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CULTURA SURDA E LIBRAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AULA 2 - 
DICIONÁRIO DA 
LÍNGUA BRASILEIRA 
DE SINAIS E 
CULTURA 
 
 
Prezado(a) aluno(a), 
O Dicionário da Língua Brasileira de Sinais, é uma ferramenta indispensável 
para a valorização e preservação da cultura surda, oferecendo um acervo rico de 
sinais que refletem a identidade e as experiências desse grupo. A cultura surda, 
distinta e rica, abrange tradições, modos de vida e formas de comunicação que se 
desenvolvem em comunidades de surdos. Essa cultura é marcada por uma 
linguagem visual única e por práticas que fortalecem os laços sociais entre seus 
membros. 
A identidade sociocultural, por sua vez, refere-se ao conjunto de 
características que definem um grupo social, incluindo suas práticas, valores e 
crenças. Dentro desse contexto, a identidade surda emerge como uma expressão 
específica da cultura surda, onde os surdos se reconhecem e se valorizam por suas 
experiências e modos de vida, desafiando estigmas e preconceitos. A intersecção 
entre a língua de sinais, a cultura e a identidade surda são fundamentais para 
promover a inclusão, o respeito e a compreensão, permitindo que os surdos 
afirmem sua identidade em uma sociedade. 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 DICIONÁRIO DA LÍNGUA DE SINAIS 
De acordo com Costa (2018), o professor Fernando César Capovilla, do 
Instituto de Psicologia da USP, propõe o paradigma das neurociências cognitivas para 
a dicionarização da Libras na obra “Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras 
em Suas Mãos”. Publicado em três volumes pela Editora da USP (Edusp), o dicionário 
documenta 14.500 sinais de Libras em entradas lexicais individuais, incluindo verbetes 
em português e inglês, definições dos sinais e dos verbetes, ilustrações e descrições 
detalhadas da forma dos sinais. Os sinais abrangem diversas áreas do universo surdo 
brasileiro, como educação, artes, cultura, esportes, relações humanas, comunicação, 
religião, medicina, sexualidade, natureza, economia, trabalho, leis, política e 
preocupações sociais. 
Além disso, a obra inclui a escrita visual direta do sinal em SignWriting, 
permitindo ao leitor focar nos traços distintivos que diferenciam sinais semelhantes. 
Também apresenta a etimologia dos sinais através da análise dos morfemas que os 
compõem e uma breve análise do parentesco semântico entre sinais que 
compartilham alguns desses morfemas. O dicionário oferece ainda a soletração digital 
em Libras com a fonte Capovilla-Raphael, possibilitando que crianças surdas analisem 
a composição das palavras escritas e convertam letras e números em formas de mão. 
Segundo Capovilla, este é o dicionário mais completo do mundo para qualquer língua 
de sinais. 
Segundo Costa (2018), atualmente, a comunidade surda no Brasil é composta 
por 9,8 milhões de pessoas com grande dificuldade de audição ou que não 
conseguem ouvir, em uma população total de 212 milhões. O Dicionário da Língua de 
Sinais do Brasil é uma obra de referência essencial para a educação e cidadania 
dessa comunidade. O dicionário destaca sua importância devido à complexidade das 
necessidades comunicativas dos surdos que utilizam Libras, uma língua cada vez 
mais influente no cenário cultural e social do país. O livro mapeia a Libras visual e 
tátil, além do português falado, recebido por audição, visão e tato (leitura orofacial 
visual e tátil). 
As entradas lexicais no dicionário apresentam os sinais de forma sistemática, 
tanto em sua forma quanto em seu significado, com ilustrações detalhadas que 
incluem estágios e setas de movimento. O dicionário emparelha essas ilustrações com 
 
 
 
descrições, sugerindo intuitivamente como a forma do sinal representa seu 
significado. Isso permite a reprodução fiel da forma do sinal e a compreensão precisa 
de seu significado, tanto em sua denotação explícita quanto em sua conotação 
subjetiva. 
Além disso, o dicionário inclui verbetes com definições, classificações 
gramaticais e exemplos de uso em frases, facilitando o entendimento e a aplicação 
dos sinais em Libras e dos verbetes correspondentes em contextos linguísticos 
apropriados. Também há uma lista de Estados brasileiros onde cada sinal é 
comumente utilizado, demonstrando a validade regional e a representatividade 
linguística de cada sinal. 
Conforme Costa (2018), o desenvolvimento do Dicionário da Língua de Sinais 
do Brasil levou 25 anos e envolveu centenas de colaboradores, tanto surdos quanto 
ouvintes, em diversas funções, como informantes, revisores, pesquisadores de 
campo, ilustradores, cinegrafistas e programadores de computador. Capovilla afirma 
que o dicionário é resultado de um extenso programa de pesquisas em lexicografia e 
lexicologia de Libras, iniciado em 1994 no Laboratório de Neuro psicolinguística 
Cognitiva Experimental do Instituto de Psicologia da USP. O projeto recebeu apoio do 
Observatório da Educação (Consórcio Capes-Inep), do CNPq, da Fapesp, da Feneis 
e de outras instituições de pesquisa. Resultado, conforme a Figura 1 a seguir: 
Figura 1 - Dicionário da Língua de Sinais do Brasil 
 
Fonte: shre.ink/DQl3 
 
 
 
O Dicionário da Língua de Sinais é uma ferramenta essencial para a 
comunidade surda, pois proporciona um recurso abrangente que documenta e 
organiza os sinais da Libras. Com mais de 13 mil sinais catalogados, o dicionário não 
apenas facilita a comunicação entre surdos, mas também promove a valorização da 
cultura surda e a identidade dos indivíduos que a compõem. Ao oferecer definições, 
ilustrações e exemplos de uso, o dicionário ajuda os surdos a se expressarem de 
maneira mais eficaz e a se conectarem com sua comunidade. Além disso, a obra 
contribui para a inclusão social, permitindo que tanto surdos quanto ouvintes 
compreendam melhor a língua de sinais, o que é indispensável para a construção de 
uma sociedade mais inclusiva e respeitosa com a diversidade linguística e cultural 
(CAPOVILLA, 2011). 
A criação de um dicionário de língua de sinais envolve vários desafios, 
incluindo: 
➢ Variedade Regional: Assim como as línguas faladas, as línguas de sinais 
possuem variações regionais. Capturar todas essas variações em um único 
dicionário pode ser complexo. 
➢ Representação Visual: A língua de sinais é visual e espacial, o que torna a 
representação em um formato escrito ou ilustrado um desafio. É necessário 
encontrar formas eficazes de descrever os movimentos e expressões faciais. 
➢ Contexto Cultural: As línguas de sinais estão profundamente enraizadas na 
cultura das comunidades surdas. Garantir que o dicionário reflita 
adequadamente esses contextos culturais são essenciais. 
➢ Atualização Contínua: As línguas evoluem com o tempo, e a língua de 
sinais não é exceção. Manter o dicionário atualizado com novos sinais e 
mudanças no uso é um desafio contínuo. 
➢ Acessibilidade: Tornar o dicionário acessível para todos, incluindo pessoas 
com diferentes níveis de alfabetização e acesso a tecnologias, é essencial. 
Esses desafios exigem uma abordagem colaborativa e interdisciplinar, 
envolvendo linguistas, educadores, membros da comunidade surda e especialistas 
em tecnologia. 
 
 
 
 
 
2.1 A cultura e a cultura surda 
Os elementos que compõem o conceito de cultura são tão variados que 
dificultam uma definição única. No entanto, é impossível falar de cultura sem 
mencionar a troca, um aspecto que caracteriza as culturas globalmente. Cultura 
envolve experiências, vivências e uma identidade, formada pela maneira como as 
pessoas se relacionam, comunicam e transformam. Segundo Laraia (2006), cultura é 
um conjunto complexo de artefatos que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, 
costumes, língua e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo ser humano 
como membro de um grupo social. Ela se desenvolve por meio de uma rede decompartilhamento de símbolos, significados e valores entre os membros de uma 
sociedade. 
De acordo com Dusik (2022), a cultura é um mecanismo cumulativo, onde as 
mudanças introduzidas por uma geração são transmitidas à seguinte. Ela perde e 
incorpora novos aspectos, visando melhorar a vivência das novas gerações e 
adicionar novos elementos. Portanto, a cultura está em constante transformação, 
muitas vezes impulsionada pela troca entre diferentes povos e gerações. 
Na formação da cultura, a ausência da audição não impede a interação 
linguística, a participação social ou a produção cultural. Os surdos, como grupo social, 
possuem uma cultura própria que integra sua participação social tanto entre eles 
quanto com os ouvintes. A cultura surda, suas manifestações e sua ampla 
disseminação visam ampliar os direitos de inclusão dos surdos na sociedade em geral 
(IFPB, 2018). 
Vygotsky (1997), um dos principais estudiosos do pensamento e da linguagem 
como funções psicológicas superiores, afirma que os princípios do desenvolvimento 
são universais. No entanto, o destino de uma pessoa não é determinado pela 
deficiência em si, mas pelas suas consequências sociais. Assim, uma pessoa com 
necessidades especiais não é menos desenvolvida, mas se desenvolve de maneira 
diferente. 
Portanto, mais do que focar nas limitações, é importante considerar aspectos 
que envolvem a percepção sobre a pessoa surda. A busca por alternativas para 
atender às expectativas sociais frequentemente se torna um fator motivador para 
indivíduos com deficiências. Vygotsky (1997) chama isso de compensação, onde um 
 
 
 
“defeito” orgânico se transforma em um estímulo para a superação. Assim, a pessoa 
procura diferentes formas ou meios para realizar as atividades cotidianas. Nesse 
contexto, Vygotsky e Luria (1993) destacam que: 
[...] não podemos olhar um defeito como algo estático e permanente. Ele põe 
em ação e organiza grande número de dispositivos que não só podem 
enfraquecer o impacto do defeito, como por vezes até mesmo compensá-lo. 
Um defeito pode funcionar como poderoso estímulo no sentido da 
reorganização cultural da personalidade, [...] só precisa saber como descobrir 
as possibilidades de compensação e como fazer uso delas (VYGOTSKY; 
LURIA, 1993, p. 226). 
Segundo Dusik (2018), os recursos de comunicação de cada indivíduo ou grupo 
são desenvolvidos de maneira totalmente personalizada, levando em conta diversas 
características que atendem às suas necessidades específicas. Ao se aproximar da 
realidade das pessoas surdas, seja por meio da vivência ou do estudo, percebe-se 
que essa realidade inclui um conjunto rico, complexo e fascinante de elementos 
culturais. Esses elementos são caracterizados por formas alternativas de produção e 
interação, enriquecidas nas comunidades surdas, mas que ainda são pouco 
conhecidas entre os ouvintes. 
Witchs e Lopes (2018) identificam diversos elementos que compõem a cultura 
surda, referindo-se a eles como marcadores culturais. A seguir, são apresentados 
cada um desses elementos: 
➢ Visualidade: a experiência das pessoas surdas é predominantemente 
visual. A visão é o sentido principal para interagir com o mundo, 
compreender e dar significado às informações, considerando variáveis de 
movimento, espaço e comunicação visual. 
➢ O olhar, mais do que um simples sentido, é um marcador que possibilita 
a contemplação de diferentes modos de vida, o cuidado mútuo, o interesse 
por aspectos particulares e a interpretação e existência de maneiras 
distintas. 
➢ Linguístico: as línguas de sinais, com suas características visuoespaciais, 
são as línguas naturais das pessoas surdas. Elas possuem a mesma 
complexidade que qualquer outra língua. Não são versões sinalizadas de 
línguas orais, como o português, nem simples gestos ou mímicas, embora 
esses possam ser utilizados por quem ainda não domina a língua de sinais. 
 
 
 
Trata-se de um sistema complexo com regras próprias. Quando é necessário 
traduzir entre uma língua oral e a de sinais, essa tarefa é realizada por um 
intérprete. 
➢ Família: relacionada ao nascimento de filhos surdos em lares ouvintes, filhos 
ouvintes em lares surdos ou filhos surdos em lares surdos. Nesse contexto, 
muitas questões sobre aceitação, superproteção e concepções sobre a 
surdez são discutidas. Inicialmente, a linguagem oral não é a mais 
importante na comunicação de qualquer criança com sua família; o contato 
depende mais da sensibilidade, expressa em um toque, uma expressão de 
felicidade ou tristeza. No caso de deficiência auditiva ou surdez, os pais não 
devem se desesperar, mas sim aprender como participar da educação de 
seus filhos. 
➢ Comunidade surda: formada por pessoas surdas e ouvintes que apoiam a 
causa, incluindo professores, familiares, intérpretes, amigos, entre outros. 
➢ Imagem de luta: constantemente travada, destaca a diferença surda, sendo 
alimentada por muitos surdos para estabelecer a tensão necessária à 
demarcação das diferenças e à construção de uma identidade surda. 
Representa uma bandeira, uma causa pela qual os surdos, como grupo, 
lutam para conquistar um espaço social. 
➢ Associações e organizações: centros importantes que permitem às 
pessoas surdas interagir com outras surdas, favorecendo a construção de 
sua identidade. Esses centros também oferecem a oportunidade de 
aprender a língua de sinais e abraçam frequentemente as lutas sociais do 
segmento. 
➢ Identidade surda: refere-se ao sentimento de ser surdo em contraste com 
ouvintes e de normalidade na condição de surdo em relação a outros surdos. 
➢ Literatura surda: refere-se a uma forma de arte que engloba obras literárias 
na língua de sinais, criadas por indivíduos surdos. 
➢ Artes visuais: incluem o teatro surdo e as expressões das artes plásticas. 
➢ Criações e transformações materiais: referem-se a soluções alternativas 
para pessoas surdas, como campainhas luminosas, sistemas de alerta tátil-
visual e telefones adaptados, incluindo dispositivos de telecomunicações 
para surdos (TDDs) e telefones com teclado teletipo (TTY). Também incluem 
 
 
 
dispositivos de vibração, como relógios e celulares que substituem 
despertadores, celulares com mensagens escritas e chamadas por vibração, 
softwares de reconhecimento de voz e conversão de texto em voz, além de 
livros, textos e dicionários em Libras e sistemas de legendas (closed 
caption/subtitles). 
Na condição de grupo social, como são reconhecidos atualmente, os surdos 
podem ser vistos como parte dos movimentos de vários outros grupos humanos que 
lutam para reverter o estigma associado a uma identidade que historicamente foi 
considerada como de pessoas incapazes. Aristóteles, por exemplo, na Antiguidade, 
afirmava que aqueles que não podiam ouvir não possuíam linguagem nem 
pensamento, e que, entre todos os sentidos, a audição era fundamental para a 
inteligência e o conhecimento; assim, os surdos de nascença eram considerados 
insensatos e naturalmente incapazes de raciocínio (CARMO, 1991). 
 Compreensões como essa evidenciam como a sociedade representa 
determinados grupos e a condição à qual as pessoas com deficiência estiveram 
sujeitas nos diversos aspectos do entendimento social sobre seu “estar no mundo”, 
passando por períodos que vão da perplexidade e do misticismo até abordagens 
meramente assistencialistas. Para que o passado não continue a influenciar o 
presente, é essencial reconhecer que o conceito de inclusão buscado atualmente está 
intrinsecamente ligado ao seu oposto, o conceito de exclusão, que se esforça para 
combater. 
 É possível perceber que a história, que deveria ser superada, ainda se reflete 
nas representações contemporâneas e nas maneiras como os seres humanos 
interagem para criar e reproduzir a vida. Portanto, a compreensão das políticas de 
inclusão social se estabelece em contraste com o conceito de exclusão (IFPB, 2021). 
2.2 Identidade socioculturale a identidade surda 
A identidade social e cultural é uma percepção subjetiva que leva o indivíduo a 
se identificar com um grupo social que possui elementos e características de seu 
interesse, desejando, assim, integrar-se a esse contexto. As transformações sociais 
decorrentes da modernidade geram impactos significativos na forma como a pessoa 
se vê e é percebida socialmente. Assim, a identidade sociocultural resulta da 
 
 
 
intersecção entre a trajetória de vida do indivíduo, seu contexto histórico, cultural e 
social, e seus projetos de vida (HALL, 2006). 
Isso ocorre porque o ser humano se torna verdadeiramente humano na 
presença do outro. Segundo a teoria sociointeracionista de Vygotsky (1991), o 
desenvolvimento humano se forma por meio do papel central das relações sociais 
nesse processo, nas quais o social e o cultural são duas categorias essenciais, já que 
a existência social humana implica a transição da ordem natural (homem biológico) 
para a ordem cultural (homem social). Assim, a identidade de si não pode ser 
dissociada da identidade do outro, pois a primeira está relacionada à segunda: o 
indivíduo se reconhece através do olhar do outro (DUBAR, 1997). 
O ser humano, assim que nasce, é inserido em um mundo social. É exatamente 
por estar nesse ambiente humanizado, que é também cultural e histórico, que o bebê 
consegue sobreviver. Dessa forma, todo o processo de desenvolvimento consiste em 
transformar o sujeito biológico em sujeito humano, que aprende a se comunicar, a 
fazer escolhas, a compreender tanto coisas concretas quanto abstratas, a seguir 
regras, e a sentir, desejar e planejar (VYGOTSKY, 1991). 
Dessa maneira, é através do outro que o indivíduo se reconhece. O que está 
no centro do processo de formação da identidade é, portanto, a identificação ou a não 
identificação com as características que pertencem sempre ao outro, uma vez que 
esse processo só é viável no contexto da socialização. No mecanismo de comparação 
social, a pessoa compara a si mesma com outros indivíduos e seu grupo com outros 
grupos, buscando se aproximar daqueles que possuem características que considera 
semelhantes às suas, o que acrescenta uma dimensão motivacional, pois se sentem 
valorizados e mantêm uma autoestima positiva. Assim, a identidade representa a 
articulação entre igualdade e diferença (CIAMPA, 1987). 
As identidades surdas referem-se às maneiras como as pessoas surdas 
entendem a surdez e a si mesmas dentro do contexto social, relacionando sua 
trajetória pessoal com o histórico da surdez e criando concepções que influenciam 
suas atitudes e comportamentos. As pessoas surdas compartilham diversas 
características que transcendem a especificidade biológica, englobando experiências 
sociais fundamentais no processo de formação de sua identidade (IFPB, 2018). 
As experiências de vida compartilhadas por surdos ao redor do mundo 
apresentam características que contêm semelhanças e diferenças em relação à 
 
 
 
percepção individual e coletiva sobre a surdez, sendo essas experiências geradas a 
partir da interação com o outro, o ouvinte. É fundamental reconhecer que a experiência 
de ser surdo difere da experiência de ser ouvinte, e essas diferenças se manifestam 
de diversas maneiras e relações. A identificação pessoal é influenciada pela vivência 
coletiva, tanto entre surdos e ouvintes quanto entre surdos (CEARÁ, 2013). 
A identidade surda é diversa, incluindo desde aqueles que se apropriam da 
cultura surda, valorizam e lutam pelos direitos de sua coletividade, posicionando-se 
politicamente em defesa dos surdos, até aqueles que, em contrapartida, tentam se 
integrar à cultura ouvinte e a vivenciam em sua participação social. Esse fenômeno 
está relacionado ao processo comum de formação identitária, que, segundo Dubar 
(1997), consiste em um movimento de tensão constante entre os atos de atribuição 
(que correspondem ao que os outros dizem sobre o sujeito) e os atos de pertença (em 
que o sujeito se identifica com as atribuições recebidas e adota as identidades que lhe 
são atribuídas). 
Enquanto a atribuição se refere à identidade percebida pelo outro, a pertença 
indica a identidade para si, e essa tensão se caracteriza pela oposição entre as 
expectativas que os outros têm sobre o sujeito e o desejo do próprio sujeito de ser e 
assumir determinadas identidades. 
Hall (2006) afirma que o sujeito pós-moderno é marcado pela mudança, pela 
diferença e pela inconstância, mantendo sua identidade em aberto. Essa perspectiva, 
embora incômoda devido à sua imprevisibilidade, é positiva ao desestabilizar 
identidades do passado e permitir o surgimento de novos sujeitos. A identificação 
provém do outro, mas pode ser rejeitada para dar espaço à construção de outra 
identidade. De qualquer forma, essa identificação utiliza categorias socialmente 
disponíveis (DUBAR, 1997). Assim, a construção da identidade da pessoa surda é 
influenciada por diversos fatores, como o contexto familiar, a inclusão ou rejeição, os 
discursos sociais sobre a surdez, o contato ou a falta dele com comunidades surdas, 
entre outros. Existem pelo menos sete tipos de identidade expressos por diversas 
pessoas surdas. Esses tipos estão ilustrados na Figura 2, a seguir: 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 2 - Tipos de identidades surdas 
 
Fonte: Dusik, 2022. 
Conforme ilustrado na Figura 2, os tipos de identidades surdas incluem: surda, 
híbrida, flutuante, embaçada, de transição, diáspora e intermediária. A seguir, será 
apresentada uma descrição de cada uma dessas formações identitárias (PERLIN, 
2011). 
➢ Surda ou política: refere-se àquelas pessoas surdas que utilizam a 
comunicação visual como forma de expressão. Originada nos movimentos 
surdos, trata-se de uma identidade política que busca os direitos do povo surdo. 
➢ Híbrida: refere-se a indivíduos que nasceram ouvintes e adquiriram surdez 
posteriormente. Esses sujeitos aprenderam inicialmente a se integrar e 
participar do meio como ouvintes, utilizando uma língua oral para se comunicar, 
e, em seguida, passaram a se imergir no contexto da surdez, identificando-se 
como pessoas surdas. Essas pessoas utilizam tanto a língua oral quanto a 
comunicação visual como formas de expressão. 
➢ Flutuante: é uma característica de indivíduos que não foram integrados a 
nenhuma comunidade surda. Essas pessoas geralmente enfrentam 
dificuldades para se reconhecer ou aceitar como surdas e buscam referências 
na cultura ouvinte. 
 
 
 
➢ Embaçada ou incompleta: refere-se a surdos que não aprenderam nem a língua 
portuguesa, nem a Libras, o que dificulta a comunicação para eles tanto com 
ouvintes quanto com outros surdos. Devido à ausência do português e da 
Libras, esses indivíduos acabam se comunicando por meio de mímicas, e suas 
expressões podem, por vezes, ser incompreensíveis. 
➢ De transição: refere-se a surdos que estão em um processo de mudança para 
uma nova identidade, a identidade surda. Esses indivíduos nunca tiveram 
contato com outros surdos e conviveram apenas com ouvintes. Ao conhecerem 
outros surdos, começam a se reconhecer como parte desse grupo. 
➢ Diáspora: refere-se a sujeitos surdos que possuem uma identidade surda, mas 
que estão se deslocando de um país para outro, de uma região para outra, de 
um estado para outro ou de um grupo surdo para outro. Ao fazer isso, eles 
estabelecem contato com surdos de diferentes origens que se comunicam em 
uma língua de sinais distinta da sua. Assim, esses indivíduos ampliam sua 
bagagem cultural e enriquecem seu repertório. 
➢ Intermediária: refere-se a surdos oralizados, que falam e compreendem bem a 
língua portuguesa, podendo integrar tanto a comunidade ouvinte quanto a 
comunidade surda, uma vez que também têm conhecimento de Libras. 
Conforme Dusik (2022), diante dos diversos elementos que compõem o 
conceito de cultura, que fazem parte das formações identitárias, é fundamental 
destacarque vários estereótipos historicamente construídos e distorcidos sobre os 
surdos podem dificultar a aceitação da identidade surda e a representação da surdez. 
Esses estereótipos têm reforçado preconceitos e discriminações em relação às 
diferenças culturais e linguísticas, manifestando-se de maneiras tanto explícitas 
quanto implícitas. Observa-se que o grupo de pessoas surdas, assim como outras 
coletividades humanas, é heterogêneo, sendo essencial compreender e respeitar 
essa diversidade, sem desconsiderar o direito de cada indivíduo assumir a posição 
que julgar mais adequada em relação às diferentes identidades expressas por 
pessoas surdas. 
Entretanto, é fundamental proporcionar, especialmente na infância da criança 
surda, o contato com outras pessoas surdas, o que permitirá que ela se aproprie de 
modos de vida e artefatos que facilitem sua vida e comunicação com os outros. 
 
 
 
Independentemente da identidade e da cultura com as quais um surdo possa se 
identificar, o senso de mudança para a construção de uma sociedade inclusiva, o 
respeito à diversidade humana e a empatia são essenciais para impactar 
positivamente a vida em comunidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS 
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surdas, e as surdas, como se fossem ouvintes ou deficientes auditivas: pelo 
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R. L. Surdos: qual escola? Manaus: Valer, 2011 
CARMO, A. A. Deficiência física: a realidade brasileira cria, recupera e discrimina. 
Brasília: MEC, 1991. 
CEARÁ. Secretaria da Educação. Cultura e identidades surdas: curso técnico em 
Libras. Fortaleza: SEDUC, 2013. 
CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: 
Brasiliense, 1987. 
COSTA, C. Dicionário da Língua de Sinais: exigiu 25 anos de pesquisas. Jornal da 
USP. São Paulo, 2018. 
DUBAR, C. Para uma teoria sociológica da identidade. In: DUBAR, C. A socialização. 
Porto: Porto Editora, 1997. 
DUSIK, C. L. Libras: Comunidade, Cultura e Identidade Surda. Porto alegre. Grupo 
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INSTITUTO FEDERAL DA PARAÍBA - IFPB. Diferentes identidades entre os 
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LARAIA, R. B. Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. 
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WITCHS, P. H.; LOPES, M. C. Forma de vida surda e seus marcadores culturais. 
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