Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI – URCA LICENCIATURA EM MATEMÁTICA FRANCISCO ROBSON DE BRITO GONÇALVES TRABALHO PARA 1ª AVALIAÇÃO DISCIPLINA: LIBRAS Juazeiro do Norte 2019 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................................ 3 1. Em que consiste a Lei 10.436 e o Decreto 5.626? .................................. 4 2. Explique as terminologias: .......................................................................... 6 a) Surdo Mudo ............................................................................................. 6 b) Surdo ...................................................................................................... 7 c) Deficiente Auditivo ................................................................................... 8 d) Pessoa com Deficiência .......................................................................... 9 e) Pessoa “portadora” de Deficiência ........................................................ 10 3. Fale sobre LIBRAS: .................................................................................. 12 a) É uma língua natural ou artificial? ......................................................... 12 b) Possui variações linguísticas? ............................................................... 13 c) É o Alfabeto manual? ............................................................................ 14 4. Fale sobre o surdo: ................................................................................... 16 a) Possui uma Cultura Própria? ................................................................. 16 b) Todos os surdos fazem leitura labial? ................................................... 18 c) A surdez compromete o desenvolvimento cognitivo linguístico do indivíduo? .................................................................................................... 18 5. Fale sobre a importância da Libras para o surdo e a sociedade? ............. 20 Considerações Finais ...................................................................................... 22 Referências Bibliográficas ............................................................................... 23 3 APRESENTAÇÃO O presente trabalho visa responder aos questionamentos elaborados em cinco itens, procurando abordar de forma justificada e com coerência o conteúdo de LIBRAS através de uma pesquisa bibliográfica abrangendo todo o seu contexto histórico, na qual envolve a comunidade surda, assim denominada. No primeiro item irá tratar sobre as implicações em relação à legislação que é regulamentada pela Lei 10.436 e pelo Decreto 5.626, as quais são direcionadas para a comunidade surda. Na sequência, no item dois serão abordadas as terminologias que tratam sobre esse tema com a finalidade de esclarecer tais diferenças e, ao mesmo tempo, trazer à tona uma reflexão acerca da importância etimológica que se aplica ao significado das palavras com o passar dos tempos. Em seguida, o item três aprofundará sobre o estudo de LIBRAS partindo de alguns pressupostos: É uma língua natural ou artificial? Possui variações linguísticas? É um alfabeto manual? Já no item quatro, englobará de forma mais específica sobre os Surdos e por fim, no item cinco será argumentado através de um ponto de vista pessoal e analítico em relação à importância da LIBRAS para a sociedade, especialmente os surdos. 4 1. Em que consiste a Lei 10.436 e o Decreto 5.626? Explique: "Sem voz, nossas mãos vencem o silêncio e fazem a comunicação.” (autor desconhecido) A princípio, a Lei de Libras 10.436 de 2002 dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, e junto com o Decreto de nº 5.626 de 2005 são dois documentos fundamentais que foram formulados para garantir os direitos das pessoas surdas, especialmente na área da educação. Tais documentos compreendem um conjunto de ações que foram proporcionadas pela comunidade surda por todo o país na luta pela efetivação dos dispositivos propostos e pela garantia dos direitos, onde decorreram de ações que impactaram, e continuam influenciando, as comunidades surdas de forma geral em todo o território brasileiro. Nesse contexto, a Lei 10.436 consiste na ideia de que o surdo precisa ser incluído na educação, pois já no primeiro artigo reconhece a Libras como meio oficial de comunicação onde dispõe o seguinte: “É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados”. E, acrescenta no parágrafo único: “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil” (Lei nº 10.436, de 24 abril de 2002). É notório que a Lei 10.436 ao reconhecer a LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais traz consequências positivas para a comunidade surda, o qual passou a abranger mais direitos após a sua regulamentação através do Decreto nº 5.626 da Lei de Libras no dia 22 de dezembro de 2005 que trata da formação de profissionais para atuar na educação de pessoas surdas. 5 Em consequência, o referido Decreto trouxe a definição de surdez e a diferença entre deficiência auditiva bem como a obrigatoriedade da inclusão de Libras como disciplina curricular a ser oferecida nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério em todos os níveis de ensino nas instituições públicas e privadas, abrangendo toda a federação, Estados, Distrito Federal e Municípios. Assim, o Decreto possibilitou condições de formação de docentes e instrutores especificamente nessa área, entretanto, deve-se levar em consideração que este documento é flexível no tocante aos cursos de Graduação e profissionalização em outras áreas, pois apenas orienta a inserção da Libras como disciplina optativa. Em síntese, a legislação vigente através da Lei 10.436 estabelece a Libras como língua materna dos surdos e o Decreto 5.626 garante inserção de pessoas surdas na educação, com as devidas adequações necessárias, onde objetiva promover a existência de uma comunidade firme e bem estabelecida. 6 2. Explique as terminologias: “Somos notavelmente ignorantes a respeito da surdez.” (SACKS, 1998) a) Surdo Mudo A terminologia em questão é provavelmente a mais antiga e incorreta denominação atribuída aos surdos, pois é um termo bastante controverso, onde infelizmente ainda é utilizada e divulgada nos meios de comunicação oriundos de um estigma social que o surdo suscita ao não usar a comunicação oral. No entanto, há uma empregabilidade errada do termo surdo mudo, na qual deveria ser utilizado para se referir as pessoas que têm algum impedimento orgânico no aparelho fonoarticulatório. Não necessariamente, o fato de uma pessoa ser surda não quer dizer que também seja muda, pois a mudez é outro tipo de deficiência, totalmente desagregada da surdez, sendo até minorias os surdos que possuem mudez. Uma coisa não tem haver com outra, pois o surdo só será mudo se, e somente se, for diagnosticada clinicamente deficiência na sua oralização, ou seja, algo que o impeça de emitir sons. “(...) as comunidades de surdos de todo o mundo passaram a ser comunidades culturais (...) "falantes" de uma língua própria. Assim, mesmo quando não vocaliza, um surdo pode perfeitamente "falar" em sua Língua de Sinais, não cabendo a denominaçãoSURDOMUDO. Por outro lado, a mudez é um tipo de patologia causado por questões ligadas às cordas vocais, à língua, à laringe ou ainda em função de problemas psicológicos ou neurológicos. A surdez não está absolutamente vinculada à mudez (...) Dizer que alguém que fala com dificuldades é MUDO é preconceituoso, não acham?” (Strobel e Ramos apud Barros e Hora. 2009, p. 19): Diante disso, o emprego dessa terminologia trata-se de um erro social que foi rotulado pelo desconhecimento da própria sociedade e que agrega desconforto para a comunidade surda e promove preconceitos sobre os mesmos. 7 Conforme afirma Santana: “A discussão sobre o normal e o patológico antecede a discussão de surdez como diferença ou deficiência. Definir o que é normal ou anormal não diz respeito apenas a questões biológicas, mas principalmente, a questões sociais” (SANTANA, 2007, p. 23). Deve-se destacar que o uso da expressão Surdo-Mudo é repudiado na comunidade surda pelo fato dos surdos entenderem que a LIBRAS é uma forma legítima da “fala”, apesar de não ser de forma oral, é a forma de comunicação utilizada pelos surdos, ou seja, é sua língua materna. b) Surdo De forma geral trata-se da pessoa que não escuta. Em meio à comunidade surda, na busca pela garantia dos seus direitos de cidadania e linguísticos respeitados, costumam fazer uma distinção entre “ser Surdo” e ser “deficiente auditivo”, pois a palavra “deficiente” estigmatiza a pessoa porque a caracteriza pelo que ela não tem em relação às outras pessoas e não pelo o que ela pode ter de diferente. Entretanto, a limitação auditiva compreende a identificação das diferenças individuais, nos quais os aspectos médico e social ampliam-se numa perspectiva sociocultural. Para melhor compreender esse contexto que envolve a terminologia da expressão “Surdo”, segue a empregabilidade da palavra utilizada por alguns autores: Para Dorziat (2004), o termo ”surdo” torna-se mais adequada para identificação dos processos culturais da surdez devendo ser aceito como o mais apropriado, pois representa uma tentativa de minimizar o processo de estigmatização dessas pessoas, favorecendo assim a identificação do surdo como diferença. Já Capovilla (2001, p. 1520) adota a expressão “surdo” para designar a pessoa portadora de deficiência auditiva, enquanto o termo “Surdo” é utilizado para representar um grupo de indivíduos pertencentes à comunidade surda, que se identifica com seus valores e se distingue pelo uso da Língua de Sinais. Perceba que Capovilla diferencia a palavra “surdo” (começando com letra minúscula) e “Surdo” (começando com letra maiúscula) e a grafia que 8 mais convém ao consenso de toda a comunidade surda é a que inicia com letra maiúscula, pois compreende as pessoas que apresentam impossibilidade de acesso natural à língua oral, diferenciando de uma minoria com especificidades e características linguísticas, onde não se privilegia a deficiência que acomete o surdo, mas, sim, a condição de diferença social a que o Surdo está submetido. Nesse aspecto, “surdo” se refere a sua condição sensorial e “Surdo” privilegia a sua condição em primeiro plano. Moura (2000, p.72) defende o seguinte: Quando uso “Surdo”, refiro-me ao indivíduo que, tendo uma perda auditiva, não está sendo caracterizado pela sua “deficiência”, mas pela sua condição de pertencer a um grupo minoritário com direito a uma cultura própria e a ser respeitado na sua diferença. Nesse sentido a ideia que acomete a terminologia Surdo é saber que podem falar com as mãos e podem aprender uma língua oral auditiva, fazendo de suas mãos e visão uma percepção de mundo diferente e não necessariamente deficientes. c) Deficiente Auditivo É o termo técnico utilizado na área da saúde para referir a uma perda sensorial auditiva, conforme a definição concebida pela própria Organização Mundial de Saúde (OMS) que diz: deficiente auditivo é aquele que tem perda parcial da audição, ou seja, escuta o mínimo de ruído possível. Ao contrário do que muitas pessoas pensam esse termo não caracteriza o grupo cultural dos Surdos, embora o mesmo seja bastante controverso. Barros e Hora (2009, p. 18) afirmam que: A terminologia ‘deficiente auditivo’ tem sido rejeitada pelos surdos/as por ser fruto de representações construídas pela medicina, a qual considera que aqueles são doentes e/ou deficientes e, categoriza-os de acordo com o grau da surdez, entre leve, moderado, severo ou profundo. 9 Entretanto, em contrapartida existem Surdos que não se incomodam com essa denominação como abordam em seus estudos as autoras Barros e Hora (2009, p. 18): Porém, ressaltamos que, contraditoriamente, há pessoas surdas que assumem os termos “deficiente auditivo”, “D.A.” e “pessoa com deficiência auditiva” consciente ou inconscientemente, outras os utilizam apenas em determinados espaços sociais para poder usufruir direitos que lhes são garantidos pela legislação e políticas sociais. Geralmente essa terminologia é empregada por uma sociedade estigmatizada, a qual costuma tratar o surdo como se fosse um incapaz. No entanto, por se tratar de uma perda sensorial, isso não implica que pessoas com problemas de audição não possuam potencialidade igual a de qualquer ouvinte, pelo contrário, para os Surdos a língua de sinais é de igual importância comparada a qualquer outra língua, pois possibilita a uma comunicação adequada com liberdade e segurança. Como a deficiência auditiva pode variar de indivíduos, podendo não ouvir apenas os sons mais fracos ou de maneira alguma não ouvir nada, ou seja, possuindo surdez leve até a profunda é comum no vocabulário médico e no meio científico enquadrar o surdo na categoria “Deficiência”. Por sua vez, a deficiência auditiva é considerada um déficit adquirido causado por lesões ou doenças, que resultaram na perda auditiva. Nesses casos, a pessoa ao adquirir esta deficiência terá de aprender a se comunicar de outra forma, ou em outros casos, podem recorrer ao uso de aparelhos auditivos ou a intervenções cirúrgicas para minimizar ou corrigir o problema auditivo. d) Pessoa com Deficiência A definição da expressão “Pessoa com Deficiência” é fornecida pela Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que diz: Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua 10 participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Em relação ao emprego dessa terminologia que trata a pessoa com deficiência observa-se que, historicamente, essas pessoas são vítimas de estereótipos e discriminações através de uma visão preconceituosa por parte da sociedade por desviarem-se do padrão de normalidade. O termo pessoa com deficiência é defendido pela CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, órgão vinculado à Presidência da República, que busca o reconhecimento em primeiro lugar como pessoa, procurando extinguir esse e outros termos preconceituosos. Ao se referir o Surdo a uma condição de pessoa com deficiência ou de alguma variedade terminológica revela as crenças embutidas no imaginário coletivo que refletirá na construção de uma visão distorcida acerca dos saberes sobre esses indivíduos. e) Pessoa “portadora” de Deficiência Em razão de sua contextualização histórica, foi em meados da década de 80 para 90 que surgiu a expressão “pessoas portadoras de deficiência”, termo utilizado apenas por países de língua portuguesa, com o intuito de substituir a expressão “pessoas deficientes”. Em consequência “portar uma deficiência” passou a ser um valor agregado à pessoa e a deficiênciapassou a ser vista como um detalhe do sujeito. A tendência é que esse termo “portadora” seja substituído, seja na fala ou na escrita, em virtude de que a deficiência é uma condição que faz parte da pessoa e esta pessoa não porta sua deficiência. O fato é que a expressão “portadora” não se aplica a uma condição inata ou adquirida, pois não se escolhe portar tal deficiência, mas sim uma condição daquele sujeito. Sob essa ótica, uma pessoa pode portar sua carteira de identificação, mas não porta sua condição de ser surdo. Ampliando essa discussão para a comunidade Surda, de acordo com o Decreto nº 3.298 de 20 de dezembro de 1999 no seu Art.4º é considerada 11 pessoa portadora de deficiência aquela que se enquadrar em uma das seguintes categorias: A) De 25 a 40 Decibéis – Surdez Leve; B) De 41 a 55 Decibéis - Surdez Moderada; C) De 56 a 70 Decibéis - Surdez Acentuada; D) De 71 a 90 Decibéis - Surdez Severa; E) De Acima de 91 Decibéis - Surdez Profunda; F) Anacusia. Há um amparo no Art. 3º da LEI nº 10.436, de 24 de abril de 2002, onde as instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de acordo com as normas legais em vigor, embora, não seja um termo mais apropriado para que sejam vinculadas as pessoas Surdas. 12 3. Fale sobre LIBRAS: Quando eu aceito a língua de outra pessoa, eu aceito a pessoa. Quando eu rejeito a língua, eu rejeito a pessoa porque a língua é parte de nós mesmos. Quando eu aceito a língua de sinais, eu aceito o surdo, e é importante ter sempre em mente que o surdo tem o direito de ser surdo. Nós não devemos mudá-los, devemos ensiná-los, ajudá-los, mas temos que permitir-lhes ser surdo. (BASILIER, 1974) a) É uma língua natural ou artificial? Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais e trata-se de uma língua natural de comunicação e expressão da comunidade surda brasileira e que a língua portuguesa, constitui segunda língua deles, sendo esta ofertada na modalidade escrita (BRASIL, 2002). Por sua vez, o bilinguismo como proposta educacional, enxerga a língua de sinais como natural às crianças surdas e fundamental para a aprendizagem de uma segunda língua. Para Quadros (1997, p.47) “tais línguas são naturais internamente e externamente, pois refletem a capacidade psicobiológica humana para a linguagem e porque surgiram da mesma forma que as línguas orais”. O conceito de língua é mais restrito, porém em relação à linguagem é um sistema de comunicação natural ou artificial, segundo a afirmação da autora: É um sistema de comunicação natural ou artificial, humana ou não, ressalta que pode se referir a qualquer meio de comunicação, como a linguagem corporal, expressões faciais, a maneira de nos vestirmos, as reações de nosso organismo (tanto aos estímulos do meio, como de nosso pensamento ou mesmo, dos aspectos fisiológicos) (FERNANDES, 2003, p. 16). Na sua trajetória histórica, o surdo sempre foi visto por uma perspectiva clínica que o definia como um sujeito defeituoso e que necessitava ser recomposto por intermédio de técnicas fonoaudiológicas que pudessem “consertar” esse sujeito e desenvolver nele a fala oral a fim de adquirir linguagem (SKLIAR, 2015). 13 Existem muitos estudos na área da Neurolinguística que constataram que a língua de sinais é uma língua natural e que ela se estrutura da mesma maneira que as línguas orais o fazem no cérebro (RODRIGUES et al, 2013), porém, mesmo assim, nos dias atuais é comum por profissionais da área da saúde e da educação perpetuarem essa perspectiva clinica na qual considera o surdo como alguém que precisa de intervenções médicas e educacionais para ouvintizá-lo1. Essa é uma concepção equivocada por parte desses profissionais por não considerarem a língua de sinais como uma língua natural resultando assim, em altos índices de desistência escolar por parte dos Surdos. b) Possui variações linguísticas? Assim como há variações linguísticas em todas as línguas, em Libras não é diferente. As variações linguísticas que ocorrem em Libras acontecem de forma natural, durante a comunicação entre seus usuários quando entram em contato com outras formas de sinalização, fazendo com que o repertório de sinais fique mais diversificado. Essa variação linguística em Libras sofre influência por vários fatores tornando-a um assunto bastante complexo, na qual apresenta diversas questões que devem ser levadas em consideração. Um exemplo disso é o fato de a Libras estar presente em um país, onde em sua totalidade as pessoas usam a língua portuguesa fazendo com que haja uma interferência em suas produções por parte do sujeito Surdo quando em contato com a língua portuguesa. Atribui-se também a essa variedade linguística os diferentes sinais habitualmente usados por uma determinada região, porém em sua forma possui o mesmo significado, o que denota uma maior riqueza na língua e permite o compartilhamento de experiências e conceitos a partir de pontos de vistas diferentes. 1 Ouvintizar é uma metáfora empregada para designar a visão de normalidade partida dos parâmetros ouvintes, ou seja, numa tentativa de fazer os surdos ouvir e falar pelos padrões das línguas orais (SKLIAR, 2015). 14 Dessa forma o uso difere na dimensão individual e coletiva, pois essas mudanças são influenciadas por variações observáveis em uma língua viva através da classe social envolvida, a faixa etária dos usuários e o contexto social de uso da língua a qual esta se submete. As variações linguísticas devem existir em meio ao processo de comunicação, pois muitas são as maneiras e as formas de dizer a mesma coisa de modo que sejam explorados todos os usos diferenciados e eficazes dos recursos que o idioma proporciona. Entretanto, deve-se desmistificar a prática distorcida de apresentar a variação como produto dos menos escolarizados e das zonas rurais, como se também não houvesse variação (e mudança) linguística no meio urbano, socialmente nos mais prestigiados e escolarizados, inclusive nos gêneros escritos mais monitorados (BAGNO, 2013, p. 16). Vale salientar que, além disso, dentro de um mesmo país há as variações regionais, variações sociais e mudanças históricas. Dessa forma, a LIBRAS apresenta dialetos regionais, salientando assim, uma vez mais, o seu caráter de língua natural e sua variedade linguística. c) É o Alfabeto manual? É bastante comum pela própria ingenuidade e pelo desconhecimento das pessoas, muitos conceberem concepções inadequadas em relação às Línguas de Sinais. Afirmar que a Libras se reduz a um alfabeto manual, se trata de mais um mito em relação a esta língua (REILY, 2008). Na tentativa de desmistificar a concepção inadequadas de tais mitos em relação às línguas de sinais, Quadros e Karnopp (2004, p. 31) apresentam pesquisas realizadas em vários países. Um desses está relacionado à crença de que “a língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos” (p. 31). Em suma, o uso do alfabeto manual, também chamado de alfabeto datilológico é uma caracterização do português sinalizado, que propõe marcas aditivas à linguagem sinalizada nativa, constituindo uma gramática que mais se assemelha à do português. Assim, a datilologia é usada para expressar nome 15 de pessoas, de localidades e outras palavras que não possuem um sinal próprio. A gênese do alfabeto manual se deu pela necessidade de poder representar as letras de forma visual e era usado, principalmente para ensinar pessoas surdas a ler e escrever, onde o uso do alfabeto manual na Libras écaracterizado como um Empréstimo Linguístico. 16 4. Fale sobre o surdo: O olhar para o surdo muito mais do que um sentido é uma possibilidade de SER outra coisa e de ocupar outra posição na rede social. O olhar entendido como um marcador surdo é o que permite o contemplar-se, é o que permite ler um modo de vida de diferentes formas, é o que permite o cuidado de uns sobre os outros, é o que permite o interesse por coisas particulares, é o que permite interpretar e ser de outra forma depois da experiência surda, enfim, o olhar como uma marca, é o que permite a construção de uma alteridade surda. (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 90) a) Possui uma Cultura Própria? É concebível de que o Surdo é um ser possuidor de uma cultura própria pertencentes a um grupo, denominado de Comunidade Surda Brasileira, onde de acordo com Strobel (2009), esse pertencimento grupal é o mis importante, no qual se dá por meio do uso dinâmico da Língua de Sinais, veículo de fundamental importância para a definição de suas identidades. A autora ainda complementa que a cultura surda: É o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável ajustando-os com suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das almas das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos de povo surdo (STROBEL, 2009, p.30-31). Para compreender melhor a respeito do que seja essa cultura própria, é preciso partir do seu conceito, e segundo Strobel (2009), com base na definição dada por Schiller afirma que: cultura é a estrutura daquilo que é chamado de hegemonia, que molda os sujeitos humanos mediante as necessidades de uma sociedade politicamente organizadas. Na concepção de Perlin (2008, p. 24): Cultura surda é o jeito do sujeito surdo entender o mundo e de modifica-lo a fim de torna-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isto 17 significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos de povo surdo. Ainda do ponto de vista da autora [...] As identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com ao maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela que a política ou consciência oposicional pela qual o indivíduo representa a si mesmo, se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam campo menos habitável, da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os deficientes de menos valia social (PERLIN, 2004, pp. 77-78). O fato de que os Surdos possuam uma cultura própria, a mesma não deve ser encarada como única e independente de outras culturas, uma vez que os Surdos estão inseridos socialmente através da interação entre diversas culturas tanto com dinâmicas visuais quanto auditivas. A divulgação da cultura surda como um povo independente, capaz de se comunicar, de aprender, como também ensinar, ocorre de maneira sistemática, através de esforços. Além do favorecimento por essa divulgação da cultura surda através da Lei 10.436 e o Decreto 5.626, a instituição Feneis - Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos tem desenvolvido trabalhos na difusão da cultura surda possibilitando aos Surdos lutarem por seus direitos. Sob uma ótica sócio antropológica, os Surdos possuem reconhecimento em virtude de uma cultura organizada de maneira linguística e social classificadas em três grupos: Povo Surdo: “o conjunto de sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem” (STROBEL, 2008, p.29). Cultura Surda, “resultados dos surdos com o meio onde vivem, que podem ser representados pelas produções culturais: língua de sinais, identidades pedagogia, política” (MACHADO, 2011, p. 19). Sujeito surdo: “é um cidadão politizado que usa a língua de sinais como meio de comunicação e luta por seus direitos” (STREIECHEN, 2012, p. 111). É importante destacar a diversidade e riquezas vivenciadas pela comunidade surda, onde são inerentes ao saber da cultura surda a exemplo de piadas, poesias e outras produções artísticas e culturais agregando a muitas peculiaridades desse povo. 18 b) Todos os surdos fazem leitura labial? É imprescindível saber de que nem todos os surdos fazem leitura labial2 assim como nem todos utilizam a língua de sinais ao se comunicarem, ou seja, cada um tem suas especificidades. Contudo, muitas vezes o Surdo é conduzido à aprendizagem da leitura labial e da fala, a fim de desenvolver relações comunicativas na sociedade por mais um entrave com o mundo ouvinte. Esses impasses na grande maioria das vezes são gerados pela tradição oralista como descreve Machado: Um olhar atento ao que acontece na maioria das escolas regulares quando se observa o trabalho com o aluno surdo, numa primeira impressão, revela a adesão, por parte da instituição, à filosofia oralista, sem questionar se existem outras possibilidades para a educação de surdos. Parece haver um consenso mudo, por exemplo, sobre o fato de que, se todos falam, esse estudante deve também falar (MACHADO, 2008, p. 24). c) A surdez compromete o desenvolvimento cognitivo linguístico do indivíduo? As pesquisas e os estudos acerca da surdez revela que os Surdos não apresentam impedimentos cognitivos por não desenvolverem a língua oral. Nesse processo de desenvolvimento linguístico os cognitivistas acreditam que faz parte do desenvolvimento cognitivo (CARVALHO; VITTO, 2008), contudo, em relação às discussões sobre o funcionamento cognitivo na surdez, Santana (2007), preconiza apenas aos aspectos biológicos. A autora discorre que, “a organização cognitiva particular está também relacionada à percepção do mundo e à construção da significação” (SANTANA, 2007, p. 15). Considera-se então que a acessibilidade a Libras seja primordial nesse processo construtivo da pessoa surda em vários aspectos, entre eles: cognitivos, linguísticos e sociais, pois segundo Vygotsky (1998) o ingresso do indivíduo na sociedade se dá por meio da linguagem. Sendo assim, a 2 “Leitura labial” refere-se ao ato de ler os movimentos dos lábios durante a fala oral (QUADROS, 1997). 19 linguagem abrange um conceito mais amplo, pois não se limita apenas a função comunicativa, na qual esta tem um papel atuante na influência do desenvolvimento cognitivo. Na cultura surda, de acordo com os estudos de Lacerda (2006), o desenvolvimento cognitivo linguístico verificado também no aluno ouvinte é possibilitado pela educação bilíngue, pois a promoção da Língua de Sinais e a Língua Portuguesa na modalidade escrita são extremamente fundamentais ao seu desenvolvimento. 20 5. Fale sobre a importância da Libras para o surdo e a sociedade? “Para os surdos, o ouvinte é o outro” Gladis Perlin A difusão da Libras para a comunidade surda é mais do que uma função comunicativa. Na verdade se trata de uma identidade própria que permite a luta para a integração dos Surdos de forma inclusiva na sociedade. Como diz SÁ (2002): “suas formas de agir, de pensar, de comunicar, de sentir, de dizer, têm sido negadas ao longo da história. Impôs-se a eles um modelo que jamais poderiam alcançar: o padrão de ter que ser o que não são” (p. 355). A surdez em si não é o que mais angustia as pessoas Surdas, mas sim os obstáculosque esses enfrentam na comunicação. Com isso o desconhecimento da Língua de Sinais por parte da sociedade, favorece a exclusão da comunidade surda em vários aspectos e perpetuam esses estereótipos acerca dos mesmos. Daí, vê-se a importância da utilização da Libras como uma forma de garantir a preservação da identidade das comunidades surdas, além de contribuir para a valorização e reconhecimento da cultura surda que, por tanto tempo, foi o alvo da hegemonia da cultura ouvinte (ZANETTE, 2010). É sabido que a comunicação através da Libras proporciona uma melhor interação e compreensão entre surdos e ouvintes, pois facilita tal relação social. Assim, a pessoa surda, através da Língua de Sinais, poderá desenvolver integralmente todas as suas possibilidades cognitivas, afetivas e emocionais. Sobremodo, para a sociedade a utilização da Libras colaboraria para a inclusão social dos surdos desprezando qualquer forma de discriminação e preconceito com esse grupo, os quais sofreram foram submetidos ao longo da história pela ignorância e visão distorcida dos ouvintes que contemplava a surdez como uma deficiência, na qual precisava passar por intervenções clínicas com intuito de superar o déficit auditivo. 21 Por este motivo, é imprescindível que todos façam esforços na aceitação aos anseios e necessidades que a Língua de Sinais possui junto a sociedade, a fim de que o Surdo possa construir sua identidade e exercer sua cidadania 22 Considerações Finais Ao finalizar este questionário, que teve como foco buscar respostas em vários acervos bibliográficos, através da fundamentação teórica de diversos autores, conclui-se que foi possível ampliar a compreensão a cerca da disciplina de Libras. Ficou claro que as questões relativas às representações sociais do surdo devem ser observadas a partir de um olhar reflexivo, uma vez que está em jogo não é apenas uma condição de limitação física, mas os comportamentos e pensamentos humanos em relação a este sujeito, o qual está submetido às implementações de práticas e de políticas educacionais fundamentadas e encadeadas por uma diversidade de condições adversas. Dessa forma, pode-se concluir que a utilização da Libras deve ser incentivada cada vez mais na sociedade e não apenas como uma ferramenta de uso nas instituições escolares, mas por esta, possibilitar ao surdo interagir na sociedade, construir sua identidade, colaborar para a melhoria da qualidade de vida, além de assegurar os direitos como cidadão e o respeito às diferenças. 23 Referências Bibliográficas BARROS, Josibel Pereira; HORA, Mariana Marques. Pessoas Surdas: Direitos, Políticas Sociais e Serviço Social. Monografia de Serviço Social UFPE. Recife PE, 2009. Disponível em: Acesso em: outubro de 2019. BRASIL. Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei n o 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. ______. Lei Federal 10.436 de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. ______. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Estatuto da Pessoa com Deficiência. Brasília, 2015. CAPOVILLA, Fernando C.; RAPHAEL, Walkiria D.; Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira. 3. ed.São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2 v., 2006. CARVALHO, G. M.; VITTO, M. F. Lier-De. O interacionismo: uma teorização sobre a aquisição da linguagem. In: QUADROS, R. M. (Org.). Teorias da aquisição da linguagem. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008. p. 115-146. DORZIAT, Ana. Educação de surdos no ensino regular: inclusão ou segregação? Disponível em: Acesso em: outubro de 2019. FERNANDES, E. Linguagem e surdez. Porto Alegre: Artmed, 2003. LABOV, W. Padrões sociolinguísticos. Tradução de Marcos Bagno, Maria Marta Pereira Scherre, Caroline Rodrigues Cardoso. São Paulo: Parábola Editorial, 2008 [1972]. LACERDA, Cristina Broglia. A inclusão escolar de alunos surdos: o que dizem alunos, professores e TILS sobre esta experiência. São Paulo, Campinas. Cadernos Cedes, vol.26, n. 69, p.163-184, março. 2006. MOURA, M. C. O Surdo- caminhos para uma nova identidade. Rio de Janeiro: Ed. Revinte, 2000. PERLIN, Gládis T. O lugar da cultura surda. In: THOMA, Adriana da Silva; LOPES, Maura C. A invenção da surdez. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004. https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/4921/2955 24 ______. Surdos: cultura e pedagogia. In. THOMA, A. S.; LOPES, M. C. (org.). A invenção da surdez II: espaços e tempos de aprendizagem na educação de surdos. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2008. MACHADO, Paulo Cesar. A política educacional de integração/inclusão: um olhar do egresso surdo. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008.174 p. MACHADO, R. R. Língua Brasileira de Sinais. UEPG/EAD, 2011. QUADROS, R. M. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artmed, 1997. QUADROS, R. M. de; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004. REILY, Lucia. Escola Inclusiva: Linguagem e mediação. 3 ed. Campinas-SP: Papirus Editora, 2008. RODRIGUES, C. H; GUIMARÃES, R. C. V.; PAIVA, K. V. E. R.; SILVÉRIO, C. C. P.; ALVEZ, M. J. M. A língua de sinais na promoção da acessibilidade em saúde. In: Anais do 12º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, Belém: CBMFC, 2013. SÁ, Nídia Regina Limeira de. Cultura, poder e educação e surdos. Manaus: EDUA, Comped, INEP, 2002. SANTANA, Ana Paula. Surdez e Linguagem: aspectos e implicações neurolinguisticas. São Paulo: Plexus, 2007. SKLIAR, C. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 2015. STREIECHEN, E. M. O que todo professor deve saber sobre o aluno surdo?. In: JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 15.; JORNADA DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS, 14., 2012. Anais... Marechal Cândido Rondon (PR), 2012. STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. 2. ed. rev. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2009. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Pontes, 1998. ZANETTE, Fernanda. A importância de Libras na comunicação com pessoas surdas, 2010. Disponível em . Acesso em: outubro de 2019.