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METODOLOGIA DO ENSINO DA GEOGRAFIA AULA 2 Profª Maria Eneida Fantin 2 CONVERSA INICIAL A Geografia foi inserida nos currículos escolares do Brasil nas primeiras décadas do século XIX, no período imperial, sem que houvesse cursos para formação de professores, tampouco produção de material didático específico no território brasileiro. Ainda assim, a Geografia se tornou componente curricular. No início do século XX, a Geografia escolar sofreu uma mudança teórico- metodológica significativa, comparando-se com os conteúdos ensinados e as metodologias de ensino utilizadas até então. Depois, outras mudanças estruturais no ensino de Geografia e no constructo teórico da disciplina escolar só foi acontecer no final do século XX. Considera-se de extrema importância que o licenciando conheça a história da disciplina que irá lecionar, para que ensine do modo mais consciente possível e alinhado com fundamentos teórico-metodológicos coerentes com as finalidades formativas da disciplina no currículo escolar. Por isso, pretende-se apresentar a história da Geografia escolar, relacionando cada período com seu contexto e as implicações nos modos de compreender o seu objeto de estudo e de ensinar essa disciplina. Os objetivos que orientam e estruturam essa abordagem são: delimitar os períodos históricos que constituem as diversas concepções teórico- metodológicas da Geografia escolar; explicitar os fundamentos da Geografia Clássica, da Geografia Moderna, da Geografia Crítica no contexto escolar; discutir os caminhos atuais da Geografia escolar. TEMA 1 – A GEOGRAFIA ESCOLAR E SUA PERIODIZAÇÃO Com base em um olhar histórico sobre a trajetória da geografia escolar no Brasil, propõe-se uma periodização que organiza as práticas pedagógicas, as relações com a ciência de referência e a finalidade do ensino dessa disciplina em três grandes períodos: Geografia Clássica, Geografia Moderna, Geografias Críticas. 1.1 A Geografia Clássica A Geografia não existia como disciplina nos currículos escolares brasileiros antes de 1837, quando foi fundado o Colégio Imperial Pedro II, 3 momento em que foi, então, incluída na grade do ensino secundário (Rocha, 1998). Alguns pesquisadores da Geografia escolar definem o período em que predominou a Geografia Clássica como o intervalo de 1837 a 1942. Nesse texto, será utilizada a periodização de Albuquerque (2011) que apresenta um recorte temporal diferente. Para essa autora, a Geografia Clássica começou 1837 e foi até 1910. Caracterizou-se pela falta de vínculo com o pensamento acadêmico científico e por se estruturar em abordagens administrativas com objetivo de identificar, nomear e memorizar fatos e fenômenos geográficos como forma de conhecer o território brasileiro. 1.2 A Geografia Moderna A partir de 1910, teve início no Brasil a chamada Geografia Moderna, cuja longevidade foi até a década de 1970. O pioneiro dessa Geografia foi Delgado de Carvalho, que inicialmente elaborava livros didáticos e, em seguida, na década de 1920, escreveu um manual de metodologia do ensino de Geografia, orientando uma abordagem teórico-metodológica ancorada em princípios científicos e filiada à pedagogia escolanovista. Outro autor que merece destaque nesse período de predomínio da Geografia Moderna é Aroldo de Azevedo, formado professor pelo primeiro curso de Licenciatura em Geografia criado em 1934, na USP. Adepto à escola francesa de Geografia, Azevedo terá seus livros didáticos dominando o mercado brasileiro até os anos de 1970, orientados pela concepção de Geografia de Vidal de La Blache e vinculados aos métodos de ensino da pedagogia tradicional. Entretanto, com a Lei n. 5.692/1971, e a substituição das disciplinas de Geografia e História pela disciplina de Estudos Sociais no currículo do ensino de primeiro grau, bem como a quebra do regime democrático instituída pelo governo militar, encerrou-se definitivamente o período da Geografia moderna na escola brasileira. Um novo momento de produção didático pedagógica na Geografia só se efetivou, na escola, a partir da segunda metade da década de 1980, com o fim da ditadura. 4 1.3 As Geografias Críticas Os autores que pesquisam a história da Geografia escolar – Rocha (1996), Albuquerque (2004) –, com os quais esse texto dialoga, falam em geografias críticas, no plural, sob o argumento de que várias vertentes constituíram o que se chamou, mais tarde, de movimento da geografia crítica. Também esses autores definem a década de 1970 como o momento de declínio e extinção da geografia moderna científica para, em seu lugar, surgir o ensino dos Estudos Sociais, por um viés tecnicista e desatrelado dos debates e mudanças que ocorriam no âmbito acadêmico. Esta geografia escolar moderna vai perdurar até os anos de 1970, quando se institui no país os estudos sociais e se verifica o surgimento de uma geografia escolar muito conservadora, atrelada à perspectiva pedagógica tecnicista. É quando entra em declínio a circulação de livros mais conservadores como os de Aroldo de Azevedo, [...] e, também outros que já traziam uma perspectiva mais crítica como os de Manuel Correia de Andrade [...]. Neste período outros livros didáticos passam a ser elaborados, agora destinados, especificamente, à disciplina então instituída pelo governo militar. (Albuquerque, 2011, p. 24) Esse descolamento dos debates acadêmicos pode ser evidenciado pela nenhuma repercussão na Geografia escolar dos eventos e publicações internacionais, por meio dos quais pensadores geógrafos apresentaram a perspectiva crítica da Geografia ao longo da década de 1970. Assim, embora a Geografia Crítica tenha os anos de 1970 como início de sua elaboração no âmbito mundial, no Brasil, só após a redemocratização, em meados dos anos de 1980, é que essa vertente teórica começou a impactar o âmbito metodológico nas escolas. Ainda assim, aqui, a chamada Geografia Crítica teve vários desdobramentos em suas filiações pedagógicas, aproximando-se tanto da “pedagogia dos conteúdos, em uma vertente apoiada em Dermeval Saviani ou na educação popular, defendida por Paulo Feire [...] e, nos dias atuais, algumas propostas vinculadas ao construtivismo” (Albuquerque, 2011, p. 24). Nesse contexto, é inegável a diversificação de produções didáticas elaboradas, especialmente livros didáticos, a partir dos anos de 1980, especialmente após a instituição do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Para o ensino de Geografia, os livros didáticos produzidos nas últimas décadas refletem as perspectivas críticas na abordagem dos conteúdos e nas propostas de atividades e práticas a serem realizadas com os estudantes. Além 5 disso, refletem também as proposições curriculares prescritivas, tal como ocorreu com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais que deixou marcas inegáveis nos livros didáticos produzidos desde então. De acordo com Albuquerque (2011), além do aumento no número de publicações, os livros didáticos atuais apresentam diversidade de ordem teórico- metodológica e mais qualidade, em decorrência das avaliações pedagógicas feitas pelo PNLD. Contudo, no movimento da Geografia Crítica, mais recentemente, foram incorporadas também as vertentes humanistas, que trouxeram análises culturais, ampliando ainda mais o campo das críticas às abordagens tradicionais anteriores. TEMA 2 – A GEOGRAFIA ESCOLAR CLÁSSICA Ainda que alguns conhecimentos geográficos tenham participado dos currículos escolares do Brasil Colônia, eles serviam de pretexto para o ensino da língua, por isso não se pode afirmar a presença da Geografia na escola. Nem mesmo um sistema de ensino foi estruturado naquele período (Rocha, 1996). Só em 1837 a Geografia é incluída no currículo do curso secundário do Colégio Imperial Pedro II. ParaVlach (1988), essa inclusão foi resultado da necessidade dos conhecimentos geográficos nos exames para ingressar nas faculdades de direito e medicina do país. A partir de então, nas décadas seguintes, o ensino de Geografia na escola brasileira teve como material de consulta e compilação o livro Corographia Brasilica, de autoria do padre Manual Aires de Casal, escrito em 1817. Consistia Em um levantamento de dados sobre as províncias, história, limites territoriais e nomenclatura de montanhas, hidrografias, portos, cabos e pontas, mineralogia, zoologia, fitologia e algumas características de cidades e vilas. Essa publicação não tinha especificamente finalidades educacionais, porém, segundo Vlach (2004), serviu de base para a elaboração de inúmeros livros didáticos e perdurou como referência bibliográfica até as primeiras décadas do século XX. (Albuquerque, 2011, p. 27) Ao longo do século XIX, até seu último quartel, essa geografia de nomenclaturas, baseada num olhar administrativo sobre o território brasileiro, não apresentava relação alguma com a geografia moderna já praticada na Europa. Além disso, os livros didáticos que circulavam no Brasil Império eram traduções de livros estrangeiros direcionados para o público de Portugal e traziam mais conteúdos de geografia geral e europeia, destacando os nomes de 6 países, cidades, rios, tipos climáticos e dados populacionais (Albuquerque, 2011). Isso mudou no final do século, pois: A partir dos anos de 1870, o número de publicações didáticas brasileiras de geografia foi ampliado e se caracterizava por uma estrutura diversa daquela encontrada nas obras importadas. Havia nesses livros um maior número de temas dedicados ao Brasil, fossem eles destinados ao ensino primário ou secundário. (Albuquerque, 2011, p. 30) O conhecimento e as reflexões sobre o material didático produzido num dado contexto histórico são de relevância para a formação do professor, pois “Apresentar informações sobre os livros didáticos utilizados é de suma importância para a compreensão de como era o ensino de geografia naquele momento, afinal, [...] esses materiais eram responsáveis pela difusão de métodos de ensino e de aprendizagem” (Baliski, 2016, p. 52-53). Assim, mesmo que os autores de livros didáticos de Geografia do século XIX tenham buscado outras fontes além do livro de Aires de Casal, é possível afirmar que, em termos metodológicos, até o início do século XX predominou a valorização da memorização e o uso dos questionários cujas respostas eram padronizadas, sem abertura à interpretação ou expressão própria do estudante. TEMA 3 – A GEOGRAFIA ESCOLAR MODERNA Um autor de livros didáticos de Geografia que começou a se destacar na década de 1910 foi Carlos Miguel Delgado de Carvalho. Em seus livros, esse autor buscava superar a geografia da memorização, a que chamava de geografia-nomenclatura e/ou administrativa. Procurava implementar a geografia científica, ou seja, vinculada aos conceitos científicos já elaborados a respeito dos fatos e fenômenos geográficos, utilizando mapas, gráficos, perfis, diagramas e fotografias como recursos de ensino (Vlash, 1989). Em 1925, esse autor foi além e publicou o livro Metodologia do ensino geográfico – Introdução aos estudos de geografia moderna, obra que marcou uma orientação teórico-metodológica para o ensino de Geografia por alguns anos no Brasil. Delgado de Carvalho foi diretor do Colégio Pedro II e participou da reformulação dos programas de ensino no Distrito Federal, que na época era o Rio de Janeiro. Foi contemporâneo de Anísio Teixeira, um dos principais signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova no Brasil, com quem trabalhou, no Rio de Janeiro. Dessa parceria, houve redefinição tanto dos 7 conteúdos a serem ensinados quanto das metodologias de ensino para as disciplinas de história e geografia (Pontuschka, 2007). Sobre sua Geografia moderna, científica, afirma-se que: Em consonância com a produção teórico-conceitual da geografia acadêmica, Carvalho propunha o estudo das unidades regionais definidas com base nos elementos da paisagem natural, deixando as divisões territoriais administrativas em segundo plano. As regiões, definidas, então, com base nos aspectos naturais, apresentavam-se como espaços a serem ocupados pelo homem para explorar a natureza e construir sua vida. (Alves, 2018, p. 190) As mudanças curriculares ocorridas naquele contexto histórico, por obra da influência de Delgado de Carvalho, estão relacionadas não apenas à dimensão teórico-metodológica, mas também a um aspecto político. Para esse autor, a Geografia e a História seriam “disciplinas de nacionalização por excelência”. Em consonância com esse argumento, o Decreto n. 16.782, de 1925, sobre a difusão do ensino primário e a reforma do ensino secundário e o superior, afirmava, em seu art. 5º, que caberia aos professores de “língua materna, Literatura, Geografia e História, abordar temas e propor pesquisas que desenvolvam sentimentos de patriotismo e civismo” (Alves, 2018, p. 194). Assim, a contribuição de Delgado de Carvalho para o ensino de Geografia pode ser resumida sob dois aspectos: • A mudança de ordem teórico-metodológica, trazendo os conceitos e teorias desenvolvidas pelas escolas de pensamento geográfico europeias e propondo o uso de recursos didáticos que estimulassem o raciocínio sobre o espaço geográfico em estudo, superando a simples memorização e dando ao estudante papel ativo no processo de ensino e aprendizagem, de acordo com os princípios metodológicos da escola nova. • Da perspectiva política, o ensino das regiões naturais, partindo do entendimento que o objeto da Geografia era a Terra como habitat do homem, não problematizava as relações político-econômicas entre as regiões brasileiras. De acordo com Vlash (1989, p. 159): A geografia de D. de Carvalho, insistindo na necessidade de uma divisão do território brasileiro a partir de princípios naturais, caminhou ao encontro dos interesses desse mesmo Estado, que em seu processo de constituição/consolidação usou o recurso do sentimento de amor à terra natal para conseguir o concurso de todos ao trabalho de edificação da riqueza material da nação (progresso). 8 Contudo, mesmo propondo alterações tão marcantes na forma de produzir, pensar e ensinar geografia, a contribuição de Delgado de Carvalho não obteve longo alcance nem impacto significativo na escola. Seus livros eram considerados acadêmicos demais pelos professores do primário e do secundário, que acabaram preferindo adotar e seguir autores mais conservadores. Nesse contexto, outro nome importante conquistou espaço e deixou marcas no ensino de Geografia no Brasil: Aroldo de Azevedo (Mello; Pereira; Pezzato, 2018). Aroldo de Azevedo foi um advogado que nunca exerceu a profissão. Na década de 1930, já escrevia livros didáticos de Geografia. Licenciou-se em Geografia e História fazendo parte da primeira geração de geógrafos formados pelos professores franceses que vieram, em 1934, implantar o curso na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Herdeiro direto da escola de pensamento geográfico francesa, Aroldo de Azevedo escreveu muitos livros didáticos de Geografia que permaneceram no mercado, entre os mais vendidos, por quase 40 anos. Entre os anos de 1934 e 1939, Aroldo de Azevedo lança oito livros didáticos destinados ao ensino de geografia. Aroldo de Azevedo foi um dos responsáveis pela difusão da geografia moderna (principalmente da escola francesa de Vidal de La Blache). Entre 1934 e 1974 publica 127 textos, sendo 97 destinados ao ensino superior e 30 ao ensino médio. [...] o referido autor influenciou significativamente o ensino de geografia do país dada sua posição de destaque como professor, nos diferentes níveis de ensino, e sua grande produção editorial e acadêmica.(Pezzato, 2018, p. 249) Disseminou, assim, os princípios e conceitos de Paul Vidal de La Blache no ensino de Geografia desde o primário até o secundário. Uma das primeiras classificações do relevo brasileiro foi elaborada por Aroldo de Azevedo e amplamente divulgada em livros didáticos, onde ainda hoje estão presentes, mesmo que em caráter comparativo com as classificações mais atuais, feitas a partir de recursos tecnológicos mais sofisticados. Os estudos regionais propostos pela Geografia Moderna de Aroldo de Azevedo fundamentavam-se na abordagem Natureza-Homem-Economia, ou seja, cada região era apresentada ao estudante inicialmente pelo seu quadro natural – relevo, hidrografia, clima e vegetação –, seguido do quadro humano, com descrição do processo histórico de povoamento da área, composição étnica da população, divisão administrativa etc. Por fim, abordava-se a dimensão produtiva regional, nos três setores da economia, destacando seus principais 9 parceiros comerciais e sua posição no ranking nacional e/ou mundial quanto ao volume de produção/troca. Em termos de metodologia de ensino predominava ainda a descrição, embora com certo dialogismo, mas a principal características era a falta de articulação, de inter-relação entre os aspectos físicos, humanos e econômicos, tratados de forma compartimentada. Os questionários ao final de cada capítulo também marcavam a proposta pedagógica do ensino de Geografia, que embora mais dialógica do que antes, ainda valorizava muito a memorização. Os livros, da mesma forma, mais ilustrados do que antes, mas ainda tinham poucas imagens e mapas, se comparados aos atuais. Essa forma de ensinar Geografia caracterizou fortemente o que se passou a chamar de Geografia Tradicional, entrosando a abordagem regional compartimentada francesa com uma pedagogia que propiciava um papel passivo e pouca voz ao estudante. Contra essa forma de pensar o espaço geográfico e de ensino Geografia é que vai se constituir o Movimento da Geografia Crítica. TEMA 4 – GEOGRAFIA ESCOLAR CRÍTICA – ANOS 1970 As primeiras produções acadêmicas que apresentavam críticas aos métodos utilizados pela Geografia Clássica e pela Geografia Moderna para pensar e ensinar o espaço geográfico ocorreram ainda nos anos de 1960. O livro de Milton Santos, intitulado Por uma Geografia Nova, foi uma crítica emblemática à chamada Nova Geografia, de cunho neopositivista, que se instituiu em meados do século XX e ficou conhecida como Geografia Quantitativa, Geografia dos Modelos. Nesse livro, o autor já apontava insuficiências das Geografias praticadas até então, na academia, para compreensão das relações socioespaciais do mundo no contexto da Guerra Fria e da bipolarização político- econômica. Contudo, as duas décadas seguintes tornaram-se mais significativas e com maior produção numérica envolvendo autores de diversos países do mundo, no que resultou o Movimento da Geografia Crítica. Estudiosos da epistemologia da geografia afirmam que as origens do movimento da Geografia Crítica remontam os anos de 1940, quando pela aproximação entre geografia e história desenvolveram-se abordagens regionais contextualizadas, nas quais a geografia regional da época ia “progressivamente 10 se inteirando do papel dos processos econômicos e sociais, no direcionamento da organização do espaço” (Moraes, 1987, p. 117). Contudo, foi ao longo dos anos de 1960, mas especialmente na década de 1970 que geógrafos, dos mais diversos países e regiões do mundo, expressaram suas críticas às geografias pretéritas e apresentaram suas teorias e conceitos, fundamentadas na dialética marxista, trazendo para a análise do espaço geográfico as categorias desse fundamento. O movimento da geografia crítica, em suas diversas vertentes, reproduz o embate ideológico contemporâneo da luta de classes na sociedade. Os geógrafos críticos, em suas diversas orientações, assumem a perspectiva popular, de uma transformação de ordem social. Por esta razão, buscam uma geografia mais generosa em um espaço mais justo, que seja organizado em função dos interesses dos homens e não do capital. (Moura, 2008) Entre as publicações que se destacaram como mobilizadoras dos debates gerados pelas Geografias Críticas é possível mencionar as revistas: Antípode, organizada em 1969, marcada por publicações dos geógrafos anglo-americanos; Heródote, criada por Yves Lacoste em 1976, com publicações dos geógrafos franceses e de outras nacionalidades, convocados pelo criador da revista a posicionar-se politicamente. No Brasil, o Boletim Paulista de Geografia foi uma das revistas em que foram publicados artigos de geógrafos críticos, marcando a constituição dessa corrente de pensamento geográfico ainda nos anos de 1970 (Moura, 2008). Não cabe, nos limites deste texto, mencionar os principais autores, seus livros e as demais revistas que foram importantes marcos de apresentação conjunta e contemporânea das Geografias Críticas na década de 1970. Contudo, vale destacar a obra de Yves Lacoste, intitulada A Geografia - isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Esse livro foi escrito no contexto da Guerra do Vietnã e, dele, duas ideias merecem destaque para os interesses da discussão aqui desenvolvida. 1. A crítica ao conceito de região da Geografia Tradicional; 2. A afirmação sobre a existência de duas Geografias: a dos Estados e a dos professores. Para Lacoste, a região empírica da Geografia Moderna (Lablacheana) e a região definida pelos critérios do pesquisador, da Nova Geografia, ambas reduziam o papel da sociedade, dos sujeitos, e davam maior destaque aos fatos físicos. Por isso, esse autor chamava o conceito de região elaborado por aquelas 11 vertentes de pensamento de “conceito obstáculo” e que dele derivavam “geografismos”, ou seja, afirmações que davam às regiões (e não à humanidade) o status de sujeito. Como exemplo ele se referia ao estudo lablacheano sobre a geografia da França em que se encontravam: Metáforas que transformam em forças políticas, em atores ou heróis da história, porções do espaço terrestre ou, mais exatamente, os nomes dados (pelos geógrafos) a territórios mais ou menos extensos. Exemplos de geografismos: “a Lorena luta, a Córsega se revolta, a Bretanha reivindica, o Norte produz isto ou aquilo, Paris exerce tal ou tal influência, Lyon fabrica, etc.”. (Lacoste, 1988, p. 65) Lacoste criticou a existência longeva, ao longo da história, de duas geografias: uma elaborada pelos Estados, com fins bélicos, para conquista e exploração e, outra; aquela ensinada nas escolas, informativa, de mera catalogação e inventário dos fatos e fenômenos geográficos. Nas palavras do autor: Desde o fim do século XIX pode-se considerar que existem duas geografias: uma, de origem antiga, a geografia dos Estados-maiores, é um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos variados referentes ao espaço; esse saber sincrético é claramente percebido como eminentemente estratégico pelas minorias dirigentes que o utilizam como instrumento de poder. A outra, a geografia dos professores, que apareceu há menos de um século, se tornou discurso ideológico no qual uma das funções inconscientes, é a de mascarar a importância estratégica dos raciocínios centrados no espaço. (LACOSTE, 1988, p. 31) De toda produção internacional acerca do pensamento geográfico crítico, é possível afirmar que na década de 1970 esse pensamento tomou corpo e apresentou seus princípios, conceitos e perspectivas de análise a respeito do espaço geográfico, tomado definitivamente como objeto de estudo dessa ciência. Esse espaço só poderia ser compreendido numa escala de análise internacional, a partir de relações de produção, relações econômicas e sociais, que envolviam tomadas de decisão com poder de definir o destino de biomas, os investimentos ou abandonosloco-regionais, enfim, a configuração socioespacial de todos os lugares, subordinadas aos interesses do capital. TEMA 5 – A GEOGRAFIA ESCOLAR CRÍTICA – DOS ANOS DE 1980 ATÉ A ATUALIDADE As Geografias Críticas trouxeram para os estudos geográficos a interpretação das relações sociedade-natureza fundamentada nas relações 12 sociais e de trabalho. Dessa perspectiva, a primeira natureza, objeto de interesse para a indústria, transforma-se em segunda natureza, ou seja, produtos a serem consumidos, construções, vias e meios de circulação, por meio do trabalho. Esse trabalho ocorre nas relações sociais de produção, em que as classes sociais vivem seus conflitos e contradições. Com o avanço da multinacionalização da economia, as relações de trabalho também ultrapassando fronteiras, as Geografias Críticas deram visibilidade à exploração dos países ricos sobre os países pobres, às consequências dessas relações internacionais do trabalho para a formação dos espaços geográficos nacionais e locais, criando uma nova perspectiva para o enfoque regional: as “regiões de desenvolvimento desigual e complementar” (Corrêa, 2002). Outros conceitos geográficos também foram ressignificados pelas Geografias Críticas, mas o novo quadro teórico conceitual só começou a chegar nas escolas brasileiras, via livros didáticos, depois do fim da ditadura militar, ou seja, na segunda metade da década de 1980. Foi nesse período que o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) começou a distribuir livros para os estudantes do ensino fundamental e incluiu os professores no processo de escolha dos livros, com o envio do Guia do Livro Didático para as escolas. As editoras inscreviam suas coleções no PNLD e enviavam resenhas dos seus conteúdos. Assim, os professores começaram a ter contato com livros de conteúdos e propostas metodológicas vinculados ao campo das teorias críticas educacionais. No que tange à Geografia, esses livros começaram a trazer abordagens demográficas com enfoque histórico e social, ênfase no conceito de território dado o seu teor político quando se tratava da dimensão econômica da produção do espaço, além de destaque para as desigualdades presentes nas paisagens urbanas e rurais. Além de temas diferenciados, os novos livros didáticos de Geografia abandonavam as práticas pedagógicas da cartografia que limitavam o estudante a copiar e pintar mapas. Rompiam, assim, com a Geografia Tradicional (clássica e moderna) deixando de lado seus métodos mnemônico e dialogístico, para propor um novo ensino, voltado à problematização, à pesquisa e à análise espacial considerando as relações de produção. Os antigos livros didáticos de geografia, filiados às abordagens ultrapassadas, foram aos poucos abandonados pelos professores, e não puderam mais se inscrever no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que 13 na segunda metade da década de 1990, instituiu a avaliação pedagógica dos livros. Essa avaliação se constituiu no contexto dos debates educacionais que vinham ocorrendo em âmbito nacional, desde a promulgação da Constituição Federal Cidadã de 1988 e resultaram na aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (n. 9394/96). A discussão sobre a necessidade de disponibilizar para a escola pública livros de qualidade e coerentes com a concepção de cidadania e sociedade explicitadas nessas duas leis, desse modo, fortaleceu o PNLD e contribuiu para se estabelecer uma espécie de consenso mínimo nacional acerca da função da educação escolar e do sujeito que a escola precisaria formar. Além disso, os movimentos sociais, representantes do meio ambiente, das minorias étnico raciais e de outros setores da sociedade, ganharam voz e puderam influenciar no processo de elaboração dos livros didáticos. Dessa forma, os autores dos livros didáticos de Geografia (e das demais áreas também) tiveram que observar o conteúdo dos editais de avaliação do livro, elaborados pelo Ministério da Educação, para submeter suas produções com chances de tê-las aprovadas para venda às redes públicas de ensino. Assim, sujeitos históricos antes invisíveis ou muito estereotipados no ensino de Geografia ganharam visibilidade e uma abordagem mais crítica e contextualizada. Temas como a miséria, as diferenças econômicas entre os países deixaram de ser tratadas de forma descritiva e quase naturalizada para receberem abordagens críticas problematizadoras. Buscava-se formar o cidadão crítico, consciente e capaz de interver na realidade vivida. Em paralelo a essa efervescência didático pedagógica, possibilitada pela redemocratização do país, que atravessou a década de 1990 e continua até a atualidade, no âmbito acadêmico, a Geografia revisou seus conceitos, os ressignificou e incorporou abordagens humanísticas, com destaque para a vertente cultural que foi se tornando cada vez mais presente nas pesquisas, compondo o movimento da crítica à Geografia Tradicional. Atualmente, é possível afirmar que a Geografia Acadêmica e a Geografia Escolar são compostas por diversas correntes teóricas do pensamento geográfico, mas ambas superaram as formas que a chamada Geografia Tradicional analisava e ensinava o espaço geográfico. Ainda que nem todas essas correntes tenham participado com a vertente do materialismo histórico dialético do movimento de ruptura com a Geografia Tradicional, há espaço para 14 todas elas na pesquisa e no ensino. Enriquecendo o olhar para seu objeto de estudo, a Geografia atual estabelece relações com a Sociologia, com a História, com a Psicologia, com a Economia e outras áreas da ciência. NA PRÁTICA O estudante pode aprofundar a pesquisa sobre as diferentes fases da Geografia Escolar, sistematizando as características de cada fase. A respeito das Geografias Críticas, pode buscar diferenciar as tendências que compuseram esse movimento de renovação do pensamento geográfico, até chegar às mais recentes, vinculadas ao enfoque cultural humanista. FINALIZANDO O percurso traçado neste texto teve por objetivo percorrer, ainda que brevemente, a história da Geografia Escolar, sempre relacionando-a com os contextos históricos e com a produção acadêmica correspondente a cada período visitado. Assim, denominou-se Geografia Clássica as práticas pedagógicas e produções bibliográficas ocorridas no Brasil Império, quando o que se propunha para o ensino da Geografia Escolar não apresentava vínculo com o que já era produzido na Geografia Acadêmica fora do Brasil. Ensinavam-se nomes e localização de porções administrativas, fatos e fenômenos geográficos que compunham o território brasileiro, e cabia aos estudantes apenas memorizar esses dados. Com a instituição da República, tem início a Geografia Moderna, que pela intervenção de alguns nomes de destaque, entre eles Delgado de Carvalho e Aroldo de Azevedo, vincularam a produção acadêmica e o ensino da Geografia na escola aos princípios, teorias e conceitos desenvolvidos pelas principais escolas de pensamento geográfico, especialmente a francesa. Por isso, essa Geografia Moderna também foi denominada científica e perdurou no âmbito escolar até a década de 1970, marcada ainda por uma pedagogia da memorização, embora tenha incorporado alguns elementos do dialogismo pedagógico. O ensino da Geografia Moderna foi estruturado pelo conceito Lablacheano de Região e a abordagem que mais marcou tanto os materiais didáticos produzidos dos anos de 1940 até 1970 quanto as práticas pedagógicas 15 nas escolas foi a chamada N – H – E (Natureza-Homem-Economia). Por essa abordagem, apresentava-se aos estudantes uma região de cada vez, primeiro trazendo todos os aspectos naturais, depois os demográficos e, por fim, os econômicos que a caracterizavam. Os principais críticos dessa Geografia Escolar apontam sua finalidade política de desenvolver um sentimentonacionalista acrítico, necessário ao fortalecimento da República recém- estabelecida no Brasil. A partir da década de 1960, mas especialmente na de 1970, em função do acirramento da ordem mundial bipolar e a divisão do mundo em duas áreas de influência (EUA versus URSS), da internacionalização da economia e dos interesses de exploração que vinham desencadeando conflitos e guerras localizadas, mas assustadoras, o pensamento geográfico mudou profundamente. O chamado movimento da Geografia Crítica emergiu com força em todos os continentes e geógrafos filiados ao materialismo histórico dialético fizeram uma crítica profunda à Geografia Tradicional, rompendo com ela. As Geografias Críticas foram se estruturando ao longo das décadas de 1970 e 1980, mas no Brasil essa linha de pensamento só impactou o Geografia Escolar brasileira depois do fim da ditadura militar, com a redemocratização do país. O movimento da Geografia Crítica entendia como objeto de estudo da Geografia o espaço geográfico, definido pelas relações internacionais entre os países, pois a internacionalização da economia possibilitava que decisões tomadas nos grandes centros produtivos e de poder mundial definissem realidades locais distantes. Criticou a região empírica da Geografia Tradicional e propôs uma ressignificação desse conceito, definindo região como áreas de desenvolvimento desigual e combinado, o que explicaria a divisão do mundo em bloco de países ricos, desenvolvidos e bloco de países pobres, subdesenvolvidos. Com as conquistas de direitos obtidas na Constituição Federal de 1988, a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases em 1996 e com a avaliação pedagógica do livro didático instituída no PNLD, pelo Ministério da Educação, a legislação norteadora da educação nacional incorporou elementos do campo das pedagogias críticas e, em todos os documentos educacionais, o projeto de futuro era a formação de cidadãos críticos e participativos. Desde então, o quadro conceitual das Geografias Críticas foi se desenvolvendo, amadurecendo e, atualmente, outras correntes teóricas não 16 vinculadas ao materialismo histórico dialético, como a Geografia Cultural, compõem também o movimento de crítica e ruptura com a Geografia Tradicional. Saiba mais Para aprofundar as discussões desta aula, acesse os links a seguir: GONÇALVES, A. R. Geografia Escolar como Campo de Investigação: História da Disciplina e Cultura Escolar. 2010. Disponível em: . Acesso em: 21 set. 2021. PEZZATO, J. P. Geografia escolar no Brasil: uma trajetória com mudanças culturais e a permanência do discurso em prol da cidadania. Estudos Geográficos, v. 16 n. 1, 2018. Disponível em: . Acesso em: 21 set. 2021. 17 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, M. A M. de. Lugar: conceito geográfico nos currículos pré- ativos – relação entre saber acadêmico e saber escolar. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação USP, São Paulo, 2004. _____. Dois momentos na história da geografia escolar: a geografia clássica e as contribuições de delgado de carvalho. Revista Brasileira de Educação em Geografia, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 19-51, jul./dez., 2011. Disponível em: . Acesso em: 21 set. 2021. ALVES, A. R. et al. Perspectivas e abordagens geográficas contemporâneas. Curitiba: InterSaberes, 2018. CORRÊA, R. L. Região e Organização Espacial. 7. ed. São Paulo: Ática, 2002. LACOSTE, Y. A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 1988. MELLO, B. F. de; PEREIRA, D. C.; PEZZATO, J. P. 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