes em seus estudos. Por exem-
plo, onde Durkheim e Marx se concentram na intensidade 
de forças externas ao indivíduo, Weber usa, como ponto de 
partida, a capacidade de os indivíduos agirem de maneiras 
criativas sobre o mundo externo. Onde Marx aponta para a 
predominância de questões econômicas, Weber considera 
significativa uma variedade muito mais ampla de fatores. Es-
sas diferenças de abordagem persistiram através da história 
Max Weber (1864-1920).
_Livro_Giddens.indb 29_Livro_Giddens.indb 29 03/04/17 10:1903/04/17 10:19
_Livro_Giddens.indb i_Livro_Giddens.indb i 03/04/17 10:1903/04/17 10:19
Anthony Giddens72
Max Weber: capitalismo e religião
Em um importante trabalho, A ética protestante e o 
espírito do capitalismo (1992 [1904-1905]), Weber tenta 
abordar um problema fundamental: por que o capitalismo 
se desenvolveu no Ocidente e em nenhum outro lugar? Por 
aproximadamen-te 13 séculos depois da queda da Roma 
antiga, outras civili-zações foram muito mais proeminentes 
do que o Ocidente na história mundial. A Europa, de fato, 
era uma área bastante insignificante do planeta, enquanto 
a China, a Índia e o Im-pério Otomano no Oriente 
Longínquo eram grandes potên-cias. Os chineses, em 
particular, estavam muito à frente do Ocidente em termos 
de desenvolvimento tecnológico e eco-nômico. O que 
aconteceu para trazer uma onda de progresso econômico à 
Europa a partir do século XVII?
Para responder essa questão, segundo Weber, 
devemos mostrar o que separa a indústria moderna dos 
tipos anterio-res de atividade econômica. Encontraremos o 
desejo de acu-mular riqueza em muitas civilizações 
diferentes, e isso não é difícil de explicar: as pessoas 
valorizam a riqueza em relação a conforto, segurança, 
poder e prazer que ela pode trazer. 
Elas querem ser livres de carências e, tendo 
acumulado ri-queza, a utilizam para viver 
confortavelmente.
A religião no coração do capitalismo?
Segundo Weber, se olharmos o desenvolvimento 
econômi-co do Ocidente, encontraremos algo bastante 
diferente: uma atitude de acumulação de riqueza que não 
se encontra em nenhuma outra parte da história. Essa 
atitude é o que Weber chamou de “espírito do capitalismo” 
– um conjunto de cren-ças e valores encontrado nos 
primeiros mercadores e indus-trialistas capitalistas. Essas 
pessoas tinham um forte impulso de acumular riqueza 
pessoal. Ainda assim, ao contrário dos ricos em outras 
partes, eles não tentavam usar suas riquezas acumuladas 
para ter um estilo de vida luxuoso. Seu modo de vida, de 
fato, era de abnegação e frugalidade; eles viviam de forma 
sóbria e calma, ocultando as manifestações comuns de 
afluência. Essa combinação incomum de características, 
que Weber tentou mostrar, foi vital para o 
desenvolvimen-to econômico ocidental, pois, ao contráriodos ricos em eras anteriores e em outras culturas, esses 
grupos não dissipavam sua riqueza: pelo contrário, eles a 
reinvestiam para promover uma expansão maior das 
empresas que dirigiam.
O núcleo da teoria de Weber é que as atitudes envolvidas 
no espírito do capitalismo derivavam da religião. O cristianis-
mo, em geral, teve o papel de promover essa perspectiva, mas 
a força motivadora essencial foi proporcionada pelo impacto 
do protestantismo, em particular: o puritanismo. Os primeiros 
capitalistas eram principalmente puritanos, e muitos aderiam 
aos pontos de vista calvinistas. Weber argumentava que certas 
doutrinas calvinistas eram a fonte direta do espírito do capita-
lismo. Uma delas era a ideia de que os seres humanos são ins-
trumentos de Deus na Terra, chamados pelo Todo-Poderoso 
para trabalhar em uma vocação – uma ocupação para a glória 
maior de Deus.
Um segundo aspecto importante do calvinismo era a 
noção de predestinação, segundo a qual apenas certos indi-
víduos predestinados estão entre os “eleitos” – para entrar 
no paraíso, na vida eterna. Na doutrina original de Calvino, 
nada que uma pessoa faça na Terra pode mudar se ela é um 
dos eleitos; isso já foi predeterminado por Deus. Todavia, 
essa crença causava tanta ansiedade entre seus seguidores 
que foi modificada, permitindo que os crentes reconheces-
sem certos sinais de elegibilidade.
O sucesso no trabalho em uma determinada vocação, 
indicado pela prosperidade material, tornou-se o principal 
sinal de que uma pessoa era verdadeiramente um dos eleitos. 
Criou-se um forte ímpeto para o sucesso econômico entre 
grupos influenciados por essas ideias. Ainda assim, ele era 
acompanhado pela necessidade de que o crente vivesse uma 
vida sóbria e frugal. Os puritanos acreditavam que a luxúria 
era um mal, de modo que o impulso de acumular riqueza era 
ligado a um estilo de vida severo e simples.
Os primeiros empreendedores tinham pouca consciên-
cia de que estavam ajudando a fazer mudanças significativas 
na sociedade; eles eram impelidos, acima de tudo, por mo-
tivos religiosos. O estilo ascético – ou seja, abnegado – dos 
puritanos se tornou uma parte intrínseca da civilização mo-
derna. Conforme escreveu Weber:
_Livro_Giddens.indb 72_Livro_Giddens.indb 72 03/04/17 10:2003/04/17 10:20
Sociologia 73
Os puritanos querem seguir uma vocação.
Somos forçados a fazê-lo. Pois quando o ascetismo saiu das 
celas monásticas para a vida cotidiana, e começou a domi-
nar a moralidade mundana, ele fez a sua parte em construir 
o tremendo cosmos da ordem econômica moderna.... Desde 
que o ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se 
desenvolver, os bens materiais adquiriram um poder cada 
vez maior e finalmente inexorável sobre a vida dos homens, 
como em nenhum período anterior da história.... A ideia do 
dever na vocação ronda nossas vidas como o fantasma de 
crenças religiosas mortas. (1992, p. 182)
Avaliação
A teoria de Weber tem sido criticada por muitos ângulos. 
Alguns argumentam, por exemplo, que a perspectiva que ele 
chamava de “o espírito do capitalismo” pode ser identifica-
da nas primeiras cidades mercantes italianas do século XII, 
muito antes de se ouvir falar em calvinismo. Outros afirmam 
que a noção fundamental de “trabalhar em uma vocação”, 
que Weber associou ao protestantismo, já existia nas crenças 
católicas. Ainda assim, os elementos essenciais da visão de 
Weber ainda são aceitos por muitos, e a tese que ele defen-
dia permanece tão audaz e esclarecedora quanto na época em 
que foi formulada. Se a tese de Weber é válida, o desenvolvi-
mento econômico e social moderno foi influenciado decidi-
damente por algo que, à primeira vista, parece muito distante 
dele – um conjunto de ideais religiosos. Isso é algo que Marx 
não enxergou dentro das relações econômicas capitalistas.
A teoria de Weber cumpre vários critérios importantes 
do pensamento teórico em sociologia. Primeiramente, ela é 
contraintuitiva –sugere uma interpretação que rompe com 
aquilo que sugeriria o senso comum. Assim, a teoria desen-
volve uma perspectiva nova sobre as questões que aborda. A 
maioria dos autores antes de Weber quase não pensava na 
possibilidade de que ideias religiosas pudessem ter exercido 
um papel fundamental na origem do capitalismo. Em segun-
do lugar, a teoria dá sentido a algo que, de outra forma, se 
torna intrigante: por que os indivíduos quereriam viver fru-
galmente enquanto fazem grandes esforços para acumular ri-
queza? Em terceiro, a teoria é capaz de esclarecer circunstân-
cias além daquelas que se propunha a explicar originalmente. 
Weber enfatizava que estava tentando entender apenas as 
origens iniciais do capitalismo moderno. Todavia, parece ra-
zoável supor que valores paralelos aos instilados pelo purita-
nismo podem estar envolvidos em outras situações de desen-
volvimento capitalista bem-sucedido. Finalmente, uma boa 
teoria não é apenas aquela que se mostra válida. Também é 
aquela que é frutífera em termos do quanto gera novas ideias 
e estimula novas pesquisas.
A teoria de Weber, como a análise de Marx sobre o ca-
pitalismo, certamente é bem-sucedida nesses sentidos, pro-
porcionado um trampolim para uma vasta quantidade de 
pesquisas e análises teóricas subsequentes. A abordagem de 
Weber à sociologia também forma a base para a tradição co-
nhecida como interacionismo.
Interacionismo simbólico, fenomenologia e 
etnometodologia
Juntamente com Max Weber, credita-se ao behaviorista so-
cial norte-americano George Herbert Mead ter estabelecido 
as bases para uma abordagem geral da sociologia chamada 
interacionismo. Esse é um rótulo geral que cobre todas as 
abordagens que investigam as interações sociais entre indiví-
duos, em vez de partir da sociedade ou das estruturas sociais 
que a constituem. Os interacionistas muitas vezes rejeitam 
a própria noção de que as estruturas sociais existem objeti-
vamente, ou simplesmente não as levam em conta. Herbert 
Blumer (que cunhou o termo “interacionismo simbólico”) 
argumentava que toda a conversa sobre estruturas sociais ou 
sistemas sociais é injustificada, pois somente se pode dizer 
que existem, realmente, indivíduos e suas interações.
O interacionismo simbólico concentra-se na interação 
no nível micro e na maneira em que os significados são cons-
truídos e transformados entre os membros da sociedade. G. 
H. Mead (1934) argumentava que o self do indivíduo é um self
social, produzido no processo de interação, ao invés de ser
biologicamente dado. A teoria de Mead traça a emergência e
o desenvolvimento do self através de uma série de estágios na
infância, e suas ideias sobre o self social fundamentam grande
parte da pesquisa interacionista (ver o Capítulo 1 para uma
discussão das ideias de Mead). O lar dessa perspectiva, por
30 anos, até 1950, foi o departamento de sociologia da Uni-
versidade de Chicago (conhecido como a Escola de Chicago),
embora, de maneira alguma, todos os sociólogos de Chicago
fossem interacionistas simbólicos. O departamento também
era o lar da abordagem “ecológica” de Louis Wirth, Robert
E. Park e Ernest Burgess (ver o Capítulo 6, “Cidades e vida
urbana”, para uma discussão dessa abordagem). Todavia, a
base institucional para os principais interacionistas, incluindo 
Mead, foi um fator importante para ampliar a abordagem.
Possivelmente, o interacionista simbólico de maior êxito 
seja Erving Goffman. Os estudos de Goffman sobre os “asi-
los” mentais, processos de estigmatização e as maneiras em 
que as pessoas apresentam seus selves em encontros sociais 
se tornaram clássicos sociológicos, tanto por seu estilo meto-
dológico e observacional quando por seus resultados. Ao de-
senvolver sua “análise dramatúrgica”, que trabalha com a me-
táfora do teatro, as ideias de Goffman tiveram uma influência 
muito ampla sobre estudantes de todo o mundo.REFLEXÃO CRÍTICA
A teoria de Weber sobre a origem do capitalismo vai além do 
conceito de Merton de uma “teoria intermediária”. Porém, será 
que os estudos existentes podem testá-laefetivamente? Liste 
todos os elementos do capitalismo descritos por Weber. O que 
a teoria acrescenta à nossa compreensão da natureza, caráter 
e provável desenvolvimento futuro do capitalismo moderno?
_Livro_Giddens.indb 73_Livro_Giddens.indb 73 03/04/17 10:2003/04/17 10:20
TEORIAS DA 
COMUNICAÇÃO 
Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro
A Escola de Frankfurt e 
a Escola de Chicago
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Definir as características da produção da Escola de Chicago de Sociologia.
 � Identificar as particularidades metodológicas da Escola de Frankfurt
de Teoria Crítica.
 � Reconhecer as características de uma escola de pensamento.
Introdução
Neste texto, você conhecerá dois importantes movimentos da tradição 
sociológica do início do século XX: a Escola de Frankfurt e a Escola de 
Chicago. Essas duas escolas se vincularam a importantes institutos de 
pesquisas e universidades das cidades em que se desenvolveram. Apesar 
do tratamento conjunto de ambas, elas constituem dois movimentos 
diferentes, como você verá.
A Escola de Chicago de Sociologia
Os Estados Unidos têm abrigado diversas pesquisas sobre os meios de co-
municação. No início do século XX, os pesquisadores Robert Ezra Park 
(1864–1944), Ernest Burgess (1886–1966) e Charles H. Cooley (1864–1929) 
se reuniram em torno da Escola de Chicago. Essa escola, por meio de uma 
abordagem microssociológica sobre a cidade, passou a investigar o objeto da 
comunicação (ARAÚJO, 2013). Mais precisamente, desde a década de 1910, a 
comunicação no território norte-americano se encontra relacionada ao projeto 
de construção de uma ciência social sobre bases empíricas, sendo a Escola 
TC_U3_C09.indd 139 10/11/2017 15:19:53
de Chicago a sede desse mesmo projeto. Assim, a perspectiva microssociológica 
sobre os meios de comunicação que fazem parte da organização social é parte 
de uma reflexão mais ampla. Essa reflexão tem relação com o papel da ciência 
na resolução dos desequilíbrios sociais. 
A hegemonia da Escola de Chicago dura até por volta das vésperas da Segunda Guerra 
Mundial. Posteriormente, o enfoque da pesquisa sobre os Meios de Comunicação de 
Massa (MCM) é deslocado para análises quantitativas. Desse modo, nos anos 1940, a 
supremacia da Escola de Chicago é suplantada pela da Mass Communication Research 
(MATTELART; MATTELART, 1997b).
Contexto da Escola de Chicago
Nessa tradição teórica, a cidade se apresentava como um local privilegiado 
para se observar o processo comunicativo. Entre o final do século XIX e o 
início do XX, as cidades estavam passando por grandes transformações. Essas 
mudanças traziam impactos profundos nas relações estabelecidas entre as 
pessoas e nas atividades sociais que elas exerciam. Era preciso, então, outro 
olhar sobre a cidade, pois ela passara a se construir de forma muito diferente. 
Assim, nesse novo contexto urbano, marcado pela industrialização e pela 
urbanização, uma nova abordagem sobre a sociedade passava a ser “solici-
tada”. Ou seja, se requeriam estudos que trouxessem formas de compreender 
os problemas causados por esses acontecimentos. O crime, a prostituição, o 
abandono e a dependência eram alguns dos problemas que estavam associados 
ao aumento do anonimato, do isolamento entre os indivíduos e da incerteza 
incrementada pela vida moderna. Só que, além das mudanças sociais e econô-
micas trazidas pela industrialização e pela urbanização, as diversas formas de 
cultura de massa – tais como música, livro, revista, jornal, filme, etc. – foram 
apontadas como colaboradoras do aumento do crime, do declínio da moral 
social, do agravamento da brutalidade e da impessoalidade – esta última em 
virtude da perda da ligação com os outros indivíduos pertencentes a uma 
mesma comunidade (MCQUAIL, 2000).
Com a diminuição da integração social, os pesquisadores norte-americanos 
passaram a conceber os meios de comunicação de massa como possíveis 
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago140
TC_U3_C09.indd 140 10/11/2017 15:19:53
potencializadores dessa integração. No entanto, é importante você considerar 
o modo distinto de interpretação da influência gerada pelos MCM. Nesse 
sentido, a forma como os pesquisadores viam esses meios estava relacionada 
a uma atitude otimista ou pessimista do observador quanto às mudanças da 
sociedade. Logo, os meios de comunicação poderiam ser observados em termos 
negativos – em virtude do aumento do crime, da imoralidade e da solidão –, 
mas também positivos – pois poderiam ser capazes de ligar os indivíduos 
por meio de novas experiências. Ademais, a primeira parte do século XX se 
caracterizava tanto pelo ápice do nacionalismo, da revolução e do conflito 
social como pelo pensamento progressivo, pelo avanço da democracia e pela 
evolução científica e tecnológica (MCQUAIL, 2000, p. 39).
De 1915 a 1935, muitas pesquisas da Escola de Chicago foram dedicadas a temas como 
imigração e integração dos imigrantes na sociedade norte-americana. Robert Ezra Park, 
que era um jornalista militante pela causa negra, foi uma das figuras de destaque da 
Escola de Chicago. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30-31), Park transforma 
a sua prática jornalística e elabora uma forma “superior” de reportagem a partir das 
pesquisas sociológicas feitas nos bairros da periferia. Em um dos seus estudos sobre 
as comunidades étnicas, o pesquisador questiona a função assimiladora dos jornais 
e, em especial, das publicações feitas em línguas estrangeiras. Ele também reflete 
sobre a natureza da informação, o profissionalismo do jornalismo e a diferença entre 
informação e propaganda.
De acordo com Clark (1969 apud MCQUAIL, 2000), Robert Park e o seu aluno Herbert 
George Blumer (1900-1987) foram alguns dos que destacaram o potencial positivo 
dos meios de comunicação de massa na pesquisa realizada sobre a assimilação de 
imigrantes nos Estados Unidos. Além disso, para McCornack (1961 apud MCQUAIL, 
2000), os MCM também apresentavam um potencial positivo. Na sua perspectiva, 
uma sociedade moderna e em mudança se apresenta de forma segmentada. Nela, a 
única função dos meios de comunicação é proporcionar à indústria e à sociedade uma 
coerência, isto é, uma “síntese da experiência” e uma “consciência do todo”.
Características da Escola de Chicago
Uma das características fundamentais dessa escola é a objetividade cientí-
fica. Esse princípio leva a outros dois, que são: a investigação indutiva e a 
imparcial. Para essa tradição, a sociedade deve ser compreendida por meio 
do método científico, do indutivismo e da neutralidade. Esses métodos são as 
141A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 141 10/11/2017 15:19:53
bases dos estudos realizados pelas ciências naturais. Além disso, o enfoque 
sociológico dessa escola se dá no espaço da cidade, isto é, no meio urbano, em 
especial no que envolve as cidades norte-americanas e o processo de exclusão 
urbana. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30), a cidade é observada 
como um laboratório social: caracterizada pelos signos de desorganização, 
marginalidade, aculturação, assimilação e mobilidade, ela é o espaço privi-
legiado de estudo da Escola de Chicago.
O sociólogo alemão Georg Simmel (1858–1918) e o francês Gabriel Tarde 
(1843–1904) influenciaram as pesquisas norte-americanas sobre a cidade 
com seus conceitos próximos de “situações concretas”. Suas influências 
ajudaram os americanos a criar ferramentas científicas para analisar atitu-
des e comportamentos relativos ao espaço urbano. O biólogo alemão Ernest 
Haeckel (1834–1919) também exerce influência nos estudos dessa tradição 
sociológica por meio da noção de ecologia como a ciência das relações do 
organismo com o meio ambiente. Na ecologia humana ou economia biológica, 
expressão usada por Park, a luta pelo espaço é o que rege as relações entre 
os indivíduos. Essa luta ou competição é observada como um princípio 
de organização. Isso ocorreporque, nas sociedades dos homens, além da 
competição, existe a divisão do trabalho. Esses dois fatores resultam em 
formas de cooperação competitiva que constituem o nível biótico da orga-
nização humana. Há também o nível social ou cultural, que se impõe como 
direção ou controle. Assumido pela comunicação e pela moral, esse nível 
regula a competição, levando os indivíduos a partilharem uma experiência, 
se vinculando à sociedade.
Você pode encontrar ainda, no pragmatismo de John Dewey (1859–1951), 
George Herbert Mead (1863-1931) e, principalmente, Charles Cooley (1864-
1929), outras influências para essa escola. Cooley, inclusive, é anterior a Park 
na análise dos processos comunicacionais. É ele quem usa primeiramente a 
expressão grupo primário para indicar grupos que se constituem pela asso-
ciação e pela cooperação íntima entre si. Esse tipo de análise era importante 
para avaliar os impactos trazidos pela urbanização, pela industrialização e 
pelos novos meios de comunicação. Ela também era relevante para compre-
ender que o indivíduo poderia viver uma experiência singular e única, mas 
estava ao mesmo tempo submetido ao processo de homogeneização dessa 
experiência. Essa visão ambivalente sobre o processo de individualização do 
cidadão urbano surge na noção de mídia da Escola de Chicago, pois os MCM 
são observados tanto como elementos de emancipação do indivíduo como 
de aceleramento da superficialidade das relações sociais (MATTELART; 
MATTELART, 1997b, p. 35-36).
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago142
TC_U3_C09.indd 142 10/11/2017 15:19:54
Indutivismo
O indutivismo é uma das características marcantes da Escola de Chicago. 
Esse procedimento investigativo se relaciona à noção de objetividade, que é 
a base para a construção do objeto científico. A esse respeito, é importante 
você ficar atento ao que significa o indutivismo e à sua oposição com relação 
ao dedutivismo: enquanto o primeiro parte de uma realidade particular, o 
segundo é indagado por meio de uma hipótese levantada para a pesquisa, a 
qual se procura validar na prática.
No processo dedutivo, se parte de uma verdade já conhecida, já dada. 
Essa verdade funciona como um pressuposto geral. Assim, os casos a serem 
pesquisados serão demonstrados a partir dela. Dito de outro modo: na dedução, 
é demonstrado que uma verdade sabida se aplica a todos os casos particulares 
iguais, conforme aponta Chauí (2013, p. 78). É por esse motivo que comumente 
se fala que na dedução o pesquisador vai do geral ao particular ou do universal 
ao individual. Já na indução, o pesquisador segue o caminho oposto. Com 
ela, ele parte de casos particulares iguais ou semelhantes para procurar uma 
lei, definição, verdade ou teoria geral. Essa lei, por sua vez, poderá explicar 
todos esses casos particulares. Desse modo, a definição, explicação ou teoria 
não é dada no início nem é o ponto de partida da pesquisa, como no percurso 
dedutivo. Na trajetória investigativa de caráter indutivo, a teorização é o ponto 
final. É esse o trajeto seguido pela Escola de Chicago. Por meio desse método, 
essa escola estudaria os processos comunicativos pelo critério de objetividade 
científica, que é a base para a ciência. Além disso, você precisa saber que a 
razão é um importante elemento para guiar a indução, pois é formada por 
um conjunto de regras específicas. Se essas regras não forem consideradas, 
a indução poderá ser invalidada (CHAUÍ, 2013).
A Escola de Frankfurt de Teoria Crítica
De acordo com Wolf (1999), a Escola de Frankfurt de Teoria Crítica repre-
senta a corrente oposta da Mass Communication Research. Isso ocorre porque 
ela se contrapõe ao conhecimento que estava sendo elaborado pela Pesquisa 
Administrativa norte-americana. A Teoria Crítica é comumente associada 
ao grupo de pesquisadores que frequentaram o Instituto de Pesquisa Social da 
Universidade de Frankfurt, fundado em 1923. A identidade central da abor-
dagem crítica se dá na construção analítica dos fenômenos investigados e na 
capacidade de relacionar esses fenômenos às forças sociais que os engendram. 
143A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 143 10/11/2017 15:19:54
Desse modo, a pesquisa dessa teoria se propõe como uma teoria social ou 
da sociedade vista como um todo. Vale a pena você considerar que esse é 
um forte ponto de contraposição da Teoria Crítica à Pesquisa Administrativa. 
Isso pois a Pesquisa Administrativa se especializa em disciplinas setoriais, 
as quais se dedicam a estudar campos de competência distintos. Então, essas 
disciplinas acabam, por meio dessa múltipla diferenciação e especialização, 
se desviando do entendimento da sociedade de forma global. Além disso, 
exercem muito mais uma função de manutenção da ordem social existente, 
no ponto de vista dos estudiosos críticos. Nas palavras de Wolf (1999, p. 83), 
“[...] a teoria crítica pretende ser o oposto, pretende evitar a função ideológica 
das ciências e das disciplinas setorializadas.”.
Desse modo, a Teoria Crítica não trabalha com a noção de dados como 
informações extraídas da realidade. Nessa abordagem, os dados são produtos 
históricos, se constituem numa situação histórico-social determinada. É por 
isso que essa teoria é nomeada de Teoria Crítica ou de caráter crítico: nessa 
visão, não há dados ou verdades absolutas. Ela é uma teorização, uma pesquisa 
ou um estudo que se faz na prática. 
A análise realizada pela Escola de Frankfurt envolve uma investigação teórica que é 
contextualizada na sua prática. Dito de outro modo, a teoria deve partir da prática, 
pois é na prática que os problemas sociais surgem. Nessa concepção de pesquisa, os 
resultados obtidos na investigação feita por essa escola também devem ser ancorados 
na realidade.
Contexto da Escola de Frankfurt
Durante a República de Weimar – que é a forma histórica de nomear o Estado 
alemão entre os anos de 1919 e 1933 –, o filósofo e sociólogo alemão Max 
Horkheimer (1895–1973) e o economista, cientista social e filósofo alemão 
Friedrich Pollock (1894–1970) fundam o Instituto de Pesquisa Social. Esse 
instituto também é conhecido como Escola de Frankfurt, pois era filiado 
à Universidade de Frankfurt. Essa instituição se tornou famosa por ser a 
primeira de origem alemã de abordagem teórica marxista. No início, seus 
estudos tomam como objeto tanto a economia capitalista como a história do 
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago144
TC_U3_C09.indd 144 10/11/2017 15:19:54
movimento operário. Em e 1930, quando Horkheimer passa a assumir a direção 
do instituto, ele traz um novo direcionamento ao programa. 
Após a tomada do poder por Hitler, com a ascensão do nazismo, Horkheimer 
foi desligado da direção do centro e, com essa ação, todos os membros judeus 
fundadores também o foram. O instituto acaba sobrevivendo porque, desde a 
sua origem, era financiado por empresários que faziam parte da comunidade 
judaica. Com a transferência dos fundos do centro para os Países Baixos – 
antiga denominação da costa da Europa ocidental que abarcava principalmente 
a Holanda e a Bélgica –, se criam anexos para dar continuidade aos estudos do 
instituto, como em Genebra e Paris. Entre os anexos criados, o único conside-
rado estável para os pesquisadores exilados foi o da Universidade Columbia, em 
Nova Iorque. Lá, Horkheimer, o sociólogo alemão Leo Löwenthal (1900–1993) 
e o filósofo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno (1903–1969) passam a 
trabalhar em um dos prédios cedidos pela universidade norte-americana, em 
especial no chamado Institute of Social Research (Instituto de Pesquisa Social) 
(MATTELART; MATTELART, 1997a; WOLF, 1999).
Caraterísticas da Escola de Frankfurt
Os filósofos da Escola de Frankfurt se inspiraram na perspectiva marxista não 
ortodoxa (marxismo libertário) de interpretar a história. Esse método, contudo, 
passou por modificações porque foi retomado em confluência com outras 
áreas do saber, tais como a filosofia da cultura, a ética e a psicossociologia.O 
projeto dos filósofos era unir Marx e Freud. De maneira geral, Horkheimer e 
Adorno compartilham do ponto de vista epistemológico comum e se opõem 
à visão empírica adotada pelos estudos norte-americanos. Para eles, não era 
o objeto da pesquisa que deveria ser adaptado aos métodos empregados, mas 
os métodos ao objeto.
Exilados nos Estados Unidos, Horkheimer e Adorno questionaram a trans-
formação cultural ocorrida a partir dos anos 1940. Essa escola de pensamento 
crítico se interroga, assim, sobre as consequências do desenvolvimento dos 
novos meios de produção e transmissão cultural, recusando a ideia de que as 
inovações tecnológicas fortaleceriam necessariamente o sistema democrático. 
Dito de outro modo, a Teoria Crítica observa os meios de comunicação de massa 
como meios de poder e dominação (MATTELART; MATTELART, 1997a).
Uma das críticas feitas pela Teoria Crítica se dá quanto à separação do 
indivíduo da sociedade, separação esta que é resultado da histórica divisão de 
classes. Nessa avaliação, a Escola de Frankfurt apresenta a sua tendência para 
a crítica dialética da Economia Política (Marxismo). Desse modo, o ponto de 
145A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 145 10/11/2017 15:19:54
partida dos estudos críticos é a análise do sistema econômico de mercado (o 
capitalismo). Além da retomada dos aspectos fundamentais do materialismo 
marxista, os pesquisadores dessa escola realizam uma abordagem original: 
Horkheimer, Adorno, Marcuse e Habermas, só para citar alguns, observam 
os temas estruturais da sociedade, como autoritarismo, indústria cultural e 
transformação dos conflitos sociais em sociedades industrializadas, por meio 
dos fenômenos supraestruturais da cultura. E, ao fazerem isso, observam que 
as ciências sociais que se reduzem a técnicas de pesquisa e classificação de 
dados supostamente “objetivos” ignoram as suas possibilidades de intervenção 
e modificação social (WOLF, 1999).
Indústria cultural é uma expressão usada por Adorno e Horkheimer pela primeira 
vez na obra Dialética do Iluminismo, iniciada em 1942 mas só publicada em 1947. Essa 
expressão, empregada para substituir cultura de massa, foi usada para indicar um 
sistema de produção, transmissão e consumo cultural promovido pelos meios de 
comunicação de massa, os quais impõem uma padronização e uma organização 
dos gostos do público. À primeira vista, as necessidades dos indivíduos parecem ser 
atendidas, porém esses indivíduos são inseridos em um círculo de manipulação que 
atende perfeitamente à lógica do sistema capitalista. Além disso, a indústria cultural 
fornece um ar de similitude a todos os bens que, padronizados, servem para “satisfazer” 
às demandas – estas são supostamente os critérios a que os padrões de produção 
devem atender. Com esse modo industrial de produção cultural, objetos são construídos 
por meio de uma marca de serialização-padronização-divisão do trabalho. Assim, a 
racionalidade técnica, supervalorizada na sociedade, promove a transformação da 
cultura em mercadoria e, consequentemente, dissolve e degrada o seu papel e o seu 
traço crítico (WOLF, 1999, MATTELART; MATTELART, 1997a).
Assim, a Teoria Crítica acaba sendo, ou pelo menos tenta ser, uma teoria 
da sociedade que busca uma avalição crítica do próprio fazer científico. 
Ademais, a Sociologia, disciplina, aliás, que é retomada pela Escola de Frank-
furt, só se transforma em crítica da sociedade quando considera as tensões 
que existem nela, tais como as que ocorrem entre as instituições e a vida, sem 
dissolver o social no natural (WOLF, 1999).
Por fim, é importante que você saiba que a Escola de Frankfurt se baseia 
no materialismo, influenciado pelos estudos de Karl Marx (1818–1883) e 
Friedrich Engels (1820–1895). No entanto, esse método é abordado pela escola 
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago146
TC_U3_C09.indd 146 10/11/2017 15:19:54
por meio da interdisciplinaridade, uma vez que é formado pelos seguintes 
campos de estudo: Economia Política (Marxismo), Sociologia (Teoria da 
Cultura), Psicologia (em especial a Psicanálise) e Epistemologia (esta também 
é conhecida como Filosofia ou por meio da nomeação Teoria do Conhecimento). 
Além disso, o materialismo é interdisciplinar porque é tomado a partir da 
situação prática da teorização.
O marxismo permitiu entender que os “fatos” humanos são instituições sociais e 
históricas. Portanto, são produzidos pelas condições sociais e históricas nas quais as 
ações e os pensamentos se realizam. Você pode considerar também que os ditos fatos 
humanos “primários” foram as relações dos homens com a natureza em busca de 
sobrevivência. Dessas relações, surgiram as de trabalho e, a partir delas, foram criadas 
as primeiras instituições sociais, a saber, a da família, a do pastoreio e agricultura, a da 
troca e comércio. Então, as primeiras instituições sociais originadas foram as econômicas. 
Para que elas fossem mantidas, os grupos sociais precisaram elaborar ideias e valores 
aceitos por todos, de tal forma que legitimassem a importância e a necessidade 
das instituições criadas. Além dessas ideias e valores, instituições de poder foram 
elaboradas para sustentar as relações sociais e esses mesmos valores (ou ideologias) 
produzidos. Assim, você pode afirmar que o marxismo ofereceu uma base para que 
as ciências humanas pudessem entender as relações entre o plano psicológico e 
social da existência do homem; entre o econômico e as instituições sociais e políticas; 
entre todas essas supracitadas e o conjunto de ideias e práticas produzidas por uma 
sociedade. Ademais, o marxismo possibilitou a compreensão de que as modificações 
ocorridas ao longo da história resultam de processos sociais, políticos e econômicos 
que são lentos, e não instantâneos. E é a materialidade da vida econômica que 
comanda as esferas da vida do indivíduo. Por fim, ciências como Sociologia, Ciência 
Política e História, à luz das ideias discutidas pelo marxismo, passaram a observar os 
fenômenos humanos como resultados de contradições, lutas e conflitos determinados 
pelas relações econômicas que exploram o trabalho da maioria em virtude de uma 
pequena minoria privilegiada da sociedade (CHAUÍ, 2013, p. 307).
A constituição de uma escola de pensamento
Do ponto de vista de Guillemard (apud BECKER, 1996), uma escola de 
pensamento consiste em um grupo de pesquisadores que compartilham um 
“pensamento” ou uma fundamentação epistemológica. Dito de outro modo, 
compartilham ideias gerais, pontos e questões de pesquisas e estudos. Eles 
147A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 147 10/11/2017 15:19:54
não necessariamente precisam estar juntos, nem trabalhar no mesmo espaço, 
nem ter se encontrado fisicamente. Assim, você pode considerar que uma 
escola de pensamento se caracteriza por apresentar objetivos, programas de 
pesquisa e referenciais teóricos em comum. No entanto, a noção de escola 
não se fundamenta numa suposta homogeneidade compartilhada entre os 
pesquisadores. Isso significa que, embora existam pesquisas em torno de 
teorias e objetivos partilhados, o que permite abarcá-las em uma categorização 
específica – pertence a uma escola X, que se diferencia da escola Y, ou, ainda, 
é da Escola de Chicago ou da Escola de Frankfurt, por exemplo –, é preciso 
pensar que há variações dentro de cada escola de pensamento. Logo, podem 
existir distintos resultados obtidos pelas pesquisas realizadas por pesquisadores 
de uma mesma escola.
A respeito dessa discussão, é importante você saber o seguinte: de maneira 
geral, para que um determinado conjunto de investigações seja agrupado como 
uma escola de pensamento específica, é preciso que sejam atendidas algumas 
condições. Entre essas condições, estão a abertura para interdisciplinaridade 
nas pesquisas; a ligação com uma universidade, um instituto e/ou um centro 
de pesquisa; a presença de representantes que são líderes; e a constituição 
de uma forte rede acadêmica de pesquisa(BECKER, 1996).
O conhecimento científico 
Discutir sobre o que significa uma escola de pensamento leva também a pensar 
sobre o que significa produzir conhecimento científico. Fazer científico, ciência 
e objetividade científica, por exemplo, são palavras usadas frequentemente 
para tratar da produção teórica dentro de um domínio metodológico guiado por 
regras da razão, isto é, do que comumente se define como “ciência”. Mas o que 
é a própria ciência? Não é possível falar ao certo nem definir objetivamente o 
que é a ciência. Algumas definições situam o conhecimento científico como 
parte das disciplinas sociais e excluem desse domínio as áreas humanas. Outras 
reduzem a atividade científica a uma suposta busca “desinteressada” pelo 
conhecimento verdadeiro; e há ainda as que a identificam com a tecnologia. 
Para muitos, a ciência constitui um conjunto de conhecimentos “puros” que 
são produzidos por métodos objetivos, rigorosos, neutros, os quais capturam o 
real de forma diferente da filosofia e da arte, por exemplo (JAPIASSU, 1975).
Embora pareça ser uma discussão simples, não se tem uma resposta. Na 
verdade, há várias. E sabe por quê? Porque não há uma definição certa e uma 
errada, nem uma definição “verdadeira” em oposição a uma “falsa”, nem 
muito menos imparcialidade e neutralidade na forma de definir e conceituar. 
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago148
TC_U3_C09.indd 148 10/11/2017 15:19:54
A própria elaboração do conhecimento não pode ser objetiva – aqui no sentido 
estrito do termo –, pois a ciência pode ser muitas coisas: a procura de um 
saber, uma forma de interpretar o real, uma instituição com suas instâncias 
administrativas, políticas ou ideológicas e até uma “aventura” intelectual 
que conduz a um conhecimento teórico ou a uma pesquisa específica. Dito 
de outro modo, não há ciência “pura”. A ciência é um “produto humano” 
que funciona dentro de um contexto sócio-histórico. Logo, o cientista é um 
indivíduo social, política e historicamente situado e não dotado de um saber 
inteiramente racional e objetivo. 
A razão do cientista não é imutável; ela pode mudar ao longo do tempo e 
do espaço, além de sofrer influência da sua subjetividade. Logo, a escolha do 
objeto a ser estudado deve ser observada por meio de algumas perspectivas: 
nunca sendo um ato neutro, pode ter considerável influência do olhar pessoal 
do pesquisador. Contudo, também é possível que o pesquisador opte por 
investigar um objeto que esteja além do seu campo de atuação ou escolha 
pessoal. Seja qual for o caminho que leve à escolha do objeto pesquisado, é 
possível que a pesquisa seja desenvolvida por meio de influências pessoais, 
mas não seja determinada por elas (CORDEIRO, 2017). 
As noções de neutralidade e/ou imparcialidade foram trazidas dos estudos das ciências 
sociais. Contudo, não existem neutralidade e imparcialidade no sentido estrito. O 
que existe é a referenciação da pesquisa no seu contexto social. Nesse sentido, a 
pesquisa científica se insere dentro de um processo que envolve a escolha sobre o 
tema a ser estudado e a forma de sua abordagem (referencial teórico-metodológico). 
Nesse processo, é possível que a opinião do pesquisador – que é um sujeito como 
qualquer outro, influenciado pelas suas experiências e pelas condições sócio-históricas 
da sociedade em que vive – influencie ou interfira durante a investigação do objeto 
estudado, porém ela pode também não ser determinante (CORDEIRO, 2017).
Considerações finais
Como você observou, a Escola de Chicago de Sociologia e a Escola de 
Frankfurt de Teoria Crítica constituíram dois movimentos teóricos que 
ocorreram no início do século XX. Embora tenham se caracterizado como 
tradições distintas dos estudos sobre os meios de comunicação de massa, essas 
149A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 149 10/11/2017 15:19:54
duas escolas de pensamento estavam associadas a importantes institutos de 
pesquisas e instituições universitárias, a saber, a Universidade de Chicago 
e a Universidade de Frankfurt, respectivamente. Além disso, partiam de 
referenciais teóricos distintos. Na primeira, o estudo microssociológico das 
interações sociais reside na metodologia etnográfica. Já na segunda, o objeto 
conduz a metodologia investigativa, e a teoria (ou o estudo teórico do objeto) 
deve ser ancorada ou embasada na prática. 
Ademais, a Escola de Chicago se baseia na investigação indutiva. Isto é, ela 
estuda os processos comunicativos a partir da noção de objetividade científica, 
destacando a racionalidade como elemento para a trajetória da pesquisa. Já a 
Teoria Crítica se baseia no materialismo interdisciplinar, o qual se caracteriza 
por ancorar a teoria na prática, isto é, por posicionar e contextualizar o conhe-
cimento. Para a Teoria Crítica, o que existe são situações e práticas marcadas 
pela história ou ainda diagnósticos parciais da realidade, e não verdades 
absolutas. Desse modo, se os pesquisadores dessa abordagem fossem estudar 
um problema social qualquer, como o aumento da taxa de analfabetismo em 
certas cidades brasileiras e a sua diminuição em outras, os dados referentes 
a essas taxas deveriam ser apresentados por meio de uma contextualização, 
uma ancoragem no contexto social, e não serem pressupostos por meio de uma 
análise empírica que se atém a uma verdade a ser verificada ou validada. A 
Escola de Chicago analisaria esse problema por meio do contato direto com 
uma cidade em particular, por exemplo, levantando dados próprios. A partir 
daí, se tentaria chegar a uma explicação geral sobre o aumento dessa taxa por 
meio de uma construção teórica específica. Você pode considerar que ambas 
as escolas revolucionaram a forma de analisar a vida social na sua época.
A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago150
TC_U3_C09.indd 150 10/11/2017 15:19:54
151A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago
TC_U3_C09.indd 151 10/11/2017 15:19:55
ARAÚJO, C. A. A pesquisa norte-americana. In: HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, 
V. (Coord.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 13. ed. Petrópolis: 
Vozes, 2013. p. 119-130.
BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 177-188, 1996.
CHAUÍ, M. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2013.
CORDEIRO, R. Q. F. Nominações, vozes e pontos de vista sobre a loucura na e pela mídia: 
da reforma psiquiátrica ao boom das doenças mentais. 2017. 474 f. Tese (Doutorado 
em Linguística)–Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de 
Pernambuco, Recife, 2017.
JAPIASSU, H. Introdução. In: JAPIASSU, H. O mito da neutralidade científica. Rio de 
Janeiro: Imago, 1975. p. 8-18.
MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Indústria cultural, ideologia e poder. In: MATTELART, A.; 
MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1997a. p. 73-112.
MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Os empirismos do novo mundo. In: MATTELART, A.; 
MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1997b. p. 29-56.
MCQUAIL, D. Teorias. In: MCQUAIL, D. Teorias da comunicação de massas. Lisboa: 
Gulbenkian, 2000. p. 1-164.
WOLF, M. A teoria crítica. In: WOLF, M. Teorias da comunicação. 5. ed. Lisboa: Presença, 
1999. p. 82-99.
Leituras recomendadas
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação 
de massa. In: LIMA, L. C. Teoria da cultura de massa. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. 
p. 169-220.
BECKER, H. S. Métodos de pesquisa em ciências sociais. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
JAPIASSU, H. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
RUFATO, M. de A. Imigração e relações raciais na cidade moderna: a teoria social de 
Louis Wirth. 2010. 147 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia)–Faculdade de Filosofia, 
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
ANTROPOLOGIA 
E CULTURA 
Priscila Farfan Barroso
O que é antropologia: 
ramificações e atribuições
Objetivos de aprendizagem
Ao final destetexto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
� Justificar a construção do pensamento antropológico.
� Definir as ramificações e atribuições da antropologia.
� Descrever os encaminhamentos da antropologia nas últimas décadas.
Introdução
Antropologia pode ser melhor compreendida enquanto disciplina cien-
tífica a partir do seu desenvolvimento ao longo do tempo. Desde os 
primeiros viajantes que entraram em contato com outros povos até o 
intenso contato cultural permitido pela globalização, está em questão o 
modo como olhamos aqueles que são diferentes de nós. Assim, refletindo 
sobre esse olhar podemos conhecer e aprofundar a compreensão e o 
entendimento dos povos existentes. 
Neste capítulo, você aprofundará o seu conhecimento sobre a constru-
ção do pensamento antropológico, além de conhecer suas ramificações 
e atribuições existentes. Com isso, perceberá quais são as possibilidades 
de aplicações conceituais em nosso cotidiano.
Construindo o pensamento antropológico
Você busca explicações para o que acontece no mundo? Você se questiona por 
que algo aconteceu de um jeito e não de outro? Você tem curiosidade sobre 
as formas de vida de outras culturas? Pensar sobre o que os homens fazem, 
como fazem e por que fazem, faz parte da racionalidade humana (Figura 1). 
Esses questionamentos possibilitam ao homem refletir sobre sua condição 
humana no mundo, e assim compreender modos de viver diferentes dos seus. 
Figura 1. A famosa estátua “O Pensador”, de Auguste Rodin, que simboliza o pensamento 
humano.
Fonte: Ghiraldelli (2013).
Como nos ensina o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira (2000), cabe 
ao pesquisador olhar, ouvir e escrever sobre o encontro etnográfico, a fim de 
produzir o registro sobre outras sociedades. Por isso, a aprendizagem desses 
três atos de forma sistemática e metodológica permite o desenvolvimento do 
pensamento antropológico e uma maior atenção para com o mundo que nos 
rodeia. Assim, você começará conhecendo como foram os primeiros contatos 
com povos distantes que originaram a formação de uma literatura etnográfica. 
Nos séculos XVI-XIX, as viagens às Índias, as descobertas realizadas 
pelos europeus para expansão colonial e o comércio exterior nos altos mares 
do Oceano Pacífico resultaram em relatos, escritos e descrições. Esse material 
era produzido por viajantes, aventureiros, missionários, administradores 
coloniais, sobre a experiência dos encontros com outras culturas e sociedades, 
integrando os primeiros registros do encontro com o outro. As descrições 
apresentavam, muitas vezes, esses povos como pitorescos e assustadores, 
principalmente aqueles que tinham a prática do canibalismo. Mas, pela forma 
de se organizar socialmente, de habitar o mundo e de se comportar, os povos 
indígenas eram vistos pelos europeus como seres primitivos, selvagens, mais 
O que é antropologia: ramificações e atribuições2
próximo dos animais do que dos humanos. O historiador e cronista português 
Gândavo (2004, p. 135) conta as impressões sobre os indígenas:
A língua que usam, por toda costa [...] Carece de três letras convém a saber, 
não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim 
não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e essa maneira vivem desordenadamente, 
sem terem além disto conta, nem peso, nem medida.
Deste modo, a vida nos trópicos da América do Sul causava estranha-
mento aos europeus que esperavam dominar esses povos e levar a verdadeira 
“civilização” a eles. 
O livro do viajante de Hans Staden, Viagem ao Brasil, conta sobre o encontro com os 
indígenas na América do Sul, as relações entre esses povos com os portugueses e como 
se dava os ritos e cerimônias dos ditos “selvagens”. Em um dos trechos, ele apresenta 
a antropofagia presente nesses povos: 
Voltando da guerra, trouxeram prisioneiros. Levaram-nos para sua cabana: mas 
a muitos feridos desembarcaram e os mataram logo, cortaram-nos em pedaços 
e assaram a carne [...] Um era português [...] O outro chamava-se Hyeronimus; 
este foi o assado de ontem. (STADEN, 1930).
Ramificações e atribuições da antropologia
Podemos dizer que a Antropologia tem ramificações com origens, caracterís-
ticas, conceitos e representantes diferentes. Vamos chamar essas ramificações 
de “paradigmas” (OLIVEIRA, 1988), já que alguns não são escolas, propria-
mente constituídas como tal, e assim, conseguimos agrupar seus elementos 
característicos para destacar a importância e contribuição de cada. 
Evolucionismo Social
A partir de 1830, influenciada pelas ideias evolucionistas da Biologia, surge 
o embrião de uma antropologia evolucionista, na Inglaterra. O filósofo inglês 
Herbert Spencer foi um dos maiores influenciadores, pois apostava na escala 
3O que é antropologia: ramificações e atribuições
evolutiva ascendente, baseada na noção de “estágios”, de modo que todos os 
seres humanos, em sociedade, passariam por cada processo até que evoluíssem 
(BARNARD; SPENCER, 2002). 
Essas ideias foram apropriadas para o estudo do homem e reforçaram a 
explicação de que as sociedades passariam pelos mesmos estágios até que 
se alcançassem a “civilização”, sendo essa um processo unilinear. Assim, 
durante o século XIX, temos três representantes do evolucionismo social, são 
eles: Lewis Henry Morgan, Edward Burnett Tylor e James George Frazer. 
Morgan era norte-americano e trabalhou por muito tempo entre os Iroque-
ses, que viviam no Lago Erie da América do Norte, e outros povos americanos, 
em contato com os nativos por meio da tradução de um intérprete. Ele investigou 
as formas de governo, o sistema de parentesco e questão da propriedade, a fim 
de estabelecer evidências na sistematização do progresso humano. 
O inglês Tylor realizou estudos comparativos a partir da ideia de uni-
dade psíquica humana. Seu objetivo era dissecar a civilização em detalhes e 
classificá-los em graus apropriados, sendo que, para ele, era mais importante 
compreender a distribuição geográfica e histórica do que a vida dos nativos. 
Nesse sentido, o autor se apoiava em relatos de fenômenos das culturas aná-
logas, que eram tomadas como evidências dessa progressão. 
Frazer era escocês, mas atuou como professor na Inglaterra. Ele queria 
encontrar leis gerais que pudessem ser presumidas de fatos particulares nas 
diferentes sociedades. Na sua obra O Ramo de Ouro (1890), ele estudou a 
magia nas sociedades primitivas como sendo o embrião de um processo 
contínuo e evolutivo para chegar no desenvolvimento da ciência, tal qual se 
dá nas sociedades contemporâneas. 
Para conhecer mais sobre o pensamento do Evolucionismo cultural e suas ideias bases, 
você pode ler o livro Evolucionismo cultural de Castro, 2005. 
O que é antropologia: ramificações e atribuições4
Escola Sociológica Francesa
Fundada por Émile Durkheim, no final do século XIX, essa escola defende 
que a sociedade é uma realidade sui generis. Em 1895, ele publicou o livro As 
regras do método sociológico, apresentando esta proposta metodológica para 
o estudo da sociedade. Portanto, caberia a sociologia estudar os ‘fatos sociais’, 
sendo que eles agiriam sobre os indivíduos de forma coercitiva, externa e geral. 
O seu sobrinho, Marcel Mauss (1974, p. 41), deu continuidade às suas 
ideias e aprofundou a abordagem de estudo, pois, para ele, o estudo da 
sociedade, a partir de características, poderia elucidar a totalidade dessa 
sociedade, chegando, então, ao conceito de “fato social total”. Com isso, 
por meio do método comparativo, Mauss estudou a reciprocidade e a troca 
de objetos entre pessoas ou grupos sociais defendendo a dádiva como fun-
damento da vida social. 
Esse compromisso é entendido como o vínculo das almas em que se deve 
dar um presente, não se deve recusá-lo e ainda é preciso retribuí-lo. A leitura 
feita por Mauss é de que o objeto ainda tem algo do doador, mas permanece 
com o recebedor, e, entre eles, se estabelece uma parceria e também uma 
condição hierárquica. Ou seja, as trocas sociais que fundam a reciprocidade 
estão em um“sistema de prestações totais”, (MAUSS, 1974, p. 45) que tem 
caráter voluntário (aparentemente livre e gratuito) e obrigatório (imposto e 
interessado), e essas trocas perpassam fenômenos jurídicos, econômicos, 
religiosos, estéticos e mesmo morfológicos. 
Funcionalismo
Considerado o pai da Antropologia Britânica, Bronislaw Malinowski (1984) desen-
volveu uma análise por meio do funcionalismo e afirmava que todas as partes de 
uma cultura local desempenham um papel de funcionamento. Logo, o pesquisador 
teria que fazer um trabalho de campo intensivo para apreender todos os detalhes 
culturais. No início, esses detalhes pareceriam arbitrários e sem sentido – tanto 
nas práticas da população local, quanto no modo das pessoas sobreviverem no 
ambiente local – mas, com a acumulação de dados anotados durante o tempo 
em que o pesquisador permanece em campo, alguns núcleos de sentido viriam 
à tona, e o antropólogo seria o mediador dos significados da sociedade do outro.
Entre 1914 e 1918, ele foi autorizado a realizar trabalho de campo na Nova 
Guiné, entre os trobriandeses, aprendendo o uso da língua nativa, por meio 
da observação participante entre os nativos, o que possibilitou, em 1992, a 
publicação do livro Argonautas do Pacífico Ocidental. 
5O que é antropologia: ramificações e atribuições
Enquanto Malinowski aposta no aprofundamento de estudo sobre uma 
cultura, Radcliffe-Brown (2013) se baseia em uma perspectiva metodológica 
comparativa, uma vez que ele prefere traçar comparações entre o povo estu-
dado e outros povos. Seu objetivo era realizar generalizações sobre a forma 
estrutural da sociedade e entender sua continuidade ao longo do tempo. 
Assim, Malinowski e Radcliffe-Brown rompem definitivamente com 
os fundamentos tradicionais da antropologia e adotam uma orientação 
sincrônica do estudo da sociedade, de maneira científica. Para o primeiro, 
deve-se analisar a totalidade dos aspectos da cultura nativa, como o pes-
quisador a vê, com o objetivo de delinear as leis e padrões de todos os 
fenômenos culturais (MALINOWSKI, 1984). Já para o segundo, cabe o 
estudo da sociedade humana na perspectiva de seus fenômenos sociais, 
nos quais se buscam relações existentes – de caráter funcional - entre as 
formas de associação dos indivíduos, de modo a estabelecer características 
gerais das estruturas sociais apreendidas através de observações reais 
(RADCLIFFE-BROWN, 2013).
Culturalismo norte-americano
Franz Boas se opôs aos métodos dedutivistas das análises comparativas e 
defendeu o método da indução empírica, a fim de não enquadrar os fenômenos 
em um conceito que não lhe cabia. Assim, ele analisou os costumes semelhantes 
entre tribos vizinhas, para traçar paralelos considerando o contexto social na 
perspectiva histórica e geográfica. Logo, Boas preferiu elucidar o conceito de 
cultura de modo plural, holístico, integrado, de acordo com regiões culturais 
determinadas, para só então estabelecer leis gerais e generalizações teóricas.
Ruth Benedict e Margereth Mead são discípulas de Boas e dão continuidade 
aos estudos de culturas particulares, a partir dos anos 20 nos Estados Unidos. 
Esses estudos levam em consideração a noção de cultura como transmissão 
geracional e a formação da personalidade na relação entre o indivíduo e o 
grupo. Em 1934, Benedict publica seu livro Padrões de cultura. Nele, aborda 
as configurações das feições culturais para compreender o papel da cultura na 
definição da personalidade. Mais tarde, Mead publica Sexo e Temperamento, 
em 1935, e apresenta a relação entre o temperamento e os diferentes papéis 
sexuais em termos de um padrão dominante. 
O que é antropologia: ramificações e atribuições6
Acesse o link a seguir e veja um dos documentários 
produzidos pela antropóloga Margaret Mead em 
sociedades das ilhas do Pacífico.
https://goo.gl/SbMweA
Estruturalismo
Em 1908, Claude Lévi-Strauss nasce em Bruxelas, mas é em Paris que ele será 
reconhecido como antropólogo renomado. Seus estudos buscavam a análise das 
estruturas da mente humana, a fim de evidenciar as estruturas das sociedades 
como relações constantes, apesar da diversidade e das diferenças entre elas. 
Assim, por meio das estruturas do inconsciente, estudadas nos fenômenos 
conscientes, Lévi-Strauss (1973) acessaria as leis gerais do pensamento humano 
e, nessa estrutura rígida e imutável, desvendada no plano lógico, estariam 
articuladas simbolismos e ação social.
Um de seus estudos, As estruturas elementares do parentesco, de 1947, 
investigou as classificações definidas pelos membros de um grupo em 
relação ao sistema de parentesco e a aliança das sociedades, permeando 
questões que perpassariam das sociedades primitivas até as sociedades 
ditas contemporâneas. 
A proibição do incesto é explicada sociologicamente como um tabu que 
impediria os grupos de se fecharem entre si, de modo que a aliança entre os 
grupos proporia relações de consanguinidade. Ao mesmo tempo, a circulação 
de mulheres asseguraria a troca entre os indivíduos e os grupos. 
Antropologia nas últimas décadas
Em 1973, Clifford Geertz publica A interpretação das culturas, fundando 
a Antropologia Interpretativa nos Estados Unidos, baseada no paradigma 
hermenêutico. Geertz se filiou às ideias de Evans-Pritchard, no que se referia 
7O que é antropologia: ramificações e atribuições
a questionamento da antropologia como ciência e na proposição de um caráter 
mais interpretativo para a disciplina, aproximando-a de outras matérias no 
âmbito das Ciências Humanas. Para ele, “a cultura não era mais gramática 
a ser desvendada, e sim uma língua a ser traduzida a partir da cultura do 
antropólogo para os membros de outras culturas” (BARNARD, 2003, p. 158). 
Assim, Geertz foi o expoente interpretativista na antropologia americana.
O conceito de cultura, em Geertz, terá um caráter semiótico e será designado 
como teia de significados constituída pelo homem, conforme inspiração em 
Max Weber, o que dá abertura para estabelecer o seu estudo a partir de uma 
ciência interpretativa, na busca por significados, e não necessariamente por leis 
que regem a sociedade. Nesse sentido, a “cultura é compreendida como uma 
entidade relativamente autônoma que o antropólogo tem como desafio desvendar 
os símbolos presentes através da interpretação” (GEERTZ, 2008, p. 15).
Nesse sentido, caberia ao antropólogo a prática etnográfica, realizando 
uma “descrição densa” (GEERTZ, 2008, p. 13) sobre a cultura do outro, por 
meio de escritos em diários, genealogias entre os indivíduos, mapeamento do 
campo de modo sistemático, para compreender o contexto cultural em que 
ocorre a ação simbólica. Essa interpretação elucidada não é única e também 
não reivindica status de verdade absoluta, é apenas uma afirmação etnográfica 
sobre sua interpretação das estruturas de significado socialmente estabelecidas.
Os estudos de Geertz sobre as brigas de galo balinesa, em 1958, apresentam expressões 
simbólicas de disputas e desavenças que representam as relações entre os homens 
naquela sociedade. Por meio da briga animal, evidencia-se a condição humana daqueles 
que apostam, treinam galos e assistem as rinhas.
No final do século XX, o antropólogo norte-americano James Clifford 
publica A experiência etnográfica, a fim de pensar sobre a autoridade da 
produção etnográfica e as possibilidades de escritura do outro. Com isso, 
aproxima a literatura da antropologia e aposta na ideia de que as etnografias são 
verdades parciais, afastando-se da noção totalizante que algumas ramificações 
da antropologia pretendiam dar para as etnografias realizadas. 
Para Clifford (1998), a cultura é considerada como polissêmica, aberta, 
multifacetada, com inúmeros significados, que são interpretados e negociados 
O que é antropologia: ramificações e atribuições8
entre o antropólogo e seus interlocutores. Logo, a etnografia sobre o outro traz 
uma representação polifônica, através do discurso textual, implicando uma 
ética e uma estética metodológica para compreensãode determinada realidade. 
Marcus Georges escreve com Clifford A escritura da cultura, em 1986, 
para evidenciar a relação entre a antropologia e o colonialismo, questionando 
sobre as dimensões políticas e poéticas da etnografia. Deste modo, os autores 
defendem que os modos narrativos e os recursos retóricos, utilizados pelo 
antropólogo na escrita sobre o outro, também incidem na apresentação desse. 
Desde o século XIX, a Antropologia vem se firmando como uma disciplina 
científica difundida nas principais universidades existentes, tanto como curso 
de graduação, quanto como matéria introdutória a ser cursada nas diferentes 
áreas do conhecimento. Nesse sentido, como enfatiza Feldman-Bianco (2011, 
p. 4), a pesquisa antropológica é:
[...] extremamente relevante para desvendar problemáticas que estão na 
ordem do dia sobre a produção da diferença cultural e desigualdades 
sociais, saberes e práticas tradicionais, patrimônio cultural e inclusão social 
e, ainda, desenvolvimento econômico e social. No quadro da globalização 
contemporânea, além de contribuir cada vez mais para a formulação de 
políticas públicas e propostas para a sociedade, a antropologia apresenta 
os aparatos necessários para expor a dimensão humana da ciência, tec-
nologia e inovação. Ao mesmo tempo, no curso de seus processos de 
transformação e internacionalização, surgem novos desafios e perspecti-
vas para o ensino, a pesquisa e a atuação de antropólogos e antropólogas. 
BARNARD, A. History and theory in anthropology. Cambridge: Cambridge University 
Press, 2003.
BARNARD, A.; SPENCER, J. Encyclopedia of cultural and social anthropology. London: 
Routledge, 2002.
CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de 
Janeiro: Editora UFRJ, 1998.
FELDMAN-BIANCO, B. A antropologia hoje. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 63, n. 
2, abr. 2011. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017.
9O que é antropologia: ramificações e atribuições
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252011000200002&lng=en&nrm=iso
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252011000200002&lng=en&nrm=iso
GÂNDAVO, P. de M. de. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz 
a que vulgarmente chamamos de Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
GHIRALDELLI, P. A filosofia como passeio e como digestão. 2013. Disponível em: . Acesso 
em: 21 ago. 2017.
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.
MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: E.P.U., 1974. 
OLIVEIRA, R. C. de. O trabalho do antropólogo. 2. ed. Brasília: Paralelo 15; São Paulo: 
Editora Unesp, 2000.
OLIVEIRA, R. C. de. Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 
Brasília: CNPq, 1988.
RADCLIFFE-BROWN, A. R. Estrutura e função na sociedade primitiva. 2. ed. Petrópolis: 
Vozes, 2013.
SILVA, B. S. Documentário: estranhos no exterior: as correntes da tradição - Franz Boas. 
Boteco Literário, c2017. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2017.
STADEN, Hans. Viagem ao Brasil. Rio de Janeiro: Oficina Industrial Gráfica, 1930. Dis-
ponível em: . Acessado em: 21 ago. 2017.
Leituras recomendadas
BARTH, F. One discipline, four ways: british, german, french, and american anthropology. 
Chicago: The University of Chicago Press, 2005.
CASTRO, C. (Org.). Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 
FREEMAN, D. Margaret Mead and Samoa: the making and unmaking of an anthropo-
logical myth. New York: Penguin Books, 1985.
OLIVEIRA, R. C. de. Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
O que é antropologia: ramificações e atribuições10
http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/a-filosofia-como-passeio-e-como-digestao.html
http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/a-filosofia-como-passeio-e-como-digestao.html
ESTUDOS 
CULTURAIS E 
ANTROPOLÓGICOS
Priscila Farfan Barroso
O fazer antropológico
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar as influências do trabalho do antropólogo.
  Distinguir as novas metodologias do fazer antropológico.
  Reconhecer os dilemas éticos do antropólogo.
Introdução
Neste capítulo, você vai conhecer algumas influências metodológicas e 
conceituais do fazer antropológico enquanto disciplina científica. Como 
você pode imaginar, a transformação da antropologia em uma disciplina 
científica não se deu de uma hora para outra. Assim, é preciso entender 
as etapas desse processo.
Ao longo do texto, você também vai conhecer algumas metodologias 
utilizadas no fazer antropológico que podem ser usadas em outras áreas 
de conhecimento. São elas: a etnografia, o estudo longitudinal e o survey. 
Além disso, você vai ver os dilemas e limites éticos do fazer antropológico, 
que envolve desde a construção do tema de pesquisa até a produção 
do relatório ou a publicação da pesquisa em livro.
Influências do trabalho antropológico
O trabalho do antropólogo foi se constituindo como disciplina com o passar dos 
anos. Para a realização de uma pequena genealogia desse processo, é neces-
sário considerar a história e retomar o momento em que povos de continentes 
diferentes se encontraram pela primeira vez. Um marco dessa trajetória foram 
as grandes navegações do século XV. Nesse período, como você sabe, surgiu 
o interesse dos europeus por povos que habitavam terras afastadas das suas.
Naquele momento histórico, a ideia dos europeus não era somente conhe-
cer como os povos até então desconhecidos moravam e o que faziam. Eles 
desejavam principalmente se familiarizar com o modo de vida desses povos 
para melhor dominá-los, subordiná-los e até escravizá-los, já que eram tidos 
como “primitivos”. Assim, para os europeus, esses povos que viviam além-mar 
eram considerados menos humanos e deveriam se submeter à civilização para 
acessar o “progresso”, o “conhecimento” e a “ciência”. 
Esse pensamento dos europeus é o que se chama de etnocentrismo. Segundo 
Rocha (1984, p. 5), “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio 
grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos 
através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência”. 
Assim, o etnocentrismo não é característico somente dos europeus, mas 
de todo grupo social existente, como reforça Laraia (2001, p. 75):
O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É como uma crença de 
que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo a sua única 
expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de 
vista. Os Cheyene, índios das planícies norte-americanas, se autodenominavam 
"os entes humanos"; os Akuáwa, grupo Tupi do Sul do Pará, consideram-se 
"os homens"; os esquimós também se denominam "os homens"; da mesma 
forma que os Navajo se intitulavam "o povo". Os australianos chamavam as 
roupas de "peles de fantasmas", pois não acreditavam que os ingleses fossem 
parte da humanidade; e os nossos Xavante acreditam que o seu território tri-
bal está situado bem no centro do mundo. É comum assim a crença no povo 
eleito, predestinado por seres sobrenaturais para ser superior aos demais. Tais 
crenças contêm o germe do racismo, da intolerância e, frequentemente, são 
utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. A dicotomia 
"nós e os outros" expressa em níveis diferentes essa tendência. Dentro de uma 
mesma sociedade, a divisãoe o 
estilo de vida de cada cultura? como o clima interfere 
nos bens que as pessoas possuem? Que influência teria 
o tamanho da família na posição econômica ocupada 
por essa família? que bens se destinam ao lazer, e 
quais à subsistência? como essas famílias empregam os 
recursos naturais? que meios de comunicação estão 
disponíveis para cada uma delas? Por que você acha que 
a família de Mali tem tantas panelas, cestos e utensílios 
para servir alimentos? o que os livros e a Bíblia da 
família norte-americana (texas) nos revelam sobre sua 
história e seus interesses? como você acha que cada 
família reagiria se passasse a viver com os pertences das 
outras duas famílias?
essas fotos nos informam que, quando olhamos 
para os bens materiais das pessoas, aprendemos algo 
sobre os fatores sociais, econômicos e geográficos que 
influenciam seu modo de vida. As fotos também podem 
nos levar a pensar sociologicamente sobre os nossos 
próprios bens materiais, e o que eles revelam sobre nós 
e nossa sociedade (Menzel, 1994).
U
a família skeen em Pearland, texas, nos estados Unidos.
4
Capitulo 01.indd 4 23/10/13 14:58
a família natoma (incluindo o marido, duas esposas e os 
pertences das esposas) em Kouakourou, Mali.
a família thoroddsen em Hafnarfjördur, islândia.
5
Capitulo 01.indd 5 23/10/13 14:58
6 Capítulo 1
que todos nós (não apenas os sociólogos) compreen-
damos as ligações existentes entre o nosso ambiente 
social pessoal imediato e o mundo social impessoal que 
nos circunda e que colabora para nos moldar. Barbara 
Ehrenreich certamente usou a imaginação sociológica 
quando estudou os trabalhadores de baixa renda (Mills 
[1959], 2000a).
Um elemento-chave da imaginação sociológica é 
a capacidade de uma pessoa poder ver a sua própria 
sociedade como uma pessoa de fora o faria, em vez de 
fazê-lo apenas da perspectiva das experiências pessoais e 
dos preconceitos culturais. Tomemos como exemplo algo 
bem simples, os esportes. No Brasil, centenas de milhares 
de pessoas de todos os níveis sociais vão semanalmente 
aos estádios torcer por seus times de futebol e gastam 
milhares de reais em apostas. Em Bali, Indonésia, dezenas 
de espectadores se juntam ao redor de um ringue para 
apostar em animais bem-treinados que participam das 
rinhas de galos. Em ambos os exemplos os espectadores 
exaltam os méritos dos seus favoritos e apostam nos me-
lhores resultados das competições que são consideradas 
normais em uma parte do mundo, mas pouco comuns 
em outra.
A imaginação sociológica nos permite ir além das 
experiências e observações pessoais para compreender 
temas públicos de maior amplitude. O divórcio, por 
exemplo, é um fato pessoal inquestionavelmente difícil 
para o marido e para a esposa que se separam. Entretanto, 
C. Wright Mills defende o uso da imaginação sociológica 
para ver o divórcio não apenas como um problema pes-
soal de um indivíduo, mas sim como uma preocupação 
da sociedade. Usando essa perspectiva, podemos notar 
que um aumento na taxa de divórcio na verdade redefine 
uma instituição social fundamental – a família. Os lares 
hoje com freqüência incluem padrastos, madrastas e 
meio-irmãos cujos pais se divorciaram e casaram nova-
mente.
A imaginação sociológica é uma ferramenta que nos 
proporciona poder. Ela nos permite olhar para além de 
uma compreensão limitada do comportamento humano, 
ver o mundo e as pessoas de uma forma nova, através de 
uma lente mais potente do que o nosso olhar habitual. 
Pode ser algo tão simples como entender por que um 
colega de quarto prefere música sertaneja ao hip-hop, ou 
essa outra forma de olhar as coisas poderá revelar uma 
maneira totalmente diferente de compreender as outras 
populações do mundo. Por exemplo, depois dos ataques 
terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 
2001, vários cidadãos passaram a querer entender como 
os muçulmanos em todo o mundo percebiam o país 
deles, e o porquê desses ataques. Este livro vai oferecer 
a você a oportunidade de exercitar a sua imaginação 
sociológica em diversas situações. Vamos começar com 
uma que talvez lhe seja mais familiar.
Você está caminhando por uma rua da sua cidade. Ao olhar 
à sua volta, não pode deixar de notar que metade das 
pessoas, ou mais, está acima do peso. Como você explica 
sua observação? Se você fosse C. Wright Mills, como acha 
que explicaria isso?
A Sociologia e as Ciências Sociais
A sociologia é uma ciência? O termo Ciência se refere a 
um corpo de conhecimentos obtidos por métodos basea-
dos na observação sistemática. Da mesma forma que ou-
tras disciplinas científicas, a sociologia envolve o estudo 
sistemático e organizado dos fenômenos (nesse caso, o 
comportamento humano) para ampliar a compreensão. 
Todos os cientistas, estejam eles estudando cogumelos 
ou assassinos, tentam coletar informações precisas por 
meio de métodos de estudo que sejam os mais objetivos 
possível. Eles se baseiam no registro cuidadoso das obser-
vações e na coleta de dados.
Evidentemente, há uma grande diferença entre so-
ciologia e física, entre ecologia e astronomia. Ciências 
naturais são o estudo das características físicas da natu-
reza e das maneiras pelas quais elas interagem e mudam. 
A astronomia, a biologia, a química, a geologia e a física 
são todas ciências naturais. Ciências sociais são o estudo 
das características sociais dos seres humanos, e das ma-
neiras pelas quais eles interagem e mudam. As ciências 
sociais incluem a sociologia, a antropologia, a economia, 
a história, a psicologia e as ciências políticas.
Essas disciplinas das ciências sociais têm um foco 
comum no comportamento social das pessoas, mesmo 
que cada uma delas tenha uma orientação particular. 
Os antropólogos geralmente estudam culturas passadas 
e sociedades pré-industriais que existem até hoje, bem 
como as origens dos seres humanos. Os economistas 
exploram as maneiras pelas quais as pessoas produzem 
e trocam mercadorias e serviços, bem como o dinheiro 
e outros recursos. Os historiadores estão preocupados 
com as pessoas e os eventos do passado, e seu significado 
para nós hoje. Os cientistas políticos estudam as relações 
internacionais, os atos do governo e o exercício do poder 
e da autoridade. Os psicólogos investigam a personali-
dade e o comportamento individual. Então, o que fazem 
os sociólogos? Eles estudam a influência que a sociedade 
tem nas atitudes e nos comportamentos das pessoas, bem 
como na maneira como as pessoas interagem e formam 
a sociedade. Como os seres humanos são animais sociais, 
os sociólogos examinam cientificamente as nossas rela-
ções sociais com os outros.
Vamos considerar como as diferentes ciências sociais 
podem abordar o tema polêmico da pena de morte. Os 
historiadores estariam interessados no desenvolvimento 
da pena capital do período colonial até o presente. Os eco-
Use a Sua Imaginação Sociológica
Capitulo 01.indd 6 23/10/13 14:58
Entendendo Sociologia 7
nomistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os 
custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com 
as despesas das apelações que ocorrem nos casos de pena 
de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais 
e avaliariam o impacto da pena de morte na família da 
vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos 
estudariam as diferentes posições assumidas pelos po-
líticos eleitos e as implicações dessas posições em suas 
campanhas para reeleição.
E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles po-
deriam verificar como a raça e a etnia afetam o resultado 
dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo 
publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos 
Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar 
de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem 
brancas (ver Figura 1–1). Parece que a raça da vítima 
influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena 
capital (ou seja, assassinato punível com a morte) e se ele 
realmente será executado no final. Assim, o sistema de 
justiça criminal parece tender aocorre sob a forma de parentes e não parentes. Os 
primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. 
A projeção desta dicotomia para o plano extra grupal resulta nas manifestações 
nacionalistas ou formas mais extremadas de xenofobia. O ponto fundamental 
de referência não é a humanidade, mas o grupo. Daí a reação, ou pelo menos 
a estranheza, em relação aos estrangeiros.
Então, o encontro entre colonizadores e outros povos permitiu a coleta de 
descrições, desenhos e materiais de outras culturas. Mas tudo ainda ocorria de 
maneira bastante exploratória e sem uma metodologia específica. Os materiais 
coletados não tinham status de veracidade e eram tidos mais como relatos, cartas e 
romances que contavam, de forma até fansiosa e macabra, a vida de outros povos.
Somente no século XVIII é que a antropologia começa a se consolidar como 
disciplina, definindo seu objeto de estudo, delimitando formas de estudá-lo e pro-
duzindo análise científica sobre esse objeto. É o que explica Laplantine (2003, p. 7):
O fazer antropológico2
[…] apenas no final do século XVIII é que começa a se constituir um saber 
científico (ou pretensamente científico) que toma o homem como objeto de 
conhecimento, e não mais a natureza; apenas nessa época é que o espírito 
científico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao próprio homem os mé-
todos até então utilizados na área física ou da biologia. Isso constitui um 
evento considerável na história do pensamento do homem sobre o homem. 
[…] Trata-se, desta vez, de fazer passar este último do estatuto de sujeito do 
conhecimento ao de objeto da ciência. […] Para que esse projeto alcance suas 
primeiras realizações, para que o novo saber comece a adquirir um início 
de legitimidade entre outras disciplinas científicas, será preciso esperar a 
segunda metade do século XIX, durante a qual a antropologia se atribui ob-
jetos empíricos autônomos: as sociedades então ditas “primitivas”, ou seja, 
exteriores às áreas de civilização europeias ou norte-americanas. A ciência, 
ao menos tal como é concebida na época, supõe uma dualidade radical entre 
o observador e seu objeto.
Para conhecer mais sobre a constituição da antropologia como disciplina, sugerimos a 
leitura do livro Textos básicos de Antropologia, de Celso Castro. Esse livro apresenta a 
história do pensamento antropológico e destaca alguns antropólogos que 
constituíram estudos importantes na disciplina. 
Você também deve atentar à contribuição das ciências biológicas para a 
constituição da disciplina da antropologia. Afinal, a metodologia de classifica-
ção e comparação realizada pelas ciências biológicas influenciou os primeiros 
ensaios sobre o homem em sociedade. Eriksen e Nielsen (2007, p. 28) trazem 
mais informações sobre esse período:
Finalmente, surgiu a ciência internacionalizada. O pesquisador global se 
torna uma figura popular — e o protótipo é, naturamente, Charles Darwin 
(1809–1882), cuja Origem das espécies (1859) se baseava em dados coleta-
dos durante uma circum-navegação de seis anos ao redor do globo. […] Não 
surpreende que a antropologia tenha surgido como disciplina nesse período. 
O antropólogo é o pesquisador global prototípico que depende de dados de-
talhados sobre pessoas do mundo todo. Agora que esses dados se tornavam 
disponíveis, a antropologia podia estabelecer-se como disciplina acadêmica.
3O fazer antropológico
Assim, a antropologia passa a desenvolver estudos sobre o homem, mas 
esses estudos não são algo focado em um ou outro homem, e sim nas socie-
dades humanas como um todo. Com isso, a pretensão da antropologia é de 
“[...] constituir os ‘arquivos’ da humanidade em suas diferenças significativas” 
(LAPLANTINE, 2003, p. 12).
Metodologias do fazer antropológico
Mas o que faz o antropólogo? Ele vai a campo e faz etnografi a ao conversar com 
as pessoas, anotar o que vê e o que dizem, tirar fotos ou fazer vídeos e pesquisar 
documentos. Posteriormente, ele produz relatórios, discute com seus pares e 
refl ete sobre o que viu e ouviu. Ou seja, essa disciplina envolve o fazer antro-
pológico, que é aprendido na teoria e também no cotidiano de trabalho. Agora 
você pode se perguntar o seguinte: quem não é antropólogo pode utilizar algumas 
metodologias próprias do fazer antropológico? A resposta é sim. Contudo, para 
haver legitimidade, deve-se ter o cuidado de não banalizar as metodologias do 
fazer antropológico. É o que evidencia Oliveira (2011, p. 120–121):
A apropriação, por outras áreas, das teorias e metodologias antropológicas 
nos levam a pensar e repensar nossa identidade intelectual, bem como o fazer 
antropológico nesta era pós-tudo, como diria Geertz. A ampliação do que 
vem sendo produzido, em termos de conhecimento acadêmico, na interface 
entre a antropologia e as diversas áreas do conhecimento, longe de constituir 
uma ameaça para o campo da antropologia, perfaz um engrandecimento da 
produção acadêmica nesta área, ainda que devamos tomar cuidado com o 
que se está produzindo, quais os limites e quais os diálogos travados com a 
literatura antropológica, com seus conceitos e referenciais teóricos, afinal, 
como nos coloca Dauster (2007), não podemos resumir o diálogo da antropo-
logia com as demais áreas do conhecimento a uma utilização instrumental da 
etnografia, até mesmo porque esta constitui mais que “técnica” de coleta de 
dados, mas sim uma forma de interpretar a realidade social, cujo substrato 
encontra-se atrelado a um campo de conhecimento específico e a questões 
suscitadas pela antropologia.
Desse modo, você pode perceber que o fazer antropológico implica conhecer 
as ferramentas e teorias da área da antropologia, mas também requer certa 
postura do pesquisador em meio ao grupo social estudado. Afinal, como o 
objeto de estudo é o ser humano, os desafios da pesquisa incluem as formas 
de relacionamento entre pesquisadores e pesquisados. A seguir, você vai ver 
algumas metodologias do fazer antropológico que compõem a cientificidade 
O fazer antropológico4
da disciplina e que a consolidam como mais um dos campos de estudos das 
ciências humanas.
A primeira metodologia que você vai conhecer aqui é a etnografia. Ela 
propõe a observação e a participação em grupos sociais orientadas por proble-
mas de pesquisa. Assim, o pesquisador busca se inserir no grupo com certas 
ideias preconcebidas, podendo retificá-las ou modificá-las completamente. A 
proposta de Malinowski (1998) inclui ficar um longo período de tempo com 
o grupo para compreendê-lo, evitando fazer apenas viagens rápidas. Cuche 
(1999, p. 45) reforça essa mesma ideia ao dizer que “A transformação de uma 
etnografia de viajantes ‘que apenas passam’ em uma etnografia de estada de 
longa duração modificou completamente a apreensão das culturas particulares”.
Então, ainda que o modo de pesquisar cada grupo social tenha suas especi-
fidades, cabe compreender os principais pontos a que o pesquisador deve estar 
atento a fim de encarnar uma postura condizente com o fazer antropológico 
proposto. Eckert e Rocha (2008, p. 2) explicam melhor essa questão:
A pesquisa etnográfica, constituindo-se no exercício do olhar (ver) e do 
escutar (ouvir), impõe ao pesquisador ou à pesquisadora um deslocamento 
de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ele ou por 
ela observado através da sua participação efetiva nas formas de sociabilidade 
por meio das quais a realidade investigada se lhe apresenta.
A segunda metodologia que pode ser realizada no âmbito do fazer antro-
pológico é a pesquisa longitudinal. Aqui, a ideia é que as “[...] pessoas de 
um único grupo são estudadas em diferentes épocas de suas vidas” (BOYD; 
BEE, 1977, p. 42). Contudo, nem sempre um trabalho acadêmico realizado 
por estudantes, por conta dos prazos, permite esse tipo de estudo. Assim, 
esse tipo de metodologia não é tão comum, ainda que alguns pesquisadores 
optem por ela.
Cunha (2014, p. 411) discorre sobre essa questão ao evidenciar as possibi-
lidades e potencialidadesdo estudo longitudinal na etnografia:
Mudando a conjuntura, uma nova investigação terá provavelmente de formular 
novas questões, em vez de limitar-se a alimentar as mesmas questões com novos 
dados ao longo do tempo. Ao prosseguir no rumo traçado de início, o risco é, 
paradoxalmente, o de distorcer a historicidade que se procura captar precisa-
mente através de uma revisitação do terreno. Revisitação não equivale, pois, 
a replicação. É precisamente a ausência de rigidez da abordagem etnográfica 
que se pode revelar a mais adequada para captar o sentido das transformações.
5O fazer antropológico
Por último, você deve conhecer a metodologia do survey (questionário). 
Ela é a mais utilizada em pesquisas sociológicas e pode ajudar o antropólogo 
a mapear aspectos da cultura e analisar comportamentos a partir da amostra 
de um grupo social.
Nesse sentido, pode-se utilizar o survey para pesquisas políticas, questões 
sociais, situações de consumo, entre outros. A ideia é desvendar aspectos que não 
são facilmente explicáveis. Além disso, um mesmo questionário pode ser aplicado 
em diferentes públicos. Dessa forma, é possível apreender o que muda de um 
para outro. Bryman (1989, p. 104) sistematiza as informações sobre o assunto:
[...] a pesquisa de survey implica a coleção de dados [...] em um número de 
unidades e geralmente em uma única conjuntura de tempo, com uma visão 
para coletar sistematicamente um conjunto de dados quantificáveis no que diz 
respeito a um número de variáveis que são então examinadas para discernir 
padrões de associação [...].
Essas variáveis têm de ser analisadas previamente pelos pesquisadores 
para que eles possam verificar se elas podem ajudá-los a compreender a rea-
lidade. Afinal, “[...] uma variável, por definição, deve ter variação; se todos os 
elementos na população têm a mesma característica, esta característica é uma 
constante na população e não parte de uma variável” (BABBIE, 1999, p. 124).
Dilemas éticos do antropólogo
Agora que você já conhece os principais aspectos e metodologias que envolvem o 
fazer antropológico, deve considerar que essas práticas têm diversos limites. Tais 
limites devem provocar a refl exão do pesquisador sobre os desafi os da pesquisa. 
Além disso, o pesquisador deve buscar soluções possíveis para que a pesquisa se 
realize a contento. Estes são os três principais limites da prática antropológica:
1. o limite dos prazos acadêmicos;
2. os limites do encontro com o outro;
3. os limites surgidos após a produção do trabalho.
O primeiro deles considera o fazer antropológico circunscrito ao trabalho 
acadêmico. Antes mesmo de iniciar o estudo, essa questão se impõe como 
desafio para o pesquisador. Isso ocorre porque o contexto de realização da 
O fazer antropológico6
pesquisa afeta diretamente os resultados do estudo. Silva (2009, p. 28) explica 
melhor esses pontos:
[...] não se pode esquecer que a antropologia é uma forma de conhecimento 
definida segundo os limites impostos pelas regras da academia. O desenvolvi-
mento do trabalho de campo sofre, portanto, os constrangimentos relacionados 
com o modo pelo qual a escolha do tema, das hipóteses e das perspectivas 
teóricas, para citar apenas alguns itens presentes num projeto de pesquisa, é 
negociada na academia que o acolhe e legitima. E nessa negociação, além dos 
“méritos científicos” inerentes ao projeto de pesquisa, deve-se considerar a 
influência das políticas acadêmicas (linhas de pesquisa institucionalizadas, 
estabelecimentos, reorganização ou fortalecimento dos núcleos de pesquisa-
dores, afirmação de lideranças intelectuais, etc.) na escolha dos temas, regiões 
geográficas, grupos sociais, etc. que compõem o “recorte” das pesquisas.
Mesmo que se trate de uma pesquisa pontual de disciplina, cabe refletir 
sobre os pontos evidenciados a fim de que se possa realizar um exercício 
fidedigno à proposta do fazer antropológico. Assim, o pesquisador não tem 
controle total de sua pesquisa, mas pode direcioná-la da maneira mais adequada, 
de acordo com os objetivos em questão.
O segundo ponto a ser ilustrado enfoca justamente o diálogo entre o pes-
quisador e o grupo pesquisado. Segundo Oliveira (2000, p. 24), esse diálogo 
“Faz com que os horizontes semânticos em confronto — do pesquisador e do 
nativo — abram-se um ao outro, de maneira a transformar um tal conjunto em 
um verdadeiro ‘encontro etnográfico’”. Em algumas situações, esses diálogos 
possibilitam trocas mais densas; em outras, essas trocas são mais truncadas por 
conta de questões subjetivas. Nesse sentido, não apenas o pesquisador escolhe 
quem vai pesquisar, mas também precisa ser escolhido pelos nativos, uma vez 
que a pesquisa envolve o relacionamento entre seres humanos.
Assim, esse diálogo implica não somente um pesquisador que demanda 
algo do pesquisado. O próprio pesquisador tem de aprender, de negociar e de 
compreender como se dá a comunicação discursiva de quem ele pesquisa. 
Ferreira (2010, p. 147) evidencia essa questão quando argumenta que o diálogo 
antropológico implica uma aprendizagem da conversa com o nativo:
Já que as metodologias usadas pelos antropólogos dependem fundamentalmen-
te de processos linguísticos, é preciso considerar as dimensões comunicativas 
da aquisição de informações como requisito tanto para a adequação da me-
todologia aos contextos culturais a serem estudados (BRIGGs, 1986) quanto 
para a garantia de uma postura ética na relação de pesquisa. Dessa forma, 
7O fazer antropológico
podemos evitar situações em que as questões formuladas pelo pesquisador 
são incompatíveis com o sistema de comunicação nativo.
Ao mesmo tempo, é importante você considerar a possibilidade de utilizar 
o termo de consentimento livre e esclarecido ao travar relações com os inte-
ressados em participar da pesquisa, conforme exige a Resolução nº 196/1996 
do Conselho Nacional do Ministério da Saúde. Afinal, a pesquisa com seres 
humanos implica certos cuidados do pesquisador. Esse termo deve ser elaborado 
pelo pesquisador, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e assinado pelo 
pesquisador e pelo pesquisado. Depois, destina-se uma via para cada um.
Para aprofundar a discussão e conhecer mais sobre o debate nacional relacionado à ética 
em pesquisa antropológica, leia Antropologia e ética: o debate atual no Brasil, organizado 
pela Associação Brasileira de Antropologia. Nessa obra, são discutidos aspectos gerais 
da ética em pesquisa e também questões envolvendo a multidisciplinaridade. 
Entretanto, você deve notar que, na área de antropologia, há dificuldade 
de seguir à risca essa resolução, já que ela é baseada em pesquisas da área das 
ciências biológicas. Contudo, a pesquisa antropológica se relaciona às ciências 
humanas e se realiza durante o fazer antropológico. Nesse processo, nem sempre 
se tem o controle de quais caminhos são percorridos e de quais pessoas são 
encontradas. Então, o essencial é que você se guie pelos princípios éticos e que 
informe aos seus interlocutores, de forma clara, quais são as suas intenções 
e os objetivos da pesquisa. Ferreira (2010, p. 143) aprofunda essa discussão:
Nas pesquisas antropológicas, a ética está vinculada ao plano das relações 
sociais; portanto, diz respeito à linguagem e à comunicação. No empreen-
dimento etnográfico, o antropólogo conversa, interage e consolida vínculos 
com as pessoas. Essa relação não está dada a priori, mas sim emerge duran-
te a própria interação do antropólogo com os participantes da pesquisa. A 
reflexão ética [...] deve orientar a construção dessa relação e o processo de 
interação dialógica voltado para a compreensão do outro. Nesse sentido, o 
consentimento dado por determinado grupo social para a realização de um 
estudo antropológico advém da relação estabelecida em campo.
O fazer antropológico8
O terceiro ponto se refere aos limites éticos decorrentes da produção do 
trabalho escrito e da veiculação pública desse trabalho. Ao escrever sobre 
a vida das pessoas, o pesquisador deve ter o cuidadode manter o sigilo das 
suas identidades. Por exemplo, na tese de Machado (2008) sobre bebês que 
nascem com a genitália ambígua — dita como intersexo —, a antropóloga 
optou por trocar os nomes dos envolvidos por nomes de anjos, fazendo um 
paralelismo com o fato de o senso comum dizer que os anjos não têm sexo. 
Esse é um exemplo de estratégia e subterfúgio que os pesquisadores podem 
utilizar para manter a ética de pesquisa.
Quando você escreve um relatório sobre aqueles que pesquisa, é importante 
não só disponibilizar o produto final para eles, que gentilmente lhe concederam 
seu tempo e sua convivência, como também buscar saber a opinião deles sobre 
os resultados da pesquisa. Esse processo é conhecido como restituição dos 
dados. Veja:
Na pesquisa, podemos pensar que a restituição dos dados também pode ser 
uma forma de prolongar o trabalho de campo, as interações, a relação com os 
nativos. Nesse caso, a receptividade da pesquisa e a restituição confundem-se 
em relação às interações estabelecidas, engajamento e responsabilidade com 
o campo. O duplo produto final da enquete, seja sob a forma de relatório para 
o projeto de financiamento ou artigo para a revista científica, sublinha a dis-
tinção entre dois papéis: ciência “pura” versus ciência “aplicada”. Entretanto, 
trata-se de distinção ideal. Nas situações concretas, observa-se ambiguidade 
entre esses dois papéis, uma vez que um ou outro é reivindicado e um ou outro 
argumento pode ser utilizado segundo o contexto. A publicação de artigos e 
livros é uma forma importante de difusão da pesquisa no meio acadêmico, 
no entanto, essas publicações tendem a repercutir pouco para os pesquisados 
(FERREIRA, 2015, p. 2.645).
Portanto, evidencia-se que o pesquisador produz seus trabalhos finais sem 
saber da repercussão da publicação dos dados. Mesmo assim, ao apresentar a 
sua análise aos pesquisados, ele deve construir esse processo de restituição. 
Muitas vezes, esse é o momento positivo em que o pesquisador é reconhecido 
pelo seu esforço de compreender o grupo social que pesquisou. Em outros 
casos, os pesquisados podem não gostar de algumas interpretações. Nessa 
situação, é necessário negociar a respeito do que fazer com publicações futuras.
Você deve ter em mente que o produto da pesquisa não vai sempre agradar 
a todos. Por isso, cabe ao pesquisador ter o cuidado de não expor os pesqui-
sados a situações perigosas. Logo, o debate sobre ética em pesquisa não está 
finalizado. Ele é uma problemática de reflexão importante e deve ser sempre 
considerado pelo pesquisador.
9O fazer antropológico
BOYD, D. B.; BEE, H. A criança em crescimento. São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1977.
BABBIE, E. Métodos de pesquisas de survey. Belo Horizonte: UFMG, 1999. 
BRYMAN, A. Research methods and organization studies. Great Britain: Routledge, 1989.
CUCHE, D. A noção de cultura em ciências sociais. Bauru: UDUSC, 1999.
CUNHA, M. I. C. Linhas de redefinição de um objeto: entre transformações no terreno e 
transformações na antropologia. Etnográfica, v. 18, n. 2, 2014. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018.
DESCOBRIMENTO do Brasil. [200-?]. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018.
ECKERT, C.; ROCHA, A. L. C. da. Etnografia: saberes e práticas. Revista Iluminuras, v. 9, n. 
21, 2008. Disponível em: . Acesso 
em: 22 nov. 2018.
ERIKSEN, T. H.; NIELSEN, F. S. História da antropologia. Petrópolis: Vozes, 2007.
FERREIRA, J. Restituição dos dados na pesquisa etnográfica em saúde: questões para 
o debate a partir de experiências de pesquisas no Brasil e França. Ciência & Saúde 
Coletiva, v. 20, n. 9, 2015. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018.
FERREIRA, L. O. A dimensão ética do diálogo antropológico: aprendendo a conversar 
com o native. In: FLEISCHER, S.; SCHUCH, P. (Org.). Ética e regulamentação na pesquisa 
antropológica. Brasília: LetrasLivres : Editora Universidade de Brasília, 2010.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 
MACHADO, P. S. O sexo dos anjos: representações e práticas em torno do gerenciamento 
sociomédico e cotidiano da intersexualidade. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-
-graduação em Antropologia Social, UFRGS, 2008.
MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1998.
O fazer antropológico10
OLIVEIRA, A. A Antropologia dos não antropólogos e outras questões etnocêntricas. 
Revista Anthropológicas, ano 15, v. 22, n. 2, 2011. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018.
OLIVEIRA, R. C. de. O trabalho do antropólogo. Brasília: Paralelo 15, 2000.
ROCHA, E. P. G. O que é o etnocentrismo? São Paulo: Brasiliense, 1984.
SILVA, T. T. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, T. T. (Org.). Identidade 
e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2009.
Leituras recomendadas
ALVES, A. M. Fazendo antropologia no baile: uma discussão sobre observação-par-
ticipante. In: VELHO, G.; KUSCHNIR, K. (Org.). Pesquisas urbanas: desafios do trabalho 
antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 196, de 10 de 
outubro de 1996. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018.
CASTRO, C. Textos básicos de antropologia: cem anos de tradição: Boas, Malinokvski, 
Levi-Strauss e outros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
GUERRIERO, I. C. Z.; MINAYO, M. C. de. S. O desafio de revisar aspectos éticos das pes-
quisas em ciências sociais e humanas: a necessidade de diretrizes específicas. Physis 
Revista de Saúde Coletiva, v. 23, n. 3, 2013.
GUILHEM, D.; DINIZ, D. O que é ética em pesquisa. São Paulo: Brasiliense, 2012. 
MINAYO, M. C. S., GUERRIERO, I. C. Z. Reflexividade como éthos da pesquisa qualitativa. 
Ciência & Saúde Coletiva, v. 19, n. 4, 2014.
SANTOS, R. J. Antropologia para quem não vai ser antropólogo. Porto Alegre: Tomo, 2005. 
SARTI, C.; DUARTE, L. F. D. (Org.). Antropologia e ética: desafios para a regulamentação. 
Brasília: ABA, 2013.
VÍCTORA, C. Antropologia e ética: o debate atual no Brasil. Niterói: UFF, 2004.
11O fazer antropológico
Conteúdo:
ESTUDOS 
CULTURAIS E 
ANTROPOLÓGICOS
Priscila Farfan Barroso
Etnografia
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar o conceito de etnografia.
  Distinguir a etnografia dentro do quadro geral da antropologia.
  Definir quais os objetivos da etnografia.
Introdução
Neste capítulo, você vai aprender o conceito de etnografia e compre-
ender como surge essa ideia ao conhecer e analisar outras culturas. Ao 
mesmo tempo, vai perceber a vinculação da etnografia à disciplina da 
antropologia, compreendendo quais as suas relações e potencialidades. 
Nesse sentido, etnografia não é apenas um método, mas abrange um 
arcabouço teórico metodológico para pensar o grupo pesquisado. 
Por último, vai conhecer estratégias no âmbito da etnografia que aju-
dam a realizar a pesquisa com mais cuidado e compromisso. Os registros 
em campo, as entrevistas e a construção da árvore genealógica podem 
ajudar a “ver” o que não é possível enxergar de outra maneira.
Conceito de etnografia 
Para conhecermos outras culturas, estudarmos os seus modos de vida e com-
preendermos os seus pensamentos, ainda que eles sejam diferentes dos nossos, 
precisamos adotar algumas estratégias de pesquisa. Imagine que você chega a 
uma sociedade totalmente diferente da sua, more durante um tempo entre as 
pessoas daquele local e aprende alguns hábitos devida próprios daquela cultura. 
Aos poucos, mesmo que de forma intuitiva, você vai entendendo e compre-
endendo o modo de se alimentar, de se vestir, de falar, de cuidar da terra, de se 
relacionar entre as pessoas, de se comportar, assim como as festas e as crenças 
mais importantes, os motivos para rir e chorar, etc. Entretanto, no âmbito da 
pesquisa acadêmica, talvez não tenhamos o tempo e a disponibilidade de nos 
inteirarmos da vida do outro como teria um viajante sem destino. 
Os primeiros registros sobre outros povos foram feitos por viajantes. Um 
deles é alemão Hans Staden, que esteve no Brasil na época da colonização e 
escreveu sobre o perfil, o modo de vida dos indígenas que habitavam essas 
terras, as práticas canibais em contextos rituais e as relações que se estabeleciam 
entre eles e os colonizadores (Figura 1). Pires (2013, p. 21) conta sobre Staden:
[...] apesar de ser um aventureiro alemão, portanto, sem planos de permanecer 
em solo brasileiro como os portugueses e os franceses, contribuiu com as suas 
obras para a formação das representações sobre a guerra índia, primeiramente 
na capitania de Pernambuco e depois na de São Vicente, onde, ambas as vezes, 
atuou nos conflitos armados do lado dos lusos contra seus inimigos índios 
e normandos. Na segunda experiência, em São Vicente, permaneceu meses 
como cativo de guerra dos tupinambá, aliados dos franceses, e, libertado por 
uma tribo inimiga de seus algozes, não foi sacrificado no ritual antropofágico.
Assim, por meio das representações dos relatos dos viajantes é que a popu-
lação acessava a cultura de sociedades distantes e mesmo de culturas que não 
mais existiam. Muitas vezes, essas descrições registradas pelos viajantes eram 
caricatas, exageradas e até mesmo fantasiosas, mas como era a única maneira de 
conhecer o que faziam outras culturas, esses relatos eram bastante difundidos. 
Figura 1. Desenho de Hans Staden sobre práticas canibais dos indígenas.
Fonte: Caderno de Nosferatu (2010, documento on-line).
Etnografia2
Contudo, no século XXI, a distância ficou menor, e a tecnologia nos 
permite viajar, tornando mais fácil conhecer outras sociedades. Então, 
em vez de lermos sobre o outro, vamos nós mesmos observar, analisar 
e compreender aspectos de outras culturas. Assim, cabe perceber essas 
diferenças entre as culturas e refletir sobre elas. Para ir além de uma obser-
vação curiosa e de fato estudar os aspectos culturais de outras sociedades, 
podemos utilizar estratégias e metodologias que nos permitam compreender 
as explicações correntes naquela sociedade que observamos. Por isso, de 
forma mais rápida, mais explícita e mais sistemática, buscamos formas 
científicas de realizar esses estudos. 
Uma dessas formas é a etnografia. Na etimologia da palavra, do grego, 
etno é povo e grafia é escrita; logo, o significado da palavra pressupõe 
escrever sobre um povo. Laplantine (2003) enfoca que a etnografia permite 
a descrição das formas de vida de determinados grupos sociais, fazendo 
com que estudemos aspectos culturais diferentes dos nossos de forma 
mais atenta. Como evidencia Oliveira (2000), agora não conheceremos a 
cultura do outro por meio dos livros, mas será o nosso próprio corpo que 
acessará outras sociedades. 
Segundo explica Laplantine (2003, p. 57), “[...] a etnografia propriamente 
dita só começa a existir a partir do momento no qual se percebe que o pes-
quisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse 
trabalho de observação direta é parte integrante da pesquisa [...]”. Assim, 
dá-se outra maneira de conhecer o outro, mais ativa, mais pessoalizada e mais 
interpretativa sobre quem são, o que fazem e como pensam os membros de 
outras sociedades existentes. 
O pesquisador compreende a partir desse momento que ele deve deixar seu 
gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser 
considerados não mais como informadores a serem questionados, e sim como 
hóspedes que o recebem e mestres que o ensinam. Ele aprende então, como 
aluno atento, não apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua 
língua e a pensar nessa língua, a sentir suas próprias emoções dentro dele 
mesmo. Trata-se, como podemos ver, de condições de estudo radicalmente 
diferentes das que conheciam o viajante do século XVIII e até o missionário 
ou o administrador do século XIX, residindo geralmente fora da sociedade 
indígena e obtendo informações por intermédio de tradutores e informadores: 
este último termo merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela 
primeira vez uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, “ao vivo”, 
em uma “natureza imensa, virgem e aberta” (LAPLANTINE, 2003, p. 57–58).
3Etnografia
Indica-se a leitura de uma bela etnografia realizada em um contexto urbano, a fim de 
compreender que a realização da etnografia não se dá apenas entre sociedades que 
vivem longe de nós, mas também entre as mais próximas. Uma dessas etnografias 
clássicas é o livro Sociedade de Esquina, no qual William Foote Whyte, conduzido por um 
informante-chave, estuda determinado local — que ele chamou de Corneville — para 
compreender o cotidiano de um bairro da periferia de uma grande cidade. 
Entretanto, essa observação do pesquisador não deve ser feita de forma 
passiva, apenas olhando para os membros de uma cultura, sem interagir com 
o que acontece; pelo contrário, ele vai participar, conversar, viver e também 
contar sobre si para esses nativos. Em outras palavras, propõe-se outra forma 
de se relacionar com o outro, e essa relação estabelecida entre pesquisador 
e nativos é levada em consideração na qualidade dos dados coletados e na 
análise feita sobre essa outra sociedade. 
Logo, realiza-se uma observação participante, na qual os membros da 
cultura observada precisam estar de acordo com a presença daquele que vai 
realizar a etnografia, como explica Oliveira (2000, p. 24): 
[…] aquilo que os antropólogos chamam de "observação participante" […] 
significa dizer que o pesquisador assume um papel perfeitamente digerível 
pela sociedade observada, a ponto de viabilizar uma aceitação senão ótima 
pelos membros daquela sociedade, pelo menos afável, de moda a não impedir 
a necessária interação.
Podemos destacar dois antropólogos que iniciaram esse estudo e discu-
tiram a importância da etnografia em seus trabalhos de campo por meio da 
antropologia. Um deles é Franz Boas (1858–1942) e Bronislaw Malinowski 
(1884–1942). Laplantine (2003, p. 58–59) se dedica a elucidar as contribuições 
de cada um deles; sobre Boas, ele afirma: 
No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais consti-
tutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, e isso 
detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descrição 
mais meticulosa, da retranscrição mais fiel... [Para ele] Apenas o antropólo-
go pode elaborar uma monografia, isto é, dar conta cientificamente de uma 
microssociedade, apreendida em sua totalidade e considerada em sua auto-
nomia teórica. Pela primeira vez, o teórico e o observador estão finalmente 
Etnografia4
reunidos. Assistimos ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional 
que não se contenta mais em coletar materiais à maneira dos antiquários, 
mas procura detectar o que faz a unidade da cultura que se expressa através 
desses diferentes materiais.
Já sobre Malinowski (Figura 2), Laplantine (2003, p. 60–61) destaca o 
posicionamento do pesquisador em meios aos nativos e as suas contribuições 
para o campo de estudo:
Se não foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiência etnográfica, 
isto é, em primeiro lugar, a viver com as populações que estudava e a recolher 
seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreensão por dentro, e para 
isso, procurou romper ao máximo os contatos com o mundo europeu. […] Nin-
guém antes dele tinha se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer 
de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentalidadedos outros, e 
em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de despersonalização, o 
que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura que não é 
nossa. […] Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada enquanto 
uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde a observamos.
Figura 2. Malinowski entre os Trobriandeses.
Fonte: Etnografando (2012, documento on-line).
Assim, temos o contexto da discussão sobre o conceito de etnografia e 
podemos avançar na nossa discussão, a fim de compreendermos como esse 
conceito é utilizado no âmbito da antropologia — e até mesmo além dessa 
disciplina. 
5Etnografia
Etnografia dentro da antropologia 
Numa primeira discussão, devemos compreender que a antropologia pretende 
levar em consideração a experiência do pesquisador a partir do trabalho de 
campo que ele realizou. Então, o pesquisador vai estar diante do que é dife-
rente, do que é estranho e até do que assusta. Porém, essa postura que abarca 
a concepção de alteridade constitui questão central na disciplina estudada. 
Goldman (2005, p. 163) reforça esse ponto:
A antropologia é um dos lugares destinados pela razão ocidental para pensar 
a diferença ou para explicar racionalmente a razão ou desrazão dos outros. 
Desse ponto de vista, ela é, sem dúvida, parte do trabalho milenar da razão 
ocidental para controlar e excluir a diferença. Por outro lado, entretanto, o 
próprio fato de dedicar-se à diferença nunca é desprovido de consequências e, 
em lugar de simplesmente digeri-la, a antropologia foi capaz de valorizar essa 
diferença, sempre foi capaz de ao menos tentar apreendê-la sem suprimi-la, 
pensá-la em si mesma, como ponto de apoio para impulsionar o pensamento, 
não como objeto a ser simplesmente explicado — explicação que, aliás, acaba 
por deter a própria marcha do pensamento.
Para aprofundar a discussão sobre a etnografia utilizada para a produção de dados 
na pesquisa científica, leia o artigo Etnografia: Saberes e Práticas, de Ana Luiza Carvalho 
da Rocha e Cornelia Eckert. 
https://goo.gl/LRD2UJ
Assim, a disciplina de antropologia compreende a etnografia como parte 
do processo de pesquisa que possibilita estudar o outro a partir de critérios 
científicos. Como explica Mattos (2011, p. 53), a:
 [...] etnografia é a especialidade da antropologia, que tem por fim o estudo e 
a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais 
de suas atividades, é parte ou disciplina integrante da etnologia é a forma de 
descrição da cultura material de um determinado povo [...]. 
Etnografia6
Então, podemos compreender a etnografia como o exercício de olhar sobre 
o outro que nos permite compreender de forma sistemática aspectos culturais 
intrínsecos que, numa observação rápida, seriam difíceis de apreender. Para 
reforçar essa ideia, Lévi-Strauss evidencia a etnografia como parte do trabalho 
do antropólogo: 
É por uma razão muito profunda, que se prende à própria natureza da dis-
ciplina e ao caráter distintivo de seu objeto, que o antropólogo necessita da 
experiência do campo. Para ele, ela não é nem um objetivo de sua profissão, 
nem um remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa 
um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá possuir conhe-
cimentos descontínuos que jamais formarão um todo, e após o qual, somente, 
estes conhecimentos se "prenderão" num conjunto orgânico e adquirirão um 
sentido que lhes faltava anteriormente (LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 415–416).
 Tendo a etnografia como parte crucial da aprendizagem do estudo de 
outras culturas, cabe ter noção da dimensão que esse conceito alcança em 
termos da pesquisa científica. Peirano (2014, p. 383) se questiona critica-
mente sobre a identificação da etnografia como apenas um método, e destaca 
que as produções de monografias sobre aspectos de outras culturas “[...] não 
são resultado simplesmente de ‘métodos etnográficos’; elas são formulações 
teórico-etnográficas. Etnografia não é método; toda etnografia é também teoria 
[...]”. Assim, não está limitada apenas ao antropólogo a prática etnográfica, 
mas também não cabe difundir a etnografia como simples metodologia que 
se aplica a qualquer contexto de pesquisa. Como diz a antropóloga, é preciso 
fazer uma boa etnografia:
A primeira e mais importante qualidade de uma boa etnografia reside, então, 
em ultrapassar o senso comum quanto aos usos da linguagem. Se o trabalho de 
campo se faz pelo diálogo vivido que, depois, é revelado por meio da escrita, é 
necessário ultrapassar o senso comum ocidental que acredita que a linguagem 
é basicamente referencial. Que ela apenas "diz" e "descreve", com base na 
relação entre uma palavra e uma coisa. Ao contrário, palavras fazem coisas, 
trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados. 
E palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da 
mesma maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações 
que é necessário avaliar e analisar. Dito de outra forma, é preciso colocar no 
texto — em palavras sequenciais, em frases que se seguem umas às outras, 
em parágrafos e capítulos — o que foi ação vivida. Este talvez seja um dos 
maiores desafios da etnografia — e não há receitas preestabelecidas de como 
fazê-lo (PEIRANO, 2014, p. 386).
7Etnografia
Assim, somente exercitando e praticando a etnografia é que o pesquisador 
vai aperfeiçoando e percebendo questões que não estavam evidentes na pri-
meira observação. Desse modo, etnografia é muito mais que escrever sobre 
o outro, porque considera um estudo complexo, uma análise cuidadosa e uma 
interpretação dos dados que está baseada em teoria precedentes para chegar 
a uma conclusão que contribua com o conhecimento científico. 
Para além da escrita, o antropólogo pode apresentar nas monografias os registros 
visuais feitos durante o trabalho de campo, a fim de explicitar aspectos culturais de 
outras sociedades. Muitas vezes, essas imagens não são apenas para “ilustrar” o que é 
dito, mas também compõem a argumentação teórica do que é analisado sobre aquela 
cultura. Um dos exemplos mais clássicos na antropologia é a obra Balinese Character, 
de Gregory Bateson e Margaret Mead, que apresentaram um estudo minucioso de 
diversas práticas culturais entre os balineses. 
Por isso, podemos imaginar que o produto final de análise da observação 
participante é a monografia, pois “[...] é seguramente no ato de escrever, 
portanto na configuração final do produto desse trabalho, que a questão do 
conhecimento se torna tanto ou mais crítica [...]” (OLIVEIRA, 2000, p. 25). 
Ao juntar as partes de um quebra-cabeça, o todo toma forma. Essa totalidade 
não deve pretender retratar a verdade única e absoluta, mas apenas apresentar 
uma versão interpretativa sobre o grupo estudado por quem realizou a pesquisa 
— podendo seus leitores concordarem ou não.
Na composição desse material final, cabe lembrar que essa a escrita pode 
ser composta de outros materiais (organograma, desenhos, fotos, sons, vídeos) 
que ajudem o leitor a compreender a argumentação teórico-metodológica 
apresentada pelo etnógrafo. 
Estratégias e objetivos da etnografia 
Para pesquisarmos a cultura do outro, vamos refl etir sobre quais estratégias 
são relevantes durante o processo da etnografi a. Inicialmente, Oliveira (2000, 
p. 25) nos lembra que “[...] olhar e o ouvir podem ser considerados como os 
atos cognitivos mais preliminares no trabalho de campo [...]”. Podemos pensar 
Etnografia8
que, para olhar o outro, precisamos lançar mão de lentes sociológicas, a fi m 
de poder ver aquilo que não veríamos com um olhar banal. Assim, esse olhar 
e essa escuta devem estar atentos ao que se deseja compreender durante a 
observação participante. 
Geertz (1978) evidencia o que pode estar contido na proposta de etnografia, 
de modo que o pesquisador tenha um quadro mais completo do grupo social 
que estuda. Durante a observação participante, ele não só observa, mas também 
cria estratégiassistemáticas de como registrar aspectos da vida cultural de 
quem é observado: 
O que o etnógrafo enfrenta, de fato — a não ser quando (como deve fazer, 
naturalmente) está seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados 
— é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas 
sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estra-
nhas irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro 
aprender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade 
do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, 
observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de proprie-
dade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como 
tentar ler (no sentido de "construir uma leitura de") um manuscrito estranho, 
desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários 
tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com 
exemplos transitórios do comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20).
Assim, para compreender o que parecem incoerências, comentários banais 
e sinais não identificáveis, os registros em cadernos de campos — também 
chamados de diários — são essenciais e servem para descrever momentos, 
explicitar detalhes, apresentar aspectos culturais e refletir sobre tudo o que foi 
visto e falado durante a interação com os membros da sociedade pesquisada. 
Weber (2009, p. 157) explica que o diário de campo: 
[...] é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao 
longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o 
exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo 
social, método que se caracteriza por uma investigação singular [...].
Em conjunto com o diário de campo, cabe fazer entrevistas semiestru-
turadas (aquelas com questões abertas), para captar informações em maior 
profundidade, que respondem aos objetivos da pesquisa. Duarte (204, p. 216) 
nos provoca a pensar o que seria uma boa entrevista:
9Etnografia
A realização de uma boa entrevista exige: a) que o pesquisador tenha muito 
bem definidos os objetivos de sua pesquisa (e introjetados — não é suficiente 
que eles estejam bem definidos apenas “no papel”); b) que ele conheça, com 
alguma profundidade, o contexto em que pretende realizar sua investigação (a 
experiência pessoal, conversas com pessoas que participam daquele universo 
— egos focais/informantes privilegiados —, leitura de estudos precedentes e 
uma cuidadosa revisão bibliográfica são requisitos fundamentais para a entrada 
do pesquisador no campo); c) a introjeção, pelo entrevistador, do roteiro da 
entrevista (fazer uma entrevista “não-válida” com o roteiro é fundamental 
para evitar “engasgos” no momento da realização das entrevistas válidas); 
d) segurança e auto-confiança; e) algum nível de informalidade, sem jamais 
perder de vista os objetivos que levaram a buscar aquele sujeito específico 
como fonte de material empírico para sua investigação.
Entretanto, é preciso ter cuidado com o discurso do pesquisado durante 
a entrevista semiestruturada. Este, geralmente num contexto mais formal de 
pesquisa, acaba dizendo o discurso oficial, o que é esperado, o que ele foi 
treinado para dizer, quando o que o pesquisador quer muitas vezes é justamente 
o que escapa desse discurso e revela a situação do cotidiano. Assim, também é 
preciso considerar as conversas informais como fonte preciosa de informações, 
pois é nesses momentos que podemos comparar o discurso oficial com o que 
acontece na prática. Com essas ideias em mente, Zaluar (2009, p. 577) conta 
como conseguiu estudar o “mundo do crime”: 
O objetivo era entender os processos sociais existentes no tráfico, ou seja, 
a dinâmica das relações entre fornecedores de armas e drogas, traficantes 
e usuários, assim como as formações subjetivas reveladas no simbolismo e 
nos rituais das interações entre os atores. Os contatos para entrevistas foram 
feitos seguindo a rede de conhecidos dos usuários ou nos locais de lazer 
escolhidos para a observação silenciosa. Desse modo, muitas definições e 
imagens e vários significados contextuais do crime, do desvio, da droga, 
da polícia, do bairro, das diversas atividades de lazer, das relações entre os 
usuários, entre eles e os traficantes, entre todos e a polícia foram transmitidos 
pela observação direta, por conversas informais depois registradas e pelos 
relatos de experiências de nossos informantes.
Além dessas estratégias, também é pertinente para o trabalho de campo a 
construção do método genealógico. Ele permite a compreensão das formações 
familiares de uma sociedade, evidenciando os povos ascendentes, quem é filho 
de quem, se a é cultura patrilinear ou matrilenar, e como se dão casamentos 
entre grupos sociais. Rivers (1991) defendeu o uso dessa ferramenta para 
os estudos de parentescos e elucidou que essa técnica elevaria o status das 
Etnografia10
ciências sociais como estudos de ciências biológicas, pois a sua construção 
seguiria critérios e padrões que permitiriam um estudo científico sobre as 
culturas pesquisadas. 
Outra estratégia que pode garantir a inclusão num grupo social diferente 
do grupo do pesquisador é a aproximação de um informante-chave. Em es-
sência, trata-se de alguém que vai introduzir o pesquisador no cotidiano da 
outra cultura, explicar rapidamente o que ele não entende, apresentar pessoas 
importantes para o objetivo da pesquisa, entre outros motivos. Essa abordagem 
faz com que o pesquisador desenvolva um vínculo maior com essa pessoa.
Os informantes chaves são participantes que possuem conhecimentos, status, 
destrezas comunicativas especiais e estão dispostos a colaborar com o inves-
tigador. Ajudam ao investigador a vencer, superar as barreiras que aparecem 
no seu caminho. Tem acesso a determinados subgrupos e pessoas, que, por 
outra via seria difícil alcançar. Os atores chaves devem ser escolhidos com 
cuidado tendo em consideração seu nível adequado de representatividade 
em relação ao grupo completo de informantes chaves. Recomenda-se que as 
informações obtidas dos informantes chaves sejam claramente especificadas 
e diferenciadas como nas notas de campo (LÓPEZ, 1999, p. 49).
Assim, vamos percebendo que as estratégias do pesquisador correspondem 
aos objetivos da etnografia. Para coletar dados que respondam às perguntas 
gerais e específicas da pesquisa, é preciso que o pesquisador utilize algumas 
dessas técnicas. Entretanto, sabe-se que não há formulas a serem seguidas, pois 
cada pesquisa tem suas particularidades, como evidencia Mattos (2011, p. 50):
A etnografia é um processo guiado preponderantemente pelo senso questio-
nador do etnógrafo. Deste modo, a utilização de técnicas e procedimentos 
etnográficos, não segue padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso 
que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social 
da pesquisa. Os instrumentos de coleta e análise utilizados nesta abordagem 
de pesquisa, muitas vezes, têm que ser formuladas ou recriadas para atender 
à realidade do trabalho de campo. Assim, na maioria das vezes, o processo 
de pesquisa etnográfica será determinado explícita ou implicitamente pelas 
questões propostas pelo pesquisador.
Por último, Mattos (2011) ainda sistematiza três questões da etnografia 
que contribuem com o campo da pesquisa qualitativa:
1. A preocupação com uma análise holística ou dialética da cultura, isto 
é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da 
11Etnografia
sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as 
estruturas sociais e as ações e interações humanas. 
2. A introdução dos atores sociais com uma participação ativa e dinâmica 
no processo modificador das estruturas sociais. 
3. Apresentação das interações e evidência dos processos engendrados e 
de difícil visibilidade para os sujeitos que dela fazem parte. 
Logo, a etnografia nos permites conheceroutra cultura de forma mais 
aprofundada, pois se utiliza de estratégias específicas, de acordo com os 
objetivos da pesquisa. Nesse sentido, para conhecer os grupos sociais que 
são diferentes de nós, não basta chegarmos até eles: precisamos ter um olhar 
mais cuidadoso e atenção redobrada, e também fazer notas sobre aquilo que 
queremos compreender. Com isso, vamos explicitando os procedimentos da 
pesquisa científica e reconhecendo essas estratégias dentro de um arcabouço 
teórico-metodológico guiado pela disciplina da antropologia. 
CADERNO DE NOSFERATU. Antrpofágia. 2010. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018.
DUARTE, R. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar UFPRS, Curitiba, n. 24, p. 
213-225, 2004. 
ETNOGRAFANDO. Malinowski e sua contribuição à antropologia. 2012. Disponível em: 
. Acesso em: 31 out. 2018.
O livro Entre saias justas e jogos de cintura, organizado por Soraya Fleischer e Alinne 
Bonetti, reúne artigos sobre os encontros dos pesquisadores e seus pesquisados. 
Cada um deles conta sobre as suas experiências etnográficas, apresenta situações 
inesperadas em campo e mesmo soluções surpreendentes durante a etnografia. É um 
livro atual, que apresenta pesquisas contemporâneas e que motiva o leitor a perceber 
que a etnografia é desafiadora e prazerosa.
https://goo.gl/sgd9SZ
Etnografia12
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
GOLDMAN, M. Jeanne Favret-Saada: os afetos, a etnografia. Cadernos de Campo, São 
Paulo, v. 13, n. 13, p. 149-153, 2005.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991. 
LÓPEZ, G. L. O método etnográfico como um paradigma científico e sua aplicação 
na pesquisa. Textura: Revista de Educação e Letras, Canoas, v. 1, n. 1, p. 45-50, 1999.
MATTOS, C. L. G. A abordagem etnográfica na investigação científica. In: MATTOS, C. L. G.; 
CASTRO, P. A. (Org.). Etnografia e educação: conceitos e usos. Campina Grande: EDUEPB, 2011.
OLIVEIRA, R. C. O trabalho do antropólogo. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2000.
PEIRANO, M. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 20, 
n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014.
PIRES, V. Uma breve análise acerca da atuação interétnica dos indígenas da costa 
brasileira sob a pena de viajantes europeus (1500-1627) História. Revista da Faculdade 
de Letras: História, Porto, v. 3, n. 1, p. 9-28, 2013.
RIVERS, W. H. O método genealógico na pesquisa antropológica. In: CARDOSO DE 
OLIVEIRA, R. (Org.). A antropologia de Rivers. Campinas: Unicamp, 1991. p. 51-67.
WEBER, F. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou: por que censurar seu diário de campo? 
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 157-170, 2009.
ZALUAR, A. Pesquisando no perigo: etnografias voluntárias e não acidentais. Mana, 
Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 557-584, out. 2009.
Leituras recomendadas
BATESON, G.; MEAD, M. Balinese character: a photographic anlysis. 1942. Disponível em: 
. Acesso em: 31 out. 2018.
CARDOSO, R. C. L. Aventuras de antropólogos em campo ou como escapar das ar-
madilhas do método. In: CARDOSO, R. C. L. A aventura antropológica. 2. ed. São Paulo: 
Paz e Terra, 1988. p. 95-106.
DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981. 
PALERMO, E. G.; TOZZINI, M. A. Resenha. Campos, v. 11, n. 2, p. 137-142, 2010. Disponível 
em: . Acesso em: 1 out. 2018.
ROCHA, A. L. C.; ECKERT, C. Etnografia: saberes e práticas. Iluminuras, Porto Alegre, v. 9, 
n. 21, 2008. Disponível em: . 
Acesso em: 31 out. 2018.
VELHO, G. Observando o Familiar. In: NUNES, E. (Org.). A aventura sociológica. Rio de 
Janeiro: Zahar, 1978.
13Etnografia
Conteúdo:
ANTROPOLOGIA 
E CULTURA
Priscila Farfan Barroso
Revisão técnica:
Guilherme Marin
Bacharel em Filosofia
Mestre em Sociologia da Educação
Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB-10/2147
B277a Barroso, Priscila Farfan.
Antropologia e cultura / Priscila Farfan Barroso, Wilian
Junior Bonete, Ronaldo Queiroz de Morais Queiroz ; 
[revisão técnica: Guilherme Marin]. – Porto Alegre: 
SAGAH, 2017.
218 p. : il ; 22,5 cm.
ISBN 978-85-9502-184-6
1. Antropologia. 2. Sociologia. 3. Cultura. I. Bonete,
Wilian. II.Queiroz, Ronaldo Queiroz de Morais. III.Título.
CDU 31
Antropologia e Cultura_Iniciais_Impressa.indd 2 17/11/2017 16:23:27
Cultura
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Reconhecer o que é a cultura.
 � Entender como uma cultura se desenvolve.
 � Identificar o papel da cultura na antropologia.
Introdução
Neste capítulo, discutiremos o que é cultura, como se aborda esse conceito 
e a sua relação com a antropologia.
Introdução à cultura
O que você entende por cultura? Você acha que todo mundo tem cultura? Ou 
cultura é só o que se aprende na escola? Você precisa compreender que a cultura 
não é só o que se aprende na escola. Todo mundo tem cultura, porque a cultura 
é transmitida de geração a geração, de pessoa a pessoa, como herança social. 
É a partir da cultura que os seres humanos convivem e aprendem a habitar 
o mundo em que vivem. Assim, o homem não só passa por uma aprendizagem 
cultural, através do processo de socialização, como também pode transmitir
aspectos culturais ao grupo social. Símbolos e linguagens são compartilha-
dos e compreendidos como herança social – e não como herança biológica/
genética – pelos membros de uma mesma comunidade, de modo que esses
elementos identificadores da cultura são considerados como normas e regras
fundamentais para sobreviver em uma sociedade.
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 37 17/11/2017 16:06:45
Figura 1. Cultura africana
Fonte: Cultura africana (2016). 
O estudo sobre a cultura pode variar de tempos em tempos, de autor para 
autor, de paradigma para paradigma. Sendo assim, podemos dizer que é por 
meio desse conceito que os antropólogos estudam o “outro”. O antropólogo 
evolucionista Tylor (1920, p. 1) definiu cultura, em 1871, como “aquele todo 
complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume e 
outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma 
sociedade”. Com o tempo, outros autores vão problematizando essa noção 
totalizante de cultura, tornando-a mais interpretativa, mais parcial, mais 
polissêmica, saindo da ideia do todo para apresentar feições da cultura. 
De qualquer modo, podemos dizer que a cultura se “manifesta por meio 
de diversos sistemas” (DIAS, 2010, p. 67) – como o sistema de valores, o de 
normas, o de ideologias, o de comportamentos, entre outros – dentro de um 
território específico, em determinada comunidade cultural, e influencia os 
indivíduos na concretização das suas ações sociais. É na interação entre os 
indivíduos e os grupos que são construídos e negociados os parâmetros culturais 
nos quais as ações sociais se realizam, constituindo, assim, uma identidade 
própria para cada cultura, como é o caso da cultura brasileira.
Portanto, podemos dizer também que a cultura é exclusiva das socie-
dades humanas, já que, a partir dela, se pode traçar a diferenciação entre 
o homem e o animal. O homem é o único ser vivo que tem capacidade 
para o acúmulo cultural, tanto pela quantidade dessa produção, como 
pela complexidade da sua natureza. Nesse sentido, a linguagem humana é 
fundamental para a comunicação simbólica, e sua importância se dá não só 
Cultura38
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 38 17/11/2017 16:06:46
pelo idioma em questão, mas também pelos gestos, sotaques e expressões 
locais que denotama circulação de sentidos em determinada cultura. 
Logo, tudo o que é criado pelas sociedades humanas, para satisfazer as 
suas necessidades e viver em sociedade, seja tangível ou intangível, está 
englobado na cultura.
Produzido em 1922, por Robert Flaherty, este filme documenta a vida de uma família inuíte 
(esquimós) durante um ano. Por meio de imagens e da sequência de cenas inusitadas, 
o cineasta apresenta o modo de vida de uma família que vive praticamente isolada
https://goo.gl/Qy5Yx4
Perspectivas de análise sobre a cultura
Para aprofundar a discussão, vamos nos inspirar nas características que en-
volvem a atuação do conceito de cultura apresentada por Roque Laraia (2001). 
Ele propõe cinco pontos para mostrar a operação desse conceito, são eles: a 
cultura condiciona a visão do homem, a cultura interfere no plano biológico, 
39Cultura
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 39 17/11/2017 16:06:47
os indivíduos participam diferentemente de sua cultura, a cultura tem uma 
lógica própria e a cultura é dinâmica. 
A cultura condiciona a visão do homem
Os seres humanos são incentivados a agir de acordo com as regras e os pa-
drões culturais que são estabelecidos pelos membros da cultura. Aqueles que 
destoam do proposto são considerados desviantes. Para Becker (2008, p. 22), 
o desvio é visto como “produto de uma transação que tem lugar entre algum 
grupo social e alguém que é visto por esse grupo como infrator de uma regra”. 
Ser considerado infrator gera consequências discriminatórias nas sociedades. 
Por isso, de modo geral, o indivíduo é condicionado a agir de acordo com o 
padrão esperado naquela cultura. 
Ainda que os homens tenham uma configuração biológica comum, o modo 
como eles acionam esses mecanismos biológicos para habitar o mundo é distinto. 
Dentro das sociedades, cada um pode ocupar um papel social diferente, determi-
nado pelo convívio entre os membros da comunidade. Por isso, a aprendizagem 
cultural não se dá como herança biológica e sim como herança social através 
da imitação e reprodução, consciente e inconsciente, dos aspectos culturais que 
permeiam o ambiente social no qual os indivíduos estão mergulhados. 
A cultura interfere no plano biológico
A forma como vivem os seres humanos pode afetar o organismo biológico de 
diferentes maneiras, gerando impactos nas necessidades fisiológicas básicas. 
Um estilo de vida baseado em uma alimentação saudável pode fazer com 
que os indivíduos vivam mais do que um estilo de vida de pouco sono, má 
alimentação, muito trabalho. Entretanto, não nos alimentamos apenas para 
satisfazer as necessidades, mas também por prazer. O que é considerado 
prazeroso é construído no âmbito da cultura.
Ainda é preciso enfatizar que o que comemos não está condicionado apenas 
ao desejo, mas passa pelo o que temos de acesso a alimento em nossa cultura. 
O domínio da agricultura faz com que possamos ter alimentos nas diferentes 
estações, mas não é em todos os países do mundo que as frutas são frescas, 
acessíveis e baratas, por exemplo.
Nas sociedades contemporâneas, somos acostumados com os chamados 
“fast foods”, que são comidas de preparo rápido, industrializadas, de baixo 
valor nutricional, mas com alto valor calórico. A popularização desses produ-
tos, conjuntamente com o estilo de vida agitado, faz com que cada vez mais a 
Cultura40
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 40 17/11/2017 16:06:47
população consuma esse tipo de alimento, o que gera o aumento da prevalência 
da obesidade e maior probabilidade de problemas de saúde. 
Para ter um melhor entendimento quanto aos prejuízos dos “fast food”, você pode assistir 
ao filme “Super Size me” de Morgan Spurlock, que se alimenta apenas de comida de fast 
food durante um mês, para analisar os efeitos dessa dieta hipercalórica em seu corpo. 
Os indivíduos participam diferentemente de sua 
cultura
Inúmeras manifestações culturais acontecem em uma sociedade. No entanto, 
os seus membros participam parcialmente de todo esse arcabouço cultural. 
Ninguém consegue participar de tudo o que ocorre em sua cultura, justamente 
porque existem condicionantes que os limitam, como, por exemplo, gênero, 
idade, papel social, estilo de vida, entre outros. Conforme os indivíduos vão se 
desenvolvendo após o nascimento, acessam regras e normas na sociedade que lhes 
permitem participar de diferentes manifestações culturais. Na prática religiosa 
41Cultura
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 41 17/11/2017 16:06:49
do catolicismo, quando criança, alguns são batizados, depois fazem a comunhão 
e somente com mais idade é que se pode realizar a cerimônia matrimonial. 
Assim, os indivíduos carregam e reproduzem aspectos culturais diferentes 
durante suas vivências, fazendo com que cada ser humano contenha em si 
camadas de cultura. É importante que os indivíduos conheçam e participem 
de alguns aspectos culturais que possibilitem a comunicação e articulação 
com os outros membros da sociedade. Saber como agir e se comportar em 
determinadas situações faz parte da convivência, ainda que essa seja uma 
aprendizagem processual e nem sempre se aja como deveria. 
O interesse pelo futebol, a prática de ir à praia ou mesmo acompanhar as 
festas de carnaval são aspectos culturais que conformam a identidade brasileira. 
No entanto, não são todos os brasileiros acessam, têm interesse ou participam 
do que oferece culturalmente o país. Ou seja, mesmo que estejamos imersos 
em uma cultura, temos uma participação relativa e parcial no que ela propõe. 
A cultura tem uma lógica própria 
Cada cultura tem a sua lógica própria, que revela um encadeamento de sentidos, 
pensamentos e ações que conformam a especificidade das culturas em si, de 
acordo com sua origem histórica e o território habitado. O que faz sentido 
para os membros de uma comunidade pode não fazer nenhum sentido para 
outra sociedade. Como nos diz Laraia (2001, p. 87), “A coerência de um hábito 
cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence”. 
Como compreender as pinturas corporais entre os povos indígenas? Como 
não se impressionar com as danças populares? Como interpretar a fé religiosa 
nas diferentes sociedades? Como os indivíduos buscam os processos de cura 
para suas enfermidades? Assim, para compreendermos a lógica de outra pes-
soa, temos de nos afastar da nossa lógica, ou pelo menos estabelecer relações 
que permitam desvendar e acessar a explicação do outro individuo, sem as 
referências da nossa própria lógica. 
A cultura é dinâmica
A cultura não está parada. A todo momento, diversos elementos culturais 
são reavaliados, conscientemente e inconscientemente, sendo que alguns são 
descartados, outros reinventados. Você pode comparar como estavam vestidas 
as pessoas nas fotos antigas guardadas no fundo da gaveta do armário com 
as vestimentas atuais, de quando saímos na rua. Pode pensar nas músicas 
da sua infância e nas músicas que tocam nas rádios hoje em dia. Analisar as 
Cultura42
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 42 17/11/2017 16:06:49
gírias e palavras faladas pelos seus parentes mais antigos em relação às gírias 
que você fala com seus colegas. Essas mudanças e modificações se mantêm 
momentaneamente até que novas transformações na cultura modifiquem-nas.
Podemos dizer que as mudanças culturais ocorrem de modo endógeno ou 
exógeno. O modo endógeno pode ser decorrente do próprio sistema cultural, 
a partir dos membros que participam dessa sociedade. O modo exógeno se dá 
por meio de um contato cultural, com outros povos, que acaba interferindo 
em práticas culturais estabelecidas antes do contato. As mudanças podem ser 
específicas ou até mesmo modificar completamente os elementos culturais 
que antes faziam sentido para aquela cultura. Assim, quando descrevemos 
uma determinada cultura, para um estudo científico, temos de saber que ela 
não permanece estática em relação ao seu modo de estar no mundo.
Sobre as mudanças culturais e de sentidos que, nos 
centros das grandes cidades, ao mesmotempo per-
mitiram a criação de espaços de confluência e trocas 
musicais, de gostos e de populações, você pode ler 
a reportagem abaixo:
https://goo.gl/2WqXEJ
O estudo antropológico sobre a cultura
Ao estarmos imersos em outra cultura, participamos e conhecemos o que faz 
sentido apenas ali, e não em outro contexto cultural, como o de origem do 
antropólogo. Assim, a antropologia não vai ser aquela que está do ponto de 
vista do observador ou do ponto de vista do observado, mas será uma “prática 
que surge em seu limite, ou melhor, em sua intersecção.” (LAPLANTINE, 
2003, p. 158). Logo, atentos a essa intersecção, vamos compreendendo as 
regras e normas da cultura de outro individuo, desvendando seus sentidos e 
suas motivações, pois, como diz Kottak (2013, p. 43), “As culturas são sistemas 
humanos de comportamento e pensamento, obedecem a leis naturais, podendo, 
portanto, serem estudadas de modo científico” (Figura 2).
43Cultura
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 43 17/11/2017 16:06:50
Figura 2. Malinowski e os trobriandeses.
Fonte: Duarte (2011). 
Nesse estudo, ter critério e método é crucial para acessar e perceber elemen-
tos da cultura a serem interpretados, que não são tão evidentes ao estrangeiro. 
Desde o início, partimos da ideia de que toda cultura é complexa, extremamente 
rica e cheia de sentidos. Como diz Cuche (1999, p. 239), “Não há cultura que 
não tenha significação para aqueles que nela se reconhecem. Os significados 
como os significantes devem ser examinados com a maior atenção”. Por isso, 
se você está disposto a estudar o homem e a sociedade em que ele vive, cer-
tamente vai abordar a discussão de cultura. Se deseja explicar os significados 
dos acontecimentos sociais do mundo em que vivemos, passará pelo estudo de 
seus elementos culturais. Se acompanha as mudanças culturais nas sociedades, 
será necessário compreender as modificações culturais ao longo dos tempos. 
E é buscando essas significações, expressas na cultura, que vamos reco-
nhecer as diferenças culturais. Isso é fundamental para um mundo que convive 
com inúmeras culturas e sociedades, próximas, cada vez mais, umas das 
outras, pelos avanços tecnológicos que se popularizam rapidamente mundo 
afora. Pensar na cultura como um conceito antropológico, como propõe 
Laraia (2001), torna-se chave para aprofundar o olhar sobre a sociedade, além 
de possibilitar aplicar esse mesmo olhar em outras áreas do conhecimento, 
como Educação, História, Políticas Públicas, entre outras. 
Logo, o que se deseja é reconhecer a potência das categorias de análise 
dessa disciplina para a compreensão dos homens em sociedade. E aqui, o 
conceito de cultura possibilita uma virada epistemológica de pensar em nós 
através do olhar do outro, de modo que, ao analisar a cultura deste individuo, 
Cultura44
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 44 17/11/2017 16:06:50
tendo a cultura do observador como referência, seja possível questionar nossos 
próprios parâmetros culturais. Nesse sentido, para entender outras culturas, é 
preciso aprofundar o entendimento da nossa própria cultura, e, por mais pro-
ximidade que tenhamos com ela, é necessário o esforço de avaliá-la pelo olhar 
do estrangeiro, que suspende seu julgamento, participa e se deixa vivenciar a 
cultura junto com outra pessoa. 
45Cultura
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 45 17/11/2017 16:07:00
BECKER, H. S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 
CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: Edusc, 1999.
CULTURA africana. 2016. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017.
DIAS, R. Introdução à sociologia. 2. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010.
DUARTE, L. F. D. Antropologia é ciência? 2011. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017.
KOTTAK, C. P. Espelho para humanidade: uma introdução concisa à antropologia 
cultural. 8. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar , 2001.
MEDEIROS K. Centro-Favela, Favela-Centro: reflexos de mudanças culturais. 2015. Dis-
ponível em: http://revistalampiao.com.br/blog/centro-favela-favela-centro-reflexos-
-de-mudancas-culturais/. Acesso em: 24 de ago. 2017.
PANDYA, M. What is the first documentary film made in history? 2015. Disponível em: 
. 
Acesso em: 21 ago. 2017.
TYLOR, E. B. Primitive Culture: researches into the development of mythology, philo-
sophy, religion, language, art, and custom. London: John Murray, 1920.
47Cultura
Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 47 17/11/2017 16:07:01
ESTUDOS 
CULTURAIS E 
ANTROPOLÓGICOS
Priscila Farfan Barroso
Estudos culturais
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Definir estudos culturais.
  Listar as ideias importantes que surgiram a partir dos estudos culturais.
  Relacionar os estudos culturais a questões contemporâneas.
Introdução
Neste capítulo, você vai ver como se deu o surgimento dos estudos 
culturais e qual é o seu conceito. Assim, vai estudar a construção desse 
conceito e também as ideias principais que podem ser usadas como 
ferramentas de estudo nessa área. Para isso, você vai se debruçar sobre 
três ideias. A primeira delas é a noção de cultura como um modo de en-
xergar outras sociedades. A segunda delas é o conceito de etnocentrismo, 
que se refere ao modo como as pessoas percebem o outro. A última é a 
noção de diversidade cultural, que tem a ver com a riqueza das formas 
de existência no mundo.
Ao fim do capítulo, você vai ver a importância dos estudos culturais e 
entender como eles podem ser aplicados a questões contemporâneas.
O que são os estudos culturais?
O mundo contemporâneo é diverso e composto por inúmeras sociedades. 
Cada sociedade, por sua vez, age de maneiras específi cas. Assim, ainda que 
não se possa conhecer a fundo todas as sociedades, saber da existência de 
culturas diferentes leva a uma compreensão de mundo mais plural e diversa.
Entretanto, para compreender o outro, primeiro é preciso compreender 
a si mesmo. As pessoas nascem imersas numa cultura e é a partir dela que 
conhecem o mundo ao seu redor. Como afirma Laraia (2001, p. 67), “[...] a 
cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo [...]”. Por isso, 
você deve ter noção de que alguns aspectos de culturas diferentes da sua lhe 
parecerão familiares e outros, muitos exóticos. Por isso, você deve ter cuidado 
para respeitar aquilo que não conhece. Assim como você tem o direito de ser 
quem é, as pessoas de outras culturas também o tem. Nesse sentido, é preciso 
pensar em termos de direitos humanos e da pluralidade de formas de vida.
A existência de um indivíduo se dá em conjunto com outros membros da 
sociedade em que ele vive. Tudo o que é produzido por eles expressa o que 
pensam, o que fazem e o que deixam como legado. Portanto, a produção cultural 
é um reflexo das manifestações sociais que as diferentes culturas constroem. 
Nesse sentido, essas manifestações sociais se explicitam por meio das práticas 
sociais. Como sintetiza Hall (1997, p. 33): “[...] toda prática social tem condições 
culturais ou discursivas de existência. As práticas sociais, na medida em que 
dependem do significado para funcionarem e produzirem efeitos, se situam 
‘dentro do discurso’, são ‘discursivas’ [...]”. Assim, acessando essas práticas 
sociais juntamente aos discursos que elas constroem sobre o mundo, você 
pode apreender o que é relevante para outras sociedades e comparar isso com 
o que é relevante para a sua realidade.
Mas como surge a preocupação de estudar outras culturas? E como é 
possível estudar essas culturas de modo relevante? Está correto dizer que 
os estudos culturais se constituíram como disciplina?E como suas ideias se 
espalharam por outros domínios das ciências humanas e sociais? Como você 
pode imaginar, não há uma única resposta para essas questões. Contudo, 
existem algumas pistas para responder a essas e outras perguntas relevantes:
Os Estudos Culturais como campo de investigação se iniciaram após a Segunda 
Guerra Mundial, tendo como marco conceitual o texto “Schools of English and 
Contemporary Society” de Richard Hoggart, o primeiro diretor do Center for 
Contemporary Cultural Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham, que 
descrevia sobre os antecedentes históricos e a contribuição para o estudo da 
cultura e da comunicação do século XX. [...] Caracterizam-se por possibilitar 
diferentes posições teóricas e políticas que partilham do compromisso de 
analisar práticas culturais do ponto de vista das relações de poder. [...] Seus 
métodos são ambíguos e podem ser considerados uma bricolagem. Por isso, 
os delineamentos relacionados ao conceito de cultura transpõem os eixos da 
erudição, das tradições artísticas ou de sua hierarquia, abrindo um leque de 
sentidos amplos e versáteis para o tema. Abandona-se o pressuposto elitista, 
privilegiando-se a adoção de leituras das populações e do senso comum [...] 
No Brasil, os Estudos Culturais se estabeleceram em meados de 1990 [...] 
(KRUSE et al., 2018, p. 2).
Ou seja, há a adoção e a difusão de certa maneira de olhar para aspectos de 
outras culturas. Logo, essa reflexão está de acordo com o que propõe o próprio 
Estudos culturais2
Hall (1980, p. 7), quando diz que “Os estudos culturais não configuram uma 
‘disciplina’ mas uma área onde diferentes disciplinas interatuam, visando ao 
estudo de aspectos culturais da sociedade [...]”. Por isso, você está convidado a 
estudar mais a fundo os estudos culturais a fim de compreender a importância 
de conhecer outras culturas diferentes da sua.
Hennigen e Guareschi (2006) evidenciam que a proposição de Wittgenstein 
para os estudos de linguagem foi determinante para se pensar a respeito dos 
significados da convivência social. O que era considerado como natural nos 
modos de vida começou a ser percebido como construído por uma discursi-
vidade. Assim, compreender os meandros discursivos permite acompanhar 
as diversidades de expressões e manifestações humanas no mundo. Nesse 
sentido, os discursos apresentariam o contexto cultural da sociedade em 
questão e também a sua complexidade:
Os discursos podem ser entendidos como histórias que, encadeadas e enre-
dadas entre si, se complementam, se completam, se justificam e se impõem a 
nós como regimes de verdade. Um regime de verdade é constituído por séries 
discursivas, famílias cujos enunciados (verdadeiros e não verdadeiros) esta-
belecem o pensável como um campo de possibilidades fora do qual nada faz 
sentido — pelo menos até que aí se estabeleça um outro regime de verdade. 
Cada um de nós ocupa sempre uma posição numa rede discursiva de modo 
a ser constantemente “bombardeado”, interpelado, por séries discursivas 
cujos enunciados encadeiam-se a muitos e muitos outros enunciados. Esse 
emaranhado de séries discursivas institui um conjunto de significados mais 
ou menos estáveis que, ao longo de um período de tempo, funcionará como 
um amplo domínio simbólico no qual e através do qual daremos sentido às 
nossas vidas. É esse dar sentido que faz de nós uma espécie cultural (VEIGA-
-NETO, 2000, p. 56–57).
Portanto, acompanhar um discurso é como puxar um fio do emaranhado 
de lã que tece a cultura na qual o indivíduo está. Desse modo, quando você 
acompanha esse fio, pode desvendar questões inimagináveis da cultura do 
outro. Por meio dessas questões, é possível acessar a riqueza das diferentes 
existências que habitaram ou habitam o mundo.
Entretanto, não são somente os homens que constroem os discursos sobre 
o mundo. Eles também são construídos por esses mesmos discursos. Veja:
Na perspectiva dos estudos culturais, não é o sujeito que produz as práticas de 
significação, são elas que vão constituir os sujeitos. Cada indivíduo tornar-se-á 
sujeito à medida que se tomar a partir de certas práticas de significação, assim, 
estará posicionado na rede discursiva de uma determinada forma. As práticas 
3Estudos culturais
de significação emergem de uma determinada episteme, que cria regimes de 
verdade. Contudo, as práticas de significação somente se constituem como 
tal à medida que são tomadas como verdades. […] Isso acontece segundo 
uma contingência histórica e cultural, pois nessa perspectiva opera-se com 
um sujeito que nunca é idêntico a si mesmo ao longo do tempo; ao contrário, 
ele guarda uma abertura para o tempo, tempo histórico que o vai posicionar 
na diferença e não no mesmo (HENNIGEN; GUARESCHI, 2006, p. 66).
Portanto, estudar os indivíduos que atuam em determinada sociedade 
possibilita acessar a gama de artefatos culturais disponíveis, bem como os 
significados que fazem sentido entre esses indivíduos, ainda que esses signifi-
cados se transformem com o passar do tempo. Nesse emaranhado de fios que 
apresentam a cultura do outro, você vai conhecendo outros modos de existir 
e também refletindo sobre o seu próprio modo de existência. 
Principais ideias dos estudos culturais
Para compreender melhor o que os estudos culturais propõem, é interessante 
você conhecer algumas ideias principais que orientam o estudo do outro. Você 
deve ter em mente que estudar outras sociedades permite pensar no próprio 
conceito de cultura. Isso acontece pois esse estudo “[...] parte do processo geral 
que cria convenções e instituições, pelas quais os signifi cados a que se atribui 
valor na comunidade são compartilhados e ativados [...]” (WILLIAMS, 1969, 
p. 55). Ou seja, compreender o conceito de cultura também possibilita olhar 
para as signifi cações que são compartilhadas entre os membros das sociedades. 
Assim, considere esta definição de Cevasco (2003, p. 139):
[...] uma cultura em comum seria aquela continuamente redefinida pela prá-
tica de todos os seus membros, e não uma na qual o que tem valor cultural é 
produzido por poucos e vivido passivamente pela maioria. Trata-se de uma 
visão de cultura inseparável de uma visão de mudança social radical e que 
exige uma ética de responsabilidade comum, participação democrática de 
todos em todos os níveis da vida social e acesso igualitário às formas e meios 
de criação cultural.
Por isso, ao conviver com membros de outra cultura, você aprende quais 
práticas sociais são relevantes em seu meio social, quais motivações são perti-
nentes para aquelas pessoas, como elas resolvem os seus problemas cotidianos, 
como se comunicam e se expressam diante do mundo, entre outros aspectos. 
Estudos culturais4
Laraia (2001) destaca alguns aspectos relacionados à cultura. Você deve 
considerá-los em seu estudo sobre o tema. Veja a seguir.
a) A cultura condiciona a visão de mundo do homem, pois desde que 
ele nasce convive com membros da sua cultura, que ensinam a ele 
como se comportar e a ler o mundo à sua volta. Mas, se uma pessoa 
vai morar em outro país, por exemplo, também pode aprender a viver 
nesse outro contexto. 
b) A cultura interfere no plano biológico, já que o que você come, o modo 
como se protege do frio e do calor e a maneira como se relaciona com 
os outros membros podem desencadear doenças ou mesmo aumentar 
a sua qualidade de vida.
c) Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura. Como cada 
indivíduo assume uma posição na sociedade em que vive, acessa deter-
minados elementos vinculados a tal posição. Por exemplo, um sacerdote 
tem acesso ao mundo religioso da sua cultura de modo totalmente 
diferente de um simples fiel.
d) A cultura tem uma lógica própria, ou seja, cada sociedade explica suas 
questões sobre o mundo de forma particular. Por exemplo, a vaca na 
Índia é sagrada e não se pode comê-la. Já em outros países, a carne 
de vaca é consumida diariamente pelos membros da sociedade sem 
maiores temores.
e) A cultura é dinâmica, pois ela não é estática.impor penas mais pesa-
das quando as vítimas são brancas, do que quando elas 
pertencem a uma das minorias.
Os sociólogos colocam sua imaginação sociológica 
para funcionar em diversas áreas – incluindo as áreas 
do envelhecimento, da família, da ecologia humana e 
da religião. Neste livro você vai ver como os sociólogos 
desenvolvem teorias e fazem pesquisas para estudar e 
entender melhor as sociedades. E você será encorajado a 
usar a sua imaginação sociológica para examinar os Esta-
dos Unidos e o Brasil (além de outras sociedades) como 
uma pessoa de fora – de maneira respeitosa, mas sempre 
questionando.
Sociologia e Senso Comum
A sociologia focaliza o estudo do comportamento hu-
mano. Entretanto, todos nós temos experiências com o 
comportamento humano, e pelo menos algum conheci-
mento sobre ele. Todos nós também podemos ter teorias 
sobre por que uma pessoa vai viver na rua, por exemplo. 
As nossas teorias e opiniões geralmente se baseiam em 
nosso “senso comum” – ou seja, nas nossas experiências e 
conversas, naquilo que lemos, ou que vemos na televisão 
e assim por diante.
Em nossa vida diária, confiamos no nosso senso co-
mum para resolver situações não-familiares. Entretanto, esse 
conhecimento chamado senso comum, embora seja preciso 
algumas vezes, não é sempre confiável, porque ele se baseia 
em crenças comumente aceitas, e não na análise sistemática 
dos fatos. No passado constituía senso comum aceitar que a 
Terra era plana – uma visão questionada corretamente por 
Pitágoras e Aristóteles. Noções incorretas consideradas de 
senso comum não pertencem apenas a um passado distante, 
mas permanecem até hoje.
Nos Estados Unidos, hoje o “senso comum” diz que 
as pessoas jovens vão ao cinema onde está sendo exibido 
A paixão de Cristo ou a concertos de rock cristão porque a 
religião está se tornando mais importante para elas. Con-
tudo, essa noção particular de “senso comum” – como a 
noção de que a Terra era plana – não é verdadeira, e não se 
baseia na pesquisa sociológica. Em 2003, pesquisas anuais 
feitas com universitários do primeiro ano mostram um de-
clínio na porcentagem de pessoas que freqüentam serviços 
religiosos, mesmo ocasionalmente. Um número crescente 
de universitários declara não ter preferência religiosa. A 
tendência inclui não apenas religiões organizadas, mas 
também outras formas de espiritualidade. Poucos estu-
dantes rezam ou meditam mais hoje do que no passado, e 
poucos consideram seu nível de espiritualidade muito alto 
(Sax et al., 2003). O Brasil não é exceção. A evangelização 
de jovens foi o tema principal da 44a Assembléia Geral da 
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No 
maior país católico do mundo, onde dos 34 milhões de 
jovens que se confessam, católicos menos de 10% freqüen-
tam os serviços religiosos.
Da mesma forma, os desastres em geral não pro-
duzem pânico. Logo após uma catástrofe, como uma 
explosão, por exemplo, grandes organizações e estruturas 
sociais surgem para lidar com os problemas da comu-
nidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, um grupo 
de operações de emergência freqüentemente coordena 
serviços públicos e mesmo certos serviços em geral de-
sempenhados pelo setor privado, como a distribuição de 
alimentos. O processo decisório torna-se mais centrali-
zado nos momentos de crise. No Brasil, por exemplo, a 
FIgurA 1-1
Raças das Vítimas nos Casos de Pena de Morte
Obs.: esses dados referem-se a todos os casos de pena de morte de 
1976 a 30 de janeiro de 2004.
Fonte: Death Penalty Information Center, 2004.
A pena de morte tende a ser imposta quando a vítima é branca. 
Nos Estados Unidos, 50% de todas as vítimas de assassinatos 
são brancas, mas nos casos julgados com possibilidade de pena 
de morte, a porcentagem de vítimas brancas é de mais de 80%.
Hispânicos 4%
Outros 1%
Brancos 81%
Negros
14%
Capitulo 01.indd 7 23/10/13 14:58
8 Capítulo 1
defesa civil assume a responsabilidade por este trabalho 
de atendimento às vítimas de catástrofes, como grandes 
incêndios e inundações, coordenando as ações de resgate 
e as operações de emergência em conjunto com o Corpo 
de Bombeiros e a Polícia.
Como outros cientistas sociais, os sociólogos não 
aceitam algo como um fato porque “todo mundo sabe 
disso”. Ao contrário, cada informação precisa ser testada 
e registrada, e depois analisada em relação a outras infor-
mações. Os sociólogos se baseiam nos estudos científicos 
para descrever e compreender o ambiente social. Às ve-
zes, as descobertas dos sociólogos podem parecer simples 
senso comum, porque eles lidam com facetas familiares 
da vida diária. A diferença é que tais descobertas foram 
testadas pelos pesquisadores. O senso comum agora nos 
diz que a terra é redonda. Mas essa noção particular de 
senso comum baseia-se em séculos de trabalhos científi-
cos que começaram com as descobertas feitas por Pitágo-
ras e Aristóteles.
o que é teoria sociológica?
Por que as pessoas cometem suicídio? A resposta tradicio-
nal de senso comum é que a pessoa herda o desejo de se 
matar. Um outro ponto de vista é que as manchas escuras 
do sol levam as pessoas a se matarem. Essas explicações 
podem não parecer particularmente convincentes para os 
pesquisadores contemporâneos, mas elas representam as 
crenças da maior parte das pessoas até 1900.
Os sociólogos não estão par-
ticularmente interessados na razão 
pela qual um indivíduo comete sui-
cídio; eles estão mais preocupados 
com a identificação das forças so-
ciais que sistematicamente levam 
algumas pessoas a se suicidarem. 
Para fazer essa pesquisa, os soció-
logos desenvolvem uma teoria que 
oferece uma explicação geral sobre 
o comportamento suicida.
Podemos pensar que as teorias 
são tentativas de explicar, de uma 
forma abrangente, eventos, forças 
materiais, idéias ou comportamentos. 
Em sociologia, uma teoria é um con-
junto de afirmações que busca expli-
car problemas, ações, ou comporta-
mentos. Uma teoria efetiva pode ter 
um poder explicativo e de previsão. 
Ou seja, ela pode nos ajudar a ver a 
relação entre fenômenos aparente-
mente isolados, bem como a enten-
der como um tipo de mudança em 
um ambiente leva a outras mudanças.
A World Health Organization [Organização Mundial 
da Saúde] (2002) calculou que 815 mil pessoas come-
teram suicídio em 2000. Mais de cem anos antes, um 
sociólogo tentou olhar para o suicídio de forma científica. 
Émile Durkheim ([1897] 1951) desenvolveu uma teoria 
bastante original sobre a relação entre suicídio e fatores 
sociais. Ele estava basicamente preocupado não com as 
personalidade das vítimas do suicídio, mas sim com as 
taxas de suicídio e como elas variavam de um país para 
outro. Como resultado, quando observou o número de 
suicídios informados na França, Inglaterra e Dinamarca 
em 1869, comparou também a população total de cada 
país para determinar a sua taxa de suicídio. Ele descobriu 
que, enquanto na Inglaterra apenas 67 suicídios eram in-
formados por milhão de habitantes, na França eles eram 
135 a cada milhão de habitantes; e na Dinamarca, 277 a 
cada milhão de habitantes. A pergunta então passou a ser: 
“Por que a Dinamarca tem uma taxa comparativamente 
alta de suicídios informados?”.
Durkheim foi ainda muito mais fundo em sua in-
vestigação das taxas de suicídio, o que resultou no seu 
trabalho considerado um marco, O suicídio, publicado 
em 1897. Ele se recusou a aceitar explicações sobre o sui-
cídio que não fossem comprovadas, incluindo as crenças 
de que forças cósmicas ou tendências hereditárias provo-
cavam tais mortes. Ao contrário, Durkheim manteve seu 
foco nos fatores sociais, tais como na coesão dos grupos 
religiosos, sociais e de trabalho.
A pesquisa de Durkheim sugeria que o suicídio, 
embora fosse um ato solitário, estava relacionado à vida 
Estudantes universitários freqüentam menos cerimônias religiosas hoje do 
que no passado, apesar da presença de ministros no campus, tal como 
este do centro de jesuítas na Fairfield University, em Connecticut. 
A pesquisa sociológicaA cultura dos esquimós 
dos anos 1920 pode ser bem diferente daquela que eles cultivam hoje. 
Por exemplo, o próprio iglu, que é a casa deles, não é mais feito de 
gelo, e sim de madeira.
Para compreender a relação entre quem pesquisa e quem é pesquisado, assista ao 
documentário Pierre Fatumbi Verger: mensageiro entre dois mundos (1998), de Lula Buar-
que. Esse filme, disponível no link a seguir, mostra a relação de Buarque, que também é 
antropólogo, com a cultura brasileira. Ao mesmo tempo em que fotografa, etnografa 
e observa o outro, ele se encanta, se apaixona e se sente um pouco pertencente a 
outras culturas.
https://goo.gl/vCTsAe
5Estudos culturais
Outra ideia relacionada aos estudos culturais é a noção de etnocentrismo. 
Segundo Flores (2008, p. 5): 
A palavra etnocentrismo apareceu no início do século 20, através do soció-
logo americano William G. Summer, com o significado que pode ser assim 
exposto: o nosso grupo é o centro de todas as coisas e os demais grupos 
são classificados e avaliados em relação a nós mesmos. Assim, do ponto de 
vista etnocêntrico, a ideia de uma humanidade universal, mesmo que seja 
possível concebê-la no plano da materialidade das sociedades históricas, 
não estaria isenta de certas hierarquizações do tipo civilizados e bárbaros, 
nativos e estrangeiros, industrializados e atrasados, brancos e negros, eu-
ropeus e indígenas, nós e eles.
Ou seja, se você partir da sua sociedade para estudar outras sociedades 
e se tiver aprendido que a sua cultura é melhor do que as outras, precisará 
fazer um esforço epistemológico para deixar de lado essa hierarquização. Não 
é possível sobrepor uma cultura a outra, mesmo que a tendência seja fazer 
isso. Ou seja, é necessário compreender que o outro não é nem melhor nem 
pior, apenas diferente.
Assim, como ensina Cuche (2002), você não deve comparar culturas para não 
deixar de perceber a riqueza das manifestações culturais singulares de cada uma:
[...] o conjunto cultural tem uma tendência para a coerência e uma certa 
autonomia simbólica que lhe confere seu caráter original singular; e [...] não 
se pode analisar um traço cultural independentemente do sistema cultural ao 
qual ele pertence e que lhe dá sentido. Isto quer dizer estudar todas as culturas, 
quaisquer que sejam a priori, sem compará-las e/ou "medi-las” prematuramente 
em relação às outras culturas (CUCHE, 2002, p. 241).
Por último, você deve considerar como uma das principais ideias dos es-
tudos culturais o conceito de diversidade cultural. Esse conceito deveria ser 
difundido nas instituições de educação para que desde a escola os membros da 
sociedade refletissem sobre outras culturas, exercitando o respeito às diferenças 
culturais. Essa ideia é reforçada por Gadotti (1992, p. 23):
[..] a diversidade cultural é a riqueza da humanidade. Para cumprir sua tarefa 
humanista, a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras culturas 
além da sua. Por isso, a escola tem que ser local, como ponto de partida, mas 
tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada. [...] Escola 
autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as 
Estudos culturais6
culturas e concepções de mundo. Pluralismo não significa ecletismo, um 
conjunto amorfo de retalhos culturais. Significa sobretudo diálogo com todas 
as culturas, a partir de uma cultura que se abre às demais.
Nesse sentido, a própria Gadotti (1992) afirma a importância de assumir 
uma perspectiva multicultural e de estimular uma abordagem de estudo que 
favoreça o convívio num mundo composto por diversas sociedades. Compre-
ender as diferenças contribui para mapear, conhecer e até mesmo valorizar as 
formas de manifestação humana.
Para conhecer mais sobre a formalização do respeito à diversidade cultural, leia a 
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2002. Ela foi publicada pela UNESCO 
com o objetivo de explicitar como se dá o respeito à diversidade cultural existente e 
como ele se articula com os direitos humanos. Veja no link a seguir.
https://goo.gl/cCV4Tq
Estudos culturais na contemporaneidade
Agora que você já conhece os estudos culturais e as principais ideias dessa 
corrente, que tal discutir a importância desses estudos e a sua aplicação nos 
dias atuais? Como você viu, tendo em vista a diversidade cultural existente, 
cabe relativizar algumas diferenças na comunicação com outras culturas. 
Essa comunicação pode se dar por meio da linguagem ou de outras formas 
pelas quais as pessoas trocam informações e convivem de forma amigável. 
Almeida (1999, p. 9) explica que isso se relaciona ao:
[...] reconhecimento de uma objetividade que resulta da concordância prag-
mática parcial entre sujeitos que adotam diferentes ontologias. O fato de que 
medidas de peso sejam muito variáveis entre as culturas não é uma barreira 
para que comerciantes que mal se entendem linguisticamente possam encontrar 
regras de tradução entre suas medidas — sem que precise haver a adoção de 
um único padrão de medida, mas chegando-se a aproximações satisfatórias 
para ambas as partes — ou acordos no plano pragmático. 
7Estudos culturais
O que é pensado como “acordo” também é um meio pelo qual os membros 
de culturas diferentes concordam em se relacionar, apesar de suas diferenças. 
Você pode considerar o comércio, o trabalho, um namoro ou mesmo uma 
viagem rápida para outro país: em todos esses casos, você precisa se comunicar 
com outras pessoas, não é?
Assim, mergulhar em outra cultura também permite aprender a relati-
vizar para conseguir dialogar com pessoas que têm valores diferentes, mas 
que estão no mesmo mundo que você. Falando nisso, você sabe o que é o 
relativismo cultural? Segundo Hoebel e Frost (1999, p. 22), esse conceito 
considera que “[...] os padrões de certo e errado (valores) e dos usos e ati-
vidades (costumes) são relativos à cultura da qual fazem parte [...]”. Na sua 
forma extrema, esse conceito afirma que cada costume é válido em termos 
de seu próprio ambiente cultural.
Logo, num mundo plural e diverso, em que pessoas diferentes habitam o 
mesmo território, cabe perceber os costumes e tradições de inúmeras culturas. 
Dessa maneira, Almeida (1999, p. 21) destaca que é preciso considerar outras 
“[...] culturas tão válidas quanto as nossas, [valorizando] esses [outros] povos 
cuja própria existência [nos faz] questionar nossa maneira de ser, quebrando 
o monopólio, que comumente nos atribuímos, da autêntica realização da 
humanidade no planeta [...]”.
Para aprofundar a discussão sobre cultura, você pode ler A invenção da cultura, de 
Roy Wagner (2012). Esse autor mostra como o próprio conceito de cultura foi criado 
e pode ser pensado. Essa é uma discussão atual e que contempla a nova forma de 
refletir sobre as diferentes sociedades.
Mas você sabe qual é a importância de estudar essas questões no âmbito dos 
estudos culturais? A seguir, você pode ver alguns apontamentos de Meneses 
(1999). A partir deles, você vai ver como aplicar os conceitos que estudou até 
aqui e como refletir sobre questões relevantes para o relacionamento com 
o outro no mundo contemporâneo. Considere, então, os elementos a seguir.
1. Respeito sincero pela cultura e sociedade dos outros povos — os diversos 
comportamentos, como se alimentar, se vestir e se manifestar, devem 
ser respeitados acima de tudo. 
Estudos culturais8
2. Cuidado extremo com a objetividade — não se pode simplesmente 
ofender a cultura do outros. É preciso compreender os significados 
subjetivos presentes na outra cultura para entender, por exemplo, o uso 
da burca entre as mulheres mulçumanas. 
3. Recusa de interferir e de modificar — quando você não entende as 
práticas sociais de determinada cultura, a tendência é querer interferir 
nelas e até mesmo modificá-las, não é? Contudo, é necessário evitar 
o etnocentrismo.
4. Compreensão do anticolonialismo — não se deve interferir em movi-
mentos de libertação nacional que buscam afastar o colonialismo que 
devastou culturase impôs seu modo de vida.
5. Reflexão sobre os problemas das minorias étnicas — diante da sobre-
posição de culturas, especialmente no contexto colonial, as minorias 
étnicas foram oprimidas e tiveram suas manifestações culturais des-
valorizadas em detrimento da cultura do colonizador.
6. Valorização de movimentos contra a discriminação — uma vez que as 
culturas são diferentes, cabe englobá-las num contexto mais amplo e 
não excluí-las. Dentro de uma sociedade, também é preciso valorizar 
os diferentes perfis das pessoas para não cometer diferenciações no 
âmbito da própria cultura.
7. Luta pela libertação da mulher — em diversas culturas, as mulheres 
são percebidas como inferiores em relação aos homens e cabe defender 
a igualdade e o respeito em relação ao gênero. 
8. Novos rumos das missões — é preciso repensar a missão de evangeli-
zação que destruiu as crenças e religiões tradicionais de diversos povos 
no processo da colonização.
Além desses aspectos, considere o que afirma Ríos (2002, p. 247):
[...] qualquer coisa que possa ser lida como um texto cultural e que contenha 
em si mesma um significado simbólico sócio-histórico capaz de acionar for-
mações discursivas pode se converter em um legítimo objeto de estudo: desde 
a arte e a literatura, as leis e os manuais de conduta, os esportes, a música e 
a televisão, até as atuações sociais e as estruturas do sentir.
Assim, você também é convidado a se aproximar dessa maneira de enxergar 
o mundo em que vive. A ideia é transformar a experiência por meio de uma 
reflexão sobre o outro e sobre si mesmo, aproximando-se daquilo que se 
considera estranho e estranhando aquilo que se considera natural.
9Estudos culturais
Para refletir ainda mais sobre a diversidade das formas de vida e sobre a subjetividade 
do outro, assista ao filme Moin, un noir (1958), do antropólogo Jean Rouch. O material 
pode ser encontrado online com legendas em português. A proposta do filme é 
mostrar o cotidiano de pessoas que migraram para a Costa do Marfim nos anos 1950 
e que passaram por um choque cultural ao deixar a África tradicional, que conheciam, 
e adentrar o mundo moderno, que acabavam de acessar.
ALMEIDA, M. W. B. Guerras culturais e relativismo cultural. Revista Brasileira de Ciências 
Sociais, São Paulo, v. 14, n. 41, p. 5-14, 1999.
CEVASCO, M. E. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.
CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. 2. ed. Bauru: EDUSC, 2002.
FLORES, E. C. Nós e eles: etnia, etnicidade, etnocentrismo. In: ZENAIDE, M. N. T.; SILVEIRA, 
R. M. G.; DIAS, A. A. (Org.). Direitos humanos: capacitação de educadores. Brasília: MEC, 
2008.
GADOTTI, M. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro: Graal, 1992.
KRUSE, M. H. L. et al. Estudos culturais: possibilidades para pensar de outro modo 
a pesquisa em enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, Portp Alegre, v. 39, p. 
e2017-0135, 2018.
HALL, S. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções de nosso tempo. Educação 
e Realidade, Porto Alegre, v. 22, n. 2, p. 15-46, 1997.
HALL, S. Cultural studies and the centre: some problematics and problems. In: HALL, 
S. et al. Culture, media, language: working papers in cultural studies 1972-1979. London: 
Routledge, 1980.
HENNIGEN, I.; GUARESCHI, N. M. F. A subjetivação na perspectiva dos estudos culturais 
e foucaultianos. Psicologia da Educação, São Paulo, n. 23, p. 57-74, 2. sem. 2006.
HOEBEL, E. A.; FROST, E. L. Antropologia cultural e social. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
MENESES, P. Etnocentrismo e relativismo cultural: algumas reflexões. Revista SymposiuM, 
v. 3, n. esp., p. 19-25, dez. 1999.
Estudos culturais10
RÍOS, A. Los estudios culturales y el estúdio de la cultura em América Latina. In: MATO, 
D. (Coord.). Estudios y otras prácticas intelectuales latinoamericanas en cultura y poder. 
Caracas: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2002. p. 247-254.
VEIGA-NETO, A. Michel Foucault e os estudos culturais. In: COSTA, M. V. (Org.). Estudos 
culturais em educação: mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema. Porto 
Alegre, UFRGS, 2000.
WILLIAMS, R. Cultura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
Leituras recomendadas
ADORO, T.; HORKHEIMER, M. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação das 
massas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
EAGLETON, T. A ideia de cultura. São Paulo: UNESP, 2011.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA. 
Declaração universal sobre a diversidade cultural. 2002. Disponível em: . Acesso em: 14 out. 2018.
THOMPSON, J. Ideologia e cultura moderna. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
WAGNER, R. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
11Estudos culturais
Conteúdo:
ESTUDOS 
CULTURAIS E 
ANTROPOLÓGICOS
Priscila Farfan Barroso
Etnia e raça
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Distinguir os termos “etnia” e “raça”.
  Relacionar os conceitos de etnia e raça com questões histórico-sociais.
  Construir um raciocínio crítico sobre o preconceito racial.
Introdução
Neste capítulo, você vai aprender a distinguir os conceitos de raça e etnia, 
mas também vai perceber que a ideia de raça vem sendo ressignificada e 
até mesmo valorizada como um componente étnico importante atrelado 
à identidade. Inicialmente, o conceito de raça estava ligado às questões 
fenotípicas dos grupos sociais, mas você vai perceber que essa afirmação 
não tem tanto fundamento científico assim. 
Na sequência, vamos associar esses conceitos com questões histórico-
-sociais, a fim de compreender como a ideia de raça dividiu os grupos 
sociais e até mesmo hierarquizou uns sobre os outros. Alguns pontos 
históricos mundiais são relevantes, e cabe destacar algumas questões 
nacionais que se valeram desses conceitos para a construção da iden-
tidade brasileira. 
Ao final, discutiremos sobre o preconceito racial e as suas implicações 
no mundo atual. Nesse sentido, serão apresentados alguns movimen-
tos étnicos que buscam valorizar aspectos culturais no contexto em 
que vivem. Assim, você terá uma visão ampla de como raça e etnia são 
agenciadas desde o passado até os dias atuais!
Distinção entre etnia e raça
Somos todos iguais? Essa questão é muito complexa, e é sobre ela que va-
mos nos debruçar neste capítulo. Para iniciar a discussão, precisamos saber 
que, apesar de termos em comum a condição de humanidade, temos origens 
biológicas, territoriais e culturais diferentes, e isso faz com que tenhamos 
diferenças não só no modo de viver a vida, mas também em aspectos físicos. 
Segundo Neves (2006), as principais espécies hominídeas consideradas 
cruciais para a história da evolução humana datam de sete milhões de anos 
atrás. De lá pra cá, o bipedismo, o consumo de proteína animal, a fabricação 
de ferramentas, o desenvolvimento do cérebro e a construção da vida em 
sociedade permitiram que o homem chegasse aos dias atuais como o conhe-
cemos. Entretanto, é importante considerar esse aspecto temporal e pensar 
nos processos biológicos pelos quais a nossa sociedade passou:
O acaso na evolução biológica remete-se à existência ou não de variante 
numa população exatamente no momento em que essas variantes poderiam 
ser instadas à condição de solução adaptativa. A existência de variabilidade 
depende de mutações, que ocorrem de forma absolutamente imprevisível no 
genoma. A necessidade, por sua vez, remete-se ao desafio de sobrevivência 
imposto por uma nova situação ambiental, ambiente aqui entendido no seu 
sentido lato, que inclui também os competidores (NEVES, 2006, p. 81).
Em essência, para sobreviver, cada sociedade passou por processos de 
adaptação em sua forma de alimentação, de vestimentas, de proteção das 
intempéries climáticas e de tantos outros aspectos.Estes interferiram não 
somente nas expressões culturais às quais se filiavam, mas também em as-
pectos biológicos que resultaram em mudanças físicas perceptíveis. Desse 
modo, a cor da pele, a cor do olho, a cor do cabelo, a altura, o tamanho, as 
formas corporais de partes do corpo são aspectos visíveis que diferenciam as 
sociedades e as culturas que conhecemos. 
Vamos compreender melhor como podemos analisar essas sociedades 
a partir da noção de raça e etnia. Carolus Linnaeus (1758) foi quem criou a 
taxonomia moderna e o termo Homo sapiens, reconhecendo quatro variedades 
do homem: o americano (Homo sapiens americanus), o europeu (Homo sapiens 
europaeus), o asiático (Homo sapiens asiaticus) e o africano (Homo sapiens 
afer). Essa situação difundiu a ideia de que há uma diferença entre grupos 
sociais a partir de cores: respectivamente, o vermelho, o branco, o amarelo 
e o preto. Para refletir o que a cor nos leva a pensar sobre raça, cabe lembra 
o que diz Guimarães (2008, p. 76–77): “[...] cor é uma categoria racial, pois 
quando se classificam as pessoas como negros, mulatos ou pardos é a ideia 
de raça que orienta essa forma de classificação [...]”. 
Logo, a difusão desse conhecimento influenciou os estudos evolutivos 
no sentido de reforçar a ideia de que há divisão, de certa forma homogênea, 
entre os grupos sociais. Todavia, poderíamos dizer que estas são raças dife-
Etnia e raça2
rentes — muitas vezes percebidas pelas cores — que compõem a base para as 
sociedades que conhecemos hoje? Para isso, vamos estudar o próprio termo 
raça e problematizar os seus usos. 
O termo raça tem uma variedade de definições geralmente utilizadas para 
descrever um grupo de pessoas que compartilham certas características 
morfológicas. A maioria dos autores tem conhecimento de que raça é um 
termo não científico que somente pode ter significado biológico quando o 
ser se apresenta homogêneo, estritamente puro; como em algumas espécies 
de animais domésticos. Essas condições, no entanto, nunca são encontradas 
em seres humanos. (SANTOS et al., 2010, p. 122).
A explicação sobre a diferença entre as sociedades por meio da divisão 
dos grupos sociais a partir das cores se torna sem fundamento, até mesmo 
porque é rara a existência de sociedades isoladas. Em geral, há grandes trocas 
culturais entre sociedades que vivem próximas — os seus membros inclusive 
transitam por esses grupos sociais por meio de casamentos. 
Guimarães (2008, p. 64–65) destaca que é preciso esclarecer uma dife-
rença importante para compreender esse termo de forma conceitual e mais 
aprofundada:
O que é raça? Depende. Realmente depende se estamos falando em termos 
científicos ou de uma categoria do mundo real. Essa palavra “raça” tem pelo 
menos dois sentidos analíticos: um reivindicado pela biologia genética e outro 
pela sociologia. [...] A biologia e a antropologia física criaram a idéia de raças 
humanas, ou seja, a idéia de que a espécie humana poderia ser dividida em 
subespécies, tal como o mundo animal, e de que tal divisão estaria associada 
ao desenvolvimento diferencial de valores morais, de dotes psíquicos e inte-
lectuais entre os seres humanos. Para ser sincero, isso foi ciência por certo 
tempo e só depois virou pseudociência. [....] Depois da tragédia da Segunda 
Guerra, assistimos a um esforço de todos os cientistas — biólogos, sociólogos, 
antropólogos — para sepultar a idéia de raça, desautorizando o seu uso como 
categoria científica [...]. Ou seja, as raças são, cientificamente, uma construção 
social e devem ser estudadas por um ramo próprio da sociologia ou das ciências 
sociais, que trata das identidades sociais. Estamos, assim, no campo da cultura, 
e da cultura simbólica. [...] As sociedades humanas constroem discursos sobre 
suas origens e sobre a transmissão de essências entre gerações. Esse é o terreno 
próprio às identidades sociais e o seu estudo trata desses discursos sobre origem.
Cabe deixar de lado o termo raça usado pelas ciências biológicas e tão 
difundido nos séculos XVIII e XIX, que entendiam como pertinente a ideia de 
raças humanas para diferenciar os grupos sociais — e até mesmo hierarquizá-
-los —, para compreender que a única raça existente é a raça humana. Neves 
3Etnia e raça
(2006) compreende que esse termo só faz sentido se for utilizado no âmbito 
sociológico, no qual são levadas em consideração as origens do grupo, tanto 
pelos traços fisionômicos como pelos aspectos culturais, abarcando as suas 
complexidades históricas e a identidade dos seus membros. 
Silva e Soares (2011) destacam que esse “novo” uso do termo vem se 
consolidando; porém, em outros momentos, diferentes conceitos tentaram 
dar conta de identificar os grupos sociais de forma que considerassem a sua 
pluralidade sem hierarquizá-los, como explicam a seguir: 
Apesar dessas novas leituras conceituais e usos das palavras, o que confere uma 
mudança histórica altamente comum e saudável no campo das mentalidades, 
o conceito de “raça”, por muitas vezes foi deixado de lado em detrimento de 
outros, não completamente substituidores, mas que talvez fizessem o mesmo 
papel definidor e classificador dessas pessoas unidas por características, 
cultura e instituições semelhantes e, num contexto de luta por igualdades, 
experiências parecidas de resistência e/ou percepção de todo um sistema 
insistentemente segregacionista. Atualmente, um desses outros conceitos 
seria o de “etnia”, que tem origem do grego ethnos, o que entendemos não só 
como um conjunto de pessoas da comunidade. É o pertencimento do grupo, 
independente dos laços consanguíneos e a construção de ações coletivas 
(SILVA; SOARES, 2011, p. 106).
Assim, o termo etnia abrange a complexidade dos contextos sociais, po-
líticos e econômicos dos grupos sociais, não só enquanto identificação de 
grupo, mas enquanto mobilização política para a sua existência em meio aos 
outros grupos sociais. Luvizotto (2009, p. 30) explica que “[...] a concepção 
de etnicidade está além da definição de culturas específicas e, portanto, é 
composta de mecanismos de diferenciação e identificação que são acionados 
conforme os interesses dos indivíduos em questão, assim como o momento 
histórico no qual estão inseridos [...]”. Logo, com essa discussão, temos um 
quadro panorâmico de como os conceitos de raça e etnia se inserem nas 
sociedades e nos debates atuais. 
Sobre as transformações culturais nas sociedades, leia o artigo Culturas em transforma-
ção: os índios e a civilização, da antropóloga Clarice Cohn. Ele revisita os conceitos de 
cultura e de tradição a partir da ideia de mudanças culturais entre um grupo indígena 
brasileiro, a fim de compreender como não há sociedade “pura” ou “intocável”.
Etnia e raça4
Questões histórico-sociais dos conceitos 
de etnia e raça 
Para que você possa entender como esses conceitos foram utilizados diante 
das questões histórico-sociais, vamos enfatizar alguns momentos da história 
mundial e até mesmo da história nacional pertinentes a essa compreensão. É 
importante perceber que alguns usos políticos dos conceitos de raça e etnia 
podem explicitar diferenças entre grupos sociais dispostas pelos poderes 
político e econômico ou mesmo pretendem invisibilizar aspectos específi cos 
de culturas que vivem no mesmo espaço territorial, a partir de uma suposta 
de ideia de democracia racial. 
O primeiro destaque aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial 
(1939–1945). O plano alemão de conquista do mundo se valia da diferen-
ciação dos grupos sociais para hierarquizar uns sobre os outros e valorizar 
a dita raça ariana: os descendentes de uma das três grandes sociedades 
humanas provenientes do Cáucaso (região da Europa Oriental e da Ásia 
Ocidental, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio). Mazowe (2008) destaca 
que os nazistas optaram pelos velhos padrões coloniais europeus, tanto em 
termos geopolíticos como em termos de questões raciais, para impor as 
suas ideias imperiais, exterminar povos considerados diferentes dos seus e 
se apresentarcomo raça superior. 
Assim, essa era uma estratégia política de Adolf Hitler (político alemão 
que foi líder do Partido Nazista) para dividir os grupos sociais, mas também 
fazer com que os arianos apoiassem esse regime político por medo de morrer, 
como analisa Foucault (1996, p. 210):
[...] o regime nazista não terá como único objetivo a destruição das outras raças. 
Este é apenas um de seus aspectos. O outro [aspecto] é o de expor a própria 
raça ao perigo absoluto e universal da morte. O risco de morrer, a exposição 
à destruição total é um princípio inscrito entre os deveres fundamentais da 
obediência nazista e entre os objetivos essenciais da política.
Entretanto, em nome da construção da Alemanha somente por pessoas 
provenientes da raça ariana, inúmeras atrocidades foram cometidas, misturando 
nazismo com eugenia — a seleção das pessoas com base em características 
genéticas. Umas das consequências desse pensamento político entre os go-
vernantes alemães da época foi o holocausto, que, segundo Katz (1994, p. 28), 
é descrito como “[...] fenomenologicamente único em virtude do fato de que 
nunca antes um Estado se fixara, como objetivo de princípio e como política 
5Etnia e raça
de fato, a tarefa de aniquilar fisicamente cada um dos homens, mulheres e 
crianças pertencentes a um povo determinado [...]”. Para ter ideia de quantos 
judeus morreram nos vários países, veja os números do Quadro 1.
Fonte: Adaptado de Coggiola (2015).
País
População judia 
antes da Guerra
População judia 
exterminada
Percentual 
exterminado
Polônia 3.300.000 3.000.000 91
Países Bálticos 253.000 228.000 90
Alemanha e Áustria 240.000 210.000 88
Boêmia e Morávia 90.000 80.000 89
Eslováquia 90.000 75.000 83
Grécia 70.000 54.000 77
Holanda 140.000 105.000 75
Hungria 650.000 450.000 70
Bielorrússia 375.000 245.000 65
Ucrânia 1.500.000 900.000 60
Bélgica 65.000 40.000 60
Iugoslávia 43.000 26.000 60
Romênia 600.000 300.000 50
Noruega 1.800 900 50
França 350.000 90.000 26
Bulgária 64.000 14.000 22
Itália 40.000 8.000 20
Luxemburgo 5.000 1.000 20
Rússia 975.000 107.000 11
Dinamarca 8.000 120 2
Finlândia 2.000 ? ?
Total 8.861.800 5.933.900 67
Quadro 1. Extermínio dos judeus na Europa
Etnia e raça6
Diante desses números, percebemos como determinado uso da ideia de 
raça pode ter consequências perversas e aterrorizantes. Um segundo destaque 
para pensar nos conceitos estudados neste capítulo é em relação à difusão 
de uma suposta democracia racial no Brasil do século XIX. Assim como o 
nosso primeiro exemplo, essa proposta também tem implicações políticas de 
modo a invisibilizar as disputas raciais da constituição do povo brasileiro. 
Freyre (1995) apresenta uma convivência quase harmoniosa entre brancos, 
indígenas e negros desde a colonização do Brasil, trazendo a ideia de que não 
havia disputas raciais, imposições culturais ou mesmo resistência por parte dos 
povos colonizados. A sua perspectiva era de evidenciar traços de diferentes 
culturas que formaram o que hoje conhecemos como a cultura brasileira, mas 
essa leitura foi apropriada politicamente pelos governantes da época para dizer 
que havia no Brasil uma democracia racial. No entanto, apesar de esse ter sido 
um discurso oficial por muito tempo, os cidadãos reconhecem no cotidiano das 
cidades brasileiras que isso é um mito, como explicita Hasenbalg (1979, p. 239):
[...] as pessoas não se iludem com relação ao racismo no Brasil; sejam bran-
cas, negras ou mestiças, elas sabem que existe preconceito e discriminação 
racial. O que o mito racial no brasileiro faz é dar sustentação a uma etiqueta 
e regra implícita de convívio social, pela qual se deve evitar falar em racis-
mo, já que essa fala se contrapõe a uma imagem enraizada do Brasil como 
nação. Transgredir essa regra cultural não explicitada significa cancelar ou 
suspender, mesmo que temporariamente, um dos pressupostos básicos que 
regulam a interação social do cotidiano, que é a crença na convivência não 
conflituosa dos grupos raciais.
Para refletir sobre questões de desigualdades sociais vinculadas à discussão de raça 
e de classe no Brasil, leia o artigo Raça ou classe? Sobre a desigualdade brasileira, do 
sociólogo Jessé Souza.
https://goo.gl/Dm4C8C
Sabe-se que houve, no começo do século XIX, políticas de branqueamento 
que buscavam atrair populações da Europa ao Brasil, a partir de vantagens 
para a fixação desses povos no território brasileiro. Silva (2017, p. 594) explica 
como se deu essa articulação:
7Etnia e raça
[...] para o entendimento da democracia racial como dispositivo biopolítico as-
sentado na miscigenação e no chamado “projeto” de branqueamento da nação, 
nomeadamente a partir dos anos 1930, quando a miscigenação e a negação 
oficial do racismo passaram a ser emblemáticos nas narrativas identitárias da 
nação. [...] É neste contexto que defendo a ideia de que a população negra acaba 
por ser constituída como saber, pois incluída nas narrativas nacionais pelo 
viés da miscigenação é excluída pelo seu virtual desaparecimento, uma vez 
que o branqueamento é concebido mediante a própria ideia de miscigenação.
Mesmo evidenciando os motivos e as consequência do mito da democracia 
racial, Munanga (1999, p. 125–126) explica que essas ideias influenciam até 
mesmo a maneira como a nossa sociedade é constituída hoje:
Apesar do esforço dos movimentos negros em redefinir o negro, dando-lhe 
uma consciência política e uma identidade étnica mobilizadoras, contrariando 
a ideologia de democracia racial construída a partir de um racismo universal, 
assimilacionista, integracionista — o universalismo — aqui, concordamos 
com Peter Fry — essa ideologia continua forte no Brasil, na sua constituição 
e na idéia da democracia racial, mesmo se há sinais [...] de uma crescente 
polarização. Se a mestiçagem representou o caminho para nivelar todas as 
diferenças étnicas, raciais e culturais que prejudicavam a construção do povo 
brasileiro, se ela pavimentou o caminho não acabado do branquecimento, ela 
ficou e marcou significativamente o inconsciente e o imaginário coletivo do 
povo brasileiro.
Chamando atenção para essas situações que envolvem a discussão de raça 
e etnia, pretendemos enfatizar a relevância das conceituações apresentadas e 
a necessidade de um olhar crítico para a proposição de diferença dos grupos 
sociais. Longe de resolver a questão, o objetivo é ampliar a percepção de como 
esses conceitos estão atrelados às discussões políticas e econômicas, não só 
na nossa história, mas também nos dias atuais.
Um importante aspecto histórico em relação à questão de raça e etnia se refere à 
escravidão de um povo sobre o outro. Assista ao filme 12 Anos de Escravidão, de Steve 
McQueen, que mostra as humilhações físicas e morais pelas quais o ser humano passa 
quando está sob o domínio de outro ser humano. 
Etnia e raça8
Repensando o preconceito racial
A partir dos exemplos emblemáticos enfatizados, devemos lembrar que o 
preconceito racial ainda é velado nos dias de hoje. Talvez não tão explícito 
como no holocausto, na escravidão ou mesmo nas políticas de branqueamento 
anteriormente citadas, o olhar com desdém para alguém de etnia diferente ou 
mesmo a exclusão de um currículo por conta da cor da pele são considerados 
formas de preconceito racial. 
Para Blumer (1965), quatros aspectos permite evidenciar as formas de 
preconceito racial por um grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que 
a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio 
sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça 
subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante.
Logo, as populações que se sentem prejudicadas em função do preconceito 
racial têm se organizado em movimentos sociais e se articulado para fazer 
valer os seus direitos sociais. Considera-se que as políticas ações afirmativas:
[…] tomam como base para sua implementação a extrema desigualdade racial 
brasileira no acesso ao ensinosuperior. Os argumentos favoráveis concentram-
-se nesse sentido, afirmando a necessidade de um enfrentamento direto da 
sociedade brasileira a esse respeito, o que implica o reconhecimento de que o 
Brasil é um país racialmente desigual e que tal situação é fruto de discrimina-
ção e preconceito, e não de uma situação de classe social (LIMA, 2010, p. 87).
Essas políticas são consequência da mobilização dos movimentos sociais 
vinculados à noção de raça e etnia. Entre eles, podemos destacar: 
A partir da segunda metade da década de 1990 acelera-se um processo de 
mudanças acerca das questões raciais, marcado fortemente por uma aproxima-
ção entre o Movimento Negro e o Estado brasileiro. É a partir deste momento 
que as reivindicações por ações mais concretas para o enfrentamento das 
desigualdades raciais começam a ser cobradas. Dois acontecimentos — um 
de âmbito nacional e outro, internacional — são destacados consensualmente 
pelos estudiosos do tema como momentos importantes desse processo: a 
Marcha Zumbi de Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, em 
1995, ano de comemoração do tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, 
e a Conferência de Durban, em 2001 (LIMA, 2010, p. 89).
Podemos dizer que, apesar de diferentes grupos sociais que reivindicam 
a questão da identidade étnica no Brasil, como negros, indígenas, ciganos e 
9Etnia e raça
outros povos que habitam o território brasileiro, a mobilização do movimento 
negro tem se destacado (Figura 1). Essas mobilizações descritas acima tiveram 
consequências concretas nas implantações das cotas raciais, como explicita 
Maio e Santos et al. (2010, p. 189):
Logo após a conferência, o governo brasileiro definiu um programa de po-
lítica de cotas no âmbito de alguns ministérios (Desenvolvimento Agrícola 
e Reforma Agrária, Justiça e Relações Exteriores) (Moehlecke, 2002). No 
plano estadual e municipal, diversas iniciativas foram realizadas para a im-
plementação do sistema de cotas. Aquela que obteve maior destaque no final 
do ano de 2001 foi a da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, 
que estabeleceu uma porcentagem das vagas das universidades estaduais 
para pretos e pardos (Maggie; Fry, 2004). A partir de 2002, o debate e a 
implementação de políticas de ação afirmativa com viés racial, com foco no 
sistema de cotas, estenderam-se por diversas universidades públicas, tanto 
estaduais como federais. Em sua ampla maioria, com regras variadas, foram 
definidos mecanismos centrados na autodeclaração dos candidatos. Já a UnB, 
além de ser a primeira universidade federal a adotar o programa, estabeleceu 
critérios adicionais à autodeclaração para definir os beneficiários, ou seja, 
quem seriam os "negros". 
A implantação das cotas não se deu sem polêmicas, e desde então são 
produzidas avaliações sobre o programa em inúmeros estados.
Figura 1. Movimento por Igualdade Racial. 
Fonte: Carlos (20178, documento on-line).
Etnia e raça10
As principais críticas à política de cotas destacadas por Guarnieri e Melo-
-Silva (2017, p. 185) desde a sua implantação em 2012 apontam: 
[...] inexistência biológica das raças; caráter ilegítimo das ações de “repara-
ção” aos danos causados pela escravidão em tempo presente; risco de acirrar 
o racismo no Brasil; possibilidade de manipulação estatística da categoria 
“parda”; inviabilidade de identificação racial em um país mestiço; a questão 
da pobreza como determinante da exclusão social.
Por outro ladro, também é preciso evidenciar pontos que foram vantajosos 
e que conseguiram provocar uma nova configuração da população no acesso 
à educação superior. Logo, a mesma pesquisa destacou:
Os argumentos favoráveis concentraram-se na discussão sobre a constituciona-
lidade das cotas e relevância para o país. A intervenção do Estado foi colocada 
como fundamental diante dos quadros de desigualdade raciais remanescentes 
de fenômenos sociais que precisam ser enfrentados; destacando-se que as 
“ações afirmativas” atuariam como alternativa para a busca de igualdade 
através da promoção de condições equânimes entre brancos e negros (GUAR-
NIERI; MELO-SILVA, 2017, p. 185).
Assim, pretendeu-se mostrar como podemos criar estratégias e apontamentos 
críticos para combater o preconceito racial, ainda que o seu processo histórico 
tenha se enraizado não somente no contexto nacional, como também no contexto 
internacional. 
Para compreender mais sobre o processo de implementação das cotas em termos das 
discussões sobre raça e etnia, leia o artigo A reserva de vagas para negros nas universidades 
brasileiras, de Yvonne Maggie e Peter Fry.
https://goo.gl/xfpMVn
11Etnia e raça
BLUMER, H. The nature of racial prejudice. In: HUNTER, G. Industrialization and Race 
Relations. Westport: Greenwood, 1965.
CARLOS, J. Manifestantes marcham por igualdade racial em frente ao viaduto do Chá, no 
centro de São Paulo. 1978. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018.
COGGIOLA, O. A Segunda Guerra Mundial: causas, estruturas, consequências. 2015. 
Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018.
FOUCAULT, M. Genealogia del racismo. La Plata: Altamira, 1996.
FREYRE, G. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da eco-
nomia patriarcal. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.
GUARNIERI, F. V.; MELO-SILVA, L. L. Cotas universitárias no Brasil: análise de uma década 
de produção científica. Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, v. 21, n. 2, p. 183-193, 
maio/ago. 2017.
GUIMARÃES, A. S. Cor e raça. In: SANSORE, L.; PINHO, O. A. (Org.). Raça: novas perspec-
tivas antropológicas. 2. ed. rev. Salvador: Associação Brasileira de Antropologia, 2008.
HASENBALG, C. Discriminação e desigualdade raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
KATZ, S. The holocaust in historical context. Nova York: Oxford University, 1994.
LIMA, M. Desigualdades raciais e políticas públicas: ações afirmativas no governo Lula. 
Novos estudos CEBRAP, São Paulo , n. 87, p. 77-95, jul. 2010.
LINNAEUS, C. Systema naturae.10. ed. [S.l.: s.n.], 1758.
LUVIZOTTO, C. K. Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul. São Paulo: UNESP, 
2009.
MAZOWE, M. Hitler's empire: how the nazis ruled Europe. New York: Penguin Books, 2008.
MUNANGA, K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade 
negra. Petrópolis: Vozes, 1999.
NEVES, W. A. E no princípio... era o macaco! Estudos avançados, São Paulo, v. 20, n. 58, 
p. 249-285, 2006.
SANTOS, D. J. S. et al. Raça versus etnia: diferenciar para melhor aplicar. Dental Press 
Journal of Orthodontis, Maringá, v. 15, n. 3, p. 121-124, maio/jun. 2010.
SILVA, M. A. L.; SOARES, R. L. S. Reflexões sobre os conceitos de raça e etnia. Entrelaçando: 
Revista Eletrônica de Culturas e Educação, ano 2, n. 4, p. 99-115, nov. 2011.
SILVA, M. L. População-sacer e democracia racial no Brasil. Sociedade e Estado, Brasília, 
v. 32, n. 3, p. 593-620, set./dez. 2017.
Etnia e raça12
Leituras recomendadas
AZEVEDO, C. M. M. Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada. 
São Paulo: Anna Blume, 2003.
FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Fator, 1983.
GUIMARÃES, A. S. A. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Fundação de Apoio à 
Universidade de São Paulo, 1999.
MAGGIE, Y.; FRY, P. A reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras. Estudos 
Avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, jan./abr. 2004. Disponível em: . Acesso em: 31 
out. 2018.
NASCIMENTO, A. Combate ao racismo: discursos e projetos. Brasília: Câmara dos De-
putados, 1983.
SOUZA, J. Raça ou classe? Sobre a desigualdade brasileira. Lua Nova, São Paulo, v. 65, 
p. 43-69, 2005. Disponível em: . Acesso 
em: 31 out. 2018.
TURRA, C.; VENTURI, G. Racismo cordial: a maiscompleta análise sobre o preconceito 
de cor no Brasil. São Paulo: Ática, 1998.
13Etnia e raça
Conteúdo:
CIÊNCIA 
POLÍTICA E 
TEORIA GERAL 
DO ESTADO
Felipe Scalabrin
Ciência política e teoria 
geral do Estado 
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Apresentar os conceitos básicos da disciplina.
 � Contrastar teoria do geral do estado e ciência política.
 � Reconhecer a importância do estudo da disciplina.
Introdução
A ciência política e a teoria geral do Estado são disciplinas diretamente 
relacionadas com a organização da vida em sociedade. Apresentam-se 
como fonte indispensável para a compreensão das relações de poder 
e da atuação do Estado ao tratarem de temas relevantes como poder 
político, direitos políticos, democracia, legitimidade do poder, formas de 
governo, sistemas de governo e funções do Estado.
Neste capítulo, você verá os conceitos básicos que orientam a disci-
plina, com a diferenciação entre ciência política e teoria geral do Estado, 
e, ao final, identificará a importância prática e teórica do estudo. 
Considerações iniciais
Não é nova a ideia segundo a qual o homem somente pode ser compreendido a 
partir da sua inserção na vida em sociedade. De fato, o ser humano é agregador 
e depende, pela sua própria essência, da aproximação com o outro. Conforme 
Aristóteles, o homem é um ser político. Em paralelo, a condição humana 
também traz uma constante autorreflexão: o homem busca conhecimento e 
aprofundamento das estruturas que lhe são apresentadas. É nessa linha de 
raciocínio que se verifica a presença, desde priscas eras, de um pensamento 
científico. A ciência surge justamente como um fenômeno de análise das rela-
ções de causa e efeito, na tentativa de sistematizar e organizar o conhecimento 
adquirido. Com a vida em sociedade, não é diferente.
O estudo da organização política e dos comportamentos políticos da socie-
dade é destinado à ciência política enquanto disciplina do saber. Já o estudo 
do Estado, enquanto organização jurídica da sociedade, é destinado à teoria 
geral do Estado (DALLARI, 2013). 
Sob a perspectiva da ciência política, relevantes aspectos da vida em 
sociedade são objeto de reflexão e compreendem as definições básicas das 
instituições sociais e o seu próprio funcionamento. Não é por outra razão 
que o estudo da ciência política envolve temas delicados, como poder polí-
tico, direitos políticos, democracia, legitimidade do poder, Estado e governo 
(MORAIS; STRECK, 2010). 
Sob o enfoque da teoria geral do Estado, tantos outros importantes temas 
são pontos de questionamento e abrangem não apenas a definição de Estado, 
mas também as suas origens, os seus fundamentos e as suas finalidades. Por 
essa razão, o estudo da teoria geral do Estado não desconsidera algumas 
categorias essenciais, como as formas de Estado, as formas de governo, os 
sistemas de governo e as funções do Estado. 
Além disso, consideramos a possibilidade de diferentes enfoques para o 
estudo. Surgem, assim, as perspectivas filosófica, sociológica e jurídica. Sob 
o prisma filosófico, buscamos os fundamentos do Estado e da sociedade, 
isto é, a sua justificativa teórica. Sob o prisma sociológico, identificamos os 
fatos concretos que revelam a prática social na indissociável relação existente 
entre o Estado e as condicionantes sociais existentes. Por fim, na perspectiva 
jurídica, pretendemos evidenciar a organização e personificação do Estado 
por meio do corpo normativo que o compõe (DALLARI, 2013). No ápice dessa 
última formulação, devemos citar Hans Kelsen, para quem o Estado se situa 
no plano do dever–ser (sollen) (DALLARI, 2013).
A esse respeito, confira a posição de Max Weber (apud BONAVIDES, 
2009, p. 42): 
Com efeito, na sociologia política de Max Weber, abre-se o capítulo de fecundos 
estudos pertinentes à política científica, à racionalização do poder, à legitima-
ção das bases sociais em que o poder repousa, inquire-se ali da influência e 
da natureza do aparelho burocrático; investiga-se o regime político, a essência 
dos partidos, sua organização, sua técnica de combate e proselitismo, sua 
liderança, seus programas; interrogam-se as formas legítimas de autoridade, 
como autoridade legal, tradicional e carismática; indaga-se da administração 
Ciência política e teoria geral do Estado8
pública, como nela influem os atos legislativos, ou com a força dos parla-
mentos, sob a égide de grupos socioeconômicos poderosíssimos, empresta à 
democracia algumas de suas peculiaridades mais flagrantes.
O componente humano presente na disciplina conjugada de ciência política e teoria 
geral do Estado provoca uma compreensão que transborda a perspectiva meramente 
jurídica ou sociológica. De fato, entender as relações entre o indivíduo e o Estado é 
aceitar uma complexidade interdisciplinar: somente se apreende o todo se forem 
considerados fatores históricos, econômicos, filosóficos e, até mesmo, psicológicos 
(MORAIS, 2010). 
O aspecto temporal também influencia sobremaneira o estudo da disci-
plina. Assim, algumas categorias conceituadas de determinada forma hoje 
poderão não mais ter a mesma definição amanhã. Essa, aliás, é considerada 
uma das grandes dificuldades do pensamento científico. Confira, a propósito, 
o pensamento de Paulo Bonavides (2009, p. 39):
Mas se o oxigênio, enxofre e o hidrogênio “se comportam da mesma maneira 
na Europa, na Austrália ou em Sírius”, se qualquer mudança na composição do 
elemento químico encontra no cientista condições fáceis e seguras de exame 
e esclarecimento, o mesmo não se dá com o fenômeno social e político. Fica 
este sujeito a imperceptíveis variações, de um para outro país, até mesmo na 
prática do mesmo regime; ou de um a outro século, de uma a outra geração. 
Por tais razões, compreender a ciência política e a teoria geral do Estado na 
atualidade é também considerar os movimentos atuais de crítica e reorganização 
da estrutural estatal, notadamente em razão da reavaliação da posição do Estado 
frente à sociedade e da dinâmica da globalização (CHEVALLIER, 2009). Não 
se pode desconsiderar, também, a chamada crise do Estado contemporâneo, 
que coloca em cheque a definição tradicional e o papel do ente estatal. Basta 
considerar, como exemplo dessa crise, a questão do espaço geográfico do Estado: 
As fronteiras, físicas e simbólicas, que delimitavam a esfera de influência, o es-
paço de dominação do Estado, tornaram-se porosas: os Estados são atravessados 
por fluxos de todas as ordens, que eles são incapazes de controlar, de canalizar 
e, se necessário, conter; já não tendo controle sob as variantes essenciais que 
comandam o desenvolvimento econômico e social, a sua capacidade de regu-
lação tornou-se, concomitantemente, aleatória (CHEVALLIER, 2009, p. 32).
9Ciência política e teoria geral do Estado
Conceitos fundamentais
A seguir, você identificará os conceitos de ciência política e teoria geral do 
Estado e conhecerá suas diferenças e semelhanças.
Ciência política
A política, enquanto prática humana relacionada com a noção de poder, é objeto de 
debate e reflexão desde o passado longínquo. Dessa forma, muitas obras clássicas 
são referência até hoje, com relevância para Platão, Aristóteles, Nicolau Maquia-
vel, Thomas Hobbes, John Locke, Alexis de Tocqueville, Rousseau, Karl Marx, 
George Burdeau, entre tantos outros. A palavra remonta à noção grega de pólis.
Sobre o conceito de ciência política, Dalmo Dallari (2013, p. 17) destaca 
que ela “faz o estudo da organização política e dos comportamentos políticos, 
tratando dessa temática à luz da Teoria Política, sem levar em conta os elemen-
tos jurídicos”. Essa definição considera que o elemento central do estudo é a 
política e, por essa razão, deságua na noção de poder. Com efeito, a ciência 
política é centrada no estudo do poder e, portanto, da autoridade (DUVERGER 
apud DIAS, 2013, p. 9). Em síntese, o objeto da ciência política é o poder. 
Para melhor estudar o seu objeto,é possível identificar quatro campos de 
atuação da ciência política (DIAS, 2013):
 � as instituições em que atuam os sujeitos, como o Estado e o governo; 
 � os recursos utilizados, como a influência e a autoridade; 
 � os meios para a formulação de decisões políticas (decision-making); 
 � as funções desempenhadas, como a solução consensual de conflitos e 
a imposição de decisões pelos atores dotadas de autoridade.
Teoria geral do Estado
O Estado, enquanto organização política da sociedade (em determinada base 
territorial e qualificada pelo poder político), também é objeto de intenso de-
bate. Aliás, apesar dessa definição inicial, o conceito de Estado é polêmico 
e multifacetado, sempre dependente da perspectiva de exame (DALLARI, 
2013). Sob o enfoque jurídico, seguramente haverá definição diferente da 
perspectiva meramente sociológica de Estado. 
A teoria geral do Estado se dedica “ao estudo do Estado sob todos os as-
pectos, incluindo a origem, a organização, o funcionamento e as finalidades, 
compreendendo-se no seu âmbito tudo o que se considere existindo no Estado 
Ciência política e teoria geral do Estado10
e influindo sobre ele” (DALLARI, 2013, p. 18). É evidente, com isso, que o 
estudo do Estado também diz respeito às condições de possibilidade de sua 
compreensão (MORAIS, 2010).
Em termos práticos, as questões abordadas na teoria geral do Estado já 
eram tratadas pelos autores clássicos da ciência política. A sistematização, 
como disciplina autônoma, deveu-se principalmente à doutrina alemã do final 
do século XIX e início do século XX, notadamente com Georg Jellinek e a 
sua teoria geral do Estado (Allgemeine Staatslehre, 1911).
Diferenças e semelhanças
Apresentadas as definições de ciência política e teoria geral do Estado, verifica-
mos, com clareza, que as disciplinas não se confundem. Enquanto a primeira diz 
respeito às relações de poder, a segunda diz respeito às relações com o Estado. É 
certo, por outro lado, que “não há possibilidade de desenvolver qualquer estudo ou 
pesquisa de Ciência Política sem considerar o Estado” (DALLARI, 2013, p. 17).
A ciência política, com efeito, é disciplina mais ampla e da qual a teoria 
geral do Estado faz parte. Essa, aliás, é a concepção de Herman Heller (apud 
DIAS, 2013), que já apontava a dificuldade em diferenciar ambos os fenômenos. 
De todo modo, para ele, há uma dependência recíproca entre ambas: a teoria 
geral do Estado é também pressuposto da ciência política.
Há, por outro, uma inevitável aproximação entre ambas. É que as duas se 
debruçam sobre a convivência humana, o Estado e a política:
[...] não somente para saber como se constituem, nem somente no sentido de 
uma obra de arte ou de uma teoria da constituição, mas, em última instância, 
no sentido de que constituem uma ciência da ordem. Têm uma tarefa comum, 
pois têm que responder à velha questão de como nós, seres humanos, podemos 
chegar a ter uma vida racional e boa (DIAS, 2013, p. 14).
Confira a íntegra da obra de Georg Jellinek no link abaixo 
ou acessando o código ao lado:
 https://goo.gl/sqAVQN. 
11Ciência política e teoria geral do Estado
Importância da disciplina
Variadas razões justificam o estudo da ciência política e da teoria geral do 
Estado. Com efeito, a disciplina tem relevo jurídico e, na pena de Dalmo de 
Abreu Dallari, podem ser identificadas três razões para se considerar a matéria 
importante (DALLARI, 2013). 
A primeira razão é de consciência: quem vive em sociedade precisa saber a 
sua organização e o papel que deve cumprir, sob pena de se tornar um autômato 
despido de intelectualidade e sem vontade própria. 
A segunda razão é de ordem crítica. Assim, devem ser conhecidas as 
formas e os métodos pelos quais os problemas sociais serão conhecidos e 
as soluções propostas para que se “evite o erro de pretender o transplante, 
puro e simples, de fórmulas importadas, ou a aplicação simplista de ideias 
consagradas, sem a necessária adequação às exigências e possibilidades da 
realidade social” (DALLARI, 2013, p. 13). 
A terceira razão é de ordem prática. Isso porque a ciência política e da 
teoria geral do Estado colaboram, de forma incisiva, para a elaboração da 
ordem jurídica. São, portanto, passos necessários para a compreensão do 
Direito de determinada sociedade. Essa perspectiva prática revela ainda o 
enfrentamento que deve existir entre as construções teóricas e o cotidiano 
daqueles inseridos em determinada comunidade jurídica. De fato, não há 
qualquer utilidade em uma reflexão sobre o papel da autoridade e do Estado 
que não considere as peculiaridades da sociedade na qual está inserida. Por 
isso, deve ser acrescentada uma última boa razão para o estudo da disciplina. 
A quarta razão proposta é reativa. De fato, compreender os institutos 
é, também, encontrar as suas qualidades e os seus defeitos, suas virtudes 
e seus vícios, de modo a buscar o aprimoramento das instituições. Assim, 
por exemplo, no que concerne à teoria geral do Estado, não basta apenas 
identificar a existência de propostas decorrentes do programa estatal, mas 
cumpre perquirir sobre a efetividade da sua atuação. Se o Estado brasileiro 
tem uma agenda, cumpre verificar se ela vem sendo cumprida. E, no âmbito 
da ciência política, se há um debate sobre a democracia, cumpre refletir sobre 
a real possibilidade de participação da comunidade na tomada de decisão. De 
igual modo, mudanças nas regras do jogo político podem receber uma reflexão 
mais tenaz em razão das posturas adotadas.
Ciência política e teoria geral do Estado12
BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009.
CHEVALLIER, J. O Estado pós-moderno. Belo Horizonte: Fórum, 2009.
DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.
DIAS, R. Ciência política. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2013.
MORAIS, J. L. B. de; STRECK, L. L. Ciência política e teoria do Estado. 7. ed. Porto Alegre: 
Livraria do Advogado, 2010.
13Ciência política e teoria geral do Estado
CIÊNCIA POLÍTICA 
E TEORIA GERAL
DO ESTADO
Felipe Scalabrin
Revisão técnica:
Gustavo da Silva Santanna 
Graduado em Direito
Especialista em Direito Ambiental Nacional 
e Internacional e em Direito Público
Mestre em Direito
Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito
Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094
S281c Scalabrin, Felipe
Ciência política e teoria geral do estado [recurso 
eletrônico] / Felipe Scalabrin, Débora Sinflorio da Silva Melo ; 
[revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre : 
SAGAH, 2017.
ISBN 978-85-9502-189-1
1. Formas de organização política. 2. Estado. 3. Ciência 
política. 4. Teoria geral do estado. I. Melo, Débora Sinflorio 
da Silva. II. Título.
CDU 321.01
Origem do Estado
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Analisar as teorias de origem do Estado.
 � Reconhecer a importância da teoria contratualista de Estado.
 � Distinguir as formações natural e histórica do Estado.
Introdução
Você já percebeu que todas as sociedades civilizadas estão organizadas 
em torno de um Estado? Realmente, o cenário mundial confirma que o 
convívio organizado do homem é centrado nessa figura considerada 
uma sociedade política. Com efeito, as razões pelas quais esse fenômeno 
ocorre são indispensáveis para uma correta compreensão das relações 
entre o Estado, o indivíduo e outros grupos sociais. Compreender as 
origens do Estado significa, também, identificar os limites do seu poder. 
Neste capítulo, você estudará as teorias sobre a origem do Estado, 
diferenciando a sua formação natural e a sua formação histórica, bem 
como conhecerá a importância da teoria contratualista. 
Estado como sociedade política
A origem da sociedade revela que o indivíduo se reúne em torno de determi-
nados objetivos de forma organizada e, para atingir tais finalidades, aceita 
ou se submete a um poder de caráter social. Assim, revelam-se os elementosgeralmente presentes na sociedade: finalidade, ordem e poder social. Em 
uma perspectiva ampla, quando a finalidade almejada reside na criação de 
condições gerais para a realização dos objetivos individuais, essa sociedade 
é considerada política (DALLARI, 2013). 
A sociedade política comunga interesses gerais e individuais, na medida 
em que proporciona, a um só tempo, a consecução de fins próprios e de 
objetivos comuns para todos os seus integrantes. É frequente, inclusive, 
que se refira à busca do bem comum como a finalidade última de uma 
sociedade política considerada na perspectiva mais ampla de participantes. 
Nessa percepção mais ampla, quando aceita uma autoridade superior que 
estabeleça as regras de convivência em torno desse objetivo comum, surge a 
primeira concepção de Estado. De fato, o Estado é uma espécie de sociedade 
política. A expressão Estado, porém, é reveladora de momento histórico 
determinado e específico. 
Coube a Maquiavel o seu emprego na obra O príncipe (1513). Diante 
da importância da obra, que apontava as características para um governo 
de sucesso no contexto político da Itália, o termo se difundiu ao longo do 
século XVII, superando concepções mais tradicionais que faziam alusão ao 
“estado” como grande propriedade particular (estados na Espanha e states 
na Inglaterra) (DALLARI, 2013). Mais adiante, a expressão passou a ser 
empregada apenas quando estivessem presentes algumas características 
específicas. Foi então que surgiu, no século XVIII, o chamado Estado mo-
derno (DALLARI, 2013). 
A dificuldade em identificar uma exata conceituação sobre o que se en-
tende por Estado deságua em similar desafio para encontrar as suas origens. 
Assim, uma primeira corrente defende que a figura do Estado, associada a uma 
sociedade organizada, sempre existiu. Não seria concebível uma sociedade 
sem Estado. Nesse sentido, o Estado seria justamente o princípio organizador 
de toda a humanidade. Por outro lado, uma segunda corrente afirma que o 
aparecimento do Estado depende das conveniências e oportunidades de cada 
grupo social, dependendo das condições concretas de cada agrupamento em 
cada localidade. Por fim, uma terceira corrente destaca que somente pode ser 
considerado Estado aquela sociedade política com características próprias e 
nascida na metade do século XVII. Para essa concepção, a definição de Estado 
não é generalizável, mas um produto histórico decorrente do reconhecimento 
da ideia de soberania, isto é, a concentração de poder em determinado território 
e sobre uma determinada comunidade — o que somente teria ocorrido no 
século XVII (MORAIS; STRECK, 2010). 
Apesar de a expressão Estado ser uma inovação difundida no século XVII, a noção de 
uma sociedade política organizava já existia na Antiguidade.
Origem do Estado26
Formação do Estado
A formação do Estado é tema que suscita divergências. Variadas seriam as 
possíveis causas para o surgimento dessa sociedade política, sendo frequente 
a classificação entre formação originária e formação derivada (AZAMBUJA, 
2008). A primeira estaria relacionada ao avanço na organização de um agru-
pamento pela primeira oportunidade, isto é, sem que houvesse uma ordem 
política anterior. A segunda diz respeito a situações em que novos Estado 
surgem a partir de outros já existentes. Nesse caso, falamos em fracionamento 
(quando uma parte do território de um Estado é desmembrada e se constitui 
um novo Estado) ou em união (quando dois ou mais Estados se reúnem para 
formar um novo Estado).
Teorias naturalistas
As teorias naturalistas buscam explicar a formação originária do Estado a 
partir de uma condição espontânea do ser humano. Segundo essas teorias, 
haveria uma formação espontânea do Estado, que dispensa qualquer ato volun-
tário da comunidade. Assim, o surgimento do Estado não depende de qualquer 
ato específico do homem, mas seria produto da sua natural caminhada em 
sociedade. Trata-se, portanto, de uma formação natural e, dessa forma, não 
contratual do Estado. 
A formação natural do Estado é assim defendida por Darcy Azambuja: 
[...] só um fato é permanente e dele promanam outros fatos permanentes: o ho-
mem sempre viveu em sociedade. A sociedade só sobrevive pela organização, 
que supõe a autoridade e a liberdade como elementos essenciais; a sociedade 
que atinge determinado grau de evolução passa a constituir um Estado. Para 
viver fora da sociedade, o homem precisaria estar abaixo dos homens ou 
acima dos deuses, como disse Aristóteles, e vivendo em sociedade ele natural 
e necessariamente cria a autoridade e o Estado (AZAMBUJA, 2008, p. 109). 
As principais causas não contratuais para o surgimento do Estado são siste-
matizadas por Dalmo de Abreu Dallari da seguinte forma (DALLARI, 2013): 
Origem familiar — considera que o núcleo familiar é a célula-mãe da socie-
dade política. De fato, a partir da reunião de diversas famílias, a complexidade 
do grupo social aumenta e, assim, surge o Estado enquanto figura de reunião 
da comunidade. Essa foi a proposta de Fustel de Coulanges ao tratar do sur-
gimento do Estado grego e do Estado romano.
27Origem do Estado
Origem violenta — considera que o Estado é o resultado da natural su-
perioridade de força de determinado grupo sobre outro. Assim, lembra 
Darcy Azambuja que o Estado é, durante os seus primeiros estágios, uma 
organização imposta pelo vencedor para manter a dominação do vencido 
(AZAMBUJA, 2008). É também denominada teoria da violência ou teoria 
da conquista. 
Origem econômica — considera que a reunião do sujeito em torno de um 
aparato de poder organizado decorre de motivos econômicos. Assim, o Estado 
proporciona a reunião de variados interesses, já que ninguém é bastante em 
si. Mais do que isso, essa teoria destaca que o Estado proporciona a divisão 
do trabalho e a integração de diversas atividades diferentes. Alguns autores, 
como Marx e Engels, vão ao extremo dessa teoria para explicar as razões pelas 
quais o Estado autoriza tantas desigualdades: na sua origem econômica, ele 
institucionalizou a propriedade privada, o acúmulo de patrimônio, a divisão 
de classe e, por consequência, a luta entre elas. Sobre o tema, confira a crítica 
de Darcy Azambuja (2008, p. 103): 
Quanto à luta de classes, o que a história e a sociologia têm demonstrado 
é que ela sempre existiu como também sempre existiu a cooperação entre 
as classes; que o Estado possa ser frequentemente instrumento dessa luta 
é demonstrável; mas, que ele tenha nela sua origem, é história distorcida e 
sociologia para propaganda política. 
Origem no desenvolvimento interno — considera que toda sociedade humana 
tem um Estado em potencial que surgirá à medida que a sua complexidade 
aumentar. Assim, uma sociedade pouco desenvolvida dispensa a figura do 
Estado, mas uma sociedade com maior desenvolvimento tem por necessidade 
o surgimento do Estado. Há, em razão disso, um surgimento do Estado natu-
ralmente decorrente do progresso de uma sociedade. 
Teorias contratualistas
As teorias contratualistas buscam explicar a formação originária do Estado a 
partir de um ato voluntário do ser humano. Segundo essas teorias, a formação 
do Estado depende de uma convenção expressa realizada entre os integrantes 
de uma sociedade. Assim, em linhas gerais, o surgimento do Estado dependeria 
de um ato concreto de reunião e aceitação, por alguns denominado contrato 
social. Trata-se, portanto, de uma formação contratual do Estado. 
Origem do Estado28
Para o pensamento contratualista, a sociedade e o Estado são criações 
artificiais da razão humana, derivadas de um consenso, tácito ou expresso, da 
maioria dos indivíduos para encerrar o estado de natureza e iniciar o estado 
civil. Assim, a origem e a legitimação do Estado são uma decorrência do 
contrato entre os indivíduos (MORAIS; STRECK, 2010). O pensamento 
contratualista, entretanto, não é uniforme, merecendo especial atenção as 
ideias de Hobbes, Locke e Rousseau.
Nesse sentido, Hobbes destaca que, antes da vida emsociedade, o homem se 
encontrava em uma fase primitiva, caracterizada pela insegurança e incerteza 
constantes. No estado de natureza, para ele, haveria uma eterna guerra de 
todos contra todos, derivada do caráter eminentemente negativo do homem 
— que não possui uma natureza boa. Assim, com o intuito de preservar a 
própria vida, o ser humano lança mão de um pacto em que se despoja dos seus 
direitos em detrimento de segurança. Entretanto, como a transgressão é ínsita 
ao homem, para garantir o cumprimento do pacto social, o grupo entrega o 
poder social para um novo sujeito, que é justamente o Estado. Por essa razão, 
a teoria contratualista de Hobbes justifica, a um só tempo, o surgimento da 
sociedade organizada (estado civil) e do Estado. Curiosamente, a figura é 
chamada, por Hobbes, de Leviatã (“metade monstro e metade deus mortal”), 
ente capaz de garantir a paz e a defesa da vida dos seus súditos (MORAIS; 
STRECK, 2010, p. 32).
O pensamento do autor inglês traz amplos poderes para o soberano, já que 
não há parâmetros naturais para a ação estatal, uma que pelo contrato o ho-
mem se despoja de tudo, exceto da vida, transferindo o asseguramento dos 
interesses à sociedade política, especificamente ao soberano. O Estado e o 
Direito se constroem pela demarcação de limites pelo soberano que, por não 
ser partícipe na convenção instituidora e, recebendo por todo desvinculado 
o poder dos indivíduos, tem aberto o caminho para o arraigamento de sua 
soberania (MORAIS; STRECK, 2010, p. 34). 
 Assim, em Hobbes, o Estado “já nasce com poderes supremos” (DINIZ, 
2001, p. 152).
Reafirmamos que, para Hobbes, é a manutenção do pacto social que 
possibilita a existência de paz entre o grupo social. As condições para o 
cumprimento do contrato, por sua vez, são uma providência do soberano 
— autorizado a “velar para que o temor ao castigo seja uma força maior 
que o fascínio exercido pelo desejo de qualquer vantagem possa esperar de 
uma violação do contrato” (DINIZ, 2010, p. 161). Com efeito, para Hobbes, 
a submissão absoluta é o preço a ser pago pelo súdito pela salvação trazida 
29Origem do Estado
pelo Estado (DIAS, 2013). Por essa razão, o seu pensamento é inspiração do 
modelo absolutista. 
Ao pensamento de Hobbes, contrapõe-se Locke — defensor das liberda-
des individuais e fervoroso antagonista do modelo absolutista. Para ele, no 
estado de natureza, o homem já possui um domínio racional de suas paixões 
e seus interesses, de modo que não se pode considerar a existência de uma 
guerra potencial. Pelo contrário, nesse estágio inicial da sociedade, há uma 
paz relativa que permite ao homem identificar os seus limites e reconhecer 
a existência de alguns direitos. De fato, no pensamento de Locke, existem 
diversos direitos inatos ao homem, como a vida, a liberdade e a propriedade. 
Falta, porém, uma força coercitiva apta a solucionar conflitos que possam 
surgir (MORAIS; STRECK, 2010).
A necessidade de uma força coercitiva para assegurar a proteção dos direitos 
inatos ao homem conduz à elaboração de um pacto entre os integrantes da 
sociedade. Surge, então, o contrato social como ferramenta de legitimação do 
poder e de manutenção dos direitos naturais. Assim, o pacto se sustenta na 
necessidade de proteção de direitos previamente existentes e na sua proteção 
contra possíveis conflitos. Surgem, assim, o estado civil e a fonte da autoridade 
estatal. Verificamos, nesse panorama, o caráter individualista de Locke: o 
surgimento do estado civil se dá para resguardar os direitos naturais de cada 
sujeito (MORAIS; STRECK, 2010), em especial, a propriedade (APPIO, 
2005). O poder do Estado, nessa linha, já surge limitado aos direitos naturais 
antes existentes.
Como podemos perceber, enquanto Hobbes via no Estado um ente ple-
nipotente, Locke identifica no Estado um ente com poder delimitado. Por 
essa razão, defende ele que os sujeitos do contrato podem se opor ao Estado 
quando houver violação a direitos naturais. Existe, pois, direito de resistên-
cia na sociedade política defendida por Locke (MORAIS; STRECK, 2010). 
Ainda, para ele, quando já instaurados a sociedade e o Estado, além do limite 
inicial decorrente dos direitos naturais, deverá ser observado o princípio 
da maioria. Assim, haverá uma proeminência do Poder Legislativo sobre o 
Poder Executivo (MORAIS; STRECK, 2010). Além disso, a observância da 
lei é impositiva, porque é fundada no próprio contrato social — o deixar de 
seguir a lei criado pelo Poder Legislativo é o mesmo que querer retornar ao 
estado natural (APPIO, 2005).
Origem do Estado30
No pensamento de Locke, o soberano é limitado pelos direitos naturais e pela própria 
sociedade civil. Vale lembrar que Locke, além de ser o pai do liberalismo, é considerado 
uma das maiores influências históricas da Revolução Inglesa (1688) e da Revolução 
Americana (1776).
O pensamento de Rousseau também é digno de referência, já que confirma 
a evolução da origem do Estado de um modelo absolutista para um modelo 
democrático. Com Rousseau, a tese do estado de natureza apenas facilita o 
entendimento da sociedade. Na realidade, a formação de uma sociedade teria 
maior caráter histórico. É célebre a sua afirmação de que, quando o primeiro 
homem reivindicou propriedade e os demais, ingênuos, aceitaram, teria surgido 
a sociedade. Assim, a noção de estado de natureza é emprestada apenas para 
ilustrar o contrato social e a legitimidade do poder social. 
Na compreensão de Rousseau, para manter a liberdade e a igualdade do 
indivíduo, propõe-se que o contrato social seja uma entrega do particular (vontade 
individual) para o geral (vontade geral), de modo que, quando ocorre a incursão 
no estado civil, não há uma abdicação da liberdade, mas sim uma entrega dela 
para toda a comunidade. E, como o sujeito faz parte do grupo social, não há 
qualquer perda. Pelo contrário, no pacto social, o indivíduo mantém a sua 
condição de liberdade e igualdade. É, pois, no princípio da vontade geral que 
reside a legitimidade do poder em Rousseau (MORAIS; STRECK, 2010). Nessa 
linha de entendimento, o poder não decorre da submissão a um terceiro, mas 
da união havida entre iguais. Trata-se de concepção na qual cada um renuncia 
a seus interesses particulares em detrimento da coletividade. Confira: 
Enfim, dando-se cada um a todos, não se dá a ninguém, e como não haverá 
nenhum associado sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se cedeu, 
ganha-se o equivalente a tudo que se perde e mais força para se conservar 
aquilo que se tem. Se, afinal, retira-se do pacto social aquilo que não pertence 
à sua essência, veremos que ele se reduz aos seguintes termos: cada um põe 
em comum sua pessoa e todo seu poder sob suprema direção da vontade 
geral; e enquanto corpo, recebe-se cada membro como parte indivisível do 
todo (ROUSSEAU, 2017, p. 24).
31Origem do Estado
A primordial contribuição desse pensamento é o tom democrático: é in-
dispensável o respeito à vontade geral encarnada na maioria. O poder, nessa 
passagem, não mais pertence a um príncipe ou oligarca, mas à própria co-
munidade. Traz, por outro lado, a problemática reversa: Rousseau consagra o 
despotismo da maioria e sufoca qualquer pensamento político contrário à voz 
dominante (MORAIS; STRECK, 2010). Seja como for, no seu pensamento, há 
uma inegável proposta de limitação do Estado, já que o soberano não tem o 
direito de sobrecarregar um indivíduo em detrimento do outro (DIAS, 2013):
Assim, fica claro que o poder soberano, por mais que seja totalmente abso-
luto, sagrado e inviolável, não ultrapassa nem pode ultrapassar os limites 
das convenções gerais, e que todo homem pode dispor plenamente dos seus 
bens e da sua liberdade naquilo que foi estipulado por essas convenções; de 
modo que o soberano nunca tem direito de sobrecarregar mais um súdito que 
o outro, uma vez que seu poder não é mais competente, quando o assunto se 
torna particular” (ROUSSEAU, 2017, p. 40).
A importância da teoria contratualista da formação do Estadoé inegável, 
já que não apenas revela a proteção de direitos do indivíduo como também 
enuncia que o Estado, desde a sua origem, é limitado. 
APPIO, E. Teoria geral do Estado e da constituição. Curitiba: Juruá, 2005.
AZAMBUJA, D. Teoria geral do Estado. 4. ed. São Paulo: Globo, 2008.
BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009.
DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.
DIAS, R. Ciência política. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2013.
DINIZ, A. C. de A. Direito, Estado e contrato social no pensamento de Hobbes e Locke: 
uma abordagem comparativa. Revista de Informação Legislativa, Brasília, v. 29, n. 152, 
out./dez. 2001.
MORAIS, J. L. B. de; STRECK, L. L. Ciência política e teoria do Estado. 7. ed. Porto Alegre: 
Livraria do Advogado, 2010.
ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.
Origem do Estado32
CIÊNCIA POLÍTICA 
E TEORIA GERAL 
DO ESTADO 
Débora Sinflorio da Silva Melo
Sistemas de governo
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Apresentar os sistemas de governo.
 � Explicar o sistema presidencialista.
 � Explicar o sistema parlamentarista.
Introdução
Neste capítulo, você vai ler a respeito do nascimento de importantes 
sistemas governamentais responsáveis pelo funcionamento de cada país. 
Primeiro, serão analisados e nomeados cada um dos sistemas, ou seja, o 
presidencialismo, o semipresidencialismo e o parlamentarismo. Na sequ-
ência, será aprofundado o estudo dos sistemas de governo presidencial 
e parlamentar, relacionando-os e diferenciando-os entre si.
Aproveite a análise dos sistemas de governo e comprove a sua im-
portância para o Estado.
Dos sistemas de governo
Segundo o professor José Geraldo Brito Filomeno (2016, p. 191), os sistemas 
de governo seriam “os tipos de exercício das funções do poder político, de 
acordo com o relacionamento que mantenham entre si os órgãos das funções 
legislativas, de um lado, e executiva, de outro”.
Nesse sentido, você pode entender que, independentemente do sistema de 
governo adotado (presidencialismo, semipresidencialismo ou parlamentarismo) 
e de ter sido criado ou ser decorrente de um processo evolutivo político, cada 
um possui particularidades importantes para o funcionamento de um país. 
Além disso, o sistema de governo não deve ser confundido com as formas 
de governo nem com as formas de Estado (unitário, regional ou federativo); 
assim, o sistema de governo se relaciona entre os Poderes Executivo e Legis-
lativo, e a forma de governo, entre os governantes e governados.
Tratando-se da relação política entre Executivo e Legislativo, atualmente é 
perceptível um grande embate entre esses poderes, agravado principalmente 
por crises políticas que têm assolado diversos países, bem como escândalos de 
corrupção envolvendo líderes políticos. O Brasil e a Venezuela, por exemplo, 
principalmente desde 2016, sofrem com a desestabilização do poder, do sistema 
político e das formas de governo adotadas. Como resultado, os especialistas 
políticos e os parlamentares passaram a destacar a necessidade de uma ur-
gente reformulação das concepções de governo adotadas na atualidade, seja 
em relação à forma de governo ou ao sistema adotado, pois, do contrário, a 
sociedade seguiria sofrendo as mazelas de um desgoverno presidencialista, 
parlamentarista ou semipresidencialista.
Presidencialismo
O presidencialismo é o sistema de governo adotado pelo Brasil e pela maioria 
dos países americanos. Esse fato decorre principalmente em razão do seu 
surgimento, visto que, ao contrário do sistema parlamentarista, o sistema 
presidencial não evoluiu com o tempo, como ocorreu com o parlamentarismo.
O sistema presidencial nasceu nos Estados Unidos da América (EUA) 
em consequência da revolução liberal norte-americana e da Constituição de 
1787 (Filadélfia), a qual previa a monarquia constitucional eletiva, ou melhor, 
a república como forma de governo e a adoção do presidencialismo como 
sistema. Nesse novo sistema, um indivíduo seria eleito pelo povo e teria a 
responsabilidade de exercer a função de chefe de Estado e chefe de governo. No 
caso dos EUA, o primeiro presidente eleito foi George Washington (1789–1797). 
No presidencialismo, o presidente é eleito por meio do sufrágio univer-
sal (voto) para administrar e governar o Estado por um período de 4 anos, 
sendo possível, em alguns países, a reeleição presidencial por igual período. 
Ressalta-se que, junto com o presidente, também é eleito o vice-presidente. O 
presidente, diversamente do primeiro-ministro (sistema parlamentar), exerce 
a função de chefe de Estado e chefe de governo; por isso, detém maior poder 
hierárquico, como, por exemplo, o de rejeitar lei propostas pelo Congresso. 
No Congresso (Poder Legislativo), os membros que o compõem (bicameral 
— duas câmaras) são eleitos por meio de sufrágio universal, como, por exemplo, 
os deputados e senadores; já os ministros são indicados pelo presidente. Assim, 
é possível perceber a separação de poderes elaborada por Montesquieu, sobre-
tudo no que diz respeito ao Executivo na pessoa do presidente e ao Legislativo 
em relação ao Congresso. Nesse sentido, ao final, há dois centros de poder 
105Sistemas de governo
institucionalizados, nos quais não há um órgão governamental que, em caso de 
conflito entre os Poderes Executivo e Legislativo, interponha-se como mediador. 
No caso do sistema presidencialista, caso o presidente, durante o seu governo, 
cometa algum crime de responsabilidade, estará sujeito a processo de impea-
chment, que, caso aceito, resultará no afastamento do presidente e, caso aceito 
de forma favorável pelo Senado Federal, resultará na destituição do presidente.
No caso do Brasil, a ex-presidente Dilma Rousseff foi 
destituída do cargo presidencial e substituída pelo vice-
-presidente, atual presidente Michel Temer, em 2016, em 
consequência de um processo de impeachment. Para saber 
mais, veja o link da cronologia do processo instalado contra
a ex-presidente:
https://goo.gl/I6Ra5J 
Segundo Sartori (1993), para que um sistema presidencialista seja consi-
derado puro, como é o dos EUA, deve reunir os seguintes critérios: 
1. a escolha do chefe de Estado (presidente) resulta de eleições populares; 
2. durante o mandato preestabelecido, o chefe de Estado não pode ser
demitido pelo voto parlamentar;
3. o chefe de Estado chefia o governo ou governos por ele próprio nomeados.
Uma das principais críticas ao sistema presidencialista é que, em razão da 
aliança entre o presidente e os partidos aliados, ocorre um desequilíbrio de 
poder e o favorecimento, em desprezo das obrigações governamentais e do povo.
No caso do Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê, nos arts. 84 a 86, as atribuições e 
responsabilidades do presidente da República; já os arts. 44 a 75 abordam a organização 
do Poder Legislativo brasileiro. Leia e estude os artigos constitucionais. 
Sistemas de governo106
E você, o que pensa sobre o sistema presidencialista?
Semipresidencialismo
O semipresidencialismo é uma mescla do parlamentarismo e do presidencia-
lismo. Tal sistema se originou na França (Revolução Francesa), com a culmi-
nação da Constituição de 1791 e a instituição da monarquia constitucional. 
Posteriormente, com a Constituição de 1793, surgiu na França o governo da 
assembleia — parlamento. 
No semipresidencialismo, ainda que o presidente possua autonomia de 
poder, compartilha-a com o primeiro-ministro. Logo, diferentemente do sistema 
presidencialista e do parlamentarismo, o presidente exerce a função de chefe 
de Estado, e o primeiro-ministro, a função de chefe de governo. Ao povo, por 
meio do sufrágio universal, é concedido o poder de eleger o presidente e os 
membros que compõem as câmaras parlamentares.
Convém destacar que, no sistema semipresidencial, o presidente tem o 
poder de primeiro-ministro, mas cabe ao Parlamento, em caso de necessi-
dade, destituirconfirma uma tendência de queda na prática de 
uma religião.
Capitulo 01.indd 8 23/10/13 14:58
Entendendo Sociologia 9
em grupo. Os protestantes tinham uma taxa de suicídio 
muito mais alta do que os católicos, as pessoas soltei-
ras apresentavam uma taxa muito mais alta do que as 
casadas, e os soldados tendiam a se matar mais do que 
os civis. Além disso, parecia haver taxas mais altas de 
suicídio em períodos de paz do que em momentos de 
guerra ou revolução, e mais nos períodos de instabilidade 
econômica e recessão do que em tempos de prosperidade. 
Durkheim concluiu que as taxas de suicídio de uma so-
ciedade refletem a medida em que as pessoas estão ou não 
integradas na vida de grupo da sociedade.
Émile Durkheim, como muitos outros cientistas 
sociais, desenvolveu uma teoria para explicar como o 
comportamento individual pode ser compreendido em 
um contexto social. Ele apontou a influência dos grupos 
e das forças sociais sobre algo que sempre havia sido no-
tado como um ato eminentemente pessoal. Com certeza, 
Durkheim ofereceu uma explicação mais científica para 
as causas do suicídio do que as manchas escuras do Sol 
ou as tendências hereditárias. Sua teoria trouxe um poder 
de previsão, uma vez que sugere que as taxas de suicídio 
aumentam ou diminuem em conjunto com certas mu-
danças econômicas e sociais.
Evidentemente, uma teoria – mesmo a melhor delas 
– não é uma afirmação final sobre o comportamento 
humano. A teoria do suicídio de Durkheim não é exce-
ção. Os sociólogos continuam a examinar os fatores que 
contribuem para as diferenças nas taxas de suicídio em 
todo mundo e a taxa de suicídios de uma determinada 
sociedade. Por exemplo, embora a taxa de suicídio geral 
da Nova Zelândia seja apenas marginalmente mais alta 
do que a taxa dos Estados Unidos, a taxa de suicídio 
entre pessoas jovens é 41% mais alta na Nova Zelândia. 
Os sociólogos e os psiquiatras daquele país sugerem que 
a sua sociedade, composta de grupos esparsos em regiões 
remotas, mantém padrões exagerados de masculinidade 
que são particularmente difíceis para os jovens rapazes. 
Os adolescentes homossexuais que não conseguem se 
adaptar às preferências de seus pares nos esportes ficam 
particularmente vulneráveis ao suicídio (Shenon, 1995). 
No Brasil, a taxa de suicídio é relativamente baixa, man-
tendo-se em torno de 0,056% de toda a população há 
muitas décadas. Por isso, o suicídio no País não é, na lin-
guagem de Émile Durkheim, um fato social patológico, 
dada a baixa regularidade com que se apresenta.
Se você fosse o sucessor de Durkheim na sua pesquisa 
sobre o suicídio, como investigaria os fatores que podem 
explicar o aumento das taxas de suicídio entre jovens nos 
Estados Unidos hoje?
o desenvolvimento da 
sociologia
As pessoas sempre mostram-se curiosas sobre temas 
sociológicos – como nos relacionamos com os outros, o 
que fazemos para viver, quem selecionamos para nossos 
líderes. Filósofos e autoridades religiosas das socieda-
des antigas e medievais fizeram inúmeras observações 
sobre o comportamento humano. Eles não testavam ou 
verificavam cientificamente essas observações; e, mesmo 
assim, suas observações com freqüência se tornavam o 
fundamento dos códigos morais. Muitos filósofos antigos 
previram que o estudo sistemático do comportamento 
humano seria realidade no futuro. A partir do século 
XIX, os teóricos europeus deram contribuições pioneiras 
para o desenvolvimento de uma ciência do comporta-
mento humano.
Os desastres produzem pânico ou uma resposta 
estruturada e organizada? O senso comum 
poderia nos dizer que a resposta é pânico, mas, na 
realidade, os desastres requerem muita estrutura 
e organização para lidar com os seus resultados. 
Quando o ataque terrorista de 11 de setembro de 
2001 destruiu o centro de comando de emergências 
da cidade de Nova York, os funcionários 
rapidamente restabeleceram esse centro para dirigir 
as buscas e os esforços para resgate das pessoas.
Use a Sua Imaginação Sociológica
Capitulo 01.indd 9 23/10/13 14:58
10 Capítulo 1
Os Primeiros Pensadores
Augusto Comte
O século XIX foi um período tumultuado na França. A 
monarquia francesa havia sido deposta na revolução de 
1789, e Napoleão tinha sido derrotado na sua tentativa de 
conquistar a Europa. No meio daquele caos, os filósofos 
pensavam como a sociedade poderia ser melhorada. Au-
gusto Comte (1798–1857), considerado o filósofo mais 
influente do início do século XIX, acreditava que uma 
ciência teórica da sociedade e uma investigação sistemá-
tica do comportamento eram necessárias para melhorar 
a sociedade. Ele definiu o termo Sociologia aplicando-o à 
ciência do comportamento humano.
De acordo com o que escreveu durante o século XIX, 
Durkheim temia que os excessos da Revolução Francesa 
tivessem prejudicado permanentemente a estabilidade da 
França. Mesmo assim, ele esperava que o estudo sistemá-
tico do comportamento social finalmente levasse a intera-
ções humanas mais racionais. Na hierarquia das ciências 
de Comte, a sociologia ficava no topo. Ele a chamava de 
“rainha”, e os seus praticantes, de “sacerdotes-cientistas”. 
Esse teórico francês não apenas batizou a sociologia 
como também apresentou um desafio muito ambicioso 
para a disciplina que nascia.
Harriet Martineau
Os estudiosos refletiram sobre os trabalhos de Comte 
principalmente por meio das traduções da socióloga 
inglesa Harriet Martineau (1802–1876). Martineau era 
também uma pioneira. Ela realizou observações perspi-
cazes sobre os costumes e as práticas sociais tanto da sua 
terra natal, a Grã-Bretanha, quanto dos Estados Unidos. 
O livro de Martineau, Society in America A sociedade 
([1837] 1962), abordou a religião, a política, a educação 
das crianças e a imigração naquela jovem nação. Ela dá 
atenção especial às distinções das classes sociais e a fato-
res como gênero (sexo) e raça. Martineau ([1838] 1989) 
também escreveu o primeiro livro sobre os métodos 
sociológicos.
Os escritos de Martineau enfatizaram o impacto 
que a economia, a lei, o comércio, a saúde e a popula-
ção podiam ter sobre os problemas sociais. Ela pregou 
a favor dos direitos das mulheres, da emancipação dos 
escravos e da tolerância religiosa. Mais tarde, a surdez 
não a impediu de ser uma ativista. Na visão de Marti-
neau (1877), os intelectuais e os estudiosos não deviam 
apenas oferecer observações sobre as condições sociais; 
eles deviam agir em relação às suas convicções de uma 
forma que beneficiasse a sociedade. É por isso que ela 
fez pesquisas acerca da natureza dos empregos femini-
nos e apontou para a necessidade de investigações mais 
aprofundadas sobre o assunto (Deegan, 2003; Hill e 
Hoecker-Drysdale, 2001).
Herbert Spencer
Outra importante contribuição para a disciplina da so-
ciologia foi dada por Herbert Spencer (1820–1903). Um 
inglês vitoriano relativamente próspero, Spencer (diferen-
temente de Martineau) não se sentia compelido a corrigir 
ou a melhorar a sociedade; ao contrário, ele simplesmente 
esperava entendê-la melhor. Buscando bases no estudo de 
Charles Darwin – Sobre a origem das espécies –, Spencer 
aplicou o conceito de evolução das espécies nas socieda-
des para explicar como elas mudam ou evoluem com o 
passar do tempo. Da mesma forma, ele adaptou a visão 
revolucionária de Darwin sobre a “sobrevivência do mais 
forte” argumentando que é “natural” que algumas pessoas 
sejam ricas e outras, pobres.
A abordagem da mudança na sociedade feita por 
Spencer foi extremamente popular durante sua vida. 
Diferentemente de Comte, ele sugeria que, uma vez que 
as sociedades mudariam no final, ninguém precisava ser 
muito crítico sobre os arranjos sociais atuais, ou trabalhar 
ativamente por mudanças sociais. Esse ponto de vista 
agradou muitas pessoas influentes na Inglaterra e nos 
Estados Unidos, que tinham interesse na manutenção do 
status quo e não confiavam nos pensadores sociais que 
endossavam mudanças.
Harriet Martineau, uma das pioneiras da sociologia, 
estudou o comportamentoo primeiro-ministro. Essa regra, porém, não é absoluta, pois o 
presidente tem o poder discricionário de dissolver ao Parlamento; logo, com 
isso, destitui-se o primeiro-ministro. 
Considerando o maior equilíbrio entre os Poderes Executivo e Legislativo (estrutura 
bicameral), o sistema de governo semipresidencialista tem sido cogitado por especialis-
tas políticos como a melhor alternativa de sistema de governo para gerenciar um país.
Você acha que o sistema semipresidencialista poderia ser uma alternativa 
para o Brasil? Opine e discuta com os seus colegas a respeito.
Parlamentarismo
O parlamentarismo é um sistema de governo representativo que, diferentemente 
do presidencialismo, originou-se por meio de longo e contraditório processo 
evolutivo político monárquico, decorrente de embates de poder entre os con-
107Sistemas de governo
selheiros (Grande Conselho) e o monarca regente do Reino Unido, o que deu 
origem a revoluções e conflitos. 
Os conselheiros reais, compostos por representantes do clero e da nobreza, 
tinham a incumbência de auxiliar e orientar o rei na administração do reino, 
fato marcado durante o século XII. Contudo, no reinado de Henrique III, o 
Grande Conselho, que viria a ser chamado posteriormente de Parlamento, 
era desprestigiado pelo rei e, em consequência da necessidade de apoio fi-
nanceiro, de respeito à Magna Carta de 1215 e da pressão dos membros do 
Grande Conselho, Henrique III teve que ceder e conferir ao Grande Conselho 
o status de Parlamento.
O parlamentarismo aflorou em razão da famosa revolução inglesa, A Glo-
riosa, que nada mais foi do que a deposição do rei Jaime II pela sua filha Maria 
e pelo seu genro holandês Guilherme de Orange. Somada à Declaração de 
Direitos (Bill of Rights), a revolução findou o absolutismo monárquico, pois, 
a partir de então, o rei não governaria sem o apoio do Parlamento, surgindo, 
dessa forma, o gabinete ministerial parlamentar (cabinet), o qual seria presidido 
por um primeiro-ministro.
Diversamente do presidencialismo, no surgimento do sistema parlamentar 
inglês, o rei exerceu a função de chefe de Estado e, ao primeiro-ministro, 
competia a função de chefe de governo.
Segundo dados históricos, em 1721, Sir Robert Walpole foi nomeado como 
primeiro-ministro inglês, competindo-lhe liderar e conduzir as decisões do 
parlamento, informando-as ao soberano. 
Para Sartori (1993, p. 192):
Desde o ponto de vista Legislativo é atribuído o direito e dever de legislar 
sobre grande quantidade de procedimentos de natureza particular, admi-
nistrativa e meramente regulamentar. E desde o ponto de vista executivo 
significa que o governo sente-se obrigado a governar — legislando, ou seja, 
tornar executivas as decisões políticas (não necessariamente todas), segundo 
a forma das normas jurídicas. 
O parlamento inglês, por exemplo, é bicameral (ou seja, composto por duas 
câmaras): a comum ou alta, cujos membros são eleitos por voto, e a dos lordes 
ou baixa, cujos membros são nomeados pelo rei. Convém destacar que alguns 
países que adotam o sistema parlamentar utilizam o sistema unicameral (única 
câmara), como é o caso da Grécia.
No parlamentarismo, para que o parlamento seja dissolvido, é necessária 
a realização de eleições, fato distinto do sistema semipresidencial. Essa pos-
sibilidade, no sistema parlamentar, decorre do fato de não haver prazo fixo 
Sistemas de governo108
para que o primeiro-ministro ocupe o cargo, uma vez que a sua adoção e o 
seu funcionamento do governo dependem da confiança com o Parlamento.
Você sabe dizer quais e quantos países adotam o regime parlamentar? 
Aproveite o estudo do tema e investigue.
Parlamentarismo dualista e parlamentarismo monista
Parafraseando o professor Paulo Bonavides (2007), o parlamentarismo dua-
lista seria o processo evolutivo e histórico com o encontro das prerrogativas 
monárquicas em declínio, com a autoridade política do povo em ascensão, 
com a igualdade e a colaboração entre o executivo e o legislativo, e meios de 
ação recíproca no funcionamento do Executivo e do Legislativo. 
Já o parlamentarismo monista teria como base a soberania popular, de 
governo parlamentar, com predomínio da assembleia em relação à competência 
do presidente da República. Para Bonavides (2007), o presidente cuja autoridade 
procede o executivo seria diminuída para o exercício de uma magistratura 
moral implícita nas funções de chefia de Estado.
Importante destacar que a maioria dos países europeus adota o sistema 
parlamentarista.
Para saber mais sobre o tema e analisar as vantagens e desvantagens de cada sistema 
de governo, consulte o livro Ciência política (BONAVIDES, 2007).
109Sistemas de governo
BONAVIDES, P. Ciência política. São Paulo: Malheiros, 2007.
FILOMENO, J. G. B. Teoria geral do Estado e da constituição. 10. ed. rev., atual. e ampl. 
Rio de Janeiro: Forense, 2016.    
MEGACURIOSO. 4 coisas em que o parlamentarismo é diferente do presidencialismo. 2016. 
Disponível em: . Acesso em: 23 ago. 2017.
SARTORI, G. Nem presidencialismo, nem parlamentarismo. Revista Novos Estudos, v. 35, 
mar. 1993.
RIBEIRO, R. Presidencialismo de coalizão: hora de rever algumas convicções? 2014. Dis-
ponível em: . Acesso em: 23 ago. 2017.
Leituras recomendadas
BASTOS, C. R. Curso de teoria do Estado e ciência política. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 9. ed. Brasília: Editora Universidade de 
Brasília,1997.
FERRAJOLI, L. Poderes selvagens: a crise da democracia italiana. São Paulo: Saraiva, 2014. 
SARTORI, G. Elementos de teoría política. Madrid: Alianza Editorial, 2002. 
STRECK, L. L.; MORAIS, J. L. B. de. Ciência política e teoria geral do Estado. 7. ed. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2010.
Sistemas de governo110
Revisão técnica:
Gustavo da Silva Santanna 
Graduado em Direito
Especialista em Direito Ambiental Nacional 
e Internacional e em Direito Público
Mestre em Direito
Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito
Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094
S281c Scalabrin, Felipe
Ciência política e teoria geral do estado [recurso 
eletrônico] / Felipe Scalabrin, Débora Sinflorio da Silva Melo ; 
[revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre : 
SAGAH, 2017.
ISBN 978-85-9502-189-1
1. Formas de organização política. 2. Estado. 3. Ciência 
política. 4. Teoria geral do estado. I. Melo, Débora Sinflorio 
da Silva. II. Título.
CDU 321.01
Estado e democracia 
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Conceituar o que é democracia.
 � Diferenciar democracia direta, semidireta e representativa.
 � Demonstrar a crise na democracia atual.
Introdução
Não há Estado sem um correspondente regime de governo. Para su-
prir uma lacuna a esse respeito, a partir do século XVIII, difundiu-se o 
regime democrático. Assim, cumpre perquirir acerca da democracia, o 
seu conceito e as suas espécies, bem como refletir sobre as suas reais 
possibilidades de concretização no Estado contemporâneo.
Neste capítulo, você vai ler a respeito da democracia em suas múltiplas 
facetas, passando pela dimensão conceitual e histórica. Vai também 
diferenciar democracia direta, semidireta e representativa, bem como 
analisar a crise na democracia atual.
A democracia do passado
Enquanto organização política, o Estado se apresenta por meio de variados 
regimes de governo diferentes. Com efeito, o tema das formas de governo 
suscita polêmica desde a Antiguidade. Com o advento do Estado moderno, 
entretanto, a ideia de democracia se sedimenta e permite a afirmação de 
alguns valores fundamentais, como a noção de governo do povo, que jaz na 
essência dessa expressão. A presença de um Estado democrático na acepção 
atual, porém,possui as suas raízes no século XVIII e não desconsidera as 
influências do passado (DALLARI, 2013). 
Na Antiguidade, o Estado grego vivenciou a democracia em termos práticos 
e teóricos. No plano teórico, Aristóteles destacou, na sua insuperável reflexão 
sobre as espécies de governo, que poderia caber a um só indivíduo, a um grupo 
de sujeitos ou a toda uma coletividade. Organizou-se, então, a distinção entre 
monarquia, aristocracia e democracia. 
Para o pensamento grego, entretanto, a noção de cidadania era restrita, de 
modo que, mesmo em uma democracia, o governo não seria entregue a toda a 
população. Na concepção de Aristóteles, “a virtude política, que é a sabedoria 
para mandar e obedecer, só pertence àqueles que não têm necessidade de 
trabalhar para viver, não sendo possível praticar-se a virtude quando se leva a 
vida de artesão ou de mercenário” (DALLARI, 2013, p. 146). A crítica moderna 
ao modelo democrático grego decorreu justamente da presença da escravidão, 
já que pressupunha um grande grupo de sujeitos que não participariam da 
vida política (BONAVIDES, 2009).
O mais célebre exemplo de democracia exercida na Antiguidade fica com a 
Atenas de Péricles e historiada por Tucídides, no Livro II da História da Guerra 
do Peloponeso. A partir desse relato, é possível identificar a presença de um 
governo em que a democracia é louvada (MOREIRA, 1997). Esse cenário 
histórico revela algumas características da democracia antiga: a liberdade 
de opinião ou expressão (isagoria), a igualdade de todos perante a lei, sem 
diferença de grau, classe ou riqueza (isonomia), e o livre acesso de todos ao 
exercício das funções públicas (isotimia) (BONAVIDES, 2009). 
Com efeito, “a referência à pratica da democracia em algumas cidades 
gregas, em breves períodos, seria insuficiente para determinar a preferência 
pela democracia, que se afirmou a partir do século XVIII em todo o hemisfério 
ocidental, atingindo depois o restante do mundo” (DALLARI, 2013, p. 146). 
Foi necessário, assim, um intenso debate de contestação ao poder concentrado nas 
mãos de poucos para que o discurso sobre a democracia ganhasse fôlego, o que, de 
fato, ocorreu. Novamente, contribuições teóricas e situações concretas permitiram o 
advento do Estado democrático. 
Assim, no plano teórico, o pensamento de Rousseau, valorizando a vontade 
geral, ainda que cético quanto à possibilidade de um governo democrático, 
só não foi mais importante do que o ideário de Locke. Com ele, afirmaram-
-se direitos naturais e a importância de um poder legislativo sempre sujeito 
ao povo. Nessa ordem de pensamento, a comunidade mantém o poder de 
Estado e democracia76
se salvaguardar dos governantes e até mesmo do legislador. Além disso, 
“quem detiver o poder legislativo ou o poder supremo de qualquer comu-
nidade, obriga-se a governá-la mediante leis estabelecidas, promulgadas e 
conhecidas do povo, e não por meio de decretos que surpreendam o povo” 
(DALLARI, 2013, p. 148).
Não faltaram também situações concretas que colaboraram, de forma 
determinante, para a valorização da democracia. Assim, a Revolução Inglesa 
testemunhou a ascensão das cartas de direitos, como, por exemplo, o Bill of 
Rights (1689) e a Declaração de Independência das 13 colônias americanas, 
que viriam a se tornar os Estados Unidos da América (1776), o que implicou 
a afirmação do poder político e da supremacia do povo. Além disso, a Re-
volução Francesa foi propícia para reconhecer que nenhuma limitação pode 
ser imposta ao indivíduo, salvo pela lei, que é expressão da vontade geral da 
nação (1789). A proteção de direitos universais e da participação política é o 
sustentáculo da revolução.
Essa soma de fatores permitiu a Dalmo de Abreu Dallari identificar 
as características essenciais do Estado democrático do século XVIII 
(DALLARI, 2013):
 � a supremacia da vontade popular, com a possibilidade de participação 
do povo na tomada de decisões do governo; 
 � a preservação da liberdade, com o reconhecimento de direitos e a não 
interferência do Estado na esfera particular; 
 � a igualdade de direitos, com a proibição de tratamento diferenciado em 
razão de classes ou motivos econômicos. 
Apesar da importância da experiência democrática grega, a afirmação da democracia 
somente tem início com o pensamento do século XVIII.
A democracia do presente 
A força do pensamento democrático implicou a utilização desse regime de 
governo na maioria dos Estados do século XXI. Na atualidade, são raros os 
governos que não se proclamem democráticos (BONAVIDES, 2009). Ainda 
77Estado e democracia
existe, porém, grande dificuldade teórica e prática na sua identificação. De 
fato, não é incomum a mera exaltação de um governo como democrático sem 
que, na realidade, existam instrumentos de participação política do povo. Além 
disso, controverte-se sobre a essência da democracia. 
O que é a democracia? A tormentosa indagação não tem resposta fixa 
perante a ciência política diante de tantas controvérsias, havendo, inclusive, 
célebre crítica no pensamento de Rousseau (2017, p. 75): “Se houvesse um 
povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente”.
Sob o aspecto formal, destacamos três espécies de democracia presentes 
ao longo da história. São as seguintes:
Democracia direta — nela, o poder político é exercido diretamente pelo 
povo, sem qualquer intermediação ou representação. O exemplo evidente de 
democracia direta estaria na Antiguidade, com os gregos. De fato, o cidadão 
grego via na organização do Estado não apenas o prolongamento de suas ações, 
mas o elemento condicionante de sua própria existência. Na Grécia antiga, o 
interesse pela vida pública era inerente à condição de cidadão (BONAVIDES, 
2009). Alguns destacam, entretanto, que nem mesmo a democracia grega 
poderia ser considerada direta, na medida em que impunha severa restrição 
ao conceito de cidadania. Assim, o governo poderia ser considerado do povo, 
mas pouquíssimos indivíduos eram considerados “o povo”. Outro exemplo de 
democracia direta estaria presente em alguns Cantões da Suíça, por meio do 
Landsgemeinde. Nesses lugares, há assembleias abertas a todos os cidadãos 
do Cantão para que, querendo, exerçam seu direito de voto em determinadas 
questões políticas. De todo modo, mesmo nesses casos, a convocação da 
assembleia depende de uma prévia aprovação de representantes eleitos para 
tanto (DALLARI, 2013). Razões de ordem prática confirmam a dificuldade de 
uma democracia direta na era moderna: “Até mesmo a imaginação se perturba 
em supor o tumulto que seria congregar em praça pública toda a massa do 
eleitorado, todo o corpo de cidadãos, para fazer as leis, para administrar” 
(BONAVIDES, 2009, p. 293).
Democracia indireta — nela, o poder político é exercido pelo povo por meio 
de representantes eleitos, razão pela qual também é denominada democracia 
representativa. Nesse caso, o povo confere um mandato a alguns cidadãos 
para que eles exerçam o poder político. É esse regime democrático que pro-
move o surgimento de uma classe específica de sujeitos cujos propósitos são 
a elaboração e discussão de novas leis e a administração do poder público. É 
a classe política. A partir do século XIX, a especialização dá mais um passo 
Estado e democracia78
com o surgimento dos partidos políticos. O modelo se difundiu nos Estados 
Democráticos, mas não sem críticas (DALLARI, 2013). Assim, é possível 
destacar que a representação somente é eficaz quando o povo tem plenas con-
dições de compreender o debate e as opções apresentadas, o que dificilmente 
ocorre. Além disso, muitas vezes, a atuação do representante não condiz com 
as ideias do programa partidário, revelando maior interesse pela conquista ou 
manutenção do poder do que pelos interesses do mandatário (DALLARI, 2013).
Democracia semidireta — nela, o poder político é exercido pelo povo por meio 
de representantes eleitos, mas que também conta com institutos que permitem 
a discussão de determinados temas diretamente pelopovo. A democracia 
semidireta é uma aproximação da democracia representativa e da democracia 
direta, com a criação de instrumentos que “[...] fazem efetiva a intervenção do 
povo” (BONAVIDES, 2009). Nessa forma, portanto, a atuação do povo não 
se limita à eleição de governantes e legisladores, mas compreende também a 
efetiva tomada de decisão. 
Na democracia semidireta, avulta a participação jurídica do povo, já que, 
em casos específicos, torna-se diretamente competente pela ordem normativa 
a estabelecer a tomada de decisão sobre certos assuntos. Caberá, entretanto, 
a cada Estado definir a extensão da participação direta do povo. No plano 
teórico, alguns autores apresentam os seguintes institutos de atuação do 
povo na democracia semidireta:
Referendo — consiste na consulta ao povo para que delibere sobre matéria 
relevante, adquirindo o poder de sancionar leis ou emendas constitucionais. 
A característica essencial do referendo consiste em consulta após a tomada 
de uma decisão para que seja confirmada ou não. Em síntese, “o objetivo é 
perguntar ao povo se ele confirma ou não uma decisão já tomada” (DALLARI, 
2013, p. 154).
Plebiscito — consiste na consulta ao povo para que delibere sobre matéria 
relevante antes da elaboração do ato normativo ou administrativo. Assim, a 
característica essencial do plebiscito é representar uma consulta prévia ao 
povo sobre determinado tema. É somente com o resultado da opinião do povo 
que serão adotadas as medidas legislativas ou administrativas pertinentes. 
Iniciativa popular — é a possibilidade de um número previamente deter-
minado de eleitores dar início ao processo legislativo, com a propositura de 
novas leis ou emendas à Constituição. 
79Estado e democracia
Veto popular — é a faculdade conferida ao povo para que se manifeste 
contrário a uma medida ou lei já devidamente elaborada e em vias de ser 
colocada em execução (BONAVIDES, 2009). Aqui, um número previamente 
determinado de eleitores, em prazo determinado, poderá requerer que uma 
lei já publicada seja submetida à aprovação ou rejeição do eleitorado. Vale 
registar que alguns autores consideram o veto espécie de referendo.
Revogação — é a faculdade conferida ao povo para que promova o término 
antecipado de um mandato eletivo, isto é, antes do decurso do prazo legalmente 
previsto. A revogação é, portanto, um mecanismo que permite ao povo o controle 
imediato do mandato da classe política. A mais conhecida espécie de revogação 
é o chamado recall previsto nos Estados Unidos da América. Por meio do recall, 
o eleitorado poderá “destituir funcionários, cujo comportamento, por qualquer 
motivo, não lhe esteja agradando” (BONAVIDES, 2009, p. 313), desde que 
observadas, evidentemente, as regras que regulamentam o instituto. 
Na experiência democrática brasileira, existem diversos instrumentos 
que qualificam a democracia representativa, razão pela qual a Constituição 
Federal prestigia a forma semidireta de democracia. Assim, por exemplo, 
existe a possibilidade constitucional de plebiscito e referendo (art. 14, I e II, 
da Constituição Federal de 1988). Ambos estão detalhados na Lei nº 9.709, 
de 18 de novembro de 1998. Confira:
Art. 2º Plebiscito e referendo são consultas formuladas ao povo para que 
delibere sobre matéria de acentuada relevância, de natureza constitucional, 
legislativa ou administrativa.
§ 1º O plebiscito é convocado com anterioridade a ato legislativo ou admi-
nistrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha 
sido submetido.
§ 2º O referendo é convocado com posterioridade a ato legislativo ou admi-
nistrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou rejeição.
Art. 3º Nas questões de relevância nacional, de competência do Poder Legislati-
vo ou do Poder Executivo, e no caso do § 3º do art. 18 da Constituição Federal, 
o plebiscito e o referendo são convocados mediante decreto legislativo, por 
proposta de um terço, no mínimo, dos membros que compõem qualquer das 
Casas do Congresso Nacional, de conformidade com esta Lei (BRASIL, 1998).
A iniciativa popular também é um instituto expressamente previsto na 
Constituição Federal. Em âmbito nacional, isto é, para a proposição de leis 
ordinárias, ela pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de 
projeto de lei subscrito por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional, distribuído 
por, pelo menos, cinco Estados, com não menos de 0,3% dos eleitores de cada 
Estado e democracia80
um desses Estados, nos termos do art. 61, § 2º, da Constituição Federal de 
1988. Já no âmbito municipal, isto é, para a proposição de leis municipais, é 
necessária a manifestação de, pelo menos, 5% do eleitorado, nos termos do 
art. 29, XIII, da Constituição Federal de 1988.
A partir da existência de instrumentos formais de participação, Norberto 
Bobbio (1997, p. 30) apresenta a seguinte definição: “O único modo de se chegar 
a um acordo quando se fala de democracia, entendida como contraposta a todas 
as formas de governo autocrático, é o de considerá-la caracterizada por um 
conjunto de regras que estabelecem quem está autorizado a tomar as decisões 
coletivas e com quais procedimentos”. Nesse sentido, a democracia diz respeito 
ao titular do poder e ao modo pelo qual o poder é legitimamente exercido.
A democracia do futuro
A adoção generalizada de formas democráticas semidiretas revelou as defici-
ências do modelo e as crises a ele inerentes. Assim, Paulo Bonavides destaca 
a crise na legitimidade dos partidos políticos e a fragilidade dos institutos de 
manifestação direta do povo.
Quanto aos partidos políticos, “a lição de nossa época demonstra que não raro 
os partidos, considerados instrumentos fundamentais da democracia, se corrom-
pem” (BONAVIDES, 2009, p. 299), ou seja, desviam-se de seus interesses e não 
mais espelham os ideais políticos que defendiam, vitimando o povo do logro. De 
fato, nos dias atuais, existe uma intensa crise de legitimidade dos partidos políticos.
Quanto aos institutos de participação direta tradicionalmente reconhe-
cidos, vimos a sua ineficiência (BONAVIDES, 2009). Mecanismos idealizados 
como autênticos meios de transformação social sucumbiram a uma realidade 
indiferente e conservadora, sendo pouco empregados e, quando utilizados, 
trazendo resultados conservadores e sem significativo impacto (BONAVIDES, 
2009). Assim, a presença de instrumentos de participação não teve o condão 
de atrair o povo para o cenário político.
Nessa mesma linha, Norberto Bobbio faz uma intensa crítica ao modelo 
democrático representativo e destaca que essa democracia se tornou um am-
biente de promessas não cumpridas. 
Para ele, as seis promessas não cumpridas pela democracia represen-
tativa são (BOBBIO, 1997): 
 � a vontade geral como centro de poder — a realidade social demonstrou 
que não existe apenas um foco de força política, como pretendiam os 
idealizadores da democracia, de sorte ser impossível alcançar uma única 
81Estado e democracia
vontade geral, já que efetivamente existem, de fato, diversos núcleos 
de poder que coexistem; 
 � a contenda de interesses — o representante deveria apenas buscar os 
interesses de toda a coletividade, mas, de fato, busca os interesses 
daqueles que o colocaram no poder; 
 � a manutenção das oligarquias; 
 � o espaço limitado — apesar de ser agora ampla a quantidade de votantes, 
seu espaço de inserção no discurso político ainda é ínfimo, daí a crise 
estar em “onde se vota?”, ou seja, em definir os momentos em que o 
povo é efetivamente chamado a se manifestar sobre determinado tema; 
 � a persistência de um poder invisível — a noção de que existem, ainda, 
instituições e órgãos que agem nas sombras, sem publicizar os seus 
atos, atuando com intenções duvidosas;, 
 � o problema da cidadania — o cidadão, a partir da possibilidade de atuar 
por meio da democracia, aprenderia e se transformaria em um cidadão 
ativo e participante, que se engajasse na prática política — o que não 
apenas não aconteceu como se procedeuao inverso: as democracias mais 
consolidadas têm por característica um povo apático e desinteressado. 
Diante de tantas crises, a definição de democracia exigirá uma nova com-
preensão. Nesse ponto, tem ganhado força o discurso na defesa de uma nova 
espécie de democracia. É a democracia participativa (BOBBIO, 1997). Com 
efeito, o adjetivo participação: 
[...] passa a ser o novo referencial em termos democráticos, inserção da (re)
qualificação do povo, para além de mero ícone, catapultando-o, assim, para o 
cenário democrático como ator principal e não mais como mero coadjuvante, 
como aquele que está apto de fato a reivindicar sua posição proeminente em 
uma sociedade livre, solidária e justa (RIBEIRO; SCALABRIN, 2009, p. 160).
A democracia participativa implica uma ampliação do diálogo e da parti-
cipação concreta, dispensando técnicas meramente formais. Nesse estágio, a 
inclusão do cidadão deve atingir todos os planos, de sorte que nem a função 
jurisdicional, nem o próprio processo legislativo escapam desse fenômeno. Sendo 
a democracia, também e não só, um conjunto de valores e ideais, cuja legitimidade 
(política e jurídica) não se extrai apenas do voto — que se apresenta mais como 
um conteúdo mínimo necessário (LUCAS, 1985). —, novos mecanismos devem 
ser postos à disposição dos indivíduos para dar vida ao postulado democrático, 
enquanto velhos elementos do mundo jurídico devem ser repensados.
Estado e democracia82
Confira, no link a seguir, um texto sobre democracia par-
ticipativa para aprofundar os estudos:
https://goo.gl/jeEtNf 
Diversos exemplos presentes no sistema democrático brasileiro permitem 
concluir que a chegada da democracia participativa é inevitável e já permeia 
todas as funções do Estado. De fato, todos os poderes constituídos já contam 
com mecanismos amplos de participação direta do povo: 
Poder Legislativo — há a legitimidade de qualquer pessoa para denunciar ir-
regularidades financeiras junto ao Tribunal de Contas, bem como podem ser 
realizadas audiências públicas no âmbito do processo legislativo (FIGUEIREDO, 
2003). Aliás, as audiências públicas surgem como canal de comunicação entre 
parlamentares, cidadãos e especialistas para a criação de leis mais adequadas aos 
desejos sociais. E ainda no âmbito legislativo, vale lembrarmos dos instrumentos 
tradicionais da democracia semidireta: iniciativa popular, referendo e plebiscito.
Poder Executivo — no palco da Administração Pública, as consultas pú-
blicas despontam como mecanismos de inclusão dos interessados em gerir 
diretamente parcela do orçamento estadual e estarem presentes na atuação 
política. É o chamado orçamento participativo. Além disso, ganha fôlego a 
proposta de criação de conselhos, “especializados para atuar em certo setor 
das atividades sociais” (DALLARI, 2013, p. 156), nos quais haverá maior 
proximidade entre cidadão e Administração Pública.
Poder Judiciário — a máquina da Justiça também gera uma forma de par-
ticipação, já que oportuniza o diálogo entre os envolvidos — as partes e o 
Estado-juiz (LUCAS, 1985). Além disso, muitas vezes, o Poder Judiciário se 
converte no último suspiro de esperança do cidadão, que vê o seu direito sendo 
violado pelo próprio Estado. A legitimação do Poder Judiciário, por sua vez:
[...] decorre não do sufrágio universal como nas outras esferas de poder, 
mas de uma legitimação procedimental que encontra no irrestrito acesso ao 
83Estado e democracia
https://goo.gl/jeEtNf
judiciário, no contraditório, na publicidade e na fundamentação os mais altos 
desígnios da legitimidade democrática, pois é através do processo (RIBEIRO; 
SCALABRIN, 2009, p. 165). 
Todos esses elementos permitem concluir que a democracia participativa 
é aquela que melhor permite confrontar as crises do modelo anterior. A de-
mocracia, enquanto elemento político (e valorativo), deflagra uma necessária 
revisão do padrão liberal de mera representatividade, e a participação surge 
como novo expoente. Pari passu, a cidadania é alargada por meio de novos 
modos de inclusão do indivíduo na tomada de decisão e no seu controle. 
BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 6. ed. Rio de 
Janeiro: Paz e Terra, 1997.
BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009.BRASIL. Lei nº 9.709, 
de 18 de novembro de 1998. Regulamenta a execução do disposto nos incisos I, II e III 
do art. 14 da Constituição Federal. 1998. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2017.
DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.
FIGUEIREDO, L. V. Instrumentos da administração consensual: a audiência pública e 
sua finalidade. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 5, n. 18, mar./abr. 2003.
LUCAS, J. R. Democracia e participação. Brasília: Universidade de Brasília, 1985. RIBEIRO, 
D. G., SCALABRIN, F. O papel do processo na construção da democracia: para uma 
nova definição da democracia participativa. Scientia Iuris, Londrina, v. 13, nov. 2009. 
ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social. Petrópolis: Vozes, 2017.
Leituras recomendadas
AZAMBUJA, D. Teoria geral do Estado. 4. ed. São Paulo: Globo, 2008.
BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade, para uma teoria geral da política. 14. ed. São 
Paulo: Paz e Terra S/A, 2007.
JELLINEK, G. Teoria general del Estado. Buenos Aires: Albatros, 1954.
MORAIS, J. L. B. de; STRECK, L. L. Ciência política e teoria do Estado. 7. ed. Porto Alegre: 
Livraria do Advogado 2010.
Estado e democracia84
http://www.planalto.gov/
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
CIÊNCIA POLÍTICA 
E TEORIA GERAL 
DO ESTADO 
Felipe Scalabrin
Formas de governo 
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Definir as formas de governo.
 � Contrastar as formas de governo com a separação de poderes.
 � Explicar a crise da separação dos poderes e os reflexos na democracia.
Introdução
Neste capítulo, você estudará as formas de governo. Com base em uma 
análise histórica, analisará a evolução da classificação das formas de go-
verno, a forma como ocorreu a separação de poderes e como tal divisão 
reflete no progresso de uma sociedade democrática.
Cada tema deste capítulo é fundamental para que você entenda o 
funcionamento político do Brasil e de outros povos.
Formas de governo 
Para compreender as atuais formas de governo, é importante analisar como o 
tema foi discutido por pensadores como Platão, Aristóteles, Políbio, Maquiavel, 
Bodin, Hobbes, Vico, Montesquieu, Hegel, Marx e Bobbio. Para tanto, o estudo 
da concepção filosófica e política de governo desenvolvida por esses teóricos 
permitirá analisar as atuais formas e sistemas de governo, bem como a crise 
na separação de poderes. 
Para o professor José Geraldo Brito Filomeno, o governo “é um conjunto 
dos órgãos do Estado que colocam em prática as deliberações dos órgãos 
legislativos” (FILOMENO, 2016, p. 97). Para os filósofos gregos anteriores a 
Cristo, Platão e Aristóteles, o governo deveria ser analisado a partir de duas 
vertentes: a pura (ideal) e a impura ou degenerada. Para Platão, as formas 
de governo ideais seriam a monarquia e a aristocracia, consideradas formas 
únicas. Já as formas corruptas de governo seriam a oligarquia, a timocracia, a 
democracia e a tirania. A oligarquia seria a forma corrompida da aristocracia, 
enquanto a tirania é a forma corrompida da monarquia. Para Platão, a timocracia 
seria a transição entre a constituição ideal e as formas corruptas de governo.
Segundo Bobbio (1997), para Aristóteles, não havia distinção de significado 
entre governo e constituição. Em razão disso, para Aristóteles (apud BOBBIO, 
1997, p. 55), o governo é o “poder exercido por um só, por poucos ou por muitos”. 
Assim, a politeia (constituição — estrutura que dá ordem à cidade, determi-
nando ofuncionamento de todos os cargos públicos e, sobretudo, da autoridade 
soberana), para Aristóteles, seria responsável por dar forma ao sistema.
Aristóteles classificou as formas de governo como puras e impuras. As formas 
puras de governo seriam o reino (monarquia), a aristocracia e a politia (timocracia); 
e as formas impuras seriam a tirania, a oligarquia e a demagogia. Para Aristóteles, 
as formas impuras seriam as degenerações das formas puras de governo, ou seja, 
a tirania em contraposição ao reino (monarquia), a oligarquia em contraposição à 
aristocracia e a demagogia em contraposição à politia (timocracia). 
Para o doutrinador José Geraldo Brito Filomeno, a classificação aristotélica tem um 
“caráter quantitativo, de acordo com o número dos que exercitam o poder político, e 
qualitativo ou valorativo, de acordo com o posicionamento dos que exercem o mesmo 
poder, em face do bem comum” (FILOMENO, 2006, p. 101).
Segundo o professor Celso Bastos (2004), Aristóteles sofisticou o esquema 
das formas de governo elaborado por Platão — assim, para cada forma pura 
ou ideal, agregou uma forma de governo considerada degenerada. 
Para o historiador Políbio (200 a.C.–118 a.C.), as formas de governo se 
classificavam em monarquia, tirania, aristocracia, oligarquia, democracia e 
oclocracia (oclos latim — multidão, governo das massas). Ainda de acordo 
com Políbio, essas formas formavam um movimento cíclico, ou seja, a pro-
blemática de uma forma de governo desencadearia outra forma de governo e 
assim sucessivamente. Nesse sentido, veja as palavras de Políbio, citadas por 
Bobbio (1997, p. 67) no livro a Teoria das formas de governo: 
Em primeiro lugar se estabelece sem artifício e naturalmente o governo de 
um só, ao qual segue (e do qual é gerado por sucessivas elaborações e corre-
ções) o reino. Transformando-se este no regime mau correspondente, isto é, 
97Formas de governo
na tirania, pela queda desta última se gera o governo dos melhores. Quando 
a aristocracia por sua vez degenera em oligarquia, pela força da natureza, o 
povo se insurge violentamente contra os abusos dos governantes, nascendo 
assim o governo popular. Com o tempo, a arrogância e a ilegalidade dessa 
forma de governo levam à oclocracia.
Anos mais tarde, o filósofo Nicolau Maquiavel (1469–1527), autor do livro 
O príncipe, inovou com uma classificação bipartida de governo, separando-o 
em república (soma da aristocracia e democracia) e principado (monarquia). De 
acordo com Maquiavel (2003, p.1), “Todos os Estados, todos os domínios que 
tiveram e têm autoridade sobre os homens foram e são repúblicas ou principados”. 
Com relação à república, é atualmente classificada em república parlamentar e 
república presidencialista; já a monarquia se classifica em monarquia absolutista, 
monarquia constitucional e monarquia parlamentar ou dualista. 
Para Maquiavel, a república possui características próprias, como a tempora-
lidade do governante na posição de líder do Estado, ao passo que, na monarquia, 
em razão da hereditariedade, eleição e cooptação (declaração de sucessão do 
trono), o rei ou monarca ocupará a posição de regente por tempo indeterminado.
Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588–1679), autor do livro Leviatã, o 
governo consistiria na existência de um poder soberano indivisível responsável 
por determinar a condução do Estado. Por consequência, não haveria razão 
em diferenciar as formas de governo como formas puras, impuras ou mistas. 
Para o jurista Jean Bodin (1530–1596) e para o filósofo Giambattista Vico 
(1668–1774), as formas de governo se classificavam em monarquia, aristocracia 
e democracia (república popular). Convém ressaltar que Vico, assim como 
Políbio, analisou as formas de governo a partir de uma vertente cíclica.
Para o jurista Montesquieu (1689–1755), seriam consideradas formas de 
governo a república (o povo ou parte dele possui o poder soberano de governar), 
a monarquia ou principado (o poder é governado por um indivíduo mediante 
normas preestabelecidas) e o despotismo (o poder é governado ao prazer de 
um indivíduo sem a observância de normas). 
Já para o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770–1831), seriam consideradas 
formas de governo a monarquia, a aristocracia, a democracia, a oligarquia, a 
oclocracia e o despotismo. Contudo, Karl Marx (1818–1883) inovou ao não 
classificar o governo em formas, pois, para o autor, não havia importância e 
sentido na classificação do governo, mas o estabelecimento de um governo único, 
no qual não haveria a divisão de classes sociais (concepção política socialista). 
Para Norberto Bobbio (1909–2004), em consequência da temporalidade 
da ditadura e diferenciação do despotismo e da tirania, a ditadura seria uma 
forma positiva de governo. 
Formas de governo98
As classificações filosóficas políticas de governo desenvolvidas por esses pensadores 
foram vitais para a compreensão da realidade funcional de um povo. Reflita quais 
seriam as formas de governo adotadas pelos diversos países na atualidade.
Governo e separação de poderes
Para o filósofo inglês John Locke (1632–1704), o poder derivava de um pacto 
e de um contrato social, em consequência do estado de natureza e da relação 
entre governante e governado. Para Locke, os poderes deveriam estar em 
equilíbrio e se dividiriam em Executivo (zelar pelo cumprimento das leis), 
Legislativo (poder supremo e fiduciário do Estado), Federativo e de prerrogativa 
(poder de trabalhar segundo discrição para o bem público sem prescindir da 
lei e ainda às vezes contra ela).
O Poder Executivo apresentaria atividade contínua com a finalidade de 
conduzir os assuntos internos e externos dos Estados e de julgar e aplicar penas 
àqueles que descumprissem as leis. O Legislativo deveria trabalhar na busca por 
legislar em observância ao princípio da legalidade. O Poder Federativo seria o 
poder conferido ao Estado de relacionar-se com outras pessoas e comunidades 
alheias à república. Já a prerrogativa seria a permissão concedida pelo povo aos 
seus governantes, para que, no caos do silêncio da lei sobre determinados temas, 
realizassem ações de livre eleição, mesmo que fossem contrários ao texto legal. 
É possível perceber que o atual Poder Judiciário, na divisão de poderes 
estabelecida por Locke, era exercido pelo Poder Executivo. Mas, para Montes-
quieu (1689–1755), os poderes estatais se dividiam em Executivo, Legislativo 
e Judiciário. No livro O espírito das leis, publicado em 1748, Montesquieu 
(1973, p. 21) declarou que “em cada estado existem três classes de poder, o 
Legislativo, o executivo das coisas pertencentes ao direito das pessoas e o 
Executivo dos que pertencem ao civil”. Quanto a estes, o filósofo observou 
que o último se chamaria Poder Judicial e, o outro, Poder Executivo do Estado. 
Dessa forma, Montesquieu inovou ao estabelecer três formas independentes 
de poder, até hoje adotadas pelos governos atuais.
Para Montesquieu, a divisão jurídica das distintas funções de poderes somente 
poderia limitar-se ao uso ilegal do poder e garantir a liberdade e os direitos das 
pessoas. O Legislativo seria um órgão representativo da vontade do povo destinado 
à criação de leis. Além disso, também poderia apreciar, nos termos da lei, as ações 
99Formas de governo
do Executivo e dos seus membros. Já o Executivo seria um órgão com a função de 
cumprir as normas elaboradas pelo Legislativo e teria o poder de vetar leis elabo-
radas pelo Legislativo. Em contraposição, o Poder Judiciário seria um órgão cuja 
função seria julgar crimes e conflitos entre pessoas; por isso, deveria ser temido, 
já que teria a legitimidade de privar a liberdade daquele que descumprisse a lei.
Para o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), autor do célebre 
livro Contrato social, o Poder Legislativo pertence somente ao povo, visto que 
o Poder Executivo consistiria em atos particulares. Dessa forma, para Rousseau, 
não seria certo que o órgão responsável por elaborar a lei fosse responsável 
pela suaexecução — por isso, era necessário um governo soberano, pois a 
monarquia não era a única forma de governo, mais bem a soberania popular.
Para Tocqueville (1805–1859), o Poder Legislativo dividia-se em duas 
assembleias (Senado e Câmara dos Deputados), compostas por representantes 
eleitos por cidadãos. O Poder Executivo seria conduzido por um governante 
eleito pelo povo, com a função de ser chefe do Estado com mandato temporal e 
com poder regulado pelo Senado. Já o Poder Judiciário, assim como entendeu 
Montesquieu, seria um órgão de grande poder, pois teria a finalidade de julgar 
casos particulares. Além disso, segundo Tocqueville, o Judiciário atuaria 
quando invocado e, por recorrer à Constituição para justificar a maior parte 
de suas decisões, detinha significativo poder político.
O que é possível pensar sobre a atual força dos Poderes Executivo, Legis-
lativo e Judiciário?
Para saber mais sobre o processo, leia A constituição reinventada pela jurisdição cons-
titucional (SAMPAIO, 2002).
Separação de poderes e democracia atual
Para o doutrinador José Sampaio (2002, p. 430): 
Nos dias atuais pode-se falar de múltiplas interpretações do princípio da 
divisão dos poderes de acordo com a organização do sistema de governo sem 
que se possa indicar um modelo paradigmático desse princípio, que venha a 
servir de referência necessária a modelos concretos adotados pelos sistemas 
Formas de governo100
constitucionais. Antes, há uma ideia — de separação de poderes, guiadas 
por um fim — de evitar tiranias e garantir o funcionamento equilibrado do 
governo, que assume diversas formas em diferentes contextos sociopolíticos. 
Vale dizer que não há modelo de divisão de poderes senão uma variedade de 
conformações que vem a assumir na prática.
Os filósofos, ao pensarem na separação dos poderes, não poderiam imaginar 
que, em consequência do aumento da corrupção e dos interesses pessoais, a 
autonomia dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário seria ameaçada 
e deixaria de existir, pois, na realidade atual, é cada vez mais frequente a 
intervenção política do Poder Legislativo em desprezo do Poder Judiciário. 
Países como Brasil e Espanha, por exemplo, são testemunhas da perseguição 
ao Poder Judiciário, que, em razão de leis chamadas popularmente de leis 
da mordaça, viram o trabalho e a autonomia do Judiciário serem cerceados.
Os diversos escândalos envolvendo empresas privadas, principalmente com 
membros dos Poderes Legislativo e Executivo, demonstram a fragilidade desses 
poderes em cumprir as obrigações para as quais foram pensados e criados. 
Atualmente, é cada vez mais frequente haver denúncias de favorecimento 
entre membros dos poderes, com a finalidade única de manter os seus cargos 
e o seu poder político.
No caso brasileiro, a Operação Lava-Jato, por exemplo, revelou a participação de 
membros dos três poderes em ações criminais de corrupção, ou seja, aqueles que 
deveriam legislar em benefício do povo e da nação passaram a legislar em benefí-
cio próprio e de interesses privados, aqueles que deveriam cumprir as funções de 
administrar os interesses públicos passaram a administrar em benefício próprio e de 
terceiros e aqueles que deveriam sancionar e penalizar passaram a perdoar corruptos 
e a penalizar os mais desfavorecidos. 
Ora, você consegue perceber alguma semelhança com as formas degene-
radas de governo? Para o doutrinador Luigi Ferrajoli (2014, p. 40):
A crise do “alto” da democracia e de dissolução da representação, nesses úl-
timos anos, foi a crescente integração dos partidos no Estado e o consequente 
desaparecimento de uma ulterior separação entre partidos e instituições com 
101Formas de governo
a sociedade. É cada vez mais estreita a relação entre dinheiro, informação 
e política: dinheiro para fazer política e informação, informação para fazer 
dinheiro e política, política para fazer dinheiro e informação, segundo um 
ciclo vicioso que se traduz no crescente condicionamento anti ou extra re-
presentativo da ação do governo.
De fato, a visão de Ferrajoli (2014) reflete o atual cenário mundial, pois é 
cada vez mais frequente a violação da democracia, que tem sido utilizada para 
interesses próprios e de certa minoria. Como uma Torre de Babel, percebe-
-se que é utopia pensar em poderes autônomos e harmônicos entre si, visto a 
frequente relação entre os poderes públicos e os privados. 
No caso da Operação Lava-Jato, fica visível o fato de não ser mais possível separar 
corruptor e corrompido. Dada a força de grandes empresas, os poderes e os seus 
dirigentes, eleitos ou não pelo povo, tornaram-se reféns de empresas privadas e, 
como medidas extremistas, passaram a criar barreiras para se autodefenderem, em 
total desprezo às normas legais.
Ainda segundo Ferrajoli (2014), tal situação é uma aberração institucional 
que comporta uma deformação do sistema político e da democracia incompa-
ravelmente mais grave do que as formas tradicionais, ainda que patológicas 
e delinquenciais da corrupção.
Convém destacar que, no passado, o jurista Tocqueville (1805–1859) já sinali-
zava a crise da separação dos poderes na democracia, pois, segundo o prestigiado 
jurista, todo e qualquer projeto de lei que ferisse a Constituição de um país não 
deveria sequer ser apreciado — caso fosse, seria retido pelo Poder Judiciário. 
Contudo, na atualidade, com um poder cada vez mais limitado e sem recursos, o 
Judiciário se tornou refém dos demais poderes; em especial, do Executivo. 
A ideologia de Norberto Bobbio (1909–2004) de que o principal ponto 
característico da democracia seria o respeito à eleição e ao desejo do povo e 
das instituições, não às ações políticas em si, não reflete a realidade, principal-
mente no caso brasileiro, com o mando e desmando de deputados, senadores, 
superjuízes e presidentes, que insistem em atuar como se fossem reis e sobe-
ranos. Estaríamos diante do fim da democracia e do fortalecimento de formas 
degeneradas de governo — ou, na realidade, há somente uma crise de poderes?
Formas de governo102
BASTOS, C. R. Curso de teoria do Estado e ciência política. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 9. ed. Brasília: Universidade de Brasília,1997.
BONAVIDES, P. Ciência política. São Paulo: Malheiros, 2007.
FERRAJOLI, L. Poderes selvagens: a crise da democracia italiana. São Paulo: Saraiva, 2014. 
FILOMENO, J. G. B. Teoria geral do Estado e da constituição. 10. ed. rev., atual. e ampl. 
Rio de Janeiro: Forense, 2016. 
FILOMENO, J. G. B. Manual de teoria geral do Estado e ciência política. 6 ed. Rio de 
Janeiro: Forense Universitária, 2006.
MAQUIAVEL. O príncipe.  São Paulo: Martin Claret, 2003. t. 1.
MONTESQUIEU. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
SAMPAIO, J. A. L. A constituição reinventada pela jurisdição constitucional. Belo Hori-
zonte: Del Rey, 2002.
Leituras recomendadas
ACQUAVIVA, M. C. Teoria geral do Estado. 3. ed. Barueri: Manole, 2010.
MORAES, A. de. Direito constitucional. 32. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2016.
BITTAR, E. C. B. Teoria do Estado: filosofia política e teoria da democracia. 5. ed. rev. 
atual. e modificada. São Paulo: Atlas, 2016.
103Formas de governo
Teoria e C
ultura
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
INTRODUÇÃO
Esse artigo apresenta uma interpretação 
do pensamento de Max Weber sobre a 
religião, a política e a ciência como esferas au-
tônomas de valor inseridas na modernidade 
ocidental. Por um lado, evidenciamos os traços 
comuns às três esferas indicando-os como frutos 
do racionalismo de dominação do mundo típi-
cos da modernidade ocidental. Por outro lado, 
essa interpretação enfatiza a perspectiva relativis-
ta de Max Weber sobre o tema da racionalidade. 
Para isso, demonstramos que para cada esfera de 
valor; religião, política e ciência; existem lógicas 
internas especificas de ação. Isso permite o enten-
dimento de que a racionalidade de um religioso 
diverge da racionalidade de um político e que 
ambasdivergem da racionalidade de um cientis-
ta. Desse modo, é demonstrado que a obra de 
Max Weber não dispõe de uma concepção tota-
lizante e determinista do tema da razão, mas ao 
contrário, o concebe como fenômeno relativo a 
contextos sócio-históricos específicos. 
O tema da ação racional é central no pensa-
mento de Max Weber, mais do que em qualquer 
outro “fundador” das ciências sociais1. Pode-se di-
zer que a racionalidade é o conceito básico que 
articula a teoria social weberiana, ou seja, a expli-
cação da sociedade ocidental como um processo 
contínuo de racionalização do mundo que se dá 
no sucessivo enquadramento das relações sociais 
em regras objetivas, cuja faceta “macro” mais evi-
dente manifesta-se na burocratização das formas 
de dominação carismáticas e tradicionais, e, num 
enfoque “micro”, indica a noção de racionalidade 
da ação individual como o tipo ideal para compre-
ensão da ação social. 
A racionalização da vida social é um processo 
geral, que produz estruturas de consciência típi-
cas dos contextos da modernidade. Os agentes são 
“racionalizados” para perceberem uma autonomia 
MAX WEBER E A RACIONALIDADE:
Religião, Política e Ciência
MAX WEBER AND THE RATIONALITY:
Religion, Politics and Science
José Vitor Lemes Gomes*
Raul Francisco Magalhães**
Resumo
Esse trabalho consiste em uma abordagem da sociologia de Max Weber enfatizando o tema da 
racionalidade dos indivíduos na sociedade. Trata-se de uma interpretação plural, na medida em 
que, a racionalidade é considerada como um fenômeno relativo a contextos histórico-sociais 
específicos. A abordagem da obra de Weber focaliza as possíveis racionalidades de agentes inseridos 
nas esferas da religião, da política e da ciência. Fica evidente que cada uma, dessas esferas, produz 
lógicas de ação específicas, o que corrobora o argumento de que a racionalidade é um fenômeno 
contextual. 
Palavras-chave: Racionalidade. Ação. Religião. Política. Ciência. 
* Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Paiva de 
Vilhena. Endereço residencial: Chácara Nossa Sra. do Sion, s/nº, Campanha - MG, bairro Jardim Sion, CEP: 37400.000, telefone 
(35)3261.1738, celular: (35)8455.6787.
** Doutor em Ciência Política pela IUPERJ. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Te
or
ia
 e
 C
ul
tu
ra
80
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
crescente entre seus procedimentos cognitivos, 
suas crenças morais e suas expressões estéticas. 
Como traço inicial, entende-se por racionalização 
o “desencantamento” histórico do mundo, sepa-
rando a dimensão religiosa das estruturas morais e 
legais da ordenação da vida social, desdobrando-
se a modernidade em sociedades nas quais as esfe-
ras de valor científico, estético e moral se separam, 
constituindo lógicas próprias. Tal macroprocesso 
reclama para Weber instrumentos precisos de aná-
lise, e isso o leva a ir além das leituras historicistas, 
típicas do seu tempo, em direção a discutir as for-
mas elementares de tal racionalização. 
O que é raciOnal para Weber?
Como parece ser regra entre os grandes 
pensadores, as ideias de Weber sobre a racio-
nalidade encontram-se dispersas em ensaios de 
diferentes teses. O caráter exploratório e inves-
tigativo das reflexões sobre a ação racional é su-
blinhado pelo próprio autor, que considerava 
essas reflexões passos iniciais sujeitos a críticas e 
modificações possíveis em vários pontos, alguns 
que interessam de perto a esta pesquisa. Ao 
analisar a sociologia weberiana, Renarde Freire 
Nobre (2004) argumenta que Weber rejeitou a 
oposição entre racionalidade e irracionalidade, 
pois para ele, essas categorias não encontram 
correspondentes bem definidos na realidade 
humana. Pensar a diferença entre o que é racio-
nal e irracional só é possível através de uma per-
cepção gradual, pois em uma atitude humana 
a racionalidade e a irracionalidade se mesclam 
em graus diversos, o que inviabiliza a noção de 
uma racionalidade pura.
É preciso assinalar, como um traço importan-
te em Weber, o seu relativismo epistemológico 
quanto à racionalidade. Há passagens nas quais 
ele, claramente, submete as próprias noções de 
racionalidade e irracionalidade ao ponto de vista 
do analista, levando o leitor a entender que o que 
é racional de um ponto de vista poderá ser irra-
cional de outro. Desde já, deve estar evidente sua 
concepção relativista sobre o que é racional. Um 
estudo atento da literatura weberiana demonstra 
que o complexo conceito de ação racional envolve 
outros três conceitos fundamentais que são: racio-
nalização, racionalidade e racionalismo. 
 Segundo Jürgen Habermas (2003), há na te-
oria weberiana duas vertentes de racionalização, 
uma cultural e outra social. A primeira consiste na 
racionalização das imagens do mundo que é rea-
lizada pelas religiões éticas universais. A segunda 
consiste no desenvolvimento material e organiza-
tivo da sociedade através da economia capitalista e 
do Estado moderno. Esses são os fenômenos estu-
dados por Weber que expressam a racionalização 
no plano empírico. Mas afinal como se pode defi-
nir o conceito de racionalização? Habermas afirma 
que para Weber a racionalização tem um aspecto 
teórico e outro prático. No aspecto teórico a ra-
cionalização é o crescente domínio teórico da rea-
lidade mediante conceitos cada vez mais precisos. 
No aspecto prático a racionalização é o crescente 
domínio na busca metódica de um determinado 
fim, mediante o cálculo cada vez mais preciso dos 
meios. É notável que, tanto no aspecto teórico 
como no aspecto prático, a racionalização consis-
te em um crescente domínio do homem, seja no 
plano intelectual ou empírico, sobre a natureza e 
sobre o próprio homem. A racionalização é o pro-
cesso histórico social no qual cresce progressiva-
mente a capacidade de intervenção do homem na 
realidade de modo cada vez mais eficaz. 
E quanto ao conceito de racionalidade, o que 
se pode afirmar? Habermas afirma que o conceito 
de ação racional referente a fins é a chave do com-
plexo conceito de racionalidade. Disso podemos 
deduzir que a racionalidade liga-se diretamente à 
ação dos indivíduos, enquanto a racionalização se 
refere a um processo histórico social. Nesse caso 
a racionalidade opera na consciência dos agentes 
de vários modos, entre esses há o modo eletivo 
e o modo instrumental. A racionalidade eletiva 
consiste no processo em que o agente elege um 
fim, em detrimento de outros, como objetivo. A 
racionalidade instrumental consiste na maximiza-
ção dos meios eficazes para obter o fim escolhi-
do. Tanto o fator eletivo, como o instrumental, 
estão presentes na ação racional referente a fins, 
tipo ideal que expressa o máximo de racionalida-
de. Deve ser lembrado que a maioria das ações 
desenrolam-se, no plano empírico, permeadas por 
Teoria e C
ultura
81
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
fatores irracionais, adversos a teleologia, como va-
lores afetos e a tradição. 
Jessé Souza (2008) analisa Weber ressaltando 
um terceiro conceito inerente ao complexo da ação 
racional, o racionalismo. Para esse autor raciona-
lismo pode ser definido como o modo, cultural-
mente singular, como uma civilização específica e 
seus indivíduos, constituem sua forma de pensar, 
agir e interpretar o mundo em função de sua cul-
tura específica. Então, pode-se entender que a no-
ção de racionalismo refere-se a matrizes culturais, 
ou civilizacionais, diretamente relacionadas aos 
modos de racionalização e racionalidade. Desse 
modo, fica claro que não existe definição universal 
sobre o que é racional ou o que é racionalidade, 
pois uma ação só é considerada racional em con-
textos sócio-históricos específicos.
Raymond Boudon (1989) apresenta uma 
boa reflexão sobre o tema da racionalidade ao 
estabelecer uma visão relativa sobre o que pode 
ser uma ação racional. O autor defende a ideia 
de Max Weber de que os fenômenossociais 
devem ser explicados através de seus compor-
tamentos individuais. Esses comportamentos 
devem ser considerados racionais e só no caso 
de insucesso desse tipo de explicação serão con-
siderados fatores irracionais para descrever o 
comportamento dos atores sociais.
O autor relata a experiência do governo in-
diano na década de 70. Nessa ocasião o governo 
da Índia buscou o auxílio de uma universidade 
americana para empreender uma pesquisa sobre a 
questão da natalidade no país. O objetivo da pes-
quisa era buscar um método para reduzir a taxa de 
natalidade. A primeira etapa da pesquisa consistiu 
em distribuir pílulas em algumas tribos e não em 
outras que seriam os grupos e o controle. Cons-
tatou-se que a taxa de natalidade caiu tanto nas 
tribos que receberam pílulas como nas tribos que 
não receberam. Diante dessa situação os pesquisa-
dores concluíram que a distribuição de pílulas não 
causou efeito. Para explicar a ineficácia das pílulas, 
os pesquisadores acusaram os traços culturais e 
ideológicos do camponês indiano, ligados às suas 
tradições. Esses traços são: 1º) recusa a inovação; 
2º) desconfiança em relação a recursos estrangei-
ros e 3º) resistência à ideia de modificar artificial-
mente processos naturais. Assim os pesquisadores 
entenderam o comportamento dos nativos como 
sendo irracional, um comportamento dominado 
por forças sociais que escapam ao controle dos in-
divíduos. O dilema dos pesquisadores era: Como 
convencer um ser irracional como as camponesas 
indianas a usar pílulas?
Raymond Boudon argumenta que a inter-
pretação dos pesquisadores é errônea ao acusar o 
comportamento do camponês de irracional. Uma 
atenção especial revelaria que o fato de ter um filho 
a mais não é irracional, mas pelo contrário. Para o 
camponês indiano, não é caro criar e educar um 
filho, além disso, o aumento da prole se traduz 
no aumento da mão de obra e da produtividade 
familiar. “Se ele (o filho) trabalha fora, como é 
frequente, seu salário aumenta a renda da família” 
(BOUDON, 1989, p. 11). Se ele (o filho) traba-
lha na terra da família, evita a contratação de mão 
de obra, o que é oneroso naquele contexto.
Com isso Raymond Boudon demonstra a 
possibilidade de explicar um fenômeno social 
como produto de comportamentos compreensí-
veis e racionais, como recomendou Max Weber, e 
argumenta que a racionalidade é sempre relativa a 
um contexto. No contexto ocidental é irracional o 
aumento da prole, pois os custos de formação do 
indivíduo são elevados, porém, no contexto india-
no, é compreensível que o camponês seja racional 
ao aumentar sua prole, pois a formação de seus 
filhos tem custo baixo e esses filhos se convertem 
em força de trabalho no futuro.
Boudon lembra que os indivíduos não po-
dem ser considerados um a um, mas podem ser 
agrupados através de tipologias comportamen-
tais. Além disso, o autor admite seguir o conse-
lho de Weber ao analisar ideias recebidas como 
qualquer outro tipo de comportamento compre-
ensível e racional. 
A reflexão de Boudon sobre o comportamen-
to dos indianos confirma que a racionalidade está 
submetida à sua matriz civilizacional específica, isto 
é, ao racionalismo. Para cada racionalismo haverão 
racionalidades específicas e isso confirma a relativi-
dade inerente à definição do que é racional.
Portanto, deve estar claro, ao leitor, que por 
racionalização deve-se entender um processo his-
Te
or
ia
 e
 C
ul
tu
ra
82
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
tórico social; por racionalidade entende-se um 
processo que se dá na consciência dos agentes 
como motivação para suas ações, em função de 
critérios diversos; e por racionalismo deve-se en-
tender a matriz cultural na qual estão inseridos so-
ciedades e indivíduos. Todos esses conceitos estão 
completamente interligados, pois os vários modos 
de racionalidade e racionalização se dão em con-
textos históricos sociais determinados. 
O raciOnalismO de dOminaçãO dO 
mundO 
Max Weber caracteriza o racionalismo oci-
dental como racionalismo de dominação do 
mundo. Para isso, o autor demonstra que no 
ocidente (para ser mais preciso na Europa oci-
dental e nos Estados Unidos) ocorreu um hábi-
to de comportamento coletivo que favoreceu a 
ocorrência de uma ciência, uma jurisprudência, 
uma arte, uma política, e um sistema econômico 
específicos, racionalizados ao máximo com base 
no cálculo e na previsibilidade. 
O capitalismo ao modo que se desenvolveu 
no ocidente é caracterizado pela busca de lucro, 
mas, além disso, trata-se de um lucro sempre re-
novado por meio de empresa permanente pautada 
no cálculo em termos de capital, no trabalho li-
vre, na existência de um sistema jurídico racional 
e previsível, na burocratização da administração 
e na técnica de produção oferecida pela ciência. 
Essa concepção de capitalismo diferencia-se radi-
calmente da simples busca de lucros ocorrida em 
outros contextos como os casos de financiamentos 
monetários e agiotagem, ocorridos na Babilônia, 
na Grécia, na Índia, na China e em Roma, pois 
nesses casos havia apenas uma especulação, a ati-
vidade era descontínua e aventureira. O espírito 
do capitalismo vai muito além da busca de lucro e 
afeta a organização de trabalho e a vivência social 
dos indivíduos nos seus hábitos cotidianos.
Weber ressalta que o ocidente viveu, na mo-
dernidade, um avanço do racionalismo de do-
minação do mundo incomparável a outros con-
textos. Na ciência estabeleceu-se um método 
empírico de conhecimento com a aplicação téc-
nica altamente eficaz ao processo industrial. Sob 
influência do Direito Romano a jurisprudência 
racional só se deu no ocidente. Nas artes do oci-
dente, a técnica permitiu que a música assumis-
se, desde o renascimento, uma organização ino-
vadora e que a arquitetura produzisse edificações 
monumentais. No campo da política as organi-
zações e grupos nunca foram tão estruturados 
em regras racionais e leis executadas por funcio-
nários especializados. Contudo fica evidente que 
o espírito do capitalismo envolveu um complexo 
que se vincula ao processo de racionalização téc-
nica e predomínio da atitude instrumental.
Weber conclui que uma das causas mais evi-
dentes dessa configuração sócio-cultural foi um 
fenômeno religioso peculiar em suas premissas, o 
protestantismo ascético. Desse modo, Weber esta-
belece uma afinidade eletiva entre o ethos puritano 
calvinista com uma das fases mais importantes do 
processo de racionalização que culmina na efeti-
vação da sociedade capitalista e seu racionalismo 
de dominação do mundo.
raciOnalidade na religiãO
Max Weber demonstrou que a religião é fon-
te de concepções do mundo e reguladora das 
condutas individuais na vida social. O autor in-
dica o papel fundamental da religião no processo 
de racionalização do ocidente, ou, na efetivação 
de um racionalismo especificamente ocidental. 
Esclarecemos que não é objetivo desse artigo 
estabelecer uma análise minuciosa da sociologia 
weberiana da religião, mas apenas evidenciar a 
relação entre religião e o complexo fenômeno da 
racionalidade. Para isso recorremos à obra mais 
famosa de Weber, isto é, A ética protestante e o 
espírito do capitalismo.
Nessa obra Weber demonstra a influência 
das ideias religiosas no desenvolvimento da so-
ciedade capitalista ocidental. O primeiro passo 
dado pelo autor é o relato de estatísticas, as quais 
demonstram o predomínio de protestantes nas 
atividades inovadoras, nesse sentido o autor ar-
gumenta: “...o caráter predominante protestante 
dos proprietários do capital e empresários, assim 
como das camadas superiores da mão de obra 
qualificada, notadamente do pessoal de mais alta 
Teoria e C
ultura
83
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
qualificação técnica ou comercial das empresas 
modernas”(WEBER, 2004a, p. 29). 
Além disso, as estatísticas mostram que o 
número de formados em cursos técnicos vol-
tados para o comércio tem maioria protestan-
te e entre os trabalhadores fabris, também, há 
predomíniode protestantes, por outro lado, 
os católicos são majoritários entre os artesãos. 
Diante desse quadro, Weber conclui que os 
protestantes rejeitam posturas e atividades tra-
dicionalistas viabilizando mudança e moderni-
zação no trabalho, o que se traduz em métodos 
mais ousados de produção e comércio. 
Surge, então, a questão: a emancipação do tra-
dicionalismo econômico liga-se a uma redução do 
controle da igreja sobre a vida cotidiana dos indi-
víduos? Weber responde que não, pelo contrário, 
há um aumento do controle sobre a vida pública 
e privada. “A dominação do calvinismo (...) seria 
para nós a forma simplesmente mais insuportável 
que poderia haver de controle eclesiástico do indi-
víduo” (WEBER, 2004a, p. 31). 
Além do alto grau de regulação das condu-
tas por parte do puritanismo calvinista, Weber 
constata que os seguidores dessa religião apre-
sentam maior tendência ao racionalismo econô-
mico, o que não é observado entre os católicos. 
Diante de tais evidências, Weber questiona a 
que lógica se deve a correlação entre ética reli-
giosa e conduta econômica. 
O autor apresenta sentenças proferidas por 
Benjamin Franklin como expressão da cultura 
americana. Tais sentenças expressam a ideolo-
gia capitalista em si e se resumem ao seguinte: 
“Lembra-te que tempo é dinheiro. (...) Lembra-
te que crédito é dinheiro. (...) Lembra-te que 
o dinheiro é procriador por natureza e fértil” 
(WEBER, 2004a, pp. 42-43). 
Deve ser lembrado que nos Estados Unidos 
predominou a religião puritana calvinista e que 
Benjamin Franklin, natural de Massachusetts, 
era filho de um rígido calvinista, que lhe in-
culcou tal ethos durante a juventude. Com isso 
Weber conclui que a aquisição econômica não 
era um meio para satisfação das necessidades ma-
teriais, pois as sentenças de Franklin exaltavam, 
acima de tudo, a responsabilidade, diligência e 
honestidade, fatores que seriam comprovados 
pelo sucesso profissional e financeiro.
 O dogma fundamental do calvinismo é o 
da doutrina da predestinação, segundo a qual 
todos os homens têm o destino póstumo tra-
çado por deus, por motivos estritamente divi-
nos inacessíveis e incompreensíveis ao homem. 
Desse modo a salvação de cada um é definida 
desde sempre e é inalterável, não há nada que o 
indivíduo possa fazer para modificar a decisão 
de deus quanto a sua salvação.
Weber indica que, para Calvino, só uma pe-
quena parcela dos homens seria salva, o interesse 
de Calvino se centra em deus e não no homem, 
os homens existem por causa de deus e para 
deus, então só resta dedicar a vida para a glória 
de deus. As boas práticas se pautam, então, no 
interesse de garantir uma organização racional 
do meio social. O empenho no trabalho era um 
modo de dissipar as dúvidas quanto à salvação 
levando a certeza sobre tal, pois o sucesso no tra-
balho poderia ser um sinal da eleição.
Contudo, no calvinismo há uma completa 
eliminação dos meios de salvação, pela Igreja, 
pelo sacramento e pelas práticas literalmente má-
gicas. A eliminação da magia do mundo começa 
com os profetas hebreus e com o pensamento 
científico helenístico e se revigora no calvinis-
mo, que considera os meios mágicos de salvação 
superstição e pecado. O puritano também des-
prezava os sentidos sensoriais e emocionais, por 
serem elementos da carne que produziam ilusões 
sentimentais e superstições idólatras.
A eliminação da magia no mundo é o pró-
prio desencantamento do mundo. Essa passagem 
é uma importante virada na racionalidade que, 
então, ganha uma nova lógica, com maior empi-
ria. Habermas (2003) lembra que, para Weber, o 
desencantamento do mundo é um indicativo da 
racionalização, ou, para ser mais preciso, o grau de 
racionalização é medido pelo grau da superação 
do pensamento mágico. 
Para evidenciar a ligação entre ética ascética 
protestante e espírito do capitalismo, Weber 
expõe e analisa as máximas religiosas sobre a 
conduta econômica. O autor apresenta, então, 
o Descanso Eterno dos Deuses ou o Christian 
Te
or
ia
 e
 C
ul
tu
ra
84
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
Directory, de Baxter. Nesses textos, o autor 
constata a ênfase na discussão sobre a riqueza. 
A riqueza é aceita, desde que, não leve ao ócio, 
as tentações da carne e ao desvio de uma vida 
correta quanto aos preceitos da religião. O 
homem deve trabalhar na sua vocação pela 
glória de Deus através do trabalho metódico. 
Com essa ênfase na importância do trabalho, 
para manutenção da boa conduta e para o 
agrado de deus, a perda de tempo é concebida 
como pecado. 
Desse modo, o trabalho tornou-se a própria 
finalidade da vida. Weber aponta uma concep-
ção calvinista de vocação diferente da de Lutero. 
O conceito puritano de vocação é marcado pelo 
caráter metódico ascético, ao contrário do lute-
ranismo, permite a mudança de profissão, des-
de que o trabalho seja feito com o propósito de 
agradar a deus. O autor, também, afirma que a 
ênfase na significação ascética de vocação propi-
cia a justificação ética para a moderna divisão do 
trabalho em especialidades.
O ponto essencial de Weber nessa obra é a 
aceitação da riqueza pelos puritanos. Até então 
a maioria das religiões não motivava seus fiéis ao 
acúmulo de capital através do trabalho sistemáti-
co e da frugalidade. Esse é um hábito novo que o 
calvinismo despertou em seus crentes.
Contudo, Weber encontra a raiz religiosa do 
espírito do capitalismo no puritanismo ascético, 
que inculcou em seus fiéis uma visão de mundo e 
uma ética, favoráveis ao acúmulo de capital.
A valorização religiosa do trabalho profis-
sional mundano, sem descanso, continu-
ado, sistemático, como o meio ascético 
simplesmente supremo e a um só tempo 
comprovação o mais segura e visível da 
regeneração de um ser humano e da au-
tenticidade de sua fé, tinha que ser, no 
fim das contas, a alavanca mais poderosa 
que se pode imaginar da expansão dessa 
concepção de vida que aqui temos cha-
mado de espírito do capitalismo. E con-
frontando agora aquele estrangulamento 
do consumo com essa desobstrução da 
ambição de lucro, o resultado externo é 
evidente: acumulação de capital median-
te coerção ascética à poupança. 
(WEBER, 2004a, pp. 156-157) 
O protestantismo ascético gerou, através de 
sua ética, o espírito do capitalismo em países 
como Inglaterra, Holanda e Estados Unidos, 
onde a industrialização e o capitalismo ocorre-
ram mais cedo. Desse modo, a ética de trabalho 
e administração de riqueza mantiveram-se, por 
muito tempo, ligadas ao ethos religioso. Isso, 
porém, não se manteve, pois o espírito do capi-
talismo se desvinculou da ética religiosa tornan-
do-se uma prática laica. Weber argumenta que 
com o aumento da riqueza, aumenta, também, 
o orgulho, a cólera e o amor ao mundo, senti-
mentos que vão contra a religião.
A religião perde força coativa sobre as con-
dutas individuais e deixa de colonizar as demais 
esferas de valor que assim se autonomizam efe-
tivando seus próprios mecanismos de regulação 
das condutas. Com isso a concepção dualista é 
desvalorizada, isto é, a pressão do dever ser sobre 
o ser se reduz. Só resta, então, como possibi-
lidade de atitude ética a condução consciente 
da vida como personalidade, o indivíduo deve 
fazer escolhas morais levando em conta as con-
sequências de sua ação. 
 A conduta humana passa a ser, cada vez 
mais, pautada na escolha subjetiva do agente. 
Wolfgang Schluchter (2000) afirma que quem, 
na modernidade secularizada, quer conduzir a 
vida de forma consciente é forçado a afirmar cer-
tos valores e negar outros através de uma deci-
são subjetiva. A religião, a partir de então, deve 
ser pensada de modo diferente, levando-se em 
consideração que é apenas uma esfera de valor 
que não exerce mais predominância sobre as de-
mais. A religião mantém a capacidade de produ-
zir imagens de mundo vigente na consciência de 
seus crentes e de regular suas condutas, porém 
com uma intensidade menor. 
Contudo, deve ficar claro que, a racionali-
dade na esfera religiosa se funda, antes detudo 
em dogmas e crenças, fatores não testáveis e não 
comprovados na vida prática dos homens. Mes-
mo o protestantismo ascético que elimina as prá-
ticas mágicas gerando um máximo de desencan-
tamento na esfera religiosa, se funda na crença 
de uma vida póstuma pré-determinada por deus, 
o que é expresso no dogma da pré-destinação. 
Teoria e C
ultura
85
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
O religioso apenas crê na existência de um deus 
e em um além, pautando sua conduta por tais 
crenças. A partir disso, esboçaremos as diferen-
ças da racionalidade religiosa em relação à racio-
nalidade política e científica.
raciOnalidade na pOlítica
Max Weber (2004b) reconhece que o termo 
política pode designar muitas relações, a polí-
tica de divisas de um banco, a política adotada 
por um sindicato, a política da diretoria de uma 
associação, e até a política de uma esposa hábil 
para com seu marido. Porém, para dar um tra-
tamento sociológico ao termo, Weber delimita 
a noção de política, como conjunto de esforços 
que visam participar do poder estatal ou influen-
ciar na divisão desse poder. 
Portanto, a noção de política é indissociável 
do poder do Estado. Assim é necessário esclare-
cer a noção de Estado na sociologia weberiana. 
Para Weber a característica básica do Estado é 
seu meio específico, o monopólio legítimo da 
coação física. Todo Estado dispõe da possibi-
lidade de exercer a coação física, sendo o agru-
pamento político dirigente, que submete uma 
comunidade humana a sua dominação dentro 
do território onde é vigente. Além da coação 
física o Estado possui um poder centralizado 
e um aparato burocrático administrativo que 
propiciam o exercício da dominação.
É notável, que, o Estado consiste, antes de 
tudo, em uma relação de dominação do homem 
sobre o homem. Mas devemos lembrar que para 
Weber uma associação só tem legitimidade e exis-
tência quando é fruto da concatenação de inúme-
ras ações individuais, do consenso da coletividade. 
Desse modo, o Estado, que é uma associação po-
lítica, necessita do reconhecimento de cada súdito 
(ou cidadão) para ter seu poder legitimado. As-
sim o primeiro passo da ação política consiste em 
efetivar a legitimidade do estado frente à coletivi-
dade. Segundo Weber, as razões que garantem a 
legitimidade da dominação estatal são: a tradição, 
o carisma, a legalidade, o medo e a esperança. 
A tradição consiste em legitimar uma instância 
de dominação, através do hábito irrefletido com a 
justificativa de que as coisas são assim desde sem-
pre. Na modernidade ocidental, o patrimonialis-
mo e as monarquias absolutas se enquadram na 
modalidade tradicional de dominação.
A legitimidade da dominação é fruto do caris-
ma quando um líder plebiscitário obtém, demo-
craticamente, a direção do Estado ou influência 
em tal, utilizando-se de dons carismáticos. Nes-
se caso os cidadãos (ou súditos) se submetem à 
dominação em virtude de uma devoção afetiva à 
pessoa do líder, que demonstra carisma através de 
atos heroicos em guerras ou do poder intelectual 
e retórico, apresentando-se como alternativa nova 
para os problemas cotidianos. Weber argumenta 
que, na política moderna do ocidente, o carisma 
triunfou na figura do líder demagogo como o che-
fe de partido no parlamento.
A dominação encontra legitimidade racio-
nalmente quando há um direito racional e pre-
visível com um quadro de funcionários especia-
lizados sujeitos às leis. O Estado moderno está 
associado à jurisprudência que o regula e, além 
disso, seu corpo administrativo é organizado 
burocraticamente.
Weber afirma que os súditos se submetem à 
dominação, também, em função do medo e da 
esperança. Temem ser punidos ao contrariarem as 
forças dominantes e esperam ser recompensados, 
de algum modo, pelo poder vigente. 
Fica evidente que a legitimidade do poder po-
lítico é fruto de estímulos culturais e psico-sociais. 
A tradição, o carisma e a legalidade são condições 
sócio-culturais dominantes as quais o político 
deve compreender, para conquistar a legitimidade 
enquanto senhor ou líder. O medo e a esperança 
são disposições psico-sociais que o político deve 
saber despertar em seus eleitores nas ocasiões con-
venientes, a favor de sua eleição e da sua manu-
tenção no poder. Nesse aspecto, a política é a arte 
de construir imagens do mundo na consciência 
coletiva, para que a ação da massa tome a direção 
desejada por aqueles que a dominam. Se a política 
funciona construindo visões de mundo e orien-
tando a ação coletiva, podemos concluir que ela 
tem uma atuação sobre a racionalidade humana. 
A atuação do político não é nada simples e exige 
qualificações. Em Política como voca ção, Weber 
Te
or
ia
 e
 C
ul
tu
ra
86
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
(2004b) argumenta que no Estado moderno surgem 
os políticos profissionais. Trata-se de uma categoria 
que inicialmente se coloca a serviço dos príncipes 
não apresentando ambição de se transformarem 
em senhores, mas empenham-se na luta política 
para garantir a legitimidade dos príncipes no poder 
estatal e a realização de suas ordens. Weber ressalta 
que isso só ocorreu no ocidente, onde a categoria 
encontrou remuneração e conteúdo moral para sua 
ação, oferecendo dedicação exclusiva à atividade 
política. O autor ressalta que existem vários modos 
de praticar a política enquanto atividade secundária. 
Esse é o caso do eleitor que só tem participação 
política na hora do voto, dos militantes de partido, 
dos parlamentares que só exercem o cargo durante 
as sessões, entre outras atividades que são realizadas 
de modo ocasional. O político profissional, pelo 
contrário, tem a atividade política como ocupação 
principal. Porém, entre os políticos profissionais, 
Weber estabelece uma distinção entre aqueles que 
buscam na atuação política apenas uma fonte de 
renda e outros que a transformam no seu objetivo de 
vida como meio de defender causas e convicções. 
Os políticos profissionais, no entanto, não atu-
am isolados, de modo independente. Weber lembra 
que a luta política é o espaço ocupado por partidos, 
isto é, associações de pessoas com ideais políticos 
comuns ou unidos em busca do poder e de cargos. 
Weber deixa claro que os partidos vivem sob o sig-
no do poder. Os políticos profissionais buscam as-
cender ao poder com o apoio e a influência de um 
partido, através do qual, disputam votos no eleito-
rado, que, nesse caso, é encarado como um mer-
cado. O partido, então, é uma máquina que atua 
no mercado eleitoral, no qual busca legitimidade 
para ocupar o aparato dirigente do Estado, o que 
se traduz, segundo Weber, no controle da distribui-
ção de cargos. Nesse caso a política não visa mais o 
bem comum, mas sim interesses particulares. Os 
partidos se tornam trampolins para um futuro ga-
rantido economicamente através de um cargo na 
máquina estatal. Nesse cenário da luta partidária, 
Weber indica que os meios para conquista de votos 
no mercado eleitoral são variados.
Apesar de indicar um predomínio de uma ra-
cionalidade teleológica na esfera política, Weber 
indica que essa esfera não se resume necessaria-
mente a um mercado eleitoral. A política moder-
na reserva um vasto espaço para valores e ideais, o 
que impede que o perfil do político seja reduzido 
à simples busca da obtenção do poder ao modo 
maquiaveliano. Sendo assim Weber faz recomen-
dações à ação política. O político deve agir com 
paixão na defesa de suas causas, com responsa-
bilidade e senso de proporção, o que implica em 
calma interior, capacidade de distanciamento dos 
homens e das coisas. Além disso, Weber alerta que 
os políticos devem controlar a vaidade pessoal, 
pois essa é um inimigo fatal.
Até aqui fica evidente que, para Weber, a polí-
tica não é um campo de dogmas e de predomínio 
da ética como a religião. Mas, por outro lado, We-
ber evidencia, também, que a política não se resu-
me a uma atividade de racionalidade estritamente 
teleológica. Cabe-nos, a partir disso, responder a 
questão: qual asocial tanto da sua terra 
natal, a Grã-Bretanha, quanto dos Estados Unidos.
Capitulo 01.indd 10 23/10/13 14:58
FUNDAMENTOS DA 
SOCIOLOGIA E 
ANTROPOLOGIA
Sandro A. de Araujo
Émile Durkheim e 
a sociologia como 
ciência autônoma
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Reconhecer Émile Durkheim como um dos fundadores da sociologia 
do Direito.
  Caracterizar o fato social a partir de Émile Durkheim.
  Apresentar os conceitos políticos, jurídicos e específicos de Durkheim.
Introdução
Neste capítulo, você vai ler sobre um dos maiores nomes da sociologia 
pura e do Direito: Émile Durkheim, um clássico que influencia autores 
até os dias de hoje. Ainda neste capítulo, você vai conhecer os conceitos 
fundamentais da sua obra, como de anomia, solidariedade e divisão do 
trabalho, conceitos interligados fundamentais para a compreensão da 
teoria de Émile Durkheim.
Émile Durkheim e a sociologia do Direito
Preliminares biobibliográficas
Émile Durkheim (1858–1917), junto com Karl Marx e Max Weber, é consi-
derado um dos pilares da disciplina que conhecemos hoje como sociologia. 
Nasceu em 15 de abril de 1858, em Épinal, França. Formou-se na École Normale 
Superieure (Paris), à época dirigida por Fustel de Coulanges, e, mais tarde, 
lecionou em Bourdoux, onde escreveu:
  A divisão do trabalho social, como tese de doutoramento (1893);
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 1 09/03/2018 12:06:07
  As regras do método sociológico (1895);
  O suicídio (1897);
  Lições de sociologia;
  Física dos costumes e do Direito (cursos ministrados entre 1896–1900).
Lecionou na Sorbonne em 1902, como professor auxiliar na cátedra de 
educação, disciplina da qual se tornou titular em 1906, mudando, em 1910, o 
nome da cátedra para sociologia. Assim, tornou-se o primeiro professor dessa 
disciplina. Os seus principais discípulos foram:
  o antropólogo Marcel Mauss, que era seu sobrinho;
  o historiador Gustav Glotz;
  o jurista Léon Duguit.
A Figura 1 apresenta a biografia de Émile Durkheim.
Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma2
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 2 09/03/2018 12:06:09
Sociologia do Direito
Para Durkheim, a sociologia do Direito tem a incumbência de dar conta de 
certas tarefas. Segundo ele, tendo em vista o papel que o Direito representa 
na manutenção da ordem, o sociólogo deve investigar:
  as causas históricas das regras jurídicas;
  as funções das regras jurídicas;
  o funcionamento (como são aplicadas) das regras jurídicas.
Para ele, o Direito é coextensivo à vida social: “A sociedade tende inevi-
tavelmente a se organizar, e o Direito é a esta organização naquilo que ela 
possui de mais estável e mais preciso” (DURKHEIM, 1995, p. 31-32).
Figura 1. Biografia de Émile Durkheim.
Fonte: Aron (1997, p. 369).
3Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 3 09/03/2018 12:06:09
Para Durkheim, a regra jurídica é definida como uma regra de conduta 
dotada de uma sanção (DURKHEIM, 1995). Essa ênfase dada à sanção é 
típica de um pensamento obcecado com a ordem.
Ao analisar a sanção, ele a divide em duas: a repressiva e a restitutiva. 
A primeira consiste em impor um sofrimento ao indivíduo, privando-o de 
algum bem, como a vida, a liberdade, a honra, a fortuna, entre outros. A se-
gunda consiste na recondução de uma relação perturbada à sua forma normal 
(DURKHEIM, 1995). Cada tipo de sanção corresponde a uma função e um 
fundamento (Quadro 1).
Repressiva Restitutiva
Fundamento 
da sanção
Sentimento Utilidade
Função da sanção Vingança Restauração
Quadro 1. Tipos de sanção.
Dessa forma, podemos também classificar o Direito em Direito repressivo, 
que é aquele que utiliza as sanções repressivas, e o Direito restitutivo ou 
cooperativo, que é aquele que utiliza as sanções restitutivas.
Fato social e instituições
Objeto
Embora Durkheim tenha estabelecido como conceito central do seu pensa-
mento o conceito de fato social, na segunda edição das Regras do método 
sociológico, ele começa a utilizar o termo instituição. Instituição e fato social 
são termos que preservam a objetividade do fenômeno social. Por ser mais 
corrente no âmbito do pensamento jurídico, parece mais adequado a uma 
sociologia do Direito.
Assim, Durkheim define sociologia como “[...] a ciência das insti-
tuições, de sua gênese e de seu funcionamento” (DURKHEIM, 1986. p. 
31). Segundo ele, as instituições são as “[...] crenças e modos de conduta 
instituídos pela comunidade” (DURKHEIM, 1986. p. 31). Como exemplos 
Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma4
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 4 09/03/2018 12:06:09
de instituições, ele traz o Estado, a família, o Direito de propriedade e o 
contrato (DURKHEIM, 1986).
Os fatos sociais e as instituições trazem consigo duas características essen-
ciais: a exterioridade e o caráter vinculativo ou coercitivo. O autor conceitua 
exterioridade da seguinte forma:
Para que haja um fato social, é preciso que vários indivíduos combinem sua 
ação e que desta combinação resulte um produto novo. E como esta síntese 
tem lugar fora de nós (posto que nela entra uma pluralidade de consciências), 
tem necessariamente como efeito o de fixar, instituir fora de nós certas ma-
neiras de agir e certos juízos que não dependem de cada vontade individual 
considerada à parte (DURKHEIM, 1986, p. 30-31).
Como exemplo, podemos citar o sistema linguístico, a moral, a moda, a 
moeda, entre outros, que são típicos fenômenos exteriores às consciências 
individuais.
Com relação à segunda característica, temos que tanto a instituição quanto 
o fato social se impõem ao indivíduo. Um exemplo disso é a paternidade, que 
é um fenômeno biológico, mas, enquanto instituição/fato social, cria uma 
série de deveres. É certo que: “[...] cada um de nós fabrica para si, sua moral, 
sua religião, sua técnica. Não há conformismo social que não comporte toda 
uma série de matizes individuais. Contudo, o campo de variações permitidas 
é limitado” (DURKHEIM, 1986, p. 31).
Método
Quanto ao método utilizado por Durkheim, temos três regras:
Primeira regra — “Os fatos sociais devem ser concebidos como coisas” 
(DURKHEIM, 1986, p. 18). Decorrem dessa regra duas consequências: a coisa 
é exterior ao indivíduo, o que acarreta que essa coisa só pode ser conhecida 
pela experiência; o elemento psicológico não é relevante: na verdade, é im-
possível determinar com exatidão os motivos subjetivos que deram origem 
a uma instituição.
Segunda regra — deve haver uma prioridade do todo, da sociedade, com 
relação à parte, o indivíduo. Pois, segundo Durkheim, a vida de uma célula não 
se encontra nos átomos que a compõem, mas no modo como estão associados 
(DURKHEIM, 1986). Desse modo, o todo mostra-se irredutível às partes 
que o compõem, uma vez que possui propriedades que não estão presentes 
5Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 5 09/03/2018 12:06:09
nas partes. A sociedade, pois, é irredutível à soma dos indivíduos. De fato, 
se partirmos dos indivíduos, nunca podemos compreender o que ocorre no 
grupo, uma vez que os membros do grupo agem de modo diferente do que 
fariam se estivessem isolados.
Terceira regra — a ideia de que um fato social só pode ser explicado por 
um outro fato social.
Principais conceitos
Solidariedade
Esse conceito fundamental na teoria de Durkheim pode ser descrito como o 
vínculo objetivo, relação pacífi ca, existente entre os indivíduos em determinada 
sociedade. A solidariedade, por sua vez, pode fundamentar-se na semelhança 
entre indivíduos — chamada, então, de solidariedade mecânica — ou na sua 
diferença — denominada, então, solidariedade orgânica.
A solidariedade mecânica é típica de sociedades primitivas, nas quais não 
ocorreu uma especialização das funçõeslógica da ação no campo da polí-
tica? Ou, como podemos pensar a racionalidade 
nessa esfera? 
Na esfera política a racionalidade pode ser 
pensada de vários modos. Nessa pesquisa, consta-
tamos na sociologia política weberiana a presença 
de: racionalidade eletiva, racionalidade instru-
mental e racionalidade valorativa. A racionali-
dade do político é eletiva quando precisa eleger 
um fim a ser buscado. A racionalidade do político 
será instrumental, quando esse mobiliza qualquer 
meio eficaz para obter o fim elegido, independen-
te de qualquer ética ou moral, nesse caso, o único 
critério para mobilização dos meios é a eficácia na 
obtenção do fim. O príncipe maquiaveliano é a 
síntese ideal de racionalidade eletiva e instrumen-
tal, pois uma vez que elege um fim, o poder, se 
dispõe a utilizar qualquer meio eficaz para atingi-
lo. A ação de um político nos moldes do príncipe 
maquiaveliano é racional com referencia a fins, 
para ele os fins justificam os meios e o eleitora-
do é considerado como um mercado, no qual, os 
eleitores são equivalentes a consumidores, alvos 
a serem persuadidos pela propaganda. Por outro 
lado, a racionalidade pode ser valorativa, na esfe-
ra política, quando o político age de acordo com 
suas próprias convicções, responsabilizando-se por 
suas ações. Nessa situação o político defende cau-
sas em nome do bem comum e sua ação é racional 
Teoria e C
ultura
87
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
referente a valores, pois, para ele, só determinados 
meios, os moralmente aprovados, são admitidos 
para obtenção do fim desejado. Portanto a polí-
tica é uma esfera permeada de valores, os quais, 
muitas vezes, determinam as ações de políticos e 
eleitores. Além das formas de racionalidade tra-
tadas até aqui, referentes à ação do político pro-
fissional, devemos lembrar, também, que a polí-
tica produz concepções de mundo para eleitores 
e cidadãos de modo geral, determinando a lógica 
de suas ações. Os grandes líderes e partidos políti-
cos são essenciais nesse processo ao se mostrarem 
portadores das ideologias e buscarem difundi-las 
no meio social, persuadindo os cidadãos de que 
estão defendendo o melhor para o bem público. 
Por fim, deve ficar evidente, a diferença da racio-
nalidade religiosa e política. Enquanto a primeira 
se fundamenta na crença irrefletida e nos dogmas 
inquestionáveis, a segunda envolve um processo 
dialógico com espaço para escolhas a favor de cer-
tos valores em detrimento de outros. 
raciOnalidade na ciência
Na conferência Ciência como Vocação, Weber 
(2004b) comenta o pensamento científico no pla-
tonismo, no renascimento e acima de tudo em seu 
tempo, expressando que a marca da ciência mo-
derna é a especialização e burocratização.
Weber lembra que, no Platonismo, o conheci-
mento científico buscava, através da razão, a ver-
dade, a essência do ser e das coisas. O autor indica 
que isso ocorreu entre os gregos porque esses fo-
ram os primeiros a utilizar em um instrumento de 
conhecimento, o conceito. Isso foi possível por-
que acreditavam na correspondência entre o con-
ceito e o objeto, ao qual, esse se refere, trata-se do 
princípio de identidade, isto é, a ideia contida no 
conceito é idêntica à essência do objeto do conhe-
cimento. Desse modo sabia-se o que era belo pelo 
conceito de belo, sabia-se o que era bom pelo que 
afirma o conceito de bom e daí por diante.
Weber passa ao Renascimento e lembra que 
nessa fase a ciência se baseia no conhecimento da 
natureza e na fé em Deus, essa fé era reforçada 
pelo conhecimento das obras divinas, ou seja, toda 
a natureza. Nessa fase, os precursores da ciência 
foram grandes inovadores da arte como Leonardo 
Da Vinci e as experiências da arte passam para o 
campo da ciência. A influência da religião foi ani-
mada pelo protestantismo que buscava o caminho 
que conduz a Deus, a tarefa científica poderia ser 
esse caminho, na medida em que, explicava e co-
nhecia as obras de Deus, ou seja, a natureza. Esse 
foi um impulso para as ciências da natureza.
Mas e a ciência de seu tempo, como Weber 
refletiu? Weber indica como marca da ciência mo-
derna a burocratização e a especialização. O autor 
afirma que o instituto de ciência assemelhou-se 
a uma empresa capitalista. Esses institutos neces-
sitam de grandes quantias de recurso financeiro 
para a própria manutenção e se caracterizam pela 
proletarização do intelectual, pois, esse fica, como 
qualquer trabalhador, privado dos meios de pro-
dução, além de estar submetido a um superior na 
hierarquia da instituição, assim como um proletá-
rio ao seu patrão. Weber lembra que, na ciência, 
o indivíduo só alcança êxito com rigorosa espe-
cialização. Esse fenômeno traz consequências para 
a realidade, pois um especialista é um ignorante 
ao se confrontar com a diversidade da realidade. 
Para ilustrar essa questão Weber dá o exemplo do 
homem que embarca em um trem, esse, se não for 
um físico não saberá como funciona e nem o que 
faz o trem se mover, por outro lado, um índio co-
nhece mais as tecnologias de seu meio do que um 
civilizado, pois na tribo não há especialização.
Desse modo o papel da ciência e da raciona-
lização crescente não significa que o indivíduo 
está dotado de maior conhecimento, mas sim, 
que estão disponíveis explicações científicas e 
racionais para quase todo fenômeno e assim o 
indivíduo sabe que não há poderes místicos ou 
sobrenaturais interferindo na vida, pois há possi-
bilidade de domínio por meio da previsão. O ho-
mem que embarca no trem não sabe como o trem 
funciona, mas sabe que o trem não é movido por 
forças mágicas, sabe também que o trem obede-
ce a um percurso previsível com uma lógica de 
funcionamento previsível. Weber afirma que isso 
é o mesmo que despojar a magia do mundo, o 
selvagem que ainda acredita na existência de po-
deres sobrenaturais apela para métodos mágicos 
para interferir na realidade, já o civilizado deve 
Te
or
ia
 e
 C
ul
tu
ra
88
Juiz de Fora
v.3, n. 1/2
p. 79-92
Jan./dez.
2008
recorrer à ciência, porém nunca dominará todo 
conhecimento enquanto indivíduo, pois, para 
cada caso, há um especialista. Devemos lembrar 
que despojar a magia do mundo é para Weber o 
próprio desencantamento do mundo. 
Contudo, cabe questionar: Qual o sentido 
da ciência? A ciência traz sentido à vida? Weber 
recorre a Tolstoi para responder a tais questões 
afirmando que a ciência não tem sentido e nem 
traz sentido à vida, pois ela não permite respon-
der às indagações mais relevantes, isto é, o que 
devemos fazer? Como devemos viver? A resposta 
a essas questões não são dadas pela ciência. Sen-
tido para vida só se dá no campo da moral, da 
ética, da religião, da arte e até da política, mas 
não no da ciência, pois, doação de sentido de-
pende de valoração, o que a ciência não pode 
fazer. Weber, porém, indica a presença de pres-
supostos não justificáveis cientificamente na base 
de toda ciência, isto é, no seu fundamento a ci-
ência contém alguma valoração.
Weber lembra que na medicina há o pressuposto 
de conservar a vida e reduzir, ao máximo possível, o 
sofrimento. No direito, certas regras e métodos de 
interpretação são obrigatórios. Na história, certos 
fenômenos políticos e culturais são considerados. 
O autor questiona se conservar a vida não é uma 
valoração (do mesmo modo o suicídio ocorre em 
função do ponto de vista, subjetivo, de que a vida 
não tem mais valor). Também afirma que o direito 
não responde à seguinte questão: Deveria haver um 
direito e dever-se-iam consagrar exatamente essas 
leis? Questiona a História se os fenômenos políti-
cos e culturais enfatizados são mesmo os relevantes 
e por quê? Para todas essas indagações a resposta só 
pode se basear em argumentação valorativa. Essa 
é a prova de que o fundamento último de toda ci-
ência é valorativo. A ciência só se justifica na von-
tade subjetiva do pesquisador, seu interesse pesso-
al sobre os temas escolhidos. Diante disso Weber 
conclui que a ciência pode, apenas, disponibilizar 
o domíniosociais. A consciência individual 
depende diretamente da consciência coletiva e segue todos os seus movi-
mentos, “[...] como o objeto possuído segue aqueles que o seu proprietário 
lhe imprime” (DURKHEIM, 1995, p. 107). É essa analogia que justifica o 
termo mecânica. Mas como se dá a consciência coletiva na solidariedade 
mecânica? A consciência coletiva é o conjunto das crenças e sentimentos 
comuns à média dos membros de uma mesma sociedade. Como é forte, 
abrange todas as esferas da vida.
A solidariedade orgânica, por sua vez, é a solidariedade fundada na dife-
rença. É típica das sociedades modernas, em que a divisão do trabalho provoca 
a diferenciação entre as pessoas. O termo orgânica é utilizado em analogia 
com os órgãos de um ser vivo: estes são diferentes, e é a sua diferença que 
os torna indispensáveis uns aos outros. Cada membro da sociedade funciona 
como órgão de um organismo.
Divisão do trabalho social
A divisão social do trabalho consiste na especialização das funções em 
todos os âmbitos da vida social: econômico, político, religioso, militar, 
político, científi co, artístico, entre outros. Essa divisão não pode ser confun-
Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma6
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 6 09/03/2018 12:06:10
dida com a divisão técnica do trabalho, que consiste na decomposição do 
trabalho em várias fases, atribuindo a cada trabalhador a responsabilidade 
sobre uma fase.
As causas da divisão do trabalho dizem respeito à passagem da solidariedade 
mecânica para a orgânica, em que pode haver:
  crescimento demográfico;
  crescimento da densidade demográfica (razão entre indivíduos e 
superfície);
  crescimento no número de trocas entre os indivíduos de uma sociedade 
(a chamada densidade moral).
Quanto mais numerosos os indivíduos que procuram viver em conjunto, mais intensa é 
a luta pela vida. A diferenciação social (especialização) é a solução pacífica da luta pela 
vida. Com a diferenciação, deixa de ser necessário eliminar a maioria dos indivíduos, 
a partir do momento em que, diferenciando-os, cada um fornece uma contribuição 
que lhe é própria para a vida do grupo.
ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
DURKHEIM, É. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
DURKHEIM, É. Las reglas del método sociológico. México: Fondo de Cultura Económica, 
1986.
ÉMILE DURKHEIM. In: Academia Brasileira de Direito do Estado. 2015. Disponível em: 
. Acesso em: 01 fev. 2018.
7Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma
Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 7 09/03/2018 12:06:10
ECONOMIA 
POLÍTICA
Filipe Prado 
Macedo da Silva
Karl Marx e a luta de classes
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar a influência de Karl Marx na sociologia.
  Relacionar as mudanças ocorridas, decorrentes da Revolução Industrial, 
com o surgimento do capitalismo, na visão de Marx.
  Analisar a teoria da luta de classes enquanto força motriz da história.
Introdução
Neste capítulo, você vai estudar as principais contribuições teóricas de 
Karl Marx, um importante intelectual social e econômico que analisou 
e criticou as transformações produzidas pelo domínio do sistema de 
produção capitalista. Karl Marx influenciou fortemente os arcabouços 
teóricos da sociologia e a forma de enxergar as lutas de classes. Para 
isso, construiu uma teoria da luta de classes e um conjunto de reflexões 
acerca das mudanças ocorridasem decorrência da Revolução Industrial 
e de como isso mudaria para sempre as relações sociais entre as classes 
dominantes (burgueses) e dominadas (trabalhadores).
A influência de Karl Marx na sociologia
Não há dúvidas de que Karl Marx foi um importante teórico para o campo da 
sociologia (NETTO, 2006). Isso porque, até hoje, as contribuições teóricas de 
Karl Marx ajudam a explicar a sociedade atual — pelo menos, nos últimos 150 
anos. Foi nesse mesmo período — a partir da Revolução Industrial — que a 
sociedade capitalista se consolidou como forma de organização social e material.
Em outras palavras, as obras literárias de Karl Marx, em especial o livro O 
Capital, em que ele analisou profundamente as raízes do capitalismo, trouxeram 
“novas formas de enxergar o mundo e a sociedade que nascia”, e que perdura 
até hoje — a sociedade capitalista. 
E o que está envolvido na análise de Karl Marx? Nesse sentido, a grande 
influência de Karl Marx está em seus profundos conhecimentos e/ou reflexões 
sobre o modo de produção capitalista (NETTO, 2006). É nesse momento 
histórico que as contribuições sociológicas de Karl Marx ganham o mundo 
cientifico e político, a partir de uma nova visão acerca do “novo mundo de 
prosperidade material e econômica”.
 Esse “novo mundo de prosperidade material e econômica” surgia ao 
mesmo tempo em conexão com uma “nova sociedade ou civilização”, com 
características predominantemente urbanas e industriais. Assim, a sociedade 
pós-Revolução Industrial baseava-se em uma “nova razão de vida individual e 
coletiva moderna”, e estruturava-se em “novas relações sociais”, com “novas 
classes sociais” (SILVA, 2010).
Sendo assim, a análise sociológica de Karl Marx tinha como “núcleo duro” 
o capital e a sua reprodução social. Isso incluiu entender o seu entorno e o seu 
funcionamento, a fim de compreender como a sociedade tratava a mercadoria, 
as relações de trabalho, as relações entre nações, os meios de produção, a 
relação com a moeda, entre outros (MARX, 2008).
Por exemplo, ao iniciar seus pressupostos sobre a produção de mercado-
rias, Karl Marx buscou entender como as ferramentas e o trabalhador eram 
utilizados na produção e na reprodução de mercadorias, e como as relações 
sociais evoluem ou se transformam. Além disso, ele escreveu fortemente 
sobre o “mundo burguês” que nascia em torno ao capitalismo, adquirindo 
protagonismo social, político e econômico — ou seja, um sistema econômico 
de ordem burguesa (MANDEL, 1968; NETTO, 2006).
Paralelamente ao “mundo burguês”, nascia ainda, com a urbanização e a 
industrialização em massa, um “mundo do proletariado”, com a massificação 
dos trabalhadores urbanos industriais. Já, no século XIX, eram visíveis as 
transformações da sociedade inglesa, que passava de um “plano rural rudi-
mentar” para um “plano urbano mecanizado”, em que os padrões da sociedade 
tradicional (mais socializada e religiosa) davam lugar a novos padrões seculares 
e econômicos (mais racionais e pragmáticos) (SILVA, 2010).
Em suma, Karl Marx destacou que a sociedade capitalista era formada por: 
burgueses e trabalhadores. Os burgueses estabeleciam-se em torno dos meios 
de produção — terra, matérias-primas, máquinas, etc. Já os trabalhadores, 
alienados dos meios de produção, estruturavam-se em torno da sua força de 
trabalho. Ambas são distintas, mas são necessárias uma para a existência da 
outra, de acordo com Karl Marx (MARX, 1983).
Em outras palavras, “a sociedade burguesa não pode existir sem os traba-
lhadores”, e o capitalismo não pode prosperar sem a evidente divisão social 
Karl Marx e a luta de classes2
entre essas duas classes sociais (MARX, 1983; NETTO, 2006). Além do 
mais, a lógica da sociedade capitalista não existe sem alguns dos mecanismos 
predominantes nas relações produtivas como, por exemplo, a alienação do 
trabalhador e o “fetichismo da mercadoria”.
Em todas as suas obras, Karl Marx trabalhou bastante as distinções entre 
as classes sociais do capitalismo e suas novas relações — moldando novos 
paradigmas sociais. Por exemplo, na Antiguidade, a luta de classe acontecia 
pelo permanente confronto entre os senhores e os escravos — enquanto, na 
Idade Média, esse conflito evidenciava-se no esforço dos servos contra os 
senhores feudais. Ou seja, em qualquer momento da história, inclusive do 
capitalismo, existem relações sociais de opressão(MARX, 2008).
Essas relações sociais de opressão — segundo Karl Marx — produzem con-
flitos e geram a possibilidade de uma revolução social com a perspectiva de novas 
relações produtivas. Foi no Manifesto Comunista que Karl Marx escreveu que “os 
proletários nada têm a perder a não ser seus grilhões, tendo um mundo a ganhar 
[sob outras perspectivas]”. Essa foi a recomendação de Karl Marx em 1848.
É claro que existem inúmeras interpretações sobre a obra de Karl Marx, e 
análises conflitantes entre os próprios marxistas sobre essas questões teóricas 
e metodológicas. Em geral, Karl Marx tinha até uma visão otimista com 
relação à luta de classes, acreditando que, no final desse processo histórico, 
os trabalhadores construiriam uma nova sociedade dos proletários. 
Nessa sociedade dos proletários, a grande maioria da sociedade definiria os 
objetivos dessa nova sociedade — comunista ou socialista; esse seria o curso 
natural da história. Como frisou Karl Marx, assim como aconteceu no escravismo 
e no feudalismo, o capitalismo chegaria ao fim com uma grande crise interna, que 
colapsaria a economia, as instituições e as relações sociais de produção. Dessa 
forma, as crises seriam cada vez mais constantes nas economias industrializadas, 
revelando as contradições internas em que o sistema econômico capitalista se 
estrutura, e logo, “se autodestrói estruturalmente” (NETTO, 2006).
Do ponto de vista econômico e sociológico, as crises capitalistas poderiam, em 
geral, se resumir às crises de acumulação, ou crises da mais-valia (SILVA, 2010). 
Isso significa que — economicamente — quando os burgueses não conseguem 
mais aumentar a mais-valia, seja em termos absolutos ou em termos relativos, 
entram socialmente em crise, pressionando a outra classe social a aumentar a 
mais-valia. Isso quer dizer que, nas crises capitalistas, os burgueses são obri-
gados a explorarem cada vez mais os trabalhadores — em busca de melhores 
resultados econômicos, ou seja, da produção de mais-valia absoluta e relativa.
Consequentemente, as relações sociais de produção capitalista não ficam 
apenas restritas aos efeitos do campo econômico. Também produzem fortes 
3Karl Marx e a luta de classes
efeitos sobre o campo social e o campo político. Logo, Karl Marx percebeu 
e influenciou não somente as relações de produção, mas também as relações 
sociais (ou da sociedade) e as relações políticas — como fundamentais para 
a compreensão da dinâmica das lutas de classes (KISHTAINY et al., 2013; 
MARX, 1983; SILVA, 2010).
O modo de produção é um conceito elaborado por Karl Marx (e utilizado pelos seus 
seguidores, os marxistas) para definir o conjunto das forças produtivas e das relações de 
produção em seu entorno. Às vezes, o modo de produção pode se confundir, de certa 
maneira, com a estrutura econômica de uma sociedade qualquer — incluindo assim a 
produção, a distribuição, a circulação e o consumo. Historicamente, distinguem-se vários 
modos de produção: o comunista primitivo, o escravista, o feudal, o capitalista e o socialista. 
De acordo com Karl Marx, pelo menos na visão teórica, numa formação social concreta, 
podem estar presentes diferentes modos de produção, tendo ao menos um como domi-
nante (SANDRONI, 2005). Por exemplo, recentemente, o modo de produção que é mais 
dominante é o capitalista. Logo, cabe destacar que Karl Marx, em sua obra mais importante, 
O Capital, ocupa-se fundamentalmente em analisar e teorizar sobre o modo de produção 
capitalista. Em outras palavras, ele busca entender como ocorre a produção capitalista, a 
distribuição capitalista entre as classes sociais e a circulação capitalista nas sociedades, e 
como o consumo se organiza entre os agentes socioeconômicos e as instituições. 
As mudanças ocorridas em decorrência 
da Revolução Industrial
Com a ascensão do mercado e dos processos industriais, o período feudal 
chegou categoricamente ao seu fi m, dando lugar ao sistema de produção 
capitalista (MARX, 1983). Assim, a visão de Karl Marx surgiu num período 
extremamente turbulento da história europeia (BELL, 1961). A Revolução 
Industrial já havia encontrado seu rumo na Europa, deixando em seu rastro 
grande riqueza material e muita pobreza social.
Na prática, Karl Marx e seu companheiro intelectual Friedrich Engels 
tiveram a grande oportunidade de presenciar o novo conjunto de inovações 
técnicas que surgem com a Revolução Industrial. Essas novas técnicas pro-
dutivas produziram diferentes custos sociais no desenvolvimento capitalista, 
surgindo em toda a sociedade fenômenos e problemas sociais em larga escala.
Karl Marx e a luta de classes4
Tudo isso era fruto das mudanças geradas pela Revolução Industrial — que 
foi o principal fenômeno da história humana na consolidação do sistema capi-
talista como regime produtivo. Por exemplo, na Inglaterra, registros revelam 
que a Revolução Industrial causou profundas transformações sociais — como 
exploração e alienação extrema do trabalhador, ampliação da pobreza, aumento 
do desemprego e, ainda, concentração do capital e da produção (SILVA, 2010).
Na realidade, Karl Marx, em O Capital, detalha minuciosamente o funcio-
namento do sistema capitalista de maneira magistral. É por isso que muitos 
acham a leitura de O Capital complexa e densa — e com níveis elevados de 
abstração (intelectual). 
Nessa sua obra seminal, Karl Marx analisou inicialmente o processo de 
produção do capital, ressaltando o quanto a sociedade industrial passou a va-
lorizar a mercadoria e o dinheiro como importantes elementos do processo de 
troca social. Daí, a mudança percebida por Karl Marx: no sistema capitalista, 
a perspectiva era transformar dinheiro/capital em mercadoria e, depois, em 
mais dinheiro/capital (D — M — D’). 
Para isso, novas lógicas de trabalho e novos mecanismos de valorização 
do capital passaram a ser gerados no seio da sociedade capitalista. Aqui cabe 
destacar a diferença que Karl Marx apontou entre capital constante e capital 
variável — além de diferenciar a mais-valia absoluta da mais-valia relativa. 
Esses conceitos fundamentais da economia marxista revelaram uma profunda 
alteração na lógica produtiva da sociedade.
No capitalismo, de acordo com Karl Marx (1983), a mais-valia consiste no 
valor do trabalho não pago ao trabalhador. Cabe pontuar que, na sociedade 
capitalista, diferentemente do escravismo ou feudalismo, o preço da força de 
trabalho é medido mediante o salário. O salário é a remuneração pela compra da 
força de trabalho por parte dos proprietários do meio de produção — criando um 
sistema social em que as relações, portanto, são mediadas pelo salário (monetá-
rio). Karl Marx destacou que, ainda que o salário seja a nova forma das relações 
sócio-produtiva, existe cada vez mais aquela parte do esforço do trabalho de que 
o trabalhador não pode se apropriar, pois é a parte com a qual o proprietário do 
meio de produção executa a sua acumulação de capital (MARX, 1983, 2008).
Além do mais, a partir da Revolução Industrial, a lei geral da acumulação 
capitalista passou “a reinar como a lógica dominante do sistema capitalista” 
(SILVA, 2010). Em poucas palavras, a produção passou a ser apenas uma etapa 
para a acumulação do capital — sendo que o capital passa a ser a riqueza 
mais desejada da economia. A acumulação em termos absolutos e relativos 
tornou-se a pedra de toque da sociedade.
5Karl Marx e a luta de classes
Aquelas relações de troca simplistas (ou seja, o escambo) e relações de 
trabalho não assalariadas ficaram para trás nas estruturas sociais predomi-
nantemente capitalistas (SILVA, 2010). Assim, no capitalismo, a monetização 
da economia passou a ser a palavra de ordem, em uma lógica econômica, social 
e política em que o poder passou a ser do capital (BELL, 1961).
Do outro lado, o progresso capitalista fez surgir as primeiras manifestações 
dos trabalhadores contra a nova estrutura social e econômica da sociedade. 
Na segunda década do século XIX, começaram a surgir as primeiras ideias 
socialistas, sobretudona França e na Inglaterra, que tornavam claro que a 
classe operária teria que tomar consciência de sua exploração, das péssimas 
condições de trabalho, da falta de unidade [...] de classe, e da falta de uma 
doutrina alternativa que servisse de bandeira para a luta [...]” (SILVA, 2010).
Portanto, a exploração dos trabalhadores, agora em massa, foi outro marco 
estrutural introduzido pela Revolução Industrial e ampliado pela consolidação 
do sistema capitalista de produção. Karl Marx revelou em suas análises que “o 
valor de uma mercadoria se baseava no trabalho necessário para produzi-lo, 
e que os capitalistas (ou proprietários dos meios de produção) organizavam 
os preços dos bens finais somando o preço do trabalho ao custo inicial do 
produto e depois adicionavam o lucro” (KISHTAINY et al., 2013).
Logo, para elevar os lucros ou a mais-valia, os proprietários dos meios 
de produção mantêm os salários baixos, introduzem novas tecnologias para 
aumentar a eficiência produtiva e, portanto, condenam grandes contingentes 
de trabalhadores a condições degradantes de trabalho, monotonia e, por fim, 
desemprego. Ou seja, a Revolução Industrial trouxe “progresso econômico 
com deterioração social” (SILVA, 2010).
Outra mudança importante observada por Karl Marx foi no campo da 
concorrência entre os capitalistas (SANDRONI, 2005). A tendência — se-
gundo Karl Marx — é que cada vez menos produtores controlem os meios de 
produção, e uma burguesia cada mais restrita concentre cada vez mais riqueza.
No longo prazo, isso criaria monopólios que poderiam explorar não somente 
os trabalhadores, mas também os consumidores (KISHTAINY et al., 2013). 
Assim sendo, as fileiras do exército industrial de reserva crescem/incham 
com os ex-burgueses excluídos e com os desempregados. Esse movimento 
levaria a uma maior complexidade da sociedade e dos mercados, revelando 
e ampliando cada vez mais as contradições internas do sistema capitalista de 
produção mercantil (SILVA, 2010).
Em síntese, sob o capitalismo, Karl Marx notou que os meios de produção 
pertencem cada vez mais a uma minoria, que explora o trabalho da maioria 
e obtém lucro. Paralelamente, essa ganância pelo lucro leva a uma super-
Karl Marx e a luta de classes6
produção dos bens procurados, causando uma crise produtiva na economia. 
Isso produz, de maneira cíclica e cada vez mais profunda, crises econômicas 
que geram instabilidade social e econômica, gerando agitação social. É essa 
“agitação social” que torna os trabalhadores cada vez mais conscientes de 
sua exploração e mais instruídos para derrubarem as classes dominantes que 
controlam a produção. É isso que leva a uma revolução segundo Karl Marx, 
alterando mais uma vez a lógica da sociedade.
É importante destacar que Karl Marx é uma coisa, e o Marxismo é outra coisa. O que 
isso quer dizer? Enquanto o primeiro trata-se do autor e de suas obras, sobretudo, o 
Manifesto Comunista (de 1848), a Contribuição à Crítica da Economia Política (de 1858) 
e O Capital (de 1867, 1885 e 1894), o segundo — o Marxismo — é uma denominação 
consagrada para a obra teórica de Karl Marx e Friedrich Engels e de seus seguidores. Em 
poucas palavras, o Marxismo “constitui uma fundamentação ideológica do moderno 
comunismo” (SANDRONI, 2005). Essa também chamada Escola do Pensamento Marxista 
baseia-se, principalmente, na obra O Capital, defendendo uma teoria da mais-valia e o 
capitalismo como um sistema transitório, sujeito a crises cíclicas, e que por efeito do 
agravamento de suas contradições internas, cairá a partir da revolução.
A teoria da luta de classes enquanto 
força motriz da história
Karl Marx elaborou também uma teoria da luta de classes, buscando explicar 
melhor os confl itos existentes no sistema capitalista. Segundo ele, “as desi-
gualdades sociais observadas no seu tempo eram provocadas, em sua análise, 
pelas relações de produção do capitalismo, que dividem toda a sociedade em 
proprietários (burgueses) e não proprietários (proletariado)” (SILVA, 2010). São 
essas desigualdades que constituem as bases das classes sociais (MARX, 1983).
Logo, as relações entre a sociedade no capitalismo se caracterizam por 
relações antagônicas, de oposição, incompatibilidade, exploração e complemen-
taridade entre as classes sociais (BELL, 1961; MARX, 1983). Daí a percepção 
de que o conceito de luta de classes é inseparável do conceito materialista da 
história (MARX, 2008). Porém, o que isso quer dizer?
De acordo com Karl Marx, “a história não passa de um registro cruel dos 
esforços do homem para ganhar ascendência material”. Ele acreditava que 
todos os conflitos repousavam em questões econômicas, e tais lutas eram 
7Karl Marx e a luta de classes
entre os que tinham e os que não tinham (MARX, 1983). Essas lutas eram a 
força motriz das sociedades capitalistas, e a razão inevitável e absoluta dos 
conflitos internacionais (SILVA, 2010).
Novamente cabe observar que, no sistema capitalista, Karl Marx identificou 
relações de exploração da classe dos proprietários (a burguesia) sobre os traba-
lhadores (o proletariado). Isso porque a posse dos meios de produção, sob a forma 
legal de propriedade privada, faz com que os trabalhadores, a fim de assegurar 
a sobrevivência, tenham que vender sua força de trabalho ao capitalista, “[...] 
o qual se apropria do produto do trabalho de seus operários” (MARX, 1983).
Em termos práticos, essas relações são de obstinação e antagonismo, 
na medida em que os interesses de cada classe são inconciliáveis e, muitas 
vezes, inegociáveis (SILVA, 2010). O burguês deseja preservar seu direito 
à propriedade dos meios de produção e das mercadorias, além da máxima 
exploração do trabalhador, seja reduzindo os salários, seja ampliando a jor-
nada de trabalho. Por sua vez, o trabalhador procura diminuir a exploração 
ao batalhar por uma jornada de trabalho menor, além de melhores salários e 
participação nos lucros do empresário.
Por outro lado, as relações entre as classes são complementares, pois uma só 
existe em relação à outra (MARX, 1983). Karl Marx observou que só existem 
proprietários porque há uma massa de despossuídos, cuja única propriedade é 
sua força de trabalho. Em suma, as classes sociais são, apesar “de sua oposição”, 
complementares e interdependentes
Mesmo assim, para Karl Marx a luta de classes deve, necessariamente, 
acarretar a vitória do proletariado sobre a burguesia, e, uma vez conseguida esta 
vitória e desaparecido o antagonismo entre capital e trabalho, a luta de classes 
deixará de existir para sempre. Esse é o avanço histórico previsto por Karl Marx.
Além do mais, Karl Marx ampliou, na teoria da luta de classes, o conceito 
de alienação do trabalhador, mostrando que a industrialização, a propriedade 
privada e o salário afastaram o trabalhador dos meios de produção — ferra-
mentas, matérias-primas, terras e máquinas —, que estavam sob o controle 
dos capitalistas (MARX, 2008; SILVA, 2010).
Karl Marx (1983) destaca que essa é a base da alienação econômica do 
homem sob o capital. Do ponto de vista político, o homem também ficou 
alienado, pois o liberalismo criou a lógica de um Estado como um órgão 
político imparcial, capaz de representar toda a sociedade — e todas as suas 
classes — e dirigi-la pelo poder delegado pelos indivíduos.
No entanto, Karl Marx mostrou que, na sociedade de classes, esse Estado 
representava apenas as classes dominantes, e agia conforme seus interesses e 
objetivos. Em outras palavras, no capitalismo, o Estado é um Estado burguês, a 
Karl Marx e a luta de classes8
serviço dos interesses do capital. Dessa maneira, essa questão estatal maximiza a 
luta de classes como “motor de transformação da história humana” (SILVA, 2010).
É comum associar sempre os escritos de Karl Marx aos movimentos dos 
trabalhadores e aos conflitos ou às negociações perpetradas pelos sindicatos. 
Isso porque é importante lembrar que os trabalhadores são, em qualquer país, a 
maioria da população. Foi, neste sentido, que Karl Marx destacoua importância 
da luta de classes: sempre os trabalhadores seriam maioria, e logo, precisavam 
de consciência para se organizarem e romperem os paradoxos da história.
1. Marx não tinha a mesma 
compreensão dos cientistas sociais 
sobre o papel da ciência. Se para Max 
Weber, por exemplo, a ciência social 
deveria se afastar da esfera moral 
e política, para Durkheim e Marx, 
pelo menos nesse ponto os dois 
concordavam, cabia a ela produzir um 
conhecimento capaz de conduzir os 
homens a uma vida melhor e a uma 
sociedade mais justa. Embora tenha 
escrito sobre várias fases da história, 
Marx concentrou-se principalmente:
a) na Revolução Francesa.
b) no positivismo de Augusto Comte.
c) nas mudanças ocorridas devido ao 
desenvolvimento do capitalismo.
d) nas ideias de Émile Durkheim 
e nos fatos sociais.
e) nas grandes navegações.
2. É uma ideologia política e 
socioeconômica, sem divisão 
de grande escala entre ricos e 
pobres, ou seja, a ausência de uma 
pequena classe monopolizando 
as riquezas e a grande maioria 
das pessoas recebendo poucos 
benefícios que seu trabalho gera. 
Seria uma sociedade mais humana 
do que a que conhecemos. 
Assinale abaixo a alternativa que 
identifica essa nova ordem:
a) Comunismo.
b) Feudalismo.
c) Escravismo.
d) Primitivo.
e) Indústria.
3. Sobre as mudanças sociais, Marx 
tinha um ponto de vista que 
chamou de concepção materialista 
da história. Assinale a alternativa 
que descreve essa visão:
a) Não são os valores ou as ideias que 
os homens detêm que promovem 
as principais mudanças sociais, 
essas mudanças são induzidas 
por influências econômicas.
b) O estudo dos fatos sociais é 
que levariam a uma maior 
compreensão da sociedade.
c) Conforme essa visão, o capitalismo 
era muito parecido com os modos 
de produção que o antecederam.
d) Conforme essa visão, o capitalismo 
era uma fase passageira e a 
sociedade logo voltaria ao 
modo de produção feudal.
e) Conforme essa visão, o 
capitalismo era a última fase 
de evolução da sociedade.
9Karl Marx e a luta de classes
4. A teoria dos modos de produção 
sucessivos, que se iniciou pela análise 
estruturada das sociedades humanas, 
teve início com o que Marx chamou 
de "comunismo primitivo", a partir 
de estudos de pequenos grupos 
do passado remoto. Nesses grupos, 
tudo o que era adquirido era de 
propriedade comum, e não havia 
divisões de classe. Mas esses grupos 
evoluíram e a propriedade privada 
surgiu, inclusive a escravidão, como 
na Grécia e Roma antiga. A partir daí, 
as sociedades desenvolveram-se com 
base na agricultura e em relações 
de propriedade feudal, que era 
dividida entre proprietários de terra, 
camponeses e arrendatários, forçados 
a trabalhar para os proprietários para 
sobreviver. Esse modo de produção 
também chegou aos seus limites.
A partir desses estudos, Marx 
concluiu que o capitalismo:
a) nunca chegaria ao fim. Como 
era um sistema novo, totalmente 
diferente dos modos de produção 
que o antecederam, ele sempre 
encontraria formas de se renovar.
b) também chegaria ao fim, abrindo 
espaço para outro modo de 
produção, gerado a partir de 
trabalhadores descontentes, que 
desenvolveriam uma consciência 
de classe, pondo fim à propriedade 
privada e estabelecendo 
as relações comunais.
c) chegaria ao fim e, como era 
um sistema novo, sucumbiria, 
e a sociedade retornaria 
ao sistema feudal.
d) também chegaria ao fim, abrindo 
espaço para outro modo de 
produção, fruto de decisões 
políticas, que quisessem o 
melhor para a sociedade.
e) também chegaria ao fim, abrindo 
espaço para outro modo de 
produção, gerado a partir de 
decisões da classe burguesa.
5. Ao contrário do comunismo primitivo, 
Marx previa um comunismo 
moderno, que teria a sua disposição 
todos os benefícios do sistema 
capitalista altamente produtivo.
Assinale a alternativa que 
melhor descreve essa forma 
de comunismo moderno.
a) Seria uma forma avançada e 
sofisticada de comunismo, capaz 
de cumprir o princípio comunista 
que diz “de cada um conforme 
sua capacidade, a cada um, 
conforme sua necessidade”.
b) Seria uma forma avançada e 
sofisticada de comunismo, capaz 
de cumprir o princípio comunista 
que diz que a propriedade 
privada é a base da sociedade.
c) Seria uma forma primitiva 
de comunismo, conforme o 
modelo dos tempos remotos, 
estudados por marx.
d) Seria uma forma avançada e 
sofisticada de comunismo, 
porém, serviria de retorno 
ao sistema feudal.
e) Seria uma forma avançada e 
sofisticada de comunismo, mas 
que levaria a um novo modo 
de produção, o primitivo.
Karl Marx e a luta de classes10
BELL, J. F. História do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1961.
KISHTAINY, N. et al. O livro da economia. São Paulo: Globo, 2013.
MANDEL, E. A formação do pensamento econômico de Karl Marx: de 1843 até a redação 
de O Capital. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.
MARX, K. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 
2008.
MARX, K. O capital: critica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
NETTO, J. P. O que é marxismo. São Paulo: Brasiliense, 2006.
SANDRONI, P. Dicionário de economia do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005.
SILVA, F. P. M. O fator trabalho na teoria econômica. Lauro de Freitas, BA: Editorial FPMS, 
2010.
Leituras recomendadas
CARCANHOLO, R. A. Marx, Ricardo e Smith: sobre a teoria do valor trabalho. Vitória: 
Edufes, 2012.
RÍO, H. Marx para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente, 2004.
11Karl Marx e a luta de classes
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
Conteúdo:
Anthony
Completamente revisada e atualizada, esta referência única oferece um panorama esclarecedor sobre os últimos acontecimentos 
globais e sobre as novas ideias no campo da sociologia. Os debates clássicos também são minuciosamente abordados, explicando 
até as ideias mais complexas de maneira clara e envolvente.
Escrito de forma fluente e com um estilo atraente, esta obra consegue ser ao mesmo tempo intelectualmente rigorosa e perfeita-
mente acessível a todos os públicos. Sociologia é um livro empolgante e envolvente, que busca ajudar os leitores a compreender 
o valor de pensar sociologicamente.
Destaques da 6ª edição:
• Novos conteúdos sobre educação, mídia, teoria social, desigualdades, política e governo; e um capítulo 
 inteiramente novo sobre guerra e terrorismo.
• Maior aprofundamento e atualização em todos os capítulos.
• Foco especial dado à sociologia global e à imaginação sociológica.
• Novas seções de “Estudos Clássicos” examinam em detalhes as pesquisas empíricas mais influentes.
• Seções adicionais de “Reflexão Crítica” foram inseridas ao texto para estimular a compreensão 
 e o entendimento dos leitores.
• Imagens especialmente selecionadas procuram captar o drama cotidiano do mundo social.
Livro-texto campeão de vendas por mais de 20 anos, a 6ª edição estabelece o padrão para o estudo introdutório da sociologia. 
Fonte ideal para estudantes de sociologia e certamente uma inspiração para a nova geração de sociólogos. 
ANTHONY GIDDENS é Ex-Diretor da London School of Economics.
PROFESSORES
VISITE A ÁREA DO PROFESSOR E FAÇA DOWNLOAD DE POWERPOINTS PRONTOS 
PARA SEREM UTILIZADOS EM SALA DE AULA.
ALUNOS
ENTRE NO SITE PARA TESTAR SEUS CONHECIMENTOS E TER ACESSO 
A MATERIAL COMPLEMENTAR.
ÁREA DO PROFESSOR
CONTEÚDO ONLINE
Anthony Giddens Sociologia
A
n
th
ony G
idd
en
s Sociolog
ia
02516 _Giddens_Sociologia.indd 1 13/03/2017 15:10:32
G453s Giddens, Anthony.
 Sociologia / Anthony Giddens ; tradução: Ronaldo Cataldo 
Costa ; revisão técnica: Fernando Coutinho Cotanda. – 6. ed. – 
Porto Alegre : Penso, 2012.
847 p. : il. color. ; 28 cm.
 ISBN 978-85-63899-26-2
1. Sociologia. I. Título. 
CDU 316
Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052
Anthony Giddens é ex-diretor da London School of Economics.
Philip W. Sutton é professor na University

Mais conteúdos dessa disciplina