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DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA edição B. GOLSE Professeur de pédopsychiatrie à la faculté Cochin - Port-Royal - Paris V Psychiatre des hôpitaux Responsable de l'Unité de Psychiatrie Infantile de l'Hôpital Saint-Vincent-de-Paul (Paris) COM A COLABORAÇÃO DE H. A. I. DOMANGE, I. FUNCK, M. KLAHR, M. LIBERMAN, PH MILLOT, M. M.C. TRECA E VITERBO TRADUÇÃO: Maria Lúcia Homem SUPERVISÃO E REVISÃO TÉCNICA DESTA EDIÇÃO: Maria Helena M. Ferreira Médica G628d Golse, B. o desenvolvimento afetivo e intelectual da crian- ça/ B. trad. Maria Lúcia Homem - Porto Alegre : ArtMed, 1. Psicologia infantil - CDU ARTMED Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto CRB 10/1023 PORTO 1998 ISBN 85-7307-448-5[4] WINNICOTT D W enfant et le monde traduzido por STRONCK-ROBERT A., Ela integra as abordagens conceituais de Hartmann, Kris e Loewenstein (cf. p. Payot, Paris, 1972 118) que atribuem primordialmente ao recém-nascido a existência de um Ego primiti- [5] WINNICOTT L enfant et sa famille, traduzido por STRONCK-ROBERT A., Payot, Paris, Este, certamente é, entretanto, dotado de faculdades perceptivas [6] WINNICOTT et traduzido por MONOD e PONTALIS Gallimard mas e de tendências inatas; é sustentado por uma energia primária Estas Paris, faculdades perceptivas autônomas permitem especificamente a fixação mnésica. [7] WINNICOTT D.W The family and individual development. Londres, 1964 Segundo M. Mahler, a tendência à maturação está ligada ao desloca- [8] WINNICOT D.W. 69, [9] GEETS C. Jean-Pierre Delarge, Paris, 1981 mento duplo progressivo da energia primária indiferenciada primeiro e da energia [10] CLANCIER A., KALMANOVITCH J. Le paradoxe de Payot, Paris, 1984 libidinal depois. Está em estreita relação com a maturação somatoneurológica. [11] WINNICOTT na Cahiers de 1988 O recurso ao conceito de "linhas de desenvolvimento" enunciado por A. Freud [12] WINNICOTT D.W. Conversations Gallimard, Paris, 1988 levou M. Mahler a colocar como condição necessária à boa continuidade dos proces- [13] PHILLIPS A Winnicott. Fontana Press, do desenvolvimento a adequação cronológica de duas séries de [14] WINNICOTT D.W Lettres vives. Paris, 1989 nos que conduzem à separação e à individuação. Os avanços no amadurecimento do plano somatoneurológico intrincados do plano psiquico induziriam o desen- volvimento da relação de objeto libidinal, a qual teria um efeito estrutural no Ego. A representação do "self" separado daquela do objeto interferiria, então, como uma con- Margareth S. Mahler* do dominio das tensões e das ansiedades provocadas na criança pelo seu (nascida em 1900) próprio Enfim, ao que a mãe é o suporte da evolução psico- afetiva normal do bebê e que seu papel deve se moldar constantemente para se adaptar 1. ELEMENTOS BIOGRÁFICOS às modalidades próprias do ritmo, M. Mahler retoma a noção de "mãe suficientemente boa" descrita por D.W. Winnicott. Margareth S. Mahler é psiquiatra e psicanalista de Formada na Alema- nha primeiro, na depois, ela dirigiu, em Viena, o primeiro centro de orientação METODOLOGIA de inspiração psicanalitica. Instalada nos Estados Unidos, onde ensinou psi- quiatria na Universidade A. Einstein desde 1955, ela enfrentou uma brilhante carreira de professora, clinica, psicanalista e pesquisadora. Depois de haver trabalhado com crianças acometidas de psicose grave e de ter Seus trabalhos sobre a psicose infantil levaram M.S. Mahler a diferenciar e defi- trabalhado com reconstrução a partir de psicanálises, M. Mahler baseia seus trabalhos nir uma forma simbiótica desta patologia, que se origina de distorsões severas ocorri- na observação de mães e de bebês normais e selecionados como tais para serem inclui- das precocemente ao longo do desenvolvimento do dos no seu estudo. O protocolo de pesquisa se apóia na observação de comportamen- Sua interpretação etiológica da psicose simbiótica levou M.S. Mahler a propor tos, os quais são considerados como de superficie" do funcionamento psi- uma teoria do desenvolvimento psicoafetivo normal da criança. quico "profundo" que é impossível de apreender Atendendo durante a O programa de pesquisas que ela estabeleccu e realizou com uma equipe de dia as mães e seus bebês alguns desde uma semana de idade num ambiente espe- colaboradores no "Masters Children Center" de Nova lorque permitiu-lhe elaborar e cialmente preparado para a observação em condições as mais naturais possiveis (arre- validar suas propostas das quais tentaremos o dores de uma creche), M. Mahler e seus colaboradores acompanham os bebês (e suas mães) até a idade de 3 anos (idade na qual a permanência do objeto libidinal está em adquirida). A observação é de dois tipos: seja participante, isto é, o observa- 2. A OBRA dor entra em relação com a criança, a mãe ou os dois; seja não-participante, isto é, o PRELIMINARES observador encontra-se atrás de um espelho de dupla A observação versa em fenômenos cuidadosamente escolhidos por seus critérios de validade no curso do pro- O ponto de vista de Margareth S. Mahler inscreve-se como complemento da cesso de desenvolvimento (ex.: atitude do bebê na presença de sua mãe, na sua ausên- teoria genética do desenvolvimento pulsional elaborada por S. Freud, com suas fases cia, reação à separação, no reencontro, etc.). Os dados coletados numa abordagem oral, anal e objetiva são regularmente discutidos e analisados em São relacionados com pressupostos teóricos, o que leva a reformulações sucessivas dos protocolos de pes- quisa que permitem reinterpretações dos fenômenos observados. Monique psiquiatra GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA 89Por esta forma de proceder complexa e muito elaborada, M. Mahler no qual se pode observar uma "crise de maturação" objetivada no EEG. Corresponde pode elaborar com o auxílio de seus colaboradores, uma teoria do desenvolvimento à ruptura da casca que evitava os estímulos externos, e que pelos quais, na psicoafetivo normal da criança até os três anos, cujas sobre os planos ausência de intervenção materna, o bebê tem agora a tendência de se deixar assolar, o terapêutico e prático na psiquiatria da criança são que indicam seus choros e sua descarga motora. Esta fase permitirá a consolidação da homeostase pós-fetal que corresponde à fase do narcisismo primário absoluto de S. Freud. TEORIA DO DESENVOLVIMENTO M. Mahler localiza três grandes etapas que são sucessivamente a fase do autismo 2. Fase Normal normal, a fase de simbiose normal e a fase do processo de Esta fase é subdividida em patamares que acabam por se sobrepor. A ruptura da casca a partir do segundo mês, inaugura a fase simbiótica que vai terminar ao redor do nono-décimo segundo mês. Tudo se passa como se a criança e sua mãe constituissem uma unidade dual poderosa, no interior de uma fron- 1. Fase Normal teira única comum. Neste sistema, a criança está na fase de dependência absoluta, a mãe na fase de dependência A fusão do bebê com sua mãe é tal que nenhuma Esta fase dura aproximadamente quatro recém-nascido que dispõe diferença entre o Eu e o não-Eu hão é percebida. Os "engramas" sob a forma de ilho- de um sistema reflexo (sucção, busca do seio, teria uma tendência inata ao funcio- tas são constituídos de representações fusionadas do "Self" e do objeto namento vegetativo e visceral. Encontra-se mais próximo de um esta- parcial de satisfação simbiótica carregado de energia ainda Progressi- do de sono do que de um estado de vigília, e seu sono corresponderia a um estado de vamente, e sobretudo nos períodos de ausência, a criança vai tomar uma consciência distribuição libidinal arcaica, tendo por objetivo a homeostase num sistema autocon- vaga do objeto de satisfação de suas necessidades, consciente que se obnubila no servador onde o desejo é satisfeito de maneira Durante estes raros período de saciedade. Na matriz os processos de organização e de estrutu- dos de o tenta somente manter uma regulação homeostática dos ração do Ego polarizam-se em torno da mãe, cujo investimento como objeto parcial, fenômenos fisiológicos. Ele não tem nenhuma consciência do agente materno e não será a principal realização pasíquica desta fase. Na fusão psicossomática onipotente, o diferencia nada de suas próprias tentativas de satisfação de tensões (por atividades tais bebê faz uma reperesentação alucinatória delirante de sua mãe, que ele acredita unida como cuspir, urinar, tossir, regurgitar, chorar, vomitar) daquelas que lhe vêm dos cui- a ele e separada com ele do mundo externo pela "membrana simbiótica comum" dados de sua Ela deve inclusive protegê-lo de um excesso de (função bebê projeta, além desta fronteira, todas as percepções desagradáveis, sejam de ori- de se bem que ele seja relativamente insensível que lhe vêm gem interna ou externa, fazendo o mesmo com a agressividade que não do exterior (barreira de proteção). A satisfação de suas necessidade advém de sua Excepcionalmente, a criança integra estímulos externos ao meio simbiótico. Por meio própria esfera seio faz parte integrante de si-mesmo e a mãe de seu comportamento de suporte "suficientemente bom" a mãe tem reduzida a uma sensação de calor que ele Não existe sistema perceptivo o papel de Ego auxiliar do bebê, ou, ainda, segundo Spitz, de "organizador simbi- consciente ou sensorium; ele vive numa espécie de vazio alucinatório, num sistema Na função de para-excitações, a mãe protege o Ego rudimentar de traumatis- fechado, auto-suficiente que evoca a comparação com um ovo de pássaro feita por mos que seriam decorrentes de estímulos pulsionais. Ela mantém o equilibrio home- Freud (1911): "O ovo do pássaro, com sua provisão de alimento no interior de sua ostático da criança imatura, sujeita a sofrimentos somáticos geradores de ansiedade. E casca, fornece-nos um exemplo muito claro de um sistema fechado aos esti- ainda a mãe que, pela maternagem, permite ao bebê desenvolver suas percepções sen- mulos do mundo externo, e capaz de satisfazer autisticamente mesmo sua necessida- soriais. Ela favorece assim a constituição do sensorium que resulta do deslocamento des nutritivas". do investimento libidinal (primitivamente intero e proprioceptivo na fase Nesta fase, o bebê só pode gravar, sob a forma de traços dois tipos de para a periferia e sua transformação num investimento experiências adquiridas de maneira quase cenestésica sob a proteção do sistema ner- Uma representação corporal ligada ao Ego rudimentar se estabelece graças voso central: as boas e as más (agradáveis ou dolorosas). Ele investe as duas com uma à conjunção de percepções internas e periféricas. Este processo marca a estrutu- energia primária indiferenciada. E o cuidado materno que favorecerá gradualmente o ração do Ego corporal, e suas representações configurarão futuramente o "esque- deslocamento da energia do interior do corpo (sobretudo dos órgão abdominais) para ma corporal". a e aumentará a sensibilidade aos estímulos externos. Este fenômeno marca- Na evolução do bebê, a fase simbiótica realiza então a transição de uma organi- rá o da fase que se produz na terceira ou na quarta semana, período zação puramente biológica a uma organização "desejo" substitui a 90 / B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA 91necessidade puramente quando um afeto ligado à expectativa também é a) Primeira etapa: do esquema corporal por um estado de tensão da fase lactente, que nos seus primei- Seu início se dá ao redor dos 4-5 meses nos momentos culminantes da fase ros meses aprendeu por condicionamento, começa aproximadamente no terceiro mês simbiótica; ela corresponde ao primeiro deslocamento de investimento da energia li- a utilizar sua experiência ligadas aos traços mnésicos. bidinal para o exterior. Com a experiência da repetição, o objeto parcial (não especifico no início), ca- No interior da esfera simbiótica com sua mãe, a criança sente-se em segurança e paz de satisfazer as necessidades, adquire uma especificidade ao redor do sexto mês experimenta um "prazer" considerável (ele se molda ao corpo de sua responde (ex.: passagem da resposta sorriso não à ansiedade específica, do terceiro pelo sorriso que se torna especifico...). ao oitavo mês). A evolução ontogenética progressiva do sensorium é produzida sob a impulsão Ulteriormente, graças ao sensorium, o "Self" separar-se-á claramente dos obje- de tensões de maturação inatas. ele que condiciona o fenômeno "de o qual tos, e um relativo das tensões permitirá esperar e antecipar, com confiança a se revela no comportamento do bebê pelos primeiros sinais de diferenciação. Os pe- satisfação que se aproxima. riodos de são cada vez mais longos; certas vezes caracterizam-se por um "ar de A diade simbiótica, com sua polarização dos processos de organização e de es- vigilância" aparentemente orientado para um objetivo. bebê experimental prazer na truturação, pode ser considerada como um campo dentro do qual estarão referencia- exploração tátil (ela puxa os cabelos de sua mãe, mete-lhe os dedos no nariz, explora das todas as experiências do bebê, antes que se no Ego, em representa- seu corpo, alimenta-a, etc.). Mais tarde, o bebê volta-se para os e ções claras e totais do "Self", separado do mundo dos objetos. os compara com o que ele já conhece: sua mãe junto a quem ela se (esque- Antes do fim desta fase, que se situa entre o nono e o décimo segundo mês, o ma comportamental da alternado e rápido dos estímulos para a mãe processo de separação-individuação propriamente dito já terá começado. e vice-versa). Pouco a pouco, seu interesse pelas sensações exteroceptivas substitui o que a criança tinha experimentado pelas sensações internas. Ele retira prazer dai. Se ele tem 3. Fase do Processo de Separação-Individuação que suportar uma forte tensão de origem externa (ansiedade em função de um estra- nho, por exemplo), ele apela a sua mãe, o Ego auxiliar para-excitações (ele se aninha processo inteiro é governado por duas "linhas de desenvolvimento". que se contra seu corpo), que lhe evita ter que desenvolver prematuramente seus próprios organizam dentro da tendência inata à maturação. Uma leva à separação e diz respeito recursos. à evolução no sentido da diferenciação, à distância, formação de limites e desligamen- Cada criança segue uma via de diferenciação individual e única, cuja especifici- tos da mãe; a outra leva à individuação e diz repeito à evolução das funções autôno- dade é determinada pelas características da interação mãe/filho. A seleção recíproca mas: percepção, memória, capacidades cognitivas, etc. Uma adequação temporal rela- de seus sinais depende, ao mesmo tempo, do talento inato da criança e da mãe com o tiva é necessária entre estas duas linhas de preciso que tanto a seu inconsciente. início do Ego corporal elabora-se, então, em relação ao corpo da maturação fisiológica que torna a criança capaz de um funcionamento autônomo, como mãe, e o principio da diferenciação realiza-se, por extensão, fora da esfera a tomada de consciência deste funcionamento autônomo e a aptidão a suportá-lo, pro- duzam-se paralelamente à organização da representação do objeto libidinal e ao de- b) Segunda etapa: Treinamento Este período coincide com a fase de diferen- senvolvimento do conceito de "self", ligado à aprendizagem de andar e às funções ciação e corresponde ao segundo deslocamento de investimento de energia libidinal autônomas do Ego. que se retira da esfera simbiótica para se fixar nos autônomos do "self" e A garantia do sucesso normal do processo é o ambiente, representado pela mãe, nas funções do Ego que são, entre outras, a locomoção e a cuja disponibilidade física e emocional deve se adaptar perfeitamente à evolução da Ela estende-se do mês ao mês aproximadamente. E o ponto culminan- criança. te do fenômeno de eclosão provocada pela tendência inata à maturação e evolução Margareth S. Mahler localiza dentro do processo quatro etapas (divididas por ontogenética do (Período do domínio anal e do não). bebê explora seto- sua vez em fases sendo que a primeira começa bem antes do fim da res cada vez maiores da realidade. Ela separa-se fisicamente de sua mãe da qual afas- fase simbiótica. As etapas são marcadas pela sucessão de deslocamentos de investi- ta-se... para depois voltar para ela. Com efeito, a separação fisica ativa que o bebê mento libidinal ligados à maturação. Cada uma delas é caracterizada, em profundida- realiza é geradora de ansiedade quando ela toma consciência; subsiste o esquema com- de, por um estado do Ego que se reflete na "superficie" nos comportamen- portamental da contraprova asseguradora pelo retorno à presença da tos da criança. O observador destes comportamentos e das evoluções destes pode, Distinguem-se dois na fase de treinamento: no primeiro, a criança se- então, utilizá-los como "parâmetros" e como meios de acesso ao funcionamento psi- para-se fisicamente de sua mãe, mas sempre apoiando-se (engatinhar, andar com apoio, quico profundo em via de levantar-se); no segundo, ela evolue livremente, de pé, sem apoio 92 B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA 93No primeiro período, apesar da atração pelo mundo a descobrir, o interesse (in- No dos 15 aos 18-20 meses, o bebê deseja partilhar o prazer de suas vestimento libidinal) dirigido à sua mãe continua Mas a relação sim- descobertas com sua mãe; ela lhe leva tudo o que lhe agrada (para seu colo, de prefe- biótica torna-se inconfortável, uma vez que a mãe pareça seguir, por seu lado, um rência) e monopoliza sua atenção. Ela a segue por todos os lugares ("comportamento processo de desligamento Nesta fase, se estabelece uma "distância ótima" de ser a sombra") ou foge subitamente com a esperança de ser procurado, pego nos da interação entre a e a criança que lhe permite explorar o mundo braços e acariciado ("comportamento de partida-em-flecha precipitada"). Mas quan- ainda permanecendo próximo à sua mãe (no seu campo visual ou auditivo). do a criança está próxima da mãe, nasce uma nova ansiedade: aquela da reengolfa- No segundo período, o da locomoção livre em posição vertical, investimento mento na fusão simbiótica que significa o fim do prazer de libidinal está ainda deslocado para se colocar praticamente todo o serviço do Ego Produz-se então a "crise da que se estende dos 18 aos 22-24 bebê experimenta suas próprias capacidades num estado de elação jubi- meses, ao longo da qual aparecem soluções alternativas ao de latória. Ele se acredita dotado de toda potência mágica. Sua onipotência herdada da ao qual é preciso renunciar. Graças à evolução paralela de aptidões cognitivas, o bebê que ele à sua mãe na unidade dual enriquece-se com a fascinação elabora mecanismos de defesa (interiorização parcial, imitação-identificação, nega- da autonomia e talvez já do prazer da "escapada" longe das ameaças de reengolfamen- ção, acesso ao simbólico pelos fenômenos transicionais, como o jogo). comporta- to materno. mento é marcado pela instabilidade de humor e pela A comunicação verbal Mas a separação fisica ativa que a criança realiza é geradora de ansiedade quan- nascente é substituída pelo contato direto. A esfera social que cresce ativamente, ex- do ela começa a tomar consciência disso, já que, nessa fase, nem as representações trapola a ligação mãe-filho para incluir o pai primeiramente, e os iguais depois; é o diferenciadas do "self" nem aquelas do objeto estão integradas com as representações nascimento da empatia. jogo expressa os conflitos interiorizados e traduz o acesso totais. O bebê que, neste movimento de elação do treinamento aceitava facilmente, na ao simbólico. A agressividade da fase anal, que subjaz a este tem efeitos ausência da mãe, substitutos adultos familiares, adota mesmo assim um "comporta- construtivos diferentes dos aspectos negativistas (reivindicação da autonomia pelo mento em surdina" que lembra uma "depressão anaclitica" em miniatura (sua mobili- "Não") aos quais ela estava reduzida na fase do dade, sua atividade gestual diminui, ela absorve-se em si mesma, etc.). Sua mãe con- Enfim, em torno dos 22-24 meses, o último período da fase de reaproximação, tinua então a lhe ser necessária como um "porto seguro", onde ela pode se recarregar é constituído pela forma de respostas manifestadas por cada bebê à crise emocionalmente por contato A especificidade da "linguagem interativa" entre que acaba de passar, esboços de de sua própria personalidade. Os es- a mãe e seu filho se define. bebê modifica gradualmente seu comportamento em forços de aproximação A linguagem é cada vez mais operacional. Os função do campo de referência em espelho, que lhe apresenta sua mãe e ao qual ajus- mecanismos de interiorização do objeto, separado do "self", são funcionais, como ta-se automaticamente seu "self" primitivo (trata-se de um reflexão recíproca e narci- testemunha a aparição do pronome sica). Notemos que se este campo é alterado (mãe ansiosa, inconstante, imprevisível), A interiorização das demandas parentais (aprendizagem da limpeza) leva à for- o bebê em via de individuação não pode apoiar-se numa contraprova perceptiva e mação de precursores do Superego. problema não é tanto o da tomada de consciên- emocional confiável, e a estruturação da sua personalidade pode se tornar gravemente cia da separação, mas o de saber como esta tomada de consciência de ser separado da perturbada. mãe afeta as relações entre o bebê sua mãe, seu pai, o mundo. Este último da reaproximação marca também o da identidade se- c) Terceira etapa: A reaproximação Desenrola-se aproximadamente do 15° xual, já que diferenças significativas aparecem entre os comportamentos das meninas ao 24° mês e subdivide-se em três etapas, sendo que a primeira articula-se estreita- e os dos meninos. mente com a fase dao Parece necessário salientar que, por meio de todo este processo de reaproxima- Ela resulta da perda de elementos delirantes constituintes do ideal do "self" todo- ção, a disponibilidade fisica e emocional da mãe é Ela deve constante- poderoso mencionado que foi questionado acima; e de um novo deslocamento do in- mente encontrar a "distância que condiciona a elaboração de de seu vestimento libidinal para a mãe o bebê tem agora verdadeiramente consciência de que filho e o encoraja no seu desenvolvimento ao dar, onde for necessário, "leves ele está fisicamente separada. A perda de sua onipotência torna-o vulnerável e empurrões necessários ao A extensão de sua autonomia e prazer que ele retira dieta não lhe permitem de qualquer forma suportar sozinho suas Ao aumento da ansiedade de sepa- d) Quarta etapa: Permanência do objeto libidinal e consolidação da indivi- ração (revelada pela tristeza, raiva, agressividade ou hiperatividade) acrescentam-se dualidade Esta etapa é a última do processo de o que tem as ansiedade de perda do objeto de amor e o amor do objeto. de própria é o seu início ao redor de 24 meses, mas que não tem fim. comportamento oscila constantemente nesta fase, entre a reaproximação fisica Tal fase é particularmente caracterizada pelo desenvolvimento das funções cog- e o distanciamento da mãe. nitivas e aquisições que o exemplo da comunicação verbal, em substituição aos mo- 94 DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA 95dos de comunicação anteriores ilustra bem. Seguindo-se a etapa de reaproxi- Enfim, M.S. Mahler confirma a idéia de que as perturbações do processo de mação, a separação do "self" e do "objeto" inaugura o "sentimento de identidade". desenvolvimento psicoafetivo podem ser atribuídas tanto a defeitos inatos próprios da bebê elabora uma representação estável de sua "identidade individual" pela estrutura- criança quanto a alterações do ambiente (quer se tratar de um comportamento materno ção extensiva em torno de seu Ego corporal (limites). "esquema corporal" configu- inadequado ou de choques traumáticos repetitivos). ra o núcleo do Ego. Ele resulta do último deslocamento de investimento libidinal, que se fixa no corpo em suas partes internas e periféricas. Reagrupa todas as percepções (proprioceptivas, interoceptivas, cinestésicas, térmicas, sensoriais...) carregadas de BIBLIOGRAFIA energias libidinais e Em torno deste núcleo constitutivo da idéia de Eu, organizam-se e estruturam-se os traços e as representações MAHLER Margareth Psychose Ed. Payot, Paris, 1977 do mundo MAHLER Margareth S., PINE F., BERGMAN A. La Naissance psychologique de humain Ed. Payot, Assim, numa reação circular, a estruturação do Ego leva à neutralização das MAHLER Margareth A study of the separation-individuation Process and its possible applica- pulsões, o que contribui, por outro lado, para estruturar o Ego. sentimento da iden- tion to Border-line Phenomena in the psychoanalytic Situation The Psychoanalytic Study of tidade especifica por um "investimento energético resultante de the Child, XXVI, 1971, p. 403-424 investimentos libidinais centripetos e centrifugos ulteriores. A consolidação da identi- dade sexual integrar-se-á a tais representações; da mesma forma, interiorização de exigências paternais e de proibições estruturará os precursores do Superego. A própria permanência do objeto libidinal segue a aquisição cognitiva da repre- Wilfred R. Bion* sentação do objeto permanente, no sentido piagetiano. Esta aptidão é uma condição necessária, mas não suficiente, para a aquisição da permanência do objeto (1897-1979) Esta resulta da elaboração da representação ao in- vestimento libidinal do objeto materno. 1. ELEMENTOS BIOGRÁFICOS E OBRA Isto implica que o bebê pôde realizar a unificação do objeto bom e do objeto mau, numa única representação global, depois de ter se desembaraçado das nasceu em 1897 na India e seu pai era engenheiro. Depois dos estudos ansiedades e de suas surgidas quando da separação da mãe. Por exem- de História em Oxford, volta-se para a Medicina e Psiquiatria, tornando-se depois plo, um bebê que brinca na presença de sua mãe e prefere continuar sua brincadeira, psicanalista de inspiração kleiniana. ao invés de acompanhá-la quando ela parte, adquiriu a permanência do objeto libidi- A entrada de Bion na psicanálise começa quando da Segunda Guerra Mundial nal. Esta permite a espera da satisfação e sua antecipação confiante, tolerância à pelo estudo de grupos. Psiquiatra militar, ele inicia no seu hospital atividades livres frustração e à angústia. Ela assegura as possibilidades de uma evolução futura harmo- em pequenos grupos que transformam o clima. Quando volta à vida civil, é encarrega- niosa. do de dirigir na "Tavistock Clinic" grupos de terapia, aplicando seus métodos pes- soais. De 1950 a 1962, uma série de contribuições reunidas após duas obras, CONCLUSÕES cias com grupos e Cogitações, destaca-no para seus colegas ingleses. A elaboração teórica é estreitamente articulada com sua experiência de psicanalista. A originalidade da teoria elaborada por Margareth S. Mahler resulta do fato de De 1962 a 1970, Bion publica, em vários volumes que formam o que ela integra informações sobre mecanismos do desenvolvimento psicoafetivo do essencial de sua obra. Ele radicaliza progressivamente a formulação de suas observa- bebê provenientes de diversos horizontes. a interpretação à luz de teorias psicanali- ções. ticas que dá sentido aos dados comportamentais coletados pela observação "objeti- Estas são: nas fontes da experiência Margareth S. Mahler mostra que as perturbações que surgem no desenvolvimen- elementos de psicanálise to precoce do psiquismo provocam modificações ou problemas da personalidade es- transformações pecificos, cujas particularidades remontam à fase onde foram produzidas. Ela descre- atenção e interpretação. ve assim as psicoses e as fases borderline, sobre os quais não nos estenderemos dentro do contexto desta obra dedicada à criança Anne psicóloga 96 B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA 97

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