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Figuras de Linguagem IT0103 - (Enem) O AÇÚCAR O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, [dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. (...) Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Ferreira Gullar. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 227-8. A an�tese que configura uma imagem da divisão social do trabalho na sociedade brasileira é expressa poe�camente na oposição entre a doçura do branco açúcar e a) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar. b) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca. c) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se produz o açúcar. d) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale. e) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras. IT0112 - (Fuvest) Sone�lho do falso Fernando Pessoa Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas há que não vi. Sem mim como sem � posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou sen�. Nem Fausto nem Mefisto, à deusa que se ri deste nosso oaristo*, eis-me a dizer: assisto além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto. Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma. *conversa ín�ma entre casais. Ulisses O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo - O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, 1@professorferretto @prof_ferretto Foi por não ser exis�ndo. Sem exis�r nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou. Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. Fernando Pessoa. Mensagem. O oxímoro é uma “figura em que se combinam palavras de sen�do oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão” (HOUAISS, 2001). No poema “Sone�lho do falso Fernando Pessoa”, o emprego dessa figura de linguagem ocorre em: a) “Onde morri, existo” (v. 2). b) “E das peles que visto / muitas há que não vi” (v. 3- 4). c) “Desisto / de tudo quanto é misto / e que odiei ou sen�” (v. 6-8). d) “à deusa que se ri / deste nosso oaristo” (v. 10-11). e) “mas não sou eu, nem isto” (v. 14). IT0110 - (Enem) Ao analisar as informações visuais e linguís�cas dessa charge, entende-se que ela cumpre a função de a) ironizar, de forma bem-humorada, o fracasso dos esforços governamentais no combate à pirataria. b) denunciar, de forma preconceituosa, o comportamento dos vendedores de programas piratas. c) divulgar, de forma revolucionária, os projetos governamentais para impedir a pirataria. d) apoiar, de forma explícita, os movimentos populares de apoio ao combate à pirataria. e) incen�var, de forma irônica, o comércio popular de programas de informá�ca. IT0102 - (Enem) Canção do vento e da minha vida O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. [...] O vento varria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De afetos e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo! E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De tudo. BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967. Predomina no texto a função da linguagem a) fá�ca, porque o autor procura testar o canal de comunicação. b) metalinguís�ca, porque há explicação do significado das expressões. c) cona�va, uma vez que o leitor é provocado a par�cipar de uma ação. d) referencial, já que são apresentadas informações sobre acontecimentos e fatos reais. e) poé�ca, pois chama-se a atenção para a elaboração especial e ar�s�ca da estrutura do texto. 2@professorferretto @prof_ferretto IT0106 - (Enem) OXÍMORO (ou PARADOXO) é uma construção textual que agrupa significados que se excluem mutuamente. Para Garfield, a frase de saudação de Jon (�rinha a seguir) expressa o maior de todos os oxímoros. Nas alterna�vas a seguir, estão transcritos versos re�rados do poema "O operário em construção". Pode-se afirmar que ocorre um oxímoro em a) "Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão." b) "... a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era sua escravidão." c) "Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De que sequer suspeitava." d) "... o operário faz a coisa E a coisa faz o operário." e) "Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão." (MORAES, Vinícius de. Antologia Poé�ca.São Paulo: Companhia das Letras, 1992.) IT0105 - (Enem) Nesta �rinha, a personagem faz referência a uma das mais conhecidas figuras de linguagem para a) condenar a prá�ca de exercícios �sicos. b) valorizar aspectos da vida moderna. c) deses�mular o uso das bicicletas. d) caracterizar o diálogo entre gerações. e) cri�car a falta de perspec�va do pai. IT0108 - (Enem) Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desa�na sem doer; É um não querer mais que bem querer; é solitário andar por entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? (Luís de Camões) O poema tem, como caracterís�ca, a figura de linguagem denominada an�tese, relação de oposição de palavras ou ideias. Assinale a opção em que essa oposição se faz claramente presente. a) "Amor é fogo que arde sem se ver." b) "É um contentamento descontente." c) "É servir a quem vence, o vencedor." d) "Mas como causar pode seu favor." e) "Se tão contrário a si é o mesmo Amor?" IT0098 - (Enem) Aquele bêbado — Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os indicadores. Acrescentou: — Álcool. O mais, ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou um pileque de Segall. Nos fins de semana embebedava- se de Índia Reclinada, de Celso Antônio. — Curou-se 100% de vício — comentavam os amigos. 3@professorferretto @prof_ferretto Só ele sabia que andava bêbado que nem um gambá. Morreu de e�lismo abstrato, no meio de uma carraspana de pôr do sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras coroas de ex-alcoólatras anônimos. ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1991. A causa mor�s do personagem, expressa no úl�mo parágrafo, adquire um efeito irônico no texto porque, ao longo da narra�va, ocorre uma a) metaforização do sen�do literal do verbo “beber”. b) aproximação exagerada da esté�ca abstracionista. c) apresentação grada�va da coloquialidade da linguagem. d) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras coroas”. e) citação aleatória de nomes de diferentes ar�stas. IT0109 - (Enem) Nunca �nha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, ves�a-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio,não escutava os piares. – Agora não sonha, filha? – Ai mãe, está tão escuro no meu sonho! Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade: – Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal. O médico corrigiu os óculos como se entendesse rec�ficar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse: – Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu. – Morta, a minha menina? Mas, assim...? – Esta é a sua maneira de estar morta. A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a re�rada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta: – Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade. A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexis�sse. A sua pele não desprendia calor. – Então, minha querida não escutou nada? Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante. Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito. E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves. (Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.) O narrador recorre a um enunciado aparentemente paradoxal no seguinte trecho: a) “Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama.” (21º parágrafo) b) “O médico corrigiu os óculos como se entendesse rec�ficar a própria visão.” (12º parágrafo) c) A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem.” (18º parágrafo) d) “Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito. (21º parágrafo) e) “A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor.” (4º parágrafo). IT0870 - (Unesp) Leia a crônica “Despedida”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente no Jornal do Brasil em 05.06.1971, e a resposta de Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), o Pelé, publicada no mesmo jornal em 29.06.1971. Pelé despede-se em julho da Seleção Brasileira. Decidiu, está decidido. Querem que ele con�nue, mas sua educação espor�va se dilata em educação moral, e Pelé dá muito apreço à sua palavra. Se atender aos apelos, ficará bem com todo o mundo e mal consigo. Pelé não quer brigar com Pelé. Não abandonará de todo o futebol, pois con�nuará jogando pelo seu clube. Não vejo contradição nisto. Faz como um grande proprietário de terras, que trocasse a fazenda pela miniatura de um sí�o: con�nua a ter águas, plantas, criação, a mesma luminosidade das horas – menos a imensidão, que acaba cansando. Ou como o leitor de muitos livros, que passasse a ler um só que contém o resumo de tudo. Pelé quer cul�var sua vida a seu gosto, ele que a vivia tanto ao gosto dos outros. Sua municipalização voluntária me encanta. Não é só pelo ato de sabedoria, que é sair antes que exijam a nossa saída. Uma a�tude destas indica mais cautela do que desprendimento. É pelo ato de escolha – de escolher o mais simples, envolvendo renúncia e gen�leza. As massas brasileiras e internacionais não poderão chamá-lo de ingrato, pois con�nuarão a vê-lo, aqui e no estrangeiro, em seu jogo de astúcia e arte. Mas ele passará a jogar como par�cular, um famoso incógnito, que não aspira às glórias de um quarto campeonato mundial. E com isso, dará lugar a outro, ou a outros, que por mais que caprichassem ficavam sempre um tanto encobertos pela sombra de Pelé – a sombra de que espontaneamente se desfaz. Bela jogada, a sua: a de não jogar como campeão, sendo campeoníssimo. (Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014.) Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu respeito, generosas ou menos boas, suas palavras 20@professorferretto @prof_ferretto �veram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser, demonstrando compreensão e carinho por essa condição fundamental. Recortei sua crônica, não porque fala de mim, mas porque traduz, no primor de seu es�lo, um apoio que me incen�va e me conforta. (Pelé apud Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014) No contexto da crônica, referem-se à Seleção Brasileira, em termos figurados, as seguintes expressões: a) “grande proprietário de terras" e “leitor de muitos livros”. b) “fazenda” e “imensidão”. c) “miniatura” e “resumo”. d) “fazenda” e “sí�o”. e) “miniatura” e “imensidão”. IT0872 - (Unesp) Leia a crônica “Despedida”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente no Jornal do Brasil em 05.06.1971, e a resposta de Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), o Pelé, publicada no mesmo jornal em 29.06.1971. Pelé despede-se em julho da Seleção Brasileira. Decidiu, está decidido. Querem que ele con�nue, mas sua educação espor�va se dilata em educação moral, e Pelé dá muito apreço à sua palavra. Se atender aos apelos, ficará bem com todo o mundo e mal consigo. Pelé não quer brigar com Pelé. Não abandonará de todo o futebol, pois con�nuará jogando pelo seu clube. Não vejo contradição nisto. Faz como um grande proprietário de terras, que trocasse a fazenda pela miniatura de um sí�o: con�nua a ter águas, plantas, criação, a mesma luminosidade das horas – menos a imensidão, que acaba cansando. Ou como o leitor de muitos livros, que passasse a ler um só que contém o resumo de tudo. Pelé quer cul�var sua vida a seu gosto, ele que a vivia tanto ao gosto dos outros. Sua municipalização voluntária me encanta. Não é só pelo ato de sabedoria, que é sair antes que exijam a nossa saída. Uma a�tude destas indica mais cautela do que desprendimento. É pelo ato de escolha – de escolher o mais simples, envolvendo renúncia e gen�leza. As massas brasileiras e internacionais não poderão chamá-lo de ingrato, pois con�nuarão a vê-lo, aqui e no estrangeiro, em seu jogo de astúcia e arte. Mas ele passará a jogar como par�cular, um famoso incógnito, que não aspira às glórias de um quarto campeonato mundial. E com isso, dará lugar a outro, ou a outros, que por mais que caprichassem ficavam sempre um tanto encobertos pela sombra de Pelé – a sombra de que espontaneamente se desfaz. Bela jogada, a sua: a de não jogar como campeão, sendo campeoníssimo. (Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014.) Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu respeito, generosas ou menos boas, suas palavras �veram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser, demonstrando compreensão e carinho por essa condição fundamental. Recortei sua crônica, não porque fala de mim, mas porque traduz, no primor de seu es�lo, um apoio que me incen�va e me conforta. (Pelé apud Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014) Do ponto de vista semân�co, opõem-se os termos que compõem a seguinte expressão: a) “famoso incógnito” (Drummond). b) “pessoa humana” (Pelé). c) “condição fundamental” (Pelé). d) “rara virtude”(Pelé). e) “educação moral” (Drummond). IT0873 - (Unesp) Examine a �rinha da cartunista Laerte. Na construção de sua �rinha, Laerte mobiliza fundamentalmente o seguinte recurso expressivo: 21@professorferretto @prof_ferretto a) hipérbole. b) redundância. c) ambiguidade. d) intertextualidade. e) eufemismo. IT0879 - (Unesp) Leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Olha, Marília, as flautas dos pastores, Que bem que soam, como estão cadentes! Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes Os Zéfiros1 brincar por entre as flores?Vê como ali, beijando-se, os Amores Incitam nossos ósculos2 ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, As vagas borboletas de mil cores! Naquele arbusto o rouxinol suspira; Ora nas folhas a abelhinha para. Ora nos ares, sussurrando, gira. Que alegre campo! Que manhã tão clara! Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, Mais tristeza que a noite me causara. (Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974.) 1 Zéfiro: vento que sopra do ocidente. 2 ósculo: beijo. Ao longo do soneto, o eu lírico recorre reiteradamente ao seguinte recurso retórico: a) metalinguagem. b) ironia. c) pleonasmo. d) personificação. e) an�tese. IT0816 - (Unesp) Examine o cartum de Sofia Warren, publicado em sua conta no Instagram em 09.03.2020. Contribuem para o efeito de humor do cartum os seguintes recursos expressivos: a) hipérbole e paradoxo. b) paradoxo e personificação. c) an�tese e pleonasmo. d) personificação e pleonasmo. e) ironia e hipérbole. IT0905 - (Unicamp) Em depoimento, Paulo Freire fala da necessidade de uma tarefa educa�va: “trabalhar no sen�do de ajudar os homens e as mulheres brasileiras a exercer o direito de poder estar de pé no chão, cavando o chão, fazendo com que o chão produza melhor é um direito e um dever nosso. A educação é uma das chaves para abrir essas portas. Eu nunca me esqueço de uma frase linda que eu ouvi de um educador, camponês de um grupo de Sem Terra: pela força do nosso trabalho, pela nossa luta, cortamos o arame farpado do la�fúndio e entramos nele, mas quando nele chegamos, vimos que havia outros arames farpados, como o arame da nossa ignorância. Então eu percebi que quanto mais inocentes, tanto melhor somos para os donos do mundo. (...) Eu acho que essa é uma tarefa que não é só polí�ca, mas também pedagógica. Não há Reforma Agrária sem isso.” (Adaptado de Roseli Salete Galdart, Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais que escola. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 172.) No excerto adaptado que você leu, há menção a outros arames farpados, como “o arame da nossa ignorância”. Trata-se de uma figura de linguagem para 22@professorferretto @prof_ferretto a) a conquista do direito às terras e à educação que são negadas a todos os trabalhadores. b) a obtenção da chave que abre as portas da educação a todos os brasileiros que não têm terras. c) a promoção de uma conquista da educação que tenha como base a propriedade fundiária. d) a descoberta de que a luta pela posse da terra pressupõe também a conquista da educação. IT0906 - (Unicamp) Assinale a alterna�va correta. a) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe quem inventou o avião?ˮ) remete-nos a Santos Dummont, portanto confirma o que se diz no primeiro e segundo quadrinhos. b) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe quem inventou o avião?ˮ) re�fica a afirmação do primeiro quadrinho (“Não há lei que o brasileiro não burle.ˮ). c) A afirmação do segundo quadrinho (“Há a lei da Gravidade.ˮ) refere-se a uma lei da �sica que nenhum brasileiro é capaz de burlar, como se admite no primeiro quadrinho. d) A pergunta lançada no úl�mo quadrinho (“Você sabe quem inventou o avião?ˮ) é retórica, já que não há uma resposta para ela nem no primeiro nem no segundo quadrinhos. IT0917 - (Unicamp) O brasileiro João Guimarães Rosa e o irlandês James Joyce são autores reverenciados pela inven�vidade de sua linguagem literária, em que abundam neologismos. Muitas vezes, por essa razão, Guimarães Rosa e Joyce são citados como exemplos de autores "pra�camente intraduzíveis". Mesmo sem ter lido os autores, é possível iden�ficar alguns dos seus neologismos, pois são baseados em processos de formação de palavras comuns ao português e ao inglês. Entre os recursos comuns aos neologismos de Guimarães Rosa e de James Joyce, estão: i. Onomatopeia (formação de uma palavra a par�r de uma reprodução aproximada de um som natural, u�lizando-se os recursos da língua); e ii. Derivação (formação de novas palavras pelo acréscimo de prefixos ou sufixos a palavras já existentes na língua). Os neologismos que aparecem nas opções abaixo foram extraídos de obras de Guimarães Rosa (GR) e James Joyce (JJ). Assinale a opção em que os processos (i) e (ii) estão presentes: a) Quinculinculim (GR, No Urubuquaquá, no Pinhém) e ta�arra�at (JJ, Ulisses). b) Transtrazer (GR, Grande sertão: veredas) e monoideal (JJ, Ulisses). c) Rtststr (JJ, Ulisses) e quinculinculim (GR, No Urubuquaquá, no Pinhém). d) Ta�arra�at (JJ, Ulisses) e inesquecer-se (GR, Ave, Palavra). IT0923 - (Unicamp) “A noção de programa gené�co (...) desempenhou um papel importante no lançamento do Projeto Genoma Humano, fazendo com que se acreditasse que a decifração de um genoma, à maneira de um livro com instruções de um longo programa, permi�ria decifrar ou compreender toda a natureza humana ou, no mínimo, o essencial dos mecanismos de ocorrência das doenças. Em suma, a fisiopatologia poderia ser reduzida à gené�ca, já que toda doença seria reduzida a um ou diversos erros de programação, isto é, à alteração de um ou diversos genes”. (Edgar Morin, A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Jornadas temá�cas idealizadas e dirigidas por Edgar Morin. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil Ltda, 2012, p. 157.) A expressão programa gené�co, mencionada no trecho anterior, é 23@professorferretto @prof_ferretto a) uma alegoria, pois sinte�za os mecanismos moleculares subjacentes ao funcionamento dos genes e dos cromossomos no contexto ficcional de um programa de computador. b) uma analogia, pois diferencia os mecanismos moleculares subjacentes ao código gené�co e ao funcionamento dos cromossomos dos códigos de um programa de computador. c) uma metáfora, pois iguala toda a informação gené�ca e os mecanismos moleculares subjacentes ao funcionamento e expressão dos genes com as instruções e os comandos de um programa. d) uma analogia, pois contrasta os mecanismos moleculares dos genes nos cromossomos e das doenças causadas por eles com as linhas de comando de um programa de computador. IT0823 - (Unesp) Leia o trecho da peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. A peça foi encenada em 1960 na arena da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil e promoveu um amplo debate. A mobilização resultante desse debate desencadeou a criação do Centro Popular de Cultura (CPC). CORO DOS DESGRAÇADOS: Trabalhamos noite e dia, dia e noite sem parar! Então de nada precisamos, se só precisamos trabalhar! Há mil anos sem parar! Fizemos as correntes que nos botaram nos pés, fizemos a Bas�lha onde fomos morar, fizemos os canhões que vão nos apontar. Há mil anos sem parar! Não mandamos, não fugimos, não cheiramos, não matamos, não fingimos, não coçamos, não corremos, não deitamos, não sentamos: trabalhamos. Há mil anos sem parar! Ninguém sabe nosso nome, não conhecemos a espuma do mar, somos tristes e cansados. Há mil anos sem parar! Eu nunca ri – eu nunca ri – sempre trabalhei. Eu faço charutos e fumo bitucas, eu faço tecidos e ando pelado, eu faço ves�do pra mulher, e nunca vi mulher desves�da. Há mil anos sem parar! Maria esqueceu de mim e foi morar com seu Joaquim. Há mil anos sem parar! (Apito longo. Um cartaz aparece: “Dois minutos de descanso e lamba as unhas.” Todos vão tentar sentar. Menos o Desgraçado 4 que fica de pé furioso.) DESGRAÇADO 1: Ajuda-me aqui, Dois. Eu quero me dá uma sentadinha. (Desgraçado 2 ri de tudo.) DESGRAÇADO 3: Senta. (Desgraçado 1 vai pôr a cabeça no chão.) De assim, não. Acho que não é com a cabeça não. DESGRAÇADO 1: Eu esqueci. DESGRAÇADO 3: A bunda, põe ela no chão. A perna é que eu não sei. DESGRAÇADO 2: A pera �ra. (Desgraçado 3 e Desgraçado 2 desistem de descobrir. Se a�ram no chão.) DESGRAÇADO 1: A perna dobra! (Senta. Sa�sfeito.) DESGRAÇADO 2: Quero ver levantar. (Todos olham para Desgraçado 4, fazem sinais para que ele se sente.) DESGRAÇADO 4: Não! Chega pra mim! Eu só trabalho, trabalho, trabalho... (Perde o fôlego.) DESGRAÇADO 3: Eu te ajudo:trabalho, trabalho, trabalho... DESGRAÇADO 4: E tenho dois minutos de descanso? Nunca vi o sol, não tomei leite condensado, não canto na rua, esqueci do sentar, quando chega a hora de descansar, fico pensando na hora de trabalhar! Chega! SLIDE: Quem canta seus males espanta. DESGRAÇADO 1: (cantando) A paga vem depois que a gente morre! Você vira um anjo todo branco, rindo sempre da brancura, bebe leite em teta de nuvem, não tem mais fome, não tem saudade, pinta o céu de cor de felicidade! (Peças do CPC, 2016. Adaptado.) Considerado no contexto, cons�tui exemplo de eufemismo o verbo sublinhado no trecho a) “fizemos os canhões que vão nos apontar”. b) “não conhecemos a espuma do mar”. c) “Ninguém sabe nosso nome”. d) “A paga vem depois que a gente morre”. e) “fizemos a Bas�lha onde fomos morar”. IT0950 - (Fuvest) Capítulo CVII Bilhete “Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.” 24@professorferretto @prof_ferretto Capítulo CVIII Que se não entende Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu �rar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas? Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. Os seguintes aspectos composi�vos considerados pelo narrador do excerto: concentração e economia de meios expressivos, orientação realista e analí�ca, previsão do papel do leitor na construção do sen�do do texto, suprindo o que, neste, é implícito ou lacunar, podem também caracterizar, principalmente, a obra a) Viagens na minha terra, de Almeida Garre�. b) Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. c) Til, de José de Alencar. d) Vidas secas, de Graciliano Ramos. e) Capitães da Areia, de Jorge Amado. IT0959 - (Unesp) Leia o fragmento de um texto publicado em 1867 no semanário Cabrião. São Paulo, 10 de março de 1867. Estamos em plena quaresma. A população paulista azafama-se a preparar-se para a lavagem geral das consciências nas águas lustrais do confessionário e do jejum. A cambuquira* e o bacalhau afidalgam-se no mercado. A carne, mísera condenada pelos santos concílios, fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da população, e desce quase a zero na pauta dos preços. O que não sobe nem desce na escala dos fatos normais é a vilania, a usura, o egoísmo, a esta�s�ca dos crimes e o montão de fatos vergonhosos, perversos, ruins e feios que precedem todas as contrições oficiais do confessionário, e que depois delas con�nuam com imperturbável regularidade. É o caso de desejar-se mais obras e menos palavras. E se não, de que é que serve o jejum, as macerações, o arrependimento, a contrição e quejandas religiosidades? O que é a religião sem o aperfeiçoamento moral da consciência? O que vale a perturbação das funções gastronômicas do estômago sem consciência livre, ilustrada, honesta e virtuosa? Seja como for, o fato é que a quaresma toma as rédeas do governo social, e tudo entristece, e tudo esfria com o exercício de seus mís�cos preceitos de silêncio e meditação. De que é que vale a meditação por o�cio, a meditação hipócrita e obrigada, que consiste unicamente na aparência? Pois o que é que cons�tui a virtude? É a forma ou é o fundo? É a intenção do ato, ou sua feição ostensiva? Neste sen�do, aconselhamos aos bons leitores que comutem sem o menor escrúpulo os jejuns, as confissões e rezas em boas e santas ações, em esmolas aos pobres. (Ângelo Agos�ni, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis. Cabrião, 10.03.1867. Adaptado.) * Iguaria cons�tuída de brotos de abóbora guiados, geralmente servida como acompanhamento de assados. [...] fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da “população. Na expressão dentes acatólicos, a palavra “dentes” é empregada em lugar de “pessoas”, segundo uma relação semân�ca de a) símbolo pela coisa significada. b) parte pelo todo. c) con�nente pelo conteúdo. d) causa pelo efeito. e) todo pela parte. 25@professorferretto @prof_ferrettocom a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. ASSIS, M. et al. Missa do galo: variações sobre o mesmo tema. São Paulo: Summus, 1977 (fragmento). No fragmento desse conto de Machado de Assis, “ir ao teatro" significa "ir encontrar-se com o amante". O uso do eufemismo como estratégia argumenta�va significa a) exagerar quanto ao desejo em “ir ao teatro”. b) personificar a pron�dão em "ir ao teatro". c) esclarecer o valor denota�vo de “ir ao teatro”. d) reforçar compromisso com o casamento. e) suavizar uma transgressão matrimonial. IT0107 - (Enem) Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, é autor de "Bicho urbano", poema sobre a sua relação com as pequenas e grandes cidades. Bicho urbano Se disser que prefiro morar em Pirapemas ou em outra qualquer pequena cidade do país estou men�ndo ainda que lá se possa de manhã lavar o rosto no orvalho e o pão preserve aquele branco sabor de alvorada. A natureza me assusta. Com seus matos sombrios suas águas suas aves que são como aparições me assusta quase tanto quanto esse abismo de gases e de estrelas aberto sob minha cabeça. (GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1991) Embora não opte por viver numa pequena cidade, o poeta reconhece elementos de valor no co�diano das pequenas comunidades. Para expressar a relação do homem com alguns desses elementos, ele recorre à sinestesia, construção de linguagem em que se mesclam impressões sensoriais diversas. Assinale a opção em que se observa esse recurso. a) "e o pão preserve aquele branco / sabor de alvorada." b) “ainda que lá se possa de manhã / lavar o rosto no orvalho” c) "A natureza me assusta. / Com seus matos sombrios suas águas" d) "suas aves que são como aparições / me assusta quase tanto quanto" e) "me assusta quase tanto quanto / esse abismo/ de gases e de estrelas" IT0100 - (Enem) Oximoro, ou paradoxismo, é uma figura de retórica em que se combinam palavras de sen�do oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Considerando a definição apresentada, o fragmento poé�co da obra Cantares, de Hilda Hilst, publicada em 2004, em que pode ser encontrada a referida figura de retórica é: 4@professorferretto @prof_ferretto a) “Dos dois contemplo rigor e fixidez. Passado e sen�mento me contemplam” (p. 91). b) “De sol e lua De fogo e vento Te enlaço” (p. 101). c) “Areia, vou sorvendo A água do teu rio” (p. 93). d) Ritualiza a matança de quem só te deu vida. E me deixa viver nessa que morre” (p. 62). e) “O bisturi e o verso. Dois instrumentos entre as minhas mãos” (p. 95). IT0121 - (Efomm) Passeio à Infância Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos carás dourados. E como faz calor, veja, os lagos�ns saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas redondas para a�radeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro! Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é só no mês que vem, vamos apanhar taba�nga para fazer formas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira. Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela? Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras... Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto à praia. Iremos catar conchas cor-de- rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejando de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe vou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco. Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando �ros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando. Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê- la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem maduro. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez daquele menino feio do segundo ano primário que quase não �nha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco. Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo: imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só �vesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra. Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda rira: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inu�lmente tento convertê- la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés. Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência e torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi um silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem. Julho, 1945 Crônica extraída do livro 200 crônicas escolhidas, de Rubem Braga A opção em que o fragmento apresenta sen�do figurado é: 5@professorferretto @prof_ferretto a) Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos carás dourados. b) Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? c) Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. d) Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando �ros (...). e) Ah, paixão de infância, paixão que não amarga. IT0119 - (Efomm) Meu ideal seria escrever... Rubem Braga Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muitoe ficassem alegremente espantados de vê- la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresis�velmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repe�sse para si própria – "mas essa história é mesmo muito engraçada!". Que um casal que es�vesse em casa mal- humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse a�ngido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para cara do outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos. Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresis�vel, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já es�vesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina." E quando todos me perguntassem – "mas de onde é que você �rou essa história?" – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história..." E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. Fonte: As cem melhores crônicas brasileiras/ Joaquim Ferreira dos Santos, organização e introdução. - Rio de Janeiro: Obje�va, 2007. Com base no texto, responda à questão que se segue. O cronista emprega a linguagem conota�va em vários momentos da narra�va. Assinale a alterna�va em que isso NÃO ocorre. a) [...] que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria [...]. b) [...] que esse casal também fosse a�ngido pela minha história [...]. c) – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura [...]. d) [...] um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse [...]. e) Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresis�velmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. IT0099 - (Enem) 6@professorferretto @prof_ferretto O efeito de sen�do da charge é provocado pela combinação de informações visuais e recursos linguís�cos. No contexto da ilustração, a frase proferida recorre à a) polissemia, ou seja, aos múl�plos sen�dos da expressão “rede social” para transmi�r a ideia que pretende veicular. b) ironia para conferir um novo significado ao termo “outra coisa”. c) homonímia para opor, a par�r do advérbio de lugar, o espaço da população pobre e o espaço da população rica. d) personificação para opor o mundo real pobre ao mundo virtual rico. e) antonímia para comparar a rede mundial de computadores com a rede caseira de descanso da família. IT0101 - (Enem) Canção do vento e da minha vida O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. [...] O vento varria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De afetos e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo! E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De tudo. BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967. Na estruturação do texto, destaca-se a) a construção de oposições semân�cas. b) a apresentação de ideias de forma obje�va. c) o emprego recorrente de figuras de linguagem, como o eufemismo. d) a repe�ção de sons e de construções sintá�cas semelhantes. e) a inversão da ordem sintá�ca das palavras. IT0104 - (Enem) Entre os recursos expressivos empregados no texto, destaca-se a a) metalinguagem, que consiste em fazer a linguagem referir-se à própria linguagem. b) intertextualidade, na qual o texto retoma e reelabora outros textos. c) ironia, que consiste em se dizer o contrário do que se pensa, com intenção crí�ca. d) denotação, caracterizada pelo uso das palavras em seu sen�do próprio e obje�vo. e) prosopopeia, que consiste em personificar coisas inanimadas, atribuindo-lhes vida. IT0120 - (Efomm) Um caso de burro Machado de Assis 7@professorferretto @prof_ferretto Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais. Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o an�go passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente, que parecia estar próximo do fim. Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça, com essa úl�ma refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos. Meia dúzia de curiosos �nha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sen�a o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali es�ve, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há jus�ça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos. O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, �nha no olhar a expressão dos medita�vos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamentonão é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas ideias ín�mas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente. E diria o burro consigo: “Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não men�, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o des�no do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ul�mamente é que percebi que me não entendiam, e con�nuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do �lburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.” “Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau é a minha ins�tuição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sen�r o freguês no �lburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pra�quei.” “A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o �lburi e o namorado à casa da namorada – ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sen�dos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim…” Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não inves�gará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, cole�vamente falando, isto é, que as suas ins�tuições polí�cas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior? Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto. Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem 8@professorferretto @prof_ferretto exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace. Observando os recursos es�lís�cos empregados no texto, há eufemismo em: a) “O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos”. b) “O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, �nha no olhar a expressão dos medita�vos.” c) “[...] por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário.” d) “Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, corno a ciência, é curiosa sem asco.” e) “[...] força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite.” IT0118 - (Efomm) Direito e avesso Rachel de Queiroz Conheci uma moça que escondia como um crime certa feia cicatriz de queimadura que �nha no corpo. De pequena a mãe lhe ensinara a ocultar aquela marca de fogo e nem sei que impulso de desabafo levou-a a me falar nela; e creio que logo se arrependeu, pois me obrigou a jurar que jamais repe�ria a alguém o seu segredo. Se agora o conto é porque a moça é morta e a sua cicatriz já estará em nada, levada com o resto pelas águas de março, que levam tudo. Lembrou-me isso ao escutar outra moça, também vaidosa e bonita, que discorria perante várias pessoas a respeito de uma deformação congênita que ela, moça, tem no coração. Falava daquilo com mal disfarçado orgulho, como se ter coração defeituoso fosse uma dis�nção aristocrá�ca que se ganha de nascença e não está ao alcance de qualquer um. E aí saí pensando em como as pessoas são estranhas. Qualquer deformação, por mais mínima, sendo em parte visível do nosso corpo, a gente a combate, a disfarça, oculta como um vício feio. Este senhor, por exemplo, que nos explica, abundantemente, ser ví�ma de diver�culos (excrescências em forma de apêndice que apareceram no seu duodeno), teria o mesmo gosto em gabar-se da anomalia se em lugar dos diver�culos �vesse lobinhos pendurados no nariz? Nunca vi ninguém expor com orgulho a sua mão de seis dedos, a sua orelha malformada; mas a má formação interna é marca de originalidade, que se descreve aos outros com evidente orgulho. Doença interna só se esconde por medo da morte – isto é, por medo de que, a no�cia se espalhando, chegue a morte mais depressa. Não sendo por isso, quem tem um sopro no coração se gaba dele como de falar japonês. Parece que o principal impedimento é o esté�co. Pois se todos gostam de se dis�nguir da mul�dão, nem que seja por uma anomalia, fazem ao mesmo tempo questão de que essa anomalia não seja visivelmente deformante. Ter o coração do lado direito é uma glória, mas um braço menor que o outro é uma tragédia. Alguém com os dois olhos límpidos pode gostar de épateruma roda de conversa, explicando que não enxerga coisíssima nenhuma por um daqueles límpidos olhos, e permi�ra mesmo que os circunstantes curiosos lhe examinem o olho cego e constatem de perto que realmente não se nota diferença nenhuma com o olho são. Mas �vesse aquela pessoa o olho que não enxerga coalhado pela gota-serena, jamais se referiria ao defeito em público; e, caso o fizesse, por excentricidade de temperamento sarcás�co ou masoquista, os circunstantes bem-educados se sen�riam na obrigação de desviar a vista e mudar de assunto. Mulheres discutem com prazer seus casos ginecológicos; uma diz abertamente que já não tem um ovário, outra, que o médico lhe diagnos�cou um útero infan�l. Mas, se ela �vesse um pé infan�l, ou seios senis. será que os declararia com a mesma complacência? An�gamente havia as doenças secretas, que só se nomeavam em segredo ou sob pseudônimo. De um �sico, por exemplo, se dizia que estava “fraco do peito”; e talvez tal reserva nascesse do medo do contágio, que todo mundo �nha. Mas dos malucos também se dizia que “estavam nervosos” e do câncer ainda hoje se faz mistério – e nem câncer e nem doidice pegam. Não somos todos mesmo muito estranhos? Gostamos de ser diferentes – contanto que a diferença não se veja. O bastante para chamar atenção, mas não tanto que pareça feio. Fonte: O melhor da crônicabrasileira,1/ Ferreira Guillar... [et al.]. 5a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007. Vocabulário: épater: impressionar Com base no texto, responda. O eufemismo como figura de linguagem se encontra na opção: 9@professorferretto @prof_ferretto a) [...] uma moça que escondia como um crime certa feia cicatriz de queimadura que �nha no corpo. b) Falava daquilo com mal disfarçado orgulho, como se ter coração defeituoso fosse uma dis�nção aristocrá�ca [...]. c) Este senhor, por exemplo, que nos explica, abundantemente, ser ví�ma de diver�culos (excrescências em forma de apêndice que apareceram no seu duodeno). d) Não sendo por isso, quem tem um sopro no coração se gaba dele como de falar japonês. e) De um �sico, por exemplo, se dizia que estava "fraco do peito"; e talvez tal reserva nascesse do medo do contágio, que todo mundo �nha. IT0117 - (Espcex) Assinale a única alterna�va que contém a figura de linguagem presente no trecho sublinha do: As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, a) metonímia b) eufemismo c) ironia d) anacoluto e) polissíndeto IT0114 - (Fuvest) Capítulo CVII Bilhete “Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.” Capítulo CVIII Que se não entende Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu �rar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas? ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Ao comentar o bilhete de Virgília, o narrador se vale, principalmente, do seguinte recurso retórico: a) Hipérbato: transposição ou inversão da ordem natural das palavras de uma oração, para efeito es�lís�co. b) Hipérbole: ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguís�ca. c) Preterição: figura pela qual se finge não querer falar de coisas sobre as quais se está, todavia, falando. d) Sinédoque: figura que consiste em tomar a parte pelo todo, o todo pela parte; o gênero pela espécie, a espécie pelo gênero; o singular pelo plural, o plural pelo singular etc. e) Eufemismo: palavra, locução ou acepção mais agradável, empregada em lugar de outra menos agradável ou grosseira. IT0113 - (Fuvest) CAPÍTULO LIII Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade. Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, 1prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de 2prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma 3hipocrisia paciente e sistemá�ca, único freio de uma 4paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fas�o e a saciedade: tal foi o 5livro daquele prólogo. Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. Dentre os recursos expressivos empregados no texto, tem papel preponderante a 10@professorferretto @prof_ferretto a) metonímia (uso de uma palavra fora do seu contexto semân�co normal, com base na relação de con�guidade existente entre ela e o referente). b) hipérbole (ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguís�ca). c) alegoria (sequência de metáforas logicamente ordenadas). d) sinestesia (associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão). e) prosopopeia (atribuição de sen�mentos humanos ou de palavras a seres inanimados ou a animais). IT0115 - (Unicamp) Leia o poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa. MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. (Disponível em h�p://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso03.html.) No poema, a apóstrofe, uma figura de linguagem, indica que o enunciador a) convoca o mar a refle�r sobre a história das navegações portuguesas. b) apresenta o mar como responsável pelo sofrimento do povo português. c) revela ao mar sua crí�ca às ações portuguesas no período das navegações. d) projeta no mar sua tristeza com as consequências das conquistas de Portugal. IT0097 - (Enem) O pavão vermelho Ora, a alegria, este pavão vermelho, está morando em meu quintal agora. Vem pousar como um sol em meu joelho quando é estridente em meu quintal a aurora. Clarim de lacre, este pavão vermelho sobrepuja os pavões que estão lá fora. É uma festa de púrpura. E o assemelho a uma chama do lábaro da aurora. É o próprio doge a se mirar no espelho. E a cor vermelha chega a ser sonora neste pavão pomposo e de chavelho. Pavões lilases possuí outrora. Depois que amei este pavão vermelho, os meus outros pavões foram-se embora. COSTA, S. Poesia completa: Sosígenes Costa. Salvador: Conselho Estadual de Cultura. 2001. Na construção do soneto, as cores representam um recurso poé�co que configura uma imagem com a qual o eu lírico a) revela a intenção de isolar-se em seu espaço. b) simboliza a beleza e o esplendor da natureza. c) experimenta a fusão de percepções sensoriais. d) metaforiza a conquista de sua plena realização. e) expressa uma visão de mundo mís�ca e espiritualizada. IT0111 - (Fuvest) A certa personagem desvanecida Um soneto começo em vosso gabo*: Contemos esta regra por primeira, Já lá vão duas, e esta é a terceira, Já este quarte�nho está no cabo. Na quinta torce agora a porca o rabo; A sexta vá também desta maneira: Na sé�ma entro já com grã** canseira, E saio dos quartetos muito brabo. Agora nos tercetos que direi? Direi que vós, Senhor, a mim me honrais Gabando-vos a vós, e eu fico um rei. Nesta vida um soneto já ditei; Se desta agora escapo, nunca mais: Louvado seja Deus, que o acabei. Gregório de Matos *louvor **grande Tipo zero Você é um �po que não tem �po 11@professorferretto @prof_ferretto Com todo �po você se parece E sendo um �po que assimila tanto �po Passou a ser um �po que ninguém esquece Quando você penetra num salão E se mistura com a mul�dão Você se torna um �po destacado Desconfiado todo mundo fica Que o seu �po não se classifica Você passa a ser um �po desclassificado Eu até hoje nunca vi nenhum Tipo vulgar tão fora do comum Que fosse um �po tão observado Você ficou agora convencido Que o seu �po já está ba�do Mas o seu �po é o �po do �po esgotado Noel Rosa O soneto de Gregório de Matos e o samba de Noel Rosa,embora distantes na forma e no tempo, aproximam-se por ironizarem a) o processo de composição do texto. b) a própria inferioridade ante o retratado. c) a singularidade de um caráter nulo. d) o sublime que se oculta na vulgaridade. e) a intolerância para com os gênios. IT0116 - (Espcex) Assinale a alterna�va que apresenta a figura de linguagem anacoluto. a) Eu não me importa a desonra do mundo. b) Passarinho, desis� de ter. c) O que não tenho e desejo é que melhor me enriquece. d) De todas, porém, a que me ca�vou logo foi uma... uma... não sei se digo. e) E espero tenha sido a úl�ma. IT0557 - (Enem PPL) Em sua conversa com o pai, Calvin busca persuadi-lo, recorrendo à estratégia argumenta�va de a) mostrar que um bom trabalho como pai implica a valorização por parte do filho. b) apelar para a necessidade que o pai demonstra de ser bem-visto pela família. c) explorar a preocupação do pai com a própria imagem e popularidade. d) atribuir seu ponto de vista a terceiros para respaldar suas intenções. e) gerar um conflito entre a solicitação da mãe e os interesses do pai. IT0574 - (Enem PPL) Ocorre que a grande obra nunca é apenas a tradução do engenho e arte do seu autor, seja este escritor, filósofo, cien�sta, pintor, músico, arquiteto, escultor, cineasta. Em geral, a grande obra é também, ou mesmo principalmente, a expressão do clima sociocultural, intelectual, cien�fico, filosófico e ar�s�co da época, conforme se expressa em alguma cole�vidade, grupo social, etnia, gênero ou povo. IANNI, O. Variações sobre arte e ciência. Tempo Social, n. 1, jun. 2004. O fragmento define o que é uma grande obra de arte. Como estratégia de construção do texto, o autor faz uso recorrente de a) enumerações para sustentar o ponto de vista apresentado. b) repe�ções para re�ficar as caracterís�cas do objeto descrito. c) generalizações para sinte�zar as ideias expostas. d) adje�vações para descrever a obra caracterizada. e) sinonímias para retomar as caracterís�cas da a�vidade autoral. IT0582 - (Enem PPL) Gaetaninho Ali na Rua do Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou de carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito di�cil. Um sonho. [...] — Traga a bola! Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou. No bonde vinha o pai do Gaetaninho. A gurizada assustada espalhou a no�cia na noite. — Sabe o Gaetaninho? — Que é que tem? — Amassou o bonde! 12@professorferretto @prof_ferretto A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras. Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Ves�a a roupa marinheira, �nha as ligas, mas não levava a palhe�nha. Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino. MACHADO, A. A. Brás, Bexiga e Barra Funda: no�cias de São Paulo. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Vila Rica, 1994. Situada no contexto da modernização da cidade de São Paulo na década de 1920, a narra�va u�liza recursos expressivos inovadores, como a) o registro informal da linguagem e o emprego de frases curtas. b) o apelo ao modelo cinematográfico com base em imagens desconexas. c) a representação de elementos urbanos e a prevalência do discurso direto. d) a encenação crua da morte em contraponto ao tom respeitoso do discurso. e) a percepção irônica da vida assinalada pelo uso reiterado de exclamações. IT0605 - (Enem PPL) Acho que educar é como catar piolho na cabeça de criança. É preciso ter confiança, perseverança e um certo despojamento. É preciso, também, conquistar a confiança de quem se quer educar, para fazê-lo deitar no colo e ouvir histórias. MUNDURUKU, D. Disponível em: h�p://caravanamekukradja.blogspot.com.br. Acesso em: 5 dez. 2012. Concorrem para a estruturação e para a progressão das ideias no texto os seguintes recursos: a) Comparação e enumeração. b) Hiperonímia e antonímia. c) Argumentação e citação. d) Narração e retomada. e) Pontuação e hipérbole. IT0609 - (Enem PPL) Pra onde vai essa estrada? — Sô Augusto, pra onde vai essa estrada? O senhor Augusto: — Eu moro aqui há 30 anos, ela nunca foi pra parte nenhuma, não. — Sô Augusto, eu estou dizendo se a gente for andando aonde a gente vai? O senhor Augusto: — Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau. Vocabulário Vau: Lugar do rio ou outra porção de água onde esta é pouco funda e, por isso, pode ser transposta a pé ou a cavalo. MAGALHÃES, L. L. A.; MACHADO, R. H. A. (Org.). Perdizes, suas histórias, sua gente, seu folclore. Perdizes: Prefeitura Municipal, 2005. As anedotas são narra�vas, reais ou inventadas, estruturadas com a finalidade de provocar o riso. O recurso expressivo que configura esse texto como uma anedota é o(a) a) uso repe��vo da negação. b) grafia do termo “Oropas”. c) ambiguidade do verbo “ir”. d) ironia das duas perguntas. e) emprego de palavras coloquiais. IT0701 - (Enem PPL) A tendência dos nomes O nome é uma das primeiras coisas que não escolhemos na vida. Estará inscrito nos registros: na maternidade, no RG, no CPF, no obituário etc. Enfim, uma escolha que não fizemos nos acompanha do berço ao túmulo, pois na lápide se dirá que ali jaz Fulano de Tal. SILVA, D. Língua, n. 77, mar. 2012. Algumas palavras atuam no desenvolvimento de um texto contribuindo para a sua progressão. A palavra “enfim” promove o encadeamento do texto, tendo sido u�lizada com a intenção de a) explicar que os nomes das pessoas são escolhidos no nascimento. b) ra�ficar que os nomes registrados no nascimento são imutáveis. c) reiterar que os nomes recebidos são importantes até a morte. d) concluir que os nomes acompanham os indivíduos até a morte. e) acrescentar que ninguém pode escolher o próprio nome. IT0653 - (Enem PPL) 13@professorferretto @prof_ferretto E: Diva ... tem algumas ... alguma experiência pessoal que você passou e que você poderia me contar ... alguma coisa que marcou você? Uma experiência ... você poderia contar agora ... I: É ... tem uma que eu vivi quando eu estudava o terceiro ano cien�fico lá no Atheneu ... né ... é:: eu gostava muito do laboratório de química ... eu ... eu ia ajudar os professores a limpar aquele material todo ... aqueles vidros ... eu achava aquilo fantás�co ... aquele monte de coisa ... né ... então ... todos os dias eu ia ... quando terminavam as aulas eu ajudava o professor a limpar o laboratório ... nesse dia não houve aula e o professor me chamou pra fazer uma limpeza geral no laboratório ... chegando lá ... ele me fez uma experiência ... ele me mostrou uma coisa bem interessante que ... pegou um béquer com meio d’água e colocou um pouquinho de cloreto de sódio pastoso ... então foi aquele fogaréu desfilando ... aquele fogaréu ... quando o professor saiu ... eu chamei umas duas colegas minhas pra mostrar a experiência que eu �nha achado fantás�co ... só que ... eu achei o seguinte ... se o professor colocou um pouquinho ... foi aquele desfile ... imagine se eu colocasse mais ... peguei o mesmo béquer ... coloquei uma colher ... uma colher de cloreto de sódio ... foi um fogaréu tão grande ... foi uma explosão ... quebrou todo o material que estava exposto em cima da mesa ... eu branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse morrer sabe ... quando ... o colégio inteiro correu pro laboratório pra ver o que �nha sido ... CUNHA, M. A. F. (Org.) . Corpus discurso & gramá�ca: a língua falada e escrita na cidade de Natal. Natal: EdUFRN, 1998. Na transcrição de fala, especialmente, no trecho “eu branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse morrer sabe...”, há uma estrutura sintá�ca fragmentada, embora facilmente interpretável. Sua presença na fala revela a) distração e poucos anos de escolaridade. b) falta de coesão e coerência na apresentaçãodas ideias. c) afeto e amizade entre os par�cipantes da conversação. d) desconhecimento das regras de sintaxe da norma padrão. e) caracterís�ca do planejamento e execução simultânea desse discurso. IT0708 - (Fuvest) Tempo de nos aquilombar É tempo de caminhar em fingido silêncio, e buscar o momento certo no grito, aparentar fechar um olho evitando o cisco e abrir escancaradamente o outro. É tempo de fazer os ouvidos moucos para os vazios lero-leros, e cuidar dos passos assuntando as vias, ir se vigiando atento, que o buraco é fundo. É tempo de ninguém se soltar de ninguém, mas olhar fundo na palma aberta a alma de quem lhe oferece o gesto. O laçar de mãos não pode ser algemas, sim acertada tá�ca, necessário esquema. É tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos e que venham dias futuros, salve 2020 A mís�ca quilombola persiste afirmando: "a liberdade é uma luta constante". Conceição Evaristo. Jornal O Globo, 31/12/2019. O verso "É tempo de formar novos quilombos" é um exemplo de, a) paradoxo, na medida em que propõe retomar o passado num contexto atual. b) metonímia, já que os quilombos fazem parte de um novo contexto cultural, sem relação com o passado. c) metáfora, representando uma união cole�va como forma de resistência social. d) an�tese, ao relacionar a noção de tempo passado a uma nova configuração de futuro. e) hipérbole, apresentando o termo "quilombos" no plural para indicar o grau de difusão do movimento. IT0724 - (Fuvest) No meme, a inadequação da resposta à questão está baseada no efeito de sen�do proveniente da presença de 14@professorferretto @prof_ferretto a) metáfora. b) trocadilho. c) sinédoque. d) eufemismo. e) comparação. IT0770 - (Unesp) Leia a crônica de Luís Fernando Veríssimo. A invasão A divisão ciência/humanismo se reflete na maneira como as pessoas, hoje, encaram o computador. Resiste- se ao computador, e a toda a cultura ciberné�ca, como uma forma de ser fiel ao livro e à palavra impressa. Mas o computador não eliminará o papel. Ao contrário do que se pensava há alguns anos, o computador não salvará as florestas. Aumentou o uso do papel em todo o mundo, e não apenas porque a cada novidade eletrônica lançada no mercado corresponde um manual de instrução, sem falar numa embalagem de papelão e num embrulho para presente. O computador es�mula as pessoas a escreverem e imprimirem o que escrevem. Como hoje qualquer um pode ser seu próprio editor, paginador e ilustrador sem largar o mouse, a tentação de passar sua obra para o papel é quase irresis�vel. Desconfio que o que salvará o livro será o supérfluo, o que não tem nada a ver com conteúdo ou conveniência. Até que lancem computadores com cheiro sinte�zado, nada subs�tuirá o cheiro de papel e �nta nas suas duas categorias inimitáveis, livro novo e livro velho. E nenhuma coleção de gravações ornamentará uma sala com o calor e a dignidade de uma estante de livros. A tudo que falta ao admirável mundo da informá�ca, da ciberné�ca, do virtual e do instantâneo acrescente-se isso: falta lombada. No fim, o livro deverá sua sobrevida à decoração de interiores. (O Estado de S.Paulo, 31.05.2015.) Em “falta lombada” (2º parágrafo), o cronista se u�liza, es�lis�camente, de uma figura de linguagem que a) representa uma imagem exagerada do que se quer exprimir. b) se baseia numa analogia ou semelhança. c) emprega a palavra que indica a parte pelo todo. d) emprega a palavra que indica o todo pela parte. e) se baseia na simultaneidade de impressões sensoriais. IT0799 - (Unesp) Leia o trecho do livro A dança do universo, do �sico brasileiro Marcelo Gleiser. Algumas pessoas tornam-se heróis contra sua própria vontade. Mesmo que elas tenham ideias realmente (ou potencialmente) revolucionárias, muitas vezes não as reconhecem como tais, ou não acreditam no seu próprio potencial. Divididas entre enfrentar sua insegurança expondo suas ideias à opinião dos outros, ou manter-se na defensiva, elas preferem a segunda opção. O mundo está cheio de poemas e teorias escondidos no porão. Copérnico é, talvez, o mais famoso desses relutantes heróis da história da ciência. Ele foi o homem que colocou o Sol de volta no centro do Universo, ao mesmo tempo fazendo de tudo para que suas ideias não fossem difundidas, possivelmente com medo de crí�cas ou perseguição religiosa. Foi quem colocou o Sol de volta no centro do Universo, mo�vado por razões erradas. Insa�sfeito com a falha do modelo de Ptolomeu, que aplicava o dogma platônico do movimento circular uniforme aos corpos celestes, Copérnico propôs que o equante fosse abandonado e que o Sol passasse a ocupar o centro do cosmo. Ao tentar fazer com que o Universo se adaptasse às ideias platônicas, ele retomou aos pitagóricos, ressuscitando a doutrina do fogo central, que levou ao modelo heliocêntrico de Aristarco dezoito séculos antes. Seu pensamento reflete o desejo de reformular as ideias cosmológicas de seu tempo apenas para voltar ainda mais no passado; Copérnico era, sem dúvida, um revolucionário conservador. Ele jamais poderia ter imaginado que, ao olhar para o passado, estaria criando uma nova visão cósmica, que abriria novas portas para o futuro. Tivesse vivido o suficiente para ver os frutos de suas ideias, Copérnico decerto teria odiado a revolução que involuntariamente causou. Entre 1510 e 1514, compôs um pequeno trabalho resumindo suas ideias, in�tulado Commentariolus (Pequeno comentário). Embora na época fosse rela�vamente fácil publicar um manuscrito, Copérnico decidiu não publicar seu texto, enviando apenas algumas cópias para uma audiência seleta. Ele acreditava piamente no ideal pitagórico de discrição; apenas aqueles que eram iniciados nas complicações da matemá�ca aplicada à astronomia �nham permissão para compar�lhar sua sabedoria. Certamente essa posição eli�sta era muito peculiar, vinda de alguém que fora educado durante anos dentro da tradição humanista italiana. Será que Copérnico estava tentando sen�r o clima intelectual da época, para ter uma ideia do quão “perigosas” eram suas ideias? Será que ele não acreditava muito nas suas próprias ideias e, portanto, queria evitar qualquer �po de crí�ca? Ou será que ele estava tão imerso nos ideais pitagóricos que realmente não �nha o menor interesse em tornar populares suas ideias? As razões que possam jus�ficar a a�tude de Copérnico são, até hoje, um ponto de discussão entre os especialistas. (A dança do universo, 2006. Adaptado.) 15@professorferretto @prof_ferretto Em “Copérnico era, sem dúvida, um revolucionário conservador” (3º parágrafo), a expressão sublinhada cons�tui um exemplo de a) eufemismo. b) pleonasmo. c) hipérbole. d) metonímia. e) paradoxo. IT0785 - (Unesp) Leia a crônica “Anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente em 1954. Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido: À procura de uma besta. — A par�r de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho- escura com os seguintes caracterís�cos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de quatro a seis cen�metros, produzido por jumento. Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações. Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos no�cia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior. Cinquenta e cinco anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio con�nua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária. Reparo antes de tudo na limpezade tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a �veste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois um raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e ní�do retrato da besta. Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento. Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”. Revelas aí a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal. Finalmente - deixando de lado outras excelências de tua prosa ú�l - a declaração final: quem a apreender ou pelo menos “no�cia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometes recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues. Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a exis�r, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa a�tude crí�ca. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida. (Fala, amendoeira, 2012.) Está empregado em sen�do figurado o termo destacado no seguinte trecho: a) “Formulaste depois um raciocínio: houve roubo.” (3º parágrafo) b) “Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem.” (3º parágrafo) c) “Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem.” (3º parágrafo) d) “Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados;” (4º parágrafo) e) “Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados;” (4º parágrafo) IT0850 - (Unesp) Leia o trecho do drama Macário, de Álvares de Azevedo. MACÁRIO (chega à janela): Ó mulher da casa! olá! ó de casa! UMA VOZ (de fora): Senhor! 16@professorferretto @prof_ferretto MACÁRIO: Desate a mala de meu burro e tragam-ma aqui... A VOZ: O burro? MACÁRIO: A mala, burro! A VOZ: A mala com o burro? MACÁRIO: Amarra a mala nas tuas costas e amarra o burro na cerca. A VOZ: O senhor é o moço que chegou primeiro? MACÁRIO: Sim. Mas vai ver o burro. A VOZ: Um moço que parece estudante? MACÁRIO: Sim. Mas anda com a mala. A VOZ: Mas como hei de ir buscar a mala? Quer que vá a pé? MACÁRIO: Esse diabo é doido! Vai a pé, ou monta numa vassoura como tua mãe! A VOZ: Descanse, moço. O burro há de aparecer. Quando madrugar iremos procurar. OUTRA VOZ: Havia de ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu conheço o burro... MACÁRIO: E minha mala? A VOZ: Não vê? Está chovendo a potes!... MACÁRIO (fecha a janela): Malditos! (a�ra com uma cadeira no chão) O DESCONHECIDO: Que tendes, companheiro? MACÁRIO: Não vedes? O burro fugiu... O DESCONHECIDO: Não será quebrando cadeiras que o chamareis... MACÁRIO: Porém a raiva... [...] O DESCONHECIDO: A mala não pareceu-me muito cheia. Sen� alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de vinho? MACÁRIO: Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável... era o meu cachimbo... O DESCONHECIDO: Fumais? MACÁRIO: Perguntai de que serve o �nteiro sem �nta, a viola sem cordas, o copo sem vinho, a noite sem mulher – não me pergunteis se fumo! O DESCONHECIDO (dá-lhe um cachimbo): Eis aí um cachimbo primoroso. [...] MACÁRIO: E vós? O DESCONHECIDO: Não vos importeis comigo. (�ra outro cachimbo e fuma) MACÁRIO: Sois um perfeito companheiro de viagem. Vosso nome? O DESCONHECIDO: Perguntei-vos o vosso? MACÁRIO: O caso é que é preciso que eu pergunte primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o roman�smo. O DESCONHECIDO: Tocai! Sois um digno rapaz. (apertam a mão) MACÁRIO: Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhos, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma can�ga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono. O DESCONHECIDO: E a poesia? MACÁRIO: Enquanto era a moeda de ouro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou-se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não tenha esse vintém azinhavrado¹. Entendeis-me? O DESCONHECIDO: Entendo. A poesia, de popular tornou-se vulgar e comum. An�gamente faziam-na para o povo; hoje o povo fá-la... para ninguém... (Álvares de Azevedo. Macário/Noite na taverna, 2002.) 1 azinhavrado: coberto de azinhavre (camada de cor verde que se forma na super�cie dos objetos de cobre ou latão, resultante da corrosão destes quando expostos ao ar úmido). Observa-se expressão empregada em sen�do figurado na seguinte fala: a) “MACÁRIO: Não vedes? O burro fugiu...” b) “A VOZ: Não vê? Está chovendo a potes!...” c) “A VOZ: Descanse, moço. O burro há de aparecer. Quando madrugar iremos procurar.” d) “O DESCONHECIDO: Não será quebrando cadeiras que o chamareis...” e) “A VOZ: Mas como hei de ir buscar a mala? Quer que vá a pé?” IT0855 - (Unesp) Leia o trecho inicial da crônica “Está aberta a sessão do júri”, de Graciliano Ramos, publicada originalmente em 1943. O Dr. França, Juiz de Direito numa cidadezinha sertaneja, andava em meio século, �nha gravidade imensa, verbo escasso, bigodes, colarinhos, sapatos e ideias de pontas muito finas. Ves�a-se ordinariamente de preto, exigia que todos na jus�ça procedessem da mesma forma – e chegou a mandar re�rar-se do Tribunal um jurado inconveniente, de roupa clara, ordenar-lhe que voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a decência do veredicto. Não via, não sorria. Quando parava numa esquina, as cavaqueiras dos vadios gelavam. Ao afastar-se, mexia as pernas matema�camente, os passos mediam setenta cen�metros, exatos, apesar de barrocas1 e degraus. À espinha não se curvava, embora descesse ladeiras, as mãos e os braços executavam os movimentos indispensáveis, as duas rugas horizontais da testa não se aprofundavam nem se desfaziam. 17@professorferretto @prof_ferretto Na sua biblioteca digna e sábia, volumes bojudos, tratados majestosos, severos na encadernação negra semelhante à do proprietário, emper�gavam-se – e nenhum ousava deitar-se, inclinar-se, quebrar o alinhamento rigoroso. Dr. França levantava-se às sete horas e recolhia-se à meia-noite, fizesse frio ou calor, almoçava ao meio-dia e jantava às cinco, ouvia missa aos domingos, comungava de seis em seis meses, pagava o aluguel da casa no dia 30 ou no dia 31, entendia-se com a mulher, parcimonioso, na linguagem usada nas sentenças, linguagem arrevesada e arcaica das ordenações. Nunca julgou oportuno modificar esses hábitos salutares. Não amou nem odiou. Contudo exaltou a virtude, emanação das existências calmas, e condenou o crime, infeliz consequência da paixão. Se atentássemos nas palavras emi�das por via oral, poderíamos afirmar que o Dr. França não pensava. Vistos os autos, etc., perceberíamos entretanto que ele pensava com alguma frequência. Apenas o pensamento de Dr. França não seguia a marcha dos pensamentos comuns. Operava, se não nos enganamos, deste modo: “considerando isto, considerando isso, considerandoaquilo, considerando ainda mais isto, considerando porém aquilo, concluo.” Tudo se formulava em obediência às regras – e era impossível qualquer desvio. Dr. França possuía um espírito, sem dúvida, espírito redigido com circunlóquios, dividido em capítulos, �tulos, ar�gos e parágrafos. E o que se distanciava desses parágrafos, ar�gos, �tulos e capítulos não o comovia, porque Dr. França está livre dos tormentos da imaginação. (Graciliano Ramos. Viventes das Alagoas, 1976.) 1 barroca: monte de terra ou de barro. O cronista recorre à personificação no seguinte trecho: a) “Na sua biblioteca digna e sábia, volumes bojudos, tratados majestosos, severos na encadernação negra semelhante à do proprietário, emper�gavam-se – e nenhum ousava deitar-se, inclinar-se, quebrar o alinhamento rigoroso.” (3º parágrafo) b) “A espinha não se curvava, embora descesse ladeiras, as mãos e os braços executavam os movimentos indispensáveis, as duas rugas horizontais da testa não se aprofundavam nem se desfaziam.” (2º parágrafo) c) “Ao afastar-se, mexia as pernas matema�camente, os passos mediam setenta cen�metros, exatos, apesar de barrocas e degraus.” (2º parágrafo) d) “E o que se distanciava desses parágrafos, ar�gos, �tulos e capítulos não o comovia, porque Dr. França está livre dos tormentos da imaginação.” (7º parágrafo) e) “Ves�a-se ordinariamente de preto, exigia que todos na jus�ça procedessem da mesma forma - e chegou a mandar re�rar-se do Tribunal um jurado inconveniente, de roupa clara, ordenar-lhe que voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a decência do veredicto.” (1º parágrafo) IT0856 - (Unesp) Leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955– ). Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração ba�a só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal: – Mãe, venha ouvir: está a bater! A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida. Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sen�u a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou: – Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros. A mãe sor�u-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de 18@professorferretto @prof_ferretto novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, re�rou- se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só entre as duas.[...] Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecu�vas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia pra�cando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não escutava os piares. – Agora não sonha, filha? – Ai mãe, está tão escuro no meu sonho! Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade: – Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal. O médico corrigiu os óculos como se entendesse rec�ficar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse: – Senhora, vou dizer: a sua menina já morreu. – Morta, a minha menina? Mas, assim...? – Esta é a sua maneira de estar morta. A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a re�rada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta: – Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade. A mãe regressou à casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexis�sse. A sua pele não desprendia calor. – Então, minha querida não escutou nada? Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante. Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito. E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio a sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves. (Mia Couto. A menina sem palavra, 2013.) “E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto.” (3º parágrafo) No contexto do conto, “pingo de água” e “pleno deserto” referem-se, metaforicamente, a) à pulsação da filha e ao peito da filha, respec�vamente. b) à filha e à mãe, respec�vamente. c) ao peito da filha e à pulsação da filha, respec�vamente. d) à orelha da mãe e ao peito da filha, respec�vamente. e) à mãe e à filha, respec�vamente. IT0858 - (Unesp) Leia o trecho do conto “A menina, as aves e o sangue”, do escritor moçambicano Mia Couto (1955– ). Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração ba�a só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: roía o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal: – Mãe, venha ouvir: está a bater! A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida. Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sen�u a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou: – Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros. A mãe sor�u-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, re�rou- se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se o segredo, só entre as duas.[...] Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecu�vas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia pra�cando 19@professorferretto @prof_ferretto vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe