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Passos para uma exegese 1. Primeiro contato com o texto: -Ler e reler o texto várias vezes, individual e em comunidade. Aproximar-se do texto, e identificar-se com ele, enamorar-se dele. Orar o texto. -Motivação: O que me leva a gostar do texto. Aqui joga um papel importante o meu contexto social, onde moro e trabalho. Qual é a minha realidade, o meu chão, a minha pastoral, o meu povo, a minha espiritualidade. 2. Procedimentos metodológicos Tenha um objetivo de estudo. Faça uso de uma teoria sobre o texto, acerca do acontecimento ou personagem, local ou prática narrado. O que determinado autor apresenta ou problematiza em seu livro ou artigo científico. Escolha uma Crítica à guisa de metodologia. Problematize uma questão ou objeto. 3. Análise literária (Nível sincrônico) -Tradução do texto. Se a tradução não é possível, buscar comparar as traduções existentes e optar por uma. Argumentar o porquê desta opção. -Crítica textual. Às vezes um texto pode ter variantes quando comparado com outras cópias. A crítica textual tem como objetivo restaurar um texto, cujo original se perdeu e que sofreu mudanças ao ser copiado e recopiado durante séculos. Esta parte nem sempre é fácil, pois se teria que ter acesso aos manuscritos antigos. Porém, edições e estudos modernos desses manuscritos podem nos ajudar muito. -Delimitação do texto. Observar onde começa e onde termina o texto que você está estudando. Esta parte tem por finalidade provar que o texto é uma unidade, com início, argumentação ou informação e fim, e não apenas algumas linhas tiradas de uma unidade maior. -Relação que este texto tem com o que vem imediatamente antes e com o que segue. -Relação do texto com a camada redacional mais ampla ao qual ele pertence. -Estrutura do texto: ver suas subdivisões maiores e menores; enumere-as. -Coesão do texto: apesar das subdivisões o texto apresenta um fio condutor que perpassa e une o texto constituindo um todo coeso (como um tecido ou uma teia). Sublinhar as repetições, os paralelismos, as oposições, as mudanças pronominais e, caso ocorra, a mudança de personagem etc. -Estilo literário: a maneira própria do autor de escrever. -Gênero literário: narrativa, oráculo, poesia, novela, parábola, carta, historiografia etc. 4. Análise semântica (Nível diacrônico) -Estudo do conteúdo com a seleção dos termos ou frases mais importantes ou mais polêmicos a serem analisados. Aqui é importante o estudo da concordância; ou seja, ver quantas vezes a palavra analisada aparece na Bíblia e ou no livro do qual seu texto faz parte. Observar o campo semântico, ou seja, como o autor emprega esta palavra, se ela pode ou não ter mais de um significado, e qual dos significados o autor emprega no texto em estudo. Esta parte é relevante, pois é daí que nasce a novidade do seu trabalho. O estudo do conteúdo pode ser feito por versículo ou por camada literária (blocos), seguindo a estrutura que você apresentou na sua perícope. Com esta análise se objetiva um estudo detalhado e profundo do texto/perícope a ser pesquisado. Uma forma do estudante se apropriar plenamente do texto. -Revisão da tradução. Um bom estudo semântico obriga o estudante a rever a tradução do texto e a melhorá-la, possibilitando uma tradução mais original. Aqui deve-se utilizar um manual de crítica literária. -Camadas redacionais. O estudo semântico ajuda a descobrir prováveis camadas literárias existentes no texto. Ou seja, é possível que em diferentes épocas o texto tenha sofrido releituras que lhe acrescentaram algum conteúdo. O estudo semântico auxilia na descoberta destas camadas. Ver textos paralelos. * Nem sempre é possível, e nem sempre convém, separar os dois níveis (sincrônico e diacrônico). Às vezes é melhor abordá-los simultaneamente. 5. Análise do contexto histórico (Macro-estrutura). Um bom estudo semântico possibilita definir a época em que o texto foi escrito, bem como as diferentes releituras pelas quais o texto ou camada redacional, ou mesmo o livro, passou. Para entender melhor o texto é preciso conhecer como a sociedade vivia naquele época: -Contexto econômico: que bens eram produzidos, quem produzia, como se produzia, para que fim se produzia, como era o comércio, quais tributos e quanto se cobrava etc. -Contexto social: como a sociedade se relacionava, que classes, grupos existiam, quem era o detentor dos bens. -Contexto político: qual era a estrutura da sociedade (tribal, campesinato/pastoralistas, monarquia, colonial etc.), as formas de funcionamento da sociedade (como funcionava o poder: população livre, escravidão, palacial, administração sacerdotal etc.), quem detinha o poder, quais as leis principais, quem as fazias. -Contexto ideológico/religioso: qual era a ideologia reinante; qual era a finalidade da religião, a serviço de quem ela estava; qual era a imagem de Deus, de que lado Deus estava etc. -Contexto cultural: verificar as evidências de interação e trocas materiais, evidenciadas, quando for o caso, por meio das práticas cúlticas, modo de vida social, objetos utilizados, origem socioétnica etc. *Muitas vezes é difícil separar um contexto do outro, ás vezes nem sempre é correto separá-lo. No entanto, é preciso ter presente todos eles quando se faz a análise do contexto histórico. 6. Análise do cotidiano (micro-estrutura) Uma vez estudada a macro-estrutura é preciso conhecer o dia-dia das pessoas presentes e ausentes no texto. Aqui é importante utilizar a abordagem do método indiciário para conhecer as diversas categorias, grupos, indivíduos. É preciso perguntar sobre a sua identidade, sua etnia, gênero, local geográfico, lugar de vivência, época, a que classe social pertence. Entrar em suas casas, em suas aldeias, cidades, conhecer suas atividades sociais, suas festas, cultos etc. Perguntar sobre as relações entre os gêneros, sobre o corpo, sobre suas relações explícitas e implícitas no texto. -Identificação: Nas possíveis generalizações pronominais e coletivas das narrativas, identificar cada grupo social ou indivíduo. Responder às perguntas: Quem é o “povo” a quem o texto se refere? Quem são os “príncipes”? Quem são os “moradores” do local referido? Atentar para a cristianização de conceitos e práticas que determinado tradutor tenha utilizado em narrativas do Primeiro Testamento, tais como, “ídolos”, “idolatria”, “pecado”, “sentimento do coração” etc. Esta análise nos ajuda a escutar o grito do excluído: homem, mulher, criança, idoso, jovem; sua relação com Deus, suas esperanças, seus sonhos etc. Ela nos ajuda a descobrir os gestos de solidariedade, as imagens de Deus presentes no cotidiano de cada pessoa etc. 7. Atualização A função do estudo bíblico é ajudar a iluminar a nossa realidade do tempo presente. Uma vez visto o contexto bíblico, como as pessoas viviam naquela época e como Deus agia ou era compreendido em suas vidas, somos agora impelidos e impelidas a compreender a vida principalmente das pessoas excluídas da nossa sociedade, dos sem voz e sem vez, e a meditar sobre o que Deus pede de mim, de nós. Com isso damos coesão ao nosso estudo, onde perguntávamos sobre a realidade de cada um, de cada uma, ao compromisso que Deus pede de mim, de nós – individual e coletivamente – dentro desta mesma realidade do tempo presente. Prof. João Batista Prof. José Ademar