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TeleCondutas 4a Edição Versão Digital 2024 2022 Toxoplasmose na Gestação 4a edição Publicadores Universidade Federal do Rio Grande do Sul TelessaúdeRS-UFRGS Organizadores Ana Cláudia Magnus Martins Luíza Emília Bezerra de Medeiros Elise Botteselle de Oliveira Rudi Roman Juliana Nunes Pfeil Rodolfo Souza da Silva Natan Katz Roberto Nunes Umpierre TeleCondutas Toxoplasmose Gestacional e Congênita 4a edição Porto Alegre UFRGS 2025 Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total deste protocolo desde que citada a fonte. A coleção dos TeleCondutas pode ser acessada na íntegra no site do projeto TelessaúdeRS-UFRGS. Atenção: verifique se há edições atualizadas deste material na página: https://www.ufrgs.br/telessauders/materiais-teleconduta/. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Faculdade de Medicina – Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia TelessaúdeRS-UFRGS – Sede Barbara Starfield Rua Dona Laura, 320 – 11º andar. Bairro Rio Branco CEP: 90430 – 090 – Porto Alegre/RS Tel.: (51) 3308.2092 Site: telessauders.ufrgs.br E-mail: contato@telessauders.ufrgs.br 1ª edição – 2018. 2ª edição – 2019. 3ª edição – 2022. 4ª edição – 2025. Ficha catalográfica Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) U58 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS TeleCondutas: toxoplasmose gestacional e congênita [recurso eletrônico] / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS. – 4. ed. – Porto Alegre: UFRGS, 2025. 22p. 1. Condutas 2. Toxoplasmose gestacional e congênita 3. Atenção Primária à Saúde 4. Telemedicina I. Universidade Federal do Rio Grande do Sul II. TelessaúdeRS-UFRGS. NLM WC 725 Catalogação na fonte – TelessaúdeRS-UFRGS https://www.ufrgs.br/telessauders/materiais-teleconduta/ http://www.telessauders.ufrgs.br/ http://www.telessauders.ufrgs.br/ https://classification.nlm.nih.gov/schedules/WV#! https://classification.nlm.nih.gov/schedules/WV#! Universidade Federal do Rio Grande do Sul Reitora: Profa. Marcia Cristina Bernardes Barbosa Vice-Reitor: Prof. Pedro de Almeida Costal Faculdade de Medicina Diretora: Profa. Lúcia Maria Kliemann Departamento de Medicina Social Chefe: Prof. Paulo Antonio Barros Oliveira Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia Coordenador: Prof. Rodrigo Citton Padilha dos Reis TelessaúdeRS-UFRGS Coordenador Geral: Natan Katz Vice-Coordenador Geral: Roberto Nunes Umpierre Coordenador Executivo: Rodolfo Souza da Silva Coordenador Técnico-Científico: Marcelo Rodrigues Gonçalves Coordenador Técnico-Científico substituto: Dimitris Rucks Varvaki Rados Organização Ana Cláudia Magnus Martins1 Luíza Emília Bezerra de Medeiros1 Elise Botteselle de Oliveira1 Rudi Roman1 Juliana Nunes Pfeil1 Rodolfo Souza da Silva1 Natan Katz1,2 Roberto Nunes Umpierre1,2 Autoria Ana Cláudia Magnus Martins1 Dimitris Rucks Varvaki Rados1 Elise Botteselle de Oliveira1 Ellen Machado Arlindo1 Juliana Nunes Pfeil1 Letícia Royer Voigt1 Luíza Emília Bezerra de Medeiros1 Renata Rosa de Carvalho3 Rudi Roman1 Talita Colombo4 Revisão textual e normalização Bruna Rodrigues da Silva1 Felícia Xavier Volkweis1 Design Renan Ferreira1 Diagramação Laura Paiva Etchichury1 Laura Willke de Moraes1 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS. 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social. 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 4 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Como citar este documento: UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: toxoplasmose gestacional e congênita. 4. ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 27 jan. 2025. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/materiais-teleconduta/. Acesso em: dia, mês abreviado e ano. TelessaúdeRS-UFRGS 2025. Porto Alegre – RS. https://www.ufrgs.br/telessauders/materiais-teleconduta/ https://www.ufrgs.br/telessauders/materiais-teleconduta/ TELECONDUTAS Nº 22 – TOXOPLASMOSE GESTACIONAL E CONGÊNITA SUMÁRIO MUDANÇAS DESTA VERSÃO .......................................................................................................................... 6 TOXOPLASMOSE GESTACIONAL ...................................................................................................................... 7 Introdução ......................................................................................................................................... 7 Rastreamento .................................................................................................................................... 7 Transmissão e prevenção.................................................................................................................... 7 Manifestações clínicas na gestante ..................................................................................................... 9 Gestação após infecção aguda por toxoplasmose ................................................................................ 9 Diagnóstico na gestante ..................................................................................................................... 9 Conduta durante o pré-natal na APS ................................................................................................. 11 Tratamento da gestante ................................................................................................................... 16 TOXOPLASMOSE CONGÊNITA ...................................................................................................................... 17 Repercussões fetais da toxoplasmose congênita ............................................................................... 17 Diagnóstico de infecção fetal durante a gestação .............................................................................. 18 Diagnóstico de infecção congênita .................................................................................................... 19 Tratamento da toxoplasmose congênita ........................................................................................... 20 ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO ........................................................................................... 21 REFERÊNCIAS........................................................................................................................................... 22 6 MUDANÇAS DESTA VERSÃO ● Mudança no nome do documento, de Toxoplasmose na Gestação, para Toxoplasmose Gestacional e Congênita. ● Mudança na idade gestacional para tratamento com esquema tríplice, de 18 para 16 semanas. ● Orientações de prevenção de toxoplasmose gestacional para todas as gestantes. ● Orientações preventivas que incluem não consumir qualquer tipo de carne crua (gado, frango, porco, peixe, frutos do mar, entre outros). ● Período e frequência de repetição de sorologias em gestantes suscetíveis. ● Transmissão transplacentária em casos de reativação da infecção materna. ● Conduta frente ao IgM e IgG indeterminados. ● Mais detalhes sobre os efeitos adversos mais comuns da sulfadiazina e pirimetamina. ● Mudança na orientação sobre o uso do esquema tríplice próximo ao parto: não há necessidade de suspender a sulfadiazina um mês antes do parto. ● Novo Quadro sobreachados clínicos e ultrassonográficos de toxoplasmose congênita. ● Investigação e tratamento da toxoplasmose congênita. 7 Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas. TOXOPLASMOSE GESTACIONAL Introdução A toxoplasmose, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, implica complicações graves quando adquirida por transmissão vertical. No Brasil, a incidência de toxoplasmose congênita varia entre 5 a 23 casos, para cada 10 mil nascidos vivos, com apresentação clínica variável, incluindo alterações oculares, neurológicas, sistêmicas e óbito fetal/neonatal [1]. O risco de transmissão e a gravidade das complicações têm comportamentos inversos em relação à idade gestacional. A taxa de transmissão ao feto, sem tratamento, é de 15 a 20% no primeiro trimestre, 25 a 30% no segundo trimestre e de 50 a 90% no terceiro trimestre. Já a gravidade tende a ser maior nas infecções adquiridas no começo da gestação [2]. O início do tratamento das gestantes, até 3 semanas após a infecção aguda, minimiza a taxa de malformação congênita [1]. Por isso, a prevenção da infecção, o rastreamento e o diagnóstico precoce são fundamentais para evitar as complicações da toxoplasmose congênita. Rastreamento O rastreamento da toxoplasmose é recomendado para todas as gestantes. Os anticorpos IgG e IgM devem ser solicitados na primeira consulta de pré-natal, preferencialmente no primeiro trimestre. Caso a gestante seja suscetível (IgG e IgM negativos), deve-se repetir as sorologias mensalmente (se não for possível, no mínimo, a cada 3 meses) e no momento do parto. Caso a gestante persista soronegativa, realizar uma última sorologia de 2 a 4 semanas após o parto [1]. Transmissão e prevenção O Toxoplasma gondii existe em três formas: oocisto (encontrado nas fezes dos gatos), taquizoítos (encontrado na fase aguda da doença) e o bradizoíto (encontrado em cistos teciduais). A infecção humana pelo Toxoplasma gondii ocorre em 50% das vezes por ingestão de cistos presentes em carnes contaminadas. Portanto, a principal forma de prevenir a infecção é fazer o cozimento adequado dos alimentos e evitar a contaminação cruzada (contato de alimentos crus com alimentos cozidos). A infecção humana também ocorre pela ingestão de oocistos presentes em frutas e verduras, solos ou água contaminada com fezes de gatos, por transplante de órgãos de um doador infectado e por transmissão transplacentária (causando a toxoplasmose congênita) [3]. 8 Ter um gato em casa não acrescenta necessariamente risco de contrair toxoplasmose se as medidas preventivas forem tomadas, como não o alimentar com carne crua ou malcozida, remover suas fezes corretamente e impedi-lo de caçar [4,5]. Ressalta-se que toda gestante, independente do resultado da sorologia de toxoplasmose, deve ser orientada para prevenção da infeção, inclusive as gestantes com infecção adquirida antes da gravidez [1]. No Brasil, a imunoproteção conferida por infecção prévia é questionada, devido à maior diversidade genética do Toxoplasma gondii e à presença de cepas atípicas e mais virulentas, já que a reinfecção pode ocorrer por outra cepa. No entanto, casos de toxoplasmose congênita em crianças de mães com imunidade prévia são raros, e envolvem condições maternas que, provavelmente, diminuíram a sua imunidade. Esses raros casos não mudam a regra geral de que mulheres com imunidade prévia não precisam continuar sendo testadas para toxoplasmose na gestação, mas embasam a recomendação de orientar medidas de prevenção contra infecção para todas as gestantes, independentemente do status sorológico [6]. O Quadro 1 a seguir contém as orientações de prevenção primária para a infecção [3]. Quadro 1 – Prevenção primária de toxoplasmose • Higienizar corretamente as mãos antes das refeições, após manusear lixo, após o contato com animais, após manipular alimentos e sempre que necessário. Ao manipular carnes cruas, procurar usar luvas. • Evitar manusear terra ou solo e, caso necessário, utilizar luvas e higienizar as mãos após a atividade. • Consumir apenas água filtrada ou fervida, manter os reservatórios de água bem fechados. • Higienizar frutas, legumes e verduras em água corrente antes do consumo, conforme a seguir: Selecionar os alimentos, retirando partes deterioradas e/ou sem condições adequadas. Lavar os alimentos, um a um, em água potável corrente. Desinfetar por meio da imersão em solução clorada com 200 ppm de cloro, o equivalente a 1 colher de sopa de água sanitária para 1 litro de água, por 10 minutos. Lavar os alimentos novamente, um a um, em água potável corrente. Manter os alimentos refrigerados até a hora do consumo. • Dar preferência para carnes congeladas. O Ministério da Saúde recomenda que a carne seja congelada por vários dias, a pelo menos 12°C negativos. Porém, esse não é o método mais confiável de matar os cistos teciduais, pois, na prática, não é garantido o alcance dessas temperaturas em condições usuais. O congelador da geladeira não atinge essas temperaturas, somente o freezer [2,3,7,8]. • Higienizar tábuas de corte, facas, balcões e pia após a preparação dos alimentos. • Evitar contaminação cruzada de alimentos crus com alimentos cozidos. • Não consumir qualquer tipo de carne crua (gado, frango, porco, peixe, frutos do mar, entre outros), mal cozida ou mal passada e não provar a carne crua durante seu preparo. Cozinhar a carne até perder completamente a cor avermelhada. • Evitar ingerir carnes defumadas ou curadas em salmoura (embutidos – salame, copa, linguiça). • Não consumir leite e seus derivados crus, não pasteurizados, seja de vaca ou de cabra. • Controlar vetores e pragas (ratos, moscas, baratas e formigas), descartando corretamente o lixo doméstico e os dejetos de animais. • Evitar o contato com cães que andam soltos – os cães também podem transmitir a doença ao sujar o pelo no solo onde haja fezes de gato. Convívio com gatos • Manter o gato bem alimentado com ração, não deixando que ele faça ingestão de caça ou de carne crua. • Evitar que a troca da caixa de areia de gatos domésticos seja feita pela gestante (a troca pode ser feita por outra pessoa) e, caso não seja possível, deve-se limpar e trocar a caixa diariamente, utilizando luvas e pá, além de colocá-la ao sol com frequência. • Evitar o contato com fezes de gato no lixo ou no solo e lavar bem as mãos após, se isso ocorrer. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022, 2024, 2022) e U.S. Centers for Disease Control and Prevention (2024) [2,3,7,8]. 9 Manifestações clínicas na gestante A infecção aguda na gestante é usualmente assintomática. Os sintomas, quando presentes, são inespecíficos, como febre de curta duração, calafrios, sudorese, cefaleia, mialgia, faringite, hepatoesplenomegalia, linfonodomegalia e/ou exantema maculopapular difuso e não pruriginoso. A manifestação mais comum e específica da infecção aguda é a linfonodomegalia cervical, bilateral e simétrica, que pode durar semanas. Linfonodomegalia generalizada ocorre em 20 a 30% das vezes. Os linfonodos geralmente são pequenos (menores do que 3 cm) e sem tecido de flutuação. A doença ocular (coriorretinite e uveíte posterior) pode ocorrer na infecção aguda, porém é mais comum na reativação [9]. Gestação após infecção aguda por toxoplasmose Há dados limitados sobre o tempo adequado para gestar após uma infecção aguda por toxoplasmose. Como a parasitemia é muito curta e o encistamento ocorre rapidamente em mulheres com adequada função imune, é improvável que mulheres imunocompetentes transmitam a infecção para o feto após 3 meses da infecção aguda. No entanto, recomenda-se adiar a gestação por pelo menos 6 meses [10]. A transmissão transplacentária de Toxoplasma gondii é considerada muito rara em quadros de reativação da infecção materna (gestante previamenteinfectada que apresenta reativação dos sintomas), podendo ocorrer teoricamente em mulheres imunossuprimidas. A reativação, geralmente observada pela retinocoroidite, pode ser acompanhada, ou não, por elevação dos títulos de IgG, sem a detecção de IgM. No caso de reativação de uma lesão ocular em gestante imunocompetente, o tratamento está indicado de acordo com a localização e a extensão da lesão, pois a multiplicação do parasito é localizada e sem risco significativo para o feto. Na gestante imunocomprometida, embora incomum, o feto está em risco de infecção congênita, e a gestante deve ser tratada até o parto [3]. É indicado oferecer a triagem rotineira para toxoplasmose para gestantes imunodeprimidas ou vivendo com HIV/Aids, independentemente do perfil sorológico prévio [2]. Diagnóstico na gestante O diagnóstico de toxoplasmose é laboratorial, visto que os sintomas da doença costumam ser inespecíficos [1]. Os métodos diagnósticos da toxoplasmose gestacional se baseiam principalmente em métodos indiretos (sorologias), podendo ser necessária a complementação por métodos de detecção direta do toxoplasma (biologia molecular - RT-PCR). Os métodos indiretos disponíveis no Brasil para a detecção de IgG, IgM, IgA e avidez de IgG para toxoplasmose são: ensaio imunoenzimático (ELISA), ensaio imunoenzimático de micropartículas (MEIA), quimioluminescência e eletroquimioluminescência, e imunoensaio fluorescente ligado a enzima (ELFA) [11]. A triagem para toxoplasmose em papel filtro (IgG quantitativo e IgM por captura), disponível em alguns estados brasileiros, deve ser confirmada em soro [12]. 10 O diagnóstico pode ser complexo, pois o anticorpo IgM pode permanecer positivo por anos após um quadro de infecção aguda. A suspeita diagnóstica de toxoplasmose na gravidez é mais acurada quando o anticorpo IgM é interpretado a partir do conhecimento sorológico prévio de IgG e IgM, idade gestacional que o exame foi realizado, resultado do anticorpo IgG e teste de avidez ao IgG (quando sua realização é necessária). Deve-se sempre considerar sorologias realizadas previamente à gestação na interpretação dos exames atuais [1,2]. A cinética da produção de anticorpos é apresentada no Quadro 2. Quadro 2 - Cinética da produção de anticorpos na infecção por toxoplasmose Na gestação IgM Sua produção se inicia 1 a 2 semanas após a infecção aguda, com pico de produção em 1 a 2 meses. O padrão de queda da IgM é mais acentuado nos primeiros meses após a infecção aguda, mas se observam casos nos quais a IgM se mantém positiva em títulos baixos (IgM residual) por 18 meses ou mais. Embora a detecção de IgM apresente elevada sensibilidade, a especificidade apresenta ampla variação, podendo resultar em exames falso-positivos. IgA O padrão do comportamento da IgA é semelhante ao de IgM. Detectável em cerca de 80% dos casos e permanece reagente por 3 e 6 meses, apoiando o diagnóstico de infecção aguda. IgG O início da produção de IgG segue-se à produção de IgM, aparecendo 2 semanas após a positivação da IgM. O pico da produção ocorre em 2 a 3 meses, e o padrão de queda é lento e muito variável no primeiro ano após a infecção, podendo permanecer por títulos baixos por toda a vida. Um título crescente de IgG é outro fator a ser considerado no diagnóstico de provável infecção recente versus infecção crônica. Um aumento de 2 vezes ou mais no título de IgG em 2 amostras sequenciais obtidas com 3 semanas de intervalo, testadas no mesmo laboratório com a mesma técnica, é sugestivo de infecção recente. Teste de avidez de IgG Auxilia no diagnóstico temporal da infecção materna quando realizado até 16 semanas de gestação. Os valores percentuais para definir se a avidez é alta, baixa ou intermediária dependem do kit comercial utilizado, não sendo possível definir um valor padrão. - Alta avidez: indica que os anticorpos foram produzidos há mais de 4 meses. O teste de avidez, quando realizado a partir da 16º semana, não consegue distinguir de maneira segura se a infecção foi adquirida antes ou no início da gestação. - Baixa avidez: Associada a elevados títulos de IgM e IgG, é fortemente sugestiva de infecção adquirida na gestação. No entanto, a avidez dos anticorpos de IgG pode permanecer baixa por mais tempo em alguns casos, sendo observada em até 15% de pacientes com infecção antiga e, às vezes, até um ano após a infecção aguda por T. gondii. - Indeterminada: não é possível afastar infecção na gestação, seguindo a mesma conduta realizada para o teste de baixa avidez. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022, 2024) e Petersen e Mandelbrot (2024) [2,3,10]. De acordo com a interpretação do resultado dos exames sorológicos, os casos são classificados em suspeitos, prováveis, confirmados e descartados de toxoplasmose gestacional (Quadro 3) [3]. Todo o caso suspeito, provável ou confirmado de infecção aguda adquirida na gestação deve ser notificado no SINAN. 11 Quadro 3 – Definições de caso para toxoplasmose adquirida durante a gestação Caso suspeito - Gestante que apresentar IgM reagente ou indeterminado. - Gestante que apresentar história clínica compatível com toxoplasmose adquirida após a concepção. - Gestante que apresentar ultrassonografia obstétrica sugestiva de toxoplasmose congênita. - Gestante identificada em situações de surto de toxoplasmose. Caso provável Caso suspeito que apresentar: - Resultado de anticorpos IgM e IgG reagentes, com avidez de IgG baixa ou intermediária em qualquer idade gestacional. - Títulos ascendentes de anticorpos IgG em amostras seriadas com intervalo mínimo de 2 semanas e IgM reagente. - Primeira sorologia realizada após 16 semanas de idade gestacional com resultado para anticorpos IgG em nível elevado (acima de 300 UI/dL ou de acordo com a metodologia utilizada) e IgM reagente. Caso confirmado Caso suspeito que apresentar: - Soroconversão de anticorpos IgG e IgM durante o período gestacional. - Detecção de DNA do Toxoplasma gondii em amostra de líquido amniótico, em tecido placentário, fetal ou de órgãos (exame anatomopatológico, cultivo de tecido ou bioensaio). - Mãe de criança que teve toxoplasmose congênita confirmada. Caso descartado Caso suspeito que apresentar: - IgG reagente mais de 3 meses antes da concepção (considera-se IgM residual, portanto, gestante com infecção crônica, anterior à gestação). - Alta avidez de IgG coletada até 16 semanas de gestação. - Duas amostras de IgG negativas com intervalo de 2 a 3 semanas, apesar de IgM reagente (resultado falso-positivo para IgM, portanto, considerar gestante suscetível). Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [3]. Conduta durante o pré-natal na APS Conforme a interpretação sorológica, serão definidos os cuidados específicos pré-natais e a necessidade de encaminhar para o serviço especializado em pré-natal de alto risco. A conduta para gestantes imunocompetentes é sumarizada no Quadro 4. 12 12 Quadro 4 – Interpretação e conduta da sorologia para toxoplasmose em gestantes imunocompetentes Atenção: Diante de resultados indeterminados de IgG e/ou IgM, repetir o exame em 2 a 3 semanas. Se possível, utilizar um teste mais sensível e confiável (ELFA, preferencialmente, ou ELISA). SITUAÇÃO RESULTADOS INTERPRETAÇÃO e CONDUTA IgG IgM INTERPRETAÇÃO CONDUTA Primeira sorologia até 16 semanas Reagente Não Reagente Infecção ocorrida há mais de 6 meses: adquirida antes da gravidez. Não solicitar nova sorologia. Manter orientações para prevenção da infecção. Indetermin ado Não Reagente Gestante suscetível ou infecção anterior à gestação. Repetir a sorologia IgG e IgM em 2 a 3 semanas, (ELFA, preferencialmente, ou ELISA). Se o resultado nessa nova amostra for IgG reagente e IgM persistir não reagente: considerar infecção anterior à gestação. Não Reagente Não Reagente Gestante suscetível. Repetir sorologia a cada 1 a 3 meses e no parto.Caso a gestante persista soronegativa, realizar a última sorologia 2 a 4 semanas após o parto. Reagente Reagente Possibilidade de infecção durante a gestação. Iniciar tratamento com espiramicina¹. Notificar o caso no SINAN. Solicitar teste de avidez para IgG (preferencialmente na mesma amostra, ou nova coleta o mais rapidamente possível, até 16 semanas). A realização do teste de avidez para IgG após 16 semanas não permite a confirmação ou exclusão da infecção aguda. ● Se avidez forte/alta: provável infecção anterior à gestação. Suspender tratamento com espiramicina. Manter pré-natal de risco na APS. Não há necessidade de repetir sorologia. ● Se avidez fraca/baixa, moderada ou intermediária: possibilidade de infecção adquirida na gestação. Avaliar valores de IgG e IgM: Se IgG e IgM em índices muito baixos, próximos do valor de referência do laboratório: É possível que seja IgM residual. A baixa avidez também pode persistir por longo tempo em alguns casos. Repetir sorologia IgG e IgM após 2 a 3 semanas. Se na nova amostra IgG persistir com índices muito baixos e estáveis: discutir caso com Centro de Referência. Na impossibilidade de discutir com centro de referência, considerar provável infecção aguda e proceder conforme IgG e IgM reagentes. Se IgG e IgM fortemente reagentes ou em elevação: provável infecção aguda: manter espiramicina até amniocentese. Na impossibilidade de realizar amniocentese para avaliar infecção fetal (após 18 semanas de gestação), substituir espiramicina por esquema tríplice2 a partir de 16 semanas e manter até o parto. Encaminhar ao pré-natal de alto risco. Realizar ecografia mensal ou bimensal. Se a infecção fetal for confirmada no primeiro trimestre de gestação (alteração na ultrassonografia fetal), o que é raro: – antes de 14 semanas de gestação: trocar para apenas sulfadiazina³; – a partir de 14 semanas de gestação: iniciar diretamente com esquema tríplice² ou acrescentar pirimetamina + ácido folínico, se já estiver usando a sulfadiazina. 13 13 IgG IgM INTERPRETAÇÃO CONDUTA Não Reagente Reagente Infecção muito recente ou IgM falso positivo. Iniciar tratamento com espiramicina¹. Notificar o caso no SINAN. Repetir sorologia IgG e IgM em 2 a 3 semanas: ● Se IgG permanecer não reagente: falso-positivo de IgM. Suspender tratamento. Repetir sorologia após 1 mês. Se sorologia persistir inalterada, considerar a gestante suscetível: repetir a sorologia a cada 1 a 3 meses e no parto. ● Se IgG e IgM reagentes: confirma infecção aguda. Manter o tratamento com espiramicina até amniocentese. Na impossibilidade de realizar amniocentese (após 18 semanas de gestação) para avaliar infecção fetal, substituir espiramicina por esquema tríplice² a partir de 16 semanas e manter até o parto. Além disso: Encaminhar ao pré-natal de alto risco. Realizar ecografia mensal ou bimensal. Se a infecção fetal for confirmada no primeiro trimestre de gestação (alteração na ultrassonografia fetal), o que é raro: -Reagente Infecção muito recente ou IgM falso-positivo. Encaminhar ao pré-natal de alto risco. Notificar o caso no SINAN. Iniciar tratamento com espiramicina¹. Repetir sorologias IgG e IgM em 2 a 3 semanas: ● Se IgG e IgM reagentes: confirma infecção aguda (soroconversão). Encaminhar ao pré-natal de alto risco. Realizar ecografia mensal ou bimensal. Até 16 semanas de gestação: manter tratamento com espiramicina até realização da amniocentese com 18 semanas de gestação. Se não for possível realizar amniocentese, substituir espiramicina por esquema tríplice e manter até o parto. A partir de 16 semanas de gestação: trocar tratamento para esquema tríplice² até a realização da amniocentese. Se não for possível realizar amniocentese, manter esquema tríplice até o parto. As infecções adquiridas nos últimos meses da gestação têm elevada taxa de transmissão, motivo pelo qual a amniocentese pode ser dispensada no último trimestre de gestação, pois, independente do seu resultado, o feto deverá ser tratado com esquema tríplice até o parto. ● Se IgG permanecer não reagente, mesmo com IgM reagente (ou não reagente): IgM falso-positivo. Suspender tratamento com espiramicina. Repetir sorologia conforme gestantes suscetíveis, a cada 1 a 3 meses e no parto. Caso a gestante persista soronegativa, realizar última sorologia 2 a 4 semanas após o parto. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022) [1]. SINAN: Sistema de Informação de Agravos de Notificação. ¹Espiramicina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h (nome comercial: Rovamicina® comprimido revestido com 1,5 MUI, que corresponde a 500 mg de espiramicina). ²Esquema tríplice: Pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos, 1x/dia + Sulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h ou 3 comprimidos, 12/12 h + Ácido Folínico 15 mg, 1x/dia. Atenção: ácido fólico não deve substituir o ácido folínico, que deverá ser usado até 1 semana após a suspensão da pirimetamina. ³Sulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h ou 3 comprimidos, 12/12 h. ⁴Neste caso, mesmo que tenha ocorrido infecção na gravidez, o benefício do tratamento é duvidoso, devido ao grande tempo transcorrido desde a infecção até o diagnóstico. 16 16 Tratamento da gestante O tratamento da toxoplasmose está indicado quando ocorre suspeita ou confirmação de infecção aguda na gravidez. O início de tratamento precoce após a infecção materna, idealmente em até 3 semanas, diminui os riscos de infecção fetal [8,13,14]. Quando houver achados compatíveis com infecção fetal, como PCR positivo na amniocentese e/ou alterações sugestivas na ultrassonografia obstétrica (microcefalia, hidrocefalia, calcificações cerebrais, catarata, hepatomegalia), ou quando a gestante for diagnosticada com infecção aguda após 16 semanas de gestação, o esquema tríplice está indicado [2,10,15–17]. Nas situações em que for descartada infecção fetal por PCR em líquido amniótico negativo e que a ultrassonografia fetal estiver normal, considerar retornar com a espiramicina, que deve ser mantida até o parto [2,15,17]. O esquema terapêutico indicado está no Quadro 5. Quadro 5 – Esquemas de tratamento da toxoplasmose gestacional Gestação com menos de 16 semanas Espiramicina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h Não cruza a barreira placentária. Tem objetivo de reduzir o risco de infecção fetal. Está indicada em gestações com menos de 16 semanas ou naquelas com 16 semanas ou mais quando houver exclusão de infecção fetal*. Trocar para esquema tríplice a partir de 16 semanas, se ainda não foi descartada infecção fetal. Efeitos adversos: geralmente bem tolerada, mas pode ocorrer náusea, vômito, diarreia e reações cutâneas. Monitorização laboratorial: não é necessária. Gestação com 16 semanas ou mais Esquema tríplice: Sulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h ou 3 comprimidos, 12/12 h + Pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos, 1x/dia + Ácido folínico1 15 mg, 1 comprimidos, 1x/dia. Cruza a barreira placentária. Não deve ser administrado antes de 16 semanas de gestação, pelo risco de teratogenicidade. Está indicado para infecção materna suspeita ou confirmada em gestações com 16 semanas ou mais. Deve ser usado ininterruptamente até o parto. Efeitos adversos: A pirimetamina é um antagonista do ácido fólico, podendo provocar supressão medular com anemia, leucopenia e trombocitopenia. O esquema tríplice também é bem tolerado, mas podem ocorrer náuseas, vômitos, dor abdominal, anorexia e sensação de boca amarga. Esses sintomas não impedem o tratamento. Reações cutâneas como exantemas papulares, vesiculares e bolhosos podem ocorrem em 2 a 3% dos casos, mas é muito raro o desenvolvimento da Síndrome de Stevens-Johnson. A sulfadiazina pode provocar hemólise na presença de deficiência de G6PD. Monitorização laboratorial: hemograma com plaquetas quinzenalmente. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022), Petersen e Mandelbrot (2024), Mandelbrot (2020), Ahmed et al. (2020), Paquet e Yudin (2018), Goldstein (2023) e Prusa et al. (2015) [2,10,13,15–18]. *Exclusão de infecção fetal pode ser confirmada por PCR negativa em líquido amniótico negativo e por ultrassonografias mensais sem alterações características de infecção fetal. 1 Ácido fólico não deve substituir ácido folínico, que deve ser administrado até uma semana após a suspensão da pirimetamina. 17 17 Se intolerância ao uso do esquema padrão ou desabastecimento da rede de pirimetamina ou sulfadiazina, é possível utilizar esquemas alternativos, conforme Quadro 6 [19]: Quadro 6 – Esquemas alternativos de tratamento para toxoplasmose na gestação Terapia padrão 2ª escolha 3ª escolha 4ª escolha Espiramicina 500mg 2 comprimidos, 8/8 h Nenhuma opção disponível. Outras drogas não foram estudadas para uso no 1º trimestre de gestação. A azitromicina, embora possa ser utilizada no 1º trimestre, não foi avaliada para toxoplasmose. Sulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h MAIS Pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos, 1x/dia MAIS Ácido folínico 15 mg, 1 comprimido, 1x/dia, durante todo o período de uso da pirimetamina, até uma semana após sua interrupção. Essa opção não é disponível no Brasil. Sulfadoxina 500 mg (Fansidar®) MAIS Pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos, 1x/semana MAIS Ácido folínico 15 mg, 1 comprimido, 1x/dia. Sulfametoxazol + Trimetoprima (400/80 mg, 2 comprimidos ou 800/160 mg, 1 comprimido), de 12/12 h. MAIS Espiramicina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 h. Azitromicina 500 mg, meio comprimido, 1x/dia; MAIS Pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos, 1x/dia MAIS Ácido folínico 15 mg, 1 comprimido, 1x/dia, durante todo o período de uso da pirimetamina, até uma semana após sua interrupção. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2020) [19]. TOXOPLASMOSE CONGÊNITA Repercussões fetais da toxoplasmose congênita O acometimento fetal pelo toxoplasma pode ter gravidade variável. A maioria dos recém-nascidos é assintomática, e apenas 10 a 30% das crianças apresentam alguma manifestação clínica ao nascimento ou no início da infância [20]. Alterações oculares são as lesões congênitas mais frequentes, correspondendo a 70% das afecções, sendo mais comum a retinocoroidite. As lesões neurológicas são as mais graves, sendo calcificações intracranianas e hidrocefalia as mais comumente encontradas. Menos frequentemente ocorrem manifestações sistêmicas e hemodinâmicas. A toxoplasmose na gestação pode, ainda, ocasionar perda fetal, natimortalidade e prematuridade [2]. As principais repercussões fetais estão descritas no Quadro 7. 18 18 Quadro 7 – Repercussões fetais de toxoplasmose congênita Alterações ecográficas - Oligodrâmnio. - Polidrâmnio ou hidropisia. - Calcificação e densidades intracranianas, geralmente bilateral e simétrica. - Dilatação ventricular. - Hidrocefalia. - Ascite. - Alterações da ecotextura hepática e esplênica fetal. - Placentomegalia. - Restrição de crescimento. - Hidropsia.Alterações neurológicas - Microcefalia. - Ventriculomegalia. - Surdez neurossensorial. - Encefalomalácia. - Porencefalia. - Calcificações cerebrais. - Convulsões. Alterações oftalmológicas - Retinocoroidite. - Atrofia do nervo óptico. - Microftalmia. - Paralisia ocular. - Catarata. - Estrabismo. Manifestações sistêmicas - Hepatoesplenomegalia. - Trombocitopenia. - Insuficiência cardíaca. - Derrame pericárdico. - Restrição de crescimento. Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022), Petersen e Mandelbrot (2024) e Goldstein (2023) [2,10,17]. Diagnóstico de infecção fetal durante a gestação A transmissão ocorre, na maioria dos casos, durante a fase de parasitemia, alguns dias após a infecção materna e antes do desenvolvimento de resposta sorológica [10]. Quando disponível, ofertar para gestantes com infecção aguda a pesquisa do Toxoplasma gondii em reação em cadeia da polimerase (PCR) no líquido amniótico por meio de amniocentese, a partir da 18ª semana de gestação e após pelo menos 4 semanas da data estimada da soroconversão materna, para investigar infecção fetal [1]. A ausência do parasita na placenta não descarta o caso, visto que a sensibilidade da pesquisa de DNA de T. gondii por PCR no líquido amniótico é de aproximadamente 70%. Assim, para gestantes que estiverem em uso de esquema tríplice, se a PCR vier negativa, o tratamento não deve ser suspenso, mas orienta-se a troca do esquema para a espiramicina, que será mantida até o parto [1]. 19 19 Também é indicado, se suspeita de infecção aguda, o acompanhamento com ultrassonografia obstétrica mensal ou bimensal, principalmente nos casos em que a amniocentese estiver indisponível, para avaliação de surgimento ou progressão de alterações fetais sugestivas de toxoplasmose congênita (Quadro 7) [1]. Diagnóstico de infecção congênita Os recém-nascidos (RN) de mães com diagnóstico ou suspeita de toxoplasmose na gestação devem ser investigados para toxoplasmose congênita ainda na maternidade, sem necessidade de aguardar o resultado do teste de triagem neonatal de toxoplasmose [1]. O teste de triagem neonatal para toxoplasmose (pesquisa de IgM por método de captura em sangue capilar seco transportado em papel filtro) não é diagnóstico, e o resultado precisa ser confirmado por testes sorológicos sensíveis e específicos. Pela sua elevada sensibilidade, ele pode apresentar resultados falso- positivos. Em infecções fetais adquiridas no primeiro trimestre de gestação ou no tratamento materno prolongado, pode apresentar resultados falso-negativos, situações essas em que mesmo a IgM realizada no soro pode ser negativa. Se manifestações clínicas sugestivas de infecção congênita (Quadro 7), a toxoplasmose deve ser investigada mesmo diante de um teste de triagem neonatal negativo [1]. Portanto, RN com suspeita de toxoplasmose congênita deve prosseguir a investigação para confirmação diagnóstica (Quadro 8): Quadro 8 – A avaliação de caso suspeito de toxoplasmose congênita Casos suspeito de toxoplasmose congênita - Notificar todo caso suspeito no SINAN. - Mãe com infecção aguda na gestação (provável ou confirmada); ou - RN ou lactente com sinais e sintomas de toxoplasmose congênita, ou alterações em exames fetais ou no pós-parto; - RN com triagem neonatal/teste do pezinho reagente para IGM de toxoplasmose. ○ Neste caso, se criança assintomática, antes de proceder com a avaliação completa, solicitar sorologias pareadas na mãe e RN. Avaliação recomendada - Sorologia simultânea na mãe e filho (Mãe: IgG e IgM; RN: IgG, IgM e, se possível, IgA). ○ Repetir em 2 semanas após o nascimento e a cada 1 a 2 meses até completar 1 ano de idade. - Avaliação oftalmológica (com exame de fundo de olho). - Avaliação auditiva (PEATE). - Ultrassom transfontanelar ou TC de crânio (sem contraste). - Hemograma. - Líquor (bioquímica e celularidade), se alterações neurológicas clínicas ou em exame de imagem. - Em crianças sintomáticas: avaliar função hepática e descartar outras infecções congênitas (sífilis, citomegalovirose, rubéola). Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2022, 2018, 2014) [1,11,21]. A confirmação da infecção congênita é feita por testes sorológicos em amostras de sangue do recém- nascido. A presença de anticorpos IgM e/ou IgA no sangue do recém-nascido confirma infecção congênita, pois essas duas classes de imunoglobulinas não atravessam a barreira transplacentária. Apesar disso, exames 20 20 negativos não excluem o diagnóstico. O monitoramento clínico e avaliação sorológica devem ser feitos até um ano de vida [11,21]. O IgG materno atravessa a barreira placentária e pode persistir reagente no sangue do RN por 12 meses. A diminuição dos níveis de IgG específicos pode ser utilizada como critério de exclusão de infecção; já o seu aumento ou persistência após 12 meses são critérios de confirmação de infecção congênita [21]. Tratamento da toxoplasmose congênita O início do tratamento para toxoplasmose no recém-nascido/lactente está indicado nas seguintes situações [1]: ● Sorologia IgM e/ou IgA da criança reagente, no primeiro semestre de vida. ● Sorologia IgG da criança reagente e quadro clínico sugestivo de toxoplasmose congênita. ● Sorologia IgG da criança crescente ou estável nos primeiros meses de vida. ● Diagnóstico de toxoplasmose fetal (PCR positiva no líquido amniótico ou ecografia fetal compatível com toxoplasmose). Quadro 9 – Tratamento da toxoplasmose congênita durante o primeiro ano de vida Medicamento Posologia Efeitos adversos e monitoramento Sulfadiazina 500 mg* comprimido 100 mg/kg/dia, 12/12 h, durante 1 ano. Neutropenia, anemia, trombocitopenia, hiperbilirrubinemia, reações de hipersensibilidade, intolerância gastrointestinal, cristalúria, erupção cutânea. Recomenda-se observar cuidadosamente a icterícia clínica e monitorar os níveis de bilirrubina. Monitoramento indicado: Hemograma semanal nos primeiros 2 meses. Se neutrófilos estáveis, espaçar para hemograma quinzenal por mais 2 meses e, a seguir, mensal até o final do tratamento. Pirimetamina 25 mg* comprimido 1 mg/kg/dia, 1x/dia, por 2 a 6 meses. Depois, 1mg/kg/dia, 3x/semana, até completar 1 ano de utilização do medicamento. Ácido folínico 15 mg* comprimido 10 mg, 3x/semana. Na ocorrência de neutropenia: - Se[22]: ● Pacientes imunossuprimidas com sintomas de toxoplasmose aguda/ reativada; ou ● Pacientes com suspeita de toxoplasmose com lesão de órgão-alvo (como coriorretinite, miocardite, meningoencefalite, pneumonite ou miosite). 22 22 REFERÊNCIAS 1. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Saúde Materno Infantil, Coordenação-Geral de Saúde Perinatal e Aleitamento Materno. Nota Técnica no 100/2022-CGPAM/DSMI/SAPS/MS. Diretriz nacional para a conduta clínica, diagnóstico e tratamento da toxoplasmose adquirida na gestação e toxoplasmose congênita. [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a- z/t/toxoplasmose/arquivos/diretriz-nacional-para-a-conduta-clinica-diagnostico-e-tratamento-da- toxoplasmose-adquirida-na-gestacao-e-toxoplasmose-congenita. 2. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Ações Programáticas, Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. 3. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6. ed. Vol. 1. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024. 4. Dubey JP. Long-term persistence of Toxoplasma gondii in tissues of pigs inoculated with T gondii oocysts and effect of freezing on viability of tissue cysts in pork. Am J Vet Res. 1988;49(6):910–3. 5. Centers for Disease Control and Prevention. Toxoplasmosis (toxoplasma infection): biology [Internet]. Georgia: CDC; 2022 [citado 28 de outubro de 2024]. Disponível em: https://www.cdc.gov/dpdx/toxoplasmosis/index.html. 6. Wilson CB, Nizet V, Maldonado YA, Jack S. Remington, Klein JO. 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