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1 Disciplina: Teoria do currículo Autora: M.e Kellin Cristina Melchior Inocêncio Revisão de Conteúdos: M.e Leandra Martins Designer Instrucional: Sérgio Antonio Zanvettor Júnior Revisão Ortográfica: Esp. Alexandre Kramer Morgentem Ano: 2020 Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade UNINA. O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais. 2 Kellin Cristina Melchior Inocêncio Teoria do currículo 1ª Edição 2020 Curitiba, PR Faculdade UNINA 3 Faculdade UNINA Rua Cláudio Chatagnier, 112 Curitiba – Paraná – 82520-590 Fone: (41) 3123-9000 Coordenador Técnico Editorial Marcelo Alvino da Silva Conselho Editorial D.r Alex de Britto Rodrigues / D.ra Diana Cristina de Abreu / D.r Eduardo Soncini Miranda / D.ra Gilian Cristina Barros / D.r João Paulo de Souza da Silva / D.ra Marli Pereira de Barros Dias / D.ra Rosi Terezinha Ferrarini Gevaerd / D.ra Wilma de Lara Bueno / D.ra Yara Rodrigues de La Iglesia Revisão de Conteúdos Leandra Martins Designer Instrucional Sérgio Antonio Zanvettor Júnior Revisão Ortográfica Alexandre Kramer Morgentem Desenvolvimento Iconográfico Juliana Emy Akiyoshi Eleutério FICHA CATALOGRÁFICA INOCÊNCIO, Kellin Cristina Melchior. Teoria do currículo / Kellin Cristina Melchior Inocêncio. – Curitiba: Faculdade UNINA, 2020. 94 p. ISBN: 978-65-990214-4-2 1. Dinamização. 2. Organização. 3. Planejamento. Material didático da disciplina de Teoria do currículo – Faculdade UNINA, 2020. Natália Figueiredo Martins – CRB 9/1870 4 PALAVRA DA INSTITUIÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) à Faculdade UNINA! Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier, nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão Universitária. A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e comunidade de estar sempre sintonizada no objetivo de participar do desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas também brasileiros conscientes de sua cidadania. Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações, plantão de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais e grupos de estudos o que proporciona excelente integração entre professores e estudantes. Bons estudos e conte sempre conosco! Faculdade UNINA 5 Sumário Prefácio.......................................................................................................... 07 Aula 1 – O currículo ....................................................................................... 08 Apresentação da Aula 1 ................................................................................ 08 1.1 - Concepções e histórico do currículo ............................................... 08 1.2 - Aspectos históricos e culturais que permeiam o currículo ............... 12 1.3 - As dimensões da reflexão, da estratégia e da ação no currículo .... 14 Conclusão da aula 1 ...................................................................................... 16 Aula 2 – Caracterização e fundamentos do currículo ..................................... 17 Apresentação da aula 2 ................................................................................. 17 2.1 - Caracterização e fundamentos do currículo .................................... 17 2.2 - Como pode ser visto, vivido e caracterizado um currículo? ............. 19 2.3 - Os fundamentos curriculares .......................................................... 22 2.4 - Analisando e refletindo sobre o currículo como proposta ................ 23 Conclusão da aula 2 ...................................................................................... 26 Aula 3 – Processo metodológico da organização curricular ........................... 27 Apresentação da aula 3 ................................................................................. 27 3.1 - Refletindo sobre a organização curricular ....................................... 27 3.2 - O currículo disciplinar linear ............................................................ 30 3.3 - O currículo integrado ...................................................................... 32 3.4 - Regime seriado e regime ciclado .................................................... 33 3.5 - O Projeto Político Pedagógico na organização curricular .............. 36 Conclusão da aula 3 ...................................................................................... 38 Aula 4 – A relação entre currículo e cultura escolar ....................................... 38 Apresentação da Aula 4 ................................................................................ 38 4.1 - A cultura e a cultura escolar ............................................................ 38 4.2 - As diversas influências sobre a cultura escolar ............................... 42 4.3 - Cultura escolar e o currículo ........................................................... 43 Conclusão da aula 4 ...................................................................................... 45 Aula 5 – O currículo e a organização do trabalho pedagógico ........................ 46 Apresentação da aula 5 ................................................................................. 46 5.1 - A gestão democrática e o currículo ................................................. 46 5.2 - A sala de aula, o professor e o currículo ......................................... 49 5.3 - O currículo tradicional ..................................................................... 51 5.4 - O currículo escolanovista ............................................................... 53 6 5.5 - O currículo tecnicista ...................................................................... 55 Conclusão da aula 5 ...................................................................................... 57 Aula 6 – O currículo, a escola e algumas políticas que o embasam ............... 58 Apresentação da aula 6 ................................................................................. 58 6.1 - A escola brasileira e a equidade ..................................................... 58 6.2 - A relevância das políticas curriculares ............................................ 61 6.3 - PCN – (Parâmetros Curriculares Nacionais) ................................... 63 6.4 - RCN – (Referencial Curricular Nacional) ........................................ 66 6.5 - Uma escola sem políticas curriculares: é possível? ........................ 68 Conclusão da aula 6 ...................................................................................... 70 Aula 7 – O currículo como construção do conhecimento ............................... 71 Apresentação da aula 7 ................................................................................. 71 7.1 - Concepções e perspectivas curriculares: as opções teóricas ......... 71 7.2 - Vamos falar sobre o processo de conhecimento? ........................... 74 7.3 - Quais as relações que existem entre a construção do conhecimento e o currículo? ..........................................................................a cultura escolar e o currículo. Nesse pensamento precisamos compreender que a escola é um ambiente riquíssimo de cultura e que, necessariamente, a comunidade escolar contribui para a aquisição e transformações culturais, relacionando assim a comunidade, a comunicação entre ela e a instituição, a escola e o sistema educativo, bem como as práticas escolares. 40 Importante A cultura escolar envolve diversos e significativos aspectos que vão muito além de questões burocráticas e de conteúdo para a formação da criança. A escola é composta pelos programas curriculares e educacionais que determinam e orientam as questões que envolvem o processo de ensino-aprendizagem, assim, naturalmente, a formação global do educando e, também a cultura que envolve diretamente os resultados atingidos por ações realizadas pela instituição escolar, colocando assim a cultura escolar como indispensável ao homem moderno e que vive em uma sociedade democrática e ativa. Nessa perspectiva, a escola seguramente se relaciona com uma cultura social e, até mesmo, com um cunho maternal e assistencial. Mas isso não significa que ela deixe de ser escola, de ser uma instituição de educação formal, para então, tornar-se uma organização social. Por isso, é relevante que tenhamos sempre em mente que a cultura está diretamente relacionada as ações que acontecem diariamente no chão da escola, contemplando as estratégias e desenvolvimento dentro e fora da sala de aula, independentemente de estarem relacionadas a um ou outro aspecto escolar, ou seja, a gestão, a sala de aula, ao currículo e assim sucessivamente, uma vez que contemple as estratégias Nessa vertente, a cultura escolar se distancia de uma função meramente de englobar os distintos valores, mas sim englobar as ideias e as diferentes maneiras de planejar, fazer, recriar e refazer a escola como um todo, envolvendo toda a comunidade escolar, além dos aspectos sociais, afetivos, emocionais e dos conteudistas. Da mesma maneira, a comunicação, não somente oral, mas as diversas maneiras de se comunicar no ambiente escolar, estão inclusas nesse processo cultural da educação, abrangendo os discursos e, até mesmo, os pensamentos e as ações. Dessa forma caro aluno, esse comunicar, pensar, planejar, agir e reconstruir estão interligados com a educação formal e com todo o processo de ensino, alterando as relações e construções sociais. 41 Saiba mais Vamos aprofundar os conhecimentos adquiridos até o momento lendo o livro Escola e Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar de Jean-Claude Forquin. Outro ponto significativo, é observarmos que alguns autores se diferem quanto a concepção de cultura escolar, porém, há pontos que, seguramente se entrelaçam. Vamos acompanhar na tabela abaixo a visão de dois relevantes autores e estudiosos dessa temática: Cultura escolar segundo Viñao Frago (1998, p. 169) Ideias, pautas e práticas relativamente consolidadas, como modo de hábitos. Os aspectos organizativos e institucionais contribuem [...] a conformar uns ou outros modos de pensar e atuar e, por sua vez, estes modos conformam as instituições num outro sentido. Cultura escolar segundo Forquin (1993, p. 168) Conjunto de características do cotidiano. A cultura escolar é o mundo humanamente construído, mundo das instituições e dos signos no qual, desde a origem, se banha o indivíduo humano, tão somente por ser humano, e que constitui como que sua segunda matriz. As diferentes visões de cultura escolar Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Dessa maneira, é possível perceber que tudo aquilo que permeia o ambiente escolar, que gera comunicação, que se relaciona com as atividades dos partícipes da educação e que, naturalmente, interfere na construção e reconstrução das relações estabelecidas na instituição escolar e também nos processos de ensino-aprendizagem, se entrelaçam a cultura e, certamente, as questões curriculares que permeiam a educação básica. Saiba mais A cultura escolar organiza didaticamente a base que trabalham professores e alunos? Isso mesmo! Esse pensamento também é embasado nos aportes teóricos de Forquin (1993), e, envolvem, seguramente, a cultura humana, 42 científica e de massas. E a escola nesse envolvimento coletivo se transforma por meio de seus processos pedagógicos, determinado como mundo social da escola. O mundo social da escola, por sua vez, é o conjunto de “características de vida próprias, seus ritmos e ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus modos próprios de regulação e de transgressão, seu regime próprio de produção e de gestão de símbolos” (FORQUIN, 1993, p. 167). 4.2 As diversas influências sobre a cultura escolar Seguindo acerca do currículo e a cultura escolar, embasados em um conceito de cultura escolar que se entrelaça com as questões históricas e também com as normativas curriculares, bem como com a relação entre teoria e prática e as relações sociais que permeiam a escola, pode-se, seguramente, perceber que há influências significativas que interferem na cultura do ambiente escolar, afinal, ela é um conjunto, a soma de vários fatores que se entrelaçam e permitem a troca e a construção de saberes acadêmicos, experiências empíricas e os envolvimentos comportamentais. A tabela abaixo explanará alguns aspectos que exercem influência sobre a cultura escolar, conforme transcritas acima: CULTURA CRÍTICA Alta cultura ou cultura intelectual, o conjunto de significados e produções que, nos diferentes âmbitos do saber e do fazer, os grupos humanos foram acumulando ao longo da história. CULTURA SOCIAL Conjunto de significados e comportamentos hegemônicos no contexto social, composto por valores, normas, ideias, instituições e comportamentos que dominam os intercâmbios humanos em sociedades formalmente democráticas, regidas pelas leis do livre mercado e percorridas e estruturadas pela onipresença dos poderosos meios de comunicação de massa. CULTURA INSTITUCIONAL As tradições, os costumes, as rotinas, os rituais e as inércias que a escola estimula e se esforça em conservar e reproduzir condicionam claramente o tipo de vida que nela se desenvolve e reforçam vigência de valores. CULTURA EXPERIENCIAL Configuração de significados e comportamentos que os alunos e alunas elaboram de forma particular, induzido por seu contexto, em sua vida prévia e paralela à escola, mediante os intercâmbios “espontâneos” com os meios familiares e sociais que rodeiam a sua existência. CULTURA ACADÊMICA Desde o currículo como transmissão de conteúdos disciplinares selecionados externamente à escola, desgarrados das disciplinas científicas e culturais, 43 organizados em pacotes didáticos e oferecidos explicitamente de maneira prioritária e quase exclusiva pelos livros-didáticos, ao currículo como construção e elaboração compartilhada no trabalho escolar por docentes e estudantes. A influências sobre a cultura escolar Fonte: elaborado pelo autor (2017), embasado na obra de Pérez-Gomez (2001), adaptado pelo DI (2019). Com embasamento nos conceitos propostos por Pérez-Gomez (2001), é possível perceber que diferentes aspectos culturais interferem de maneira ativa e significativa na cultura escolar, alguns com maior influência e outros com menor, porém, todos, a sua maneira, interferem e, naturalmente caro aluno, alteram questões comportamentais e curriculares que envolvem o espaço escolar. 4.3 Cultura escolar e o currículo Agora, prezado estudante, que já exploramos e conceituamos a temática da cultura escolar, vamos adentrar em particularidades significativas que envolvem o currículo e a cultura. Perceba que a cultura escolar se relaciona com tudo o que faz parte da escola e, também, com a sociedade. Reflita Será que ela, direta ou indiretamente, estáagregada às questões curriculares? É preciso refletirmos e então, de fato, constataremos uma resposta afirmativa. Seguindo esse pensamento, vamos nos remeter a escola básica brasileira que temos hoje. Reflita: “De qual maneira a cultura escolar influência nas questões curriculares ou, indo mais adiante, a cultura escolar embasa transformações curriculares”? Percebeu como uma questão está entrelaçada a outra? É nítida a relação que a cultura escolar e o currículo escolar se estabelecem. Pensando em nosso país, nas diferentes culturas e nas particularidades de cada região, somos um país riquíssimo culturalmente e, igualmente, essa pluralidade se reflete em diversos ambientes e, seguramente, no espaço da educação formal e, mais precisamente, dentro da sala de aula. Essa imensidão cultural interfere de maneira muito significativa nas questões curriculares e, de 44 fato, interferem no trabalho docente, gerando grandes desafios diários dentro da escola. Mas caro aluno, certamente há um outro olhar para a mesma situação que é justamente utilizar dessa pluralidade cultural para contemplar um currículo que auxilie na reflexão e nas transformações didático-pedagógicas, capaz de interferirem positivamente na formação integral do aluno da educação básica brasileira. Pensando nessa junção de currículo, escola, cultura e formação integral do aluno, é relevante que consideremos o currículo como um leque de opções, oportunidades e possibilidades culturais, envolvendo práticas que realmente tenham significado para o educando. Assim, caro estudante, naturalmente o currículo abordará diversas questões que vão além das conteudistas, passando pelo âmbito social, econômico e até mesmo, político. Seguindo esse pensamento, prezado estudante, pode-se nos certificar de que o currículo é essencial no processo cultural do aluno, pois ele permite essa relação significativa entre a escola, os saberes empíricos e os espaços sociais e culturais de maneira global, auxiliando na construção de seus valores e sua própria identidade. Assim, pode-se acreditar que pelo currículo as diversas culturas são manifestadas e o currículo nessa condição, não pode assumir um papel de transmissor, mas sim, de reprodutor de cultura, cultura social e cultura escolar. O currículo, prezado estudante, deve ser analisado nessa vertente, como aquele capaz de orientar e reconhecer as identidades culturais, mesmo dentro de uma significativa diversidade. Afinal, todos que adentram à escola já chegam com suas culturas pré-determinadas e, consequentemente, desenvolverão outras culturas escolares. O currículo norteia todo esse processo, sobretudo, ao proporcionar situações que favoreçam a construção da identidade cultural de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, ou seja, não somente ao aluno, mas também ao corpo docente e demais funcionários da instituição. Observe a imagem abaixo, ela nos permite compreender as relações estabelecidas entre o currículo e a cultura: 45 Currículo e cultura Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Seguindo com os processos que envolvem a cultura, social e escolar, juntamente com o currículo e, realizando uma análise de situações já presenciadas no processo de escolarização, bem como de ensino- aprendizagem, ficou nítido a necessidade da escola realmente valorizar a cultura, as experiências que acontecem fora dos muros escolares e, sobretudo, relaciona-las com os conteúdos e com as práticas metodológicas e curriculares, justamente para auxiliar o educando em sua formação global, bem como, uma maneira de respeitar esse aluno e suas particularidades, além, é claro, das relações essenciais nos processos socioculturais e histórica que evolve nosso país. Dessa maneira, não pode-se separar cultura do currículo cultura escolar do respeito e valorização ao educando. São duas situações que se entrelaçam ao longo de todo o processo escolar e que não devem se dissociar. A cultura, oriunda da sociedade e do meio, auxiliam na construção da cultura escolar e, por meio do currículo e de suas determinações, constroem a formação do aluno. Conclusão da aula 4 Em nossa aula, conhecemos sobre diversas particularidades que envolvem o termo cultura, bem como as suas influências. Conseguimos Curriculo Valores Cultura Comunidade Escola 46 compreender diversas especificidades e explorar novas temáticas que, certamente, enriqueceram nossa compreensão sobre a disciplina de Teoria do Currículo. Atividade de aprendizagem Antonio Nóvoa é um crítico e estudioso de alguns aspectos que envolvem a educação. Sugiro que você assista ao vídeo em que ele fala da cultura escolar, Do reforço da cultura escolar à educação como espaço público. Entrelace os principais apontamentos com os conteúdos que vimos na aula de hoje. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=W4iNrDTqEQ0 Aula 5 – O currículo e a organização do trabalho pedagógico Apresentação da aula 5 Caro aluno, vamos seguindo a busca de construir sólidos e significativos aprendizados acerca do currículo e de todas as particularidades que envolvem nossa disciplina. Dessa maneira, percebemos que o currículo é o centro de grandes estudos e discussões e, por que não afirmar, que é ele quem “semeia” e “permeia” diversas e significativas mudanças no ambiente escolar? Ressalto que o mesmo não se refere apenas a questões conteudistas, mas também envolve os aspectos históricos, sociais, políticos, econômicos e culturais. Assim, conforme Moreira e Silva (2002), o currículo se constitui em uma arena política e contestada, ou seja, ele juntamente com as políticas públicas educacionais serve como embasamento para a estrutura social, agregando valores e a cultura social, orientando, muitas vezes o quê e como deve ser ensinado. 5.1 A gestão democrática e o currículo Pode-se então perceber que a construção de um currículo refere-se a diversos aspectos, como conteúdos básicos e obrigatórios, passando da esfera 47 formal de “ensinar” e adentrando às questões de cunho social, envolvendo uma intensa diversidade de valores relacionando à visão de mundo, à cultura, as ideologias e à formação dos sujeitos envolvidos no processo de ensino- aprendizagem, seguindo para os recursos, embasamento teórico, infraestrutura, livros didáticos, as políticas públicas educacionais e tantas outras especificidades que permeiam o currículo, a escola, os docentes e discentes, a sociedade e todo o processo de aprender e ensinar. Ao pensarmos em currículo e toda essa esfera que o cerca, é inevitável não nos atermos às teorias que cada instituição constrói como verdade absoluta, utilizada muitas vezes com modelos engessados e não passíveis de modificações e melhorias, além das políticas públicas educacionais com sistemas de avaliação e diretrizes normativas. Reflita Onde fica o aluno e sua realidade? Sua criticidade? Seu senso para atuar na sociedade, ser crítico e reflexivo? Será ele uma “simples” peça que compõe o ensino e que deve, como tal, se adaptar a tantas teorias da educação? Nesse rico contexto do currículo nos deparamos com a gestão democrática. Afinal, qual a relação dessa forma de fazer gestão com o currículo escolar? A possibilidade dos profissionais da educação em questionarem colocando suas posições e opiniões, sabendo o que, para quê e por que tornam- se essenciais, isso é possível com as políticas públicas educacionais, com o currículo vigente e com as ideologias de cada instituição escolar? As questões que permeiam a formação integral do sujeito correlacionam à existência de uma gestão democrática à um modelo de gestão que permita questionamentos e interferências e que leve em consideração o ser histórico, social e cultural do sujeito e do saber. Veja abaixo a figura que nos orienta quanto à relevânciada gestão democrática para a formação integral do aluno: 48 Gestão democrática Fonte: autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Assim, conseguimos perceber que a gestão democrática envolve outros aspectos que influenciam na formação do aluno, inclusive pela participação nos conselhos, pela autonomia e a valorização dos sujeitos partícipes no processo de ensino-aprendizagem. Seguindo em nossa exploração acerca da gestão democrática e do currículo, pode-se perceber que todo esse cenário permite que o educando passe a ser sujeito ativo no processo de ensino-aprendizagem, conforme Paro (2008) menciona, “a aquisição do saber historicamente acumulado só se dá na escola”, porém, para isso é necessário que o aluno não seja tomado apenas como objeto, mas também como sujeito da educação”. Importante É preciso articular a gestão democrática aos processos de ensino- aprendizagem, ao currículo, aos parâmetros obrigatórios que permeiam a educação, sobretudo as políticas públicas educacionais e a formação crítica integral dos educandos. E, para tal fato, os professores, como ativos e sujeitos partícipes da construção de uma educação de qualidade, bem como da maneira de gerir os currículos na prática, tornam-se essenciais, sobretudo, em sua atuação em sala de aula, bem como em suas opiniões referente ao currículo. GESTÃO DEMOCRÁTICA AUTONOMIA TRANSPARÊNCIA VALORIZAÇÃO DOS SUJEITOS PARTICIPAÇÃO (Conselhos) 49 5.2 A sala de aula, o professor e o currículo Fonte: http://2.bp.blogspot.com/-P9JKUqS_QnE/UU9nOpIFuII/AAAAAAAAADE/A7FN 4-FIv-k/s1600/232.jpg Nesse contexto devemos então, caro estudante, perceber que os aspectos descritos acima interferem ao processo didático, modificam as teorias e suas aplicações, envolvendo a sala de aula e o currículo, afinal, estamos nos referindo a conceitos de ensinar, de aprender, de método, de ação docente, de processo avaliativo e outros sistemas que compõem o processo de ensino- aprendizagem, que, diretamente, influenciam a formação do sujeito e a forma de se relacionar com os elementos básicos que constituem o currículo. Pensando exatamente nesse cenário e nessa afirmativa, remetemos aos estudos de Moreira e Candau acerca do currículo, veja: Estamos entendendo currículo como as experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, em meio a relações sociais, e que contribuem para a construção das identidades de nossos/as estudantes. Currículo associa-se, assim, ao conjunto de esforços pedagógicos desenvolvidos com intenções educativas. (MOREIRA; CANDAU, 2008, p. 18). 50 Fonte: http://3.bp.blogspot.com/-_dn1c-La4Ww/UH386FhTwEI/AAAAAAAAAC0/pJm7n wTZi7k/s1600/nuvem_curriculo.jpg Nesse contexto, ao nos referirmos à sala de aula e ao currículo, inevitavelmente estamos buscando compreender o currículo em seus desafios e possibilidades de construção, envolvendo aspectos sólidos e complexos. O cotidiano escolar aponta o professor como aquele que sabe utilizar técnicas e métodos de ensino e que domina o saber acadêmico, porém, a sala de aula vai muito além de como é visto o professor, por isso, ela torna-se um espaço tão significativo, ao ponto de considerarmos essencial na busca e construção das relações pessoais, interpessoais, coletivas e de aprendizado, ou seja, envolve os aspectos curriculares de uma educação formal e informal, da formação totalitária do sujeito como partícipe de um currículo crítico. É válido ressaltar que o currículo juntamente com as políticas públicas direciona uma série de questões para a educação em relação as colocando normas, ações, práticas docentes, diretrizes e tendências de trabalho em busca da educação de qualidade, que, conforme informado anteriormente, permitem, por meio das perspectivas e teorias pedagógicas, adequações tanto na atuação do professor em sala, de aula, como no currículo como um todo. Quando colocamos a sala de aula justaposta ao currículo, os objetivos, os conteúdos, as metodologias, as didáticas, as ações e as avaliações não se separam. Não há como pensar em currículo, educação e sala de aula sem analisar os aspectos descritos acima, eles compõem, quase que em sua 51 totalidade, o processo de aprendizagem, com o desenvolvimento de diversos projetos e metas que permeiam a normatização para a educação. A didática utilizada em sala de aula é um dos norteadores e relevantes que englobam esse cenário: A didática é reflexivo-aplicativa que se ocupa dos processos de formação em contextos deliberadamente organizados com vistas ao crescimento pessoal e desenvolvimento social. Esses crescimento e desenvolvimento se manifestam ante as mudanças em conhecimentos, habilidades ou atitudes, assim como na melhora das condições. Esses ideais se operacionalizam formalmente mediante propostas curriculares nas quais se concretizam as intenções, os conteúdos, os métodos, os recursos e a avaliação, adaptando-as aos contextos e aos sujeitos. (TORRE, 1993, p.7). Nesse viés, a construção do currículo em sala de aula torna-se um imenso desafio ao professor, sobretudo aquele que pretende contribuir para a formação totalitária, que leva o educando ao pensamento crítico, colocando em prática um trabalho docente em uma vertente crítica e emancipatória. Dessa maneira, fica constatado a relevância da sala de aula, da dialogicidade e da relação professor e aluno para a construção do currículo com indícios de autonomia e emancipação. 5.3 O currículo tradicional Um dos mais relevantes níveis de concretização de um currículo está ligado diretamente à sala de aula e à sua aplicação. Nesse ponto, relacionamos o currículo a diversos aspectos, como a função do aluno, do professor, da escola, da metodologia e da avaliação. Além desses aspectos, não pode-se deixar de mencionar as interferências externas, como os aspectos históricos, políticos e econômicos que permeiam o tempo e o espaço. Algumas concepções permeiam os currículos, denominadas conservadoras, além disso, encontram-se as teorias tradicionais, escolanovista e tecnicista, em que os elementos didáticos e metodológicos influenciaram desde muito tempo e deixaram suas influências até a contemporaneidade. Quando remetemos ao currículo tradicional, pensamos de imediato em questões conteudistas, pensando sempre no acúmulo de conhecimento e levando o currículo a ser uma imensa lista dos conteúdos que devem ser 52 transmitidos aos alunos, por meio do conhecimento do professor. Esse modelo tradicional de currículo nos remete a Paulo Freire e à sua educação bancária, sendo os alunos uma tabula rasa pronta para receber conhecimentos, sem refleti-los, sem dialogicidade, sem comunicação e sem troca, apenas recebe-los. Abaixo você poderá visualizar algumas especificidades que permeiam o currículo na concepção tradicional: ALUNO ➢ Ser receptivo e passivo; ➢ Depósito de informações, conhecimentos e fatos cabe a ele acumular as informações; ➢ Repete informações a outros que ainda não as possuem; ➢ Remete ao processo de educação bancária apresentado por Paulo Freire. PROFESSOR ➢ Autoritário, severo, rigoroso e objetivo; ➢ Tem o conhecimento como absoluto e inquestionável; ➢ Mediador entre o aluno e os modelos; ➢ Detentor da metodologia, conteúdo, avaliação e forma de interação na aula. METODOLOGIA ➢ A ênfase ao ensinar não obriga o aprender; ➢ Fundamenta-se em quatro pilares: escute, leia, memorize e repita; ➢ Privilegia a lógica, a sequenciação e a ordenação dos conteúdos; ➢ Ensino centrado no professor; aula expositiva; o professor é o agente e o aluno é o ouvinte; ➢ A educação é um produto; ➢ Tarefas padronizadas, implicando recorrer-se à rotina para se conseguir a fixação de conhecimentos/conteúdos/informações. AVALIAÇÃO ➢ Busca respostas prontas e não possibilita a formulação de perguntas; ➢ Envolve areprodução dos conteúdos propostos, valorizando a memorização, a repetição e a exatidão; ➢ Visa a exatidão da reprodução do conteúdo. Provas, exames, chamadas orais e exercícios; ESCOLA ➢ Ambiente físico austero, conservador e cerimonioso; ➢ Tem como função preparar intelectual e moralmente; ➢ Seu compromisso social é a reprodução da cultura; ➢ Local de apropriação do conhecimento. Particularidades do currículo tradicional Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Assim caro aluno, após explorarmos a tabela acima descrita e observarmos atentamente tais características, nos deparamos também com a 53 atualidade. É perceptível que o currículo tradicional ainda se encontra presente em muitas instituições escolares da contemporaneidade. Vamos conhecer outras particularidades curriculares? 5.4 O currículo escolanovista Nesse tópico adentraremos nas especificidades do currículo escolanovista. Veja, para iniciar esse novo tema é preciso refletir sobre o significado de escolanovista, afinal, a que esse termo se refere? Quando ele surgiu e por qual motivo se originou? São indagações essenciais que nos levam a refletir sobre concepções da educação contemporânea. O movimento, denominado Escola Nova, foi o grande percursor do currículo escolanovista, visando a modificação de alguns aspectos oriundos da escola que traziam sua concepção e currículo fundamentados no tradicionalismo. As ideias da Escola Nova surgiram com o filósofo norte americano, John Dewey, que via a educação como uma necessidade social. E foi essa ideia de Dewey que influenciou, na década de 1882, as ideias de uma nova forma de fazer a escola brasileira. Mídias Assista ao vídeo sobre Dewey, seu movimento, a mudança de foco entre ensinar e aprender, professor e aluno, sua visão, a Democracia e a educação, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=ebATm489IiQ Com o avanço cronológico atingindo a década de 1932, no governo de Getúlio Vargas, surge de maneira efetiva, por meio do Manifesto dos Pioneiros, o movimento de renovação da educação brasileira, denominado “Escolanovismo”. Nesse período histórico o Brasil sofria transformações políticas, econômicas e sociais, consideradas relevantes, como por exemplo o início do processo de urbanização, pelo progresso industrial e, consequentemente, econômico. Tal situação ainda sem um planejamento adequado gerou conflitos e desordens sociais e políticas, interferindo, inclusive, na sociedade civil e na educação. 54 Com essa sucessão de acontecimentos políticos, a escola, juntamente com o currículo escolanovista, passa a ideia central de liberdade, de uma educação que é totalmente responsável para que a democracia se instalasse na nação, mesmo com uma divergência econômica e social imensa, mas capaz de respeitar a individualidade do cidadão, tornando-os críticos e reflexivos, passando o Brasil a possuir uma sociedade escolarizada. Vocabulário Escolanovista: proposta pedagógica de caráter humanista. Nesse “novo” modelo de educação, algumas especificidades foram criadas, diferenciando-a do currículo tradicional e, ainda embasada na ideia central de Dewey, essa concepção curricular deveria trazer a escola não como uma “preparação para a vida, mas sim, a própria vida”, ou seja, eram consideradas as experiências de vida e aprendizagens em geral como o grande direcionamento educacional. Nessa maneira de ver e vivenciar a educação, a escola passou a ocupar uma nova função, sendo então responsável por intermediar uma reconstrução permanente da experiência e da aprendizagem na vida dos educandos, apresentando um cunho democrático frente à igualdade de oportunidades. Na concepção do currículo escolanovista, nos deparamos com as seguintes especificidades, acompanhe na tabela que segue: ALUNO ➢ Figura central do processo ensino-aprendizagem, sendo levado em conta seus fatores psicológicos; ➢ É considerado em processo contínuo de descoberta de seu próprio ser, ligando-se a outras pessoas e grupos; ➢ Arquiteto de si mesmo; ➢ Tem papel central e primordial na elaboração e criação do conhecimento. Deve ser compreendido como um ser que se autodesenvolve e cujo processo de aprendizagem deve-se facilitar. PROFESSOR ➢ Facilitador da aprendizagem, auxilia o desenvolvimento livre e espontâneo do aluno. Positivo e acolhedor, propõe a vivência democrática. Aconselha e orienta os alunos; 55 ➢ Facilitador da comunicação do estudante consigo mesmo; ➢ Autêntico e congruente, condições facilitadoras de aprendizagem. METODOLOGIA ➢ Dá importância aos métodos e aos trabalhos em grupo, oferecendo atividades livres que atendam ao ritmo do aluno; ➢ Ensino centrado no aluno. Dá-se ênfase à vida psicológica e emocional do indivíduo e à preocupação com a sua orientação interna; ➢ Crescimento pessoal, interpessoal ou intergrupal e educacional; ➢ Busca progressiva de autonomia; ➢ Ensino centrado na pessoa; ➢ Principal característica: liberdade para aprender. A transmissão de conteúdos deve ser significativa para os alunos e percebidas como mutáveis. AVALIAÇÃO ➢ Despreza a padronização de produtos. Defende a autoavaliação, em que a aprendizagem autoiniciada se torna aprendizagem responsável. ESCOLA ➢ Significativa. O ensino centrado no aluno levando em conta os interesses dos alunos e provocando experiências de aprendizagem; ➢ Forte influência da psicologia e da biologia, busca o autodesenvolvimento e a realização pessoal do aluno. Respeita a personalidade do educando e as diferenças individuais; ➢ Respeita a criança tal como ela é. Possibilita a autonomia do aluno; Particularidades do currículo escolanovista Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Contudo, percebe-se a necessidade de no período da Escola Nova considerar as estruturas cognitivas prévias dos alunos, o processo de associação e acomodação na construção da aprendizagem do indivíduo. Assim, fica claro que o currículo escolanovista preocupa-se, sobretudo, com o aluno como cerne do processo educacional, norteando todas as demais estruturas que o cerca. 5.5 O currículo tecnicista Perceba, caro aluno, que o currículo tecnicista se difere significativamente de uma visão escolanovista de educação. Pode-se considerar que ambos os currículos surgiram em momentos econômicos, sociais e políticos distintos e que 56 tanto teórica quanto em sua prática, interferiram significativamente na educação brasileira. Importante A educação tecnicista visava não mais o aluno como sujeito em formação, em que a escola levava em consideração suas experiências de vida e, tão pouco, um currículo que buscava a formação integral e democrática do aluno como sujeito atuante na sociedade civil, mas, visava aplicar um currículo que levasse o aluno a uma formação técnica. A educação tecnicista realmente foi aplicada em meados da década de 1970 e enaltecia a autoridade, deixando de lado todos os aspectos sociais possíveis, oriundos da escola nova. Assim, tanto educadores quanto educandos, passavam a ser executores e receptores das normas e regras, sem criticidade, reflexão e construção da democracia, buscando apenas a competência e o mercado de trabalho. Esse processo nos distancia da educação da escola nova e do que Paulo Freire instituiu como educação como prática para a liberdade, fundamentada em uma construção dialógica, contrário do currículo tecnicista e de sua autoridade tão presente como característica curricular. Acompanhe abaixo as principais especificidades da concepção que permeia o currículo tecnicista: ALUNO ➢ A aprendizagem decorre da modificação dos comportamentos observáveis e mensuráveis; ➢ O estímulo e o esforço são indispensáveis para o aluno aprender; ➢ Exige respostas prontas e corretas; ➢ Passivo, acrítico, obediente e ingênuo;➢ O aluno é considerado como recipiente de informações e reflexões; ➢ A cooperação entre os alunos não é enfatizada. PROFESSOR ➢ Transmite e reproduz conhecimento; ➢ Elo entre a verdade científica e o aluno; ➢ Planejador e engenheiro comportamental. Deverá dispor e planejar melhor as contingências dos reforços em relação às respostas desejadas. METODOLOGIA ➢ Modelos a serem seguidos; ➢ Ensino repetitivo e mecânico; ➢ O erro é sancionado com rigorosidade; 57 ➢ O planejamento das atividades é composto por objetivos, procedimentos, recursos e avaliação; ➢ O sistema educacional tem como finalidade básica promover mudanças nos indivíduos; ➢ Depende de elementos observáveis no comportamento; ➢ Ensino para a competência; ➢ Fornecer ao aluno uma tecnologia que seja capaz de explicar como fazer o estudante estudar e que seja eficiente na produção de mudanças comportamentais; ➢ Ênfase à programação. A matéria a ser aprendida seja dividida em pequenos passos. AVALIAÇÃO ➢ Visa ao produto; ➢ Constatar se o aluno aprendeu e atingiu os objetivos propostos; ➢ A avaliação é parte integrante das próprias condições para a ocorrência da aprendizagem, pois os comportamentos dos alunos são modelados à medida em que têm conhecimento dos resultados de seu comportamento. ESCOLA ➢ Papel fundamental em treinar os alunos e modeladora do comportamento humano; ➢ À escola compete organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, para que o indivíduo se integre na máquina do sistema social global; ➢ Está ligada a outras agências controladoras da sociedade e do sistema social. Procura direcionar o comportamento humano às finalidades de caráter social, o que é condição para sua sobrevivência como agência. Particularidades do currículo tecnicista Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Dessa maneira, percebe-se que, ao professor, caberia não mais o planejamento e desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, mas sim comportamental. Na escola tecnicista o planejamento era de responsabilidade dos especialistas, ficando ao professor a transferência desses planejamentos já realizados. Conclusão da aula 5 Estamos chegando ao final de mais uma aula, em que pode-se explorar significativos aspectos curriculares, como a relação entre a gestão democrática 58 e o currículo, além do tripé: sala de aula, professor e currículo. Finaliza-se essa aula compreendendo as principais características dos currículos: tradicional, escolanovista e tecnicista. Atividade de aprendizagem Para maior compreensão e complementação dos assuntos abordados em nossa aula, acesse ao vídeo que nos apresenta como tema principal o currículo nacional, por meio das metas da BNCC, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=ioM313JW3ME Após assisti-lo, escreva uma resenha apontando os principais tópicos apresentados. Aula 6 – O currículo, a escola e algumas políticas que o embasam Apresentação da aula 6 Caro aluno, vamos seguindo acerca das principais temáticas que envolvem a disciplina da Teoria do Currículo. Para darmos prosseguimento, é relevante que tenhamos conhecimento sobre o processo da construção da escola brasileira e de sua relação com a equidade, ou seja, com a educação de qualidade para todos. Vamos retornar no tempo, traçando um pensamento cronológico de todo esse cenário. A educação brasileira, desde o tempo do império, passou por intensas transformações e, em sua maioria, aconteceram por meio do binômio: interesses políticos e o processo de ensino-aprendizagem, ou seja, as modificações que permeiam o histórico da educação brasileira estão diretamente relacionadas aos aspectos políticos e sociais vigente de cada época. 6.1 A escola brasileira e a equidade Inicialmente a escola brasileira foi elitizada, sendo destinada para uma pequena parcela de brasileiros, sobretudo aos herdeiros do poder econômico e 59 político, principalmente ao sexo masculino. Com o passar das décadas e com a instituição de algumas reformas educacionais, adentrou-se à contemporaneidade e às políticas públicas curriculares e educacionais que hoje se evidenciam. Antigamente um dos objetivos a serem alcançados, e que ainda pode-se trazê-lo para a contemporaneidade, era a aquisição de uma escola pública, laica e de qualidade para todos, sem distinção de raça, credo ou questões sociais e políticas. Partindo desse pressuposto, naturalmente, e adentrando no tempo histórico, a igreja católica deixou de ter uma atuação significativa na educação básica brasileira, passando ao estado as responsabilidades educacionais. Importante Atualmente encontra-se uma educação estabilizada em alguns importantes aspectos, porém, em outros diversos há muito o que progredir, mesmo que ocorra em passos lentos. Nesse cenário de progressão, unindo as questões de igualdade da educação básica, bem como o objetivo de qualidade da educação, diversos fatores são levados em consideração, não somente os aspectos cognitivos, mas também aqueles de cunho social e que se relacionam com o educando e com a comunidade escolar, como a questão socioeconômica, a desnutrição, a utilização de drogas lícitas e ilícitas e o núcleo familiar, por exemplo. Alguns aspectos interferem significativamente na qualidade da educação básica brasileira, igualmente, em seus propósitos na busca de uma educação igualitária e de acesso para todos os cidadãos brasileiros, independente de classe social, credo, raça e religião. Além disso, a escola, corpo docente e políticas curriculares educacionais também influenciam na qualidade da educação e, fundamentalmente, com as políticas públicas, tanto curriculares educacionais como as de financiamento. 60 Equidade Fonte: https://definicao.net/wp-content/uploads/2018/09/significado-de-equidade.jpg Nesse contexto escolar, o Projeto Político Pedagógico e a concepção da escola, como vimos em aulas anteriores, interferem de maneira significativa no avanço da educação básica, e, naturalmente, de todo o processo de cidadania do educando. Uma escola que contempla políticas curriculares efetivas, que apresenta como um de seus objetivos o educando e a qualidade do processo educacional, entrelaça as políticas curriculares à própria instituição como um todo. Esse entrelaçamento não deve ocorrer somente por questões burocráticas legais, mas sim no aspecto de consciência crítica de sua própria função perante a sociedade: qual aluno eu desejo formar? Como é a escola que eu desejo ter em minha comunidade, bairro ou município? Como é o cidadão que nossa nação precisa? Como diminuir as lacunas das desigualdades sociais? Esses são apontamentos que, sem dúvidas, permeiam a escola, a qualidade da educação e a equidade, vai além dos muros escolares, adentrando e interferindo na sociedade como um todo. Nesse cenário, tanto a sociedade quanto o poder político e público devem ter em mente a função da escola básica, o que exigir e o que esperar dessa formação. Para tanto, mudanças significativas devem ocorrer, sobretudo, aquelas que interferirão em problemas educacionais considerados mais graves. A educação brasileira precisa construir suas identidades, agregando aspectos 61 políticos, sociais, assistencialistas e de formação e aprendizagem, porém, intercalando-os em uma escala horizontal, determinando os aspectos de maior relevância e enaltecendo as questões que permeiam o processo de ensino- aprendizagem, pois trata-se da base do processo escolar brasileiro. 6.2 A relevância das políticas curriculares Já pensou em mudar o mundo? Fonte: https://nathanalacerda.com.br/wp-content/uploads/2017/01/capa-1-1024x538. png Você já parou e pensou como seria a educação básica e o currículo sem as políticas que a direcionam? Comoseria o dia a dia da escola? E os seus objetivos? O corpo docente, como conduziriam o seu próprio trabalho? Como aconteceria a produção do Projeto Político Pedagógico? Ele existiria? O currículo, o que seria de cunho determinado e obrigatório e o que não? Essas questões são apenas algumas que os profissionais e estudiosos da educação pensam e repensam quando se trata da educação brasileira, de currículo e aspectos legais que norteiam toda a educação. E para determinar todos esses apontamentos, as políticas curriculares educacionais surgem determinando um direcionamento específico a diversos pontos que envolvem a educação básica brasileira e suas etapas. Pensando na relevância das políticas educacionais curriculares, da mesma maneira que verificamos em aulas anteriores, fica estabelecido um conceito acerca do termo “currículo”, justamente por esse ser flexível e mutável. Dessa maneira, o currículo e suas questões políticas e sociais foram levados ao 62 cenário de inúmeras pesquisas e discussões acerca da educação básica brasileira. Nessa perspectiva as reformas educacionais passaram a levar em consideração os apontamentos que permeiam o cenário curricular, sendo visto como um campo composto por diversos conhecimentos, focados em tempos e espaços específicos, movimentando-se entre as relações de poder e que permita a escola a percepção de sua relevância para a formação de educandos críticos e reflexivos, que sejam capazes de contribuir no âmbito social. Seguindo essa vertente, pensando nas esferas federal, estadual e municipal, é perceptível a alteração nas legislações educacionais, na gestão das escolas, no controle e maturidade educacional e até na formação de professores, a fim de contemplar um currículo que abranja o objetivo de uma educação igualitária e de qualidade para todos. Assim, Jallade (2000) afirma que não há uma política educacional satisfatória sem que ela perpasse pelo currículo, sendo ele considerado o coração da educação. Em suma, pode-se considerar que o cenário que envolve a educação brasileira, sobretudo a educação pública, enfrenta problemas na qualidade educacional e que muitos deles ainda não foram passíveis de solução. Esse é considerado um dos grandes motivos pelas transformações políticas curriculares educacionais e a justificativa por modificações na organização das escolas e do sistema educacional brasileiro, abrangendo, naturalmente e de forma relevante, os aspectos curriculares. Além dos apontamentos já descritos referente a busca da qualidade educacional e das transformações escolares por meio das políticas curriculares educacionais, elas se fazem relevantes em dois aspectos que se diferenciam. O primeiro deles, pode-se associar ao trabalho docente realizado dentro e fora dos espaços escolares que, em sua maioria, surgem por propostas oriundas das Ongs (Organização não governamental) que, conforme seus próprios interesses lutam pela busca de uma educação laica, gratuita, de qualidade e para todos, interferindo nas questões pedagógicas e curriculares e na formação e atuação do professor. 63 Importante Um segundo apontamento pode ser considerado apenas de cunho mercadológico, ou seja, são políticas curriculares oriundas de Empresas do próprio mercado da educação, que elaboram programas curriculares relacionados aos seus produtos e interesses específicos. De acordo com as transformações, algumas práticas curriculares que antes eram abordadas, deixaram de existir e passam a contemplar novas práticas e metodologias, a fim de buscar uma nova perspectiva e construir um novo currículo, gerando sua legitimidade. De fato, independente da vertente assumida, as políticas curriculares educacionais são extremamente relevantes para a melhoria da educação brasileira. 6.3 PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) Os Parâmetros Curriculares Nacionais também são conhecidos pela sigla PCNS e são referências, construídas pelo Governo Federal, a fim de orientar o ensino fundamental e o ensino médio. Tais orientações são destinadas aos educadores, diretores e coordenadores pedagógicos e são fragmentados por disciplinas, ou seja, com as diretrizes e normatizações específicas para cada matéria. Curiosidade Os PCNs não são obrigatórios, mas são orientações ao trabalho pedagógico, diferenciando-se, por exemplo, das Diretrizes Curriculares Nacionais, que possui o cunho de legislação, sendo uma lei, e, naturalmente, devendo ser cumprida em todos os seus aspectos. Um detalhe bastante significativo é que os PCNs não são de exclusividade da educação básica pública, mas também é um documento que abrange a rede privada de ensino de todo o país, independente de fatores sociais, políticos e econômicos. Permeando esse cenário de igualdade e equidade, um ponto relevante aos PCNs é a sua função, o motivo pelo qual ele foi criado, que é 64 exatamente a busca pela qualidade e igualdade da educação brasileira, ou seja, que todos os cidadãos brasileiros em idade escolar, que compreenda o ensino fundamental I e II e o ensino médio possam usufruir de um apanhado de conhecimentos apontados como essenciais e obrigatórios para o seu próprio exercício da cidadania. Essa igualdade vai além das condições apresentadas no cenário socioeconômico, de região, do país, de raça, cor ou credo, ela se estende a todos os cidadãos brasileiros. Um segundo aspecto significativo é a flexibilidade dos PCNs, ele não adquiriu uma característica obrigatória, permitindo que as instituições de ensino modifiquem alguns aspectos conforme as necessidades locais e as particularidades de cada comunidade escolar. Assim, não pode-se caracterizar os PCNs como um mero conjunto de regras, de referências e de normas que visam a transformação, que ditam o que deve ser norteado como objetivo e o que não deve se ter atenção, porém, ele orienta para uma reflexão quanto aos objetivos educacionais, bem como para uma possível transformação, envolvendo questões conteudistas, metodologias e práticas de ensino. Nessa vertente, é perceptível um desejo por melhorias na educação básica brasileira, que é refletida nos próprios PCNs, permitindo de forma a ser construída a autonomia, a criticidade, a reflexão e o exercício da cidadania por meio dos educandos. Para atingir tais objetivos naturalmente novas metodologias se instalam, ou até mesmo utilizar dos mesmos recursos didático pedagógicos, porém, de maneira diferenciada e que permita atingir os objetivos propostos. Um exemplo disso é fazer uso de recursos que fazem parte do dia a dia do aluno, que esteja presente na comunidade escolar e que permeie a realidade do educando, o que promoverá maior reflexão, criticidade e construção da aprendizagem por parte do próprio aluno. Uma característica que ilustra esse processo e que está presente nos PCNs é a relação interdisciplinar, o que interfere diretamente no currículo escolar e na concepção educacional adotada pela escola, promovendo reflexões acerca de outras significativas temáticas, como os recursos e inovações didáticas e os projetos interdisciplinares, por exemplo, que revelam uma preocupação em relação a qualidade de ensino e a quais características de alunos se deseja formar. Acompanhe a tabela abaixo que explana a divisão dos cadernos presentes nos PCNs e suas normativas: 65 ENSINO FUNDAMENTAL I ENSINO FUNDAMENTAL II Introdução aos PCN Introdução aos PCN Língua Portuguesa Língua Portuguesa Matemática Matemática Ciências Naturais Ciências Naturais História e Geografia I Geografia História e Geografia II História Arte Arte Educação Física Educação Física Temas Transversais — Apresentação Língua Estrangeira Temas Transversais — Ética Temas Transversais — Apresentação Meio Ambiente Temas Transversais — Ética Saúde Temas Transversais — Pluralidade Cultural Pluralidade CulturalTemas Transversais — Meio Ambiente Orientação Sexual Temas Transversais — Saúde Temas Transversais — Orientação Sexual Temas Transversais — Trabalho e Consumo Temas Transversais — Bibliografia PCNS e normativas Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Já para o Ensino Médio, os PCNs orientam quanto à prática docente, o ser, estar e realizar em sala de aula entrelaçando essa dinâmica com o desenvolvimento curricular da escola. E se divide em “Bases legais”, que apresentam as linguagens, códigos e suas tecnologias, abordando a Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Educação Física, Arte e Informática, as ciências da natureza e ciências humanas que englobam, respectivamente, a Biologia, Física, Química, Matemática, História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Filosofia e Política. 66 Ao final, os Parâmetros Curriculares Nacionais são relevantes e devem permear o ambiente educacional, orientando em toda a prática educativa, levando o professor a refletir sobre sua própria dinâmica em sala de aula, bem como de seus resultados e das transformações necessárias e cabíveis a ele, claro, relacionando-as com as questões curriculares da instituição de ensino. 6.4 RCN (Referencial Curricular Nacional) Nesse nosso próximo item de estudo, é relevante que você, aluno, perceba e estabeleça relações com as questões curriculares já estudadas. Veja que até mesmo as normativas não obrigatórias pertinentes à educação básica brasileira se entrelaçam com o cenário do currículo e, de fato, com a nossa disciplina. O surgimento dos Referenciais Curriculares Nacionais se deu por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a lei nº 9394/96, ficando assim instituídas inúmeras reflexões educacionais no âmbito nacional, referente aos objetivos, conteúdos e orientações metodológicas e didáticas. Essas diretrizes, precisamente voltadas aos professores da etapa inicial da educação básica, compreendendo crianças da faixa etária de 0 até 04 anos, possuem o cunho de integralizar as Diretrizes Curriculares Nacionais com a prática escolar, ou seja, com o chão da escola, com o dia a dia escolar e o processo de ensino-aprendizagem que permeia essa etapa da educação brasileira. Os Referenciais Curriculares Nacionais são indissociáveis da questão curricular, eles se entrelaçam, se subsidiam e se complementam, pois trata-se de um documento com outras contribuições e não apenas normatizações, como as Diretrizes Curriculares Nacionais, pois concede indicações que perpassam a ideia de propostas curriculares, auxiliando o corpo docente na realização de suas funções, bem como na aquisição dos objetivos propostos. Dessa maneira, o documento possui o intuito de atender as crianças em diversos anseios, realizando a integração entre o cuidar e o pedagógico, instituindo metas significativas e voltadas a busca da educação de qualidade, permitindo o desenvolvimento pleno do educando. Segundo o Ministério da Educação e Cultura, os Referenciais Curriculares Nacionais apresentam como principais objetivos: 67 Considerando a fase transitória pela qual passam creches e pré- escolas na busca por uma ação integrada que incorpore às atividades educativas os cuidados essenciais das crianças e suas brincadeiras, o Referencial pretende apontar metas de qualidade que contribuam para que as crianças tenham um desenvolvimento integral de suas identidades, capazes de crescerem como cidadãos cujos direitos à infância são reconhecidos. Visa, também, contribuir para que possa realizar, nas instituições, o objetivo socializador dessa etapa educacional, em ambientes que propiciem o acesso e a ampliação, pelas crianças, dos conhecimentos da realidade social e cultural. (MEC/SEF, 1998. p. 05). Nesse contexto, os Referenciais Curriculares Nacionais elaborados na década de 1999, são vistos como um recurso, um complemente e, jamais, devem ser considerados como uma regra ou um manual normativo. O documento está dividido em três volumes que contribuem significativamente para aspectos como, planejar, desenvolver, avaliar as práticas educativas e construir propostas pedagógicas. Nesse cenário, o intuito é de atender às demandas das crianças e comunidade escolar, independente da região brasileira e das questões socioeconômicas e políticas. Que tal observarmos juntos as especificidades apontadas pelo Ministério da Educação e Cultura para os três volumes que compõem o RCN? Vamos lá: RCNS TEMÁTICA OBJETIVO Volume I Introdução Promover reflexões acerca das creches e pré- escolas brasileiras, situando e fundamentando concepções de criança, de educação, de instituição e do profissional, que foram utilizadas para definir os objetivos gerais da educação infantil e orientaram a organização dos documentos de eixos de trabalho. Estão agrupados em duas temáticas: formação pessoal e social e conhecimento de mundo. Volume II Formação pessoal e social Relativo aos processos de construção da identidade e autonomia das crianças. Volume III Conhecimento de mundo Apresenta seis documentos referentes aos eixos de trabalho orientados para a construção das diferentes linguagens pelas crianças e para as relações que estabelecem com os objetos de conhecimento: Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade e Matemática. RCN e seus volumes Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). 68 De acordo com o RCN, aluno, a primeira etapa da educação básica brasileira deve apresentar alguns objetivos, tais como, permitir ao educando ainda pequeno noções de seu próprio corpo, estabelecer a interação e os vínculos afetivos com todos ao seu redor, ampliando suas relações sociais, observar e explorar os ambientes, utilizar da brincadeira para expressar suas emoções, fazer uso das linguagens corporal, musical, plástica, oral e escrita, assim como ter conhecimento de manifestações culturais. É importante ressaltar que mesmo com as diretrizes e objetivos referente aos RCNs, o respeito à criança e ao seu tempo de desenvolvimento das habilidades e competências deve ser respeitado, bem como as diferenças sociais, históricas e políticas. 6.5 Uma escola sem políticas curriculares: é possível? Agora, os apontamentos e reflexões acerca de algumas políticas curriculares abordadas anteriormente é possível pensar em uma escola sem política curricular? Em caso afirmativo, como seria essa instituição de ensino? Sem regras e normas? Sem diretrizes? Sem construção curricular? Sem objetivos e, tão pouco, sem qualidade? Essas indagações permitem a dimensão da relevância das políticas públicas curriculares e de sua efetiva participação no chão da escola e de qual maneira ela realmente é colocada em prática. As políticas curriculares, mesmo em alguns aspectos, atreladas às necessidades políticas do momento, procuram contemplar a educação em sua totalidade, visando o principal objetivo que é a qualidade e gratuidade do ensino. Quando pensamos em políticas curriculares nacionais, pensamos em diretrizes, em orientação, em documentos normativos que vão direcionar as instituições de ensino, inclusive no que tange as próprias práticas e processo de ensino-aprendizagem. É importante elevarmos nossos pensamentos a relação já construída e estabelecida por um longo caminho histórico e que, positiva ou negativamente, permanecem na educação como uma herança. Diversas situações já foram modificadas e que interferiram diretamente no chão da escola e, de maneira satisfatória e positiva, tornando a relação menos verticalizada 69 possível, adentrando com a participação da comunidade escolar, inclusive nos apontamentos curriculares. Esses processos históricos da educação brasileira interferem significativamente na definição e controle das políticas curriculares que atualmente sãoenglobadas no ambiente escolar, o que, infelizmente, ainda exercem uma certa autonomia e autoridade sobre as escolas. Bem, isso não significa que as escolas não precisam de normativas e políticas, muito pelo contrário, as diretrizes são essenciais, porém, é preciso cautela, afetividade, qualidade e democracia ao pensar e estabelecer certos critérios e políticas, sobretudo as curriculares. Nesse cenário e, embasados nos pensamentos de Paulo Freire e em sua gestão, sobre a educação e as políticas curriculares, é preciso buscar argumentos e evidências que, mesmo com as políticas públicas curriculares a frente da educação, seja permitido uma maior autonomia as escolas e a alguns processos. Importante Se analisarmos a educação e seu processo histórico, a escola já ganhou voz em diversos momentos e, na contemporaneidade, pode-se afirmar que, em diversos aspectos, a escola caminha por si. Um exemplo disso é o próprio Projeto Político Pedagógico que, mesmo se tratando de questões curriculares, possui uma liberdade significativa para estabelecer as concepções da escola e seus objetivos específicos. Da mesma maneira, os Parâmetros Curriculares Nacionais e os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Infantil, que instruem e orientam, porém, com a liberdade de escolha da instituição escolar. É impossível pensarmos em escola sem direcionamento específico, sem uma política curricular que a oriente e que a direcione. A escola precisa de condução e diversos encaminhamentos, mas não de limitações. As instituições escolares têm buscado assumir a legitimação da democracia por meio daqueles profissionais que fazem a escola e que atuam na busca de uma instituição que seja capaz de refletir e atuar efetivamente, bem como de formar cidadãos críticos que saibam se posicionar perante as inúmeras situações sociais, sejam elas políticas ou não, e que exerçam de maneira positiva a democracia em sua totalidade, liberta de interesses pessoais. 70 Em suma, é possível concluir que a escola não sobrevive sem a política curricular, sem uma organização e sistematização curricular, porém, é preciso concomitantemente gerar autonomia e voz às instituições escolares, a fim de, mesmo com suas particularidades, trabalharem em prol do educando, do educador e da comunidade escolar, visando uma educação igualitária e de qualidade, independente das diversidades que as contemplam. Conclusão da aula 6 Prezado estudante, assim chegamos ao final de mais uma aula sobre a Teoria do Currículo e, de fato, houve momentos enriquecedores, os quais nos permitiram refletir sobre a escola e a educação básica brasileira, bem como sua qualidade, além, é claro, de discutirmos e analisarmos se realmente ela é para todos. Para tanto, retornamos no tempo e no processo histórico de construção da educação básica brasileira, a fim de contemplar esses e outros aspectos envoltos com a temática central. Compreendemos também algumas particularidades que evolvem os Parâmetros Curriculares Nacionais e os Referenciais curriculares. Espero que você tenha aproveitado nossa aula para construir mais aprendizados significativos. Atividade de aprendizagem Nesse momento, caro aluno, é pertinente que você participe da atividade de aprendizagem, a fim de enriquecer e solidificar as temáticas que abordamos na aula de hoje e, para que isso aconteça, sugiro que assista ao vídeo: “Organização Curricular no Ensino Fundamental”, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=HhRNVzRgFRY Ao final, prezado estudante, realize anotações e reescreva os principais apontamentos que se entrelaçam com essa aula. 71 Aula 7 – O currículo como construção do conhecimento Apresentação da aula 7 Conforme estudo anteriormente, percebemos que as ações teóricas que permeiam nossas escolhas acerca da escola e do processo de aprendizagem definem muitas das concepções e perspectivas curriculares. Segundo o autor espanhol, Sacristán (2000), a “compreensão que perfizemos da realidade, é fundamental e depende da escolha que fazemos, das competências destinadas ao corpo docente e as escolas em si”. Saiba mais De acordo com os pensamentos de Sacristán, o currículo apresenta oito concepções importantes: o currículo como fenômeno prático complexo; como práxis; como construção social; como construção da cultura; como campo de investigação; como guia de experiência; como definidor dos conteúdos e como conjunto de conhecimentos. 7.1 Concepções e perspectivas curriculares: as opções teóricas Primeiramente falaremos sobre o currículo como fenômeno prático complexo que é exatamente a junção entre as atividades e iniciativas que são realizadas por meio do planejamento curricular, além, é claro, das atividades que envolvem diretamente o corpo docente, como o planejamento escolar e os recursos didático-pedagógico que serão utilizados. Já o currículo como práxis, integra a teoria e a prática, uma expressão da função socializadora e cultural que é incumbência da escola. A palavra práxis, que deriva do grego, apresenta como significado a ação concreta e está diretamente relacionada às relações sociais. Para Sacristán, o currículo como práxis aborda as questões da prática pedagógica pertinentes ao ensino em si. Seguindo esse raciocínio, percebemos que o currículo como práxis, além de observar as ações pedagógicas, o significado, resultado e os processos de ensino, também precisa levar em consideração os contextos políticos e administrativos que o cercam. 72 O currículo como construção social é uma análise inicial de conteúdos e orientações, antes mesmo de ser colocadas aos alunos e às realidades específicas e vivenciadas. Considera-se a dinâmica interna da própria escola para depois adapta-lo à prática pedagógica. O currículo como construção da cultura não diz respeito a um conceito propriamente dito, mas sim à construção cultural que visa organizar as práticas educativas. O currículo como campo de investigação, nessa formação, relaciona- se também à prática, o currículo é visto como aquele que é, até certo ponto, interdependente de outros campos da educação e que deve, necessariamente, observar qualquer elemento que o componha como algo que pode ser alterado e modificado, pois encontra-se em constante reconfiguração. O currículo como guia de experiência é uma concepção relevante ao pensarmos nas relações entre escola e as relações sociais, pois é visto como uma espécie de “guia da experiência” que os educandos adquirem no espaço escolar. Assim, essa concepção curricular atribui à escola a responsabilidade em promover distintas e diversas experiências, consciente e intencionalmente, com planejamento e direcionamento pedagógico a fim de atingir determinados resultados. O currículo como definidor dos conteúdos, essa concepção curricular é bastante usual, pois, ele é compreendido como conceituação da educação mediante planos ou propostas, especificação de objetivos, reflexo da herança cultural, mudança de comportamentos e atitudes, programa da escola que contenha conteúdos e atividades, soma de aprendizagens ou resultados ou todas as experiências que o aprendiz pode obter. (EYNG, 2010, p. 28). O currículo como conjunto de conhecimentos é uma concepção muito utilizada na contemporaneidade, mesmo sendo relacionado a um modelo tradicional de escola. Essa concepção aborda o currículo como conjunto de conhecimentos ou materiais que os educandos devem compreender no ano ou série que frequenta. Para que ele siga adiante no nível ou modalidade de ensino, é preciso a mínima compreensão desse conteúdo específico. Diante das concepções curriculares, alguns aspectos relevantes são abordados para a utilização delas, como o levar em consideração todo o processo histórico pertencente à sociedade, as questões culturais construídas 73na escola em específico são capaz de promover a interação entre as ideias e as práticas que envolva o docente e sua profissionalidade, tornando-o flexível ao ponto de interferência na planificação. Ao pensar em adotar uma ou outra concepção de ensino, além dos itens observados acima, é preciso que exista um questionamento consciente acerca da realidade, do contexto, da escola, da cultura, e, sobretudo, do processo de ensino-aprendizagem e do conhecimento, que se está inserido. Dessa maneira, ao realizar tais questionamentos, as reflexões acerca da concepção curricular atual adotada é capaz de analisar a construção, o desenvolvimento e a avaliação do currículo, o que devem permear os seguintes itens: ➢ Atendemos o que deve ensinar e o que os alunos devem aprender? ➢ Pensamos no que deveria ser ensinado ou aprendido e no que realmente se ensina e se aprende? ➢ Limitamos o currículo aos conteúdos ou abrangemos também as estratégias, os métodos e os processos de ensino-aprendizagem? ➢ Entendemos o currículo como uma realidade estanque, predeterminada, algo especificado, delimitado e acabado que será meramente aplicado ou como algo aberto, que se configura e delimita na aplicação e no seu próprio processo de desenvolvimento, no qual é significado e ressignificado? Fonte: (EYNG, ANA MARIA, 2010), elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). José Gimeno Sacristán Fonte: acervo do autor (2017). 74 Concluímos que as reflexões acima podem e devem ser realizadas sem ordem aleatória, a fim de atender a forma de pensar e fazer o currículo, conforme os diferentes contextos vivenciados. Saiba mais José Gimeno Sacristán é um grande estudioso da área da educação e, certamente, um de seus focos de pesquisa é o currículo. Vale a pena conferir algumas de suas obras e parte de suas escritas acerca dessa temática. Sugiro que, além do livro já citado em nossa aula, que observe a obra: “Saberes e Incertezas sobre o currículo”. 7.2 Vamos falar sobre o processo de conhecimento? As particularidades que envolvem o processo de escolarização e, naturalmente, o processo de ensino, aprendizagem e de construção dos conhecimentos. Reflita sobre a seguinte indagação: o que é conhecimento? Agora pensando sobre isso, considere que há saberes e conhecimentos acadêmicos e oriundos dos bancos escolares, como há aqueles que são construídos pelas vivências e experimentações da vida, que denominamos de empíricas. Muitas escolas ignoram os saberes que são construídos além dos muros escolares e não permitem, independente de sua concepção curricular, bem como do Projeto Político Pedagógico, uma prática que entrelace os dois conhecimentos, ou seja, aquela que se assemelhe à realidade do educando. Pensando nesse cenário, prezado estudante, devemos sempre nos atentar em uma educação que de fato agregue significado aos nossos alunos. Dessa maneira, certamente o corpo docente, coordenadores e diretores pedagógicos devem alinhar o Projeto Político Pedagógico à concepção curricular, às questões conteudistas, à relação teoria e prática e à formação integral do aluno, a fim de proporcionar situações que auxiliem na construção do conhecimento dos alunos. 75 Importante Você acredita que há construção de conhecimento sem um currículo adequado? Essa é uma reflexão relevante e que, certamente, com o embasamento teórico e as aulas ocorridas até o momento, levarão a outras compreensões acerca da temática. Veja, se o conhecimento está atrelado à escola e ao Projeto Político Pedagógico, necessariamente ele se encontra relacionado ao currículo, sua concepção, sua prática, sua aplicabilidade e funcionalidade no dia a dia da instituição escolar. Assim, pode-se afirmar que não há construção e inter-relação de saberes empíricos e educacionais, dissociados do próprio currículo. Seguindo esse pensamento, vamos adentrar em outras questões que envolvem nossa temática, porém, é necessário ter a compreensão de que o currículo está associado ao respeito ao educando e à construção de seu conhecimento, e, por sua vez, entrelaçado à formação total do aluno, envolvendo não somente aspectos conteudistas, mas também contemplando outros conhecimentos, como os emocionais, sociais, econômicos e até os políticos. 7.3 Quais as relações que existem entre a construção do conhecimento e o currículo? Em análise às normativas apresentadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), tem uma relação significativa entre o currículo e o processo de conhecimento e formação do educando. Nesse momento, vamos juntos sintetizar as questões postas pelo MEC e nos aprofundarmos um pouco mais nessa temática. O currículo é flexível e respeita as particularidades de cada região e instituição de ensino, incluindo nesse processo as questões sociais, políticas e econômicas, porém, sabe-se que há especificidades que são imutáveis, ou seja, são fixas e não se alteram. Assim, há legislações que possibilitam o que são conteúdos de cunho obrigatório e outros que possuem liberdade de organização. Em sua maioria, ambos estão relacionados em sua seleção de conteúdos e conhecimentos da base nacional comum do currículo. Conforme a LDBEN, (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), nº 9394/1996, apresenta uma significativa orientação, veja: 76 Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela (BRASIL, 1996). Importante Perceba, caro estudante, a importância que o currículo tem em relação ao conhecimento. O conhecimento em si está intimamente relacionado à formação totalitária do educando e a formação integral do aluno está entrelaçada ao currículo e às práticas educativas e curriculares postas na escola. Dessa forma, o currículo e o conhecimento não se dissociam, estão lado a lado, caminhando juntos em todos os aspectos e, certamente, essa situação nos leva a desafios intensos que exigem um olhar criterioso para a escola, a fim de atender as particularidades educacionais e regionais, incluindo a comunidade escolar e, também, atender as orientações, normativas e leis educacionais. Esse olhar certamente inclui a escola como um todo, inclusive os sujeitos que fazem parte do processo de escolarização, como todos os funcionários da escola, de cunho pedagógico ou não. Além dos sujeitos, é necessário observar as complexidades que envolvem toda a formação, as complexidades e as rotinas que envolvem esse processo e o chão da escola, permitindo reflexões acerca de todo esse processo, além do conhecimento e do currículo em si. Caro estudante, seguindo essa vertente nos deparamos com o conhecimento sendo o foco de muito processo de formação do educando e, de fato, envolvendo o processo curricular em diferentes níveis da educação brasileira. Nesse mesmo pensamento, a escola assume diversas funções significativas e, sem dúvida, uma delas é de estar apta a socializar os conhecimentos escolares, que naturalmente, proporciona o acesso do aluno a outros campos do conhecimento e a outros saberes, que não somente, os educacionais, assim como os que se constroem além dos muros escolares e, também, os conhecimentos oriundos das relações sociais. Assim, ao pensarmos em conhecimento escolar, devemos seguir as orientações do próprio MEC que coloca o processo de conhecimento como um: elemento central do currículo e que sua aprendizagem constitui condição indispensável para que os conhecimentos socialmente 77 produzidos possam ser apreendidos, criticados e reconstruídos por todos/as os/as estudantes do país (2007). Agora, prezado estudante, com esse conceito formado e com noções significativas acerca do conhecimentoapresentado pelo MEC, pode-se entrelaçar a essa temática a relevância de uma escola bem estruturada e pensada para a formação dos conhecimentos do aluno, envolvendo, de fato, o currículo e suas concepções e aplicabilidades. Vamos observar a imagem abaixo e refletir acerca das relações que são necessárias, envolvendo a escola e o currículo para, ao final do produto, gerar conhecimentos: Currículo e conhecimento Fonte: elaborado pelo autor (2017). Assim, prezado aluno, é possível percebermos que certamente o processo que se estabelece entre o currículo e que, ao final, promova conhecimento, certamente envolve um corpo docente comprometido, ativo e afetivo para a escola e os educandos de maneira geral. Conhecer, escolher, organizar e relacionar teoria, prática e aprendizagem significativa é seguramente essencial para o desenvolvimento pleno dos alunos e de seu processo de construção de conhecimentos. Conhecimento Educação ativa e autonoma Dialogicidade Organização curricular Corpo docente 78 Nessa diretriz, é importante que a escola e seus dirigentes pedagógicos tenham consciência de selecionar os conteúdos que se relacionem com a realidade dos alunos e da comunidade, dessa maneira é preciso visar uma educação realmente de qualidade e para todos. E, para que isso aconteça, se faz necessário, conforme indicações do Ministério da Educação e Cultura (2007), propiciar ao estudante ir além dos referentes presentes em seu mundo cotidiano, assumindo-o e ampliando-o, transformando-se assim em um sujeito ativo na mudança de seu contexto, ou seja, prezado estudante, um currículo que contemple os conteúdos obrigatórios, a realidade em que o aluno está inserido e, indo além, proporcionando conhecimentos extras para que ele consiga compreender a sua própria realidade e que seja, por meio da autonomia, criticidade e conhecimento, capaz de altera-la se preciso for. Assim, conseguimos perceber que o currículo e o conhecimento se entrelaçam em diversos aspectos e não somente no que os bancos escolares são obrigatoriamente destinados a ensinar. O conhecimento se constrói por meio de um conjunto específico e não pode e nem deve ser atribuída única e somente a responsabilidade a sociedade ou a escola. É preciso unir forças e aspectos relevantes que constroem os saberes, os conhecimentos, o processo de escolarização e a formação integral do aluno. Conclusão da aula 7 Assim, caro estudante, vamos finalizando nossa aula. Certamente você compreendeu outros aspectos que envolvem o currículo, o conhecimento e a educação básica. Conseguimos transitar entre concepções curriculares diversas, além de compreender o que, de fato, consideramos como conhecimento escolar e conhecimento empírico e, para finalizar, adentramos em particularidades que entrelaçam o currículo e o processo de conhecimento. Atividade de aprendizagem Sugiro a leitura de um dos cadernos apresentados pelo Ministério da Educação e Cultura, que apresenta uma relação significativa entre o currículo e o conhecimento. Para ter acesso ao escrito, você pode acessar o link: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/indag3.pdf Após esse momento de leitura, é interessante que realize algumas reflexões pessoais acerca da temática e, até mesmo, de seu próprio aprendizado. 79 Aula 8 – As teorias curriculares Apresentação da aula 8 Prezado estudante, até o momento trilhamos sólidos caminhos contemplando em nossas aulas aspectos relevantes para compreendermos ainda mais as temáticas abordadas. Antes de adentrarmos nos tópicos que refletiremos e discutiremos diretamente sobre as teorias curriculares, é relevante que tenhamos conhecimento sobre os processos formativos. Perceba caro aluno que os estudos acerca dos processos formativos estão cada vez mais presentes e com apontamentos mais significativos, relacionando-os à cultura e à realidade educacional brasileira. Nesse viés, temas relevantes são abordados e, concomitantemente, propostos desafios à educação básica e à formação totalitária para os dias atuais. 8.1 O currículo e os processos formativos: nascem as teorias Os processos formativos, oriundo do currículo e suas determinações, incluem questões epistemológicas e metodológicas, pautadas nos objetivos e formações que se desejam obter, observando e trabalhando com problematizações que permeiam a construção do conhecimento e suas implicações, sobretudo sociais. Construindo o conhecimento? Fonte: acervo do autor (2017). 80 Mas, se justapor esse pensamento à própria etimologia da palavra, pode sofrer algumas alterações, afinal, o que realmente significa o “processo formativo”? O processo formativo de forma generalizada é tudo o que engloba a formação total do sujeito, indo além do que conhecemos como passar de nível ou adquirir um diploma. O processo formativo engloba o sujeito, o cidadão, seus projetos de vida e seus progressos. Como foi visto ao longo das aulas, o currículo, por si só, não apresenta uma conceituação fixa, mas sim diferentes conceitos que se entrelaçam e se relacionam com os objetivos individuais de cada instituição de ensino, porém, há aspectos relevantes e que podem ser inclusive, considerados fixos, pois contribuem diretamente ao processo formativo dos educandos e educadores, ou seja, o processo de ensino que envolve toda a escola. A cada época surge um cenário novo, uma exigência social e mercadológica nova que obriga, de certa forma, a novas percepções educacionais, incluindo novas práticas formativas direcionadas, em grande maioria, por transformações oriundas de novos governos e novas políticas públicas educacionais. Seguindo a vertente “formativa”, pode-se associar que o currículo é proposto e utilizado muitas vezes de forma equivocada e ambígua, pois, em muitas situações, ele é proposto apenas como um apanhado de conteúdos que designa os programas de disciplinas ou dos anos escolares e, naturalmente, incluem uma infinidade de atividades educativas, métodos, metodologias e didáticas que surgem como um recurso à proposta conteudista colocada . O currículo e a sua função formativa deve ir além dessa visão de “enformar”, de incluir conteúdos nos sujeitos, mas sim, a um direcionamento que permita ao educando construir os seus próprios conhecimentos, um currículo que seja entendido como aquele que leva ao pensar e ao agir e que promova, ao mesmo tempo, uma alteração formativa docente, ou seja, que o próprio professor desenvolva a sua capacidade de percepção de sua própria responsabilidade social e que sua prática, juntamente ao currículo, o leve a refletir e a responder questões, tais como: O que ensinar? Como ensinar? Seguindo nessa vertente, pode-se constatar que o próprio currículo visto como processo formativo leva o educando a se desenvolver de maneiras específicas e determinada por eles, levando-os a um posicionamento específico 81 sobre visão de homem, de mundo e de sociedade. Esse processo formativo é antigo, não se refere à contemporaneidade e tão pouco relacionava-se apenas à formação do sujeito e de um modelo específico de cidadão, mas a questões de formação em relação ao conteúdo. Dessa maneira, o currículo não deve ser o único direcionamento formativo, pois é perceptível a falta da neutralidade ao pensarmos em um currículo, pois aqueles que o constroem apresentam suas bases epistemológicas, suas diretrizes acadêmicas, suas ideologias, suas escolhas por determinadas teorias e concepções, pelas questões políticas e pelo modelo de homem que desejam formar. 8.2 Teoria tradicional O cenário que envolveu as teorias tradicionais do currículo envolvera um contexto puramente industrial e científico da primeira metade do século XX. As disciplinas eram atreladas ao aspecto de aprendizagem mecânica e ao movimento industrial denominado Taylorismo.75 Conclusão da aula 7 ...................................................................................... 78 Aula 8 – As teorias curriculares ..................................................................... 79 Apresentação da aula 8 ................................................................................. 79 8.1 - O currículo e os processos formativos: nascem as teorias .............. 79 8.2 - Teoria tradicional ............................................................................ 81 8.3 - Teoria crítica ................................................................................... 83 8.4 - Teoria pós-crítica ............................................................................ 85 Conclusão da aula 8 ...................................................................................... 87 Índice Remissivo ........................................................................................... 89 Referências ................................................................................................... 92 7 Prefácio Olá estudante, está preparado para fazermos uma viagem histórica pela educação básica brasileira e pelos principais aspectos curriculares que marcaram diversas épocas? Assim, em nossa primeira aula conheceremos situações particulares que, certamente, lhe permitirá compreender a escola que temos hoje, bem como os modelos e concepções curriculares. É importante que você percebera, caro estudante, que o tempo e algumas situações políticas e econômicas estão diretamente relacionadas às mudanças curriculares que aconteceram ao longo do tempo. Conforme vamos viajando, muito conhecimento será construindo, e, para lhe auxiliar a sanar possíveis dúvidas, sugiro que sempre consulte e explore o ambiente virtual, que, certamente, com seus recursos disponíveis, contribuirá significativamente para fazermos uma viagem perfeita. Aproveite nossos momentos e acesse as indicações e mídias disponibilizadas ao longo de nossa aula, como os vídeos, sites e artigos, que lhe permitirá a construir sólidos apontamentos. Se prepare e vamos lá! 8 Aula 1 – O currículo Apresentação da aula 1 Caro estudante, nossa primeira aula nos permitirá conceituar o currículo, afinal, será que ele tem um conceito único e imutável? É exatamente esse e outros apontamentos que permearão o nosso ponto de partida. Veja que o currículo, desde o início das possibilidades de sua conceituação, gerou e segue gerando até a atualidade diferentes conceitos. Fonte: acervo do autor (2017). 1.1 Concepções e histórico do currículo Assim, pode-se nos ater ao currículo apenas como definição de conjunto de disciplinas ou conteúdos detalhados? Ou ainda, pode-se colocar o currículo escolar como único responsável por relacionar os conteúdos aos objetivos e atividades que permeiam o processo de ensino-aprendizagem? 9 Com certeza o currículo é muito mais, do que apenas definir e selecionar uma sequência de anos e modalidades de ensino com os conteúdos específicos. O currículo é essencial e interfere em diversos segmentos e aspectos da educação como um todo. Caro estudante, observe a imagem abaixo para criarmos uma ideia da importância do currículo para a escola: A importância do currículo para a educação Fonte: elaborado pelo autor (2017). Agora que já começamos a compreender a importância do currículo, vamos seguir analisando sobre as concepções do termo currículo, vamos nos deparar com diversos significados, afinal, para conceitua-lo necessariamente estaremos atrelados a uma ou outra teoria, as quais diferem entre as possibilidades e funções. As discussões acerca do currículo apontam uma gradativa, porém, significativa relevância e, passaram a ocupar cada vez mais o espaço no campo das pesquisas em educação no Brasil. O autor Demerval Saviani é um grande estudioso das questões que envolve o currículo e a escola. Assim, leia o que ele disse sobre a dificuldade em conceituar o currículo que, seguramente, está relacionada a sua complexidade e delimitação: Currículo Pedagógico Aprendizagem Ensino Social Emocional Psicológico Afetivo 10 Demerval Saviani Fonte: acervo do autor (2017). Palavras e expressões como currículo, grade curricular, atividades curriculares, materiais de estudo ou matérias de ensino, disciplinas escolares, componentes curriculares, programas fazem parte da rotina de quem atua com educação escolar. Seu emprego em textos, documentos diversos e no discurso de educadores, nas mais diferentes situações, parece algo tão “natural” que raramente as pessoas se dão conta da carga histórica e conceitual que cada termo comporta. No entanto, são notórias as mudanças no conjunto das matérias que vêm compondo os currículos dos níveis, graus e modalidades de ensino, na sua distribuição pelas séries, na sua carga horária, nos conteúdos e métodos prescritos em seus programas. Mudam também as concepções, e isso nem sempre é tão perceptível (SAVIANI, 2005, p. 05). Acerca do currículo, pode-se referenciar aos primeiros registros sobre a concepção curricular da década de 1918, com a obra O Currículo, de Bobbitt (2004). Assim, ao escolhermos uma única conceituação ao termo currículo, necessariamente define-se suas especificidades e funções próprias, relacionadas ao conceito escolhido e, dessa maneira, acabamos recaindo nas palavras de Saviani (2005), no aspecto do currículo se relacionar a diversos contextos da escola com a cultura da época. 11 Seguindo nesse viés, surge Rué (1996), que faz uma relação simplificada entre a história do currículo, a história da escola e as questões histórico-sociais, conforme o material abaixo: Currículo e campo social O campo do currículo é um campo social enraizado em valores, propósitos, crenças e teorias sociais. Fundamenta-se nos conhecimentos acadêmicos e nas ciências da educação. Fundamenta-se, também, nas atuações pessoais dos docentes em uma diversidade de situações. Currículo e ação educativa A atuação educativa, compreendida em um sentido amplo, realiza-se por meio de experiências e atividades. Visam o desenvolvimento pessoal e coletivo dos sujeitos. Promovem desenvolver o sujeito também no âmbito da diferenciação e projeção social. Currículo e prática escolar No campo do currículo e na prática escolar, conjugam-se interesses e realidades diferentes. Esse processo se dá por meio da socialização, integração e de classificação e separação. Fonte: elaborado pelo autor (2017), embasada na obra de Eyng (2010), adaptado pelo DI (2019). Sendo assim, consideramos o currículo como um processo educativo relacionado ao projeto pedagógico, sendo proposto nesse conjunto da trajetória histórica, o âmbito social e a dinâmica da escola, além das questões relacionadas às disciplinas e conteúdo. Dessa maneira, o currículo se refere aos caminhos que percorre a formação integral dos alunos, sendo observado e tomado como parâmetro o contexto histórico e social, ou seja, aquele que se está inserido e, naturalmente, as práticas educativas do cotidiano escolar mediante as quais se expressa, considerando o projeto pensado e escrito, denominado currículo proposto e aquele, igualmente importante, denominado de prática, de projeto aplicado, avaliado e pensado, levando assim, o currículo a ser aquele que contempla o proposto e a prática, possuindo diferentes e específicos significados, desempenhando funções diversificadas, conforme o contexto e histórico social. 12 1.2 Aspectos históricos e culturais que permeiam o currículo Como já foi falado, o currículo tem uma significância imensa na educação brasileira, sendo considerado uma diretriz fundamental para queO Taylorismo ou administração científica, surgiu após a segunda revolução industrial e era gerida por princípios que determinavam o comportamento dos trabalhadores, estabelecendo um padrão específico. Importante Devido a necessidade de alterações sociais, políticas e, sobretudo, econômicas, as teorias técnicas ou teorias tradicionais, uma vez relacionadas a administração científica, incluiria uma educação ao contexto de educação para a massa, buscando um currículo padrão, o qual apresentava o intuito de construir um ambiente produtivo, com repetição e fragmentação. Assim, ele enaltecia uma aprendizagem teórica e mecânica, com conteúdo específicos e fixados, a fim de serem memorizados pelos educandos. Assim caro aluno, nesse embasamento teórico, o professor apresentava- se como detentor do saber, sendo o ensino e o próprio currículo apenas um ato burocrático que deveria ser cumprido. Os alunos, por sua vez, na mesma condição bancária de educação, como folhas em branco, aptos e receptores dos 82 conteúdos transmitidos pelos professores. Em outras palavras, eles não aprendiam, apenas memorizavam e repetiam esses conteúdos fixos. Dessa maneira, os alunos não faziam parte do processo educacional, não era uma figura relevante no processo de ensino-aprendizagem que, teoricamente, havia sido criado para eles e sua educação como um todo, de maneira laica, gratuita e de qualidade. Assim, a escola então ocupava o significativo papel de educar para a sociedade que, naquele momento, era puramente industrial. Esse conceito americano também chegou ao Brasil, nos remetendo inclusive à educação tecnicista, apresentando como objetivo primordial o formar para o mercado de trabalho industrial, em que o trabalhador era adaptado às máquinas e apto a cumprir com suas obrigações profissionais. Nesse cenário a escola não era visto como um local de formação integral do sujeito, mas sim como uma empresa e, como tal, na era industrial, deveria tratar seus funcionários ou estudantes, nesse contexto de indústria. Nas teorias tradicionais, seguindo os pensamentos de Bobbit (1918), um dos grandes homens que difundiram essa teoria curricular, a escola deveria, inicialmente, estabelecer de maneira bastante objetiva e clara quais os resultados que pretendia atingir, estabelecendo métodos a fim de atingi-los, tratando como uma das principais características do currículo a organização e a mecanicidade em relação ao processo de ensino-aprendizagem, atribuindo ao currículo uma característica técnica. Outro embasamento teórico importante é oriundo das contribuições de Tyler (1949) que apontava algumas questões básicas referente ao currículo escolar que atendesse a demanda industrial da época, sendo necessário realizar apontamentos sobre os objetivos escolares, a relação entre as experiências dos estudantes, aquelas adquiridas na escola, eram suporte para a obtenção dos conteúdos propostos, a forma de organização que fosse eficiente para entrelaçar as experiências com os objetivos e uma forma eficaz de perceber a obtenção dos objetivos inicialmente propostos. O que percebe-se tanto no currículo de uma teoria tradicional embasada nos principais autores, é que se trata do princípio básico em que a escola caminha e se transforma conforme as necessidades econômicas e políticas, ora 83 o aluno sendo o cerne do processo ora o professor e, até mesmo, outros requisitos como centro e diretriz de toda a educação. Para a teoria tradicional, o currículo é um sistema de produção em que o aluno poderia ser comparado à matéria e à mão de obra, que se transformaria em produto, sendo utilizado no mercado industrial. A escola era uma indústria e o processo de ensino-aprendizagem comparado ao processo de produção em que a avaliação seria o controle de qualidade e a obtenção de todos os objetivos anteriormente propostos. 8.3 Teoria crítica Conforme nossos estudos, prezado estudante, ficou perceptível a relação conceitual do currículo a uma teoria tradicional, que fragmentava o saber e colocava o aluno, de maneira muito presente, na prática da educação bancária. Indo de encontro a essa perspectiva curricular educacional, surge a teoria crítica, com um currículo que ampliava as possibilidades de metodologia e com os objetivos específicos para a escola, denominado como currículo subjetivo. O currículo subjetivo colocava em questão a prática do professor, diferentemente da teoria tradicional. Era então analisado sua maneira de ensinar e, igualmente, se essa metodologia realmente permitiria o aprendizado e a construção do saber por parte dos educandos. Fonte: https://i.ytimg.com/vi/SX7BdbrGRDc/maxresdefault.jpg 84 Nesse cenário, em que a prática educativa era meio para a obtenção dos resultados e objetivos da escola, era primordial a inter-relação com o currículo e com a ideia de qual cidadão se queria formar, (claro, novamente, retornamos ao currículo como maneira de atender à demanda social, econômica e política), assim, conforme nos apresentou Demerval Saviani (1989), o ensino possibilitava ao educando a análise das relações sociais de forma crítica, ressaltando à escola a sua função e intensa responsabilidade no que se refere aos conteúdos e ao processo de transmissão e assimilação do saber sistematizado, levando a escola a exercer exatamente a sua função de escola, colocando todos os objetivos e atividades no espaço e tempo escolares, preocupando-se assim, com a qualidade do saber, abrangendo nesse sentido como está sendo ensinado os conteúdos e como é feito essa separação: [...] para existir a escola não basta a existência do saber sistematizado. É necessário viabilizar condições de sua transmissão e assimilação. Isso implica dosá-lo e sequenciá-lo de modo que a criança passe gradativamente do seu não domínio ao seu domínio. Ora, o saber dosado e sequenciado para efeitos de sua transmissão assimilação no espaço escolar, ao longo de um tempo determinado, é o que nós convencionamos chamar de “saber escolar” (SAVIANI, 2003, p.18). Contemplando a teoria crítica, em que o aluno é relevante no processo de ensino-aprendizagem, bem como as questões metodológicas e a prática docente e pedagógica, ela (a teoria crítica) faz uma relação social com todos esses apontamentos, tornando-se um elo entre eles e abordando discussões que permeiam o dia a dia do educando, como as questões étnico raciais, as religiões, as questões políticas e ideológicas, por exemplo. Nesse contexto, a teoria crítica apresenta o objetivo de redução da lacuna que envolve as desigualdades sociais, levando a pedagogia a ser denominada como pedagogia das oportunidades, aquela capaz de emancipar e libertar o sujeito, ou seja, embasada em Paulo Freire, leva o educando a construir o aprendizado, considerando suas próprias experiências e favorecendo a sua comunicação, dando a ele voz, reflexão e criticidade. Mas claro, não obstante, a sociedade é capitalista e o currículo cuja teoria é crítica. Dessa maneira, as relações constituídas na escola devem ir além dos conteúdos propostos, devem permitir a construção da socialização, porém, há 85 um impasse significativo que adentra a teoria crítica, que é exatamente a questão da sociedade vigente. A sociedade capitalista, por si só, apresenta características que enaltecem um modelo específico de saber e de sujeitos, dependendo exclusivamente de suas atividades, sua capacidade de reprodução e suas práticas econômicas. Ao contrário é a escola, que na contramão, com uma teoria tradicional, encontra um outro modelo social e passa a se adequar a ele por meio da criação da teoria crítica e suas especificidades no ensino. Nesse viés, a escola torna-se um meio relevante para sustentar a própria ideia capitalista, transmitindo por intermédio do próprio currículo suas ideias e ideologias, utilizando-sedas disciplinas e dos conteúdos. Outro ponto importante dessa transmissão do capitalismo na teoria crítica é, por meio das próprias relações constituídas na escola, diferenciando instituições e o próprio processo do ensino-aprendizagem, classificando-os entre opressores e oprimidos. Dessa maneira, pensando no poder da sociedade capitalista, da influência do poder da classe dominante e de uma pedagogia que proporcione oportunidades, a teoria crítica surgiu exatamente para contrapor a teoria tradicional, está em seu currículo, diretamente relacionada a apontamentos que permitem reflexões sobre a ideologia e a reprodução cultural e social, a classe social e ao capitalismo, as relações sociais de produção, ao currículo oculto, a resistência e a conscientização, emancipação e libertação dos educandos. 8.4 Teoria pós-crítica A Teoria pós-crítica foi iniciada entre as décadas de 1970 e 1980, realizando uma dura crítica à teoria tradicional e, até mesmo, à própria teoria crítica, elevando o currículo ao campo moral e ético, colocando o aluno como a essência do processo de ensino-aprendizagem e não pura e simplesmente as questões relacionadas às classes sociais e aos processos econômicos. Em diversos eixos, a teoria pós-crítica se diferencia da teoria crítica, sobretudo no que tange as questões sociais de uma política economicamente capitalista, pois, para a teoria pós-crítica, não há um núcleo de subjetividade a ser libertado da alienação causada pelo capitalismo. 86 Dessa maneira, o currículo não é uma questão política ou partidária, mas sim a construção do próprio sujeito, estando envolvido de maneira direta e significativa na formação totalitária do cidadão. As teorias pós‐críticas surgiram para repensar o papel de neutralidade política em relação à própria concepção de currículo, buscando contrariar a relação bancária e a transmissão de conhecimento, fortemente pertencente ao processo educacional brasileiro, sobretudo na teoria tradicional. O conceito de “multiculturalismo” (currículo multicultural) está intimamente relacionado à teoria pós-crítica, englobando um currículo capaz de respeitar as diversas formas de cultura presentes no mundo, independente de poder e sociedade dominante. Nesse viés, todas as culturas são vistas igualmente, não havendo separação ou uma visão verticalizada e hierárquica. Essa visão de igualdade cultural e, naturalmente, curricular, surgiu na teoria pós-crítica em relação à cultura dominante, inclusive no que se refere a uma educação de qualidade, que vinha privilegiando somente a cultura branca, masculina e europeia. A escola assim, por meio do currículo, incluiu a diversidade cultural (o multiculturalismo), que abrangeram para demais perspectivas, denominadas humanista e liberal. De maneira geral, essas perspectivas trabalhavam com a convivência e respeito entre a diversidade cultural, porém, sem realizar alterações para a classe dominante, apenas abrindo mais espaço às demais culturas. Há uma questão bastante pontual quando remetemos às diversidades culturais e à educação curricular, afinal, muitas situações conflitantes e de desigualdades que envolvem o processo de escolarização estão entrelaçados às questões raciais e de sexo e gênero, não apenas de poder econômico e político. Um aspecto relevante e com enfoque significativo na teoria pós-crítica e que se refere às questões de desigualdades apontadas acima, é o próprio gênero, enaltecendo o feminismo com o intuito questionador sobre uma cultura patriarcal, que predomina o sexo masculino e gera infinitas desigualdades entre homens e mulheres. Nesses aspectos de desigualdades, a educação está inclusa, inclusive dentro do próprio currículo, fazendo distinção do que eram disciplinas masculinas e aquelas direcionadas as mulheres. A intenção de promover a igualdade entre os gêneros, no âmbito curricular, era exatamente de que eles reconhecessem os apontamentos 87 femininos como necessários, igualmente aos masculinos, deixando para trás a relevância apenas aos conhecimentos pertinentes ao homem. Nesse viés, fica perceptível, por meio da teoria pós-crítica, que para ocorrer um currículo multicultural não basta incluir informações de culturas diversas, mas passar a verdadeiramente considerar as diferenças, sejam elas raciais, sexuais, socioeconômicas ou de ordem política. Amplamente, pode-se enfatizar que a teoria pós-crítica é uma crítica às teorias anteriores, colocando-as sob suspeita, tanto no aspecto político quanto educacional. Referente à teoria crítica, a pós-crítica desconfia sobretudo de seus aspectos emancipadores e libertadores que são enaltecidos nessa concepção teórica. Outro aspecto relevante ao pensarmos em especificidade da teoria pós- crítica é a radicalização que ela realiza sobre os questionamentos acerca do currículo, colocados pela própria teoria crítica. É essencial perceber que a teoria pós-crítica prioriza o discurso sobre a realidade realmente concreta, enfatizando, sobretudo, o currículo multiculturalista, conforme descrito acima. Saiba mais As teorias curriculares são focos de diversos estudos, inclusive acadêmicos, envolvendo pesquisadores de mestrado e doutorado, além de renomados escritores de temas educacionais. Para ampliar seus conhecimentos acerca das teorias curriculares, sugiro que você realize a leitura do artigo “Teoria do Currículo: o que é e por que é importante”, disponível no link: http://www.scielo.br/pdf/cp/v44n151/10.pdf Conclusão da aula 8 Prezado aluno, chegamos ao final de nossa disciplina e, mais precisamente, na exploração da aula atual, conseguimos compreender diversos apontamentos que envolvem o currículo, seus aspectos e histórico para, então, adentrarmos nas teorias curriculares que enfocamos na concepção das teorias: tradicional, crítica e pós-crítica, entrelaçando seus apontamentos históricos e políticos, bem como suas especificidades que geraram a construção de uma sobreposição teórica. Certamente todo o caminho que trilhamos até aqui foi 88 essencial para essa compreensão e, seguramente, para a construção de conhecimentos relevantes. Atividade de aprendizagem Para que possamos compreender ainda mais sobre a educação e a sociedade, que aborda as questões curriculares entrelaçadas a própria cidadania, acesse ao vídeo disponível no link: , e faça alguns apontamentos sobre questões que você achar relevante. 89 Índice Remissivo A cultura e a cultura escolar ........................................................................... (Ambiente de educação; metodologias; práticas educacionais) 38 A escola brasileira e a equidade .................................................................... (Função básica; poder econômico; poder político) 58 A gestão democrática e o currículo ................................................................ (Autonomia; participação; valorização dos sujeitos) 46 A relação entre Currículo e Cultura escolar ................................................... (Considerações; necessidades sociais; transformações) 38 A relevância das políticas curriculares ........................................................... (Legitimidade; políticas educacionais; qualidade educacional) 61 A sala de aula, o professor e o currículo ........................................................ (Desafios; possibilidades; processo didático) 49 Analisando e refletindo sobre o currículo como proposta ............................... (Conteúdo; planificação; realidade interativa) 23 As dimensões da reflexão, da estratégia e da ação no currículo .................... (Dinamização; organização; planejamento) 14 As diversas influências sobre a cultura escolar ..............................................(Cultura acadêmica; cultura experiencial; cultura social) 42 As teorias curriculares ................................................................................... (Cultura; processos formativos; realidade educacional) 79 Aspectos históricos e culturais que permeiam o currículo .............................. (Fundamental; momentos vivenciados; transformando) 12 Caracterização e fundamentos do currículo .................................................. (Currículo escolar; processo histórico; transformação) 17 Como pode ser visto, vivido e caracterizado um currículo? ........................... (Ambiente escolar; formalizações didáticas; modalidades curriculares) 19 Concepções e histórico do currículo .............................................................. (Afetivo; emocional; social) 08 Concepções e perspectivas curriculares: as opções teóricas ........................ (Campo de investigação; complexo; experiência) 71 Cultura escolar e o currículo .......................................................................... (Cultura; comunidade; escola) 43 O currículo ..................................................................................................... (Atualização; Conceito; Possibilidades) 08 90 O currículo como construção do conhecimento ............................................. (Construção social e cultural; fenômeno prático; práxis) 71 O currículo disciplinar linear .......................................................................... (Aprendizagem; avaliação; metodologia) 30 O currículo e a organização do trabalho pedagógico ..................................... (Diversas Mudanças; Permeia; Semeia) 46 O currículo e os processos formativos: nascem as teorias ............................ (Epistemológica; função formativa; metodologia) 79 O currículo escola-novista ............................................................................. (Diferença; educação contemporânea; processo educacional) 53 O currículo integrado ..................................................................................... (Conhecimento construído; modalidade integrada; reflexão) 32 O currículo tecnicista ..................................................................................... (Autoritária; executores; receptores) 55 O currículo tradicional .................................................................................... (Aluno; avaliação; metodologia) 51 O currículo, a escola e algumas políticas que o embasam ............................. (Escola brasileira; equidade; modificações) 58 O Projeto Político Pedagógico na organização curricular .............................. (Educação igualitária; norteador; recursos pedagógicos) 36 Os fundamentos curriculares ......................................................................... (Aspectos sociais; base de sustento; fundamento) 22 PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) .................................................... (Essencial; igualdade; qualidade) 63 Processo metodológico da organização curricular ........................................ (Cunho obrigatório; organização; planejamento) 27 Quais as relações que existem entre a construção do conhecimento e o currículo? ...................................................................................................... (Conhecimento; corpo docente; educação ativa e autônoma) 75 RCN (Referencial Curricular Nacional) .......................................................... (conteúdos; didáticas; metodologia) 66 Refletindo sobre a organização curricular ..................................................... (Currículo centro da escola; direito inalienável; perfil socioeconômico) 27 Regime seriado e regime ciclado ................................................................... (Escola tradicional; fenômenos repetitivos; organização curricular) 33 Teoria crítica ................................................................................................. (Assimilação; currículo subjetivo; teoria crítica) 83 91 Teoria pós-crítica .......................................................................................... (Humanista e liberal; multiculturalismo; radicalização) 85 Teoria tradicional ........................................................................................... (Taylorismo; teorias técnicas; teorias tradicionais) 81 Uma escola sem políticas curriculares: é possível? ....................................... (Contempla a educação; diretrizes; processos históricos) 68 Vamos falar sobre o processo de conhecimento? ......................................... (Conhecimentos acadêmicos; experiencias; vivências) 74 92 Referências Alencar, E. M. L. S. (1995).; Developing creative abilities at the university level. 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Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade UNINA. O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.ocorra o trabalho e a coleta de resultados pela busca por uma educação de qualidade, porém, o que é perceptível, é que esse currículo não chegou a contemporaneidade pronto e acabado, ele possui um caminho histórico percorrido e transformações culturais, sociais e políticas, que o permearam ao longo de décadas. Nesse pensamento, o currículo não pode ser visto pura e simplesmente como um apanhado de conteúdo a ser trabalhado nos tempos e espaços escolares, com normas e regras pré-estabelecidas tanto ao docente quanto à comunidade escolar, direcionando somente como será a escola e as questões conteudistas. O currículo e todo o seu processo histórico vai muito além desse cenário, ele é uma construção social, histórica e cultural. Saiba mais Afinal, o que pode-se entender por comunidade escolar? Comunidade escolar é o conjunto das pessoas envolvidas diretamente no processo educativo da escola e responsáveis pelo seu êxito; é o corpo social da escola composta por docentes, discentes, outros profissionais da escola e pais ou responsáveis pelos alunos, disponível no link: http://www.fundacaobunge.org.br/biblioteca-bunge/ glossario/ Isso significa que o currículo e toda a sua estrutura é um reflexo dos momentos vivenciados pela sociedade, englobando diversos aspectos. Suas transformações ao longo do tempo se deram exatamente nesse contexto, proporcionando ao docente um saber muito mais do que técnico, é preciso saber mais do que os conteúdos que são de cunho obrigatório, mas entrelaçar o currículo como um todo, em um viés que apresente significado com sua própria orientação curricular. Ao decorrer do processo histórico que cerca a educação, diferentes maneiras de pensar o currículo e fazer a escola foram surgindo, e, consequentemente, novas concepções e teorias pedagógicas. As concepções 13 pedagógicas determinaram por um período específico, toda a educação básica e suas particularidades, envolvendo a relação professor e aluno, a forma de ensinar e aprender, o processo avaliativo e outros. Dessa maneira, o currículo torna-se mutável e passível de transformações, não sendo fixo, ele é práxis e apresenta uma função social e cultural significativa para a educação e, sobretudo, ao educando e sua formação totalitária, não apenas ao processo de escolarização. Nesse viés, as questões que envolvem o processo histórico e cultural se dão pelas funções do currículo, por meio de projetos e socializações presentes nos próprios conteúdos, pelas concepções que o cercam e suas práticas educativas. A história presente nas próprias concepções curriculares engloba diversos momentos significativos e norteadores, que apresentaram como cunho principal a adequação da gestão curricular conforme as necessidades econômicas, sociais e culturais da época, bem como a compreensão de sua atuação e a proposta de uma escola igualitária. Pelos motivos acima descritos, pode-se compreender facilmente esse processo histórico que há no currículo que permeia a educação brasileira, desde o início do processo de escolarização, com os próprios Jesuítas, caminhando historicamente até a contemporaneidade. Reflita Acerca de currículos e concepções que anteriormente direcionaram a escola, é possível que retornem no processo histórico, social e político que vivenciamos nesse momento? Vamos nos recordar do currículo e suas contribuições quando a necessidade de mão de obra foi colocada em questão, ou ainda, no período em que apenas o professor era visto como o detentor do conhecimento e o aluno era apenas formado no âmbito da obediência e da reprodução. São apontamentos que percebemos o quanto foram significativos para a época, inclusive no cenário político e que determinaram muitas funções para a escola e todos aqueles que faziam a escola. 14 Seguindo essa vertente, o processo histórico curricular está também diretamente relacionado a questão formadoras, tanto dos educandos quanto dos docentes. Conforme as alterações históricas e sociais aconteciam, o professor também se modificava. Tais alterações eram realizadas desde a sua formação inicial até as suas atribuições e metodologias. O currículo e seus processos históricos, envolvendo as questões culturais, sociais, econômicas e políticas, ditaram e construíram a educação brasileira ao longo de décadas, deixando como herança a responsabilidade de trabalhar em prol de uma significativa educação, permeando as leis que direcionam todo o processo educacional brasileiro. 1.3 As dimensões da reflexão, da estratégia e da ação no currículo Ao pensarmos em currículo na amplitude de suas estratégias e de suas concepções, é relevante incluir três aspectos: reflexão, estratégia e ação. Segundo Torre (1993), tais conceitos estão divididos a fim de contemplar a organização e a dinamização curricular, incluindo a ideia de plano, processo e ação, subdividindo-os da seguinte maneira: Reflexão/Planejamento Estratégia/Processo Ação O conceito se orienta em uma dimensão reflexiva, enfatizando teorias, fontes, funções e conceitualização. Refere-se a elementos estratégicos e técnico- processuais, envolve os componentes curriculares, níveis, modalidades ou organização. Apresenta um caráter operativo, como a implementação, tipos de currículo, aspectos especiais e diferenciais e adaptações curriculares. Organização e dinamização curricular Fonte: elaborado pelo autor (2017), embasada na obra de Eyng (2010), adaptado pelo DI (2019). Dessa maneira, pode-se perceber que o currículo ocupa as três dimensões descritas acima, diferenciando suas concepções e sendo composto pelo planejamento, pelo processo e pela ação. Assim, pensando nessa estruturação do currículo, há pontos distintos a serem conhecidos: ➢ Conteúdos curriculares; ➢ Proposta pedagógica; 15 ➢ Modalidades curriculares; ➢ Modelos curriculares; ➢ Inovação curricular; ➢ Níveis de concretização. Importante Para Sacristán (2000, p. 15), “o currículo é uma prática na qual se estabelece diálogo, por assim dizer, entre agentes sociais, elementos técnicos, alunos que reagem frente a ele, professores que o modelam”. O próprio termo concepção curricular refere-se à maneira de entender ou conceber o currículo em si, ou seja, a análise referente aos fundamentos epistemológicos, ciência/conhecimento e aos fundamentos ideológicos, ideia humana e percepção de mundo. Nesse viés, o currículo se apoia em abordagens tecnológicas, psicológicas, antropológicas e sociológicas. Os conteúdos curriculares diretamente se relacionam aos conhecimentos, aos elementos da cultura que foram socialmente organizados, como foi determinado as competências, habilidades, atitudes e valores. A proposta curricular, também denominada por proposta pedagógica, é um plano que tem como objetivo descrever as ações didáticas que serão realizadas. Assim como demais planejamentos, ela é flexível sendo passível a alterações. É importante considerar alguns aspectos, tais como os conteúdos, métodos e avaliação, entre outros. As modalidades curriculares compõem outro aspecto fundamental do currículo. Esse termo é utilizado para indicar as possíveis diferenças em relação ao currículo de uma modalidade de ensino, diferenciando-as e inserindo as especificidades de cada uma. Nela abrangem os instrumentos pedagógicos ou estratégias reflexivo aplicativas destinadas a melhorar ou dar conta das atividades formativas que atendam a diversidade. Os modelos curriculares se diferenciam das modalidades curriculares, pois, quando remetemos ao modelo de um currículo, estamos pensando em linhas e paradigmas que são adotados pela escola. Uma escola pode escolher entre uma vertente tradicional de ensino, escolanovista, tecnicista, crítica ou pós- 16 crítica e, essa escolha, com certeza, interfere no modelo curricular de ensino, tanto no quetange sua proposta quanto sua aplicação. O termo denominado inovação curricular é fundamental para a construção do currículo, pois nele algumas alterações significativas podem acontecer. É nela que alterações de práticas de currículo acontecem, sempre com o intuito de melhoria da qualidade de ensino. Os níveis de concretização curricular envolvem aspectos relevantes que atuam em diferentes esferas administrativas. Pode-se considerar três níveis de concretização, sendo o primeiro, aquele que envolve a União, Município e Estado, ou seja, é o primeiro nível de concretização e regido pelas políticas curriculares, pelos parâmetros e diretrizes que são determinadas para cada modalidade de ensino. O segundo nível relaciona-se ao Projeto Político Pedagógico e sua construção, enquanto o terceiro e último nível de concretização corresponde à sala em que são desenvolvidos os planos e projetos de ensino-aprendizagem. Saiba mais Para uma melhor compreensão das concepções de currículo e políticas curriculares, acesse ao vídeo Política Educacional – O direito de aprender (Mário Sérgio Cortela), disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=P5APS WWOxfo Conclusão da aula 1 Bem estudante, estamos chegando ao final dessa nossa primeira aula e pode-se perceber que muitos termos são utilizados ao se remeter ao currículo, a fim de gerar a reflexão, a estratégia e a ação, sendo todos imprescindíveis a fim de, pelo conhecimento, gerar a melhoria da qualidade da educação. Essa aula nos permitiu conceituar o currículo, afinal, ele tem um conceito único e imutável. Foi visto o currículo, desde o início das possibilidades de sua conceituação, até os dias atuais, gerando diferentes conceitos. 17 Atividade de aprendizagem Prezado estudante, nesse momento é importante que você reflita sobre os principais pontos abordados em nossa aula e, para fixação, sugiro que confira em uma escola que você tenha acesso, como ocorre a relação teoria e prática entre o currículo e a escola. Depois transcreva os principais apontamentos relacionando-os com nossos aprendizados. Aula 2 – Caracterização e fundamentos do currículo Apresentação da aula 2 Olá aluno, nesta aula vamos refletir um pouco mais sobre o currículo escolar, suas características e fundamentos. Inicialmente é importante que você perceba que a escola, seguramente, passou por transformações significativas ao longo de seu processo histórico, político e social, e que está em constante modificação que, naturalmente, envolveram o currículo em um passado não tão distante e envolverão o currículo escolar em todas as suas etapas de alterações e melhorias da instituição escolar. 2.1 Caracterização e fundamentos do currículo Para uma melhor compreensão dessa realidade, vamos regressar na história e perceber que as funções e características escolares mudaram, e muito, de décadas atrás, até a contemporaneidade. Anteriormente não existia um conflito ou reflexão sobre o que deveria ser ensinado nas escolas, ou melhor, em determinados períodos, embasados em uma educação tradicional e bancária, não se refletia sobre o que seria “transmitido” aos alunos. 18 Paulo Freire Fonte: https://envolverde.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/paulo-freire-padago go-educador-escritor-pensador-educacao.jpg A escola então assumia um papel apenas de transmissora do conhecimento científico e não era voltada para alguns aspectos que envolviam muito mais do que o saber, como a formação integral do sujeito que, certamente, relacionariam os aspectos sociais, psicológicos, emocionais, afetivos e outros, além dos conteudistas. Com o passar do tempo, a sociedade se transformou e passou a exigir da escola muito mais do que uma formação de conteúdos e saberes dos livros didáticos, o que gerou, certamente, algumas transformações muito significativas na função escolar, que passou não somente a trabalhar conteúdos, mas também à formação do aluno como um todo, buscando formar um cidadão democrático, autônomo e crítico. Curiosidade Afinal, o que significa a educação bancária? Paulo Freire define como "bancário" a pedagogia burguesa, comparando os educandos a meros depositários de uma bagagem de conhecimentos que deve ser assimilada sem discussão. Essa modalidade de educação teria como objetivo não equalizar os conhecimentos entre educador e educando, mas sim "manter a divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os oprimidos e os opressores". Ilustrando esse conceito, pode-se compreender a educação bancária pela seguinte imagem: 19 Fonte: elaborado pelo autor (2017). Reflita Você conseguiu compreender e refletir acerca dessa transformação? Afinal, a escola assumiu um posicionamento que antes era considerado somente da família. Então pode-se perguntar: “e o currículo nesse cenário, quais são suas características e fundamentos”? Essa é uma ótima reflexão que, seguramente, faremos e esclareceremos ao longo de nossa viagem pela temática de nossa aula de hoje. Assim, pensando no cenário de agregar funções sociais e de formação integral para a escola, o currículo, suas pesquisas e discussões, estão relacionadas a um suporte essencial para a escola e para a comunidade escolar, como os docentes, coordenadores e diretores pedagógicos. Assim, tudo o que ocorre dentro e fora dos muros escolares passam a ser organizados para que sejam utilizadas e relacionadas as questões de formação integral do aluno e de maneira contínua e significativa a esse processo de ensino-aprendizagem. 2.2 Como pode ser visto, vivido e caracterizado um currículo? Refletindo sobre os aspectos de características do currículo, ele não pode ser entendido e nem conceituado como uma segregação de áreas e de conhecimentos específicos, envolvendo metodologias e conteúdo. Assim, Educação Bancária Transmissão de saber Falta de autonomia do educando Professor era o detentor do conhecimento Recepção de conteúdos transferidos 20 precisamos nos atentar a um currículo que englobe de maneira coletiva os saberes e todos os aspectos que envolvem a formação totalitária do educando. Dessa maneira, vamos sempre nos atentar a um currículo que aborde uma cultura embasada na realidade, que surge de uma série de processos e que não se limita e, tão pouco, que seja imutável, distante da realidade da comunidade escolar, sobretudo do educando e de suas experiências. Os aspectos que envolvem a exploração dessa segunda aula são a relação entre o currículo e a escola atual. Nessa perspectiva, a escola deverá promover situações, as quais permitam que esse currículo tão pensado e estruturado realmente aconteça na prática, promovendo um ambiente e uma educação de qualidade e prazerosa, levando a escola a ser vista não somente como um local de educação formal, mas também de relações sociais, estabelecendo vínculos afetivos sólidos e permitindo ao educando dialogar, compartilhar, retribuir e construir relações significativas que vão além dos conteúdos propostos em sala de aula, e, ao professor, a reflexão e alteração de suas práticas metodológicas sempre que necessário. Assim caro aluno, vamos refletir sobre a caracterização e função curricular, colocando-o como vimos em nossa primeira aula, como um instrumento essencial para a construção de saberes, de identidade dos alunos e da própria instituição escolar, bem como da formação que se deseja construir. Dessa maneira, pode-se afirmar que o currículo se torna a base de toda a escola e de todo o processo educacional, envolvendo as experiências de vida, as situações empíricas e as vivências pedagógicas, sociais e culturais. E assim, estudante, você deve refletir sobre a “neutralidade” curricular, afinal, se ele é envolto por experiências de vida pedagógica, levandoem consideração situações que vão além dos muros escolares, poderá então ser caracterizado como neutro ou até mesmo passivo? Acredito que tenha respondido que “jamais”, pois o currículo representa força, autonomia, legitimidade, ideologias, sistemas sociais, políticos e econômicos que envolvem não somente o espaço da escola, mas da comunidade, do bairro e até do município que está inserida. Uma característica significativa do currículo e que se entrelaçará com a sua concepção, vista em nossa primeira aula, é acerca da relevância que ele apresenta frente ao trabalho docente. É um orientador de todo o caminho a ser 21 percorrido ao longo da formação do sujeito, bem como, do direcionamento do professor em suas atividades e práticas pedagógicas, porém, ele não deve assumir uma caracterização imutável, mas sim, ser visto como um recurso flexível que busque atender as demandas tanto da escola quanto do professor e também dos educandos. Agora, vamos conhecer, na temática da caracterização curricular, três modalidades fundamentais que se inter-relacionam com o currículo escolar. O primeiro dele é o currículo formal, seguido pelo currículo oculto e finalizando, o currículo nulo. Acompanhe as tabelas explicativas que abordam as principais características de cada modalidade: Currículo Formal Conjunto dos conteúdos culturais explicitamente declarados nas diretrizes curriculares, estabelecido pelos sistemas de ensino, expresso em diretrizes curriculares, objetivos e conteúdo das áreas ou disciplinas de estudos; encontrado nas leis, e nos parâmetros. Currículo Oculto Conjunto de situações escolares não publicamente declaradas, isto é, aquilo que os alunos aprendem no cotidiano escolar, mas que não é ensinado pela escola. Currículo Nulo Currículo que a escola não ensina. Trata-se da ausência da oportunidade de aprender. Modalidades curriculares Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). No processo de compreensão das particularidades de cada modalidade é importante ressaltar alguns pontos fundamentais. Veja, o currículo formal é exatamente aquele determinado pelas legislações educacionais brasileiras, ou seja, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a nossa LDBEN nº 9394/1996, por nossas Diretrizes Curriculares, pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, pelos Referenciais Curriculares Nacionais e outras políticas e normativas curriculares de nossa educação. Em sua maioria, elas são determinações fixas que devem ser seguidas, já outros, apenas orientam e sugerem à escola o que podem contemplar no âmbito curricular para auxiliar na formação totalitária do educando. Com a modalidade do currículo formal, a 22 cultura é sempre levada em consideração, além de direcionar os principais e necessários assuntos e conteúdo a serem abordados, conforme a realidade e a atualidade, realizando, certamente, as decodificações e formalizações didáticas correspondentes. Já o currículo oculto, é exatamente aquele que está entrelaçado de maneira muito significativa com as experiências empíricas do aluno e que, certamente, contribuem para a sua formação enquanto cidadão ativo, crítico e reflexivo. Pode-se nos ater nessa modalidade curricular aos temas transversais, pois são situações que ocorrem em ambiente escolar, porém, não fazem parte exatamente de uma disciplina ou conteúdo explícito, porém, estão presentes na formação totalitária do aluno. As suposições em sala de aula não podem ser planejadas, pelo próprio fato de serem silenciosas e incidentais. Assim, para se tratar de algum tema específico e, seguramente, relevante, é preciso que alguma situação em especial aconteça, justamente para que o docente levante o ocorrido, o tema e as aprendizagens que se relacionam a ele. Finalizando as modalidades, vamos agora pensar no currículo nulo, que é exatamente a ausência de oportunidades para aprender determinadas situações que fazem parte da formação integral do cidadão. Claro, essa modalidade curricular não substitui um docente jamais, mas é como um auxílio em relação às regras e às necessidades da escola e da comunidade como um todo. O currículo nulo é relativo à todas as atividades relacionadas ao aprendizado do aluno, sejam elas científicas ou sociais. 2.3 Os fundamentos curriculares Seguindo nossa viagem pelos principais aportes que embasam o currículo e compreendendo algumas particularidades que envolvem os fundamentos curriculares. Você sabe exatamente o que esse termo significa? Veja, a palavra fundamento se relaciona exatamente a alicerce e, em nossos estudos, torna-se precisamente a base que sustenta um currículo. Então você deve estar se perguntando: “O que exatamente embasa um currículo”? Na verdade, um currículo é formado por um conjunto de ideias e aspectos, além das questões políticas e econômicas vigente. 23 Ao pensarmos em currículo no sentido dessa junção de aspectos e valores, ele assume, necessariamente, um âmbito articulado e com atividades que realmente são direcionadas, intencionadas e interdisciplinares, abordando, seguramente, questões como a visão do homem e de mundo, a sociedade, a cultura, trabalho e educação, atreladas às práticas pedagógicas que permitam construir e reconstruir as bases da formação integral do aluno. E, ressalto a você aluno que essa formação, essencialmente, deve permitir que, em fase adulta, o educando se coloque como capaz de contribuir social e economicamente para o desenvolvimento de sua sociedade. Seguindo esse pensamento, pode-se então nos permitir compreender o currículo, voltado para a educação básica brasileira e seus fundamentos, como um apanhado de valores e questões conteudistas que relacionam a teoria e a prática, a fim de auxiliar a escola e a comunidade escolar na promoção da formação global do educando, envolvendo aspectos sociais, culturais, físicos, emocionais, psicológicos, além, é claro, de seu próprio processo de escolarização e de ensino-aprendizagem. Assim, certamente, o currículo deverá ser embasado em questões que reafirmem a necessidade de uma implementação que permita intercruzar as áreas de conhecimento e, não somente, de conhecimentos fragmentados, afinal, como auxiliar a formação totalitária do sujeito com um currículo que valoriza um saber repartido? Isso nos parece contraditório e, até certo ponto, realmente o é. Ao contemplarmos um currículo embasado em fundamentos que nos permitam interagir e articular entre os diferentes saberes científicos, permitimos aos nossos alunos uma compreensão significativa da realidade que nos cerca e, naturalmente, a estabelecermos positivamente os processos que envolvem a construção dos saberes. 2.4 Analisando e refletindo sobre o currículo como proposta Seguindo, percebemos que o currículo envolve diversos aspectos para então definir sua conceituação e suas características e fundamentos. Para nos aprofundarmos em nossa temática, exploraremos o currículo como proposta, conteúdo, planificação e realidade interativa. Assim, é importante entendermos 24 que as concepções e características que apresentam o currículo como proposta, se refere diretamente ao processo de educação dos alunos. Para Rasco e Garcia (1994, p. 18), esse aspecto se diferencia por questões bastante singulares, pois o currículo como proposta é aquele que está diretamente ligado à educação dos educandos, que “adquire, inevitavelmente, um significado prescritivo. Currículo é, então, o que deve ser desenvolvido nas escolas”, ou seja, aqui os autores se referem ao planejamento que organiza todos os processos escolares de ensino-aprendizagem. Se tratando do currículo como proposta, deparamo-nos com três aspectos: ➢ O currículo como conteúdo; ➢ O currículo como planificação; ➢ O currículo como realidade interativa. O currículo como conteúdo, apesar das variações,fica então definido como aquele que se encontra como uma sequência de unidades de conteúdo e aquele capaz de promover um conjunto de resultados de aprendizagem, sempre apoiadas em atividades anteriores, como uma sequência de anos e aprendizagens. Nessa forma curricular, Rasco e Garcia afirmam que o currículo “é uma questão de definir a sequência de atividades apoiadas e pré-requisitos desenvolvidos nas atividades anteriores”. Importante Para Sacristán (2000), o currículo “é uma práxis antes que um objeto estático emanado de um modelo coerente de pensar a educação ou as aprendizagens necessárias das crianças e dos jovens, que tampouco se esgota na parte explicita do projeto de socialização cultural nas escolas”. Essa concepção de currículo nos remete a uma prática extremamente antiga que relaciona a prática pedagógica ao cumprimento de conteúdos obrigatórios, levando o professor a uma preocupação excessiva de cumprir com a transferência dos conteúdos, como foi visto acerca da educação bancária, 25 levando o próprio currículo à conceituação que se refere ao conjunto de conteúdos organizados em uma sequência gradativa de aprendizagem. Sobretudo, o currículo abordado como conjunto de conteúdo, também possui a vertente de ressaltar o papel da escola, quando atribuímos a ela a função de educação formal, atingindo os objetivos referente aos conteúdos propostos em currículo. O currículo como planificação é muito próximo ao currículo como conteúdo. O termo planificação significa planejar, assim, pode-se entender o currículo como planificação, aquele que indica e define os marcos das ações educativas de uma escola. Dessa forma, ele apresenta não somente conteúdos, o que precisa ser aprendido e ensinado, mas também os materiais e métodos de ensino. Nessa forma de currículo é preciso ficar atento para não os deixar apenas no planejamento, seguindo os marcos definidos, porém, apenas na intenção de colocá-lo em prática, é preciso ir além, se faz necessário que o currículo apresente intenções justificadas que sirvam de referenciais no detalhamento dos planos que os professores desenvolverão e que devem, por sua vez, caminhar conforme a realidade educacional que será desenvolvido. O currículo como realidade interativa aproxima-se da concepção prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, lei nº 9394/96 da elaboração participativa do projeto pedagógico curricular da escola, ou seja, nesta perspectiva de currículo é uma construção realizada na interação entre professores, alunos e de todos os que participam, direta ou indiretamente da vida da escola. Nesse viés, Rasco e Garcia apontam que o currículo com a proposta de realidade interativa, assemelha-se, fundamentalmente, na relação dinâmica entre o planejamento da escola, da aula e as considerações das divergências ou convergências existentes entre o currículo pensado e aquele realmente colocado em prática. Dessa maneira, o professor assume um papel principal, ele é visto como um agente curricular, é ele que, com sua formação, compreende, planeja e adequa a gestão ao currículo. É válido ressaltar que os autores Rasco e Garcia (1996, p. 27), dentro das concepções, caracterização e fundamentos curriculares descritas acima, apresentam como o termo “representação” aquilo que “representamos o mundo, compreendê-lo e interpretá-lo.” Já a ação, refere-se à “atuação que temos sobre 26 o próprio currículo, para muda-lo e transforma-lo.” Mediante a explanação das concepções curriculares, é importante percebermos que voltamos ao que Saviani nos aponta, de que não há um currículo certo ou uma definição engessada. Precisamos observar o contexto e qual a melhor representação e ação educativa deverá ser validada. Saiba mais Saviani é um grande estudioso sobre o currículo e suas particularidades voltadas para a educação formal. Para que se compreenda sobre o cenário e pensamentos do autor, bem como as concepções de currículo e políticas curriculares, acesse ao vídeo de Saviani, que trata da temática das políticas educacionais brasileiras, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=uhomL5IUoFk Conclusão da aula 2 Nessa perspectiva caro estudante, em nossa segunda parte dessa incrível viagem, nos aprofundamos significativamente nas particularidades que envolvem o currículo, conhecendo termos específicos e necessários para a compreensão de diversos aspectos que envolvem nossa disciplina. Conhecer um pouco mais da história do currículo, bem como sua caracterização e seus fundamentos contribuíram para avançarmos ainda mais em nossa temática e na construção de nosso conhecimento, levando a compreender a relevância da relação estabelecida entre a teoria e a prática, entre os saberes diversos e o processo de ensino-aprendizagem, bem como entre as metodologias pedagógicas e os recursos didático-pedagógicos e, certamente, no trinômio sólido que é composto pela escola, comunidade escolar e o currículo, a fim de contemplar uma educação básica de qualidade e integral. Atividade de aprendizagem Gostaria que você, caro estudante, após assistir ao vídeo de Saviani, escreva uma resenha apontando os principais conhecimentos solidificados por meio do vídeo. Vale a pena conferir e agregar mais saberes ao nosso conhecimento acerca da aula de hoje! Posteriormente, sugiro que retorne no início de nossa aula para refazer a leitura, de fato, essa ação lhe auxiliará ainda mais nas compreensões acerca do currículo e seu processo histórico. 27 Aula 3 – Processo metodológico da organização curricular Apresentação da aula 3 Olá aluno, vamos refletir acerca da organização curricular? Perceba, para iniciarmos vamos pensar na própria expressão: “organização curricular”, o que lhe vem à mente? Possivelmente uma organização de conteúdo, correto? Mas será que organizar um currículo é somente pensar e separar o que será ensinado e em qual ano ou série determinados conteúdos devem aparecer, sendo de cunho obrigatório? A prática, o planejamento, as atividades pedagógicas e o direcionamento do professor, fazem parte da organização curricular? Com certeza, afirmamos que organizar um currículo vai muito além desse pensamento e dessa ação. Organiza-lo é pensar na escola e na educação como um todo, ampliando os horizontes e adentrando os muros escolares, porém, não nos prendendo apenas em questões que envolvem a sala de aula, é preciso ir além, pensar no aluno, na educação com qualidade e direitos, na escola, na comunidade escolar e seus entornos. 3.1 Refletindo sobre a organização curricular Nessa perspectiva, ao referirmos a organização curricular, precisa-se, inicialmente, recorrer à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) que apresenta alguns apontamentos acerca da organização curricular. Ressalto que o currículo é o centro da escola e da educação, tornando-se um ponto relevante para a sua organização, devendo ser refletido e planejado, pensando na realidade da escola e de sua comunidade escolar, a fim de, juntamente com a legislação e esferas de governo, garantir uma educação de qualidade, considerando que a educação é um direito inalienável de todos os cidadãos, sendo essa condição nata para o exercício dos direitos humanos, sociais, políticos e econômicos. O currículo escolar e sua organização permeiam o ambiente escolar e interferem em significativos processos e procedimentos que envolvem o dia a dia da escola e da comunidade escolar. A organização curricular deve estar voltada ao sistema de ensino, a concepção adotada pela escola o que, 28 naturalmente, já envolve aspectos específicos, como o perfil socioeconômico, a localização, a cultura regional entre outros, que contemplem toda a dimensão da construção das competências e habilidades que envolvem o processo de ensino- aprendizagem compreendido naeducação básica. Assim, voltamos ao estudioso Saviani, que apresenta a organização curricular, também conhecida como grade curricular, ficando definida da seguinte maneira: Organização curricular O conjunto de atividades desenvolvidas pela escola, na distribuição das disciplinas/áreas de estudo (as matérias ou componentes curriculares), por série, grau, nível, modalidade de ensino e respectiva carga horária, aquilo que se convencionou chamar de “grade curricular. Compreende também os programas, que dispõem os conteúdos básicos de cada componente e as indicações metodológicas para seu desenvolvimento. A organização curricular supõe a organização do trabalho pedagógico. Isso quer dizer que o saber escolar, organizado e disposto especificamente para fins de ensino aprendizagem, compreende não só aspectos ligados à seleção dos conteúdos, mas também os referentes a métodos, procedimentos, técnicas, recursos empregados na educação escolar. Consubstancia-se, pois, tanto no currículo quanto na didática. Organização Curricular segundo Saviani Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Nesse viés, é perceptível a importância da organização curricular, ela está diretamente ligada a qualidade de ensino, assim, as diretrizes curriculares apontam para um planejamento e desenvolvimento do currículo que supere a fragmentação de disciplinas, enaltecendo a articulação dos conhecimentos. O currículo e sua organização, além de contemplar os aspectos descritos acima, precisam inserir o educando na sociedade da qual faz parte, tornando-o um cidadão crítico e conhecedor de seus direitos e deveres e, para atingir esse fim, a escola que possui sua consciência social, deve inserir na organização curricular aspectos que gerem a base nacional comum e os temas transversais, comprometendo-se com a cidadania e a formação integral do sujeito. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNS) apresentam alguns aspectos 29 também norteadores que auxiliam na organização curricular. Vamos ver esses parâmetros na tabela abaixo: OS PCNS E ASPECTOS TAMBÉM NORTEADORES NA ORGANIZAÇÃO CURRICULAR Respeito aos direitos humanos e exclusão de qualquer tipo de discriminação, nas relações interpessoais, públicas e privadas de igualdade de direitos, de forma a garantir a equidade em todos os níveis Participação como elemento fundamental à democracia Corresponsabilidade pela vida social como compromisso individual e coletivo A inclusão de temas socioculturais no currículo transcende o âmbito das diversas disciplinas e corresponde aos Temas Transversais, preconizados pelos PCNs para o Ensino fundamental e que se caracterizam por: Urgência social Abrangência nacional Possibilidade de ensino- aprendizagem Favorecimento na compreensão da realidade social Na forma de: Ética, diversidade cultural, meio- ambiente, saúde e orientação sexual Trabalho e consumo Aspectos norteadores para a organização curricular Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Embasados na LDB 9394/96 e nos PCNS, é perceptível a relevância da conscientização ao construir a organização curricular de uma escola. A escola vai além de questões conteudistas, ela envolve aspectos da formação do educando que devem, obrigatoriamente, contemplar o processo de ensino- aprendizagem, juntamente com a dialogicidade e com os saberes interdisciplinares. Vocabulário Dialogicidade: característica do que é dialógico, dialogal, daquilo que se efetua por meio do diálogo, de uma interação comunicativa, da conversa. Qualidade do que propõe acordo ou se efetiva por meio de um acordo: a dialogicidade entre nações conflitantes. 30 3.2 O currículo disciplinar linear Seguindo em nossa viagem pelos estudos acerca do currículo e de suas particularidades, vamos adentrar em uma temática extremamente significativa em todo esse processo. Conforme acompanhamos em aula anterior, a discussão acerca do currículo e seus modelos não é algo recente, sendo muitas vezes, o centro de intensas discussões, tanto no âmbito social e educacional, quanto no cenário político. Dessa maneira, ao refletir sobre a organização curricular, deve- se ter em mente os aspectos que permeiam o currículo linear, também denominado como disciplinar. Reflita Mas, afinal, do que se trata essa forma de currículo? Quais suas finalidades e especificidades? Veja, o currículo disciplinar é aquele que atende à demanda das escolas na contemporaneidade e, a princípio, esse permanecerá em nossa educação brasileira por tempo indeterminado. Pensando em uma mudança significativa, envolvendo a alteração da espécie de currículo adotada, traria, sem dúvidas, intensas modificações, inclusive na prática pedagógica do professor. Importante O currículo está diretamente relacionado à concepção teórica que o fundamenta, assim, conforme a teoria, um estilo específico de currículo. O currículo disciplinar relaciona-se com as teorias reprodutoras, ou seja, as conservadoras e tradicionais. Pensando no próprio nome do currículo: “disciplinar”, pode-se buscar seu significado no latim, que indica à palavra disciplina, como doutrina e instrução a um pessoal, englobando os aspectos morais, artísticos e acadêmicos/escolares. Seguindo pela busca da etimologia da palavra, a disciplina escolar também pode ser vista como uma mera obrigação imposta aos educadores no âmbito conteudista, ou seja, o conteúdo que o professor precisa transferir ao seu aluno e esse, por sua vez, precisa absorve-lo e memoriza-lo. 31 Como uma de suas principais características, pode-se relacionar esse currículo a uma linha de montagem, como um sistema de produção, sendo bastante objetivo e direcionado, não há o que pode-se classificar como aprofundamento, levando as disciplinas que contemplam cada ano escolar, a seguir uma ordem e uma sequência, o que, em grande maioria, nos leva a nos deparamos com disciplinas fragmentadas, como se fossem criadas bifurcações de uma mesma matéria. Essa fragmentação também ocorre no momento que pensamos em teoria e prática, separando e classificando as disciplinas e conteúdo. Esse pensamento pode nos remeter a alguns equívocos que permeiam a própria disciplina, como a distinção clara que há entre os assuntos abordados na parte teórica, não os relacionando com a prática, bem como no aspecto de distanciar a aprendizagem da realidade do educando, não atribuindo significado ao que ele aprende na educação formal, com a sua vivência, sua prática e sua vida. Nessa perspectiva, o currículo disciplinar acredita que o aluno já possua um acúmulo de conhecimentos e que o próprio conhecimento é como um produto que deve apenas ser consumido, não havendo modificações, ele já está pronto, já é acabado, feito e concluído, precisando apenas ser transferido. Nesse aspecto, alguns termos e ações são comumente utilizados ao se tratar da teoria curricular tradicional e, naturalmente, no modelo linear disciplinar de um currículo, como: aprendizagem, avaliação, metodologia, organização, planejamento e os objetivos. Termos e aplicabilidade tal que levam o currículo disciplinar a relacionar-se diretamente ao mercado de trabalho e pela escola tradicional, nova e tecnicista, visando a memorização do conteúdo que já está acabado. Esse modelo curricular cabe exatamente ao que Freire denominou como prática de uma educação bancária. Nela, o aluno não possui voz ativa, não produz, apenas reproduz, não aponta, não instiga, não registra, não reflete e, tão pouco, desenvolve a criatividade e a criticidade. Assim, o educando, é comparado a uma espécie de folha em branco, que apenas recebe os conteúdos repassados pelo professor, a fim de memoriza-los e não de construí-los. 32 3.3 O currículo integrado Agora caro aluno, vamos conhecer sobre o currículo integrado. Vamosjuntos explorando essa forma curricular? Veja, ao ir de encontro ao modelo do currículo linear tradicional, nos depararemos com o surgimento do currículo que se refere à modalidade interdisciplinar ou também, aquele que é conhecido como currículo integrado. O termo interdisciplinar, etimologicamente, se refere a junção, a estabelecer relações entre duas ou mais disciplinas ou ramos do conhecimento, trabalhando o que há de comum entre elas, ou seja, unir os objetos e formar os conhecimentos. Quando remetemos a alguns pontos específicos do currículo, sobressai, como uma de suas especificidades, a desfragmentação da educação, envolvendo questões conteudistas, bem como os aspectos da construção do conhecimento que, nessa visão, não é um saber já pronto e sem alterações, podendo ser visto como a construção de conhecimento de maneira integrada. Dessa maneira caro estudante, o currículo interdisciplinar aborda essa integração de saberes, rompendo com a ideia da divisão da educação e as áreas de conhecimento, tão aplicadas e utilizadas até a contemporaneidade. Nessa perspectiva, algumas características básicas são atribuídas a essa concepção curricular, destacando a inter-relação entre a teoria e a prática no processo formativo, ou seja, as disciplinas em si se complementam e se integram. A favor do pensamento Freireano da educação, a modalidade integrada ressalta o conhecimento construído pelo educando, nele o aluno não é mais uma folha em branco, ele possui suas experiências e vivências além, é claro, da capacidade de reflexão, de pensamento, de ação, de sistematização e de comunicação. Nesse contexto, o currículo interdisciplinar relaciona-se com a teoria crítica e construtivista, que serão aprofundadas em aulas seguintes, pois são capazes de interferir de maneira direta e significativa na formação integral do sujeito, tornando-o um cidadão crítico, autônomo e reflexivo, capaz de dialogar e se posicionar na sociedade que faz parte. Outra característica significativa nessa modalidade curricular e que merece destaque é a relação dos diferentes componentes curriculares englobados na própria rotina escolar, ou seja, para que os conhecimentos construídos pelo educando tenham significado é preciso ficar atento a alguns 33 pontos como as temáticas abordadas e a realidade socioeconômica da escola e da sua clientela. Com esses apontamentos, percebemos que nessa formação curricular o conhecimento é o objetivo e o resultado de um processo que foi pensado, refletido, analisado e construído, não está pronto ou acabado e, todo esse processo é mediado pela própria percepção do aluno frente aos objetos de estudo, bem como pela metodologia utilizada, ocorrendo assim uma relação relevante entre o aluno, o objeto, o pensamento e a interação, promovendo a construção de um conhecimento significativo. Quando pensamos na atualidade e, sobretudo em alguns aspectos que envolvem a educação brasileira, como as políticas educacionais, fica claro a necessidade de implementação totalitária de um currículo integrado, que contemple o educando e seus pensamentos, bem como promova a interdisciplinaridade entre os conteúdos. Para tal fato, é preciso uma remodelagem dos próprios profissionais da educação, além dos recursos e objetivos educacionais afinal, o currículo integrado vai além da junção de conteúdos e disciplinas, ele visa a formação integral do sujeito, abrangendo aspectos sociais, políticos e econômicos, permitindo ao educando transformar- se em um cidadão crítico, reflexivo e atuante na sociedade, com seus pensamentos e reflexões, utilizando-se de sua própria fala e comunicação e, não apenas, um mero transmissor de saberes. 3.4 Regime seriado e regime ciclado A escola tradicional esteve presente por muitas décadas na educação brasileira, contemplando assim o regime seriado, que abrangeu o final do século XIX até meados da década de 1980. Sabe-se que a educação tradicional, em diversos aspectos, não contemplava o aluno e a sua própria construção do conhecimento, sendo conhecida como aquela pedagogia que se centrava na transmissão do saber, daqueles conhecimentos até então considerados essenciais para a formação do educando, sobretudo no aspecto social e ao mercado de trabalho. 34 A escola tradicional Fonte: https://aviagemdosargonautasdotcom.files.wordpress.com/2012/11/248508_361 451710603541_546128288_n.jpg Nesse viés, contemplando a pedagogia tradicional, a forma de organização curricular seriada ocorria por meio da segregação dos componentes curriculares para cada campo do conhecimento e, posteriormente, para a divisão de séries. Nessa forma de organização curricular fica determinado aspectos temporais, sendo então, pela própria legislação escolar, estabelecido períodos específicos para ensinar e para aprender, bem como o que deve ser transmitido e o que deve ser memorizado e absorvido em cada ano ou série escolar, não havendo distinção para esse tempo assim, não se leva em consideração questões peculiares como as dificuldades de aprendizagem ou necessidades especiais. Outra forma de organização curricular frequente na educação brasileira, embasada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, é o regime ciclado. Existem algumas diferenças significativas ao compara-lo ao regime seriado, sobretudo no que se refere ao tempo, ao processo de ensino- aprendizagem e ao educando. Na organização curricular por ciclos, a idade dos alunos é determinante para o agrupamento e organização do ensino fundamental, almejando a formação totalitária do sujeito, abordando valores fundamentais e que são essenciais para além dos muros escolares. Esse processo se dá então por diversas metodologias e atividades que contemplam as experiências do 35 educando, sua participação social, o contexto do qual faz parte, a diversidade da turma e demais aspectos que interferem no processo de ensino-aprendizagem. Uma das características essenciais do modelo curricular em ciclo e que se diferencia significativamente da organização curricular seriada, é a aprendizagem que, mesmo abordando questões conteudistas essenciais para cada ciclo, apresenta o conhecimento como inacabado e passível de construção pelo próprio educando, deixando de ser uma mera transmissão de saberes e memorizações, sendo o aluno capaz de se apropriar de seu próprio saber, denominado assim por um processo sociointeracionista. Dessa maneira, nos deparamos com uma organização curricular que valoriza o educando e suas construções individuais e coletivas, abordando não somente um campo do conhecimento, uma área ou uma disciplina, mas contemplando e sistematizando os saberes. Assim caro estudante, pensando inclusive no próprio conceito etimológico do termo ciclo, o qual nos deparamos com um significado de série de fenômenos que se repetem em uma determinada ordem, é relevante apontarmos que, juntamente com a organização curricular, o ensino em ciclo compreende a busca pela oportunidade de maior tempo e contato do educando com os saberes, ou seja, que ele tenha maior disponibilidade para compreender os assuntos propostos pelo currículo e que, por meio das interferências da escola, construa o seu aprendizado e o seu conhecimento. Nesse contexto, o tempo deverá ser o suficiente para que cada educando usufrua da escola como um todo até a finalização dos processos, ou seja, da conclusão dos ciclos. Nesse viés, é perceptível a relação entre o binômio organização curricular e o Projeto Político Pedagógico, em que a instituição de ensino possui a sua autonomia na escolha de sua organização individual curricular. Ambas maneiras de organização curricular podem coexistir ainda na educação nacional, não há determinado aquela que é classificada como correta e incorreta, porém, há diversos estudos que permeiam essas formas mais comuns da educaçãobásica brasileira. Essa abertura para a organização curricular está presente em nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a lei 9394/96 em seu artigo 23: A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse 36 do processo de aprendizagem assim o recomendar. (LDBEN, 9394/96). A escola deverá ter em mente exatamente seus objetivos frente à formação do sujeito, para então, definir a forma de sua organização curricular. Embasada nesses objetivos de formação totalitária do educando, é possível reconhecer a organização que melhor se enquadra e que visa intermediar a obtenção dos resultados desejados. 3.5 O Projeto Político Pedagógico na organização curricular Vamos partir para uma exploração ainda mais significativa, nos remetendo ao binômio: Projeto Político Pedagógico e a organização curricular. Importante É importante que você reflita acerca dessa relação e de sua influência exata na prática educacional. Veja, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 9394/96, permitiu um significativo avanço quando pensamos em organização curricular e o Projeto Político Pedagógico, determinando que cada instituição de ensino, juntamente com seu corpo docente e comunidade escolar, construa o seu próprio PPP, respeitando as especificidades de cada região, inclusive os aspectos socioeconômicos e políticos que permeiam a escola. Seguindo nessa vertente de um currículo e PPP construído coletivamente, de maneira natural haverá uma saudável discussão acerca de pontos essenciais que permeiam o currículo, como concepções de homem, de mundo, de sociedade, de conhecimento e de avaliação, por exemplo, aspectos os quais contemplam o currículo e sua organização. Dessa maneira, o currículo escolar e sua organização, englobando o Projeto Político Pedagógico, se relaciona diretamente com os objetivos individuais de cada instituição de ensino, contemplando além das metas estabelecidas nacionalmente pela busca da educação igualitária e de qualidade, às metas da própria escola, seus próprios objetivos e desejos a serem atingidos, dividindo assim suas dimensões em três tipos de organização relevantes e significativas para a organização curricular, sendo: 37 PROJETO – PLANEJAMENTO Junção de propostas, reflexões e ações a serem executadas em determinado período. POLÍTICO Aborda aspectos da formação dos educandos, tornando-os conscientes e críticos, sendo capazes de atuar e modificar o cenário social. PEDAGÓGICO Planejamento acerca das questões conteudistas, englobando todos os aspectos que envolvem o processo de ensino-aprendizagem. Organização curricular Fonte: elaborado pelo autor (2017), adaptado pelo DI (2019). Nesse contexto, o Projeto Político Pedagógico se torna um norteador para todos os contextos que envolve a escola, indo além do próprio corpo docente, dos educandos e das suas interações e aprendizagens, mas também, englobando a comunidade escolar como um todo e a formação totalitária que permeia um ser humano. O Projeto Político Pedagógico de uma escola deve abordar temas relevantes como a missão da escola, a clientela que a frequenta, seus aspectos socioeconômicos, os recursos didáticos pedagógicos, os planos de ação, as diretrizes pedagógicas e os aspectos relativos ao processo de ensino-aprendizagem , que direciona e organiza o currículo de maneira intensa, abordando questões do processo de avaliação, da forma curricular adotada pela escola e das questões conteudistas e metodológicas. O Projeto Político Pedagógico está intimamente relacionado à organização curricular. Ele engloba a escola em todos os seus aspectos, contemplando não somente as questões relacionadas ao conteúdo. Assim, ao nos remetermos ao projeto político e pedagógico de uma escola, é indissociável a reflexão acerca da organização curricular do tempo e espaço em que serão desenvolvidos aspectos como os valores e a formação do educando, além do processo escolar. Saiba mais Para ampliar os conhecimentos acerca das modalidades de organização curricular, ressaltamos a leitura do artigo: A organização do ensino fundamental em ciclos: algumas questões, disponível no link: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v14n40/v14n40a04.pdf 38 Conclusão da aula 3 Caro aluno, finalizando a nossa terceira aula da disciplina de Teoria do currículo. Você está a cada dia construindo e aprimorando seus conhecimentos por meio das temáticas propostas em nossas aulas. Pudemos conhecer um pouco mais sobre alguns tipos de currículo e suas particularidades, além do ensino ciclado, do seriado e de todos os aspectos que permeiam a organização curricular, como o Projeto Político Pedagógico e alguns apontamentos oriundos da legislação curricular brasileira. Atividade de aprendizagem Vamos refletir um pouco mais acerca de alguns aspectos abordados em nossa aula? Para tanto, é preciso que você solidifique alguns conceitos e, sobretudo, absorva ainda mais as particularidades que envolve a organização curricular do ensino fundamental, diferenciando o ensino ciclado do seriado. Dessa maneira, assista ao vídeo Ciclo X Seriação, disponível no link: https://www.youtube.com/watch ?v=c81s-0WenC8 Aula 4 – A relação entre currículo e cultura escolar Apresentação da aula 4 Olá aluno, vamos iniciar nossas reflexões e explorações da aula 4 pensando sobre a cultura. O que será que consideramos como cultura? Afinal, os conceitos de cultura e de cultura escolar possuem os mesmos significados? Á palavra cultura sofreu transformações conforme o passar do tempo e pelas necessidades sociais. 4.1 A cultura e a cultura escolar Ainda por volta do século XV, o termo cultura se relacionava apenas ao ato de cultivar, como por exemplo, cultivar animais e plantios, o que pode-se 39 claramente observar com os sufixos das palavras agricultura ou suinocultura. Um século depois, a cultura foi associada à mente humana, como se fosse considerada o cultivo da mente e, esse conceito, conseguiu segregar as sociedades e suas classes econômicas, pois, somente algumas, poucas por sinal, eram consideradas sociedades de cultura e civilização. Avançando cronologicamente, já adentrando ao século XVIII, a cultura tornou-se relativo à Europa e suas sociedades, pois se destacavam e passaram a ser consideradas cultas. E, é exatamente nessa linha de raciocínio, que o sinônimo de cultura de hoje traz como herança, relacionando-a a artes diversas, como música, literatura, obras de arte, filosofia, entre tantas outras. Além dessa concepção, já no século XX, foi mesclado a esse conceito a questão da cultura popular que, em nossa atualidade, certamente, fazem alusão aos meios de comunicação, segregando a cultura em primeiro e terceiro mundo, bem como em cultura culta e cultura popular, regionais, religiosas, de gênero e outras. Agora que você já sabe o que é considerado como cultura, vamos associa-la à cultura escolar. Veja, a cultura escolar será aqui definida como um conjunto que engloba as práticas educativas e as metodologias utilizadas pelo corpo docente, além das relações sociais e das normativas implementadas no ambiente de educação formal, a escola. Aqui, conseguimos transpor as relações entre o conceito de cultura e o de cultura escolar, afinal, ambos estão direcionados às relações sociais e aos conhecimentos empíricos ou acadêmicos. Seguindo essa concepção, partiremos agora, prezado estudante, a explorar em nossa viagem acerca da disciplina da Teoria do Currículo, sobre a escola e essa cultura escolar, propriamente dita. Dessa maneira, posteriormente em nossa aula, faremos significativas relações entre