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AULA 4 PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Prof.ª Heloísa Monte Serrat Barbosa 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa, falaremos da relação entre brincar e aprender e como a Psicomotricidade Relacional pode ser explorada nesse contexto, bem como das relações entre consciência, esquema e imagem corporal. Também falaremos sobre alguns aspectos que envolvem esses processos, salientando a maneira como o psicomotricista relacional age em determinadas situações possibilitando ao educador observar e ter a sensibilidade de perceber o latente1, quaisquer que sejam seus ambientes de atuação. TEMA 1 – BRINCAR E APRENDER Partiremos da premissa de que o brincar está intrinsecamente ligado ao ato de aprender. A partir do que falamos anteriormente, chega-se à conclusão de que isso acontece pelo fato de brincar trazer o aspecto simbólico que é de grande importância para a formação do intelecto e para as possibilidades de articular conhecimentos e pensamentos. Nesse sentido, serão abordados alguns pontos importantes a respeito dessas afirmações. 1.1 Brincar ou não brincar no ambiente educativo Atualmente tem se percebido ambientes educativos2 em que brincar, fantasiar e simbolizar não são prioridade dentre as atividades escolhidas para o desenvolvimento das aulas. O que é mais assustador é que isso também está acontecendo em turmas da Educação Infantil. Fase que, usualmente, se tem (ou se deveria ter) o ato de brincar como alicerce dos planejamentos. Acreditamos que essa deve continuar sendo a diretriz, principalmente nesta etapa da Educação Básica. Como já visto, a brincadeira espontânea e a vivência de suas fases são importantes para a construção de um sujeito autônomo, articulador de pensamentos e ações, dentre outros aspectos importantes para o 1 Algo que não é aparente, que está encoberto, diz-se da motivação que leva a determinada conduta. 2 Quaisquer ambientes que estejam preparados para contribuir para o desenvolvimento global das crianças, quer sejam escolas, parques, cozinhas, salas de casa, entre outros. 3 desenvolvimento global do sujeito. Dito isso, Barbosa e Barbosa (2021, p. 92) questionam: Ora, se as crianças se inibem em um primeiro momento, agridem em outro, desejam dominar o adulto, em uma fase seguinte, e se isso pode ser superado [...] pela ação do adulto de não se impor na brincadeira, por que estamos retirando dos espaços educativos a brincadeira espontânea? Retirando a brincadeira espontânea dos espaços educativos, estamos limitando a criatividade, a liberdade de pensamento, a espontaneidade, a possibilidade de a criança aprender a posicionar-se de forma adequada, caminhando para a criação de sujeitos cada vez mais dependentes e limitados na capacidade de perceber o certo e o errado, sujeitos que aceitam tudo o que lhes é colocado, sem questionar, possivelmente formando cidadãos que pensem de acordo com a maioria e não desenvolvendo sua própria opinião a respeito de determinado assunto, ou seja, passam a não desenvolver o pensamento crítico. Pode parecer que o mais importante, atualmente, é desenvolver o intelecto para que o sujeito “se dê bem” na vida. Mas como possibilitar isso, sem a base do desenvolvimento cognitivo amadurecer? Isso se dá conforme o crescimento psíquico, afetivo, físico e intelectual da criança. Para adquirir conhecimentos, o cérebro precisa estar maduro. Esse amadurecimento é gradativo, de acordo com as possibilidades e capacidades de cada um, estando diretamente ligado aos estímulos oferecidos. No início da vida, vimos que esse estímulo deve ocorrer por meio da exploração de si e do ambiente, precedido do desenvolvimento dos aspectos simbólicos (brincar, ouvir e contar histórias, apreciar e executar arte etc.) e, posteriormente, dos aspectos do desenvolvimento do pensamento concreto e abstrato. Durante meu percurso de docência para adultos (cursos de graduação, pós-graduação, cursos livres para professores, pais e profissionais da educação), me deparei, algumas vezes, com adultos que não brincavam junto com as crianças, com medo de que, ao fazer isso, perderiam a autoridade perante a turma ou os filhos, por se “igualarem” a eles. Em minha prática, pude perceber o contrário. Quanto mais se brinca com as crianças, mais elas têm proximidade afetiva com o adulto e mais elas respeitam as regras, principalmente, se forem construídas em conjunto (adultos e crianças). Ao agir dessa forma, passa-se a focar na potência, nas capacidades e possibilidades das crianças e não nas dificuldades e faltas que, eventualmente, apareçam durante seu processo de 4 desenvolvimento. Nesse sentido, Vieira (citado por Batista; Vieira, 2013, p. 93) nos faz um convite: O de tentar não mais trabalhar na sintomatologia, forçando a criança ou adolescente a adequar-se a uma proposta que não reconhece, e sim o de tentarmos substituir o desprazer pelo prazer, o mal-estar pelo bem- estar, o medo pelo interesse; desculpabilizando sentimentos, para reativar e desenvolver competências e habilidades de comunicação, aprendizagem e socialização, atendendo ao princípio de igualdade de oportunidades, para sob o objetivo geral da educação potencializar o exercício da cidadania. Assim, a chance da aproximação afetiva do adulto para com a criança e a possibilidade de contribuir com a construção de cidadãos autônomos e responsáveis é muito maior. O fato de trazermos o “agradável” não elimina a vivência do “desagradável”, ou seja, a ideia não é viver somente o princípio do prazer3, mas sim, promover uma integração entre este e o princípio da realidade4. Retomando a questão da construção dos aspectos simbólicos, temos encontrado adultos escolhendo escolas para colocarem seus filhos que não ofereçam brincadeiras, principalmente, quando se trata de Educação Infantil. Isso porque não querem que seus filhos brinquem, por acreditarem que as crianças estejam “perdendo tempo” brincando, ao invés de aprender. Brincando se aprende, sim, porém, sem ter em mente conteúdos programáticos. Ao brincar, a criança desenvolve aspectos cognitivos, afetivos, funcionais e sociais, necessários para aprender, posteriormente, os conteúdos programáticos. No entanto, são pais e mães que têm somente o conhecimento do senso comum. Professores e profissionais da educação e da saúde têm autoridade e conhecimento sobre esse assunto, porque estudaram e estudam questões relativas ao desenvolvimento humano e, com isso, sabem as necessidades básicas do sujeito para que este possa adquirir conhecimento, habilidades socioemocionais, desenvolver-se psíquica, psicomotora e afetivamente. Portanto, acreditamos que a decisão de quais estratégias serão usadas para estimular o desenvolvimento global das crianças compete aos profissionais. Essa decisão pode ter a participação da família, porém com a mediação direta do profissional 3 Princípio do prazer direciona toda a ação psíquica e orgânica, com a intenção de atingir um prazer idealizado, ignorando ou mesmo evitando as frustrações. Freud ([1920]1969) citado por Leite (2015, p. 139). 4 Princípio da realidade se manifesta a partir da adaptação sociocultural e da formação dos conceitos morais e éticos, ou seja, o indivíduo passa a entender o funcionamento da descarga pulsional e, com isso, a respeitar os limites impostos, controlando a maneira como se comporta. Freud ([1920]1969) citado por Leite (2015, p. 139). 5 para adequar os possíveis desejos da família às necessidades reais da criança ou do grupo de crianças com as quais trabalha. Uma dessas estratégias, como já dito, é a brincadeira realizada de diferentes formas: espontânea, levemente dirigida, organizada em um determinado ambiente e com determinados materiais que sugiram brincadeiras específicas; neste contexto, as brincadeirastêm regras muito flexíveis e não têm uma programação prévia. Quanto a essa questão, Barbosa e Barbosa (2021, p. 93) destacam que: “Quem se encontra no espaço educativo precisa ter claro que brincar nada tem a ver com realizar atividades programadas, brincar não tem regras explícitas, as regras são implícitas no próprio ato de brincar.” E complementam: “Por isso, educadores, pais e professores observem as crianças brincando, ou entrem na brincadeira sem querer impor regras... Se fizerem diferente, não chamem esta atividade de “Brincar” (Barbosa; Barbosa, 2021, p. 93). Esse brincar envolve o movimento corporal como um todo. Nos dias de hoje, ainda, há alguns pais e professores que limitam os movimentos das crianças em prol da suposta “proteção”, prevenindo que as crianças se machuquem. Porém, esses adultos esquecem ou não sabem que é de grande importância viver as experiências de “[...] cair, levantar, ralar o joelho, desviar obstáculos, tropeçar, desequilibrar, (o que) possibilitará à criança construir defesas e repertórios necessários para viver de forma interdependente.” (Barbosa; Barbosa, 2021, p. 93). Trazemos essas questões aqui para que vocês, novos profissionais do Brasil, possam seguir em sua prática profissional em prol da evolução e desenvolvimento das crianças, valorizando o ato de brincar e a construção do aspecto simbólico como base para que oportunizemos possibilidades de desenvolvimento de adultos independentes e produtivos, capazes de amar e de se colocar no lugar do outro. TEMA 2 – CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E DO SABER O brincar na infância vem carregado de diferentes possibilidades. Uma delas é construir conhecimentos. Brincar promove descobertas, investigação, permite a vivência, a experiência sem dividir o conhecimento em áreas específicas de saberes formais. Nesse sentido, a criança vai viver, investigar, se relacionar, fazer de conta, ter 6 dúvidas, buscar e encontrar (ou não), respostas, viver o erro, o acerto e, assim, vai conhecendo o mundo ao seu redor. Os adultos que convivem com as crianças precisam ter, em si, esse espírito questionador para manter acesa a chama da curiosidade, que é um gatilho importante para construir conhecimento. Quando estamos em uma sessão de Psicomotricidade Relacional, esse movimento acontece e as crianças passam a conhecer a si mesmas e aos outros cada vez melhor. Compreendem melhor seus limites e limitações, aprendem a entender os dos outros, respeitar cada um e a todos, quer sejam crianças, adultos, ou ambientes, gerando uma convivência mais harmônica. Momentos de desacordos e conflitos acontecem e, quando eles aparecem, cabe ao adulto presente, neste caso, o psicomotricista relacional, permitir essa vivência, o que vai possibilitar a aprendizagem de como lidar com eles de forma respeitosa nas sessões. Os conflitos emergentes podem, também, ser internos. A esses, o psicomotricista relacional, ou o profissional que está a se relacionar com as crianças, deve dedicar especial atenção, pois como o nome diz, são internos e, por vezes, não visíveis nas condutas das crianças. Precisam ser vividos e ressignificados. Quando isso já está integrado nas crianças em determinados contextos, estas passam, aos poucos, a transferir esse conhecimento (e vários outros) para a vida em outros ambientes de convivência. A vivência da Psicomotricidade Relacional na escola pode transformar adultos e crianças. Adultos passam a compreender a qualidade e quantidade de intervenções e devem realizar as que geram autonomia, com maior frequência. Crianças passam a considerar mais o bem-estar do outro, constroem as possibilidades de agir com mais independência, de forma a compreender e elaborar diferentes estratégias para a resolução de problemas. Essas aprendizagens são importantes para que possam construir conhecimento. 2.1 Dicas para a ação dos adultos nos momentos em que estão com as crianças Assistir a documentários5 que falem sobre a infância no que diz respeito ao desenvolvimento do consumismo, à vivência com a natureza, ao cuidado 5 Alguns desses documentários (Tarja Branca, Muito além do Peso, Criança, a alma do negócio, Terreiros do brincar, Território do brincar, Criança e Natureza, entre outros) estão no site Maria 7 excessivo limitando as ações das crianças, à importância do brincar para o desenvolvimento, cooperação e senso de comunidade. Tais documentários e outros similares podem conscientizar o adulto a respeito de questões nunca pensadas por alguns e que podem elevar as possibilidades de criar um universo melhor para o desenvolvimento infantil. Observar como as crianças brincam e atentar-se às respostas delas e analisar as possíveis intervenções do adulto naquele momento, quer seja você ou outro adulto que esteja interagindo com a criança e realizar as que gerem mais autonomia para a criança. Perceber quais as intervenções têm resultados positivos no sentido de estimular o respeito, a cooperação, o desenvolvimento da autonomia, entre outros aspectos. Quando as crianças estiverem frente a situações inusitadas, tente verificar a criatividade delas e como elas utilizam sua imaginação para criar histórias e brincadeiras. Para instigar essa criatividade, a criança precisa ter repertório. Uma das formas de adquirir esse repertório é ouvindo, contando e lendo histórias. Por isso, sugere-se que os adultos leiam e/ou contem (sem ler) histórias para as crianças e estimulem que elas façam o mesmo. Quando elas estiverem lendo ou contando histórias, cabe ao adulto estar “realmente presente” quando isso estiver ocorrendo. Se estiver fazendo outra coisa “importante” no mesmo tempo da leitura (contação) da criança, que não pode esperar, peça para que a criança aguarde um pouco e retome a contação ou leitura quando o adulto estiver inteiro naquela situação. Para contar histórias, é necessário se preparar, conhecer a história para que, enquanto conta, possa viver a história (mesmo lendo); alterando as vozes dos personagens e mudando expressões faciais. Isso fará com que a criança possa construir o desenvolvimento de aspectos simbólicos. TEMA 3 – O CORPO NA HISTÓRIA – PARTE I Historicamente, o corpo vem sendo visto de diferentes formas e sofrendo mudanças das percepções sobre ele no decorrer do processo de estudo deste. O corpo, na Psicologia do desenvolvimento, é analisado, segundo Le Camus (1986), em três períodos: • Final do séc. XIX – XX ≈1932 – 1950 (Corpo Hábil); Farinha filmes, disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2024. 8 • 1950 – 1982 (Corpo Consciente); • 1982 – Atualidade (Corpo Significante). A seguir, colocarei as características desses corpos para posterior discussão. 3.1 Corpo Hábil O Corpo Hábil é o marco inaugural da Psicomotricidade. O saber desse período está pautado nas ciências médicas. As experiências de Broca (1861) têm grande relevância para o estudo e conhecimento do corpo, pois demonstram estreita relação entre os movimentos corporais e os processos cerebrais. Neste período, os estudos sobre o corpo têm suas principais bases nas teorias Localizacionista (localização de funções mentais específicas em áreas circunscritas do cérebro), Mecanicista (a visão do corpo funcionando como uma máquina com alavancas e engrenagens) e Dualismo Cartesiano (tese de que o ser humano é constituído por corpo e mente, ambas substâncias distintas que passam a ser consideradas “separáveis”). Este é o momento em que era valorizada a reeducação psicomotora, a disciplina, habilidades de execução dos movimentos, a melhora da atividade de relação das partes do corpo, a produtividade, a obediência etc. Ou seja, havia a necessidade de promover o desenvolvimento do controle motor. A preocupação principal da época é que os corpos precisariam ser saudáveis e capazes de atuar naindústria e nas possíveis guerras. A atuação dos psicomotricistas e educadores físicos era mais voltada para executar técnicas corporais específicas para desenvolver determinadas habilidades psicomotoras. Na prática, as atividades eram realizadas com grupos menores para maior efetividade da aceitação do comando. Os pequenos grupos serviam para que todos pudessem entender os comandos e transformá-los em movimento da massa. Havia a necessidade desse controle específico e uma palavra de ordem. Estavam sendo integrados o incentivo, a ordem e o comando. Quem não se enquadrava nos padrões estabelecidos era deixado de lado, pois não teria “serventia” para as necessidades militares, industriais da época. Portanto o comando precisava ser preciso. Nas aulas de educação física nas escolas, o principal objetivo era ter o controle excessivo sobre os corpos das crianças, as quais sempre deveriam estar sob o olhar do adulto responsável. 9 Iniciavam com longas corridas para dar vazão ao excesso de movimento e o restante da aula era com atividades calmas para não se perder o controle da turma. Tudo em nome da boa saúde – fase Higienista. Havia a crença de que a organização de ordem ajuda a organizar o corpo. As crianças que apresentavam hipercinética6 não eram ouvidas e orientadas, e sim, castigadas para serem enquadradas nos padrões da época. Não havia a reflexão de que a criança com muito movimento quer atenção, quer ser notada por algum motivo. Quando se tem essa sensibilidade (o que não era característica da época), há a possibilidade de diluir e readequar essa conduta. O sentimento não era envolvido, não havia a preocupação do bem-estar ou da apropriação de conhecimento de quem estava praticando. Havia sempre uma organização específica para a atividade, sem possibilidade de alteração e o tempo era o direcionador. Tudo organizado para ser realizado no menor tempo possível. A intenção, também, era de padronizar todos os movimentos, o diferente não era considerado possível. Mais algumas características: • Trabalho com a informação – necessidade de ter o controle mental do movimento; • Olhar repressor; • Oferecimento de recompensas frente ao bom comportamento; • Desencadeador da hipercinética (movimentação muito contida); • Filas com pessoas em ordem crescente de tamanho – obter o controle visual; • Não remete a execução do movimento para o mental; • Inexistência do olhar acolhedor, que oferece a presença para dar segurança. 3.2 Corpo Consciente A partir de estudos relevantes da época, verifica-se que, neste período, ocorre o distanciamento da concepção médica para a concepção do “movimento consciente”. Voluntariamente o sujeito passa a incluir o próprio corpo nos contextos nos quais está inserido, é um corpo receptor que precisa aprender determinada ação pouco levando em conta o contexto social. Por essas razões, 6 Se caracteriza pelo aumento patologicamente excessivo da amplitude e da rapidez dos movimentos e pensamentos (Dicionário Informal, 2024). 10 este período é denominado Impressionismo: explicita uma sistematização científica sobre o corpo, na qual o ser humano passa a ser reconhecido como receptor dos estímulos externos, passando a assimilar, acomodar resultando em equilíbrio que se adapta aos contextos e às experiências vividas. A teoria da psicologia do desenvolvimento traz o corpo consciente como contribuição para a ciência. Nos contextos em que foi reconhecido, o corpo consciente passa a ser visto como corpo sutil que é capaz de acolher, pôr em ordem, conservar a informação vivida pelo próprio funcionamento e pelo meio. Neste sentido, a Psicomotricidade é considerada a ciência do esquema corporal. A vivência é o meio principal para aprendizagem. O modelo de ação mais valorizado é o cognitivista. Neste sentido, pode-se entender que as crianças captam ativamente determinado conhecimento sem uma conotação social marcada. A base teórica desse período é a Psicologia Genética, com o objetivo de desenvolver o esquema corporal com economia de movimento. Preconiza-se, também, a estimulação sensorial e a Psicomotricidade como ação cognitiva e funcional que trabalhará nas funções psicológicas superiores. Os principais autores desse movimento são Jean Piaget e Henri Wallon. Principais implicações: • Passagem do corpo neurológico para o movimento consciente; • Entendimento da Psicomotricidade como ciência do esquema corporal; • A teoria permite que o sujeito experiencie momentos e movimentos; • Não problematiza ou aprofunda conceitos; • Não chega à conceituação científica; • Interiorização das sensações relativas a uma ou outra parte do corpo e da globalidade de si mesmo; • Apropriação do equilíbrio postural e de outros aspectos psicomotores de forma econômica; • Valoriza a dissociação de movimentos; • Domínio das pulsões psíquicas; • Entre outros. Esse período valoriza o corpo consciente e permite ao sujeito entender o que faz e o que sente por meio da experiência. No ambiente escolar, não se acredita mais no comando como ordem a ser cumprida de forma obediente, sem questionamentos; acredita-se, sim, no incentivo para encontrar as possíveis 11 respostas e resoluções dos problemas que surgem em seus momentos de vivências e convivências. O Professor passa a ser um facilitador, oferecendo muitas possibilidades para o sujeito aprender sobre seu corpo dissociando e coordenando movimentos. TEMA 4 – O CORPO NA HISTÓRIA – PARTE ll Dando sequência à história da construção do Eu corporal, segue o que entendemos a respeito do corpo significante, como ele é constituído e analisado. 4.1 Corpo Significante Esse período de entendimento do corpo propõe aos profissionais adotarem atitudes de aceitação, reconhecimento do sujeito e de suas ações. Também se atentam para a importância de compreender e identificar seus desejos em seu processo de formação. A linha de pensamento organizadora desse período é o Expressionismo. Enquanto no corpo consciente o corpo era receptor, aqui no corpo significante o corpo é considerado como emissor. Emissor de emoções, sentimentos, atende muito mais à subjetividade. As “características” principais do corpo neste período o determinam como meio de expressão e ser capaz de comunicar algo sem a utilização da linguagem verbal, a qual é repleta de significantes latentes. Portanto, a tarefa de alguns psicomotricistas é de possibilitar a recuperação do direito de desejar, a possibilidade de proporcionar a expressão e afirmação dos desejos como princípios psicopedagógicos, pois é a partir do desejo de aprender que o sujeito adquiri conhecimento. Quando ele tem seu desejo validado em outra instância (neste caso a do corpo), este passa a reconhecer o desejo em momentos distintos: o da aprendizagem formal, por exemplo. Assim sendo, o sujeito será o agente de seu desenvolvimento e de suas aprendizagens. O corpo significante, portanto, vai realizar algo, porque há o desejo de fazer – catexia7. As teorias que embasam esse tema são as que valorizam as comunicações não verbais, ou seja, aquelas que, a partir de uma determinada conduta, podem ser percebidas em latência e, assim, podendo ser trabalhadas. 7 Concentração de todas as energias mentais sobre uma representação bem precisa, um conteúdo de memória, uma sequência de pensamentos ou encadeamentos de atos (Dicio, 2024). 12 Com essas características, podemos entender a Psicomotricidade Relacional como representante principal deste período. Um dos desenvolvedores da Psicomotricidade na abordagem relacional, André Lapierre (2002), educador físico francês, possibilita à criança perceber seu lugar no mundo. Neste sentido, a criança passa a desenvolver maneiras adequadas de posicionar-se para reconhecer e conquistar seus desejos e assim, também aprende a lidar com seu poder.Importante salientar que ele traz ênfase na necessidade da formação profissional e pessoal do psicomotricista, que pretende trabalhar no campo relacional. Portanto, é indispensável a formação específica para atuar como psicomotricista neste âmbito. A intenção da Psicomotricidade Relacional, neste sentido, é de promover a integração das relações afetivas, da estruturação da personalidade e, assim, promovendo a sistematização do conhecimento. Seu objetivo é atuar sobre os fatores psicoafetivos relacionais adquiridos na infância, visto que tais fatores estão diretamente ligados a dificuldades no processo de adaptação do cotidiano e do convívio social. Dentro deste processo, algumas características do corpo significante devem receber especial atenção: • É relativo à imagem corporal; • Sujeito assume a possibilidade de analisar a atuação corporal e o ambiente em que se encontra; • Construção da confiança – vínculo afetivo – para que o sujeito se sinta seguro para expressar seus sentimentos e emoções com segurança; • Teoria que tem relação direta com outras correntes de pensamento; • Contribui para a construção de sujeitos autônomos (identidade) – podem escolher seu objeto de dependência – o fato de pedir ajuda não o “tira” a identidade. Alguns fundamentos podem e devem ser levados em consideração pois fazem parte da construção deste corpo significante. Um deles é que há uma relevância na intenção da profilaxia da saúde mental. O sujeito que constrói o corpo significante, por poder expressar-se psico- afetivamente, realiza reflexões capazes de minimizar as somatizações que, porventura, possam ocorrer em seu processo de desenvolvimento, pois atinge seu psiquismo que é apresentado em dois níveis, o consciente e o inconsciente, e os 13 dois devem ser considerados de forma integrada. Neste sentido, há, também, a construção de uma imagem corporal positiva. No ambiente escolar, podemos pensar que, ao desenvolver o corpo significante, as crianças mantêm sua saúde mental e desenvolvem-se cognitiva e afetivamente. Gostaria de propor uma reflexão: atualmente, estamos olhando para os corpos das crianças com as quais convivemos (familiares e aprendizes), como corpos hábeis, conscientes ou significantes? Se sua resposta for “significantes”, perceba se você propõe recompensas para bons comportamentos, se age, predominantemente, de forma autoritária, ou se você é respeitado a partir do medo que é gerado pelas suas ações? Essas reflexões serão mobilizadoras para que você possa se (re)construir profissional e pessoalmente de forma a possibilitar momentos de aprendizagens autênticas a todos ao seu redor. TEMA 5 – CONSCIÊNCIA, ESQUEMA E IMAGEM CORPORAL Abordar a consciência, o esquema e a imagem corporal são de fundamental importância para nos percebermos enquanto sujeitos que aprendem, capazes de construir, desconstruir e reconstruir. Nosso corpo já interage e experiencia o mundo desde o período intrauterino. A seguir abordaremos separadamente algo indissociável, apenas em um nível didático para melhor compreensão dos conceitos. 5.1 Consciência corporal Para nos referirmos à consciência corporal, precisamos contextualizar. Olhar o corpo é olhar o processo de constituição deste e a sua relação com diversos instrumentos. Adequar o tônus para utilização de instrumentos diferentes é de bastante relevância para o desenvolvimento humano. Devemos aprender a adequar nosso corpo ao instrumento que iremos utilizar. Por exemplo: ao pegarmos um martelo, para usá-lo adequadamente, não podemos utilizar o mesmo tônus ao utilizarmos uma agulha de costura. Nosso corpo, portanto, é constituído a partir das necessidades e demandas da sociedade. A cada etapa de desenvolvimento vencida, abrem-se portas para inúmeras possibilidades. Todo corpo demonstra singularidades que são construídas a partir da história vivida e vinculada às necessidades. 14 Abordamos a consciência corporal quando o sujeito desenvolve a consciência de si mesmo, de seu corpo enquanto unidade, com identidade e personalidade. Para que isso aconteça há a necessidade, anteriormente de experimentar todas as possibilidades de seu corpo, tanto possibilidades externas quanto internas ligadas ao ambiente a seu redor, bem como sensações ligadas ao “[...] ciclo vital (fisiológico-neurológico), ao ciclo existencial (psicológico- cognitivo) [...]” (Vecchiato, 2022, p. 121). Ao unir esse conjunto de sentimentos e emoções, o sujeito passa a perceber seu corpo, qual local ele ocupa no espaço, suas articulações e músculos e as possibilidades de atuação destes nos movimentos que irá executar. Portanto a consciência corporal é determinada pelas experiências vividas com relação às possibilidades, capacidades e habilidades de seu próprio corpo. 5.2 Esquema Corporal Enquanto na consciência corporal o sujeito reconhece seu corpo e como ele pode atuar no espaço, no esquema corporal o sujeito passa a estabelecer relações entre seu corpo e suas capacidades e habilidades com suas características psicomotoras, expressivas e reativas. Desta forma, passa a perceber seu corpo como uma totalidade, provida de movimentos, sentimentos, sensações e emoções. O esquema corporal especifica o indivíduo como representante da espécie humana, seu desenvolvimento depende do entorno e é, portanto, intérprete da imagem do corpo. Para desenvolver o esquema corporal, também é muito valorizada a experiência vivida nos ambientes interno e externo. O desenvolvimento desse esquema se dá a partir da mielinização das fibras nervosas e das experiências do corpo em movimento. O esquema corporal bem desenvolvido, segundo Vecchiato (2022, p. 119), “[...] permite coordenar os estímulos sensoriais periféricos para os centros cerebrais superiores e a organizar as respostas mais adequadas à vida de relacionamento por meio de uma otimização da regulação postural do corpo.”. No processo de desenvolvimento global, a criança passa a perceber o funcionamento de seu corpo e, com isso, ela reconhece onde está e o que fazer. Ou seja, a criança reconhece o ambiente, suas capacidades e o que pode ou não fazer em determinadas situações. 15 5.3 Imagem Corporal Para a formação da imagem corporal, estão interligadas questões subjetivas/ afetivas. É um lugar do inconsciente que se constitui de emissão e recepção de emoções. Momentos de prazer e desprazer são fundamentais para essa construção, pois o Eu corporal vai se constituindo de momentos de prazer e desprazer. A imagem corporal é, portanto, o vestígio estrutural da história emocional que o sujeito teve a oportunidade de vivenciar na construção do esquema corporal. Como dito anteriormente, a imagem corporal é projetada pelo esquema corporal, é a partir deste que aquela é constituída. São indissociáveis e interdependentes, ou seja, não existem sozinhos. O Homem é o único ser capaz de subjetivar-se e viver e interpretar suas emoções. a emoção é uma protolinguagem, por vezes, não conseguimos nomeá- la, ela simplesmente se instala em nós. Ela é essencialmente relacional e inconsciente, podendo vir para a consciência, conforme o desejo pessoal, porém, em alguns momentos, é possível trabalhar a emoção e harmonizá-la no campo inconsciente. A estruturação da emoção se apoia na dialética entre o próprio desejo e o desejo do outro, até onde posso ir sem invadir o espaço do(s) outro(s) com o(s) qual(is) estou me relacionando? Neste sentido, pode-se afirmar que o corpo contemporâneo somente existe a partir de outro corpo, pois a identidade se constitui a partir de referências externas. Somos, agimos e existimos como corpo a partir de outro corpo. A comunicação sensorial e a fala do outro são substratos que constituem a imagem corporal; a simples existência sensorial (corpo a corpo), sem mediação humana, institui somente o esquema corporal,pois não permite a estruturação da imagem do corpo. “[...] viver num esquema corporal, sem imagem do corpo, equivale ao ‘viver mudo’, solitário” (Ledoux, 1991, p. 89). O ser humano simboliza, viaja no tempo. Se tornar humano, aprender a simbolizar, construir imagem corporal não se aprende sozinho, precisa-se de um ambiente humano e humanizado para que esse intento aconteça de forma harmônica e eficiente. 16 REFERÊNCIAS CATEXIA. In: Dicio - Dicionário Online de Português. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2024. HIPERCINÉTICO. In: Dicionário Informal. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2024. LAPIERRE, A. Psicomotricidade relacional à análise corporal da relação. Curitiba: Ed. UFPR, 2002. LAPIERRE, A.; LAPIERRE, A. O adulto diante da criança de 0 a 3 anos: psicomotricidade relacional e formação da personalidade. Curitiba: Ed. UFPR, 2002. LE CAMUS, J. O corpo em discussão: da reeducação psicomotora às terapias de mediação corporal. São Paulo: Artes Médicas, 1986. LEDOUX, M. H. Introdução à obra de Françoise Dolto. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1991. LEITE, R. F. Princípio do prazer versus princípio da realidade em contos infantis. Estud. psicanal., Belo Horizonte, n. 43, p. 139-144, jul. 2015. Disponível em . Acesso em: 21 mar. 2024. VECCHIATO, M. O Jogo Psicomotor – Psicomotricidade Psicodinâmica. FisicalBook, 2022.