Prévia do material em texto
DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 1 TEORIA DO CRIME – PARTE III (ILICITUDE – CULPABILIDADE – TEORIA DO ERRO) 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 2 Sumário DIREITO PENAL: TEORIA DO CRIME – PARTE III (ILICITUDE – CULPABILIDADE – TEORIA DO ERRO) ................ 3 1. ILICITUDE ...................................................................................................................................................... 3 1.2. Causas de Exclusão da Ilicitude ............................................................................................................ 5 1.2.1. Causas Legais de Exclusão da Ilicitude ......................................................................................... 6 1.2.2. Causas Supralegais de Exclusão da Ilicitude ............................................................................... 24 1.3. Excesso na Justificante ....................................................................................................................... 25 2. CULPABILIDADE .......................................................................................................................................... 26 2.1. Elementos da Culpabilidade ............................................................................................................... 27 2.1.1. Imputabilidade ........................................................................................................................... 28 2.1.2. Potencial Consciência de Ilicitude .............................................................................................. 31 2.1.3. Exigibilidade de Conduta Diversa ............................................................................................... 32 3. TEORIA DO ERRO ........................................................................................................................................ 34 3.1. Erro de Tipo (Art. 20, CP) .................................................................................................................... 35 3.2. Erro de Proibição ................................................................................................................................ 41 QUESTÕES PROPOSTAS .................................................................................................................................. 47 Questões Comentadas .............................................................................................................................. 47 Outras Questões Propostas ....................................................................................................................... 50 Comentários .............................................................................................................................................. 54 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 3 DIREITO PENAL: TEORIA DO CRIME – PARTE III (ILICITUDE – CULPABILIDADE – TEORIA DO ERRO) ARTIGOS RELACIONADOS AO TEMA A LEITURA DOS ARTIGOS PROPORCIONA UMA MELHOR COMPREENSÃO GERAL DO ASSUNTO ESTUDADO, VISANDO A COMPLEMENTAÇÃO DE SUA BASE DE ESTUDOS PARA TODAS AS FASES DO CONCURSO, MESMO QUE NÃO DISPOSTOS EXPLICITAMENTE EM SEU EDITAL. CP: ⦁ Art. 20 a 25 ⦁ Art. 26 a 28 ⦁ Art. 65 ⦁ Art. 73 e 74 ⦁ Art. 163 ⦁ Art. 213 ⦁ Art. 228 OUTROS DIPLOMAS LEGAIS ⦁ Art. 37, Lei 9605/98 ⦁ Art. 45 e 46, Lei de Drogas ARTIGOS MAIS IMPORTANTES – NÃO DEIXE DE LER! ⦁ Art. 20 e 21, CP (importantíssimos!) ⦁ Art. 25, §único, CP (introduzido pelo Pacote Anticrime) ⦁ Art. 26, CP ⦁ Art. 28, II e §1º, CP ⦁ Art. 73 e 74, CP (importantíssimos!) 1. ILICITUDE A ilicitude, também denominada de antijuridicidade, é o segundo substrato do conceito analítico de crime (fato típico, ilícito e culpável - majoritariamente). Deve ser entendida como conduta típica não justificada, espelhando a relaçâo de contrariedade entre o fato típico e o ordenamento jurídico como um todo. Ex: Embora a conduta do oficial de justiça quando apreende determinado bem contra a vontade do dono em razão de mandado judicial consista em subtrair coisa alheia móvel, o que seria um fato típico, sua conduta não é contrária ao ordenamento jurídico por estar abarcada pelo estrito cumprimento do dever legal, causa excludente de ilicitude, de modo que não haverá crime. Para existir o crime, deve ser demonstrado que uma conduta gerou um resultado com ajuste (formal e material) a um tipo penal (fato típico). Em seguida, é imprescindível verificar se essa violaçâo típica não é permitida pelo nosso ordenamento jurídico: se permitida, nâo há ilicitude (desaparecendo o próprio 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 4 crime); se nâo permitida, há ilicitude. 1.1 Relação entre a Tipicidade e a Ilicitude a) Teoria da absoluta independência do tipo / do tipo avalorado / tipo meramente descritivo – (Beling): afirma que o fato típico não constitui qualquer relação com a ilicitude. O tipo é a mera descrição objetiva do fato em lei. Acaso a ilicitude deixe de existir, a tipicidade permanece. b) Teoria indiciária do tipo / da ratio cognoscendi – (Max Ernst Mayer) o fato típico é presumidamente ilícito. É um INDÍCIO da ilicitude. → Essa presunção é relativa (iuris tantum), podendo ser afastada por uma excludente de ilicitude. E qual o efeito prático dessa teoria? Acarreta a inversão do ônus da prova no tocante às excludentes da ilicitude. Assim, para a acusação, basta provar que o fato é típico, cabendo à defesa alegar e provar as excludentes. Ex. Quando JOÃO mata ANTÔNIO, temos um fato típico e indícios de ilicitude da conduta. Comprovada a legítima defesa, exclui-se a antijuridicidade do fato, que, no entanto, permanece típico. → Teoria majoritária e adotada pelo CP. c) Teoria da absoluta dependência / da ratio essendi / da identidade – (Edmundo Mezger) – fato típico e ilícito seriam um elemento só. A tipicidade não é nem só indício, é a essência da ilicitude. É a ilicitude tipificada. Todo fato típico NECESSARIAMENTE é ilícito. Origina-se, aqui, o “injusto penal”, que é o fato típico + ilícito, analisados em uma única ocasião. d) Teoria dos elementos negativos do tipo: para esta teoria, o tipo penal é composto por elementos positivos e elementos negativos. Os positivos são explícitos (tipo penal), enquanto os elementos negativos estão implícitos (causas excludentes de ilicitude). Para que o comportamento do agente seja típico, não podem estar configurados os elementos negativos. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 5 ▪ Face positiva – é chamada de tipicidade provisória. (O que nós conhecemos como tipicidade) ▪ Face negativa – é a ausência dos elementos negativos do tipo (o que nós conhecemos como causas excludentes da ilicitude – estado de necessidade legítima defesa, etc.). → Há aqui uma absoluta relação de dependência entre o fato típico e a ilicitude, pois, para que seja típico, não pode ser lícito, ou seja, deve também ser ilícito. → O crime de homicídio deverá ser lido: "matar alguém (elemento positivo expresso), desde que nâo esteja presente uma excludente de ilicitude (elemento negativo implícito)". → Como dito, no Brasil adota-se a teoria indiciária, porém, mitigada a partir da reforma de 2008, em razão de dispositivos que privilegiam o “in dubio pro reo”, ou seja, mesmo a defesa não provando cabalmente a excludente, em caso de dúvida, deve o magistrado decidir em favor do réu. DEFINIÇÃO A ilicitude é o segundo elemento que compõe a estrutura analítica do crime (fato típico -> Ilícito -> culpável). Ilicitude é a contrariedadeINEVITÁVEL 2.1.3. Exigibilidade de Conduta Diversa De acordo com Masson, a exigibilidade de conduta diversa “é o elemento da culpabilidade consistente na expectativa da sociedade acerca da prática de uma conduta diversa daquela que foi deliberadamente adotada pelo autor de um fato típico e ilícito”. Em suma, trata-se de situação em que o delito foi cometido em circunstâncias normais, em que o agente poderia se comportar em conformidade com o Direito, mas optou por transgredir a lei penal. Decorre da teoria desenvolvida por Reinhart Frank: teoria da normalidade das circunstâncias concomitantes. Situações em que é inexigível conduta diversa: ● Coação moral irresistível; ● Obediência hierárquica. a) Coação moral irresistível: Art. 22, CP Obs.: o Código Penal não faz a diferenciação sobre o tipo de coação, sendo que temos dois: moral e física. E é a coação MORAL que exclui a exigibilidade de conduta diversa (e consequentemente a culpabilidade), vez que, em havendo coação física, não haverá conduta por falta de vontade, de modo que o fato sequer será típico. ● Requisitos: o Ameaça do coator, ou seja, promessa de mal grave e iminente que o coagido não é obrigado a suportar – que deve ser direcionada ao coagido ou alguém próximo a ele (se for um desconhecido, em que pese não incida a coação moral irresistível, pode ser reconhecida causa supralegal de inexigibilidade de conduta diversa); o Inevitabilidade do perigo na posição em que se encontra o coagido; o Caráter irresistível da ameaça; o Presença de pelo menos três pessoas envolvidas: coator, coagido e a vítima do crime por este praticado (ou duas, caso a exigência seja de o coagido matar o coator por exemplo). 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 33 ● Consequência: Afasta a culpabilidade do coagido, mas não gera impunidade, vez que será punível o autor da coação por autoria mediata do crime. Não há concurso de pessoas, vez que falta liame subjetivo. ● Se a coação for resistível, o coagido será culpável e responderá com o coator em concurso de agentes e apenas terá direito a uma atenuante genérica, sendo que para o coator incidirá agravante genérica (arts. 62 e 65 do CP). ● Temor reverencial: receio de decepcionar pessoa a quem se deve elevado respeito. Não se equipara à coação moral. Não há ameaça, apenas receio. b) Obediência hierárquica: Art. 22, CP. ● Requisitos: o Que a ordem não seja manifestamente ilegal: ordem ilegal, mas com aparência de legalidade. Caso seja manifestamente ilegal, responderão em concurso de pessoas e o subalterno terá direito a uma atenuante genérica e para o superior incidirá agravante genérica, arts. 62 e 65 do CP). Por outro lado, se a ordem for LEGAL, nenhum dos dois cometerá crime, mas agirão em estrito cumprimento do dever legal; o Oriunda de superior hierárquico o Autoridade competente; o Decorrente de relação de Direito Público: a posição de hierarquia que autoriza o reconhecimento da excludente da culpabilidade somente existe no Direito Público; o Presença de pelo menos três pessoas: superior hierárquico, subalterno e a vítima do crime; o Cumprimento estrito da ordem: o executor não pode ultrapassar, por conta própria, os limites da ordem que lhe foi endereçada, sob pena de afastamento da excludente. ● Consequência: exclui a culpabilidade do executor subalterno. O fato permanece punível em relação ao autor da ordem. Exemplo dado por Cleber Masson: “Imagine a hipótese de um Delegado de Polícia, com larga experiência em sua atividade, que determina a um Investigador de Polícia de sua equipe, recém ingressado na instituição, a prisão em flagrante de um desafeto, autor de um crime de roubo ocorrido há mais de uma semana, em relação ao qual não houve perseguição, fato desconhecido pelo subordinado. O subalterno, no caso, seja em face do restrito conhecimento do caso concreto, seja em respeito ao superior hierárquico, em quem muito confia, não pode ser responsabilizado, devendo o crime ser atribuído exclusivamente ao autor da ordem. JÁ CAIU EM PROVA: CESPE - São expressamente previstas no CP duas situações que excluem a culpabilidade, dada a inexigibilidade de comportamento diverso: a coação irresistível e a obediência hierárquica. Um empregado de banco privado, por exemplo, que tiver praticado condutas delituosas em estrita 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 34 e integral obediência às ordens não manifestamente ilegais emanadas de superior hierárquico poderá beneficiar-se da excludente de culpabilidade por obediência hierárquica. Item incorreto. a) Causas supralegais de exclusão da culpabilidade: Ainda que não seja situação de coação moral irresistível ou obediência hierárquica, admite-se no Brasil, tanto em sede doutrinária como jurisprudencial, o reconhecimento de CAUSAS SUPRALEGAIS EXCLUDENTES DA CULPABILIDADE, sempre baseadas na INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA, quando ficar demonstrado que, em determinada situação, não era razoável exigir do agente que se portasse de outra maneira. * O MP é contra que sejam utilizadas do Tribunal do Júri, argumentando que são muito abstratas, o que fundamentaria a impunidade. ● Cláusula de consciência – situação em que alguém, por motivo de consciência ou de crença, pratica fato criminoso, não violando direitos fundamentais individuais. Fica isento de pena. Ex.: pai testemunha de Jeová que não permite a transfusão de sangue do filho. Parte da doutrina entende que, nesse exemplo, só isenta de pena se o filho permanecer vivo, pois se morrer há conflito e ele responde: liberdade de crença x vida. É um tema divergente e complexo. ● Desobediência civil: ato de insubordinação, fundado na proteção de direitos fundamentais, desde que o dano causado não seja relevante. Ex: invasões do MST, manifestações de presidiários visando à proteção de direitos humanos, etc. ● Conflito de deveres: Tem como fundamento a escolha do mal menor. Ex.: empresário que, visando a manter o funcionamento da empresa, deixa de recolher as contribuições previdenciárias em virtude da precária situação financeira. Ressalta-se que, nesse caso, somente haverá a exclusão da culpabilidade se preenchidos dois requisitos2: 1. Graves dificuldades econômico-financeiras da empresa 2. Extremo esforço de salvação da empresa por parte dos controladores, inclusive com sacrifício de bens e direitos particulares 3. TEORIA DO ERRO Erro consiste na AUSÊNCIA DE CONSCIÊNCIA acerca de um objeto juridicamente relevante. Ou seja: está em erro quem desconhece “algo” que é relevante para o Direito. Essa ausência de consciência pode aparecer em dois momentos distintos: fato típico e culpabilidade. ● Fato típico – consciência enquanto elemento cognitivo do dolo (lembrando que o dolo é formado pelo elemento cognitivo saber e elemento volitivo querer) – incide no erro de tipo. 2 8ª T. ACR 200472050023548. J. 02.06.2006 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 35 ● Culpabilidade – exige a potencial consciência da ilicitude – incide no erro de proibição. 3.1. Erro de Tipo (Art. 20, CP) Erro sobre elementos do tipo Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA INCORRETA: PM-MG - 2018 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui a culpa, mas permite a punição por crime doloso, se previsto em lei. Nesse caso, o agente ignora ou tem conhecimento equivocado da realidade. Há a falsa percepção da realidade. Cuida-se de ignorância ou erro que recai sobre as elementares, circunstancias ouquaisquer dados que se agregam a determinada figura típica. São exemplos de erro de tipo (A) a mulher que sai às pressas da sala de aula e, por engano, leva a bolsa de sua colega, muito parecida com a sua; (B) ou o caçador que atira e mata o seu colega de caça, depois que este, sem avisar, se disfarçara de urso para pregar-lhe uma peça. O erro de tipo pode ser: ● ESSENCIAL: Trata-se de falsa percepção da realidade que recai sobre dados principais do tipo, ou seja, sobre elemento fático ou normativo que corresponda a elementar do tipo. Ex: o agente, em uma mesa de bar, subtrai o aparelho celular de outra pessoa acreditando ser o seu, por serem idênticos. Aqui, o agente incorreu em erro sobre o elemento “coisa alheia”, que é uma elementar do tipo penal previsto no art. 155, do Código Penal, ou seja, furto. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: FGV- 2022 - PM-AM - Aluno Oficial da Polícia Militar Durante operação policial, Alberto, ao incursionar por uma viela, se depara com Sérgio portando um guarda-chuva. Devido à tensão do momento, Alberto pensa que o objeto nas mãos de Sérgio é uma arma de fogo e, em razão disso, efetua disparo com sua arma, o que leva Sergio a óbito. Nesse caso, é correto afirmar que a hipótese é de erro de tipo R.: essencial, na modalidade erro de tipo permissivo ou delito putativo por erro de tipo. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 36 JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IADES – 2021 – PM-PA – Aspirante da Polícia Militar Um motorista, ao procurar o seu automóvel em um estacionamento público, ingressou, por descuido, em um veículo idêntico ao dele, cujo dispositivo de destravamento das portas havia sido acionado pelo verdadeiro proprietário, que se dirigia ao respectivo veículo e, ao perceber a situação, gritou e chamou a atenção de uma viatura da polícia militar que passava pelo local, a qual efetuou a prisão em flagrante do motorista. Considerando apenas os fatos narrados nesse caso hipotético, é correto afirmar que o motorista incorreu em um (uma) R.: erro de tipo. Pormenorizemos esse caso para melhor compreensão: Erro sobre elementos do tipo Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. O agente incorrendo em falsa percepção da realidade no que tange à elementar “coisa alheia móvel”, pois ele pensa que tal coisa lhe pertence, subtrai o aparelho celular de outra pessoa. Conforme previsto no art.20, do CP, houve a exclusão do dolo, pois a falsa percepção da realidade recai sobre elemento que constitui o tipo penal (coisa alheia móvel) e como não há previsão no art. 155, do CP, de punição por conduta culposa, o fato é atípico penalmente. O agente errou sobre uma elementar do tipo penal previsto no art. 155 do CP, excluindo-se a conduta, não restando caracterizado o primeiro substrato do crime (fato típico) e por consequência o próprio crime. O erro de tipo essencial pode ser: (a) Inevitável/escusável/invencível – é imprevisível, qualquer pessoa erraria nas mesmas circunstâncias (com base na ideia de “homem médio”). Exclui dolo e culpa. (b) Evitável/inescusável/vencível: Previsível e inescusável. Faltou cuidado do agente na análise da situação. Exclui dolo, pune culpa, se prevista em lei. Tomando por base, ainda, o caso acima, caso seja considerado que o erro do agente ao subtrair celular que pertencia a outra pessoa era inevitável, excluir-se-ia o dolo e a culpa da conduta (mesmo que o tipo penal de furto previsse punição por conduta culposa, o agente não seria punido). Já se considerarmos 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 37 que a conduta do agente, mesmo diante de um celular idêntico ao seu, era evitável, excluir-se-ia apenas o dolo, podendo haver a punição a nível de culpa, caso houvesse tal previsão no crime de furto, como não há, chega-se ao mesmo resultado, fato atípico. Note que o erro de tipo essencial SEMPRE EXCLUIRÁ O DOLO. Isso porque falta ao agente o elemento cognitivo do dolo, qual seja, o “SABER”. ERRO INEVITÁVEL (ESCUSÁVEL / INVENCÍVEL) ERRO EVITÁVEL (INESCUSÁVEL / VENCÍVEL) Exclui o dolo – pois o agente não tem consciência do que faz (a consciência é um dos elementos do dolo; sem consciência não há dolo). Exclui Culpa – pois o resultado é imprevisível (a previsibilidade é elemento da culpa). EM REGRA: IMPUNIBILIDADE TOTAL DO FATO – FATO ATÍPICO. EXCEÇÃO: DECLASSIFICAÇÃO PARA OUTRO CRIME NO QUAL SE RESTRA PRESENTE O DOLO. Ex.: crime funcional impróprio com erro de tipo sobre a elementar de funcionário público. (quando se “retira” a qualidade de funcionário público, a conduta se subsume a outro tipo penal). No peculato furto, se houve erro sobre a qualidade de funcionário público, poderá haver o crime de furto. Exclui o dolo – o agente continua não tendo consciência. Pune a culpa, se prevista em lei. Isto porque o resultado era previsível, caso em que se pode punir a culpa. No exemplo do caçador, se o erro era evitável, o caçador irá responder por homicídio culposo. Sua falsa percepção da realidade deriva da conduta sem observância de cautela e prudência exigível do homem médio. Seu erro é fruto de uma falta de cuidado. Obs.1: É possível haver erro de tipo em relação aos crimes omissivos impróprios, em que o dever de agir é um elemento constitutivo do tipo penal. Portanto, quando a falsa percepção da realidade recair sobre a existência do dever de agir para evitar o resultado, haverá erro de tipo. Ex.: o salva vidas avista banhista se afogando em aguas rasas de uma praia e acredita que este está brincando. Obs2.: Delito putativo por erro de tipo: Ocorre quando o delito é imaginário ou erroneamente suposto, tendo em vista que só existe na cabeça do agente. No delito putativo por erro de tipo, a pessoa sabe que a conduta é criminosa e quer praticar o crime, mas, por erro nas circunstâncias fáticas, pratica um fato penalmente irrelevante. Ex. Jovem acredita verdadeiramente que está grávida pois sua menstruação atrasou e, por ser uma gravidez indesejada, decide comprar remédios abortivos para praticar o autoaborto (art. 124, 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 38 CP). Ocorre que, posteriormente, descobre que não havia gravidez alguma. Nesse caso, estamos diante de um delito putativo por erro de tipo. ● ACIDENTAL: Recai sobre dados periféricos/secundários do tipo – Se o agente é avisado, ele apenas “corrige” o problema e continua agindo ilicitamente. DICA PARA DIFERENCIAR ERRO ESSENCIAL E ACIDENTAL: No erro essencial, se o agente for avisado sobre erro, ele faz o certo e não comete crime. No erro acidental, o agente, mesmo sabendo que está em erro, praticaria crime. O erro acidental pode recair: (a) Sobre o objeto: O agente representa equivocadamente a coisa visada. O alvo era um objeto específico e, por erro, acaba atingindo outro objeto. Ex.: quer furtar um relógio de ouro e acaba furtando um relógio falsificado. ▪ NÃO exclui dolo e culpa; ▪ NÃO isenta o agente de pena; ▪ Agente responde pelo crime do objeto lesado, e não o visado. (Adota-se a Teoria da Concretização). (b) Quanto à pessoa / error in personae (art. 20 §3º do CP): Erro sobre a pessoa § 3º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime. O Agente representa equivocadamente a pessoa visada. NÃO há erro na execução, não háfalha operacional, mas sim falha na representação da vítima. Há uma confusão quanto à pessoa certa. ▪ NÃO exclui dolo e culpa; ▪ NÃO isenta o agente de pena; ▪ Adota a teoria da Equivalência dos Bens Jurídicos ▪ Agente responde pelas qualidades da vítima pretendida (vítima virtual), e não da vítima real (Assim, é possível parricídio de pai vivo, ex: queria matar o pai, mas matou o tio que é muito parecido acreditando ser ele). (c) Na execução (aberratio ictus) (art. 73 do CP): Erro na execução Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 39 do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. Ao contrário do erro anterior, aqui, o agente representa corretamente a vítima, mas atinge pessoa diversa da pretendida por ACIDENTE ou ERRO no uso dos meios de execução. Normalmente, ocorre por erro de pontaria na hora de atirar. ▪ NÃO exclui dolo e culpa ▪ NÃO isenta o agente de pena; ▪ Adota-se a teoria da equivalência da equivalência dos bens jurídicos (responde com base na vítima virtual) Pode possuir: 3. Resultado único / unidade simples: atinge só a pessoa diversa: agente responde pelas qualidades da vítima pretendida (vítima virtual). 4. Resultado duplo / unidade complexa: o agente atinge a pessoa desejada e também pessoa diversa por culpa no segundo: responde pelos dois crimes em concurso formal. Ex.: Quer matar A, mas, por erro de execução, além de matar A, atinge também B, causando-lhe lesões corporais. Nesse caso, responderá pelo homicídio de A em concurso com lesão corporal culposa de B. ERRO SOBRE A PESSOA ERRO NA EXECUÇÃO Erro na representação da vítima pretendida Representa-se corretamente a vítima pretendida A execução do crime é correta – não há falha operacional A execução do crime é errada – existe falha operacional A pessoa visada não corre perigo (porque foi confundida com outra) A pessoa visada corre perigo ATENÇÃO! NOS DOIS CASOS O AGENTE RESPONDE PELO CRIME, CONSIDERANDO AS QUALIDADES DA VÍTIMA VIRTUAL (TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS BENS JURÍDICOS). ATENÇÃO: Embora, para fins penais, seja considerada a vítima pretendida, ela é irrelevante para fins processuais penais, que levará em consideração a vítima efetiva. Ex.: regras de fixação de competência. O agente quer matar um parlamentar federal – que possui foro por prerrogativa de função e, por erro de seleção, acaba matando seu assessor. Nesse caso, por mais que o agente responda com base nas qualidades da vítima pretendida (parlamentar), ele deverá ser processado e julgado pelo Tribunal do Júri, pois as qualidades da vítima virtual não são levadas em consideração para o Direito Processual Penal. CESPE/2019 (Adaptada): No chamado aberratio ictus, quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, em vez de vitimar a pessoa que pretendia ofender, o agente atingir pessoa 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 40 diversa, consideram-se as condições e qualidades não da vítima, mas da pessoa que o agente pretendia atingir. Item correto. (d) Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) (art. 74 do CP): Resultado diverso do pretendido Art. 74 - Fora dos casos do artigo anterior, quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste Código O agente, por acidente ou erro na execução, provoca lesão em bem jurídico diverso do pretendido. ▪ NÃO exclui dolo e culpa ▪ NÃO isenta o agente de pena; Pode possuir: (1) Resultado único / unidade simples: Responde pelo crime efetivamente ocorrido a título de culpa, se houver previsão legal da modalidade culposa. (2) Resultado duplo / unidade complexa: o agente atinge lesiona os dois bens jurídicos: responde pelos dois crimes em concurso formal. Percebe-se, assim, que tanto a aberratio ictus quanto a aberratio criminis são espécies de erro na execução, todavia, enquanto o primeiro erro faz com que o agente ataque pessoa diversa da pretendida (pessoa x pessoa), no segundo, o agente provoca lesão em bem jurídico diverso do pretendido (coisa X pessoa). Exemplo: "A" quer danificar o carro que "B" está conduzindo, entretanto, por erro na execução, atinge e mata o motorista. Queria praticar dano, mas acaba produzindo morte. Ocorrendo resultado diverso do pretendido, a consequência para o agente não poderá ser a isenção de pena. Neste caso, responderá pelo resultado diverso do pretendido, porém a título de culpa (se houver previsão legal). No nosso exemplo, "A", responderá por homicídio culposo (ficando absorvida a tentativa de dano). Como ocorre no aberratio ictus, entretanto, se o agente atingir também o resultado pretendido, responderá pelos dois crimes, em concurso formal de delitos Diferença entre Aberratio Ictus e Aberratio Criminis: no primeiro, apesar do erro, o agente atinge o mesmo bem jurídico pretendido (pessoa x pessoa), enquanto, no segundo, o agente atinge só o bem jurídico diverso ou também bem jurídico diverso do pretendido (pessoa x coisa). Art.73, do CP “ABERRATIO ICTUS” Art.74, CP “ABERRATIO CRIMINIS” 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 41 Ambos são modalidades de ERRO NA EXECUÇÃO O agente atinge o MESMO bem jurídico visado. O agente atinge bem jurídico DIVERSO do pretendido. O resultado provocado é o MESMO que o pretendido, mas atinge PESSOA DIVERSA. O resultado provocado (danificar patrimônio) é DIVERSO do pretendido (ceifar vida). Aqui, há relação pessoa x pessoa. Aqui, há relação coisa pretendida x pessoa atingida (e) Erro sobre o nexo causal (aberratio causae): É o engano relacionado à causa do crime: o resultado buscado pelo agente ocorreu em razão de um acontecimento diverso daquele que ele inicialmente idealizou. Não há erro quanto às elementares do tipo, bem como no tocante à ilicitude do fato. Com efeito, esse erro é penalmente irrelevante, de natureza acidental, pois o sujeito queria um resultado naturalístico e o alcançou. O dolo abrange todo o desenrolar da ação típica, do início da execução até a consumação. Exemplo: “A”, no alto de uma ponte, empurra “B” – que não sabia nadar – ao mar, para matá-lo afogado. A vítima falece, não por força da asfixia derivada do afogamento, e sim por traumatismo crânio-encefálico, pois se chocou em uma pedra antes de ter contato com a água. O agente deve responder pelo delito, em sua modalidade consumada. Ele queria a morte de “B”, e efetivamente a produziu. Há perfeita congruência entre a sua vontade e o resultado naturalístico produzido. A diferença entre o erro sobre o nexo causal (“aberratio causae”) e o dolo geral (ou por erro sucessivo) é que naquele (“aberratio causae” há um único ato (no exemplo acima, empurrar a vítima do alto da ponte); neste (dolo geral), por sua vez, há dois atos distintos (exemplo: “A” atira em “B”, que cai ao solo. Como ele acredita na morte da vítima, lança o corpo ao mar, mas posteriormente se constata que a morte foi produzida pelo afogamento, e não pelo disparo de arma de fogo). 3.2. Erro de Proibição A causa excludente (dirimente) da potencial consciência da ilicitude é o erro de proibição. Artigo 21 do Código Penal, in verbis: "O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato,se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. Parágrafo único —Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 42 Causa excludente da potencial consciência da ilicitude – elemento da culpabilidade. É sabido que uma vez publicada no Diário Oficial da União, a lei se presume conhecida por todos. Logo, não nos é dado desconhecer a lei. É possível, no entanto, que o agente, mesmo conhecendo a lei, incida em erro quanto à proibição do seu comportamento, valorando equivocadamente a reprovabilidade da sua conduta, podendo acarretar a exclusão da culpabilidade. O erro pode ser escusável (inevitável, invencível) ou inescusável (evitável, vencível), e é da conclusão desta análise que decorre a possibilidade do afastamento da culpabilidade. O erro é escusável quando o agente atua ou se omite sem ter a consciência da ilicitude do fato em situação na qual não é possível lhe exigir que tenha esta consciência. É, por outro lado, inescusável, nas palavras do Código Penal, "se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência" (art. 21, parágrafo único). No caso do erro escusável, afasta-se a culpabilidade, ao passo que o erro inescusável acarreta apenas a diminuição da pena (de um sexto a um terço). Espécies de erro de proibição a) Direto x Indireto ● Direto: O erro recai sobre o conteúdo da norma proibitiva, o agente acredita que a sua conduta é lícita/atípica (art. 21 do CP); ● Indireto: O erro recai sobre uma causa excludente de ilicitude. Ou seja, o agente supõe que seu comportamento, ainda que típico/ilícito, é amparado por alguma causa excludente de ilicitude (descriminante putativa – art. 20, §1º do CP); ● Mandamental: O erro recai sobre o conhecimento de uma norma mandamental (que impõe um determinado comportamento). Pode ocorrer nos crimes omissivos próprios ou impróprios (o agente conhece a situação fática, mas acha que não está obrigado, por lei, a agir). ESPÉCIES DE ERRO DE PROIBIÇÃO DIREITO INDIRETO MANDAMENTAL O agente desconhece o conteúdo da proibição. Exemplo clássico: o holandês que porta cannabis sativa no Brasil, por desconhecer que a conduta é ilícita. O agente se equivoca quanto à existência ou aos limites de uma excludente de ilicitude e comete um crime. São as descriminantes putativas por erro de proibição. O erro recai sobre a norma mandamental: o agente desconhece seu dever de agir e comete um crime por omissão. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 43 Tabela adaptada – Direito Penal em Tabelas – Parte Geral- Martina Correia – 2017. b) Evitável x Inevitável ● Inevitável: O erro era imprevisível. Analisa-se o perfil subjetivo do agente no caso concreto (diferente do erro de tipo que é “homem médio”. Isenta o agente de pena, desaparecendo com a potencial consciência da ilicitude e, consequentemente, a culpabilidade. ● Evitável: O erro do agente decorre de culpa, pois lhe era previsível. NÃO isenta de pena, mas pode servir como causa de diminuição. Permanece a potencial consciência de ilicitude. O quantum da diminuição é medido pelo grau de reprovabilidade. ERRO DE TIPO X ERRO DE PROIBIÇÃO: ERRO DE TIPO (art. 20, caput) ERRO DE PROIBIÇÃO DIRETO (art. 21 do CP) O agente possui falsa percepção da realidade/dos fatos. Não sabe o que faz. O agente sabe o que faz, mas acredita ser lícito o seu comportamento, enquanto, na verdade, é proibido. Ex.: Alguém em uma reunião atrasado para outro compromisso, desatento, pega o celular de outra pessoa que era igual ao seu e leva consigo. Em tese, subtraiu para si, coisa alheia móvel, mas tinha falsa percepção sobre o elemento “coisa alheia”, pois pensava que era sua. Ex.: Holandês que faz uso de maconha no Brasil e imagina ser permitido aqui, como lá é. Se o erro é INEVITÁVEL/ESCUSÁVEL/ INVENCÍVEL/ DESCULPÁVEL: EXCLUI DOLO E CULPA – Não há fato típico. Exclui o CRIME. Se o erro é evitável/inescusável/ vencível/ indesculpável: EXCLUI DOLO E PERMITE A PUNIÇÃO POR CULPA QUANDO PREVISTO EM LEI. Se o erro é INEVITÁVEL/ESCUSÁVEL/ INVENCÍVEL/ DESCULPÁVEL: exclui potencial consciência da ilicitude. Afasta a culpabilidade. Exclui a PENA. Se é evitável/inescusável/ vencível/indesculpável DIMINUI A PENA (quantum com base na reprovabilidade). ATENÇÃO: DESCRIMINANTES PUTATIVAS (erro de proibição indireto é uma espécie das descriminantes putativas.) 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 44 Descriminantes putativas § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo [CULPA IMPRÓPRIA, POR EXTENSÃO OU EQUIPARAÇÃO]. DICA: tentem sempre “traduzir” as palavras difíceis para entenderem os conceitos. Descriminante: causa excludente de ilicitude. Putativa: imaginária. As descriminantes putativas são excludentes de ilicitude imaginárias. Ou seja, ocorrem quando há causa de exclusão da ilicitude que existe apenas na MENTE do autor de um fato típico, NÃO existindo concretamente. Há 3 formas de o agente errar quanto às excludentes de ilicitude: (1) Erro relativo aos pressupostos de fato / à situação fática de uma causa de exclusão de ilicitude: · Aqui, o agente avalia mal a situação fática e acredita estar diante de um acontecimento que, se existisse, admitiria uma causa excludente de ilicitude (tornando sua ação legítima). · Ex: homem chega em casa encontra outro homem mantendo conjunção carnal com sua esposa, a qual confiava muito e que começou a gritar na hora que o viu. Acreditando que fosse um estuprador, o marido atira e mata o outro – em uma situação de legítima defesa que não existia, que só existiu na cabeça dele, pois ele interpretou erroneamente a situação fática. (2) Erro relativo à existência de causa de exclusão de ilicitude: o agente acredita que existe uma excludente de ilicitude quando, na realidade, não existe. · Aqui, ao contrário do erro quanto aos pressupostos fáticos, o indivíduo não avalia mal a realidade, mas acredita estar agindo amparado por uma causa excludente da ilicitude. Ex.: indivíduo que acha que pode matar a esposa que o traiu alegando a legítima defesa da honra (o que não existe no ordenamento jurídico pátrio), conforme decidiu recentemente (12/03/2021), o STF ADPF 779 – a tese da legítima defesa da honra é inconstitucional. (3) Erro relativo aos limites de uma causa de exclusão da ilicitude. · Ex.: indivíduo acredita que pode atirar 10 vezes em legítima defesa, quando apenas 1 tiro era, na situação, suficiente para repelir a injusta agressão. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 45 Natureza jurídica: Depende da teoria da culpabilidade adotada. O Código Penal é finalista, sendo que o finalismo adota a teoria normativa pura da culpabilidade. Esta, é dividida por outras duas: teoria extremada ou limitada da culpabilidade. Estruturalmente, para elas, a culpabilidade possui os mesmos elementos. A única diferença está no tratamento das descriminantes. ▪ Para a teoria extremada (ou estrita) da culpabilidade – o erro quanto às descriminantes putativas deverão sempre receber a mesma consequência jurídica do erro de proibição.É o que a doutrina chama de ERRO DE PROIBIÇÃO INDIRETO (o agente sabe que a conduta é proibida, mas acredita estar acobertado por causa excludente de ilicitude). ▪ Para a teoria limitada da culpabilidade - o erro quanto às descriminantes putativas poderão receber o tratamento de erro de tipo, chamado pela doutrina de erro de tipo permissivo (excluindo o fato típico) ou erro de proibição (excluindo a culpabilidade), a depender da “espécie”: ▪ (i) Se o erro é sobre a situação fática: ERRO DE TIPO PERMISSIVO (ii) Se o erro é sobre a existência ou limites de uma justificante: ERRO DE PROIBIÇÃO INDIRETO Para a doutrina majoritária, o Código Penal adotou a Teoria Limitada da Culpabilidade, conforme o item 19 da exposição de motivos do código penal. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA INCORRETA: PM-MG - 2023 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar Tanto a teoria extremada quanto a teoria limitada da culpabilidade identificam a descriminante putativa que recai sobre situação fática da causa excludente de ilicitude como hipótese de erro de tipo. Além das modalidades de erro já citadas, é possível falar em: ● Erro de subsunção: O agente conhece a ilicitude do fato, ou, nas circunstâncias podia conhecê-la, porém, supõe que seu fato se amolda a um tipo diverso. Recai sobre valorações jurídicas equivocadas. O agente interpreta equivocadamente o sentido jurídico do seu comportamento. o NÃO exclui dolo e culpa; o NÃO isenta o agente de pena; o Agente responde pelo crime, podendo o erro servir como atenuante. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 46 ● Erro provocado por terceiro (art. 20, §2º, CP): No erro de tipo, o agente erra por conta própria. No erro determinado por terceiro, há terceira pessoa que induz o agente em erro. Consequência: o Quem determina o erro dolosamente responde por crime doloso; quem determina culposamente, crime culposo; o Se foi previsto ou previsível, o agente será responsabilizado por culpa. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: PM-MG - 2019 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. ERRO DE PROIBIÇÃO CRIME PUTATIVO POR ERRO DE PROIBIÇÃO O agente age acreditando que seu comportamento é lícito. Contudo, por não compreender o caráter ilícito do fato, pratica um crime O agente acha que viola uma lei penal, mas sua atuação é penalmente irrelevante. É um delito de alucinação. Exemplo: o agente exporta para o exterior couro de cobra sem autorização ambiental, sem saber que pratica o crime previsto no art. 30 da Lei 9.605/98 Exemplo: o pai acha que comete o crime de incesto por manter relações sexuais com a filha maior de 18 anos e plenamente capaz. Tal fato, contudo, é atípico. Tabela adaptada – Direito Penal em Tabelas – Parte Geral – Martina Correia – 2017. Artigos relacionados para leitura: Arts. 20 ao 28, 73 e 74 do CP. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: - Direito Penal – Parte Geral – Volume 1 – 13ª edição – Cleber Masson; - Resumo de Direito Penal - Parte Geral - volume 9 - Fábio Roque Araújo e Vinícius Assumpção - Sinopse nº1 – Direito Penal – Parte geral – 7ª edição – Alexandre Salim e Marcelo André de Azevedo; - Manual de Direito Penal – Parte geral – 7ª edição – Rogério Sanches Cunha. - Sinopse jurídica - Direito Penal - Parte Geral - 18ª edição - vol. 7 - Victor Eduardo Rios Gonçaves. - Site Dizer o Direito – www.dizerodireito.com.br 51944 51944 http://www.dizerodireito.com.br/ http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 47 QUESTÕES PROPOSTAS Questões Comentadas 1 - 2023 - INSTITUTO AOCP - PC-GO - INSTITUTO AOCP - 2023 - PC-GO - Escrivão de Polícia da 3ª Classe Alcebíades é servidor lotado na Delegacia de Polícia de Valparaíso de Goiás e, sabendo que houve uma apreensão de celulares em uma operação policial e que tais objetos estão guardados no cofre da repartição pública, decide subtrair um deles, o de maior valor, para posteriormente vendê-lo. Porém, acovardado para agir ilicitamente, decide fumar seguidamente vários cigarros de Cannabis sativa (maconha) para relaxar antes de praticar o peculato. Caso Alcebíades seja flagrado praticando o delito, é correto afirmar que A-a embriaguez de Alcebíades é típico caso fortuito de recreação não consentida pelo agente e, portanto, isenta o praticante de pena. B-a embriaguez de Alcebíades é culposa e exclui a culpabilidade do agente. C-somente a embriaguez por força maior poderia tornar Alcebíades inimputável, tal como se ele fosse coagido a usufruir do entorpecente. D-a embriaguez de Alcebíades, embora dolosa, pode excluir sua culpabilidade se restar comprovada a extrapolação dos efeitos não planejados pelo agente. E-Alcebíades não poderá alegar inimputabilidade por fumo de entorpecente, pois a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos, não exclui a imputabilidade. 2 - 2023 - INSTITUTO AOCP - PC-GO - INSTITUTO AOCP - 2023 - PC-GO - Escrivão de Polícia da 3ª Classe Preencha a lacuna e assinale a alternativa correta. É ________________ o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. A- justificável B-semi-imputável C-atípico D-isento de pena E- indultável 3 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Escrivão de Polícia João, com 20 anos de idade e imputável, ingeriu bebida alcoólica durante uma festa e, embora não tivesse a intenção de se embebedar ou de praticar crimes, ficou completamente embriagado e desferiu socos em um desafeto, causando-lhe lesões corporais gravíssimas. Na situação hipotética apresentada, a embriaguez foi completa e A-culposa, mas não exclui a imputabilidade penal. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 48 B-fortuita, excluindo a imputabilidade penal. C-culposa, excluindo a imputabilidade penal. D-involuntária, excluindo a imputabilidade penal. E-patológica, com a agravante da embriaguez preordenada. 4 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Escrivão de Polícia Francisco estava em uma festa, e foi agredido injustamente por outro convidado, o qual praticava artes marciais. Imediatamente, a fim de repelir as agressões, Francisco arremessou uma cadeira na cabeça de seu agressor, que desmaiou. Na situação hipotética apresentada, a conduta de Francisco A-caracteriza estado de necessidade, causa excludente de culpabilidade. B-é atípica. C-configura legítima defesa, o que exclui a culpabilidade. D-configura legítima defesa, causa excludente de ilicitude. E-é exercício regular de direito, o que exclui a antijuridicidade. 5 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Agente de Polícia Em relação às excludentes de ilicitude, assinale a opção correta. A-A legítima defesa sucessiva é a que se origina após a agressão inicial e excede a causa. B-Os ofendículos são artefatos utilizados para defesa do bem jurídico e configuram estado de necessidade. C-O Código Penal não admite a legítima defesa real recíproca. D-Na legítima defesa, o excesso será punido apenas na modalidade dolosa. E-Na legítima defesa putativa, o agente responderá pelo crime doloso na modalidade tentada. 6 - 2022 - IBFC - PC-BA - IBFC - 2022 - PC-BA - Investigador de Polícia Civil No que concerne ao tema da imputabilidade penal, assinale a alternativa incorreta. A-Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especialB-Não excluem a imputabilidade penal a paixão e a emoção C-Não exclui a imputabilidade penal a embriaguez voluntária pelo álcool D-A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento E-Não exclui a imputabilidade penal a embriaguez culposa por substância de efeitos análogos ao álcool 7 - 2022 - IBFC - PC-BA - IBFC - 2022 - PC-BA - Investigador de Polícia Civil No que se refere à exclusão da ilicitude, assinale a alternativa incorreta. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 49 A-Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se B-O agente, em meio ao estrito cumprimento do dever legal, haverá de responder pelo excesso doloso ou culposo C-Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem D-Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo E-Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, é vedado, nesta hipótese, a redução de pena 8 - 2022 - VUNESP - PC-SP - VUNESP - 2022 - PC-SP - Investigador de Polícia A respeito das hipóteses de exclusão de ilicitude, constantes do Código Penal, é correto dizer que A-no estado de necessidade, ainda que seja razoável exigir o sacrifício do direito que se visou salvaguardar, o agente restará isento de pena. B-a legítima defesa é justificável para repelir injusta agressão a direito próprio ou a direito alheio. C-o estado de necessidade é justificável apenas para salvaguarda de direito próprio, não englobando direito alheio. D-quando o agente age em estado de necessidade, legítima defesa ou em estrito cumprimento do dever legal, incorre em crime, mas restará isento de pena, desde que não caracterizado o excesso, doloso ou culposo. E-a legítima defesa específica aos agentes de segurança pública, prevista no parágrafo único do art. 25, do Código Penal, aplica-se apenas quando em causa vítima de crime de extorsão mediante sequestro. 9 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-PB - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-PB - Escrivão de Polícia Com base na análise da culpabilidade, assinale a opção correta. A-Exclui-se a culpabilidade do agente que, em virtude de perturbação da saúde mental, não tenha sido inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar conforme o direito. B-Segundo a teoria finalista de crime, a exigibilidade de conduta diversa é um elemento subjetivo da culpabilidade, que deve ser analisado, diante do caso concreto, com base na hipótese de o agente poder agir em conformidade com o direito. C-O erro mandamental exclui a culpabilidade, se inescusável, uma vez que não se pode exigir conduta diversa do agente que não tem o necessário discernimento para ato. D-A embriaguez completa e preordenada isenta o réu de pena, por constituir causa legal de exclusão da culpabilidade. E-Incorre em erro de validade o agente que pratica um fato proibido, supondo acreditar que o STF tenha declarado a inconstitucionalidade de uma lei penal incriminadora. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 50 10 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-PB - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-PB - Escrivão de Polícia Com base nos conceitos de tipicidade, ilicitude e culpabilidade, assinale a opção correta. A-A coação moral irresistível exclui a conduta dolosa do agente, uma vez que, embora tenha consciência, ele não tem a vontade de agir em desconformidade com o direito. B-Atua com dolo eventual o agente que, querendo um resultado criminoso, entre os previstos, se conforma com qualquer resultado objetivo que ocorrer. C-O cumprimento legal de ordem de superior hierárquico, não manifestamente ilegal, exclui a tipicidade, pois o inferior hierárquico cumpre a ordem nos exatos limites da lei, sendo-lhe inexigível outra conduta. D-O agente que ultrapassar os limites de uma causa justificante, por acreditar que agia conforme o direito, incorre em erro de proibição, que constitui uma causa exculpante, se escusável. E-O agente que, diante do risco atual de colidência de bens jurídicos, sacrificar um bem jurídico de menor valor para salvar o de maior valor não comete crime, pois atua diante da inexigibilidade de conduta diversa. Outras Questões Propostas 11 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-PB Provas: CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-PB - Técnico em Perícia - Área Geral Pedro e sua filha de cinco anos estavam caminhando pela rua quando foram surpreendidos com a chegada de um cachorro de grande porte, sem coleira, indo na direção deles. Ao perceber que o cão começaria o ataque contra sua filha, Pedro atirou uma pedra na cabeça do animal, que veio a falecer. Considerando essa situação hipotética, Pedro agiu em A-legítima defesa de terceiro, excluindo a culpabilidade da conduta. B-legítima defesa de terceiro, excluindo a ilicitude da conduta. C-legítima defesa de terceiro, excluindo a tipicidade da conduta. D-estado de necessidade, excluindo a culpabilidade da conduta. E-estado de necessidade, excluindo a ilicitude da conduta. 12 - 2022 - FGV - PC-AM - FGV - 2022 - PC-AM - Escrivão de Polícia - 4ª Classe Leandro saiu para passear com seu cachorro, da raça Pitbull e, quando estava voltando pra casa, se depara com Jonas, seu antigo desafeto. Ao ver seu inimigo, atiça seu cachorro para atacá-lo. Diante da agressão injusta, Jonas saca sua arma e atira no cachorro, matando o animal. Com relação à situação jurídico-penal de Jonas, a tese defensiva que poderá ser alegada é A-legítima defesa B-estado de necessidade. C-exercício regular de direito. D-estrito cumprimento do dever legal. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 51 E-coação física irresistível. 13 - 2022 - FGV - PC-AM - FGV - 2022 - PC-AM - Investigador de Polícia O conceito analítico de crime o divide em Fato Típico; Ilícito ou Antijurídico e Culpável. A culpabilidade, por sua vez, é composta pela imputabilidade, pela potencial consciência da ilicitude e pela inexigibilidade de conduta diversa. Dentre as causas que excluem a imputabilidade penal encontram-se A-coação física irresistível, menoridade e embriaguez acidental completa. B-embriaguez acidental incompleta, menoridade e obediência hierárquica. C-embriaguez acidental completa, menoridade e doença mental. D-embriaguez preordenada, coação moral irresistível e erro de proibição. E-coação moral irresistível, exercício regular de direito e menoridade. 14 - 2021 - NC-UFPR - PC-PR - NC-UFPR - 2021 - PC-PR - Investigador de Polícia / Papiloscopista Acerca do erro de tipo e do erro de proibição (erro sobre a ilicitude do fato), considere as seguintes afirmativas: 1. O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. 2. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. 3. Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. 4. Enquanto o erro de tipo é uma falsa representação da realidade que recai sobre elemento do tipo penal, o erro de proibição é um erro de valoração que recai sobre o que é lícito ou ilícito. Assinale a alternativa correta. A-Somente a afirmativa4 é verdadeira. B-Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras. C-Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras. D-Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras. E-As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras. 15 - 2021 - NC-UFPR - PC-PR - NC-UFPR - 2021 - PC-PR - Investigador de Polícia / Papiloscopista São pessoas inimputáveis, EXCETO aquelas: A-menores de 18 anos. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 52 B-inteiramente incapazes de compreender o caráter ilícito do fato em razão de deficiência mental. C-inteiramente incapazes de se determinarem pela compreensão do caráter ilícito do fato em razão de doença mental. D-em estado de embriaguez absoluta decorrente de caso fortuito ou força maior. E-sob coação irresistível ou obediência hierárquica. 16 - 2021 - IDECAN - PC-CE - IDECAN - 2021 - PC-CE - Inspetor de Polícia Civil Vinícius sofre de sonambulismo desde a mais tenra idade. Certa noite, durante o sono, Vinícius, em estado de inconsciência, se levanta e se dirige até o escritório de sua casa e pega uma tesoura na gaveta. Nesse momento, sua esposa toca em seu ombro para levá-lo de volta à cama, ocasião em que Vinícius, ainda sonâmbulo, se vira e desfere cinco golpes com a tesoura em sua esposa, na altura do abdômen. Ato contínuo, Vinícius retorna para o quarto e continua seu sono, enquanto sua esposa cai inconsciente e morre minutos depois em virtude da excessiva perda de sangue. Nessa hipótese, é correto afirmar que Vinícius A-deve responder por delito de homicídio culposo. B-deve responder por delito de homicídio doloso, praticado com dolo eventual. C-não praticou crime, pois o estado de inconsciência exclui a culpabilidade pela inexigibilidade de conduta diversa. D-não praticou crime, pois o estado de inconsciência exclui a conduta, por ausência de voluntariedade no movimento. E-deve responder por delito de homicídio preterdoloso. 17- 2021 - IDECAN - PC-CE - IDECAN - 2021 - PC-CE - Inspetor de Polícia Civil O dependente químico severo, comprovado por laudo pericial, que, para poder comprar substância entorpecente a fim de satisfazer seu vício, pratica conduta descrita em tipo penal de furto, poderá arguir em sua defesa excludente de A-ilicitude pela inexigibilidade de conduta diversa. B-tipicidade pela ausência de dolo. C-culpabilidade pela coação moral irresistível. D-culpabilidade pela inimputabilidade. E-ilicitude pelo estado de necessidade. 18 - 2021 - IDECAN - PC-CE - IDECAN - 2021 - PC-CE - Escrivão de Polícia Civil Rita é trabalhadora rural no interior do nordeste brasileiro e, já sendo mãe solo de três filhos, todos menores de seis anos de idade, um deles portador de microcefalia, descobre que está grávida pela quarta vez. Não bastasse isso, Rita ainda descobre que o bebê dessa gestação também é portador de microcefalia. Desesperada, pois já vive abaixo da linha da pobreza, Rita percebe que não terá como sustentar e dar a atenção necessária à outra criança que vai nascer, razão pela qual pratica um aborto. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 53 Nessa hipótese, a respeito da situação de Rita, é correto afirmar que é possível alegar A-que Rita agiu no exercício regular de um direito, o que exclui a ilicitude da conduta. B-a tese de que Rita agiu em legítima defesa, o que exclui a ilicitude da conduta. C-que não houve dolo na conduta de Rita, o que exclui a tipicidade da conduta. D-uma causa supralegal de inexigibilidade de conduta diversa, o que exclui a culpabilidade. E-o perdão judicial, que vai isentar Rita de pena. 19 - 2021 - IDECAN - PC-CE - IDECAN - 2021 - PC-CE - Escrivão de Polícia Civil Segundo a Teoria da Tipicidade Conglobante, aquele que atua em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular do direito A-não pratica crime, pois, embora o fato seja típico, não há ilicitude na conduta. B-não pratica crime, pois ausente a culpabilidade em decorrência da inexigibilidade de conduta diversa. C-pratica fato típico, ilícito, culpável, mas não punível por questões de política criminal. D-fica isento de pena por questões de política criminal. E-não pratica crime, pois o fato sequer seria típico, tendo em vista que o agente não atuou antinormativamente. 20 - 2021 - IDECAN - PC-CE - IDECAN - 2021 - PC-CE - Escrivão de Polícia Civil Turista estrangeiro que chega ao Brasil portando munição, sem saber que sua conduta é proibida pelo ordenamento jurídico brasileiro, poderá alegar ausência de A-culpabilidade pela falta de potencial consciência da ilicitude da conduta. B-ilicitude pelo exercício regular de direito. C-tipicidade pela falta de dolo. D-culpabilidade pela inexigibilidade de conduta diversa. E-conduta penalmente relevante. Respostas3 3 1: E 2: D 3: A 4: D 5: C 6: D 7: E 8: B 9: E 10: D 11: E 12: A 13: C 14: E 15: E 16: D 17: D 18: D 19: E 20: A 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 54 Comentários 1 - 2023 - INSTITUTO AOCP - PC-GO - INSTITUTO AOCP - 2023 - PC-GO - Escrivão de Polícia da 3ª Classe Alcebíades é servidor lotado na Delegacia de Polícia de Valparaíso de Goiás e, sabendo que houve uma apreensão de celulares em uma operação policial e que tais objetos estão guardados no cofre da repartição pública, decide subtrair um deles, o de maior valor, para posteriormente vendê-lo. Porém, acovardado para agir ilicitamente, decide fumar seguidamente vários cigarros de Cannabis sativa (maconha) para relaxar antes de praticar o peculato. Caso Alcebíades seja flagrado praticando o delito, é correto afirmar que A-a embriaguez de Alcebíades é típico caso fortuito de recreação não consentida pelo agente e, portanto, isenta o praticante de pena. B-a embriaguez de Alcebíades é culposa e exclui a culpabilidade do agente. C-somente a embriaguez por força maior poderia tornar Alcebíades inimputável, tal como se ele fosse coagido a usufruir do entorpecente. D-a embriaguez de Alcebíades, embora dolosa, pode excluir sua culpabilidade se restar comprovada a extrapolação dos efeitos não planejados pelo agente. E-Alcebíades não poderá alegar inimputabilidade por fumo de entorpecente, pois a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos, não exclui a imputabilidade. COMENTÁRIOS Resposta: E A – Errada – A embriaguez de Alcebíades foi voluntária e preordenada, pois ele fumou intencionalmente para praticar o crime, não sendo caso fortuito. Não há exclusão de culpabilidade. B – Errada – A embriaguez culposa ocorre quando não há intenção de embriagar-se, o que não é o caso de Alcebíades, cuja embriaguez foi dolosa. C – Errada – Não é somente a embriaguez por força maior que exclui a imputabilidade. A embriaguez completa por caso fortuito também pode excluir a imputabilidade, o que não aconteceu com Alcebíades. D – Errada – A embriaguez dolosa nunca exclui a culpabilidade. Apenas a embriaguez completa acidental por caso fortuito ou força maior poderia excluir a culpabilidade. E – Certa – A embriaguez voluntária ou culposa, seja por álcool ou substância de efeitos análogos, não exclui a imputabilidade, conforme o art. 28 do Código Penal. 2 - 2023 - INSTITUTO AOCP - PC-GO - INSTITUTO AOCP - 2023 - PC-GO - Escrivão de Polícia da 3ª Classe Preencha a lacuna e assinale a alternativa correta. É ________________ o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. A- justificável B-semi-imputável 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DOCRIME – PARTE III 55 C-atípico D-isento de pena E- indultável COMENTÁRIOS Resposta: D A – Errada – A justificativa não se aplica, pois o agente não é justificável, mas isento de pena conforme o art. 26. B – Errada – A semi-imputabilidade não se refere à total incapacidade, mas à redução parcial da capacidade de entendimento. C – Errada – O fato não é atípico, pois há tipicidade, mas com isenção de pena devido à incapacidade total do agente. D – Certa – O agente é isento de pena, conforme o art. 26 do Código Penal, quando há incapacidade total de entender o caráter ilícito do fato. E – Errada – A indultabilidade se refere à concessão de indulto, o que não se aplica diretamente ao caso previsto no art. 26. 3 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Escrivão de Polícia João, com 20 anos de idade e imputável, ingeriu bebida alcoólica durante uma festa e, embora não tivesse a intenção de se embebedar ou de praticar crimes, ficou completamente embriagado e desferiu socos em um desafeto, causando-lhe lesões corporais gravíssimas. Na situação hipotética apresentada, a embriaguez foi completa e A-culposa, mas não exclui a imputabilidade penal. B-fortuita, excluindo a imputabilidade penal. C-culposa, excluindo a imputabilidade penal. D-involuntária, excluindo a imputabilidade penal. E-patológica, com a agravante da embriaguez preordenada. COMENTÁRIOS Resposta: A A - Certa - A embriaguez de João foi culposa, pois ele ingeriu a substância alcoólica sem a intenção de embriagar-se completamente, mas isso não exclui sua imputabilidade penal, conforme o art. 28, II, do Código Penal. B - Errada - A embriaguez de João não foi proveniente de caso fortuito, logo não exclui a imputabilidade penal. C - Errada - Embora a embriaguez tenha sido culposa, ela não exclui a imputabilidade penal, conforme o art. 28, II, do Código Penal. D - Errada - A embriaguez de João não foi involuntária, pois ele ingeriu a bebida conscientemente, mesmo sem a intenção de se embriagar. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 56 E - Errada - A embriaguez não foi patológica e não houve embriaguez preordenada, que se refere a quando o agente busca a embriaguez com a intenção de cometer o crime. 4 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Escrivão de Polícia Francisco estava em uma festa, e foi agredido injustamente por outro convidado, o qual praticava artes marciais. Imediatamente, a fim de repelir as agressões, Francisco arremessou uma cadeira na cabeça de seu agressor, que desmaiou. Na situação hipotética apresentada, a conduta de Francisco A-caracteriza estado de necessidade, causa excludente de culpabilidade. B-é atípica. C-configura legítima defesa, o que exclui a culpabilidade. D-configura legítima defesa, causa excludente de ilicitude. E-é exercício regular de direito, o que exclui a antijuridicidade. COMENTÁRIOS Resposta: D A - Errada - Estado de necessidade se aplica a situações de perigo atual, não a agressões físicas, que se enquadram melhor na legítima defesa. B - Errada - A conduta de Francisco não é atípica, pois há tipicidade na sua ação, mas ela pode ser justificável pela legítima defesa. C - Errada - A legítima defesa não exclui a culpabilidade, mas sim a ilicitude. D - Certa - A conduta de Francisco configura legítima defesa, pois ele agiu para repelir uma agressão injusta, o que exclui a ilicitude, conforme o conceito de legítima defesa. E - Errada - O caso não se trata de exercício regular de direito, mas de legítima defesa, que exclui a ilicitude. 5 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-RO - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-RO - Agente de Polícia Em relação às excludentes de ilicitude, assinale a opção correta. A-A legítima defesa sucessiva é a que se origina após a agressão inicial e excede a causa. B-Os ofendículos são artefatos utilizados para defesa do bem jurídico e configuram estado de necessidade. C-O Código Penal não admite a legítima defesa real recíproca. D-Na legítima defesa, o excesso será punido apenas na modalidade dolosa. E-Na legítima defesa putativa, o agente responderá pelo crime doloso na modalidade tentada. COMENTÁRIOS Resposta: C A - Errada - A legítima defesa sucessiva ocorre quando o agente, inicialmente acobertado pela legítima defesa, se excede, dando ao outro o direito de repelir o excesso. Não se refere a uma situação que "excede a causa". 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 57 B - Errada - Os ofendículos são artefatos de defesa, mas sua utilização não configura estado de necessidade, e sim exercício regular de direito. C - Certa - O Código Penal brasileiro não admite a legítima defesa real recíproca, pois não é possível que duas pessoas estejam simultaneamente em legítima defesa real. D - Errada - O excesso na legítima defesa pode ser punido tanto na modalidade dolosa quanto culposa, conforme previsto no Código Penal. E - Errada - Na legítima defesa putativa, o agente age acreditando estar em legítima defesa, e a sua responsabilidade penal será analisada de acordo com o erro, mas não necessariamente responderá por crime doloso na modalidade tentada. 6 - 2022 - IBFC - PC-BA - IBFC - 2022 - PC-BA - Investigador de Polícia Civil No que concerne ao tema da imputabilidade penal, assinale a alternativa incorreta. A-Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial B-Não excluem a imputabilidade penal a paixão e a emoção C-Não exclui a imputabilidade penal a embriaguez voluntária pelo álcool D-A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento E-Não exclui a imputabilidade penal a embriaguez culposa por substância de efeitos análogos ao álcool COMENTÁRIOS Resposta: D A - Correta - Os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis e estão sujeitos à legislação especial. B - Correta - A paixão e a emoção não excluem a imputabilidade penal. C - Correta - A embriaguez voluntária pelo álcool não exclui a imputabilidade penal. D - Incorreta - A pena não pode ser reduzida de um a dois terços para embriaguez, a redução se aplica somente em casos de embriaguez acidental completa, não a embriaguez voluntária. E - Correta - A embriaguez culposa por substância de efeitos análogos ao álcool não exclui a imputabilidade penal. 7 - 2022 - IBFC - PC-BA - IBFC - 2022 - PC-BA - Investigador de Polícia Civil No que se refere à exclusão da ilicitude, assinale a alternativa incorreta. A-Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se B-O agente, em meio ao estrito cumprimento do dever legal, haverá de responder pelo excesso doloso ou culposo 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 58 C-Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem D-Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo E-Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, é vedado, nesta hipótese, a redução de pena COMENTÁRIOS Resposta: E A - Correta - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar um direito próprio ou alheio de perigo atual, que não provocou e não podia evitar de outro modo, e cujo sacrifício não erarazoável exigir nas circunstâncias (Art. 24, CP). B - Correta - O agente que age em estrito cumprimento do dever legal responde pelo excesso doloso ou culposo (Art. 23, § único, CP). C - Correta - Em legítima defesa, o agente usa moderadamente os meios necessários para repelir uma agressão injusta, atual ou iminente, a um direito seu ou de outrem (Art. 25, CP). D - Correta - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo (Art. 24, §1º, CP). E - Incorreta - Embora seja razoável exigir o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida na hipótese de estado de necessidade (Art. 24, §2º, CP). 8 - 2022 - VUNESP - PC-SP - VUNESP - 2022 - PC-SP - Investigador de Polícia A respeito das hipóteses de exclusão de ilicitude, constantes do Código Penal, é correto dizer que A-no estado de necessidade, ainda que seja razoável exigir o sacrifício do direito que se visou salvaguardar, o agente restará isento de pena. B-a legítima defesa é justificável para repelir injusta agressão a direito próprio ou a direito alheio. C-o estado de necessidade é justificável apenas para salvaguarda de direito próprio, não englobando direito alheio. D-quando o agente age em estado de necessidade, legítima defesa ou em estrito cumprimento do dever legal, incorre em crime, mas restará isento de pena, desde que não caracterizado o excesso, doloso ou culposo. E-a legítima defesa específica aos agentes de segurança pública, prevista no parágrafo único do art. 25, do Código Penal, aplica-se apenas quando em causa vítima de crime de extorsão mediante sequestro. COMENTÁRIOS Resposta: B A - Incorreta - No estado de necessidade, a isenção de pena ocorre apenas se o sacrifício não for razoavelmente exigível (Art. 24, CP). B - Correta - A legítima defesa é definida como a reação moderada contra injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio (Art. 25, CP). 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 59 C - Incorreta - O estado de necessidade pode se aplicar tanto a direito próprio quanto a direito alheio (Art. 24, CP). D - Incorreta - Não há crime em caso de estado de necessidade, legítima defesa ou estrito cumprimento do dever legal, mas o agente responderá por excesso doloso ou culposo (Art. 23, CP). E - Incorreta - A legítima defesa para agentes de segurança pública aplica-se em situações de agressão ou risco de agressão a vítimas reféns, sem necessidade de elementos específicos de extorsão mediante sequestro (Art. 25, parágrafo único, CP). 9 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-PB - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-PB - Escrivão de Polícia Com base na análise da culpabilidade, assinale a opção correta. A-Exclui-se a culpabilidade do agente que, em virtude de perturbação da saúde mental, não tenha sido inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar conforme o direito. B-Segundo a teoria finalista de crime, a exigibilidade de conduta diversa é um elemento subjetivo da culpabilidade, que deve ser analisado, diante do caso concreto, com base na hipótese de o agente poder agir em conformidade com o direito. C-O erro mandamental exclui a culpabilidade, se inescusável, uma vez que não se pode exigir conduta diversa do agente que não tem o necessário discernimento para ato. D-A embriaguez completa e preordenada isenta o réu de pena, por constituir causa legal de exclusão da culpabilidade. E-Incorre em erro de validade o agente que pratica um fato proibido, supondo acreditar que o STF tenha declarado a inconstitucionalidade de uma lei penal incriminadora. COMENTÁRIOS Resposta: E A – Errada – A perturbação da saúde mental, conforme o parágrafo único do artigo 26 do Código Penal, não exclui a culpabilidade, mas pode reduzir a pena. B – Errada – De acordo com a teoria finalista, a exigibilidade de conduta diversa é um elemento normativo da culpabilidade, e não subjetivo. Ela deve ser analisada com base no caso concreto, mas a formulação do item está incorreta ao classificar esse elemento como subjetivo. C – Errada – O erro mandamental é uma modalidade de erro de proibição, e se o erro for inescusável (evitável), ele não exclui a culpabilidade, apenas a atenua. D – Errada – A embriaguez completa e preordenada não isenta o réu de pena. Pelo contrário, configura uma agravante, conforme a teoria da actio libera in causa, já que o agente se coloca voluntariamente em estado de embriaguez para cometer o crime. E – Certa – O erro de validade ocorre quando o agente acredita erroneamente que a norma penal é inconstitucional ou inválida, como quando supõe que o STF declarou uma lei inconstitucional. Nesse caso, o erro é classificado como erro de proibição de validade, que pode excluir ou atenuar a culpabilidade, dependendo de sua evitabilidade. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 60 10 - 2022 - CESPE / CEBRASPE - PC-PB - CESPE / CEBRASPE - 2022 - PC-PB - Escrivão de Polícia Com base nos conceitos de tipicidade, ilicitude e culpabilidade, assinale a opção correta. A-A coação moral irresistível exclui a conduta dolosa do agente, uma vez que, embora tenha consciência, ele não tem a vontade de agir em desconformidade com o direito. B-Atua com dolo eventual o agente que, querendo um resultado criminoso, entre os previstos, se conforma com qualquer resultado objetivo que ocorrer. C-O cumprimento legal de ordem de superior hierárquico, não manifestamente ilegal, exclui a tipicidade, pois o inferior hierárquico cumpre a ordem nos exatos limites da lei, sendo-lhe inexigível outra conduta. D-O agente que ultrapassar os limites de uma causa justificante, por acreditar que agia conforme o direito, incorre em erro de proibição, que constitui uma causa exculpante, se escusável. E-O agente que, diante do risco atual de colidência de bens jurídicos, sacrificar um bem jurídico de menor valor para salvar o de maior valor não comete crime, pois atua diante da inexigibilidade de conduta diversa. COMENTÁRIOS Resposta: D A – Incorreta – A coação moral irresistível exclui a culpabilidade, pois o agente não poderia agir de outra forma, mas não exclui a conduta. A coação física irresistível, por outro lado, exclui a tipicidade, pois o agente não realiza uma conduta voluntária. B – Incorreta – O item descreve o conceito de dolo alternativo, quando o agente se conforma com qualquer dos resultados previstos. No dolo eventual, o agente não deseja diretamente o resultado, mas aceita o risco de produzi-lo. C – Incorreta – O cumprimento de ordem de superior hierárquico, quando não manifestamente ilegal, exclui a culpabilidade, pela inexigibilidade de conduta diversa, e não a tipicidade. D – Correta – O erro de proibição ocorre quando o agente acredita que está agindo de acordo com o direito, mas, na verdade, ultrapassa os limites de uma causa justificante. Se o erro for inevitável, o agente é isento de pena; se evitável, a pena pode ser reduzida. E – Incorreta – No estado de necessidade, o sacrifício de um bem jurídico de menor valor para salvar um de maior valor é justificado, mas o Código Penal adota a teoria unitária, que só reconhece o estado de necessidade se o bem sacrificado for de igual ou menor valor ao bem preservado. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htmentre a conduta praticada e o ordenamento jurídico. Para saber se o fato típico também é ilícito, deve-se investigar se há alguma norma no ordenamento jurídico que permite aquele comportamento. Tal norma permissiva nao precisa ser de direito penal, podendo fazer parte de outro ramo do direito (direito administrativo, trabalhista etc). A análise da ilicitude é posterior à análise da tipicidade. Em regra, as condutas ilícitas são também típicas. Sinônimo de antijuridicidade. FASES DA EVOLUÇÃO DO TIPO PRIMEIRA SEGUNDA TERCEIRA Tipo puramente descritivo (elementos objetivos), sem conteúdo valoratívo e independente da ilicitude e da culpabilidade. Função indiciária do tipo: a tipicidade faz presumir a ilicitude. Tipo como RATIO COGNOSCENDI da ilicitude. Doutrina majoritária Ocorre uma fusão entre o fato típico e a ilicitude: a tipicidade supõe a ilicitude. Tipo como RATIO ESSENDI da Ilicitude. Teoria de Beling Teoria de Mayer Teoria de Mezger Tabelas retiradas do livro Direito Penal em Tabelas - Parte Geral - Martina Correia - 2017. 1.2. Causas de Exclusão da Ilicitude 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 6 1.2.1. Causas Legais de Exclusão da Ilicitude ● Estado de necessidade ● Legítima defesa ● Estrito cumprimento de dever legal ● Exercício regular do direito Art. 23, CP - Não há crime quando o agente pratica o fato: I – em estado de necessidade; II - em legítima defesa; III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: PM-MG - 2019 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. A. ESTADO DE NECESSIDADE (Art. 24, CP) Art. 24, CP - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 7 § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. a) Conceito: É a prática de um fato típico, sacrificando bem jurídico, para salvar de perigo atual direito próprio ou alheio cujo sacrifício não era razoável exigir-se nessas circunstâncias. Se há dois bens em perigo de lesão, o estado permite que seja sacrificado um deles, pois, diante do caso concreto, a tutela penal não pode salvaguardar a ambos (sopesamento de bens diante de uma situação adversa). Colisão de interesses legítimos b) Requisitos: (1) SITUAÇÃO DE PERIGO ATUAL: Perigo atual. → Pode advir da natureza, do homem, do comportamento animal. → Há discussão se perigo iminente também poderia ser englobado aqui. (Masson diz que prevalece que sim, Sanches que não). Porém, se a questão pedir conforme letra de lei, atual ou iminente é só na legítima defesa, sendo que estado de necessidade é atual. Quanto à existência do perigo, a doutrina classifica o estado de necessidade em: a) Estado de necessidade real: a situação de perigo existe efetivamente (exclui a ilicitude); b) Estado de necessidade putativo: a situação de perigo não existe, é imaginária (não exclui a ilicitude). Se o perigo não existe (é imaginário), o agente está diante de uma descriminante putativa (estado de necessidade putativo). Isso é importante porque o estado de necessidade putativo não exclui ilicitude. (2) PERIGO NÃO CAUSADO VOLUNTARIAMENTE PELO AGENTE Não pode invocar estado de necessidade aquele que provocou por sua vontade" o perigo. De acordo com as lições da doutrina majoritária, a expressâo "voluntariamente" é indicativa somente de dolo, nâo abrangendo a culpa em sentido estrito. Assim, diante do perigo gerado por incêndio, o seu causador doloso nâo pode invocar a descriminaste, mas o negligente pode. (3) INEVITABILIDADE DO DANO 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 8 “Que não podia, de outro modo, evitar” O comportamento deve ser absolutamente inevitável para salvar o direito próprio ou de terceiro diante da concreta situaçâo de perigo. É preciso que o único meio para salvar o direito próprio ou de terceiro seja o cometimento do fato lesivo, sacrificando-se bem jurídico alheio. O caso concreto dirá se o comportamento lesivo era ou não inevitável. Assim, mostrando- se viável a fuga do boi bravio que se encaminha para o ataque, esta opção deve ser escolhida, inexistindo estado de necessidade caso o agente resolva matar o animal. Atenção: Para que essa conduta esteja amparada pelo estado de necessidade, o indivíduo tem que, necessariamente, escolher a opção menos danosa, sob pena que agir em excesso. Ocorre que, normalmente, a opção menos danosa é simplesmente fugir do perigo, justamente para evitar a lesão a outro bem jurídico legítimo. Isso porque, no estado de necessidade, há a exigência do commodus discessus (saída mais cômoda; saída mais fácil, fuga). → No estado de necessidade, o objetivo é a eliminação da situação de perigo, e não a necessária afirmação da prevalência do meu direito. Assim, ao contrário da legítima defesa, em que o indivíduo sofre uma injusta agressão, no estado de necessidade há 2 bens jurídicos lícitos/devidos em conflitos, de modo que não é possível preservar os dois bens jurídicos. Por isso, é necessário buscar a saída mais cômoda para os dois bens jurídicos em risco. → Portanto, o commodus discessus é inerente à inevitabilidade do dano. Isso porque, se é possível evitar o dano fugindo/se afastando da fonte de perigo, essa deve ser a conduta seguida. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IDECAN - 2023 - PM-CE - 2º Tenente QPOM da Polícia Militar São requisitos para o reconhecimento penal de que a conduta do agente foi praticada em estado de necessidade: A inevitabilidade do comportamento lesivo. (4) INEXISTÊNCIA DE DEVER LEGAL DE ENFRENTAR O PERIGO Conforme preceitua o do artigo 24 do Código Penal: "Nâo pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo': Quer o dispositivo se referir a pessoas que, em razão da função ou ofício, têm o dever legal de enfrentar a situaçâo de perigo (desde que possível de ser enfrentado), não lhes sendo lícito sacrificar bens 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 9 alheios para a defesa do seu próprio direito. Guilherme Nucci assevera: "O dever legal é o resultante de lei, considerada esta em seu sentido lato. Entretanto, deve-se ampliar o sentido da expressão para abranger também o dever jurídico, aquele que advém de outras relações previstas no ordenamento jurídico, como o contrato de trabalho ou mesmo a promessa feita pelo garantidor de uma situação qualquer. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IDECAN - 2023 - PM-CE - 2º Tenente QPOM da Polícia Militar São requisitos para o reconhecimento penal de que a conduta do agente foi praticada em estado de necessidade: -Não ter o agente o dever legal de enfrentar o perigo. (5) SALVAR DIREITO PRÓPRIO OU ALHEIO · O estado de necessidade se configura quando o agente, diante da real situação de perigo, busca salvar direito próprio (estado de necessidade próprio) ou direito alheio (estado de necessidade de terceiro). Flávio Monteiro ensina: · "O estado de necessidade de terceiro inspira-se no princípio da solidariedade humana. Tratando-se,porém, de bens disponíveis, alguns autores sustentam a necessidade da aquiescência do titular do direito exposto a perigo de lesão. Não procede o raciocínio, pois a vontade do terceiro em perigo, como dizia La Medica, nâo é tomada em consideração; é substituída pela vontade do agente, juridicamente superior. Sobremais, em muitos casos nâo há nem tempo para pedir a concordância do terceiro" (6) INEXIGIBILIDADE DO SACRIFÍCIO DO INTERESSE AMEAÇADO: É verificada a proporcionalidade entre o direito protegido e o sacrificado. A partir dessa ideia se desenvolvem duas teorias: ▪ Teoria diferenciadora: ▪ Esta teoria diferencia o estado de necessidade justificante (excludente da ilicitude) do estado de necessidade exculpante (excludente da culpabilidade). ▪ Para esta teoria, se o bem jurídico sacrificado tiver um valor menor ou igual ao bem jurídico protegido, haverá estado de necessidade com excludente da ilicitude, denominado de estado de necessidade 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 10 justificante. Por outro lado, se o bem sacrificado tiver o valor maior do que o bem protegido, não se caracteriza a excludente da ilicitude, e sim uma causa de exclusão da culpabilidade, em face da inexigibilidade de conduta diversa. ▪ Teoria adotada pelo Código Penal Militar. ▪ Teoria unitária: não há estado de necessidade exculpante, mas apenas o estado de necessidade justificante, que é excludente da ilicitude, que incidirá sempre que o bem sacrificado tiver valor igual ou menor que o bem jurídico protegido. Sendo o bem sacrificado mais valioso do que o bem protegido, deverá o indivíduo responder pelo crime, mas haveria uma causa obrigatória de redução de pena de 1/3 a 2/3, conforme o §2º do art. 24 do CP estabelece. O dispositivo diz que embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. ▪ Teoria adotada pelo Código Penal. CÓDIGO PENAL MILITAR CÓDIGO PENAL O CPM adotou a TEORIA DIFERENCIADORA (arts. 39 e 43) e admite dois estados de necessidade: 1) Estado de necessidade justificante -> sacrifício do bem jurídico de menor ou igual valor ao salvo. Exclui a illcitude. 2) Estado de necessidade exculpante sacrifício do bem jurídico de maior valor que o salvo. Exclui a culpabilidade. (inexigibilidade de conduta diversa). O CP adotou a TEORIA UNITÁRIA: só existe o estado de necessidade justificante que exclui a illcitude quando há o sacrifício de bem jurídico de menor ou igual valor ao salvo. Não há estado de necessidade quando for sacrificado bem jurídico de maior valor, mas a pena deve ser reduzida (direito subjetivo do réu). Art. 24, § 2. Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de a 1 a 2/3. Tabela retirada do livro Direito Penal em Tabelas - Parte Geral - Martina Correia - 2017. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA INCORRETA: IDECAN - 2023 - PM-CE - 2º Tenente QPOM da Polícia Militar Ser razoável se exigir o sacrifício do direito ameaçado. (7) CONHECIMENTO DA SITUAÇÃO JUSTIFICANTE ● Conhecimento da situação justificante. Não se aplica a excludente quando o sujeito não tem ciência de que age para salvar um bem jurídico próprio ou alheio. ● O conhecimento acerca da situação de risco é o chamado elemento subjetivo da excludente de ilicitude. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 11 FURTO FAMÉLICO – Requisitos: ● Que o fato seja praticado para matar a fome; ● Que seja o único e derradeiro recurso do agente; ● Que haja a subtração de coisa capaz de diretamente mitigar a fome; ● A insuficiência dos recursos adquiridos pelo agente ou incapacidade/ impossibilidade de trabalho. Espécies: ● Quanto à titularidade: o Próprio; o De terceiro. ● Quanto aos elementos subjetivos do agente: o Real: Existe efetivamente a situação de perigo; o Putativo: A situação de perigo foi fantasiada pelo agente (NÃO exclui a ilicitude) – descriminante putativa (art. 20, §1º do CP). ● Quanto ao terceiro que sofre a ofensa: o Defensivo: Sacrifica-se direito do próprio causador do perigo; o Agressivo: Sacrifica-se direito de pessoa alheia à provocação do perigo. Gera responsabilidade civil, embora não seja ilícito penal. ATENÇÃO: o estado de necessidade comunica-se no concurso de pessoas. Estado de necessidade contra estado de necessidade É possível falar em estado de necessidade contra estado de necessidade (estado de necessidade recíproco) – lembre-se da “tábua de salvação” em naufrágio para duas pessoas. Ambas podem lutar pela tábua para a sua sobrevivência, tirando, por exemplo, a vida da outra pessoa para proteger a sua – desde que não sejam causadoras dolosas do perigo, é claro, vez que possuem o mesmo interesse jurídico e direito de se proteger. CESPE/ 2018 (Adaptada): O estado de necessidade recíproco não é aceito no direito brasileiro. Item incorreto. Erro na execução (art. 73, CP) X estado de necessidade e legítima defesa São compatíveis. Havendo erro na execução em razão de estado de necessidade ou legítima defesa, a vítima que foi acertada será considerada como se fosse a vítima virtual (pretendida do agente), incidindo as excludentes no caso. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 12 Cabe estado de necessidade em crime habitual e permanente? Exigindo a lei como requisitos o perigo atual, a inevitabilidade do comportamento lesivo e a não razoabilidade de exigência do sacrifício do direito ameaçado, referindo-se às "circunstâncias" do fato, nâo se tem admitido estado de necessidade nos delitos habituais (que demandam, para sua configuração, reiteração de atos) e permanentes (cuja consumaçâo de se prolonga no tempo, perdurando enquanto não cessada a permanência). ESTADO DE NECESSIDADE REAL ESTADO DE NECESSIDADE PUTATIVO O perigo atual existe concretamente. O perigo atual só existe na mente do agente. É uma descriminante putativa'(erro relativo aos pressupostos de fato de uma descriminante ou erro de tipo permissivo) ESTADO DE NECESSIDADE DEFENSIVO ESTADO DE NECESSIDADE AGRESSIVO O bem jurídico sacrificado pertence àquele que causou o perigo. Exemplo: o agente é atacado por um urso e mata o animal com sua arma. Logo, sacrificou a vida (bem jurídico) do causador do perigo Diante da urgência, o agente precisa sacrificar bem jurídico de um terceiro. Exemplo: para evitara colisão do seu veículo em um caminhão, Paulo desvia e colide com outro veículo (terceiro não causador do perigo). O agente deve indenizar o dano, mas pode demandar regressivamente o causador do perigo (arts. 929 e 930 do CG) Tabelas adaptadas -Direito Penal em Tabelas - Parte Geral - Martina Correia - 2017. B. LEGÍTIMA DEFESA Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) – INSERIDO PELO PACOTE ANTICRIME! 1. Conceito: Age em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Assim, diante de uma injusta agressão, não se exige o commodus discessus, ou seja, a simples e cômoda fuga do local. Por isso, se uma pessoa empunha uma 51944 51944 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art2http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 13 faca e vai em direção à outra, e esta, para repelir a agressão, saca um revólver e mata o agressor, não comete crime, por estar acobertada pela legítima defesa. 2. Requisitos da legítima defesa: Existência de uma agressão. A agressão não pode ser confundida com uma simples provocação. Enquanto a provocação é mera turbação, de efeitos apenas psicológicos e emocionais, a agressão é o efetivo ataque contra os bens jurídicos de alguém. A legítima defesa pressupõe a agressão consistente em um ataque provocado e praticado por pessoa humana. Ataques de animais não autorizam legítima defesa. Quem mata animal alheio que contra ele investe age em estado de necessidade. Observe-se, contudo, que, se o animal irracional é instigado por uma pessoa, pode-se falar em legítima defesa, visto que o animal aí serviu de instrumento para a ação humana. A agressão deve ser injusta. A injustiça da agressão exigida pelo texto legal está empregada no sentido de agressão ilícita, pois, caso contrário, não haveria justificativa para a legítima defesa. A ilicitude da agressão deve ser auferida de forma objetiva, independentemente de se questionar se o agressor tinha ciência de seu caráter ilícito. Desse modo, cabe, por exemplo, legítima defesa contra agressão de inimputável, seja ele louco, menor etc. Nessa mesma linha de raciocínio, admite-se também: a) Legítima defesa putativa contra legítima defesa putativa. Legítima defesa putativa é aquela imaginada por erro. Os agentes imaginam haver agressão injusta quando na realidade esta inexiste. É o que ocorre, por exemplo, quando dois desafetos se encontram e, equivocadamente, acham que serão agredidos um pelo outro. b) Legítima defesa real de legítima defesa putativa. Ex.: uma pessoa atira em um parente que está entrando em sua casa, supondo tratar-se de um assalto. O parente, que também está armado, reage e mata o primeiro agressor. c) Legítima defesa putativa de legítima defesa real. Ex.: A vai agredir B. A joga B no chão. B, em legítima defesa real, imobiliza A. Nesse instante, chega C e, desconhecendo que B está em legítima defesa real, o ataca agindo em legítima defesa putativa de A (legítima defesa de terceiro). d) Legítima defesa contra agressão culposa. Isso porque ainda que a agressão seja culposa, sendo ela também ilícita, contra ela cabe a excludente. Por outro lado, não se admite: a) legítima defesa real de legítima defesa real; 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 14 b) legítima defesa real de estado de necessidade real; c) legítima defesa real de exercício regular de direito real; d) legítima defesa real de estrito cumprimento do dever legal real. Isso porque em nenhum desses casos tem-se agressão injusta, ilícita. SITUAÇÕES ADMITIDAS REAL X PUTATIVA Exemplo: João supõe erroneamente uma agressão injusta por parte de Marcos e dispara a arma em sua direção (legítima defesa putativa). imediatamente, Marcos, com animus defendendi, repele a agressão injusta de João e dispara em sua direção (legítima defesa real). PUTATIVA X PUTATIVA Exemplo: Pedro é convencido por seus amigos de que será atacado, em breve, por Paulo. Enquanto isso, Paulo é convencido por seus amigos de que será atacado, em breve, por Pedro. Contudo, os boatos são falsos porque nenhum dos dois tem a intenção de agredir o outro. Quando Pedro e Paulo se encontram, ambos supõem erroneamente a agressão iminente e lutam. Houve defesa putativa recíproca, existente apenas na mente de Pedro e Paulo. ESTADO DE NECESSIDADE REAL X LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA Rogério Greco traz um exemplo muito didático: 1ª situação: próximo ao local de um acidente, Renata percebe que há um veículo com a chave na ignição e coloca a vítima no banco traseiro, no intuito de levá-la ao hospital (estado de necessidade real). 2ª situação: Lucas, dono do veículo e achando que estava sendo furtado, atira em direção à Renata.(legitima defesa putativa). SITUAÇÕES NÃO ADMITIDAS REAL X REAL Não é admitida a legítima defesa recíproca. Se a agressão de um sujeito é Injusta, significa que a reação do outro sujeito será justa e, portanto, amparada pelo ordenamento ESTADO DE NECESSIDADE REAL X LEGÍTIMA DEFESA REAL Não é admitido. Quando o agente pratica um ato em estado de necessidade (ou amparado por outra excludente de ilicitude) está agindo em conformidade com 0 direito. Não exisbrá a "agressão Injusta" a fundamentar a legítima defesa. Não confundir com a 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 15 situação (permitida) em que a pessoa age amparada simultaneamente pelo estado de necessidade e pela legítima defesa Tabelas adaptadas -Direito Penal em Tabelas - Parte Geral - Martina Correia - 2017. A agressão deve ser atual ou iminente. Agressão atual é a que está ocorrendo. Agressão iminente é a que está prestes a ocorrer. A lei não admite legítima defesa contra agressão futura (suposta). A agressão seja dirigida à proteção de direito próprio ou de terceiro . Admite-se a legítima defesa no resguardo de qualquer bem jurídico: vida, integridade corporal, patrimônio, honra etc. Deve, entretanto, haver proporcionalidade entre os bens jurídicos em conflito. Assim, não há como aceitar-se legítima defesa na prática de um homicídio apenas porque alguém ofendeu o agente com palavras de baixo calão. A legítima defesa de terceiro pode voltar-se inclusive contra o próprio terceiro, como no caso em que se agride um suicida para evitar que ele se mate. Utilização dos meios necessários. Meios necessários são os meios menos lesivos, ou seja, menos vulnerantes à disposição do agente no momento da agressão. Ex.: uma pessoa tem um porrete e uma arma de fogo quando começa a ser agredida. Ora, se ela pode conter o agressor com o porrete, não deve utilizar a arma de fogo para tanto. Se o meio é desnecessário, não há que se cogitar em excesso, pois descaracteriza-se de plano a legítima defesa. A jurisprudência, entretanto, vem entendendo de modo diverso. Moderação. Encontrado o meio necessário para repelir a injusta agressão, o sujeito deve agir com moderação, ou seja, não ir além do necessário para proteger o bem jurídico agredido. Elemento subjetivo. Tal como ocorre no estado de necessidade (e nas demais excludentes), só poderá ser reconhecida a legítima defesa se ficar demonstrado que o agente tinha ciência de que estava agindo acobertado por ela, ou seja, que estava ciente da presença de seus requisitos. 3. Excesso (art. 23, parágrafo único). É a intensificação desnecessária de uma conduta inicialmente justificada. O excesso sempre pressupõe um início de situação justificante. A princípio, o agente estava agindo coberto por uma excludente, mas, em seguida, a extrapola. O excesso pode ser: a) Doloso. Descaracteriza a legítima defesa a partir do momento em que é 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 16 empregado o excesso, e o agente responde dolosamente pelo resultado que produzir. Ex.: uma pessoa que inicialmente estava em legítima defesa consegue desarmar o agressor e, na sequência, o mata. Responde por crime de homicídio doloso. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IADES - 2017 - PM-DF - Oficial da Polícia Militar Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. João está em um bar, curtindo o happy hour de sexta, e é agredido por Pedro, jogador profissional de futebol. João, fisicamente mais fraco, para repelir a injusta agressão, sacasua pistola e atira em Pedro, que tomba ferido no tórax. João, mesmo depois de ter cessado a ação após o primeiro disparo, sabendo que não mais poderia continuar a repulsa, olha para Pedro e diz: “A partir de agora, você nunca mais jogará futebol!”. Em seguida, efetua outro disparo, agora no joelho direito de Pedro. Nessa situação hipotética, o caso trata-se de: R.: excesso doloso na legítima defesa. b) Culposo (ou excesso inconsciente, ou não intencional). É o excesso que deriva de culpa em relação à moderação, e, para alguns doutrinadores, também quanto à escolha dos meios necessários. Nesse caso, o agente responde por crime culposo. Trata-se também de hipótese de culpa imprópria. O excesso, doloso ou culposo, é também aplicável nas demais excludentes de ilicitude (estado de necessidade, estrito cumprimento do dever legal, exercício regular de direito etc.). 4. Outras nomenclaturas quanto ao excesso a) Legítima defesa sucessiva. É a repulsa do agressor inicial contra o excesso. Assim, a pessoa que estava inicialmente se defendendo, no momento do excesso, passa a ser considerada agressora, de forma a permitir legítima defesa por parte do primeiro agressor. b) Legítima defesa subjetiva. É o excesso por erro de tipo escusável, ou seja, quando o agente, por erro, supõe ainda existir a agressão e, por isso, excede-se. Nesse caso, excluem-se o dolo e a culpa (art. 20, § 1º, 1ª parte). 5. Diferenças entre o estado de necessidade e a legítima defesa. São inúmeras as diferenças. As principais são as seguintes: a) no estado de necessidade, há um conflito entre bens jurídicos; na legítima defesa, ocorre uma repulsa contra um ataque; b) no estado de necessidade, o bem é exposto a risco; na legítima defesa, o bem sofre uma agressão 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 17 atual ou iminente; c) no estado de necessidade, o perigo pode ser proveniente de conduta humana ou animal; na legítima defesa, a agressão deve ser humana; d) no estado de necessidade, a conduta pode atingir bem jurídico de terceiro inocente; na legítima defesa, a conduta pode ser dirigida apenas contra o agressor. Vejamos o comparativo entre a redação anterior e a atual redação implementada pela Lei 13. 964/19. Antes. Depois. Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. Agressão Reação Injusta. Atual ou Iminente. Contra direito próprio ou de terceiro. Uso dos meios necessários. Uso moderado desses meios. Assim, passamos a analisar cada um dos requisitos exigidos para a configuração da legítima defesa. Pergunta-se: Seria possível a prática da legítima defesa contra uma omissão ilícita? Sim, Mezger fornece o exemplo do carcereiro que tem o dever de liberar o recluso cuja pena já foi integralmente cumprida. Com a sua omissão ilícita, inevitavelmente agride um bem jurídico do preso, autorizando a reação em legítima defesa.1 Ainda se exige que a agressão seja injusta. O conceito de injustiça se coaduna com a ideia de contrariedade ao direito. Assim, não é necessário que a conduta se configure especificamente como crime, basta que ela seja praticada em desacordo com as normas jurídicas. 1 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 18 A doutrina admite a legítima defesa contra condutas culposas e até mesmo contra condutas despidas de culpa, desde que revestidas de injustiça. Exemplo: aquele que está sentado no banco de um ônibus e nota uma pessoa que acabara de escorregar caindo em sua direção, pode, se necessário, empurrá-la contra o chão para não ser atingido, exemplo citado na obra do professor Cleber Masson. Pergunta-se: Admite-se legítima defesa da honra? R.: NÃO! O STF entendeu, no bojo do julgamento da ADPF 779, que a tese da legítima defesa da honra é inconstitucional! Assim, o STF entende que o acusado de feminicídio não pode ser absolvido, na forma do art. 483, III, § 2º, do CPP, com base na tese da “legítima defesa da honra”, de modo que é proibido que a defesa, a acusação, a autoridade policial ou o magistrado utilizem, direta ou indiretamente, a tese de legítima defesa da honra (ou qualquer argumento que induza à teses nas fases pré-processual ou processual penais, bem como durante julgamento perante o tribunal do júri. O argumento da “legítima defesa da honra” normaliza e reforça uma compreensão de desvalor da vida da mulher, tomando-a como ser secundário cuja vida pode ser suprimida em prol da afirmação de uma suposta honra masculina. Isso também está em descompasso com os objetivos fundamentais contidos no art. 3º da Carta Magna, especialmente os seguintes: “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária”; e “IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Nesse contexto, ao apreciar medida cautelar em ADPF, o STF decidiu que: a) A tese da legítima defesa da honra é inconstitucional, por contrariar os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88), da proteção à vida e da igualdade de gênero (art. 5º, da CF/88); b) Deve ser conferida interpretação conforme à Constituição ao art. 23, II e art. 25, do CP e ao art. 65 do CPP, de modo a excluir a legítima defesa da honra do âmbito do instituto da legítima defesa; e c) A defesa, a acusação, a autoridade policial e o juízo são proibidos de utilizar, direta ou indiretamente, a tese de legítima defesa da honra (ou qualquer argumento que induza à tese) nas fases pré-processual ou processual penais, bem como durante julgamento perante o tribunal do júri, sob pena de nulidade do ato e do julgamento. STF. Plenário. ADPF 779, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 15/03/2021. ESTADO DE NECESSIDADE LEGÍTIMA DEFESA Conflito entre vários bens jurídicos diante da mesma situação de perigo. Ameaça ou ataque a um bem jurídico. NÃO tem destinatário certo. Possui destinatário certo. O perigo decorre de fato humano, animal ou natureza. Há uma agressão humana e injusta. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 19 Os interesses em conflito são legítimos (é possível estado de necessidade x estado de necessidade). Ex: Náufragos disputando coletes salva- vidas Os interesses do agressor são ilegítimos (não é possível legítima defesa real de legítima defesa real. Obs.1: A defesa contra agressão produzida em caso de um ataque epiléptico não pode ser justificada pela legítima defesa, mas seria caso de estado de necessidade. Obs.2: É possível legítima defesa contra pessoa jurídica. Obs.3: Se alguém desafia outrem e a pessoa aceita, nenhum dos dois estará em legítima defesa. Obs.4: Os bens jurídicos supra individuais (o direito à saúde, ao meio ambiente, à segurança etc.) não são suscetíveis de legítima defesa. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IBADE - 2017 - PM-RJ - Aspirante da Polícia Militar Analisando as assertivas a seguir, assinale aquela que corresponde a uma hipótese de exclusão da antijurídícidade pela legítima defesa. R.: A fim de se defender do ataque de um cachorro feroz e de grande porte, Ludovico agride o animal com uma paulada na cabeça, provocandosua morte. O ataque do animal fora ordenado ostensivamente por Laudelino, treinador de cachorros, proprietário do animal e inimigo da vítima. C. ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL O agente público, no desempenho de suas atividades, não raras vezes é obrigado, por lei (em sentido amplo), a violar um bem jurídico. Essa intervenção lesiva, dentro de limites aceitáveis, estará justificada pelo estrito cumprimento do dever legal, não se consubstanciando, portanto, em crime (art. 23, III, 1ª parte, do CP). De fato, seria de todo desarrazoado que a lei estabelecesse a prática de determinada atividade pelo agente e, ao mesmo tempo, impusesse-lhe pena caso esta atividade se subsumisse a algum fato típico. E no caso dessa descriminante, isso se torna ainda mais evidente porque, ao contrário do que ocorre no exercício regular de direito, aqui a lei obriga o agente a atuar; a punição consistiria em verdadeira teratologia. Pense-se, a título de exemplo, no policial que emprega violência moderada (mas necessária) para concretizar a prisão em flagrante de perigoso assaltante, ou no Juiz que, na sentença, emite conceito desfavorável quando se reporta ao sentenciado. As condutas dos servidores (policial e juiz), apesar de típicas (lesão corporal e injúria, respectivamente), estão justificadas pelo estrito cumprimento do dever legal (imposto pelos arts. 301 do CPP 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 20 e 142, III, do CP). O dever legal que fundamenta a descriminante é aquele decorrente de lei em sentido lato, ou seja, de qualquer diploma normativo emitido pela autoridade competente para deliberar a respeito. Assim, a conduta pode ser justificada pela lei em sentido estrito, pelo decreto ou pelo regulamento. De igual forma, a decisão judicial, que aplica a lei e obriga, evidentemente, ao cumprimento, pode servir de fundamento para se estabelecer a licitude sobre determinado fato típico. Também não podemos ignorar, como eximente, o ato administrativo, emitido em estrita correspondência com a lei. Imaginemos a situação em que a autoridade de trânsito emita uma portaria regulamentando a remoçâo de veículos estacionados irregularmente em via pública. Neste caso, embora o agente de trânsito que promova a remoção pratique um fato típico (subtração do veículo), não haverá ilicitude em virtude da determinação do ato emitido pela autoridade. Alerte-se, contudo, que o ato administrativo deve ser dotado de efeitos gerais, pois, se veicula uma ordem específica, o estrito cumprimento de um dever legal cede espaço à obediência hierárquica, excludente da culpabilidade. A excludente é incompatível com os crimes culposos, pois a lei não obriga ninguém, funcionário público ou não, a agir com imprudência, negligência ou imperícia. A situação, geralmente, é resolvida pelo estado de necessidade. Exemplo: o bombeiro que dirige a viatura em excesso de velocidade para salvar uma pessoa queimada em incêndio (não está sendo imprudente) e em razão disso atropela alguém, matando-o, não responde pelo homicídio culposo na direção de veículo automotor, em face da exclusão do crime pelo estado de necessidade de terceiro. O particular pode invocar a descriminante do estrito cumprimento do dever legal? A doutrina majoritária afirma que sim. Flávio Monteiro de Barros, por exemplo, lembra que: "O advogado processado pelo delito de falso testemunho, porque se recusou a depor sobre fatos envolvendo segredo profissional, pode invocar a justificativa do estrito cumprimento do dever legal. Se, porém, o cliente havia autorizado a revelaçâo do segredo, o advogado que, mesmo assim, recusa-se a depor pode invocar a excludente do exercício regular de direito". Por fim, o agente deve ter conhecimento (aspecto subjetivo) de que está praticando a conduta em face de um dever imposto pela lei. Resumindo: ● O estrito cumprimento do dever legal beneficia os agentes públicos em geral, mas é possível que o particular também seja amparado pela excludente, desde que esteja cumprindo estritamente um dever legal; ● Dever legal: lei em sentido amplo. Qualquer ordem ou comando advindos do Estado. ● Estrito cumprimento: se o agente se exceder, responderá pelo excesso. Caberia, por exemplo, legítima defesa diante desse excesso. ● No concurso de pessoas, o estrito cumprimento do dever legal para um dos agentes se comunica aos demais que concorreram para o fato. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 21 ● Elemento subjetivo: o agente deve ter consciência que está agindo acobertado por excludente. ATENÇÃO!!! O policial que mata o criminoso em uma troca de tiros NÃO age em estrito cumprimento do dever legal. Não é dever de ninguém matar alguém. Age em LEGÍTIMA DEFESA, própria ou de terceiros. Não ocorre estrito cumprimento do dever legal na hipótese de policial matar criminoso em fuga. De acordo com o STJ, a lei proíbe a autoridade, seus agentes ou quem quer que seja, desfechar tiros contra pessoas em fuga (REsp 402.419/RO). Se esta fuga, contudo, estiver acoplada a uma agressão injusta, contudo, poderá a atuação do agente configurar legítima defesa. ATENÇÃO!!! Excesso no estrito cumprimento do dever legal: Tanto no excesso doloso como no excesso culposo na atuação em estrito cumprimento do dever legal, temos a RUPTURA DOS LIMITES DO DEVER. Ou seja: sempre que o indivíduo cumprir o dever fora dos limites impostos pela norma, haverá hipóteses de ruptura dos limites do dever. Nessas hipóteses, o agente deixa de estar amparado pelo estrito cumprimento do dever legal porque ele se excede, ou seja, ele ultrapassa os limites impostos pela norma. Quais seriam as consequências imediatas dessa ruptura dos limites??? Quais seriam as consequências imediatas desse excesso praticado pelo agente? 1 - Exclui a licitude da conduta: ou seja, se ele se excedeu, ele deixa de estar em estrito cumprimento do dever legal, deixando de estar amparado uma causa excludente da ilicitude 2 - Se ele deixa de agir em estrito cumprimento do dever legal, o excesso acaba permitindo a legítima defesa da pessoa agredida em seu direito (da pessoa que sofreu o excesso) · Ex.: A atuando em estrito cumprimento do dever legal – é uma conduta lícita, de modo que B (pessoa que está sofrendo os efeitos desse ato), não pode fazer nada, não pode repelir pois a conduta de A é lícita. · Ex. 2: Se A se excede nos limites do estrito cumprimento do dever legal, sua conduta se torna ilícita, e se sua conduta se torna ilícita, abre a possibilidade para B repelir essa injusta agressão, repelir esse excesso. Assim, B pode atuar em legítima defesa, pois ele está tendo seu direito agredido na medida em que a pessoa não está agindo em estrito cumprimento do dever legal (por causa do excesso) CESPE/2020: Age em legítima defesa o policial rodoviário federal que, aplicando técnicas de defesa policial, causa escoriações em um infrator que resiste à prisão. Item incorreto. D) EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 22 São as ações do cidadão comum autorizadas pela existência de direito definido em lei e condicionadas à regularidade do exercício desse direito. Exercício REGULAR de direito, ou seja, com proporcionalidade e observância de limites. Se houver excesso o agente deve ser responsabilizado. Ademais, deve, de fato, ser um “direito”, estando previsto direta ou indiretamente em lei. Não pode ser baseado em costume (parte minoritária da doutrina entende que seria possível). Também é necessário que o agente tenha consciência que está agindo acobertado por excludente. Exemplos: ⦁ Lesões em práticas esportivas ⦁ Prisão em flagrante realizada porparticular (flagrante facultativo) ⦁ Intervenções médicas ou cirúrgicas (que também podem caracterizar estado de necessidade a depender da situação, quando a intervenção médica não foi autorizada pelo paciente, por exemplo). ⦁ Direito de castigo dos pais em relação aos filhos Estrito cumprimento de dever legal X exercício regular de direito ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO Compulsório: o agente é obrigado a cumprir o dever legal. Facultativo: o agente é autorizado a atuar pelo ordenamento jurídico, mas a ele pertence a opção entre exercer ou não o direito assegurado. OLHA O BIZU: o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito são considerados DESCRIMINANTES PENAIS EM BRANCO, vez que o conteúdo da norma permissiva (que impõe o dever ou permite a conduta como direito) precisa ser complementado por outra norma jurídica, esta que disporá sobre os deveres e condutas para o caso concreto. Não está pré-definido no CP quais são os deveres legais ou os direitos que podem regularmente ser exercidos. Os ofendículos Ofendículo (também conhecido como offendicula ou offensacula) representa o aparato preordenado para defesa do patrimônio (exs: cacos de vidro no muro, ponta de lança na amurada, corrente elétrica etc.). Um assaltante, ao tentar invadir uma residência, se fere na lança que protege o imóvel. O proprietário da casa, obviamente, nâo responde por lesão corporal. Discute-se, no entanto, o fundamento da sua absolviçâo: Agiu ele no exercício regular de um direito ou em legítima defesa? De acordo com a lição da maioria, enquanto o aparato nâo é acionado, caracteriza exercício regular 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 23 de um direito; ao funcionar repelindo a injusta agressão, configura a excludente da legítima defesa (legítima defesa preordenada). No primeiro estágio — de disposição da armadilha — inexistindo agressão injusta, atual ou iminente, obviamente age o sujeito dentro dos limites de seus direitos, dando proteção ao seu patrimônio ou vida. No segundo momento — de deflagração das offendicula — presentes todos os requisitos legais, o ato adquire contornos de legitima defesa. Há autores, no entanto, que distinguem o ofendículo da defesa mecânica predisposta. O primeiro representa aparato visível, configurando exercício regular de um direito. Já na hipótese da defesa mecânica predisposta, cuidando-se de aparato oculto, o caso será de legítima defesa. Independentemente da corrente que se adota, importa alertar que o uso do ofendículo, traduzindo um direito do cidadão em defender seu patrimônio, deve ser utilizado com prudência e consciência, evitando excessos (puníveis) patrimônio, deve ser utilizado com prudência e consciência, evitando excessos (puníveis). Como bem explica Noronha: "Quem eletrifica a porta da sua casa, que dá para a calçada da rua, age com culpa manifesta, senão com dolo, pois qualquer transeunte pode tocar ou encostar nela. Entretanto, quem assim fizer com a porta de uma casa rodeada de jardins e quintais e cercada por altos gradis e muros não age com culpa stricto sensu. De observar ainda que na predisposiçâo de meios deve haver também moderação (...). Para se proteger o patrimônio, v.g., com uma corrente elétrica, nâo é preciso que seja fulminante: uma descarga forte dissuadirá o mais animoso amigo do alheio”. TEMAS RELEVANTES EXCESSO • Art. 23, parágrafo único. O agente, ao agir amparado por uma justificante, responde pelo excesso doloso ou culposo. Há excesso no abuso do exercício do direito. LESÕES ESPORTIVAS Se as lesões praticadas no desempenho de esportes respeitarem regras regulamentares, serão lícitas, salvo se houver excesso. INTERVENÇÕES MÉDICAS Quando o médico age para salvar a vida de uma pessoa, está amparado pelo estado de necessidade e pelo exercício regular de direito. OFENDÍCULOS A doutrina diverge quanto a natureza dos ofendículos. exercício regular de direito ou legitima defesa preordenada. TIPICIDADE CONGLOBANTE De acordo com a teoria de Zaffaroni, a conduta praticada em exercício regular de direito não é dotada de antinormatividade, pois é autorizada por outra norma do ordenamento jurídico. Por faltar-lhe a tipicidade conglobante, a conduta é atípica, sendo desnecessário avançar na análise da ilicitude (2°- elemento do crime). Embora a teoria tenha reconhecido valor doutrinário, o exercício regular de direito exclui a ilicitude, e não o fato típico. Tabela adaptada -Direito Penal em Tabelas - Parte Geral - Martina Correia - 2017. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 24 1.2.2. Causas Supralegais de Exclusão da Ilicitude A. Consentimento Do Ofendido O consentimento do ofendido, entendido como a anuência do titular do bem jurídico ao fato típico praticado por alguém, é atualmente aceito como supralegal de exclusão da ilicitude. ● Natureza jurídica: É uma causa supralegal de exclusão da ilicitude. ● Requisitos: 1) Único titular / bem próprio; 2) Agente capaz de consentir; 3) Consentimento moral e que respeita os bons costumes; 4) A doutrina tradicional diz que deve ser expresso: mas não precisa ser formal, pode ter qualquer forma. A doutrina moderna admite também a tácita; 5) Prévio ou simultâneo à conduta. Não pode ser posterior (caso seja, pode ser causa extintiva da punibilidade, como por exemplo a renúncia ou o perdão nas ações privadas); 6) Bem disponível; 7) O agente que comete o fato típico deve ter ciência desse consentimento; Obs.1: É cabível em crimes culposos. Ex.: vítima de lesão corporal de trânsito concordou com o excesso de velocidade. Obs.2: Se a falta de consentimento da vítima for elemento do fato típico, o consentimento excluirá a própria tipicidade. B. ABORTO NECESSÁRIO OU TERAPÊUTICO (ART. 128, I): ● Quando há risco de vida para a gestante ● Doutrina majoritária entende que a natureza jurídica do aborto necessário é uma causa especial de estado de necessidade. É o entendimento de Rogério Grecco. C. ABORTO SENTIMENTAL OU NECESSÁRIO (ART. 128, II): ● Quando resulta de estupro D. ART. 37, LEI 9605/98: CAUSA ESPECIAL DE ESTADO DE NECESSIDADE Art. 37. Não é crime o abate de animal, quando realizado: I - Em estado de necessidade, para saciar a fome do agente ou de sua família; 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 25 II - Para proteger lavouras, pomares e rebanhos da ação predatória ou destruidora de animais, desde que legal e expressamente autorizado pela autoridade competente; III – (VETADO) IV - Por ser nocivo o animal, desde que assim caracterizado pelo órgão competente. 1.3. Excesso na Justificante Conforme previsão do art. 23, mesmo que esteja inicialmente acobertado pelas justificantes, o agente responderá pelo excesso doloso ou culposo. De acordo com a doutrina, esse excesso poderá ser: ✔ Doloso: o sujeito, propositalmente, se propõe a ultrapassar os limites da justificante. Responderá dolosamente pelo crime, ainda que o inicio da reação tenha sido legítimo. Será observado o resultado. ✔ Culposo: o sujeito reage à uma agressão injusta, e, ao se defender, extrapola os limites sem que esta fosse a sua intenção. Falta com seu dever objetivo de cuidado, agindo com imprudência, imperícia ou negligência. Responderá culposamente pelo crime, caso haja previsão legal da modalidade culposa. ✔ Acidental: não decorre de um fato realizado pelo sujeito, e sim de caso fortuito ou força maior, de modo que do ponto de vista penal, é irrelevante. O código penal diz que o sujeito só responderá se agir com excesso doloso ou culposo, não abarcando acidental e nempodendo o agente responder por este, vez que não há dolo ou culpa. ✔ Exculpante: decorre de uma perturbação do estado anímico do agente, que lhe retira a capacidade de atuar racionalmente, geralmente pelo medo ou susto. Como não foi tratado pelo código penal, a doutrina diverge sobre sua consequência. Parte entende que o agente poderá responder se agiu culposamente, enquanto outra que, embora não a conduta não esteja amparada pela excludente de ilicitude, é possível que sua culpabilidade seja afastada por inexigibilidade de conduta diversa, tendo em vista que o indivíduo está fora de si. ✔ Excesso extensivo: é o excesso que ocorre em razão do uso imoderado de meios necessários. Nesse caso, há o prolongamento da ação por tempo superior ao estritamente necessário (ou seja: a reação persiste mesmo depois de cessada injusta agressão). ✔ Excesso intensivo: É a utilização de meios desproporcionais ou desnecessários durante a injusta agressão. Nesse caso, ao contrário do excesso extensivo, agressão ainda não cessou. 51944 51944 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/Mensagem_Veto/1998/Vep181-98.pdf http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 26 CESPE (Adaptada) - O uso imoderado de um meio necessário configura excesso intensivo de legítima defesa. Item incorreto. Trata-se de excesso extensivo. 2. CULPABILIDADE Bittencourt define culpabilidade como o juízo de reprovação que recai na conduta típica e ilícita que o agente se propõe a realizar. Trata-se de um juízo relativo à necessidade de aplicação da sanção penal. Culpabilidade formal: é o juízo abstrato de reprovabilidade realizado em relação ao provável autor de um fato típico e ilícito, se presentes os elementos da culpabilidade, no momento em que o legislador incrimina a conduta. Portanto, a culpabilidade formal serve para que o legislador , ao elaborar a lei, fixe os limites da pena atribuída a determinada infração penal. Culpabilidade material: é o juízo realizado no caso concreto sobre um agente culpável que cometeu um fato típico e ilícito, destinado à aplicação pelo magistrado da pena concreta. E a culpabilidade é do autor ou é do fato? Prevalece, na doutrina, que o direito penal brasileiro adotou a culpabilidade do fato. O objeto da censura, de fato, é o agente, mas ele é censurado pelo que ele fez, e não pelo que ele é. Assim, a culpabilidade é do fato. DEFINIÇÃO Para os adeptos da teoria tripartite, a culpabilidade é o terceiro elemento que compõe a estrutura analítica do crime (fato típico -> ilícito -> culpável). A definição de culpabilidade coube à doutrina; é o "juízo de reprovabilidade que incide sobre a formação e a exteriorização da vontade do responsável por um fato típico e ilícito, com o propósito de aferir a necessidade de imposição de pena. Todo fato culpável também é, necessariamente, típico e ilícito. Ao contrário dos dois primeiros elementos do crime, na culpabilidade considera-se o perfil subjetivo do agente, abandonando-se o parâmetro do homem médio. Para a teoria bipartite crime é igual a fato típico e ilícito. A culpabilidade não integra o crime. É um mero pressuposto de aplicação da pena. Já para a teoria tripartite (majoritária) crime é igual a fato típico, ilícito e culpável. Para a teoria causalista, o crime é sempre tripartido: considerando que o dolo e a culpa estão alojados na culpabilidade, não haveria a possibilidade de ser bipartite, pois a existência de um crime sem culpabilidade implicaria em responsabilidade objetiva, tendo em vista que o dolo e a culpa não seriam analisados. impossibilitando a feição bipartite para a teoria causalista. Para a teoria finalista (majoritária), o crime pode ser tripartido ou bipartido: como o dolo e a culpa se alojam na conduta, pouco importa se a culpabilidade é um elemento do crime ou um mero pressuposto de aplicação da pena. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 27 Aprofundando: COCULPABILIDADE Conforme a teoria da coculpabilidade, criada por Zaffaroni, o Estado teria parcela de responsabilidade nos fatos realizados por criminosos que não tiveram acesso aos direitos fundamentais mínimos que deveria, como escola, saúde, afeto, oportunidades e assim terem trilhado o caminho do crime. Não há na legislação pátria previsão expressa dessa teoria, tratando-se de construção doutrinária. No entanto, segundo a doutrina, é possível aplicá-la por meio da atenuante genérica inominada do art. 66 do CP. Porém, é possível notar que tal preocupação vem sendo inserida de modo abstrato nos diplomas legais, como no art. 2º da lei 12.288/10, art. 227 da CF, art. 19, IV da Lei de Drogas, dentre outros. No STJ há divergência na aplicação de tal teoria. COCULPABILIDADE ÀS AVESSAS Enquanto a coculpabilidade entende ser menos reprovável a conduta de quem não teve oportunidades, a coculpabilidade às avessas atribui uma maior reprovabilidade do comportamento do sujeito que teve todas as oportunidades e faz uma crítica a impunidade destes e à seletividade do sistema penal. Não foi criada por Zaffaroni e sim desenvolvida no Brasil por Gregori Moura. Possui duas críticas basilares. Primeiro, critica o abrandamento das penas no tocante aos delitos praticados por pessoas com alto poder econômico social. Ex.: extinção da punibilidade pelo pagamento do crédito tributário. Segundo, critica o fato de o Estado tratar de forma mais gravosa as condutas passíveis de serem cometidas principalmente ou até exclusivamente por parte de pessoas com menores condições. Ex.: Lei de Contravenções Penais: revogada mendicância. Assim, além de o Estado não dar a todos mínimas condições de ensino, saúde e educação de qualidade, criminaliza condutas decorrentes de tal exclusão social. Por isso, há uma coculpabilidade às avessas ao indivíduo que, a par de todas as oportunidades, decidiu ingressar no mundo do crime. Também não possui previsão legal, mas parte da doutrina entende que poderia ser considerada na fixação da pena base, como um maior grau de reprovabilidade na conduta do agente, de forma fundamentada, nas condições do art. 59 – mas como agravante não. 2.1. Elementos da Culpabilidade ● Imputabilidade; ● Exigibilidade de conduta diversa ● Potencial consciência da ilicitude. 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 28 2.1.1. Imputabilidade Imputabilidade é capacidade de imputação, ou seja, a possibilidade de se atribuir a alguém a responsabilidade pela prática de uma infração penal. A inimputabilidade exclui a capacidade de entendimento e autodeterminação do agente, enquanto que a semi-imputabilidade a reduz. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: NUCEPE - 2021 - PM-PI - Aspirante da Polícia Militar Na semi-imputabilidade subsiste a culpabilidade. Momento para análise: ação ou omissão. Teoria da atividade. a) Sistemas de imputabilidade: ● Biológico: Considera apenas o desenvolvimento mental ou idade, independente da capacidade de entendimento e autodeterminação ● Psicológica: Considera apenas a capacidade de entendimento e autodeterminação do agente no momento da conduta, independentemente de sua condição mental; ● Biopsicológico: Considera o desenvolvimento mental do agente e sua capacidade de entendimento no momento da conduta. Para o critério biopsicológico não basta a existência da doença. Deve-se analisar se no momento da ação ou omissão o agente era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato e determinar-se de acordo com esse entendimento. Logo, há imputabilidade nos intervalos de lucidez. Comprovação por perícia médica. Os silvícolas e os surdos-mudos nem sempre são inimputáveis. Deve-se analisar o caso concreto. Paulo Queiroz assevera: "A expressâodoença mental deve ser entendida em sentido amplo, a fim de compreender toda e qualquer alteraçâo mórbida da saúde mental apta a comprometer, total ou parcialmente, a capacidade de entendimento do seu portador, como esquizofrenia, psicose maníaco- depressiva, psicose alcoólica, paranoia, epilepsia, demência senil, paralisia progressiva, sífilis cerebral, arteriosclerose cerebral, histeria etc., pouco importando a causa geradora de semelhante estado, se natural ou tóxica (vg., uso de droga lícita ou ilícita). Código Penal – Imputabilidade Penal Inimputáveis 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 29 Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Redução de pena Parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: PM-MG - 2019 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA INCORRETA: PM-MG - 2018 - PM-MG - Aspirante da Polícia Militar É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto, era, ao tempo da ação ou da omissão, parcialmente incapaz de entender o caráter ilícito do fato. O inimputável, salvo se for menor de idade (procedimento específico), será denunciado e processado penalmente, mas não será condenado, e sim absolvido. Essa absolvição será imprópria, assim chamada porque acarretará a aplicação de uma sanção penal, denominada de medida de segurança, com natureza de tratamento. Neste caso o agente era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Já o semi-imputável, será condenado, mas a sua pena será reduzida de 1/3 a 2/3, podendo ser substituída, se necessário, por medida de segurança. Neste caso o agente não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Mas atenção: jamais cumprirá as duas. Antes, isso até era possível, vez que o sistema adotado era o Duplo Binário, em que o semi-imputável cumpria inicialmente a pena diminuída e depois medida de segurança. Hoje, o Código adota o sistema VICARIANTE/UNITÁRIO, em que o agente deve cumprir ou uma, ou outra. Aprofundando: b) Excludentes da imputabilidade: 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 30 1) Em razão de anomalia psíquica (art. 26, CP): Sistema biopsicológico. O agente pode ser inimputável ou semi-imputável, como vimos. 2) Em razão da idade do agente (art. 27, CP): Sistema biológico. Se é menor de 18 anos é inimputável e pronto. Presunção absoluta de inimputabilidade. Não podem ser submetidos à justiça penal. Responderão pela prática de ato infracional análogo a crime perante o Juizado da Infância e Juventude. Menores de dezoito anos Art. 27 - Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial. Súmula 74 STJ – Para efeitos penais, o reconhecimento da menoridade do réu requer prova por documento hábil. (Qualquer documento hábil). Emancipação civil não altera em nada a inimputabilidade penal do menor de 18 anos. Não esquecer da súmula 711 do STF: a lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência (ou seja, se o agente iniciou a conduta menor, mas já era maior quando cessou, será considerado imputável, de modo que lhe será aplicada a justiça penal comum). 3) Embriaguez completa acidental: Sistema psicológico. EMBRIAGUEZ ORIGEM GRAU Acidental: - Caso fortuito: agente ignora o efeito - Força maior: agente é obrigado a ingerir substância de que conhece o efeito - Completa: Exclui a imputabilidade. - Incompleta: Diminui pena. Não acidental: - Voluntária: Agente quer se embriagar (mas não quer cometer o crime) - Culposa: negligente (não queria nem se embriagar e nem cometer o crime) - Completa - Incompleta NENHUMA exclui a imputabilidade! Patológica: doentia - pode se enquadrar no art. 26, sendo analisada com base nele 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 31 Preordenada: Agente se embriaga para cometer crime. - Completa - Incompleta NÃO exclui a imputabilidade e é agravante de pena. JÁ CAIU EM PROVA E FOI CONSIDERADA CORRETA: IDECAN - 2022 - PM-MS - Oficial Combatente do Quadro de Oficiais Policiais - Militares - QOPM A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. TEORIA DA ACTIO LIBERA IN CAUSA (teoria da ação livre em sua causa): O Código Penal em relação a embriaguez não-acidental, adotou a chamada teoria da actio libera in causa (ação livre na causa), o que significa que o agente, gozando de livre-arbítrio no momento de fazer uso de álcool ou substância de efeitos análogos, não terá sua culpabilidade afastada caso venha a cometer um crime em razão do estado de embriaguez. Ainda que sejam de elevada intensidade, a emoção e a paixão não excluem a imputabilidade penal. Contudo, o Código Penal, implicitamente, permite duas exceções a essa regra: I – coação moral irresistível, em face da inexigibilidade de conduta diversa; e II – estado patológico, no qual se constituem autênticas formas de doença mental. 2.1.2. Potencial Consciência de Ilicitude A potencial consciência da ilicitude é o segundo elemento da culpabilidade, representando a possibilidade que tem o agente imputável de compreender a reprovabilidade da sua conduta. Note que não se exige do sujeito ativo uma compreensão técnica, um conhecimento jurídico sobre o enquadramento jurídico do evento praticado, mas apenas que tenha condições de perceber que o seu comportamento não encontra respaldo no direito, sendo por ele reprovado. Contenta-se com a percepção leiga. Trata-se do critério intermediário de determinação da consciência da ilicitude. Adverte Cezar Roberto Bitencourt: "Com a evolução do estudo da culpabilidade, não se exige mais a consciência da ilicitude, mas sim a potencial consciência. Não mais se admitem presunções irracionais, iníquas e absurdas. Não se trata de uma consciência técnico-jurídica, formal, mas da chamada consciência profana do injusto, constituída do conhecimento da antissocialidade, da imoralidade ou da lesividade de sua conduta" 51944 51944 http://www.iceni.com/infix.htm DIREITO PENAL TEORIA DO CRIME – PARTE III 32 O que vai excluir a potencial consciência da ilicitude e, por ela, a culpabilidade, é o erro de proibição, se inevitável. Quando for evitável, haverá diminuição de pena. Estudaremos as modalidades de erro à frente. (Art. 21 do CP). AUSÊNCIA CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE ATENUANTE (ART. 65 DO CP – DESCONHECIMENTO DA ILICITUDE DA CONDUTA) ERRO DE PROIBIÇÃO