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Questões resolvidas

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Figuras de Linguagem
IT0103 - (Enem)
O AÇÚCAR
 
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
 
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
 
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
[dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
 
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
(...)
 
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Ferreira Gullar. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, p. 227-8.
 
A an�tese que configura uma imagem da divisão social
do trabalho na sociedade brasileira é expressa
poe�camente na oposição entre a doçura do branco
açúcar e 
a) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o
açúcar. 
b) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve
na boca. 
c) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde
se produz o açúcar. 
d) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço
do vale. 
e) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas
escuras. 
IT0112 - (Fuvest)
Sone�lho do falso Fernando Pessoa
 
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
 
Sem mim como sem �
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou sen�.
 
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo*,
 
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma.
 
*conversa ín�ma entre casais.
 
Ulisses
 
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
 
Este, que aqui aportou,
1@professorferretto @prof_ferretto
Foi por não ser exis�ndo.
Sem exis�r nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
 
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Fernando Pessoa. Mensagem.
 
O oxímoro é uma “figura em que se combinam palavras
de sen�do oposto que parecem excluir-se mutuamente,
mas que, no contexto, reforçam a expressão” (HOUAISS,
2001).
 
No poema “Sone�lho do falso Fernando Pessoa”, o
emprego dessa figura de linguagem ocorre em: 
a) “Onde morri, existo” (v. 2). 
b) “E das peles que visto / muitas há que não vi” (v. 3-
4). 
c) “Desisto / de tudo quanto é misto / e que odiei ou
sen�” (v. 6-8). 
d) “à deusa que se ri / deste nosso oaristo” (v. 10-11). 
e) “mas não sou eu, nem isto” (v. 14). 
IT0110 - (Enem)
Ao analisar as informações visuais e linguís�cas dessa
charge, entende-se que ela cumpre a função de 
a) ironizar, de forma bem-humorada, o fracasso dos
esforços governamentais no combate à pirataria. 
b) denunciar, de forma preconceituosa, o
comportamento dos vendedores de programas
piratas. 
c) divulgar, de forma revolucionária, os projetos
governamentais para impedir a pirataria. 
d) apoiar, de forma explícita, os movimentos populares
de apoio ao combate à pirataria. 
e) incen�var, de forma irônica, o comércio popular de
programas de informá�ca. 
IT0102 - (Enem)
Canção do vento e da minha vida
 
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
 
[...]
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
 
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro:
José Aguilar, 1967. 
 
Predomina no texto a função da linguagem 
a) fá�ca, porque o autor procura testar o canal de
comunicação. 
b) metalinguís�ca, porque há explicação do significado
das expressões. 
c) cona�va, uma vez que o leitor é provocado a par�cipar
de uma ação. 
d) referencial, já que são apresentadas informações
sobre acontecimentos e fatos reais. 
e) poé�ca, pois chama-se a atenção para a elaboração
especial e ar�s�ca da estrutura do texto. 
2@professorferretto @prof_ferretto
IT0106 - (Enem)
OXÍMORO (ou PARADOXO) é uma construção textual que
agrupa significados que se excluem mutuamente. Para
Garfield, a frase de saudação de Jon (�rinha a seguir)
expressa o maior de todos os oxímoros.
Nas alterna�vas a seguir, estão transcritos versos
re�rados do poema "O operário em construção". Pode-se
afirmar que ocorre um oxímoro em 
 
a) "Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão." 
b) "... a casa que ele
fazia
 Sendo a sua
liberdade
 Era sua
escravidão." 
c) "Naquela
casa vazia
 Que ele
mesmo
levantara
 Um mundo
novo nascia
 De que sequer
suspeitava." 
d) "... o operário faz a coisa E a coisa faz o operário." 
e) "Ele, um
humilde
operário
 Um
operário
que
sabia
 Exercer a
profissão."
(MORAES, Vinícius
de. Antologia Poé�ca.São
Paulo: Companhia das
Letras, 1992.) 
IT0105 - (Enem)
Nesta �rinha, a personagem faz referência a uma das
mais conhecidas figuras de linguagem para 
a) condenar a prá�ca de exercícios �sicos. 
b) valorizar aspectos da vida moderna. 
c) deses�mular o uso das bicicletas. 
d) caracterizar o diálogo entre gerações. 
e) cri�car a falta de perspec�va do pai. 
IT0108 - (Enem)
Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desa�na sem doer;
 
É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís de Camões) 
 
O poema tem, como caracterís�ca, a figura de linguagem
denominada an�tese, relação de oposição de palavras ou
ideias. Assinale a opção em que essa oposição se faz
claramente presente. 
a) "Amor é fogo que arde sem se ver." 
b) "É um contentamento descontente." 
c) "É servir a quem vence, o vencedor." 
d) "Mas como causar pode seu favor." 
e) "Se tão contrário a si é o mesmo Amor?" 
IT0098 - (Enem)
Aquele bêbado
 
— Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os
indicadores. Acrescentou: — Álcool.
 
O mais, ele achou que podia beber. Bebia paisagens,
músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou
um pileque de Segall. Nos fins de semana embebedava-
se de Índia Reclinada, de Celso Antônio.
 
— Curou-se 100% de vício — comentavam os amigos.
 
3@professorferretto @prof_ferretto
Só ele sabia que andava bêbado que nem um gambá.
Morreu de e�lismo abstrato, no meio de uma carraspana
de pôr do sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras
coroas de ex-alcoólatras anônimos.
ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record,
1991.
 
A causa mor�s do personagem, expressa no úl�mo
parágrafo, adquire um efeito irônico no texto porque, ao
longo da narra�va, ocorre uma
a) metaforização do sen�do literal do verbo “beber”. 
b) aproximação exagerada da esté�ca abstracionista. 
c) apresentação grada�va da coloquialidade da
linguagem. 
d) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras
coroas”. 
e) citação aleatória de nomes de diferentes ar�stas. 
IT0109 - (Enem)
Nunca �nha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo
dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me
levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma
careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia,
ves�a-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais
tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em
ação. Meneses trazia amores com uma senhora,
separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por
semana. Conceição padecera, a princípio,não
escutava os piares.
– Agora não sonha, filha?
– Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!
Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:
– Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a
saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu
sinal.
O médico corrigiu os óculos como se entendesse
rec�ficar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se
autorizar. E disse:
– Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.
– Morta, a minha menina? Mas, assim...?
– Esta é a sua maneira de estar morta.
A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo.
Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo
seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro,
duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que
nem se nota a re�rada da vida? E o médico, lhe
amparando, já na porta:
– Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.
A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando
danças, cantarolando canções que nem existem. Se
chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexis�sse. A
sua pele não desprendia calor.
– Então, minha querida não escutou nada?
Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou
recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas
nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e
adiante.
Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na
torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra
flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da
tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os
velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.
E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma
única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe
deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em
serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das
aves.
(Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)
 
O narrador recorre a um enunciado aparentemente
paradoxal no seguinte trecho:
a) “Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a
mãe depositou ao pé da cama.” (21º parágrafo)
b) “O médico corrigiu os óculos como se entendesse
rec�ficar a própria visão.” (12º parágrafo)
c) A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando
danças, cantarolando canções que nem existem.” (18º
parágrafo)
d) “Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela
praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de
respeito. (21º parágrafo)
e) “A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor.” (4º
parágrafo).
IT0870 - (Unesp)
Leia a crônica “Despedida”, de Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987), publicada originalmente no Jornal
do Brasil em 05.06.1971, e a resposta de Edson Arantes
do Nascimento (1940-2022), o Pelé, publicada no mesmo
jornal em 29.06.1971.
 
Pelé despede-se em julho da Seleção Brasileira.
Decidiu, está decidido. Querem que ele con�nue, mas
sua educação espor�va se dilata em educação moral, e
Pelé dá muito apreço à sua palavra. Se atender aos
apelos, ficará bem com todo o mundo e mal consigo. Pelé
não quer brigar com Pelé. Não abandonará de todo o
futebol, pois con�nuará jogando pelo seu clube. Não vejo
contradição nisto. Faz como um grande proprietário de
terras, que trocasse a fazenda pela miniatura de um sí�o:
con�nua a ter águas, plantas, criação, a mesma
luminosidade das horas – menos a imensidão, que acaba
cansando. Ou como o leitor de muitos livros, que
passasse a ler um só que contém o resumo de tudo. Pelé
quer cul�var sua vida a seu gosto, ele que a vivia tanto ao
gosto dos outros. Sua municipalização voluntária me
encanta. Não é só pelo ato de sabedoria, que é sair antes
que exijam a nossa saída. Uma a�tude destas indica mais
cautela do que desprendimento. É pelo ato de escolha –
de escolher o mais simples, envolvendo renúncia e
gen�leza. As massas brasileiras e internacionais não
poderão chamá-lo de ingrato, pois con�nuarão a vê-lo,
aqui e no estrangeiro, em seu jogo de astúcia e arte. Mas
ele passará a jogar como par�cular, um famoso incógnito,
que não aspira às glórias de um quarto campeonato
mundial. E com isso, dará lugar a outro, ou a outros, que
por mais que caprichassem ficavam sempre um tanto
encobertos pela sombra de Pelé – a sombra de que
espontaneamente se desfaz. Bela jogada, a sua: a de não
jogar como campeão, sendo campeoníssimo.
(Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol,
2014.)
 
Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu
respeito, generosas ou menos boas, suas palavras
20@professorferretto @prof_ferretto
�veram a rara virtude de se lembrarem do homem, da
pessoa humana que quero ser, demonstrando
compreensão e carinho por essa condição fundamental.
Recortei sua crônica, não porque fala de mim, mas
porque traduz, no primor de seu es�lo, um apoio que me
incen�va e me conforta.
(Pelé apud Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia
de futebol, 2014)
 
No contexto da crônica, referem-se à Seleção Brasileira,
em termos figurados, as seguintes expressões:
a) “grande proprietário de terras" e “leitor de muitos
livros”.
b) “fazenda” e “imensidão”.
c) “miniatura” e “resumo”.
d) “fazenda” e “sí�o”.
e) “miniatura” e “imensidão”.
IT0872 - (Unesp)
Leia a crônica “Despedida”, de Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987), publicada originalmente no Jornal
do Brasil em 05.06.1971, e a resposta de Edson Arantes
do Nascimento (1940-2022), o Pelé, publicada no mesmo
jornal em 29.06.1971.
 
Pelé despede-se em julho da Seleção Brasileira.
Decidiu, está decidido. Querem que ele con�nue, mas
sua educação espor�va se dilata em educação moral, e
Pelé dá muito apreço à sua palavra. Se atender aos
apelos, ficará bem com todo o mundo e mal consigo. Pelé
não quer brigar com Pelé. Não abandonará de todo o
futebol, pois con�nuará jogando pelo seu clube. Não vejo
contradição nisto. Faz como um grande proprietário de
terras, que trocasse a fazenda pela miniatura de um sí�o:
con�nua a ter águas, plantas, criação, a mesma
luminosidade das horas – menos a imensidão, que acaba
cansando. Ou como o leitor de muitos livros, que
passasse a ler um só que contém o resumo de tudo. Pelé
quer cul�var sua vida a seu gosto, ele que a vivia tanto ao
gosto dos outros. Sua municipalização voluntária me
encanta. Não é só pelo ato de sabedoria, que é sair antes
que exijam a nossa saída. Uma a�tude destas indica mais
cautela do que desprendimento. É pelo ato de escolha –
de escolher o mais simples, envolvendo renúncia e
gen�leza. As massas brasileiras e internacionais não
poderão chamá-lo de ingrato, pois con�nuarão a vê-lo,
aqui e no estrangeiro, em seu jogo de astúcia e arte. Mas
ele passará a jogar como par�cular, um famoso incógnito,
que não aspira às glórias de um quarto campeonato
mundial. E com isso, dará lugar a outro, ou a outros, que
por mais que caprichassem ficavam sempre um tanto
encobertos pela sombra de Pelé – a sombra de que
espontaneamente se desfaz. Bela jogada, a sua: a de não
jogar como campeão, sendo campeoníssimo.
(Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol,
2014.)
 
Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu
respeito, generosas ou menos boas, suas palavras
�veram a rara virtude de se lembrarem do homem, da
pessoa humana que quero ser, demonstrando
compreensão e carinho por essa condição fundamental.
Recortei sua crônica, não porque fala de mim, mas
porque traduz, no primor de seu es�lo, um apoio que me
incen�va e me conforta.
(Pelé apud Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia
de futebol, 2014)
 
Do ponto de vista semân�co, opõem-se os termos que
compõem a seguinte expressão:
a) “famoso incógnito” (Drummond).
b) “pessoa humana” (Pelé).
c) “condição fundamental” (Pelé).
d) “rara virtude”(Pelé).
e) “educação moral” (Drummond).
IT0873 - (Unesp)
Examine a �rinha da cartunista Laerte.
 
Na construção de sua �rinha, Laerte mobiliza
fundamentalmente o seguinte recurso expressivo:
21@professorferretto @prof_ferretto
a) hipérbole.
b) redundância.
c) ambiguidade.
d) intertextualidade.
e) eufemismo.
IT0879 - (Unesp)
Leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa
du Bocage.
 
Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros1 brincar por entre as flores?Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos2 ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!
 
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha para.
Ora nos ares, sussurrando, gira.
 
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a noite me causara.
(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos,
1974.)
 
1 Zéfiro: vento que sopra do ocidente.
2 ósculo: beijo.
 
Ao longo do soneto, o eu lírico recorre reiteradamente ao
seguinte recurso retórico:
a) metalinguagem.
b) ironia.
c) pleonasmo.
d) personificação.
e) an�tese.
IT0816 - (Unesp)
Examine o cartum de Sofia Warren, publicado em sua
conta no Instagram em 09.03.2020.
 
 
Contribuem para o efeito de humor do cartum os
seguintes recursos expressivos:
a) hipérbole e paradoxo.
b) paradoxo e personificação.
c) an�tese e pleonasmo.
d) personificação e pleonasmo.
e) ironia e hipérbole.
IT0905 - (Unicamp)
Em depoimento, Paulo Freire fala da necessidade de uma
tarefa educa�va: “trabalhar no sen�do de ajudar os
homens e as mulheres brasileiras a exercer o direito de
poder estar de pé no chão, cavando o chão, fazendo com
que o chão produza melhor é um direito e um dever
nosso. A educação é uma das chaves para abrir essas
portas. Eu nunca me esqueço de uma frase linda que eu
ouvi de um educador, camponês de um grupo de Sem
Terra: pela força do nosso trabalho, pela nossa luta,
cortamos o arame farpado do la�fúndio e entramos nele,
mas quando nele chegamos, vimos que havia outros
arames farpados, como o arame da nossa ignorância.
Então eu percebi que quanto mais inocentes, tanto
melhor somos para os donos do mundo. (...) Eu acho que
essa é uma tarefa que não é só polí�ca, mas também
pedagógica. Não há Reforma Agrária sem isso.”
(Adaptado de Roseli Salete Galdart, Pedagogia do
Movimento Sem Terra: escola é mais que escola. São
Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 172.)
 
No excerto adaptado que você leu, há menção a outros
arames farpados, como “o arame da nossa ignorância”.
Trata-se de uma figura de linguagem para
22@professorferretto @prof_ferretto
a) a conquista do direito às terras e à educação que são
negadas a todos os trabalhadores.
b) a obtenção da chave que abre as portas da educação a
todos os brasileiros que não têm terras.
c) a promoção de uma conquista da educação que tenha
como base a propriedade fundiária.
d) a descoberta de que a luta pela posse da terra
pressupõe também a conquista da educação.
IT0906 - (Unicamp)
 
Assinale a alterna�va correta.
a) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe
quem inventou o avião?ˮ) remete-nos a Santos
Dummont, portanto confirma o que se diz no primeiro
e segundo quadrinhos.
b) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe
quem inventou o avião?ˮ) re�fica a afirmação do
primeiro quadrinho (“Não há lei que o brasileiro não
burle.ˮ).
c) A afirmação do segundo quadrinho (“Há a lei da
Gravidade.ˮ) refere-se a uma lei da �sica que nenhum
brasileiro é capaz de burlar, como se admite no
primeiro quadrinho.
d) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe
quem inventou o avião?ˮ) é retórica, já que não há
uma resposta para ela nem no primeiro nem no
segundo quadrinhos.
IT0917 - (Unicamp)
O brasileiro João Guimarães Rosa e o irlandês James
Joyce são autores reverenciados pela inven�vidade de
sua linguagem literária, em que abundam neologismos.
Muitas vezes, por essa razão, Guimarães Rosa e Joyce são
citados como exemplos de autores "pra�camente
intraduzíveis". Mesmo sem ter lido os autores, é possível
iden�ficar alguns dos seus neologismos, pois são
baseados em processos de formação de palavras comuns
ao português e ao inglês.
Entre os recursos comuns aos neologismos de Guimarães
Rosa e de James Joyce, estão:
 
i. Onomatopeia (formação de uma palavra a par�r de
uma reprodução aproximada de um som natural,
u�lizando-se os recursos da língua); e
ii. Derivação (formação de novas palavras pelo acréscimo
de prefixos ou sufixos a palavras já existentes na língua).
 
Os neologismos que aparecem nas opções abaixo foram
extraídos de obras de Guimarães Rosa (GR) e James Joyce
(JJ). Assinale a opção em que os processos (i) e (ii) estão
presentes:
a) Quinculinculim (GR, No Urubuquaquá, no Pinhém) e
ta�arra�at (JJ, Ulisses).
b) Transtrazer (GR, Grande sertão: veredas) e monoideal
(JJ, Ulisses).
c) Rtststr (JJ, Ulisses) e quinculinculim (GR, No
Urubuquaquá, no Pinhém).
d) Ta�arra�at (JJ, Ulisses) e inesquecer-se (GR, Ave,
Palavra).
IT0923 - (Unicamp)
“A noção de programa gené�co (...) desempenhou um
papel importante no lançamento do Projeto Genoma
Humano, fazendo com que se acreditasse que a
decifração de um genoma, à maneira de um livro com
instruções de um longo programa, permi�ria decifrar ou
compreender toda a natureza humana ou, no mínimo, o
essencial dos mecanismos de ocorrência das doenças. Em
suma, a fisiopatologia poderia ser reduzida à gené�ca, já
que toda doença seria reduzida a um ou diversos erros
de programação, isto é, à alteração de um ou diversos
genes”.
(Edgar Morin, A religação dos saberes: o desafio do
século XXI. Jornadas temá�cas idealizadas e dirigidas por
Edgar Morin. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil Ltda, 2012, p.
157.)
 
A expressão programa gené�co, mencionada no trecho
anterior, é
23@professorferretto @prof_ferretto
a) uma alegoria, pois sinte�za os mecanismos
moleculares subjacentes ao funcionamento dos genes
e dos cromossomos no contexto ficcional de um
programa de computador.
b) uma analogia, pois diferencia os mecanismos
moleculares subjacentes ao código gené�co e ao
funcionamento dos cromossomos dos códigos de um
programa de computador.
c) uma metáfora, pois iguala toda a informação gené�ca
e os mecanismos moleculares subjacentes ao
funcionamento e expressão dos genes com as
instruções e os comandos de um programa.
d) uma analogia, pois contrasta os mecanismos
moleculares dos genes nos cromossomos e das
doenças causadas por eles com as linhas de comando
de um programa de computador.
IT0823 - (Unesp)
Leia o trecho da peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar,
de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. A peça foi
encenada em 1960 na arena da Faculdade de Arquitetura
da Universidade do Brasil e promoveu um amplo debate.
A mobilização resultante desse debate
desencadeou a criação do Centro Popular de Cultura
(CPC).
 
CORO DOS DESGRAÇADOS: Trabalhamos noite e dia, dia e
noite sem parar! Então de nada precisamos, se só
precisamos trabalhar! Há mil anos sem parar! Fizemos as
correntes que nos botaram nos pés, fizemos a Bas�lha
onde fomos morar, fizemos os canhões que vão nos
apontar. Há mil anos sem parar! Não mandamos, não
fugimos, não cheiramos, não matamos, não fingimos,
não coçamos, não corremos, não deitamos, não
sentamos: trabalhamos. Há mil anos sem parar! Ninguém
sabe nosso nome, não conhecemos a espuma do mar,
somos tristes e cansados. Há mil anos sem parar! Eu
nunca ri – eu nunca ri – sempre trabalhei. Eu faço
charutos e fumo bitucas, eu faço tecidos e ando pelado,
eu faço ves�do pra mulher, e nunca vi mulher desves�da.
Há mil anos sem parar! Maria esqueceu de mim e foi
morar com seu Joaquim. Há mil anos sem parar!
 
(Apito longo. Um cartaz aparece:
“Dois minutos de descanso e lamba as unhas.”
Todos vão tentar sentar.
Menos o Desgraçado 4 que fica de pé furioso.)
 
DESGRAÇADO 1: Ajuda-me aqui, Dois. Eu quero me dá
uma sentadinha.
 
(Desgraçado 2 ri de tudo.)
 
DESGRAÇADO 3: Senta. (Desgraçado 1 vai pôr a cabeça
no chão.) De assim, não. Acho que não é com a cabeça
não.
DESGRAÇADO 1: Eu esqueci.
DESGRAÇADO 3: A bunda, põe ela no chão. A perna é que
eu não sei.
DESGRAÇADO 2: A pera �ra.
 
(Desgraçado 3 e Desgraçado 2
desistem de descobrir. Se a�ram no chão.)
 
DESGRAÇADO 1: A perna dobra! (Senta. Sa�sfeito.)
DESGRAÇADO 2: Quero ver levantar.
 
(Todos olham para Desgraçado 4,
fazem sinais para que ele se sente.)
 
DESGRAÇADO 4: Não! Chega pra mim! Eu só trabalho,
trabalho, trabalho... (Perde o fôlego.)
DESGRAÇADO 3: Eu te ajudo:trabalho, trabalho,
trabalho...
DESGRAÇADO 4: E tenho dois minutos de descanso?
Nunca vi o sol, não tomei leite condensado, não canto na
rua, esqueci do sentar, quando chega a hora de
descansar, fico pensando na hora de trabalhar! Chega!
 
SLIDE: Quem canta seus males espanta.
 
DESGRAÇADO 1: (cantando) A paga vem depois que a
gente morre! Você vira um anjo todo branco, rindo
sempre da brancura, bebe leite em teta de nuvem, não
tem mais fome, não tem saudade, pinta o céu de cor de
felicidade!
(Peças do CPC, 2016. Adaptado.)
 
Considerado no contexto, cons�tui exemplo de
eufemismo o verbo sublinhado no trecho
a) “fizemos os canhões que vão nos apontar”.
b) “não conhecemos a espuma do mar”.
c) “Ninguém sabe nosso nome”.
d) “A paga vem depois que a gente morre”.
e) “fizemos a Bas�lha onde fomos morar”.
IT0950 - (Fuvest)
Capítulo CVII
Bilhete
“Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa;
está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez
somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo,
carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que
vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela,
por ora, muita cautela.”
 
24@professorferretto @prof_ferretto
Capítulo CVIII
Que se não entende
Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de
Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em
partes, machucado das mãos, era um documento de
análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro,
nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu �rar ao
leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a
perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à
pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a
raiva dissimulada, o desespero que se constrange e
medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no
sangue, ou nas lágrimas?
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
 
Os seguintes aspectos composi�vos considerados pelo
narrador do excerto: concentração e economia de meios
expressivos, orientação realista e analí�ca, previsão do
papel do leitor na construção do sen�do do texto,
suprindo o que, neste, é implícito ou lacunar, podem
também caracterizar, principalmente, a obra
a) Viagens na minha terra, de Almeida Garre�.
b) Memórias de um sargento de milícias, de Manuel
Antônio de Almeida.
c) Til, de José de Alencar.
d) Vidas secas, de Graciliano Ramos.
e) Capitães da Areia, de Jorge Amado.
IT0959 - (Unesp)
Leia o fragmento de um texto publicado em 1867 no
semanário Cabrião.
 
São Paulo, 10 de março de 1867.
 
Estamos em plena quaresma.
A população paulista azafama-se a preparar-se para a
lavagem geral das consciências nas águas lustrais do
confessionário e do jejum.
A cambuquira* e o bacalhau afidalgam-se no
mercado.
A carne, mísera condenada pelos santos concílios, fica
reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da
população, e desce quase a zero na pauta dos preços.
O que não sobe nem desce na escala dos fatos
normais é a vilania, a usura, o egoísmo, a esta�s�ca dos
crimes e o montão de fatos vergonhosos, perversos, ruins
e feios que precedem todas as contrições oficiais do
confessionário, e que depois delas con�nuam com
imperturbável regularidade.
É o caso de desejar-se mais obras e menos palavras.
E se não, de que é que serve o jejum, as macerações,
o arrependimento, a contrição e quejandas
religiosidades?
O que é a religião sem o aperfeiçoamento moral da
consciência?
O que vale a perturbação das funções gastronômicas
do estômago sem consciência livre, ilustrada, honesta e
virtuosa?
Seja como for, o fato é que a quaresma toma as
rédeas do governo social, e tudo entristece, e tudo esfria
com o exercício de seus mís�cos preceitos de silêncio e
meditação.
De que é que vale a meditação por o�cio, a meditação
hipócrita e obrigada, que consiste unicamente na
aparência?
Pois o que é que cons�tui a virtude? É a forma ou é o
fundo? É a intenção do ato, ou sua feição ostensiva?
Neste sen�do, aconselhamos aos bons leitores que
comutem sem o menor escrúpulo os jejuns, as confissões
e rezas em boas e santas ações, em esmolas aos pobres.
(Ângelo Agos�ni, Américo de Campos e Antônio Manoel
dos Reis. Cabrião, 10.03.1867. Adaptado.)
 
* Iguaria cons�tuída de brotos de abóbora guiados,
geralmente servida como acompanhamento de assados.
 
[...] fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos
da “população.
 
Na expressão dentes acatólicos, a palavra “dentes” é
empregada em lugar de “pessoas”, segundo uma relação
semân�ca de
a) símbolo pela coisa significada.
b) parte pelo todo.
c) con�nente pelo conteúdo.
d) causa pelo efeito.
e) todo pela parte.
25@professorferretto @prof_ferrettocom a
existência da comborça; mas, afinal, resignara-se,
acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
ASSIS, M. et al. Missa do galo: variações sobre o mesmo
tema. São Paulo: Summus, 1977 (fragmento).
 
No fragmento desse conto de Machado de Assis, “ir ao
teatro" significa "ir encontrar-se com o amante". O uso
do eufemismo como estratégia argumenta�va significa 
a) exagerar quanto ao desejo em “ir ao teatro”. 
b) personificar a pron�dão em "ir ao teatro". 
c) esclarecer o valor denota�vo de “ir ao teatro”. 
d) reforçar compromisso com o casamento. 
e) suavizar uma transgressão matrimonial. 
IT0107 - (Enem)
Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da
atualidade, é autor de "Bicho urbano", poema sobre a
sua relação com as pequenas e grandes cidades.
 
Bicho urbano
Se disser que prefiro morar em Pirapemas 
ou em outra qualquer pequena cidade do país
estou men�ndo
ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada.
 
A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições 
me assusta quase tanto quanto 
esse abismo
de gases e de estrelas 
aberto sob minha cabeça.
(GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1991)
 
Embora não opte por viver numa pequena cidade, o
poeta reconhece elementos de valor no co�diano das
pequenas comunidades. Para expressar a relação do
homem com alguns desses elementos, ele recorre à
sinestesia, construção de linguagem em que se mesclam
impressões sensoriais diversas. Assinale a opção em que
se observa esse recurso. 
a) "e o pão preserve aquele branco / sabor de
alvorada." 
b) “ainda que lá se possa de manhã / lavar o rosto no
orvalho” 
c) "A natureza me assusta. / Com seus matos sombrios
suas águas" 
d) "suas aves que são como aparições / me assusta quase
tanto quanto" 
e) "me assusta quase tanto quanto / esse abismo/ de
gases e de estrelas" 
IT0100 - (Enem)
Oximoro, ou paradoxismo, é uma figura de retórica em
que se combinam palavras de sen�do oposto que
parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto,
reforçam a expressão.
Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.
 
Considerando a definição apresentada, o fragmento
poé�co da obra Cantares, de Hilda Hilst, publicada em
2004, em que pode ser encontrada a referida figura de
retórica é: 
4@professorferretto @prof_ferretto
a) “Dos dois contemplo
rigor e fixidez.
Passado e sen�mento
me contemplam” (p. 91). 
b) “De sol e lua
De fogo e vento
Te enlaço” (p. 101). 
c) “Areia, vou sorvendo
A água do teu rio” (p. 93). 
d) Ritualiza a matança
de quem só te deu vida.
E me deixa viver
nessa que morre” (p. 62). 
e) “O bisturi e o verso.
Dois instrumentos
entre as minhas mãos” (p. 95). 
IT0121 - (Efomm)
Passeio à Infância
 
 Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos
dois pequenos carás dourados. E como faz calor, veja, os
lagos�ns saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer
ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol
dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas
redondas para a�radeira, porque é urgente subir no
morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É
janeiro, grande mês de janeiro!
 Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado
do morro e descer escorregando no capim até a beira do
açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e,
como o carnaval é só no mês que vem, vamos apanhar
taba�nga para fazer formas de máscaras. Ou então
vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um
pé de saboneteira.
 Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher
estranha, numa simples menina de pernas magras e
vamos passear nessa infância de uma terra longe. É
verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?
 Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe
ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma
forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la
assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras...
Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de
pitangueiras junto à praia. Iremos catar conchas cor-de-
rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo
para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três
horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejando de
sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu
lhe vou aipim ainda quente com melado. Talvez você
fosse como aquela menina rica, de fora, que achou
horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.
 Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na
sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas.
Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e
de repente dar um galope na correnteza, passando rente
às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou
nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar
olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os
outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de
assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado
com os soldados de canoa dando �ros, e havia uma
mulher do outro lado do rio gritando.
 Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-
la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez
vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro
de muitas meninas. Tinha uma que para mim uma
adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga.
Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora
venho conhecer, homem maduro. Homem maduro, ido e
vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus
olhos eram outra vez daquele menino feio do segundo
ano primário que quase não �nha coragem de olhar a
menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.
 Adoração de infância. Ao menos você conhece um
passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo:
imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um
menino que só �vesse visto coleiros e curiós, ou pobres
cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota
infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que
pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a
onda clara, junto da pedra.
 Ardente da mais pura paixão de beleza é a
adoração da infância. Na minha adolescência você seria
uma tortura. Quero levá-la para a meninice. Bem pouca
coisa eu sei; uma vez na fazenda rira: ele não sabe nem
passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são
pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas,
e você é tão bela e estranha! Inu�lmente tento convertê-
la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um
pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
 Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra
grande! Na adolescência e torturaria; mas sou um
homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando
de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um
cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol,
na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi
um silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto
dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com
remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse
demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de
homem.
Julho, 1945
 
Crônica extraída do livro 200 crônicas escolhidas, de
Rubem Braga
 
A opção em que o fragmento apresenta sen�do figurado
é: 
5@professorferretto @prof_ferretto
a) Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos
dois pequenos carás dourados. 
b) Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? 
c) Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. 
d) Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os
soldados de canoa dando �ros (...). 
e) Ah, paixão de infância, paixão que não amarga. 
IT0119 - (Efomm)
Meu ideal seria escrever...
Rubem Braga
 
 Meu ideal seria escrever uma história tão
engraçada que aquela moça que está doente naquela
casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse,
risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – "ai meu
Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse
para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas
para contar a história; e todos a quem ela contasse
rissem muitoe ficassem alegremente espantados de vê-
la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio
de sol, irresis�velmente louro, quente, vivo, em sua vida
de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma
ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois
repe�sse para si própria – "mas essa história é mesmo
muito engraçada!".
 Que um casal que es�vesse em casa mal-
humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher,
a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal
também fosse a�ngido pela minha história. O marido a
leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da
mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade,
tomasse conhecimento da história, ela também risse
muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para
cara do outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele
riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro,
e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem
juntos.
 Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas
de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de
graça, tão irresis�vel, tão colorida e tão pura que todos
limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o
comissário do distrito, depois de ler minha história,
mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas
pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse –
"por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de
prender ninguém!" E que assim todos tratassem melhor
seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes
em alegre e espontânea homenagem à minha história.
 E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e
fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um
persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um
japonês em Chicago – mas que em todas as línguas ela
guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto
surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China,
um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho
dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e
tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até
hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido
inventada por nenhum homem, foi com certeza algum
anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que
dormia, e que ele pensou que já es�vesse morto; sim,
deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até
nosso conhecimento; é divina."
 E quando todos me perguntassem – "mas de onde
é que você �rou essa história?" – eu responderia que ela
não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um
desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que
por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um
sujeito contar uma história..."
 E eu esconderia completamente a humilde
verdade: que eu inventei toda a minha história em um só
segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que
está doente, que sempre está doente e sempre está de
luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu
bairro.
Fonte: As cem melhores crônicas brasileiras/ Joaquim
Ferreira dos Santos, organização e introdução. - Rio de
Janeiro: Obje�va, 2007.
 
Com base no texto, responda à questão que se segue. 
 
O cronista emprega a linguagem conota�va em vários
momentos da narra�va. Assinale a alterna�va em que
isso NÃO ocorre. 
a) [...] que todos limpassem seu coração com lágrimas de
alegria [...]. 
b) [...] que esse casal também fosse a�ngido pela minha
história [...]. 
c) – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua
frescura [...]. 
d) [...] um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho
dissesse [...]. 
e) Ah, que minha história fosse como um raio de sol,
irresis�velmente louro, quente, vivo, em sua vida de
moça reclusa, enlutada, doente. 
IT0099 - (Enem)
6@professorferretto @prof_ferretto
 
O efeito de sen�do da charge é provocado pela
combinação de informações visuais e recursos
linguís�cos. No contexto da ilustração, a frase proferida
recorre à
a) polissemia, ou seja, aos múl�plos sen�dos da
expressão “rede social” para transmi�r a ideia que
pretende veicular. 
b) ironia para conferir um novo significado ao termo
“outra coisa”. 
c) homonímia para opor, a par�r do advérbio de lugar, o
espaço da população pobre e o espaço da população
rica. 
d) personificação para opor o mundo real pobre ao
mundo virtual rico. 
e) antonímia para comparar a rede mundial de
computadores com a rede caseira de descanso da
família. 
IT0101 - (Enem)
Canção do vento e da minha vida
 
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
 
[...]
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
 
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro:
José Aguilar, 1967. 
 
Na estruturação do texto, destaca-se 
a) a construção de oposições semân�cas. 
b) a apresentação de ideias de forma obje�va. 
c) o emprego recorrente de figuras de linguagem, como o
eufemismo. 
d) a repe�ção de sons e de construções sintá�cas
semelhantes. 
e) a inversão da ordem sintá�ca das palavras. 
IT0104 - (Enem)
Entre os recursos expressivos empregados no texto,
destaca-se a 
a) metalinguagem, que consiste em fazer a linguagem
referir-se à própria linguagem. 
b) intertextualidade, na qual o texto retoma e reelabora
outros textos. 
c) ironia, que consiste em se dizer o contrário do que se
pensa, com intenção crí�ca. 
d) denotação, caracterizada pelo uso das palavras em seu
sen�do próprio e obje�vo. 
e) prosopopeia, que consiste em personificar coisas
inanimadas, atribuindo-lhes vida. 
IT0120 - (Efomm)
Um caso de burro
Machado de Assis
 
7@professorferretto @prof_ferretto
 Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi
uma coisa tão interessante, que determinei logo de
começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento
de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que
eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e
porventura torpe. Releve a importância; os gostos não
são iguais.
 Entre a grade do jardim da Praça Quinze de
Novembro e o lugar onde era o an�go passadiço, ao pé
dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar
não era próprio para remanso de burros, donde concluí
que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois,
vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a
cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os
olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando.
O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente, que parecia
estar próximo do fim.
 Diante do animal havia algum capim espalhado e
uma lata com água. Logo, não foi abandonado
inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem
quer que seja que o deixou na praça, com essa úl�ma
refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é
homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui
um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem
bebeu da água; estava já para outros capins e outras
águas, em campos mais largos e eternos. Meia dúzia de
curiosos �nha parado ao pé do animal. Um deles, menino
de dez anos, empunhava uma vara, e se não sen�a o
desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo,
então eu não sei conhecer meninos, porque ele não
estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da
anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto
ali es�ve, que foram poucos minutos. Esses poucos
minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há
jus�ça na Terra valerão por um século, tal foi a
descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo
recomendada aos estudiosos.
 O que me pareceu, é que o burro fazia exame de
consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à
água, �nha no olhar a expressão dos medita�vos. Era um
trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por
pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal
entendido dos que a princípio o viram; o pensamentonão é a causa da morte, a morte é que o torna
necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há
dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o
exame da consciência daquele burro, é o que presumo
ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro
Champollion, porventura maior; não decifrei palavras
escritas, mas ideias ín�mas de criatura que não podia
exprimi-las verbalmente.
 E diria o burro consigo:
 “Por mais que vasculhe a consciência, não acho
pecado que mereça remorso. Não furtei, não men�, não
matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em
toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso
mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de
saber o des�no do verdadeiro burro, que é apanhar e
calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem.
Ul�mamente é que percebi que me não entendiam, e
con�nuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia
de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão.
Quando passei do �lburi ao bonde, houve algumas vezes
homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a
culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na
fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”
 “Passando à ordem mais elevada de ações, não
acho em mim a menor lembrança de haver pensado
sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a
minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me
diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os
direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum
golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa
os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma
forma de governo, teve em conta os interesses da minha
espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau
é a minha ins�tuição um pouco temperada pela teima
que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não
teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo
de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis
nem chuvas; bastava sen�r o freguês no �lburi ou o apito
do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz;
vejamos os bens que pra�quei.”
 “A mais de uma aventura amorosa terei servido,
levando depressa o �lburi e o namorado à casa da
namorada – ou simplesmente empacando em lugar onde
o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava
na janela. Não poucos devedores terei conduzido para
longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita
gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e
na quietação dos sen�dos. Quando algum homem,
desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos,
fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem
tapas e punhadas na cara. Em fim…”
 Não percebi o resto, e fui andando, não menos
alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não
podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom
pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos
os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me
ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do
que esse. Por que se não inves�gará mais profundamente
o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é
superior ao homem, e da formiga também,
cole�vamente falando, isto é, que as suas ins�tuições
polí�cas são superiores às nossas, mais racionais. Por que
não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?
 Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de
Novembro, achei o animal já morto.
 Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver,
espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é
curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem
nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem
8@professorferretto @prof_ferretto
exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não
inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já
é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.
 
Observando os recursos es�lís�cos empregados no texto,
há eufemismo em: 
a) “O burro não comeu do capim, nem bebeu da água;
estava já para outros capins e outras águas, em
campos mais largos e eternos”. 
b) “O que me pareceu, é que o burro fazia exame de
consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e
à água, �nha no olhar a expressão dos medita�vos.” 
c) “[...] por pensar morreu um burro mostra que o
fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o
viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte
é que o torna necessário.” 
d) “Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver,
espetáculo repugnante; mas a infância, corno a
ciência, é curiosa sem asco.” 
e) “[...] força é dizer que, se ele não inventou a pólvora,
também não inventou a dinamite.” 
IT0118 - (Efomm)
Direito e avesso
Rachel de Queiroz
 
 Conheci uma moça que escondia como um crime
certa feia cicatriz de queimadura que �nha no corpo. De
pequena a mãe lhe ensinara a ocultar aquela marca de
fogo e nem sei que impulso de desabafo levou-a a me
falar nela; e creio que logo se arrependeu, pois me
obrigou a jurar que jamais repe�ria a alguém o seu
segredo. Se agora o conto é porque a moça é morta e a
sua cicatriz já estará em nada, levada com o resto pelas
águas de março, que levam tudo.
 Lembrou-me isso ao escutar outra moça, também
vaidosa e bonita, que discorria perante várias pessoas a
respeito de uma deformação congênita que ela, moça,
tem no coração. Falava daquilo com mal disfarçado
orgulho, como se ter coração defeituoso fosse uma
dis�nção aristocrá�ca que se ganha de nascença e não
está ao alcance de qualquer um.
 E aí saí pensando em como as pessoas são
estranhas. Qualquer deformação, por mais mínima,
sendo em parte visível do nosso corpo, a gente a
combate, a disfarça, oculta como um vício feio. Este
senhor, por exemplo, que nos explica, abundantemente,
ser ví�ma de diver�culos (excrescências em forma de
apêndice que apareceram no seu duodeno), teria o
mesmo gosto em gabar-se da anomalia se em lugar dos
diver�culos �vesse lobinhos pendurados no nariz? Nunca
vi ninguém expor com orgulho a sua mão de seis dedos, a
sua orelha malformada; mas a má formação interna é
marca de originalidade, que se descreve aos outros com
evidente orgulho.
 Doença interna só se esconde por medo da morte
– isto é, por medo de que, a no�cia se espalhando,
chegue a morte mais depressa. Não sendo por isso, quem
tem um sopro no coração se gaba dele como de falar
japonês.
 Parece que o principal impedimento é o esté�co.
Pois se todos gostam de se dis�nguir da mul�dão, nem
que seja por uma anomalia, fazem ao mesmo tempo
questão de que essa anomalia não seja visivelmente
deformante. Ter o coração do lado direito é uma glória,
mas um braço menor que o outro é uma tragédia.
Alguém com os dois olhos límpidos pode gostar
de épateruma roda de conversa, explicando que não
enxerga coisíssima nenhuma por um daqueles límpidos
olhos, e permi�ra mesmo que os circunstantes curiosos
lhe examinem o olho cego e constatem de perto que
realmente não se nota diferença nenhuma com o olho
são. Mas �vesse aquela pessoa o olho que não enxerga
coalhado pela gota-serena, jamais se referiria ao defeito
em público; e, caso o fizesse, por excentricidade de
temperamento sarcás�co ou masoquista, os
circunstantes bem-educados se sen�riam na obrigação
de desviar a vista e mudar de assunto.
 Mulheres discutem com prazer seus casos
ginecológicos; uma diz abertamente que já não tem um
ovário, outra, que o médico lhe diagnos�cou um útero
infan�l. Mas, se ela �vesse um pé infan�l, ou seios senis.
será que os declararia com a mesma complacência?
 An�gamente havia as doenças secretas, que só se
nomeavam em segredo ou sob pseudônimo. De um
�sico, por exemplo, se dizia que estava “fraco do peito”;
e talvez tal reserva nascesse do medo do contágio, que
todo mundo �nha. Mas dos malucos também se dizia
que “estavam nervosos” e do câncer ainda hoje se faz
mistério – e nem câncer e nem doidice pegam.
 Não somos todos mesmo muito estranhos?
Gostamos de ser diferentes – contanto que a diferença
não se veja. O bastante para chamar atenção, mas não
tanto que pareça feio.
 
Fonte: O melhor da crônicabrasileira,1/ Ferreira Guillar...
[et al.]. 5a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
 
Vocabulário:
épater: impressionar
 
Com base no texto, responda. 
 
O eufemismo como figura de linguagem se encontra na
opção: 
9@professorferretto @prof_ferretto
a) [...] uma moça que escondia como um crime certa feia
cicatriz de queimadura que �nha no corpo. 
b) Falava daquilo com mal disfarçado orgulho, como se
ter coração defeituoso fosse uma dis�nção
aristocrá�ca [...]. 
c) Este senhor, por exemplo, que nos explica,
abundantemente, ser ví�ma de diver�culos
(excrescências em forma de apêndice que apareceram
no seu duodeno). 
d) Não sendo por isso, quem tem um sopro no coração
se gaba dele como de falar japonês. 
e) De um �sico, por exemplo, se dizia que estava "fraco
do peito"; e talvez tal reserva nascesse do medo do
contágio, que todo mundo �nha. 
IT0117 - (Espcex)
Assinale a única alterna�va que contém a figura de
linguagem presente no trecho sublinha do: 
As armas e os barões assinalados, 
Que da ocidental praia lusitana, 
Por mares nunca dantes navegados, 
Passaram ainda além da Taprobana, 
a) metonímia 
b) eufemismo 
c) ironia 
d) anacoluto 
e) polissíndeto 
IT0114 - (Fuvest)
Capítulo CVII
Bilhete
 
“Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está
muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez
somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo,
carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que
vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela,
por ora, muita cautela.” 
 
Capítulo CVIII
Que se não entende
 
Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de
Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em
partes, machucado das mãos, era um documento de
análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro,
nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu �rar ao
leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a
perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à
pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a
raiva dissimulada, o desespero que se constrange e
medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no
sangue, ou nas lágrimas?
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 
 
Ao comentar o bilhete de Virgília, o narrador se vale,
principalmente, do seguinte recurso retórico: 
a) Hipérbato: transposição ou inversão da ordem natural
das palavras de uma oração, para efeito es�lís�co. 
b) Hipérbole: ênfase expressiva resultante do exagero da
significação linguís�ca. 
c) Preterição: figura pela qual se finge não querer falar de
coisas sobre as quais se está, todavia, falando. 
d) Sinédoque: figura que consiste em tomar a parte pelo
todo, o todo pela parte; o gênero pela espécie, a
espécie pelo gênero; o singular pelo plural, o plural
pelo singular etc. 
e) Eufemismo: palavra, locução ou acepção mais
agradável, empregada em lugar de outra menos
agradável ou grosseira. 
IT0113 - (Fuvest)
CAPÍTULO LIII
Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela
estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha
vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era
verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras
são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou
com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era
a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques.
Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse
crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,
abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem
chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha,
– trêmula de medo, porque era ao portão da chácara.
Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião,
ardente como o amor, 1prólogo de uma vida de delícias,
de terrores, de remorsos, de 2prazeres que rematavam
em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, –
uma 3hipocrisia paciente e sistemá�ca, único freio de
uma 4paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de
desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e
de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como
tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o
resto do resto, que é o fas�o e a saciedade: tal foi o 5livro
daquele prólogo.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
 
Dentre os recursos expressivos empregados no texto,
tem papel preponderante a 
10@professorferretto @prof_ferretto
a) metonímia (uso de uma palavra fora do seu contexto
semân�co normal, com base na relação de
con�guidade existente entre ela e o referente). 
b) hipérbole (ênfase expressiva resultante do exagero da
significação linguís�ca). 
c) alegoria (sequência de metáforas logicamente
ordenadas). 
d) sinestesia (associação de palavras ou expressões em
que ocorre combinação de sensações diferentes numa
só impressão). 
e) prosopopeia (atribuição de sen�mentos humanos ou
de palavras a seres inanimados ou a animais). 
IT0115 - (Unicamp)
Leia o poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa.
 
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
 
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Disponível em
h�p://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso03.html.)
 
No poema, a apóstrofe, uma figura de linguagem, indica
que o enunciador 
a) convoca o mar a refle�r sobre a história das
navegações portuguesas. 
b) apresenta o mar como responsável pelo sofrimento do
povo português. 
c) revela ao mar sua crí�ca às ações portuguesas no
período das navegações. 
d) projeta no mar sua tristeza com as consequências das
conquistas de Portugal. 
IT0097 - (Enem)
O pavão vermelho
 
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
 
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
 
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
 
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
COSTA, S. Poesia completa: Sosígenes Costa. Salvador:
Conselho Estadual de Cultura. 2001.
 
Na construção do soneto, as cores representam um
recurso poé�co que configura uma imagem com a qual o
eu lírico 
a) revela a intenção de isolar-se em seu espaço. 
b) simboliza a beleza e o esplendor da natureza. 
c) experimenta a fusão de percepções sensoriais. 
d) metaforiza a conquista de sua plena realização. 
e) expressa uma visão de mundo mís�ca e
espiritualizada. 
IT0111 - (Fuvest)
A certa personagem desvanecida
 
Um soneto começo em vosso gabo*:
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quarte�nho está no cabo.
 
Na quinta torce agora a porca o rabo;
A sexta vá também desta maneira:
Na sé�ma entro já com grã** canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.
 
Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós, Senhor, a mim me honrais
Gabando-vos a vós, e eu fico um rei.
 
Nesta vida um soneto já ditei;
Se desta agora escapo, nunca mais:
Louvado seja Deus, que o acabei.
Gregório de Matos
 
*louvor **grande
 
Tipo zero
 
Você é um �po que não tem �po
11@professorferretto @prof_ferretto
Com todo �po você se parece
E sendo um �po que assimila tanto �po
Passou a ser um �po que ninguém esquece
 
Quando você penetra num salão
E se mistura com a mul�dão
Você se torna um �po destacado
Desconfiado todo mundo fica
Que o seu �po não se classifica
Você passa a ser um �po desclassificado
 
Eu até hoje nunca vi nenhum
Tipo vulgar tão fora do comum
Que fosse um �po tão observado
Você ficou agora convencido
Que o seu �po já está ba�do
Mas o seu �po é o �po do �po esgotado
Noel Rosa
 
O soneto de Gregório de Matos e o samba de Noel Rosa,embora distantes na forma e no tempo, aproximam-se
por ironizarem 
a) o processo de composição do texto. 
b) a própria inferioridade ante o retratado. 
c) a singularidade de um caráter nulo. 
d) o sublime que se oculta na vulgaridade. 
e) a intolerância para com os gênios. 
IT0116 - (Espcex)
Assinale a alterna�va que apresenta a figura de
linguagem anacoluto. 
a) Eu não me importa a desonra do mundo. 
b) Passarinho, desis� de ter. 
c) O que não tenho e desejo é que melhor me
enriquece. 
d) De todas, porém, a que me ca�vou logo foi uma...
uma... não sei se digo. 
e) E espero tenha sido a úl�ma. 
IT0557 - (Enem PPL)
Em sua conversa com o pai, Calvin busca persuadi-lo,
recorrendo à estratégia argumenta�va de
a) mostrar que um bom trabalho como pai implica a
valorização por parte do filho.
b) apelar para a necessidade que o pai demonstra de ser
bem-visto pela família.
c) explorar a preocupação do pai com a própria imagem
e popularidade.
d) atribuir seu ponto de vista a terceiros para respaldar
suas intenções.
e) gerar um conflito entre a solicitação da mãe e os
interesses do pai.
IT0574 - (Enem PPL)
Ocorre que a grande obra nunca é apenas a tradução
do engenho e arte do seu autor, seja este escritor,
filósofo, cien�sta, pintor, músico, arquiteto, escultor,
cineasta. Em geral, a grande obra é também, ou mesmo
principalmente, a expressão do clima sociocultural,
intelectual, cien�fico, filosófico e ar�s�co da época,
conforme se expressa em alguma cole�vidade, grupo
social, etnia, gênero ou povo.
IANNI, O. Variações sobre arte e ciência. Tempo Social, n.
1, jun. 2004.
 
O fragmento define o que é uma grande obra de arte.
Como estratégia de construção do texto, o autor faz uso
recorrente de
a) enumerações para sustentar o ponto de vista
apresentado.
b) repe�ções para re�ficar as caracterís�cas do objeto
descrito.
c) generalizações para sinte�zar as ideias expostas.
d) adje�vações para descrever a obra caracterizada.
e) sinonímias para retomar as caracterís�cas da a�vidade
autoral.
IT0582 - (Enem PPL)
Gaetaninho
Ali na Rua do Oriente a ralé quando muito andava de
bonde. De automóvel ou de carro só mesmo em dia de
enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o
sonho de Gaetaninho era de realização muito di�cil. Um
sonho. [...]
— Traga a bola! Gaetaninho saiu correndo.
Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e
matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a no�cia na noite.
— Sabe o Gaetaninho?
— Que é que tem?
— Amassou o bonde!
12@professorferretto @prof_ferretto
A vizinhança limpou com benzina suas roupas
domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da
Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum
dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro
de um caixão fechado com flores pobres por cima. Ves�a
a roupa marinheira, �nha as ligas, mas não levava a
palhe�nha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim
exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente
era o Beppino.
MACHADO, A. A. Brás, Bexiga e Barra Funda: no�cias de
São Paulo. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Vila Rica, 1994.
 
Situada no contexto da modernização da cidade de São
Paulo na década de 1920, a narra�va u�liza recursos
expressivos inovadores, como
a) o registro informal da linguagem e o emprego de
frases curtas.
b) o apelo ao modelo cinematográfico com base em
imagens desconexas.
c) a representação de elementos urbanos e a prevalência
do discurso direto.
d) a encenação crua da morte em contraponto ao tom
respeitoso do discurso.
e) a percepção irônica da vida assinalada pelo uso
reiterado de exclamações.
IT0605 - (Enem PPL)
Acho que educar é como catar piolho na cabeça de
criança.
É preciso ter confiança, perseverança e um certo
despojamento.
É preciso, também, conquistar a confiança de quem se
quer educar, para fazê-lo deitar no colo e ouvir histórias.
MUNDURUKU, D. Disponível em:
h�p://caravanamekukradja.blogspot.com.br.
Acesso em: 5 dez. 2012.
 
Concorrem para a estruturação e para a progressão das
ideias no texto os seguintes recursos:
a) Comparação e enumeração.
b) Hiperonímia e antonímia.
c) Argumentação e citação.
d) Narração e retomada.
e) Pontuação e hipérbole.
IT0609 - (Enem PPL)
Pra onde vai essa estrada?
— Sô Augusto, pra onde vai essa estrada?
O senhor Augusto:
— Eu moro aqui há 30 anos, ela nunca foi pra parte
nenhuma, não.
— Sô Augusto, eu estou dizendo se a gente for
andando aonde a gente vai?
O senhor Augusto:
— Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau.
 
Vocabulário
Vau: Lugar do rio ou outra porção de água onde esta é
pouco funda e, por isso, pode ser transposta a pé ou a
cavalo.
MAGALHÃES, L. L. A.; MACHADO, R. H. A. (Org.). Perdizes,
suas histórias, sua gente, seu folclore. Perdizes: Prefeitura
Municipal, 2005.
 
As anedotas são narra�vas, reais ou inventadas,
estruturadas com a finalidade de provocar o riso. O
recurso expressivo que configura esse texto como uma
anedota é o(a)
a) uso repe��vo da negação.
b) grafia do termo “Oropas”.
c) ambiguidade do verbo “ir”.
d) ironia das duas perguntas.
e) emprego de palavras coloquiais.
IT0701 - (Enem PPL)
A tendência dos nomes
O nome é uma das primeiras coisas que não
escolhemos na vida. Estará inscrito nos registros: na
maternidade, no RG, no CPF, no obituário etc. Enfim, uma
escolha que não fizemos nos acompanha do berço ao
túmulo, pois na lápide se dirá que ali jaz Fulano de Tal.
SILVA, D. Língua, n. 77, mar. 2012.
 
Algumas palavras atuam no desenvolvimento de um
texto contribuindo para a sua progressão. A palavra
“enfim” promove o encadeamento do texto, tendo sido
u�lizada com a intenção de
a) explicar que os nomes das pessoas são escolhidos no
nascimento.
b) ra�ficar que os nomes registrados no nascimento são
imutáveis.
c) reiterar que os nomes recebidos são importantes até a
morte.
d) concluir que os nomes acompanham os indivíduos até
a morte.
e) acrescentar que ninguém pode escolher o próprio
nome.
IT0653 - (Enem PPL)
13@professorferretto @prof_ferretto
E: Diva ... tem algumas ... alguma experiência pessoal
que você passou e que você poderia me contar ... alguma
coisa que marcou você? Uma experiência ... você poderia
contar agora ...
I: É ... tem uma que eu vivi quando eu estudava o
terceiro ano cien�fico lá no Atheneu ... né ... é:: eu
gostava muito do laboratório de química ... eu ... eu ia
ajudar os professores a limpar aquele material todo ...
aqueles vidros ... eu achava aquilo fantás�co ... aquele
monte de coisa ... né ... então ... todos os dias eu ia ...
quando terminavam as aulas eu ajudava o professor a
limpar o laboratório ... nesse dia não houve aula e o
professor me chamou pra fazer uma limpeza geral no
laboratório ... chegando lá ... ele me fez uma experiência
... ele me mostrou uma coisa bem interessante que ...
pegou um béquer com meio d’água e colocou um
pouquinho de cloreto de sódio pastoso ... então foi
aquele fogaréu desfilando ... aquele fogaréu ... quando o
professor saiu ... eu chamei umas duas colegas minhas
pra mostrar a experiência que eu �nha achado fantás�co
... só que ... eu achei o seguinte ... se o professor colocou
um pouquinho ... foi aquele desfile ... imagine se eu
colocasse mais ... peguei o mesmo béquer ... coloquei
uma colher ... uma colher de cloreto de sódio ... foi um
fogaréu tão grande ... foi uma explosão ... quebrou todo o
material que estava exposto em cima da mesa ... eu
branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse
morrer sabe ... quando ... o colégio inteiro correu pro
laboratório pra ver o que �nha sido ...
CUNHA, M. A. F. (Org.) . Corpus discurso & gramá�ca: a
língua falada e escrita na cidade de Natal. Natal: EdUFRN,
1998.
 
Na transcrição de fala, especialmente, no trecho “eu
branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse
morrer sabe...”, há uma estrutura sintá�ca fragmentada,
embora facilmente interpretável. Sua presença na fala
revela
a) distração e poucos anos de escolaridade.
b) falta de coesão e coerência na apresentaçãodas
ideias.
c) afeto e amizade entre os par�cipantes da conversação.
d) desconhecimento das regras de sintaxe da norma
padrão.
e) caracterís�ca do planejamento e execução simultânea
desse discurso.
IT0708 - (Fuvest)
Tempo de nos aquilombar
 
É tempo de caminhar em fingido silêncio,
e buscar o momento certo no grito,
aparentar fechar um olho evitando o cisco
e abrir escancaradamente o outro.
 
É tempo de fazer os ouvidos moucos
para os vazios lero-leros,
e cuidar dos passos assuntando as vias,
ir se vigiando atento, que o buraco é fundo.
 
É tempo de ninguém se soltar de ninguém,
mas olhar fundo na palma aberta
a alma de quem lhe oferece o gesto.
O laçar de mãos não pode ser algemas,
sim acertada tá�ca, necessário esquema.
 
É tempo de formar novos quilombos,
em qualquer lugar que estejamos
e que venham dias futuros, salve 2020
A mís�ca quilombola persiste afirmando:
"a liberdade é uma luta constante".
Conceição Evaristo. Jornal O Globo, 31/12/2019.
 
O verso "É tempo de formar novos quilombos" é um
exemplo de, 
a) paradoxo, na medida em que propõe retomar o
passado num contexto atual. 
b) metonímia, já que os quilombos fazem parte de um
novo contexto cultural, sem relação com o passado. 
c) metáfora, representando uma união cole�va como
forma de resistência social. 
d) an�tese, ao relacionar a noção de tempo passado a
uma nova configuração de futuro.
e) hipérbole, apresentando o termo "quilombos" no
plural para indicar o grau de difusão do movimento. 
IT0724 - (Fuvest)
No meme, a inadequação da resposta à questão está
baseada no efeito de sen�do proveniente da presença de
14@professorferretto @prof_ferretto
a) metáfora.
b) trocadilho.
c) sinédoque.
d) eufemismo.
e) comparação.
IT0770 - (Unesp)
Leia a crônica de Luís Fernando Veríssimo.
 
A invasão
A divisão ciência/humanismo se reflete na maneira
como as pessoas, hoje, encaram o computador. Resiste-
se ao computador, e a toda a cultura ciberné�ca, como
uma forma de ser fiel ao livro e à palavra impressa. Mas o
computador não eliminará o papel. Ao contrário do que
se pensava há alguns anos, o computador não salvará as
florestas. Aumentou o uso do papel em todo o mundo, e
não apenas porque a cada novidade eletrônica lançada
no mercado corresponde um manual de instrução, sem
falar numa embalagem de papelão e num embrulho para
presente. O computador es�mula as pessoas a
escreverem e imprimirem o que escrevem. Como hoje
qualquer um pode ser seu próprio editor, paginador e
ilustrador sem largar o mouse, a tentação de passar sua
obra para o papel é quase irresis�vel.
Desconfio que o que salvará o livro será o supérfluo, o
que não tem nada a ver com conteúdo ou conveniência.
Até que lancem computadores com cheiro sinte�zado,
nada subs�tuirá o cheiro de papel e �nta nas suas duas
categorias inimitáveis, livro novo e livro velho. E
nenhuma coleção de gravações ornamentará uma sala
com o calor e a dignidade de uma estante de livros. A
tudo que falta ao admirável mundo da informá�ca, da
ciberné�ca, do virtual e do instantâneo acrescente-se
isso: falta lombada. No fim, o livro deverá sua sobrevida à
decoração de interiores.
(O Estado de S.Paulo, 31.05.2015.)
 
Em “falta lombada” (2º parágrafo), o cronista se u�liza,
es�lis�camente, de uma figura de linguagem que
a) representa uma imagem exagerada do que se quer
exprimir.
b) se baseia numa analogia ou semelhança.
c) emprega a palavra que indica a parte pelo todo.
d) emprega a palavra que indica o todo pela parte.
e) se baseia na simultaneidade de impressões sensoriais.
IT0799 - (Unesp)
Leia o trecho do livro A dança do universo, do �sico
brasileiro Marcelo Gleiser.
 
Algumas pessoas tornam-se heróis contra sua própria
vontade. Mesmo que elas tenham ideias realmente (ou
potencialmente) revolucionárias, muitas vezes não as
reconhecem como tais, ou não acreditam no seu próprio
potencial. Divididas entre enfrentar sua insegurança
expondo suas ideias à opinião dos outros, ou manter-se
na defensiva, elas preferem a segunda opção. O mundo
está cheio de poemas e teorias escondidos no porão.
Copérnico é, talvez, o mais famoso desses relutantes
heróis da história da ciência. Ele foi o homem que
colocou o Sol de volta no centro do Universo, ao mesmo
tempo fazendo de tudo para que suas ideias não fossem
difundidas, possivelmente com medo de crí�cas ou
perseguição religiosa. Foi quem colocou o Sol de volta no
centro do Universo, mo�vado por razões erradas.
Insa�sfeito com a falha do modelo de Ptolomeu, que
aplicava o dogma platônico do movimento circular
uniforme aos corpos celestes, Copérnico propôs que o
equante fosse abandonado e que o Sol passasse a ocupar
o centro do cosmo. Ao tentar fazer com que o Universo
se adaptasse às ideias platônicas, ele retomou aos
pitagóricos, ressuscitando a doutrina do fogo central, que
levou ao modelo heliocêntrico de Aristarco dezoito
séculos antes.
Seu pensamento reflete o desejo de reformular as
ideias cosmológicas de seu tempo apenas para voltar
ainda mais no passado; Copérnico era, sem dúvida, um
revolucionário conservador. Ele jamais poderia ter
imaginado que, ao olhar para o passado, estaria criando
uma nova visão cósmica, que abriria novas portas para o
futuro. Tivesse vivido o suficiente para ver os frutos de
suas ideias, Copérnico decerto teria odiado a revolução
que involuntariamente causou.
Entre 1510 e 1514, compôs um pequeno trabalho
resumindo suas ideias, in�tulado Commentariolus
(Pequeno comentário). Embora na época fosse
rela�vamente fácil publicar um manuscrito, Copérnico
decidiu não publicar seu texto, enviando apenas algumas
cópias para uma audiência seleta. Ele acreditava
piamente no ideal pitagórico de discrição; apenas
aqueles que eram iniciados nas complicações da
matemá�ca aplicada à astronomia �nham permissão
para compar�lhar sua sabedoria. Certamente essa
posição eli�sta era muito peculiar, vinda de alguém que
fora educado durante anos dentro da tradição humanista
italiana. Será que Copérnico estava tentando sen�r o
clima intelectual da época, para ter uma ideia do quão
“perigosas” eram suas ideias? Será que ele não
acreditava muito nas suas próprias ideias e, portanto,
queria evitar qualquer �po de crí�ca? Ou será que ele
estava tão imerso nos ideais pitagóricos que realmente
não �nha o menor interesse em tornar populares suas
ideias? As razões que possam jus�ficar a a�tude de
Copérnico são, até hoje, um ponto de discussão entre os
especialistas.
(A dança do universo, 2006. Adaptado.)
15@professorferretto @prof_ferretto
 
Em “Copérnico era, sem dúvida, um revolucionário
conservador” (3º parágrafo), a expressão sublinhada
cons�tui um exemplo de
a) eufemismo.
b) pleonasmo.
c) hipérbole.
d) metonímia.
e) paradoxo.
IT0785 - (Unesp)
Leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987), publicada
originalmente em 1954.
 
Figura o anúncio em um jornal que o amigo me
mandou, e está assim redigido:
 
À procura de uma besta. — A par�r de 6 de outubro
do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-
escura com os seguintes caracterís�cos: calçada e
ferrada de todos os membros locomotores, um
pequeno quisto na base da orelha direita e crina
dividida em duas seções em consequência de um
golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis
cen�metros, produzido por jumento.
Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste
comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me
induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão
sido falhas todas as indagações.
Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer
entregue aqui ou pelo menos no�cia exata ministrar,
será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato
Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves
Júnior.
 
Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves
Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha
aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou
enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério
de Itambé. Mas teu anúncio con�nua um modelo no
gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto
de admiração literária.
Reparo antes de tudo na limpezade tua linguagem.
Não escreveste apressada e toscamente, como seria de
esperar de tua condição rural. Pressa, não a �veste, pois
o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de
novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes,
procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois
um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e
traçaste um belo e ní�do retrato da besta.
Não disseste que todos os seus cascos estavam
ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros
locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na
orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu
zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um
jumento.
Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste
comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal,
inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada.
Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me
induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que
não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a
evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental
e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia
formal.
Finalmente - deixando de lado outras excelências de
tua prosa ú�l - a declaração final: quem a apreender ou
pelo menos “no�cia exata ministrar”, será
“razoavelmente remunerado”. Não prometes
recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade
ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida
das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas
perdidas e entregues.
Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta,
meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação
volta a exis�r, porque soubeste descrevê-la com decoro e
propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e
alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados
da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais
perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há
essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa
moderação nem essa a�tude crí�ca. Não há, sobretudo,
esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até
mesmo num anúncio de besta sumida.
(Fala, amendoeira, 2012.)
 
Está empregado em sen�do figurado o termo destacado
no seguinte trecho:
a) “Formulaste depois um raciocínio: houve roubo.” (3º
parágrafo)
b) “Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem.”
(3º parágrafo)
c) “Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem.”
(3º parágrafo)
d) “Não disseste que todos os seus cascos estavam
ferrados;” (4º parágrafo)
e) “Não disseste que todos os seus cascos estavam
ferrados;” (4º parágrafo)
IT0850 - (Unesp)
Leia o trecho do drama Macário, de Álvares de Azevedo.
 
MACÁRIO (chega à janela): Ó mulher da casa! olá! ó de
casa!
UMA VOZ (de fora): Senhor!
16@professorferretto @prof_ferretto
MACÁRIO: Desate a mala de meu burro e tragam-ma
aqui...
A VOZ: O burro?
MACÁRIO: A mala, burro!
A VOZ: A mala com o burro?
MACÁRIO: Amarra a mala nas tuas costas e amarra o
burro na cerca.
A VOZ: O senhor é o moço que chegou primeiro?
MACÁRIO: Sim. Mas vai ver o burro.
A VOZ: Um moço que parece estudante?
MACÁRIO: Sim. Mas anda com a mala.
A VOZ: Mas como hei de ir buscar a mala? Quer que vá a
pé?
MACÁRIO: Esse diabo é doido! Vai a pé, ou monta numa
vassoura como tua mãe!
A VOZ: Descanse, moço. O burro há de aparecer. Quando
madrugar iremos procurar.
OUTRA VOZ: Havia de ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu
conheço o burro...
MACÁRIO: E minha mala?
A VOZ: Não vê? Está chovendo a potes!...
MACÁRIO (fecha a janela): Malditos! (a�ra com uma
cadeira no chão)
O DESCONHECIDO: Que tendes, companheiro?
MACÁRIO: Não vedes? O burro fugiu...
O DESCONHECIDO: Não será quebrando cadeiras que o
chamareis...
MACÁRIO: Porém a raiva... 
[...]
O DESCONHECIDO: A mala não pareceu-me muito cheia.
Sen� alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de
vinho?
MACÁRIO: Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma
perda imensa, irreparável... era o meu cachimbo...
O DESCONHECIDO: Fumais?
MACÁRIO: Perguntai de que serve o �nteiro sem �nta, a
viola sem cordas, o copo sem vinho, a noite sem mulher
– não me pergunteis se fumo!
O DESCONHECIDO (dá-lhe um cachimbo): Eis aí um
cachimbo primoroso. [...]
MACÁRIO: E vós?
O DESCONHECIDO: Não vos importeis comigo. (�ra outro
cachimbo e fuma)
MACÁRIO: Sois um perfeito companheiro de viagem.
Vosso nome?
O DESCONHECIDO: Perguntei-vos o vosso?
MACÁRIO: O caso é que é preciso que eu pergunte
primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou estudioso,
talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só:
amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres
e odeio o roman�smo.
O DESCONHECIDO: Tocai! Sois um digno rapaz. (apertam
a mão)
MACÁRIO: Gosto mais de uma garrafa de vinho que de
um poema, mais de um beijo que do soneto mais
harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhos, ao luar
sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente
insípido. Os passarinhos sabem só uma can�ga. O luar é
sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer
morrer de sono.
O DESCONHECIDO: E a poesia?
MACÁRIO: Enquanto era a moeda de ouro que corria só
pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou-se em
moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de
taverna que não tenha esse vintém azinhavrado¹.
Entendeis-me?
O DESCONHECIDO: Entendo. A poesia, de popular
tornou-se vulgar e comum. An�gamente faziam-na para o
povo; hoje o povo fá-la... para ninguém...
(Álvares de Azevedo. Macário/Noite na taverna, 2002.)
 
1 azinhavrado: coberto de azinhavre (camada de cor
verde que se forma na super�cie dos objetos de cobre ou
latão, resultante da corrosão destes quando expostos ao
ar úmido).
 
Observa-se expressão empregada em sen�do figurado na
seguinte fala:
a) “MACÁRIO: Não vedes? O burro fugiu...”
b) “A VOZ: Não vê? Está chovendo a potes!...”
c) “A VOZ: Descanse, moço. O burro há de aparecer.
Quando madrugar iremos procurar.”
d) “O DESCONHECIDO: Não será quebrando cadeiras que
o chamareis...”
e) “A VOZ: Mas como hei de ir buscar a mala? Quer que
vá a pé?”
IT0855 - (Unesp)
Leia o trecho inicial da crônica “Está aberta a sessão do
júri”, de Graciliano Ramos, publicada originalmente em
1943.
 
O Dr. França, Juiz de Direito numa cidadezinha
sertaneja, andava em meio século, �nha gravidade
imensa, verbo escasso, bigodes, colarinhos, sapatos e
ideias de pontas muito finas. Ves�a-se ordinariamente de
preto, exigia que todos na jus�ça procedessem da mesma
forma – e chegou a mandar re�rar-se do Tribunal um
jurado inconveniente, de roupa clara, ordenar-lhe que
voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a
decência do veredicto.
Não via, não sorria. Quando parava numa esquina, as
cavaqueiras dos vadios gelavam. Ao afastar-se, mexia as
pernas matema�camente, os passos mediam setenta
cen�metros, exatos, apesar de barrocas1 e degraus. À
espinha não se curvava, embora descesse ladeiras, as
mãos e os braços executavam os movimentos
indispensáveis, as duas rugas horizontais da testa não se
aprofundavam nem se desfaziam.
17@professorferretto @prof_ferretto
Na sua biblioteca digna e sábia, volumes bojudos,
tratados majestosos, severos na encadernação negra
semelhante à do proprietário, emper�gavam-se – e
nenhum ousava deitar-se, inclinar-se, quebrar o
alinhamento rigoroso.
Dr. França levantava-se às sete horas e recolhia-se à
meia-noite, fizesse frio ou calor, almoçava ao meio-dia e
jantava às cinco, ouvia missa aos domingos, comungava
de seis em seis meses, pagava o aluguel da casa no dia 30
ou no dia 31, entendia-se com a mulher, parcimonioso,
na linguagem usada nas sentenças, linguagem arrevesada
e arcaica das ordenações. Nunca julgou oportuno
modificar esses hábitos salutares.
Não amou nem odiou. Contudo exaltou a virtude,
emanação das existências calmas, e condenou o crime,
infeliz consequência da paixão.
Se atentássemos nas palavras emi�das por via oral,
poderíamos afirmar que o Dr. França não pensava. Vistos
os autos, etc., perceberíamos entretanto que ele pensava
com alguma frequência. Apenas o pensamento de Dr.
França não seguia a marcha dos pensamentos comuns.
Operava, se não nos enganamos, deste modo:
“considerando isto, considerando isso, considerandoaquilo, considerando ainda mais isto, considerando
porém aquilo, concluo.” Tudo se formulava em
obediência às regras – e era impossível qualquer desvio.
Dr. França possuía um espírito, sem dúvida, espírito
redigido com circunlóquios, dividido em capítulos, �tulos,
ar�gos e parágrafos. E o que se distanciava desses
parágrafos, ar�gos, �tulos e capítulos não o comovia,
porque Dr. França está livre dos tormentos da
imaginação.
(Graciliano Ramos. Viventes das Alagoas, 1976.)
 
1 barroca: monte de terra ou de barro.
 
O cronista recorre à personificação no seguinte trecho:
a) “Na sua biblioteca digna e sábia, volumes bojudos,
tratados majestosos, severos na encadernação negra
semelhante à do proprietário, emper�gavam-se – e
nenhum ousava deitar-se, inclinar-se, quebrar o
alinhamento rigoroso.” (3º parágrafo)
b) “A espinha não se curvava, embora descesse ladeiras,
as mãos e os braços executavam os movimentos
indispensáveis, as duas rugas horizontais da testa não
se aprofundavam nem se desfaziam.” (2º parágrafo)
c) “Ao afastar-se, mexia as pernas matema�camente, os
passos mediam setenta cen�metros, exatos, apesar de
barrocas e degraus.” (2º parágrafo)
d) “E o que se distanciava desses parágrafos, ar�gos,
�tulos e capítulos não o comovia, porque Dr. França
está livre dos tormentos da imaginação.” (7º
parágrafo)
e) “Ves�a-se ordinariamente de preto, exigia que todos
na jus�ça procedessem da mesma forma - e chegou a
mandar re�rar-se do Tribunal um jurado
inconveniente, de roupa clara, ordenar-lhe que
voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a
decência do veredicto.” (1º parágrafo)
IT0856 - (Unesp)
Leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do
escritor moçambicano Mia Couto (1955– ).
 
Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração
ba�a só de quando em enquantos. A mãe sabia que o
sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas
unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a
menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe,
então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até
que o peito da filha voltava a dar sinal:
– Mãe, venha ouvir: está a bater!
A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito
estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas,
presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o
sangue dela voltava a calar, resina empurrando a
arrastosa vida.
Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto.
Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não
eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas,
brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé
descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e
joelhou-se junto ao leito. Sen�u a transpiração,
reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na
fronte a menina despertou:
– Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar
pássaros.
A mãe sor�u-se de medo, aconchegou o lençol como
se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol
uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo
ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de
18@professorferretto @prof_ferretto
novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe
tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu
voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite,
na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, re�rou-
se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros
selou-se o segredo, só entre as duas.[...]
Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se
fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até
que essa imobilidade se prolongou por consecu�vas
demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais
dessa derradeiragem. Pois ela seguia pra�cando
vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta.
Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não
escutava os piares.
– Agora não sonha, filha?
– Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!
Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:
– Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a
saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu
sinal.
O médico corrigiu os óculos como se entendesse
rec�ficar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se
autorizar. E disse:
– Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu.
– Morta, a minha menina? Mas, assim...?
– Esta é a sua maneira de estar morta.
A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo.
Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo
seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro,
duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que
nem se nota a re�rada da vida? E o médico, lhe
amparando, já na porta:
– Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade.
A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando
danças, cantarolando canções que nem existem. Se
chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexis�sse. A
sua pele não desprendia calor.
– Então, minha querida não escutou nada?
Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou
recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas
nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e
adiante.
Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na
torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra
flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da
tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os
velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.
E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma
única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe
deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em
serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das
aves.
(Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.)
 
“E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em
pleno deserto.” (3º parágrafo)
 
No contexto do conto, “pingo de água” e “pleno deserto”
referem-se, metaforicamente,
a) à pulsação da filha e ao peito da filha,
respec�vamente.
b) à filha e à mãe, respec�vamente.
c) ao peito da filha e à pulsação da filha,
respec�vamente.
d) à orelha da mãe e ao peito da filha, respec�vamente.
e) à mãe e à filha, respec�vamente.
IT0858 - (Unesp)
Leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do
escritor moçambicano Mia Couto (1955– ).
 
Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração
ba�a só de quando em enquantos. A mãe sabia que o
sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas
unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a
menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe,
então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até
que o peito da filha voltava a dar sinal:
– Mãe, venha ouvir: está a bater!
A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito
estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas,
presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o
sangue dela voltava a calar, resina empurrando a
arrastosa vida.
Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto.
Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não
eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas,
brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé
descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e
joelhou-se junto ao leito. Sen�u a transpiração,
reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na
fronte a menina despertou:
– Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar
pássaros.
A mãe sor�u-se de medo, aconchegou o lençol como
se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol
uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo
ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de
novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe
tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu
voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite,
na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, re�rou-
se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros
selou-se o segredo, só entre as duas.[...]
Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se
fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até
que essa imobilidade se prolongou por consecu�vas
demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais
dessa derradeiragem. Pois ela seguia pra�cando
19@professorferretto @prof_ferretto
vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta.
Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe

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