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SOCIOLOGIA RICHARD T. SCHAEFER 6a EDIÇÃO 6a EDIÇÃO As aulas de Sociologia, consideradas pelo autor deste livro “o laboratório ideal onde pode- mos estudar nossa própria sociedade e as dos nossos vizinhos globais”, permitem ao aluno desenvolver o pensamento crítico, tornando-o capaz de aplicar as teorias e os conceitos sociológicos para avaliar as interações e as instituições humanas e, assim, encontrar expli- cações sociológicas para os diversos fenômenos que permeiam as relações sociais. O aluno inicia estudando o que é Sociologia e o seu objeto de pesquisa para depois entrar em contato com temas de interesse imediato e, em sua maior parte, com temas mais abrangentes, que lhe permitirão desenvolver o pensamento crítico e a imaginação sociológica. As seções “Use a Sua Imaginação Sociológica” e “Pense Nisto”, por exemplo, dão suporte à proposta do autor. Sociologia aborda temas que vão da educação bilíngüe à existência da escravidão em pleno século XXI, incluindo o estudo da imigração, da situação dos moradores de rua, da superpo- pulação, do processo do envelhecimento das pessoas nas diferentes culturas, até problemas mais recentes como os ataques de 11 de setembro de 2001 e suas conseqüências sociais – como as pessoas passaram a lidar com a situação depois desse acontecimento e, em espe- cial, como elas reagem diante das minorias. Aplicações Livro-texto para a disciplina Introdução à Sociologia dos cursos de graduação em Socio- logia, Filosofia, Psicologia, Pedagogia, Administração de Empresas, Economia, História, Engenharia, entre outros, bem como dos cursos de pós-graduação (MBA e lato sensu) destas mesmas áreas, especialmente de Administração de Empresas. R ich ard T. Sch aefer SO C IO LO G IA Sociologia www.grupoa.com.br Sociologia Schaefer.indd 1 24/10/13 09:53 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) S294s Schaefer, Richard T. Sociologia [recurso eletrônico] / Richard T. Schaefer ; tradução: Eliane Kanner, Maria Helena Ramos Bononi ; revisão técnica: Noêmia Lazzareschi, Sérgio José Schirato. – 6. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2014. Publicado também como livro impresso em 2006. ISBN 978-85-8055-316-1 1. Sociologia. I. Título. CDU 316 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052 Índice para catálogo sistemático: 1. Sociologia 301 Iniciais_eletronica.indd 2 23/10/13 15:15 Entendendo Sociologia 3 o que é sociologia? “O que a sociologia tem a ver comigo ou com a minha vida?” Como estudante, você também poderia ter feito essa pergunta ao se matricular no curso de Introdução à Sociologia. Para obter a resposta, considere estes pon- tos: Você é influenciado pelo que vê na televisão? Você usa a Internet? Você votou nas últimas eleições? Você participa das bebedeiras no campus? Você usa medicina alternativa? Essas são apenas algumas das situações do dia-a-dia descritas neste livro, sobre as quais a sociologia traz alguma luz. Mas, como indica o texto de abertura, a sociologia também observa grandes problemas sociais. Usamos a sociologia para investigar por que milhares de empregos migraram dos Estados Unidos e foram para países em desenvolvimento, que forças sociais promo- vem o preconceito, o que leva alguém a se juntar a um movimento social e a trabalhar por mudanças sociais, como o acesso à tecnologia da computação pode reduzir a desigualdade, e por que as relações entre homens e mu- lheres em Seattle são diferentes daquelas em Cingapura, por exemplo. A sociologia é, de modo bem simples, o estudo sis- temático do comportamento social e dos grupos huma- nos. Ela focaliza as relações sociais, como essas relações influenciam o comportamento das pessoas, e como as sociedades, a soma de tais relações, se desenvolvem e mudam. A Imaginação Sociológica Na tentativa de entender o comportamento social, os sociólogos se baseiam em um tipo incomum de pensa- mento criativo. Um importante sociólogo, C. Wright Mills, descreve tal pensamento como a imaginação sociológica – uma consciência da relação entre o indiví- duo e a sociedade mais ampla. Essa consciência permite as suas tentativas de sobreviver disfar- çada em uma trabalhadora de baixa renda disfarçada em diferentes cidades dos Estados Unidos, a jornalista Barbara Ehrenreich desvendou padrões de inte- ração humana e usou métodos de estudo relacionados à investigação sociológica. Esse excerto do seu livro Nickel and Dimed: On (Not) Getting By in America [Miséria à americana] descreve como Ehren- reich deixou sua casa confortável e assumiu a identi- dade de uma dona-de-casa divorciada de meia-idade, sem diploma universitário, e com pouca experiência de trabalho. Ela foi em busca de um emprego que pagasse melhor e de uma forma de vida mais econômica para ver se conseguiria sobreviver. Meses depois, completa- mente exausta e desmoralizada pelas regras de trabalho, Ehrenreich pôde confirmar o que já suspeitava antes de começar: sobreviver naquele país como um trabalhador de baixa renda é uma aposta difícil de ganhar. O estudo de Ehrenreich revelou uma sociedade de- sigual, o que constitui um tópico central da sociologia. A desigualdade social tem uma influência determi- nante nas interações e instituições humanas. Certos grupos de pessoas controlam recursos escassos, usam o poder e recebem tratamento especial. A foto que abre este capítulo ilustra outro foco comum dos sociólogos, os elementos da cultura que definem uma sociedade. Na Índia, as histórias em quadrinhos são uma forma muito popular de mídia que reflete valores culturais centrais. Embora possa ser interessante saber como um indi- víduo faz para pagar suas contas, ou mesmo pode ser afetado pelos conteúdos de uma revista de aventura em quadrinhos, os sociólogos se preocupam em saber como grupos inteiros de pessoas são afetados por esses fatores, e como a própria sociedade pode ser alterada por eles. Assim, os sociólogos não estão preocupados com o que um indivíduo faz ou deixa de fazer, mas com o que as pessoas fazem como membros de um grupo, ou na interação com os outros, e o que isso significa para os indivíduos e para a sociedade como um todo. Como campo de estudo, a sociologia tem uma abrangência extremamente ampla. Você verá neste livro a gama de tópicos que os sociólogos investigam – do suicídio ao hábito de ver televisão, da sociedade Amish aos padrões econômicos globais, da pressão entre os pares às técnicas de bater carteira. A sociologia observa como os outros influenciam o nosso compor- tamento; como as grandes instituições sociais, como o governo, a religião e a economia, nos afetam; e como nós mesmos afetamos outros indivíduos, grupos ou até organizações. Como se desenvolveu a sociologia? De que forma ela é diferente das outras ciências sociais? Este capítulo vai explorar a natureza da sociologia como um campo de pesquisa e como um exercício de “imaginação so- cial”. Olharemos para a disciplina como uma ciência e considerar sua relação com as outras ciências so- ciais. Conheceremos três pensadores pioneiros – Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx – e examinaremos as perspectivas teóricas que se desenvolveram a partir do trabalho deles. Por fim, vamos considerar as formas como a sociologia nos ajuda a desenvolver uma imagi- nação sociológica. N Capitulo 01.indd 3 23/10/13 14:58 Você é o que Você tem? se sua imaginação sociológica para analisar o “mundo material” de três sociedades dife- rentes. as fotos são do livro Material World: A Global Family Portrait [Mundo material: um retrato da família global]. os fotógrafos selecionaram uma família “estatisticamente média” em cada país que visitaram e fotografaram essa famílias com todos os seus bens, na casa onde moram. são mostradas, aqui, famílias nos estados Unidos (texas), em Mali e na islândia. o que os bens materiais nos revelam sobre o tipo de transporte, os alimentos, o tipo de moradiaof Leeds e na Robert Gordon University. _Livro_Giddens.indb ii_Livro_Giddens.indb ii 03/04/17 10:1903/04/17 10:19 Anthony Giddens26 Karl Marx As ideias de Karl Mark (1818-1883) contrastam nitidamente com as de Comte e Durkheim, mas, como eles, Marx procu-rou explicar as mudanças que estavam ocorrendo na sociedade durante a época da Revolução Industrial. Quando jovem, as ati-vidades políticas de Marx o colocaram em conflito com as au-toridades alemãs; depois de uma breve estadia na França, ele se exilou permanentemente na Grã- Bretanha. Marx testemunhou o crescimento de fábricas e da produção industrial, bem como as desigualdades resultantes. Seu interesse no movimento ope-rário europeu e nas ideias socialistas refletia em seus escritos, que cobriam uma diversidade de temas. Grande parte do seu trabalho se concentrava em questões econômicas, mas, como sempre se preocupou em conectar os problemas econômicos com instituições sociais, sua obra era, e ainda é, rica em visões sociológicas. Mesmo seus críticos mais severos consideram seu trabalho importante para o desenvolvimento da sociologia. Capitalismo e luta de classe Embora tenha escrito sobre várias fases da história, Marx concentrou-se principalmente nas mudanças nos tempos modernos. Para ele, as mudanças mais importantes estavam ligadas ao desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção que se diferencia radicalmente de todos os sistemas econômicos anteriores, envolvendo a pro- dução de bens e serviços vendidos a uma ampla variedade de consumidores. Marx identificou dois elementos básicos nas empresas capitalistas. O primeiro é o capital – qualquer re- curso, incluindo dinheiro, máquinas ou mesmo fábricas, que possa ser usado ou investido para criar recursos futuros. A acumulação do capital acompanha um segundo elemento, a mão de obra assalariada. A mão de obra assalariada refere- -se ao conjunto de trabalhadores que não possuem os meios para sua sobrevivência, mas que devem buscar emprego pro- porcionado pelos donos do capital. Marx argumentava que aqueles que possuem o capital – capitalistas – formam uma classe dominante, ao passo que a massa da população forma uma classe de trabalhadores assalariados – uma classe traba- lhadora. À medida que a industrialização avançava, grandes quantidades de camponeses que se sustentavam trabalhando na terra se mudaram para as cidades em processo de expan- são ajudaram a formar uma classe trabalhadora industrial ur- bana. Essa classe trabalhadora também costuma ser chamada de proletariado. Marx acreditava que o capitalismo era um sistema ineren- temente classista, no qual as relações de classe se caracterizam pelo conflito. Embora os donos do capital e trabalhadores de- pendam uns dos outros – os capitalistas precisam da mão de obra e os trabalhadores precisam do salário – a dependência é muito desequilibrada. A relação entre as classes é de explo- ração, pois os trabalhadores têm pouco ou nenhum controle sobre o seu trabalho, e os empregadores podem obter lucro apropriando-se do produto da mão de obra dos trabalhadores. Marx enxergou que o conflito de classe quanto aos recursos econômicos se tornaria mais agudo com o passar do tempo. Mudança social: a concepção materialista da história O ponto de vista de Marx baseia-se naquilo que chamou de concepção materialista da história. Segundo essa visão, não são as ideias ou os valores que os seres humanos detêm que são as principais fontes de mudanças sociais; ao invés disso, as mudanças sociais são primordialmente induzidas por in- fluências econômicas. Os conflitos entre as classes propor- cionam a motivação para o desenvolvimento histórico – eles são o “motor da história”. Conforme escreveu Marx no co- meço do Manifesto Comunista, “a história de todas a socieda- des que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classe” (Marx e Engels 2001 [1848]). Embora Marx tenha concentrado sua atenção mais no capitalismo e na sociedade moderna, ele também analisou como as sociedades se desen- volveram no decorrer da história. Segundo ele, os sistemas sociais fazem uma transição de um modo de produção para outro – às vezes gradualmente, às vezes por uma revolução – como resultado de contradições em suas economias. Ele pro- pôs uma progressão de estágios históricos que começa com as sociedades comunistas primitivas de caçadores e coletores e passa pelos antigos sistemas escravagistas e sistemas feudais baseados na divisão entre proprietários de terras e servos. O surgimento de mercadores e artesãos marcou o começo de uma classe comercial ou capitalista, que deslocou a nobreza proprietária de terra. De acordo com essa visão da história, Marx argumentava que, assim como haviam se unido para derrubar a ordem feudal, os capitalistas também seriam su- plantados por uma nova ordem instalada: o comunismo. Marx teorizou a inevitabilidade de uma revolução de tra- balhadores que derrubaria o sistema capitalista e anunciaria uma nova sociedade, na qual não haveria classes – nenhuma divisão de grande escala entre ricos e pobres. Ele não quis dizer que todas as desigualdades entre os indivíduos desapa- receriam, pelo contrário, a sociedade não seria mais dividida em uma pequena classe que monopoliza o poder econômico e político e a grande massa de pessoas que recebem poucos benefícios pela riqueza que seu trabalho gera. O sistema eco- nômico passaria a ser de propriedade comum, e se estabele- ceria uma sociedade mais humana do que a que conhecemos _Livro_Giddens.indb 26_Livro_Giddens.indb 26 03/04/17 10:1903/04/17 10:19 Anthony Giddens28 atualmente. Marx argumentava que, na sociedade do futuro, a produção seria mais avançada e eficiente do que a produção sob o capitalismo. O trabalho de Marx teve uma profunda influência no mundo do século XX. Até apenas uma geração atrás, mais de um terço da população da terra vivia em sociedades, como a União Soviética e os países do Leste Europeu, cujos governos afirmavam derivar sua inspiração das ideias de Marx. Max Weber Como Marx, Max Weber (1864-1920) não pode ser simples- mente rotulado como sociólogo; seus interesses e preocu- pações cobriam muitas áreas. Nascido na Alemanha, onde passou a maior parte da sua carreira acadêmica, Weber foi um indivíduo muito estudioso. Seus escritos cobriam os cam- pos da economia, do direito, da filosofia e da história com- parativa, além da sociologia. Grande parte do seu trabalho também estava relacionada com o desenvolvimento do capi- talismo moderno e as maneiras em que a sociedade moderna era diferente de formas anteriores de organização social. Por uma série de estudos empíricos, Weber propôs algumas das características básicas das sociedades industriais modernas e identificou debates sociológicos cruciais que permanecem centrais para os sociólogos atualmente. Em comum com outros pensadores da sua época, Weber buscou entender a natureza e as causas das mudanças sociais. Ele foi influenciado por Marx, mas também foi bastante crítico de algumas das principais visões de Marx. Ele rejeitava a con- cepção materialista da história e considerava os conflitos de classe menos significativos do que Marx. Segundo a visão de Weber, os fatores econômicos são importantes, mas as ideias e os valores também têm um grande impacto nas mudanças sociais. A elogiada e discutida obra de Weber, A ética protes- tante e o espírito do capitalismo (1992 [1904-195]), propõe que os valores religiosos – especialmente aqueles associados ao puritanismo – tinham importância fundamental para criar uma perspectiva capitalista. Ao contrário de outros pensado- res sociológicos, Weber argumentava que a sociologia devia se concentrar na ação social, e não em estruturas sociais. Ele argumentava que a motivação e as ideias humanas eram as for- ças por trás da mudança – ideias, valores e opiniões tinham o poder de causar transformações. Segundo Weber, os indiví- duos têm a capacidade deagir livremente e de moldar o futuro. Ele não considerava, como Durkheim e Marx, que as estrutu- ras existiam fora ou independentemente dos indivíduos. Pelo contrário, as estruturas da sociedade eram formadas por uma complexa inter-relação de ações. E era trabalho da sociologia entender os significados por trás dessas ações. Alguns dos textos mais influentes de Weber refletem sua preocupação com a ação social, ao analisar a peculiarida- de da sociedade Ocidental em relação a outras civilizações importantes. Ele estudou as religiões da China, Índia e do Oriente Próximo e, no decorrer dessas pesquisas, fez gran- des contribuições para a sociologia da religião. Comparando os principais sistemas religiosos da China e da Índia com os do Ocidente, Weber concluiu que certos aspectos das crenças cristãs tiveram grande influência na ascensão do capitalismo. Ele argumentava que a perspectiva capitalista nas sociedades Ocidentais não emergiu, conforme supunha Marx, apenas de mudanças econômicas. Na visão de Weber, as ideias e os va- lores culturais ajudaram a moldar a sociedade e nossos atos individuais. _Livro_Giddens.indb 28_Livro_Giddens.indb 28 03/04/17 10:1903/04/17 10:19 Sociologia 29 Um elemento importante na perspectiva sociológica de Weber foi a ideia do tipo ideal. Os tipos ideais são mo- delos conceituais ou analíticos que podem ser usados para se entender o mundo. No mundo real, os tipos ideias rara- mente, ou nunca, existem – muitas vezes, apenas alguns dos seus atributos estão presentes. Todavia, essas construções hipotéticas podem ser muito proveitosas, pois é possível en- tender qualquer situação do mundo real comparando-a com um tipo ideal. Dessa forma, os tipos ideais servem como um ponto de referência fixo. É importante mostrar que, com o tipo “ideal”, Weber não queria dizer que a concepção era um objetivo perfeito ou desejável. Ao invés disso, Weber queria dizer que era uma forma “pura” de um certo fenômeno. We- ber usou os tipos ideais em seus escritos sobre formas de bu- rocracia e mercados econômicos. Racionalização Segundo a visão de Weber, a emergência da sociedade mo- derna foi acompanhada por importantes mudanças em pa- drões de ação social. Ele acreditava que as pessoas estavam se afastando de crenças tradicionais fundamentadas em su- perstição, religião, costumes e hábitos antigos. Pelo contrário, os indivíduos estavam cada vez mais envolvidos em cálculos racionais e instrumentais, que levavam em conta a eficiência e as consequências futuras dos seus atos. Na sociedade in- dustrial, havia pouco espaço para o sentimento e para fazer as coisas simplesmente porque vinham sendo feitas daquele modo há gerações. Weber descreveu o desenvolvimento da ciência, da tecnologia moderna e da burocracia coletiva- mente como racionalização – a organização da vida social e econômica segundo os princípios da eficiência e com base no conhecimento técnico. Se, nas sociedades tradicionais, a religião e os costumes antigos definiam as posturas e valores das pessoas, a sociedade moderna foi marcada pela raciona- lização de um número cada vez maior de áreas da vida, da política à religião e à atividade econômica. Segundo Weber, a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo foram evidências da tendência mais ampla para a racionalização. O capitalismo não é dominado pelo confli- to de classe, como argumentava Marx, mas pela ascensão da ciência e da burocracia: organizações de grande escala. We- ber considerava o caráter científico do Ocidente como um de seus aspectos mais característicos. A burocracia, o único modo de organizar grandes quantidades de pessoas efetiva- mente, expande-se com o crescimento econômico e político. Weber usou o termo “desencantamento” para descrever a maneira em que o pensamento científico no mundo moder- no havia varrido as forças do sentimentalismo do passado. Todavia, Weber não era totalmente otimista quanto ao resultado da racionalização. Ele temia que a disseminação da burocracia moderna para todas as áreas da vida nos aprisio- nasse em uma “jaula de ferro”, da qual haveria pouca chan- ce de escapar. A dominação burocrática, ainda que baseada em princípios racionais, poderia esmagar o espírito humano, tentando regular todas as esferas da vida social. Ele se preo- cupava particularmente com os efeitos sufocantes e desuma- nizantes da burocracia e suas implicações para o destino da democracia. A agenda aparentemente progressista da Era do Iluminismo do século XVIII, de progresso científico, aumen- tando a riqueza e a felicidade produzida enquanto rejeitava costumes tradicionais e superstições, também tinha um lado obscuro e com novos perigos. Abordagens teóricas modernas Os primeiros sociólogos estavam unidos em seu desejo de compreender as mudanças nas sociedades em que viviam. Porém, eles queriam fazer mais que apenas representar e interpretar os acontecimentos momentâneos do seu tempo. Todos tentaram desenvolver maneiras de estudar o mundo social que pudessem explicar como as sociedades funciona- vam e quais eram as causas das mudanças sociais. Ainda as- sim, como já vimos, Durkheim, Marx e Weber empregaram abordagens bastante diferentes em seus estudos. Por exem- plo, onde Durkheim e Marx se concentram na intensidade de forças externas ao indivíduo, Weber usa, como ponto de partida, a capacidade de os indivíduos agirem de maneiras criativas sobre o mundo externo. Onde Marx aponta para a predominância de questões econômicas, Weber considera significativa uma variedade muito mais ampla de fatores. Es- sas diferenças de abordagem persistiram através da história Max Weber (1864-1920). _Livro_Giddens.indb 29_Livro_Giddens.indb 29 03/04/17 10:1903/04/17 10:19 _Livro_Giddens.indb i_Livro_Giddens.indb i 03/04/17 10:1903/04/17 10:19 Anthony Giddens72 Max Weber: capitalismo e religião Em um importante trabalho, A ética protestante e o espírito do capitalismo (1992 [1904-1905]), Weber tenta abordar um problema fundamental: por que o capitalismo se desenvolveu no Ocidente e em nenhum outro lugar? Por aproximadamen-te 13 séculos depois da queda da Roma antiga, outras civili-zações foram muito mais proeminentes do que o Ocidente na história mundial. A Europa, de fato, era uma área bastante insignificante do planeta, enquanto a China, a Índia e o Im-pério Otomano no Oriente Longínquo eram grandes potên-cias. Os chineses, em particular, estavam muito à frente do Ocidente em termos de desenvolvimento tecnológico e eco-nômico. O que aconteceu para trazer uma onda de progresso econômico à Europa a partir do século XVII? Para responder essa questão, segundo Weber, devemos mostrar o que separa a indústria moderna dos tipos anterio-res de atividade econômica. Encontraremos o desejo de acu-mular riqueza em muitas civilizações diferentes, e isso não é difícil de explicar: as pessoas valorizam a riqueza em relação a conforto, segurança, poder e prazer que ela pode trazer. Elas querem ser livres de carências e, tendo acumulado ri-queza, a utilizam para viver confortavelmente. A religião no coração do capitalismo? Segundo Weber, se olharmos o desenvolvimento econômi-co do Ocidente, encontraremos algo bastante diferente: uma atitude de acumulação de riqueza que não se encontra em nenhuma outra parte da história. Essa atitude é o que Weber chamou de “espírito do capitalismo” – um conjunto de cren-ças e valores encontrado nos primeiros mercadores e indus-trialistas capitalistas. Essas pessoas tinham um forte impulso de acumular riqueza pessoal. Ainda assim, ao contrário dos ricos em outras partes, eles não tentavam usar suas riquezas acumuladas para ter um estilo de vida luxuoso. Seu modo de vida, de fato, era de abnegação e frugalidade; eles viviam de forma sóbria e calma, ocultando as manifestações comuns de afluência. Essa combinação incomum de características, que Weber tentou mostrar, foi vital para o desenvolvimen-to econômico ocidental, pois, ao contráriodos ricos em eras anteriores e em outras culturas, esses grupos não dissipavam sua riqueza: pelo contrário, eles a reinvestiam para promover uma expansão maior das empresas que dirigiam. O núcleo da teoria de Weber é que as atitudes envolvidas no espírito do capitalismo derivavam da religião. O cristianis- mo, em geral, teve o papel de promover essa perspectiva, mas a força motivadora essencial foi proporcionada pelo impacto do protestantismo, em particular: o puritanismo. Os primeiros capitalistas eram principalmente puritanos, e muitos aderiam aos pontos de vista calvinistas. Weber argumentava que certas doutrinas calvinistas eram a fonte direta do espírito do capita- lismo. Uma delas era a ideia de que os seres humanos são ins- trumentos de Deus na Terra, chamados pelo Todo-Poderoso para trabalhar em uma vocação – uma ocupação para a glória maior de Deus. Um segundo aspecto importante do calvinismo era a noção de predestinação, segundo a qual apenas certos indi- víduos predestinados estão entre os “eleitos” – para entrar no paraíso, na vida eterna. Na doutrina original de Calvino, nada que uma pessoa faça na Terra pode mudar se ela é um dos eleitos; isso já foi predeterminado por Deus. Todavia, essa crença causava tanta ansiedade entre seus seguidores que foi modificada, permitindo que os crentes reconheces- sem certos sinais de elegibilidade. O sucesso no trabalho em uma determinada vocação, indicado pela prosperidade material, tornou-se o principal sinal de que uma pessoa era verdadeiramente um dos eleitos. Criou-se um forte ímpeto para o sucesso econômico entre grupos influenciados por essas ideias. Ainda assim, ele era acompanhado pela necessidade de que o crente vivesse uma vida sóbria e frugal. Os puritanos acreditavam que a luxúria era um mal, de modo que o impulso de acumular riqueza era ligado a um estilo de vida severo e simples. Os primeiros empreendedores tinham pouca consciên- cia de que estavam ajudando a fazer mudanças significativas na sociedade; eles eram impelidos, acima de tudo, por mo- tivos religiosos. O estilo ascético – ou seja, abnegado – dos puritanos se tornou uma parte intrínseca da civilização mo- derna. Conforme escreveu Weber: _Livro_Giddens.indb 72_Livro_Giddens.indb 72 03/04/17 10:2003/04/17 10:20 Sociologia 73 Os puritanos querem seguir uma vocação. Somos forçados a fazê-lo. Pois quando o ascetismo saiu das celas monásticas para a vida cotidiana, e começou a domi- nar a moralidade mundana, ele fez a sua parte em construir o tremendo cosmos da ordem econômica moderna.... Desde que o ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se desenvolver, os bens materiais adquiriram um poder cada vez maior e finalmente inexorável sobre a vida dos homens, como em nenhum período anterior da história.... A ideia do dever na vocação ronda nossas vidas como o fantasma de crenças religiosas mortas. (1992, p. 182) Avaliação A teoria de Weber tem sido criticada por muitos ângulos. Alguns argumentam, por exemplo, que a perspectiva que ele chamava de “o espírito do capitalismo” pode ser identifica- da nas primeiras cidades mercantes italianas do século XII, muito antes de se ouvir falar em calvinismo. Outros afirmam que a noção fundamental de “trabalhar em uma vocação”, que Weber associou ao protestantismo, já existia nas crenças católicas. Ainda assim, os elementos essenciais da visão de Weber ainda são aceitos por muitos, e a tese que ele defen- dia permanece tão audaz e esclarecedora quanto na época em que foi formulada. Se a tese de Weber é válida, o desenvolvi- mento econômico e social moderno foi influenciado decidi- damente por algo que, à primeira vista, parece muito distante dele – um conjunto de ideais religiosos. Isso é algo que Marx não enxergou dentro das relações econômicas capitalistas. A teoria de Weber cumpre vários critérios importantes do pensamento teórico em sociologia. Primeiramente, ela é contraintuitiva –sugere uma interpretação que rompe com aquilo que sugeriria o senso comum. Assim, a teoria desen- volve uma perspectiva nova sobre as questões que aborda. A maioria dos autores antes de Weber quase não pensava na possibilidade de que ideias religiosas pudessem ter exercido um papel fundamental na origem do capitalismo. Em segun- do lugar, a teoria dá sentido a algo que, de outra forma, se torna intrigante: por que os indivíduos quereriam viver fru- galmente enquanto fazem grandes esforços para acumular ri- queza? Em terceiro, a teoria é capaz de esclarecer circunstân- cias além daquelas que se propunha a explicar originalmente. Weber enfatizava que estava tentando entender apenas as origens iniciais do capitalismo moderno. Todavia, parece ra- zoável supor que valores paralelos aos instilados pelo purita- nismo podem estar envolvidos em outras situações de desen- volvimento capitalista bem-sucedido. Finalmente, uma boa teoria não é apenas aquela que se mostra válida. Também é aquela que é frutífera em termos do quanto gera novas ideias e estimula novas pesquisas. A teoria de Weber, como a análise de Marx sobre o ca- pitalismo, certamente é bem-sucedida nesses sentidos, pro- porcionado um trampolim para uma vasta quantidade de pesquisas e análises teóricas subsequentes. A abordagem de Weber à sociologia também forma a base para a tradição co- nhecida como interacionismo. Interacionismo simbólico, fenomenologia e etnometodologia Juntamente com Max Weber, credita-se ao behaviorista so- cial norte-americano George Herbert Mead ter estabelecido as bases para uma abordagem geral da sociologia chamada interacionismo. Esse é um rótulo geral que cobre todas as abordagens que investigam as interações sociais entre indiví- duos, em vez de partir da sociedade ou das estruturas sociais que a constituem. Os interacionistas muitas vezes rejeitam a própria noção de que as estruturas sociais existem objeti- vamente, ou simplesmente não as levam em conta. Herbert Blumer (que cunhou o termo “interacionismo simbólico”) argumentava que toda a conversa sobre estruturas sociais ou sistemas sociais é injustificada, pois somente se pode dizer que existem, realmente, indivíduos e suas interações. O interacionismo simbólico concentra-se na interação no nível micro e na maneira em que os significados são cons- truídos e transformados entre os membros da sociedade. G. H. Mead (1934) argumentava que o self do indivíduo é um self social, produzido no processo de interação, ao invés de ser biologicamente dado. A teoria de Mead traça a emergência e o desenvolvimento do self através de uma série de estágios na infância, e suas ideias sobre o self social fundamentam grande parte da pesquisa interacionista (ver o Capítulo 1 para uma discussão das ideias de Mead). O lar dessa perspectiva, por 30 anos, até 1950, foi o departamento de sociologia da Uni- versidade de Chicago (conhecido como a Escola de Chicago), embora, de maneira alguma, todos os sociólogos de Chicago fossem interacionistas simbólicos. O departamento também era o lar da abordagem “ecológica” de Louis Wirth, Robert E. Park e Ernest Burgess (ver o Capítulo 6, “Cidades e vida urbana”, para uma discussão dessa abordagem). Todavia, a base institucional para os principais interacionistas, incluindo Mead, foi um fator importante para ampliar a abordagem. Possivelmente, o interacionista simbólico de maior êxito seja Erving Goffman. Os estudos de Goffman sobre os “asi- los” mentais, processos de estigmatização e as maneiras em que as pessoas apresentam seus selves em encontros sociais se tornaram clássicos sociológicos, tanto por seu estilo meto- dológico e observacional quando por seus resultados. Ao de- senvolver sua “análise dramatúrgica”, que trabalha com a me- táfora do teatro, as ideias de Goffman tiveram uma influência muito ampla sobre estudantes de todo o mundo.REFLEXÃO CRÍTICA A teoria de Weber sobre a origem do capitalismo vai além do conceito de Merton de uma “teoria intermediária”. Porém, será que os estudos existentes podem testá-laefetivamente? Liste todos os elementos do capitalismo descritos por Weber. O que a teoria acrescenta à nossa compreensão da natureza, caráter e provável desenvolvimento futuro do capitalismo moderno? _Livro_Giddens.indb 73_Livro_Giddens.indb 73 03/04/17 10:2003/04/17 10:20 TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir as características da produção da Escola de Chicago de Sociologia. � Identificar as particularidades metodológicas da Escola de Frankfurt de Teoria Crítica. � Reconhecer as características de uma escola de pensamento. Introdução Neste texto, você conhecerá dois importantes movimentos da tradição sociológica do início do século XX: a Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago. Essas duas escolas se vincularam a importantes institutos de pesquisas e universidades das cidades em que se desenvolveram. Apesar do tratamento conjunto de ambas, elas constituem dois movimentos diferentes, como você verá. A Escola de Chicago de Sociologia Os Estados Unidos têm abrigado diversas pesquisas sobre os meios de co- municação. No início do século XX, os pesquisadores Robert Ezra Park (1864–1944), Ernest Burgess (1886–1966) e Charles H. Cooley (1864–1929) se reuniram em torno da Escola de Chicago. Essa escola, por meio de uma abordagem microssociológica sobre a cidade, passou a investigar o objeto da comunicação (ARAÚJO, 2013). Mais precisamente, desde a década de 1910, a comunicação no território norte-americano se encontra relacionada ao projeto de construção de uma ciência social sobre bases empíricas, sendo a Escola TC_U3_C09.indd 139 10/11/2017 15:19:53 de Chicago a sede desse mesmo projeto. Assim, a perspectiva microssociológica sobre os meios de comunicação que fazem parte da organização social é parte de uma reflexão mais ampla. Essa reflexão tem relação com o papel da ciência na resolução dos desequilíbrios sociais. A hegemonia da Escola de Chicago dura até por volta das vésperas da Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, o enfoque da pesquisa sobre os Meios de Comunicação de Massa (MCM) é deslocado para análises quantitativas. Desse modo, nos anos 1940, a supremacia da Escola de Chicago é suplantada pela da Mass Communication Research (MATTELART; MATTELART, 1997b). Contexto da Escola de Chicago Nessa tradição teórica, a cidade se apresentava como um local privilegiado para se observar o processo comunicativo. Entre o final do século XIX e o início do XX, as cidades estavam passando por grandes transformações. Essas mudanças traziam impactos profundos nas relações estabelecidas entre as pessoas e nas atividades sociais que elas exerciam. Era preciso, então, outro olhar sobre a cidade, pois ela passara a se construir de forma muito diferente. Assim, nesse novo contexto urbano, marcado pela industrialização e pela urbanização, uma nova abordagem sobre a sociedade passava a ser “solici- tada”. Ou seja, se requeriam estudos que trouxessem formas de compreender os problemas causados por esses acontecimentos. O crime, a prostituição, o abandono e a dependência eram alguns dos problemas que estavam associados ao aumento do anonimato, do isolamento entre os indivíduos e da incerteza incrementada pela vida moderna. Só que, além das mudanças sociais e econô- micas trazidas pela industrialização e pela urbanização, as diversas formas de cultura de massa – tais como música, livro, revista, jornal, filme, etc. – foram apontadas como colaboradoras do aumento do crime, do declínio da moral social, do agravamento da brutalidade e da impessoalidade – esta última em virtude da perda da ligação com os outros indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade (MCQUAIL, 2000). Com a diminuição da integração social, os pesquisadores norte-americanos passaram a conceber os meios de comunicação de massa como possíveis A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago140 TC_U3_C09.indd 140 10/11/2017 15:19:53 potencializadores dessa integração. No entanto, é importante você considerar o modo distinto de interpretação da influência gerada pelos MCM. Nesse sentido, a forma como os pesquisadores viam esses meios estava relacionada a uma atitude otimista ou pessimista do observador quanto às mudanças da sociedade. Logo, os meios de comunicação poderiam ser observados em termos negativos – em virtude do aumento do crime, da imoralidade e da solidão –, mas também positivos – pois poderiam ser capazes de ligar os indivíduos por meio de novas experiências. Ademais, a primeira parte do século XX se caracterizava tanto pelo ápice do nacionalismo, da revolução e do conflito social como pelo pensamento progressivo, pelo avanço da democracia e pela evolução científica e tecnológica (MCQUAIL, 2000, p. 39). De 1915 a 1935, muitas pesquisas da Escola de Chicago foram dedicadas a temas como imigração e integração dos imigrantes na sociedade norte-americana. Robert Ezra Park, que era um jornalista militante pela causa negra, foi uma das figuras de destaque da Escola de Chicago. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30-31), Park transforma a sua prática jornalística e elabora uma forma “superior” de reportagem a partir das pesquisas sociológicas feitas nos bairros da periferia. Em um dos seus estudos sobre as comunidades étnicas, o pesquisador questiona a função assimiladora dos jornais e, em especial, das publicações feitas em línguas estrangeiras. Ele também reflete sobre a natureza da informação, o profissionalismo do jornalismo e a diferença entre informação e propaganda. De acordo com Clark (1969 apud MCQUAIL, 2000), Robert Park e o seu aluno Herbert George Blumer (1900-1987) foram alguns dos que destacaram o potencial positivo dos meios de comunicação de massa na pesquisa realizada sobre a assimilação de imigrantes nos Estados Unidos. Além disso, para McCornack (1961 apud MCQUAIL, 2000), os MCM também apresentavam um potencial positivo. Na sua perspectiva, uma sociedade moderna e em mudança se apresenta de forma segmentada. Nela, a única função dos meios de comunicação é proporcionar à indústria e à sociedade uma coerência, isto é, uma “síntese da experiência” e uma “consciência do todo”. Características da Escola de Chicago Uma das características fundamentais dessa escola é a objetividade cientí- fica. Esse princípio leva a outros dois, que são: a investigação indutiva e a imparcial. Para essa tradição, a sociedade deve ser compreendida por meio do método científico, do indutivismo e da neutralidade. Esses métodos são as 141A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 141 10/11/2017 15:19:53 bases dos estudos realizados pelas ciências naturais. Além disso, o enfoque sociológico dessa escola se dá no espaço da cidade, isto é, no meio urbano, em especial no que envolve as cidades norte-americanas e o processo de exclusão urbana. Segundo Mattelart e Mattelart (1997b, p. 30), a cidade é observada como um laboratório social: caracterizada pelos signos de desorganização, marginalidade, aculturação, assimilação e mobilidade, ela é o espaço privi- legiado de estudo da Escola de Chicago. O sociólogo alemão Georg Simmel (1858–1918) e o francês Gabriel Tarde (1843–1904) influenciaram as pesquisas norte-americanas sobre a cidade com seus conceitos próximos de “situações concretas”. Suas influências ajudaram os americanos a criar ferramentas científicas para analisar atitu- des e comportamentos relativos ao espaço urbano. O biólogo alemão Ernest Haeckel (1834–1919) também exerce influência nos estudos dessa tradição sociológica por meio da noção de ecologia como a ciência das relações do organismo com o meio ambiente. Na ecologia humana ou economia biológica, expressão usada por Park, a luta pelo espaço é o que rege as relações entre os indivíduos. Essa luta ou competição é observada como um princípio de organização. Isso ocorreporque, nas sociedades dos homens, além da competição, existe a divisão do trabalho. Esses dois fatores resultam em formas de cooperação competitiva que constituem o nível biótico da orga- nização humana. Há também o nível social ou cultural, que se impõe como direção ou controle. Assumido pela comunicação e pela moral, esse nível regula a competição, levando os indivíduos a partilharem uma experiência, se vinculando à sociedade. Você pode encontrar ainda, no pragmatismo de John Dewey (1859–1951), George Herbert Mead (1863-1931) e, principalmente, Charles Cooley (1864- 1929), outras influências para essa escola. Cooley, inclusive, é anterior a Park na análise dos processos comunicacionais. É ele quem usa primeiramente a expressão grupo primário para indicar grupos que se constituem pela asso- ciação e pela cooperação íntima entre si. Esse tipo de análise era importante para avaliar os impactos trazidos pela urbanização, pela industrialização e pelos novos meios de comunicação. Ela também era relevante para compre- ender que o indivíduo poderia viver uma experiência singular e única, mas estava ao mesmo tempo submetido ao processo de homogeneização dessa experiência. Essa visão ambivalente sobre o processo de individualização do cidadão urbano surge na noção de mídia da Escola de Chicago, pois os MCM são observados tanto como elementos de emancipação do indivíduo como de aceleramento da superficialidade das relações sociais (MATTELART; MATTELART, 1997b, p. 35-36). A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago142 TC_U3_C09.indd 142 10/11/2017 15:19:54 Indutivismo O indutivismo é uma das características marcantes da Escola de Chicago. Esse procedimento investigativo se relaciona à noção de objetividade, que é a base para a construção do objeto científico. A esse respeito, é importante você ficar atento ao que significa o indutivismo e à sua oposição com relação ao dedutivismo: enquanto o primeiro parte de uma realidade particular, o segundo é indagado por meio de uma hipótese levantada para a pesquisa, a qual se procura validar na prática. No processo dedutivo, se parte de uma verdade já conhecida, já dada. Essa verdade funciona como um pressuposto geral. Assim, os casos a serem pesquisados serão demonstrados a partir dela. Dito de outro modo: na dedução, é demonstrado que uma verdade sabida se aplica a todos os casos particulares iguais, conforme aponta Chauí (2013, p. 78). É por esse motivo que comumente se fala que na dedução o pesquisador vai do geral ao particular ou do universal ao individual. Já na indução, o pesquisador segue o caminho oposto. Com ela, ele parte de casos particulares iguais ou semelhantes para procurar uma lei, definição, verdade ou teoria geral. Essa lei, por sua vez, poderá explicar todos esses casos particulares. Desse modo, a definição, explicação ou teoria não é dada no início nem é o ponto de partida da pesquisa, como no percurso dedutivo. Na trajetória investigativa de caráter indutivo, a teorização é o ponto final. É esse o trajeto seguido pela Escola de Chicago. Por meio desse método, essa escola estudaria os processos comunicativos pelo critério de objetividade científica, que é a base para a ciência. Além disso, você precisa saber que a razão é um importante elemento para guiar a indução, pois é formada por um conjunto de regras específicas. Se essas regras não forem consideradas, a indução poderá ser invalidada (CHAUÍ, 2013). A Escola de Frankfurt de Teoria Crítica De acordo com Wolf (1999), a Escola de Frankfurt de Teoria Crítica repre- senta a corrente oposta da Mass Communication Research. Isso ocorre porque ela se contrapõe ao conhecimento que estava sendo elaborado pela Pesquisa Administrativa norte-americana. A Teoria Crítica é comumente associada ao grupo de pesquisadores que frequentaram o Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, fundado em 1923. A identidade central da abor- dagem crítica se dá na construção analítica dos fenômenos investigados e na capacidade de relacionar esses fenômenos às forças sociais que os engendram. 143A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 143 10/11/2017 15:19:54 Desse modo, a pesquisa dessa teoria se propõe como uma teoria social ou da sociedade vista como um todo. Vale a pena você considerar que esse é um forte ponto de contraposição da Teoria Crítica à Pesquisa Administrativa. Isso pois a Pesquisa Administrativa se especializa em disciplinas setoriais, as quais se dedicam a estudar campos de competência distintos. Então, essas disciplinas acabam, por meio dessa múltipla diferenciação e especialização, se desviando do entendimento da sociedade de forma global. Além disso, exercem muito mais uma função de manutenção da ordem social existente, no ponto de vista dos estudiosos críticos. Nas palavras de Wolf (1999, p. 83), “[...] a teoria crítica pretende ser o oposto, pretende evitar a função ideológica das ciências e das disciplinas setorializadas.”. Desse modo, a Teoria Crítica não trabalha com a noção de dados como informações extraídas da realidade. Nessa abordagem, os dados são produtos históricos, se constituem numa situação histórico-social determinada. É por isso que essa teoria é nomeada de Teoria Crítica ou de caráter crítico: nessa visão, não há dados ou verdades absolutas. Ela é uma teorização, uma pesquisa ou um estudo que se faz na prática. A análise realizada pela Escola de Frankfurt envolve uma investigação teórica que é contextualizada na sua prática. Dito de outro modo, a teoria deve partir da prática, pois é na prática que os problemas sociais surgem. Nessa concepção de pesquisa, os resultados obtidos na investigação feita por essa escola também devem ser ancorados na realidade. Contexto da Escola de Frankfurt Durante a República de Weimar – que é a forma histórica de nomear o Estado alemão entre os anos de 1919 e 1933 –, o filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer (1895–1973) e o economista, cientista social e filósofo alemão Friedrich Pollock (1894–1970) fundam o Instituto de Pesquisa Social. Esse instituto também é conhecido como Escola de Frankfurt, pois era filiado à Universidade de Frankfurt. Essa instituição se tornou famosa por ser a primeira de origem alemã de abordagem teórica marxista. No início, seus estudos tomam como objeto tanto a economia capitalista como a história do A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago144 TC_U3_C09.indd 144 10/11/2017 15:19:54 movimento operário. Em e 1930, quando Horkheimer passa a assumir a direção do instituto, ele traz um novo direcionamento ao programa. Após a tomada do poder por Hitler, com a ascensão do nazismo, Horkheimer foi desligado da direção do centro e, com essa ação, todos os membros judeus fundadores também o foram. O instituto acaba sobrevivendo porque, desde a sua origem, era financiado por empresários que faziam parte da comunidade judaica. Com a transferência dos fundos do centro para os Países Baixos – antiga denominação da costa da Europa ocidental que abarcava principalmente a Holanda e a Bélgica –, se criam anexos para dar continuidade aos estudos do instituto, como em Genebra e Paris. Entre os anexos criados, o único conside- rado estável para os pesquisadores exilados foi o da Universidade Columbia, em Nova Iorque. Lá, Horkheimer, o sociólogo alemão Leo Löwenthal (1900–1993) e o filósofo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno (1903–1969) passam a trabalhar em um dos prédios cedidos pela universidade norte-americana, em especial no chamado Institute of Social Research (Instituto de Pesquisa Social) (MATTELART; MATTELART, 1997a; WOLF, 1999). Caraterísticas da Escola de Frankfurt Os filósofos da Escola de Frankfurt se inspiraram na perspectiva marxista não ortodoxa (marxismo libertário) de interpretar a história. Esse método, contudo, passou por modificações porque foi retomado em confluência com outras áreas do saber, tais como a filosofia da cultura, a ética e a psicossociologia.O projeto dos filósofos era unir Marx e Freud. De maneira geral, Horkheimer e Adorno compartilham do ponto de vista epistemológico comum e se opõem à visão empírica adotada pelos estudos norte-americanos. Para eles, não era o objeto da pesquisa que deveria ser adaptado aos métodos empregados, mas os métodos ao objeto. Exilados nos Estados Unidos, Horkheimer e Adorno questionaram a trans- formação cultural ocorrida a partir dos anos 1940. Essa escola de pensamento crítico se interroga, assim, sobre as consequências do desenvolvimento dos novos meios de produção e transmissão cultural, recusando a ideia de que as inovações tecnológicas fortaleceriam necessariamente o sistema democrático. Dito de outro modo, a Teoria Crítica observa os meios de comunicação de massa como meios de poder e dominação (MATTELART; MATTELART, 1997a). Uma das críticas feitas pela Teoria Crítica se dá quanto à separação do indivíduo da sociedade, separação esta que é resultado da histórica divisão de classes. Nessa avaliação, a Escola de Frankfurt apresenta a sua tendência para a crítica dialética da Economia Política (Marxismo). Desse modo, o ponto de 145A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 145 10/11/2017 15:19:54 partida dos estudos críticos é a análise do sistema econômico de mercado (o capitalismo). Além da retomada dos aspectos fundamentais do materialismo marxista, os pesquisadores dessa escola realizam uma abordagem original: Horkheimer, Adorno, Marcuse e Habermas, só para citar alguns, observam os temas estruturais da sociedade, como autoritarismo, indústria cultural e transformação dos conflitos sociais em sociedades industrializadas, por meio dos fenômenos supraestruturais da cultura. E, ao fazerem isso, observam que as ciências sociais que se reduzem a técnicas de pesquisa e classificação de dados supostamente “objetivos” ignoram as suas possibilidades de intervenção e modificação social (WOLF, 1999). Indústria cultural é uma expressão usada por Adorno e Horkheimer pela primeira vez na obra Dialética do Iluminismo, iniciada em 1942 mas só publicada em 1947. Essa expressão, empregada para substituir cultura de massa, foi usada para indicar um sistema de produção, transmissão e consumo cultural promovido pelos meios de comunicação de massa, os quais impõem uma padronização e uma organização dos gostos do público. À primeira vista, as necessidades dos indivíduos parecem ser atendidas, porém esses indivíduos são inseridos em um círculo de manipulação que atende perfeitamente à lógica do sistema capitalista. Além disso, a indústria cultural fornece um ar de similitude a todos os bens que, padronizados, servem para “satisfazer” às demandas – estas são supostamente os critérios a que os padrões de produção devem atender. Com esse modo industrial de produção cultural, objetos são construídos por meio de uma marca de serialização-padronização-divisão do trabalho. Assim, a racionalidade técnica, supervalorizada na sociedade, promove a transformação da cultura em mercadoria e, consequentemente, dissolve e degrada o seu papel e o seu traço crítico (WOLF, 1999, MATTELART; MATTELART, 1997a). Assim, a Teoria Crítica acaba sendo, ou pelo menos tenta ser, uma teoria da sociedade que busca uma avalição crítica do próprio fazer científico. Ademais, a Sociologia, disciplina, aliás, que é retomada pela Escola de Frank- furt, só se transforma em crítica da sociedade quando considera as tensões que existem nela, tais como as que ocorrem entre as instituições e a vida, sem dissolver o social no natural (WOLF, 1999). Por fim, é importante que você saiba que a Escola de Frankfurt se baseia no materialismo, influenciado pelos estudos de Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895). No entanto, esse método é abordado pela escola A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago146 TC_U3_C09.indd 146 10/11/2017 15:19:54 por meio da interdisciplinaridade, uma vez que é formado pelos seguintes campos de estudo: Economia Política (Marxismo), Sociologia (Teoria da Cultura), Psicologia (em especial a Psicanálise) e Epistemologia (esta também é conhecida como Filosofia ou por meio da nomeação Teoria do Conhecimento). Além disso, o materialismo é interdisciplinar porque é tomado a partir da situação prática da teorização. O marxismo permitiu entender que os “fatos” humanos são instituições sociais e históricas. Portanto, são produzidos pelas condições sociais e históricas nas quais as ações e os pensamentos se realizam. Você pode considerar também que os ditos fatos humanos “primários” foram as relações dos homens com a natureza em busca de sobrevivência. Dessas relações, surgiram as de trabalho e, a partir delas, foram criadas as primeiras instituições sociais, a saber, a da família, a do pastoreio e agricultura, a da troca e comércio. Então, as primeiras instituições sociais originadas foram as econômicas. Para que elas fossem mantidas, os grupos sociais precisaram elaborar ideias e valores aceitos por todos, de tal forma que legitimassem a importância e a necessidade das instituições criadas. Além dessas ideias e valores, instituições de poder foram elaboradas para sustentar as relações sociais e esses mesmos valores (ou ideologias) produzidos. Assim, você pode afirmar que o marxismo ofereceu uma base para que as ciências humanas pudessem entender as relações entre o plano psicológico e social da existência do homem; entre o econômico e as instituições sociais e políticas; entre todas essas supracitadas e o conjunto de ideias e práticas produzidas por uma sociedade. Ademais, o marxismo possibilitou a compreensão de que as modificações ocorridas ao longo da história resultam de processos sociais, políticos e econômicos que são lentos, e não instantâneos. E é a materialidade da vida econômica que comanda as esferas da vida do indivíduo. Por fim, ciências como Sociologia, Ciência Política e História, à luz das ideias discutidas pelo marxismo, passaram a observar os fenômenos humanos como resultados de contradições, lutas e conflitos determinados pelas relações econômicas que exploram o trabalho da maioria em virtude de uma pequena minoria privilegiada da sociedade (CHAUÍ, 2013, p. 307). A constituição de uma escola de pensamento Do ponto de vista de Guillemard (apud BECKER, 1996), uma escola de pensamento consiste em um grupo de pesquisadores que compartilham um “pensamento” ou uma fundamentação epistemológica. Dito de outro modo, compartilham ideias gerais, pontos e questões de pesquisas e estudos. Eles 147A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 147 10/11/2017 15:19:54 não necessariamente precisam estar juntos, nem trabalhar no mesmo espaço, nem ter se encontrado fisicamente. Assim, você pode considerar que uma escola de pensamento se caracteriza por apresentar objetivos, programas de pesquisa e referenciais teóricos em comum. No entanto, a noção de escola não se fundamenta numa suposta homogeneidade compartilhada entre os pesquisadores. Isso significa que, embora existam pesquisas em torno de teorias e objetivos partilhados, o que permite abarcá-las em uma categorização específica – pertence a uma escola X, que se diferencia da escola Y, ou, ainda, é da Escola de Chicago ou da Escola de Frankfurt, por exemplo –, é preciso pensar que há variações dentro de cada escola de pensamento. Logo, podem existir distintos resultados obtidos pelas pesquisas realizadas por pesquisadores de uma mesma escola. A respeito dessa discussão, é importante você saber o seguinte: de maneira geral, para que um determinado conjunto de investigações seja agrupado como uma escola de pensamento específica, é preciso que sejam atendidas algumas condições. Entre essas condições, estão a abertura para interdisciplinaridade nas pesquisas; a ligação com uma universidade, um instituto e/ou um centro de pesquisa; a presença de representantes que são líderes; e a constituição de uma forte rede acadêmica de pesquisa(BECKER, 1996). O conhecimento científico Discutir sobre o que significa uma escola de pensamento leva também a pensar sobre o que significa produzir conhecimento científico. Fazer científico, ciência e objetividade científica, por exemplo, são palavras usadas frequentemente para tratar da produção teórica dentro de um domínio metodológico guiado por regras da razão, isto é, do que comumente se define como “ciência”. Mas o que é a própria ciência? Não é possível falar ao certo nem definir objetivamente o que é a ciência. Algumas definições situam o conhecimento científico como parte das disciplinas sociais e excluem desse domínio as áreas humanas. Outras reduzem a atividade científica a uma suposta busca “desinteressada” pelo conhecimento verdadeiro; e há ainda as que a identificam com a tecnologia. Para muitos, a ciência constitui um conjunto de conhecimentos “puros” que são produzidos por métodos objetivos, rigorosos, neutros, os quais capturam o real de forma diferente da filosofia e da arte, por exemplo (JAPIASSU, 1975). Embora pareça ser uma discussão simples, não se tem uma resposta. Na verdade, há várias. E sabe por quê? Porque não há uma definição certa e uma errada, nem uma definição “verdadeira” em oposição a uma “falsa”, nem muito menos imparcialidade e neutralidade na forma de definir e conceituar. A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago148 TC_U3_C09.indd 148 10/11/2017 15:19:54 A própria elaboração do conhecimento não pode ser objetiva – aqui no sentido estrito do termo –, pois a ciência pode ser muitas coisas: a procura de um saber, uma forma de interpretar o real, uma instituição com suas instâncias administrativas, políticas ou ideológicas e até uma “aventura” intelectual que conduz a um conhecimento teórico ou a uma pesquisa específica. Dito de outro modo, não há ciência “pura”. A ciência é um “produto humano” que funciona dentro de um contexto sócio-histórico. Logo, o cientista é um indivíduo social, política e historicamente situado e não dotado de um saber inteiramente racional e objetivo. A razão do cientista não é imutável; ela pode mudar ao longo do tempo e do espaço, além de sofrer influência da sua subjetividade. Logo, a escolha do objeto a ser estudado deve ser observada por meio de algumas perspectivas: nunca sendo um ato neutro, pode ter considerável influência do olhar pessoal do pesquisador. Contudo, também é possível que o pesquisador opte por investigar um objeto que esteja além do seu campo de atuação ou escolha pessoal. Seja qual for o caminho que leve à escolha do objeto pesquisado, é possível que a pesquisa seja desenvolvida por meio de influências pessoais, mas não seja determinada por elas (CORDEIRO, 2017). As noções de neutralidade e/ou imparcialidade foram trazidas dos estudos das ciências sociais. Contudo, não existem neutralidade e imparcialidade no sentido estrito. O que existe é a referenciação da pesquisa no seu contexto social. Nesse sentido, a pesquisa científica se insere dentro de um processo que envolve a escolha sobre o tema a ser estudado e a forma de sua abordagem (referencial teórico-metodológico). Nesse processo, é possível que a opinião do pesquisador – que é um sujeito como qualquer outro, influenciado pelas suas experiências e pelas condições sócio-históricas da sociedade em que vive – influencie ou interfira durante a investigação do objeto estudado, porém ela pode também não ser determinante (CORDEIRO, 2017). Considerações finais Como você observou, a Escola de Chicago de Sociologia e a Escola de Frankfurt de Teoria Crítica constituíram dois movimentos teóricos que ocorreram no início do século XX. Embora tenham se caracterizado como tradições distintas dos estudos sobre os meios de comunicação de massa, essas 149A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 149 10/11/2017 15:19:54 duas escolas de pensamento estavam associadas a importantes institutos de pesquisas e instituições universitárias, a saber, a Universidade de Chicago e a Universidade de Frankfurt, respectivamente. Além disso, partiam de referenciais teóricos distintos. Na primeira, o estudo microssociológico das interações sociais reside na metodologia etnográfica. Já na segunda, o objeto conduz a metodologia investigativa, e a teoria (ou o estudo teórico do objeto) deve ser ancorada ou embasada na prática. Ademais, a Escola de Chicago se baseia na investigação indutiva. Isto é, ela estuda os processos comunicativos a partir da noção de objetividade científica, destacando a racionalidade como elemento para a trajetória da pesquisa. Já a Teoria Crítica se baseia no materialismo interdisciplinar, o qual se caracteriza por ancorar a teoria na prática, isto é, por posicionar e contextualizar o conhe- cimento. Para a Teoria Crítica, o que existe são situações e práticas marcadas pela história ou ainda diagnósticos parciais da realidade, e não verdades absolutas. Desse modo, se os pesquisadores dessa abordagem fossem estudar um problema social qualquer, como o aumento da taxa de analfabetismo em certas cidades brasileiras e a sua diminuição em outras, os dados referentes a essas taxas deveriam ser apresentados por meio de uma contextualização, uma ancoragem no contexto social, e não serem pressupostos por meio de uma análise empírica que se atém a uma verdade a ser verificada ou validada. A Escola de Chicago analisaria esse problema por meio do contato direto com uma cidade em particular, por exemplo, levantando dados próprios. A partir daí, se tentaria chegar a uma explicação geral sobre o aumento dessa taxa por meio de uma construção teórica específica. Você pode considerar que ambas as escolas revolucionaram a forma de analisar a vida social na sua época. A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago150 TC_U3_C09.indd 150 10/11/2017 15:19:54 151A Escola de Frankfurt e a Escola de Chicago TC_U3_C09.indd 151 10/11/2017 15:19:55 ARAÚJO, C. A. A pesquisa norte-americana. In: HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. (Coord.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 119-130. BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 177-188, 1996. CHAUÍ, M. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2013. CORDEIRO, R. Q. F. Nominações, vozes e pontos de vista sobre a loucura na e pela mídia: da reforma psiquiátrica ao boom das doenças mentais. 2017. 474 f. Tese (Doutorado em Linguística)–Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2017. JAPIASSU, H. Introdução. In: JAPIASSU, H. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 8-18. MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Indústria cultural, ideologia e poder. In: MATTELART, A.; MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1997a. p. 73-112. MATTELART, A.; MATTERLAT, M. Os empirismos do novo mundo. In: MATTELART, A.; MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1997b. p. 29-56. MCQUAIL, D. Teorias. In: MCQUAIL, D. Teorias da comunicação de massas. Lisboa: Gulbenkian, 2000. p. 1-164. WOLF, M. A teoria crítica. In: WOLF, M. Teorias da comunicação. 5. ed. Lisboa: Presença, 1999. p. 82-99. Leituras recomendadas ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massa. In: LIMA, L. C. Teoria da cultura de massa. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 169-220. BECKER, H. S. Métodos de pesquisa em ciências sociais. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1999. JAPIASSU, H. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago, 1975. RUFATO, M. de A. Imigração e relações raciais na cidade moderna: a teoria social de Louis Wirth. 2010. 147 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia)–Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. ANTROPOLOGIA E CULTURA Priscila Farfan Barroso O que é antropologia: ramificações e atribuições Objetivos de aprendizagem Ao final destetexto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Justificar a construção do pensamento antropológico. � Definir as ramificações e atribuições da antropologia. � Descrever os encaminhamentos da antropologia nas últimas décadas. Introdução Antropologia pode ser melhor compreendida enquanto disciplina cien- tífica a partir do seu desenvolvimento ao longo do tempo. Desde os primeiros viajantes que entraram em contato com outros povos até o intenso contato cultural permitido pela globalização, está em questão o modo como olhamos aqueles que são diferentes de nós. Assim, refletindo sobre esse olhar podemos conhecer e aprofundar a compreensão e o entendimento dos povos existentes. Neste capítulo, você aprofundará o seu conhecimento sobre a constru- ção do pensamento antropológico, além de conhecer suas ramificações e atribuições existentes. Com isso, perceberá quais são as possibilidades de aplicações conceituais em nosso cotidiano. Construindo o pensamento antropológico Você busca explicações para o que acontece no mundo? Você se questiona por que algo aconteceu de um jeito e não de outro? Você tem curiosidade sobre as formas de vida de outras culturas? Pensar sobre o que os homens fazem, como fazem e por que fazem, faz parte da racionalidade humana (Figura 1). Esses questionamentos possibilitam ao homem refletir sobre sua condição humana no mundo, e assim compreender modos de viver diferentes dos seus. Figura 1. A famosa estátua “O Pensador”, de Auguste Rodin, que simboliza o pensamento humano. Fonte: Ghiraldelli (2013). Como nos ensina o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira (2000), cabe ao pesquisador olhar, ouvir e escrever sobre o encontro etnográfico, a fim de produzir o registro sobre outras sociedades. Por isso, a aprendizagem desses três atos de forma sistemática e metodológica permite o desenvolvimento do pensamento antropológico e uma maior atenção para com o mundo que nos rodeia. Assim, você começará conhecendo como foram os primeiros contatos com povos distantes que originaram a formação de uma literatura etnográfica. Nos séculos XVI-XIX, as viagens às Índias, as descobertas realizadas pelos europeus para expansão colonial e o comércio exterior nos altos mares do Oceano Pacífico resultaram em relatos, escritos e descrições. Esse material era produzido por viajantes, aventureiros, missionários, administradores coloniais, sobre a experiência dos encontros com outras culturas e sociedades, integrando os primeiros registros do encontro com o outro. As descrições apresentavam, muitas vezes, esses povos como pitorescos e assustadores, principalmente aqueles que tinham a prática do canibalismo. Mas, pela forma de se organizar socialmente, de habitar o mundo e de se comportar, os povos indígenas eram vistos pelos europeus como seres primitivos, selvagens, mais O que é antropologia: ramificações e atribuições2 próximo dos animais do que dos humanos. O historiador e cronista português Gândavo (2004, p. 135) conta as impressões sobre os indígenas: A língua que usam, por toda costa [...] Carece de três letras convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e essa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida. Deste modo, a vida nos trópicos da América do Sul causava estranha- mento aos europeus que esperavam dominar esses povos e levar a verdadeira “civilização” a eles. O livro do viajante de Hans Staden, Viagem ao Brasil, conta sobre o encontro com os indígenas na América do Sul, as relações entre esses povos com os portugueses e como se dava os ritos e cerimônias dos ditos “selvagens”. Em um dos trechos, ele apresenta a antropofagia presente nesses povos: Voltando da guerra, trouxeram prisioneiros. Levaram-nos para sua cabana: mas a muitos feridos desembarcaram e os mataram logo, cortaram-nos em pedaços e assaram a carne [...] Um era português [...] O outro chamava-se Hyeronimus; este foi o assado de ontem. (STADEN, 1930). Ramificações e atribuições da antropologia Podemos dizer que a Antropologia tem ramificações com origens, caracterís- ticas, conceitos e representantes diferentes. Vamos chamar essas ramificações de “paradigmas” (OLIVEIRA, 1988), já que alguns não são escolas, propria- mente constituídas como tal, e assim, conseguimos agrupar seus elementos característicos para destacar a importância e contribuição de cada. Evolucionismo Social A partir de 1830, influenciada pelas ideias evolucionistas da Biologia, surge o embrião de uma antropologia evolucionista, na Inglaterra. O filósofo inglês Herbert Spencer foi um dos maiores influenciadores, pois apostava na escala 3O que é antropologia: ramificações e atribuições evolutiva ascendente, baseada na noção de “estágios”, de modo que todos os seres humanos, em sociedade, passariam por cada processo até que evoluíssem (BARNARD; SPENCER, 2002). Essas ideias foram apropriadas para o estudo do homem e reforçaram a explicação de que as sociedades passariam pelos mesmos estágios até que se alcançassem a “civilização”, sendo essa um processo unilinear. Assim, durante o século XIX, temos três representantes do evolucionismo social, são eles: Lewis Henry Morgan, Edward Burnett Tylor e James George Frazer. Morgan era norte-americano e trabalhou por muito tempo entre os Iroque- ses, que viviam no Lago Erie da América do Norte, e outros povos americanos, em contato com os nativos por meio da tradução de um intérprete. Ele investigou as formas de governo, o sistema de parentesco e questão da propriedade, a fim de estabelecer evidências na sistematização do progresso humano. O inglês Tylor realizou estudos comparativos a partir da ideia de uni- dade psíquica humana. Seu objetivo era dissecar a civilização em detalhes e classificá-los em graus apropriados, sendo que, para ele, era mais importante compreender a distribuição geográfica e histórica do que a vida dos nativos. Nesse sentido, o autor se apoiava em relatos de fenômenos das culturas aná- logas, que eram tomadas como evidências dessa progressão. Frazer era escocês, mas atuou como professor na Inglaterra. Ele queria encontrar leis gerais que pudessem ser presumidas de fatos particulares nas diferentes sociedades. Na sua obra O Ramo de Ouro (1890), ele estudou a magia nas sociedades primitivas como sendo o embrião de um processo contínuo e evolutivo para chegar no desenvolvimento da ciência, tal qual se dá nas sociedades contemporâneas. Para conhecer mais sobre o pensamento do Evolucionismo cultural e suas ideias bases, você pode ler o livro Evolucionismo cultural de Castro, 2005. O que é antropologia: ramificações e atribuições4 Escola Sociológica Francesa Fundada por Émile Durkheim, no final do século XIX, essa escola defende que a sociedade é uma realidade sui generis. Em 1895, ele publicou o livro As regras do método sociológico, apresentando esta proposta metodológica para o estudo da sociedade. Portanto, caberia a sociologia estudar os ‘fatos sociais’, sendo que eles agiriam sobre os indivíduos de forma coercitiva, externa e geral. O seu sobrinho, Marcel Mauss (1974, p. 41), deu continuidade às suas ideias e aprofundou a abordagem de estudo, pois, para ele, o estudo da sociedade, a partir de características, poderia elucidar a totalidade dessa sociedade, chegando, então, ao conceito de “fato social total”. Com isso, por meio do método comparativo, Mauss estudou a reciprocidade e a troca de objetos entre pessoas ou grupos sociais defendendo a dádiva como fun- damento da vida social. Esse compromisso é entendido como o vínculo das almas em que se deve dar um presente, não se deve recusá-lo e ainda é preciso retribuí-lo. A leitura feita por Mauss é de que o objeto ainda tem algo do doador, mas permanece com o recebedor, e, entre eles, se estabelece uma parceria e também uma condição hierárquica. Ou seja, as trocas sociais que fundam a reciprocidade estão em um“sistema de prestações totais”, (MAUSS, 1974, p. 45) que tem caráter voluntário (aparentemente livre e gratuito) e obrigatório (imposto e interessado), e essas trocas perpassam fenômenos jurídicos, econômicos, religiosos, estéticos e mesmo morfológicos. Funcionalismo Considerado o pai da Antropologia Britânica, Bronislaw Malinowski (1984) desen- volveu uma análise por meio do funcionalismo e afirmava que todas as partes de uma cultura local desempenham um papel de funcionamento. Logo, o pesquisador teria que fazer um trabalho de campo intensivo para apreender todos os detalhes culturais. No início, esses detalhes pareceriam arbitrários e sem sentido – tanto nas práticas da população local, quanto no modo das pessoas sobreviverem no ambiente local – mas, com a acumulação de dados anotados durante o tempo em que o pesquisador permanece em campo, alguns núcleos de sentido viriam à tona, e o antropólogo seria o mediador dos significados da sociedade do outro. Entre 1914 e 1918, ele foi autorizado a realizar trabalho de campo na Nova Guiné, entre os trobriandeses, aprendendo o uso da língua nativa, por meio da observação participante entre os nativos, o que possibilitou, em 1992, a publicação do livro Argonautas do Pacífico Ocidental. 5O que é antropologia: ramificações e atribuições Enquanto Malinowski aposta no aprofundamento de estudo sobre uma cultura, Radcliffe-Brown (2013) se baseia em uma perspectiva metodológica comparativa, uma vez que ele prefere traçar comparações entre o povo estu- dado e outros povos. Seu objetivo era realizar generalizações sobre a forma estrutural da sociedade e entender sua continuidade ao longo do tempo. Assim, Malinowski e Radcliffe-Brown rompem definitivamente com os fundamentos tradicionais da antropologia e adotam uma orientação sincrônica do estudo da sociedade, de maneira científica. Para o primeiro, deve-se analisar a totalidade dos aspectos da cultura nativa, como o pes- quisador a vê, com o objetivo de delinear as leis e padrões de todos os fenômenos culturais (MALINOWSKI, 1984). Já para o segundo, cabe o estudo da sociedade humana na perspectiva de seus fenômenos sociais, nos quais se buscam relações existentes – de caráter funcional - entre as formas de associação dos indivíduos, de modo a estabelecer características gerais das estruturas sociais apreendidas através de observações reais (RADCLIFFE-BROWN, 2013). Culturalismo norte-americano Franz Boas se opôs aos métodos dedutivistas das análises comparativas e defendeu o método da indução empírica, a fim de não enquadrar os fenômenos em um conceito que não lhe cabia. Assim, ele analisou os costumes semelhantes entre tribos vizinhas, para traçar paralelos considerando o contexto social na perspectiva histórica e geográfica. Logo, Boas preferiu elucidar o conceito de cultura de modo plural, holístico, integrado, de acordo com regiões culturais determinadas, para só então estabelecer leis gerais e generalizações teóricas. Ruth Benedict e Margereth Mead são discípulas de Boas e dão continuidade aos estudos de culturas particulares, a partir dos anos 20 nos Estados Unidos. Esses estudos levam em consideração a noção de cultura como transmissão geracional e a formação da personalidade na relação entre o indivíduo e o grupo. Em 1934, Benedict publica seu livro Padrões de cultura. Nele, aborda as configurações das feições culturais para compreender o papel da cultura na definição da personalidade. Mais tarde, Mead publica Sexo e Temperamento, em 1935, e apresenta a relação entre o temperamento e os diferentes papéis sexuais em termos de um padrão dominante. O que é antropologia: ramificações e atribuições6 Acesse o link a seguir e veja um dos documentários produzidos pela antropóloga Margaret Mead em sociedades das ilhas do Pacífico. https://goo.gl/SbMweA Estruturalismo Em 1908, Claude Lévi-Strauss nasce em Bruxelas, mas é em Paris que ele será reconhecido como antropólogo renomado. Seus estudos buscavam a análise das estruturas da mente humana, a fim de evidenciar as estruturas das sociedades como relações constantes, apesar da diversidade e das diferenças entre elas. Assim, por meio das estruturas do inconsciente, estudadas nos fenômenos conscientes, Lévi-Strauss (1973) acessaria as leis gerais do pensamento humano e, nessa estrutura rígida e imutável, desvendada no plano lógico, estariam articuladas simbolismos e ação social. Um de seus estudos, As estruturas elementares do parentesco, de 1947, investigou as classificações definidas pelos membros de um grupo em relação ao sistema de parentesco e a aliança das sociedades, permeando questões que perpassariam das sociedades primitivas até as sociedades ditas contemporâneas. A proibição do incesto é explicada sociologicamente como um tabu que impediria os grupos de se fecharem entre si, de modo que a aliança entre os grupos proporia relações de consanguinidade. Ao mesmo tempo, a circulação de mulheres asseguraria a troca entre os indivíduos e os grupos. Antropologia nas últimas décadas Em 1973, Clifford Geertz publica A interpretação das culturas, fundando a Antropologia Interpretativa nos Estados Unidos, baseada no paradigma hermenêutico. Geertz se filiou às ideias de Evans-Pritchard, no que se referia 7O que é antropologia: ramificações e atribuições a questionamento da antropologia como ciência e na proposição de um caráter mais interpretativo para a disciplina, aproximando-a de outras matérias no âmbito das Ciências Humanas. Para ele, “a cultura não era mais gramática a ser desvendada, e sim uma língua a ser traduzida a partir da cultura do antropólogo para os membros de outras culturas” (BARNARD, 2003, p. 158). Assim, Geertz foi o expoente interpretativista na antropologia americana. O conceito de cultura, em Geertz, terá um caráter semiótico e será designado como teia de significados constituída pelo homem, conforme inspiração em Max Weber, o que dá abertura para estabelecer o seu estudo a partir de uma ciência interpretativa, na busca por significados, e não necessariamente por leis que regem a sociedade. Nesse sentido, a “cultura é compreendida como uma entidade relativamente autônoma que o antropólogo tem como desafio desvendar os símbolos presentes através da interpretação” (GEERTZ, 2008, p. 15). Nesse sentido, caberia ao antropólogo a prática etnográfica, realizando uma “descrição densa” (GEERTZ, 2008, p. 13) sobre a cultura do outro, por meio de escritos em diários, genealogias entre os indivíduos, mapeamento do campo de modo sistemático, para compreender o contexto cultural em que ocorre a ação simbólica. Essa interpretação elucidada não é única e também não reivindica status de verdade absoluta, é apenas uma afirmação etnográfica sobre sua interpretação das estruturas de significado socialmente estabelecidas. Os estudos de Geertz sobre as brigas de galo balinesa, em 1958, apresentam expressões simbólicas de disputas e desavenças que representam as relações entre os homens naquela sociedade. Por meio da briga animal, evidencia-se a condição humana daqueles que apostam, treinam galos e assistem as rinhas. No final do século XX, o antropólogo norte-americano James Clifford publica A experiência etnográfica, a fim de pensar sobre a autoridade da produção etnográfica e as possibilidades de escritura do outro. Com isso, aproxima a literatura da antropologia e aposta na ideia de que as etnografias são verdades parciais, afastando-se da noção totalizante que algumas ramificações da antropologia pretendiam dar para as etnografias realizadas. Para Clifford (1998), a cultura é considerada como polissêmica, aberta, multifacetada, com inúmeros significados, que são interpretados e negociados O que é antropologia: ramificações e atribuições8 entre o antropólogo e seus interlocutores. Logo, a etnografia sobre o outro traz uma representação polifônica, através do discurso textual, implicando uma ética e uma estética metodológica para compreensãode determinada realidade. Marcus Georges escreve com Clifford A escritura da cultura, em 1986, para evidenciar a relação entre a antropologia e o colonialismo, questionando sobre as dimensões políticas e poéticas da etnografia. Deste modo, os autores defendem que os modos narrativos e os recursos retóricos, utilizados pelo antropólogo na escrita sobre o outro, também incidem na apresentação desse. Desde o século XIX, a Antropologia vem se firmando como uma disciplina científica difundida nas principais universidades existentes, tanto como curso de graduação, quanto como matéria introdutória a ser cursada nas diferentes áreas do conhecimento. Nesse sentido, como enfatiza Feldman-Bianco (2011, p. 4), a pesquisa antropológica é: [...] extremamente relevante para desvendar problemáticas que estão na ordem do dia sobre a produção da diferença cultural e desigualdades sociais, saberes e práticas tradicionais, patrimônio cultural e inclusão social e, ainda, desenvolvimento econômico e social. No quadro da globalização contemporânea, além de contribuir cada vez mais para a formulação de políticas públicas e propostas para a sociedade, a antropologia apresenta os aparatos necessários para expor a dimensão humana da ciência, tec- nologia e inovação. Ao mesmo tempo, no curso de seus processos de transformação e internacionalização, surgem novos desafios e perspecti- vas para o ensino, a pesquisa e a atuação de antropólogos e antropólogas. BARNARD, A. History and theory in anthropology. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. BARNARD, A.; SPENCER, J. Encyclopedia of cultural and social anthropology. London: Routledge, 2002. CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. FELDMAN-BIANCO, B. A antropologia hoje. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 63, n. 2, abr. 2011. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017. 9O que é antropologia: ramificações e atribuições http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252011000200002&lng=en&nrm=iso http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252011000200002&lng=en&nrm=iso GÂNDAVO, P. de M. de. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. GHIRALDELLI, P. A filosofia como passeio e como digestão. 2013. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973. MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1984. MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: E.P.U., 1974. OLIVEIRA, R. C. de. O trabalho do antropólogo. 2. ed. Brasília: Paralelo 15; São Paulo: Editora Unesp, 2000. OLIVEIRA, R. C. de. Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: CNPq, 1988. RADCLIFFE-BROWN, A. R. Estrutura e função na sociedade primitiva. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. SILVA, B. S. Documentário: estranhos no exterior: as correntes da tradição - Franz Boas. Boteco Literário, c2017. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2017. STADEN, Hans. Viagem ao Brasil. Rio de Janeiro: Oficina Industrial Gráfica, 1930. Dis- ponível em: . Acessado em: 21 ago. 2017. Leituras recomendadas BARTH, F. One discipline, four ways: british, german, french, and american anthropology. Chicago: The University of Chicago Press, 2005. CASTRO, C. (Org.). Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. FREEMAN, D. Margaret Mead and Samoa: the making and unmaking of an anthropo- logical myth. New York: Penguin Books, 1985. OLIVEIRA, R. C. de. Evolucionismo cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. O que é antropologia: ramificações e atribuições10 http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/a-filosofia-como-passeio-e-como-digestao.html http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/a-filosofia-como-passeio-e-como-digestao.html ESTUDOS CULTURAIS E ANTROPOLÓGICOS Priscila Farfan Barroso O fazer antropológico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as influências do trabalho do antropólogo. Distinguir as novas metodologias do fazer antropológico. Reconhecer os dilemas éticos do antropólogo. Introdução Neste capítulo, você vai conhecer algumas influências metodológicas e conceituais do fazer antropológico enquanto disciplina científica. Como você pode imaginar, a transformação da antropologia em uma disciplina científica não se deu de uma hora para outra. Assim, é preciso entender as etapas desse processo. Ao longo do texto, você também vai conhecer algumas metodologias utilizadas no fazer antropológico que podem ser usadas em outras áreas de conhecimento. São elas: a etnografia, o estudo longitudinal e o survey. Além disso, você vai ver os dilemas e limites éticos do fazer antropológico, que envolve desde a construção do tema de pesquisa até a produção do relatório ou a publicação da pesquisa em livro. Influências do trabalho antropológico O trabalho do antropólogo foi se constituindo como disciplina com o passar dos anos. Para a realização de uma pequena genealogia desse processo, é neces- sário considerar a história e retomar o momento em que povos de continentes diferentes se encontraram pela primeira vez. Um marco dessa trajetória foram as grandes navegações do século XV. Nesse período, como você sabe, surgiu o interesse dos europeus por povos que habitavam terras afastadas das suas. Naquele momento histórico, a ideia dos europeus não era somente conhe- cer como os povos até então desconhecidos moravam e o que faziam. Eles desejavam principalmente se familiarizar com o modo de vida desses povos para melhor dominá-los, subordiná-los e até escravizá-los, já que eram tidos como “primitivos”. Assim, para os europeus, esses povos que viviam além-mar eram considerados menos humanos e deveriam se submeter à civilização para acessar o “progresso”, o “conhecimento” e a “ciência”. Esse pensamento dos europeus é o que se chama de etnocentrismo. Segundo Rocha (1984, p. 5), “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência”. Assim, o etnocentrismo não é característico somente dos europeus, mas de todo grupo social existente, como reforça Laraia (2001, p. 75): O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É como uma crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo a sua única expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. Os Cheyene, índios das planícies norte-americanas, se autodenominavam "os entes humanos"; os Akuáwa, grupo Tupi do Sul do Pará, consideram-se "os homens"; os esquimós também se denominam "os homens"; da mesma forma que os Navajo se intitulavam "o povo". Os australianos chamavam as roupas de "peles de fantasmas", pois não acreditavam que os ingleses fossem parte da humanidade; e os nossos Xavante acreditam que o seu território tri- bal está situado bem no centro do mundo. É comum assim a crença no povo eleito, predestinado por seres sobrenaturais para ser superior aos demais. Tais crenças contêm o germe do racismo, da intolerância e, frequentemente, são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. A dicotomia "nós e os outros" expressa em níveis diferentes essa tendência. Dentro de uma mesma sociedade, a divisãoe o estilo de vida de cada cultura? como o clima interfere nos bens que as pessoas possuem? Que influência teria o tamanho da família na posição econômica ocupada por essa família? que bens se destinam ao lazer, e quais à subsistência? como essas famílias empregam os recursos naturais? que meios de comunicação estão disponíveis para cada uma delas? Por que você acha que a família de Mali tem tantas panelas, cestos e utensílios para servir alimentos? o que os livros e a Bíblia da família norte-americana (texas) nos revelam sobre sua história e seus interesses? como você acha que cada família reagiria se passasse a viver com os pertences das outras duas famílias? essas fotos nos informam que, quando olhamos para os bens materiais das pessoas, aprendemos algo sobre os fatores sociais, econômicos e geográficos que influenciam seu modo de vida. As fotos também podem nos levar a pensar sociologicamente sobre os nossos próprios bens materiais, e o que eles revelam sobre nós e nossa sociedade (Menzel, 1994). U a família skeen em Pearland, texas, nos estados Unidos. 4 Capitulo 01.indd 4 23/10/13 14:58 a família natoma (incluindo o marido, duas esposas e os pertences das esposas) em Kouakourou, Mali. a família thoroddsen em Hafnarfjördur, islândia. 5 Capitulo 01.indd 5 23/10/13 14:58 6 Capítulo 1 que todos nós (não apenas os sociólogos) compreen- damos as ligações existentes entre o nosso ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que nos circunda e que colabora para nos moldar. Barbara Ehrenreich certamente usou a imaginação sociológica quando estudou os trabalhadores de baixa renda (Mills [1959], 2000a). Um elemento-chave da imaginação sociológica é a capacidade de uma pessoa poder ver a sua própria sociedade como uma pessoa de fora o faria, em vez de fazê-lo apenas da perspectiva das experiências pessoais e dos preconceitos culturais. Tomemos como exemplo algo bem simples, os esportes. No Brasil, centenas de milhares de pessoas de todos os níveis sociais vão semanalmente aos estádios torcer por seus times de futebol e gastam milhares de reais em apostas. Em Bali, Indonésia, dezenas de espectadores se juntam ao redor de um ringue para apostar em animais bem-treinados que participam das rinhas de galos. Em ambos os exemplos os espectadores exaltam os méritos dos seus favoritos e apostam nos me- lhores resultados das competições que são consideradas normais em uma parte do mundo, mas pouco comuns em outra. A imaginação sociológica nos permite ir além das experiências e observações pessoais para compreender temas públicos de maior amplitude. O divórcio, por exemplo, é um fato pessoal inquestionavelmente difícil para o marido e para a esposa que se separam. Entretanto, C. Wright Mills defende o uso da imaginação sociológica para ver o divórcio não apenas como um problema pes- soal de um indivíduo, mas sim como uma preocupação da sociedade. Usando essa perspectiva, podemos notar que um aumento na taxa de divórcio na verdade redefine uma instituição social fundamental – a família. Os lares hoje com freqüência incluem padrastos, madrastas e meio-irmãos cujos pais se divorciaram e casaram nova- mente. A imaginação sociológica é uma ferramenta que nos proporciona poder. Ela nos permite olhar para além de uma compreensão limitada do comportamento humano, ver o mundo e as pessoas de uma forma nova, através de uma lente mais potente do que o nosso olhar habitual. Pode ser algo tão simples como entender por que um colega de quarto prefere música sertaneja ao hip-hop, ou essa outra forma de olhar as coisas poderá revelar uma maneira totalmente diferente de compreender as outras populações do mundo. Por exemplo, depois dos ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, vários cidadãos passaram a querer entender como os muçulmanos em todo o mundo percebiam o país deles, e o porquê desses ataques. Este livro vai oferecer a você a oportunidade de exercitar a sua imaginação sociológica em diversas situações. Vamos começar com uma que talvez lhe seja mais familiar. Você está caminhando por uma rua da sua cidade. Ao olhar à sua volta, não pode deixar de notar que metade das pessoas, ou mais, está acima do peso. Como você explica sua observação? Se você fosse C. Wright Mills, como acha que explicaria isso? A Sociologia e as Ciências Sociais A sociologia é uma ciência? O termo Ciência se refere a um corpo de conhecimentos obtidos por métodos basea- dos na observação sistemática. Da mesma forma que ou- tras disciplinas científicas, a sociologia envolve o estudo sistemático e organizado dos fenômenos (nesse caso, o comportamento humano) para ampliar a compreensão. Todos os cientistas, estejam eles estudando cogumelos ou assassinos, tentam coletar informações precisas por meio de métodos de estudo que sejam os mais objetivos possível. Eles se baseiam no registro cuidadoso das obser- vações e na coleta de dados. Evidentemente, há uma grande diferença entre so- ciologia e física, entre ecologia e astronomia. Ciências naturais são o estudo das características físicas da natu- reza e das maneiras pelas quais elas interagem e mudam. A astronomia, a biologia, a química, a geologia e a física são todas ciências naturais. Ciências sociais são o estudo das características sociais dos seres humanos, e das ma- neiras pelas quais eles interagem e mudam. As ciências sociais incluem a sociologia, a antropologia, a economia, a história, a psicologia e as ciências políticas. Essas disciplinas das ciências sociais têm um foco comum no comportamento social das pessoas, mesmo que cada uma delas tenha uma orientação particular. Os antropólogos geralmente estudam culturas passadas e sociedades pré-industriais que existem até hoje, bem como as origens dos seres humanos. Os economistas exploram as maneiras pelas quais as pessoas produzem e trocam mercadorias e serviços, bem como o dinheiro e outros recursos. Os historiadores estão preocupados com as pessoas e os eventos do passado, e seu significado para nós hoje. Os cientistas políticos estudam as relações internacionais, os atos do governo e o exercício do poder e da autoridade. Os psicólogos investigam a personali- dade e o comportamento individual. Então, o que fazem os sociólogos? Eles estudam a influência que a sociedade tem nas atitudes e nos comportamentos das pessoas, bem como na maneira como as pessoas interagem e formam a sociedade. Como os seres humanos são animais sociais, os sociólogos examinam cientificamente as nossas rela- ções sociais com os outros. Vamos considerar como as diferentes ciências sociais podem abordar o tema polêmico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento da pena capital do período colonial até o presente. Os eco- Use a Sua Imaginação Sociológica Capitulo 01.indd 6 23/10/13 14:58 Entendendo Sociologia 7 nomistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas das apelações que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos po- líticos eleitos e as implicações dessas posições em suas campanhas para reeleição. E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles po- deriam verificar como a raça e a etnia afetam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas (ver Figura 1–1). Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (ou seja, assassinato punível com a morte) e se ele realmente será executado no final. Assim, o sistema de justiça criminal parece tender aocorre sob a forma de parentes e não parentes. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. A projeção desta dicotomia para o plano extra grupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas mais extremadas de xenofobia. O ponto fundamental de referência não é a humanidade, mas o grupo. Daí a reação, ou pelo menos a estranheza, em relação aos estrangeiros. Então, o encontro entre colonizadores e outros povos permitiu a coleta de descrições, desenhos e materiais de outras culturas. Mas tudo ainda ocorria de maneira bastante exploratória e sem uma metodologia específica. Os materiais coletados não tinham status de veracidade e eram tidos mais como relatos, cartas e romances que contavam, de forma até fansiosa e macabra, a vida de outros povos. Somente no século XVIII é que a antropologia começa a se consolidar como disciplina, definindo seu objeto de estudo, delimitando formas de estudá-lo e pro- duzindo análise científica sobre esse objeto. É o que explica Laplantine (2003, p. 7): O fazer antropológico2 […] apenas no final do século XVIII é que começa a se constituir um saber científico (ou pretensamente científico) que toma o homem como objeto de conhecimento, e não mais a natureza; apenas nessa época é que o espírito científico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao próprio homem os mé- todos até então utilizados na área física ou da biologia. Isso constitui um evento considerável na história do pensamento do homem sobre o homem. […] Trata-se, desta vez, de fazer passar este último do estatuto de sujeito do conhecimento ao de objeto da ciência. […] Para que esse projeto alcance suas primeiras realizações, para que o novo saber comece a adquirir um início de legitimidade entre outras disciplinas científicas, será preciso esperar a segunda metade do século XIX, durante a qual a antropologia se atribui ob- jetos empíricos autônomos: as sociedades então ditas “primitivas”, ou seja, exteriores às áreas de civilização europeias ou norte-americanas. A ciência, ao menos tal como é concebida na época, supõe uma dualidade radical entre o observador e seu objeto. Para conhecer mais sobre a constituição da antropologia como disciplina, sugerimos a leitura do livro Textos básicos de Antropologia, de Celso Castro. Esse livro apresenta a história do pensamento antropológico e destaca alguns antropólogos que constituíram estudos importantes na disciplina. Você também deve atentar à contribuição das ciências biológicas para a constituição da disciplina da antropologia. Afinal, a metodologia de classifica- ção e comparação realizada pelas ciências biológicas influenciou os primeiros ensaios sobre o homem em sociedade. Eriksen e Nielsen (2007, p. 28) trazem mais informações sobre esse período: Finalmente, surgiu a ciência internacionalizada. O pesquisador global se torna uma figura popular — e o protótipo é, naturamente, Charles Darwin (1809–1882), cuja Origem das espécies (1859) se baseava em dados coleta- dos durante uma circum-navegação de seis anos ao redor do globo. […] Não surpreende que a antropologia tenha surgido como disciplina nesse período. O antropólogo é o pesquisador global prototípico que depende de dados de- talhados sobre pessoas do mundo todo. Agora que esses dados se tornavam disponíveis, a antropologia podia estabelecer-se como disciplina acadêmica. 3O fazer antropológico Assim, a antropologia passa a desenvolver estudos sobre o homem, mas esses estudos não são algo focado em um ou outro homem, e sim nas socie- dades humanas como um todo. Com isso, a pretensão da antropologia é de “[...] constituir os ‘arquivos’ da humanidade em suas diferenças significativas” (LAPLANTINE, 2003, p. 12). Metodologias do fazer antropológico Mas o que faz o antropólogo? Ele vai a campo e faz etnografi a ao conversar com as pessoas, anotar o que vê e o que dizem, tirar fotos ou fazer vídeos e pesquisar documentos. Posteriormente, ele produz relatórios, discute com seus pares e refl ete sobre o que viu e ouviu. Ou seja, essa disciplina envolve o fazer antro- pológico, que é aprendido na teoria e também no cotidiano de trabalho. Agora você pode se perguntar o seguinte: quem não é antropólogo pode utilizar algumas metodologias próprias do fazer antropológico? A resposta é sim. Contudo, para haver legitimidade, deve-se ter o cuidado de não banalizar as metodologias do fazer antropológico. É o que evidencia Oliveira (2011, p. 120–121): A apropriação, por outras áreas, das teorias e metodologias antropológicas nos levam a pensar e repensar nossa identidade intelectual, bem como o fazer antropológico nesta era pós-tudo, como diria Geertz. A ampliação do que vem sendo produzido, em termos de conhecimento acadêmico, na interface entre a antropologia e as diversas áreas do conhecimento, longe de constituir uma ameaça para o campo da antropologia, perfaz um engrandecimento da produção acadêmica nesta área, ainda que devamos tomar cuidado com o que se está produzindo, quais os limites e quais os diálogos travados com a literatura antropológica, com seus conceitos e referenciais teóricos, afinal, como nos coloca Dauster (2007), não podemos resumir o diálogo da antropo- logia com as demais áreas do conhecimento a uma utilização instrumental da etnografia, até mesmo porque esta constitui mais que “técnica” de coleta de dados, mas sim uma forma de interpretar a realidade social, cujo substrato encontra-se atrelado a um campo de conhecimento específico e a questões suscitadas pela antropologia. Desse modo, você pode perceber que o fazer antropológico implica conhecer as ferramentas e teorias da área da antropologia, mas também requer certa postura do pesquisador em meio ao grupo social estudado. Afinal, como o objeto de estudo é o ser humano, os desafios da pesquisa incluem as formas de relacionamento entre pesquisadores e pesquisados. A seguir, você vai ver algumas metodologias do fazer antropológico que compõem a cientificidade O fazer antropológico4 da disciplina e que a consolidam como mais um dos campos de estudos das ciências humanas. A primeira metodologia que você vai conhecer aqui é a etnografia. Ela propõe a observação e a participação em grupos sociais orientadas por proble- mas de pesquisa. Assim, o pesquisador busca se inserir no grupo com certas ideias preconcebidas, podendo retificá-las ou modificá-las completamente. A proposta de Malinowski (1998) inclui ficar um longo período de tempo com o grupo para compreendê-lo, evitando fazer apenas viagens rápidas. Cuche (1999, p. 45) reforça essa mesma ideia ao dizer que “A transformação de uma etnografia de viajantes ‘que apenas passam’ em uma etnografia de estada de longa duração modificou completamente a apreensão das culturas particulares”. Então, ainda que o modo de pesquisar cada grupo social tenha suas especi- fidades, cabe compreender os principais pontos a que o pesquisador deve estar atento a fim de encarnar uma postura condizente com o fazer antropológico proposto. Eckert e Rocha (2008, p. 2) explicam melhor essa questão: A pesquisa etnográfica, constituindo-se no exercício do olhar (ver) e do escutar (ouvir), impõe ao pesquisador ou à pesquisadora um deslocamento de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ele ou por ela observado através da sua participação efetiva nas formas de sociabilidade por meio das quais a realidade investigada se lhe apresenta. A segunda metodologia que pode ser realizada no âmbito do fazer antro- pológico é a pesquisa longitudinal. Aqui, a ideia é que as “[...] pessoas de um único grupo são estudadas em diferentes épocas de suas vidas” (BOYD; BEE, 1977, p. 42). Contudo, nem sempre um trabalho acadêmico realizado por estudantes, por conta dos prazos, permite esse tipo de estudo. Assim, esse tipo de metodologia não é tão comum, ainda que alguns pesquisadores optem por ela. Cunha (2014, p. 411) discorre sobre essa questão ao evidenciar as possibi- lidades e potencialidadesdo estudo longitudinal na etnografia: Mudando a conjuntura, uma nova investigação terá provavelmente de formular novas questões, em vez de limitar-se a alimentar as mesmas questões com novos dados ao longo do tempo. Ao prosseguir no rumo traçado de início, o risco é, paradoxalmente, o de distorcer a historicidade que se procura captar precisa- mente através de uma revisitação do terreno. Revisitação não equivale, pois, a replicação. É precisamente a ausência de rigidez da abordagem etnográfica que se pode revelar a mais adequada para captar o sentido das transformações. 5O fazer antropológico Por último, você deve conhecer a metodologia do survey (questionário). Ela é a mais utilizada em pesquisas sociológicas e pode ajudar o antropólogo a mapear aspectos da cultura e analisar comportamentos a partir da amostra de um grupo social. Nesse sentido, pode-se utilizar o survey para pesquisas políticas, questões sociais, situações de consumo, entre outros. A ideia é desvendar aspectos que não são facilmente explicáveis. Além disso, um mesmo questionário pode ser aplicado em diferentes públicos. Dessa forma, é possível apreender o que muda de um para outro. Bryman (1989, p. 104) sistematiza as informações sobre o assunto: [...] a pesquisa de survey implica a coleção de dados [...] em um número de unidades e geralmente em uma única conjuntura de tempo, com uma visão para coletar sistematicamente um conjunto de dados quantificáveis no que diz respeito a um número de variáveis que são então examinadas para discernir padrões de associação [...]. Essas variáveis têm de ser analisadas previamente pelos pesquisadores para que eles possam verificar se elas podem ajudá-los a compreender a rea- lidade. Afinal, “[...] uma variável, por definição, deve ter variação; se todos os elementos na população têm a mesma característica, esta característica é uma constante na população e não parte de uma variável” (BABBIE, 1999, p. 124). Dilemas éticos do antropólogo Agora que você já conhece os principais aspectos e metodologias que envolvem o fazer antropológico, deve considerar que essas práticas têm diversos limites. Tais limites devem provocar a refl exão do pesquisador sobre os desafi os da pesquisa. Além disso, o pesquisador deve buscar soluções possíveis para que a pesquisa se realize a contento. Estes são os três principais limites da prática antropológica: 1. o limite dos prazos acadêmicos; 2. os limites do encontro com o outro; 3. os limites surgidos após a produção do trabalho. O primeiro deles considera o fazer antropológico circunscrito ao trabalho acadêmico. Antes mesmo de iniciar o estudo, essa questão se impõe como desafio para o pesquisador. Isso ocorre porque o contexto de realização da O fazer antropológico6 pesquisa afeta diretamente os resultados do estudo. Silva (2009, p. 28) explica melhor esses pontos: [...] não se pode esquecer que a antropologia é uma forma de conhecimento definida segundo os limites impostos pelas regras da academia. O desenvolvi- mento do trabalho de campo sofre, portanto, os constrangimentos relacionados com o modo pelo qual a escolha do tema, das hipóteses e das perspectivas teóricas, para citar apenas alguns itens presentes num projeto de pesquisa, é negociada na academia que o acolhe e legitima. E nessa negociação, além dos “méritos científicos” inerentes ao projeto de pesquisa, deve-se considerar a influência das políticas acadêmicas (linhas de pesquisa institucionalizadas, estabelecimentos, reorganização ou fortalecimento dos núcleos de pesquisa- dores, afirmação de lideranças intelectuais, etc.) na escolha dos temas, regiões geográficas, grupos sociais, etc. que compõem o “recorte” das pesquisas. Mesmo que se trate de uma pesquisa pontual de disciplina, cabe refletir sobre os pontos evidenciados a fim de que se possa realizar um exercício fidedigno à proposta do fazer antropológico. Assim, o pesquisador não tem controle total de sua pesquisa, mas pode direcioná-la da maneira mais adequada, de acordo com os objetivos em questão. O segundo ponto a ser ilustrado enfoca justamente o diálogo entre o pes- quisador e o grupo pesquisado. Segundo Oliveira (2000, p. 24), esse diálogo “Faz com que os horizontes semânticos em confronto — do pesquisador e do nativo — abram-se um ao outro, de maneira a transformar um tal conjunto em um verdadeiro ‘encontro etnográfico’”. Em algumas situações, esses diálogos possibilitam trocas mais densas; em outras, essas trocas são mais truncadas por conta de questões subjetivas. Nesse sentido, não apenas o pesquisador escolhe quem vai pesquisar, mas também precisa ser escolhido pelos nativos, uma vez que a pesquisa envolve o relacionamento entre seres humanos. Assim, esse diálogo implica não somente um pesquisador que demanda algo do pesquisado. O próprio pesquisador tem de aprender, de negociar e de compreender como se dá a comunicação discursiva de quem ele pesquisa. Ferreira (2010, p. 147) evidencia essa questão quando argumenta que o diálogo antropológico implica uma aprendizagem da conversa com o nativo: Já que as metodologias usadas pelos antropólogos dependem fundamentalmen- te de processos linguísticos, é preciso considerar as dimensões comunicativas da aquisição de informações como requisito tanto para a adequação da me- todologia aos contextos culturais a serem estudados (BRIGGs, 1986) quanto para a garantia de uma postura ética na relação de pesquisa. Dessa forma, 7O fazer antropológico podemos evitar situações em que as questões formuladas pelo pesquisador são incompatíveis com o sistema de comunicação nativo. Ao mesmo tempo, é importante você considerar a possibilidade de utilizar o termo de consentimento livre e esclarecido ao travar relações com os inte- ressados em participar da pesquisa, conforme exige a Resolução nº 196/1996 do Conselho Nacional do Ministério da Saúde. Afinal, a pesquisa com seres humanos implica certos cuidados do pesquisador. Esse termo deve ser elaborado pelo pesquisador, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e assinado pelo pesquisador e pelo pesquisado. Depois, destina-se uma via para cada um. Para aprofundar a discussão e conhecer mais sobre o debate nacional relacionado à ética em pesquisa antropológica, leia Antropologia e ética: o debate atual no Brasil, organizado pela Associação Brasileira de Antropologia. Nessa obra, são discutidos aspectos gerais da ética em pesquisa e também questões envolvendo a multidisciplinaridade. Entretanto, você deve notar que, na área de antropologia, há dificuldade de seguir à risca essa resolução, já que ela é baseada em pesquisas da área das ciências biológicas. Contudo, a pesquisa antropológica se relaciona às ciências humanas e se realiza durante o fazer antropológico. Nesse processo, nem sempre se tem o controle de quais caminhos são percorridos e de quais pessoas são encontradas. Então, o essencial é que você se guie pelos princípios éticos e que informe aos seus interlocutores, de forma clara, quais são as suas intenções e os objetivos da pesquisa. Ferreira (2010, p. 143) aprofunda essa discussão: Nas pesquisas antropológicas, a ética está vinculada ao plano das relações sociais; portanto, diz respeito à linguagem e à comunicação. No empreen- dimento etnográfico, o antropólogo conversa, interage e consolida vínculos com as pessoas. Essa relação não está dada a priori, mas sim emerge duran- te a própria interação do antropólogo com os participantes da pesquisa. A reflexão ética [...] deve orientar a construção dessa relação e o processo de interação dialógica voltado para a compreensão do outro. Nesse sentido, o consentimento dado por determinado grupo social para a realização de um estudo antropológico advém da relação estabelecida em campo. O fazer antropológico8 O terceiro ponto se refere aos limites éticos decorrentes da produção do trabalho escrito e da veiculação pública desse trabalho. Ao escrever sobre a vida das pessoas, o pesquisador deve ter o cuidadode manter o sigilo das suas identidades. Por exemplo, na tese de Machado (2008) sobre bebês que nascem com a genitália ambígua — dita como intersexo —, a antropóloga optou por trocar os nomes dos envolvidos por nomes de anjos, fazendo um paralelismo com o fato de o senso comum dizer que os anjos não têm sexo. Esse é um exemplo de estratégia e subterfúgio que os pesquisadores podem utilizar para manter a ética de pesquisa. Quando você escreve um relatório sobre aqueles que pesquisa, é importante não só disponibilizar o produto final para eles, que gentilmente lhe concederam seu tempo e sua convivência, como também buscar saber a opinião deles sobre os resultados da pesquisa. Esse processo é conhecido como restituição dos dados. Veja: Na pesquisa, podemos pensar que a restituição dos dados também pode ser uma forma de prolongar o trabalho de campo, as interações, a relação com os nativos. Nesse caso, a receptividade da pesquisa e a restituição confundem-se em relação às interações estabelecidas, engajamento e responsabilidade com o campo. O duplo produto final da enquete, seja sob a forma de relatório para o projeto de financiamento ou artigo para a revista científica, sublinha a dis- tinção entre dois papéis: ciência “pura” versus ciência “aplicada”. Entretanto, trata-se de distinção ideal. Nas situações concretas, observa-se ambiguidade entre esses dois papéis, uma vez que um ou outro é reivindicado e um ou outro argumento pode ser utilizado segundo o contexto. A publicação de artigos e livros é uma forma importante de difusão da pesquisa no meio acadêmico, no entanto, essas publicações tendem a repercutir pouco para os pesquisados (FERREIRA, 2015, p. 2.645). Portanto, evidencia-se que o pesquisador produz seus trabalhos finais sem saber da repercussão da publicação dos dados. Mesmo assim, ao apresentar a sua análise aos pesquisados, ele deve construir esse processo de restituição. Muitas vezes, esse é o momento positivo em que o pesquisador é reconhecido pelo seu esforço de compreender o grupo social que pesquisou. Em outros casos, os pesquisados podem não gostar de algumas interpretações. Nessa situação, é necessário negociar a respeito do que fazer com publicações futuras. Você deve ter em mente que o produto da pesquisa não vai sempre agradar a todos. Por isso, cabe ao pesquisador ter o cuidado de não expor os pesqui- sados a situações perigosas. Logo, o debate sobre ética em pesquisa não está finalizado. Ele é uma problemática de reflexão importante e deve ser sempre considerado pelo pesquisador. 9O fazer antropológico BOYD, D. B.; BEE, H. A criança em crescimento. São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1977. BABBIE, E. Métodos de pesquisas de survey. Belo Horizonte: UFMG, 1999. BRYMAN, A. Research methods and organization studies. Great Britain: Routledge, 1989. CUCHE, D. A noção de cultura em ciências sociais. Bauru: UDUSC, 1999. CUNHA, M. I. C. Linhas de redefinição de um objeto: entre transformações no terreno e transformações na antropologia. Etnográfica, v. 18, n. 2, 2014. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018. DESCOBRIMENTO do Brasil. [200-?]. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2018. ECKERT, C.; ROCHA, A. L. C. da. Etnografia: saberes e práticas. Revista Iluminuras, v. 9, n. 21, 2008. Disponível em: . 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Niterói: UFF, 2004. 11O fazer antropológico Conteúdo: ESTUDOS CULTURAIS E ANTROPOLÓGICOS Priscila Farfan Barroso Etnografia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o conceito de etnografia. Distinguir a etnografia dentro do quadro geral da antropologia. Definir quais os objetivos da etnografia. Introdução Neste capítulo, você vai aprender o conceito de etnografia e compre- ender como surge essa ideia ao conhecer e analisar outras culturas. Ao mesmo tempo, vai perceber a vinculação da etnografia à disciplina da antropologia, compreendendo quais as suas relações e potencialidades. Nesse sentido, etnografia não é apenas um método, mas abrange um arcabouço teórico metodológico para pensar o grupo pesquisado. Por último, vai conhecer estratégias no âmbito da etnografia que aju- dam a realizar a pesquisa com mais cuidado e compromisso. Os registros em campo, as entrevistas e a construção da árvore genealógica podem ajudar a “ver” o que não é possível enxergar de outra maneira. Conceito de etnografia Para conhecermos outras culturas, estudarmos os seus modos de vida e com- preendermos os seus pensamentos, ainda que eles sejam diferentes dos nossos, precisamos adotar algumas estratégias de pesquisa. Imagine que você chega a uma sociedade totalmente diferente da sua, more durante um tempo entre as pessoas daquele local e aprende alguns hábitos devida próprios daquela cultura. Aos poucos, mesmo que de forma intuitiva, você vai entendendo e compre- endendo o modo de se alimentar, de se vestir, de falar, de cuidar da terra, de se relacionar entre as pessoas, de se comportar, assim como as festas e as crenças mais importantes, os motivos para rir e chorar, etc. Entretanto, no âmbito da pesquisa acadêmica, talvez não tenhamos o tempo e a disponibilidade de nos inteirarmos da vida do outro como teria um viajante sem destino. Os primeiros registros sobre outros povos foram feitos por viajantes. Um deles é alemão Hans Staden, que esteve no Brasil na época da colonização e escreveu sobre o perfil, o modo de vida dos indígenas que habitavam essas terras, as práticas canibais em contextos rituais e as relações que se estabeleciam entre eles e os colonizadores (Figura 1). Pires (2013, p. 21) conta sobre Staden: [...] apesar de ser um aventureiro alemão, portanto, sem planos de permanecer em solo brasileiro como os portugueses e os franceses, contribuiu com as suas obras para a formação das representações sobre a guerra índia, primeiramente na capitania de Pernambuco e depois na de São Vicente, onde, ambas as vezes, atuou nos conflitos armados do lado dos lusos contra seus inimigos índios e normandos. Na segunda experiência, em São Vicente, permaneceu meses como cativo de guerra dos tupinambá, aliados dos franceses, e, libertado por uma tribo inimiga de seus algozes, não foi sacrificado no ritual antropofágico. Assim, por meio das representações dos relatos dos viajantes é que a popu- lação acessava a cultura de sociedades distantes e mesmo de culturas que não mais existiam. Muitas vezes, essas descrições registradas pelos viajantes eram caricatas, exageradas e até mesmo fantasiosas, mas como era a única maneira de conhecer o que faziam outras culturas, esses relatos eram bastante difundidos. Figura 1. Desenho de Hans Staden sobre práticas canibais dos indígenas. Fonte: Caderno de Nosferatu (2010, documento on-line). Etnografia2 Contudo, no século XXI, a distância ficou menor, e a tecnologia nos permite viajar, tornando mais fácil conhecer outras sociedades. Então, em vez de lermos sobre o outro, vamos nós mesmos observar, analisar e compreender aspectos de outras culturas. Assim, cabe perceber essas diferenças entre as culturas e refletir sobre elas. Para ir além de uma obser- vação curiosa e de fato estudar os aspectos culturais de outras sociedades, podemos utilizar estratégias e metodologias que nos permitam compreender as explicações correntes naquela sociedade que observamos. Por isso, de forma mais rápida, mais explícita e mais sistemática, buscamos formas científicas de realizar esses estudos. Uma dessas formas é a etnografia. Na etimologia da palavra, do grego, etno é povo e grafia é escrita; logo, o significado da palavra pressupõe escrever sobre um povo. Laplantine (2003) enfoca que a etnografia permite a descrição das formas de vida de determinados grupos sociais, fazendo com que estudemos aspectos culturais diferentes dos nossos de forma mais atenta. Como evidencia Oliveira (2000), agora não conheceremos a cultura do outro por meio dos livros, mas será o nosso próprio corpo que acessará outras sociedades. Segundo explica Laplantine (2003, p. 57), “[...] a etnografia propriamente dita só começa a existir a partir do momento no qual se percebe que o pes- quisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse trabalho de observação direta é parte integrante da pesquisa [...]”. Assim, dá-se outra maneira de conhecer o outro, mais ativa, mais pessoalizada e mais interpretativa sobre quem são, o que fazem e como pensam os membros de outras sociedades existentes. O pesquisador compreende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados não mais como informadores a serem questionados, e sim como hóspedes que o recebem e mestres que o ensinam. Ele aprende então, como aluno atento, não apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua língua e a pensar nessa língua, a sentir suas próprias emoções dentro dele mesmo. Trata-se, como podemos ver, de condições de estudo radicalmente diferentes das que conheciam o viajante do século XVIII e até o missionário ou o administrador do século XIX, residindo geralmente fora da sociedade indígena e obtendo informações por intermédio de tradutores e informadores: este último termo merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, “ao vivo”, em uma “natureza imensa, virgem e aberta” (LAPLANTINE, 2003, p. 57–58). 3Etnografia Indica-se a leitura de uma bela etnografia realizada em um contexto urbano, a fim de compreender que a realização da etnografia não se dá apenas entre sociedades que vivem longe de nós, mas também entre as mais próximas. Uma dessas etnografias clássicas é o livro Sociedade de Esquina, no qual William Foote Whyte, conduzido por um informante-chave, estuda determinado local — que ele chamou de Corneville — para compreender o cotidiano de um bairro da periferia de uma grande cidade. Entretanto, essa observação do pesquisador não deve ser feita de forma passiva, apenas olhando para os membros de uma cultura, sem interagir com o que acontece; pelo contrário, ele vai participar, conversar, viver e também contar sobre si para esses nativos. Em outras palavras, propõe-se outra forma de se relacionar com o outro, e essa relação estabelecida entre pesquisador e nativos é levada em consideração na qualidade dos dados coletados e na análise feita sobre essa outra sociedade. Logo, realiza-se uma observação participante, na qual os membros da cultura observada precisam estar de acordo com a presença daquele que vai realizar a etnografia, como explica Oliveira (2000, p. 24): […] aquilo que os antropólogos chamam de "observação participante" […] significa dizer que o pesquisador assume um papel perfeitamente digerível pela sociedade observada, a ponto de viabilizar uma aceitação senão ótima pelos membros daquela sociedade, pelo menos afável, de moda a não impedir a necessária interação. Podemos destacar dois antropólogos que iniciaram esse estudo e discu- tiram a importância da etnografia em seus trabalhos de campo por meio da antropologia. Um deles é Franz Boas (1858–1942) e Bronislaw Malinowski (1884–1942). Laplantine (2003, p. 58–59) se dedica a elucidar as contribuições de cada um deles; sobre Boas, ele afirma: No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais consti- tutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, e isso detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descrição mais meticulosa, da retranscrição mais fiel... [Para ele] Apenas o antropólo- go pode elaborar uma monografia, isto é, dar conta cientificamente de uma microssociedade, apreendida em sua totalidade e considerada em sua auto- nomia teórica. Pela primeira vez, o teórico e o observador estão finalmente Etnografia4 reunidos. Assistimos ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que não se contenta mais em coletar materiais à maneira dos antiquários, mas procura detectar o que faz a unidade da cultura que se expressa através desses diferentes materiais. Já sobre Malinowski (Figura 2), Laplantine (2003, p. 60–61) destaca o posicionamento do pesquisador em meios aos nativos e as suas contribuições para o campo de estudo: Se não foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiência etnográfica, isto é, em primeiro lugar, a viver com as populações que estudava e a recolher seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreensão por dentro, e para isso, procurou romper ao máximo os contatos com o mundo europeu. […] Nin- guém antes dele tinha se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentalidadedos outros, e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de despersonalização, o que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura que não é nossa. […] Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. Figura 2. Malinowski entre os Trobriandeses. Fonte: Etnografando (2012, documento on-line). Assim, temos o contexto da discussão sobre o conceito de etnografia e podemos avançar na nossa discussão, a fim de compreendermos como esse conceito é utilizado no âmbito da antropologia — e até mesmo além dessa disciplina. 5Etnografia Etnografia dentro da antropologia Numa primeira discussão, devemos compreender que a antropologia pretende levar em consideração a experiência do pesquisador a partir do trabalho de campo que ele realizou. Então, o pesquisador vai estar diante do que é dife- rente, do que é estranho e até do que assusta. Porém, essa postura que abarca a concepção de alteridade constitui questão central na disciplina estudada. Goldman (2005, p. 163) reforça esse ponto: A antropologia é um dos lugares destinados pela razão ocidental para pensar a diferença ou para explicar racionalmente a razão ou desrazão dos outros. Desse ponto de vista, ela é, sem dúvida, parte do trabalho milenar da razão ocidental para controlar e excluir a diferença. Por outro lado, entretanto, o próprio fato de dedicar-se à diferença nunca é desprovido de consequências e, em lugar de simplesmente digeri-la, a antropologia foi capaz de valorizar essa diferença, sempre foi capaz de ao menos tentar apreendê-la sem suprimi-la, pensá-la em si mesma, como ponto de apoio para impulsionar o pensamento, não como objeto a ser simplesmente explicado — explicação que, aliás, acaba por deter a própria marcha do pensamento. Para aprofundar a discussão sobre a etnografia utilizada para a produção de dados na pesquisa científica, leia o artigo Etnografia: Saberes e Práticas, de Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert. https://goo.gl/LRD2UJ Assim, a disciplina de antropologia compreende a etnografia como parte do processo de pesquisa que possibilita estudar o outro a partir de critérios científicos. Como explica Mattos (2011, p. 53), a: [...] etnografia é a especialidade da antropologia, que tem por fim o estudo e a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais de suas atividades, é parte ou disciplina integrante da etnologia é a forma de descrição da cultura material de um determinado povo [...]. Etnografia6 Então, podemos compreender a etnografia como o exercício de olhar sobre o outro que nos permite compreender de forma sistemática aspectos culturais intrínsecos que, numa observação rápida, seriam difíceis de apreender. Para reforçar essa ideia, Lévi-Strauss evidencia a etnografia como parte do trabalho do antropólogo: É por uma razão muito profunda, que se prende à própria natureza da dis- ciplina e ao caráter distintivo de seu objeto, que o antropólogo necessita da experiência do campo. Para ele, ela não é nem um objetivo de sua profissão, nem um remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá possuir conhe- cimentos descontínuos que jamais formarão um todo, e após o qual, somente, estes conhecimentos se "prenderão" num conjunto orgânico e adquirirão um sentido que lhes faltava anteriormente (LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 415–416). Tendo a etnografia como parte crucial da aprendizagem do estudo de outras culturas, cabe ter noção da dimensão que esse conceito alcança em termos da pesquisa científica. Peirano (2014, p. 383) se questiona critica- mente sobre a identificação da etnografia como apenas um método, e destaca que as produções de monografias sobre aspectos de outras culturas “[...] não são resultado simplesmente de ‘métodos etnográficos’; elas são formulações teórico-etnográficas. Etnografia não é método; toda etnografia é também teoria [...]”. Assim, não está limitada apenas ao antropólogo a prática etnográfica, mas também não cabe difundir a etnografia como simples metodologia que se aplica a qualquer contexto de pesquisa. Como diz a antropóloga, é preciso fazer uma boa etnografia: A primeira e mais importante qualidade de uma boa etnografia reside, então, em ultrapassar o senso comum quanto aos usos da linguagem. Se o trabalho de campo se faz pelo diálogo vivido que, depois, é revelado por meio da escrita, é necessário ultrapassar o senso comum ocidental que acredita que a linguagem é basicamente referencial. Que ela apenas "diz" e "descreve", com base na relação entre uma palavra e uma coisa. Ao contrário, palavras fazem coisas, trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados. E palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da mesma maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações que é necessário avaliar e analisar. Dito de outra forma, é preciso colocar no texto — em palavras sequenciais, em frases que se seguem umas às outras, em parágrafos e capítulos — o que foi ação vivida. Este talvez seja um dos maiores desafios da etnografia — e não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo (PEIRANO, 2014, p. 386). 7Etnografia Assim, somente exercitando e praticando a etnografia é que o pesquisador vai aperfeiçoando e percebendo questões que não estavam evidentes na pri- meira observação. Desse modo, etnografia é muito mais que escrever sobre o outro, porque considera um estudo complexo, uma análise cuidadosa e uma interpretação dos dados que está baseada em teoria precedentes para chegar a uma conclusão que contribua com o conhecimento científico. Para além da escrita, o antropólogo pode apresentar nas monografias os registros visuais feitos durante o trabalho de campo, a fim de explicitar aspectos culturais de outras sociedades. Muitas vezes, essas imagens não são apenas para “ilustrar” o que é dito, mas também compõem a argumentação teórica do que é analisado sobre aquela cultura. Um dos exemplos mais clássicos na antropologia é a obra Balinese Character, de Gregory Bateson e Margaret Mead, que apresentaram um estudo minucioso de diversas práticas culturais entre os balineses. Por isso, podemos imaginar que o produto final de análise da observação participante é a monografia, pois “[...] é seguramente no ato de escrever, portanto na configuração final do produto desse trabalho, que a questão do conhecimento se torna tanto ou mais crítica [...]” (OLIVEIRA, 2000, p. 25). Ao juntar as partes de um quebra-cabeça, o todo toma forma. Essa totalidade não deve pretender retratar a verdade única e absoluta, mas apenas apresentar uma versão interpretativa sobre o grupo estudado por quem realizou a pesquisa — podendo seus leitores concordarem ou não. Na composição desse material final, cabe lembrar que essa a escrita pode ser composta de outros materiais (organograma, desenhos, fotos, sons, vídeos) que ajudem o leitor a compreender a argumentação teórico-metodológica apresentada pelo etnógrafo. Estratégias e objetivos da etnografia Para pesquisarmos a cultura do outro, vamos refl etir sobre quais estratégias são relevantes durante o processo da etnografi a. Inicialmente, Oliveira (2000, p. 25) nos lembra que “[...] olhar e o ouvir podem ser considerados como os atos cognitivos mais preliminares no trabalho de campo [...]”. Podemos pensar Etnografia8 que, para olhar o outro, precisamos lançar mão de lentes sociológicas, a fi m de poder ver aquilo que não veríamos com um olhar banal. Assim, esse olhar e essa escuta devem estar atentos ao que se deseja compreender durante a observação participante. Geertz (1978) evidencia o que pode estar contido na proposta de etnografia, de modo que o pesquisador tenha um quadro mais completo do grupo social que estuda. Durante a observação participante, ele não só observa, mas também cria estratégiassistemáticas de como registrar aspectos da vida cultural de quem é observado: O que o etnógrafo enfrenta, de fato — a não ser quando (como deve fazer, naturalmente) está seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados — é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estra- nhas irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro aprender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de proprie- dade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de "construir uma leitura de") um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios do comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20). Assim, para compreender o que parecem incoerências, comentários banais e sinais não identificáveis, os registros em cadernos de campos — também chamados de diários — são essenciais e servem para descrever momentos, explicitar detalhes, apresentar aspectos culturais e refletir sobre tudo o que foi visto e falado durante a interação com os membros da sociedade pesquisada. Weber (2009, p. 157) explica que o diário de campo: [...] é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo social, método que se caracteriza por uma investigação singular [...]. Em conjunto com o diário de campo, cabe fazer entrevistas semiestru- turadas (aquelas com questões abertas), para captar informações em maior profundidade, que respondem aos objetivos da pesquisa. Duarte (204, p. 216) nos provoca a pensar o que seria uma boa entrevista: 9Etnografia A realização de uma boa entrevista exige: a) que o pesquisador tenha muito bem definidos os objetivos de sua pesquisa (e introjetados — não é suficiente que eles estejam bem definidos apenas “no papel”); b) que ele conheça, com alguma profundidade, o contexto em que pretende realizar sua investigação (a experiência pessoal, conversas com pessoas que participam daquele universo — egos focais/informantes privilegiados —, leitura de estudos precedentes e uma cuidadosa revisão bibliográfica são requisitos fundamentais para a entrada do pesquisador no campo); c) a introjeção, pelo entrevistador, do roteiro da entrevista (fazer uma entrevista “não-válida” com o roteiro é fundamental para evitar “engasgos” no momento da realização das entrevistas válidas); d) segurança e auto-confiança; e) algum nível de informalidade, sem jamais perder de vista os objetivos que levaram a buscar aquele sujeito específico como fonte de material empírico para sua investigação. Entretanto, é preciso ter cuidado com o discurso do pesquisado durante a entrevista semiestruturada. Este, geralmente num contexto mais formal de pesquisa, acaba dizendo o discurso oficial, o que é esperado, o que ele foi treinado para dizer, quando o que o pesquisador quer muitas vezes é justamente o que escapa desse discurso e revela a situação do cotidiano. Assim, também é preciso considerar as conversas informais como fonte preciosa de informações, pois é nesses momentos que podemos comparar o discurso oficial com o que acontece na prática. Com essas ideias em mente, Zaluar (2009, p. 577) conta como conseguiu estudar o “mundo do crime”: O objetivo era entender os processos sociais existentes no tráfico, ou seja, a dinâmica das relações entre fornecedores de armas e drogas, traficantes e usuários, assim como as formações subjetivas reveladas no simbolismo e nos rituais das interações entre os atores. Os contatos para entrevistas foram feitos seguindo a rede de conhecidos dos usuários ou nos locais de lazer escolhidos para a observação silenciosa. Desse modo, muitas definições e imagens e vários significados contextuais do crime, do desvio, da droga, da polícia, do bairro, das diversas atividades de lazer, das relações entre os usuários, entre eles e os traficantes, entre todos e a polícia foram transmitidos pela observação direta, por conversas informais depois registradas e pelos relatos de experiências de nossos informantes. Além dessas estratégias, também é pertinente para o trabalho de campo a construção do método genealógico. Ele permite a compreensão das formações familiares de uma sociedade, evidenciando os povos ascendentes, quem é filho de quem, se a é cultura patrilinear ou matrilenar, e como se dão casamentos entre grupos sociais. Rivers (1991) defendeu o uso dessa ferramenta para os estudos de parentescos e elucidou que essa técnica elevaria o status das Etnografia10 ciências sociais como estudos de ciências biológicas, pois a sua construção seguiria critérios e padrões que permitiriam um estudo científico sobre as culturas pesquisadas. Outra estratégia que pode garantir a inclusão num grupo social diferente do grupo do pesquisador é a aproximação de um informante-chave. Em es- sência, trata-se de alguém que vai introduzir o pesquisador no cotidiano da outra cultura, explicar rapidamente o que ele não entende, apresentar pessoas importantes para o objetivo da pesquisa, entre outros motivos. Essa abordagem faz com que o pesquisador desenvolva um vínculo maior com essa pessoa. Os informantes chaves são participantes que possuem conhecimentos, status, destrezas comunicativas especiais e estão dispostos a colaborar com o inves- tigador. Ajudam ao investigador a vencer, superar as barreiras que aparecem no seu caminho. Tem acesso a determinados subgrupos e pessoas, que, por outra via seria difícil alcançar. Os atores chaves devem ser escolhidos com cuidado tendo em consideração seu nível adequado de representatividade em relação ao grupo completo de informantes chaves. Recomenda-se que as informações obtidas dos informantes chaves sejam claramente especificadas e diferenciadas como nas notas de campo (LÓPEZ, 1999, p. 49). Assim, vamos percebendo que as estratégias do pesquisador correspondem aos objetivos da etnografia. Para coletar dados que respondam às perguntas gerais e específicas da pesquisa, é preciso que o pesquisador utilize algumas dessas técnicas. Entretanto, sabe-se que não há formulas a serem seguidas, pois cada pesquisa tem suas particularidades, como evidencia Mattos (2011, p. 50): A etnografia é um processo guiado preponderantemente pelo senso questio- nador do etnógrafo. Deste modo, a utilização de técnicas e procedimentos etnográficos, não segue padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa. Os instrumentos de coleta e análise utilizados nesta abordagem de pesquisa, muitas vezes, têm que ser formuladas ou recriadas para atender à realidade do trabalho de campo. Assim, na maioria das vezes, o processo de pesquisa etnográfica será determinado explícita ou implicitamente pelas questões propostas pelo pesquisador. Por último, Mattos (2011) ainda sistematiza três questões da etnografia que contribuem com o campo da pesquisa qualitativa: 1. A preocupação com uma análise holística ou dialética da cultura, isto é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da 11Etnografia sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as estruturas sociais e as ações e interações humanas. 2. A introdução dos atores sociais com uma participação ativa e dinâmica no processo modificador das estruturas sociais. 3. Apresentação das interações e evidência dos processos engendrados e de difícil visibilidade para os sujeitos que dela fazem parte. Logo, a etnografia nos permites conheceroutra cultura de forma mais aprofundada, pois se utiliza de estratégias específicas, de acordo com os objetivos da pesquisa. Nesse sentido, para conhecer os grupos sociais que são diferentes de nós, não basta chegarmos até eles: precisamos ter um olhar mais cuidadoso e atenção redobrada, e também fazer notas sobre aquilo que queremos compreender. Com isso, vamos explicitando os procedimentos da pesquisa científica e reconhecendo essas estratégias dentro de um arcabouço teórico-metodológico guiado pela disciplina da antropologia. CADERNO DE NOSFERATU. Antrpofágia. 2010. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. DUARTE, R. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar UFPRS, Curitiba, n. 24, p. 213-225, 2004. ETNOGRAFANDO. Malinowski e sua contribuição à antropologia. 2012. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. O livro Entre saias justas e jogos de cintura, organizado por Soraya Fleischer e Alinne Bonetti, reúne artigos sobre os encontros dos pesquisadores e seus pesquisados. Cada um deles conta sobre as suas experiências etnográficas, apresenta situações inesperadas em campo e mesmo soluções surpreendentes durante a etnografia. É um livro atual, que apresenta pesquisas contemporâneas e que motiva o leitor a perceber que a etnografia é desafiadora e prazerosa. https://goo.gl/sgd9SZ Etnografia12 GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. GOLDMAN, M. Jeanne Favret-Saada: os afetos, a etnografia. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 13, n. 13, p. 149-153, 2005. LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991. LÓPEZ, G. L. O método etnográfico como um paradigma científico e sua aplicação na pesquisa. Textura: Revista de Educação e Letras, Canoas, v. 1, n. 1, p. 45-50, 1999. MATTOS, C. L. G. A abordagem etnográfica na investigação científica. In: MATTOS, C. L. G.; CASTRO, P. A. (Org.). Etnografia e educação: conceitos e usos. Campina Grande: EDUEPB, 2011. OLIVEIRA, R. C. O trabalho do antropólogo. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2000. PEIRANO, M. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014. PIRES, V. Uma breve análise acerca da atuação interétnica dos indígenas da costa brasileira sob a pena de viajantes europeus (1500-1627) História. Revista da Faculdade de Letras: História, Porto, v. 3, n. 1, p. 9-28, 2013. RIVERS, W. H. O método genealógico na pesquisa antropológica. In: CARDOSO DE OLIVEIRA, R. (Org.). A antropologia de Rivers. Campinas: Unicamp, 1991. p. 51-67. WEBER, F. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou: por que censurar seu diário de campo? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 157-170, 2009. ZALUAR, A. Pesquisando no perigo: etnografias voluntárias e não acidentais. Mana, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 557-584, out. 2009. Leituras recomendadas BATESON, G.; MEAD, M. Balinese character: a photographic anlysis. 1942. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. CARDOSO, R. C. L. Aventuras de antropólogos em campo ou como escapar das ar- madilhas do método. In: CARDOSO, R. C. L. A aventura antropológica. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988. p. 95-106. DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981. PALERMO, E. G.; TOZZINI, M. A. Resenha. Campos, v. 11, n. 2, p. 137-142, 2010. Disponível em: . Acesso em: 1 out. 2018. ROCHA, A. L. C.; ECKERT, C. Etnografia: saberes e práticas. Iluminuras, Porto Alegre, v. 9, n. 21, 2008. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. VELHO, G. Observando o Familiar. In: NUNES, E. (Org.). A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. 13Etnografia Conteúdo: ANTROPOLOGIA E CULTURA Priscila Farfan Barroso Revisão técnica: Guilherme Marin Bacharel em Filosofia Mestre em Sociologia da Educação Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB-10/2147 B277a Barroso, Priscila Farfan. Antropologia e cultura / Priscila Farfan Barroso, Wilian Junior Bonete, Ronaldo Queiroz de Morais Queiroz ; [revisão técnica: Guilherme Marin]. – Porto Alegre: SAGAH, 2017. 218 p. : il ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-184-6 1. Antropologia. 2. Sociologia. 3. Cultura. I. Bonete, Wilian. II.Queiroz, Ronaldo Queiroz de Morais. III.Título. CDU 31 Antropologia e Cultura_Iniciais_Impressa.indd 2 17/11/2017 16:23:27 Cultura Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer o que é a cultura. � Entender como uma cultura se desenvolve. � Identificar o papel da cultura na antropologia. Introdução Neste capítulo, discutiremos o que é cultura, como se aborda esse conceito e a sua relação com a antropologia. Introdução à cultura O que você entende por cultura? Você acha que todo mundo tem cultura? Ou cultura é só o que se aprende na escola? Você precisa compreender que a cultura não é só o que se aprende na escola. Todo mundo tem cultura, porque a cultura é transmitida de geração a geração, de pessoa a pessoa, como herança social. É a partir da cultura que os seres humanos convivem e aprendem a habitar o mundo em que vivem. Assim, o homem não só passa por uma aprendizagem cultural, através do processo de socialização, como também pode transmitir aspectos culturais ao grupo social. Símbolos e linguagens são compartilha- dos e compreendidos como herança social – e não como herança biológica/ genética – pelos membros de uma mesma comunidade, de modo que esses elementos identificadores da cultura são considerados como normas e regras fundamentais para sobreviver em uma sociedade. Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 37 17/11/2017 16:06:45 Figura 1. Cultura africana Fonte: Cultura africana (2016). O estudo sobre a cultura pode variar de tempos em tempos, de autor para autor, de paradigma para paradigma. Sendo assim, podemos dizer que é por meio desse conceito que os antropólogos estudam o “outro”. O antropólogo evolucionista Tylor (1920, p. 1) definiu cultura, em 1871, como “aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume e outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Com o tempo, outros autores vão problematizando essa noção totalizante de cultura, tornando-a mais interpretativa, mais parcial, mais polissêmica, saindo da ideia do todo para apresentar feições da cultura. De qualquer modo, podemos dizer que a cultura se “manifesta por meio de diversos sistemas” (DIAS, 2010, p. 67) – como o sistema de valores, o de normas, o de ideologias, o de comportamentos, entre outros – dentro de um território específico, em determinada comunidade cultural, e influencia os indivíduos na concretização das suas ações sociais. É na interação entre os indivíduos e os grupos que são construídos e negociados os parâmetros culturais nos quais as ações sociais se realizam, constituindo, assim, uma identidade própria para cada cultura, como é o caso da cultura brasileira. Portanto, podemos dizer também que a cultura é exclusiva das socie- dades humanas, já que, a partir dela, se pode traçar a diferenciação entre o homem e o animal. O homem é o único ser vivo que tem capacidade para o acúmulo cultural, tanto pela quantidade dessa produção, como pela complexidade da sua natureza. Nesse sentido, a linguagem humana é fundamental para a comunicação simbólica, e sua importância se dá não só Cultura38 Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 38 17/11/2017 16:06:46 pelo idioma em questão, mas também pelos gestos, sotaques e expressões locais que denotama circulação de sentidos em determinada cultura. Logo, tudo o que é criado pelas sociedades humanas, para satisfazer as suas necessidades e viver em sociedade, seja tangível ou intangível, está englobado na cultura. Produzido em 1922, por Robert Flaherty, este filme documenta a vida de uma família inuíte (esquimós) durante um ano. Por meio de imagens e da sequência de cenas inusitadas, o cineasta apresenta o modo de vida de uma família que vive praticamente isolada https://goo.gl/Qy5Yx4 Perspectivas de análise sobre a cultura Para aprofundar a discussão, vamos nos inspirar nas características que en- volvem a atuação do conceito de cultura apresentada por Roque Laraia (2001). Ele propõe cinco pontos para mostrar a operação desse conceito, são eles: a cultura condiciona a visão do homem, a cultura interfere no plano biológico, 39Cultura Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 39 17/11/2017 16:06:47 os indivíduos participam diferentemente de sua cultura, a cultura tem uma lógica própria e a cultura é dinâmica. A cultura condiciona a visão do homem Os seres humanos são incentivados a agir de acordo com as regras e os pa- drões culturais que são estabelecidos pelos membros da cultura. Aqueles que destoam do proposto são considerados desviantes. Para Becker (2008, p. 22), o desvio é visto como “produto de uma transação que tem lugar entre algum grupo social e alguém que é visto por esse grupo como infrator de uma regra”. Ser considerado infrator gera consequências discriminatórias nas sociedades. Por isso, de modo geral, o indivíduo é condicionado a agir de acordo com o padrão esperado naquela cultura. Ainda que os homens tenham uma configuração biológica comum, o modo como eles acionam esses mecanismos biológicos para habitar o mundo é distinto. Dentro das sociedades, cada um pode ocupar um papel social diferente, determi- nado pelo convívio entre os membros da comunidade. Por isso, a aprendizagem cultural não se dá como herança biológica e sim como herança social através da imitação e reprodução, consciente e inconsciente, dos aspectos culturais que permeiam o ambiente social no qual os indivíduos estão mergulhados. A cultura interfere no plano biológico A forma como vivem os seres humanos pode afetar o organismo biológico de diferentes maneiras, gerando impactos nas necessidades fisiológicas básicas. Um estilo de vida baseado em uma alimentação saudável pode fazer com que os indivíduos vivam mais do que um estilo de vida de pouco sono, má alimentação, muito trabalho. Entretanto, não nos alimentamos apenas para satisfazer as necessidades, mas também por prazer. O que é considerado prazeroso é construído no âmbito da cultura. Ainda é preciso enfatizar que o que comemos não está condicionado apenas ao desejo, mas passa pelo o que temos de acesso a alimento em nossa cultura. O domínio da agricultura faz com que possamos ter alimentos nas diferentes estações, mas não é em todos os países do mundo que as frutas são frescas, acessíveis e baratas, por exemplo. Nas sociedades contemporâneas, somos acostumados com os chamados “fast foods”, que são comidas de preparo rápido, industrializadas, de baixo valor nutricional, mas com alto valor calórico. A popularização desses produ- tos, conjuntamente com o estilo de vida agitado, faz com que cada vez mais a Cultura40 Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 40 17/11/2017 16:06:47 população consuma esse tipo de alimento, o que gera o aumento da prevalência da obesidade e maior probabilidade de problemas de saúde. Para ter um melhor entendimento quanto aos prejuízos dos “fast food”, você pode assistir ao filme “Super Size me” de Morgan Spurlock, que se alimenta apenas de comida de fast food durante um mês, para analisar os efeitos dessa dieta hipercalórica em seu corpo. Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura Inúmeras manifestações culturais acontecem em uma sociedade. No entanto, os seus membros participam parcialmente de todo esse arcabouço cultural. Ninguém consegue participar de tudo o que ocorre em sua cultura, justamente porque existem condicionantes que os limitam, como, por exemplo, gênero, idade, papel social, estilo de vida, entre outros. Conforme os indivíduos vão se desenvolvendo após o nascimento, acessam regras e normas na sociedade que lhes permitem participar de diferentes manifestações culturais. Na prática religiosa 41Cultura Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 41 17/11/2017 16:06:49 do catolicismo, quando criança, alguns são batizados, depois fazem a comunhão e somente com mais idade é que se pode realizar a cerimônia matrimonial. Assim, os indivíduos carregam e reproduzem aspectos culturais diferentes durante suas vivências, fazendo com que cada ser humano contenha em si camadas de cultura. É importante que os indivíduos conheçam e participem de alguns aspectos culturais que possibilitem a comunicação e articulação com os outros membros da sociedade. Saber como agir e se comportar em determinadas situações faz parte da convivência, ainda que essa seja uma aprendizagem processual e nem sempre se aja como deveria. O interesse pelo futebol, a prática de ir à praia ou mesmo acompanhar as festas de carnaval são aspectos culturais que conformam a identidade brasileira. No entanto, não são todos os brasileiros acessam, têm interesse ou participam do que oferece culturalmente o país. Ou seja, mesmo que estejamos imersos em uma cultura, temos uma participação relativa e parcial no que ela propõe. A cultura tem uma lógica própria Cada cultura tem a sua lógica própria, que revela um encadeamento de sentidos, pensamentos e ações que conformam a especificidade das culturas em si, de acordo com sua origem histórica e o território habitado. O que faz sentido para os membros de uma comunidade pode não fazer nenhum sentido para outra sociedade. Como nos diz Laraia (2001, p. 87), “A coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence”. Como compreender as pinturas corporais entre os povos indígenas? Como não se impressionar com as danças populares? Como interpretar a fé religiosa nas diferentes sociedades? Como os indivíduos buscam os processos de cura para suas enfermidades? Assim, para compreendermos a lógica de outra pes- soa, temos de nos afastar da nossa lógica, ou pelo menos estabelecer relações que permitam desvendar e acessar a explicação do outro individuo, sem as referências da nossa própria lógica. A cultura é dinâmica A cultura não está parada. A todo momento, diversos elementos culturais são reavaliados, conscientemente e inconscientemente, sendo que alguns são descartados, outros reinventados. Você pode comparar como estavam vestidas as pessoas nas fotos antigas guardadas no fundo da gaveta do armário com as vestimentas atuais, de quando saímos na rua. Pode pensar nas músicas da sua infância e nas músicas que tocam nas rádios hoje em dia. Analisar as Cultura42 Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 42 17/11/2017 16:06:49 gírias e palavras faladas pelos seus parentes mais antigos em relação às gírias que você fala com seus colegas. Essas mudanças e modificações se mantêm momentaneamente até que novas transformações na cultura modifiquem-nas. Podemos dizer que as mudanças culturais ocorrem de modo endógeno ou exógeno. O modo endógeno pode ser decorrente do próprio sistema cultural, a partir dos membros que participam dessa sociedade. O modo exógeno se dá por meio de um contato cultural, com outros povos, que acaba interferindo em práticas culturais estabelecidas antes do contato. As mudanças podem ser específicas ou até mesmo modificar completamente os elementos culturais que antes faziam sentido para aquela cultura. Assim, quando descrevemos uma determinada cultura, para um estudo científico, temos de saber que ela não permanece estática em relação ao seu modo de estar no mundo. Sobre as mudanças culturais e de sentidos que, nos centros das grandes cidades, ao mesmotempo per- mitiram a criação de espaços de confluência e trocas musicais, de gostos e de populações, você pode ler a reportagem abaixo: https://goo.gl/2WqXEJ O estudo antropológico sobre a cultura Ao estarmos imersos em outra cultura, participamos e conhecemos o que faz sentido apenas ali, e não em outro contexto cultural, como o de origem do antropólogo. Assim, a antropologia não vai ser aquela que está do ponto de vista do observador ou do ponto de vista do observado, mas será uma “prática que surge em seu limite, ou melhor, em sua intersecção.” (LAPLANTINE, 2003, p. 158). Logo, atentos a essa intersecção, vamos compreendendo as regras e normas da cultura de outro individuo, desvendando seus sentidos e suas motivações, pois, como diz Kottak (2013, p. 43), “As culturas são sistemas humanos de comportamento e pensamento, obedecem a leis naturais, podendo, portanto, serem estudadas de modo científico” (Figura 2). 43Cultura Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 43 17/11/2017 16:06:50 Figura 2. Malinowski e os trobriandeses. Fonte: Duarte (2011). Nesse estudo, ter critério e método é crucial para acessar e perceber elemen- tos da cultura a serem interpretados, que não são tão evidentes ao estrangeiro. Desde o início, partimos da ideia de que toda cultura é complexa, extremamente rica e cheia de sentidos. Como diz Cuche (1999, p. 239), “Não há cultura que não tenha significação para aqueles que nela se reconhecem. Os significados como os significantes devem ser examinados com a maior atenção”. Por isso, se você está disposto a estudar o homem e a sociedade em que ele vive, cer- tamente vai abordar a discussão de cultura. Se deseja explicar os significados dos acontecimentos sociais do mundo em que vivemos, passará pelo estudo de seus elementos culturais. Se acompanha as mudanças culturais nas sociedades, será necessário compreender as modificações culturais ao longo dos tempos. E é buscando essas significações, expressas na cultura, que vamos reco- nhecer as diferenças culturais. Isso é fundamental para um mundo que convive com inúmeras culturas e sociedades, próximas, cada vez mais, umas das outras, pelos avanços tecnológicos que se popularizam rapidamente mundo afora. Pensar na cultura como um conceito antropológico, como propõe Laraia (2001), torna-se chave para aprofundar o olhar sobre a sociedade, além de possibilitar aplicar esse mesmo olhar em outras áreas do conhecimento, como Educação, História, Políticas Públicas, entre outras. Logo, o que se deseja é reconhecer a potência das categorias de análise dessa disciplina para a compreensão dos homens em sociedade. E aqui, o conceito de cultura possibilita uma virada epistemológica de pensar em nós através do olhar do outro, de modo que, ao analisar a cultura deste individuo, Cultura44 Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 44 17/11/2017 16:06:50 tendo a cultura do observador como referência, seja possível questionar nossos próprios parâmetros culturais. Nesse sentido, para entender outras culturas, é preciso aprofundar o entendimento da nossa própria cultura, e, por mais pro- ximidade que tenhamos com ela, é necessário o esforço de avaliá-la pelo olhar do estrangeiro, que suspende seu julgamento, participa e se deixa vivenciar a cultura junto com outra pessoa. 45Cultura Antropologia e Cultura_U1_C3.indd 45 17/11/2017 16:07:00 BECKER, H. S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. 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A última é a noção de diversidade cultural, que tem a ver com a riqueza das formas de existência no mundo. Ao fim do capítulo, você vai ver a importância dos estudos culturais e entender como eles podem ser aplicados a questões contemporâneas. O que são os estudos culturais? O mundo contemporâneo é diverso e composto por inúmeras sociedades. Cada sociedade, por sua vez, age de maneiras específi cas. Assim, ainda que não se possa conhecer a fundo todas as sociedades, saber da existência de culturas diferentes leva a uma compreensão de mundo mais plural e diversa. Entretanto, para compreender o outro, primeiro é preciso compreender a si mesmo. As pessoas nascem imersas numa cultura e é a partir dela que conhecem o mundo ao seu redor. Como afirma Laraia (2001, p. 67), “[...] a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo [...]”. Por isso, você deve ter noção de que alguns aspectos de culturas diferentes da sua lhe parecerão familiares e outros, muitos exóticos. Por isso, você deve ter cuidado para respeitar aquilo que não conhece. Assim como você tem o direito de ser quem é, as pessoas de outras culturas também o tem. Nesse sentido, é preciso pensar em termos de direitos humanos e da pluralidade de formas de vida. A existência de um indivíduo se dá em conjunto com outros membros da sociedade em que ele vive. Tudo o que é produzido por eles expressa o que pensam, o que fazem e o que deixam como legado. Portanto, a produção cultural é um reflexo das manifestações sociais que as diferentes culturas constroem. Nesse sentido, essas manifestações sociais se explicitam por meio das práticas sociais. Como sintetiza Hall (1997, p. 33): “[...] toda prática social tem condições culturais ou discursivas de existência. As práticas sociais, na medida em que dependem do significado para funcionarem e produzirem efeitos, se situam ‘dentro do discurso’, são ‘discursivas’ [...]”. Assim, acessando essas práticas sociais juntamente aos discursos que elas constroem sobre o mundo, você pode apreender o que é relevante para outras sociedades e comparar isso com o que é relevante para a sua realidade. Mas como surge a preocupação de estudar outras culturas? E como é possível estudar essas culturas de modo relevante? Está correto dizer que os estudos culturais se constituíram como disciplina?E como suas ideias se espalharam por outros domínios das ciências humanas e sociais? Como você pode imaginar, não há uma única resposta para essas questões. Contudo, existem algumas pistas para responder a essas e outras perguntas relevantes: Os Estudos Culturais como campo de investigação se iniciaram após a Segunda Guerra Mundial, tendo como marco conceitual o texto “Schools of English and Contemporary Society” de Richard Hoggart, o primeiro diretor do Center for Contemporary Cultural Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham, que descrevia sobre os antecedentes históricos e a contribuição para o estudo da cultura e da comunicação do século XX. [...] Caracterizam-se por possibilitar diferentes posições teóricas e políticas que partilham do compromisso de analisar práticas culturais do ponto de vista das relações de poder. [...] Seus métodos são ambíguos e podem ser considerados uma bricolagem. Por isso, os delineamentos relacionados ao conceito de cultura transpõem os eixos da erudição, das tradições artísticas ou de sua hierarquia, abrindo um leque de sentidos amplos e versáteis para o tema. Abandona-se o pressuposto elitista, privilegiando-se a adoção de leituras das populações e do senso comum [...] No Brasil, os Estudos Culturais se estabeleceram em meados de 1990 [...] (KRUSE et al., 2018, p. 2). Ou seja, há a adoção e a difusão de certa maneira de olhar para aspectos de outras culturas. Logo, essa reflexão está de acordo com o que propõe o próprio Estudos culturais2 Hall (1980, p. 7), quando diz que “Os estudos culturais não configuram uma ‘disciplina’ mas uma área onde diferentes disciplinas interatuam, visando ao estudo de aspectos culturais da sociedade [...]”. Por isso, você está convidado a estudar mais a fundo os estudos culturais a fim de compreender a importância de conhecer outras culturas diferentes da sua. Hennigen e Guareschi (2006) evidenciam que a proposição de Wittgenstein para os estudos de linguagem foi determinante para se pensar a respeito dos significados da convivência social. O que era considerado como natural nos modos de vida começou a ser percebido como construído por uma discursi- vidade. Assim, compreender os meandros discursivos permite acompanhar as diversidades de expressões e manifestações humanas no mundo. Nesse sentido, os discursos apresentariam o contexto cultural da sociedade em questão e também a sua complexidade: Os discursos podem ser entendidos como histórias que, encadeadas e enre- dadas entre si, se complementam, se completam, se justificam e se impõem a nós como regimes de verdade. Um regime de verdade é constituído por séries discursivas, famílias cujos enunciados (verdadeiros e não verdadeiros) esta- belecem o pensável como um campo de possibilidades fora do qual nada faz sentido — pelo menos até que aí se estabeleça um outro regime de verdade. Cada um de nós ocupa sempre uma posição numa rede discursiva de modo a ser constantemente “bombardeado”, interpelado, por séries discursivas cujos enunciados encadeiam-se a muitos e muitos outros enunciados. Esse emaranhado de séries discursivas institui um conjunto de significados mais ou menos estáveis que, ao longo de um período de tempo, funcionará como um amplo domínio simbólico no qual e através do qual daremos sentido às nossas vidas. É esse dar sentido que faz de nós uma espécie cultural (VEIGA- -NETO, 2000, p. 56–57). Portanto, acompanhar um discurso é como puxar um fio do emaranhado de lã que tece a cultura na qual o indivíduo está. Desse modo, quando você acompanha esse fio, pode desvendar questões inimagináveis da cultura do outro. Por meio dessas questões, é possível acessar a riqueza das diferentes existências que habitaram ou habitam o mundo. Entretanto, não são somente os homens que constroem os discursos sobre o mundo. Eles também são construídos por esses mesmos discursos. Veja: Na perspectiva dos estudos culturais, não é o sujeito que produz as práticas de significação, são elas que vão constituir os sujeitos. Cada indivíduo tornar-se-á sujeito à medida que se tomar a partir de certas práticas de significação, assim, estará posicionado na rede discursiva de uma determinada forma. As práticas 3Estudos culturais de significação emergem de uma determinada episteme, que cria regimes de verdade. Contudo, as práticas de significação somente se constituem como tal à medida que são tomadas como verdades. […] Isso acontece segundo uma contingência histórica e cultural, pois nessa perspectiva opera-se com um sujeito que nunca é idêntico a si mesmo ao longo do tempo; ao contrário, ele guarda uma abertura para o tempo, tempo histórico que o vai posicionar na diferença e não no mesmo (HENNIGEN; GUARESCHI, 2006, p. 66). Portanto, estudar os indivíduos que atuam em determinada sociedade possibilita acessar a gama de artefatos culturais disponíveis, bem como os significados que fazem sentido entre esses indivíduos, ainda que esses signifi- cados se transformem com o passar do tempo. Nesse emaranhado de fios que apresentam a cultura do outro, você vai conhecendo outros modos de existir e também refletindo sobre o seu próprio modo de existência. Principais ideias dos estudos culturais Para compreender melhor o que os estudos culturais propõem, é interessante você conhecer algumas ideias principais que orientam o estudo do outro. Você deve ter em mente que estudar outras sociedades permite pensar no próprio conceito de cultura. Isso acontece pois esse estudo “[...] parte do processo geral que cria convenções e instituições, pelas quais os signifi cados a que se atribui valor na comunidade são compartilhados e ativados [...]” (WILLIAMS, 1969, p. 55). Ou seja, compreender o conceito de cultura também possibilita olhar para as signifi cações que são compartilhadas entre os membros das sociedades. Assim, considere esta definição de Cevasco (2003, p. 139): [...] uma cultura em comum seria aquela continuamente redefinida pela prá- tica de todos os seus membros, e não uma na qual o que tem valor cultural é produzido por poucos e vivido passivamente pela maioria. Trata-se de uma visão de cultura inseparável de uma visão de mudança social radical e que exige uma ética de responsabilidade comum, participação democrática de todos em todos os níveis da vida social e acesso igualitário às formas e meios de criação cultural. Por isso, ao conviver com membros de outra cultura, você aprende quais práticas sociais são relevantes em seu meio social, quais motivações são perti- nentes para aquelas pessoas, como elas resolvem os seus problemas cotidianos, como se comunicam e se expressam diante do mundo, entre outros aspectos. Estudos culturais4 Laraia (2001) destaca alguns aspectos relacionados à cultura. Você deve considerá-los em seu estudo sobre o tema. Veja a seguir. a) A cultura condiciona a visão de mundo do homem, pois desde que ele nasce convive com membros da sua cultura, que ensinam a ele como se comportar e a ler o mundo à sua volta. Mas, se uma pessoa vai morar em outro país, por exemplo, também pode aprender a viver nesse outro contexto. b) A cultura interfere no plano biológico, já que o que você come, o modo como se protege do frio e do calor e a maneira como se relaciona com os outros membros podem desencadear doenças ou mesmo aumentar a sua qualidade de vida. c) Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura. Como cada indivíduo assume uma posição na sociedade em que vive, acessa deter- minados elementos vinculados a tal posição. Por exemplo, um sacerdote tem acesso ao mundo religioso da sua cultura de modo totalmente diferente de um simples fiel. d) A cultura tem uma lógica própria, ou seja, cada sociedade explica suas questões sobre o mundo de forma particular. Por exemplo, a vaca na Índia é sagrada e não se pode comê-la. Já em outros países, a carne de vaca é consumida diariamente pelos membros da sociedade sem maiores temores. e) A cultura é dinâmica, pois ela não é estática.impor penas mais pesa- das quando as vítimas são brancas, do que quando elas pertencem a uma das minorias. Os sociólogos colocam sua imaginação sociológica para funcionar em diversas áreas – incluindo as áreas do envelhecimento, da família, da ecologia humana e da religião. Neste livro você vai ver como os sociólogos desenvolvem teorias e fazem pesquisas para estudar e entender melhor as sociedades. E você será encorajado a usar a sua imaginação sociológica para examinar os Esta- dos Unidos e o Brasil (além de outras sociedades) como uma pessoa de fora – de maneira respeitosa, mas sempre questionando. Sociologia e Senso Comum A sociologia focaliza o estudo do comportamento hu- mano. Entretanto, todos nós temos experiências com o comportamento humano, e pelo menos algum conheci- mento sobre ele. Todos nós também podemos ter teorias sobre por que uma pessoa vai viver na rua, por exemplo. As nossas teorias e opiniões geralmente se baseiam em nosso “senso comum” – ou seja, nas nossas experiências e conversas, naquilo que lemos, ou que vemos na televisão e assim por diante. Em nossa vida diária, confiamos no nosso senso co- mum para resolver situações não-familiares. Entretanto, esse conhecimento chamado senso comum, embora seja preciso algumas vezes, não é sempre confiável, porque ele se baseia em crenças comumente aceitas, e não na análise sistemática dos fatos. No passado constituía senso comum aceitar que a Terra era plana – uma visão questionada corretamente por Pitágoras e Aristóteles. Noções incorretas consideradas de senso comum não pertencem apenas a um passado distante, mas permanecem até hoje. Nos Estados Unidos, hoje o “senso comum” diz que as pessoas jovens vão ao cinema onde está sendo exibido A paixão de Cristo ou a concertos de rock cristão porque a religião está se tornando mais importante para elas. Con- tudo, essa noção particular de “senso comum” – como a noção de que a Terra era plana – não é verdadeira, e não se baseia na pesquisa sociológica. Em 2003, pesquisas anuais feitas com universitários do primeiro ano mostram um de- clínio na porcentagem de pessoas que freqüentam serviços religiosos, mesmo ocasionalmente. Um número crescente de universitários declara não ter preferência religiosa. A tendência inclui não apenas religiões organizadas, mas também outras formas de espiritualidade. Poucos estu- dantes rezam ou meditam mais hoje do que no passado, e poucos consideram seu nível de espiritualidade muito alto (Sax et al., 2003). O Brasil não é exceção. A evangelização de jovens foi o tema principal da 44a Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No maior país católico do mundo, onde dos 34 milhões de jovens que se confessam, católicos menos de 10% freqüen- tam os serviços religiosos. Da mesma forma, os desastres em geral não pro- duzem pânico. Logo após uma catástrofe, como uma explosão, por exemplo, grandes organizações e estruturas sociais surgem para lidar com os problemas da comu- nidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, um grupo de operações de emergência freqüentemente coordena serviços públicos e mesmo certos serviços em geral de- sempenhados pelo setor privado, como a distribuição de alimentos. O processo decisório torna-se mais centrali- zado nos momentos de crise. No Brasil, por exemplo, a FIgurA 1-1 Raças das Vítimas nos Casos de Pena de Morte Obs.: esses dados referem-se a todos os casos de pena de morte de 1976 a 30 de janeiro de 2004. Fonte: Death Penalty Information Center, 2004. A pena de morte tende a ser imposta quando a vítima é branca. Nos Estados Unidos, 50% de todas as vítimas de assassinatos são brancas, mas nos casos julgados com possibilidade de pena de morte, a porcentagem de vítimas brancas é de mais de 80%. Hispânicos 4% Outros 1% Brancos 81% Negros 14% Capitulo 01.indd 7 23/10/13 14:58 8 Capítulo 1 defesa civil assume a responsabilidade por este trabalho de atendimento às vítimas de catástrofes, como grandes incêndios e inundações, coordenando as ações de resgate e as operações de emergência em conjunto com o Corpo de Bombeiros e a Polícia. Como outros cientistas sociais, os sociólogos não aceitam algo como um fato porque “todo mundo sabe disso”. Ao contrário, cada informação precisa ser testada e registrada, e depois analisada em relação a outras infor- mações. Os sociólogos se baseiam nos estudos científicos para descrever e compreender o ambiente social. Às ve- zes, as descobertas dos sociólogos podem parecer simples senso comum, porque eles lidam com facetas familiares da vida diária. A diferença é que tais descobertas foram testadas pelos pesquisadores. O senso comum agora nos diz que a terra é redonda. Mas essa noção particular de senso comum baseia-se em séculos de trabalhos científi- cos que começaram com as descobertas feitas por Pitágo- ras e Aristóteles. o que é teoria sociológica? Por que as pessoas cometem suicídio? A resposta tradicio- nal de senso comum é que a pessoa herda o desejo de se matar. Um outro ponto de vista é que as manchas escuras do sol levam as pessoas a se matarem. Essas explicações podem não parecer particularmente convincentes para os pesquisadores contemporâneos, mas elas representam as crenças da maior parte das pessoas até 1900. Os sociólogos não estão par- ticularmente interessados na razão pela qual um indivíduo comete sui- cídio; eles estão mais preocupados com a identificação das forças so- ciais que sistematicamente levam algumas pessoas a se suicidarem. Para fazer essa pesquisa, os soció- logos desenvolvem uma teoria que oferece uma explicação geral sobre o comportamento suicida. Podemos pensar que as teorias são tentativas de explicar, de uma forma abrangente, eventos, forças materiais, idéias ou comportamentos. Em sociologia, uma teoria é um con- junto de afirmações que busca expli- car problemas, ações, ou comporta- mentos. Uma teoria efetiva pode ter um poder explicativo e de previsão. Ou seja, ela pode nos ajudar a ver a relação entre fenômenos aparente- mente isolados, bem como a enten- der como um tipo de mudança em um ambiente leva a outras mudanças. A World Health Organization [Organização Mundial da Saúde] (2002) calculou que 815 mil pessoas come- teram suicídio em 2000. Mais de cem anos antes, um sociólogo tentou olhar para o suicídio de forma científica. Émile Durkheim ([1897] 1951) desenvolveu uma teoria bastante original sobre a relação entre suicídio e fatores sociais. Ele estava basicamente preocupado não com as personalidade das vítimas do suicídio, mas sim com as taxas de suicídio e como elas variavam de um país para outro. Como resultado, quando observou o número de suicídios informados na França, Inglaterra e Dinamarca em 1869, comparou também a população total de cada país para determinar a sua taxa de suicídio. Ele descobriu que, enquanto na Inglaterra apenas 67 suicídios eram in- formados por milhão de habitantes, na França eles eram 135 a cada milhão de habitantes; e na Dinamarca, 277 a cada milhão de habitantes. A pergunta então passou a ser: “Por que a Dinamarca tem uma taxa comparativamente alta de suicídios informados?”. Durkheim foi ainda muito mais fundo em sua in- vestigação das taxas de suicídio, o que resultou no seu trabalho considerado um marco, O suicídio, publicado em 1897. Ele se recusou a aceitar explicações sobre o sui- cídio que não fossem comprovadas, incluindo as crenças de que forças cósmicas ou tendências hereditárias provo- cavam tais mortes. Ao contrário, Durkheim manteve seu foco nos fatores sociais, tais como na coesão dos grupos religiosos, sociais e de trabalho. A pesquisa de Durkheim sugeria que o suicídio, embora fosse um ato solitário, estava relacionado à vida Estudantes universitários freqüentam menos cerimônias religiosas hoje do que no passado, apesar da presença de ministros no campus, tal como este do centro de jesuítas na Fairfield University, em Connecticut. A pesquisa sociológicaA cultura dos esquimós dos anos 1920 pode ser bem diferente daquela que eles cultivam hoje. Por exemplo, o próprio iglu, que é a casa deles, não é mais feito de gelo, e sim de madeira. Para compreender a relação entre quem pesquisa e quem é pesquisado, assista ao documentário Pierre Fatumbi Verger: mensageiro entre dois mundos (1998), de Lula Buar- que. Esse filme, disponível no link a seguir, mostra a relação de Buarque, que também é antropólogo, com a cultura brasileira. Ao mesmo tempo em que fotografa, etnografa e observa o outro, ele se encanta, se apaixona e se sente um pouco pertencente a outras culturas. https://goo.gl/vCTsAe 5Estudos culturais Outra ideia relacionada aos estudos culturais é a noção de etnocentrismo. Segundo Flores (2008, p. 5): A palavra etnocentrismo apareceu no início do século 20, através do soció- logo americano William G. Summer, com o significado que pode ser assim exposto: o nosso grupo é o centro de todas as coisas e os demais grupos são classificados e avaliados em relação a nós mesmos. Assim, do ponto de vista etnocêntrico, a ideia de uma humanidade universal, mesmo que seja possível concebê-la no plano da materialidade das sociedades históricas, não estaria isenta de certas hierarquizações do tipo civilizados e bárbaros, nativos e estrangeiros, industrializados e atrasados, brancos e negros, eu- ropeus e indígenas, nós e eles. Ou seja, se você partir da sua sociedade para estudar outras sociedades e se tiver aprendido que a sua cultura é melhor do que as outras, precisará fazer um esforço epistemológico para deixar de lado essa hierarquização. Não é possível sobrepor uma cultura a outra, mesmo que a tendência seja fazer isso. Ou seja, é necessário compreender que o outro não é nem melhor nem pior, apenas diferente. Assim, como ensina Cuche (2002), você não deve comparar culturas para não deixar de perceber a riqueza das manifestações culturais singulares de cada uma: [...] o conjunto cultural tem uma tendência para a coerência e uma certa autonomia simbólica que lhe confere seu caráter original singular; e [...] não se pode analisar um traço cultural independentemente do sistema cultural ao qual ele pertence e que lhe dá sentido. Isto quer dizer estudar todas as culturas, quaisquer que sejam a priori, sem compará-las e/ou "medi-las” prematuramente em relação às outras culturas (CUCHE, 2002, p. 241). Por último, você deve considerar como uma das principais ideias dos es- tudos culturais o conceito de diversidade cultural. Esse conceito deveria ser difundido nas instituições de educação para que desde a escola os membros da sociedade refletissem sobre outras culturas, exercitando o respeito às diferenças culturais. Essa ideia é reforçada por Gadotti (1992, p. 23): [..] a diversidade cultural é a riqueza da humanidade. Para cumprir sua tarefa humanista, a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras culturas além da sua. Por isso, a escola tem que ser local, como ponto de partida, mas tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada. [...] Escola autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as Estudos culturais6 culturas e concepções de mundo. Pluralismo não significa ecletismo, um conjunto amorfo de retalhos culturais. Significa sobretudo diálogo com todas as culturas, a partir de uma cultura que se abre às demais. Nesse sentido, a própria Gadotti (1992) afirma a importância de assumir uma perspectiva multicultural e de estimular uma abordagem de estudo que favoreça o convívio num mundo composto por diversas sociedades. Compre- ender as diferenças contribui para mapear, conhecer e até mesmo valorizar as formas de manifestação humana. Para conhecer mais sobre a formalização do respeito à diversidade cultural, leia a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2002. Ela foi publicada pela UNESCO com o objetivo de explicitar como se dá o respeito à diversidade cultural existente e como ele se articula com os direitos humanos. Veja no link a seguir. https://goo.gl/cCV4Tq Estudos culturais na contemporaneidade Agora que você já conhece os estudos culturais e as principais ideias dessa corrente, que tal discutir a importância desses estudos e a sua aplicação nos dias atuais? Como você viu, tendo em vista a diversidade cultural existente, cabe relativizar algumas diferenças na comunicação com outras culturas. Essa comunicação pode se dar por meio da linguagem ou de outras formas pelas quais as pessoas trocam informações e convivem de forma amigável. Almeida (1999, p. 9) explica que isso se relaciona ao: [...] reconhecimento de uma objetividade que resulta da concordância prag- mática parcial entre sujeitos que adotam diferentes ontologias. O fato de que medidas de peso sejam muito variáveis entre as culturas não é uma barreira para que comerciantes que mal se entendem linguisticamente possam encontrar regras de tradução entre suas medidas — sem que precise haver a adoção de um único padrão de medida, mas chegando-se a aproximações satisfatórias para ambas as partes — ou acordos no plano pragmático. 7Estudos culturais O que é pensado como “acordo” também é um meio pelo qual os membros de culturas diferentes concordam em se relacionar, apesar de suas diferenças. Você pode considerar o comércio, o trabalho, um namoro ou mesmo uma viagem rápida para outro país: em todos esses casos, você precisa se comunicar com outras pessoas, não é? Assim, mergulhar em outra cultura também permite aprender a relati- vizar para conseguir dialogar com pessoas que têm valores diferentes, mas que estão no mesmo mundo que você. Falando nisso, você sabe o que é o relativismo cultural? Segundo Hoebel e Frost (1999, p. 22), esse conceito considera que “[...] os padrões de certo e errado (valores) e dos usos e ati- vidades (costumes) são relativos à cultura da qual fazem parte [...]”. Na sua forma extrema, esse conceito afirma que cada costume é válido em termos de seu próprio ambiente cultural. Logo, num mundo plural e diverso, em que pessoas diferentes habitam o mesmo território, cabe perceber os costumes e tradições de inúmeras culturas. Dessa maneira, Almeida (1999, p. 21) destaca que é preciso considerar outras “[...] culturas tão válidas quanto as nossas, [valorizando] esses [outros] povos cuja própria existência [nos faz] questionar nossa maneira de ser, quebrando o monopólio, que comumente nos atribuímos, da autêntica realização da humanidade no planeta [...]”. Para aprofundar a discussão sobre cultura, você pode ler A invenção da cultura, de Roy Wagner (2012). Esse autor mostra como o próprio conceito de cultura foi criado e pode ser pensado. Essa é uma discussão atual e que contempla a nova forma de refletir sobre as diferentes sociedades. Mas você sabe qual é a importância de estudar essas questões no âmbito dos estudos culturais? A seguir, você pode ver alguns apontamentos de Meneses (1999). A partir deles, você vai ver como aplicar os conceitos que estudou até aqui e como refletir sobre questões relevantes para o relacionamento com o outro no mundo contemporâneo. Considere, então, os elementos a seguir. 1. Respeito sincero pela cultura e sociedade dos outros povos — os diversos comportamentos, como se alimentar, se vestir e se manifestar, devem ser respeitados acima de tudo. Estudos culturais8 2. Cuidado extremo com a objetividade — não se pode simplesmente ofender a cultura do outros. É preciso compreender os significados subjetivos presentes na outra cultura para entender, por exemplo, o uso da burca entre as mulheres mulçumanas. 3. Recusa de interferir e de modificar — quando você não entende as práticas sociais de determinada cultura, a tendência é querer interferir nelas e até mesmo modificá-las, não é? Contudo, é necessário evitar o etnocentrismo. 4. Compreensão do anticolonialismo — não se deve interferir em movi- mentos de libertação nacional que buscam afastar o colonialismo que devastou culturase impôs seu modo de vida. 5. Reflexão sobre os problemas das minorias étnicas — diante da sobre- posição de culturas, especialmente no contexto colonial, as minorias étnicas foram oprimidas e tiveram suas manifestações culturais des- valorizadas em detrimento da cultura do colonizador. 6. Valorização de movimentos contra a discriminação — uma vez que as culturas são diferentes, cabe englobá-las num contexto mais amplo e não excluí-las. Dentro de uma sociedade, também é preciso valorizar os diferentes perfis das pessoas para não cometer diferenciações no âmbito da própria cultura. 7. Luta pela libertação da mulher — em diversas culturas, as mulheres são percebidas como inferiores em relação aos homens e cabe defender a igualdade e o respeito em relação ao gênero. 8. Novos rumos das missões — é preciso repensar a missão de evangeli- zação que destruiu as crenças e religiões tradicionais de diversos povos no processo da colonização. Além desses aspectos, considere o que afirma Ríos (2002, p. 247): [...] qualquer coisa que possa ser lida como um texto cultural e que contenha em si mesma um significado simbólico sócio-histórico capaz de acionar for- mações discursivas pode se converter em um legítimo objeto de estudo: desde a arte e a literatura, as leis e os manuais de conduta, os esportes, a música e a televisão, até as atuações sociais e as estruturas do sentir. Assim, você também é convidado a se aproximar dessa maneira de enxergar o mundo em que vive. A ideia é transformar a experiência por meio de uma reflexão sobre o outro e sobre si mesmo, aproximando-se daquilo que se considera estranho e estranhando aquilo que se considera natural. 9Estudos culturais Para refletir ainda mais sobre a diversidade das formas de vida e sobre a subjetividade do outro, assista ao filme Moin, un noir (1958), do antropólogo Jean Rouch. O material pode ser encontrado online com legendas em português. A proposta do filme é mostrar o cotidiano de pessoas que migraram para a Costa do Marfim nos anos 1950 e que passaram por um choque cultural ao deixar a África tradicional, que conheciam, e adentrar o mundo moderno, que acabavam de acessar. ALMEIDA, M. W. B. Guerras culturais e relativismo cultural. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 14, n. 41, p. 5-14, 1999. CEVASCO, M. E. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003. CUCHE, D. A noção de cultura nas ciências sociais. 2. ed. Bauru: EDUSC, 2002. FLORES, E. C. 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Inicialmente, o conceito de raça estava ligado às questões fenotípicas dos grupos sociais, mas você vai perceber que essa afirmação não tem tanto fundamento científico assim. Na sequência, vamos associar esses conceitos com questões histórico- -sociais, a fim de compreender como a ideia de raça dividiu os grupos sociais e até mesmo hierarquizou uns sobre os outros. Alguns pontos históricos mundiais são relevantes, e cabe destacar algumas questões nacionais que se valeram desses conceitos para a construção da iden- tidade brasileira. Ao final, discutiremos sobre o preconceito racial e as suas implicações no mundo atual. Nesse sentido, serão apresentados alguns movimen- tos étnicos que buscam valorizar aspectos culturais no contexto em que vivem. Assim, você terá uma visão ampla de como raça e etnia são agenciadas desde o passado até os dias atuais! Distinção entre etnia e raça Somos todos iguais? Essa questão é muito complexa, e é sobre ela que va- mos nos debruçar neste capítulo. Para iniciar a discussão, precisamos saber que, apesar de termos em comum a condição de humanidade, temos origens biológicas, territoriais e culturais diferentes, e isso faz com que tenhamos diferenças não só no modo de viver a vida, mas também em aspectos físicos. Segundo Neves (2006), as principais espécies hominídeas consideradas cruciais para a história da evolução humana datam de sete milhões de anos atrás. De lá pra cá, o bipedismo, o consumo de proteína animal, a fabricação de ferramentas, o desenvolvimento do cérebro e a construção da vida em sociedade permitiram que o homem chegasse aos dias atuais como o conhe- cemos. Entretanto, é importante considerar esse aspecto temporal e pensar nos processos biológicos pelos quais a nossa sociedade passou: O acaso na evolução biológica remete-se à existência ou não de variante numa população exatamente no momento em que essas variantes poderiam ser instadas à condição de solução adaptativa. A existência de variabilidade depende de mutações, que ocorrem de forma absolutamente imprevisível no genoma. A necessidade, por sua vez, remete-se ao desafio de sobrevivência imposto por uma nova situação ambiental, ambiente aqui entendido no seu sentido lato, que inclui também os competidores (NEVES, 2006, p. 81). Em essência, para sobreviver, cada sociedade passou por processos de adaptação em sua forma de alimentação, de vestimentas, de proteção das intempéries climáticas e de tantos outros aspectos.Estes interferiram não somente nas expressões culturais às quais se filiavam, mas também em as- pectos biológicos que resultaram em mudanças físicas perceptíveis. Desse modo, a cor da pele, a cor do olho, a cor do cabelo, a altura, o tamanho, as formas corporais de partes do corpo são aspectos visíveis que diferenciam as sociedades e as culturas que conhecemos. Vamos compreender melhor como podemos analisar essas sociedades a partir da noção de raça e etnia. Carolus Linnaeus (1758) foi quem criou a taxonomia moderna e o termo Homo sapiens, reconhecendo quatro variedades do homem: o americano (Homo sapiens americanus), o europeu (Homo sapiens europaeus), o asiático (Homo sapiens asiaticus) e o africano (Homo sapiens afer). Essa situação difundiu a ideia de que há uma diferença entre grupos sociais a partir de cores: respectivamente, o vermelho, o branco, o amarelo e o preto. Para refletir o que a cor nos leva a pensar sobre raça, cabe lembra o que diz Guimarães (2008, p. 76–77): “[...] cor é uma categoria racial, pois quando se classificam as pessoas como negros, mulatos ou pardos é a ideia de raça que orienta essa forma de classificação [...]”. Logo, a difusão desse conhecimento influenciou os estudos evolutivos no sentido de reforçar a ideia de que há divisão, de certa forma homogênea, entre os grupos sociais. Todavia, poderíamos dizer que estas são raças dife- Etnia e raça2 rentes — muitas vezes percebidas pelas cores — que compõem a base para as sociedades que conhecemos hoje? Para isso, vamos estudar o próprio termo raça e problematizar os seus usos. O termo raça tem uma variedade de definições geralmente utilizadas para descrever um grupo de pessoas que compartilham certas características morfológicas. A maioria dos autores tem conhecimento de que raça é um termo não científico que somente pode ter significado biológico quando o ser se apresenta homogêneo, estritamente puro; como em algumas espécies de animais domésticos. Essas condições, no entanto, nunca são encontradas em seres humanos. (SANTOS et al., 2010, p. 122). A explicação sobre a diferença entre as sociedades por meio da divisão dos grupos sociais a partir das cores se torna sem fundamento, até mesmo porque é rara a existência de sociedades isoladas. Em geral, há grandes trocas culturais entre sociedades que vivem próximas — os seus membros inclusive transitam por esses grupos sociais por meio de casamentos. Guimarães (2008, p. 64–65) destaca que é preciso esclarecer uma dife- rença importante para compreender esse termo de forma conceitual e mais aprofundada: O que é raça? Depende. Realmente depende se estamos falando em termos científicos ou de uma categoria do mundo real. Essa palavra “raça” tem pelo menos dois sentidos analíticos: um reivindicado pela biologia genética e outro pela sociologia. [...] A biologia e a antropologia física criaram a idéia de raças humanas, ou seja, a idéia de que a espécie humana poderia ser dividida em subespécies, tal como o mundo animal, e de que tal divisão estaria associada ao desenvolvimento diferencial de valores morais, de dotes psíquicos e inte- lectuais entre os seres humanos. Para ser sincero, isso foi ciência por certo tempo e só depois virou pseudociência. [....] Depois da tragédia da Segunda Guerra, assistimos a um esforço de todos os cientistas — biólogos, sociólogos, antropólogos — para sepultar a idéia de raça, desautorizando o seu uso como categoria científica [...]. Ou seja, as raças são, cientificamente, uma construção social e devem ser estudadas por um ramo próprio da sociologia ou das ciências sociais, que trata das identidades sociais. Estamos, assim, no campo da cultura, e da cultura simbólica. [...] As sociedades humanas constroem discursos sobre suas origens e sobre a transmissão de essências entre gerações. Esse é o terreno próprio às identidades sociais e o seu estudo trata desses discursos sobre origem. Cabe deixar de lado o termo raça usado pelas ciências biológicas e tão difundido nos séculos XVIII e XIX, que entendiam como pertinente a ideia de raças humanas para diferenciar os grupos sociais — e até mesmo hierarquizá- -los —, para compreender que a única raça existente é a raça humana. Neves 3Etnia e raça (2006) compreende que esse termo só faz sentido se for utilizado no âmbito sociológico, no qual são levadas em consideração as origens do grupo, tanto pelos traços fisionômicos como pelos aspectos culturais, abarcando as suas complexidades históricas e a identidade dos seus membros. Silva e Soares (2011) destacam que esse “novo” uso do termo vem se consolidando; porém, em outros momentos, diferentes conceitos tentaram dar conta de identificar os grupos sociais de forma que considerassem a sua pluralidade sem hierarquizá-los, como explicam a seguir: Apesar dessas novas leituras conceituais e usos das palavras, o que confere uma mudança histórica altamente comum e saudável no campo das mentalidades, o conceito de “raça”, por muitas vezes foi deixado de lado em detrimento de outros, não completamente substituidores, mas que talvez fizessem o mesmo papel definidor e classificador dessas pessoas unidas por características, cultura e instituições semelhantes e, num contexto de luta por igualdades, experiências parecidas de resistência e/ou percepção de todo um sistema insistentemente segregacionista. Atualmente, um desses outros conceitos seria o de “etnia”, que tem origem do grego ethnos, o que entendemos não só como um conjunto de pessoas da comunidade. É o pertencimento do grupo, independente dos laços consanguíneos e a construção de ações coletivas (SILVA; SOARES, 2011, p. 106). Assim, o termo etnia abrange a complexidade dos contextos sociais, po- líticos e econômicos dos grupos sociais, não só enquanto identificação de grupo, mas enquanto mobilização política para a sua existência em meio aos outros grupos sociais. Luvizotto (2009, p. 30) explica que “[...] a concepção de etnicidade está além da definição de culturas específicas e, portanto, é composta de mecanismos de diferenciação e identificação que são acionados conforme os interesses dos indivíduos em questão, assim como o momento histórico no qual estão inseridos [...]”. Logo, com essa discussão, temos um quadro panorâmico de como os conceitos de raça e etnia se inserem nas sociedades e nos debates atuais. Sobre as transformações culturais nas sociedades, leia o artigo Culturas em transforma- ção: os índios e a civilização, da antropóloga Clarice Cohn. Ele revisita os conceitos de cultura e de tradição a partir da ideia de mudanças culturais entre um grupo indígena brasileiro, a fim de compreender como não há sociedade “pura” ou “intocável”. Etnia e raça4 Questões histórico-sociais dos conceitos de etnia e raça Para que você possa entender como esses conceitos foram utilizados diante das questões histórico-sociais, vamos enfatizar alguns momentos da história mundial e até mesmo da história nacional pertinentes a essa compreensão. É importante perceber que alguns usos políticos dos conceitos de raça e etnia podem explicitar diferenças entre grupos sociais dispostas pelos poderes político e econômico ou mesmo pretendem invisibilizar aspectos específi cos de culturas que vivem no mesmo espaço territorial, a partir de uma suposta de ideia de democracia racial. O primeiro destaque aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945). O plano alemão de conquista do mundo se valia da diferen- ciação dos grupos sociais para hierarquizar uns sobre os outros e valorizar a dita raça ariana: os descendentes de uma das três grandes sociedades humanas provenientes do Cáucaso (região da Europa Oriental e da Ásia Ocidental, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio). Mazowe (2008) destaca que os nazistas optaram pelos velhos padrões coloniais europeus, tanto em termos geopolíticos como em termos de questões raciais, para impor as suas ideias imperiais, exterminar povos considerados diferentes dos seus e se apresentarcomo raça superior. Assim, essa era uma estratégia política de Adolf Hitler (político alemão que foi líder do Partido Nazista) para dividir os grupos sociais, mas também fazer com que os arianos apoiassem esse regime político por medo de morrer, como analisa Foucault (1996, p. 210): [...] o regime nazista não terá como único objetivo a destruição das outras raças. Este é apenas um de seus aspectos. O outro [aspecto] é o de expor a própria raça ao perigo absoluto e universal da morte. O risco de morrer, a exposição à destruição total é um princípio inscrito entre os deveres fundamentais da obediência nazista e entre os objetivos essenciais da política. Entretanto, em nome da construção da Alemanha somente por pessoas provenientes da raça ariana, inúmeras atrocidades foram cometidas, misturando nazismo com eugenia — a seleção das pessoas com base em características genéticas. Umas das consequências desse pensamento político entre os go- vernantes alemães da época foi o holocausto, que, segundo Katz (1994, p. 28), é descrito como “[...] fenomenologicamente único em virtude do fato de que nunca antes um Estado se fixara, como objetivo de princípio e como política 5Etnia e raça de fato, a tarefa de aniquilar fisicamente cada um dos homens, mulheres e crianças pertencentes a um povo determinado [...]”. Para ter ideia de quantos judeus morreram nos vários países, veja os números do Quadro 1. Fonte: Adaptado de Coggiola (2015). País População judia antes da Guerra População judia exterminada Percentual exterminado Polônia 3.300.000 3.000.000 91 Países Bálticos 253.000 228.000 90 Alemanha e Áustria 240.000 210.000 88 Boêmia e Morávia 90.000 80.000 89 Eslováquia 90.000 75.000 83 Grécia 70.000 54.000 77 Holanda 140.000 105.000 75 Hungria 650.000 450.000 70 Bielorrússia 375.000 245.000 65 Ucrânia 1.500.000 900.000 60 Bélgica 65.000 40.000 60 Iugoslávia 43.000 26.000 60 Romênia 600.000 300.000 50 Noruega 1.800 900 50 França 350.000 90.000 26 Bulgária 64.000 14.000 22 Itália 40.000 8.000 20 Luxemburgo 5.000 1.000 20 Rússia 975.000 107.000 11 Dinamarca 8.000 120 2 Finlândia 2.000 ? ? Total 8.861.800 5.933.900 67 Quadro 1. Extermínio dos judeus na Europa Etnia e raça6 Diante desses números, percebemos como determinado uso da ideia de raça pode ter consequências perversas e aterrorizantes. Um segundo destaque para pensar nos conceitos estudados neste capítulo é em relação à difusão de uma suposta democracia racial no Brasil do século XIX. Assim como o nosso primeiro exemplo, essa proposta também tem implicações políticas de modo a invisibilizar as disputas raciais da constituição do povo brasileiro. Freyre (1995) apresenta uma convivência quase harmoniosa entre brancos, indígenas e negros desde a colonização do Brasil, trazendo a ideia de que não havia disputas raciais, imposições culturais ou mesmo resistência por parte dos povos colonizados. A sua perspectiva era de evidenciar traços de diferentes culturas que formaram o que hoje conhecemos como a cultura brasileira, mas essa leitura foi apropriada politicamente pelos governantes da época para dizer que havia no Brasil uma democracia racial. No entanto, apesar de esse ter sido um discurso oficial por muito tempo, os cidadãos reconhecem no cotidiano das cidades brasileiras que isso é um mito, como explicita Hasenbalg (1979, p. 239): [...] as pessoas não se iludem com relação ao racismo no Brasil; sejam bran- cas, negras ou mestiças, elas sabem que existe preconceito e discriminação racial. O que o mito racial no brasileiro faz é dar sustentação a uma etiqueta e regra implícita de convívio social, pela qual se deve evitar falar em racis- mo, já que essa fala se contrapõe a uma imagem enraizada do Brasil como nação. Transgredir essa regra cultural não explicitada significa cancelar ou suspender, mesmo que temporariamente, um dos pressupostos básicos que regulam a interação social do cotidiano, que é a crença na convivência não conflituosa dos grupos raciais. Para refletir sobre questões de desigualdades sociais vinculadas à discussão de raça e de classe no Brasil, leia o artigo Raça ou classe? Sobre a desigualdade brasileira, do sociólogo Jessé Souza. https://goo.gl/Dm4C8C Sabe-se que houve, no começo do século XIX, políticas de branqueamento que buscavam atrair populações da Europa ao Brasil, a partir de vantagens para a fixação desses povos no território brasileiro. Silva (2017, p. 594) explica como se deu essa articulação: 7Etnia e raça [...] para o entendimento da democracia racial como dispositivo biopolítico as- sentado na miscigenação e no chamado “projeto” de branqueamento da nação, nomeadamente a partir dos anos 1930, quando a miscigenação e a negação oficial do racismo passaram a ser emblemáticos nas narrativas identitárias da nação. [...] É neste contexto que defendo a ideia de que a população negra acaba por ser constituída como saber, pois incluída nas narrativas nacionais pelo viés da miscigenação é excluída pelo seu virtual desaparecimento, uma vez que o branqueamento é concebido mediante a própria ideia de miscigenação. Mesmo evidenciando os motivos e as consequência do mito da democracia racial, Munanga (1999, p. 125–126) explica que essas ideias influenciam até mesmo a maneira como a nossa sociedade é constituída hoje: Apesar do esforço dos movimentos negros em redefinir o negro, dando-lhe uma consciência política e uma identidade étnica mobilizadoras, contrariando a ideologia de democracia racial construída a partir de um racismo universal, assimilacionista, integracionista — o universalismo — aqui, concordamos com Peter Fry — essa ideologia continua forte no Brasil, na sua constituição e na idéia da democracia racial, mesmo se há sinais [...] de uma crescente polarização. Se a mestiçagem representou o caminho para nivelar todas as diferenças étnicas, raciais e culturais que prejudicavam a construção do povo brasileiro, se ela pavimentou o caminho não acabado do branquecimento, ela ficou e marcou significativamente o inconsciente e o imaginário coletivo do povo brasileiro. Chamando atenção para essas situações que envolvem a discussão de raça e etnia, pretendemos enfatizar a relevância das conceituações apresentadas e a necessidade de um olhar crítico para a proposição de diferença dos grupos sociais. Longe de resolver a questão, o objetivo é ampliar a percepção de como esses conceitos estão atrelados às discussões políticas e econômicas, não só na nossa história, mas também nos dias atuais. Um importante aspecto histórico em relação à questão de raça e etnia se refere à escravidão de um povo sobre o outro. Assista ao filme 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, que mostra as humilhações físicas e morais pelas quais o ser humano passa quando está sob o domínio de outro ser humano. Etnia e raça8 Repensando o preconceito racial A partir dos exemplos emblemáticos enfatizados, devemos lembrar que o preconceito racial ainda é velado nos dias de hoje. Talvez não tão explícito como no holocausto, na escravidão ou mesmo nas políticas de branqueamento anteriormente citadas, o olhar com desdém para alguém de etnia diferente ou mesmo a exclusão de um currículo por conta da cor da pele são considerados formas de preconceito racial. Para Blumer (1965), quatros aspectos permite evidenciar as formas de preconceito racial por um grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. Logo, as populações que se sentem prejudicadas em função do preconceito racial têm se organizado em movimentos sociais e se articulado para fazer valer os seus direitos sociais. Considera-se que as políticas ações afirmativas: […] tomam como base para sua implementação a extrema desigualdade racial brasileira no acesso ao ensinosuperior. Os argumentos favoráveis concentram- -se nesse sentido, afirmando a necessidade de um enfrentamento direto da sociedade brasileira a esse respeito, o que implica o reconhecimento de que o Brasil é um país racialmente desigual e que tal situação é fruto de discrimina- ção e preconceito, e não de uma situação de classe social (LIMA, 2010, p. 87). Essas políticas são consequência da mobilização dos movimentos sociais vinculados à noção de raça e etnia. Entre eles, podemos destacar: A partir da segunda metade da década de 1990 acelera-se um processo de mudanças acerca das questões raciais, marcado fortemente por uma aproxima- ção entre o Movimento Negro e o Estado brasileiro. É a partir deste momento que as reivindicações por ações mais concretas para o enfrentamento das desigualdades raciais começam a ser cobradas. Dois acontecimentos — um de âmbito nacional e outro, internacional — são destacados consensualmente pelos estudiosos do tema como momentos importantes desse processo: a Marcha Zumbi de Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, em 1995, ano de comemoração do tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, e a Conferência de Durban, em 2001 (LIMA, 2010, p. 89). Podemos dizer que, apesar de diferentes grupos sociais que reivindicam a questão da identidade étnica no Brasil, como negros, indígenas, ciganos e 9Etnia e raça outros povos que habitam o território brasileiro, a mobilização do movimento negro tem se destacado (Figura 1). Essas mobilizações descritas acima tiveram consequências concretas nas implantações das cotas raciais, como explicita Maio e Santos et al. (2010, p. 189): Logo após a conferência, o governo brasileiro definiu um programa de po- lítica de cotas no âmbito de alguns ministérios (Desenvolvimento Agrícola e Reforma Agrária, Justiça e Relações Exteriores) (Moehlecke, 2002). No plano estadual e municipal, diversas iniciativas foram realizadas para a im- plementação do sistema de cotas. Aquela que obteve maior destaque no final do ano de 2001 foi a da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, que estabeleceu uma porcentagem das vagas das universidades estaduais para pretos e pardos (Maggie; Fry, 2004). A partir de 2002, o debate e a implementação de políticas de ação afirmativa com viés racial, com foco no sistema de cotas, estenderam-se por diversas universidades públicas, tanto estaduais como federais. Em sua ampla maioria, com regras variadas, foram definidos mecanismos centrados na autodeclaração dos candidatos. Já a UnB, além de ser a primeira universidade federal a adotar o programa, estabeleceu critérios adicionais à autodeclaração para definir os beneficiários, ou seja, quem seriam os "negros". A implantação das cotas não se deu sem polêmicas, e desde então são produzidas avaliações sobre o programa em inúmeros estados. Figura 1. Movimento por Igualdade Racial. Fonte: Carlos (20178, documento on-line). Etnia e raça10 As principais críticas à política de cotas destacadas por Guarnieri e Melo- -Silva (2017, p. 185) desde a sua implantação em 2012 apontam: [...] inexistência biológica das raças; caráter ilegítimo das ações de “repara- ção” aos danos causados pela escravidão em tempo presente; risco de acirrar o racismo no Brasil; possibilidade de manipulação estatística da categoria “parda”; inviabilidade de identificação racial em um país mestiço; a questão da pobreza como determinante da exclusão social. Por outro ladro, também é preciso evidenciar pontos que foram vantajosos e que conseguiram provocar uma nova configuração da população no acesso à educação superior. Logo, a mesma pesquisa destacou: Os argumentos favoráveis concentraram-se na discussão sobre a constituciona- lidade das cotas e relevância para o país. A intervenção do Estado foi colocada como fundamental diante dos quadros de desigualdade raciais remanescentes de fenômenos sociais que precisam ser enfrentados; destacando-se que as “ações afirmativas” atuariam como alternativa para a busca de igualdade através da promoção de condições equânimes entre brancos e negros (GUAR- NIERI; MELO-SILVA, 2017, p. 185). Assim, pretendeu-se mostrar como podemos criar estratégias e apontamentos críticos para combater o preconceito racial, ainda que o seu processo histórico tenha se enraizado não somente no contexto nacional, como também no contexto internacional. Para compreender mais sobre o processo de implementação das cotas em termos das discussões sobre raça e etnia, leia o artigo A reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras, de Yvonne Maggie e Peter Fry. https://goo.gl/xfpMVn 11Etnia e raça BLUMER, H. The nature of racial prejudice. In: HUNTER, G. Industrialization and Race Relations. Westport: Greenwood, 1965. CARLOS, J. Manifestantes marcham por igualdade racial em frente ao viaduto do Chá, no centro de São Paulo. 1978. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. COGGIOLA, O. A Segunda Guerra Mundial: causas, estruturas, consequências. 2015. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2018. FOUCAULT, M. Genealogia del racismo. La Plata: Altamira, 1996. FREYRE, G. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da eco- nomia patriarcal. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 1995. GUARNIERI, F. V.; MELO-SILVA, L. L. Cotas universitárias no Brasil: análise de uma década de produção científica. 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Apresentam-se como fonte indispensável para a compreensão das relações de poder e da atuação do Estado ao tratarem de temas relevantes como poder político, direitos políticos, democracia, legitimidade do poder, formas de governo, sistemas de governo e funções do Estado. Neste capítulo, você verá os conceitos básicos que orientam a disci- plina, com a diferenciação entre ciência política e teoria geral do Estado, e, ao final, identificará a importância prática e teórica do estudo. Considerações iniciais Não é nova a ideia segundo a qual o homem somente pode ser compreendido a partir da sua inserção na vida em sociedade. De fato, o ser humano é agregador e depende, pela sua própria essência, da aproximação com o outro. Conforme Aristóteles, o homem é um ser político. Em paralelo, a condição humana também traz uma constante autorreflexão: o homem busca conhecimento e aprofundamento das estruturas que lhe são apresentadas. É nessa linha de raciocínio que se verifica a presença, desde priscas eras, de um pensamento científico. A ciência surge justamente como um fenômeno de análise das rela- ções de causa e efeito, na tentativa de sistematizar e organizar o conhecimento adquirido. Com a vida em sociedade, não é diferente. O estudo da organização política e dos comportamentos políticos da socie- dade é destinado à ciência política enquanto disciplina do saber. Já o estudo do Estado, enquanto organização jurídica da sociedade, é destinado à teoria geral do Estado (DALLARI, 2013). Sob a perspectiva da ciência política, relevantes aspectos da vida em sociedade são objeto de reflexão e compreendem as definições básicas das instituições sociais e o seu próprio funcionamento. Não é por outra razão que o estudo da ciência política envolve temas delicados, como poder polí- tico, direitos políticos, democracia, legitimidade do poder, Estado e governo (MORAIS; STRECK, 2010). Sob o enfoque da teoria geral do Estado, tantos outros importantes temas são pontos de questionamento e abrangem não apenas a definição de Estado, mas também as suas origens, os seus fundamentos e as suas finalidades. Por essa razão, o estudo da teoria geral do Estado não desconsidera algumas categorias essenciais, como as formas de Estado, as formas de governo, os sistemas de governo e as funções do Estado. Além disso, consideramos a possibilidade de diferentes enfoques para o estudo. Surgem, assim, as perspectivas filosófica, sociológica e jurídica. Sob o prisma filosófico, buscamos os fundamentos do Estado e da sociedade, isto é, a sua justificativa teórica. Sob o prisma sociológico, identificamos os fatos concretos que revelam a prática social na indissociável relação existente entre o Estado e as condicionantes sociais existentes. Por fim, na perspectiva jurídica, pretendemos evidenciar a organização e personificação do Estado por meio do corpo normativo que o compõe (DALLARI, 2013). No ápice dessa última formulação, devemos citar Hans Kelsen, para quem o Estado se situa no plano do dever–ser (sollen) (DALLARI, 2013). A esse respeito, confira a posição de Max Weber (apud BONAVIDES, 2009, p. 42): Com efeito, na sociologia política de Max Weber, abre-se o capítulo de fecundos estudos pertinentes à política científica, à racionalização do poder, à legitima- ção das bases sociais em que o poder repousa, inquire-se ali da influência e da natureza do aparelho burocrático; investiga-se o regime político, a essência dos partidos, sua organização, sua técnica de combate e proselitismo, sua liderança, seus programas; interrogam-se as formas legítimas de autoridade, como autoridade legal, tradicional e carismática; indaga-se da administração Ciência política e teoria geral do Estado8 pública, como nela influem os atos legislativos, ou com a força dos parla- mentos, sob a égide de grupos socioeconômicos poderosíssimos, empresta à democracia algumas de suas peculiaridades mais flagrantes. O componente humano presente na disciplina conjugada de ciência política e teoria geral do Estado provoca uma compreensão que transborda a perspectiva meramente jurídica ou sociológica. De fato, entender as relações entre o indivíduo e o Estado é aceitar uma complexidade interdisciplinar: somente se apreende o todo se forem considerados fatores históricos, econômicos, filosóficos e, até mesmo, psicológicos (MORAIS, 2010). O aspecto temporal também influencia sobremaneira o estudo da disci- plina. Assim, algumas categorias conceituadas de determinada forma hoje poderão não mais ter a mesma definição amanhã. Essa, aliás, é considerada uma das grandes dificuldades do pensamento científico. Confira, a propósito, o pensamento de Paulo Bonavides (2009, p. 39): Mas se o oxigênio, enxofre e o hidrogênio “se comportam da mesma maneira na Europa, na Austrália ou em Sírius”, se qualquer mudança na composição do elemento químico encontra no cientista condições fáceis e seguras de exame e esclarecimento, o mesmo não se dá com o fenômeno social e político. Fica este sujeito a imperceptíveis variações, de um para outro país, até mesmo na prática do mesmo regime; ou de um a outro século, de uma a outra geração. Por tais razões, compreender a ciência política e a teoria geral do Estado na atualidade é também considerar os movimentos atuais de crítica e reorganização da estrutural estatal, notadamente em razão da reavaliação da posição do Estado frente à sociedade e da dinâmica da globalização (CHEVALLIER, 2009). Não se pode desconsiderar, também, a chamada crise do Estado contemporâneo, que coloca em cheque a definição tradicional e o papel do ente estatal. Basta considerar, como exemplo dessa crise, a questão do espaço geográfico do Estado: As fronteiras, físicas e simbólicas, que delimitavam a esfera de influência, o es- paço de dominação do Estado, tornaram-se porosas: os Estados são atravessados por fluxos de todas as ordens, que eles são incapazes de controlar, de canalizar e, se necessário, conter; já não tendo controle sob as variantes essenciais que comandam o desenvolvimento econômico e social, a sua capacidade de regu- lação tornou-se, concomitantemente, aleatória (CHEVALLIER, 2009, p. 32). 9Ciência política e teoria geral do Estado Conceitos fundamentais A seguir, você identificará os conceitos de ciência política e teoria geral do Estado e conhecerá suas diferenças e semelhanças. Ciência política A política, enquanto prática humana relacionada com a noção de poder, é objeto de debate e reflexão desde o passado longínquo. Dessa forma, muitas obras clássicas são referência até hoje, com relevância para Platão, Aristóteles, Nicolau Maquia- vel, Thomas Hobbes, John Locke, Alexis de Tocqueville, Rousseau, Karl Marx, George Burdeau, entre tantos outros. A palavra remonta à noção grega de pólis. Sobre o conceito de ciência política, Dalmo Dallari (2013, p. 17) destaca que ela “faz o estudo da organização política e dos comportamentos políticos, tratando dessa temática à luz da Teoria Política, sem levar em conta os elemen- tos jurídicos”. Essa definição considera que o elemento central do estudo é a política e, por essa razão, deságua na noção de poder. Com efeito, a ciência política é centrada no estudo do poder e, portanto, da autoridade (DUVERGER apud DIAS, 2013, p. 9). Em síntese, o objeto da ciência política é o poder. Para melhor estudar o seu objeto,é possível identificar quatro campos de atuação da ciência política (DIAS, 2013): � as instituições em que atuam os sujeitos, como o Estado e o governo; � os recursos utilizados, como a influência e a autoridade; � os meios para a formulação de decisões políticas (decision-making); � as funções desempenhadas, como a solução consensual de conflitos e a imposição de decisões pelos atores dotadas de autoridade. Teoria geral do Estado O Estado, enquanto organização política da sociedade (em determinada base territorial e qualificada pelo poder político), também é objeto de intenso de- bate. Aliás, apesar dessa definição inicial, o conceito de Estado é polêmico e multifacetado, sempre dependente da perspectiva de exame (DALLARI, 2013). Sob o enfoque jurídico, seguramente haverá definição diferente da perspectiva meramente sociológica de Estado. A teoria geral do Estado se dedica “ao estudo do Estado sob todos os as- pectos, incluindo a origem, a organização, o funcionamento e as finalidades, compreendendo-se no seu âmbito tudo o que se considere existindo no Estado Ciência política e teoria geral do Estado10 e influindo sobre ele” (DALLARI, 2013, p. 18). É evidente, com isso, que o estudo do Estado também diz respeito às condições de possibilidade de sua compreensão (MORAIS, 2010). Em termos práticos, as questões abordadas na teoria geral do Estado já eram tratadas pelos autores clássicos da ciência política. A sistematização, como disciplina autônoma, deveu-se principalmente à doutrina alemã do final do século XIX e início do século XX, notadamente com Georg Jellinek e a sua teoria geral do Estado (Allgemeine Staatslehre, 1911). Diferenças e semelhanças Apresentadas as definições de ciência política e teoria geral do Estado, verifica- mos, com clareza, que as disciplinas não se confundem. Enquanto a primeira diz respeito às relações de poder, a segunda diz respeito às relações com o Estado. É certo, por outro lado, que “não há possibilidade de desenvolver qualquer estudo ou pesquisa de Ciência Política sem considerar o Estado” (DALLARI, 2013, p. 17). A ciência política, com efeito, é disciplina mais ampla e da qual a teoria geral do Estado faz parte. Essa, aliás, é a concepção de Herman Heller (apud DIAS, 2013), que já apontava a dificuldade em diferenciar ambos os fenômenos. De todo modo, para ele, há uma dependência recíproca entre ambas: a teoria geral do Estado é também pressuposto da ciência política. Há, por outro, uma inevitável aproximação entre ambas. É que as duas se debruçam sobre a convivência humana, o Estado e a política: [...] não somente para saber como se constituem, nem somente no sentido de uma obra de arte ou de uma teoria da constituição, mas, em última instância, no sentido de que constituem uma ciência da ordem. Têm uma tarefa comum, pois têm que responder à velha questão de como nós, seres humanos, podemos chegar a ter uma vida racional e boa (DIAS, 2013, p. 14). Confira a íntegra da obra de Georg Jellinek no link abaixo ou acessando o código ao lado: https://goo.gl/sqAVQN. 11Ciência política e teoria geral do Estado Importância da disciplina Variadas razões justificam o estudo da ciência política e da teoria geral do Estado. Com efeito, a disciplina tem relevo jurídico e, na pena de Dalmo de Abreu Dallari, podem ser identificadas três razões para se considerar a matéria importante (DALLARI, 2013). A primeira razão é de consciência: quem vive em sociedade precisa saber a sua organização e o papel que deve cumprir, sob pena de se tornar um autômato despido de intelectualidade e sem vontade própria. A segunda razão é de ordem crítica. Assim, devem ser conhecidas as formas e os métodos pelos quais os problemas sociais serão conhecidos e as soluções propostas para que se “evite o erro de pretender o transplante, puro e simples, de fórmulas importadas, ou a aplicação simplista de ideias consagradas, sem a necessária adequação às exigências e possibilidades da realidade social” (DALLARI, 2013, p. 13). A terceira razão é de ordem prática. Isso porque a ciência política e da teoria geral do Estado colaboram, de forma incisiva, para a elaboração da ordem jurídica. São, portanto, passos necessários para a compreensão do Direito de determinada sociedade. Essa perspectiva prática revela ainda o enfrentamento que deve existir entre as construções teóricas e o cotidiano daqueles inseridos em determinada comunidade jurídica. De fato, não há qualquer utilidade em uma reflexão sobre o papel da autoridade e do Estado que não considere as peculiaridades da sociedade na qual está inserida. Por isso, deve ser acrescentada uma última boa razão para o estudo da disciplina. A quarta razão proposta é reativa. De fato, compreender os institutos é, também, encontrar as suas qualidades e os seus defeitos, suas virtudes e seus vícios, de modo a buscar o aprimoramento das instituições. Assim, por exemplo, no que concerne à teoria geral do Estado, não basta apenas identificar a existência de propostas decorrentes do programa estatal, mas cumpre perquirir sobre a efetividade da sua atuação. Se o Estado brasileiro tem uma agenda, cumpre verificar se ela vem sendo cumprida. E, no âmbito da ciência política, se há um debate sobre a democracia, cumpre refletir sobre a real possibilidade de participação da comunidade na tomada de decisão. De igual modo, mudanças nas regras do jogo político podem receber uma reflexão mais tenaz em razão das posturas adotadas. Ciência política e teoria geral do Estado12 BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009. CHEVALLIER, J. O Estado pós-moderno. Belo Horizonte: Fórum, 2009. DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. DIAS, R. Ciência política. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2013. MORAIS, J. L. B. de; STRECK, L. L. Ciência política e teoria do Estado. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. 13Ciência política e teoria geral do Estado CIÊNCIA POLÍTICA E TEORIA GERAL DO ESTADO Felipe Scalabrin Revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna Graduado em Direito Especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional e em Direito Público Mestre em Direito Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 S281c Scalabrin, Felipe Ciência política e teoria geral do estado [recurso eletrônico] / Felipe Scalabrin, Débora Sinflorio da Silva Melo ; [revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. ISBN 978-85-9502-189-1 1. Formas de organização política. 2. Estado. 3. Ciência política. 4. Teoria geral do estado. I. Melo, Débora Sinflorio da Silva. II. Título. CDU 321.01 Origem do Estado Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Analisar as teorias de origem do Estado. � Reconhecer a importância da teoria contratualista de Estado. � Distinguir as formações natural e histórica do Estado. Introdução Você já percebeu que todas as sociedades civilizadas estão organizadas em torno de um Estado? Realmente, o cenário mundial confirma que o convívio organizado do homem é centrado nessa figura considerada uma sociedade política. Com efeito, as razões pelas quais esse fenômeno ocorre são indispensáveis para uma correta compreensão das relações entre o Estado, o indivíduo e outros grupos sociais. Compreender as origens do Estado significa, também, identificar os limites do seu poder. Neste capítulo, você estudará as teorias sobre a origem do Estado, diferenciando a sua formação natural e a sua formação histórica, bem como conhecerá a importância da teoria contratualista. Estado como sociedade política A origem da sociedade revela que o indivíduo se reúne em torno de determi- nados objetivos de forma organizada e, para atingir tais finalidades, aceita ou se submete a um poder de caráter social. Assim, revelam-se os elementosgeralmente presentes na sociedade: finalidade, ordem e poder social. Em uma perspectiva ampla, quando a finalidade almejada reside na criação de condições gerais para a realização dos objetivos individuais, essa sociedade é considerada política (DALLARI, 2013). A sociedade política comunga interesses gerais e individuais, na medida em que proporciona, a um só tempo, a consecução de fins próprios e de objetivos comuns para todos os seus integrantes. É frequente, inclusive, que se refira à busca do bem comum como a finalidade última de uma sociedade política considerada na perspectiva mais ampla de participantes. Nessa percepção mais ampla, quando aceita uma autoridade superior que estabeleça as regras de convivência em torno desse objetivo comum, surge a primeira concepção de Estado. De fato, o Estado é uma espécie de sociedade política. A expressão Estado, porém, é reveladora de momento histórico determinado e específico. Coube a Maquiavel o seu emprego na obra O príncipe (1513). Diante da importância da obra, que apontava as características para um governo de sucesso no contexto político da Itália, o termo se difundiu ao longo do século XVII, superando concepções mais tradicionais que faziam alusão ao “estado” como grande propriedade particular (estados na Espanha e states na Inglaterra) (DALLARI, 2013). Mais adiante, a expressão passou a ser empregada apenas quando estivessem presentes algumas características específicas. Foi então que surgiu, no século XVIII, o chamado Estado mo- derno (DALLARI, 2013). A dificuldade em identificar uma exata conceituação sobre o que se en- tende por Estado deságua em similar desafio para encontrar as suas origens. Assim, uma primeira corrente defende que a figura do Estado, associada a uma sociedade organizada, sempre existiu. Não seria concebível uma sociedade sem Estado. Nesse sentido, o Estado seria justamente o princípio organizador de toda a humanidade. Por outro lado, uma segunda corrente afirma que o aparecimento do Estado depende das conveniências e oportunidades de cada grupo social, dependendo das condições concretas de cada agrupamento em cada localidade. Por fim, uma terceira corrente destaca que somente pode ser considerado Estado aquela sociedade política com características próprias e nascida na metade do século XVII. Para essa concepção, a definição de Estado não é generalizável, mas um produto histórico decorrente do reconhecimento da ideia de soberania, isto é, a concentração de poder em determinado território e sobre uma determinada comunidade — o que somente teria ocorrido no século XVII (MORAIS; STRECK, 2010). Apesar de a expressão Estado ser uma inovação difundida no século XVII, a noção de uma sociedade política organizava já existia na Antiguidade. Origem do Estado26 Formação do Estado A formação do Estado é tema que suscita divergências. Variadas seriam as possíveis causas para o surgimento dessa sociedade política, sendo frequente a classificação entre formação originária e formação derivada (AZAMBUJA, 2008). A primeira estaria relacionada ao avanço na organização de um agru- pamento pela primeira oportunidade, isto é, sem que houvesse uma ordem política anterior. A segunda diz respeito a situações em que novos Estado surgem a partir de outros já existentes. Nesse caso, falamos em fracionamento (quando uma parte do território de um Estado é desmembrada e se constitui um novo Estado) ou em união (quando dois ou mais Estados se reúnem para formar um novo Estado). Teorias naturalistas As teorias naturalistas buscam explicar a formação originária do Estado a partir de uma condição espontânea do ser humano. Segundo essas teorias, haveria uma formação espontânea do Estado, que dispensa qualquer ato volun- tário da comunidade. Assim, o surgimento do Estado não depende de qualquer ato específico do homem, mas seria produto da sua natural caminhada em sociedade. Trata-se, portanto, de uma formação natural e, dessa forma, não contratual do Estado. A formação natural do Estado é assim defendida por Darcy Azambuja: [...] só um fato é permanente e dele promanam outros fatos permanentes: o ho- mem sempre viveu em sociedade. A sociedade só sobrevive pela organização, que supõe a autoridade e a liberdade como elementos essenciais; a sociedade que atinge determinado grau de evolução passa a constituir um Estado. Para viver fora da sociedade, o homem precisaria estar abaixo dos homens ou acima dos deuses, como disse Aristóteles, e vivendo em sociedade ele natural e necessariamente cria a autoridade e o Estado (AZAMBUJA, 2008, p. 109). As principais causas não contratuais para o surgimento do Estado são siste- matizadas por Dalmo de Abreu Dallari da seguinte forma (DALLARI, 2013): Origem familiar — considera que o núcleo familiar é a célula-mãe da socie- dade política. De fato, a partir da reunião de diversas famílias, a complexidade do grupo social aumenta e, assim, surge o Estado enquanto figura de reunião da comunidade. Essa foi a proposta de Fustel de Coulanges ao tratar do sur- gimento do Estado grego e do Estado romano. 27Origem do Estado Origem violenta — considera que o Estado é o resultado da natural su- perioridade de força de determinado grupo sobre outro. Assim, lembra Darcy Azambuja que o Estado é, durante os seus primeiros estágios, uma organização imposta pelo vencedor para manter a dominação do vencido (AZAMBUJA, 2008). É também denominada teoria da violência ou teoria da conquista. Origem econômica — considera que a reunião do sujeito em torno de um aparato de poder organizado decorre de motivos econômicos. Assim, o Estado proporciona a reunião de variados interesses, já que ninguém é bastante em si. Mais do que isso, essa teoria destaca que o Estado proporciona a divisão do trabalho e a integração de diversas atividades diferentes. Alguns autores, como Marx e Engels, vão ao extremo dessa teoria para explicar as razões pelas quais o Estado autoriza tantas desigualdades: na sua origem econômica, ele institucionalizou a propriedade privada, o acúmulo de patrimônio, a divisão de classe e, por consequência, a luta entre elas. Sobre o tema, confira a crítica de Darcy Azambuja (2008, p. 103): Quanto à luta de classes, o que a história e a sociologia têm demonstrado é que ela sempre existiu como também sempre existiu a cooperação entre as classes; que o Estado possa ser frequentemente instrumento dessa luta é demonstrável; mas, que ele tenha nela sua origem, é história distorcida e sociologia para propaganda política. Origem no desenvolvimento interno — considera que toda sociedade humana tem um Estado em potencial que surgirá à medida que a sua complexidade aumentar. Assim, uma sociedade pouco desenvolvida dispensa a figura do Estado, mas uma sociedade com maior desenvolvimento tem por necessidade o surgimento do Estado. Há, em razão disso, um surgimento do Estado natu- ralmente decorrente do progresso de uma sociedade. Teorias contratualistas As teorias contratualistas buscam explicar a formação originária do Estado a partir de um ato voluntário do ser humano. Segundo essas teorias, a formação do Estado depende de uma convenção expressa realizada entre os integrantes de uma sociedade. Assim, em linhas gerais, o surgimento do Estado dependeria de um ato concreto de reunião e aceitação, por alguns denominado contrato social. Trata-se, portanto, de uma formação contratual do Estado. Origem do Estado28 Para o pensamento contratualista, a sociedade e o Estado são criações artificiais da razão humana, derivadas de um consenso, tácito ou expresso, da maioria dos indivíduos para encerrar o estado de natureza e iniciar o estado civil. Assim, a origem e a legitimação do Estado são uma decorrência do contrato entre os indivíduos (MORAIS; STRECK, 2010). O pensamento contratualista, entretanto, não é uniforme, merecendo especial atenção as ideias de Hobbes, Locke e Rousseau. Nesse sentido, Hobbes destaca que, antes da vida emsociedade, o homem se encontrava em uma fase primitiva, caracterizada pela insegurança e incerteza constantes. No estado de natureza, para ele, haveria uma eterna guerra de todos contra todos, derivada do caráter eminentemente negativo do homem — que não possui uma natureza boa. Assim, com o intuito de preservar a própria vida, o ser humano lança mão de um pacto em que se despoja dos seus direitos em detrimento de segurança. Entretanto, como a transgressão é ínsita ao homem, para garantir o cumprimento do pacto social, o grupo entrega o poder social para um novo sujeito, que é justamente o Estado. Por essa razão, a teoria contratualista de Hobbes justifica, a um só tempo, o surgimento da sociedade organizada (estado civil) e do Estado. Curiosamente, a figura é chamada, por Hobbes, de Leviatã (“metade monstro e metade deus mortal”), ente capaz de garantir a paz e a defesa da vida dos seus súditos (MORAIS; STRECK, 2010, p. 32). O pensamento do autor inglês traz amplos poderes para o soberano, já que não há parâmetros naturais para a ação estatal, uma que pelo contrato o ho- mem se despoja de tudo, exceto da vida, transferindo o asseguramento dos interesses à sociedade política, especificamente ao soberano. O Estado e o Direito se constroem pela demarcação de limites pelo soberano que, por não ser partícipe na convenção instituidora e, recebendo por todo desvinculado o poder dos indivíduos, tem aberto o caminho para o arraigamento de sua soberania (MORAIS; STRECK, 2010, p. 34). Assim, em Hobbes, o Estado “já nasce com poderes supremos” (DINIZ, 2001, p. 152). Reafirmamos que, para Hobbes, é a manutenção do pacto social que possibilita a existência de paz entre o grupo social. As condições para o cumprimento do contrato, por sua vez, são uma providência do soberano — autorizado a “velar para que o temor ao castigo seja uma força maior que o fascínio exercido pelo desejo de qualquer vantagem possa esperar de uma violação do contrato” (DINIZ, 2010, p. 161). Com efeito, para Hobbes, a submissão absoluta é o preço a ser pago pelo súdito pela salvação trazida 29Origem do Estado pelo Estado (DIAS, 2013). Por essa razão, o seu pensamento é inspiração do modelo absolutista. Ao pensamento de Hobbes, contrapõe-se Locke — defensor das liberda- des individuais e fervoroso antagonista do modelo absolutista. Para ele, no estado de natureza, o homem já possui um domínio racional de suas paixões e seus interesses, de modo que não se pode considerar a existência de uma guerra potencial. Pelo contrário, nesse estágio inicial da sociedade, há uma paz relativa que permite ao homem identificar os seus limites e reconhecer a existência de alguns direitos. De fato, no pensamento de Locke, existem diversos direitos inatos ao homem, como a vida, a liberdade e a propriedade. Falta, porém, uma força coercitiva apta a solucionar conflitos que possam surgir (MORAIS; STRECK, 2010). A necessidade de uma força coercitiva para assegurar a proteção dos direitos inatos ao homem conduz à elaboração de um pacto entre os integrantes da sociedade. Surge, então, o contrato social como ferramenta de legitimação do poder e de manutenção dos direitos naturais. Assim, o pacto se sustenta na necessidade de proteção de direitos previamente existentes e na sua proteção contra possíveis conflitos. Surgem, assim, o estado civil e a fonte da autoridade estatal. Verificamos, nesse panorama, o caráter individualista de Locke: o surgimento do estado civil se dá para resguardar os direitos naturais de cada sujeito (MORAIS; STRECK, 2010), em especial, a propriedade (APPIO, 2005). O poder do Estado, nessa linha, já surge limitado aos direitos naturais antes existentes. Como podemos perceber, enquanto Hobbes via no Estado um ente ple- nipotente, Locke identifica no Estado um ente com poder delimitado. Por essa razão, defende ele que os sujeitos do contrato podem se opor ao Estado quando houver violação a direitos naturais. Existe, pois, direito de resistên- cia na sociedade política defendida por Locke (MORAIS; STRECK, 2010). Ainda, para ele, quando já instaurados a sociedade e o Estado, além do limite inicial decorrente dos direitos naturais, deverá ser observado o princípio da maioria. Assim, haverá uma proeminência do Poder Legislativo sobre o Poder Executivo (MORAIS; STRECK, 2010). Além disso, a observância da lei é impositiva, porque é fundada no próprio contrato social — o deixar de seguir a lei criado pelo Poder Legislativo é o mesmo que querer retornar ao estado natural (APPIO, 2005). Origem do Estado30 No pensamento de Locke, o soberano é limitado pelos direitos naturais e pela própria sociedade civil. Vale lembrar que Locke, além de ser o pai do liberalismo, é considerado uma das maiores influências históricas da Revolução Inglesa (1688) e da Revolução Americana (1776). O pensamento de Rousseau também é digno de referência, já que confirma a evolução da origem do Estado de um modelo absolutista para um modelo democrático. Com Rousseau, a tese do estado de natureza apenas facilita o entendimento da sociedade. Na realidade, a formação de uma sociedade teria maior caráter histórico. É célebre a sua afirmação de que, quando o primeiro homem reivindicou propriedade e os demais, ingênuos, aceitaram, teria surgido a sociedade. Assim, a noção de estado de natureza é emprestada apenas para ilustrar o contrato social e a legitimidade do poder social. Na compreensão de Rousseau, para manter a liberdade e a igualdade do indivíduo, propõe-se que o contrato social seja uma entrega do particular (vontade individual) para o geral (vontade geral), de modo que, quando ocorre a incursão no estado civil, não há uma abdicação da liberdade, mas sim uma entrega dela para toda a comunidade. E, como o sujeito faz parte do grupo social, não há qualquer perda. Pelo contrário, no pacto social, o indivíduo mantém a sua condição de liberdade e igualdade. É, pois, no princípio da vontade geral que reside a legitimidade do poder em Rousseau (MORAIS; STRECK, 2010). Nessa linha de entendimento, o poder não decorre da submissão a um terceiro, mas da união havida entre iguais. Trata-se de concepção na qual cada um renuncia a seus interesses particulares em detrimento da coletividade. Confira: Enfim, dando-se cada um a todos, não se dá a ninguém, e como não haverá nenhum associado sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se cedeu, ganha-se o equivalente a tudo que se perde e mais força para se conservar aquilo que se tem. Se, afinal, retira-se do pacto social aquilo que não pertence à sua essência, veremos que ele se reduz aos seguintes termos: cada um põe em comum sua pessoa e todo seu poder sob suprema direção da vontade geral; e enquanto corpo, recebe-se cada membro como parte indivisível do todo (ROUSSEAU, 2017, p. 24). 31Origem do Estado A primordial contribuição desse pensamento é o tom democrático: é in- dispensável o respeito à vontade geral encarnada na maioria. O poder, nessa passagem, não mais pertence a um príncipe ou oligarca, mas à própria co- munidade. Traz, por outro lado, a problemática reversa: Rousseau consagra o despotismo da maioria e sufoca qualquer pensamento político contrário à voz dominante (MORAIS; STRECK, 2010). Seja como for, no seu pensamento, há uma inegável proposta de limitação do Estado, já que o soberano não tem o direito de sobrecarregar um indivíduo em detrimento do outro (DIAS, 2013): Assim, fica claro que o poder soberano, por mais que seja totalmente abso- luto, sagrado e inviolável, não ultrapassa nem pode ultrapassar os limites das convenções gerais, e que todo homem pode dispor plenamente dos seus bens e da sua liberdade naquilo que foi estipulado por essas convenções; de modo que o soberano nunca tem direito de sobrecarregar mais um súdito que o outro, uma vez que seu poder não é mais competente, quando o assunto se torna particular” (ROUSSEAU, 2017, p. 40). A importância da teoria contratualista da formação do Estadoé inegável, já que não apenas revela a proteção de direitos do indivíduo como também enuncia que o Estado, desde a sua origem, é limitado. APPIO, E. Teoria geral do Estado e da constituição. Curitiba: Juruá, 2005. AZAMBUJA, D. Teoria geral do Estado. 4. ed. São Paulo: Globo, 2008. BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009. DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. DIAS, R. Ciência política. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2013. DINIZ, A. C. de A. Direito, Estado e contrato social no pensamento de Hobbes e Locke: uma abordagem comparativa. Revista de Informação Legislativa, Brasília, v. 29, n. 152, out./dez. 2001. MORAIS, J. L. B. de; STRECK, L. L. Ciência política e teoria do Estado. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social. Petrópolis: Editora Vozes, 2017. Origem do Estado32 CIÊNCIA POLÍTICA E TEORIA GERAL DO ESTADO Débora Sinflorio da Silva Melo Sistemas de governo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Apresentar os sistemas de governo. � Explicar o sistema presidencialista. � Explicar o sistema parlamentarista. Introdução Neste capítulo, você vai ler a respeito do nascimento de importantes sistemas governamentais responsáveis pelo funcionamento de cada país. Primeiro, serão analisados e nomeados cada um dos sistemas, ou seja, o presidencialismo, o semipresidencialismo e o parlamentarismo. Na sequ- ência, será aprofundado o estudo dos sistemas de governo presidencial e parlamentar, relacionando-os e diferenciando-os entre si. Aproveite a análise dos sistemas de governo e comprove a sua im- portância para o Estado. Dos sistemas de governo Segundo o professor José Geraldo Brito Filomeno (2016, p. 191), os sistemas de governo seriam “os tipos de exercício das funções do poder político, de acordo com o relacionamento que mantenham entre si os órgãos das funções legislativas, de um lado, e executiva, de outro”. Nesse sentido, você pode entender que, independentemente do sistema de governo adotado (presidencialismo, semipresidencialismo ou parlamentarismo) e de ter sido criado ou ser decorrente de um processo evolutivo político, cada um possui particularidades importantes para o funcionamento de um país. Além disso, o sistema de governo não deve ser confundido com as formas de governo nem com as formas de Estado (unitário, regional ou federativo); assim, o sistema de governo se relaciona entre os Poderes Executivo e Legis- lativo, e a forma de governo, entre os governantes e governados. Tratando-se da relação política entre Executivo e Legislativo, atualmente é perceptível um grande embate entre esses poderes, agravado principalmente por crises políticas que têm assolado diversos países, bem como escândalos de corrupção envolvendo líderes políticos. O Brasil e a Venezuela, por exemplo, principalmente desde 2016, sofrem com a desestabilização do poder, do sistema político e das formas de governo adotadas. Como resultado, os especialistas políticos e os parlamentares passaram a destacar a necessidade de uma ur- gente reformulação das concepções de governo adotadas na atualidade, seja em relação à forma de governo ou ao sistema adotado, pois, do contrário, a sociedade seguiria sofrendo as mazelas de um desgoverno presidencialista, parlamentarista ou semipresidencialista. Presidencialismo O presidencialismo é o sistema de governo adotado pelo Brasil e pela maioria dos países americanos. Esse fato decorre principalmente em razão do seu surgimento, visto que, ao contrário do sistema parlamentarista, o sistema presidencial não evoluiu com o tempo, como ocorreu com o parlamentarismo. O sistema presidencial nasceu nos Estados Unidos da América (EUA) em consequência da revolução liberal norte-americana e da Constituição de 1787 (Filadélfia), a qual previa a monarquia constitucional eletiva, ou melhor, a república como forma de governo e a adoção do presidencialismo como sistema. Nesse novo sistema, um indivíduo seria eleito pelo povo e teria a responsabilidade de exercer a função de chefe de Estado e chefe de governo. No caso dos EUA, o primeiro presidente eleito foi George Washington (1789–1797). No presidencialismo, o presidente é eleito por meio do sufrágio univer- sal (voto) para administrar e governar o Estado por um período de 4 anos, sendo possível, em alguns países, a reeleição presidencial por igual período. Ressalta-se que, junto com o presidente, também é eleito o vice-presidente. O presidente, diversamente do primeiro-ministro (sistema parlamentar), exerce a função de chefe de Estado e chefe de governo; por isso, detém maior poder hierárquico, como, por exemplo, o de rejeitar lei propostas pelo Congresso. No Congresso (Poder Legislativo), os membros que o compõem (bicameral — duas câmaras) são eleitos por meio de sufrágio universal, como, por exemplo, os deputados e senadores; já os ministros são indicados pelo presidente. Assim, é possível perceber a separação de poderes elaborada por Montesquieu, sobre- tudo no que diz respeito ao Executivo na pessoa do presidente e ao Legislativo em relação ao Congresso. Nesse sentido, ao final, há dois centros de poder 105Sistemas de governo institucionalizados, nos quais não há um órgão governamental que, em caso de conflito entre os Poderes Executivo e Legislativo, interponha-se como mediador. No caso do sistema presidencialista, caso o presidente, durante o seu governo, cometa algum crime de responsabilidade, estará sujeito a processo de impea- chment, que, caso aceito, resultará no afastamento do presidente e, caso aceito de forma favorável pelo Senado Federal, resultará na destituição do presidente. No caso do Brasil, a ex-presidente Dilma Rousseff foi destituída do cargo presidencial e substituída pelo vice- -presidente, atual presidente Michel Temer, em 2016, em consequência de um processo de impeachment. Para saber mais, veja o link da cronologia do processo instalado contra a ex-presidente: https://goo.gl/I6Ra5J Segundo Sartori (1993), para que um sistema presidencialista seja consi- derado puro, como é o dos EUA, deve reunir os seguintes critérios: 1. a escolha do chefe de Estado (presidente) resulta de eleições populares; 2. durante o mandato preestabelecido, o chefe de Estado não pode ser demitido pelo voto parlamentar; 3. o chefe de Estado chefia o governo ou governos por ele próprio nomeados. Uma das principais críticas ao sistema presidencialista é que, em razão da aliança entre o presidente e os partidos aliados, ocorre um desequilíbrio de poder e o favorecimento, em desprezo das obrigações governamentais e do povo. No caso do Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê, nos arts. 84 a 86, as atribuições e responsabilidades do presidente da República; já os arts. 44 a 75 abordam a organização do Poder Legislativo brasileiro. Leia e estude os artigos constitucionais. Sistemas de governo106 E você, o que pensa sobre o sistema presidencialista? Semipresidencialismo O semipresidencialismo é uma mescla do parlamentarismo e do presidencia- lismo. Tal sistema se originou na França (Revolução Francesa), com a culmi- nação da Constituição de 1791 e a instituição da monarquia constitucional. Posteriormente, com a Constituição de 1793, surgiu na França o governo da assembleia — parlamento. No semipresidencialismo, ainda que o presidente possua autonomia de poder, compartilha-a com o primeiro-ministro. Logo, diferentemente do sistema presidencialista e do parlamentarismo, o presidente exerce a função de chefe de Estado, e o primeiro-ministro, a função de chefe de governo. Ao povo, por meio do sufrágio universal, é concedido o poder de eleger o presidente e os membros que compõem as câmaras parlamentares. Convém destacar que, no sistema semipresidencial, o presidente tem o poder de primeiro-ministro, mas cabe ao Parlamento, em caso de necessi- dade, destituirconfirma uma tendência de queda na prática de uma religião. Capitulo 01.indd 8 23/10/13 14:58 Entendendo Sociologia 9 em grupo. Os protestantes tinham uma taxa de suicídio muito mais alta do que os católicos, as pessoas soltei- ras apresentavam uma taxa muito mais alta do que as casadas, e os soldados tendiam a se matar mais do que os civis. Além disso, parecia haver taxas mais altas de suicídio em períodos de paz do que em momentos de guerra ou revolução, e mais nos períodos de instabilidade econômica e recessão do que em tempos de prosperidade. Durkheim concluiu que as taxas de suicídio de uma so- ciedade refletem a medida em que as pessoas estão ou não integradas na vida de grupo da sociedade. Émile Durkheim, como muitos outros cientistas sociais, desenvolveu uma teoria para explicar como o comportamento individual pode ser compreendido em um contexto social. Ele apontou a influência dos grupos e das forças sociais sobre algo que sempre havia sido no- tado como um ato eminentemente pessoal. Com certeza, Durkheim ofereceu uma explicação mais científica para as causas do suicídio do que as manchas escuras do Sol ou as tendências hereditárias. Sua teoria trouxe um poder de previsão, uma vez que sugere que as taxas de suicídio aumentam ou diminuem em conjunto com certas mu- danças econômicas e sociais. Evidentemente, uma teoria – mesmo a melhor delas – não é uma afirmação final sobre o comportamento humano. A teoria do suicídio de Durkheim não é exce- ção. Os sociólogos continuam a examinar os fatores que contribuem para as diferenças nas taxas de suicídio em todo mundo e a taxa de suicídios de uma determinada sociedade. Por exemplo, embora a taxa de suicídio geral da Nova Zelândia seja apenas marginalmente mais alta do que a taxa dos Estados Unidos, a taxa de suicídio entre pessoas jovens é 41% mais alta na Nova Zelândia. Os sociólogos e os psiquiatras daquele país sugerem que a sua sociedade, composta de grupos esparsos em regiões remotas, mantém padrões exagerados de masculinidade que são particularmente difíceis para os jovens rapazes. Os adolescentes homossexuais que não conseguem se adaptar às preferências de seus pares nos esportes ficam particularmente vulneráveis ao suicídio (Shenon, 1995). No Brasil, a taxa de suicídio é relativamente baixa, man- tendo-se em torno de 0,056% de toda a população há muitas décadas. Por isso, o suicídio no País não é, na lin- guagem de Émile Durkheim, um fato social patológico, dada a baixa regularidade com que se apresenta. Se você fosse o sucessor de Durkheim na sua pesquisa sobre o suicídio, como investigaria os fatores que podem explicar o aumento das taxas de suicídio entre jovens nos Estados Unidos hoje? o desenvolvimento da sociologia As pessoas sempre mostram-se curiosas sobre temas sociológicos – como nos relacionamos com os outros, o que fazemos para viver, quem selecionamos para nossos líderes. Filósofos e autoridades religiosas das socieda- des antigas e medievais fizeram inúmeras observações sobre o comportamento humano. Eles não testavam ou verificavam cientificamente essas observações; e, mesmo assim, suas observações com freqüência se tornavam o fundamento dos códigos morais. Muitos filósofos antigos previram que o estudo sistemático do comportamento humano seria realidade no futuro. A partir do século XIX, os teóricos europeus deram contribuições pioneiras para o desenvolvimento de uma ciência do comporta- mento humano. Os desastres produzem pânico ou uma resposta estruturada e organizada? O senso comum poderia nos dizer que a resposta é pânico, mas, na realidade, os desastres requerem muita estrutura e organização para lidar com os seus resultados. Quando o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 destruiu o centro de comando de emergências da cidade de Nova York, os funcionários rapidamente restabeleceram esse centro para dirigir as buscas e os esforços para resgate das pessoas. Use a Sua Imaginação Sociológica Capitulo 01.indd 9 23/10/13 14:58 10 Capítulo 1 Os Primeiros Pensadores Augusto Comte O século XIX foi um período tumultuado na França. A monarquia francesa havia sido deposta na revolução de 1789, e Napoleão tinha sido derrotado na sua tentativa de conquistar a Europa. No meio daquele caos, os filósofos pensavam como a sociedade poderia ser melhorada. Au- gusto Comte (1798–1857), considerado o filósofo mais influente do início do século XIX, acreditava que uma ciência teórica da sociedade e uma investigação sistemá- tica do comportamento eram necessárias para melhorar a sociedade. Ele definiu o termo Sociologia aplicando-o à ciência do comportamento humano. De acordo com o que escreveu durante o século XIX, Durkheim temia que os excessos da Revolução Francesa tivessem prejudicado permanentemente a estabilidade da França. Mesmo assim, ele esperava que o estudo sistemá- tico do comportamento social finalmente levasse a intera- ções humanas mais racionais. Na hierarquia das ciências de Comte, a sociologia ficava no topo. Ele a chamava de “rainha”, e os seus praticantes, de “sacerdotes-cientistas”. Esse teórico francês não apenas batizou a sociologia como também apresentou um desafio muito ambicioso para a disciplina que nascia. Harriet Martineau Os estudiosos refletiram sobre os trabalhos de Comte principalmente por meio das traduções da socióloga inglesa Harriet Martineau (1802–1876). Martineau era também uma pioneira. Ela realizou observações perspi- cazes sobre os costumes e as práticas sociais tanto da sua terra natal, a Grã-Bretanha, quanto dos Estados Unidos. O livro de Martineau, Society in America A sociedade ([1837] 1962), abordou a religião, a política, a educação das crianças e a imigração naquela jovem nação. Ela dá atenção especial às distinções das classes sociais e a fato- res como gênero (sexo) e raça. Martineau ([1838] 1989) também escreveu o primeiro livro sobre os métodos sociológicos. Os escritos de Martineau enfatizaram o impacto que a economia, a lei, o comércio, a saúde e a popula- ção podiam ter sobre os problemas sociais. Ela pregou a favor dos direitos das mulheres, da emancipação dos escravos e da tolerância religiosa. Mais tarde, a surdez não a impediu de ser uma ativista. Na visão de Marti- neau (1877), os intelectuais e os estudiosos não deviam apenas oferecer observações sobre as condições sociais; eles deviam agir em relação às suas convicções de uma forma que beneficiasse a sociedade. É por isso que ela fez pesquisas acerca da natureza dos empregos femini- nos e apontou para a necessidade de investigações mais aprofundadas sobre o assunto (Deegan, 2003; Hill e Hoecker-Drysdale, 2001). Herbert Spencer Outra importante contribuição para a disciplina da so- ciologia foi dada por Herbert Spencer (1820–1903). Um inglês vitoriano relativamente próspero, Spencer (diferen- temente de Martineau) não se sentia compelido a corrigir ou a melhorar a sociedade; ao contrário, ele simplesmente esperava entendê-la melhor. Buscando bases no estudo de Charles Darwin – Sobre a origem das espécies –, Spencer aplicou o conceito de evolução das espécies nas socieda- des para explicar como elas mudam ou evoluem com o passar do tempo. Da mesma forma, ele adaptou a visão revolucionária de Darwin sobre a “sobrevivência do mais forte” argumentando que é “natural” que algumas pessoas sejam ricas e outras, pobres. A abordagem da mudança na sociedade feita por Spencer foi extremamente popular durante sua vida. Diferentemente de Comte, ele sugeria que, uma vez que as sociedades mudariam no final, ninguém precisava ser muito crítico sobre os arranjos sociais atuais, ou trabalhar ativamente por mudanças sociais. Esse ponto de vista agradou muitas pessoas influentes na Inglaterra e nos Estados Unidos, que tinham interesse na manutenção do status quo e não confiavam nos pensadores sociais que endossavam mudanças. Harriet Martineau, uma das pioneiras da sociologia, estudou o comportamentoo primeiro-ministro. Essa regra, porém, não é absoluta, pois o presidente tem o poder discricionário de dissolver ao Parlamento; logo, com isso, destitui-se o primeiro-ministro. Considerando o maior equilíbrio entre os Poderes Executivo e Legislativo (estrutura bicameral), o sistema de governo semipresidencialista tem sido cogitado por especialis- tas políticos como a melhor alternativa de sistema de governo para gerenciar um país. Você acha que o sistema semipresidencialista poderia ser uma alternativa para o Brasil? Opine e discuta com os seus colegas a respeito. Parlamentarismo O parlamentarismo é um sistema de governo representativo que, diferentemente do presidencialismo, originou-se por meio de longo e contraditório processo evolutivo político monárquico, decorrente de embates de poder entre os con- 107Sistemas de governo selheiros (Grande Conselho) e o monarca regente do Reino Unido, o que deu origem a revoluções e conflitos. Os conselheiros reais, compostos por representantes do clero e da nobreza, tinham a incumbência de auxiliar e orientar o rei na administração do reino, fato marcado durante o século XII. Contudo, no reinado de Henrique III, o Grande Conselho, que viria a ser chamado posteriormente de Parlamento, era desprestigiado pelo rei e, em consequência da necessidade de apoio fi- nanceiro, de respeito à Magna Carta de 1215 e da pressão dos membros do Grande Conselho, Henrique III teve que ceder e conferir ao Grande Conselho o status de Parlamento. O parlamentarismo aflorou em razão da famosa revolução inglesa, A Glo- riosa, que nada mais foi do que a deposição do rei Jaime II pela sua filha Maria e pelo seu genro holandês Guilherme de Orange. Somada à Declaração de Direitos (Bill of Rights), a revolução findou o absolutismo monárquico, pois, a partir de então, o rei não governaria sem o apoio do Parlamento, surgindo, dessa forma, o gabinete ministerial parlamentar (cabinet), o qual seria presidido por um primeiro-ministro. Diversamente do presidencialismo, no surgimento do sistema parlamentar inglês, o rei exerceu a função de chefe de Estado e, ao primeiro-ministro, competia a função de chefe de governo. Segundo dados históricos, em 1721, Sir Robert Walpole foi nomeado como primeiro-ministro inglês, competindo-lhe liderar e conduzir as decisões do parlamento, informando-as ao soberano. Para Sartori (1993, p. 192): Desde o ponto de vista Legislativo é atribuído o direito e dever de legislar sobre grande quantidade de procedimentos de natureza particular, admi- nistrativa e meramente regulamentar. E desde o ponto de vista executivo significa que o governo sente-se obrigado a governar — legislando, ou seja, tornar executivas as decisões políticas (não necessariamente todas), segundo a forma das normas jurídicas. O parlamento inglês, por exemplo, é bicameral (ou seja, composto por duas câmaras): a comum ou alta, cujos membros são eleitos por voto, e a dos lordes ou baixa, cujos membros são nomeados pelo rei. Convém destacar que alguns países que adotam o sistema parlamentar utilizam o sistema unicameral (única câmara), como é o caso da Grécia. No parlamentarismo, para que o parlamento seja dissolvido, é necessária a realização de eleições, fato distinto do sistema semipresidencial. Essa pos- sibilidade, no sistema parlamentar, decorre do fato de não haver prazo fixo Sistemas de governo108 para que o primeiro-ministro ocupe o cargo, uma vez que a sua adoção e o seu funcionamento do governo dependem da confiança com o Parlamento. Você sabe dizer quais e quantos países adotam o regime parlamentar? Aproveite o estudo do tema e investigue. Parlamentarismo dualista e parlamentarismo monista Parafraseando o professor Paulo Bonavides (2007), o parlamentarismo dua- lista seria o processo evolutivo e histórico com o encontro das prerrogativas monárquicas em declínio, com a autoridade política do povo em ascensão, com a igualdade e a colaboração entre o executivo e o legislativo, e meios de ação recíproca no funcionamento do Executivo e do Legislativo. Já o parlamentarismo monista teria como base a soberania popular, de governo parlamentar, com predomínio da assembleia em relação à competência do presidente da República. Para Bonavides (2007), o presidente cuja autoridade procede o executivo seria diminuída para o exercício de uma magistratura moral implícita nas funções de chefia de Estado. Importante destacar que a maioria dos países europeus adota o sistema parlamentarista. Para saber mais sobre o tema e analisar as vantagens e desvantagens de cada sistema de governo, consulte o livro Ciência política (BONAVIDES, 2007). 109Sistemas de governo BONAVIDES, P. Ciência política. São Paulo: Malheiros, 2007. FILOMENO, J. G. B. Teoria geral do Estado e da constituição. 10. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2016. MEGACURIOSO. 4 coisas em que o parlamentarismo é diferente do presidencialismo. 2016. Disponível em: . Acesso em: 23 ago. 2017. SARTORI, G. Nem presidencialismo, nem parlamentarismo. Revista Novos Estudos, v. 35, mar. 1993. RIBEIRO, R. Presidencialismo de coalizão: hora de rever algumas convicções? 2014. Dis- ponível em: . Acesso em: 23 ago. 2017. Leituras recomendadas BASTOS, C. R. Curso de teoria do Estado e ciência política. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2004. BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 9. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília,1997. FERRAJOLI, L. Poderes selvagens: a crise da democracia italiana. São Paulo: Saraiva, 2014. SARTORI, G. Elementos de teoría política. Madrid: Alianza Editorial, 2002. STRECK, L. L.; MORAIS, J. L. B. de. Ciência política e teoria geral do Estado. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. Sistemas de governo110 Revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna Graduado em Direito Especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional e em Direito Público Mestre em Direito Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 S281c Scalabrin, Felipe Ciência política e teoria geral do estado [recurso eletrônico] / Felipe Scalabrin, Débora Sinflorio da Silva Melo ; [revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. ISBN 978-85-9502-189-1 1. Formas de organização política. 2. Estado. 3. Ciência política. 4. Teoria geral do estado. I. Melo, Débora Sinflorio da Silva. II. Título. CDU 321.01 Estado e democracia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Conceituar o que é democracia. � Diferenciar democracia direta, semidireta e representativa. � Demonstrar a crise na democracia atual. Introdução Não há Estado sem um correspondente regime de governo. Para su- prir uma lacuna a esse respeito, a partir do século XVIII, difundiu-se o regime democrático. Assim, cumpre perquirir acerca da democracia, o seu conceito e as suas espécies, bem como refletir sobre as suas reais possibilidades de concretização no Estado contemporâneo. Neste capítulo, você vai ler a respeito da democracia em suas múltiplas facetas, passando pela dimensão conceitual e histórica. Vai também diferenciar democracia direta, semidireta e representativa, bem como analisar a crise na democracia atual. A democracia do passado Enquanto organização política, o Estado se apresenta por meio de variados regimes de governo diferentes. Com efeito, o tema das formas de governo suscita polêmica desde a Antiguidade. Com o advento do Estado moderno, entretanto, a ideia de democracia se sedimenta e permite a afirmação de alguns valores fundamentais, como a noção de governo do povo, que jaz na essência dessa expressão. A presença de um Estado democrático na acepção atual, porém,possui as suas raízes no século XVIII e não desconsidera as influências do passado (DALLARI, 2013). Na Antiguidade, o Estado grego vivenciou a democracia em termos práticos e teóricos. No plano teórico, Aristóteles destacou, na sua insuperável reflexão sobre as espécies de governo, que poderia caber a um só indivíduo, a um grupo de sujeitos ou a toda uma coletividade. Organizou-se, então, a distinção entre monarquia, aristocracia e democracia. Para o pensamento grego, entretanto, a noção de cidadania era restrita, de modo que, mesmo em uma democracia, o governo não seria entregue a toda a população. Na concepção de Aristóteles, “a virtude política, que é a sabedoria para mandar e obedecer, só pertence àqueles que não têm necessidade de trabalhar para viver, não sendo possível praticar-se a virtude quando se leva a vida de artesão ou de mercenário” (DALLARI, 2013, p. 146). A crítica moderna ao modelo democrático grego decorreu justamente da presença da escravidão, já que pressupunha um grande grupo de sujeitos que não participariam da vida política (BONAVIDES, 2009). O mais célebre exemplo de democracia exercida na Antiguidade fica com a Atenas de Péricles e historiada por Tucídides, no Livro II da História da Guerra do Peloponeso. A partir desse relato, é possível identificar a presença de um governo em que a democracia é louvada (MOREIRA, 1997). Esse cenário histórico revela algumas características da democracia antiga: a liberdade de opinião ou expressão (isagoria), a igualdade de todos perante a lei, sem diferença de grau, classe ou riqueza (isonomia), e o livre acesso de todos ao exercício das funções públicas (isotimia) (BONAVIDES, 2009). Com efeito, “a referência à pratica da democracia em algumas cidades gregas, em breves períodos, seria insuficiente para determinar a preferência pela democracia, que se afirmou a partir do século XVIII em todo o hemisfério ocidental, atingindo depois o restante do mundo” (DALLARI, 2013, p. 146). Foi necessário, assim, um intenso debate de contestação ao poder concentrado nas mãos de poucos para que o discurso sobre a democracia ganhasse fôlego, o que, de fato, ocorreu. Novamente, contribuições teóricas e situações concretas permitiram o advento do Estado democrático. Assim, no plano teórico, o pensamento de Rousseau, valorizando a vontade geral, ainda que cético quanto à possibilidade de um governo democrático, só não foi mais importante do que o ideário de Locke. Com ele, afirmaram- -se direitos naturais e a importância de um poder legislativo sempre sujeito ao povo. Nessa ordem de pensamento, a comunidade mantém o poder de Estado e democracia76 se salvaguardar dos governantes e até mesmo do legislador. Além disso, “quem detiver o poder legislativo ou o poder supremo de qualquer comu- nidade, obriga-se a governá-la mediante leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas do povo, e não por meio de decretos que surpreendam o povo” (DALLARI, 2013, p. 148). Não faltaram também situações concretas que colaboraram, de forma determinante, para a valorização da democracia. Assim, a Revolução Inglesa testemunhou a ascensão das cartas de direitos, como, por exemplo, o Bill of Rights (1689) e a Declaração de Independência das 13 colônias americanas, que viriam a se tornar os Estados Unidos da América (1776), o que implicou a afirmação do poder político e da supremacia do povo. Além disso, a Re- volução Francesa foi propícia para reconhecer que nenhuma limitação pode ser imposta ao indivíduo, salvo pela lei, que é expressão da vontade geral da nação (1789). A proteção de direitos universais e da participação política é o sustentáculo da revolução. Essa soma de fatores permitiu a Dalmo de Abreu Dallari identificar as características essenciais do Estado democrático do século XVIII (DALLARI, 2013): � a supremacia da vontade popular, com a possibilidade de participação do povo na tomada de decisões do governo; � a preservação da liberdade, com o reconhecimento de direitos e a não interferência do Estado na esfera particular; � a igualdade de direitos, com a proibição de tratamento diferenciado em razão de classes ou motivos econômicos. Apesar da importância da experiência democrática grega, a afirmação da democracia somente tem início com o pensamento do século XVIII. A democracia do presente A força do pensamento democrático implicou a utilização desse regime de governo na maioria dos Estados do século XXI. Na atualidade, são raros os governos que não se proclamem democráticos (BONAVIDES, 2009). Ainda 77Estado e democracia existe, porém, grande dificuldade teórica e prática na sua identificação. De fato, não é incomum a mera exaltação de um governo como democrático sem que, na realidade, existam instrumentos de participação política do povo. Além disso, controverte-se sobre a essência da democracia. O que é a democracia? A tormentosa indagação não tem resposta fixa perante a ciência política diante de tantas controvérsias, havendo, inclusive, célebre crítica no pensamento de Rousseau (2017, p. 75): “Se houvesse um povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente”. Sob o aspecto formal, destacamos três espécies de democracia presentes ao longo da história. São as seguintes: Democracia direta — nela, o poder político é exercido diretamente pelo povo, sem qualquer intermediação ou representação. O exemplo evidente de democracia direta estaria na Antiguidade, com os gregos. De fato, o cidadão grego via na organização do Estado não apenas o prolongamento de suas ações, mas o elemento condicionante de sua própria existência. Na Grécia antiga, o interesse pela vida pública era inerente à condição de cidadão (BONAVIDES, 2009). Alguns destacam, entretanto, que nem mesmo a democracia grega poderia ser considerada direta, na medida em que impunha severa restrição ao conceito de cidadania. Assim, o governo poderia ser considerado do povo, mas pouquíssimos indivíduos eram considerados “o povo”. Outro exemplo de democracia direta estaria presente em alguns Cantões da Suíça, por meio do Landsgemeinde. Nesses lugares, há assembleias abertas a todos os cidadãos do Cantão para que, querendo, exerçam seu direito de voto em determinadas questões políticas. De todo modo, mesmo nesses casos, a convocação da assembleia depende de uma prévia aprovação de representantes eleitos para tanto (DALLARI, 2013). Razões de ordem prática confirmam a dificuldade de uma democracia direta na era moderna: “Até mesmo a imaginação se perturba em supor o tumulto que seria congregar em praça pública toda a massa do eleitorado, todo o corpo de cidadãos, para fazer as leis, para administrar” (BONAVIDES, 2009, p. 293). Democracia indireta — nela, o poder político é exercido pelo povo por meio de representantes eleitos, razão pela qual também é denominada democracia representativa. Nesse caso, o povo confere um mandato a alguns cidadãos para que eles exerçam o poder político. É esse regime democrático que pro- move o surgimento de uma classe específica de sujeitos cujos propósitos são a elaboração e discussão de novas leis e a administração do poder público. É a classe política. A partir do século XIX, a especialização dá mais um passo Estado e democracia78 com o surgimento dos partidos políticos. O modelo se difundiu nos Estados Democráticos, mas não sem críticas (DALLARI, 2013). Assim, é possível destacar que a representação somente é eficaz quando o povo tem plenas con- dições de compreender o debate e as opções apresentadas, o que dificilmente ocorre. Além disso, muitas vezes, a atuação do representante não condiz com as ideias do programa partidário, revelando maior interesse pela conquista ou manutenção do poder do que pelos interesses do mandatário (DALLARI, 2013). Democracia semidireta — nela, o poder político é exercido pelo povo por meio de representantes eleitos, mas que também conta com institutos que permitem a discussão de determinados temas diretamente pelopovo. A democracia semidireta é uma aproximação da democracia representativa e da democracia direta, com a criação de instrumentos que “[...] fazem efetiva a intervenção do povo” (BONAVIDES, 2009). Nessa forma, portanto, a atuação do povo não se limita à eleição de governantes e legisladores, mas compreende também a efetiva tomada de decisão. Na democracia semidireta, avulta a participação jurídica do povo, já que, em casos específicos, torna-se diretamente competente pela ordem normativa a estabelecer a tomada de decisão sobre certos assuntos. Caberá, entretanto, a cada Estado definir a extensão da participação direta do povo. No plano teórico, alguns autores apresentam os seguintes institutos de atuação do povo na democracia semidireta: Referendo — consiste na consulta ao povo para que delibere sobre matéria relevante, adquirindo o poder de sancionar leis ou emendas constitucionais. A característica essencial do referendo consiste em consulta após a tomada de uma decisão para que seja confirmada ou não. Em síntese, “o objetivo é perguntar ao povo se ele confirma ou não uma decisão já tomada” (DALLARI, 2013, p. 154). Plebiscito — consiste na consulta ao povo para que delibere sobre matéria relevante antes da elaboração do ato normativo ou administrativo. Assim, a característica essencial do plebiscito é representar uma consulta prévia ao povo sobre determinado tema. É somente com o resultado da opinião do povo que serão adotadas as medidas legislativas ou administrativas pertinentes. Iniciativa popular — é a possibilidade de um número previamente deter- minado de eleitores dar início ao processo legislativo, com a propositura de novas leis ou emendas à Constituição. 79Estado e democracia Veto popular — é a faculdade conferida ao povo para que se manifeste contrário a uma medida ou lei já devidamente elaborada e em vias de ser colocada em execução (BONAVIDES, 2009). Aqui, um número previamente determinado de eleitores, em prazo determinado, poderá requerer que uma lei já publicada seja submetida à aprovação ou rejeição do eleitorado. Vale registar que alguns autores consideram o veto espécie de referendo. Revogação — é a faculdade conferida ao povo para que promova o término antecipado de um mandato eletivo, isto é, antes do decurso do prazo legalmente previsto. A revogação é, portanto, um mecanismo que permite ao povo o controle imediato do mandato da classe política. A mais conhecida espécie de revogação é o chamado recall previsto nos Estados Unidos da América. Por meio do recall, o eleitorado poderá “destituir funcionários, cujo comportamento, por qualquer motivo, não lhe esteja agradando” (BONAVIDES, 2009, p. 313), desde que observadas, evidentemente, as regras que regulamentam o instituto. Na experiência democrática brasileira, existem diversos instrumentos que qualificam a democracia representativa, razão pela qual a Constituição Federal prestigia a forma semidireta de democracia. Assim, por exemplo, existe a possibilidade constitucional de plebiscito e referendo (art. 14, I e II, da Constituição Federal de 1988). Ambos estão detalhados na Lei nº 9.709, de 18 de novembro de 1998. Confira: Art. 2º Plebiscito e referendo são consultas formuladas ao povo para que delibere sobre matéria de acentuada relevância, de natureza constitucional, legislativa ou administrativa. § 1º O plebiscito é convocado com anterioridade a ato legislativo ou admi- nistrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido. § 2º O referendo é convocado com posterioridade a ato legislativo ou admi- nistrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou rejeição. Art. 3º Nas questões de relevância nacional, de competência do Poder Legislati- vo ou do Poder Executivo, e no caso do § 3º do art. 18 da Constituição Federal, o plebiscito e o referendo são convocados mediante decreto legislativo, por proposta de um terço, no mínimo, dos membros que compõem qualquer das Casas do Congresso Nacional, de conformidade com esta Lei (BRASIL, 1998). A iniciativa popular também é um instituto expressamente previsto na Constituição Federal. Em âmbito nacional, isto é, para a proposição de leis ordinárias, ela pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional, distribuído por, pelo menos, cinco Estados, com não menos de 0,3% dos eleitores de cada Estado e democracia80 um desses Estados, nos termos do art. 61, § 2º, da Constituição Federal de 1988. Já no âmbito municipal, isto é, para a proposição de leis municipais, é necessária a manifestação de, pelo menos, 5% do eleitorado, nos termos do art. 29, XIII, da Constituição Federal de 1988. A partir da existência de instrumentos formais de participação, Norberto Bobbio (1997, p. 30) apresenta a seguinte definição: “O único modo de se chegar a um acordo quando se fala de democracia, entendida como contraposta a todas as formas de governo autocrático, é o de considerá-la caracterizada por um conjunto de regras que estabelecem quem está autorizado a tomar as decisões coletivas e com quais procedimentos”. Nesse sentido, a democracia diz respeito ao titular do poder e ao modo pelo qual o poder é legitimamente exercido. A democracia do futuro A adoção generalizada de formas democráticas semidiretas revelou as defici- ências do modelo e as crises a ele inerentes. Assim, Paulo Bonavides destaca a crise na legitimidade dos partidos políticos e a fragilidade dos institutos de manifestação direta do povo. Quanto aos partidos políticos, “a lição de nossa época demonstra que não raro os partidos, considerados instrumentos fundamentais da democracia, se corrom- pem” (BONAVIDES, 2009, p. 299), ou seja, desviam-se de seus interesses e não mais espelham os ideais políticos que defendiam, vitimando o povo do logro. De fato, nos dias atuais, existe uma intensa crise de legitimidade dos partidos políticos. Quanto aos institutos de participação direta tradicionalmente reconhe- cidos, vimos a sua ineficiência (BONAVIDES, 2009). Mecanismos idealizados como autênticos meios de transformação social sucumbiram a uma realidade indiferente e conservadora, sendo pouco empregados e, quando utilizados, trazendo resultados conservadores e sem significativo impacto (BONAVIDES, 2009). Assim, a presença de instrumentos de participação não teve o condão de atrair o povo para o cenário político. Nessa mesma linha, Norberto Bobbio faz uma intensa crítica ao modelo democrático representativo e destaca que essa democracia se tornou um am- biente de promessas não cumpridas. Para ele, as seis promessas não cumpridas pela democracia represen- tativa são (BOBBIO, 1997): � a vontade geral como centro de poder — a realidade social demonstrou que não existe apenas um foco de força política, como pretendiam os idealizadores da democracia, de sorte ser impossível alcançar uma única 81Estado e democracia vontade geral, já que efetivamente existem, de fato, diversos núcleos de poder que coexistem; � a contenda de interesses — o representante deveria apenas buscar os interesses de toda a coletividade, mas, de fato, busca os interesses daqueles que o colocaram no poder; � a manutenção das oligarquias; � o espaço limitado — apesar de ser agora ampla a quantidade de votantes, seu espaço de inserção no discurso político ainda é ínfimo, daí a crise estar em “onde se vota?”, ou seja, em definir os momentos em que o povo é efetivamente chamado a se manifestar sobre determinado tema; � a persistência de um poder invisível — a noção de que existem, ainda, instituições e órgãos que agem nas sombras, sem publicizar os seus atos, atuando com intenções duvidosas;, � o problema da cidadania — o cidadão, a partir da possibilidade de atuar por meio da democracia, aprenderia e se transformaria em um cidadão ativo e participante, que se engajasse na prática política — o que não apenas não aconteceu como se procedeuao inverso: as democracias mais consolidadas têm por característica um povo apático e desinteressado. Diante de tantas crises, a definição de democracia exigirá uma nova com- preensão. Nesse ponto, tem ganhado força o discurso na defesa de uma nova espécie de democracia. É a democracia participativa (BOBBIO, 1997). Com efeito, o adjetivo participação: [...] passa a ser o novo referencial em termos democráticos, inserção da (re) qualificação do povo, para além de mero ícone, catapultando-o, assim, para o cenário democrático como ator principal e não mais como mero coadjuvante, como aquele que está apto de fato a reivindicar sua posição proeminente em uma sociedade livre, solidária e justa (RIBEIRO; SCALABRIN, 2009, p. 160). A democracia participativa implica uma ampliação do diálogo e da parti- cipação concreta, dispensando técnicas meramente formais. Nesse estágio, a inclusão do cidadão deve atingir todos os planos, de sorte que nem a função jurisdicional, nem o próprio processo legislativo escapam desse fenômeno. Sendo a democracia, também e não só, um conjunto de valores e ideais, cuja legitimidade (política e jurídica) não se extrai apenas do voto — que se apresenta mais como um conteúdo mínimo necessário (LUCAS, 1985). —, novos mecanismos devem ser postos à disposição dos indivíduos para dar vida ao postulado democrático, enquanto velhos elementos do mundo jurídico devem ser repensados. Estado e democracia82 Confira, no link a seguir, um texto sobre democracia par- ticipativa para aprofundar os estudos: https://goo.gl/jeEtNf Diversos exemplos presentes no sistema democrático brasileiro permitem concluir que a chegada da democracia participativa é inevitável e já permeia todas as funções do Estado. De fato, todos os poderes constituídos já contam com mecanismos amplos de participação direta do povo: Poder Legislativo — há a legitimidade de qualquer pessoa para denunciar ir- regularidades financeiras junto ao Tribunal de Contas, bem como podem ser realizadas audiências públicas no âmbito do processo legislativo (FIGUEIREDO, 2003). Aliás, as audiências públicas surgem como canal de comunicação entre parlamentares, cidadãos e especialistas para a criação de leis mais adequadas aos desejos sociais. E ainda no âmbito legislativo, vale lembrarmos dos instrumentos tradicionais da democracia semidireta: iniciativa popular, referendo e plebiscito. Poder Executivo — no palco da Administração Pública, as consultas pú- blicas despontam como mecanismos de inclusão dos interessados em gerir diretamente parcela do orçamento estadual e estarem presentes na atuação política. É o chamado orçamento participativo. Além disso, ganha fôlego a proposta de criação de conselhos, “especializados para atuar em certo setor das atividades sociais” (DALLARI, 2013, p. 156), nos quais haverá maior proximidade entre cidadão e Administração Pública. Poder Judiciário — a máquina da Justiça também gera uma forma de par- ticipação, já que oportuniza o diálogo entre os envolvidos — as partes e o Estado-juiz (LUCAS, 1985). Além disso, muitas vezes, o Poder Judiciário se converte no último suspiro de esperança do cidadão, que vê o seu direito sendo violado pelo próprio Estado. A legitimação do Poder Judiciário, por sua vez: [...] decorre não do sufrágio universal como nas outras esferas de poder, mas de uma legitimação procedimental que encontra no irrestrito acesso ao 83Estado e democracia https://goo.gl/jeEtNf judiciário, no contraditório, na publicidade e na fundamentação os mais altos desígnios da legitimidade democrática, pois é através do processo (RIBEIRO; SCALABRIN, 2009, p. 165). Todos esses elementos permitem concluir que a democracia participativa é aquela que melhor permite confrontar as crises do modelo anterior. A de- mocracia, enquanto elemento político (e valorativo), deflagra uma necessária revisão do padrão liberal de mera representatividade, e a participação surge como novo expoente. Pari passu, a cidadania é alargada por meio de novos modos de inclusão do indivíduo na tomada de decisão e no seu controle. BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. BONAVIDES, P. Ciência política. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2009.BRASIL. Lei nº 9.709, de 18 de novembro de 1998. Regulamenta a execução do disposto nos incisos I, II e III do art. 14 da Constituição Federal. 1998. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2017. DALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 32. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. FIGUEIREDO, L. V. Instrumentos da administração consensual: a audiência pública e sua finalidade. 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CIÊNCIA POLÍTICA E TEORIA GERAL DO ESTADO Felipe Scalabrin Formas de governo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir as formas de governo. � Contrastar as formas de governo com a separação de poderes. � Explicar a crise da separação dos poderes e os reflexos na democracia. Introdução Neste capítulo, você estudará as formas de governo. Com base em uma análise histórica, analisará a evolução da classificação das formas de go- verno, a forma como ocorreu a separação de poderes e como tal divisão reflete no progresso de uma sociedade democrática. Cada tema deste capítulo é fundamental para que você entenda o funcionamento político do Brasil e de outros povos. Formas de governo Para compreender as atuais formas de governo, é importante analisar como o tema foi discutido por pensadores como Platão, Aristóteles, Políbio, Maquiavel, Bodin, Hobbes, Vico, Montesquieu, Hegel, Marx e Bobbio. Para tanto, o estudo da concepção filosófica e política de governo desenvolvida por esses teóricos permitirá analisar as atuais formas e sistemas de governo, bem como a crise na separação de poderes. Para o professor José Geraldo Brito Filomeno, o governo “é um conjunto dos órgãos do Estado que colocam em prática as deliberações dos órgãos legislativos” (FILOMENO, 2016, p. 97). Para os filósofos gregos anteriores a Cristo, Platão e Aristóteles, o governo deveria ser analisado a partir de duas vertentes: a pura (ideal) e a impura ou degenerada. Para Platão, as formas de governo ideais seriam a monarquia e a aristocracia, consideradas formas únicas. Já as formas corruptas de governo seriam a oligarquia, a timocracia, a democracia e a tirania. A oligarquia seria a forma corrompida da aristocracia, enquanto a tirania é a forma corrompida da monarquia. Para Platão, a timocracia seria a transição entre a constituição ideal e as formas corruptas de governo. Segundo Bobbio (1997), para Aristóteles, não havia distinção de significado entre governo e constituição. Em razão disso, para Aristóteles (apud BOBBIO, 1997, p. 55), o governo é o “poder exercido por um só, por poucos ou por muitos”. Assim, a politeia (constituição — estrutura que dá ordem à cidade, determi- nando ofuncionamento de todos os cargos públicos e, sobretudo, da autoridade soberana), para Aristóteles, seria responsável por dar forma ao sistema. Aristóteles classificou as formas de governo como puras e impuras. As formas puras de governo seriam o reino (monarquia), a aristocracia e a politia (timocracia); e as formas impuras seriam a tirania, a oligarquia e a demagogia. Para Aristóteles, as formas impuras seriam as degenerações das formas puras de governo, ou seja, a tirania em contraposição ao reino (monarquia), a oligarquia em contraposição à aristocracia e a demagogia em contraposição à politia (timocracia). Para o doutrinador José Geraldo Brito Filomeno, a classificação aristotélica tem um “caráter quantitativo, de acordo com o número dos que exercitam o poder político, e qualitativo ou valorativo, de acordo com o posicionamento dos que exercem o mesmo poder, em face do bem comum” (FILOMENO, 2006, p. 101). Segundo o professor Celso Bastos (2004), Aristóteles sofisticou o esquema das formas de governo elaborado por Platão — assim, para cada forma pura ou ideal, agregou uma forma de governo considerada degenerada. Para o historiador Políbio (200 a.C.–118 a.C.), as formas de governo se classificavam em monarquia, tirania, aristocracia, oligarquia, democracia e oclocracia (oclos latim — multidão, governo das massas). Ainda de acordo com Políbio, essas formas formavam um movimento cíclico, ou seja, a pro- blemática de uma forma de governo desencadearia outra forma de governo e assim sucessivamente. Nesse sentido, veja as palavras de Políbio, citadas por Bobbio (1997, p. 67) no livro a Teoria das formas de governo: Em primeiro lugar se estabelece sem artifício e naturalmente o governo de um só, ao qual segue (e do qual é gerado por sucessivas elaborações e corre- ções) o reino. Transformando-se este no regime mau correspondente, isto é, 97Formas de governo na tirania, pela queda desta última se gera o governo dos melhores. Quando a aristocracia por sua vez degenera em oligarquia, pela força da natureza, o povo se insurge violentamente contra os abusos dos governantes, nascendo assim o governo popular. Com o tempo, a arrogância e a ilegalidade dessa forma de governo levam à oclocracia. Anos mais tarde, o filósofo Nicolau Maquiavel (1469–1527), autor do livro O príncipe, inovou com uma classificação bipartida de governo, separando-o em república (soma da aristocracia e democracia) e principado (monarquia). De acordo com Maquiavel (2003, p.1), “Todos os Estados, todos os domínios que tiveram e têm autoridade sobre os homens foram e são repúblicas ou principados”. Com relação à república, é atualmente classificada em república parlamentar e república presidencialista; já a monarquia se classifica em monarquia absolutista, monarquia constitucional e monarquia parlamentar ou dualista. Para Maquiavel, a república possui características próprias, como a tempora- lidade do governante na posição de líder do Estado, ao passo que, na monarquia, em razão da hereditariedade, eleição e cooptação (declaração de sucessão do trono), o rei ou monarca ocupará a posição de regente por tempo indeterminado. Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588–1679), autor do livro Leviatã, o governo consistiria na existência de um poder soberano indivisível responsável por determinar a condução do Estado. Por consequência, não haveria razão em diferenciar as formas de governo como formas puras, impuras ou mistas. Para o jurista Jean Bodin (1530–1596) e para o filósofo Giambattista Vico (1668–1774), as formas de governo se classificavam em monarquia, aristocracia e democracia (república popular). Convém ressaltar que Vico, assim como Políbio, analisou as formas de governo a partir de uma vertente cíclica. Para o jurista Montesquieu (1689–1755), seriam consideradas formas de governo a república (o povo ou parte dele possui o poder soberano de governar), a monarquia ou principado (o poder é governado por um indivíduo mediante normas preestabelecidas) e o despotismo (o poder é governado ao prazer de um indivíduo sem a observância de normas). Já para o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770–1831), seriam consideradas formas de governo a monarquia, a aristocracia, a democracia, a oligarquia, a oclocracia e o despotismo. Contudo, Karl Marx (1818–1883) inovou ao não classificar o governo em formas, pois, para o autor, não havia importância e sentido na classificação do governo, mas o estabelecimento de um governo único, no qual não haveria a divisão de classes sociais (concepção política socialista). Para Norberto Bobbio (1909–2004), em consequência da temporalidade da ditadura e diferenciação do despotismo e da tirania, a ditadura seria uma forma positiva de governo. Formas de governo98 As classificações filosóficas políticas de governo desenvolvidas por esses pensadores foram vitais para a compreensão da realidade funcional de um povo. Reflita quais seriam as formas de governo adotadas pelos diversos países na atualidade. Governo e separação de poderes Para o filósofo inglês John Locke (1632–1704), o poder derivava de um pacto e de um contrato social, em consequência do estado de natureza e da relação entre governante e governado. Para Locke, os poderes deveriam estar em equilíbrio e se dividiriam em Executivo (zelar pelo cumprimento das leis), Legislativo (poder supremo e fiduciário do Estado), Federativo e de prerrogativa (poder de trabalhar segundo discrição para o bem público sem prescindir da lei e ainda às vezes contra ela). O Poder Executivo apresentaria atividade contínua com a finalidade de conduzir os assuntos internos e externos dos Estados e de julgar e aplicar penas àqueles que descumprissem as leis. O Legislativo deveria trabalhar na busca por legislar em observância ao princípio da legalidade. O Poder Federativo seria o poder conferido ao Estado de relacionar-se com outras pessoas e comunidades alheias à república. Já a prerrogativa seria a permissão concedida pelo povo aos seus governantes, para que, no caos do silêncio da lei sobre determinados temas, realizassem ações de livre eleição, mesmo que fossem contrários ao texto legal. É possível perceber que o atual Poder Judiciário, na divisão de poderes estabelecida por Locke, era exercido pelo Poder Executivo. Mas, para Montes- quieu (1689–1755), os poderes estatais se dividiam em Executivo, Legislativo e Judiciário. No livro O espírito das leis, publicado em 1748, Montesquieu (1973, p. 21) declarou que “em cada estado existem três classes de poder, o Legislativo, o executivo das coisas pertencentes ao direito das pessoas e o Executivo dos que pertencem ao civil”. Quanto a estes, o filósofo observou que o último se chamaria Poder Judicial e, o outro, Poder Executivo do Estado. Dessa forma, Montesquieu inovou ao estabelecer três formas independentes de poder, até hoje adotadas pelos governos atuais. Para Montesquieu, a divisão jurídica das distintas funções de poderes somente poderia limitar-se ao uso ilegal do poder e garantir a liberdade e os direitos das pessoas. O Legislativo seria um órgão representativo da vontade do povo destinado à criação de leis. Além disso, também poderia apreciar, nos termos da lei, as ações 99Formas de governo do Executivo e dos seus membros. Já o Executivo seria um órgão com a função de cumprir as normas elaboradas pelo Legislativo e teria o poder de vetar leis elabo- radas pelo Legislativo. Em contraposição, o Poder Judiciário seria um órgão cuja função seria julgar crimes e conflitos entre pessoas; por isso, deveria ser temido, já que teria a legitimidade de privar a liberdade daquele que descumprisse a lei. Para o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), autor do célebre livro Contrato social, o Poder Legislativo pertence somente ao povo, visto que o Poder Executivo consistiria em atos particulares. Dessa forma, para Rousseau, não seria certo que o órgão responsável por elaborar a lei fosse responsável pela suaexecução — por isso, era necessário um governo soberano, pois a monarquia não era a única forma de governo, mais bem a soberania popular. Para Tocqueville (1805–1859), o Poder Legislativo dividia-se em duas assembleias (Senado e Câmara dos Deputados), compostas por representantes eleitos por cidadãos. O Poder Executivo seria conduzido por um governante eleito pelo povo, com a função de ser chefe do Estado com mandato temporal e com poder regulado pelo Senado. Já o Poder Judiciário, assim como entendeu Montesquieu, seria um órgão de grande poder, pois teria a finalidade de julgar casos particulares. Além disso, segundo Tocqueville, o Judiciário atuaria quando invocado e, por recorrer à Constituição para justificar a maior parte de suas decisões, detinha significativo poder político. O que é possível pensar sobre a atual força dos Poderes Executivo, Legis- lativo e Judiciário? Para saber mais sobre o processo, leia A constituição reinventada pela jurisdição cons- titucional (SAMPAIO, 2002). Separação de poderes e democracia atual Para o doutrinador José Sampaio (2002, p. 430): Nos dias atuais pode-se falar de múltiplas interpretações do princípio da divisão dos poderes de acordo com a organização do sistema de governo sem que se possa indicar um modelo paradigmático desse princípio, que venha a servir de referência necessária a modelos concretos adotados pelos sistemas Formas de governo100 constitucionais. Antes, há uma ideia — de separação de poderes, guiadas por um fim — de evitar tiranias e garantir o funcionamento equilibrado do governo, que assume diversas formas em diferentes contextos sociopolíticos. Vale dizer que não há modelo de divisão de poderes senão uma variedade de conformações que vem a assumir na prática. Os filósofos, ao pensarem na separação dos poderes, não poderiam imaginar que, em consequência do aumento da corrupção e dos interesses pessoais, a autonomia dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário seria ameaçada e deixaria de existir, pois, na realidade atual, é cada vez mais frequente a intervenção política do Poder Legislativo em desprezo do Poder Judiciário. Países como Brasil e Espanha, por exemplo, são testemunhas da perseguição ao Poder Judiciário, que, em razão de leis chamadas popularmente de leis da mordaça, viram o trabalho e a autonomia do Judiciário serem cerceados. Os diversos escândalos envolvendo empresas privadas, principalmente com membros dos Poderes Legislativo e Executivo, demonstram a fragilidade desses poderes em cumprir as obrigações para as quais foram pensados e criados. Atualmente, é cada vez mais frequente haver denúncias de favorecimento entre membros dos poderes, com a finalidade única de manter os seus cargos e o seu poder político. No caso brasileiro, a Operação Lava-Jato, por exemplo, revelou a participação de membros dos três poderes em ações criminais de corrupção, ou seja, aqueles que deveriam legislar em benefício do povo e da nação passaram a legislar em benefí- cio próprio e de interesses privados, aqueles que deveriam cumprir as funções de administrar os interesses públicos passaram a administrar em benefício próprio e de terceiros e aqueles que deveriam sancionar e penalizar passaram a perdoar corruptos e a penalizar os mais desfavorecidos. Ora, você consegue perceber alguma semelhança com as formas degene- radas de governo? Para o doutrinador Luigi Ferrajoli (2014, p. 40): A crise do “alto” da democracia e de dissolução da representação, nesses úl- timos anos, foi a crescente integração dos partidos no Estado e o consequente desaparecimento de uma ulterior separação entre partidos e instituições com 101Formas de governo a sociedade. É cada vez mais estreita a relação entre dinheiro, informação e política: dinheiro para fazer política e informação, informação para fazer dinheiro e política, política para fazer dinheiro e informação, segundo um ciclo vicioso que se traduz no crescente condicionamento anti ou extra re- presentativo da ação do governo. De fato, a visão de Ferrajoli (2014) reflete o atual cenário mundial, pois é cada vez mais frequente a violação da democracia, que tem sido utilizada para interesses próprios e de certa minoria. Como uma Torre de Babel, percebe- -se que é utopia pensar em poderes autônomos e harmônicos entre si, visto a frequente relação entre os poderes públicos e os privados. No caso da Operação Lava-Jato, fica visível o fato de não ser mais possível separar corruptor e corrompido. Dada a força de grandes empresas, os poderes e os seus dirigentes, eleitos ou não pelo povo, tornaram-se reféns de empresas privadas e, como medidas extremistas, passaram a criar barreiras para se autodefenderem, em total desprezo às normas legais. Ainda segundo Ferrajoli (2014), tal situação é uma aberração institucional que comporta uma deformação do sistema político e da democracia incompa- ravelmente mais grave do que as formas tradicionais, ainda que patológicas e delinquenciais da corrupção. Convém destacar que, no passado, o jurista Tocqueville (1805–1859) já sinali- zava a crise da separação dos poderes na democracia, pois, segundo o prestigiado jurista, todo e qualquer projeto de lei que ferisse a Constituição de um país não deveria sequer ser apreciado — caso fosse, seria retido pelo Poder Judiciário. Contudo, na atualidade, com um poder cada vez mais limitado e sem recursos, o Judiciário se tornou refém dos demais poderes; em especial, do Executivo. A ideologia de Norberto Bobbio (1909–2004) de que o principal ponto característico da democracia seria o respeito à eleição e ao desejo do povo e das instituições, não às ações políticas em si, não reflete a realidade, principal- mente no caso brasileiro, com o mando e desmando de deputados, senadores, superjuízes e presidentes, que insistem em atuar como se fossem reis e sobe- ranos. Estaríamos diante do fim da democracia e do fortalecimento de formas degeneradas de governo — ou, na realidade, há somente uma crise de poderes? Formas de governo102 BASTOS, C. R. Curso de teoria do Estado e ciência política. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2004. BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 9. ed. Brasília: Universidade de Brasília,1997. BONAVIDES, P. Ciência política. São Paulo: Malheiros, 2007. FERRAJOLI, L. Poderes selvagens: a crise da democracia italiana. São Paulo: Saraiva, 2014. FILOMENO, J. G. B. Teoria geral do Estado e da constituição. 10. ed. rev., atual. e ampl. 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Por um lado, evidenciamos os traços comuns às três esferas indicando-os como frutos do racionalismo de dominação do mundo típi- cos da modernidade ocidental. Por outro lado, essa interpretação enfatiza a perspectiva relativis- ta de Max Weber sobre o tema da racionalidade. Para isso, demonstramos que para cada esfera de valor; religião, política e ciência; existem lógicas internas especificas de ação. Isso permite o enten- dimento de que a racionalidade de um religioso diverge da racionalidade de um político e que ambasdivergem da racionalidade de um cientis- ta. Desse modo, é demonstrado que a obra de Max Weber não dispõe de uma concepção tota- lizante e determinista do tema da razão, mas ao contrário, o concebe como fenômeno relativo a contextos sócio-históricos específicos. O tema da ação racional é central no pensa- mento de Max Weber, mais do que em qualquer outro “fundador” das ciências sociais1. Pode-se di- zer que a racionalidade é o conceito básico que articula a teoria social weberiana, ou seja, a expli- cação da sociedade ocidental como um processo contínuo de racionalização do mundo que se dá no sucessivo enquadramento das relações sociais em regras objetivas, cuja faceta “macro” mais evi- dente manifesta-se na burocratização das formas de dominação carismáticas e tradicionais, e, num enfoque “micro”, indica a noção de racionalidade da ação individual como o tipo ideal para compre- ensão da ação social. A racionalização da vida social é um processo geral, que produz estruturas de consciência típi- cas dos contextos da modernidade. Os agentes são “racionalizados” para perceberem uma autonomia MAX WEBER E A RACIONALIDADE: Religião, Política e Ciência MAX WEBER AND THE RATIONALITY: Religion, Politics and Science José Vitor Lemes Gomes* Raul Francisco Magalhães** Resumo Esse trabalho consiste em uma abordagem da sociologia de Max Weber enfatizando o tema da racionalidade dos indivíduos na sociedade. Trata-se de uma interpretação plural, na medida em que, a racionalidade é considerada como um fenômeno relativo a contextos histórico-sociais específicos. A abordagem da obra de Weber focaliza as possíveis racionalidades de agentes inseridos nas esferas da religião, da política e da ciência. Fica evidente que cada uma, dessas esferas, produz lógicas de ação específicas, o que corrobora o argumento de que a racionalidade é um fenômeno contextual. Palavras-chave: Racionalidade. Ação. Religião. Política. Ciência. * Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Paiva de Vilhena. Endereço residencial: Chácara Nossa Sra. do Sion, s/nº, Campanha - MG, bairro Jardim Sion, CEP: 37400.000, telefone (35)3261.1738, celular: (35)8455.6787. ** Doutor em Ciência Política pela IUPERJ. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Te or ia e C ul tu ra 80 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 crescente entre seus procedimentos cognitivos, suas crenças morais e suas expressões estéticas. Como traço inicial, entende-se por racionalização o “desencantamento” histórico do mundo, sepa- rando a dimensão religiosa das estruturas morais e legais da ordenação da vida social, desdobrando- se a modernidade em sociedades nas quais as esfe- ras de valor científico, estético e moral se separam, constituindo lógicas próprias. Tal macroprocesso reclama para Weber instrumentos precisos de aná- lise, e isso o leva a ir além das leituras historicistas, típicas do seu tempo, em direção a discutir as for- mas elementares de tal racionalização. O que é raciOnal para Weber? Como parece ser regra entre os grandes pensadores, as ideias de Weber sobre a racio- nalidade encontram-se dispersas em ensaios de diferentes teses. O caráter exploratório e inves- tigativo das reflexões sobre a ação racional é su- blinhado pelo próprio autor, que considerava essas reflexões passos iniciais sujeitos a críticas e modificações possíveis em vários pontos, alguns que interessam de perto a esta pesquisa. Ao analisar a sociologia weberiana, Renarde Freire Nobre (2004) argumenta que Weber rejeitou a oposição entre racionalidade e irracionalidade, pois para ele, essas categorias não encontram correspondentes bem definidos na realidade humana. Pensar a diferença entre o que é racio- nal e irracional só é possível através de uma per- cepção gradual, pois em uma atitude humana a racionalidade e a irracionalidade se mesclam em graus diversos, o que inviabiliza a noção de uma racionalidade pura. É preciso assinalar, como um traço importan- te em Weber, o seu relativismo epistemológico quanto à racionalidade. Há passagens nas quais ele, claramente, submete as próprias noções de racionalidade e irracionalidade ao ponto de vista do analista, levando o leitor a entender que o que é racional de um ponto de vista poderá ser irra- cional de outro. Desde já, deve estar evidente sua concepção relativista sobre o que é racional. Um estudo atento da literatura weberiana demonstra que o complexo conceito de ação racional envolve outros três conceitos fundamentais que são: racio- nalização, racionalidade e racionalismo. Segundo Jürgen Habermas (2003), há na te- oria weberiana duas vertentes de racionalização, uma cultural e outra social. A primeira consiste na racionalização das imagens do mundo que é rea- lizada pelas religiões éticas universais. A segunda consiste no desenvolvimento material e organiza- tivo da sociedade através da economia capitalista e do Estado moderno. Esses são os fenômenos estu- dados por Weber que expressam a racionalização no plano empírico. Mas afinal como se pode defi- nir o conceito de racionalização? Habermas afirma que para Weber a racionalização tem um aspecto teórico e outro prático. No aspecto teórico a ra- cionalização é o crescente domínio teórico da rea- lidade mediante conceitos cada vez mais precisos. No aspecto prático a racionalização é o crescente domínio na busca metódica de um determinado fim, mediante o cálculo cada vez mais preciso dos meios. É notável que, tanto no aspecto teórico como no aspecto prático, a racionalização consis- te em um crescente domínio do homem, seja no plano intelectual ou empírico, sobre a natureza e sobre o próprio homem. A racionalização é o pro- cesso histórico social no qual cresce progressiva- mente a capacidade de intervenção do homem na realidade de modo cada vez mais eficaz. E quanto ao conceito de racionalidade, o que se pode afirmar? Habermas afirma que o conceito de ação racional referente a fins é a chave do com- plexo conceito de racionalidade. Disso podemos deduzir que a racionalidade liga-se diretamente à ação dos indivíduos, enquanto a racionalização se refere a um processo histórico social. Nesse caso a racionalidade opera na consciência dos agentes de vários modos, entre esses há o modo eletivo e o modo instrumental. A racionalidade eletiva consiste no processo em que o agente elege um fim, em detrimento de outros, como objetivo. A racionalidade instrumental consiste na maximiza- ção dos meios eficazes para obter o fim escolhi- do. Tanto o fator eletivo, como o instrumental, estão presentes na ação racional referente a fins, tipo ideal que expressa o máximo de racionalida- de. Deve ser lembrado que a maioria das ações desenrolam-se, no plano empírico, permeadas por Teoria e C ultura 81 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 fatores irracionais, adversos a teleologia, como va- lores afetos e a tradição. Jessé Souza (2008) analisa Weber ressaltando um terceiro conceito inerente ao complexo da ação racional, o racionalismo. Para esse autor raciona- lismo pode ser definido como o modo, cultural- mente singular, como uma civilização específica e seus indivíduos, constituem sua forma de pensar, agir e interpretar o mundo em função de sua cul- tura específica. Então, pode-se entender que a no- ção de racionalismo refere-se a matrizes culturais, ou civilizacionais, diretamente relacionadas aos modos de racionalização e racionalidade. Desse modo, fica claro que não existe definição universal sobre o que é racional ou o que é racionalidade, pois uma ação só é considerada racional em con- textos sócio-históricos específicos. Raymond Boudon (1989) apresenta uma boa reflexão sobre o tema da racionalidade ao estabelecer uma visão relativa sobre o que pode ser uma ação racional. O autor defende a ideia de Max Weber de que os fenômenossociais devem ser explicados através de seus compor- tamentos individuais. Esses comportamentos devem ser considerados racionais e só no caso de insucesso desse tipo de explicação serão con- siderados fatores irracionais para descrever o comportamento dos atores sociais. O autor relata a experiência do governo in- diano na década de 70. Nessa ocasião o governo da Índia buscou o auxílio de uma universidade americana para empreender uma pesquisa sobre a questão da natalidade no país. O objetivo da pes- quisa era buscar um método para reduzir a taxa de natalidade. A primeira etapa da pesquisa consistiu em distribuir pílulas em algumas tribos e não em outras que seriam os grupos e o controle. Cons- tatou-se que a taxa de natalidade caiu tanto nas tribos que receberam pílulas como nas tribos que não receberam. Diante dessa situação os pesquisa- dores concluíram que a distribuição de pílulas não causou efeito. Para explicar a ineficácia das pílulas, os pesquisadores acusaram os traços culturais e ideológicos do camponês indiano, ligados às suas tradições. Esses traços são: 1º) recusa a inovação; 2º) desconfiança em relação a recursos estrangei- ros e 3º) resistência à ideia de modificar artificial- mente processos naturais. Assim os pesquisadores entenderam o comportamento dos nativos como sendo irracional, um comportamento dominado por forças sociais que escapam ao controle dos in- divíduos. O dilema dos pesquisadores era: Como convencer um ser irracional como as camponesas indianas a usar pílulas? Raymond Boudon argumenta que a inter- pretação dos pesquisadores é errônea ao acusar o comportamento do camponês de irracional. Uma atenção especial revelaria que o fato de ter um filho a mais não é irracional, mas pelo contrário. Para o camponês indiano, não é caro criar e educar um filho, além disso, o aumento da prole se traduz no aumento da mão de obra e da produtividade familiar. “Se ele (o filho) trabalha fora, como é frequente, seu salário aumenta a renda da família” (BOUDON, 1989, p. 11). Se ele (o filho) traba- lha na terra da família, evita a contratação de mão de obra, o que é oneroso naquele contexto. Com isso Raymond Boudon demonstra a possibilidade de explicar um fenômeno social como produto de comportamentos compreensí- veis e racionais, como recomendou Max Weber, e argumenta que a racionalidade é sempre relativa a um contexto. No contexto ocidental é irracional o aumento da prole, pois os custos de formação do indivíduo são elevados, porém, no contexto india- no, é compreensível que o camponês seja racional ao aumentar sua prole, pois a formação de seus filhos tem custo baixo e esses filhos se convertem em força de trabalho no futuro. Boudon lembra que os indivíduos não po- dem ser considerados um a um, mas podem ser agrupados através de tipologias comportamen- tais. Além disso, o autor admite seguir o conse- lho de Weber ao analisar ideias recebidas como qualquer outro tipo de comportamento compre- ensível e racional. A reflexão de Boudon sobre o comportamen- to dos indianos confirma que a racionalidade está submetida à sua matriz civilizacional específica, isto é, ao racionalismo. Para cada racionalismo haverão racionalidades específicas e isso confirma a relativi- dade inerente à definição do que é racional. Portanto, deve estar claro, ao leitor, que por racionalização deve-se entender um processo his- Te or ia e C ul tu ra 82 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 tórico social; por racionalidade entende-se um processo que se dá na consciência dos agentes como motivação para suas ações, em função de critérios diversos; e por racionalismo deve-se en- tender a matriz cultural na qual estão inseridos so- ciedades e indivíduos. Todos esses conceitos estão completamente interligados, pois os vários modos de racionalidade e racionalização se dão em con- textos históricos sociais determinados. O raciOnalismO de dOminaçãO dO mundO Max Weber caracteriza o racionalismo oci- dental como racionalismo de dominação do mundo. Para isso, o autor demonstra que no ocidente (para ser mais preciso na Europa oci- dental e nos Estados Unidos) ocorreu um hábi- to de comportamento coletivo que favoreceu a ocorrência de uma ciência, uma jurisprudência, uma arte, uma política, e um sistema econômico específicos, racionalizados ao máximo com base no cálculo e na previsibilidade. O capitalismo ao modo que se desenvolveu no ocidente é caracterizado pela busca de lucro, mas, além disso, trata-se de um lucro sempre re- novado por meio de empresa permanente pautada no cálculo em termos de capital, no trabalho li- vre, na existência de um sistema jurídico racional e previsível, na burocratização da administração e na técnica de produção oferecida pela ciência. Essa concepção de capitalismo diferencia-se radi- calmente da simples busca de lucros ocorrida em outros contextos como os casos de financiamentos monetários e agiotagem, ocorridos na Babilônia, na Grécia, na Índia, na China e em Roma, pois nesses casos havia apenas uma especulação, a ati- vidade era descontínua e aventureira. O espírito do capitalismo vai muito além da busca de lucro e afeta a organização de trabalho e a vivência social dos indivíduos nos seus hábitos cotidianos. Weber ressalta que o ocidente viveu, na mo- dernidade, um avanço do racionalismo de do- minação do mundo incomparável a outros con- textos. Na ciência estabeleceu-se um método empírico de conhecimento com a aplicação téc- nica altamente eficaz ao processo industrial. Sob influência do Direito Romano a jurisprudência racional só se deu no ocidente. Nas artes do oci- dente, a técnica permitiu que a música assumis- se, desde o renascimento, uma organização ino- vadora e que a arquitetura produzisse edificações monumentais. No campo da política as organi- zações e grupos nunca foram tão estruturados em regras racionais e leis executadas por funcio- nários especializados. Contudo fica evidente que o espírito do capitalismo envolveu um complexo que se vincula ao processo de racionalização téc- nica e predomínio da atitude instrumental. Weber conclui que uma das causas mais evi- dentes dessa configuração sócio-cultural foi um fenômeno religioso peculiar em suas premissas, o protestantismo ascético. Desse modo, Weber esta- belece uma afinidade eletiva entre o ethos puritano calvinista com uma das fases mais importantes do processo de racionalização que culmina na efeti- vação da sociedade capitalista e seu racionalismo de dominação do mundo. raciOnalidade na religiãO Max Weber demonstrou que a religião é fon- te de concepções do mundo e reguladora das condutas individuais na vida social. O autor in- dica o papel fundamental da religião no processo de racionalização do ocidente, ou, na efetivação de um racionalismo especificamente ocidental. Esclarecemos que não é objetivo desse artigo estabelecer uma análise minuciosa da sociologia weberiana da religião, mas apenas evidenciar a relação entre religião e o complexo fenômeno da racionalidade. Para isso recorremos à obra mais famosa de Weber, isto é, A ética protestante e o espírito do capitalismo. Nessa obra Weber demonstra a influência das ideias religiosas no desenvolvimento da so- ciedade capitalista ocidental. O primeiro passo dado pelo autor é o relato de estatísticas, as quais demonstram o predomínio de protestantes nas atividades inovadoras, nesse sentido o autor ar- gumenta: “...o caráter predominante protestante dos proprietários do capital e empresários, assim como das camadas superiores da mão de obra qualificada, notadamente do pessoal de mais alta Teoria e C ultura 83 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 qualificação técnica ou comercial das empresas modernas”(WEBER, 2004a, p. 29). Além disso, as estatísticas mostram que o número de formados em cursos técnicos vol- tados para o comércio tem maioria protestan- te e entre os trabalhadores fabris, também, há predomíniode protestantes, por outro lado, os católicos são majoritários entre os artesãos. Diante desse quadro, Weber conclui que os protestantes rejeitam posturas e atividades tra- dicionalistas viabilizando mudança e moderni- zação no trabalho, o que se traduz em métodos mais ousados de produção e comércio. Surge, então, a questão: a emancipação do tra- dicionalismo econômico liga-se a uma redução do controle da igreja sobre a vida cotidiana dos indi- víduos? Weber responde que não, pelo contrário, há um aumento do controle sobre a vida pública e privada. “A dominação do calvinismo (...) seria para nós a forma simplesmente mais insuportável que poderia haver de controle eclesiástico do indi- víduo” (WEBER, 2004a, p. 31). Além do alto grau de regulação das condu- tas por parte do puritanismo calvinista, Weber constata que os seguidores dessa religião apre- sentam maior tendência ao racionalismo econô- mico, o que não é observado entre os católicos. Diante de tais evidências, Weber questiona a que lógica se deve a correlação entre ética reli- giosa e conduta econômica. O autor apresenta sentenças proferidas por Benjamin Franklin como expressão da cultura americana. Tais sentenças expressam a ideolo- gia capitalista em si e se resumem ao seguinte: “Lembra-te que tempo é dinheiro. (...) Lembra- te que crédito é dinheiro. (...) Lembra-te que o dinheiro é procriador por natureza e fértil” (WEBER, 2004a, pp. 42-43). Deve ser lembrado que nos Estados Unidos predominou a religião puritana calvinista e que Benjamin Franklin, natural de Massachusetts, era filho de um rígido calvinista, que lhe in- culcou tal ethos durante a juventude. Com isso Weber conclui que a aquisição econômica não era um meio para satisfação das necessidades ma- teriais, pois as sentenças de Franklin exaltavam, acima de tudo, a responsabilidade, diligência e honestidade, fatores que seriam comprovados pelo sucesso profissional e financeiro. O dogma fundamental do calvinismo é o da doutrina da predestinação, segundo a qual todos os homens têm o destino póstumo tra- çado por deus, por motivos estritamente divi- nos inacessíveis e incompreensíveis ao homem. Desse modo a salvação de cada um é definida desde sempre e é inalterável, não há nada que o indivíduo possa fazer para modificar a decisão de deus quanto a sua salvação. Weber indica que, para Calvino, só uma pe- quena parcela dos homens seria salva, o interesse de Calvino se centra em deus e não no homem, os homens existem por causa de deus e para deus, então só resta dedicar a vida para a glória de deus. As boas práticas se pautam, então, no interesse de garantir uma organização racional do meio social. O empenho no trabalho era um modo de dissipar as dúvidas quanto à salvação levando a certeza sobre tal, pois o sucesso no tra- balho poderia ser um sinal da eleição. Contudo, no calvinismo há uma completa eliminação dos meios de salvação, pela Igreja, pelo sacramento e pelas práticas literalmente má- gicas. A eliminação da magia do mundo começa com os profetas hebreus e com o pensamento científico helenístico e se revigora no calvinis- mo, que considera os meios mágicos de salvação superstição e pecado. O puritano também des- prezava os sentidos sensoriais e emocionais, por serem elementos da carne que produziam ilusões sentimentais e superstições idólatras. A eliminação da magia no mundo é o pró- prio desencantamento do mundo. Essa passagem é uma importante virada na racionalidade que, então, ganha uma nova lógica, com maior empi- ria. Habermas (2003) lembra que, para Weber, o desencantamento do mundo é um indicativo da racionalização, ou, para ser mais preciso, o grau de racionalização é medido pelo grau da superação do pensamento mágico. Para evidenciar a ligação entre ética ascética protestante e espírito do capitalismo, Weber expõe e analisa as máximas religiosas sobre a conduta econômica. O autor apresenta, então, o Descanso Eterno dos Deuses ou o Christian Te or ia e C ul tu ra 84 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 Directory, de Baxter. Nesses textos, o autor constata a ênfase na discussão sobre a riqueza. A riqueza é aceita, desde que, não leve ao ócio, as tentações da carne e ao desvio de uma vida correta quanto aos preceitos da religião. O homem deve trabalhar na sua vocação pela glória de Deus através do trabalho metódico. Com essa ênfase na importância do trabalho, para manutenção da boa conduta e para o agrado de deus, a perda de tempo é concebida como pecado. Desse modo, o trabalho tornou-se a própria finalidade da vida. Weber aponta uma concep- ção calvinista de vocação diferente da de Lutero. O conceito puritano de vocação é marcado pelo caráter metódico ascético, ao contrário do lute- ranismo, permite a mudança de profissão, des- de que o trabalho seja feito com o propósito de agradar a deus. O autor, também, afirma que a ênfase na significação ascética de vocação propi- cia a justificação ética para a moderna divisão do trabalho em especialidades. O ponto essencial de Weber nessa obra é a aceitação da riqueza pelos puritanos. Até então a maioria das religiões não motivava seus fiéis ao acúmulo de capital através do trabalho sistemáti- co e da frugalidade. Esse é um hábito novo que o calvinismo despertou em seus crentes. Contudo, Weber encontra a raiz religiosa do espírito do capitalismo no puritanismo ascético, que inculcou em seus fiéis uma visão de mundo e uma ética, favoráveis ao acúmulo de capital. A valorização religiosa do trabalho profis- sional mundano, sem descanso, continu- ado, sistemático, como o meio ascético simplesmente supremo e a um só tempo comprovação o mais segura e visível da regeneração de um ser humano e da au- tenticidade de sua fé, tinha que ser, no fim das contas, a alavanca mais poderosa que se pode imaginar da expansão dessa concepção de vida que aqui temos cha- mado de espírito do capitalismo. E con- frontando agora aquele estrangulamento do consumo com essa desobstrução da ambição de lucro, o resultado externo é evidente: acumulação de capital median- te coerção ascética à poupança. (WEBER, 2004a, pp. 156-157) O protestantismo ascético gerou, através de sua ética, o espírito do capitalismo em países como Inglaterra, Holanda e Estados Unidos, onde a industrialização e o capitalismo ocorre- ram mais cedo. Desse modo, a ética de trabalho e administração de riqueza mantiveram-se, por muito tempo, ligadas ao ethos religioso. Isso, porém, não se manteve, pois o espírito do capi- talismo se desvinculou da ética religiosa tornan- do-se uma prática laica. Weber argumenta que com o aumento da riqueza, aumenta, também, o orgulho, a cólera e o amor ao mundo, senti- mentos que vão contra a religião. A religião perde força coativa sobre as con- dutas individuais e deixa de colonizar as demais esferas de valor que assim se autonomizam efe- tivando seus próprios mecanismos de regulação das condutas. Com isso a concepção dualista é desvalorizada, isto é, a pressão do dever ser sobre o ser se reduz. Só resta, então, como possibi- lidade de atitude ética a condução consciente da vida como personalidade, o indivíduo deve fazer escolhas morais levando em conta as con- sequências de sua ação. A conduta humana passa a ser, cada vez mais, pautada na escolha subjetiva do agente. Wolfgang Schluchter (2000) afirma que quem, na modernidade secularizada, quer conduzir a vida de forma consciente é forçado a afirmar cer- tos valores e negar outros através de uma deci- são subjetiva. A religião, a partir de então, deve ser pensada de modo diferente, levando-se em consideração que é apenas uma esfera de valor que não exerce mais predominância sobre as de- mais. A religião mantém a capacidade de produ- zir imagens de mundo vigente na consciência de seus crentes e de regular suas condutas, porém com uma intensidade menor. Contudo, deve ficar claro que, a racionali- dade na esfera religiosa se funda, antes detudo em dogmas e crenças, fatores não testáveis e não comprovados na vida prática dos homens. Mes- mo o protestantismo ascético que elimina as prá- ticas mágicas gerando um máximo de desencan- tamento na esfera religiosa, se funda na crença de uma vida póstuma pré-determinada por deus, o que é expresso no dogma da pré-destinação. Teoria e C ultura 85 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 O religioso apenas crê na existência de um deus e em um além, pautando sua conduta por tais crenças. A partir disso, esboçaremos as diferen- ças da racionalidade religiosa em relação à racio- nalidade política e científica. raciOnalidade na pOlítica Max Weber (2004b) reconhece que o termo política pode designar muitas relações, a polí- tica de divisas de um banco, a política adotada por um sindicato, a política da diretoria de uma associação, e até a política de uma esposa hábil para com seu marido. Porém, para dar um tra- tamento sociológico ao termo, Weber delimita a noção de política, como conjunto de esforços que visam participar do poder estatal ou influen- ciar na divisão desse poder. Portanto, a noção de política é indissociável do poder do Estado. Assim é necessário esclare- cer a noção de Estado na sociologia weberiana. Para Weber a característica básica do Estado é seu meio específico, o monopólio legítimo da coação física. Todo Estado dispõe da possibi- lidade de exercer a coação física, sendo o agru- pamento político dirigente, que submete uma comunidade humana a sua dominação dentro do território onde é vigente. Além da coação física o Estado possui um poder centralizado e um aparato burocrático administrativo que propiciam o exercício da dominação. É notável, que, o Estado consiste, antes de tudo, em uma relação de dominação do homem sobre o homem. Mas devemos lembrar que para Weber uma associação só tem legitimidade e exis- tência quando é fruto da concatenação de inúme- ras ações individuais, do consenso da coletividade. Desse modo, o Estado, que é uma associação po- lítica, necessita do reconhecimento de cada súdito (ou cidadão) para ter seu poder legitimado. As- sim o primeiro passo da ação política consiste em efetivar a legitimidade do estado frente à coletivi- dade. Segundo Weber, as razões que garantem a legitimidade da dominação estatal são: a tradição, o carisma, a legalidade, o medo e a esperança. A tradição consiste em legitimar uma instância de dominação, através do hábito irrefletido com a justificativa de que as coisas são assim desde sem- pre. Na modernidade ocidental, o patrimonialis- mo e as monarquias absolutas se enquadram na modalidade tradicional de dominação. A legitimidade da dominação é fruto do caris- ma quando um líder plebiscitário obtém, demo- craticamente, a direção do Estado ou influência em tal, utilizando-se de dons carismáticos. Nes- se caso os cidadãos (ou súditos) se submetem à dominação em virtude de uma devoção afetiva à pessoa do líder, que demonstra carisma através de atos heroicos em guerras ou do poder intelectual e retórico, apresentando-se como alternativa nova para os problemas cotidianos. Weber argumenta que, na política moderna do ocidente, o carisma triunfou na figura do líder demagogo como o che- fe de partido no parlamento. A dominação encontra legitimidade racio- nalmente quando há um direito racional e pre- visível com um quadro de funcionários especia- lizados sujeitos às leis. O Estado moderno está associado à jurisprudência que o regula e, além disso, seu corpo administrativo é organizado burocraticamente. Weber afirma que os súditos se submetem à dominação, também, em função do medo e da esperança. Temem ser punidos ao contrariarem as forças dominantes e esperam ser recompensados, de algum modo, pelo poder vigente. Fica evidente que a legitimidade do poder po- lítico é fruto de estímulos culturais e psico-sociais. A tradição, o carisma e a legalidade são condições sócio-culturais dominantes as quais o político deve compreender, para conquistar a legitimidade enquanto senhor ou líder. O medo e a esperança são disposições psico-sociais que o político deve saber despertar em seus eleitores nas ocasiões con- venientes, a favor de sua eleição e da sua manu- tenção no poder. Nesse aspecto, a política é a arte de construir imagens do mundo na consciência coletiva, para que a ação da massa tome a direção desejada por aqueles que a dominam. Se a política funciona construindo visões de mundo e orien- tando a ação coletiva, podemos concluir que ela tem uma atuação sobre a racionalidade humana. A atuação do político não é nada simples e exige qualificações. Em Política como voca ção, Weber Te or ia e C ul tu ra 86 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 (2004b) argumenta que no Estado moderno surgem os políticos profissionais. Trata-se de uma categoria que inicialmente se coloca a serviço dos príncipes não apresentando ambição de se transformarem em senhores, mas empenham-se na luta política para garantir a legitimidade dos príncipes no poder estatal e a realização de suas ordens. Weber ressalta que isso só ocorreu no ocidente, onde a categoria encontrou remuneração e conteúdo moral para sua ação, oferecendo dedicação exclusiva à atividade política. O autor ressalta que existem vários modos de praticar a política enquanto atividade secundária. Esse é o caso do eleitor que só tem participação política na hora do voto, dos militantes de partido, dos parlamentares que só exercem o cargo durante as sessões, entre outras atividades que são realizadas de modo ocasional. O político profissional, pelo contrário, tem a atividade política como ocupação principal. Porém, entre os políticos profissionais, Weber estabelece uma distinção entre aqueles que buscam na atuação política apenas uma fonte de renda e outros que a transformam no seu objetivo de vida como meio de defender causas e convicções. Os políticos profissionais, no entanto, não atu- am isolados, de modo independente. Weber lembra que a luta política é o espaço ocupado por partidos, isto é, associações de pessoas com ideais políticos comuns ou unidos em busca do poder e de cargos. Weber deixa claro que os partidos vivem sob o sig- no do poder. Os políticos profissionais buscam as- cender ao poder com o apoio e a influência de um partido, através do qual, disputam votos no eleito- rado, que, nesse caso, é encarado como um mer- cado. O partido, então, é uma máquina que atua no mercado eleitoral, no qual busca legitimidade para ocupar o aparato dirigente do Estado, o que se traduz, segundo Weber, no controle da distribui- ção de cargos. Nesse caso a política não visa mais o bem comum, mas sim interesses particulares. Os partidos se tornam trampolins para um futuro ga- rantido economicamente através de um cargo na máquina estatal. Nesse cenário da luta partidária, Weber indica que os meios para conquista de votos no mercado eleitoral são variados. Apesar de indicar um predomínio de uma ra- cionalidade teleológica na esfera política, Weber indica que essa esfera não se resume necessaria- mente a um mercado eleitoral. A política moder- na reserva um vasto espaço para valores e ideais, o que impede que o perfil do político seja reduzido à simples busca da obtenção do poder ao modo maquiaveliano. Sendo assim Weber faz recomen- dações à ação política. O político deve agir com paixão na defesa de suas causas, com responsa- bilidade e senso de proporção, o que implica em calma interior, capacidade de distanciamento dos homens e das coisas. Além disso, Weber alerta que os políticos devem controlar a vaidade pessoal, pois essa é um inimigo fatal. Até aqui fica evidente que, para Weber, a polí- tica não é um campo de dogmas e de predomínio da ética como a religião. Mas, por outro lado, We- ber evidencia, também, que a política não se resu- me a uma atividade de racionalidade estritamente teleológica. Cabe-nos, a partir disso, responder a questão: qual asocial tanto da sua terra natal, a Grã-Bretanha, quanto dos Estados Unidos. Capitulo 01.indd 10 23/10/13 14:58 FUNDAMENTOS DA SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA Sandro A. de Araujo Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer Émile Durkheim como um dos fundadores da sociologia do Direito. Caracterizar o fato social a partir de Émile Durkheim. Apresentar os conceitos políticos, jurídicos e específicos de Durkheim. Introdução Neste capítulo, você vai ler sobre um dos maiores nomes da sociologia pura e do Direito: Émile Durkheim, um clássico que influencia autores até os dias de hoje. Ainda neste capítulo, você vai conhecer os conceitos fundamentais da sua obra, como de anomia, solidariedade e divisão do trabalho, conceitos interligados fundamentais para a compreensão da teoria de Émile Durkheim. Émile Durkheim e a sociologia do Direito Preliminares biobibliográficas Émile Durkheim (1858–1917), junto com Karl Marx e Max Weber, é consi- derado um dos pilares da disciplina que conhecemos hoje como sociologia. Nasceu em 15 de abril de 1858, em Épinal, França. Formou-se na École Normale Superieure (Paris), à época dirigida por Fustel de Coulanges, e, mais tarde, lecionou em Bourdoux, onde escreveu: A divisão do trabalho social, como tese de doutoramento (1893); Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 1 09/03/2018 12:06:07 As regras do método sociológico (1895); O suicídio (1897); Lições de sociologia; Física dos costumes e do Direito (cursos ministrados entre 1896–1900). Lecionou na Sorbonne em 1902, como professor auxiliar na cátedra de educação, disciplina da qual se tornou titular em 1906, mudando, em 1910, o nome da cátedra para sociologia. Assim, tornou-se o primeiro professor dessa disciplina. Os seus principais discípulos foram: o antropólogo Marcel Mauss, que era seu sobrinho; o historiador Gustav Glotz; o jurista Léon Duguit. A Figura 1 apresenta a biografia de Émile Durkheim. Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma2 Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 2 09/03/2018 12:06:09 Sociologia do Direito Para Durkheim, a sociologia do Direito tem a incumbência de dar conta de certas tarefas. Segundo ele, tendo em vista o papel que o Direito representa na manutenção da ordem, o sociólogo deve investigar: as causas históricas das regras jurídicas; as funções das regras jurídicas; o funcionamento (como são aplicadas) das regras jurídicas. Para ele, o Direito é coextensivo à vida social: “A sociedade tende inevi- tavelmente a se organizar, e o Direito é a esta organização naquilo que ela possui de mais estável e mais preciso” (DURKHEIM, 1995, p. 31-32). Figura 1. Biografia de Émile Durkheim. Fonte: Aron (1997, p. 369). 3Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 3 09/03/2018 12:06:09 Para Durkheim, a regra jurídica é definida como uma regra de conduta dotada de uma sanção (DURKHEIM, 1995). Essa ênfase dada à sanção é típica de um pensamento obcecado com a ordem. Ao analisar a sanção, ele a divide em duas: a repressiva e a restitutiva. A primeira consiste em impor um sofrimento ao indivíduo, privando-o de algum bem, como a vida, a liberdade, a honra, a fortuna, entre outros. A se- gunda consiste na recondução de uma relação perturbada à sua forma normal (DURKHEIM, 1995). Cada tipo de sanção corresponde a uma função e um fundamento (Quadro 1). Repressiva Restitutiva Fundamento da sanção Sentimento Utilidade Função da sanção Vingança Restauração Quadro 1. Tipos de sanção. Dessa forma, podemos também classificar o Direito em Direito repressivo, que é aquele que utiliza as sanções repressivas, e o Direito restitutivo ou cooperativo, que é aquele que utiliza as sanções restitutivas. Fato social e instituições Objeto Embora Durkheim tenha estabelecido como conceito central do seu pensa- mento o conceito de fato social, na segunda edição das Regras do método sociológico, ele começa a utilizar o termo instituição. Instituição e fato social são termos que preservam a objetividade do fenômeno social. Por ser mais corrente no âmbito do pensamento jurídico, parece mais adequado a uma sociologia do Direito. Assim, Durkheim define sociologia como “[...] a ciência das insti- tuições, de sua gênese e de seu funcionamento” (DURKHEIM, 1986. p. 31). Segundo ele, as instituições são as “[...] crenças e modos de conduta instituídos pela comunidade” (DURKHEIM, 1986. p. 31). Como exemplos Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma4 Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 4 09/03/2018 12:06:09 de instituições, ele traz o Estado, a família, o Direito de propriedade e o contrato (DURKHEIM, 1986). Os fatos sociais e as instituições trazem consigo duas características essen- ciais: a exterioridade e o caráter vinculativo ou coercitivo. O autor conceitua exterioridade da seguinte forma: Para que haja um fato social, é preciso que vários indivíduos combinem sua ação e que desta combinação resulte um produto novo. E como esta síntese tem lugar fora de nós (posto que nela entra uma pluralidade de consciências), tem necessariamente como efeito o de fixar, instituir fora de nós certas ma- neiras de agir e certos juízos que não dependem de cada vontade individual considerada à parte (DURKHEIM, 1986, p. 30-31). Como exemplo, podemos citar o sistema linguístico, a moral, a moda, a moeda, entre outros, que são típicos fenômenos exteriores às consciências individuais. Com relação à segunda característica, temos que tanto a instituição quanto o fato social se impõem ao indivíduo. Um exemplo disso é a paternidade, que é um fenômeno biológico, mas, enquanto instituição/fato social, cria uma série de deveres. É certo que: “[...] cada um de nós fabrica para si, sua moral, sua religião, sua técnica. Não há conformismo social que não comporte toda uma série de matizes individuais. Contudo, o campo de variações permitidas é limitado” (DURKHEIM, 1986, p. 31). Método Quanto ao método utilizado por Durkheim, temos três regras: Primeira regra — “Os fatos sociais devem ser concebidos como coisas” (DURKHEIM, 1986, p. 18). Decorrem dessa regra duas consequências: a coisa é exterior ao indivíduo, o que acarreta que essa coisa só pode ser conhecida pela experiência; o elemento psicológico não é relevante: na verdade, é im- possível determinar com exatidão os motivos subjetivos que deram origem a uma instituição. Segunda regra — deve haver uma prioridade do todo, da sociedade, com relação à parte, o indivíduo. Pois, segundo Durkheim, a vida de uma célula não se encontra nos átomos que a compõem, mas no modo como estão associados (DURKHEIM, 1986). Desse modo, o todo mostra-se irredutível às partes que o compõem, uma vez que possui propriedades que não estão presentes 5Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 5 09/03/2018 12:06:09 nas partes. A sociedade, pois, é irredutível à soma dos indivíduos. De fato, se partirmos dos indivíduos, nunca podemos compreender o que ocorre no grupo, uma vez que os membros do grupo agem de modo diferente do que fariam se estivessem isolados. Terceira regra — a ideia de que um fato social só pode ser explicado por um outro fato social. Principais conceitos Solidariedade Esse conceito fundamental na teoria de Durkheim pode ser descrito como o vínculo objetivo, relação pacífi ca, existente entre os indivíduos em determinada sociedade. A solidariedade, por sua vez, pode fundamentar-se na semelhança entre indivíduos — chamada, então, de solidariedade mecânica — ou na sua diferença — denominada, então, solidariedade orgânica. A solidariedade mecânica é típica de sociedades primitivas, nas quais não ocorreu uma especialização das funçõeslógica da ação no campo da polí- tica? Ou, como podemos pensar a racionalidade nessa esfera? Na esfera política a racionalidade pode ser pensada de vários modos. Nessa pesquisa, consta- tamos na sociologia política weberiana a presença de: racionalidade eletiva, racionalidade instru- mental e racionalidade valorativa. A racionali- dade do político é eletiva quando precisa eleger um fim a ser buscado. A racionalidade do político será instrumental, quando esse mobiliza qualquer meio eficaz para obter o fim elegido, independen- te de qualquer ética ou moral, nesse caso, o único critério para mobilização dos meios é a eficácia na obtenção do fim. O príncipe maquiaveliano é a síntese ideal de racionalidade eletiva e instrumen- tal, pois uma vez que elege um fim, o poder, se dispõe a utilizar qualquer meio eficaz para atingi- lo. A ação de um político nos moldes do príncipe maquiaveliano é racional com referencia a fins, para ele os fins justificam os meios e o eleitora- do é considerado como um mercado, no qual, os eleitores são equivalentes a consumidores, alvos a serem persuadidos pela propaganda. Por outro lado, a racionalidade pode ser valorativa, na esfe- ra política, quando o político age de acordo com suas próprias convicções, responsabilizando-se por suas ações. Nessa situação o político defende cau- sas em nome do bem comum e sua ação é racional Teoria e C ultura 87 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 referente a valores, pois, para ele, só determinados meios, os moralmente aprovados, são admitidos para obtenção do fim desejado. Portanto a polí- tica é uma esfera permeada de valores, os quais, muitas vezes, determinam as ações de políticos e eleitores. Além das formas de racionalidade tra- tadas até aqui, referentes à ação do político pro- fissional, devemos lembrar, também, que a polí- tica produz concepções de mundo para eleitores e cidadãos de modo geral, determinando a lógica de suas ações. Os grandes líderes e partidos políti- cos são essenciais nesse processo ao se mostrarem portadores das ideologias e buscarem difundi-las no meio social, persuadindo os cidadãos de que estão defendendo o melhor para o bem público. Por fim, deve ficar evidente, a diferença da racio- nalidade religiosa e política. Enquanto a primeira se fundamenta na crença irrefletida e nos dogmas inquestionáveis, a segunda envolve um processo dialógico com espaço para escolhas a favor de cer- tos valores em detrimento de outros. raciOnalidade na ciência Na conferência Ciência como Vocação, Weber (2004b) comenta o pensamento científico no pla- tonismo, no renascimento e acima de tudo em seu tempo, expressando que a marca da ciência mo- derna é a especialização e burocratização. Weber lembra que, no Platonismo, o conheci- mento científico buscava, através da razão, a ver- dade, a essência do ser e das coisas. O autor indica que isso ocorreu entre os gregos porque esses fo- ram os primeiros a utilizar em um instrumento de conhecimento, o conceito. Isso foi possível por- que acreditavam na correspondência entre o con- ceito e o objeto, ao qual, esse se refere, trata-se do princípio de identidade, isto é, a ideia contida no conceito é idêntica à essência do objeto do conhe- cimento. Desse modo sabia-se o que era belo pelo conceito de belo, sabia-se o que era bom pelo que afirma o conceito de bom e daí por diante. Weber passa ao Renascimento e lembra que nessa fase a ciência se baseia no conhecimento da natureza e na fé em Deus, essa fé era reforçada pelo conhecimento das obras divinas, ou seja, toda a natureza. Nessa fase, os precursores da ciência foram grandes inovadores da arte como Leonardo Da Vinci e as experiências da arte passam para o campo da ciência. A influência da religião foi ani- mada pelo protestantismo que buscava o caminho que conduz a Deus, a tarefa científica poderia ser esse caminho, na medida em que, explicava e co- nhecia as obras de Deus, ou seja, a natureza. Esse foi um impulso para as ciências da natureza. Mas e a ciência de seu tempo, como Weber refletiu? Weber indica como marca da ciência mo- derna a burocratização e a especialização. O autor afirma que o instituto de ciência assemelhou-se a uma empresa capitalista. Esses institutos neces- sitam de grandes quantias de recurso financeiro para a própria manutenção e se caracterizam pela proletarização do intelectual, pois, esse fica, como qualquer trabalhador, privado dos meios de pro- dução, além de estar submetido a um superior na hierarquia da instituição, assim como um proletá- rio ao seu patrão. Weber lembra que, na ciência, o indivíduo só alcança êxito com rigorosa espe- cialização. Esse fenômeno traz consequências para a realidade, pois um especialista é um ignorante ao se confrontar com a diversidade da realidade. Para ilustrar essa questão Weber dá o exemplo do homem que embarca em um trem, esse, se não for um físico não saberá como funciona e nem o que faz o trem se mover, por outro lado, um índio co- nhece mais as tecnologias de seu meio do que um civilizado, pois na tribo não há especialização. Desse modo o papel da ciência e da raciona- lização crescente não significa que o indivíduo está dotado de maior conhecimento, mas sim, que estão disponíveis explicações científicas e racionais para quase todo fenômeno e assim o indivíduo sabe que não há poderes místicos ou sobrenaturais interferindo na vida, pois há possi- bilidade de domínio por meio da previsão. O ho- mem que embarca no trem não sabe como o trem funciona, mas sabe que o trem não é movido por forças mágicas, sabe também que o trem obede- ce a um percurso previsível com uma lógica de funcionamento previsível. Weber afirma que isso é o mesmo que despojar a magia do mundo, o selvagem que ainda acredita na existência de po- deres sobrenaturais apela para métodos mágicos para interferir na realidade, já o civilizado deve Te or ia e C ul tu ra 88 Juiz de Fora v.3, n. 1/2 p. 79-92 Jan./dez. 2008 recorrer à ciência, porém nunca dominará todo conhecimento enquanto indivíduo, pois, para cada caso, há um especialista. Devemos lembrar que despojar a magia do mundo é para Weber o próprio desencantamento do mundo. Contudo, cabe questionar: Qual o sentido da ciência? A ciência traz sentido à vida? Weber recorre a Tolstoi para responder a tais questões afirmando que a ciência não tem sentido e nem traz sentido à vida, pois ela não permite respon- der às indagações mais relevantes, isto é, o que devemos fazer? Como devemos viver? A resposta a essas questões não são dadas pela ciência. Sen- tido para vida só se dá no campo da moral, da ética, da religião, da arte e até da política, mas não no da ciência, pois, doação de sentido de- pende de valoração, o que a ciência não pode fazer. Weber, porém, indica a presença de pres- supostos não justificáveis cientificamente na base de toda ciência, isto é, no seu fundamento a ci- ência contém alguma valoração. Weber lembra que na medicina há o pressuposto de conservar a vida e reduzir, ao máximo possível, o sofrimento. No direito, certas regras e métodos de interpretação são obrigatórios. Na história, certos fenômenos políticos e culturais são considerados. O autor questiona se conservar a vida não é uma valoração (do mesmo modo o suicídio ocorre em função do ponto de vista, subjetivo, de que a vida não tem mais valor). Também afirma que o direito não responde à seguinte questão: Deveria haver um direito e dever-se-iam consagrar exatamente essas leis? Questiona a História se os fenômenos políti- cos e culturais enfatizados são mesmo os relevantes e por quê? Para todas essas indagações a resposta só pode se basear em argumentação valorativa. Essa é a prova de que o fundamento último de toda ci- ência é valorativo. A ciência só se justifica na von- tade subjetiva do pesquisador, seu interesse pesso- al sobre os temas escolhidos. Diante disso Weber conclui que a ciência pode, apenas, disponibilizar o domíniosociais. A consciência individual depende diretamente da consciência coletiva e segue todos os seus movi- mentos, “[...] como o objeto possuído segue aqueles que o seu proprietário lhe imprime” (DURKHEIM, 1995, p. 107). É essa analogia que justifica o termo mecânica. Mas como se dá a consciência coletiva na solidariedade mecânica? A consciência coletiva é o conjunto das crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade. Como é forte, abrange todas as esferas da vida. A solidariedade orgânica, por sua vez, é a solidariedade fundada na dife- rença. É típica das sociedades modernas, em que a divisão do trabalho provoca a diferenciação entre as pessoas. O termo orgânica é utilizado em analogia com os órgãos de um ser vivo: estes são diferentes, e é a sua diferença que os torna indispensáveis uns aos outros. Cada membro da sociedade funciona como órgão de um organismo. Divisão do trabalho social A divisão social do trabalho consiste na especialização das funções em todos os âmbitos da vida social: econômico, político, religioso, militar, político, científi co, artístico, entre outros. Essa divisão não pode ser confun- Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma6 Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 6 09/03/2018 12:06:10 dida com a divisão técnica do trabalho, que consiste na decomposição do trabalho em várias fases, atribuindo a cada trabalhador a responsabilidade sobre uma fase. As causas da divisão do trabalho dizem respeito à passagem da solidariedade mecânica para a orgânica, em que pode haver: crescimento demográfico; crescimento da densidade demográfica (razão entre indivíduos e superfície); crescimento no número de trocas entre os indivíduos de uma sociedade (a chamada densidade moral). Quanto mais numerosos os indivíduos que procuram viver em conjunto, mais intensa é a luta pela vida. A diferenciação social (especialização) é a solução pacífica da luta pela vida. Com a diferenciação, deixa de ser necessário eliminar a maioria dos indivíduos, a partir do momento em que, diferenciando-os, cada um fornece uma contribuição que lhe é própria para a vida do grupo. ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1997. DURKHEIM, É. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1995. DURKHEIM, É. Las reglas del método sociológico. México: Fondo de Cultura Económica, 1986. ÉMILE DURKHEIM. In: Academia Brasileira de Direito do Estado. 2015. Disponível em: . Acesso em: 01 fev. 2018. 7Émile Durkheim e a sociologia como ciência autônoma Cap_9_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 7 09/03/2018 12:06:10 ECONOMIA POLÍTICA Filipe Prado Macedo da Silva Karl Marx e a luta de classes Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar a influência de Karl Marx na sociologia. Relacionar as mudanças ocorridas, decorrentes da Revolução Industrial, com o surgimento do capitalismo, na visão de Marx. Analisar a teoria da luta de classes enquanto força motriz da história. Introdução Neste capítulo, você vai estudar as principais contribuições teóricas de Karl Marx, um importante intelectual social e econômico que analisou e criticou as transformações produzidas pelo domínio do sistema de produção capitalista. Karl Marx influenciou fortemente os arcabouços teóricos da sociologia e a forma de enxergar as lutas de classes. Para isso, construiu uma teoria da luta de classes e um conjunto de reflexões acerca das mudanças ocorridasem decorrência da Revolução Industrial e de como isso mudaria para sempre as relações sociais entre as classes dominantes (burgueses) e dominadas (trabalhadores). A influência de Karl Marx na sociologia Não há dúvidas de que Karl Marx foi um importante teórico para o campo da sociologia (NETTO, 2006). Isso porque, até hoje, as contribuições teóricas de Karl Marx ajudam a explicar a sociedade atual — pelo menos, nos últimos 150 anos. Foi nesse mesmo período — a partir da Revolução Industrial — que a sociedade capitalista se consolidou como forma de organização social e material. Em outras palavras, as obras literárias de Karl Marx, em especial o livro O Capital, em que ele analisou profundamente as raízes do capitalismo, trouxeram “novas formas de enxergar o mundo e a sociedade que nascia”, e que perdura até hoje — a sociedade capitalista. E o que está envolvido na análise de Karl Marx? Nesse sentido, a grande influência de Karl Marx está em seus profundos conhecimentos e/ou reflexões sobre o modo de produção capitalista (NETTO, 2006). É nesse momento histórico que as contribuições sociológicas de Karl Marx ganham o mundo cientifico e político, a partir de uma nova visão acerca do “novo mundo de prosperidade material e econômica”. Esse “novo mundo de prosperidade material e econômica” surgia ao mesmo tempo em conexão com uma “nova sociedade ou civilização”, com características predominantemente urbanas e industriais. Assim, a sociedade pós-Revolução Industrial baseava-se em uma “nova razão de vida individual e coletiva moderna”, e estruturava-se em “novas relações sociais”, com “novas classes sociais” (SILVA, 2010). Sendo assim, a análise sociológica de Karl Marx tinha como “núcleo duro” o capital e a sua reprodução social. Isso incluiu entender o seu entorno e o seu funcionamento, a fim de compreender como a sociedade tratava a mercadoria, as relações de trabalho, as relações entre nações, os meios de produção, a relação com a moeda, entre outros (MARX, 2008). Por exemplo, ao iniciar seus pressupostos sobre a produção de mercado- rias, Karl Marx buscou entender como as ferramentas e o trabalhador eram utilizados na produção e na reprodução de mercadorias, e como as relações sociais evoluem ou se transformam. Além disso, ele escreveu fortemente sobre o “mundo burguês” que nascia em torno ao capitalismo, adquirindo protagonismo social, político e econômico — ou seja, um sistema econômico de ordem burguesa (MANDEL, 1968; NETTO, 2006). Paralelamente ao “mundo burguês”, nascia ainda, com a urbanização e a industrialização em massa, um “mundo do proletariado”, com a massificação dos trabalhadores urbanos industriais. Já, no século XIX, eram visíveis as transformações da sociedade inglesa, que passava de um “plano rural rudi- mentar” para um “plano urbano mecanizado”, em que os padrões da sociedade tradicional (mais socializada e religiosa) davam lugar a novos padrões seculares e econômicos (mais racionais e pragmáticos) (SILVA, 2010). Em suma, Karl Marx destacou que a sociedade capitalista era formada por: burgueses e trabalhadores. Os burgueses estabeleciam-se em torno dos meios de produção — terra, matérias-primas, máquinas, etc. Já os trabalhadores, alienados dos meios de produção, estruturavam-se em torno da sua força de trabalho. Ambas são distintas, mas são necessárias uma para a existência da outra, de acordo com Karl Marx (MARX, 1983). Em outras palavras, “a sociedade burguesa não pode existir sem os traba- lhadores”, e o capitalismo não pode prosperar sem a evidente divisão social Karl Marx e a luta de classes2 entre essas duas classes sociais (MARX, 1983; NETTO, 2006). Além do mais, a lógica da sociedade capitalista não existe sem alguns dos mecanismos predominantes nas relações produtivas como, por exemplo, a alienação do trabalhador e o “fetichismo da mercadoria”. Em todas as suas obras, Karl Marx trabalhou bastante as distinções entre as classes sociais do capitalismo e suas novas relações — moldando novos paradigmas sociais. Por exemplo, na Antiguidade, a luta de classe acontecia pelo permanente confronto entre os senhores e os escravos — enquanto, na Idade Média, esse conflito evidenciava-se no esforço dos servos contra os senhores feudais. Ou seja, em qualquer momento da história, inclusive do capitalismo, existem relações sociais de opressão(MARX, 2008). Essas relações sociais de opressão — segundo Karl Marx — produzem con- flitos e geram a possibilidade de uma revolução social com a perspectiva de novas relações produtivas. Foi no Manifesto Comunista que Karl Marx escreveu que “os proletários nada têm a perder a não ser seus grilhões, tendo um mundo a ganhar [sob outras perspectivas]”. Essa foi a recomendação de Karl Marx em 1848. É claro que existem inúmeras interpretações sobre a obra de Karl Marx, e análises conflitantes entre os próprios marxistas sobre essas questões teóricas e metodológicas. Em geral, Karl Marx tinha até uma visão otimista com relação à luta de classes, acreditando que, no final desse processo histórico, os trabalhadores construiriam uma nova sociedade dos proletários. Nessa sociedade dos proletários, a grande maioria da sociedade definiria os objetivos dessa nova sociedade — comunista ou socialista; esse seria o curso natural da história. Como frisou Karl Marx, assim como aconteceu no escravismo e no feudalismo, o capitalismo chegaria ao fim com uma grande crise interna, que colapsaria a economia, as instituições e as relações sociais de produção. Dessa forma, as crises seriam cada vez mais constantes nas economias industrializadas, revelando as contradições internas em que o sistema econômico capitalista se estrutura, e logo, “se autodestrói estruturalmente” (NETTO, 2006). Do ponto de vista econômico e sociológico, as crises capitalistas poderiam, em geral, se resumir às crises de acumulação, ou crises da mais-valia (SILVA, 2010). Isso significa que — economicamente — quando os burgueses não conseguem mais aumentar a mais-valia, seja em termos absolutos ou em termos relativos, entram socialmente em crise, pressionando a outra classe social a aumentar a mais-valia. Isso quer dizer que, nas crises capitalistas, os burgueses são obri- gados a explorarem cada vez mais os trabalhadores — em busca de melhores resultados econômicos, ou seja, da produção de mais-valia absoluta e relativa. Consequentemente, as relações sociais de produção capitalista não ficam apenas restritas aos efeitos do campo econômico. Também produzem fortes 3Karl Marx e a luta de classes efeitos sobre o campo social e o campo político. Logo, Karl Marx percebeu e influenciou não somente as relações de produção, mas também as relações sociais (ou da sociedade) e as relações políticas — como fundamentais para a compreensão da dinâmica das lutas de classes (KISHTAINY et al., 2013; MARX, 1983; SILVA, 2010). O modo de produção é um conceito elaborado por Karl Marx (e utilizado pelos seus seguidores, os marxistas) para definir o conjunto das forças produtivas e das relações de produção em seu entorno. Às vezes, o modo de produção pode se confundir, de certa maneira, com a estrutura econômica de uma sociedade qualquer — incluindo assim a produção, a distribuição, a circulação e o consumo. Historicamente, distinguem-se vários modos de produção: o comunista primitivo, o escravista, o feudal, o capitalista e o socialista. De acordo com Karl Marx, pelo menos na visão teórica, numa formação social concreta, podem estar presentes diferentes modos de produção, tendo ao menos um como domi- nante (SANDRONI, 2005). Por exemplo, recentemente, o modo de produção que é mais dominante é o capitalista. Logo, cabe destacar que Karl Marx, em sua obra mais importante, O Capital, ocupa-se fundamentalmente em analisar e teorizar sobre o modo de produção capitalista. Em outras palavras, ele busca entender como ocorre a produção capitalista, a distribuição capitalista entre as classes sociais e a circulação capitalista nas sociedades, e como o consumo se organiza entre os agentes socioeconômicos e as instituições. As mudanças ocorridas em decorrência da Revolução Industrial Com a ascensão do mercado e dos processos industriais, o período feudal chegou categoricamente ao seu fi m, dando lugar ao sistema de produção capitalista (MARX, 1983). Assim, a visão de Karl Marx surgiu num período extremamente turbulento da história europeia (BELL, 1961). A Revolução Industrial já havia encontrado seu rumo na Europa, deixando em seu rastro grande riqueza material e muita pobreza social. Na prática, Karl Marx e seu companheiro intelectual Friedrich Engels tiveram a grande oportunidade de presenciar o novo conjunto de inovações técnicas que surgem com a Revolução Industrial. Essas novas técnicas pro- dutivas produziram diferentes custos sociais no desenvolvimento capitalista, surgindo em toda a sociedade fenômenos e problemas sociais em larga escala. Karl Marx e a luta de classes4 Tudo isso era fruto das mudanças geradas pela Revolução Industrial — que foi o principal fenômeno da história humana na consolidação do sistema capi- talista como regime produtivo. Por exemplo, na Inglaterra, registros revelam que a Revolução Industrial causou profundas transformações sociais — como exploração e alienação extrema do trabalhador, ampliação da pobreza, aumento do desemprego e, ainda, concentração do capital e da produção (SILVA, 2010). Na realidade, Karl Marx, em O Capital, detalha minuciosamente o funcio- namento do sistema capitalista de maneira magistral. É por isso que muitos acham a leitura de O Capital complexa e densa — e com níveis elevados de abstração (intelectual). Nessa sua obra seminal, Karl Marx analisou inicialmente o processo de produção do capital, ressaltando o quanto a sociedade industrial passou a va- lorizar a mercadoria e o dinheiro como importantes elementos do processo de troca social. Daí, a mudança percebida por Karl Marx: no sistema capitalista, a perspectiva era transformar dinheiro/capital em mercadoria e, depois, em mais dinheiro/capital (D — M — D’). Para isso, novas lógicas de trabalho e novos mecanismos de valorização do capital passaram a ser gerados no seio da sociedade capitalista. Aqui cabe destacar a diferença que Karl Marx apontou entre capital constante e capital variável — além de diferenciar a mais-valia absoluta da mais-valia relativa. Esses conceitos fundamentais da economia marxista revelaram uma profunda alteração na lógica produtiva da sociedade. No capitalismo, de acordo com Karl Marx (1983), a mais-valia consiste no valor do trabalho não pago ao trabalhador. Cabe pontuar que, na sociedade capitalista, diferentemente do escravismo ou feudalismo, o preço da força de trabalho é medido mediante o salário. O salário é a remuneração pela compra da força de trabalho por parte dos proprietários do meio de produção — criando um sistema social em que as relações, portanto, são mediadas pelo salário (monetá- rio). Karl Marx destacou que, ainda que o salário seja a nova forma das relações sócio-produtiva, existe cada vez mais aquela parte do esforço do trabalho de que o trabalhador não pode se apropriar, pois é a parte com a qual o proprietário do meio de produção executa a sua acumulação de capital (MARX, 1983, 2008). Além do mais, a partir da Revolução Industrial, a lei geral da acumulação capitalista passou “a reinar como a lógica dominante do sistema capitalista” (SILVA, 2010). Em poucas palavras, a produção passou a ser apenas uma etapa para a acumulação do capital — sendo que o capital passa a ser a riqueza mais desejada da economia. A acumulação em termos absolutos e relativos tornou-se a pedra de toque da sociedade. 5Karl Marx e a luta de classes Aquelas relações de troca simplistas (ou seja, o escambo) e relações de trabalho não assalariadas ficaram para trás nas estruturas sociais predomi- nantemente capitalistas (SILVA, 2010). Assim, no capitalismo, a monetização da economia passou a ser a palavra de ordem, em uma lógica econômica, social e política em que o poder passou a ser do capital (BELL, 1961). Do outro lado, o progresso capitalista fez surgir as primeiras manifestações dos trabalhadores contra a nova estrutura social e econômica da sociedade. Na segunda década do século XIX, começaram a surgir as primeiras ideias socialistas, sobretudona França e na Inglaterra, que tornavam claro que a classe operária teria que tomar consciência de sua exploração, das péssimas condições de trabalho, da falta de unidade [...] de classe, e da falta de uma doutrina alternativa que servisse de bandeira para a luta [...]” (SILVA, 2010). Portanto, a exploração dos trabalhadores, agora em massa, foi outro marco estrutural introduzido pela Revolução Industrial e ampliado pela consolidação do sistema capitalista de produção. Karl Marx revelou em suas análises que “o valor de uma mercadoria se baseava no trabalho necessário para produzi-lo, e que os capitalistas (ou proprietários dos meios de produção) organizavam os preços dos bens finais somando o preço do trabalho ao custo inicial do produto e depois adicionavam o lucro” (KISHTAINY et al., 2013). Logo, para elevar os lucros ou a mais-valia, os proprietários dos meios de produção mantêm os salários baixos, introduzem novas tecnologias para aumentar a eficiência produtiva e, portanto, condenam grandes contingentes de trabalhadores a condições degradantes de trabalho, monotonia e, por fim, desemprego. Ou seja, a Revolução Industrial trouxe “progresso econômico com deterioração social” (SILVA, 2010). Outra mudança importante observada por Karl Marx foi no campo da concorrência entre os capitalistas (SANDRONI, 2005). A tendência — se- gundo Karl Marx — é que cada vez menos produtores controlem os meios de produção, e uma burguesia cada mais restrita concentre cada vez mais riqueza. No longo prazo, isso criaria monopólios que poderiam explorar não somente os trabalhadores, mas também os consumidores (KISHTAINY et al., 2013). Assim sendo, as fileiras do exército industrial de reserva crescem/incham com os ex-burgueses excluídos e com os desempregados. Esse movimento levaria a uma maior complexidade da sociedade e dos mercados, revelando e ampliando cada vez mais as contradições internas do sistema capitalista de produção mercantil (SILVA, 2010). Em síntese, sob o capitalismo, Karl Marx notou que os meios de produção pertencem cada vez mais a uma minoria, que explora o trabalho da maioria e obtém lucro. Paralelamente, essa ganância pelo lucro leva a uma super- Karl Marx e a luta de classes6 produção dos bens procurados, causando uma crise produtiva na economia. Isso produz, de maneira cíclica e cada vez mais profunda, crises econômicas que geram instabilidade social e econômica, gerando agitação social. É essa “agitação social” que torna os trabalhadores cada vez mais conscientes de sua exploração e mais instruídos para derrubarem as classes dominantes que controlam a produção. É isso que leva a uma revolução segundo Karl Marx, alterando mais uma vez a lógica da sociedade. É importante destacar que Karl Marx é uma coisa, e o Marxismo é outra coisa. O que isso quer dizer? Enquanto o primeiro trata-se do autor e de suas obras, sobretudo, o Manifesto Comunista (de 1848), a Contribuição à Crítica da Economia Política (de 1858) e O Capital (de 1867, 1885 e 1894), o segundo — o Marxismo — é uma denominação consagrada para a obra teórica de Karl Marx e Friedrich Engels e de seus seguidores. Em poucas palavras, o Marxismo “constitui uma fundamentação ideológica do moderno comunismo” (SANDRONI, 2005). Essa também chamada Escola do Pensamento Marxista baseia-se, principalmente, na obra O Capital, defendendo uma teoria da mais-valia e o capitalismo como um sistema transitório, sujeito a crises cíclicas, e que por efeito do agravamento de suas contradições internas, cairá a partir da revolução. A teoria da luta de classes enquanto força motriz da história Karl Marx elaborou também uma teoria da luta de classes, buscando explicar melhor os confl itos existentes no sistema capitalista. Segundo ele, “as desi- gualdades sociais observadas no seu tempo eram provocadas, em sua análise, pelas relações de produção do capitalismo, que dividem toda a sociedade em proprietários (burgueses) e não proprietários (proletariado)” (SILVA, 2010). São essas desigualdades que constituem as bases das classes sociais (MARX, 1983). Logo, as relações entre a sociedade no capitalismo se caracterizam por relações antagônicas, de oposição, incompatibilidade, exploração e complemen- taridade entre as classes sociais (BELL, 1961; MARX, 1983). Daí a percepção de que o conceito de luta de classes é inseparável do conceito materialista da história (MARX, 2008). Porém, o que isso quer dizer? De acordo com Karl Marx, “a história não passa de um registro cruel dos esforços do homem para ganhar ascendência material”. Ele acreditava que todos os conflitos repousavam em questões econômicas, e tais lutas eram 7Karl Marx e a luta de classes entre os que tinham e os que não tinham (MARX, 1983). Essas lutas eram a força motriz das sociedades capitalistas, e a razão inevitável e absoluta dos conflitos internacionais (SILVA, 2010). Novamente cabe observar que, no sistema capitalista, Karl Marx identificou relações de exploração da classe dos proprietários (a burguesia) sobre os traba- lhadores (o proletariado). Isso porque a posse dos meios de produção, sob a forma legal de propriedade privada, faz com que os trabalhadores, a fim de assegurar a sobrevivência, tenham que vender sua força de trabalho ao capitalista, “[...] o qual se apropria do produto do trabalho de seus operários” (MARX, 1983). Em termos práticos, essas relações são de obstinação e antagonismo, na medida em que os interesses de cada classe são inconciliáveis e, muitas vezes, inegociáveis (SILVA, 2010). O burguês deseja preservar seu direito à propriedade dos meios de produção e das mercadorias, além da máxima exploração do trabalhador, seja reduzindo os salários, seja ampliando a jor- nada de trabalho. Por sua vez, o trabalhador procura diminuir a exploração ao batalhar por uma jornada de trabalho menor, além de melhores salários e participação nos lucros do empresário. Por outro lado, as relações entre as classes são complementares, pois uma só existe em relação à outra (MARX, 1983). Karl Marx observou que só existem proprietários porque há uma massa de despossuídos, cuja única propriedade é sua força de trabalho. Em suma, as classes sociais são, apesar “de sua oposição”, complementares e interdependentes Mesmo assim, para Karl Marx a luta de classes deve, necessariamente, acarretar a vitória do proletariado sobre a burguesia, e, uma vez conseguida esta vitória e desaparecido o antagonismo entre capital e trabalho, a luta de classes deixará de existir para sempre. Esse é o avanço histórico previsto por Karl Marx. Além do mais, Karl Marx ampliou, na teoria da luta de classes, o conceito de alienação do trabalhador, mostrando que a industrialização, a propriedade privada e o salário afastaram o trabalhador dos meios de produção — ferra- mentas, matérias-primas, terras e máquinas —, que estavam sob o controle dos capitalistas (MARX, 2008; SILVA, 2010). Karl Marx (1983) destaca que essa é a base da alienação econômica do homem sob o capital. Do ponto de vista político, o homem também ficou alienado, pois o liberalismo criou a lógica de um Estado como um órgão político imparcial, capaz de representar toda a sociedade — e todas as suas classes — e dirigi-la pelo poder delegado pelos indivíduos. No entanto, Karl Marx mostrou que, na sociedade de classes, esse Estado representava apenas as classes dominantes, e agia conforme seus interesses e objetivos. Em outras palavras, no capitalismo, o Estado é um Estado burguês, a Karl Marx e a luta de classes8 serviço dos interesses do capital. Dessa maneira, essa questão estatal maximiza a luta de classes como “motor de transformação da história humana” (SILVA, 2010). É comum associar sempre os escritos de Karl Marx aos movimentos dos trabalhadores e aos conflitos ou às negociações perpetradas pelos sindicatos. Isso porque é importante lembrar que os trabalhadores são, em qualquer país, a maioria da população. Foi, neste sentido, que Karl Marx destacoua importância da luta de classes: sempre os trabalhadores seriam maioria, e logo, precisavam de consciência para se organizarem e romperem os paradoxos da história. 1. Marx não tinha a mesma compreensão dos cientistas sociais sobre o papel da ciência. Se para Max Weber, por exemplo, a ciência social deveria se afastar da esfera moral e política, para Durkheim e Marx, pelo menos nesse ponto os dois concordavam, cabia a ela produzir um conhecimento capaz de conduzir os homens a uma vida melhor e a uma sociedade mais justa. Embora tenha escrito sobre várias fases da história, Marx concentrou-se principalmente: a) na Revolução Francesa. b) no positivismo de Augusto Comte. c) nas mudanças ocorridas devido ao desenvolvimento do capitalismo. d) nas ideias de Émile Durkheim e nos fatos sociais. e) nas grandes navegações. 2. É uma ideologia política e socioeconômica, sem divisão de grande escala entre ricos e pobres, ou seja, a ausência de uma pequena classe monopolizando as riquezas e a grande maioria das pessoas recebendo poucos benefícios que seu trabalho gera. Seria uma sociedade mais humana do que a que conhecemos. Assinale abaixo a alternativa que identifica essa nova ordem: a) Comunismo. b) Feudalismo. c) Escravismo. d) Primitivo. e) Indústria. 3. Sobre as mudanças sociais, Marx tinha um ponto de vista que chamou de concepção materialista da história. Assinale a alternativa que descreve essa visão: a) Não são os valores ou as ideias que os homens detêm que promovem as principais mudanças sociais, essas mudanças são induzidas por influências econômicas. b) O estudo dos fatos sociais é que levariam a uma maior compreensão da sociedade. c) Conforme essa visão, o capitalismo era muito parecido com os modos de produção que o antecederam. d) Conforme essa visão, o capitalismo era uma fase passageira e a sociedade logo voltaria ao modo de produção feudal. e) Conforme essa visão, o capitalismo era a última fase de evolução da sociedade. 9Karl Marx e a luta de classes 4. A teoria dos modos de produção sucessivos, que se iniciou pela análise estruturada das sociedades humanas, teve início com o que Marx chamou de "comunismo primitivo", a partir de estudos de pequenos grupos do passado remoto. Nesses grupos, tudo o que era adquirido era de propriedade comum, e não havia divisões de classe. Mas esses grupos evoluíram e a propriedade privada surgiu, inclusive a escravidão, como na Grécia e Roma antiga. A partir daí, as sociedades desenvolveram-se com base na agricultura e em relações de propriedade feudal, que era dividida entre proprietários de terra, camponeses e arrendatários, forçados a trabalhar para os proprietários para sobreviver. Esse modo de produção também chegou aos seus limites. A partir desses estudos, Marx concluiu que o capitalismo: a) nunca chegaria ao fim. Como era um sistema novo, totalmente diferente dos modos de produção que o antecederam, ele sempre encontraria formas de se renovar. b) também chegaria ao fim, abrindo espaço para outro modo de produção, gerado a partir de trabalhadores descontentes, que desenvolveriam uma consciência de classe, pondo fim à propriedade privada e estabelecendo as relações comunais. c) chegaria ao fim e, como era um sistema novo, sucumbiria, e a sociedade retornaria ao sistema feudal. d) também chegaria ao fim, abrindo espaço para outro modo de produção, fruto de decisões políticas, que quisessem o melhor para a sociedade. e) também chegaria ao fim, abrindo espaço para outro modo de produção, gerado a partir de decisões da classe burguesa. 5. Ao contrário do comunismo primitivo, Marx previa um comunismo moderno, que teria a sua disposição todos os benefícios do sistema capitalista altamente produtivo. Assinale a alternativa que melhor descreve essa forma de comunismo moderno. a) Seria uma forma avançada e sofisticada de comunismo, capaz de cumprir o princípio comunista que diz “de cada um conforme sua capacidade, a cada um, conforme sua necessidade”. b) Seria uma forma avançada e sofisticada de comunismo, capaz de cumprir o princípio comunista que diz que a propriedade privada é a base da sociedade. c) Seria uma forma primitiva de comunismo, conforme o modelo dos tempos remotos, estudados por marx. d) Seria uma forma avançada e sofisticada de comunismo, porém, serviria de retorno ao sistema feudal. e) Seria uma forma avançada e sofisticada de comunismo, mas que levaria a um novo modo de produção, o primitivo. Karl Marx e a luta de classes10 BELL, J. F. História do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1961. KISHTAINY, N. et al. O livro da economia. São Paulo: Globo, 2013. MANDEL, E. A formação do pensamento econômico de Karl Marx: de 1843 até a redação de O Capital. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968. MARX, K. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008. MARX, K. O capital: critica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. NETTO, J. P. O que é marxismo. São Paulo: Brasiliense, 2006. SANDRONI, P. Dicionário de economia do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005. SILVA, F. P. M. O fator trabalho na teoria econômica. Lauro de Freitas, BA: Editorial FPMS, 2010. Leituras recomendadas CARCANHOLO, R. A. Marx, Ricardo e Smith: sobre a teoria do valor trabalho. Vitória: Edufes, 2012. RÍO, H. Marx para principiantes. Buenos Aires: Era Naciente, 2004. 11Karl Marx e a luta de classes Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Conteúdo: Anthony Completamente revisada e atualizada, esta referência única oferece um panorama esclarecedor sobre os últimos acontecimentos globais e sobre as novas ideias no campo da sociologia. Os debates clássicos também são minuciosamente abordados, explicando até as ideias mais complexas de maneira clara e envolvente. Escrito de forma fluente e com um estilo atraente, esta obra consegue ser ao mesmo tempo intelectualmente rigorosa e perfeita- mente acessível a todos os públicos. Sociologia é um livro empolgante e envolvente, que busca ajudar os leitores a compreender o valor de pensar sociologicamente. Destaques da 6ª edição: • Novos conteúdos sobre educação, mídia, teoria social, desigualdades, política e governo; e um capítulo inteiramente novo sobre guerra e terrorismo. • Maior aprofundamento e atualização em todos os capítulos. • Foco especial dado à sociologia global e à imaginação sociológica. • Novas seções de “Estudos Clássicos” examinam em detalhes as pesquisas empíricas mais influentes. • Seções adicionais de “Reflexão Crítica” foram inseridas ao texto para estimular a compreensão e o entendimento dos leitores. • Imagens especialmente selecionadas procuram captar o drama cotidiano do mundo social. Livro-texto campeão de vendas por mais de 20 anos, a 6ª edição estabelece o padrão para o estudo introdutório da sociologia. Fonte ideal para estudantes de sociologia e certamente uma inspiração para a nova geração de sociólogos. ANTHONY GIDDENS é Ex-Diretor da London School of Economics. PROFESSORES VISITE A ÁREA DO PROFESSOR E FAÇA DOWNLOAD DE POWERPOINTS PRONTOS PARA SEREM UTILIZADOS EM SALA DE AULA. ALUNOS ENTRE NO SITE PARA TESTAR SEUS CONHECIMENTOS E TER ACESSO A MATERIAL COMPLEMENTAR. ÁREA DO PROFESSOR CONTEÚDO ONLINE Anthony Giddens Sociologia A n th ony G idd en s Sociolog ia 02516 _Giddens_Sociologia.indd 1 13/03/2017 15:10:32 G453s Giddens, Anthony. Sociologia / Anthony Giddens ; tradução: Ronaldo Cataldo Costa ; revisão técnica: Fernando Coutinho Cotanda. – 6. ed. – Porto Alegre : Penso, 2012. 847 p. : il. color. ; 28 cm. ISBN 978-85-63899-26-2 1. Sociologia. I. Título. CDU 316 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052 Anthony Giddens é ex-diretor da London School of Economics. Philip W. Sutton é professor na University