Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1222
As relAções sociAis dos cAtivos nA orgAnizAção de um 
plAnejAmento insurrecionAl
Wagner de azevedo Pedroso
Mestrando UFRGS
wagbaco@gmail.com
resumo
Este texto baseia-se no estudo de caso da tentativa insurrecional escrava ocorrida no distrito de Nossa Senhora 
da Aldeia dos Anjos, em 1863. A análise busca apontar fragmentos das redes de relações (sociais/familiares) dos 
escravos e como as interações provenientes delas possibilitaram a movimentação espacial dos escravos pelas fazendas 
da região. Ao analisar essas relações, pretende-se compreender a dinâmica de vida dos insurgentes, demonstrando 
como possuíam “amplo” conhecimento da região e de seus moradores, assim como a existência de uma considerável 
interação entre os cativos da região, somente foi possível, na proporção vista no planejamento insurrecional, devido 
a dois fatores: 1) as atividades desempenhadas pelos escravos nas fazendas; 2) pelas próprias redes de relações que 
seus senhores estabeleceram pela região.
Palavras-chave: Escravidão, insurreição e relações sociais.
1863: rompendo com a “tranquilidade” na Aldeia dos Anjos
Era domingo, 24 de maio de 1863, a população do Distrito da Aldeia dos Anjos1 se 
preparava para a comemoração da festividade do Divino Espírito Santo, o que ninguém 
desconfiava era que nesse momento, o “mulato” Nazário2, de 28 anos, escravo de Francisco 
Antônio Maciel, aproveitando-se “do ajuntamento que a festa do Espírito Santo fez reunir 
1 Localidade que atualmente corresponde a área dos municípios de Gravataí, Canoas, Cachoeirinha e Glorinha. 
Conforme César (1970) no início do século XIX na “Aldeia dos Anjos e em Viamão desenvolvia-se uma produção 
agrícola, combinada com a pecuária (Apud Aladrén, 2009)”.
2 Uma questão interessante esta relacionada a descrição deste escravo, durante todo o processo crime, como 
“mulato”, ao analisarmos o inventário de 1852 de sua senhora, Feliciana Inácia de Jesus, primeira esposa de Francisco 
Antônio Maciel, o mesmo aparece descrito durante todo o inventário como sendo “pardo”, tal fato nos remete ao 
que sugeriu Karasch (2000, p.39) como relação ao termo “pardo” que seria uma forma polida para se referir ao 
“mulato”, dizendo que este último seria utilizado frequentemente pelos senhores como insulto, afirma também que 
o termo “pardo” era mais utilizado em documentos oficiais, enquanto o de “mulato” era utilizado pelos senhores 
nos anúncios de fuga. Talvez essa ideia de insulto possa explicar a modificação na denominação dada a esse escravo 
durante o processo crime. Aladrén (2009, p.125), ao analisar as cartas de alforria em Porto Alegre no início do século 
XIX vai afirmar que nesse documento é comum o uso do termo “mulato” pelos senhores, enquanto o escrivão ou 
tabelião usavam o termo “pardo”, sugerindo que o primeiro termo tinha um uso mais cotidiano, enquanto o outro 
teria um caráter mais “oficial”. Lara (2007, p. 136-137), ao analisar os termos “pardo” e “mulato” para o século XVIII, 
sugere que eles estão associados a pessoas mestiças, afirmando que o último foi ao longo do tempo ganhando 
conotações pejorativas.
1222 1223
[...]”3 tomou as primeiras providências buscando aliciar outros escravos, para por em prática 
seu “perverso intuito”, fazer um levante escravo na localidade. Nazário parece ter conseguido 
se não aliciar, pelo menos divulgar seu “perverso intuito” a um grande contingente de escravos, 
pelo menos foi o que pareceu as autoridades locais que, no libelo acusatório, afirmam que 
praticamente todos os escravos da Aldeia sabiam do plano e aguardavam:
... o dia aprazado para realizarem seu [danado] intuito, a destarte obterem por meio da força 
a liberdade a [troco] da qual se coligarão, sendo que só por malogração de tal plano, visto o 
rompimento do sigilo por parte de um dos escravos convocados que não aderiu a insurreição, a 
tornar pública, foi que não levaram a efeito o mesmo intuito bastando isto para que maior parte 
dos réus se [saísse] em fuga... 4
Apesar dos relatos indicarem as primeiras providências do levante no mês de maio, os 
senhores só tomam conhecimento do caso em agosto, mais de dois meses após seu início, 
sendo que em 17 de agosto de 1863, aparentemente, foram tomadas as primeiras providências 
para reprimi-lo. Como parece ter sido comum em diversas insurreições pelo Brasil, a repressão 
inicial foi quase sempre empreendida pelos senhores e só após as autoridades se envolveram, 
talvez essa estratégia esteja ligada a percepção dos senhores de defesa da propriedade privada. 
Gomes (2006), ao descrever as medidas tomadas por um dos fazendeiros da região, e capitão-
mor, que em vista dos acontecimentos e de suas prováveis consequências:
... não perdeu tempo e imediatamente comunicou-se com o juiz de paz da freguesia do Pati do 
Alferes, José Pinheiro de Souza Werneck. Autoridades locais – também fazendeiros da região – 
ficaram em alerta máximo: um levante com numerosos escravos poderia pôr toda a região em 
risco. No dia 8 de novembro – ainda sob o calor dos acontecimentos – o juiz de paz oficiou ao 
coronel chefe da Guarda Nacional da região, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, clamando 
por providências e ressaltando a gravidade da situação: que era necessário agir antes que o “mal 
aumentasse”. (GOMES, 2006: 146)
As medidas senhoriais iniciam em 17 de agosto de 1863, mas só em 24 de agosto foi 
solicitada, pelo subdelegado do distrito de Santa Cristina, João Martins Philermo, ajuda 
“[...] ao capitão Comandante da Guarda Nacional deste Distrito, o cidadão Israel de Souza 
Bitencourt [...]”.5 A organização dos senhores para a repressão é percebida na correspondência 
do Presidente da Província ao Ministro da Justiça, quando informa que:
Tendo me comunicado o subdelegado de polícia do 2º Distrito d’Aldeia [...] que tinha fundada 
suspeita de tentarem os escravos de diversas fazendas insurrecionar-se, de acordo com V. Exa. 
parti para aquele distrito [...] com uma escolta do corpo policial; chegando ao distrito já achei em 
diligência praças da Guarda Nacional fornecidas pelo respectivo Comandante do Corpo; expedi 
novas escoltas e na manhã seguinte começarão a aparecer escravos presos; durante o dia reunirão 
dezessete, vindo no dia imediato mais cinco [...]. AN, Série IJ1 585, Correspondência do Presidente 
da Província ao Ministro da Justiça, Ofício nº 208 de 29/08/1863 (PICCOLO apud OLIVEIRA, 2007: 
168)
3 Mandado de citação de testemunhas. APERS – Sumário Júri, maço 35, processo 1060, fl 2v. Todas as citações do 
processo foram atualizadas para o português atual.
4 APERS – Sumário Júri, maço 35, processo 1060. Libelo crime acusatório – folha 2 f.
5 Correspondência de 01 de setembro de 1863, do subdelegado do distrito de Santa Cristina, João Martins Philermo 
para o Doutor Chefe de Polícia da Província, Dario Rafael Callado. APERS – Sumário Júri, maço 35, processo 1060, 
fl. 72f.
1224
O subdelegado, Manoel Soares Lima, confirma as primeiras medidas tomadas em 17 
de agosto de 1863, na povoação da Aldeia, pelo senhor Tenente Coronel André Machado6, 
essas medidas parecem ter desencadeado a incriminação dos escravos de Francisco Antônio 
Maciel, que acabaria com a fuga desses escravos – Nazário, Antônio, Manoel Capitão, Bento 
e Manoel Rafael – ao amanhecer de 26 de agosto, 9 dias após o início da repressão aos 
escravos, organizada pelos senhores. A repressão inicial se espalhou por outros distritos da 
Aldeia, no caso Santa Cristina, quando o Tenente Coronel André Machado ao retornar a 
sua habitação, “amarra” dois de seus (Salvador e Claudino), buscando informações sobre 
os envolvidos no plano. Esse senhor, que ao tomar conhecimento do plano de levante por 
parte dos escravos, conforme o subdelegado em exercício do 3º distrito da Aldeia dos Anjos, 
tomará as providências iniciais para intervir no plano escravos, passando por prisões e 
interrogatórios seguidos de castigos físicos (ou castigos físicos seguidos de interrogatório) 
dos suspeitos. Nas investigações constatou-se que,apesar de nem todos os escravos da Aldeia 
terem aderido às fileiras insurgentes, muitos conheciam o plano. Buscaremos compreender 
como os insurgentes divulgaram seu plano para grande parte dos escravos da região.
tempo de festa, tempo “conturbado”, hora de se rebelar
Como apontamos anteriormente, foi durante a festa do Divino que iniciou o aliciamento 
para insurreição e ao que parece os escravos se utilizaram de suas relações sociais para 
organizar o levante. Antes de analisarmos essas relações destacaremos algumas possíveis 
estratégias utilizadas por Nazário para adquirir (furtar) produtos, talvez com o intuito de 
vendê-los e conseguir recursos financeiros para o levante. Conforme seu “parceiro” Antônio, 
Nazário teria, durante a festa do Espírito Santo, furtado carne que estava charqueando, 
tendo também desaparecido milho do paiol do seu senhor7. Mas somente furtar não seria o 
suficiente, tinham de encontrar uma maneira de vender os produtos, o que talvez possa ser 
explicado através do “relato” de Aniceto, escravo de Januário Gomes Paim e de Mathias, de 
Manoel José de Barcellos. O primeiro, ao explicar o motivo de sua prisão, diz que “[...] tendo 
ido fazer um carreto de milho para a Aldeia, por mandado de Nazário escravo de Francisco Maciel, 
foi pelo mesmo [...] mandado a Costa de Sapucaia com um recado a Laurindo escravo 
de um fulano Laurindo [...]” (grifo nosso)8, talvez Nazário tenha mandado Aniceto para 
não levantar suspeitas de ser milho roubado do senhor, o que também notamos no caso de 
Mathias, que ao explicar o motivo da ida à povoação, responde ter ido fazer umas compras e 
“[...] vender um pouco de milho de Manoel9 escravo de Francisco Maciel [...]” (grifo nosso).
No relato de Mathias percebemos indícios de sua relação com Manoel Capitão, pois ao 
ser questionado sobre seu conhecimento sobre o levante diz não saber nada, pois os escravos 
envolvidos “não se fiarão dele por que um deles, Antônio, fez queixa dele respondente ao 
senhor e ficarão [de] mal [...]”10, sua resposta parece intrigar o interrogador, que pergunta o 
6 Este senhor era filho do falecido Sargento-mor Antônio José Machado Morais Sarmento (português) que em 1788 
foi nomeado inspetor da “Real Feitoria do Linho Cânhamo de Cangoçú”. (MENZ, 2005: 144)
7 Interrogatório de Antônio, escravo de Francisco Antônio Maciel, no dia 03 de setembro de 1863. APERS – Sumário 
Júri, maço 35, processo 1060, fl. 6v.
8 Interrogatório de Aniceto, escravo de Januário Gomes Paim, no dia 24 de novembro de 1863. APERS – Sumário 
Júri, maço 35, processo 1060, fl. 126f e v.
9 Conhecido como Manoel Capitão, “visto” por alguns dos escravos interrogados, como subchefe do levante
10 Interrogatório de Mathias, escravo de Manoel José de Barcellos, no dia 27 de agosto de 1863. APERS – Sumário 
Júri, maço 35, processo 1060, fl 18v e 19f.
1224 1225
motivo de mesmo estando de mal com estes ter feito compras para Manoel? Responde que foi 
por ter Manoel lhe emprestado o cavalo e por isso lhe fez esse favor. Sugerimos a existência 
de relações de “troca de favores” entre os escravos, pois talvez fosse a “rede de sociabilidade” 
mais acessível no seu dia a dia, ou como escreveu Mônica Dantas ao retratar uma situação 
comum à população, procura demonstrar a existência de formas de convivência e ajuda mútua 
em atividades necessárias à sobrevivência afirmando que no dia-a-dia, seria mais importante 
um auxílio entre iguais do que um eventual auxílio de um poderoso senhor (2009: 349). 
Talvez o que verificamos nos relatos anteriores de Aniceto e Mathias fossem fragmentos 
dessas redes de auxílio que, ao que parece, Nazário e Manoel Capitão compreendiam muito 
bem e utilizaram-nas para vender “seus produtos” e mesmo divulgar seu plano de levante.
Reforçamos a percepção de redes de trocas de favores pois alguns dos envolvidos no 
plano, pareceram buscar acumular pecúlio ou mesmo arrecadar fundos para o levante, através 
da coleta de esmolas, como sugere José, escravo de Inocente Maciel, quando indo “[...] buscar 
um ponche que havia dois meses Manoel Rafael lhe tinha tomado emprestado para pedir esmolas na 
Festa do Espírito Santo [...]” (grifo nosso), foi convidado por Nazário para o levante, ao qual 
respondeu “[...] que não sabia o que havia de fazer, mas consultando a Antônio escravo de 
Geraldo este lhe aconselhou que não se metesse nessa desordem, mas não pode dar resposta 
a Nazário por não ter ele ido mais ao Pinhal”.11 Observamos que Manoel Rafael e José 
eram escravos do mesmo senhor, Inocente Maciel, o primeiro em um dos interrogatórios 
diz ser natural do Butiá e residente no mesmo lugar “em casa do velho Francisco Maciel” 
(grifo nosso)12, mesmo senhor de Nazário, tal situação, agregada ao sobrenome comum de 
seus senhores, permitiu constatar, ao analisarmos os inventários de Francisco Maciel (1868) 
e de sua 1ª esposa de Feliciana Inácia de Jesus (1852), que Inocente Maciel era filho do 
casal, o que possivelmente explicaria a mobilidade cativos pelas fazendas. Questões como 
estas sugerirem que a festa do Divino de 1863, na Aldeia dos Anjos, parece ter servido para 
os insurgentes como referência no momento de organização do levante escravo. Talvez 
essa importância possa estar relacionada ao que Martha Abreu, ao analisar esta festividade 
no Rio de Janeiro, sugeriu ao dizer que estes momentos geravam um local de encontro e 
comunicação a variados setores sociais. Nesse espaço criado, as pessoas, “apesar de suas 
diferenças e possíveis conflitos”, trocariam as mais diversas experiências (1999: 159).
Acreditamos que, assim como na Festa do Divino no Rio de Janeiro, seja possível 
sugerir que esta comemoração na Aldeia dos Anjos, possa também ter ampliado a interação 
entre os escravos da região e contribuído dessa forma para a ampla divulgação que o levante 
atingiu. Fato que se torna mais claro ao observarmos como as autoridades afirmaram que 
os insurgentes se aproveitaram do “ajuntamento” de pessoas desse momento para aliciar 
os escravos para a insurreição. Aqui, como J.J. Reis e Eduardo Silva, ao analisar o caso das 
rebeliões na Bahia da primeira metade do século XIX, afirmam que a “religião e a festa, a 
festa religiosa inclusive, sem dúvida funcionaram como elementos essenciais da política de 
rebeldia dos escravos”. (1989: 41) A utilização desses períodos festivos, feriados e domingos, 
na organização e efetivação de levantes escravos, foram correntes em várias insurreições 
escravas no Brasil.13 Reis cita diversas revoltas que estariam relacionadas a períodos festivos 
11 Interrogatório de José, escravo de Innocente Maciel Netto, no dia 02 de outubro de 1863. APERS – Sumário Júri, 
maço 35, processo 1060, fl. 50f e v.
12 Interrogatório de Manoel Rafael, escravo de Innocente Maciel Netto, no dia 02 de outubro de 1863. APERS – 
Sumário Júri, maço 35, processo 1060, fl. 56f.
13 Regina Xavier vai afirmar que tanto a revolta de 1830, quanto a de 1832, em Campinas tiveram marcadas suas 
datas coincidindo com festas cívicas ou religiosas (2008: 63). Ricardo Pirola estudando a mesma revolta de Campinas 
de 1832 afirma que o levante estava previsto para eclodir no feriado de Páscoa, sendo que os líderes escondiam essa 
informação de outros escravos, visando impedir que essa chegasse aos ouvidos dos senhores (2005: 91-92). Marcos 
Andrade aponta que no caso de Carrancas em 1833, o levante estava programado para o domingo da festa do Divino, 
em 26 de maio (1998-1999: 76). Já Paulo Moreira, analisando duas tentativas insurrecionais no Rio Grande do Sul 
1226
tanto na Bahia, como em outras regiões brasileiras, o autor compreende que essas seriam a 
hora certa para os escravos se rebelarem, pois os senhores estariam com a guarda baixa. É 
possível verificar que várias rebeliões escravas teriam ocorrido nestes momentos, “... não só 
no Brasil, mas mundo afora...”. (1995-1996: 31-32) Nas festas escravas, conforme Reis,
... rolavam lances culturais bastante distantes de qualquer ideário “liberal”, por maisamplo, 
frouxo e abstrato que se considere o termo. Na festa identidade e solidariedade coletivas eram 
potencializadas através de rituais que afirmavam os valores e exorcizavam as dores do grupo. Ali 
se instaurava um clima extraordinário de liberdade e de reversão ritual do mundo que os escravos 
rebeldes desejaram perpetuar. As revoltas eram planejadas para os dias festivos, especialmente 
as noites festivas, não só porque seus líderes contavam com o relaxamento do controle senhorial, 
mas porque contavam com a reunião de escravos possuídos por um espírito de redenção. (1995-
1996: 31)
Torna-se necessário apontar entendermos que a festa do Divino serviu como um 
catalisador para a organização do levante, mas compreendemos que foi o contexto 
conturbado da segunda metade do século XIX que contribuiu para a eclosão desses levantes. 
Apesar de não haver muitas análises sobre insurreições escravas nesse período, é importante 
compreender que isso não significa que eles não ocorreram mais, até mesmo porque, como 
destaca Isabel Motta, entre os anos de 1860 e 1864:
... o Ministério da Justiça do Império registrou a ocorrência de 63 insurreições escravas em todo o 
Brasil. Número subestimado, já que nele não se encontram inclusos diversos planos frustrados e 
fugas coletivas realizadas com sucesso após conflitos nas fazendas. (2005: 11)
Considerando a observação de Motta podemos apontar, conforme levantamento dos 
processos-crime sobre insurreição escrava no Rio Grande do Sul, que entre 1863 e 1865, 
encontramos 5 casos relacionados a rebeliões escravas: 2 no ano de 1863: Pelotas e Porto 
Alegre (Aldeia dos Anjos) e 3 em 1865: Piratini, Taquari e Alegrete.14 Como apontamos 
antes o contexto da segunda metade do século XIX trouxe novos debates com relação à 
mão de obra escrava (fim do tráfico atlântico e lei do ventre livre), ao nacionalismo (questão 
Christie) e a fronteira (Guerra do Paraguai), que provavelmente tenham contribuído para o 
desencadeamento desse grande número de insurreições registradas pelo Ministério. Gomes 
(2006), analisando os temores da população da província fluminense, aponta à preocupação 
com movimentos internos e externos que poderiam ter influenciado a “escravaria”, 
afirmando que “... se escravos podiam ter conhecimento de fatos que ocorriam em outros 
países, também faziam deles uma avaliação política própria. Ideias e experiências, além de 
compartilhadas, ganhavam conteúdos políticos na circulação atlântica” (2006: 220). O autor 
continua apontando que após questões como a discussão sobre o fim do tráfico e a Questão 
Christie do início da década de 1860 fizeram com que o chefe de polícia, percorra a província 
e informe:
(Porto Alegre, 1868 e Taquari, 1864), aponta que ambas pretendiam realizar o levante em momentos festivos. Em 
Porto Alegre estava sendo preparada para o momento da comemoração do Divino Espírito Santo, enquanto a de 
Taquari tinha no momento de “um fandango numa chácara fora da vila, onde uma terneira seria carneada” (1998: 
137).
14 Para essa pesquisa não foram analisados os boletins de ocorrências policiais, que provavelmente, devam elevar 
esse número, pois Moreira (2003) apontou a existência de uma insurreição escrava em Taquari, 1863, na fazenda 
Conceição, do Cirurgião Antônio José de Moraes (2003, p.65-67). Várias insurreições também aparecem nos relatório 
dos Presidentes da Província, como Mario Maestri (1993) destacará a ocorrência desse tipo de crime, apontando 
para duas tentativas no ano de 1862, uma em 1863 e outra em 1865 (1993: 53).
1226 1227
... ao ministro da Justiça que não encontrara nenhum indício de manifestação “sediciosa” por parte 
dos escravos, porém que na freguesia do Carmo “fez correcionalmente castigar a três escravos 
por terem dito publicamente em conversação com outros parceiros, que os ingleses tratavam de 
libertar a escravatura do Brasil, e que esta os devia ajudar em terra”. As autoridades temiam que 
os focos de insurreição chegassem aos quilombos. (2006: 220)
Esse “desentendimento” diplomático ocorrido entre Inglaterra e Brasil, resultado da 
apreensão de navios brasileiros pela marinha britânica no próprio Rio de Janeiro, fez com que 
o Brasil rompesse relações, no início de 1863, com a Inglaterra. Divergência esta que pode 
ter contribuiu para a criação de um ambiente patriótico para o fortalecimento da identidade 
nacional. Tal sentimento é descrito pelo presidente da província no seu relatório de 1863, 
quando ao escrever sobre o conflito entre Inglaterra e Brasil, diz:
Os sentimentos patrióticos, que se manifestarão no povo da capital do império, sem distinção 
de posições sociais, nem de opiniões políticas, tiveram echo estrondoso nesta heroica província, 
cujos habitantes unidos aos seus compatriotas pelo pensamento, não hesitarão um so instante 
em circundar o augusto trono de S.M. o imperador, sempre que se tratar do decoro e dignidade 
da Nação Brasileira.15
Considerando o momento, podemos ainda verificar um caso de “insurreição” escrava, 
relacionada à questão inglesa, ocorrida em Pelotas, no mesmo ano do levante da Aldeia dos 
Anjos, em 1863. O processo é pequeno, possui apenas 18 folhas, e envolve “pretos libertos”, 
sendo o réu Sebastião Maria, liberto de 63 anos, pedreiro, natural do Rio de Janeiro, filho de 
Mateus José e Maria da Glória. O “preto liberto” é acusado de “[...] aconselhar, e mesmo 
excitar, diferentes vezes vários escravos a insurgirem-se, intrigando-os a aproveitarem-se do 
ensejo, que oferecem os [enlaces], com que conforme [lhes dizia] o réu, luta presentemente 
o governo em razão da questão anglo-brasileira [...]”16. Todas as cinco testemunhas afirmam 
que Sebastião Maria teria se reunido com escravos e os incentivado a juntarem-se aos ingleses 
em caso de guerra, inclusive Venâncio da Silva Coutinho, afirmando que:
[...] diversas vezes o preto Sebastião, com quem ele testemunha morava, (sendo igualmente preto 
livre) propalar ideias de insurreição fazendo acreditar a seus iguais, e cativos, que a Província de 
Santa Catarina estava tomada e ocupada por forças inglesas, e que em breve estariam também 
forças inglesas nesta Província, e que nessa ocasião se sublevariam todos os pretos livres e 
escravos nesta cidade contra o Brasil.17
Apesar das acusações das testemunhas e de o próprio réu afirmar que não tem como 
provar sua inocência, o processo é dado como improcedente, pois o preto Sebastião Maria 
não pode ser acusado do crime de insurreição, “[...] porque consistindo este crime, como o 
define o código criminal, na reunião de vinte ou mais escravos para haverem a liberdade por meio da 
força, não pode estar o preto Sebastião incurso no artigo 115 do mesmo código [...]”. (grifo nosso)18 
15 Relatório do Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, 1863, p.7.
16 Conclusões do subdelegado José Rafael Vieira da Cunha. APERS – Vara Cível e Crime, maço 121, processo 5307, 
fl. 14v.
17 A testemunha é descrita como tendo “[...] cinquenta e seis anos de idade, [empalhador?], solteiro, morador à rua 
da Igreja nesta cidade, natural da Província do Rio de Janeiro”. Testemunho de Vanâncio da Silva Coutinho, no dia 07 
de março de 1863. APERS – Vara Cível e Crime, maço 121, processo 5307, fls. 10v e 11f.
18 APERS – Vara Cível e Crime, maço 121, processo 5307, fl. 16f.
1228
O caso do preto liberto Sebastião Maria, sem levarmos em consideração se era culpado ou 
inocente, pode demonstrar como o conflito diplomático com os ingleses fez surgir ou ampliar 
os temores quanto à percepção que os cativos poderiam ter dos debates internacionais. Xavier 
(2008) ao pensar sobre o temor dos senhores em Campinas, na década de 1830, quanto as 
possíveis “leituras” dos escravos quanto aos debates entre Inglaterra e Brasil sobre o fim do 
trafico atlântico, aponta que entre os anos de 1840 a 1860 “houve uma exacerbação dessas 
questões”, afirmando que os senhores acreditavam que decididamente o debate poderia ter 
motivado os cativos a empreenderem suas sublevações,apontando que no ano de 1863, com 
a “questão inglesa”, a relação foi mais direta, destacando que havia:
... segundo a avaliação de alguns senhores da localidade, a certeza de que, nas reuniões escravas, 
se falava tanto sobre levantes quanto sobre ingleses, pois era “fato que pensavam contar com a 
proteção deles ou ao menos havia fundado motivo para recear-se alguma manifestação hostil por 
parte dos escravos caso se desse o rompimento com a Inglaterra”.(2008: 87)
Tais debates podem ter sido proferidos entre os senhores da região, e consequentemente 
podem ter chegado aos ouvidos dos escravos, pois como afirmava Eugene Genovese (1983) 
os “... escravos sempre viam e ouviam mais do que se esperava, ainda que seus senhores 
determinassem que houvesse o menos possível para se ver e se ouvir” (1983:44). Sendo 
assim, debates políticos e acontecimentos internacionais podem haver chegado aos ouvidos 
da população escrava e misturados com o clima propiciado pela festividade do Divino, 
tenha levado os escravos a compreenderem o momento como propício para a realização de 
uma Insurreição, pois os brancos estariam preocupados com outras questões. E foi nessa 
conjuntura que Nazário e Alexandre, assim como outros escravos, passaram a pôr em prática 
o plano insurrecional, plano que teria como objetivo, conforme apontam as autoridades, 
“[...] obterem por meio da força a liberdade a [troco] da qual se coligaram [...]”19. Apesar de 
não nos atermos nisso nesse texto, há outra questão importante que deve ser destacada nas 
décadas de 1850 e 1860, qual seja, as modificações ocorridas nos plantéis escravos após o fim 
do tráfico atlântico em 1850.
Conforme pesquisa nos inventários da Aldeia dos Anjos do período entre 1841 e 187020 
foi possível verificarmos que parece ter ocorrido uma concentração de escravos nas mãos 
de grandes proprietários de escravos a partir da década de 185021. O primeiro aspecto a 
destacarmos relaciona-se à maior participação de senhores sem escravos no decorrer das 
décadas, juntamente a esse aumento teremos um aumento considerável na participação de 
senhores com grandes plantéis escravos, mas mais importante que o crescimento percentual 
destes senhores foi a ampliação, ocorrida na década de 1850, da concentração de escravos em 
suas mãos – na década de 40 eram 4,17% de senhores detendo 11,56% dos cativos, passando 
na década seguinte a 5,48% detendo 22,65% dos escravos. Outro dado a ser acrescentado 
esta relacionado a redução no número de médios plantéis (10 a 19 escravos) – pelo menos na 
década de 1850 – e nos pequenos plantéis com 5 a 9 cativos – em todas as décadas.22
19 Libelo crime acusatório. APERS – Sumário Júri, maço 35, processo 1060, fl. 78v.
20 Foram encontrados 198 inventários da Aldeia dos Anjos nesse período.
21 Scherer (2008: 35-44), analisando a região de Rio Grande, e Araújo (2008:69-86), a região de Cruz Alta, iram 
destacar essa concentração escrava nas mãos de grandes proprietários durante a década de 1850 e 1860.
22 Importante destacar que Oliveira pesquisou no fundo Gravataí existente no APERS, o recorte feito pelo autor 
abarcou todos os inventários desse fundo, mas este não abrange toda a região da Aldeia dos Anjos, pois muitos 
inventários foram encontrados no fundo 004: Porto Alegre. Na tabela que elaboramos não consideramos os 
inventários do fundo utilizado por Oliveira, mas como os inventários do fundo usado pelo autor iniciam em 1867 e a 
tabela que criamos tem como limite temporal o ano de 1870 (3 anos a mais), acreditamos que não haveria alterações 
significativas nos dados apresentados.
1228 1229
Tabela I
Número de senhores e escravos por faixa tamanho plantel escravo23
1841-1850 1851-1860 1861-1870
Proprietários Escravos Proprietários Escravos Proprietários Escravos
Plantel NºI %T %IE NºT % NºI %T %IE Nº T % NºI % T %IE NºT %
0 9 15,79 --- --- --- 16 17,98 --- --- --- 10 19,23 --- --- ---
1-4 17 29,83 35,42 40 11,56 36 40,45 49,31 76 15,51 21 40,38 50,00 47 16,85
5-9 16 28,07 33,33 100 28,90 19 21,35 26,03 130 26,53 9 17,31 21,43 54 19,35
1-9 33 57,89 68,75 140 40,46 55 61,80 75,34 206 42,04 30 57,69 71,43 101 36,20
10-19 13 22,81 27,08 166 47,98 14 15,73 19,18 173 35,31 9 17,31 21,43 110 39,43
20-32 2 3,51 4,17 40 11,56 4 4,49 5,48 111 22,65 3 5,77 7,14 68 24,37
Total 57 100,00 100,00 346 100,00 89 100,00 100,00 490 100,00 52 100,00 100,00 279 100,00
N°I = Número de inventários; %T = Porcentagem total; %IE = Porcentagem inventários com escravos; 
NºE = Número de escravos.
Oliveira (2007) analisando os inventários de Gravataí entre os anos de 1867 a 1888 (48 
inventários – 32 (66,66%) com escravos e 16 (33,34%) sem escravos), ira apontar para uma 
predominância da pequena propriedade escrava, destacando que 19 dos inventários (59,37%) 
eram de senhores com 1 a 5 escravos, 10 (31,25%) eram senhores com 6 a 10, enquanto apenas 
3 (9,37%) possuíam de 11 a 15, sendo que não encontrou nenhum inventário com mais de 
15 cativos. (2007: 155-156) Pensando nos dados apresentados do período de 1841 a 1870 
conjuntamente com os apresentados por Oliveira é possível sugerir que parece ter ocorrido 
na Aldeia dos Anjos uma concentração de escravos nas mãos de grandes proprietários de 
escravos nas décadas de 1850 e 1860, seguido de uma redução, a partir da década de 1870, 
dos senhores possuidores de escravos, como citamos anteriormente, Oliveira aponta que entre 
os anos de 1867 a 1888 os proprietários de escravos representariam 66,66% dos senhores da 
região, já para o período de 1841 a 1870 eles seriam 82,32%.
Acreditamos que as transformações que se processavam na estrutura dos plantéis 
escravos da região possam ter gerado modificações no modo de vida dos cativos, que podem 
ter sido vendidos, tendo como consequência a separação de seus “familiares” e de suas 
redes de relações já conhecidas, ou mesmo possam ter ocorrido uma desestruturação das 
relações presentes em uma dada escravaria, após a morte de seus senhores, com escravos 
sendo herdados por parentes e assim separando-os de suas relações sociais estabelecidas. 
Pretendemos analisar alguns inventários de senhores relacionados aos escravos insurgentes 
da Aldeia dos Anjos, tentando apontar como essa concentração de escravos pode ter afetado a 
estrutura de vida dos escravos da região, principalmente dos cativos envolvidos no levante.
“remodelando” relações sociais: escravos herdados
Antes de analisarmos os inventários devemos destacar que foram interrogados 
durante o processo crime 26 escravos, de 19 senhores, sendo que a maior parte dos escravos 
envolvidos (Antônio, Bento, Joaquim, Manoel Capitão e Nazário) pertenciam ao senhor 
Francisco Antônio Maciel, e como já apontamos anteriormente, Inocente Maciel era filho 
23 Na tabela desmembrei os pequenos plantéis em de 1 a 4 e 5 a 9 escravos para melhor compreender a alteração 
na faixa dos pequenos proprietários de escravos.
1230
desse senhor, também teve dois escravos envolvidos no levante (José e Manoel Rafael). 
Podemos então apontar que 25%24 dos escravos envolvidos pertenciam a estes dois senhores. 
Ao observarmos os escravos desses senhores no processo, definimos que seria fundamental 
compreender sua “história de vida” – onde e quando nasceram? Quem foram seus senhores? 
Qual a estrutura do plantel escravo no qual viviam? –, para chegarmos a isso buscamos 
informações nos inventários dos familiares desses senhores da família Maciel, nos quais 
encontramos primeiramente o inventário de Feliciana Inácia de Jesus em 1852, primeira 
mulher de Francisco Maciel e mãe de Inocente Maciel, um ano após a morte de sua esposa 
Francisco perde também seu pai Antônio Ferreira Maciel.
Pretendemos com esses inventários destacar que em apenas dois anos ocorreu uma 
desestruturação dos plantéis escravos dos senhores. A esposa de Francisco Maciel, Feliciana, 
possuía um médio plantel de escravos, composto de 18 escravos, entre esses constam 3 dos 
insurgentes de 1863 – o líder insurgente Nazário, com 18 anos, descrito comopardo, Antônio, 
da Costa, na época com 30 anos, com a observação de estar quebrado de ambas as virilhas e 
Manoel (Capitão), da Costa, com 30 anos –, já seu pai, Antônio Maciel possuía 14 escravos, 
entre eles encontramos outro insurgente Bento, crioulo, com 14 anos. Não há como afirmar 
o número certo de escravos de Francisco Maciel na época, mas se sua esposa possuía 18 
escravos, é plausível afirmar que seus escravos viviam em um plantel que seria o resultado 
da soma dos escravos da esposa com os de seu marido – ao considerarmos o inventário 
deste senhor de 1868 no qual constam sob sua posse 16 cativos é possível sugerir que plantes 
escravo do casal era maior que os 18 escravos de Feliciana.
Não encontramos muitas referências ao líder Nazário, além do que havia sido 
relacionado no processo crime e no inventário de sua senhora, mas é possível fazermos 
alguns apontamentos do cruzamento dessas fontes. A primeira reflexão a ser feita relaciona-
se ao preço desse cativo (650$000), o valor mais alto dos seus escravos, juntamente com mais 
3 escravas que são relacionadas com o mesmo valor, mas o mais importante relaciona-se ao 
marido ter ficado, na partilha dos bens, com 8 dos 18 escravos de sua esposa – além dos três 
insurgentes anteriormente citados, João Vermelho, Francisco Cardoso, Miguel, Narciza, e 
Rosa – apesar de a maior parte dos escravos ficarem sob, aparentemente, a mesma estrutura 
de domínio de seu antigo senhor, temos 10 escravos que serão distribuídos entre seus filhos e 
filhas, o que não significa necessariamente uma separação permanente, mas pode representar 
uma maior dificuldade ao acesso a suas antigas relações.
Quadro I
Senhores e seus escravos interrogados no processo crime da insurreição de 186325
SENHORES ESCRAVOS
André Machado de Moraes Sarmento Claudino e Salvador
Antônio Dias Fialho José
Antônio Paim de Andrade Feliciano e Quinto
Clara Correa David
Domingos Correia Jose
Francisco Antônio Maciel Antônio, Bento, Joaquim, Manoel Capitão e 
Nazário
Francisco Paim Luis
24 No cálculo percentual foram considerados 28 escravos, pois acrescemos os dois escravos mortos durante a fuga, 
Nazário e Alexandre.
25 Aqui foram acrescidos os escravos Nazário de Francisco Antônio Maciel e Alexandre de José Antônio Alves, ambos 
mortos durante a troca de tiros com as autoridades na localidade do Poço Fundo, em Santa Cristina do Pinhal.
1230 1231
Innocente Ferreira Maciel José e Manoel Rafael
Januário Gomes Paim Aniceto
João Teixeira Jose
Joaquim Honorato Paim Domingos
Joaquim Pereira Pinheiro Adriano de Nação
José Antônio Alves Luiz e Alexandre
José Antônio de Jesus Manoel
José de Souza Lima Pedro
José Francisco de Souza Constantino
Manoel Ignácio Soares Narciso
Manoel José de Barcellos Matheus e Ângelo
Porfírio Antônio de Jesus Justo
Para avaliarmos isso podemos destacar que, ao analisarmos os registros de batismo da 
Aldeia dos Anjos entre os anos de 1832 a 1855, encontramos dois registros de batismo com 
filhos legítimos26 de escravos de Francisco Maciel, ambos de Francisco e Rosa, um do ano 
de 1834 de Florinda e outro de 1851 de Maria, além desse registro encontramos o registro de 
Rita, filha natural de Rosa escrava de Francisco Maciel. Não encontramos nos inventários 
de Feliciana e de Francisco Maciel as escravas Florinda e Maria, mas encontramos Rita 
com 8 anos no inventário de sua senhora, e que na partilha ficou com a filha da senhora, 
Ana Ignacia de Jesus, sendo assim separada de sua mãe a escrava Rosa. Mas os escravos 
Francisco e Rosa ficaram em um mesmo plantel.
Voltando aos escravos insurgentes podemos aqui destacar que Nazário, Antônio e 
Manoel (Capitão) ficaram a residir junto a seu senhor, sugerimos que estes três escravos 
viviam juntos a pelo menos 11 anos, desde 1852 do inventário de sua senhora até o momento 
do levante 1863. Mas se pensarmos em Antônio e Manoel (Capitão) é possível tivesse havido 
uma experiência de vida em comum, ambos africanos carregando consigo o rompimento 
de laços com sua antiga terra na África27, visto que nos registros de batismo encontramos 
a chegada em 1832, de dois escravos africanos de nação Congo para Francisco Ferreira 
Maciel28, Antonio e Manoel talvez possamos ter a existência de laços adquiridos na própria 
viagem da África, Ricardo Pirola (2005: 115-119) vai afirmar sobre a vivência desses escravos 
antes da chegada ao Brasil, além disso podemos destacar que no caso de Antonio e Manoel 
chegaram em um período conturbado da história do Brasil, fim do 1º império, assim como 
praticamente no momento anterior a “Guerra dos Farrapos”.29
Inocente Ferreira Maciel, perde sua mãe em 1852 e seu avô em 1853, nessa época era 
casado com Leonor Inácia de Moraes desde 18 de maio de 1850. Após a morte de seus 
parentes, terá outra perda em 1859 quando sua esposa vem a falecer, aparentemente todos 
26 Infelizmente não trabalhamos sistematicamente com os registros de casamento para verificarmos se houve 
uma união entre estes escravos.
27 Não estamos apontando uma mesma procedência, apenas uma possível experiência da viagem atlântica em 
comum.
28 Acreditamos que o nome tenha sido redigido erradamente, devendo ser Francisco Antonio Maciel, pois 
percebemos em outros registros, como os dos filhos dos escravos Francisco e Rosa, anteriormente citados, que em 
um aparece Francisco Ferreira Maciel e no outro Francisco Antônio Maciel, sendo que no que aparece Francisco 
Ferreira Maciel, temos como padrinhos os escravos de Antônio Ferreira Maciel, pai de Francisco, sendo assim 
acreditamos que tenha se processado um equivoco relacionado ao sobrenome de seu pai, por isso do registro de 
Francisco Ferreira Maciel ao invés de Francisco Antonio Maciel.
29 Usamos o termo sem nos atermos nas divergências historiográficas sobre ter sido uma “revolução ou guerra”.
1232
seus seis escravos30 ficam com Inocente. Essa união matrimonial foi instituída com a filha 
de Dona Brígida Maria de Oliveira Prates e do Tenente Coronel André Machado de Moraes 
Sarmento, este último um dos repressores da insurreição de 1863, mas sua relação que esta 
família não para por aí, um ano após a morte de Leonor, Inocente Maciel casasse novamente, 
agora com a prima de sua antiga esposa, Clarinda Martins de Ávila, que é filha da irmã de 
sua sogra, Catarina Rosa de Oliveira.
Acredito que para a compreensão do contexto em que viviam esses insurgentes relaciona-
se a uma “remodelação” do plantel escravo nos quais estavam inseridos, pois ao considerarmos 
seus senhores notaremos a existência de três inventários próximos ao período da insurreição 
– Leonor Ignacia de Moraes (1860), Dona Brígida Maria de Oliveira Prates (1858) e Catarina 
Rosa de Oliveira (1863) – e dois deles, Brígida e Catarina, eram grandes plantéis escravos 
um com 29 e o outro com 28 cativos. Inocente Maciel esteve envolvido em todos no de 
Brígida e Catarina como Genro e no de Leonor como esposo. Nesse remodelamento de 
plantéis podemos apontar que dos 29 escravos de Brígida, sua filha Leonor herdou, em 1858, 
apenas a escrava Carolina, mas um fato interessante relaciona-se a esta escrava aparecer 
no inventário de Leonor com sua filha Idalina de 8 anos, e esta não aparece no inventário 
de dona Brígida, ao analisarmos os registros de batismos encontramos em 02 de janeiro de 
1852 seu batismo, sendo que sua mãe Carolina, aparecia como sendo escrava de Inocente 
Ferreira Maciel. Sugerirmos que parte dos 29 cativos relacionados no inventário de Dona 
Brígida estavam distribuídos, antes mesmo de sua morte, entre os filhos.31 Buscaremos agora 
compreender uma rede familiar escrava especifica, relacionada ao escravo Claudino.
Apontamentos sobre família escrava: o caso do pardo claudino
Antes de passarmos a vida dos cativos queremos destacar um fator que será importante 
para compreender sua rede familiar, questão bastante discutida na historiografia sobre 
escravidão relacionada a cor/origem dos cativos, aqui tentaremos com o caso do “pardo” 
Claudino e seu companheirode cativeiro o”crioulo” Salvador, compreender um pouco desta 
relação. Tomamos esses casos como parâmetro, pois chamou-nos a atenção uma das cartas 
do subdelegado do 3° Distrito da Freguesia dos Anjos, Manoel Soares Lima, quando ao 
explicar as providências tomadas por ele para a repressão do levante, para Chefe de polícia 
da Província, afirma que o Tenente Coronel André Machado já havia mandado:
[...] amarrar alguns escravos dos seus, os que [ele] suspeitava que fossem entrados no negócio, 
sendo um deles o tal crioulo Salvador [...] porque sendo como é muito fraco ao castigo logo 
confessaria o que soubesse, e assim o fiz, mandando tão bem amarrar logo o [...] pardo Claudino, 
por saber que tinha sido convidado pelo escravo José do Alferes Jacinto Maciel, a mandado de 
Nazário de Francisco Antônio Maciel. (grifo nosso)32
30 Jose, 40 anos, Nação, 1:500$; Gregório, 18 anos, Crioulo, 1:300$; Carolina, parda, 36 anos, muito doente, 500$; 
Leonarda, parda, 16 anos, 1:500$; Claudina, parda, 12 anos, 1:300$; Idalina, parda, 8 anos, 1:000$.
31 Infelizmente não teremos espaço suficiente para abordarmos isso mais detalhadamente nesse artigo, mas 
podemos afirmar que, conforme o inventário, 11 escravos estavam em posse dos herdeiros.
32 Correspondência de 09 de setembro de 1863, do subdelegado em exercício do 3° Distrito da Freguesia dos Anjos, 
Manoel Soares Lima para o Doutor Chefe de Polícia da Província, Dario Rafael Callado. APERS – Sumário Júri, maço 
35, processo 1060, fls. 30f e v.
1232 1233
O relato parece demonstrar que, possivelmente, ser crioulo não representava o mesmo 
que ser pardo, ou seja, todo o pardo poderia ser crioulo, mas nem todo o crioulo seria pardo. 
Apesar da redundância dessa afirmação, queremos apontar algumas informações coletadas 
destes escravos, para possibilitar ao leitor compreender o que sugiro. Ao analisar o inventário 
de André Machado (1880), encontraremos o registro de seus escravos, quinze ao total, 
realizado no ano de 1872, no qual constará que todos eram naturais dessa província, mas na 
coluna em que deveria ser relacionada à cor, foram relacionadas três categorias pelo senhor: 
“pardo” (8), “crioulo” (4) e “cabra” (3), não há em sua escravaria mais nenhum escravo 
africano, se pensarmos no inventário de sua primeira esposa, D. Brígida (1858), podemos 
notar que a presença africana era pequena, apenas 2 dos 29 escravos de seu plantel, o mesmo 
ocorrerá com sua irmã, Catarina (1863), que terá 4 africanos entre seus 28 escravos.
No universo de 1118 cativos constantes nos inventários (1841-1870), teremos apenas 
875 casos em que constará cor ou origem do cativo, sendo um fato interessante que quando 
relacionada sua cor, não constava a procedência e o contrário também foi comum.33 Pelo 
nosso levantamento temos apenas 189 escravos que só havia sido relacionada à cor, mas não 
a procedência. Ao observar o quadro de origem e cor dos cativos, percebesse que dos 189 
escravos que constavam a cor, 166 (87,83%) eram pardos ou mulatos, se considerarmos todos 
os escravos nos quais aparecem cor ou origem (875), esses escravos representaram (18,97%) 
da população da região. Talvez essas diferenciações representassem uma subdivisão na 
categoria escrava, se analisarmos o caso de Claudino, por exemplo, verificamos que esse 
cativo era um dos 13 pardos de sua senhora, a já mencionada Dona Brígida, sendo que sua 
escravaria era composta além desses, por mais 11 crioulos, 2 africanos, 1 cabra e 1 que não 
constava procedência e cor, chamado João Castelhano. Apesar de Claudino ser registrado 
como filho da escrava de André Machado, este constou no inventário de sua esposa, sendo 
descrito como um pardo, de 27 anos mais ou menos, tendo como ofício ser falquejador,34 
sendo avaliado em 1:400$. Duas particularidades devem ser consideradas, a primeira é ser o 
único dos 29 escravos que foi especificado seu ofício e a outra é que foi um dos escravos mais 
bem avaliados no inventário, sendo que somente mais um escravo, também pardo terá este 
valor, chamado Florentino. O pardo Claudino35 nasceu na Aldeia dos Anjos, em 14 de julho 
de 1832, era filho da crioula Páscoa, escrava de André Machado de Moraes Sarmento, seus 
padrinhos parecem estar inseridos dentro das próprias redes de relações de seus senhores, 
Domingos36 era um escravo africano do mesmo senhor e Joanna era a escrava mulata de 
Faustino Martins D’Ávila,37 este último era pai do marido de sua cunhada Catarina Rosa de 
Oliveira, Antônio Martins D’Ávila, que posteriormente será seu sogro.
33 Há somente temos 16 casos onde constou cor e origem juntos, sendo 8 africanos (4 descrito como nação preto, 
2 como nação africana preto, 1 como africano preto e 1 como da costa preto) e 8 crioulos (1 descrito como crioulo 
negro, 3 descrito como crioulo pardo e 4 como crioulo preto). Os outros escravos que não foram relacionados seriam 
241 nos quais não constava origem e nem cor e há ainda a particularidade de um escravo descrito como crioulo/
nação.
34 “Falquejador: oficial que falqueja; falquejar; Falquear: aparar com o machado a casca, e tanto do toro de madeira, 
quanto é necessário para que fique com 4 faces regulares em quadrado, outros dizem Falqueajar SILVA, Antônio 
de Moraes. Diccionario da Língua Portugueza. Lisboa, Tipografia Lacérdina, 1813, p. 7-8”. In: CARVALHO, Daniela 
Vallandro de. Vivendo nas margens: Experiências negras de Recrutamento, Guerra e Escravidão (Rio Grande de São 
Pedro, 1830-1860). Disponível em: http://www.ifcs.ufrj.br/~arshistorica/jornadas/IV_jornada/IV_17.pdf.
35 É descrito como pardo em seu registro de batismo.
36 Domingos era escravo do pai de André Machado, como podemos verificar no inventário do Sargento-Mor 
Antonio José Machado Moraes Sarmento e sua mulher Leonor Inácia de Souza. Fundo 003: Comarca do Rio Grande 
do Sul, localidade Porto Alegre, subfundo: I Vara de Família e Sucessão, ano 1822, processo 749.
37 Livro 9A, Batismos 1832, Abr-1866, Mar, folha 3 frente. site: www.familysearch.org. No inventário desse senhor, 
datado de 1833, com 13 escravo e entre estes encontramos a madrinha do pardo Claudino, descrita como mulata. 
Fundo 004: Comarca de Porto Alegre, localidade Porto Alegre, Sub-fundo: Provedoria, ano 1833, processo 29.
1234
Quadro
Origem e cor dos escravos
Origem/cor
1841-1850 1851-1860 1861-1870 1841-1871
Nº % Nº % Nº % Nº %
Africano 95 35,85 105 27,85 41 17,60 241 27,54
Crioulo 111 41,89 198 52,52 136 58,37 445 50,86
Cabra 3 1,13 7 1,86 4 1,72 14 1,60
Pardo/mulato 50 18,87 66 17,51 50 21,46 166 18,97
Outros 6 2,26 1 0,27 2 0,86 9 1,03
Total 265 100,00 377 100,00 233 100,00 875 100,00
Pelo menos até 1858 o pardo Claudino, vivia com seu irmão mais novo, o pardo 
Florentino de 24 anos e mais a irmã Silveria de mais ou menos 30 anos, casada desde 01 de 
novembro de 1855, com o pardo Ignácio, de mais ou menos 41 anos, e mais o seu irmão, 
o pardo Amancio de 38 anos, casado com a parda Eva, de mais ou menos 27 anos, ambos 
cunhados de Claudino eram escravos da mesma senhora. Além de seus irmãos encontramos 
também seus três sobrinhos, a mais velha a “crioula” Maria de 15 anos, a parda Clemência 
de 11 anos e o pardo Emidio de 2 anos. Na partilha os dois casais, Claudino e o sobrinho 
Emidio, de 2 anos ficaram de herança para o viúvo André Machado, já o irmão Florentino 
ficará com o seu filho José Antônio Machado e sua esposa Ana Ignacia da Conceição. 
Amancio e Eva ficaram juntos a seu filho menor, mas suas duas outras filhas acabaram 
sendo herdadas na partilha por outras filhas de Brígida, Clemência ficará com Felicidade 
Maria de Oliveira Prates e seu marido Tenente Coronel José Joaquim Machado, já Maria, 
ficará com Maria Cândida de Moraes Sarmento e seu marido Zeferino José de [Fraga]. 
Acreditamos que, aparentemente, houve a estruturação de uma rede familiar formada pelos 
pardos desta senhora que, possivelmente, possuíam uma melhor posição dentro daquela 
escravaria. Pensando o caso de Claudino, acreditamos que, assim como propôs Mattos:“A designação de ‘pardo’ era usada, antes, como forma de registrar uma diferenciação social, 
variável conforme o caso, na condição mais geral de não-branco. Assim, todo escravo descendente 
de homem livre (branco) tornava-se pardo, bem como todo homem nascido livre, que trouxesse a 
marca de sua ascendência africana – fosse mestiço ou não”. (Mattos, 1998, p.29-30)
Ao que parecem os pardos possuíam uma maior interação familiar, mas não podemos 
deixar de citar o caso do “crioulo” Manoel Rafael, escravo de Innocente Maciel, ao dizer 
ter estado domingo, 23 de agosto de 1863, em casa de Baptista no Butiá com José, escravo 
de Domingos Corrêa, somente para tratar “[...] sobre um negócio de um poncho que queria 
vender [...]”, nesse mesmo dia Manoel Rafael ainda foi a duas outras propriedades. Primeiro 
“[...] esteve na roça de Pedro escravo de José de Souza Lima [...]” e somente foi lhe dizer que 
Nazário queria conversar com este, ao sair vai, já tarde da noite, a fazenda de José Francisco 
de Souza “[...] tomar benção de sua mãe [...]” e não conversar com Constantino como os 
1234 1235
interrogadores haviam perguntado a ele.38 O caso de Manoel Rafael permite sugerirmos a 
existência de certa mobilidade espacial pela região, pois em um mesmo dia Manoel passou 
por três fazendas, mesmo se considerarmos que estas fazendas fossem próximas, o importante 
é destacar que ele pode circular, com certa facilidade, por estas propriedades e até mesmo 
deixar recado com um senhor moço, como veremos adiante. Nessas idas e vindas de Manoel 
Rafael nos ateremos a propriedade de José Francisco de Souza, principalmente no relato de 
Pedro e Constantino, escravos desse proprietário. No domingo, 25 de agosto de 1863, Pedro, 
escravo de José de Souza Lima, diz que estando trabalhando na lavoura:
[...] veio um escravo que foi de seu senhor e hoje é de Innocente Maciel de nome Manoel Rafael, e lhe 
disse que Nazário e Bento escravos de Francisco Maciel queriam conversar com ele respondente 
e que havia de ser na terça feira de noite em casa do Baptista do Butiá, ele respondente ficou de 
ir, mais não foi porque seu senhor não estava em casa e não podia sair sem licença [...]. (Grifo 
nosso)39
Constantino, escravo de José Francisco de Souza, confirma a ida de Manoel Rafael a 
sua fazenda, mas respondeu que não chegou a conversar com ele, pois passou “[...] o dia 
em casa de Medeiros e na venda de José Custodio, mas sabe que Manoel Rafael lhe foi [...] 
procurar em casa de seu senhor por lhe ter contado o seu senhor moço Felisbino”.40 O relato 
desses escravos nos permite indicar algumas questões, primeiramente que Manoel Rafael 
estava indo a propriedade de seu antigo senhor, e por último que possuía uma desculpa 
para ir a fazenda, sem levantar suspeitas desses senhores, deixando até mesmo um recado 
para Constantino com o senhor moço, ora Manoel Rafael havia dito que foi a fazenda 
tomar “benção de sua mãe”, ou seja, mesmo estando em outra escravaria os laços naquele 
antigo plantel se mantiveram, sua saída parece até mesmo ter ampliado suas redes sociais. 
Tentaremos compreender um pouco da rede familiar de Manoel Rafael, conforme análise 
nos registros de batismo, encontramos que este era natural da Aldeia dos Anjos, nasceu em 
04 de setembro de 1840, tinha 23 anos no momento da insurreição, era filho natural de uma 
africana, chamada Ana, nação mina, escrava de José Francisco de Souza, seus padrinhos 
foram Francisco Marcello e Maria Manoella, aparentemente, ambos livres. No inventário 
desse senhor (1868), foram relacionados 12 escravos (8 homens e 4 mulheres), entre as 
escravas encontraremos Ana, africana, com 70 anos, possivelmente a mãe de Manoel, ao 
observarmos os registros de batismo percebemos que a mãe de Manoel Rafael teve mais 
dois filhos, Eva, nascida em 01 de setembro de 1835 e, para nossa surpresa, Constantino, seu 
irmão mais novo, nascido em 08 de janeiro de 1843, talvez por ser irmão de Constantino, o 
senhor moço não questionou a presença de Manoel Rafael na propriedade de seu pai.
Considerações finais
Ao observarmos os relatos dos escravos interrogados durante o processo crime da 
insurreição, começamos a perceber detalhes da forma como estes escravos viveram, sendo 
assim, esse momento de rebeldia possibilitou-nos compreender um pouco mais da experiência 
38 Interrogatório de Manoel Rafael, escravo de Innocente Maciel Netto, no dia 04 de setembro de 1863. APERS – 
Sumário Júri, maço 35, processo 1060, fls. 8v e 9f.
39 Interrogatório de Pedro, escravo de José de Souza Lima, no dia 27 de agosto de 1863. APERS – Sumário Júri, 
maço 35, processo 1060, fl. 16f.
40 Interrogatório de Constantino, escravo de José Francisco de Souza, no dia 28 de agosto de 1863. APERS – 
Sumário Júri, maço 35, processo 1060, fl. 20v.
1236
de vida dos cativos da região, assim como Emilia Viotti da Costa (1998), ao analisar a rebelião 
escrava de Demerara em 1823, acreditamos que:
Crises são momentos de verdade. Elas trazem à luz os conflitos que na vida diária permanecem ocultos 
sob as regras e rotinas do protocolo social, por trás de gestos que as pessoas fazem automaticamente, 
sem pensar em seus significados e finalidades. Nesses momentos expõem-se as contradições 
existentes por trás da retórica de hegemonia, consenso e harmonia social. Foi exatamente o que 
aconteceu em 1823, em Demerara. A rebelião de escravos mostrou claramente os limites da 
lealdade. A sublevação forçou todos a tomar partido e demonstrar seus comprometimentos. Revelou 
as noções e os sentimentos que criavam laços e identidades ou que lançavam uns contra os outros. 
Desnudou as motivações e racionalizações que os diferentes grupos usavam na interação social. 
Tornou pública a vida secreta dos escravos. Retirou a máscara de benevolência e expôs em sua 
nudez toda a brutalidade do poder dos senhores, tornando visível a crescente oposição destes ao 
governo britânico. (grifo nosso) 41
Compreendemos que este momento de conflito permitiu “descortinar” fragmentos das 
relações escravas e mesmo senhoriais, demonstrando que quando as relações dos senhores 
se remodelavam, a relação dos escravos também era obrigada a se adaptar, mas isso não 
significa dizer que eles somente reagiam, eles procuraram criar novos laços sociais, sem com 
isso deixar suas antigas relações desaparecerem, ou seja, procuraram mantê-las fortes da 
forma como puderam, principalmente as familiares.
referênciAs bibliográficAs
ABREU, Martha. O Império do Divino: Festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: 
Nova Fronteiras; São Paulo: Fapesp, 1999.
ALONSO, Angela. Apropriação de ideias no Segundo Reinado. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. O 
Brasil Imperial, volume III: 1870-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
ANDRADE, Marcos Ferreira de. Rebelião Escrava na Comarca do Rio da Mortes, Minas Gerais: O Caso 
Carrancas. Afro-Asia, 21-22 (1998-1999).
DANTAS, Mônica Duarte. Para além do mandonismo: Estado, poder pessoal e homens livres pobres no Império 
do Brasil. In: SOUZA, Laura de Mello e; FURTADO, Junia Ferreira; BICALHO, Maria Fernanda. O Governo dos 
Povos. São Paulo: Ed. Alameda, 2009.
GENOVESE, Eugene Dominick. Da rebelião à revolução: as revoltas de escravos negros nas Américas. São 
Paulo: Global, 1983.
GOMES, Flavio dos Santos. Histórias de quilombolas: Mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século 
XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MAESTRI FILHO, Mario J. O escravo africano no Rio Grande do Sul. In: DACANAL, José Hildebrando; 
GONZAGA, Sergius (Orgs.). RS: Economia e política. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1993.
MENZ, Maximiliano M. Os escravos da feitoria do Linho Cânhamo: trabalho, conflito e negociação. Afro-Ásia, 
32 (2005), 139-158.
MOREIRA, Paulo Roberto Staudt. Sobre fronteira e liberdade – representações e práticas dos escravos gaúchos 
na Guerra do Paraguai (1864/1870). Anos 90. Porto Alegre, n.9, p.119-149, julho de 1998.
MOTTA, Isaura Moura. O ‘vulcão’negro da Chapada: Rebelião escrava nos sertões diamantinos (Minas Gerais, 1864). 
Dissertação de Mestrado, Campinas: UNICAMP, 2005.
41 COSTA (1998) Op.cit., p.13-14. (org. referência)
1236 1237
OLIVEIRA, Vinicius Pereira de. Diálogos entre a pesquisa histórica e a memória quilombola: um estudo sobre a 
Comunidade de Manoel Barbosa/RS In: Prêmio Territórios Quilombolas 2ª Edição. Brasília: MDA, 2007.
PIROLA, Ricardo Figueiredo. A conspiração escrava de Campinas, 1832: rebelião etnicidade e família. Campinas: 
UNICAMP, 2005. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. Revista USP, n.28, ano 1995-1996.
___________; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1989.
XAVIER, Regina Célia Lima. Religiosidade e escravidão, século XIX: mestre Tito. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 
2008.

Mais conteúdos dessa disciplina