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AULA 3 PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Prof.ª Heloísa Monte Serrat Barbosa 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa serão abordadas questões que envolvem o desenvolvimento global das crianças, no que tange aos aspectos afetivo, cognitivo, funcional, psicomotor, social e cultural, bem como sua relação com a aprendizagem permeando a questão corporal envolvendo o brincar espontâneo. TEMA 1 – DESENVOLVIMENTO AFETIVO É por meio de vivências corporais que o Ser Humano se apropria da realidade para, pouco a pouco, construir progressivamente seu modo singular de estabelecer relações com o outro e com o mundo. A comunicação corporal é carregada de valores e componentes emocionais. Por meio de gestos, olhares, tônus, podemos perceber os medos, desejos e conflitos. Essa é a representação da vida em si mesma. Durante esse processo de aprender a aprender, aprender a ser e aprender a viver, pode haver contatos corporais entre os agentes destes processos e estes tendem a permitir que aflorem tensões afetivas, positivas ou negativas. Tanto uma quanto outra podem ser analisadas e trabalhadas por meio da brincadeira espontânea. O corpo dialoga, a partir do movimento, com seu entorno. Percebem-se, portanto, nesse processo, relações afetivas, as quais envolvem valores humanos que podem ser amor, respeito, apoio, reconhecimento, gratidão e interesse etc. bem como, repulsa, desrespeito, ingratidão, desinteresse, entre outros. O ato de brincar junto uns com os outros reforça laços afetivos positivos, tanto das crianças para com seus pares, quanto para com o adulto ou adultos de referência. Baseando-se no pressuposto de que o afeto é a energia que move o sujeito em busca do conhecimento, pode-se dizer que a afetividade é o combustível que alimenta o motor, que neste caso é considerada a construção do conhecimento. Para Visca (2015, p. 13), é importante atentar para “a afetividade, o investimento e a significação do conteúdo, sendo que parte disso se transformará em estrutura e em energia para novas aprendizagens”. Nesse sentido, a afetividade é extremamente necessária para conduzir o sujeito à aquisição de conhecimento e, consequentemente, as relações acima citadas favorecem o processo ensinar/aprender. 3 O senso comum se baseia na premissa de que a afetividade é sinônimo de carinho, de gestos agradáveis, porém é importante salientar que o afeto está caracterizado no ato de “afetar”: pode-se afetar o outro com suas ações ou o próprio sujeito pode afetar-se por questões internas ou se deixar ser afetado, também, pelo ambiente ao seu redor. Batista (2014, p. 84), citando Vieira, Batista e Lapierre, traz a ideia de que Todo ser humano é movido pelo que lhe afeta. Ele se afeta tanto por elementos externos – o olhar do outro, um objeto que chama a atenção, uma informação que recebe do meio – quanto por sensações internas – medo, alegria, fome – e responde a elas. Essa condição humana recebe o nome de afetividade e é crucial para o tornar-se a Ser humano. Nesse sentido é muito importante poder permitir que o sujeito, desde bebê, explore seu corpo, suas capacidades e limitações e o ambiente ao seu entorno, pois sensibilizar-se-á para compreender, principalmente, as sensações internas que o afetam, pois com o dia a dia cada vez mais intenso, pouco é o tempo do dia separado para essas reflexões. A afetividade, entretanto, pode caracterizar-se como negativa em função da necessidade do afastamento de determinada situação, caso tenha sido algo desagradável, por exemplo. O aspecto da afetividade, portanto, contribui para o desenvolvimento global do sujeito já que atende aos aspectos afetivos, cognitivos, sociais e culturais. TEMA 2 – DIMENSÃO AFETIVA NA ESCOLA E NA FAMÍLIA Neste tópico serão abordadas questões importantes que envolvem a ação dos adultos frente às condutas das crianças nos diversos contextos. 2.1 Na escola Quando a criança entra no ambiente escolar, sai do espaço privado (protegido), onde é o centro das atenções, para o espaço público. Nele surge um turbilhão de emoções – medo, choro –, que podem resultar em mordidas, empurrões, brigas que são, nesses momentos, as condutas que a criança encontra em seu repertório para se defender do mundo desconhecido. É necessário realizar esta transição de forma cuidadosa, compreensiva, com poucas regras preestabelecidas, com confiança e segurança. 4 Deve-se, pois, possibilitar experiências nesse espaço, as quais desenvolvam no educador o olhar, o fazer, o cuidar maternal, no sentido do acolhimento, porém sem ser como a mãe (ou quem faz a função materna), nem com a pretensão de substituí-los ou criticá-los; isso é fundamental para o processo da adaptação escolar. É de extrema importância atentar-se a essas questões, pois a tendência do adulto é dar mais valor ao desenvolvimento cognitivo e intelectual do sujeito, ao passo que, se ele não estiver equilibrado afetivamente, o processo de integração corpo/ intelecto ficará prejudicado. Há que se considerar que somos um sistema inseparável, não podemos nos preocupar apenas com a inteligência ou só com as questões afetivas. Ambas se complementam e devemos promover essa integração para que os sujeitos se tornem cada vez mais saudáveis do ponto de vista socioemocional. 2.2 Na família Nos momentos em família, é importante levar em consideração quais são as ações dos adultos e de que forma repercutem na vida das crianças. Por exemplo: como são dados os limites? Em função da insistência da criança, a opinião dos pais ou responsáveis muda para atender ao seu desejo? Na hora da refeição pode comer onde desejar? Alguém lhe dá comida na boca, já podendo comer sozinho? É-lhe permitido fazer tudo o que deseja em casa, pois sempre há alguém que arruma tudo o que deixa fora do lugar? Se as respostas para essas perguntas forem “sim”, possivelmente a criança em questão tem mais poder do que pode suportar, uma vez que todos que convivem com ela “a obedecem” e, por vezes, ela pode passar a usar a agressividade como forma de comunicação corporal. O possível motivo para essa conduta é a insegurança de ter tantas pessoas “em seu comando”. Há, nesses exemplos, um desajuste nas relações afetivas, bem como uma inversão de papéis com relação à hierarquia familiar. Não digo hierarquia no sentido de autoritarismo, mas sim no sentido de que os pais e as mães são quem ensinam os caminhos que acreditam ser adequados, dão segurança para as crianças, colocam o que é possível e o que não é possível de ser realizado. Sem isso, a criança permanece num estado de passividade com relação a si mesma. Como tem tudo o que quer, não aprende a desejar, a esperar, a articular estratégias para “convencer” os pais quando deseja algo (e cabe ao adulto avaliar 5 as situações e caso não seja possível ceder a essas estratégias, não o fazer, sem culpa ou remorso), a conviver, a expor-se de maneira adequada, a posicionar-se com relação a algum tema específico, a organizar-se interna e externamente, entre outros aspectos importantes que nos tornam humanos. Certa longevidade na profissão permite-nos sentir transformações em crianças que encontramos hoje, trinta anos depois do nosso começo: mais aditas às redes sociais (como os adultos, mas com repercussões peculiares no seu desenvolvimento), menos banhadas pela poesia, em decorrência de “menos outros” em suas vidas, e menos afeitas à prosa, como uma consequência. Traduzindo para uma linguagem analítica mais “técnica”, com prejuízos na subjetivação, incluindo o aumento nos diagnósticos [...]. (Gutfreind, 2022, p. 21) Desenvolver esses aspectos é desenvolver, também, a dimensão afetiva, pois é com base nela que podemos ter referências e repertórios para lidar com situações complicadas que nos gerem, porexemplo, a frustração, sentimento pouco vivenciado por muitas crianças hoje em dia (e falamos de 2024). 2.3 Desafios • À criança cabe: o Ter espaço para: ▪ Aprender a conviver em espaço comum a todos quando sai do espaço conhecido; ▪ Aprender a conviver com outras crianças e outros adultos; ▪ Poder ser ouvida em seus desejos; ▪ Expressar-se (verbal, afetiva e corporalmente); ▪ Aprender a reconhecer e lidar com seus sentimentos; • Ao adulto cabe: o Permitir a vivência dessas experiências de forma intensa; o Levar a sério os sentimentos, ideias e ações das crianças. Ao dizer: “não chora...não foi nada...”, o adulto está invalidando os sentimentos ou suas dores; o Entender o que não é dito em palavras, mas sim, a partir das ações, expressões, ou seja, da comunicação corporal; o Olhar a criança como um ser sistêmico, não compartimentado – desejante; o Não ter receio de dizer “não” à criança quando necessário; 6 o Compreender que reações impulsivas podem ser um pedido de ajuda; o Realizar combinados para a convivência social; o Agir de forma a fazer valer sua palavra; o Evitar conseguir que a criança obedeça por prêmios ou castigos (isso mantêm a criança em um estado de dependência – “só vou fazer para ganhar a estrelinha.” – mesmo que esse pensamento esteja no inconsciente). O que se busca é a autonomia; o Separar um tempo de seu dia para ter relações de qualidade (não em quantidade) para com as crianças, seja esse adulto pai, mãe, responsáveis, ou quaisquer outros; o Ter em mente que o significado que o adulto dá a determinada ação ou palavra, por vezes, não é igual ao da criança; o Perguntar à criança o que ela quis dizer antes de julgar a ação ou a palavra. Esses desafios possibilitarão o desenvolvimento da dimensão afetiva de uma forma sólida que possivelmente resultará em um ambiente harmonioso e saudável. 2.4 Habilidades que contribuem para o desenvolvimento da Dimensão Afetiva Algumas atividades contribuem para o desenvolvimento dessa dimensão, dentre as quais estão o brincar, ler e ouvir histórias, desenhar, pintar, atividades artísticas e artesanais, dentre outras, que tragam em si, elementos simbólicos. No que diz respeito a essas atividades, podemos dizer que elas permitem elaborações e reelaborações simbólicas de conteúdos tanto cognitivos quanto afetivos. Observando essas questões, oportunizamos às pessoas com as quais estamos trabalhando a construção de diversas habilidades, dentre as quais: • Organização do mundo interno; • Vivência do indispensável; • Desenvolvimento da imaginação; • Criação de momentos de atenção e curiosidade; • Descoberta de si, de seus limites e capacidades; • Descoberta do outro; 7 • Descoberta do mundo; Quanto ao psicomotricista relacional, cabe observar as ações das crianças, registrar, revisar os registros e organizar o espaço educativo de forma a possibilitar descobertas e aprendizagens. Essa ação, sendo organizada conforme a atividade a ser coordenada, pode ser realizada por qualquer profissional. Porém, nesse caso, estamos falando da atuação dos psicomotricistas relacionais, o que não impede que outros profissionais possam se valer das ferramentas que a psicomotricidade relacional nos dá para que possibilitem aprendizagens sólidas e autênticas. Essas ferramentas podem ser traduzidas pela forma como o adulto vai lidar com as crianças com as quais trabalhará, utilizando modulação tônica, seu corpo e sua voz, disponibilidade corporal, escuta ativa, intervenção (verbal e corporal) de forma a possibilitar a construção da autonomia e um olhar atento às necessidades reais do sujeito. Muitas vezes o que emerge da conduta nem sempre é o que o sujeito realmente deseja. Por exemplo, quando uma criança se utiliza de agressividade (não sendo a agressividade simbólica), a tendência do adulto é julgar e repreender. Porém, ela pode estar querendo dizer que deseja e necessita de atenção. Isso pode não ser expresso por meio da fala, e sim pelo corpo. Não estou dizendo que não devemos sinalizar a conduta inadequada, estou dizendo que devemos fazer isso sem julgar e permitir com que o sujeito se reorganize. TEMA 3 – PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL E FASES DA BRINCADEIRA ESPONTÂNEA Na psicomotricidade relacional são analisadas as fases das brincadeiras durante as sessões, para que se organizem ou reorganizem as intervenções necessárias para o desenvolvimento das crianças. Segundo Lapierre e Lapierre (2002, p. 66), depois de uma atuação em creches francesas, pelo período de 2 anos, puderam, a partir das observações das sessões de Psicomotricidade Relacional, organizar um esquema de evolução comum ao conjunto do grupo, ao conjunto das crianças. Certamente esse esquema não é linear ou monolítico; [...] depreendemos uma certa coerência, que pode servir, não de norma, mas sim de linha diretriz, assinalada por fases muito características. São elas: 8 • Inibição – Diante de uma situação inusitada, na qual a criança é convidada a ser ela mesma, a decidir coisas e ações por si só; pode se posicionar de maneira mais tímida e ficar inibida diante das pessoas e dos materiais. Pode permanecer distante e a provável comunicação é, inicialmente, por meio do olhar; • Agressividade – As crianças mais novas ou as menos determinadas, as que mantêm um vínculo dependente com o adulto, as que costumam se excluir da convivência, tendem a, de início, estabelecer suas relações por essa forma. A agressão contra o adulto é aparentemente gratuita [...] Ele é agredido porque é “adulto”, símbolo da autoridade, do poder, da frustração do desejo da criança. [...] ataca porque sente uma pulsão agressiva vinda de seu inconsciente, à qual ela obedece cegamente. (Lapierre; Lapierre, 2002, p. 67); • Domesticação – A criança considera “domesticar” o adulto quando este está “entregue”, deitado no chão, principalmente quando está de olhos fechados, não constituindo mais uma ameaça: “Nessa situação simbólica, ele perdeu seu poder, a criança está se sentindo livre” (Lapierre; Lapierre, 2002, p. 71). Nesse momento, acredita que poderá brincar de tudo o que queira, por não ter o olhar “repressor” do adulto. Porém, essa situação não dura muito tempo, pois o adulto ainda lhe é necessário, portanto o tira daquele cenário, acordando-o ou revivendo-o. A criança, então, anuncia seu próprio poder em uma troca de papéis, na qual ela tem o domínio e o poder sobre o adulto, que passa a ser neste momento, “vulnerável”, de forma simbólica. Essa fase não passa de uma etapa para a conquista da identidade. A criança inverte os papeis, não os suprime; pelo contrário, ela os fortalece. [...] Essa relação está provisoriamente em seu proveito, mas mudará de novo e em sentido oposto após a sessão, sem ser fundamentalmente questionada. (Lapierre; Lapierre, 2002, p. 72) • Fusionalidade – Pode ser, para algumas crianças, (principalmente para as que demandam uma dependência maior do adulto, quer seja por questões orgânicas, sociais ou afetivas) a primeira fase. Em outro caso, depois de uma vivência de hipertonia muscular, pode fazer menção a uma espécie de regressão, um retorno a determinada fase que porventura ainda não tenha sido superada. Neste momento, a criança sente que não precisa ir contra o 9 adulto, mas pode relaxar-se em seu colo sem medo de que o adulto o queira impor seu desejo; • Agressividade simbólica – As fases anteriores promovem a dependência do adulto, da qual a criança precisa se libertar; por isso precisa viver essa outra fase. Ao estabelecer relações de maior confiança para com este adulto, a criança pode ser capaz de arriscar, lidar com o medo de errar; com isso, apenas precisa “marcar simbolicamente a distância da sua independência” (Lapierre; Lapierre, 2002, p. 76). A criança passa a dominar sua agressividade quando conseguesimbolizá-la, ou seja, já não age com a intenção de machucar, ela faz de conta, tem controle de suas ações e consegue ameaçar o outro mantendo distanciamento corporal. Lapierre e Lapierre (2002, p. 76), com base em suas experiências de atuação profissional na creche, pontuam: Nós acentuamos o jogo simbólico, caindo quando a criança nos empurra devagarinho, fingindo estar chorando quando ela nos bate ligeiramente, agredindo1-a com malícia. Rimos muito, divertimo-nos bastante. Mas esse jogo agressivo com o adulto já não monopoliza a atividade delas. Elas brincam e jogam entre si, agridem2-se, confrontam-se, medem-se. Recorrem muito menos ao adulto para arbitrar seus conflitos, tendem cada vez mais a assumi-los. É por meio desses confrontos que vão se estabelecer, entre elas, “as regras do jogo”, as estruturas relacionais do grupo. As relações, portanto, vão ficando mais leves, diversificam as formas de se comunicar, brincam com os pares e com os adultos. • Jogo e independência – A presença do adulto nas brincadeiras, durante as sessões, já é bem menos requisitada. As crianças escolhem os objetos com os quais vão brincar, se autorregulam em/com seus jogos, brincadeiras e brinquedos, sempre com muita calma e descontração. Ao adulto cabe auxiliá-las com sua competência quando solicitado. Nesta fase já não há necessidade de utilizarem-se da agressividade para serem percebidas, adquiriram uma identidade, que, com certeza, no decorrer de seu desenvolvimento, sofrerá ajustes, adaptando-se a cada fase de desenvolvimento das crianças. 1 Agressividade no sentido da pulsão de vida que, segundo Lapierre e Lapierre (2002) é o que move o sujeito em direção ao desenvolvimento. 2 Mesma relação. 10 TEMA 4 – PROJETO DE APRENDER E A PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL O Projeto de Aprender, segundo Barbosa (2010, p. 95), “não é um método, e sim, uma atitude educativa que dá sentido às situações de aprendizagens”. O formato do projeto de aprender atende não só à interdisciplinaridade, mas também à diversidade, já que a proposta não é a reprodução de conteúdo, mas sim a execução de um projeto, para o qual podem ser usados caminhos diferentes, o que pode trazer a possibilidade de observar e compreender os outros pontos de vista. Esse método nasceu com o nome Projeto de Trabalho. Em 1998, Barbosa (no livro Projeto de Trabalho: uma forma de atuação psicopedagógica) traz as relações que a fizeram construir essa metodologia com base em situações vividas em seu cotidiano como psicopedagoga, desde o final da década de 1970. Até o momento do desenvolvimento dessa atitude educativa, foram mais de 40 anos de trabalho. Baseou-se, também, nas teorias que envolvem o tema, principalmente as teorias de Piaget e Freinet (citados por Piaget, 1969, citados por Barbosa, 2010). Essas duas teorias trazem a possibilidade de desenvolver “a autonomia, pesquisa, ação e reflexão [...] numa tentativa de resgatar o interesse do aprendiz e de melhorar sua vinculação afetiva com as situações de aprendizagem” (Barbosa, 1998, p. 18). O Projeto de trabalho nasceu na possibilidade de integração da ideia de pesquisa e da relação com diferentes conhecimentos (método de projeto) e o trabalho pensando nas questões intelectuais, artísticas e de comunicação, o que sugere Freinet em suas obras. Portanto Projeto de Trabalho significa a montagem de um planejamento pelo aprendiz, com o objetivo de realizar uma ação que o aproxime das situações de aprendizagem, que permita com que viva um processo e possa avaliá-lo, tanto em relação ao que foi planejado, quanto no que diz respeito à eficiência do mesmo, no auxílio da superação de suas dificuldades. (Barbosa, 1998, p. 18) As palavras Projeto e Trabalho trazem a ideia de previsão e ação, os quais podem e devem ser assumidos pelo aprendiz. Com o passar dos anos e experiência, Barbosa (2010) considerou trocar a palavra Trabalho por Aprender. Mais do que trabalho, naquele momento percebi, que o projeto de trabalho propunha, àqueles que aprendem uma tarefa, uma forma de perceberem-se como aprendizes e também de corrigirem sua rota de aprendizagem para aprender mais. Então, embora não estivesse discutindo a ação psicopedagógica no espaço da clínica, percebi que a mudança de nome: projeto de aprender era necessária para ambos os campos de aplicação – a clínica e a escola. (Barbosa, 2010, p. 98) 11 Com isso, ao se querer referir ao Projeto de Trabalho, tem se falado em Projeto de Aprender. No meu entendimento, o Projeto de Aprender pode e deve ser utilizado por quaisquer profissionais que trabalhem nas áreas da Educação, da Saúde ou outras áreas que considerem que essa atitude possa integrar seu contexto de trabalho. Então, quais são as possíveis relações entre o Projeto de Aprender e a Psicomotricidade Relacional? Dentre outros aspectos, podemos perceber em comum entre eles a organização do mundo interno em função dos estímulos do mundo externo, a valorização do ECRO, o incentivo ao posicionamento adequado, a valorização das capacidades, o incentivo para a superação de obstáculos, adequação do tônus (nas relações, na manipulação de objetos, nas possíveis disputas etc.), organização do pensamento, orientação espacial, reconhecimento corporal (consciência, esquema e imagem). Saiba mais ECRO – Esquema Conceitual Referencial Operativo – Pichon-Rivière (2005, p. 249-251) • conjunto articulado de conhecimentos [...] um sistema de ideias que alcançam uma vasta generalização. [...] conjunto de conhecimentos que proporciona linhas de trabalho e investigação. [...] é um conjunto organizado de conceitos universais que permitem uma abordagem adequada da situação concreta a pesquisar ou resolver. [...] é suscetível de aprendizagem e de transmissão. [...] mostra ser um modelo no que diz respeito a seu caráter de instrumento de apreensão da realidade. [...] que nos propomos a estudar, da interação, por exemplo. [...] permite a compreensão de cada fato específico a partir de uma organização ou articulação de conceitos universais. [...] Esse critério de operatividade é o que se inclui em nosso esquema conceitual orientando-o para a operação [...]. A possibilidade de vivenciar a construção desses aspectos permite que o sujeito se organize e/ou reorganize com relação aos processos de aprender a ser, a aprender e a reconhecer-se. Ao construir esses aspectos, há a possibilidade da sistematização do conhecimento de forma a ampliá-lo cada vez mais. TEMA 5 – LINGUAGEM CORPORAL E DESENVOLVIMENTO INFANTIL – ASPECTOS COMUNICATIVOS E SIMBÓLICOS A linguagem corporal pode ser/estar relacionada à identidade cultural. A forma como determinado grupo se movimenta pode ser uma maneira de identificá- 12 lo ao ser comparados com outros grupos. As crianças são um grande exemplo dessa afirmativa, pois como não se preocupam com o julgamento, “falam tudo com o corpo” (Paula; Silva Filho, 2012, p. 185). À medida que vamos crescendo, passamos a não considerar mais a linguagem corporal. Quando adultos dificilmente temos a memória de que todas as nossas aprendizagens passaram pelo corpo. Passamos a ignorar essa possibilidade. As dores, frustrações e alegrias são vividas no e pelo corpo, porém os adultos passaram a conter suas expressões, ora corporais, ora na expressão verbal. É importante considerarmos que o desenvolvimento infantil deve passar pelo corpo, pois toda a aprendizagem, para ser significativa, deve percorrer esse caminho. Para Larrosa Bondía (2002, p. 21), “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca”. Ultimamente passam muitas coisas por nós, porém poucas vezes tratamo- las como experiências. Para que as crianças se desenvolvam, precisam aprender a viver as experiências, não somente deixá-las passar. Para que aprendam a viver as experiências,os adultos que convivem com elas precisam se predispor a isso. Não somente oferecer “telas” (televisores, computadores, celulares, tablets...) para que não incomodem. Devem sim oferecer experiências, isso precisa e gera movimento, e o movimento tira da zona de conforto, portanto, com toda a certeza, a vivência da experiência vai gerar aprendizagem, não só para a criança em questão mas também para o adulto que se disponibilizou a oferecê-la. Muitas vezes esse movimento não é confortável nem simples, porém é extremamente necessário se quisermos contribuir para a construção de homens e mulheres críticos e sábios. 5.1 Comunicar – comunica-ação Quando se fala de Psicomotricidade Relacional e comunicação, logo se pensa em comunicação corporal, ou seja, a ação comunica os anseios, medos, frustrações, desejos, entre outros aspectos. Nas sessões de Psicomotricidade Relacional, as intervenções do psicomotricista são baseadas em ações, na comunicação corporal. A linguagem verbal não é priorizada. Somente é utilizada em casos de extrema necessidade. Quando se trata de sessões com crianças, lhes é permitido falar livremente. Quando dirigem a fala ao psicomotricista, este 13 responde para que não se sinta rejeitada naquela relação, porém a resposta deve manter a relação em um nível simbólico. Nesse sentido, não se quer dizer que a comunicação verbal seja dispensável, mas como a criança já convive com essa qualidade de comunicação com familiares e na escola, prioriza-se a comunicação não verbal nas sessões de Psicomotricidade Relacional, por esta trazer à tona, com mais facilidade, questões importantes que estão no inconsciente e que precisam ser trabalhadas. O movimento amplo, ou seja, a praxia ampla, contribui, também, para isso, pois baseia-se no princípio de que a mobilização de grandes grupos musculares distancia o sujeito da racionalização, como movimentos mais finos, remetem a ela. 5.2 Corpo e movimento O corpo do adulto é o objetivo principal do movimento das crianças em uma sessão de Psicomotricidade Relacional. Na grande maioria das vezes são utilizados os materiais como mediadores das relações das crianças para com os adultos ou, até mesmo, para com seus pares. Em um determinado momento, os objetos já não são mais necessários e o corpo do adulto passa a ser o objeto mais importante da sessão. É o lugar de projeção, de todas as fantasias da criança, símbolo polivalente de todas as suas angústias, de todos os seus medos, de todos os seus desejos; objeto a ser conquistado, a ser possuído ou rejeitado, objeto de confiança e de desconfiança, lugar onde ela queira penetrar e do qual quer se libertar, síntese de todas as suas ambivalências e de todos seus conflitos. (Lapierre; Lapierre, 2002, p. 106) Esse corpo passa a ser alvo de suas transferências. Ao psicomotricista relacional cabe ser receptivo e aceitar a comunicação corporal solicitada pela criança para que possa viver corporalmente o que deseja e necessita. É importante salientar a neutralidade do psicomotricista relacional, nas relações com as crianças, no sentido de não buscar seus próprios desejos, e sim ser um instrumento para que a criança possa vivenciar suas necessidades afetivas particulares. Não se pode esquecer que deve entregar-se profundamente aos desejos do outro, porém, novamente, cuidando para não impor os seus próprios. Em todo esse contexto há que se levar em conta que a movimentação corporal gera inúmeros estímulos para o desenvolvimento global da criança, 14 sendo observados nos aspectos cognitivos, afetivos, funcionais, sociais, relacionais e culturais. 5.3 Construção do aspecto simbólico A construção simbólica é desenvolvida desde a mais tenra idade, quando os adultos passam a dar sentido e significado às expressões e às ações das crianças. Os desenvolvimentos psicomotores e motor do sujeito são precursores do desenvolvimento dos aspectos simbólicos. Mas por quê? O que uma coisa tem a ver com a outra? O que acontece é que, para que desenvolvamos a capacidade de imaginar, precisamos nos reconhecer como sujeitos, e isso passa pelo reconhecimento do corpo. Esse reconhecimento, por sua vez, passa pelo desenvolvimento da consciência corporal, do esquema corporal e da imagem corporal. Esses aspectos são estritamente necessários para que possamos nos perceber no mundo. Concomitantemente, no momento em que estamos vivendo essas construções, estamos aprendendo a fazer de conta. Quando desenvolvemos a capacidade de fazer de conta, estamos cada vez mais próximos da possibilidade de adquirir o conhecimento formal, pois o cérebro vai se desenvolvendo e amadurecendo processos necessários para esses feitos. Esse amadurecimento envolve vários sistemas, dentre os quais o auditivo (palavra ouvida), o visual (palavra lida) e o escrito. O primeiro a ser desenvolvido é o auditivo, pois “exige-se menos maturidade psiconeurológica, o que não ocorre com a leitura e a escrita” (Relvas, 2015, p. 66). O sistema auditivo permite o desenvolvimento da fala, o que acontece de forma natural em relação à cultura na qual o sujeito vive. Porém, o corpo também pode emitir comunicação sem necessariamente utilizar-se da fala. Nesse sentido, Relvas (2015, p. 66) afirma que: “A comunicação gestual, corporal dá informações precisas do estado emocional das pessoas, sem que seja necessária a emissão de qualquer palavra ou som. Pode-se afirmar, então que a linguagem é uma incógnita cultural e que nenhum outro animal se desenvolveu como os humanos”. Levando em conta essas premissas, acredita-se que uma das formas mais eficientes de promover a construção simbólica das crianças é por meio da brincadeira. 15 Durante o brincar, além do desenvolvimento de aspectos simbólicos, a criança desenvolve aspectos psicomotores, os quais também têm relação com o esquema e imagem corporal. Com relação aos adultos que se colocam como parceiros simbólicos ou como mediadores, Barbosa e Barbosa (2021, p. 73) afirmam que “pessoas que promovem as possibilidades de brincar e acreditam que esta ação possibilita crescimentos importantes durante o desenvolvimento afetivo, cognitivo, psicomotor e relacional das crianças podem contribuir, e muito, com este processo”. Portanto, nós, adultos, precisamos estar disponíveis para, com olhar sensível, podermos perceber o que está latente nas ações concretas e condutas emergentes das crianças, para que possamos disponibilizar-nos e mediar da melhor forma possível, de modo a conduzir as crianças em direção à autonomia. 16 REFERÊNCIAS BARBOSA, H. M. S.; BARBOSA, L. M. S. A construção simbólica na aprendizagem: brincar, criar, imaginar e pensar. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2021. BARBOSA, L. M. S. (org.). Intervenção psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba: Ibpex, 2010. _____. Projeto de Trabalho: uma forma de atuação psicopedagógica. Curitiba: L.M.S. Barbosa, 1998. BATISTA, I. B. Estresse docente: contribuições da prática psicomotora relacional para o seu enfrentamento. Fortaleza: RDS Editora, 2014. BONDÍA, J. L. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20–28, jan. 2002. Disponível em https://doi.org/10.1590/S1413-24782002000100003 GUTFREIND, C. A nova infância em análise. Porto Alegre: Artmed, 2022. LAPIERRE, A.; LAPIERRE, A. O adulto diante da criança de 0 a 3 anos. Curitiba: Ed. da UFPR: CIAR, 2002. PAULA, E. de; FILHO, J. J. S. As brincadeiras das crianças de um quilombo catarinense: imaginação, criatividade e corporalidade. In ARROYO, M. G.; SILVA, M. R. da. (orgs.). Corpo-infância: exercícios tensos de ser criança; por outras pedagogias dos corpos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005. RELVAS, M. P. Neurociências e transtornos de aprendizagem: as múltiplaseficiências para uma educação inclusiva. 6. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015 VISCA, J. O diagnóstico operatório na prática psicopedagógica. 2. ed. São José dos Campos: Pulso, 2015.