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BRUNO BRANDINO ZUIM REAPROVEITAMENTO ENERGÉTICO DOS REFUGOS INDUSTRIAIS DO PROCESSO DE ROTOMOLDAGEM A PARTIR DA GASEIFICAÇÃO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo Curso de Engenharia Elétrica com ênfase em Sistemas de Energia e Automação ORIENTADOR: Prof. Dr. Valdir Schalch São Carlos 2013 RESUMO ZUIM, B. B. Reaproveitamento energético dos refugos industriais do processo de rotomoldagem a partir da gaseificação. 2013. 140 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2013. O desenvolvimento do sistema capitalista, o crescimento populacional e o aumento da produção de bens de consumo são alguns dos fatores que contribuem para a geração crescente e, por vezes, desordenada dos resíduos sólidos no planeta. Contudo, em muitos casos não há a prática de destinação e disposição ambientalmente adequada para tais materiais. Possíveis tratamentos para os resíduos englobam processos termoquímicos de reaproveitamento energético, os quais convertem materiais de baixo valor agregado em produtos de interesse, tal como a eletricidade. Este trabalho consistiu, particularmente, na avaliação da instalação de um sistema de gaseificação em uma indústria de médio porte. A partir de um estudo de caso, foram obtidos os dados do processo de transformação de polímeros por seu processo produtivo de rotomoldagem, segundo os quais foi estimada a quantidade de energia possível de ser gerada a partir do poder calorífico da resina polimérica proveniente dos refugos industriais, sendo estes o combustível para o processo de gaseificação. A estratégia metodológica compreendeu a determinação das rotas produtivas e dos equipamentos constituintes do sistema gaseificador. Dessa forma, foram discutidas, primeiramente, as vantagens e as desvantagens da eventual utilização de tal sistema para a empresa do estudo de caso. Por fim, foi considerada tal hipótese para outros possíveis tipos de indústrias presentes no mercado, principalmente no que se refere às diferentes capacidades produtivas. Os resultados destacam, em relação à indústria alvo, que o sistema ainda não é viável, em razão de seu baixo consumo de resina polimérica. No entanto, a discussão aponta uma série de vantagens para esta aplicação em empresas de grande porte. Nestas, além de assegurarem-se demandas poliméricas satisfatórias para a geração de energia elétrica em escalas tangíveis, outros inconvenientes intrínsecos à aquisição do sistema gaseificador são também minimizados. A análise dos resultados permitiu concluir, ainda, que um processo de tratamento de resíduos, tal como a gaseificação, não propicia apenas o benefício energético, mas integra uma das possíveis medidas capazes de desenvolver plenamente um sistema de gestão ambiental empresarial. Este sistema, ao considerar a destinação correta dos resíduos em vez da simples disposição final, contemplaria aspectos econômicos e ambientais. Ao mesmo tempo, a organização fortificaria sua imagem e projetar-se-ia competitivamente no mercado, minimizando o risco de eventuais prejuízos financeiros. Palavras-chave: resíduos sólidos, reaproveitamento energético, gaseificação, refugos industriais, rotomoldagem. ABSTRACT ZUIM, B. B. Energy recovery of the industrial scrap from the rotational molding process through gasification. 2013. 140 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2013. The development of the capitalist system, the population growth and the rising production of consumer goods are some of the factors that contribute to the growing and, at times, disordered generation of solid waste on the planet. However, in some cases there is still no environmentally sound destination and disposal conducts for such materials. Possible treatments include energy recovery through thermo chemical processes, which convert low value-added products into ones of interest, such as electricity. The present study consisted, particularly, of the evaluation of installing a gasification system in a medium-sized industry. Based on a case study, data were obtained from the polymer transformation process of its productive process of rotational molding, through which allowed to estimate the achievable amount of energy that could be generated from the calorific value of the polymer resin derived from the industrial scrap, being this one the fuel for the gasification process. The methodological strategy involved the determination of the production routes and also the constituent equipment of the gasifier system. Thus, were discussed, first, the advantages and disadvantages of the eventual use of such a system for the targeted company. This hypothesis was considered for other existing sorts of industries, especially regarding to the different productive capacities. The results revealed, concerning to the targeted industry, that the system is not yet feasible, due to its low consumption of polymer resin. Nevertheless, the discussion suggests a range of advantages for this application in large- sized companies. In these ones, besides being ensured satisfactory polymer demands for generating electricity in tangible scales, other drawbacks inherent to the acquisition of the gasifier system are also minimized. The analysis of the results led to the conclusion, moreover, that a waste treatment process, such as gasification, not only provides the energy benefit, but integrates one of the suitable measures for developing a fully corporate environmental management system. This system, by addressing a proper waste management instead of its simple final disposal, would contemplate both economic and environmental aspects. At the same time, the organization would fortify its image and project itself competitively in the market, minimizing the risk of any financial losses. Keywords: solid waste, energy recovery, gasification, industrial scraps, rotational molding. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Abreviatura/Sigla Descrição A Cinzas ABELPRE Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos especiais ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas ABQUIM Associação Brasileira da Indústria Química ABS Acrilonitrila butadieno estireno ADN ou DNA Ácido Desoxirribonucléico ANNEL Agência Nacional de Energia Elétrica ASTM American Society for Testing and Materials BEN Balanço Energético Nacional BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BR Borracha de Polibutadieno C Carbono CD Compact Disc (Disco Laser) CEMPRE Compromisso Empresarial para a Reciclagem CMM Crescimento Mensal Médio CMMAD Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento CNUMAD Conferência das Nações Unidas de Meio Ambiente e Desenvolvimento CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente CP Capacidade Produtiva DPMM Demanda Polimérica Mensal Média EG Eficiência do Gaseificador EGM Eficiência Global do MACI EIA Estudo de Impacto Ambiental ET Energia Térmica ETA Estação de Tratamento de Água ETE Estação de Tratamento de Esgoto ETS Eficiência Total do Sistema EVA Espuma Vinílica Acetinada FU Fator de Utilização H Hidrogênio IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IMNC Índice Médio de Não Conformidade INC Índice de Não Conformidade IUPAC International Union of Pure and Applied Chemistry MACI Motor Alternativo de Combustão Interna MCC Material Contendo Carbono MP Massa Polimérica Mensal Média N Nitrogênio NBR Borracha Nitrilica O Oxigênio ONU Organização das Nações Unidas PA Poliamidamicrobiana, principalmente dos microrganismos anaeróbios que, através de seu metabolismo, transformam a matéria orgânica em produtos combustíveis, como gás metano e hidrogênio e em um composto, potencialmente utilizável como condicionador do solo (SOUTO e POVINELLI, 2012). Mata-Alvarez (2000) afirma que a energia produzida pela digestão anaeróbia ultrapassaria a necessária para a operação do sistema de tratamento, além de que este processo causaria menores impactos ambientais por liberar menos gases estufa por tonelada de resíduo tratado que qualquer outro sistema, inclusive a compostagem. Os sistemas de digestão anaeróbia podem ser divididos em sistemas de fluxo contínuo e sistemas em batelada. Os primeiros podem tratar quantidades muito maiores de resíduo, porém sua implantação é mais custosa quanto comparada aos sistemas de batelada. Estes, por sua vez, requerem áreas muito maiores. 35 Os reatores anaeróbios também podem ser divididos em sistemas “a seco” e “a úmido”, também conhecidos como sistemas com alta e baixa concentração de sólidos, respectivamente. Os sistemas com alta concentração trabalham com os resíduos na sua umidade natural, enquanto os de baixa concentração requerem adição de água, sendo que o meio de reação tem a aparência de uma sopa (LISSENS et al., 2001). Para Souto e Povinelli (2012), os reatores anaeróbios hoje disponíveis no mercado não são capazes de estabilizar completamente a matéria orgânica. Sendo assim, faz-se necessário que os resíduos que saem do reator sejam estabilizados de forma aeróbia, ou seja, por compostagem. Cumpre ressaltar que os reatores conseguem trabalhar com cargas orgânicas muito mais altas que os sistemas de compostagem, de modo que suas vantagens residem tanto na possibilidade do aproveitamento do biogás quanto na economia de área para a instalação do sistema. 3.1.7.5. Incineração A incineração é uma técnica que pode ser usada para qualquer tipo de resíduo orgânico. De acordo com Cempre (2000), esta tecnologia consiste na combustão dos resíduos em temperaturas acima de 800°C, com injeção de ar para garantir a queima completa, ou seja, a conversão total da matéria orgânica em gás carbônico e água. Neste processo, não somente toda a matéria orgânica, mas também praticamente toda a umidade é eliminada, enquanto os resíduos são convertidos em cinzas, devendo ser classificadas de acordo com a NBR 10004 da ABNT e encaminhadas para a destinação final correspondente. São gerados, ainda, alguns gases tóxicos que também devem sofrer o tratamento adequado. Embora seja muito criticada por essa geração de gases, a incineração é a técnica de escolha de alguns países que dispõem de poucas áreas para aterros, como é o caso da Suíça e do Japão (CEMPRE, 2000). Neste último país, mais de 70% dos resíduos sólidos domésticos são incinerados (USHIMA e SANTOS, 2000). No Brasil, a incineração é muito utilizada para o tratamento de RSS, com capacidade instalada para tratar 58.874 toneladas por ano (ABRELPE, 2013). A larga utilização da incineração para o tratamento destes últimos tipos de resíduos se deve ao fato dos agentes patogênicos serem destruídos, além de eliminar uma série de compostos químicos tóxicos nele presentes. Alguns incineradores são projetados de modo a permitir o aproveitamento do calor da queima para a produção de energia elétrica. Uma das desvantagens desse processo está no risco de produção e emissão de compostos tóxicos e cancerígenos, os quais 36 podem depositar-se no solo e entrar na cadeia alimentar via vegetais e provocar danos ambientais graves. Tecnicamente, existes, porém, algumas formas de minimizar essa possibilidade, mediante resfriamento mais rápido dos gases e filtragem de materiais particulados, entre outros métodos. Leão e Tan (1998), a partir de um estudo a respeito de alternativas para os resíduos sólidos do município de São Paulo, mostram que a incineração de alguns componentes dos resíduos sólidos domésticos pode não ser economicamente mais interessante que a coleta seletiva e reciclagem, embora investimentos mais expressivos em educação ambiental possam inverter essa situação. No mesmo trabalho, os autores concluem que, considerando mais especificamente o ponto de vista ambiental e tendo como parâmetro o efeito estufa – a elevação da temperatura da superfície da terra devido ao aumento da presença de certos gases na atmosfera -, a reciclagem se torna mais vantajosa. 3.1.8. Disposição final Os resíduos não tratados e os rejeitos dos diversos processos de tratamento precisam ser finalmente dispostos no solo. A solução mais frequentemente indicada é o aterro sanitário. Segundo Oliveira (1992), estes locais são obras de engenharia destinadas a acomodar os resíduos sobre o solo, minimizando os impactos ambientais e os riscos à saúde. Devem possuir drenos para os líquidos percolados que se formam na decomposição natural da matéria orgânica e impermeabilização adequada para evitar a contaminação de aquíferos. Ademais, precisam dispor de drenos também responsáveis por escoar os gases que se formam no processo de fermentação da matéria orgânica. A operação de aterros sanitários, por sua vez, deve incluir a compactação dos resíduos e sua cobertura diária com terra, a qual tem por objetivo ajudar a evitar a emanação de maus odores e a proliferação de vetores. Além disso, deve haver um sistema de drenagem de águas pluviais e tratamento adequado para o chorume, bem como um sistema de monitoramento de lençol freático. De acordo com Phillipi Jr. (2005), entre as soluções sanitária e ambientalmente adequadas, os aterros sanitários são considerados a forma mais barata, no curto prazo, para solucionar a questão dos resíduos sólidos em cidades médias e grandes. Quando a capacidade de um aterro se esgota, a área deve ser recuperada do ponto de vista paisagístico e de utilização pela sociedade, respeitando-se as limitações técnicas inerentes às características dos terrenos aterrados com resíduos. 37 Um dos mais importantes aspectos de um projeto de aterro sanitário consiste na determinação das áreas de sua localização. Do ponto de vista técnico, precisam favorecer e facilitar as atividades ali realizadas, como transporte, manuseio e cobertura dos resíduos. Já sob a ótica econômica, devem ser financeiramente acessíveis e próximas o suficiente dos centros de geração, no intuito de não encarecer demasiadamente os custos de transporte. Segundo os aspectos ambientais, o terreno deve possuir características hidrogeológicas favoráveis, tais como solo de baixa permeabilidade e alta estabilidade mecânica, ausência de movimentos naturais de terra e lençol freático suficientemente distante. Por fim, no que diz respeito à perspectiva social, deve ser devidamente negociada com a comunidade, uma vez que poucos tendem a aceitar impassivelmente a ideia de serem vizinhos de um aterro sanitário (PHILLIPI JR., 2005). Resumidamente, dentre as principais características que devem ser levadas em consideração na definição das áreas potencias para instalação de aterros sanitários destacam-se: Dados populacionais; Características dos resíduos; Situação da coleta e transporte dos resíduos produzidos na região, inclusive custos; Dados geotécnicos, tipo de solo e relevo; Águas subterrâneas, superficiais e regime de chuvas; Legislação, incluindo o uso e ocupação do solo; Investimento necessário à aquisição das terras; Dados sociopolíticos das comunidades envolvidas (PHILLIPI JR., 2005). Com o passar do tempo, entretanto, as áreas acessíveis para dispor os resíduos sólidos tendem a se esgotar, provocando aumento de custo devido ao preço dos novos terrenos ou às maiores distâncias em relação aos centros geradores. Vale ressaltar, ainda, que no futuro existe a possibilidade de esgotarem-se totalmente as áreas factíveis para instalação deaterros sanitários. É a partir dessa realidade que se torna imperioso considerar cada vez mais as tecnologias alternativas de tratamento e aproveitamento energético dos resíduos sólidos. Porém, várias são as leis e resoluções já existentes no âmbito da disposição, as quais objetivam alterar, para melhor, a dinâmica deste processo. Embora essa prática seja inevitável, faz-se necessário garantir condições adequadas e ambientalmente corretas, desde o projeto ao funcionamento correto dos aterros. Neste sentido, a resolução CONAMA Nº 001/1986 prevê a necessidade de se estabelecerem as definições, as responsabilidades, os critérios básicos e as diretrizes 38 gerais para uso e implementação do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Para tal, faz-se necessária a elaboração de um estudo de impacto ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente e do IBAMA, para o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, tais como os aterros sanitários (CONAMA, 1986). Em resumo, o EIA consiste em um documento técnico de avaliação do impacto ambiental de qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: A saúde, a segurança e o bem-estar da população; As atividades sociais e econômicas; A biota, ou o conjunto de seres vivos de um ecossistema, o que inclui a flora, a fauna, os fungos e outros grupos de organismos; As condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; A qualidade dos recursos ambientais. Dentre os aspectos mais importantes da adesão à elaboração do EIA, destacam-se: Visa a garantir que as medidas preventivas sejam compatíveis com o desenvolvimento sustentável; Proporciona um instrumento de tomada de decisão que integra variáveis ambientais, econômicas, sociais e tecnológicas (instrumento de gestão); Permite a elaboração de um respectivo RIMA, para que a sociedade possa ter acesso e compreender o projeto. O RIMA, por sua vez, reflete as conclusões do EIA, o qual deve ser apresentado de forma objetiva e adequada a sua compreensão. Todas as informações desse documento deverão ser traduzidas em linguagem acessível e ilustradas por mapas, quadros, gráficos e demais técnicas de comunicação visual, de modo que se possa entender as vantagens e desvantagens do projeto, bem como todas as consequências ambientais de sua implementação (CONAMA, 1986). Existem, entretanto, formas de disposição na quais não há quaisquer cuidados para a redução de impactos, normalmente sendo chamadas de lixões. Não podem, a rigor, constituírem formas de disposição final, já que dispor significa colocar de forma ordenada (FERREIRA, 1993). Os lixões são inadequados do ponto de vista sanitário porque propiciam a proliferação de vetores, os quais podem provocar o aparecimento de doenças. Podem provocar também a poluição do solo, das águas, do ar e de diversos problemas ambientais. 39 Do ponto de vista social, acabam refletindo a miséria presente na região, já que são fontes de sustento para os catadores. Infelizmente, os lixões são a forma mais numerosa de locais de disposição final no Brasil (IBGE, 2000), sendo dispostos milhares de toneladas de resíduos por dia em locais com essa classificação. Para situações intermediárias entre os lixões e os aterros sanitários, é utilizada a expressão aterros controlados. Segundo Phillipi Jr. (2005), esta última denominação cumpriu durante algum tempo a função de diferenciar situações de descuido total daquelas que já incorporavam alguns cuidados, mas é atualmente considerada imprópria por muitos profissionais, já que passa a impressão de que os riscos ambientais estão todos controlados dentro das normas estabelecidas, o que não é verdade. Tipicamente, esses aterros recebem cobertura diária de terra, mas não possuem sistemas de impermeabilização e de drenagem de líquidos e gases. 3.2. Polímeros A palavra “plástico” tem origem no grego plastikós, que significa adequado à moldagem. Plásticos são materiais formados pela união de grandes cadeias moleculares chamadas polímeros e estes, por sua vez, são macromoléculas formadas a partir de moléculas menores (monômeros) e caracterizadas por seu tamanho, sua estrutura química e interações intra e intermoleculares. As unidades químicas fundamentais (meros) são unidas por ligações covalentes, que se repetem ao longo da cadeia. Os polímeros são capazes de adquirir condições plásticas por ação de calor e pressão e podem ser obtidos através de reações poliméricas produzidas pelo Homem, sendo considerados sintéticos. Por outro lado, existem os polímeros naturais, encontrados e extraídos diretamente da natureza. Na figura 3.2 são apresentados alguns exemplos de polímeros comuns, associados às suas respectivas unidades repetitivas e aos monômeros que lhe dão origem. 3.2.1. Nomenclatura Analogamente às substâncias orgânicas, os polímeros possuem um nome que se relaciona diretamente com a sua fórmula química. De acordo com a IUPAC - International Union of Pure and Applied Chemistry (2012), os polímeros são designados pelo prefixo “poli” seguido do nome da unidade repetitiva colocado entre parêntesis. A título de suposição, se se considerasse o nome da unidade repetitiva como “ABC”, o nome do 40 Figura 3.2: Principais polímeros, associados às suas respectivas unidades repetitivas e ao monômero de origem (ABIQUIM, 2009). polímero correspondente seria poli (ABC). Muitos polímeros possuem nomes mais comuns e populares, pois foram desenvolvidos antes da sistematização da nomenclatura das substâncias químicas. Por exemplo, o polímero normalmente designado por “polipropileno”, de acordo com a nomenclatura recomendada pela IUPAC, dever-se-ia designar-se por “poli (1-metiletileno)”. No entanto, a IUPAC reconhece que esses nomes comuns se encontram fortemente enraizados na linguagem popular e não seria sensato aboli-los definitivamente. No entanto, recomenda-se que a comunidade científica recorra à classificação dos polímeros de acordo com a nomenclatura sistemática. No intuito de simplificar a designação de polímeros e materiais poliméricos é frequente o uso de abreviações através de siglas. Os polímeros sintéticos são muitas vezes designados por um nome comercial atribuído pela empresa que o sintetiza. Por 41 exemplo, o poli (tetrafluoroetileno) é muito conhecido por um dos seus nomes comerciais – o Teflon. Na figura 3.3 são apresentados alguns polímeros relacionados às suas estruturas, nome comum e nome sistemático, bem como as siglas a eles atribuídas. Figura 3.3: Polímeros relacionados às suas estruturas, nome comum e nome sistemático e suas siglas (ABIQUIM, 2009). 3.2.2. Histórico Até a primeira metade do século XIX, acreditava-se que reações orgânicas eram possíveis apenas no interior de seres vivos, conforme a Teoria da Força Vital, enunciada por Jöns Jacob Berzelius. Em 1828, um discípulo de Berzelius, o alemão Friedrich Wohler, descobriu a fórmula para sintetizar uréia a partir do isocianato de uréia inorgânico. Este se configurou, então, como o ponto de partida para o desenvolvimento de materiais poliméricos, a partir do qual houve um gradativo crescimento das pesquisas e estudos voltados à química orgânica (ABIQUIM, 2009). 42 Ainda segundo a Abiquim (2009), no ano de 1838, o francês Victor Regnault polimeriza o PVC com auxílio de luz solar. No ano seguinte, o norte-americano Charles Goodyear descobre a vulcanização da borracha natural, possibilitando o uso desse material. Já no fim do século, em 1898, os químicos Einhor e Bischoff descobrem, por acaso, o policarbonato, que seria desenvolvido apenas em1950. Logo no início do século 20, em 1907, o norte-americano Leo Hendrik Baekeland sintetiza resinas de fenol-formaldeído, que ficariam conhecidas como baquelites. Também chamado de fórmica, o baquelite foi o primeiro plástico totalmente sintético que surge em escala comercial. No período de 1920 a 1950 são desenvolvidos os polímeros: PVC, polimetacrilato de metila (PMMA), PS, nylon, polietileno, silicone, poliuretano, acrinolitrina butadieno estireno (ABS) e poliéster, além de fibras sintéticas de poliéster e acrílico, entre outros. Especificamente, em 1924, são criadas as fibras de acetato de celulose. Em termos gerais, após a Segunda Guerra Mundial, a produção de polímeros cresceu muito rapidamente, embora por volta de 1860 já houvesse a moldagem industrial de plásticos naturais reforçados com fibras. Atualmente, a partir da engenharia de macromoléculas, vários elastômeros termoplásticos estão presentes no nosso cotidiano, como sacolas de supermercado em PEAD, lentes de contato flexíveis e garrafas de PET. 3.2.3. Origem e utilização Segundo Matos (2009), os polímeros sintéticos são materiais produzidos basicamente a partir do petróleo e constituem, hoje, a principal matéria-prima para a fabricação de embalagens e recipientes plásticos, assim como os “plásticos de engenharia” (usados em indústrias da construção civil, automobilísticas, entre outras). Ainda segundo este autor, suas propriedades e características são variáveis e dependem da natureza química e física das unidades repetitivas (mero). Outros tantos são os segmentos nos quais esses materiais estão inseridos, desde as indústrias até as áreas da medicina. Elucidativamente, os polímeros podem ser substitutos do aço ou até mesmo uma válvula cardíaca. Segundo a ABIQUIM (2009), o crescimento do mercado de materiais poliméricos tem sido superior a 10% ao ano ao longo das últimas décadas, como por exemplo, os poliésteres. A crescente exigência por materiais de melhor desempenho, mais resistentes a temperaturas elevadas, maior poder de isolamento, dentre outros atributos, garantiram a estes materiais maior representatividade no mercado. 43 No que tange a construção civil, a aplicação de polímeros tem ganhado parcela cada vez mais significativa. O PVC, por exemplo, começou a ser utilizado há décadas e hoje integra boa parte dos itens de base das construções, a saber, canos, tubulações, juntas de ligação, dentre outros itens. Não somente na base das obras, estão presentes também no acabamento, como janelas e divisórias, portas, forros e coberturas, pisos e decoração em geral. Por fim, a própria alvenaria de algumas residências já está sendo construída a partir do PVC, graças às diversas características vantajosas desse material em relação à madeira, por exemplo. O baixo custo, a resistência à umidade, imunidade a fungos e corrosão e rapidez na montagem são alguns desses atributos. Na tabela 3.4 são relacionados alguns dos principais polímeros às suas respectivas aplicações: Polímero Aplicações Poliestireno Polietileno Polipropileno Poliamida (nylon) PVC Plexiglass (Acrílico) Teflon Borracha natural Amido Celulose Baquelite (fórmica) Poliuretano Copos, caixas, CDs, cassetes e outras Baldes, sacos de lixo, sacos de embalagens Cadeiras, poltronas, pára-choques de automóveis Fibras, cordas, roupas Tubos Portas e janelas, lentes de óculos Revestimento interno de panelas Pneus, câmaras de ar, objetos de borracha Alimentos, fabricação de etanol Papel, algodão, explosivos Revestimento de móveis, materiais elétricos Espumas rígidas e flexíveis, isolantes Tabela 3.4: Principais polímeros relacionados às suas aplicações mais comuns (CANEVAROLO JR., 2006). De modo geral, a utilização dos materiais poliméricos está associada às suas propriedades mecânicas que, por sua vez, dependem da constituição química: massa molar, grau de interações intermoleculares, cristalinidade, entre outros quesitos. A classificação dos polímeros é essencial para a especificação correta de uma resina polimérica como matéria-prima de um processo industrial de transformação. 44 3.2.4. Classificação Tal como ilustrado na figura 3.4, os polímeros podem ser classificados em dois grupos: naturais e sintéticos. Há, ainda, como subdividi-los em elastômeros, termoplásticos e termofixos, de acordo com suas características. Os polímeros sintéticos são produzidos industrialmente através de reações químicas que dão origem aos plásticos, enquanto os polímeros naturais podem ser encontrados em plantas e animais, como a madeira, o algodão, o látex, dentre outros. O ácido desoxirribonucleico (ADN ou DNA), que contém o código genético que define as características das pessoas e outros seres vivos, trata-se de outro polímero natural, assim como as proteínas e o amido presente nos alimentos. Figura 3.4: Subdivisões classificatórias dos polímeros (CANEVAROLO JR., 2006). Embora haja muitas maneiras de classificar os polímeros sintéticos, existem algumas mais comuns, as quais se referem a: Estrutura Química; Método de Preparação; Comportamento termomecânico e Desempenho mecânico. Segundo Canevarolo Jr. (2006), os polímeros podem ser classificados quanto à estrutura química e ao método de preparação a partir da seguinte definição: Estrutura Química – Considera a estrutura química do mero e apresenta duas subdivisões: Dotados de cadeira carbônica, sendo a principal constituída de carbono. Neste subgrupo estão inseridos os polímeros de dienos (BR, NBR, etc.), polímeros acrílicos, as poliolefinas (PEAD, PEBD, PP, etc.), polímeros estirênicos (PS, SBR, etc.), polímeros clorados (PVC, PVDC, etc.), polímeros fluorados (PVF, PTFE, etc.), entre outros; 45 Polímeros de cadeia heterogênea, nos quais a cadeia principal possui, além do carbono, outro átomo (heteroatomo), tendo como exemplo o oxigênio, nitrogênio, enxofre, silício, entre outros. Nesta categoria enquadram-se os poliéteres (POM), poliésteres (PET), policarbonato, poliuretanos, entre outros. Método de preparação – Esta classificação refere-se ao processo de formação (reação dos monômeros) dos polímeros e são divididos em duas classes: Polímeros de adição, cujo processo de formação ocorre sem perda de massa na forma de compostos de baixo peso molecular, ou seja, pela adição do monômero. Como exemplos desta classe tem-se o PE, o PP, PVC, entre outros; Polímeros de condensação, cujo processo de formação de polímeros ocorre pela reação entre dois grupos funcionais reativos com a eliminação de moléculas de baixo peso molecular (água, amônia, HCL, etc.). Como exemplo desta classe tem-se o PET, entre outros. As reações de polimerização por adição ocorrem quando o monômero apresenta pelo menos uma insaturação. Além disto, na dupla ligação, a ligação π é rompida, possibilitando que se formem grupos com duas valências livres, as quais se ligam entre si numa reação de adição, fazendo com que haja o crescimento da cadeia carbônica. Por outro lado, as reações de polimerização por condensação ocorrem quando o polímero é formado a partir de dois ou mais monômeros diferentes, que apresentam grupos reativos como hidroxilas, carbonilas, carboxilas, etc. Quando à classificação referente ao comportamento mecânico, conforme Manrich et al. (1997), os polímeros são classificados em três grupos: elastômeros, plásticos termofixos e plásticos termoplásticos. Chegando a assumir duas vezes o seu comprimento original, os elastômeros são polímeros que se caracterizam por uma elevada elasticidade a temperatura ambiente e alta absorção de impactos. As borrachas, em geral, são exemplos de aplicações desses polímeros. Trata-se da classe intermediária entre os termoplásticos e os termorrígidos e seu processo de reciclagem é complicado devido à incapacidade de fusão. Os polímeros termofixos são rígidos efrágeis, sendo muito estáveis a variações de temperatura. Possuem, ainda, um número elevado de ligações cruzadas entre suas cadeias, conferindo-lhes a característica de não serrem remodelados pelo calor. O poliéster insaturado é um exemplo de aplicação deste tipo de polímero, utilizado na fabricação de barcos, concreto e argamassas poliméricas, entre outras aplicações. O aquecimento do polímero acabado a altas temperaturas promove a decomposição do material antes de sua fusão, o que torna sua reciclagem também complicada. 46 Os termoplásticos são polímeros que, ao contrário dos termofixos, se caracterizam por serem processados repetidas vezes pelo calor. Dependendo do tipo do termoplástico, também podem dissolver-se em vários solventes, devido às ligações fracas que unem suas moléculas. Logo, a sua reciclagem é possível, uma característica bastante desejável nos dias de hoje. Por fim, os polímeros termoplásticos, ou simplesmente plásticos, como são popularmente conhecidos, apresentam uma subdivisão de classificação, a qual é feita com base no critério de desempenho tecnológico e durabilidade, e, conforme Manrich et al. (1997), podem ser de engenharia ou convencional. Os termoplásticos de engenharia são polímeros que se caracterizam por possuir melhores propriedades térmicas e mecânicas, ressaltando-se a tenacidade a altas e baixas temperaturas, aliada à possibilidade de utilização em aplicações de longa duração. São exemplos de aplicações: Poliamidas (náilon), usados em engrenagens e carcaça de ferramentas; Policarbonatos, utilizados na fabricação de CDs, janelas de aeronaves, ginásios esportivos, entre outros (MATOS, 2009). Os termoplásticos convencionais, por sua vez, são polímeros largamente utilizados para a fabricação de embalagens plásticas para produtos de setores como de limpeza, alimentação e higiene pessoal, etc. Os principais polímeros utilizados são o PEAD e o PEBD, PP, PVC, PS, entre outros. Para Matos (2009), o PET, largamente utilizado em embalagens de bebidas carbonatadas, água mineral com gás e de alimentos em geral, sempre foi utilizado em aplicações de engenharia, considerando suas propriedades de alto desempenho. Desta forma, pode ser considerado como um termoplástico de engenharia, embora seja um polímero de grande uso, o qual compete com polímeros convencionais em diversas aplicações. Existem outros tipos de classificação para os polímeros, como por exemplo, em relação à configuração molecular, grau de organização molecular, entre outros. Estes, entretanto, não serão abordados em detalhes nesta seção. 3.2.5. Polietileno Em função dos crescentes níveis de consumo, o mercado brasileiro de polietileno ganhou, nos últimos anos, um novo perfil em volume e qualidade deste polímero. A competitividade entre as indústrias de transformação acabou gerando maior oferta de materiais poliméricos, com consequente aumento de sua qualidade e desempenho. 47 As poliolefinas representam aproximadamente 60% da demanda mundial de termoplásticos, na qual os polietilenos se encaixam no patamar dos 40%. No Brasil, as poliolefinas representam cerca de 65%, dos quais 43% correspondem aos polietilenos. O mercado brasileiro de polietileno cresce em um ritmo duas vezes superior ao do Produto Interno Bruto (PIB). Entre 1999 e 2000, as vendas do polímero aumentaram em mais de 150 mil toneladas, ou seja, cerca de 10% da produção nacional (RETO, 2000). O mercado de polietileno linear avança acentuadamente sobre a resina de baixa densidade convencional, cujas vendas estão estagnadas e a sua produção apresenta tendência de queda. Enquanto o volume de produção do polietileno linear de baixa densidade cresceu 25% entre 1999 e 2000 e o de alta densidade aumentou 17%, o de baixa densidade convencional caiu 2% (RETO, 2000). Em geral, o polietileno é um polímero parcialmente cristalino, flexível, cujas propriedades são acentuadamente influenciadas pela quantidade relativa das fases amorfa e cristalina. As menores unidades cristalinas, chamadas lamelas, são planares e consistem de cadeias perpendiculares ao plano da cadeia principal e dobradas em "zig-zag", para cada 5 a 15 nm, embora haja defeitos que são pouco frequentes (DOAK, 1986). Segundo Neves (1999), os polietilenos são inertes face à maioria dos produtos químicos comuns, devido a sua natureza parafínica, seu alto peso molecular e sua estrutura parcialmente cristalina. Em temperaturas abaixo de 60°C são parcialmente solúveis em todos os solventes. Entretanto, dois fenômenos podem ser observados: A interação com solventes pode provocar inchamento, dissolução parcial, aparecimento de cor ou, com o tempo, completa degradação do material; A Interação com agentes tensoativos pode resultar na redução da resistência mecânica do material por efeito de tenso-fissuramento superficial. Em condições normais, os polímeros etilênicos não são tóxicos, podendo inclusive ser usados em contato com produtos alimentícios e farmacêuticos, a menos da utilização de certos aditivos considerados nocivos. No passado, o polietileno era classificado pela sua densidade e pelo tipo de processo usado em sua fabricação. Atualmente, os polietilenos são mais apropriadamente descritos como polietilenos ramificados e polietilenos lineares (NEVES; SILVA, 1999). Dependendo das condições reacionais e do sistema catalítico empregado na polimerização, cinco tipos diferentes de polietileno podem ser produzidos: Polietileno de baixa densidade (PEBD ou LDPE); Polietileno de alta densidade (PEAD ou HDPE); Polietileno linear de baixa densidade (PELBD ou LLDPE); Polietileno de ultra alto peso molecular (PEUAPM ou UHMWPE); 48 Polietileno de ultra baixa densidade (PEUBD ou ULDPE). Cada tipo de polietileno possui uma estrutura diferente, com influência direta sobre a sua densidade, propriedades mecânicas, dentre outras características. Ramificações longas, como as presentes no polietileno de alta densidade, por exemplo, aumentam a resistência ao impacto, diminuem a densidade e facilitam o processamento, enquanto que as ramificações curtas, mais presentes no polietileno linear de baixa densidade, aumentam a cristalinidade e a resistência à tração. Como este trabalho se baseia em um estudo de caso de um processo industrial cuja matéria-prima é o polietileno, especificamente o linear de baixa densidade, o objetivo principal desta seção é abordar as principais aplicações, propriedades físicas, assim como o tipo de processamento e outras características importantes para este tipo de polietileno. 3.2.5.1. Polietileno linear de baixa densidade Os polietilenos lineares de baixa densidade (PELBD) são copolímeros de etilenos com α-olefinas (propeno, 1-buteno, 1-hexeno ou 1-octeno) que apresentam algumas propriedades intermediárias em relação aos PEAD e aos PEBD. Considerado um polímero termoplástico com elevada capacidade de selagem a quente, o PELBD tem sido utilizado com sucesso nas últimas décadas, tanto acadêmica quanto comercialmente (MARTINS, 1999). Embora sua maior aplicação consista na produção de filmes para embalagens alimentícias, também são utilizados em filmes para uso industrial, fraldas descartáveis e absorventes, lonas em geral, brinquedos, artigos farmacêuticos e hospitalares, revestimento de fios e cabos, entre outras aplicações. Em alguns processos utilizam-se misturas de PEAD e PEBD, como na fabricação de sacaria industrial, embalagens para ração animal e filmes agrícolas (BAILEY, 1993). Como pode ser verificado na figura 3.5, ao contrário do PEBD convencional, que contém uma combinação aleatória de ramificações de cadeias curtas e longas, o PELBD possui, essencialmente, ramificações de cadeias curtas e comprimento constante, embora existam PELBD mais recentes que, além das ramificações de cadeias curtas, possuem também pequenas quantidades controladas de ramificaçõesde cadeias longas (INOUE, 1999; SCHOUTERDEN et al., 1987). A microestrutura da cadeia dos copolímeros de etileno depende do tipo e da distribuição do comonômero utilizado, do teor de ramificações e do peso molecular dos polímeros. Esses parâmetros influenciam as propriedades físicas do produto final, pois 49 Figura 3.5: Ramificações dos polímeros PELBD e PEBD (NEVES, 1999). atuam diretamente na cristalinidade e outros aspectos da morfologia dos polímeros (SCHOUTERDEN et al., 1987). Em geral, as propriedades das cadeias levam o PELBD a ter alta cristalinidade, alto ponto de fusão e melhores propriedades mecânicas que o PEBD (SILVA, 1999). Na tabela 3.5 é estabelecida uma comparação entre polietilenos quanto a alguns de seus principais parâmetros. Percebe-se, nitidamente, a superioridade da resistência à tração do PELBD comparado ao PEBD. Sua temperatura de fusão cristalina (Tm) e densidade são exemplos de propriedades intermediárias entre os demais polietilenos. Propriedade PEBD PELBD PEAD Tm (°C) 110 120 – 130 >130 Densidade (g/cm3) 0,92 0,92 – 0,94 0,94 – 0,97 Resistência à tração (Mpa) 24 37 43 Tabela 3.5: Comparação entre polietilenos e seus principais parâmetros (GUITIÁN, 1995). Outro fator determinante na caracterização das qualidades de um polímero consiste no tipo de catalisador utilizado em sua fabricação. Os catalisadores Ziegler Natta, por exemplo, originam PELBD com ampla distribuição de massa molar e distribuição heterogênea de comonômeros, os quais se concentram – principalmente - nas cadeias poliméricas. Já os catalisadores denominados metalocênicos originam PELBD com distribuição mais estreita de massa molar e distribuição mais homogênea de ramificação. Neste sentido, os PELBD podem apresentar diferentes características físicas e mecânicas entre si. Vale ressaltar que os efeitos da quantidade de ramificações e a da massa molar nas características do material não são facilmente diferenciados, já que a massa molar está inversamente relacionada à quantidade de ramificações curtas. Portanto, o fracionamento deste termoplástico é essencial para o estudo da cinética de cristalização, da morfologia da fase cristalina e do comportamento do fundido das frações (DOAK, 1996; MILES e BRISTON, 1965). 50 Por fim, a maior resistência ao cisalhamento e a maior susceptibilidade à fratura do fundido conferem ao PELBD a necessidade de uma tecnologia mais refinada para seu processamento. No entanto, segundo (SILVA, 1999; MILES e BRISTON, 1965), as ótimas propriedades mecânicas deste tipo de polietileno, aliadas às suas boas características ópticas, justificam seu uso em detrimento de outros tipos de resinas poliméricas. 3.2.6. Biodegradação e reciclagem É inegável que o crescimento sustentado do setor de polímeros se deve, dentre outros fatores, à enorme flexibilidade das aplicações e do relativo baixo custo desses materiais. Novas tecnologias de produção de resinas poliméricas ainda vêm sendo desenvolvidas e cada vez mais estes materiais substituirão outros materiais tradicionais, como o vidro, os metais e a madeira (RABELLO, 2000). No entanto, devido à lenta biodegradação dos materiais plásticos e aos crescentes níveis de produção aliados ao descarte indevido, estes vêm se acumulando no meio ambiente, sobrecarregando os aterros sanitários e causando a impressão de poluição descontrolada (ACHILIAS et al.,2008). Segundo Matos (2009), as taxas de reciclagem no Brasil apresentam crescimento a cada ano, sendo que o PET representa mais de 50% em relação às demais resinas. Ainda segundo o mesmo autor, certos países da União Europeia, que possuem taxas elevadas de reciclagem de plástico, possuem legislações específicas, disciplinando a recuperação dos resíduos plásticos, diferentemente do Brasil, onde a reciclagem acontece basicamente em função do interesse de mercado. O tempo de vida útil dos materiais poliméricos varia em função da sua utilização final. Em cerca de 20% dos casos, o tempo previsto para uso e descarte é inferior a um ano (MATOS, 2009). Embora haja uma forte pressão ambiental no intuito de reduzir a utilização desses materiais, parece nada natural que o crescimento de seu consumo e consequente produção venha a diminuir. Ao contrário, vê-se uma tendência nítida de aumento desses índices, por razões já discutidas em no item 2.1. É fundamental, pois, que também se desenvolvam técnicas eficientes de reciclagem, na tentativa de minimizar o impacto ambiental. A degradação de um material polimérico consiste na alteração irreversível de suas propriedades, através de reações químicas propiciadas por determinados agentes físicos ou químicos. Geralmente, a degradação de um material é indesejável, dado que se 51 pretende alcançar elevada durabilidade. Esta característica é um dos principais argumentos de venda por parte dos fabricantes em geral. Vale ressaltar que a degradação pode ocorrer durante o processamento do material, principalmente pela exposição a altas temperaturas e elevados esforços mecânicos, caracterizando – respectivamente - a degradação térmica ou mecânica. Este mesmo processo pode ocorrer durante a vida útil do produto, através, por exemplo, da fotodegradação, que se dá a partir de sua exposição intensa à luz solar. O processo de biodegradação, em contrapartida, consiste na alteração das propriedades físicas e químicas do polímero por ação enzimática de microorganismos em determinadas condições de temperatura, umidade, radiação, oxigênio e presença de nutrientes orgânicos e minerais. Em outras palavras, consiste na exposição direta do polímero ao meio ambiente. Os plásticos são materiais muito resistentes à biodegradação, sendo necessário, para muitos deles, mais de cem anos para completar este processo, dada a sua elevada massa molecular e a sua hidrofobicidade, as quais dificultam a ação enzimática dos microorganismos na superfície do polímero. Segundo a ASTM - American Society For Testing and Materials (1999),órgão estadunidense que desenvolve e publica normas técnicas para uma ampla gama de materiais, a reciclagem dos polímeros pode ser classificada e dividida em quatro tipos: Reciclagem Primária – É realizada por meio dos resíduos de origem industrial, referentes às obras ou aparas, desde que não apresentem qualquer tipo de contaminação. O processo compreende as etapas de seleção dos resíduos, lavagem, moagem, secagem e reprocessamento. Este último é realizado, em geral, por extrusoras ou injetoras. Na reciclagem de filmes plásticos pode ser acrescentada a etapa de aglutinação, com a finalidade de aumentar a densidade do material. O produto reciclado final possui, portanto, propriedades semelhantes a da resina virgem; Reciclagem Secundária – Pode ser definida como a recuperação dos produtos plásticos pós-consumo presentes nos RSU. O processo é semelhante ao da reciclagem primária, pois também compreende todas as etapas deste tipo de reciclagem. Entretanto, este processo está sujeito a um maior risco de contaminação da matéria-prima, seja pela presença de partículas de outros polímeros, ou mesmo outros materiais, como adesivos, colas ou tintas aderidas em sua superfície. Desta forma, o produto reciclado apresenta, invariavelmente, propriedades inferiores ao de resina virgem; Reciclagem Terciária – Consiste em submeter os resíduos poliméricos a uma despolimerização, a qual é realizada por meio da decomposição química 52 controlada do polímero, visando à obtenção de monômeros passíveis de serem utilizados para uma nova polimerização. Neste caso, o polímero é considerado de boa qualidade para novos processamentos; Reciclagem Quaternária – Dá-se através da incineração dos resíduos poliméricos, os quais são submetidos à combustão, obtendo-se como produto a energia desprendida, sob forma de calor, e emissões gasosas. Este processo apresentaseu melhor resultado com a combustão completa, ou seja, com excesso de oxigênio presente na queima, com obtenção do dióxido de carbono como principal produto. Configura-se, pois, a perda da matéria-prima propriamente dita, pois a massa de polímeros é utilizada na combustão como combustível e transformada, por conseguinte, em energia térmica e subprodutos (cinzas). Estes diversos tipos de reciclagem se dão a partir de três diferentes processos, segundo os quais, Piva e Wiebeck (2004) apresentam outra classificação: Reciclagem Mecânica – Tem por objetivo a obtenção de uma nova peça de plástico por meio das etapas de seleção, moagem, lavagem, secagem, aglutinação e reprocessamento, independentemente da origem do resíduo polimérico; Reciclagem Química – Objetiva a despolimerização controlada do plástico, com a destruição da estrutura polimérica, obtendo-se produtos como monômeros e substâncias de baixa massa molar, os quais se constituirão em matéria-prima para um novo processo de polimerização; Reciclagem energética – Visa à obtenção do conteúdo energético dos plásticos por meio da combustão, conforme o processo descrito na reciclagem quaternária. 3.3. Processos produtivos industriais de transformação de polímeros Os produtos plásticos podem ser moldados a partir de diversos processos de transformação de polímeros, através dos quais as diversas resinas poliméricas, em formato de grânulos, pó ou líquidos, serão aquecidas ou catalisadas. Este capítulo tem como principais objetivos detalhar minuciosamente o processo de rotomoldagem, por tratar-se do processo envolvido no estudo de caso proposto e caracterizar alguns dos processos mais utilizados pelas indústrias na fabricação de 53 produtos plásticos, como a injeção e a extrusão. Por fim, a título de complemento, são superficialmente abordados outros processos de transformação de resinas poliméricas. 3.3.1. Moldagem por injeção O processo de moldagem por injeção consiste basicamente no aquecimento da matéria-prima polimérica, passando-a do estado sólido, normalmente encontrado em pó, granulado de formas geométricas diversas ou flocos (flakes) como nos materiais reciclados, para um estado pastoso e plastificado. Tal alteração se dá por consequência do aquecimento do cilindro da unidade de injeção, calor este transmitido por resistências elétricas e por atrito da matéria-prima durante o processo de dosagem (BLASS, 1988). Ainda segundo este autor, a moldagem por injeção não é um processo contínuo, mas sim intermitente, seguindo um período de repetição denominado “ciclo de injeção”, o qual pode conter eventos que se intercalam ou que se sucedem sequencial e indefinidamente. Segundo Manrich (2005), um dos processos mais versáteis e modernos no campo da transformação e processamento dos polímeros é, sem dúvida, o da moldagem por injeção. Atualmente, trata-se de um dos processos mais comuns de fabricação de peças de plástico, sendo a maioria das indústrias a este adepta. Além da moldagem por injeção utilizar-se dos termoplásticos, termofixos e elastômeros vulcanizados (borrachas e silicones), também pode ser utilizada para a fabricação de peças cerâmicas, metálicas, de alumínio, dentre outras, a partir de compostos que utilizam um material polimérico como vetor. 3.3.1.1. Histórico O processo de moldagem por injeção foi patenteado em 1872 pelos irmãos Hyatt. Desde então, começou a ser utilizado cada vez mais e, ao longo do século XX sofreu uma grande evolução, marcada – principalmente - pela máquina hidráulica (anos 40), a máquina de parafuso alternativo (1951) e a máquina elétrica (1988). Inicialmente desenvolvido para a transformação de resinas termoendurecíveis, como a ureia formaldeído ou baquelite, o processo teve um enorme desenvolvimento frente ao advento dos materiais termoplásticos, consagrados após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, a moldagem por injeção é um dos principais processos de transformação de materiais de base polimérica, com enorme importância nos grandes 54 mercados consumidores, tais como a construção civil e automobilística, indústrias de embalagens e materiais elétricos e eletrônicos, dentre outros (HARADA, 2004). O grande sucesso desta tecnologia deve-se ao efeito combinado de uma série de vantagens comparativas, entre as quais se salientam: a elevada capacidade produtiva, a grande reprodutibilidade e precisão dimensional, a flexibilidade em termos de geometria e dimensões das moldagens, entre outros atributos. A gama de aplicações deste processo é vasta, desde as micromoldagens, gerando peças inferiores a 1 mg, até as macromoldagens, com peças de mais de 100 kg (MANRICH, 2005). 3.3.1.2. Etapas gerais do processo Segundo Mano (2004), o ciclo de moldagem do processo de injeção de termoplásticos obedece a um sequenciamento típico, envolvendo as seguintes etapas: 1. Dosagem do material termoplástico granulado ou em pó no cilindro de injeção; 2. Aquecimento com consequente fusão do material até a consistência adequada; 3. Injeção do material plástico fundido no molde fechado; 4. Resfriamento, com consequente solidificação e recuperação da rigidez do material; 5. Extração do produto com o molde aberto. Em resumo, o material plástico a transformar, originalmente no estado sólido e normalmente sob a forma de grãos, é carregado no funil da máquina de injetar e alimentado para o interior do cilindro de plastificação, onde é aquecido a fim de tornar-se fluido e homogeneizado. O aquecimento do material provém do calor transmitido através das paredes do cilindro por resistências elétricas e pelo calor gerado por efeito de dissipação viscosa, em resultado do esforço mecânico da rotação do parafuso. Dessa maneira, o fundido resultante é forçado a fluir para o interior de um molde, o qual irá preencher a respectiva cavidade e resfriar devido às trocas de calor com as superfícies moldantes. Finalmente, o processo conclui-se com a extração da moldagem, que ocorre após o período de resfriamento. Em outras palavras, o produto, depois de resfriado o suficiente para manter sua estrutura e forma, é extraído do molde. No caso da moldagem de termofixos ou de borrachas vulcanizadas o molde apresenta uma temperatura mais elevada que a do cilindro, no intuito de garantir a reticulação do material após a injeção. 55 3.3.1.3. Tipos de injeção As máquinas injetoras são providas de sistemas de abertura e fechamento do molde, os quais garantem o sequenciamento correto do processo de injeção do material plástico na cavidade do molde. A unidade de fechamento promove o fechamento do molde com força suficiente para suportar a pressão do material, no momento da injeção. Uma das maneiras convencionais de diferenciar os tipos de injeção consiste em classificar o processo de fechamento do molde, segundo as seguintes possibilidades de sistema (SENA, 2003): Mecânico: esse sistema funciona com alavancas ligadas em dois braços, os quais recebem o acionamento manual, transmitindo a força para as alavancas, que se deslocam de acordo com o movimento, abrindo ou fechando o molde. É um sistema antigo, ainda utilizado para pequenas produções, nas quais todos os movimentos dependem do operador; Hidráulico de pistão: nesse sistema, a abertura e fechamento do molde são feitos por um pistão hidráulico de grande área, ligado a um cilindro hidráulico. A força de fechamento é dada pela pressão do óleo, de maneira que, quanto maior a pressão, maior será a força aplicada no molde. Vazamentos internos ou externos no sistema de fechamento implicam perda de pressão, a qual diminui a força de fechamento, com possibilidade de deixar rebarbas no produto; Hidráulico-mecânico: a maioria dos fabricantes de máquinas injetoras utiliza esse sistema de fechamento. Um cilindro e um pistão hidráulico de área bem reduzida em relação ao sistema com pistãoficam ligados a um sistema de articulações, composto por tesouras ou joelhos, que irá movimentar a placa móvel, fechando ou abrindo o molde. A pressão do óleo, ou a pressão de fechamento, faz com que as articulações se travem, ocorrendo um “estiramento das colunas” e gerando a força de fechamento necessária. 3.3.1.4. Máquinas de injeção O processo utiliza dois equipamentos essenciais: a injetora e o molde. Contudo, a moldagem de qualidade pode exigir um conjunto adicional de equipamentos: dispositivos para transporte e alimentação de matéria-prima, robô manipulador para manuseio de moldagens ou sistemas de alimentação, esteira transportadora, moinho granular e dispositivo para controle da temperatura do molde. 56 Em termos gerais, a máquina injetora, cujo esquema é apresentado na figura 3.6, consiste no equipamento utilizado para fabricação descontínua de produtos moldados, pela injeção de material plastificado no molde, que contém uma ou mais cavidades, na qual ocorre a formação da peça. A máquina injetora consiste, essencialmente, da unidade de fechamento, unidade de injeção, sistemas de acionamento e controle. Figura 3.6: Esquema geral da máquina injetora (SENA, 2003). A unidade de injeção ou sistema de injeção, por sua vez, recebe o material no estado sólido, em forma de grânulos ou pó, e transporta-os nas quantidades preestabelecidas, para o interior do molde. A unidade de injeção pode ser dividida em dois tipos, o que praticamente define o tipo de máquina injetora: tipo pistão e tipo rosca. As máquinas tipo rosca são as mais utilizadas atualmente. Sua unidade de injeção trabalha com uma rosca que serve também de êmbolo de injeção. A rosca gira em um cilindro aquecido, dotado de um funil superior, por onde se introduz o material termoplástico. A unidade de injeção move-se, geralmente, sobre a base da máquina. Algumas vezes faz-se necessária a substituição do cilindro, do parafuso e do bico de injeção, de forma a se ajustarem a um novo material a ser processado ou a um diferente volume de injeção solicitado (SENA, 2003). Contudo, independentemente do tipo de sistema de injeção, o plástico é dosado, fundido, homogeneizado, transportado e injetado no molde, ficando a unidade de injeção responsável, basicamente, por dois grupos de funções, a saber, a plastificação do material plástico e a injeção do material no molde. Por fim, os sistemas de acionamento e controle, integrados a um painel eletrônico na máquina de injeção, são responsáveis por garantir os parâmetros do processo, a partir das características desejadas pelo fabricante. Constitui etapa fundamental para o sucesso da moldagem quanto ao atendimento da demanda e capacidade produtiva. A velocidade de abertura e fechamento, a velocidade de amortecimento (desaceleração), a pressão de abertura e travamento são alguns dos diversos parâmetros intrínsecos ao processo de moldagem por injeção. 57 3.3.1.5. Parâmetros do processo Segundo Cominatto (1997) e Engel e Huell (1996), os principais e mais influentes parâmetros do processo de moldagem por injeção são: Tempo de ciclo: é o tempo necessário para completar todas as etapas de um ciclo de moldagem de uma máquina injetora; Velocidade de Injeção: é a velocidade de avanço do pistão ou da rosca, no momento em que o material é injetado; Tempo de injeção: é o tempo estabelecido, no painel da máquina injetora, para realizar a operação de injeção e eventualmente o recalque da peça injetada. Possui controle independente e normalmente é contabilizado em segundos; Tempo de Recalque: é o tempo estabelecido no painel da máquina injetora para que a rosca continue fazendo pressão sobre os componentes injetados; Tempo de resfriamento: fator que controla o tempo que o produto fica no molde. Ao iniciar-se o tempo de resfriamento, geralmente se inicia a dosagem da próxima fase de injeção; Temperatura do molde: é determinada a partir do controle da temperatura da água industrial ou líquido refrigerante que circula pelos moldes; Temperatura da máquina: fator ajustado automaticamente pelo processo, dado que influencia diretamente na temperatura do material; Dosagem: é a quantidade de material utilizada para realizar o ciclo completo do processo. O material é escoado através da rotação do parafuso (rosca) que fica dentro do cilindro de aquecimento; Pressão de injeção: é a pressão com que o material polimérico é injetado no molde, controlada automaticamente pela máquina através de um sistema presente em seu cilindro; Pressão de recalque: é a pressão que atua dentro do tempo de recalque. Essa operação é realizada no processo de moldagem para garantir que todas as cavidades do molde sejam preenchidas, caso contrário, a peça apresentará defeitos ou não uniformidades de espessura. O equipamento utilizado, junto à estratégia de determinação dos parâmetros do processo poderão desde otimizá-lo até mesmo prejudicar consideravelmente a qualidade do produto final. 58 2.3.2. Extrusão Extrudar um material significa comprimi-lo acima de seu limite de elasticidade em uma câmara e forçá-lo a escoar e adquirir a forma do orifício de saída da câmara. Uma simples analogia do nosso dia-a-dia consiste na saída da pasta de dente de seu tubo deformável. Neste caso, a pasta deixa o tubo com o formato do bocal de saída, assim como na extrusão um metal é normalmente comprimido por um êmbolo ou pistão e pode ser empurrado para frente ou para trás, resultando em um produto oco ou maciço (BRESCIANI et al., 1997). Em linguagem específica, a extrusão é um processo de conformação plástica que consiste em passar um lingote ou tarugo de secção circular sob a pressão de um pistão acionado pneumática ou hidraulicamente, através da abertura de uma matriz, formando um produto alongado com o perfil da matriz. Vale ressaltar que cada tarugo ou lingote é extrudado individualmente, caracterizando a extrusão como um processo semi-contínuo, no qual se faz necessário finalizar a confecção de uma peça para dar início à outra. Por vezes, a extrusão pode ser combinada com operações de forjamento, sendo denominada extrusão fria ou a frio. A ductilidade do material é uma das características que determina quais rotas de processo poderão ser estabelecidas. Quando o processo é realizado a quente, ou seja, acima da temperatura de recristalização, a passagem do tarugo pela ferramenta, com furo da seção menor do que a do tarugo, provoca a deformação plástica do metal. Obtêm-se, então, perfis metálicos com propriedades mecânicas controladas e de comprimento limitado pelo volume do lingote inicial. A extrusão a quente, porém, oferece emprego limitado, normalmente a aços, em razão das condições de trabalho adversas caracterizadas por elevadas pressões e temperaturas. Como a estrutura metálica do produto da extrusão se encontra na condição recristalizada, é possível aplicar ao metal extrudado intensos trabalhos de deformação a frio adicionais, como, por exemplo, a trefilação. Este processo é análogo à extrusão, também destinado à produção de barras de perfil constante. Na trefilação, porém, o escoamento do material se dá através da aplicação de uma força de tração, enquanto que, na extrusão, trata-se de uma força de compressão. Segundo Abal (1990), as vantagens do processo de extrusão incluem a redução de custos através da eliminação de operações posteriores de usinagem ou junção, bem como a possibilidade de obtenção de seções mais resistentes através da adequada eliminação de juntas frágeis e de uma melhor distribuição de metal. A extrusão permite, também, obter 59 um produto mais homogêneo, estrutural e dimensionalmente, além de ser menos passível de ataques por oxidação superficial. Algumas eventuais desvantagens do processo de extrusão se comparado a outros processos de transformação de polímeros são: custo maiorde aquisição dos equipamentos, limitação de comprimento do perfil de extrusão, menor velocidade de trabalho e possíveis ausências de uniformidade de deformação ao final do processo. Embora presente em uma vasta gama de aplicações, o uso mais comum da extrusão se faz nos seguintes produtos (CHIAVERINI, 2000): Quadros de janelas e portas; Trilhos para portas deslizantes; Tubos de várias seções transversais e formas arquitetônicas; Maçanetas e trancas; Engrenagens em geral; Tijolos vazados de cerâmica; Maquinário pesado; Componentes para automóveis e motocicletas (combinada com o forjamento). Por fim, nas operações combinadas com forjamento podem-se gerar componentes para automóveis, bicicletas, motocicletas, maquinário pesado, equipamento de transporte, estruturas aeroespaciais, dentre outras centenas de itens fabricados a partir de perfis extrudados. 3.3.2.1. Histórico A extrusão de metais surgiu na Inglaterra, em 1797, na fabricação de tubos de chumbo. Porém, somente em meados de 1900 a extrusão tomou níveis industriais. O primeiro grande incremento de utilização de perfis extrudados ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando estas peças, fabricados em alumínio, foram produzidos em grande quantidade para utilização em componentes aeronáuticos. A partir da introdução de ligas intermediárias, tratáveis termicamente na própria prensa de extrusão com notável eficiência, houve uma rápida expansão desta indústria no pós-guerra (YOSHIDA, 2001). Atualmente, este processo é muito empregado para obter barras, tubos ou seções de formas complexas, com tolerâncias dimensionais e acabamento de qualidade na superfície das peças. O método tem sido útil para deformar ligas refratárias e aços inoxidáveis, pois estes apresentam uma tensão média de compressão. Praticamente qualquer forma de seção transversal vazada ou cheia pode ser produzida por extrusão. 60 Como a geometria da matriz permanece inalterada, os produtos extrudados têm seção transversal constante. Existe, ainda, a possibilidade de seccionar o perfil extrudado, de maneira a obter produtos como maçanetas, trancas e engrenagens, entre outros objetos. 3.3.2.2. Etapas gerais do processo Como mencionado anteriormente, os metais mais duros, como o aço, passam normalmente pelo processo de extrusão a quente, o qual envolve as seguintes etapas (ABAL, 1990): 1. Fabricação de lingote ou tarugo de seção circular; 2. Aquecimento uniforme do lingote ou tarugo; 3. Transporte do lingote ou tarugo aquecido para a câmara de extrusão. Essa etapa deve ser executada o mais rapidamente possível para diminuir a oxidação na superfície do metal aquecido; 4. Execução da extrusão: com o tarugo aquecido e apoiado diante da câmara de extrusão, o pistão é acionado e o material é empurrado para o interior da câmara, conforme a sequência de operações ilustradas na figura 3.7. Em geral, esta etapa compreende, por sua vez, as seguintes ações: Alimentação da prensa (a), Início da extrusão com avanço do pistão (b), Fim da extrusão (c) e Retirada da ferramenta e do extrudado com o resíduo do tarugo (d). Figura 3.7: Etapas da extrusão de um lingote ou tarugo (CHIAVERINI, 2000). Após o fim da extrusão, na qual o pistão recua e a câmara se afasta para a retirada do disco e da parte restante do tarugo, ainda há uma etapa adicional de remoção dos resíduos de óxido decorrentes do processo, com o auxílio de um disco raspador acionado pelo pistão. Em outras palavras, deve-se remover o fundo ou resíduo do tarugo que não foi extrudado. Caso esse resto de tarugo não seja removido, pode ocorrer um fluxo de metal 61 irregular na próxima extrusão, o que reduzirá a qualidade do produto ou até provocará um defeito, o qual usualmente se manifesta na forma de um furo interno na peça extrudada. Mesmo para prensas relativamente grandes, com cerca de 2.000 toneladas, o tempo para o ciclo completo de extrusão é normalmente reduzido, contabilizando cerca de 60 segundos. 3.3.2.3. Tipos de extrusão O processo de extrusão pode ser classificado de diversas maneiras. A mais usual delas é quanto ao tipo de movimento do material plástico, destacando-se a extrusão direta e a indireta. Esta última também pode ser denominada inversa. No processo de extrusão direta, o tarugo é colocado em uma câmara e impelido através da matriz por ação de um êmbolo. Um disco de pressão é colocado no fim do pistão ou êmbolo em contato com o tarugo. Esse tipo de extrusão pode ser utilizado em mais aplicações, pois seu mecanismo oferece maior simplicidade, já que não possui um pistão oco, cuja resistência seria limitada à flambagem do material que o compõe (HELMAN et al., 1993). Ainda na extrusão direta, a matriz fecha um lado da câmara e o pistão ou êmbolo fecha o outro. Aplica-se, então, uma pressão no pistão, que por sua vez exerce força sobre o lingote, fazendo-o mover-se para frente, com consequente extrusão do metal pelo orifício da matriz. A câmara e a matriz são fixas e o tarugo move-se em relação à câmara. Na figura 3.8 é possível observar uma representação esquemática da extrusão direta: Figura 3.8: Representação esquemática da extrusão direta (HELMAN et al., 1993). Essa movimentação do tarugo provoca atrito entre o mesmo e a superfície da câmara, o que acarreta um acréscimo da força necessária para extrudar o metal através da matriz. Esse atrito também retarda o fluxo do metal da região periférica do lingote, com consequente aumento do fluxo de material. Por outro lado, na extrusão indireta ocorre o inverso da extrusão direta, já que é a matriz que se desloca em relação ao tarugo. O pistão ou êmbolo é furado e ligado à matriz, 62 enquanto a outra extremidade da câmara é fechada. Frequentemente, o pistão e a matriz são mantidos estacionários, e a câmara movimenta-se com o tarugo. Na extrusão indireta, por não se ter movimento entre a câmara e o tarugo, as forças de atrito são muito menores e as pressões requeridas para extrusão são bem inferiores em comparação à extrusão direta. Contudo, existe uma limitação pelo fato da extrusão indireta utilizar um pistão oco, o qual restringe o valor das cargas a serem aplicadas. A figura 3.9 é uma ilustração do processo de extrusão indireta. Figura 3.9: Representação esquemática da extrusão indireta. Neste tipo de extrusão, a pressão de extrusão requerida é bem menor, pois não há atrito entre as superfícies do lingote e do recipiente. Não havendo atrito, ocorre um fluxo adicional de metal na secção transversal total do lingote durante a extrusão. Esse tipo de fluxo diminui sensivelmente a formação de vazios centrais na parte posterior do produto extrudado e também reduz a quantidade de descarte da extremidade. Uma desvantagem da extrusão inversa, porém, consiste na má qualidade superficial do produto quando comparada à outra variante do processo. Embora o processo indireto exija menor esforço de deformação e permita a obtenção de um produto mais homogêneo que na extrusão direta, esta apresenta uma utilização maior devido à simplicidade do equipamento. Não se exige, dessa forma, o uso de um pistão oco que possua uma resistência limitada à flambagem, principalmente para extrusão de grandes componentes. Por fim, como na extrusão inversa o pistão se mantém fixo, com a ferramenta colocada na sua extremidade, e a câmara com o tarugo avança em sua direção, o atrito torna-se inexistente entre o tarugo e a câmara. Entre o bloco e o metal a ser extrudado, geralmente se interpõe um pedaço de material suplementar, como, por exemplo, o grafite. Este material força, por sua vez, a passagem de todo o tarugo através da matriz. 63 3.3.2.4. Máquinas de extrusão Normalmente, a extrusão a quente é efetuada em prensas hidráulicas horizontais, especialmente construídas para a esta finalidade. As prensas de extrusão comuns costumam ter capacidadenominal entre 250 a 5.500 toneladas, mas – atualmente - alguns projetos chegam a especificar até 25.000 toneladas de capacidade nominal. Ademais, as prensas hidráulicas horizontais são utilizadas para produzir a maior parte dos extrudados de alumínio presentes no mercado. Algumas delas chegam a ser utilizadas para empurrar perfis de grande dimensão ou complexidade geométrica, bem como perfis produzidos com ligas de alta resistência mecânica. A prensa de extrusão é essencialmente um conjunto cilindro-pistão hidráulico, no qual o cilindro necessita de constante alimentação de líquido sob pressão. A alimentação deste componente pode se dar com auxílio de uma bomba hidráulica, que mantém a velocidade do pistão necessária à extrusão, ou com o emprego de um acumulador de pressão. No primeiro caso, a alimentação, e consequentemente o acionamento, são do tipo oleodinâmico e, no segundo caso, do tipo hidropneumático (YOSHIDA, 2001). A alimentação oleodinâmica consiste no fluido, no caso o óleo, ser mantido no cilindro sob pressão constante, com auxílio de uma bomba de vazão regulável, em função da velocidade de extrusão. As principais características a serem consideradas neste caso são: a pressão máxima atingida e a velocidade de resposta ao comando de alimentação. Já na alimentação hidropneumática, adota-se um acumulador de pressão variável, que consiste em uma câmara sob pressão contendo um líquido, que pode ser água com pequeno teor de óleo em emulsão. Este líquido reduz a ação corrosiva da água sobre a câmara e é pressionado por um gás, normalmente o ar. A resposta que se obtém nesse sistema de acionamento é de elevada velocidade. A máquina que adota um sistema de acionamento e alimentação oleodinâmica com vazão regulável é a mais adequada à extrusão de metais não ferrosos, que requerem uma velocidade de extrusão com pequena variação para não surgir defeitos nas peças extrudadas. A potência da bomba nesse sistema é substancialmente maior. Por outro lado, nas máquinas com acionamento hidropneumático, devido ao sistema acumulador de pressão, a bomba poderá ser de potência menor, já que a pressão máxima não é necessária durante todo o ciclo de extrusão. Essas máquinas, no entanto, não podem ser aplicadas aos metais mais sensíveis às variações de velocidade de extrusão, como o alumínio e suas ligas (HELMAN, 1993). Vale dizer que, além do conjunto pistão-cilindro hidráulico, e do sistema acoplado de alimentação do fluido sob pressão, outros componentes básicos compõem as máquinas 64 de extrusão: pistão de extrusão, câmara e camisa, conjunto suporte da ferramenta (fieira ou matriz), dentre outros elementos. O componente que concentra todo o esforço da máquina de extrusão é o êmbolo de extrusão, que é solidário ao êmbolo do cilindro hidráulico. Por este motivo, deve ser fabricado em aço-liga resiste ao calor. Esse êmbolo tem suas dimensões projetadas, em particular o diâmetro, em função das características e especificações dos tarugos e das peças extrudadas. A câmara, por sua vez, recebe o tarugo aquecido que deve ser extrudado pela ação do êmbolo de extrusão e pode ser constituída de duas partes coaxiais, sendo que a parte interna, que entra em contato com o tarugo, denomina-se camisa interna da câmara. Ademais, a camisa sofre a ação dos esforços de compressão e de atrito em temperaturas elevadas, sendo submetida a uma ação de desgaste constante. Os materiais que constituem a câmara e a camisa também são aços resistentes ao calor, pois tais componentes são mantidos constantemente a temperaturas elevadas, atingidas por meio de um sistema de aquecimento elétrico, necessário à operação de extrusão a quente do tarugo. 3.3.2.5. Parâmetros do processo Vários são os parâmetros intrínsecos ao processo de extrusão, como por exemplo, a pressão de extrusão, a área da seção transversal e temperatura do tarugo, a velocidade de deslocamento do pistão, o tipo de lubrificante utilizado, dentre outros aspectos. De maneira geral, o conjunto de parâmetros geométricos e físicos influenciará diretamente no andamento e resultado final do processo, determinando a qualidade e as propriedades mecânicas das peças obtidas. Elucidativamente, na tabela 3.6 são relacionados alguns metais às suas respectivas temperaturas de extrusão. 2.3.3. Rotomoldagem A rotomoldagem, também conhecida como fundição rotacional ou moldagem rotacional, é um processo de transformação de materiais poliméricos voltado para a produção de peças ocas ou abertas, geralmente de grandes dimensões. A tecnologia de moldagem rotacional, como a maioria dos métodos de manufatura, evoluiu a partir de outras tecnologias. Como o nome já diz, o processo consiste na produção de peças por 65 Metal e/ou liga Temperatura (°C) Chumbo 200 – 250 Alumínio Puro 535 Alumínio – Cobre 480 Alumínio – Manganês 575 – 625 Alumínio – Silício 450 – 550 Alumínio – Magnésio 535 Alumínio – Magnésio – Manganês 535 Alumínio – Magnésio – Silício 550 – 590 Alumínio – Zinco – Magnésio – Cobre 420 – 470 Cobre e suas ligas 650 – 950 Magnésio e suas ligas 345 – 425 Aço e suas ligas 875 – 1300 Ligas refratárias 975 – 2200 Tabela 3.6: Faixa de temperatura de extrusão de alguns materiais (YOSHIDA, 2001). meio de rotação de moldes abastecidos por certo polímero. Existe uma vasta gama de produtos fabricados por esse processo, desde pequenos objetos como uma bola de tênis de mesa, até um grande reservatório com capacidade superior a 30 mil litros. Outros produtos abrangem a área da saúde, indústria química e agrícola, construção civil, instrumentos domésticos, móveis e artigos de decoração, brinquedos, lixeiras, tanques, dentre muitos outros (MARQUES e OLIVEIRA, 1998). Mais de 80% dos materiais poliméricos utilizados atualmente como matéria-prima para a rotomoldagem são os polietilenos, embora existam outros materiais rotomoldáveis, como os plastisóis, nylons, polipropilenos, poliacetais, policarbonatos, ABS entre outros (TRM, 2007). 3.3.3.1. Histórico Relatos indicam que a rotomoldagem fora utilizada inicialmente pelos egípcios e gregos para a fabricação de peças cerâmicas através do processo atualmente conhecido como “slipcasting”. Embora haja indícios de que, em meados de 1600, os suíços tenham utilizado pela primeira vez a moldagem rotacional para confeccionar ovos de chocolate ocos, o primeiro registro de patente de máquina para a moldagem rotacional aconteceu em 1855, ou seja, antes da existência do plástico (TRM, 2007). Essa patente foi concedida ao britânico R. 66 Peters, registrando o uso de uma máquina térmica biaxial utilizada para criar peças bélicas, confeccionadas em material metálico e embarcações ocas. Nos Estados Unidos, em 1905, um mecanismo semelhante foi utilizado por F.A. Voelke para a confecção de objetos ocos de cera. Cinco anos depois, G.S. Baker's e G.W. Perks também teriam utilizado este processo para a criação de ovos ocos de chocolate. Tendo sido utilizada para variados fins, as máquinas de rotomoldagem foram exploradas em vários países da Europa, até que, no ano de 1920, em Paris, R.J. Powell submeteu gesso à rotomoldagem e foi a partir deste e de semelhantes métodos que se desenvolveu a rotomoldagem de polímeros, como se conhece atualmente (WARD, 1997). Os polímeros foram introduzidos oficialmente à rotomoldagem em 1950, tendo sua primeira aplicação em cabeças de bonecas de brinquedo em uma máquina movida por um motor elétrico externo e aquecimento a gás. O molde foi construído de uma liga de cobre e níquel e o polímero utilizado foi o PVC (TRM, 2007). Ainda na década de 50, ocorreram dois grandes desenvolvimentos: a introdução de polímeros pulverizados especialmente produzidos para moldagem rotacional e o forno com aquecimento através de circulação de ar quente. A partir da década de 70, surgiram as outras evoluções consideráveis dentroda rotomoldagem, com o início, nos EUA e Europa, de novos polímeros aplicáveis ao processo. O polietileno linear micronizado passou a ser utilizado na fabricação de novos produtos com tamanhos consideravelmente grandes. Na década de 1980, o processo de rotomoldagem ficou ainda mais conhecido devido ao aumento das indústrias fornecedoras de matéria-prima ao redor do mundo. Ademais, em resposta à demanda crescente de consumo de produtos rotomoldados, novos materiais se tornaram disponíveis para o processo, incluindo policarbonatos, poliésteres, PP, PEBD, nylon e ABS e PEAD. Por fim, a partir dos anos 80, houve um crescimento significativo da utilização do processo de rotomoldagem e já no ano de 2006 alcançava a marca de 40.000 toneladas por ano (HARPER, 2006). Porém, se comparada a processos como injeção, extrusão e sopro, a rotomoldagem ainda é pouco utilizada, representando apenas 2% do mercado de plásticos, como ilustrado no gráfico 3.1. Dentro desses 2%, o segmento que detém a maior representatividade deste mercado é o da construção civil, com 40% de participação, como é demonstrado no gráfico 3.2. Essa elevada participação se deve, basicamente, a um produto em especial: as caixas d’ água. Devido à grande tendência mundial de eliminar o uso desse produto fabricado com fibrocimento que contém fibras de amianto, cuja inalação acredita-se poder provocar 67 Gráfico 3.1: Segmentação da produção de artigos em plástico por processo produtivo (UEKI e PISANU, 2007). doenças graves, há uma forte migração para o produto confeccionado a partir da rotomoldagem. Gráfico 3.2: Representatividade da rotomoldagem por segmentos de produto (UEKI e PISANU, 2007). Cerca de 50 países já aderiram a um processo de banimento das caixas d’água com fibras de amianto e, no Brasil, a rotomoldagem desse produto também se tornou um negócio lucrativo, já que passaram a substituir com inúmeras vantagens as tecnologias de então (NICOLETTE, 2011). O processo de rotomoldagem tem evoluído significativamente nos últimos anos e já permite a produção de peças técnicas complexas com baixo custo. Apesar de configurar- 68 se como um processo lento, apresenta diversas vantagens, como a possibilidade de moldar peças de grandes dimensões. 3.3.3.2. O processo A rotomoldagem configura-se a partir de um molde oco, abastecido com resina em pó ou líquida, colocado em uma câmara de aquecimento. Durante o processo, o molde gira em dois movimentos, com rotações baixas e distintas. É tido como um processo econômico, no qual a ausência de aplicação de esforço proporciona peças sem tensões residuais. A matéria-prima, quando em pó, deve ser micronizada, ou seja, deve passar por moagem ultrafina, no intuito de facilitar o escoamento no molde, reduzindo assim o aprisionamento de ar (bolhas) e acelerando a plastificação do material. Como vantagens da micronização têm-se, ainda, a redução do ciclo e a prevenção da degradação das peças. Esta etapa é usualmente realizada em moinhos especiais de disco e o pó separado por peneiras adequadas, até atingir a granulometria ideal. Em seguida, a matéria-prima é dosada e já pode abastecer os moldes, para dar início à etapa a de aquecimento, durante a qual a resina deverá preencher suas cavidades, dando formato à peça desejada. Finda esta etapa, decorre o resfriamento do molde, para que a peça possa ser enfim desmoldada. Na figura 3.10 ilustra-se o processo de rotomoldagem. Figura 3.10: Principais etapas do processo de rotomoldagem (UEKI e PISANU, 2007). Resumidamente, a produção da rotomoldagem se divide em quatro etapas distintas: dosagem do pó, aquecimento do molde, resfriamento do molde e a desmoldagem. 69 3.3.3.2.1. Dosagem do pó Uma quantidade conhecida de material micronizado é adicionada ao molde de rotomoldagem. Geralmente a pesagem do pó e a alimentação ocorrem manualmente, sendo a primeira realizada em balanças digitais. Após a alimentação, o molde é finalmente fechado com auxílio de grampos ou parafusos, seguindo-se para próxima etapa. Na figura 3.11 tem-se a representação de um molde sendo abastecido. Figura 3.11: Abastecimento do molde com resina polimérica (UEKI e PISANU, 2007). 3.3.3.2.2. Aquecimento do molde Após o carregamento e o fechamento do molde, este é submetido ao aquecimento dentro de um forno, iniciando o movimento de rotação biaxial. A temperatura de aquecimento pode variar de 200 a 400°C, dependendo do polímero a ser moldado (CRAWFORD et al., 2002). O efeito sinérgico entre calor recebido do forno e a movimentação biaxial resulta em um aquecimento uniforme do material no interior do molde. No início do processo, o material, em forma de pó, não está aderido à superfície do molde, mas quando é atingida a temperatura de amolecimento do polímero, este começa a aderir à superfície do molde. Com a continuidade do aquecimento, objetiva-se, então, a fusão completa do material. Vale ressaltar que, em um determinado momento, a temperatura entra em colapso e ocorre, invariavelmente, o aprisionamento do ar misturado às partículas de pó, resultando na formação de bolhas, com consequente fusão incompleta da resina polimérica. 70 Quando estas bolhas permanecem na peça, ocasionam perdas ou alterações nas propriedades mecânicas, principalmente quanto à resistência ao impacto. Para eliminá-las, faz-se necessária a continuidade do aquecimento após a fusão, o qual implicará a diminuição da viscosidade do polímero, tornando mais fácil o processo de dissolução do ar pela matriz. Dessa forma, elimina-se a maioria das bolhas e a fusão é completada. Se o aquecimento adicional do material for excessivo, a peça resultante, embora não apresente bolhas, poderá sofrer da degradação termo-oxidativa, ou seja, uma degradação sob efeito de calor que ocorre em materiais poliméricos no seu processamento. Como resultado disto, a superfície interna pode apresentar acentuada perda de resistência mecânica. Elucidativamente, o comportamento da resina polimérica durante o processo de aquecimento pode ser verificado segundo a figura 3.12: Figura 3.12: Comportamento da resina polimérica durante o processo de aquecimento (UEKI e PISANU, 2007). A condição ideal de moldagem é atingida quando a peça apresentar algumas bolhas próximas à superfície interna, sem apresentar degradação termo-oxidativa. Esta 71 condição de moldagem é determinada, na prática, por tentativa e erro. O movimento do pó em um sistema em revolvimento pode ser categorizado em três tipos (BEALL, 1998): Fluxo de circulação estável (tombamento); Fluxo de circulação instável (avalanche); Fluxo de leito estático (escorregamento). A figura 3.13 consiste na ilustração dos movimentos da matéria-prima já fundida no interior do molde, enquanto na tabela 3.7 é apresentada a classificação de cada tipo de fluxo acompanhado de suas características. Figura 3.13: Movimentação a fundida no interior do molde (UEKI e PISANU, 2007). Características Circulação estável Circulação instável Escorregamento Atrito do molde Alto Mais alto Baixíssimo Transmissão de calor Melhor Razoável Ruim Mistura Melhor Razoável Nenhuma Avaliação Ideal Razoável Inadequado Tabela 3.7: Classificação dos tipos de fluxo acompanhados de suas características (UEKI e PISANU, 2007). Na maioria das máquinas com forno fechado, ocorre a circulação de ar quente proporcionado por um ventilador, sendo este ar geralmente aquecido por um queimador a gás. O processo não expõe o molde à chama direta como é o caso de máquinas de forno aberto. Na figura 3.14 é possível verificar um esquema de aquecimento típico do forno. Figura 3.14: Esquema de circulação de ar quente dentro do forno (UEKI e PISANU, 2007). 72 3.3.3.2.3. Resfriamento e rotação Ainda em movimento, o molde é retirado da câmara e inicia-se o processo de resfriamento, que podePC Poder Calorífico PCI Poder Calorífico Inferior PCS Poder Calorífico Superior PE Polietileno PEAD Polietileno de Alta Densidade PEBD Polietileno de Baixa Densidade PELBD Polietileno Linear de Baixa Densidade PET Poli (tereftalado de etileno) PEUAPM Polietileno de Ultra Alto Peso Molecular PEUBD Polietileno de Ultra Baixa Densidade PI Potência Instalada PIB Produto Interno Bruto PMMA Polimetil Metacrilato PNRS Política Nacional dos Resíduos Sólidos POM Polióxidometileno (Poliacetal) PP Polipropileno ppm Partes por Milhão PS Poliestireno PT Potência Térmica PTFE ou TEFLON Politetrafluoretileno PVC Policloreto de Vinila PVDC Policloreto de Vinilideno PVF Polifluoreto de Vinila QP Quantidade Processada RIMA Relatório de Impacto Ambiental RS Resíduos Sólidos RSS Resíduos de Serviço da Saúde RSU Resíduos Sólidos Urbanos S Enxofre SBR Borracha de Butadieno Estireno SISNAMA Sistema Nacional do Meio Ambiente SNVS Sistema Nacional de Vigilância Sanitária TG Turbinas ou Microturbinas a Gás TU Tempo de Utilização VM Vazão Mássica W Umidade SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 12 1.1. A problemática dos resíduos sólidos ....................................................................... 13 1.2. Desenvolvimento sustentável .................................................................................. 15 2. OBJETIVOS .................................................................................................................. 18 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .......................................................................................... 19 3.1. Resíduos sólidos ..................................................................................................... 19 3.1.1. Definições ......................................................................................................... 20 3.1.2. Conceitos iniciais .............................................................................................. 21 3.1.3. Caracterização ................................................................................................. 22 3.1.3.1. Composição elementar .............................................................................. 23 3.1.3.2. Poder calorífico .......................................................................................... 24 3.1.4. Classificação .................................................................................................... 25 3.1.5. Acondicionamento e armazenamento ............................................................... 26 3.1.6. Coleta e transporte ........................................................................................... 27 3.1.7. Tratamento e destinação final ........................................................................... 29 3.1.7.1. Triagem ...................................................................................................... 30 3.1.7.2. Reciclagem ................................................................................................ 31 3.1.7.3. Compostagem ............................................................................................ 33 3.1.7.4. Digestão anaeróbia .................................................................................... 34 3.1.7.5. Incineração ................................................................................................ 35 3.1.8. Disposição final ................................................................................................ 36 3.2. Polímeros ................................................................................................................ 39 3.2.1. Nomenclatura ................................................................................................... 39 3.2.2. Histórico ........................................................................................................... 41 3.2.3. Origem e utilização ........................................................................................... 42 3.2.4. Classificação .................................................................................................... 44 3.2.5. Polietileno ......................................................................................................... 46 3.2.5.1. Polietileno linear de baixa densidade ......................................................... 48 3.2.6. Biodegradação e reciclagem ............................................................................ 50 3.3. Processos produtivos industriais de transformação de polímeros ........................... 52 3.3.1. Moldagem por injeção ...................................................................................... 53 3.3.1.1. Histórico ..................................................................................................... 53 3.3.1.2. Etapas gerais do processo ......................................................................... 54 3.3.1.3. Tipos de injeção ......................................................................................... 55 3.3.1.4. Máquinas de injeção .................................................................................. 55 3.3.1.5. Parâmetros do processo ............................................................................ 57 2.3.2. Extrusão ........................................................................................................... 58 3.3.2.1. Histórico ..................................................................................................... 59 3.3.2.2. Etapas gerais do processo ......................................................................... 60 3.3.2.3. Tipos de extrusão ....................................................................................... 61 3.3.2.4. Máquinas de extrusão ................................................................................ 63 3.3.2.5. Parâmetros do processo ............................................................................ 64 2.3.3. Rotomoldagem ................................................................................................. 64 3.3.3.1. Histórico ..................................................................................................... 65 3.3.3.2. O processo ................................................................................................. 68 3.3.3.2.1. Dosagem do pó ................................................................................... 69 3.3.3.2.2. Aquecimento do molde ........................................................................ 69 3.3.3.2.3. Resfriamento e rotação ........................................................................ 72 3.3.3.2.4. Desmoldagem ..................................................................................... 73 3.3.3.3. Matéria-prima ............................................................................................. 73 2.3.3.3.1. Moagem .............................................................................................. 73 3.3.3.3.2. Pigmentação ........................................................................................ 75 3.3.3.4. Tipos de máquinas ..................................................................................... 76 3.3.3.4.1 Rock and Roll ....................................................................................... 76 3.3.3.4.2. Clamshell ............................................................................................. 76 3.3.3.4.3. Shuttle ................................................................................................. 77 3.3.3.4.4. Turret ................................................................................................... 78 3.3.3.5. Vantagensocorrer, basicamente, de três formas (CRAWFORD e THRONE, 2002): Em temperatura ambiente; Aplicação de fluxos de ar forçado e/ou pulverização de água nos moldes; Sistemas mais complexos, como camisas de refrigeração envoltas no molde. O processo de resfriamento também possui grande influência sobre as propriedades mecânicas da peça moldada. Se esta for lenta para materiais semicristalinos como o polietileno, haverá tempo suficiente para o crescimento de cristais, resultando em peças de alta rigidez, porém com baixa resistência ao impacto. Por outro lado, o resfriamento rápido pode provocar diferenças bruscas de temperatura na parede da peça, gerando variações na estrutura do material com diferentes níveis de contração do polímero, com possibilidade de haver o empenamento da peça. Segundo Crawford et al. (1998), o tempo de resfriamento depende essencialmente dos seguintes fatores: Temperatura ambiente; Espessura da peça; Material, espessura e características superficiais do molde; Volume e velocidade do ar; Temperatura e vazão da água; Taxa de retirada do ar e da água da estação de resfriamento. O ciclo térmico do processo de rotomoldagem, da entrada do molde no forno até a desmoldagem está representado conforme a figura 3.15. A linha laranja representa a temperatura no forno e a linha amarela indica a temperatura no interior do molde. Figura 3.15: Ciclo térmico do processo de rotomoldagem (UEKI e PISANU, 2007). 73 3.3.3.2.4. Desmoldagem Após o resfriamento, tanto do molde quanto da peça, o movimento de rotação biaxial é cessado e o molde conduzido para uma estação de desmoldagem. Para polietilenos, este processo pode se iniciar, geralmente, a uma temperatura de 60ºC. A abertura do molde e a extração da peça são feitas manualmente. Depois da extração da peça, o molde é novamente carregado com material e o ciclo recomeça (WARD, 1997). Nesta etapa as peças geralmente se encontram com temperatura próxima a 50ºC e, dependendo do seu tipo e formato, devem ser mantidas em uma mesa ou plataforma específica para resfriá-las e permitir a estabilização total de sua estrutura e dimensões. 3.3.3.3. Matéria-prima A matéria-prima polimérica para a rotomoldagem é geralmente utilizada na forma de pó, de modo que as principais características que devem ser controladas são: fluidez a seco, tamanho médio, distribuição de tamanho das partículas e densidade aparente. Dentre os polímeros existentes, o polietileno linear, na forma de pó, é o mais utilizado na rotomoldagem devido à sua versatilidade e economia. Com densidade entre 0,92 e 0,96 g/cm³, seu tipo específico é selecionado de acordo com o produto a ser confeccionado (MARINHO, 2005). Segundo a ASTM (1999), as aplicações em rotomoldagem requerem que o índice de fluidez do polietileno linear esteja entre 2 e 8 g/10min. Um valor acima de 10 indica que o material tem reduzida resistência ao impacto a baixas temperaturas e ao stress cracking. Este fenômeno consiste no aparecimento de rachaduras na superfície da peça. Porém, para valores inferiores a 2 g/10min a viscosidade é alta, dificultando a produção de peças com detalhes na superfície. Em geral, a matéria-prima para a rotomoldagem passa por duas etapas antes de abastecer os moldes: moagem e pigmentação. 2.3.3.3.1. Moagem A moagem ou micronização da matéria-prima geralmente é mecânica, podendo ser realizada através de moinhos de discos, no qual um permanece estacionário enquanto outro gira em alta velocidade. O pó é alimentado pelo centro do disco e quando atinge a extremidade é insuflado para peneiras vibratórias para seleção do tamanho das partículas. 74 As partículas acima do tamanho retornam para o moinho. Na figura 3.16 é apresentado um típico moinho micronizador de discos. Figura 3.16: Moinho micronizador de discos (UEKI e PISANU, 2007). A distribuição do tamanho de partículas do pó deve ser uniforme, já que a presença de partículas muito pequenas com outras relativamente grandes traz como consequência a absorção de calor não homogênea, com possibilidade de recobrimento desigual das paredes do molde. Além disto, pós muito finos podem fundir muito rapidamente, não permitindo a saída completa das bolhas de ar, provocando a formação de defeitos ou vazios internos nas peças. Pós muito grosseiros, por outro lado, dificultam o preenchimento completo de todos os detalhes presentes na estrutura do molde. O formato das partículas, por sua vez, afeta diretamente a fluidez a seco do pó e sua densidade aparente. Quanto mais regular a partícula, melhor a fluidez e maior a densidade aparente do pó. As seleções adequadas da matéria-prima junto às condições de moagem também influenciam tais características (NICOLETTE, 2011). Ainda com respeito ao processo de moagem da matéria-prima, quanto maior a temperatura melhor é o formato das partículas, maior é a densidade aparente e melhor a escoabilidade da resina polimérica. Temperaturas baixas proporcionam o aparecimento de partículas fibriladas, como demonstrado na figura 3.17. Este problema pode causar má dispersão do material polimérico e favorecer o aparecimento de bolhas nas peças. Outros fatores que podem influenciar no escoamento do pó durante a moldagem são (HARPER, 2006): Rugosidade do molde; Velocidade de rotação do molde; Quantidade de material no molde; Presença de aditivos no material polimérico; Umidade ou temperatura inadequada no forno. 75 Figura 3.17: Matérias-primas micronizadas, vistas por microscópio ótico, sob a influenciação de altas e baixas temperaturas (UEKI e PISANU, 2007). 3.3.3.3.2. Pigmentação Crawford e Throne (2002) relatam duas formas de pigmentação para resinas poliméricas: Dry Blender: processo a seco através de misturadores conhecidos como Turbo Blender ou tipo Henschel. Apesar de ser mais econômico, possui a desvantagem de o pigmento não incorporar-se completamente ao polímero, ficando ancorado na superfície externa do micronizado; Extrusão: consiste no molhamento do polímero com o pigmento, resultando em uma cor mais homogênea, com consequente melhora do brilho e da resistência da peça. Entretanto, possui a desvantagem de expor o polímero a trabalho mecânico na extrusora, o qual proporciona um histórico térmico que favorece o consumo de aditivos do polímero, como os antioxidantes. Na figura 3.18 é estabelecida uma comparação entre os tipos mais comuns de pigmentação. Observa-se como ocorre uma dispersão mais homogênea quando a mistura é realizada com o auxílio de uma extrusora. Figura 3.18: Comparação entre a pigmentação a seco e por extrusão (UEKI e PISANU, 2007). 76 3.3.3.4. Tipos de máquinas Para especificar uma máquina de rotomoldagem são considerados, basicamente, os seguintes parâmetros (CRAWFORD et al., 2002): Capacidade de aquecimento; Tamanho do forno; Tempo médio por ciclo; Velocidade de rotação do molde. A partir da combinação destas variáveis, existem diferentes classes de equipamentos. Cada um destes é relacionado, é claro, a diferentes tipos de peças passíveis de serem produzidas. 3.3.3.4.1 Rock and Roll Nestas máquinas, o molde gira 360º no eixo secundário e, no eixo principal, intercaladamente 45º para um lado e para outro. O sistema de aquecimento geralmente é a gás com chama direta. Estas máquinas são utilizadas principalmente para a produção de peças de grandes dimensões. A partir da figura 3.19 é possível estabelecer uma comparação do tamanho deste equipamento em relação a um homem. Figura 3.19: Máquina tipo Rock and Roll (UEKI e PISANU, 2007). 3.3.3.4.2. Clamshell Também denominadas máquinas tipo cofre, estas apresentam a particularidade de todo o processo ocorrer na mesma câmara, que serve como forno de aquecimento e como 77 componente de resfriamento, a partir da circulação de ar frio e com aspersores deágua. A figura 3.20 consiste em uma representação deste tipo de máquina. De maneira geral, requerem baixo nível de investimento inicial, pouco espaço e mão de obra mínima, permitindo a fabricação de produtos de boa qualidade. Todavia, exigem um tempo de ciclo mais alto, maiores gastos com energia elétrica e com serviços industriais, pois acondicionam, no mesmo espaço, a área de aquecimento e resfriamento. São úteis para fabricar produtos que necessitem de controle de processo mais rigoroso e para produções em pequena escala como, por exemplo, o desenvolvimento de protótipos. Figura 3.20: Máquina tipo Clamshell (UEKI e PISANU, 2007). 3.3.3.4.3. Shuttle Nestas, também chamadas de máquinas tipo lançadeira, o deslocamento do molde nas duas zonas ou estágios ocorre por meio de guias, o que diminui diretamente os investimentos em mão de obra. São simples de construir e manusear, além de oferecer baixo custo de manutenção. Permitem, de forma econômica, fabricar peças de pequeno e grande porte. Na figura 3.21 é apresentado um desenho esquemático deste tipo de máquina. Figura 3.21: Máquina do tipo Shuttle de dois estágios (UEKI e PISANU, 2007). 78 3.3.3.4.4. Turret Introduzidas na segunda metade do século XX, são constituídas de três estações fisicamente separadas. Para a seleção desta máquina é imprescindível que a duração dos ciclos de aquecimento e resfriamento de cada braço seja similar e que a disponibilidade de espaço não seja crítica. Embora não sejam indicadas para altos níveis de produção, são máquinas muito eficientes, de alto rendimento e de baixo custo de manutenção. Na figura 3.22 encontra-se uma representação esquemática de uma máquina Turret ou tipo carrossel. Figura 3.22: Máquina do tipo Turret (HARPER, 2006). 3.3.3.5. Vantagens e limitações Todos os processos produtivos industriais apresentam vantagens e desvantagens intrínsecas ao tipo de tecnologia empregada. Para a rotomoldagem, algumas das vantagens do processo estão em (CRAWFORD et al., 2002): Grande variedade de formas possíveis de modelar; Facilidade em substituir materiais e cores; Não exigência de ângulos de saída para a desmoldagem da peça; Como não há aplicação de pressão sobre o material durante a moldagem, as tensões residuais nas peças são mínimas; Os moldes costumam ser mais baratos se comparados aos de outros processos; São necessárias simples operações posteriores de acabamento; As sobras de material são poucas, pois o peso programado para a peça é controlado a partir da pesagem da matéria-prima; 79 Oferece boa distribuição de espessura da parede da peça em relação a processos como sopro e termoformagem; Peças de materiais e tamanhos diferentes podem ser moldadas simultaneamente na mesma máquina e inclusive no mesmo braço; No entanto, como desvantagens deste processo, pode-se citar; Não comporta grandes tiragens se comparada às moldagens por injeção ou sopro, tanto pelo fato do abastecimento e da desmoldagem serem manuais quanto por apresentar um tempo de ciclo maior; Risco de degradação térmica pelo excesso de exposição do material a altas temperaturas; As peças têm menor precisão dimensional quando comparadas ao processo de injeção; Não é adequada para a produção de peças de tamanho reduzido. 3.3.4 Outros processos Há, indubitavelmente, uma vasta gama de outros processos de transformação de polímeros, os quais, segundo suas peculiaridades, determinam a escolha do polímero e do tipo de peça passível de ser produzida. Ademais, o comportamento e os diferentes parâmetros de cada processo são fatores importantíssimos na elaboração do projeto de quaisquer produtos que se deseje fabricar e inserir no mercado. Além da moldagem por injeção, da extrusão e da rotomoldagem, já detalhados, alguns outros processos de transformação de materiais poliméricos merecem destaque. Nesse intuito, seguem breves descrições de alguns destes processos nos itens seguintes. 3.3.4.1. Moldagem por sopro Este processo é frequentemente utilizado para fabricação de peças plásticas ocas, tais como frascos, bonecas, carrinhos de brinquedo, reservatórios de água para automóveis e até tanques de gasolina. O processo de sopro ocorre através da insuflação ou enchimento de ar no interior do molde, de forma a permitir a expansão da massa plástica até a obtenção da forma desejada. A unidade de produção exclusiva para o processo de sopro é composta pelos seguintes componentes (WHELAN, 1999): 80 1. Máquina sopradora; 2. Molde de sopro; 3. Dispositivos e sistema de acabamento. No entanto, o processo de moldagem por sopro é considerado dependente de outros processos, como a injeção e a extrusão, já que a matéria-prima deve ser amolecida, por exemplo, no canhão de uma extrusora. Ademais, no caso de artigos relativamente grandes, como as garrafas PET 2 litros, a seção do tubo polimérico pode ser previamente moldada pelo processo de injeção e orientada para fornecer uma força adicional para o produto final soprado (BILLMEYER, 1984). Em geral, o primeiro passo do processo consiste na formação de uma mangueira de material termoplástico amolecido, chamada de pré-forma, parison ou trafila, a qual é depositada e prensada dentro do molde de sopro. Em seguida, o parison é forçado contra as paredes do molde e adquire a forma da peça, a qual será refrigerada para então ser extraída. Na maioria dos casos, o produto necessita passar por um processo de acabamento posterior, como por exemplo: rebarbação, furação, etiquetagem, entre outros. Resumidamente, todos os processos de moldagem por sopro consistem de três fases (OTTERBACH, 2011): 1. Plastificação do granulado de resina termoplástica, normalmente através de uma extrusora; 2. Produção de uma pré-forma fundida ou um tubo extrudado, no caso da chamada moldagem por extrusão-sopro, ou uma pré-forma moldada por injeção, no caso da chamada moldagem por injeção-sopro; 3. O sopro da pré-forma, normalmente com ar, no molde, seguido da extração e da operação de rebarbação da peça. Quanto aos polímeros comumente utilizados no processo de moldagem por sobro, destacam-se: PET, policarbonato, PEAD e PEBD, PP, ABS e alguns tipos de PVC. 3.3.4.2. Termoformagem A termoformagem ou vacuumforming é um processo que consiste em moldar chapas plásticas dando forma ao produto através da utilização de calor e pressão, tanto positivas como a vácuo. Resumidamente, uma lâmina seca é aquecida a uma temperatura pré-determinada na qual o material plástico amolece. A mesma é esticada para cobrir o contorno do molde e logo é refrigerada na temperatura na qual o termoplástico passa a ser 81 rígido, retendo assim a forma do molde. A peça termoformada pode ser cortada para eliminar bordas desnecessárias, decorada ou convertida em produto para diferentes aplicações (THRONE, 1999). De acordo com Walsh (2002), o processo alia a precisão técnica ao baixo custo na confecção dos moldes e na própria moldagem das peças. O perfeito equilíbrio entre calor e poder de sucção durante o processo de moldagem é o principal responsável por atribuir às peças termoformadas precisão nas dimensões e ótima qualidade no acabamento, quer sejam peças de alto ou baixo relevo. As peças são moldadas nas mais variadas cores e textura em resinas como PS, PEAD, PP, ABS e PET. Os moldes são desenvolvidos de acordo com as necessidades e incorporam soluções como: cantos com ângulos retos, inclinados ou arredondados, encaixes para empilhamento, aletas para ventilação, sistemas de encaixe e travamento para peças, aplicação de logotipos, dentre outras possibilidades. De maneira geral, as etapas do processo podem ser divididas da seguinte em fixação da chapa, aquecimento, moldagem, resfriamento e extração. 3.3.4.3. Calandragem A calandragem é utilizada para a produção de filmes planos, chapas e laminados,que são posteriormente confeccionados dando origem a produtos para as indústrias alimentícia, farmacêutica, automobilística, calçadista, entre outras. A principal vantagem é obter um material com espessura constante e com um excelente acabamento. Dentre os processos de deformação, é o mais amplamente utilizado (GRIFFIN, 1971). Na calandragem de metais, por exemplo, uma peça metálica passa entre dois cilindros, havendo uma redução de sua espessura. As tensões de compressão exercidas pelos cilindros garantem a formação de uma lâmina metálica, a qual assumirá as características do produto final. Esta passagem do material entre rolos confere uma espessura constante à peça e um acabamento de qualidade. A calandragem pode ser feita também a partir de polímeros (termoplásticos, borrachas, entre outros) ou até mesmo vidros (laminação a quente). É bastante comum denominar o processo por laminação, ao invés do termo calandragem (CALLISTER, 2012). A calandragem de polímeros, especificamente, consiste em um processo contínuo, que se inicia através do abastecimento dos cilindros pré-aquecidos de uma calandra com o material polimérico já plastificado, ou seja, fundido e homogeneizado. Em outras palavras, 82 ocorre a extrusão do polímero, formando um cordão ou uma fita que será depositada em um sistema de cilindros aquecidos, que formam a calandra. Titow (1984) relata que o número de cilindros pode variar conforme o polímero, o acabamento superficial desejado, a tecnologia aplicada, entre outros fatores. Para o PVC, o polímero de maior produção por calandragem, a calandra possui normalmente quatro cilindros que giram a velocidades ligeiramente diferentes para formar lâminas ou filmes. Outros polímeros são calandrados em menor quantidade, como algumas borrachas, alguns tipos de poliuretano, polipropileno reforçado com talco, ABS, dentre outros. As mais importantes vantagens do processo de calandragem são (GRIFFIN, 1971): Possibilidade de obterem-se materiais planos com ou sem brilho, rígidos ou flexíveis; Peças passíveis de receber os mais diversos tipos de acabamento e gravação; Peças transparentes, translúcidas, opacas ou coloridas; Baixa permeabilidade ao vapor d'água; Possibilidade de obtenção de produtos atóxicos; Espessura das peças relativamente constante. 3.3.4.4. Moldagem por compressão O processo de moldagem por compressão consiste em colocar, nas cavidades do molde, certa quantidade de resina polimérica, em pó ou em pastilha, correspondente ao volume do produto que se deseja fabricar. O molde é composto por duas partes, uma superior e outra inferior, denominadas, respectivamente, macho e fêmea (TODD et al., 1993). A pressão aplicada no molde durante o fechamento faz com que o material polimérico flua ao longo da cavidade de modo que, depois de determinado tempo, ocorra a cura deste material. Em geral, a moldagem por compressão pode ser dividia nas seguintes fases (ASM, 2001): 1. Carregamento do material plástico na cavidade do molde; 2. Pré-compressão; 3. Desgaseificação; 4. Compressão e fechamento completo do molde; 5. Policondensação ou cura do material polimérico; 6. Abertura do molde; 7. Extração da peça moldada. 83 Por fim, as condições de moldagem para o processo de compressão se baseiam, primordialmente, em três parâmetros: a temperatura de aquecimento, a pressão aplicada no molde e o tempo de cura do material polimérico. Vale mencionar, por fim, alguns outros processos de transformação de polímeros, tais como a espalmagem, a moldagem por transferência, a fundição ou casting. Embora estes processos sejam menos utilizados, também produzem diversos produtos para atender às necessidades dos mais variados setores. 3.4. Aproveitamento energético Face à própria ameaça à qualidade de vida do homem, é inegável a tendência mundial de minimizar a produção de resíduos sólidos, a começar pela introdução gradativa de produtos ecologicamente corretos no mercado, aliada ao reuso de embalagens e ao incentivo à reciclagem. Além disso, absorvem-se aos poucos os conceitos de gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos. Contudo, ainda sob a ótica da problemática da modernidade, presencia-se o aumento da produção de bens de consumo pelas indústrias em geral. Ademais, não é apenas a produção indiscriminada de resíduos sólidos que torna o cenário mundial alarmante. A expansão acentuada do consumo de energia, embora possa refletir o aquecimento econômico e a melhoria da qualidade de vida, oferece alguns aspectos negativos. Um deles é a possibilidade do esgotamento dos recursos utilizados para a produção de energia, e outro consiste no impacto ao meio ambiente produzido por essa atividade (ANEEL, 2008). Nesse sentido, torna-se imprescindível utilizar-se de outros meios para reaproveitar quaisquer tipos de materiais potencialmente úteis do ponto de vista energético. Uma alternativa para isto consiste nas tecnologias de conversão de materiais contendo carbono (MCC), as quais convertem materiais de valor agregado baixo ou negativo em produtos energéticos, ecologicamente limpos e de alto valor agregado, como eletricidade, combustíveis, produtos químicos (fertilizantes, plásticos), materiais reciclados (metais, silicatos), entre outros (MAROTTA, 2009). Em resumo, além de ajudar a minimizar a quantidade de rejeitos produzidos pela sociedade de forma geral, estes processos de aproveitamento energético, como o próprio nome diz, contribuem na geração de energia. RSU, RSS, biomassa, carvão, coque de petróleo, xisto e plásticos são alguns exemplos de MCC. As tecnologias de conversão destes materiais podem, então, ser divididas em duas classes (MAROTTA, 2009): 84 Conversão termoquímica: consiste nos processos físico-químicos de combustão, gasificação, pirólise, transesterificação, entre outros, os quais podem agregar uma gama mais ampla de MCC (RSU, RSS, plástico, biomassa, carvão, lamas, etc.) que a conversão bioquímica (específica para biomassa); Conversão bioquímica: engloba os processos biológicos de digestão anaeróbica, fermentação e tratamento enzimático, os quais podem ser considerados restritos do ponto de vista da matéria-prima, já que são específicos para a biomassa. Do ponto de vista energético, para fim de outorga de empreendimentos do setor elétrico, biomassa é todo recurso renovável oriundo de matéria orgânica (de origem animal ou vegetal) que pode ser utilizada na produção de energia. Assim como a energia hidráulica e outras fontes renováveis, a biomassa é uma forma indireta de energia solar. A energia solar é convertida em energia química, através da fotossíntese, base dos processos biológicos de todos os seres vivos (ANEEL, 2008). Embora grande parte do planeta esteja desprovida de florestas, a quantidade de biomassa existente na terra é da ordem de dois trilhões de toneladas; o que totaliza cerca de 400 toneladas per capita. Em termos energéticos, isso corresponde a aproximadamente 3.000 EJ por ano, ou seja, oito vezes o consumo mundial de energia primária (RAMAGE e SCURLOCK, 1996). Alongo prazo, a exaustão das fontes não renováveis e as pressões ambientalistas poderão acarretar maior aproveitamento energético da biomassa. Atualmente, este combustível vem sendo cada vez mais utilizado na geração de eletricidade, principalmente em sistemas de cogeração e no suprimento de eletricidade para demandas isoladas da rede elétrica (ANEEL, 2008). As principais tecnologias de aproveitamento energético da biomassa podem ser visualizadas no diagrama da figura 3.23. Embora ainda muito restrito, o uso de biomassa para a geração de eletricidade tem sido objeto de vários estudos e aplicações, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. Entre outras razões, estão em busca de fontes mais competitivas de geração de energia, além de objetivarem a redução das emissões de dióxidode carbono. Do ponto de vista técnico-econômico, os principais entraves ao maior uso da biomassa na geração de energia elétrica são a baixa eficiência termodinâmica das plantas e os custos relativamente altos de produção e transporte. De um modo genérico, incluindo aspectos socioambientais, verifica-se a necessidade de maior gerenciamento do uso e ocupação do solo, devido à falta de regularidade no suprimento, criação de monoculturas, perda de biodiversidade, uso intensivo de defensivos agrícolas, entre outros aspectos. Contudo, esses entraves tendem a ser contornados pelo desenvolvimento, aplicação e aprimoramento de novas e mais eficientes tecnologias de conversão energética da biomassa, fomentados, dentre outros motivos, por meio dos incentivos 85 Figura 3.23: Diagrama esquemático dos processos de conversão energética da biomassa (BEN, 1982). instituídos pelas políticas do setor elétrico. Vale lembrar que uma vantagem da utilização da biomassa consiste na possibilidade de poder aproveitá-la diretamente, por intermédio da combustão em fornos, caldeiras, entre outros equipamentos (CORTEZ et al., 1999). Além de ambientalmente favorável, o aproveitamento energético da biomassa tende a promover o desenvolvimento de regiões economicamente menos favorecidas, por meio da criação de empregos e da geração de receita, reduzindo o problema do êxodo rural e a dependência externa de energia, em função da sua disponibilidade local (ANEEL, 2008). 3.4.1. Pirólise O processo de pirólise pode ser definido como uma reação de degradação ou decomposição de quaisquer materiais orgânicos ou que contém carbono, que ocorre pela ação de altas temperaturas, as quais provocam rupturas na estrutura molecular original daqueles materiais. A ação do calor ocorre em um ambiente característico, na ausência parcial ou total de um agente oxidante, ou até mesmo, em um ambiente com uma concentração de oxigênio capaz de evitar a gaseificação intensiva do material orgânico. A https://pt.wikipedia.org/wiki/Rea%C3%A7%C3%A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Rea%C3%A7%C3%A3o_de_decomposi%C3%A7%C3%A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Temperatura https://pt.wikipedia.org/wiki/Mol%C3%A9cula https://pt.wikipedia.org/wiki/Calor https://pt.wikipedia.org/wiki/Ambiente 86 pirólise geralmente ocorre a uma temperatura que varia, desde os 400°C, até o início do regime de gaseificação (PEDROZA et al., 2010). É um processo que tem como principal aplicação o tratamento e a destinação final dos resíduos sólidos, sendo energeticamente auto-sustentável. Pelo motivo de não necessitar de energias externas, acaba despertando muito interesse do ponto de vista prático e científico. Ademais, a pirólise possui muitas vantagens quando comparadas a outras alternativas, pelo fato de gerar produtos tais como óleo, gases e carvão, os quais podem ser utilizados como fonte de combustível ou em outras aplicações relacionadas à indústria petroquímica (KARAYILDIRIM; YANIK; YUKSEL , 2006). Em outras palavras, o processo de pirólise pode ser genericamente definido como sendo o de decomposição química por calor na ausência de oxigênio, apresentando, ainda, um balanço energético positivo, ou seja, produz mais energia do que consome. Este sistema é bastante utilizado pela indústria petroquímica e na fabricação de fibra de carbono. Outra aplicação bastante comum é a carbonização da madeira, cujo principal propósito consiste na produção de carvão vegetal, item essencial para o fornecimento de energia em diversas indústrias. Uma das razões que explica a tendência ao uso desse processo é o aumento do uso de biomassa como combustível, fomentado por grandes investimentos em pesquisas para a produção do bio-óleo. A pirólise constitui, ainda, uma opção ecologicamente correta, além de possibilitar uma diminuição considerável do número de aterros sanitários. Existem dois tipos de pirólise, o convencional (lenta) e a rápida. Os termos “pirólise lenta” e “pirólise rápida” se diferenciam entre si através de variáveis de processos tais como: taxa de aquecimento, temperatura, tempo de residência das fases sólida e gasosa e produtos obtidos. Segundo Gómez (2002), de acordo com essas variáveis de processo, os tipos de pirólise podem ser subdivididos em nove variantes, conforme a tabela 3.8: Variantes do processo Tempo de residência Temperatura (°C) Produtos obtidos Carbonização Horas/dia 400 – 450 Carvão vegetal Convencional 5 – 30 min Até 600 Bio-óleo, carvão e gás Rápida 0,5 – 5 s 500 – 550 Bio-óleo Flash-líquido i650 Gás combustível Vácuo 2 – 30 s 400 Bio-óleo Metano-pirólise i700 Produtos químicos Hidro-piróliseoutros (MORRIS e WALDHEIM, 1998). A gaseificação de resíduos ocorre em uma sequência de reações endotérmicas e exotérmicas, denominadas secagem, pirólise, combustão e a gaseificação propriamente dita. Tipicamente, estas etapas são essenciais à formação do gás produto da gaseificação, o qual será denominado, daqui em diante, de gás de síntese. Na gaseificação de biomassa, por exemplo, a umidade do combustível pode variar desde 30-60% até valores superiores a 90%, antes de se iniciar o processo de secagem. Cada unidade de massa do material requer, em média, 2.260 kJ de energia do gaseificador para vaporizara água. Portanto, é necessário eliminar a umidade da biomassa, de 10 a 20%, antes de alimentar o reator para a produção de um gás de poder calorífico aceitável. A secagem final, por fim, é realizada já no interior do reator, a uma temperatura média de 100°C. Em casos nos quais o combustível para o processo de gaseificação já se encontra completamente seco, tal como plásticos, não é necessária a etapa de secagem como um pré-estágio para a alimentação do reator (MALKOW, 2004). A pirólise, já abordada em detalhes no item 3.4.1, configura uma etapa de reação endotérmica da gaseificação. As características dos produtos desta etapa, em termos de qualidade e quantidade, dependem das condições de operação do processo. A temperatura, a granulometria do material, a velocidade e a taxa de aquecimento, o tempo de residência, o fluxo do fluido de trabalho e as características próprias dos possíveis combustíveis a serem utilizados são algumas variáveis de influência no desempenho do processo. Segundo Zabaniotou et al. (2008), a temperatura é a variável que possui o maior efeito sobre o processo de pirólise. Em sequência, se dá o processo de oxidação ou combustão, que consiste na reação do carbono do combustível com o oxigênio do ar, com consequente produção de CO2, CO e vapor d’água. A temperatura de combustão pode variar de 700 a 1200°C, sendo o principal objetivo desta etapa a produção de energia necessária às reações de gaseificação (BASU, 2010). Finalmente, a etapa de gaseificação, também denominada redução, consiste na reação endotérmica que ocorre a uma temperatura de 800 a 1100°C. Nesta fase, o carvão, proveniente da pirólise, é convertido essencialmente em CO, C CH4, H2 e H2O (WAGLAND, 2011). 89 Elucidativamente, a figura 3.24 consiste nas principais etapas do processo de gaseificação. Neste caso, o combustível utilizado é a biomassa. Figura 3.24: Principais etapas da gaseificação (KNOEF, 2002). A gaseificação pode ser classificada, ainda, em função do tipo de agente de gaseificação, destacando-se (ARENA, 2012): Oxidação parcial com ar, com ar enriquecido com oxigênio ou puro oxigênio; Gaseificação com vapor; Gaseificação por plasma. Quando se emprega ar como agente de gaseificação, o PCI do gás de síntese resultante fica entre 3 e 6 MJ/Nm3, devido à diluição pelo nitrogênio do ar. Quando se utiliza, porém, oxigênio puro para esta mesma finalidade é possível obter um PCI na faixa de 10 a 19 MJ/Nm3. Entretanto, o elevado custo de produção do oxigênio puro pode inviabilizar essa escolha para plantas de gaseificação. O investimento nesse tipo de processo é bastante dispendioso e acaba se justificando apenas em instalações em grande escala (BASU, 2010). Por sua vez, o processo de oxidação parcial com ar produz um gás diluído em nitrogênio acima de 60%, com poder calorífico entre 4 e 7 MJ/Nm3. Este valor é considerado muito baixo para ser utilizado em uma turbina a gás, que geralmente trabalha com gás natural. Este último apresenta um PCI que varia em torno de 38 MJ/Nm3. Contudo, nos últimos anos, muitas pesquisas têm sido desenvolvidas com o intuito de adaptar essas turbinas ao funcionamento com gases de baixo poder calorífico (BRIDGWATER, 1995). Na utilização de ar enriquecido com oxigênio como agente de gaseificação, é garantido um teor de gás combustível no processo de 21 a 50%. De qualquer forma, o 90 objetivo é aumentar o PCI, como consequência da redução da quantidade de nitrogênio nas reações e aumento da temperatura do processo (MALKOW, 2004). Quanto à gaseificação a partir do vapor, pode–se ressaltar a produção de um gás com alto teor de hidrogênio e um poder calorífico médio entre 15 e 20 MJ/Nm3. Como neste caso o vapor é o único agente gaseificante, o processo não inclui reações exotérmicas, sendo desnecessário o fornecimento de energia externa para as reações endotérmicas (MORRIS e WALDHEIM, 1998). Por fim, na gaseificação com plasma, a fonte de calor do reator configura-se através de tochas de plasma, as quais criam um arco elétrico com consequente produção de gases a altas temperaturas. O principal inconveniente dessa tecnologia consiste no elevado consumo energético necessário para alimentar o plasma, o que não confere competitividade em relação às demais alternativas de gaseificação. Vale mencionar, porém, que este tipo de gaseificação permite a utilização de combustíveis com grandes variações nos parâmetros do combustível, como teor de umidade, composição elementar, tamanho das partículas, dentre outros aspectos. Ademais, esta tecnologia pode ser utilizada para gaseificar combustíveis com densidade energética superior e ainda pode ser associada, por exemplo, à pirólise, no intuito de garantir uma eficiente gaseificação do combustível líquido e, consequentemente, do gás de síntese. Além do tipo de agente gaseificador, existem outros fatores que afetam o desempenho do sistema de gaseificação, dentre os quais se destacam (LORA e VENTURINI, 2012): A razão de equivalência, ou seja, a fração da quantidade estequiométrica de ar aplicado; O tempo de residência, o qual é limitado pela velocidade de fluidização quando o processo é realizado em reatores de leito fluidizado, e pelo projeto e operação da grelha, para reatores de leito fixo; As características do combustível em termos físico-químicos e energéticos; A utilização ou não de catalisadores. O estudo teórico da gaseificação pode ser realizado de acordo com duas abordagens: termodinâmica, a partir do conceito de equilíbrio químico, ou da cinética química, segundo a taxa das reações envolvidas. A primeira abordagem envolve o estudo de parâmetros como a concentração do gás produzido pela gaseificação e outras variáveis como, por exemplo, poder calorífico, potência, eficiência, entre outros aspectos, os quais podem ser determinados através da composição do combustível utilizado no processo e do agente de gaseificação escolhido. Por outro lado, a segunda abordagem permite o cálculo 91 da velocidade das reações químicas envolvidas, bem como a determinação das taxas de formação dos produtos. Por fim, o gás de síntese pode ser utilizado para acionar uma série de sistemas que utilizam de energia elétrica para seu funcionamento, tais como Motores Alternativos de Combustão Interna (MACI), Turbinas ou Microturbinas a Gás (TG), células a combustível, fornos, caldeiras e outras máquinas envolvidas em processos produtivos industriais diversos. A maioria destes equipamentos e aplicações será devidamente abordada a diante. 3.4.2.1. Tipos de gaseificadores A gaseificação pode ser classificada de duas formas: direta, quando ocorre na presença de um agente oxidante ou indireta, na ausência deste componente. Existem dois grupos de tecnologias de gaseificação direta: a partir de reatores de leito fixo ou leito fluidizado. Estes possuem, ainda, subdivisões segundo suas características e peculiaridades. O vapor de água é o agente gaseificante indireto mais comum, devido à facilidade de produção e por aumentar consideravelmente o teor de hidrogênio no gás combustível gerado. Vale lembrar que o PCI do gás de síntese é significativamente afetado pela presença de nitrogênio. Logo, devido à ausência de nitrogênio no agentede gaseificação, a gaseificação indireta é capaz de aumentar a eficiência volumétrica e produzir um gás de PCI maior. Apesar de reduzir o custo de recuperação de energia e de limpeza do gás produto, a gaseificação indireta permanece um processo muito complexo e de altos custos de investimento (BELGIORNO et al., 2003). Neste sentido, este mesmo autor afirma, ainda, que embora a gaseificação indireta apresente as mesmas vantagens em relação à direta com oxigênio puro, o custo da produção deste último elemento é estimado em mais de 20 % do custo total da eletricidade produzida. Por esse motivo, serão abordados, em detalhes, apenas os reatores envolvidos na gaseificação direta. Apenas a título elucidativo, na figura 3.25 é possível averiguar o funcionamento dos dois tipos de gaseificação, ressaltando suas principais diferenças. Observa-se que na gaseificação direta o gás resultante é diluído, enquanto que no processo indireto isto não ocorre. É possível ressaltar, ainda, a reação de formação de metano presente na gaseificação indireta. 92 Figura 3.25: Funcionamento da gaseificação direta e indireta (BELGIORNO et al., 2003). 3.4.2.1.1. Gaseificadores de leito fixo Na literatura, o termo leito fixo é utilizado para descrever o leito móvel descendente, dado que normalmente o topo do leito é mantido a um nível razoavelmente constante (REDDY et al., 1995). Os reatores verticais são os mais competitivos entre esses tipos de reatores. Em gaseificadores de leito fixo, o combustível é gaseificado em camadas de leito, de modo a englobar as diferentes zonas de reação: secagem, pirólise, redução e oxidação. Os gaseificadores de leito fixo operam em temperaturas na faixa de 1000ºC e são subclassificados como contracorrente e co-corrente, baseado no contato com o combustível e o agente gaseificador, como ar, oxigênio ou vapor (MC KENDRY, 2002; QUAAK et al., 1999). 3.4.2.1.1.1. Gaseificador contracorrente Gaseificadores contracorrentes, como o próprio nome diz, são gaseificadores nos quais a carga alimentada e o fluxo de ar estão em sentidos contrários. Em outras palavras, o agente gaseificador é insuflado para o leito fixo de combustível em direção oposta ao sentido do movimento do combustível. O combustível se move por gravidade, através das zonas de gaseificação. 93 Os materiais combustíveis, depois de secos na zona de secagem, são decompostos em gases voláteis e carvão na zona de pirólise. Na zona de redução, diversas reações ocorrem, tais como o carbono que reage com vapor d’água para produzir monóxido de carbono e hidrogênio. Na zona de oxidação, por fim, o carvão é queimado para produzir calor, dióxido de carbono e vapor d’água (QUAAK et al., 1999). Vale ressaltar que nesta última zona do processo, temperaturas superiores a 1200°C podem ser alcançadas. Como consequência desta configuração, o alcatrão formado na fona de pirólise é carregado para cima pelos gases quentes, resultando em um produto gasoso com alto teor de alcatrão. Tipicamente, o calor sensível dos gases é recuperado através da troca de calor direta com a carga alimentada (MC KENDRY, 2002). Na figura 3.26 é possível observar a configuração e o funcionamento de um gaseificador contracorrente. Figura 3.26: Gaseificador de leito fixo contracorrente (BELGIORNO et al., 2003). Por fim, os gaseificadores contracorrente oferecem as seguintes vantagens de utilização: Alta eficiência gasosa; Baixa produção de carvão; Capacidade de gaseificar materiais com altos teores de umidade. Como principal desvantagem, entretanto, apresenta-se a alta produção de alcatrão no gás bruto. 94 3.4.2.1.1.2. Gaseificador co-corrente Os gaseificadores co-corrente, representados na figura 3.27, são semelhantes aos contracorrentes, exceto pelo fato de o agente gaseificador fluir no mesmo sentido do combustível, o qual é alimentado no topo, enquanto o ar é introduzido, nas laterais, acima da grelha. O gás combustível, por sua vez, é retirado sob a grelha. Sua configuração permite que os gases produzidos na zona de pirólise sofram o craqueamento térmico adequado do alcatrão (QUAAK et al., 1999). Figura 3.27: Gaseificador de leito fixo co-corrente (BELGIORNO et al., 2003). Verificada a similaridade dos gaseificadores contracorrentes em relação aos co- correntes, seus processos resultam em uma eficiência energética também similar (MC KENDRY, 2002). A principal vantagem do gaseificador co-corrente é a produção de um gás com pouco alcatrão, já que todo o alcatrão passa pelo leito quente de carvão. Por outro lado, entre as desvantagens destacam-se a baixa eficiência geral, as dificuldades em lidar com altos índices de umidade e cinzas, além de servirem apenas em unidades de pequeno porte (BELGIORNO et al., 2003). 95 3.4.2.1.2. Gaseificadores de leito fluidizado Os gaseificadores de leito fluidizado não apresentam zonas distintas de reação. Operam em temperaturas relativamente baixas, da ordem de 700 a 900ºC, com exceção dos gaseificadores de carreamento, os quais trabalham em torno de 1600ºC e são capazes de operar com altas capacidades. Segundo Quaak et al. (1999) e Mc Kendry (2002), dentre as vantagens da utilização destes gaseificadores, podem-se destacar s seguintes fatores: Construção compacta, que facilita altas taxas de transferência de calor através da intensiva mistura que ocorre no leito; Flexibilidade para lidar com variações de umidade, cinzas e outras características do combustível; Capacidade de lidar com materiais finamente granulados que apresentam alto conteúdo de cinzas, baixa densidade ou ambos; Poucos pontos onde ocorre a fusão das cinzas. Alto conteúdo de poeira e alcatrão, porém, configuram algumas das desvantagens destes gaseificadores. Subclassificados em leito fluidizado circulante e leito borbulhante constituem grande parte dos gaseificadores comercialmente utilizados. 3.4.2.1.2.1. Gaseificador de leito fluidizado circulante Estes gaseificadores, representados pela figura 3.28, operam com uma velocidade de gás acima da velocidade de fluidização, o que resulta num arraste de partículas pelo gás. As partículas arrastadas saem pelo topo do reator e as cinzas são então removidas, ao passo que o material do leito retorna ao recipiente no qual ocorrem as reações (BELGIORNO et al., 2003). De acordo com Quaak et al. (1999), estes gaseificadores são adequados às reações rápidas e podem operar a pressões elevadas. Oferecem, ainda, a vantagem de possuir altas taxas de transporte de calor e de conversão (acima de 98%), com baixo teor de alcatrão e de carbono não convertido. As desvantagens incluem o fato do tamanho das partículas do combustível determinar a velocidade mínima de transporte e as eventuais ocorrências de erosão do equipamento, devido às altas velocidades (FAO, 1986). 96 Figura 3.28: Gaseificador de leito fluidizado circulante (BELGIORNO et al., 2003). 3.4.2.1.2.2. Gaseificador de leito fluidizado borbulhante Um gaseificador de leito borbulhante consiste de finas partículas de areia e alumina num recipiente com uma grelha no fundo, a partir do qual o ar, oxigênio ou vapor são introduzidos. Os materiais combustíveis, por sua vez, são introduzidos acima da grelha num leito móvel de material granulado. Neste gaseificador, representado pela figura 3.29, a temperatura é mantida na faixa de 700 a 900ºC, através do controle da razão ar/combustível. O combustível sofre o processo de pirólise no leito quente para formar um carvão com componentes gasosos. O gás produzido contém pouco alcatrão devido ao contato com o material quente do leito. O gaseificadores de leito borbulhante, embora apresentem desvantagens como a presença de bolhas que se formam devido à passagem de gás por caminhos preferenciais no leito, possuem diversas vantagens, como (CIFERNO, 2002; MC KENDRY, 2002): Produçãode um gás uniforme; Distribuição de temperatura uniforme no reator; Capacidade de lidar com vários tamanhos de combustível, incluindo os finos; Altas taxas de transferência de calor entre os materiais inertes, combustível e gás; Boa taxa de conversão (70%), com baixa quantidade de alcatrão e carbono não convertidos. 97 Figura 3.29: Gaseificador de leito fluidizado borbulhante (BELGIORNO et al., 2003). 2.4.2.2. Comparação entre gaseificadores Tanto em gaseificados com baixa ou alta capacidade, a seleção da configuração em particular do reator influencia diretamente nas características do produto gasoso cru, incluindo sua temperatura e quantidade de alcatrão e particulados presentes. Isto é importante para a seleção cuidadosa de um gaseificador que seja compatível com as características do produto para uso final (REZAIYAN e CHEREMISINOFF, 2005). Na tabela 3.9 são comparadas as configurações de gaseificadores mencionadas, apresentando um resumo de suas principais vantagens e desvantagens. Por fim, outro fator imprescindível na escolha da tecnologia de gaseificação quanto ao tipo de gaseificador, trata-se da escala de capacidade de produção de energia elétrica. Na figura 3.30 são enquadrados os diversos tipos de gaseificadores nesta faixa de aplicabilidade. Notam-se as altas capacidades de geração para os gaseificadores de leito fluidizado em comparação aos de leito fixo. Isso de deve, essencialmente, ao alto tempo de residência dos sólidos e sua mistura intensa, razões que levam esta configuração de reatores a alcançarem altas taxas de gaseificação. 98 Tabela 3.9: Comparativo entre as configurações de gaseificadores (RAJVANSHI, 1986). Figura 3.30: Escala de aplicação de tecnologias de gaseificação de biomassa (LARSON, 1998). 3.4.2.3. Limpeza do gás de síntese O gás produzido por um sistema de gaseificação contém uma determinada quantidade de contaminantes, como os particulados, as cinzas, o alcatrão, dentre outros materiais indesejáveis. Embora em algumas aplicações seja possível utilizar esse gás sem antes submetê-lo a uma limpeza, outros sistemas de geração de potência exigem a remoção destas impurezas. Segundo Devi et al. (2003), o alcatrão e os particulados são 99 definidos como uma mistura complexa de hidrocarbonetos condensáveis, que por suas características químicas e físicas, não são admissíveis em aplicações em máquinas térmicas como, por exemplo, os MACI e as TG. Nas turbinas, a exigência quanto à limpeza do gás se deve à erosão que pode ocorrer nas pás em razão dos choques com os particulados. Esse efeito é causado devido às altas rotações as quais as turbinas são submetidas. Nos MACI, por outro lado, o alcatrão pode obstruir as válvulas de injeção do motor, assim como erodir e corroer as paredes do pistão. Dessa forma, além de prejudicar o rendimento dos equipamentos, acaba por incrementar a frequência de manutenção. Contudo, a tolerância à presença desses componentes depende, em geral, da utilização posterior do gás. De acordo com Fernandes (2004), quando a produção de gás tem como único objetivo a geração de calor por combustão direta, a limpeza não é necessária. Ainda neste sentido, a tabela 3.10 consiste na comparação da qualidade de gás requerida para o uso de dois tipos de geradores de potência, a partir do abastecimento com gás de síntese. Gerador de potência Particulados [mg/Nm 3 ] Dimensão do particulado [µm] Alcatrão [mg/Nm 3 ] Metais pesados [mg/Nm 3 ] MACI3.12: Presença de impurezas no gás produzido, problemas decorrentes e mecanismos de controle (STEVENS, 2001). Dentre as principais tecnologias pertinentes à remoção dos materiais particulados, destacam-se: Ciclones: estes equipamentos são muito utilizados como primeira etapa do processo de limpeza do gás, devido, basicamente, ao seu baixo custo e alta eficiência na remoção de partículas mais grosseiras. Essa tecnologia permite a remoção de 90% do material particulado com partículas de até 5 µm de diâmetro (STEVENS, 2001); Filtros: os filtros são constituídos de elementos porosos, tais como leitos granulares, materiais cerâmicos ou placas metálicas, as quais permitem a passagem dos gases, mas impedem a passagem do material particulado. Os filtros são usualmente instalados logo após os ciclones a fim de reduzir a saturação das partículas grosseiras e garantir melhores condições de operação. Ademais, alguns sistemas de gaseificação utilizam os chamados filtros de manga, os quais exigem o controle da temperatura do gás na entrada do dispositivo; 102 Precipitador eletrostático: tecnologia amplamente utilizada em vários sistemas de limpeza de gases que exigem alta pureza em termos de particulados. Os precipitados eletrostáticos operam de acordo como princípio da força eletrostática, produzida pela geração de cargas elétricas opostas entre as partículas e a superfície dos eletrodos. Além disso, trata-se de um equipamento de alto custo, sendo recomendado, em geral, para plantas de grande capacidade; Lavador de gases (scrubber): a limpeza através destes equipamentos se dá, geralmente, pelo uso da água, de maneira que o material particulado é removido principalmente pelo mecanismo de colisão das partículas com as gotas do líquido. Suas maiores limitações estão na necessidade de tratamento da água utilizada na lavagem e consideráveis requerimentos de potência, em razão das perdas de carga no interior do equipamento. Por fim, o lavador mais comum em aplicações de alta eficiência é o do tipo Venturi, no qual a eficiência da remoção dos particulados é proporcional à queda da pressão. No que tange as tecnologias específicas para a remoção do alcatrão, é possível destacar: Craqueamento catalítico: em geral, o processo consiste na quebra do alcatrão em pequenas moléculas, quando em contato com a superfície do catalisador. Embora a destruição catalítica do alcatrão ocorra a temperaturas em torno de 900°C, os métodos catalíticos operam a temperaturas menores que os processos térmicos, de maneira a evitar o uso de materiais de alto custo essenciais à construção de reatores de craqueamento. Os catalisadores podem, em princípio, estar localizados nos mesmos reatores nos quais é realizada a gaseificação ou em reatores secundários. Dependendo do tipo de catalisador, é possível eliminar a necessidade de aquecimento ou resfriamento do gás produzido na gaseificação (ZHANG et al., 2004); Craqueamento térmico: embora seja possível realizar a decomposição do alcatrão sem utilizar catalisadores, este método pode ser aplicado apenas em reatores com zonas de alta temperatura. Também denominada destruição térmica, a faixa de temperatura adequada a este processo está relacionada ao peso molecular do alcatrão formado nos sistemas de gaseificação, podendo variar entre 900 e 1300°C. Por motivos econômicos e operacionais, o craqueamento térmico não é atrativo para sistemas de gaseificação em grande escala (CIFERNO, 2002). Enfim, um esquema geral do processo de limpeza úmida do gás de síntese é apresentado na figura 3.31. 103 Figura 3.31: Limpeza úmida de gases à baixa temperatura (HAMELINCK e FAAIJ, 2002). Este processo pode ser iniciado através da etapa opcional de craqueamento do alcatrão, ou simplesmente submeter o gás diretamente a um ciclone. Após a remoção das impurezas sólidas neste último, o gás de síntese é resfriado até o ponto de orvalho, antes de passar por um filtro de mangas, a fim de condensar os componentes mais pesados do alcatrão. A temperatura de operação do gás no filtro é da ordem de 260°C, na qual os particulados podem ser removidos com a eficiência requerida (TIJMENSEN, 2000). Após deixar o filtro de mangas, o gás de síntese é lavado com água para retirar as partículas residuais, como as cinzas e alguns compostos alcalinos, espécies químicas em fase de vapor, tais como alcatrão não reagido e condensado orgânico, gases halogênios e alguns compostos nitrogenados. Por fim, leitos de ZnO, de calcário (CaCO3) ou também de dolomita (CaMg(CO3)2) podem mostrar excelentes resultados na remoção dos compostos de enxofre presentes no gás produzido. Um leito de ZnO é suficiente para diminuir a concentração de enxofre até valores inferiores a 0,1 ppm (RAMIREZ, 1999). Segundo Tijmensen (2000), caso a remoção do CO2 também se faça necessária, é possível aplicar um processo de absorção com solvente, tais como Rectisol ou Sulfinol. Dessa maneira, o H2S e o COS (sulfeto de carbonila) são reduzidos até concentrações menores que 0,1 ppm e todo ou parte do CO2 é separado. O tratamento catalítico também pode ser realizado internamente ao reator, sendo os de leito fluidizado os mais indicados para esse tipo de tratamento. Os catalisadores mais estudados são a dolomita (minério de magnésio) e a olivina, os quais oferecem resultados significativos na redução do alcatrão. Em geral, catalisadores como a dolomita podem ser utilizados para reduzir a temperatura de operação do leito para o craqueamento do alcatrão, obtendo-se eficiências de 90 a 95% para temperaturas entre 800 e 900°C. Esse método de tratamento é chamado de craqueamento catalítico e demanda aproximadamente 0,03 kg/Nm³ de gás (BELGIORNO et al., 2003). A limpeza úmida pode remover até 50% do alcatrão presente no gás, e, quando seguida por um lavador Venturi, a eficiência de remoção do alcatrão pode atingir até 97%. Os resíduos do processo de lavagem do gás requerem tratamento através de um sistema composto por uma câmera de sedimentação e um filtro de areia, na presença de carvão ativado (TIJMENSEN, 2000). 104 Para Cardenas (2006), embora o método de limpeza úmida à baixa pressão apresente um consumo alto de energia e necessite de tratamento dos efluentes gerados, costuma ser mais eficiente que a limpeza a seco de gases à alta temperatura. O processo de limpeza a seco, por sua vez, consegue remover o material particulado presente na mistura gasosa com alta eficiência. O alcatrão pode ser também removido por meio de reatores secundários, através dos quais são desenvolvidas as reações de catálise. Alcatrão e óleos não são removidos durante a passagem pela unidade de limpeza seca de gases, já que estes não condensam em altas temperaturas (TIJMENSEN, 2000). Segundo Verschoor e Melman (1999), a remoção das partículas de cinzas é feita em lavadores de gases, filtros cerâmicos de alta temperatura ou ciclones. Estes últimos podem ser utilizados para o controle primário das partículas, mas são – geralmente – incapazes de satisfazer as especificações de qualidade do gás para aplicações como MACI ou TG. Em contrapartida, o sistema cerâmico de filtragem à alta temperatura pode ser utilizado para remover partículas em níveis aceitáveis para estas aplicações. Os filtros cerâmicos, por sua vez, podem suportar temperaturas da ordem de 800°C. Seu uso permite reduzir consideravelmente as perdas de calor relacionas ao resfriamento, limpeza do gás e posterior compressão até a pressão requerida pelo acionador primário. Um esquema geral do processo é apresentado na figura 3.32. Figura 3.32: Limpeza a seco à alta temperatura (HAMELINCK e FAAIJ, 2002). Catalisadores base níquel têm demonstrado alta eficiência para a decomposição do alcatrão a temperaturas em torno de 900°C. Porém, o enxofre pode danificar esses catalisadores (TIJMENSEN, 2000). Elucidativamente,na Tabela 3.13 é mostrado um resumo das vantagens e desvantagens de alguns dos métodos apresentados, utilizados no tratamento do gás de síntese. Dificuldade de controle, perdas no PCI e custos de investimento são alguns dos fatores considerados, já que constituem as principais considerações para a escolha de um sistema de limpeza. Um dos grandes problemas relacionados à utilização de equipamentos que usam água para a limpeza do gás é a sua disposição, pois a mesma, após ser utilizada, estará sem condições de ser descartada sem um prévio tratamento. 105 Sistema Vantagens Desvantagens Craqueamento térmico Controle simples e baixo custo Perdas no PCI e baixa eficiência Craqueamento catalítico Não altera o PCI e não há resfriamento do gás Alto custo e difícil controle Lavadores Fácil controle da poluição do ar Perdas no PCI, resfriamento do gás e produção de efluentes Tabela 3.13: Resumo comparativo entre sistemas de limpeza de gases de biomassa (BELGIORNO et al., 2003). 3.4.2.4. Utilização do gás de síntese Embora todas consistam em processos de geração alternativa, o gás produto da gaseificação pode ser utilizado, basicamente, para três diferentes finalidades, a saber: o aproveitamento térmico, a geração de energia elétrica e a síntese de combustíveis. A energia térmica pode ser aproveitada através da queima direta do gás em queimadores de secadores ou em caldeiras para geração de vapor de processo. Para tanto, o gás não necessita de tratamento, podendo ser utilizado diretamente da maneira como deixa do gaseificador. Por outro lado, os MACI e as TG, quando utilizados como acionadores primários, constituem algumas opções de equipamentos para a geração de energia elétrica. Porém, o gás necessita de tratamento para adequar os percentuais de alcatrão e particulado aos padrões de aceitabilidade do equipamento. Combustíveis como o hidrogênio e o metanol podem ser processados a partir do gás de síntese através, principalmente, do processo denominado reforma a vapor. A figura 3.33 consiste em um esquema de alguns dos métodos utilizados para limpeza deste gás, bem como algumas das tecnologias que podem ser usadas nas gerações alternativas mencionadas. Novamente o combustível considerado é a biomassa, mas não há diferenças significativas caso o combustível fosse trocado por RSU, por exemplo. 106 Figura 3.33: Processo de tratamento e utilização do gás de biomassa (BELGIORNO et al., 2003). 3.4.2.4.1. Aproveitamento térmico A combustão, já mencionada anteriormente, consiste na queima direta do gás produto para geração de calor e é considerada a forma mais simples de aproveitamento. Pode ser aplicada, em geral, para geração de vapor de processo em ciclos de potência e para processos de secagem. A co-combustão é uma alternativa interessante da utilização do gás produto para a geração de calor, no qual este seria utilizado em conjunto com outro combustível, a fim de complementar a energia necessária ao processo. Essa aplicação possibilita a diminuição da emissão de poluentes atmosféricos se comparada à queima exclusiva de um combustível fóssil. Um exemplo desse tipo de aplicação pode ser visto na figura 3.34, a qual representa a planta de Lahti, na Filândia. Neste caso, a queima do gás produto ocorre conjuntamente com carvão e gás natural, em uma caldeira que fornece vapor para o funcionamento de um ciclo de potência e para aquecimento distrital. Para essa planta houve uma redução em 10% dos índices de emissões de CO2 devido à implantação da queima do gás produto (BELGIORNO et al., 2003). 3.4.2.4.2. Geração de energia e elétrica A utilização do gás de síntese para a geração de energia elétrica pode ser feita 107 Figura 3.34: Planta de co-combustão do gás de biomassa de Lahti na Filândia (BELGIORNO et al., 2003). através de diferentes tipos de acionadores primários, também denominados, por alguns autores, como motor-geradores. Todavia, algumas alternativas podem ser mais atrativas que outras, devido aos diferentes tratamentos de limpeza exigidos por cada uma delas. Algumas das principais e mais utilizadas alternativas são tratadas a seguir. 3.4.2.4.2.1. Motores alternativos de combustão interna A maioria dos projetos envolvendo geração de energia elétrica a partir de materiais gaseificados utiliza motores alternativos de combustão interna (MACI) para a geração de potência de eixo. Esta será então transformada em energia elétrica através de um gerador, sendo que os projetos envolvem motores a gasolina, a gás e a diesel. Os gaseificadores normalmente empregados para esse fim são os de leito fixo co- corrente, por apresentarem, em sua configuração, características que fazem com que o gás gerado tenha menor concentração de alcatrão que outros gaseificadores. Segundo Devi et al. (2003), um dos maiores problemas relacionados à utilização de gás de síntese em motores de combustão interna é a remoção destas impurezas presentes no gás. A utilização do gás de síntese nos MACI foi difundida principalmente no período da segunda guerra mundial, embora tenha gradativamente perdido tal representatividade. Isso se deve à versatilidade dos motores a gasolina que surgiram no mercado. No entanto, em razão da atual alta do preço do petróleo e da busca pela utilização de fontes renováveis de energia, tem-se percebido uma retomada do antigo cenário. A eficiência obtida nos motores quando são operados com gás de síntese é menor se comparada aos combustíveis para os quais foram projetados. Isso se deve ao seu baixo 108 poder calorífico, ainda que os índices de emissão de poluentes sejam menores devido à biomassa, por exemplo, possuir valores baixos ou nulos de enxofre em sua composição. Na figura 3.35 é apresentada a variação da eficiência em função da potência de um motor diesel, funcionado com diesel e com a mistura de diesel e gás de síntese. A máxima eficiência obtida com a mistura foi de 14,71% e com diesel puro de 22,41%. Esses dados se referem a um motor Perkins de 49 HP (BHATTACHARYA et al., 2001). Figura 3.35: Eficiência do motor para utilização de diesel e mistura diesel + gás produto como combustível, com relação à variação de sua potência (Adaptado de BHATTACHARYA et al., 2001). Em motores a gasolina carburados, a mistura utilizada geralmente é na proporção de 1:1, podendo-se introduzi-la diretamente no local do carburador. A figura 3.36 representa um modelo de misturador que pode empregado para esse fim. Vale mencionar que o rotâmetro é um dispositivo utilizado para medir a vazão de um líquido ou gás num tubo e pertence à classe de medidores de área variável. O volume de gás de síntese que será consumido é de fundamental importância para o dimensionamento do gaseificador. 3.4.2.4.2.2. Motores stirling O motor Stirling é considerado uma máquina de combustão externa que não requer um gás extremamente limpo, necessitando apenas que tenha a energia adequada para seu funcionamento. Os maiores motores deste tipo operam na faixa de 10 a 40 kW. Estes necessitam, ainda, que gases de combustão para o seu acionamento estejam a elevadas temperaturas, em torno de 900 a 1200°C. Estes gases, por conseguinte, deixam o motor a uma temperatura da ordem de 600°C. http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADquido http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%A1s 109 Figura 3.36: Sistema de mistura para utilização de gás de biomassa em MACI (MENDIS et al., 1989). Jensen et al. (2006) desenvolveu um estudo sobre esses motores, cujo esquema do conjunto gaseificador e motor é representado na figura 3.37. Neste projeto, um gaseificador do tipo contracorrente fornece gás para o queimador, localizado na parte superior do motor Stirling. O gás é então queimado, com consequente fornecimento de energia para o motor. Figura 3.37: Esquema de gaseificador em motor Stirling (JENSEN et al.,2006). O ar utilizado para a combustão no queimador é pré-aquecido à temperatura de aproximadamente 600°C. Parte do gás de exaustão resultante da queima é utilizada conjuntamente com ar como agente de gaseificação (MENDIS, 1989). 110 3.4.2.4.2.3. Turbinas a gás As TG são disponibilizadas no mercado em potências que variam entre 30 e 250 kW e têm eficiência, geralmente, entre 26 e 28%, sendo que a potência sofre a influência da pressão e temperatura ambiente. Dentre as diversas aplicações para essas turbinas, destacam-se pequenos sistemas de cogeração no setor comercial (hotéis, pequenos hospitais, centros de esportes e residenciais), mas também em pequenas indústrias, especialmente nas quais o suprimento energético contínuo é necessário. Estes equipamentos são eficientes em relação à recuperação do calor, pois os gases de exaustão ainda contêm um bom potencial energético, podendo ser utilizado, por exemplo, para aquecer a água a temperaturas da ordem de 90°C (BAILEY et al., 2002). A qualidade do gás é um fator importante quando utilizado como combustível em TG e células a combustível, já que a presença de alcatrão e particulado pode significar uma redução considerável na vida útil desses acionadores. Como mencionado no item 3.4.2.3, isso se deve à ação corrosiva e abrasiva que estes exercem sobre o equipamento, diante das altas rotações e temperaturas atingidas durante o seu funcionamento. A gaseificação, aplicada conjuntamente com turbinas a gás é, geralmente, utilizada em ciclos combinados, no qual o gás produto é queimado em uma turbina a gás e os gases de escape são recuperados em uma caldeira que, por sua vez, irá gerar vapor para um ciclo de potência. A planta de gaseificação de Värnamo, na Suíça, é um exemplo de aplicação que utiliza esse tipo de arranjo, cuja representação é mostrada na figura 3.38. Figura 3.38: Diagrama do processo de gaseificação Värnamo (JENSEN et al., 2006). 111 3.4.2.4.2.4. Células a combustível Dentre as tecnologias de geração alternativa de energia, a célula a combustível pode ser considerada a mais ambientalmente correta, já que opera com baixo nível de ruído e reduzida emissão de poluentes, principalmente quando se utiliza o hidrogênio puro como combustível, pois haverá água como único subproduto (SILVEIRA, 1999). Segundo Bailey et al. (2002), a célula combustível opera, em geral, na faixa de 40 a 60% de eficiência, sendo que em regime de cogeração, pode chegar a valores em torno de 85%. Os gases quentes produzidos durante o processo de geração de energia são liberados a temperaturas entre 200 e 1000°C, dependendo do tipo de célula a combustível. Os projetos de células a combustível são normalmente classificados de acordo com seus eletrólitos. Estes podem ser escolhidos de acordo com a eficiência desejada para a aplicação, o combustível disponível para abastecê-las, dentre outros critérios importantes para o processo. Na tabela 3.14 são apresentadas algumas das características desse tipo de equipamento, estabelecendo uma comparação entre tais classificações. Alcalina (AFC) Ácido Fosfórico (PAFC) Carbonato fundido (MCFC) Óxido de sólido (SOFC) Eletrólito Solução alcalina de KOH Ácido fosfórico estabilizado Solução carbonato fundido Eletrólito sólido de cerâmica Potência (kW)e limitações .............................................................................. 78 3.3.4 Outros processos .............................................................................................. 79 3.3.4.1. Moldagem por sopro .................................................................................. 79 3.3.4.2. Termoformagem ......................................................................................... 80 3.3.4.3. Calandragem ............................................................................................. 81 3.3.4.4. Moldagem por compressão ........................................................................ 82 3.4. Aproveitamento energético ..................................................................................... 83 3.4.1. Pirólise .............................................................................................................. 85 3.4.2. Gaseificação ..................................................................................................... 87 3.4.2.1. Tipos de gaseificadores ............................................................................. 91 3.4.2.1.1. Gaseificadores de leito fixo .................................................................. 92 3.4.2.1.1.1. Gaseificador contracorrente .......................................................... 92 3.4.2.1.1.2. Gaseificador co-corrente ............................................................... 94 3.4.2.1.2. Gaseificadores de leito fluidizado ........................................................ 95 3.4.2.1.2.1. Gaseificador de leito fluidizado circulante ...................................... 95 3.4.2.1.2.2. Gaseificador de leito fluidizado borbulhante .................................. 96 2.4.2.2. Comparação entre gaseificadores .............................................................. 97 3.4.2.3. Limpeza do gás de síntese......................................................................... 98 3.4.2.4. Utilização do gás de síntese ..................................................................... 105 3.4.2.4.1. Aproveitamento térmico ..................................................................... 106 3.4.2.4.2. Geração de energia e elétrica ............................................................ 106 3.4.2.4.2.1. Motores alternativos de combustão interna ................................. 107 3.4.2.4.2.2. Motores stirling ............................................................................ 108 3.4.2.4.2.3. Turbinas a gás ............................................................................ 110 3.4.2.4.2.4. Células a combustível ................................................................. 111 4. ESTUDO DE CASO..................................................................................................... 113 4.1 Dados obtidos ........................................................................................................ 115 5. METODOLOGIA .......................................................................................................... 117 5.1. Considerações iniciais........................................................................................... 117 5.2. Taxa de geração de refugos ................................................................................. 118 5.3. Vazão mássica ...................................................................................................... 119 5.4. Potência térmica ................................................................................................... 120 5.5. Especificação do reator de gaseificação ............................................................... 121 5.6. Eficiência total do sistema ..................................................................................... 122 5.7. Capacidade produtiva ........................................................................................... 123 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO ................................................................................... 124 7. CONCLUSÕES ........................................................................................................... 129 8. BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................ 132 12 1. INTRODUÇÃO Pode-se definir industrialização como um processo de modernização pelo qual os meios de produção de uma sociedade passam, trazendo como consequências diretas o aumento da produtividade e a alteração da dinâmica das relações sociais. Na Idade Média, técnicas avançadas de manufatura, agricultura e artesanato iniciaram e conduziram os povos a um avanço na produção, sendo estes os primeiros fomentos ao desenvolvimento industrial. O primeiro país do mundo a atravessar uma fase de pleno desenvolvimento industrial foi a Inglaterra. No século XVIII, houve a chamada Primeira Revolução Industrial, momento a partir do qual este país passou a basear seu desenvolvimento econômico nas indústrias. Essa fase teve como principais características desde a invenção da máquina a vapor à exploração dos trabalhadores, dentre outros fatores, os quais impulsionaram o estabelecimento do sistema capitalista na economia. A Segunda Revolução Industrial, ocorrida no século XIX, esteve inserida no contexto do Imperialismo, em que os países partiam em busca de novas áreas e territórios de influência por todo o mundo. Assim, poderiam vender seus produtos industrializados e obter matérias-primas necessárias às suas indústrias. Pode-se dizer que essa Revolução acabou por expandir os principais grupos de países detentores de tecnologias e produções industriais, sendo um período caracterizado pela descoberta e utilização da energia elétrica e o uso do petróleo como importante matéria-prima dos processos industriais. Em um cenário mais contemporâneo, a Terceira Revolução Industrial, por sua vez, pode ser caracterizada pelo uso da informática e da telemática, as quais atribuíram maior velocidade às relações de trabalho e produção. Comparado a países como os Estados Unidos ou Japão, o Brasil sem dúvida iniciou com certo atraso seu processo de industrialização, experimentando um desenvolvimento industrial mais vigoroso e representativo apenas no governo de Getúlio Vargas, a partir do qual se investiu fortemente na industrialização de base. Em um segundo momento, no governo de Juscelino Kubitscheck, houve outro significativo desenvolvimento das indústrias de produção de bens de consumo, junto à proliferação das empresas multinacionais. Nas décadas de 70, 80 e 90, a industrialização do Brasil continuou a se desenvolver, embora o país tenha sofrido alguns períodos de estagnação e crises econômicas. Mudanças de governos e moedas, criação de novas leis, dentre outros acontecimentos, marcaram essa transformação no cenário brasileiro. Atualmente, o Brasil desfruta de um extenso parque industrial, capaz de produzir e distribuir uma vasta gama de produtos por seu território. Embora grande parcela da indústria nacional ainda seja voltada às commodities, o que atribui ao país certa carência ou até mesmo dependência em 13 alguns setores de tecnologia mais fina e elaborada, o parque industrial brasileiro vem passando por uma intensa fase de transformação, buscando acompanhar as tendências da crescente urbanização e do exacerbado aumento do consumo por grande parte da população. Nesse contexto, o mundo corporativo indubitavelmente se reestrutura, na incessante busca de sua parcela do mercado e da maximização de seus lucros, através da competitividade comercial. É de se esperar, porém, que essa dinâmica traga graves consequências ao meio ambiente e ao próprio Homem, como a futura escassez dos recursos naturais, a transformação do meio físico, a perspectiva da crise energética e do esgotamento da água potável,tecnologias de tratamento. Ademais, tal processo de reutilização não consiste simplesmente em reabastecer as máquinas de rotomoldagem com os refugos da forma como foram retirados dos moldes. Vale lembrar que estes últimos devem ser abastecidos pela resina polimérica em pó. Para tal, as peças não conformes devem passar pelos seguintes processos de retrabalho antes de se caracterizarem, novamente, como matéria-prima: 1. Limpeza, no intuito de remover poeiras e outros resíduos presentes; 2. Secagem; 3. Separação, por cores e tipo de pigmento; 4. Moagem, sendo esta mais complexa se comparada à convencional do processo. Por fim, após a moagem, a resina, já em pó, deve ser estocada em local distinto da resina virgem correspondente, uma vez que o material reprocessado é reutilizado em certa proporção, após mistura rigorosa com o material virgem. A impossibilidade de produzir peças utilizando-se apenas resinas reprocessadas, ou seja, a necessidade de respeitar determinada proporção em sua dosagem tem como razão o segundo e não menos importante fomento deste estudo de caso. Essa limitação explica-se em razão de alguns aspectos do reprocessamento mecânico dos refugos para a obtenção de resinas poliméricas, o qual apresenta alguns inconvenientes, a saber: Eventual incompatibilidade entre os diferentes polímeros, sendo necessária a adição de compatibilizantes; Presença de impurezas agregadas à resina durante as etapas do reprocessamento; 115 Após um determinado número de reprocessamentos, as propriedades do material podem tornar-se muito inferiores às do material virgem. Isso ocorre devido à degradação induzida pelas elevadas taxas de cisalhamento e temperaturas de reprocessamento. Em resumo, a resina termoplástica reprocessada, seja ela qual for, apresenta, invariavelmente, propriedades inferiores à da resina virgem. Diante de todos esses inconvenientes e ao fato dos refugos serem inerentes a quaisquer processos de transformação de polímeros, faz-se necessário o estudo de alternativas para o reaproveitamento das perdas por não conformidade. 4.1 Dados obtidos Foram coletados dois tipos de dados do processo de transformação de polímeros da indústria alvo do estudo de caso: a quantidade mensal total, em massa, da resina polimérica de PELBD utilizada como matéria-prima para o processo de rotomoldagem e o índice de não conformidade, ou seja, a ocorrência de refugo sem relação à produção total. O período de coleta dos dados foi do mês de março ao mês de agosto de 2013, totalizando dados globais do processo, ou seja, são consideradas as produções de todas as máquinas em operação, computando todos os turnos praticados pela indústria. No gráfico 4.1 é apresentada, então, a quantidade mensal total de PELBD utilizada na alimentação das máquinas de rotomoldagem nos meses considerados. Gráfico 4.1: Matéria-prima consumida (PELBD). 116 Por sua vez, o Índice de Não Conformidade (INC) do processo produtivo é apresentado no gráfico 4.2. Este índice consiste na porcentagem mensal total de refugos gerados pelo processo. Gráfico 4.2: Índice de não conformidade (INC). 117 5. METODOLOGIA Para avaliar a quantidade de energia elétrica passível de ser gerada pela instalação de um sistema de gaseificação na indústria alvo, contabilizou-se primeiramente a taxa de geração do material polimérico a partir da confecção de produtos não conformes. Será calculada, então, a energia térmica presente nos refugos, com consequente especificação do tipo de gaseificador a ser utilizado. Por fim, será apresentada a possibilidade de aproveitamento do gás produto da gaseificação para a geração alternativa de energia elétrica, a partir de um MACI. 5.1. Considerações iniciais Observa-se nitidamente, a partir do gráfico 4.1, uma tendência de crescimento da utilização da resina polimérica ao longo dos meses. Para estimar o futuro consumo de matéria-prima pela indústria, será utilizada uma projeção que leva em conta a média dos crescimentos mensais no período considerado. Na tabela 5.1 são apresentados os crescimento do consumo de matéria-prima de cada mês em relação ao anterior. Os dados, em porcentagem, foram arredondados na segunda casa decimal. Mês Crescimento (%) Abril 10,8 Maio 4,57 Junho 6,2 Julho 8,28 Agosto 5,95 Tabela 5.1: Crescimento do consumo de matéria prima. Logo, a Crescimento Mensal Médio (CMM) é de 7,16% no período considerado, ou seja, pode-se atribuir um crescimento médio deste valor à produtividade da empresa e, por conseguinte, ao consumo de PELBD. No intuito de considerar esse crescimento produtivo até a eventual instalação do sistema de gaseificação, propõe-se um cronograma, o qual servirá de base para a estrutura dos cálculos posteriores. As etapas do cronograma e as respectivas estimativas de suas durações são listadas segundo a tabela 5.2. 118 Etapas Duração (dias) Avaliação da proposta pela diretoria da empresa 20 Cotações dos equipamentos (gaseificador e unidade motor-gerador) 30 Adaptação do espaço e infra-estrutura para instalação do sistema 20 Reavaliação da proposta com investimentos e retorno já calculados 20 Compra e instalação dos equipamentos 15 Treinamento e inicialização do sistema 15 Tabela 5.2: Etapas do cronograma e as respectivas estimativas de suas durações. Dessa maneira, seriam necessários quatro meses para a execução de todas essas etapas. Considerando, ainda, que a proposta fosse apresentada à diretoria da empresa em janeiro de 2014, o cronograma seria cumprido em abril deste mesmo ano. No que tange a utilização do INC nos cálculos posteriores, também será considerada uma média dos valores mensais, porém, com referência apenas ao período de março a agosto, tal como apresentados no gráfico 4.2. Neste caso, essa consideração é plausível uma vez que, apesar de variar de mês a mês, o índice de refugos não apresenta um padrão de crescimento, como observado na utilização da matéria-prima, em decorrência do crescimento produtivo. Logo, o Índice Médio de Não Conformidade (IMNC) do processo de transformação polimérica será considerado como a média aritmética dos INC apresentados no gráfico 4.2, resultando em 5,97%, ou seja, IMNC = 0,06, aproximadamente. 5.2. Taxa de geração de refugos Para realizar os cálculos do aproveitamento energético a partir da eventual aquisição do sistema de gaseificação, não é razoável considerar a projeção do consumo mensal de matéria-prima apenas do mês de abril, data de inicialização do uso do sistema de gaseificação. Isso porque se obteria um resultado pouco fidedigno em razão de tal consumo não estar estabilizado. Portanto, será considerada a média das projeções de demanda mensal de polímero de um ano após a conclusão das etapas do cronograma, ou seja, de abril de 2014 a abril de 2015. Estes valores, apresentados na tabela 5.3, são estimados segundo o CMM calculado no item 3.1. 119 IMNCDPMMMP Mês Consumo de PELBD (kg) abr/14 128309,6 mai/14 137496,6 jun/14 147341,3 jul/14 157891 ago/14 169196 set/14 181310,4 out/14 194292,2 nov/14 208203,5 dez/14 223110,9 jan/15 239085,6 fev/15 256204,2 mar/15 274548,4 abr/15 294206,1 Tabela 5.3: Média das projeções de consumo mensal de PELBD de um ano após a conclusão das etapas do cronograma. Logo, pode-se estabelecer a Demanda Polimérica Mensal Média (DPMM) de PELBD para o processo, também a partir da média aritmética dos valores apresentados na tabela 5.1. Esse cálculo resulta em uma massa de 200861,2 kg de resina polimérica, ou seja, DPMM = 200861,2 kg. Para determinar a Massa Polimérica Mensal Média (MP) de PELBD destinada ao abastecimento do sistema de gaseificação, basta multiplicar a DPMM pelo IMNC, como indicado na equação 5.1: (5.1) Obtém-se, assim, o valor de MP de 12051,67kg. 5.3. Vazão mássica Embora ambos os conceitos de vazão convencional e de Vazão Mássica (VM) refiram-se a um escoamento por unidade de tempo, a primeira considera um fluxo volumétrico, enquanto a segunda um fluxo de massa. Neste caso, a VM consiste na quantidade de massa que alimentará o gaseificador por segundo e pode ser calculada a partir da equação 5.2: 120 TU MP VM (5.2) Este cálculo se baseia na MP e considera um Tempo de Utilização (TU) segundo a média de 25 dias de produção contínua por mês, ou seja, com 24 horas diárias de funcionamento, sendo que cada hora possui 3600 segundos. Chega-se, portanto, a uma VM de aproximadamente 0,00558 kg/s. 5.4. Potência térmica A Potência Térmica (PT), expressa em Watts [W], pode ser definida como a quantidade de energia fornecida pelo reator de gaseificação por unidade de tempo e pode ser dada pela multiplicação da VM pelo PCI, conforme a equação 5.3: PCIVMPT (5.3) Como visto no item 3.1.3.2, o PCI pode ser calculado através de diversas equações propostas empiricamente por diferentes pesquisadores e cientistas. Neste trabalho, será considerada a fórmula proposta pelo cientista russo Dimitri Mendeleiev, de acordo com a equação 3.1. Substituídas as porcentagens de cada elemento químico da composição elementar do plástico, extraídas da tabela 3.1, chega-se a um PCI de 25280,86 kJ/kg. Vale ressaltar que não seria pertinente extrair este valor, por exemplo, da tabela 3.2, já que neste caso foi computada a umidade do plástico, proveniente dos RSU. Por fim, da equação 5.3 resulta uma PT = 141,05 kW, aproximadamente. Este valor leva em consideração um funcionamento contínuo do reator de gaseificação, ou seja, parte de uma alimentação constante ao longo dos 25 dias efetivos de produção considerados. A título de complementar o estudo e fornecer outra possibilidade para o funcionamento do sistema de gaseificação, é possível considerar um regime de funcionamento intermitente para o sistema, ou seja, apenas em alguns intervalos de tempo durante cada mês. Para determinar uma nova PT, considerando um TU de cinco dias ou de 120 horas do sistema de gaseificação por mês, basta utilizar novamente a equação 5.2, referente ao cálculo da VM. Neste caso, seria obtida uma VM de 0,0279 kg/s, o que resultaria em uma PT = 705,27 kW, aproximadamente, de acordo com a equação 5.3. 121 MPPCIET TU ET PT Vale ressaltar que a Potência Térmica (PT) poderia ser calculada de outra maneira, a partir da Energia Térmica (ET), dada em Joules [J]. Esta grandeza consiste na quantidade de energia disponível em uma determinada quantidade de massa de certo material. Neste caso, desejar-se-ia obter a Energia Térmica Mensal (ETM), dada na mesma unidade, contida nos produtos não conformes, a qual poderia ser calculada através da equação 5.4: (5.4) Substituindo-se os valores de PCI e MP, ter-se-ia, enfim, ET = 304676, 58 MJ, aproximadamente. A PT, por conseguinte, seria determinada de outra forma, através da equação 5.5, que relaciona a ET e o TU do sistema de gaseificação, da seguinte forma: (5.5) Por fim, seriam obtidos os mesmos valores de PT obtidos através da equação 5.3: 141,05 kW e 705,27 kW, respectivamente, para o uso contínuo e intermitente do reator de gaseificação. 5.5. Especificação do reator de gaseificação A especificação do tipo de gaseificador adequado aos parâmetros obtidos pode ser realizada com base em diversos critérios, dentre os quais se destacam: A escala de aplicação de tecnologias de gaseificação de biomassa e outros materiais combustíveis; O rendimento usual de cada tipo de gaseificador; O sistema de funcionamento mais adequado ao espaço físico de aplicação; A diferença entre os sistemas admissíveis de limpeza do gás de síntese. Embora os dados da figura 3.30 se refiram à gaseificação de biomassa, reitera-se que não há diferenças significativas apenas pelo fato da gaseificação proposta a partir do estudo de caso utilizar plástico como material combustível. Tal como explicado no item 3.4, a gaseificação necessita apenas de um MCC como combustível, que pode ser biomassa, plástico, dentre outros materiais também mencionados. Considerando-se, pois, as escalas de aplicação das diferentes tecnologias de reatores de gaseificação, apresentadas na figura 3.30, ambas as PT obtidas no item 5.4 – 122 EGMEGETS relativas ao uso contínuo e intermitente do sistema – condizem com os gaseificadores de leito fixo co-corrente. Segundo Martínez et al. (2009), esse tipo de gaseificador apresenta, em média, uma eficiência de 50 a 80%. Logo, para efeito deste estudo de caso, será considerada a média destes valores, sendo a Eficiência do Gaseificador (EG) de 65%, ou seja, EG = 0,65. Vale ressaltar que o gaseificador de leito fixo co-corrente possui alto potencial de conversão de carbono, elemento que integra boa parte do material plástico. Além disso, esta matéria-prima não possui umidade em sua composição, o que satisfaz a desvantagem deste gaseificador em relação à necessidade de utilização de um combustível de baixa umidade. Ademais, os gaseificadores de leito fixo co-corrente produzem baixos teores de alcatrão quando comparados a outras configurações, o que permite a implantação de um sistema mais simples para a limpeza do gás de síntese. 5.6. Eficiência total do sistema Como tratado no item 3.4.2.4.2, existem várias possibilidades para a escolha do sistema motor-gerador, o qual será instalado junto ao reator de gaseificação para transformar efetivamente o gás de síntese em energia elétrica. Neste caso, foi escolhido um MACI, devido ao fato de este tipo de acionador primário ser o mais utilizado junto ao gaseificador co-corrente. Vale lembrar que isso ocorre principalmente em função da satisfatória compatibilidade entre esses equipamentos no que se refere à qualidade da limpeza do gás de síntese. Segundo Alanne (2004), a eficiência elétrica de um MACI se encontra na faixa de 25 a 45%, enquanto que a Eficiência Global do MACI (EGM) permanece entre 75 e 85%. Esta última é denominada global ou total por já considerar a recuperação energética a partir dos gases de exaustão e do sistema de resfriamento do bloco do motor, ou seja, ela contabiliza os rendimentos elétrico e térmico. Considerando-se, para este caso, uma EGM de 80%, já é possível calcular a Eficiência Total do Sistema (ETS), composto pelo gaseificador de leito fixo co-corrente e pelo MACI como sistema motor-gerador. Esta eficiência se da a partir da multiplicação das eficiências de cada componente, como elucidado na equação 5.6: (5.6) 123 ETSPTCP CP QP FU Obtém-se, então, um valor de ETS de 0,52. 5.7. Capacidade produtiva A Capacidade Produtiva (CP) de geração de energia elétrica, expressa em Watts [W], obtida a partir do sistema completo de gaseificação por ser obtida pela equação 5.7: (5.7) Considerando os dois valores de PT obtidos no item 5.4, obtém-se CP = 73,35 kW e 366,75 kW, respectivamente, para o uso contínuo e intermitente do reator de gaseificação. Estes valores também foram arredondados na segunda casa decimal. Por fim, a CP é o parâmetro que determina a Potência Instalada (PI) para o acionador primário a ser escolhido, sendo esta grandeza a capacidade total de geração da unidade motor-gerador, ou seja, é a potência elétrica nominal especificada pelo fabricante do equipamento. Em aplicações nas quais a quantidade de combustível envolvida na gaseificação não apresenta crescimentos significativos, a CP corresponde e indica claramente o parâmetro PI requerido para a máquina geradora. Caso contrário, torna-se necessária uma análise da relação entre a ociosidade do sistema gaseificador e a disponibilidadepara aumento da capacidade produtiva. Em outras palavras, é preciso avaliar por quanto tempo uma determinada PI será capaz de processar todo o gás de síntese produzido pelo reator de gaseificação, levando em conta os eventuais aumentos da quantidade de combustível de alimentação. Neste sentido, utiliza-se o Fator de Utilização (FU) de um sistema, o qual corresponde à fração de utilização do equipamento. Em outras palavras, é a quantidade processada (QP) de combustível no equipamento dividida pela CP, conforme a equação 5.8: (5.8) Se FU for maior que um, o equipamento está com capacidade menor que a demanda de funcionamento, ao passo que se o valor for menor que um, o equipamento está ocioso, ou seja, a capacidade é maior que a demanda. 124 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO Uma potência instalada de 1 kW é suficiente para alimentar alguns aparelhos de uso doméstico, tais como refrigeradores, computadores, aparelhos de som, máquinas de lavar roupa, televisões, entre outros equipamentos de consumo relativamente baixo. Microgeradores e minigeradores solares fotovoltaicos (FV) são sistemas de geração elétrica de pequena potência, normalmente instalados para produzir energia suficiente para alimentar uma casa ou até mesmo um edifício de pequeno porte. Segundo a Resolução Normativa 482/2012 da ANEEL, enquanto os microgeradores são sistemas com potência de até 100 kW, os minigeradores integram os acima de 100 kW e até 1 MW (ANEEL, 2012). Com relação à indústria alvo deste estudo de caso, é possível observar que mesmo para o caso de implementação do sistema de gaseificação em regime intermitente, este não seria viável, ao passo que a geração de potência elétrica seria relativamente baixa. Não há como comparar o consumo de uma residência ao consumo de uma indústria, ainda que de médio porte. Esta classe de indústrias já costuma comportar extensos galpões com uma série de máquinas e equipamentos, consumindo uma potência elevada. No entanto, quando é levado em consideração o porte e o respectivo consumo de matéria prima da indústria de estudo de caso é possível mensurar a partir de que condições se tornaria viável a instalação de um sistema de gaseificação. Existem, sem dúvidas, diversas outras indústrias de transformação de polímeros, as quais, devido ao maior tempo de mercado e eventuais parcerias com grandes empresas multinacionais, apresentam um consumo de resinas poliméricas muito mais elevado. Nesta realidade, outras escalas de capacidades produtivas seriam obtidas, ainda que a geração de refugos fosse mais reduzida. Ademais, tal como mencionado na proposta de estudo de caso, a produção de refugos é inerente a quaisquer processos produtivos e alguns destes possuem como característica, ainda, um maior índice de não conformidade, tornando os processos de recuperação energética mais atraentes. Por fim, ainda existe a possibilidade de encontrarem-se grandes indústrias com elevados índices de não conformidade. Estas seriam as melhores candidatas à adoção de um processo de recuperação energética como a gaseificação. Cabe lembrar que os processos de transformação de polímeros permitem a utilização de material reprocessado junto à matéria-prima virgem, mas, muitas vezes, não equivalente à quantidade, em volume, de refugos gerados. Assim, em casos de altos 125 índices de não conformidade, têm-se maiores chances de viabilizar sistemas de recuperação energética. Referindo-se novamente à indústria de estudo de caso, seria possível defender a ideia de que mesmo sendo insuficientes para alimentar um grande número de máquinas, as potências obtidas já justificariam a instalação de um sistema gaseificador, levando-se em conta os aspectos ambientais. A partir dos conceitos abordados no item 3.1.7.6, sabe- se a importância de tentar reduzir, ao máximo, a quantidade de resíduos a serem dispostos. Há de se considerar, porém, uma série de entraves com relação à aquisição desses sistemas por parte de empresas de pequeno e médio porte. A partir do uso não contínuo do sistema de gaseificação, seria pertinente computar a ociosidade como um aspecto negativo para a viabilização da proposta de geração alternativa de energia elétrica. Sendo assim, reforça-se o fato da maior viabilidade deste tipo de estratégia em grandes indústrias. Nestas, a quantidade de combustível para a gaseificação é suficientemente grande a ponto de garantir o abastecimento de um sistema gaseificador em regime contínuo, eliminando aspectos negativos como a ociosidade. Outro fator que poderia desmotivar a aquisição de um sistema de gaseificação por uma indústria consiste na necessidade de manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos envolvidos no processo. Embora se respeite os níveis de limpeza do gás de síntese exigidos pela unidade motor-gerador, qualquer equipamento requer manutenções periódicas, em maior ou menor frequência. No entanto, ainda do ponto de vista econômico, vale ressaltar que para encaminhar os rejeitos dos processos de transformação termoplástica para a devida disposição final, as indústrias são compelidas a contratar empresas terceirizadas, incumbidas de levá-los até os aterros sanitários apropriados. Este serviço não costuma apresentar um custo irrisório e, embora não seja comum, em casos nos quais a indústria esteja localizada longe dos grandes centros geradores e dos principais pólos industriais, o transporte para disposição final pode representar um investimento muito mais alto. Além disso, também é minimizado o inconveniente das operações de manutenção quando se considera a instalação de um sistema de gaseificação em indústrias de grande porte, as quais já possuem – invariavelmente - determinada infra-estrutura interna de manutenção, de modo a evitar a contratação de mão-de-obra terceirizada, a qual configuraria gastos adicionais à empresa. Ainda neste sentido, o armazenamento dos refugos deve ser computado como gasto, já que se ocupa, efetivamente, um local da indústria que poderia ser utilizado para outra finalidade mais útil e rentável. Quanto maior a geração de peças não conformes, maior o local exigido para armazená-las ou mais alta e recorrente a necessidade de 126 encaminhá-las para a disposição final. De qualquer maneira, o investimento financeiro é diretamente proporcional à geração desses produtos. Não haveria como desconsiderar, de fato, os aspectos ambientais que dizem respeito ao assunto. Sabe-se que os aterros sanitários possuem, como mencionado no item 3.1.7.6, uma determinada vida útil, de maneira que se hoje existem áreas suficientemente capazes de receber todos os rejeitos produzidos pelas indústrias e pela população, no futuro isso pode deixar de ser uma realidade. Pesquisadores e estudiosos do assunto defendem que a escassez de áreas factíveis à construção de aterros é inevitável, podendo ocorrer inclusive em um futuro próximo. Além disto, cabe recordar que não é nada simples o processo de determinação de uma área propícia à construção de um aterro sanitário e que são inúmeras e rigorosamente criteriosas as etapas a serem cumpridas, perante as leis e os aspectos econômicos, no intuito de assegurar um bom projeto. Portanto, quando se tornar muito difícil a instauração de um novo aterro sanitário ou até mesmo não houver áreas disponíveis para tal, as empresas que já tiverem aderido a procedimentos de tratamento e recuperação de seus resíduos estarão não totalmente despreocupadas, pois poder-se-á enfrentar a escassez de água e outros recursos, mas talvez terão eliminado um intricado inconveniente. Antes do surgimento das leis ambientais, o meio físico (ar, água e solo) era encarado como sendo livremente disponível para receber os resíduos advindos das atividades antrópicas, o que para a época não era tão problemático quanto hoje, uma vez que a população era esparsa e havia bem menosprodutos industrializados em comparação com os dias atuais (BULCHHOLZ, 1998). Nesse contexto, o comportamento das empresas associava-se a uma estratégia passiva, uma vez que elas se limitavam a diluir e dispersar os poluentes gerados. Essas ações não traziam retorno econômico à empresa, somente custos, pois o gasto era relacionado aos resíduos, emissões e efluentes, e não se caracterizavam como um investimento no processo produtivo ou no próprio produto. A empresa somente realizava tais ações porque era obrigada pela legislação. Contudo, a postura empresarial com relação à área ambiental começou a mudar, visto que “os gastos com proteção ambiental começaram a ser vistos pelas empresas líderes não primordialmente como custos, mas sim como investimentos no futuro e, paradoxalmente, como vantagem competitiva. A atitude passou de defensiva e reativa para ativa e criativa” (CALLENBACH et al., 1993). Essa mudança de atitude deveu-se, em grande parte, à constatação dos reais custos associados ao tradicional gerenciamento de resíduos, uma vez que, além dos custos contabilizados com o tratamento e disposição final, havia outros custos 127 relacionados e que, usualmente, não eram levados em consideração como, por exemplo, a perda de matérias primas, os gastos com água e energia, as não conformidades legais e normativas e aqueles relacionados à imagem da empresa. Estes últimos são considerados custos intangíveis e não podem ser estimados a partir de relações matemáticas. Foi nesse contexto que algumas indústrias passaram a adotar estratégias que visavam a reduzir a quantidade de resíduos gerados por meio de técnicas de reutilização, reciclagem (interna ou externa ao processo) e recuperação de materiais. Segundo Pereira e Toschetto (2004), as práticas de tratamento de resíduos geram como consequências, além da redução dos impactos ambientais, a economia de recursos e ganhos econômicos à empresa. Quando são levados em consideração tanto os aspectos econômicos quanto os ambientais e há uma tentativa de equilibrá-los, configura-se um sistema de gestão ambiental empresarial, o qual, ainda segundo os autores, é extremamente interessante para um setor que objetiva o lucro. Assim, na visão empresarial, a inclusão da questão ambiental no negócio deve ser vista como uma oportunidade competitiva e um diferencial estratégico, podendo se tornar um fator determinante para o sucesso ou fracasso das organizações, a fim de buscar não apenas a satisfação imediata do cliente, mas sim da sociedade atual e das gerações futuras. Ainda neste contexto, não somente o produto seria associado às práticas exemplares, mas a própria empresa será vinculada a uma imagem positiva, refletindo a satisfação dos consumidores. Para isso, a gestão ambiental e empresarial deve ser organizada de modo a incluir as questões ambientais nas principais decisões estratégicas e operacionais de responsabilidade da empresa, de acordo com as premissas da sustentabilidade. Este último conceito tem sido muito utilizado como fator de diferenciação entre as empresas e indústrias de ponta, as quais se adequam a práticas sustentáveis e ganham, inevitavelmente, um destaque na mídia, além de posicionar sua imagem em outro patamar: o das organizações que não visam simplesmente ao lucro, mas buscam-no de maneira sensata e ambientalmente correta. Dependendo da estrutura organizacional da empresa, a gestão ambiental pode proporcionar soluções integradas às diversas áreas funcionais (produção, comercial, recursos humanos, financeira, contabilística, marketing, etc.) ou junto aos principais processos de negócios (planejamento estratégico, desenvolvimento de tecnologia, desenvolvimento de produto, entrega do produto, entre outros), com o objetivo de evitar que impactos ambientais ocorram. Ainda que se considere essa preocupação com o meio ambiente a partir de ações sustentáveis como simples fator de promoção mercadológica ou pura estratégia de 128 marketing, esta postura ainda é vantajosa se comparada aos métodos tradicionais de desenvolvimento empresarial. 129 7. CONCLUSÕES Inicialmente, cabe afirmar que a proposta de estudo de caso e o principal objetivo deste trabalho foram plenamente desenvolvidos. A proposta para o estudo de caso consistia, basicamente, na coleta dos dados de consumo de matéria-prima da indústria alvo e de sua geração de produtos não conformes pelo processo da rotomoldagem, os quais foram obtidos e apresentados em detalhes. O principal objetivo, por sua vez, compreendia, primeiramente, a mensuração da quantidade de energia possível de ser gerada a partir do poder calorífico da resina polimérica, ou seja, da utilização da matéria- prima presente nos produtos não conformes como combustível para o processo de gaseificação. A partir deste resultado, foi considerado um MACI como o responsável por efetivamente gerar a potência elétrica desejada, a partir da utilização do gás de síntese proveniente do reator de gaseificação. Desse modo, a partir da análise da escala de grandeza da potência obtida, estabeleceu-se a devida comparação entre as vantagens e as desvantagens da eventual utilização de um sistema de gaseificação para esse tipo de aplicação. Finalmente, estendeu-se esta análise a outros casos, englobando diferentes capacidades e características produtivas das possíveis indústrias de transformação de polímeros existentes no mercado. Especificamente com relação ao estudo de caso, este poderia ser tratado como um fator desmotivador quanto ao uso de um gaseificador para o aproveitamento energético. No entanto, a baixa capacidade produtiva obtida decorre do baixo consumo de matéria- prima desta indústria, representante do setor industrial de médio porte. É inegável a presença de empresas de grande porte no mercado, as quais consomem quantidades elevadíssimas de matéria-prima. Nestas indústrias, além de lograrem-se capacidades produtivas eminentemente expressivas, não há a necessidade de armazenar os produtos não conformes por longos períodos de tempo, já que seu volume justificaria uma alimentação contínua do gaseificador. Especialmente em casos cujo índice de não conformidade seja elevado, atingindo valores superiores a 10%, tem-se mais um forte argumento a favor da instalação do sistema gaseificador. Em resumo, todos os argumentos contra ou a favor da utilização de um sistema de recuperação energética são proporcionais, em maior escala, à estrutura da indústria, ou seja, à sua escala de produção, a qual determina o consumo de matéria-prima para o processo de transformação polimérica. Em menor escala, tem-se a consideração dos índices de não conformidade. De nada adianta haver elevados consumos de matéria-prima com ínfimos índices de não conformidade ou apresentar altas gerações de refugos quando 130 a produtividade é insignificante. Parte-se do princípio, entretanto, que nenhuma dessas situações é plausível. Tal como mencionado anteriormente, refugos são inerentes aos processos de transformação polimérica, anulando a possibilidade da primeira situação, enquanto que a segunda poderia ser apenas transitória ou adaptativa, caso contrário, provocaria a falência da empresa. Dessa forma, parte considerável dos possíveis empecilhos relacionados à aquisição de tal sistema seria sanada ou pelo menos minimizada quando se considera empresas de grande porte. No que diz respeito à efetiva análise das vantagens e desvantagens da aquisição de um sistema de gaseificação, dois aspectos foram considerados como fundamentais: o econômico e o ambiental. Enquanto o primeiro contempla, essencialmente, eventuais reduções ou aumentos dos gastos da empresa, o segundo compreende uma abordagem mais subjetiva do assunto. Embora os impactos ambientais já sejambem difundidos, estes não costumam ser considerados no plano de desenvolvimento de boa parte das empresas, mesmo dentre as relativamente mais desenvolvidas. Estas podem ainda realizar, por vezes, uma análise puramente financeira acerca de quaisquer mudanças, ponderando apenas cálculos e estimativas dos investimentos monetários exigidos. Desconsideram-se, em contrapartida, os aspectos menos palpáveis, embora sejam de extrema relevância. O ponto de vista ambiental, ainda que defendido isoladamente, já deveria representar uma motivação suficiente para a efetiva consideração da adoção de sistemas de tratamento e recuperação energética de resíduos. A problemática da geração de resíduos sólidos e o consequente esgotamento das áreas destinadas aos aterros sanitários configuram uma realidade incontestável, da qual ninguém se encontra totalmente livre de suas consequências. Não obstante a análise de viabilidade da recuperação energética esteja alicerçada apenas nos aspectos econômicos, é inegável que as indústrias que se adaptarem à redução da geração de resíduos estarão melhor guarnecidas para o futuro, inclusive financeiramente, evitando situações de colapso produtivo ou de outra espécie. Ademais, é certo que as indústrias despendem mensalmente uma quantia razoável para se livrar de seus resíduos. O volume de geração e, consequentemente, os gastos com o transporte costumam ser proporcionais ao tamanho da organização. Por fim, um forte fator de motivação foi apresentado a partir da associação dos aspectos econômicos aos ambientais, expondo o conceito de sistema de gestão ambiental empresarial, o qual levaria em conta ambos os aspectos. Neste sentido, obter-se-ia um equilíbrio não prejudicial à lucratividade da empresa. Pelo contrário, a adesão aos princípios da sustentabilidade poderia incrementar sensivelmente a imagem da empresa perante a sociedade, de modo a conduzi-la a um crescimento mais sólido e estruturado. 131 Porém, para que a gestão ambiental empresarial seja efetiva, ela não pode ser realizada de modo paralelo às principais áreas funcionais da empresa e aos seus principais processos de negócios operacionais e estratégicos. Em outras palavras, não deve se organizar somente para reparar os danos ambientais cometidos por decisões técnicas e gerenciais que não contemplaram, no momento adequado, essa área do conhecimento. Pelo seu caráter preventivo, ela precisa ser estruturada de modo a participar efetivamente nas principais decisões dessas áreas ou processos. Percebe-se, portanto, que há ganhos econômicos, ambientais e sociais com a adoção de sistemas de tratamento de resíduos, não como uma área ou processo isolado, mas por meio de uma gestão integrada com as decisões empresariais. Isso pode gerar possibilidades de melhorias da sustentabilidade da empresa, incluindo produtos, com benefícios também para a sociedade em geral. Os processos de tratamento e recuperação, embora contribuam para a minimização da geração de resíduos, não se constituem em soluções definitivas, pois partem do pressuposto de que o resíduo existe e também porque geram subprodutos e envolvem gastos de energia e outros custos operacionais. No entanto, é sensato considerar que essas iniciativas poderiam prover uma forma mais equilibrada e sustentável de ciclo de vida para as indústrias a elas adeptas. Portanto, embora pareça um pouco distante da realidade da empresa de estudo de caso a implantação de um sistema de gaseificação, este estudo e consequente resultado servem de fomento às indústrias já consolidadas no mercado, as quais são inegavelmente capazes de viabilizá-lo sem deixar de lado os ideais capitalistas, mas aderindo, ainda que aos poucos, ao conceito de gestão ambiental empresarial. Poder-se-á, desta maneira, prolongar ou até mesmo evitar calamidades, como o esgotamento de áreas propícias à instalação de aterros sanitários. 132 8. BIBLIOGRAFIA [ABIQUIM] Associação Brasileira da Indústria Química. Anuário da Indústria química 2008. Ano 34. São Paulo. 2009. [ABNT] Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 10.004: Resíduos sólidos – Classificação. Rio de Janeiro. 2004 . NBR 10.006: Procedimento para obtenção de extrato solubilizado de resíduos sólidos. Rio de Janeiro. 2004. [ABRELPE] Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Urbana e Resíduos Especiais. 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Zhang, R.; Brown, R. C.; Suby, A.; Cummer, K. Catalytic destruction of tar in biomass derived producer. Energy Conversion and Management. V. 15. 2004. p. 995-1014. 1. INTRODUÇÃO 1.1. A problemática dos resíduos sólidos 1.2. Desenvolvimento sustentável 2. OBJETIVOS 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 3.1. Resíduos sólidos 3.1.1. Definições 3.1.2. Conceitos iniciais 3.1.3. Caracterização 3.1.3.1. Composição elementar 3.1.3.2. Poder calorífico 3.1.4. Classificação 3.1.5. Acondicionamento e armazenamento 3.1.6. Coleta e transporte 3.1.7. Tratamento e destinação final 3.1.7.1. Triagem 3.1.7.2. Reciclagem 3.1.7.3. Compostagem 3.1.7.4. Digestão anaeróbia 3.1.7.5. Incineração 3.1.8. Disposição final 3.2. Polímeros 3.2.1. Nomenclatura 3.2.2. Histórico 3.2.3. Origem e utilização 3.2.4. Classificação 3.2.5. Polietileno 3.2.5.1. Polietileno linear de baixa densidade 3.2.6. Biodegradação e reciclagem 3.3. Processos produtivos industriais de transformação de polímeros 3.3.1. Moldagem por injeção 3.3.1.1. Histórico 3.3.1.2. Etapas gerais do processo 3.3.1.3. Tipos de injeção 3.3.1.4. Máquinas de injeção 3.3.1.5. Parâmetros do processo 2.3.2. Extrusão 3.3.2.1. Histórico 3.3.2.2. Etapas gerais do processo 3.3.2.3. Tipos de extrusão 3.3.2.4. Máquinas de extrusão 3.3.2.5. Parâmetros do processo 2.3.3. Rotomoldagem 3.3.3.1. Histórico 3.3.3.2. O processo 3.3.3.2.1. Dosagem do pó 3.3.3.2.2. Aquecimento do molde 3.3.3.2.3. Resfriamento e rotação 3.3.3.2.4. Desmoldagem 3.3.3.3. Matéria-prima 2.3.3.3.1. Moagem 3.3.3.3.2. Pigmentação 3.3.3.4. Tipos de máquinas 3.3.3.4.1 Rock and Roll 3.3.3.4.2. Clamshell 3.3.3.4.3. Shuttle 3.3.3.4.4. Turret 3.3.3.5. Vantagens e limitações 3.3.4 Outros processos 3.3.4.1. Moldagem por sopro 3.3.4.2. Termoformagem 3.3.4.3. Calandragem 3.3.4.4. Moldagem por compressão 3.4. Aproveitamento energético 3.4.1. Pirólise 3.4.2. Gaseificação 3.4.2.1. Tipos de gaseificadores 3.4.2.1.1. Gaseificadores de leito fixo 3.4.2.1.1.1. Gaseificador contracorrente 3.4.2.1.1.2. Gaseificador co-corrente 3.4.2.1.2. Gaseificadores de leito fluidizado 3.4.2.1.2.1. Gaseificador de leito fluidizado circulante 3.4.2.1.2.2. Gaseificador de leito fluidizado borbulhante 2.4.2.2. Comparação entre gaseificadores 3.4.2.3. Limpeza do gás de síntese 3.4.2.4. Utilização do gás de síntese 3.4.2.4.1. Aproveitamento térmico 3.4.2.4.2. Geração de energia e elétrica 3.4.2.4.2.1. Motores alternativos de combustão interna 3.4.2.4.2.2. Motores stirling 3.4.2.4.2.3. Turbinas a gás 3.4.2.4.2.4. Células a combustível 4. ESTUDO DE CASO 4.1 Dados obtidos 5. METODOLOGIA 5.1. Considerações iniciais 5.2. Taxa de geração de refugos 5.3. Vazão mássica 5.4. Potência térmica 5.5. Especificação do reator de gaseificação 5.6. Eficiência total do sistema 5.7. Capacidade produtiva 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO 7. CONCLUSÕES 8. BIBLIOGRAFIAo aumento do volume de resíduos produzidos e a problemática de sua disposição, dentre outros problemas. A produção de resíduos, embora inerente a toda e qualquer forma de vida ou atividade, vem se acelerando de forma exponencial em vista dessa dinâmica. Diante de possíveis entraves ao seu próprio desenvolvimento, não resta alternativa ao Homem que não se preocupar em resolvê-los ou ao menos minimizá-los. Dessa forma, aquela antiga visão, da Natureza como fonte inesgotável de recursos materiais e energéticos e que possui capacidade infinita de deposição e depuração é aos poucos substituída por um modelo com base no ciclo de vida e integração da gestão dos resíduos. Segundo Zanin (2004), esse conceito requer a montagem de um sistema complexo de procedimentos e ações em que a quantidade de resíduos a ser reaproveitada dentro de um sistema produtivo ou de consumo seja cada vez maior e que a quantidade a ser disposta, menor. 1.1. A problemática dos resíduos sólidos No início do século XXI, com uma população estimada de 6,2 bilhões, eram gerados mais de um bilhão de toneladas de resíduos sólidos por ano (ZANIN, 2004). Segundo Borges (2000), em 2000, o Brasil produziu o dobro da quantidade de resíduos que produzia 15 anos antes. Sabe-se, por certo, que estes índices de produção de resíduos estão intimamente ligados tanto ao crescimento populacional quanto às mudanças de comportamento da sociedade. Como consequência inevitável deste processo, tem-se uma série de impactos ambientais. O agravamento da situação ambiental iniciou-se após a Revolução Industrial, já que as tecnologias desenvolvidas resultaram em uma melhora nas condições de vida da sociedade e geraram significativo crescimento populacional. Nesse contexto, já se tornava 14 irreversível o processo de desenvolvimento de técnicas de produção em massa, visando atender a demanda crescente de consumo. Os processos industriais passaram a gerar produtos em velocidade cada vez maior, contribuindo para o aumento da produção de resíduos, seja durante o processo de fabricação, seja pelo estímulo ao consumo. Entretanto, é sabido que a elevada geração de resíduos não caminha em parceria com o descarte correto. Segundo a (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais – ABRELPE, 2012), dos 64 milhões de toneladas de resíduos produzidos pela população, 24 milhões (37,5%) foram enviados para destinos inadequados. Assim, a adequada destinação desses resíduos representa um dos maiores desafios para o Brasil e para a humanidade. De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos produzido anualmente pela Abrelpe, cerca de três mil cidades, 54% do total, incluindo as capitais Belém e Brasília, ainda enviam resíduos para destinos inadequados. Além disso, o desconhecimento dos brasileiros em relação ao destino dos resíduos também é preocupante. De acordo com o estudo Consumo Sustentável da WWF-Brasil (2013), uma em cada três pessoas não faz ideia para onde vão os próprios resíduos produzidos em sua casa. É fato que faltam os investimentos necessários para avançar na coleta e destinação correta dos resíduos sólidos, mas práticas sustentáveis na hora de consumir ainda são deixadas de lado por grande parte dos brasileiros. É o que revela outros dados do estudo Consumo Sustentável. O valor do produto, por exemplo, é considerado um aspecto fundamental por 70% dos entrevistados. Características do produto ligadas à sustentabilidade, no entanto, como os meios utilizados na produção, o tempo que o produto leva para desaparecer na natureza e o fato de a embalagem ser reciclável, ficam em segundo plano (WWF-Brasil, 2013). Vive-se, pois, em meio à problemática dos resíduos sólidos. O sistema capitalista, o crescimento populacional, o aumento da produção de bens de consumo, dentre outros fatores, parecem não ceder de forma alguma, enquanto a geração massiva de resíduos continuará sendo inerente a tais avanços. Contudo, não há como dispor eterna e adequadamente todos esses resíduos, o que pode configurar, no futuro, uma situação de calamidade. Aprovada em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi elaborada para organizar e definir a forma como o país deve tratar seus resíduos, a partir de definições e conceitos estabelecidos com rigor. Depois de sua aprovação foi criado, ainda, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que determina para 2014 o fechamento dos lixões a céu aberto, dando lugar à construção de aterros sanitários apropriados. Como penalidade, os municípios que não cumprirem a determinação serão enquadrados por crimes ambientais. 15 É perceptível, portanto, que embora a problemática da geração de resíduos e sua disposição final ainda sejam alarmantes, algumas ações estão sendo colocadas em prática, na tentativa de frear este processo. Ainda que não sejam suficientes para alterar completamente o cenário ambiental, social e econômico do Brasil, no que se refere ao manejo adequado dos resíduos sólidos, deixam claro por onde se deve começar. 1.2. Desenvolvimento sustentável Segundo Agra Filho (2012), para atender às suas necessidades básicas, a sociedade interfere no ambiente, provocando alterações sensíveis em suas condições naturais. Desse modo, torna-se indispensável o entendimento do processo de geração dos impactos ambientais como consequência dos processos dinâmicos e interativos que ocorrem entre os diversos componentes do ambiente natural e social. Em geral, os problemas ambientais emergem da inadequação ou insustentabilidade dos próprios padrões de produção e de consumo da sociedade que, por sua vez, constituem o seu modelo de desenvolvimento (MAIA e GUIMARÃES, 1997). Em meio a esse paradoxo de desenvolvimento e à necessidade de práticas ambientalmente mais corretas, surge o conceito de desenvolvimento sustentável. Há muito anos já se considerava a ideia da necessidade de ao menos tentar impor limites ao crescimento desordenado da sociedade. Diante dessa polêmica, a Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu realizar a primeira “Conferência Mundial sobre o Ambiente Humano”, em 1972, na cidade de Estocolmo. Apesar das controvérsias e da heterogeneidade de interesses envolvidos, os princípios e recomendações resultantes dessa conferência representaram um marco no enfoque conceitual do desenvolvimento. Proclama-se a falência do modelo de desenvolvimento existente e preconiza-se a necessidade de alternativas à qualidade do crescimento e que se reconheça o ambiente como dimensão fundamental e base de sua sustentação. As iniciativas e manifestações internacionais evoluíram para a criação da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente, também instituída pela ONU, que resultou no relatório “Nosso Futuro Comum”. Nesse documento propôs-se a seguinte definição para o desenvolvimento sustentável: “é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1988). 16 Através dos compromissos firmados na Conferência das Nações Unidas de Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD, 1997), os governos nacionais consolidaram a perspectiva de se redirecionarem os processos de crescimento econômico vigentes para um novo modelo de desenvolvimento regido pela integração e sustentabilidade nas suas dimensões sociais, econômicas, ecológicas, geopolíticas e culturais (SACHS, 1993). Esse desenvolvimento considera, como suas características fundamentais, a equidade na distribuição dos bens econômicos e ecológicos, o consenso social dos seus propósitos econômicos e a prudência na apropriação dos recursos ambientais (ACSELRAD, 1997; SACHS, 1993). Ainda para este último autor, o planejamento do desenvolvimento deve considerar as seguintes dimensões do ecodesenvolvimento: Sustentabilidade social: prega a construção de uma civilização com maiorequidade na distribuição de rendas e bens, de modo a reduzir o abismo entre os padrões de vida dos ricos e dos pobres. Sustentabilidade cultural: inclui a procura de raízes endógenas de processos de modernização e de sistemas agrícolas integrados; processos que busquem mudanças dentro da continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de ecodesenvolvimento em um conjunto de soluções específicas para o local, o ecossistema, a cultura e a área. Sustentabilidade econômica: deve ser viabilizada através da alocação e do gerenciamento mais eficiente dos recursos e de um fluxo constante de investimentos públicos e privados. A eficiência econômica deve ser avaliada em termos macrossociais, e não apenas através do critério da rentabilidade empresarial de caráter microeconômico. Sustentabilidade espacial: deve ser dirigida para a obtenção de uma configuração rural-urbana mais equilibrada e uma melhor distribuição territorial de assentamentos urbanos e atividades econômicas, com ênfase no que segue: Reduzir a concentração excessiva nas áreas metropolitanas; Frear e reverter a destruição de ecossistemas frágeis, mas de importância vital; Promover a agricultura e a exploração agrícola das florestas através de técnicas modernas e regenerativas altamente controladas; Explorar o potencial da industrialização descentralizada, acoplada à nova geração de tecnologias; Criar uma rede de reservas naturais e de biosfera, para proteger a biodiversidade. Sustentabilidade ecológica: pode ser aperfeiçoada utilizando-se das seguintes ferramentas: 17 Ampliar a capacidade de carga do planeta Terra intensificando o uso do potencial de recursos dos diversos ecossistemas, com um mínimo de danos aos sistemas de sustentação da vida; Limitar o consumo de combustíveis fósseis e de outros recursos e produtos que são facilmente esgotáveis ou danosos ao meio ambiente, substituindo-os por recursos ou produtos renováveis e/ou abundantes, usados de forma não agressiva ao meio ambiente; Reduzir o volume de resíduos e de poluição, através da conservação de energia e de recursos e da reciclagem; Promover a autolimitação no consumo de materiais; Intensificar a pesquisa para a obtenção de tecnologias de baixo teor de resíduos e eficientes no uso de recursos para o desenvolvimento urbano, rural e industrial; Definir normas para uma adequada proteção ambiental através de instrumentos econômicos, legais e administrativos necessários para o seu cumprimento. A efetivação da sustentabilidade compreenderia, portanto, o atendimento e aplicação de todas essas condições, o que representa, incontestavelmente, um dos maiores desafios para a humanidade. Por fim, este trabalho se baseia, principalmente, nos aspectos da sustentabilidade ecológica aliados aos da sustentabilidade econômica. 18 2. OBJETIVOS O objetivo principal deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) consistiu na realização de um estudo de caso em uma indústria de transformação de polímeros pelo processo de rotomoldagem. Foram obtidos, essencialmente, os dados de consumo de matéria-prima desta indústria, bem como a geração de produtos não conformes pelo processo produtivo. A partir destes dados, estimou-se a quantidade de energia possível de ser gerada a partir do poder calorífico da resina polimérica, ou seja, da utilização da matéria-prima presente nos produtos não conformes como combustível para o processo de gaseificação. Para isso, foram traçadas rotas produtivas e definidos os equipamentos constituintes do sistema gaseificador. De acordo com a análise da escala de grandeza da potência obtida, foram estabelecidas comparações entre as vantagens e as desvantagens da eventual utilização de um sistema de gaseificação para esse tipo de aplicação. Por fim, estendeu-se esta análise a outros casos, englobando diferentes capacidades e características produtivas das indústrias de transformação de polímeros existentes no mercado. 19 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Este capítulo visa a contextualizar a proposta deste trabalho, a partir da reunião de conceitos, definições e diferentes opiniões de diversos autores com relação a todos os assuntos pertinentes ao completo desenvolvimento dos objetivos e da metodologia apresentada. 3.1. Resíduos sólidos O desenvolvimento da sociedade é impossível sem a geração de resíduos, que compreende desde sobras de alimentação e entulhos provenientes de construções, até baterias e carcaças de eletroeletrônicos, cuja geração é acelerada pelo consumo cada vez maior e mais diversificada da população. Diante desse cenário surge o problema de como geri-los e gerenciá-los. Felizmente, a sociedade atual tem visto o problema de maneira diferenciada, dando importância que revela avanços significativos no que se refere à produção, tratamento e disposição final de resíduos sólidos. Tem havido, gradativamente, uma maior abertura do tema no âmbito político, sendo inúmeras vezes tema central de discussões e assuntos abordados pela mídia. Neste sentido, a palavra lixo, associada a qualquer coisa imprestável, nociva e que não possui valor, passa a ser substituída por resíduo, passando a sugerir outra concepção, segundo a qual se muda drasticamente a abordagem do assunto. Enquanto se define o lixo, de forma simplista, como tudo aquilo que na realidade não tem mais função e pode ser descartado, a nova perspectiva permite várias alternativas para os resíduos sólidos: Evitar a produção de certos resíduos; Diminuir sua produção ou a quantidade de materiais poliméricos utilizados nas embalagens dos produtos; Reutilizá-los antes de considerar uma alternativa mais complexa; Submetê-los ao processo de reciclagem; Aproveitá-los energeticamente, ou seja, utilizar a energia presente nos resíduos através de processos químicos, físicos ou biológicos; Inertizar e dispor os resíduos sem valor (rejeitos). Cada uma dessas opções apresenta, sem dúvidas, certas dificuldades e não são facilmente realizáveis. A opção de evitar a produção de certos resíduos, por exemplo, não 20 é de simples execução no que diz respeito aos principais bens de consumo. Assim, deve- se considerar a viabilidade das estratégias em cada situação. Essencialmente, este capítulo visa a abordar os diversos aspectos dos resíduos sólidos, desde sua definição e características até formas de disposição final. São tratados, ainda, conceitos que dizem respeito à gestão e gerenciamento destes materiais. 3.1.1. Definições A literatura de resíduos sólidos apresenta, sem dúvidas, diversos conceitos e abordagens para o assunto. Segundo a (Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, 2004), resíduos sólidos são “resíduos nos estados sólido ou semissólido, que resultam de atividade da comunidade de origem: industrial, doméstica, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes dos sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d’água, ou exijam, pra isso, soluções técnica e economicamente inviáveis face à melhor tecnologia prática disponível”. Outra definição relevante é a contida na Agenda 21, na qual consta que resíduos sólidos “compreendem todos os restos domésticos e resíduos não perigosos, tais como os resíduos comerciais e institucionais, o lixo da rua e os entulhos de construção. Em alguns países, o sistema de gestão dos resíduos sólidos também se ocupa dos resíduos humanos, tais como excrementos, cinzas de incineradores, sedimentos de fossas sépticas e de instalações de tratamento de esgoto. Se manifestarem característicasperigosas, esses resíduos devem ser tratados como resíduos perigosos” (CNUMAD, 1997). Vale observar, ainda, a definição da Legislação norte-americana que define resíduos sólidos como “qualquer tipo de lixo, refugo, lodo de estação de tratamento de esgoto, de tratamento de água ou de equipamento de controle de poluição de ar e outros materiais descartados, incluindo sólidos, líquidos, semissólidos, gases em contêineres resultantes de operações industriais, comerciais, de mineração e agrícolas, e de atividades da comunidade, porém não inclui sólidos ou materiais dissolvidos e esgoto doméstico, sólidos ou materiais dissolvidos na água de fluxo de retorno em irrigação e descargas pontuais” (USA 1989). 21 Por fim, a Lei nº 12.305, que constitui a PNRS, estabelece, em seu inciso XVI do Artigo 3º, que são considerados resíduos sólidos três grandes grupos de materiais: 1. Material, substâncias, objetos ou bens descartados resultantes de atividades humanas em sociedade, nos estados sólido ou semissólido; 2. Líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos de água, ou exijam, para isso, soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível; 3. Gases contidos em recipientes (BRASIL, 2010). Outra definição importante com relação ao resíduo consiste na avaliação de sua periculosidade. Esta característica é atribuída a um resíduo que, em função de suas propriedades físicas, químicas ou infecto-contagiosas, pode apresentar (ABNT, 2004): a) Risco à saúde pública, provocando mortalidade, incidência de doenças ou acentuando seus índices; b) Risco ao meio ambiente, quando o resíduo for gerenciado de forma inadequada. 3.1.2. Conceitos iniciais Embora criteriosamente definidos pela PNRS, vale reiterar que os resíduos sólidos englobam os gases e líquidos, uma vez que, se o gás contido no recipiente não pudesse ser considerado resíduo sólido, este deveria ser completamente removido do recipiente, o que muitas vezes não é viável. Em outras palavras, se os gases não fossem assim considerados, embalagens só poderiam ser descartadas caso se fizesse vácuo dentro delas, o que é um contrassenso (SOUTO e POVINELLI, 2012). Quanto aos líquidos, o fato de poder considerá-los como resíduos sólidos permite que líquidos perigosos sejam acondicionados em tambores e dispostos em aterros de resíduos industriais. Por fim, o termo “semissólido” permite que os lodos de estações de tratamento de água (ETA) e de tratamento de esgoto (ETE) sejam gerenciados como resíduos sólidos e, como tais, dispostos em aterros, desde que atendidos determinados requisitos (SOUTO e POVINELLI, 2012). A PNRS também formalizou os conceitos de “destinação final ambientalmente adequada dos resíduos” e “disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos”, duas definições distintas, embora complementares (BRASIL, 2010). Um resíduo passa a ser chamado de rejeito quando se esgotarem todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e 22 economicamente viáveis, de modo que não haja alternativa que não seja a disposição final ambientalmente adequada (BRASIL, 2010). Dessa forma, o que se entende por “destinação final ambientalmente adequada” é o encaminhamento dos resíduos para reutilização, reciclagem, compostagem, aproveitamento energético, dentre outras destinações admitidas pelo poder público, no intuito de evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança, minimizando, ainda, os impactos ambientais negativos (BRASIL, 2010). Já a “disposição final ambientalmente adequada” se refere exclusivamente aos rejeitos, consistindo na sua disposição ordenada em aterros. Como a disposição final também é um tipo de destinação final, ela também deve evitar os mesmos aspectos negativos da “destinação final ambientalmente adequada”, segundo a Brasil (2010). Por fim, vale ressaltar que esta política também instituiu a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Isto significa que, atualmente, os fabricantes, distribuidores, comerciantes, titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e os próprios consumidores são responsáveis pelos resíduos em geral. 3.1.3. Caracterização As características dos resíduos sólidos basicamente determinam a classificação dos resíduos e, consequentemente, a forma de manuseio e operação. Algumas das características importantes são (PHILLIPI JR., 2005): Densidade aparente, medida em unidade de massa por unidade de volume; Umidade, em porcentagem de massa; Composição qualitativa, que corresponde à lista dos materiais e substâncias de interesse presentes nos resíduos; Composição quantitativa, que corresponde à quantidade percentual dos materiais ou à quantidade massa/massa de substâncias de interesse; Caracterização química, que corresponde à quantificação dos elementos químicos presentes ou ao comportamento do resíduo submetido a testes químicos específicos, como lixiviação, solubilização e combustão. Neste trabalho, se faz necessária uma abordagem mais específica de dois conceitos envolvidos na caracterização química dos resíduos sólidos: a composição elementar e o poder calorífico destes materiais. 23 3.1.3.1. Composição elementar A análise química elementar corresponde à porcentagem em massa dos principais componentes que constituem a biomassa e outros materiais contendo carbono. Os elementos considerados são: carbono (C), hidrogênio (H), enxofre (S), oxigênio (O), nitrogênio (N), cinzas (A) e umidade (W). A composição elementar é característica fundamental e de extrema importância do combustível e constitui a base para a análise de processos como a combustão e a gaseificação. A quantidade de ar necessária para alimentar o processo, o volume de gases de saída e sua composição e o poder calorífico são determinados e calculados a partir desse conceito. Nos cálculos de combustão ou gaseificação da biomassa, por exemplo, utiliza-se a composição em base úmida. Nos manuais e publicações especializados, os valores da composição elementar dos combustíveis são apresentados em base seca e em base combustível, o que os torna independentes de eventuais variações nos teores de umidade e cinzas. Cabe mencionar, porém, que em casos no quais o material já se encontre seco antes de alimentar tais processos de recuperação energética, deve-se considerar a base seca ou anular a umidade nos cálculos dos demais parâmetros. Na Tabela 3.1 é mostrada uma comparação da composição elementar de alguns materiais como madeira, plástico, papel e papelão. Combustível Elemento %C %H %O %N %S %Cinzas %W PCS(MJ/kg) Resto de Alimento 48 6,4 37,6 2,6 0,4 5 0 18,82 Papel e papelão 44 6 44 0,3 0,2 6,8 0 16,33 Têxteis 55 6,6 31,2 4,6 0,15 2,5 0 22,07 Madeira 49,5 6 42,7 0,2 0,1 1,5 0 18,32 Plástico 60 7,2 22,8 0 0 10 0 25,28 Tabela 3.1: Composição elementar e PCS de alguns combustíveis (SANNER et al., 1970). Observa-se que o plástico, embora contenha a maior porcentagem de carbono dentre os materiais apresentados, apresenta a mais alta porcentagem de cinzas. Por outro lado, o papel e o papelão, quando comparados ao plástico, por exemplo, chegam a apresentar o dobro de oxigênio, em porcentagem, em suas composições. 24 3.1.3.2. Poder calorífico O poder calorífico (PC) pode ser definido como a quantidade de energia liberada na forma de calor durante a combustão completa de um determinado combustível. O valor dessa propriedade pode variar muito de acordo com o teor de umidade do combustível. O Poder Calorífico Superior (PCS) considera que a água presente no combustível não evapora junto aos gases de combustão, enquanto o Poder Calorífico Inferior (PCI) considera que a água presente no combustível seja toda vaporizada junto a tais gases. É importante ressaltarque para vaporizar a água presente na biomassa necessita-se de energia, o que justifica o PCS ser maior que o PCI. O PC pode ser determinado através da combustão de uma amostra analisada em uma bomba calorimétrica. Entretanto, se estes valores não estão disponíveis, é possível determiná-los a partir de inúmeras relações matemáticas obtidas empiricamente, tendo como referência a composição elementar do resíduo em análise. O cientista russo Dimitri Mendeleiev descreveu a primeira fórmula para calcular o PCI de um combustível, como mostrado na Equação 3.1: W%12,25S%O%85,108H%95,1029C%13,339PCI (3.1) A Equação 3.2 representa, por sua vez, uma fórmula para a determinação do PCS de um combustível (YOUNG, 2010). W11,2S51,10O34,10H83,111C91,34PCS (3.2) Elucidativamente, na tabela 3.2 são relacionados, segundo Young (2010), os poderes caloríficos de alguns resíduos sólidos que compõem o RSU. Neste caso, suas respectivas umidades foram consideradas para efeito da obtenção daquela grandeza. Tipo de resíduo sólido Poder Calorífico (kJ/kg) Umidade (%) Resíduo de comida 4.600 70,0 Papel 16.700 6,0 Plástico 32.500 2,0 Têxtil 17.500 10,0 Borracha 23.300 2,0 Madeira 18.600 60,0 Tabela 3.2: Poder calorífico de alguns resíduos que compõe o RSU (YOUNG, 2010). 25 3.1.4. Classificação A classificação de resíduos sólidos envolve uma série de aspectos, tais como a identificação do processo ou atividade que lhes deu origem, suas características e seus constituintes. Estes últimos ainda são comparados com listagens de resíduos e substâncias cujo impacto à saúde e ao meio ambiente já é conhecido. A identificação dos constituintes a serem avaliados na caracterização do resíduo deve ser criteriosa e estabelecida de acordo com as matérias-primas, os insumos e o processo que lhe deu origem (ABNT, 2004). Ainda para efeitos da norma NBR 10004 (ABNT, 2004), os resíduos são classificados em: Resíduos classe I - Perigosos: aqueles que apresentam periculosidade, conforme definido em 3.4.1 ou outra característica, como inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade, patogenicidade, dentre outros atributos também definidos pela norma; Resíduos classe IIA – Não perigosos e não inertes: aqueles que não se enquadram nas classificações de resíduos classe I ou de resíduos classe II B. Os resíduos classificados na classe II A podem apresentar propriedades tais como biodegradabilidade, combustibilidade ou solubilidade em água; Resíduos classe II B – Resíduos não perigosos e inertes: são resíduos que, quando amostrados de uma forma representativa, segundo a ABNT NBR 10007, e submetidos a um contato dinâmico e estático com água destilada e deionizada, à temperatura ambiente, conforme a ABNT NBR 10006, não tiverem nenhum de seus constituintes solubilizados a concentrações superiores aos padrões de potabilidade da água, excetuando-se aspecto, cor, turbidez, dureza e sabor. São as rochas, tijolos, vidros e certos plásticos e borrachas que não são decompostos facilmente. Por outro lado, a Lei n° 12.305, que constitui a PNRS, estabelece, em seu artigo 13, a classificação dos resíduos sólidos quanto à origem: a) Resíduos domiciliares: os originários de atividades domésticas em residências urbanas; b) Resíduos de limpeza urbana: os originários da varrição, limpeza de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza urbana; c) Resíduos sólidos urbanos: os englobados nas alíneas a e b; d) Resíduos de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços: os gerados nessas atividades, excetuados os referidos nas alíneas b, e, g, h e j; http://www.jusbrasil.com.br/topicos/26264776/art-13-inc-i-c-politica-nacional-de-residuos-solidos-lei-12305-10 26 e) Resíduos dos serviços públicos de saneamento básico: os gerados nessas atividades, excetuados os referidos na alínea c; f) Resíduos industriais: os gerados nos processos produtivos e instalações industriais; g) Resíduos de serviços de saúde: os gerados nos serviços de saúde, conforme definido em regulamento ou em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama e do SNVS; h) Resíduos da construção civil: os gerados nas construções, reformas, reparos e demolições de obras de construção civil, incluídos os resultantes da preparação e escavação de terrenos para obras civis; i) Resíduos agrossilvopastoris: os gerados nas atividades agropecuárias e silviculturais, incluídos os relacionados a insumos utilizados nessas atividades; j) Resíduos de serviços de transportes: os originários de portos, aeroportos, terminais alfandegários, rodoviários e ferroviários e passagens de fronteira; k) Resíduos de mineração: os gerados na atividade de pesquisa, extração ou beneficiamento de minérios. 3.1.5. Acondicionamento e armazenamento A qualidade da operação de coleta e transporte dos RSU depende da forma adequada do seu acondicionamento e armazenamento, segundo os locais, dias e horários estabelecidos pelo órgão de limpeza urbana para a coleta. A população tem, portanto, participação decisiva nesta operação. Segundo Oliveira (1992), o acondicionamento correto dos resíduos sólidos é importante à medida que contribui para evitar a proliferação de vetores, além de minimizar problemas relacionados aos odores indesejáveis e à estética do ambiente, fatores estes decisivos para garantir o bem-estar dos cidadãos. Em resumo, a importância do acondicionamento e do armazenamento adequado está em: Evitar acidentes; Evitar a proliferação de vetores; Minimizar o impacto visual e olfativo; Reduzir a heterogeneidade dos resíduos, no caso de haver coleta seletiva; Facilitar a realização da etapa da coleta. 27 Para isso, a forma de acondicionamento deve obedecer a normas específicas, as quais são estabelecidas de modo a facilitar as etapas subsequentes de coleta e de transporte dos RSU. Nos locais onde não é possível o acesso dos veículos de coleta, por exemplo, devem ser instaladas lixeiras coletivas em pontos estratégicos. Estes, por outro lado, devem ser acessíveis a aqueles veículos e objetivam essencialmente que a população concentre o despejo dos resíduos produzidos. Em alguns casos, ainda, é inevitável a necessidade de armazenar os resíduos durante um determinado período no local de geração, até que sejam coletados. Isso exige, contudo, instalações físicas prediais específicas para cada tipo de resíduo, em especial nas indústrias, no comércio de grande porte e nos estabelecimentos de serviços de saúde. 3.1.6. Coleta e transporte A coleta consiste em uma etapa fundamental no gerenciamento dos resíduos sólidos, o qual será futuramente abordado. Trata-se do processo através do qual os resíduos são reconhecidos junto ao gerador e encaminhados para a destinação final. A coleta dos resíduos deve ser feita com frequência adequada, levando em conta que o acúmulo excessivo de resíduos pode aumentar os riscos para o meio ambiente e para a saúde pública, enquanto que a frequência excessiva eleva o custo operacional a níveis não viáveis (PHILLIPI JR., 2005). Segundo o Cempre (2000), a coleta dos RSU, feita pelo município ou empresa concessionária, recebe o nome de Coleta Regular, enquanto a coleta dos outros tipos de resíduos recebe o nome de Coleta Especial. A coleta regular normalmente é feita pelas ruas, porta a porta, por caminhões compactadores. Os RSU podem ser acondicionados em sacos plásticos, como ocorre no Brasil ou em contêineres, como acontece na Alemanha. A coleta especial, por sua vez, envolve procedimentos mais complexos, uma vez que há diversos resíduos que não podem ou não devem ser simplesmente misturados aos RSU, devendo ser coletados separadamente. É o caso dos RSS, dos resíduos da construção civil, entre outros assim definidos por lei. Há outros casosnos quais se aplica, ainda, o que se chama de logística reversa. Logística reversa é o nome que se dá ao processo de retornar um material do consumidor para o fabricante, o oposto da logística convencional, que se refere ao processo de levar um material do fabricante ao consumidor final. Formalmente, de acordo com a PNRS, a logística reserva é 28 “o conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada”. Os materiais hoje sujeitos a logística reversa são os agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, diversos tipos de lâmpadas, produtos eletroeletrônicos e seus componentes e demais produtos cuja embalagem, após o uso, constitua resíduo perigoso (BRASIL, 2010). Os sistemas de logística reversa para esses produtos e suas embalagens devem ser estruturados e implementados pelos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, independentemente do serviço público de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. Neste contexto, os consumidores, por sua vez, são responsáveis por devolver àqueles primeiros os produtos objeto desta ação. A PNRS prevê, ainda, que a logística reversa pode ser estendida para outros produtos, dependendo do grau e extensão do impacto de seus resíduos à saúde pública e ao meio ambiente, bem com da viabilidade técnica e econômica do processo. Quando existe, ainda, uma segregação prévia de acordo com a constituição ou composição dos resíduos, tem-se a Coleta Seletiva (BRASIL, 2010), a qual costuma ser associada a melhores desempenhos e resultados. Tanto o processo de triagem quanto o de separação realizada por catadores não apresentam, em contrapartida, uma eficiência muito alta. Segundo Schalch e Leite (2000), a triagem a posteriori não consegue recuperar mais de 50% dos materiais recicláveis. Ademais, os catadores não conseguem separar fragmentos de resíduos do restante da massa de lixo. A segregação na fonte permite, portanto, otimizar os sistemas de tratamento e disposição final, uma vez que aumenta a qualidade e a quantidade de matéria-prima disponível. Porém, quando se permite que um resíduo perigoso seja misturado a outros não perigosos, o resultado é que a massa total destes materiais acaba sendo classificada como perigosa e deve ser tratada e disposta como tal. Sendo assim, deve se evitar ao máximo essa mistura de resíduos. De maneira geral, os resíduos, uma vez coletados, devem ser transportados até os pontos de destinação final, sejam eles as indústrias de reciclagem, as centrais de tratamento ou os aterros. Quando as distâncias e os volumes são pequenos, o transporte dos resíduos pode ser feito pelos próprios veículos de coleta. De maneira geral, estes veículos devem ser escolhidos de acordo com a quantidade de resíduos, do tipo de resíduo transportado, das características topográficas e da malha viária da região a ser atendida. Horários e itinerários devem ser selecionados de modo a minimizar o incômodo à 29 população pelo ruído, além dos riscos decorrentes do excesso de tráfego em certas vias e dos riscos de acidentes, principalmente no transporte de produtos perigosos. Entretanto, em cidades grandes ou quando os aterros estão muito distantes, é preciso lançar mão de estações de transbordo. Estas consistem em instalações nas quais se faz o translado dos resíduos de um veículo coletor a outro veículo com capacidade de carga maior. Este segundo veículo é o que transporta os resíduos até o seu destino final. Estas instalações podem resumir-se a uma simples plataforma elevada, dotada de uma rampa de acesso, ou a um edifício sofisticado e de grandes dimensões (SOUTO e POVINELLI, 2012). Phillipi Jr. (2005) destaca algumas das vantagens do emprego de estações de transbordo: Redução do tempo ocioso do serviço de coleta, uma vez que o veículo coletor e a mão-de-obra são utilizados exclusivamente na coleta; Possibilidade de redução do tempo necessário ao procedimento de coleta, de maneira que o lixo permaneça tempo mais curto na via pública; Maior flexibilidade na programação de coleta; Menor quantidade de veículos circulando, o que diminui o custo do transporte, composto pelo combustível, manutenção dos veículos e salários, além de minimizarem os impactos ao meio ambiente e reduzirem o trânsito. 3.1.7. Tratamento e destinação final Como os RSU são gerados em grande quantidade, torna-se imprescindível adotar técnicas que minimizam o volume a ser disposto. O tratamento de resíduos sólidos compreende a utilização dessas técnicas que visam pelo menos à estabilização do volume destes materiais para aumentar a vida útil dos aterros sanitários e evitar uma série de outros eventuais problemas. Segundo Souto e Povinelli (2012), a escolha da alternativa de tratamento a ser adotada deve enfocar, basicamente, os seguintes aspectos: Custos de implantação e operação; Disponibilidade financeira dos agentes envolvidos; Capacidade de atender às exigências legais; Quantidade e capacitação técnica dos recursos humanos. Ainda de acordo com estes autores, o fato de uma alternativa apresentar um alto custo em termos absolutos, como um incinerador, não é razão suficiente para que seja 30 descartada, pois talvez seja a mais barata e eficaz para tratar um determinado resíduo industrial ou de serviços da saúde quando comparada a outras. A operação que precede qualquer processo específico de tratamento é a triagem, enquanto a reciclagem, por sua vez, representa o reprocessamento de materiais, permitindo novamente sua utilização (CALDERONI, 1997). A menos destes dois processos, as demais tecnologias com foco na estabilização dos resíduos podem ser divididas em processos biológicos e físico-químicos. Entre os primeiros estão a compostagem, a vermicompostagem e a digestão anaeróbia. Entre os últimos, a incineração, a pirólise, a gaseificação, a hidrólise térmica, entre outros processos. Nos subitens seguintes, será abordada grande parte destas tecnologias no que diz respeito às características, ao funcionamento, à viabilidade entre outros aspectos importantes na eventual consideração de aderir a um determinado tratamento de resíduos. Particularmente, os processos de gaseificação e pirólise ganham um destaque especial, sendo abordados mais a diante, quando se define – de forma mais abrangente e não apenas para os RSU – o conceito de aproveitamento energético. Esse tratamento especial se deve ao fato da gaseificação integrar a proposta baseada no estudo de caso deste trabalho e a pirólise constituir etapa fundamental do processo de gaseificação. 3.1.7.1. Triagem O objetivo deste processo é separar os materiais que se deseja recuperar, ou aqueles prejudiciais à qualidade do processamento ou à durabilidade dos equipamentos. Pode ser executada manualmente em pátios, mesas ou esteiras rolantes. Métodos mecânicos e automatizados, como equipamentos magnéticos, peneiras, separadores balísticos entre outros também servem ao processo (PHILLIPI JR., 2005). A operação de triagem pode ser realizada em usinas, nos aterros, nos lixões ou em outros locais apropriados. Quando realizada nos sacos à espera de coleta, pelos catadores, tem o inconveniente de causar sujidade local e outros problemas já mencionados anteriormente. Nos processos manuais, quanto maior o grau de separação desejado e menor a quantidade de impurezas permitidas, maior será a mão de obra envolvida. No caso da separação de materiais a recuperar, o grau de pureza e a limpeza do produto final influenciam sobremaneira o valor de mercado. Após a triagem, os materiais podem ser prensados a fim de baratear o transporte até os locais onde serão industrializados. Por fim,31 a eficiência da mão de obra de triagem pode ser avaliada pela quantidade de resíduos triados por pessoa, por hora (PHILLIPI JR., 2005). No Brasil, tem havido importantes investimentos nesse setor, dada a elevada importância do processo de triagem. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informou, em junho deste ano, que vai destinar R$ 21,3 milhões para a instalação de 12 centrais de triagem e a capacitação de 2.160 catadores do Distrito Federal. De acordo com o BNDES, 98% das 2,4 mil toneladas coletadas diariamente no Distrito Federal são aterrados em lixões e os 2% restantes são encaminhados para a reciclagem pelos catadores. No entanto, a maioria das 33 cooperativas desta região não tem estrutura física para realizar a triagem dos resíduos coletados. Além das 12 centrais de triagem que serão instaladas, cada uma receberá um caminhão de seis toneladas para dar suporte logístico à operação. Os catadores serão capacitados para realizar triagem, classificação, prensagem, comercialização e gestão de empreendimentos coletivos. O projeto prevê, ainda, a formação de um corpo técnico para apoiar as cooperativas na gestão e desenvolver um programa de limpeza, manutenção de galpões de triagem, construção e equipagem de uma central de comercialização, estruturação de uma escola de formação para os catadores, bem como o fortalecimento das cooperativas que não foram selecionadas para as centrais de triagem, de modo a inseri-las no modelo. Os recursos são do Fundo Social do BNDES e correspondem a 50% do valor total a ser investido. É a quarta operação do tipo aprovada pelo banco, que já contratou operações semelhantes com os municípios do Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre. 3.1.7.2. Reciclagem A reciclagem é um processo que permite a reinserção de materiais descartados em um ciclo produtivo, por meio de sua transformação. Em outras palavras, este processo possibilita que materiais considerados resíduos para o gerador passem a configurar matérias-primas secundárias para outro indivíduo e para a sociedade como um todo. A reciclagem difere da reutilização ao passo que exige um maior grau de processamento, excedendo a simples triagem e limpeza do material. As técnicas para o processamento de resíduos com vista à reciclagem são normalmente específicas para cada material. Costumam envolver algum grau de http://g1.globo.com/topico/distrito-federal.html http://g1.globo.com/topico/distrito-federal.html 32 fragmentação de resíduo, trituração ou moagem, para facilitar o seu transporte, armazenamento e processamento. Segundo Phillipi Jr. (2005), as entidades empresariais promovem os chamados bancos ou bolsas de resíduos. Neste sentido, as empresas apresentam os resíduos que geram, com detalhes de quantidade e qualidade. Outras empresas, por sua vez, que utilizam tais resíduos como matéria-prima em seus processos produtivos, podem se informar sobre como obtê-los diretamente com o gerador. É importante que se tenha em mente que a reciclagem só faz sentido do ponto de vista econômico se o custo do produto reciclado for inferior ao custo do produto confeccionado a partir de materiais virgens, ou se o custo da reciclagem for menor que o custo de outras formas de tratamento e disposição final (ANDRADE, 2002). Caso nenhuma dessas condições seja satisfeita, a reciclagem somente vai acontecer se for obrigatória por lei. A reciclagem de materiais pela indústria, por exemplo, depende muito desta viabilidade econômica. Sobre esse processo pesa também a dificuldade de desenvolvimento de mercado para os produtos reciclados, que muitas vezes são vistos como produtos de qualidade inferior. Diversos fabricantes de produtos confeccionados a partir de materiais reciclados ainda não se utilizam de argumentos adequados à otimização desta informação, no intuito de motivar a aquisição destes produtos por parte dos consumidores. Economia de energia, preservação de matérias-primas e recursos naturais e redução da quantidade dos RSU que são destinados aos aterros sanitários, são alguns dos argumentos positivos da prática da reciclagem. No Brasil, nos últimos anos, foram desenvolvidas diversas iniciativas para colaborar com a eficiência dos processos de triagem e coleta seletiva e, consequentemente, da reciclagem. Exemplo disto são as auto declarações ambientais, que consistem em textos, na simbologia e em gráficos presentes em produtos industrializados em geral, consolidando-se como excelente interface com o consumidor. Os símbolos mais comuns são apresentados na figura 3.1. Figura 3.1: Principais símbolos das auto declarações ambientais (ABIQUIM, 2009). 33 A norma NBR 13230 da ABNT padroniza os símbolos que identificam os diversos tipos de resinas plásticas utilizadas. O principal objetivo é facilitar a etapa de triagem dos diversos resíduos plásticos que serão encaminhados à reciclagem. Na tabela 3.3 são relacionados os símbolos existentes aos seus respectivos termoplásticos e às suas principais características, bem como a algumas das aplicações após a reciclagem de cada material. Termoplástico Simbologia Características Uso após reciclagem Polietileno Tereftalato (PET) Transparente e extremamente leve. Tecido para bolsas, lonas e velas náuticas, cordas e fios. Polietileno de Alta Densidade (PEAD) Leve, rígido e com boa resistência química. Sacaria industrial, garrafas de detergente, tubos. Policloreto de Vinila (PVC) Transparente, leve e resistente. Tubos e acessórios para jardim, cercas. Polietileno de Baixa Densidade (PEBD) Flexível, leve, transparente e impermeável. Reservatórios industriais e de resíduos, tubos, filmes para uso agrícola. Polipropileno (PP) Rígido, brilhante e resistente a variações térmicas. Caixas e recipientes para transporte, artigos de decoração. Poliestireno (PS) Impermeável, leve, transparente, rígido e brilhante. Lixeiras, material para isolamento térmico, acessórios em geral. Outros (ABS, EVA, PA, etc.) - - Tabela 3.3: Símbolos padronizados e principais atributos dos termoplásticos (ABIQUIM, 2009). 3.1.7.3. Compostagem A compostagem, um processo biológico de decomposição controlada de matéria orgânica contida em restos de origem animal ou vegetal, produz um composto, útil para melhorar as propriedades físicas do solo, além de ter propriedades fertilizantes (NAUMOFF e PERES, 2000). 34 De acordo com Bidone e Povinelli (2010), este composto é estabilizado e também chamado de húmus. Essa técnica pode ser utilizada para tratar a fração orgânica dos RSU. Para Phillipi Jr. (2005), o processo promove a inativação da maioria dos agentes patogênicos normalmente presentes nos resíduos sólidos, já que são expostos a temperaturas da ordem de 65 a 70°C. Há inúmeras alternativas de processos tecnológicos de compostagem, desde os mais simples, como a compostagem em montes periodicamente revirados, até instalações de grande porte com tambores rotativos. A compostagem pode ser realizada por meio de processos aeróbios, anaeróbios ou mistos, mas é um processo lento que, dependendo da tecnologia empregada, pode levar de 45 a 180 dias (PHILLIPI JR., 2005). A vermicompostagem, por sua vez, é um processo complementar à compostagem que visa a melhorar as características do composto, aumentando a disponibilização de macro e micronutrientes, produzindo um material mais estável (BIDONI e POVINELLI, 2010). Segundo estes autores, os agentes deste processo são as minhocas, as quais dependem de algumas condições para sua sobrevivência. O composto não pode estar encharcado, pois isso levaria à morte daqueles animais por afogamento. Por outro lado, também não pode estar ressecado, uma vez que a umidade é essencial à realização do processo. 3.1.7.4. Digestão anaeróbia Esse método de tratamento baseia-se no rendimento da atividade