Prévia do material em texto
CULTURA SURDA E LIBRAS AULA 2 - DICIONÁRIO DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS E CULTURA Prezado(a) aluno(a), O Dicionário da Língua Brasileira de Sinais, é uma ferramenta indispensável para a valorização e preservação da cultura surda, oferecendo um acervo rico de sinais que refletem a identidade e as experiências desse grupo. A cultura surda, distinta e rica, abrange tradições, modos de vida e formas de comunicação que se desenvolvem em comunidades de surdos. Essa cultura é marcada por uma linguagem visual única e por práticas que fortalecem os laços sociais entre seus membros. A identidade sociocultural, por sua vez, refere-se ao conjunto de características que definem um grupo social, incluindo suas práticas, valores e crenças. Dentro desse contexto, a identidade surda emerge como uma expressão específica da cultura surda, onde os surdos se reconhecem e se valorizam por suas experiências e modos de vida, desafiando estigmas e preconceitos. A intersecção entre a língua de sinais, a cultura e a identidade surda são fundamentais para promover a inclusão, o respeito e a compreensão, permitindo que os surdos afirmem sua identidade em uma sociedade. Bons estudos! 2 DICIONÁRIO DA LÍNGUA DE SINAIS De acordo com Costa (2018), o professor Fernando César Capovilla, do Instituto de Psicologia da USP, propõe o paradigma das neurociências cognitivas para a dicionarização da Libras na obra “Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos”. Publicado em três volumes pela Editora da USP (Edusp), o dicionário documenta 14.500 sinais de Libras em entradas lexicais individuais, incluindo verbetes em português e inglês, definições dos sinais e dos verbetes, ilustrações e descrições detalhadas da forma dos sinais. Os sinais abrangem diversas áreas do universo surdo brasileiro, como educação, artes, cultura, esportes, relações humanas, comunicação, religião, medicina, sexualidade, natureza, economia, trabalho, leis, política e preocupações sociais. Além disso, a obra inclui a escrita visual direta do sinal em SignWriting, permitindo ao leitor focar nos traços distintivos que diferenciam sinais semelhantes. Também apresenta a etimologia dos sinais através da análise dos morfemas que os compõem e uma breve análise do parentesco semântico entre sinais que compartilham alguns desses morfemas. O dicionário oferece ainda a soletração digital em Libras com a fonte Capovilla-Raphael, possibilitando que crianças surdas analisem a composição das palavras escritas e convertam letras e números em formas de mão. Segundo Capovilla, este é o dicionário mais completo do mundo para qualquer língua de sinais. Segundo Costa (2018), atualmente, a comunidade surda no Brasil é composta por 9,8 milhões de pessoas com grande dificuldade de audição ou que não conseguem ouvir, em uma população total de 212 milhões. O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil é uma obra de referência essencial para a educação e cidadania dessa comunidade. O dicionário destaca sua importância devido à complexidade das necessidades comunicativas dos surdos que utilizam Libras, uma língua cada vez mais influente no cenário cultural e social do país. O livro mapeia a Libras visual e tátil, além do português falado, recebido por audição, visão e tato (leitura orofacial visual e tátil). As entradas lexicais no dicionário apresentam os sinais de forma sistemática, tanto em sua forma quanto em seu significado, com ilustrações detalhadas que incluem estágios e setas de movimento. O dicionário emparelha essas ilustrações com descrições, sugerindo intuitivamente como a forma do sinal representa seu significado. Isso permite a reprodução fiel da forma do sinal e a compreensão precisa de seu significado, tanto em sua denotação explícita quanto em sua conotação subjetiva. Além disso, o dicionário inclui verbetes com definições, classificações gramaticais e exemplos de uso em frases, facilitando o entendimento e a aplicação dos sinais em Libras e dos verbetes correspondentes em contextos linguísticos apropriados. Também há uma lista de Estados brasileiros onde cada sinal é comumente utilizado, demonstrando a validade regional e a representatividade linguística de cada sinal. Conforme Costa (2018), o desenvolvimento do Dicionário da Língua de Sinais do Brasil levou 25 anos e envolveu centenas de colaboradores, tanto surdos quanto ouvintes, em diversas funções, como informantes, revisores, pesquisadores de campo, ilustradores, cinegrafistas e programadores de computador. Capovilla afirma que o dicionário é resultado de um extenso programa de pesquisas em lexicografia e lexicologia de Libras, iniciado em 1994 no Laboratório de Neuro psicolinguística Cognitiva Experimental do Instituto de Psicologia da USP. O projeto recebeu apoio do Observatório da Educação (Consórcio Capes-Inep), do CNPq, da Fapesp, da Feneis e de outras instituições de pesquisa. Resultado, conforme a Figura 1 a seguir: Figura 1 - Dicionário da Língua de Sinais do Brasil Fonte: shre.ink/DQl3 O Dicionário da Língua de Sinais é uma ferramenta essencial para a comunidade surda, pois proporciona um recurso abrangente que documenta e organiza os sinais da Libras. Com mais de 13 mil sinais catalogados, o dicionário não apenas facilita a comunicação entre surdos, mas também promove a valorização da cultura surda e a identidade dos indivíduos que a compõem. Ao oferecer definições, ilustrações e exemplos de uso, o dicionário ajuda os surdos a se expressarem de maneira mais eficaz e a se conectarem com sua comunidade. Além disso, a obra contribui para a inclusão social, permitindo que tanto surdos quanto ouvintes compreendam melhor a língua de sinais, o que é indispensável para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa com a diversidade linguística e cultural (CAPOVILLA, 2011). A criação de um dicionário de língua de sinais envolve vários desafios, incluindo: ➢ Variedade Regional: Assim como as línguas faladas, as línguas de sinais possuem variações regionais. Capturar todas essas variações em um único dicionário pode ser complexo. ➢ Representação Visual: A língua de sinais é visual e espacial, o que torna a representação em um formato escrito ou ilustrado um desafio. É necessário encontrar formas eficazes de descrever os movimentos e expressões faciais. ➢ Contexto Cultural: As línguas de sinais estão profundamente enraizadas na cultura das comunidades surdas. Garantir que o dicionário reflita adequadamente esses contextos culturais são essenciais. ➢ Atualização Contínua: As línguas evoluem com o tempo, e a língua de sinais não é exceção. Manter o dicionário atualizado com novos sinais e mudanças no uso é um desafio contínuo. ➢ Acessibilidade: Tornar o dicionário acessível para todos, incluindo pessoas com diferentes níveis de alfabetização e acesso a tecnologias, é essencial. Esses desafios exigem uma abordagem colaborativa e interdisciplinar, envolvendo linguistas, educadores, membros da comunidade surda e especialistas em tecnologia. 2.1 A cultura e a cultura surda Os elementos que compõem o conceito de cultura são tão variados que dificultam uma definição única. No entanto, é impossível falar de cultura sem mencionar a troca, um aspecto que caracteriza as culturas globalmente. Cultura envolve experiências, vivências e uma identidade, formada pela maneira como as pessoas se relacionam, comunicam e transformam. Segundo Laraia (2006), cultura é um conjunto complexo de artefatos que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes, língua e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo ser humano como membro de um grupo social. Ela se desenvolve por meio de uma rede decompartilhamento de símbolos, significados e valores entre os membros de uma sociedade. De acordo com Dusik (2022), a cultura é um mecanismo cumulativo, onde as mudanças introduzidas por uma geração são transmitidas à seguinte. Ela perde e incorpora novos aspectos, visando melhorar a vivência das novas gerações e adicionar novos elementos. Portanto, a cultura está em constante transformação, muitas vezes impulsionada pela troca entre diferentes povos e gerações. Na formação da cultura, a ausência da audição não impede a interação linguística, a participação social ou a produção cultural. Os surdos, como grupo social, possuem uma cultura própria que integra sua participação social tanto entre eles quanto com os ouvintes. A cultura surda, suas manifestações e sua ampla disseminação visam ampliar os direitos de inclusão dos surdos na sociedade em geral (IFPB, 2018). Vygotsky (1997), um dos principais estudiosos do pensamento e da linguagem como funções psicológicas superiores, afirma que os princípios do desenvolvimento são universais. No entanto, o destino de uma pessoa não é determinado pela deficiência em si, mas pelas suas consequências sociais. Assim, uma pessoa com necessidades especiais não é menos desenvolvida, mas se desenvolve de maneira diferente. Portanto, mais do que focar nas limitações, é importante considerar aspectos que envolvem a percepção sobre a pessoa surda. A busca por alternativas para atender às expectativas sociais frequentemente se torna um fator motivador para indivíduos com deficiências. Vygotsky (1997) chama isso de compensação, onde um “defeito” orgânico se transforma em um estímulo para a superação. Assim, a pessoa procura diferentes formas ou meios para realizar as atividades cotidianas. Nesse contexto, Vygotsky e Luria (1993) destacam que: [...] não podemos olhar um defeito como algo estático e permanente. Ele põe em ação e organiza grande número de dispositivos que não só podem enfraquecer o impacto do defeito, como por vezes até mesmo compensá-lo. Um defeito pode funcionar como poderoso estímulo no sentido da reorganização cultural da personalidade, [...] só precisa saber como descobrir as possibilidades de compensação e como fazer uso delas (VYGOTSKY; LURIA, 1993, p. 226). Segundo Dusik (2018), os recursos de comunicação de cada indivíduo ou grupo são desenvolvidos de maneira totalmente personalizada, levando em conta diversas características que atendem às suas necessidades específicas. Ao se aproximar da realidade das pessoas surdas, seja por meio da vivência ou do estudo, percebe-se que essa realidade inclui um conjunto rico, complexo e fascinante de elementos culturais. Esses elementos são caracterizados por formas alternativas de produção e interação, enriquecidas nas comunidades surdas, mas que ainda são pouco conhecidas entre os ouvintes. Witchs e Lopes (2018) identificam diversos elementos que compõem a cultura surda, referindo-se a eles como marcadores culturais. A seguir, são apresentados cada um desses elementos: ➢ Visualidade: a experiência das pessoas surdas é predominantemente visual. A visão é o sentido principal para interagir com o mundo, compreender e dar significado às informações, considerando variáveis de movimento, espaço e comunicação visual. ➢ O olhar, mais do que um simples sentido, é um marcador que possibilita a contemplação de diferentes modos de vida, o cuidado mútuo, o interesse por aspectos particulares e a interpretação e existência de maneiras distintas. ➢ Linguístico: as línguas de sinais, com suas características visuoespaciais, são as línguas naturais das pessoas surdas. Elas possuem a mesma complexidade que qualquer outra língua. Não são versões sinalizadas de línguas orais, como o português, nem simples gestos ou mímicas, embora esses possam ser utilizados por quem ainda não domina a língua de sinais. Trata-se de um sistema complexo com regras próprias. Quando é necessário traduzir entre uma língua oral e a de sinais, essa tarefa é realizada por um intérprete. ➢ Família: relacionada ao nascimento de filhos surdos em lares ouvintes, filhos ouvintes em lares surdos ou filhos surdos em lares surdos. Nesse contexto, muitas questões sobre aceitação, superproteção e concepções sobre a surdez são discutidas. Inicialmente, a linguagem oral não é a mais importante na comunicação de qualquer criança com sua família; o contato depende mais da sensibilidade, expressa em um toque, uma expressão de felicidade ou tristeza. No caso de deficiência auditiva ou surdez, os pais não devem se desesperar, mas sim aprender como participar da educação de seus filhos. ➢ Comunidade surda: formada por pessoas surdas e ouvintes que apoiam a causa, incluindo professores, familiares, intérpretes, amigos, entre outros. ➢ Imagem de luta: constantemente travada, destaca a diferença surda, sendo alimentada por muitos surdos para estabelecer a tensão necessária à demarcação das diferenças e à construção de uma identidade surda. Representa uma bandeira, uma causa pela qual os surdos, como grupo, lutam para conquistar um espaço social. ➢ Associações e organizações: centros importantes que permitem às pessoas surdas interagir com outras surdas, favorecendo a construção de sua identidade. Esses centros também oferecem a oportunidade de aprender a língua de sinais e abraçam frequentemente as lutas sociais do segmento. ➢ Identidade surda: refere-se ao sentimento de ser surdo em contraste com ouvintes e de normalidade na condição de surdo em relação a outros surdos. ➢ Literatura surda: refere-se a uma forma de arte que engloba obras literárias na língua de sinais, criadas por indivíduos surdos. ➢ Artes visuais: incluem o teatro surdo e as expressões das artes plásticas. ➢ Criações e transformações materiais: referem-se a soluções alternativas para pessoas surdas, como campainhas luminosas, sistemas de alerta tátil- visual e telefones adaptados, incluindo dispositivos de telecomunicações para surdos (TDDs) e telefones com teclado teletipo (TTY). Também incluem dispositivos de vibração, como relógios e celulares que substituem despertadores, celulares com mensagens escritas e chamadas por vibração, softwares de reconhecimento de voz e conversão de texto em voz, além de livros, textos e dicionários em Libras e sistemas de legendas (closed caption/subtitles). Na condição de grupo social, como são reconhecidos atualmente, os surdos podem ser vistos como parte dos movimentos de vários outros grupos humanos que lutam para reverter o estigma associado a uma identidade que historicamente foi considerada como de pessoas incapazes. Aristóteles, por exemplo, na Antiguidade, afirmava que aqueles que não podiam ouvir não possuíam linguagem nem pensamento, e que, entre todos os sentidos, a audição era fundamental para a inteligência e o conhecimento; assim, os surdos de nascença eram considerados insensatos e naturalmente incapazes de raciocínio (CARMO, 1991). Compreensões como essa evidenciam como a sociedade representa determinados grupos e a condição à qual as pessoas com deficiência estiveram sujeitas nos diversos aspectos do entendimento social sobre seu “estar no mundo”, passando por períodos que vão da perplexidade e do misticismo até abordagens meramente assistencialistas. Para que o passado não continue a influenciar o presente, é essencial reconhecer que o conceito de inclusão buscado atualmente está intrinsecamente ligado ao seu oposto, o conceito de exclusão, que se esforça para combater. É possível perceber que a história, que deveria ser superada, ainda se reflete nas representações contemporâneas e nas maneiras como os seres humanos interagem para criar e reproduzir a vida. Portanto, a compreensão das políticas de inclusão social se estabelece em contraste com o conceito de exclusão (IFPB, 2021). 2.2 Identidade socioculturale a identidade surda A identidade social e cultural é uma percepção subjetiva que leva o indivíduo a se identificar com um grupo social que possui elementos e características de seu interesse, desejando, assim, integrar-se a esse contexto. As transformações sociais decorrentes da modernidade geram impactos significativos na forma como a pessoa se vê e é percebida socialmente. Assim, a identidade sociocultural resulta da intersecção entre a trajetória de vida do indivíduo, seu contexto histórico, cultural e social, e seus projetos de vida (HALL, 2006). Isso ocorre porque o ser humano se torna verdadeiramente humano na presença do outro. Segundo a teoria sociointeracionista de Vygotsky (1991), o desenvolvimento humano se forma por meio do papel central das relações sociais nesse processo, nas quais o social e o cultural são duas categorias essenciais, já que a existência social humana implica a transição da ordem natural (homem biológico) para a ordem cultural (homem social). Assim, a identidade de si não pode ser dissociada da identidade do outro, pois a primeira está relacionada à segunda: o indivíduo se reconhece através do olhar do outro (DUBAR, 1997). O ser humano, assim que nasce, é inserido em um mundo social. É exatamente por estar nesse ambiente humanizado, que é também cultural e histórico, que o bebê consegue sobreviver. Dessa forma, todo o processo de desenvolvimento consiste em transformar o sujeito biológico em sujeito humano, que aprende a se comunicar, a fazer escolhas, a compreender tanto coisas concretas quanto abstratas, a seguir regras, e a sentir, desejar e planejar (VYGOTSKY, 1991). Dessa maneira, é através do outro que o indivíduo se reconhece. O que está no centro do processo de formação da identidade é, portanto, a identificação ou a não identificação com as características que pertencem sempre ao outro, uma vez que esse processo só é viável no contexto da socialização. No mecanismo de comparação social, a pessoa compara a si mesma com outros indivíduos e seu grupo com outros grupos, buscando se aproximar daqueles que possuem características que considera semelhantes às suas, o que acrescenta uma dimensão motivacional, pois se sentem valorizados e mantêm uma autoestima positiva. Assim, a identidade representa a articulação entre igualdade e diferença (CIAMPA, 1987). As identidades surdas referem-se às maneiras como as pessoas surdas entendem a surdez e a si mesmas dentro do contexto social, relacionando sua trajetória pessoal com o histórico da surdez e criando concepções que influenciam suas atitudes e comportamentos. As pessoas surdas compartilham diversas características que transcendem a especificidade biológica, englobando experiências sociais fundamentais no processo de formação de sua identidade (IFPB, 2018). As experiências de vida compartilhadas por surdos ao redor do mundo apresentam características que contêm semelhanças e diferenças em relação à percepção individual e coletiva sobre a surdez, sendo essas experiências geradas a partir da interação com o outro, o ouvinte. É fundamental reconhecer que a experiência de ser surdo difere da experiência de ser ouvinte, e essas diferenças se manifestam de diversas maneiras e relações. A identificação pessoal é influenciada pela vivência coletiva, tanto entre surdos e ouvintes quanto entre surdos (CEARÁ, 2013). A identidade surda é diversa, incluindo desde aqueles que se apropriam da cultura surda, valorizam e lutam pelos direitos de sua coletividade, posicionando-se politicamente em defesa dos surdos, até aqueles que, em contrapartida, tentam se integrar à cultura ouvinte e a vivenciam em sua participação social. Esse fenômeno está relacionado ao processo comum de formação identitária, que, segundo Dubar (1997), consiste em um movimento de tensão constante entre os atos de atribuição (que correspondem ao que os outros dizem sobre o sujeito) e os atos de pertença (em que o sujeito se identifica com as atribuições recebidas e adota as identidades que lhe são atribuídas). Enquanto a atribuição se refere à identidade percebida pelo outro, a pertença indica a identidade para si, e essa tensão se caracteriza pela oposição entre as expectativas que os outros têm sobre o sujeito e o desejo do próprio sujeito de ser e assumir determinadas identidades. Hall (2006) afirma que o sujeito pós-moderno é marcado pela mudança, pela diferença e pela inconstância, mantendo sua identidade em aberto. Essa perspectiva, embora incômoda devido à sua imprevisibilidade, é positiva ao desestabilizar identidades do passado e permitir o surgimento de novos sujeitos. A identificação provém do outro, mas pode ser rejeitada para dar espaço à construção de outra identidade. De qualquer forma, essa identificação utiliza categorias socialmente disponíveis (DUBAR, 1997). Assim, a construção da identidade da pessoa surda é influenciada por diversos fatores, como o contexto familiar, a inclusão ou rejeição, os discursos sociais sobre a surdez, o contato ou a falta dele com comunidades surdas, entre outros. Existem pelo menos sete tipos de identidade expressos por diversas pessoas surdas. Esses tipos estão ilustrados na Figura 2, a seguir: Figura 2 - Tipos de identidades surdas Fonte: Dusik, 2022. Conforme ilustrado na Figura 2, os tipos de identidades surdas incluem: surda, híbrida, flutuante, embaçada, de transição, diáspora e intermediária. A seguir, será apresentada uma descrição de cada uma dessas formações identitárias (PERLIN, 2011). ➢ Surda ou política: refere-se àquelas pessoas surdas que utilizam a comunicação visual como forma de expressão. Originada nos movimentos surdos, trata-se de uma identidade política que busca os direitos do povo surdo. ➢ Híbrida: refere-se a indivíduos que nasceram ouvintes e adquiriram surdez posteriormente. Esses sujeitos aprenderam inicialmente a se integrar e participar do meio como ouvintes, utilizando uma língua oral para se comunicar, e, em seguida, passaram a se imergir no contexto da surdez, identificando-se como pessoas surdas. Essas pessoas utilizam tanto a língua oral quanto a comunicação visual como formas de expressão. ➢ Flutuante: é uma característica de indivíduos que não foram integrados a nenhuma comunidade surda. Essas pessoas geralmente enfrentam dificuldades para se reconhecer ou aceitar como surdas e buscam referências na cultura ouvinte. ➢ Embaçada ou incompleta: refere-se a surdos que não aprenderam nem a língua portuguesa, nem a Libras, o que dificulta a comunicação para eles tanto com ouvintes quanto com outros surdos. Devido à ausência do português e da Libras, esses indivíduos acabam se comunicando por meio de mímicas, e suas expressões podem, por vezes, ser incompreensíveis. ➢ De transição: refere-se a surdos que estão em um processo de mudança para uma nova identidade, a identidade surda. Esses indivíduos nunca tiveram contato com outros surdos e conviveram apenas com ouvintes. Ao conhecerem outros surdos, começam a se reconhecer como parte desse grupo. ➢ Diáspora: refere-se a sujeitos surdos que possuem uma identidade surda, mas que estão se deslocando de um país para outro, de uma região para outra, de um estado para outro ou de um grupo surdo para outro. Ao fazer isso, eles estabelecem contato com surdos de diferentes origens que se comunicam em uma língua de sinais distinta da sua. Assim, esses indivíduos ampliam sua bagagem cultural e enriquecem seu repertório. ➢ Intermediária: refere-se a surdos oralizados, que falam e compreendem bem a língua portuguesa, podendo integrar tanto a comunidade ouvinte quanto a comunidade surda, uma vez que também têm conhecimento de Libras. Conforme Dusik (2022), diante dos diversos elementos que compõem o conceito de cultura, que fazem parte das formações identitárias, é fundamental destacarque vários estereótipos historicamente construídos e distorcidos sobre os surdos podem dificultar a aceitação da identidade surda e a representação da surdez. Esses estereótipos têm reforçado preconceitos e discriminações em relação às diferenças culturais e linguísticas, manifestando-se de maneiras tanto explícitas quanto implícitas. Observa-se que o grupo de pessoas surdas, assim como outras coletividades humanas, é heterogêneo, sendo essencial compreender e respeitar essa diversidade, sem desconsiderar o direito de cada indivíduo assumir a posição que julgar mais adequada em relação às diferentes identidades expressas por pessoas surdas. Entretanto, é fundamental proporcionar, especialmente na infância da criança surda, o contato com outras pessoas surdas, o que permitirá que ela se aproprie de modos de vida e artefatos que facilitem sua vida e comunicação com os outros. Independentemente da identidade e da cultura com as quais um surdo possa se identificar, o senso de mudança para a construção de uma sociedade inclusiva, o respeito à diversidade humana e a empatia são essenciais para impactar positivamente a vida em comunidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS CAPOVILLA, F. C. Sobre a falácia de tratar as crianças ouvintes como se fossem surdas, e as surdas, como se fossem ouvintes ou deficientes auditivas: pelo reconhecimento do status linguístico especial da população escolar surda. In: SÁ, N. R. L. Surdos: qual escola? Manaus: Valer, 2011 CARMO, A. A. Deficiência física: a realidade brasileira cria, recupera e discrimina. Brasília: MEC, 1991. CEARÁ. Secretaria da Educação. Cultura e identidades surdas: curso técnico em Libras. Fortaleza: SEDUC, 2013. CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: Brasiliense, 1987. COSTA, C. Dicionário da Língua de Sinais: exigiu 25 anos de pesquisas. Jornal da USP. São Paulo, 2018. DUBAR, C. Para uma teoria sociológica da identidade. In: DUBAR, C. A socialização. Porto: Porto Editora, 1997. DUSIK, C. L. Libras: Comunidade, Cultura e Identidade Surda. Porto alegre. Grupo A, 2022. INSTITUTO FEDERAL DA PARAÍBA - IFPB. Diferentes identidades entre os sujeitos surdos. João Pessoa: IFPB; MEC, 2018. INSTITUTO FEDERAL DA PARAÍBA - IFPB. Pessoas surdas: comunicação em sinais, oralismo e bilinguismo. João Pessoa: IFPB; MEC, 2021. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 2006. LARAIA, R. B. Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. PERLIN, G. Identidades Surdas. In: SKLIAR, C. A surdez: um olhar sobre as diferenças. 5. ed. Porto Alegre: Mediação, 2011 VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991. VYGOTSKY, L. S. Obras escogidas V: fundamentos de defectología. Madri: Visor, 1997. VYGOTSKY, L. S.; LURIA. A. R. Studies in the history of behviour: ape, primitive and child. Hillsdale: Lawrence Erlbaum Associates, 1993. WITCHS, P. H.; LOPES, M. C. Forma de vida surda e seus marcadores culturais. Educação em Revista, v. 34, p. 1-17, 2018.