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GESTÃO EDUCACIONAL Glaucia Signorelli de Queiroz Gonçalves Maria Stela Alves Timóteo Marianna Centeno Martins de Gouvea Marise Soares Diniz Wilton Rezende de Freitas Glaucia Signorelli de Queiroz Gonçalves Maria Stela Alves Timóteo Marianna Centeno Martins de Gouvea Marise Soares Diniz Wilton Rezende de Freitas GESTÃO EDUCACIONAL Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central UNIUBE G334 Gestão educacional [livro eletrônico] / Glaucia Signorelli de Queiroz Gonçalves ... [et al.]. – Uberaba: Universidade de Uberaba, 2017. 187 p. : il. color. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7777-627-6 1. Planejamento estratégico. 2. Ambiente escolar. I. Gonçalves, Glaucia Signorelli de Queiroz. II. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. CDD 658.4012 © 2017 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão André Luís Teixeira Fernandes Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Coordenação de Pós-Graduação a Distância Renata Maria de Almeida e Borges Editoração e Arte Produção de Materiais Didáticos-Uniube Preparação dos originais Stela Maria Queiroz Dias Revisão ortográfica, gramatical, textual e de estilos Faraídes M. Sisconeto de Freitas Editoração eletrônica Eduardo Estevam Araujo Projeto da capa Roberto Silva Araújo Assis Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Glaucia Signorelli de Queiroz Gonçalves Doutora em Educação pelo programa de Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP); mestre em Educação - Formação de Professores (Uniube); graduada em Pedagogia com habilitações em Administração Escolar e Matérias Pedagógicas, complementada pelas habilitações em Orientação Educacional e Supervisão Escolar pelo Instituto Superior de Ensino e Pesquisa de Ituiutaba (ISEDI); especialista em Psicopedagogia (ISEDI) e Alfabetização pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente é professora na FACIP - Faculdade de Ciências Integradas do Pontal, campus da Universidade Federal de Uberlândia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Formação de Professores. No ensino, atua principalmente nas seguintes disciplinas: Estágio Supervisionado, Projeto Integrado de Prática Educativa (PIPE) e Didática. Desenvolve pesquisas sobre as seguintes temáticas: formação continuada de professores, avaliação da aprendizagem; professores iniciantes e inserção profissional. Compõe atualmente o quadro de Avaliadores de Curso Superior do MEC/ INEP. Maria Stela Alves Timóteo Mestre em Educação pela Universidade de Uberaba (Uniube); especialista em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Uberlândia, UFU, Brasil.; Metodologia e Didática do Ensino pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras José Olimpio de Batatais, FBSP, Brasil.; Planejamento Educacional pela Universidade Federal de Uberlândia, UFU, Brasil.; Educação Profissional e PROEJA-Educação de Jovens e Adultos pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro, IFTM, Brasil.; graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ituverava-SP; efetiva na Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, atuando como inspetora escolar; tem experiência na produção de material didático-pedagógico para a área de Educação, com ênfase em Administração de Sistemas Educacionais; gestora do Curso Sobre os autores de Especialização Lato Sensu em Gestão Educacional e docente na modalidade EAD na Universidade de Uberaba (Uniube). Marianna Centeno Martins de Gouvêa Pedagoga, com habilitação em Educação Especial, pela Universidade de Uberaba (Uniube); mestre em Educação Tecnológica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM) Uberaba/MG.; especialista em Educação para Bem-Dotados e Talentosos, pela Universidade Federal de Lavras; professora universitária, com pesquisas em Educação e Inclusão por meio de novas metodologias de ensino e das Tecnologias de Informação e Comunicação-TIC; analista educacional/pedagoga na Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais - SEE/MG - Superintendência Regional de Ensino de Uberaba - SRE. Marise Soares Diniz Graduada em Pedagogia: mestre em Educação pela Universidade de Uberaba (Uniube); orientadora educacional em colégio particular de Uberaba; com experiência na área de Educação, com ênfase na história local; nas disciplinas pedagógicas e nas práticas educativas. Wilton Rezende de Freitas Graduado em Administração pela Universidade de Uberaba (Uniube); pós-graduado em Finanças e Controladoria pela Faculdade de Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro; professor e gestor dos cursos de Administração, Ciências Contábeis, Tecnologia em Gestão Financeira e Tecnologia em Logística na Uniube; professor das disciplinas na área de gestão, em Gestão Estratégica, Gestão da Produção, Macroeconomia, Gestão da Logística e Gestão de Materiais. Professor-autor de livros didáticos para os cursos de graduação e pós-graduação, modalidade EAD, da Uniube. Sumário Apresentação ......................................................................................VII Capítulo 1 O pensamento estratégico aplicado nas organizações ...................................................................... 1 1.1 Introdução ................................................................................................................ 3 1.2 Gestão estratégica e planejamento estratégico: conceito, evolução e etapas ....... 3 1.3 A gestão estratégica no ambiente institucional: suas fases e aplicações .............. 7 1.4 Gestão estratégica no contexto educativo – a gestão gemocrática ..................... 12 1.5 O gestor no processo de gestão estratégica: líder e formador de equipes .......... 18 1.6 Considerações finais.............................................................................................. 25 Capítulo 2 Gestão educacional: pressupostos filosóficos, políticos, sociais, culturais e epistemológicos ............ 27 2.1 Introdução .............................................................................................................. 29 2.2 Evolução do pensamento sobre as teorias administrativas .................................. 29 2.3 Modelos de gestão educacional: embasamentos filosóficos, variáveis de contexto, processos e instrumentos de gestão, tecnologias de informação ....................... 41 2.4 A atuação do gestor escolar em ambientes não-escolares .................................. 59 2.5 Considerações finais.............................................................................................. 63 Capítulo 3 Gestão educacional: as funções do gestor aplicadas no trabalho pedagógico ..................................................65 3.1 Introdução .............................................................................................................. 67 3.2 A ação gestora educacional e a legislação vigente .............................................. 67 3.3 O gestor e os processos pedagógicos .................................................................. 80 3.4 Relação escola/comunidadea hierarquia rígida nas estruturas administrativas e sim, a tomada de decisões dialogando e discutindo com a equipe de trabalho, buscando a respon- sabilidade de todos. A democracia é um regime político que defende que todos devem participar das decisões do governo, buscando a igualdade entre os cidadãos. São vários os mecanismos de participação, entre eles: o voto. Na escola, o pro- cesso de democra- tização se expres- sa pelas reuniões coletivas, colegia- dos, relação pro- fessor-aluno com respeito mútuo, participação da comunidade, den- tre outros. O cidadão autônomo é independente, livre para to- mar decisões e resolver seus pro- blemas sem interferências de outras pessoas. É o que tem pensamentos próprios e não se deixar dominar. Que resolve problemas não previstos, que decide com respon- sabilidade e faz parte da história. Não se omite e participa ativamente, contribuindo com o grupo. Gadotti (2009) define qualidade como aquilo que melhora a vida das pessoas, de todas as pessoas. “Na educação, a qualidade está ligada diretamente ao bem viver de todas as nossas comunidades, a partir da comunidade escolar”. Para isso, é condição a participação da sociedade na escola. O gestor que garante espaços de decisões coletivas preocupa-se com a melhoria da qualidade da educação e das políticas educacionais. O Quadro 1: Paradigmas da educação com qualidade. Uniube 43 autor afirma que “só aprende quem participa ativamente no que está aprendendo”. E aprendemos a participar não só na escola, a sociedade também tem que ser um espaço aberto ao diálogo. Economicamente, os países que mais investem na educação são os mais desenvolvidos. Exemplo disso é a China, que investe muito em educação e está como o 1º país do ranking mundial de avaliação de ensino. “A qualidade da educação é condição da eficiência econômica”. (GADOTTI, 2009). As empresas exigem funcionários com “autonomia intelectual, capacidade de pensar, de ser cidadão – capacidade de tomar decisões – ter uma boa base de cultura geral que lhe permita compreender o sentido do que está fazendo” aponta o mesmo autor. A escola tem que ser cada vez melhor para atender às necessidades dos cidadãos que evoluem rapidamente. Torna-se fundamental aprender a pensar, saber comunicar-se, saber pesquisar, saber fazer, ter raciocínio lógico, aprender a trabalhar colaborativamente, fazer sínteses e elaborações teóricas, saber organizar o próprio trabalho, ter disciplina, ser sujeito da construção de seu conhecimento, estar aberto a novas aprendizagens, conhecer as fontes de informação, saber articular o conhecimento com a prática e com outros saberes. (GADOTTI, 2009, p.4). Conclui o autor que, neste contexto de impregnação da informação, o educador – incluímos aqui, o gestor – é um “problematizador” – um aprendiz permanente, um construtor de sentidos, um cooperador e, sobretudo, um organizador do processo de ensino e de aprendizagem. A educação é de boa qualidade quando ela forma pessoas para pensar e agir com autonomia e o gestor tem participação ativa na efetivação dessa proposta. 44 Uniube Conforme Paro (1998, p.309-310): O caráter mediador da administração manifesta-se de forma peculiar na gestão educacional, porque aí os fins a serem realizados relacionam-se à emancipação cultural de sujeitos históricos, para os quais a apreensão do saber se apresenta como elemento decisivo na construção de sua cidadania. Por esse motivo, tanto o conceito de qualidade da educação quanto o de democratização de sua gestão ganham novas configurações. O primeiro tem a ver com uma concepção de produto educacional que transcende a mera exposição de conteúdos de conhecimento, para erigir-se em resultado de uma prática social que atualiza cultural e historicamente o educando. O segundo, ultrapassando os limites da democracia política, articula-se com a noção de controle democrático do Estado pela população como condição necessária para a construção de uma verdadeira democracia social que, no âmbito da unidade escolar, assume a participação da população nas decisões, no duplo sentido de direito dos usuários e de necessidade da escola para o bom desempenho de suas funções. Segundo o autor, para que a escola desenvolva a cidadania, todos os envolvidos no processo educativo devem participar e ter como finalidade da educação a emancipação humana. Para isso as, relações na escola devem ser dialógicas, garantindo a condição de sujeito, tanto do educador quanto do educando. Não existem padrões únicos de qualidade, pela complexidade das relações pedagógicas. Em outros serviços é mais fácil de mensurar a qualidade; na educação o efeito sobre o indivíduo se estende por toda sua vida, dificultando a avaliação. “É por isso que, na escola, a garantia de um bom produto só se pode dar garantindo-se o bom processo”. (PARO, 1998, p.310). A gestão educacional representa a mediação na busca de objetivos. O “caráter de mediação da gestão ou administração é que, não sendo fim em si, ela pode articular-se com uma variedade infinita de objetivos, não Uniube 45 precisando estar necessariamente articulada com a dominação que vige em nossa sociedade”. (PARO, 1998, p.311). A mediação, dependendo do objetivo a ser atingido, se diferencia, as escolas e as necessidades são diferentes. O caráter mediador deve acontecer tanto entre a equipe técnico- administrativa quanto na sala de aula, deixando, claro em todas as instâncias, os objetivos a serem alcançados. E, para o autor, o objetivo é a emancipação humana, em que o sujeito é participante ativo das transformações sociais, pois na escola recebe os instrumentos para isso: os conhecimentos historicamente acumulados, que são direitos de todos os cidadãos. Para tal objetivo, não se pode reduzir a gestão escolar a soluções tecnicistas importadas da administração empresarial capitalista. “Segundo essa concepção, basta a introdução de técnicas sofisticadas de gerência próprias da empresa comercial, aliada a treinamentos intensivos dos diretores e demais servidores das escolas para se resolverem todos os problemas da educação escolar” (PARO, 1998, p.312). Outra luta é por melhores recursos financeiros para as escolas, visto que qualidade também depende destes. Além desses fatores, a gestão democrática se relaciona com a liberdade, “então é necessário que se providenciem as condições para que aqueles a cujos interesses a escola deve atender participem democraticamente da tomada de decisões que dizem respeito aos destinos da escola e a sua administração”. (PARO, 1998, p.312). Com a participação democrática da comunidade, vincula-se a escola com o que ocorre fora dela, incluindo a família. A participação da população na escola ganha sentido, assim, na forma de uma postura positiva da instituição 46 Uniube com relação aos usuários, em especial aos pais e responsáveis pelos estudantes, oferecendo ocasiões de diálogo, de convivência verdadeiramente humana, em suma, de participação na vida da escola. (PARO,1998, p.315). Para o mesmo autor, tanto a Teoria Clássica de Administração como a das Relações Humanas não consideram “os determinantes sociais e econômicos da administração escolar”. Essas teorias não analisam o real, a realidade concreta de cada escola. Paro (1986, p. 313) defende a administração escolar voltada para a transformação social. “A administração escolar está, assim, organicamente ligada à totalidade social, onde ela se realiza e exerce sua ação e onde, ao mesmo tempo, encontra as fontes de seus condicionantes”. Ao realizar seus objetivos, o homem, com sua criatividade, permite-se enfrentar novas necessidades, novas situações. O homem se depara, permanentemente, com novos problemas e se coloca sempre novas metas a serem atingidas e, diante disso, “a administração criadora precisa ser pensada em termos de relevância, propondo soluções e descobrindo novasalternativas que respondam às reais necessidades humanas”. (PARO, 1986, p. 28). Problemas advindos da sociedade, criam novas exigências, uma vez que as políticas públicas que, a cada mandato dos governantes se modificam, não respeitando o processo anteriormente implantado e sua necessária continuidade. Parece que sempre se começa de novo, como se educação não fosse um processo de ampliação constante. Uniube 47 Assumindo uma postura crítica, “a escola de caráter transformador contribuirá para instrumentalizar culturalmente os alunos e não ser conservadora”. (PARO, 1986, p.130). O gestor escolar, ao mesmo tempo em que cuida, como educador, da busca dos objetivos educacionais, deve cumprir as determinações do sistema de ensino a que se vincula e, muitas vezes, essas entram em conflito com os objetivos que ele estabeleceu com sua equipe e sua comunidade. Muitas vezes ainda, ele é visto com mais poder e autonomia do que realmente possui, visto que muitas de suas decisões dependerão de ordens superiores. “Problemas que dependem de decisões superiores, quer porque os recursos necessários não estão disponíveis, são encarados como se dependessem exclusivamente da vontade do diretor para serem resolvidos”. (PARO, 1986, p.134). Por meio de reflexões e questionamentos, coletivamente, o gestor deve propor ações que atendam aos interesses da comunidade em que atua, adequando exigências legais para o alcance dos objetivos. Para tanto, faz-se fundamental a organização de reuniões de estudos, palestras, discussões e outras atividades discutindo os problemas e propondo projetos de ação e intervenção. O trabalho do gestor “não é algo pronto e sim a ser constituído durante o processo – lida com as contradições existentes dentro e fora da escola, buscando introduzir práticas democráticas de coordenação do esforço humano coletivo”. (PARO, 1986, p.162). Espera-se dele competência técnica, administrativa, pedagógica: um gestor intelectual, sem ser neutro politicamente. Nesse contexto, o gestor escolar deve criar um ambiente onde as pessoas devem se conhecer 48 Uniube e expor suas expectativas quanto à escola e à educação. Para tanto, é necessário a construção de uma relação comunitária entre seus partícipes e de uma identidade da escola e articulação com o sistema de ensino. A Escola Cidadã, defendida por Paulo Freire, é a escola que viabiliza a cidadania de quem está nela e de quem vem a ela. “É uma escola que, brigando para ser ela mesma, viabiliza ou luta para que os educandos e educadores também sejam eles mesmos e, como ninguém pode ser só, a Escola Cidadã, é uma escola de comunidade, de companheirismo”. (PROCAD, 2001). Quanto à atuação do colegiado escolar, as ações do gestor e do colegiado não podem ser reduzidas ao cumprimento de tarefas como buscar recursos, promover licitações, aprová-las e encaminhar. O colegiado tem também a responsabilidade de refletir sobre as demandas da comunidade e dinamizar a construção do Projeto Político-Pedagógico da escola (principal objeto de discussão da escola). Portanto, é fundamental ouvir. O texto “Ouvir”, de Arduini (1977, p. 205) esclarece essa importante atitude. Não basta ter ouvidos para ouvir. Ouvir oferece significados diversos [...] Ouvir-compreensão é um ouvir que leva a entender os sons, os gestos, os sinais, é o ouvir que penetra o tecido da linguagem, para apreender o seu conteúdo. Não é só escutar. É compreender o outro [...] A discussão sobre a qualidade de ensino e a participação da comunidade na gestão da escola nos remete a uma reflexão sobre a autonomia da escola, defendida na LDB 9394/1996. Somente com autonomia pode-se criar, pode-se ser sujeito. A legislação deixa claro que a autonomia da escola é administrativa, financeira e pedagógica, no entanto, é sobre o aspecto financeiro que a escola tende a se debruçar. A autonomia Uniube 49 da escola deve ser entendida como a liberdade de definir politicamente seu Projeto Pedagógico e seus mecanismos democráticos de gestão, compreendendo e respeitando sua dimensão pública e, portanto, de unidade pertencente a um sistema. A construção do Projeto Político- Pedagógico e a busca da qualidade do ensino são as referências para a atuação do gestor. A escola é um local em que se encontra representada grande pluralidade de demandas e interesses. Logo, a qualidade do trabalho ali desenvolvido dependerá da articulação dessa diversidade, para que se promovam ações capazes de reuni-las em torno de interesses comuns, em torno de um consenso. As escolas se diferenciam umas das outras – adotam formas próprias de se organizarem, firmam sua identidade, embora obedecendo a normas comuns. Nas inter-relações que abrigam estão as crenças, os valores, as concepções básicas adotadas para solucionar problemas. Em nome da descentralização, mais tarefas foram postas para o gestor, desafiando a reorganização de seu trabalho. O risco é que suas ações se esvaziem de conteúdo crítico, reduzindo o seu trabalho, levando-o a atuar apenas como um gerente, um administrador de recursos. Outra proposta de gestão, orquestrada por Prais (1983, p. 58), é denominada Administração Colegiada. Para a autora: [...] surgem, a partir da década de 80, com a chamada transição democrática, novas proposições de gestão educacional, que articuladas a outros movimentos sociais, visam o acesso à educação e à cultura, bem como à participação dos agentes que integram as instituições educacionais, na definição de suas políticas e na organização de suas propostas de funcionamento, o que se configurou como a luta pela democratização da escola pública. A partir da LDB 9394/1996, o processo de construção da gestão democrática se fortalece, principalmente, a partir de dois fatores. Um deles: as práticas dos Conselhos de Educação, incluindo os conselhos 50 Uniube escolares; e o outro a implantação do processo eletivo para a escolha dos dirigentes das instituições de ensino e a exigência da elaboração dos projetos pedagógicos para as escolas. Os Conselhos Escolares sustentam os projetos político-pedagógicos, permitindo a definição dos rumos e das prioridades da escola numa perspectiva emancipadora. Promove a participação, de forma integrada, dos segmentos representativos da escola e da comunidade local em diversas atividades, contribuindo para a efetivação da democracia participativa e para a melhoria da qualidade da educação. O pressuposto da Administração Colegiada, para Prais (1983), é a coparticipação responsável dos representantes dos diferentes segmentos que integram a comunidade educacional, na discussão dos seus assuntos pedagógicos e administrativos, objetivando a divisão das responsabilidades nas decisões institucionais. É uma proposta de trabalho coletivo na escola, que apresenta a cidadania e a autonomia como categorias indissociáveis, como valores imprescindíveis à consolidação dos avanços necessários à qualidade de uma educação justa e humana. O cidadão é sujeito de direitos e “a educação como o direito social por excelência e, portanto, como prioridade e investimento, na medida em que há uma estreita correlação entre ela e o desenvolvimento, tanto do ponto de vista social, quanto individual” (PRAIS, 1983, p.63). A educação deve ser de qualidade. Nessa perspectiva, a escola constitui-se, a um só tempo, em ambiente de aprendizagem e de formação humana-cidadã, procurando priorizar na formação dos alunos as suas múltiplas dimensões do ser humano, ou seja, incorporando, no ato educativo, atividades intelectuais, morais, sociais e afetivas, enfim, congregando o que na vida não se separa, buscando formar pessoas competentes e autônomas e, ao mesmo Uniube 51 tempo, éticas, afetivas, solidárias, democráticas, enfim cidadãs. Essa prática de organização escolar exige a boa governança. (PRAIS, 1983, p.65). A gestão colegiada é condição decisiva para assegurar as ações para a organização e a articulaçãode um processo educacional voltado para a garantia da realização da função essencial da escola: a promoção da efetiva aprendizagem de todos os alunos, “sem admissibilidade de exceção, de modo a torná-los capazes de, no uso adequado de sua cidadania, enfrentar os desafios colocados pela sociedade e de promover, quando necessário, a sua transformação”. (PRAIS, 1983, p.68). Para tal proposta, o gestor deve se empenhar em envolver a comunidade do entorno da escola, para que seus membros assumam o destino da escola, tornando as ações administrativas cada vez mais democráticas. A imagem, a seguir, na Figura 2, destaca a importância do Colegiado: Sustenta os Projetos político- pedagógicos Promove a participação, de forma integrada, dos segmentos. Colegiado escolar Define rumos e prioridades da escola numa perspectiva emancipadora. Figura 2: Atribuições do Colegiado Escolar 52 Uniube As ações da proposta da Administração Colegiada provocam a mudança no processo de tomada de decisões no interior da escola. Rompem com o autoritarismo que vivemos por tanto tempo, nos governos militares e, com a repolitização da classe trabalhadora (PRAIS,1983), as contradições geradas levaram a uma reorganização da sociedade e, consequentemente, da escola. Há uma ruptura de uma prática solitária para uma prática coletiva, estimulando a discussão e a corresponsabilidade pelos resultados. Portanto, a Administração Colegiada requer a participação de toda a comunidade escolar nas decisões do processo educativo, contribui para o aperfeiçoamento da ação administrativa e pedagógica da escola; para a recuperação do papel do diretor na liderança do processo educativo e colocando-o como “educador por excelência”; exige uma nova organização da escola e um novo compromisso por parte de todos. A autora destaca ainda que a “Gestão Democrática não se efetiva por decreto, portarias ou resoluções: é resultante, da concepção de gestão e de condições objetivas para o trabalho coletivo” (PRAIS, 1983, p.73). Essa gestão visa à construção de uma sociedade justa, humana, solidária e igualitária. Reinventar a escola. É preciso considerar que a sociedade em mudança coloca situações que exigem discussão ética, a compreensão de movimentos que são excludentes ou incorporadores, o entendimento de fenômenos e descobertas que podem libertar ou subjugar. (MAIA, 2000, p.19). Outro modelo de gestão com as mesmas bases epistemológicas apresentadas nos modelos anteriores, refletido e estruturado por Lück (2000, p. 7), procura superar o enfoque limitado de administração, tendo como base a “mobilização dinâmica e coletiva do elemento humano” como condição da melhoria da qualidade de ensino. Para a autora, o processo de gestão escolar deve estar voltado para garantir que os alunos aprendam sobre o seu mundo e sobre si mesmo Uniube 53 em relação a esse mundo, adquiram conhecimentos úteis e aprendam a trabalhar com informações de complexidades gradativas e contraditórias da realidade social, econômica, política e científica, como condição para o exercício da cidadania responsável. Lück (2000) afirma que o autoritarismo, a centralização, a fragmentação, o conservadorismo e a divisão estão ultrapassados. Essas práticas conduzem ao desperdício, ao imobilismo, ao ativismo inconsequente, à falta de responsabilidade por atos e seus resultados, à estagnação social e ao fracasso da instituição. As práticas interativas, participativas e democráticas, caracterizadas por movimentos dinâmicos e globais exigem novas atenções, conhecimentos e habilidades dos gestores. Considera-se uma prática interativa, o estabelecimento de parcerias das escolas com empresas. É a escola chamando a atenção dos parceiros para a importância da educação, para o necessário investimento financeiro para execução de projetos com o objetivo de desenvolver social e economicamente a comunidade. Uma experiência, também da escola em que fui diretora, foi a parceria firmada com uma empresa de telefonia da região. Foram desenvolvidos diferentes projetos que envolveram professores, alunos e comunidade direta e indiretamente. Um deles foi o investimento da empresa na formação continuada de professores promovendo um curso de informática, para que eles refletissem sobre a importância do uso da tecnologia em sala de aula. Outro, um projeto ecológico que mapeou o bairro do entorno da escola e diversas ações, como a reciclagem, foi implantado, o que refletiu sobre a limpeza das ruas e a organização do lixo. (LÜCK, 2000, p.15). Essa prática de parceria é questionada por algumas pessoas com o argumento de que ações como essa retirariam o papel do governo com a educação. No entanto, ao mesmo tempo em que a sociedade como um todo é chamada a participar da educação, investindo recursos e pessoal qualificado o movimento de classe em prol da escola pública é contínuo, lutando permanentemente por mais investimento na educação. 54 Uniube São ações que se complementam e evitam que melhorias sejam adiadas pelo velho discurso de que não há verbas. Para Lück (2000), o diretor que assume como funções somente repassar informações do sistema, controlar, supervisionar de acordo com regras, sempre espera que o outro resolva os conflitos da escola; para ele, “o sistema não permite” é a desculpa. Realiza, com já enfatizado pelos outros modelos de gestão, um trabalho fragmentado em funções e tarefas e pessoas – especialistas. A consequência disso, segundo a autora, é a hierarquização, desconsideração dos processos sociais, burocratização, fragmentação de ações, individualismo e não responsabilização pelos resultados – determinismo e dependência. Segundo Lück (2000), a diversidade e a pluralidade de interesses fazem mover essa situação. A dinâmica das interações, o trabalho como prática social passa a ser o enfoque orientador da ação da gestão. O trabalho da direção da escola passa a ser entendido como um processo de equipe. A substituição do enfoque de administração pelo de gestão, feita pela autora, não é simples mudança de terminologia e sim de uma fundamental alteração de atitude e orientação conceitual. “Sua prática é promotora de transformação de relações de poder, de práticas e de organização escolar em si, e não de inovações, como costumava acontecer com a Administração Científica”. (LÜCK, 2000, p. 15). O conceito de gestão ultrapassa o de administração escolar: [...] por abranger uma série de concepções não abarcadas por esse outro, podendo citar como a democratização do processo de construção social da escola e realização de seu trabalho, mediante a organização de seu projeto político-pedagógico, o compartilhamento do poder realizado pela tomada de decisões de forma coletiva, a compreensão da questão dinâmica e conflitiva e contraditória das relações interpessoais da organização, o entendimento dessa organização como uma entidade viva e dinâmica, demandando uma atuação especial de liderança Uniube 55 e articulação, a compreensão de que a mudança de processos educacionais envolve mudanças nas relações sociais praticadas na escola e nos sistemas de ensino. (LÜCK, 2000, p.16). Um dos pressupostos desse paradigma de gestão da autora é o de que a realidade é global – tudo está relacionado a tudo. Para compreender melhor esse pressuposto, podemos relacioná-lo à categoria totalidade do método dialético do filósofo Karl Marx. Para Gadotti (1989), o método dialético parte da ideia de que a realidade está em constante movimento. O primeiro princípio desse método é o de que tudo se relaciona, nada pode ser compreendido isoladamente. Os fatos são relacionados à realidade, integrados a outros fatos. Por exemplo, o problema da disciplina na escola não pode ser analisado apenas dizendo que o aluno não se interessa pelas aulas. Há que se analisar o todo: a família, o seu envolvimento com a situação escolar do filho, o acompanhamento dos estudos; o método do professor,as relações de aprendizagem, a motivação... e tantos outros problemas que podem ser analisados para entendê-lo de forma total. Entender um problema em sua totalidade é entender que os fatos que acontecem são parte de um todo e, ao se empenhar em resolver um problema, o homem precisa ter uma visão de conjunto. O método dialético nos ajuda a ultrapassar as aparências imediatas para se fazer uma leitura da realidade mais complexa. Outro pressuposto é que a realidade além de global é dinâmica, formada por pessoas que pensam, agem e interagem. O comportamento humano pode ser coordenado e orientado, mas não pode ser controlado. Os conflitos são positivos, constituem-se em uma oportunidade de crescimento. Para Lück (2000), o gestor promove uma cultura organizacional – forma uma equipe atuante. Desenvolve seus objetivos mediante a ação conjunta de seus profissionais. Todos: a equipe técnico-pedagógica, 56 Uniube os funcionários, os alunos, os pais, a comunidade, fazem parte desse ambiente cultural, formam-no e o constroem e, de sua interação, depende a identidade da escola. A descentralização é uma das dimensões da ação humana que oportuniza ao gestor ter uma atuação local para resolver as questões, com soluções mais rápidas. Quanto à gestão financeira, algumas verbas são destinadas para determinados fins. Por exemplo, só podem ser aplicadas para reforma da rede elétrica e, às vezes, a escola tem outras necessidades. A tendência mais atual é que as verbas sejam destinadas a seus fins por decisão do Colegiado, o que atende melhor à necessidade real; assim a própria escola decide a aplicação das verbas – uma decisão local, descentralizada. Para Lück (2000), a descentralização da educação é uma questão complexa, pois envolve a transferência de competências para outros níveis de governo e gestão. Na realidade, realiza-se a desconcentração, que se caracteriza pela: [...] delegação regulamentada da autoridade, tutelada ainda pelo poder central autoridade, mediante o estabelecimento de diretrizes e normas centrais, controle na prestação de contas e a subordinação administrativa das unidades escolares aos poderes centrais, em vez de delegação de poderes de autogestão e autodeterminação na gestão dos processos necessários para a realização das políticas educacionais. (LÜCK, 2000, p, 18). Devemos refletir: que descentralização é essa que temos hoje? As escolas têm sobre si o poder das Secretarias Municipais, das Secretarias Estaduais e ambas da União, regulando a participação, delimitando a atuação. Muitas vezes, as exigências dos órgãos centrais tomam tempo excessivo do gestor, retirando-o de questões essenciais da realidade escolar. Uniube 57 Outra dimensão da ação humana, citada por Lück (2000), é a da autonomia. Autonomia que não é só a financeira e nem o se desligar do sistema. Significa buscar uma ampliação do espaço de decisão, “usar talento e competência coletiva para solucionar problemas, assumindo responsabilidades”. A prática da autonomia se dá por meio da gestão colegiada, eleição de diretores, ação em torno do projeto político-pedagógico. Essas são algumas questões fundamentais para a democratização das ações da escola. Muitas críticas são formuladas a partir do processo de eleição de diretor nas escolas, uma delas a de que se correria o risco de trazer para dentro das escolas as práticas clientelistas e, como afirma Lück (2000), não é a eleição em si que democratiza, e sim o que ela representaria como parte de um processo participativo global. No processo eletivo, o diretor apresenta uma proposta de escola para sua gestão, firmando compromissos coletivos. Trata-se, portanto, de uma área de atuação sobre a qual temos muito a aprender: como eleger o melhor e mais competente profissional disponível para o cargo, como superar os interesses individuais e de grupos isolados, na busca do bem social e da qualidade da educação, como manter o compromisso coletivo e a mobilização social em torno da escola, para além da ocasião das eleições. (LÜCK, 2000, p. 23). Para a autora, a autonomia se constrói com autoridade; trata-se de uma autoridade intelectual (conceitual e técnica), política (capacidade de repartir poder), social (capacidade de liderar) e técnica (capacidade de produzir resultados e monitorá-los). Portanto, é um processo que se dá mediante ação coletiva diária, superando contradições, conflitos; sabendo equilibrar interesses diversos – do sistema, da comunidade, da escola. Tanto a autonomia quanto a descentralização ocorrem quando está em prática um processo de democratização. Para tanto, a participação de todos na escola é fundamental. 58 Uniube Para Libâneo (2001), as formas de administração estão, ainda, carregadas de práticas autoritárias, centralizadoras. Mas, ao serem criticadas essas práticas, foi perdido o entendimento de que a gestão implicava modos de fazer e agir e não apenas ações políticas. Perdeu-se o equilíbrio entre ações políticas e técnicas. A democracia, a autonomia, a descentralização, que implicam na participação de todos. Isso significa não excluir a importância de planejar e coordenar o trabalho das pessoas. Nesse sentido, o gestor tem papel fundamental de acompanhar e avaliar sistematicamente o trabalho na escola. Percebe a amplitude de atuação do gestor escolar e o quanto de conhecimento ele pode aplicar na educação com o propósito de melhorar a qualidade de vida de uma comunidade? Depois dessa prolongada leitura, façamos uma pausa para assistir a uma videoaula sobre os modelos de gestão educacional. Assista-a com muita atenção! Uniube 59 A atuação do gestor escolar em ambientes não-escolares2.4 A organização do ambiente escolar pelo gestor estará diretamente ligada aos fundamentos da educação em que ele e sua equipe adotam como parâmetro de ação. Os modelos apresentados anteriormente indicam os caminhos para a construção coletiva desse ambiente tanto físico, como das relações humanas que se estabelecerão. Com autonomia, a equipe da escola, sob a coordenação do gestor, elabora um Projeto Político Pedagógico (PPP) que deverá ser aprovado, acompanhado e avaliado pela comunidade. Nesse projeto, incluem-se todas as propostas de suprir as necessidades da escola: projetos das áreas de conhecimentos: aquisição de recursos materiais, atividades extras e complementares, formação continuada; projetos de formação em relações humanas; projeto de melhorias da rede física; projetos de ampliação da participação comunitária; projeto de parceria e muitos outros. Quanto aos ambientes não-formais, isto é, não-escolares, esses se apresentam como opção para atuação do gestor em outras instituições. Um dos fenômenos mais significativos dos processos sociais contemporâneos é a ampliação do conceito de educação e a diversificação das atividades educativas, levando, por consequência, a uma diversificação da ação pedagógica na sociedade. Em várias esferas da prática social, mediante as modalidades de educação informais, não-formais e formais, ampliam-se a produção e disseminação de saberes e modos de ação (conhecimentos, conceitos, habilidades, hábitos, procedimentos, crenças, atitudes), levando a práticas pedagógicas. (LIBÂNEO, 2001, p.153). Libâneo completa afirmando que é uma característica da sociedade atual “ser eminentemente pedagógica, ao ponto de ser chamada de sociedade do conhecimento” (2001, p.153). Em todos os locais da sociedade, existe a prática pedagógica que se coloca como novos desafios para o pedagogo. 60 Uniube As transformações tecnológicas e científicas levam à introdução de novos sistemas de organização do trabalho, exigindo um perfil profissional com novas qualificações. A educação não-formal é percebida como complementar às carências da escola, que supre recursos pedagógicos e amplia a possibilidade de outras vivências aos alunos e à população em geral. São momentos em que a pessoa ou grupos de pessoas adquiremconhecimentos por meio de diferentes experiências, em diferentes locais: em casa, no trabalho e no lazer. Esses espaços são organizados e sistemáticos que, normalmente, realizam-se fora da escola. Para Gadotti (2005), a educação não-formal não pode se opor à educação formal. A educação formal também aceita a informalidade, o extraescolar ou extramuros. Gostariamos de definir a educação não-formal por aquilo que ela é, pela sua especificidade e não por sua oposição à educação formal. A educação não-formal é menos burocrática, os projetos não necessariamente seguirão um sistema sequencial e a duração é variável. “Na educação não-formal, a categoria espaço é tão importante como a categoria tempo” (GADOTTI, 2005). O tempo é flexível, respeitando as diferenças e as capacidades de cada um. Os espaços são múltiplos. Daí ela estar ligada fortemente à aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos e à participação em atividades grupais, sejam esses adultos ou crianças. A educação não-formal estendeu-se de forma impressionante nas últimas décadas em todo o mundo como “educação ao longo de toda a vida” (conceito difundido pela UNESCO), englobando toda sorte de aprendizagens para a vida, para a arte de bem viver e conviver. (GADOTTI, 2005). Nesse sentido, a educação ocorre em diferentes lugares e sob várias modalidades: na família, na rua, no trabalho, nos meios de comunicação, nos clubes, nas associações, entre outros. “Portanto, todos os processos Uniube 61 que interferem no desenvolvimento humano são considerados processos pedagógicos”, como afirma Libâneo (2001) – todos se constituem em processos formativos. Gohn (2006, p.26) afirma que a educação informal é: [...] aquela em que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização – na família, bairro, clube, amigos etc., carregada de valores e culturas próprias, de pertencimento e sentimentos herdados: e a educação não-formal é aquela que se aprende no mundo da vida, via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivos, cotidianas. A sociedade se organiza por meio da elaboração de projetos políticos da gestão social, que são, segundo Libâneo (2001), “práticas intencionais, organizadas, conscientes que se desenvolvem no seio de relações entre grupos e classes sociais para cumprir finalidades sociopolíticas”. Os projetos desenvolvidos na educação não-formal são, entre os citados pelo autor: de desenvolvimento sustentado, preservação ambiental, nos serviços de lazer e animação cultural, nos movimentos sociais, nos serviços para a terceira idade, nas empresas, nas várias instâncias de educação de adultos, nos serviços de psicopedagogia, nos programas sociais, na televisão e na produção de vídeos e filmes, nas editoras, na educação especial, na requalificação profissional, dentre outros. Para Gohn (2006), a educação não-formal designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos; a capacitação dos indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvimento de potencialidades; a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltados para a solução de problemas coletivos cotidianos; a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor; a educação desenvolvida na mídia e pela mídia, em especial a eletrônica etc. 62 Uniube São bem diferentes as práticas educativas na sociedade e as práticas educativas na escola com a presença de um pedagogo, especialmente do gestor educacional, faz-se fundamental para clarear a intencionalidade dessas práticas, pois ele atua elaborando um planejamento, coordenando, executando e avaliando as ações. Com o planejamento, define-se que sujeito se quer formar, que sociedade se deseja, dando finalidade formativa a suas práticas e responsabilizando, com ética, os grupos sociais a serem trabalhados. Gohn (2006, p.27) afirma que “a educação não-formal capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mundo. Sua finalidade é abrir janelas de conhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais”. Abrem-se as possibilidades de, a partir de ações coletivas, aprender a lidar com as diferenças – aprende-se a conviver com os demais; socializa-se o respeito mútuo; vivenciam-se diferentes culturas. Segundo Gohn (2006, p.29), “é preciso desenvolver saberes que orientem as práticas sociais, que construam novos valores, aqui entendidos como a participação de coletivos de pessoas diferentes com metas iguais. Isto tudo está no campo da educação não-formal”. Construir cidadãos éticos, ativos, participativos, com responsabilidade diante do outro e preocupados com o universal e não com particularismos, é retomar as utopias e priorizar a mobilização e a participação da comunidade educativa na construção de novas agendas. Essas agendas devem contemplar projetos emancipatórios que tenham como prioridade a mudança social, qualifiquem seu sentido e significado, pensem alternativas para um novo modelo econômico não-excludente que contemple valores de uma sociedade em que o ser humano é centro das atenções e não o lucro, o mercado, o status político e social, o poder em suma. (GOHN, 2006 p.30). A educação não-formal, visando à transformação da realidade social, é um comprometimento com a qualidade social voltada para a cidadania e para a inclusão, como é o caso das organizações não-governamentais (ONGs). Uniube 63 Pela nova relação de trabalho estabelecida no mundo contemporâneo, percebe-se a necessidade de um profissional com um perfil voltado a apoiar as organizações a atingirem os seus objetivos e metas. Um profissional que eduque para a cidadania, que desenvolva projetos sociais com ações formadoras do seu humano. Esse espaço de atuação pode ser assumido pelo gestor em parceria com outros profissionais que atuam em ambientes não-formais. A interdisciplinaridade dessa atuação promoverá uma ampliação da visão das reais necessidades da população, tornando o trabalho mais rico e profundo. São profissionais que no seu objeto de conhecimento se interagem e atuam com consciência. O objetivo da educação não-formal deve ser propiciar a prática da cidadania, por meio da aquisição de conhecimentos e habilidades; da preparação para o trabalho, acesso à tecnologia e participação crítica na vida política. Para Rodrigues (2001, p.23), “a cidadania se constrói nos fundamentos da liberdade, da autonomia e da responsabilidade”, que são os fundamentos da ética. Considerações finais2.5 O exercício da cidadania refere-se à participação do indivíduo na organização e condução de sua vida e à sua capacidade de fazer escolhas. A prática da cidadania se dá quando o homem tem a liberdade de se expressar. “Os cidadãos, munidos dos instrumentos da cidadania, tornam-se construtores de formas organizativas e de ação na vida pública. Essa forma de organização social e de ação política denomina- se democracia”. (RODRIGUES, 2001, p.25). Concluímos aqui mais um capítulo. A seguir, trataremos das funções do gestor aplicadas no trabalho pedagógico, ou seja, como o planejamento, a organização, a direção e o controle podem colaborar para o sucesso de um projeto educacional. 3 Gestão educacional: as funções do gestor aplicadas no trabalho pedagógico Uniube 67 Introdução3.1 Prezado(a) aluno(a), neste capítulo estudaremos as funções do gestor aplicadas no ambiente educacional. Quando esta abordagem é feita, o propósito é ressaltar a importância do trabalho do gestor, não só no processo de administrar, coordenar, articular a instituição, mas para além disso, alcançar o sucesso que ela busca. A ação gestora educacional e a legislação vigente3.2 Nos capítulos anteriores,discutimos alguns aspectos da gestão democrática no ambiente organizacional, o que inclui ambientes de educação, sejam eles escolares ou não. Ao tratarmos da gestão democrática na escola pública, trazemos como seu significado, a postura de um gestor que tenha, no cotidiano do seu fazer, uma atitude e uma disposição de acolhimento àqueles que sempre foram excluídos. Que esse gestor apresente ainda, disposição em aceitar aqueles que são diferentes, em conviver com aqueles que têm opiniões diferentes, em dialogar com aqueles que nunca tiverem sequer voz e fala dentro da escola. Concebemos um gestor que tenha convicção e disposição de utilizar de todos os instrumentos legais, recursos humanos, financeiros e materiais, para que possam, de fato, construir dentro da escola, formas mais justas, mais participativas, mais dinâmicas, possibilitando a formação integral das pessoas. Acreditamos que essa formação integral, que o pleno desenvolvimento do educando é a sua formação para a vida, para uma vivência mais democrática, de cidadania e de respeito consigo, com o seu próximo e com o planeta Terra. O propósito deste capítulo, prezado(a) aluno (a), é refletirmos e buscarmos os fundamentos e os princípios para a gestão democrática, as funções do gestor educacional e as bases legais que sustentam o seu trabalho. 68 Uniube Antes de tratarmos da gestão democrática da escola pública garantida na Constituição Federal de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/1996, vamos fazer uma retrospectiva histórica da Educação no Brasil. Analisaremos qual enfoque dado para a administração das instituições educacionais e quando surgiu o termo gestão democrática ao longo desse caminho. A história da educação brasileira, referindo-se à administração das escolas e da gestão escolar, desde os primeiros anos de existência, recebeu fortes influências de outros países, povos, economia e sociedade. Dificilmente respeitou-se a cultura, os conhecimentos, as diferenças, a diversidade e as concepções do povo brasileiro. Ela se constitui de uma história fácil de estudar e de ser compreendida. O seu processo sempre evoluiu e sofreu rupturas marcantes. A primeira ruptura que aconteceu na educação, se deu com a chegada dos portugueses ao Brasil, trazendo consigo um padrão de educação dos europeus. Trouxeram também os costumes, a religiosidade europeia e os métodos pedagógicos. Ao longo do período jesuítico, foi-se implantando um jeito de administrar a escola, uma forma de construí-la. Essa administração, assim como o próprio projeto dos jesuítas, era uma administração vertical, hierárquica. Foi nesse período que aconteceu a construção dos alicerces da nossa educação. Os modelos de escolas implantados pelos jesuítas atendiam a dois grupos distintos. Um modelo de escola destinava a um grupo de pessoas privilegiadas: àqueles que eram os condutores das decisões, àqueles que iam pensar a administração do país. O outro modelo de educação atendia àqueles que iam executar determinadas tarefas, portanto, serviriam de mão de obra. Uniube 69 Assim, essa administração vai prosseguindo até o período que vem logo após, que é o período do Império, que permaneceu durante 210 anos, de 1549 a 1759. Ele traz uma forma de administrar a escola, de construí-la e esta forma vem também na perspectiva da imposição, em que alguns pensam e os outros executam, realizam as tarefas. O Império pouco fez para o avanço da educação. Por volta de 1759, aconteceu uma nova ruptura na história da educação no Brasil: o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas. A educação jesuítica não convinha aos interesses comerciais emanados por Pombal. Ou seja, se as escolas da Companhia de Jesus tinham por objetivo servir aos interesses da fé, Pombal pensou em organizar a escola para servir aos interesses do estado. A seguir, o que vimos foi a instalação de um caos na educação do país, uma vez que acontece um rompimento do processo já implantado e consolidado como modelo educacional. Por outro lado, durante o período do Império, já tínhamos aqui a presença do monarca e esse período foi muito significativo, pois, de certa forma, já se tem a presença do estado e esse, omitindo-se das questões educacionais, seja porque não havia o reconhecimento da escola, como uma necessidade para se formar uma nação, seja porque o estado tinha outras prioridades. A prova plena dessa negação do estado de ver na educação uma ferramenta para construir uma nação é um marco em 1834, conhecido como Ato Adicional à Constituição, quando o governo descentraliza e atribui às províncias toda a responsabilidade para legislar, criar e prover toda a educação para as classes das primeiras letras. As províncias estavam em condições precárias: faltava comunicação, faltava organicidade, havia exiguidade de recursos financeiros e a falta de pessoal qualificado para ministrar, até mesmo, o ensino das primeiras letras. 70 Uniube Com essa atitude, o poder central, único capaz de concentrar recursos para a extensão do ensino elementar em todo o país, legalizou a sua omissão e abandonou definitivamente o problema, deixando a escola elementar brasileira marcada por sérias deficiências, incluindo a falta de um rumo na administração na educação. O novo regime adotado para a educação no período republicano tinha como princípios a centralização, formalização e o autoritarismo. Mais uma vez, a administração da educação continuou sob a guarda do governo e atendendo aos interesses econômicos. Nesse período (1889-1930), a educação, em âmbito nacional, sofreu reformas, cuja preocupação era a implantação de um currículo unificado. Dentre elas, destacamos Reforma Rivadávia Corrêa que afastava a União da responsabilidade pelo ensino. “Liberta a consciência acadêmica da opressão dos mestres, arredada destes a tutela governamental, em cujo passivo se inscrevem todas as culpas da situação periclitante a que chegaram as instituições do ensino, acredito dar um passo para frente com a atual organização. O que produzir o futuro cairá sob a responsabilidade das congregações”. (Rivadávia Corrêa, na Exposição de Motivos da Lei Orgânica, in: MOACYR, 1942, p. 14) Reformas educacionais mais modernas e necessárias, diante do processo de industrialização e economia crescentes, surgiram a partir de 1930 na Era Vargas. Nesse contexto do mundo urbano-industrial, as discussões em torno das questões dessas reformas educacionais começaram a ser o centro dos interesses dos intelectuais, pois pretendiam com isso, construir para a melhoria do processo de estabilização social. Uniube 71 Em abril de 1931, aconteceu um fato marcante, a criação do Conselho Nacional de Educação por determinação da Constituição de 1934, dando-lhe a incumbência de criar o Plano Nacional de Educação. Inicia-se um processo de organização da educação nacional, porém ainda não descentraliza a administração, não sendo contemplada uma administração participativa e democrática. Outro marco da educação brasileira e de grande importância para as futuras conquistas de uma administração com um novo modelo aconteceu em 1932, com o chamado Manifesto dos Pioneiros da Educação. Ele retratava uma ideia liberal, era um manifesto com a tentativa de se fazer para o país aquilo que os outros países europeus já tinham feito há vários anos. Isto é, fazer com que a escola pública fosse um direito de cidadania. Com isso, a educação é indicada para a sociedade como um bem público, não como uma mercadoria, um privilégio para poucos. Em 1964, esse projeto sofre uma ruptura com o golpe militar e tem início governos intervencionistas, burocráticos, repressivos e vinculados ao capital nacional e internacional, que permaneceria até 1985. Vale a pena ressaltar que essa ruptura realizou mudanças no sistema educacional brasileiro e contribuiu para um retrocesso no processo de construção que vinha sendo desenhado para uma administraçãocom o caráter de participação da sociedade nas definições educacionais. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o País deu um salto para a conquista sempre almejada, a redemocratização da educação brasileira. Essa Constituição traz em seu bojo o reconhecimento dos direitos sociais do cidadão, sendo conhecida como Constituição Cidadã. Os anseios da sociedade para que a educação fosse reconhecida como uma ferramenta na transformação social e um direito de todos foram atendidos, uma vez que temos, na nossa Constituição, um capítulo específico sobre a educação. Além de a educação ter sido reconhecida 72 Uniube como direito de todos e dever do Estado, tivemos resguardada a gestão democrática nas escolas públicas. Essa obrigação constitucional e legal do Estado em garantir a educação como bem público e de qualidade para todos, exige que ele, dentre outras obrigações, supra a escola em suas necessidades, em sua infraestrutura, em bons salários para os profissionais da educação. O cumprimento, pelo Estado, com suas obrigações na garantia de educação para todos vai exigir de todos nós uma postura participativa, de corresponsabilidade, de acompanhamento e isso se faz com cidadãos conscientes dos direitos humanos, conscientes dos deveres, conscientes de um novo mundo e de uma sociedade mais justa. Para tanto, precisamos de novas mentalidades e essa formação começa e se fazer dentro da escola, com uma gestão democrática. Ela prepara para a grande revolução de que esse país precisa. A escola precisa ser vista como agente de cidadania. Com novas mentalidades, podemos evoluir e assim desconstruir a prática da gestão autoritária, que afastou e excluiu muita gente da escola. Com o esforço de todos, das lutas e dos movimentos sociais vamos instaurar um modelo novo na forma de administração, de gestão das escolas, modelo esse que se chama gestão democrática. A gestão democrática precisa ser mais do que um projeto da sociedade. Ela precisa ser uma política de governo para se efetivar entre nós. A gestão democrática é capacidade que a escola tem de inserir-se e colocar-se como a instituição que vai ser a condutora, a facilitadora, a dinamizadora dos processos que vão emancipar as pessoas. É no cidadão que o exercício da prática democrática se efetiva e a educação para a cidadania é o único modo de fazer com que um súdito se transforme em cidadão, cita Bobbio (1986) em seu livro “O Futuro da Democracia”. Uniube 73 Não é fácil fazer gestão democrática, pois ela é complexa e difícil, assim como é difícil tolerar o diferente e abrir espaço para que ele seja incluído. Não basta que as pessoas estejam presentes, é preciso que estejam presentes com voz, vez e com direitos. Gestão democrática todos aprendendo participação cidadania democratizão do conhecimento Figura 1: Esquema da Gestão Democrática. O gestor escolar que pretende implementar a gestão democrática deverá criar meios para que a escola: • arrume mecanismos para que os sujeitos aprendam. Estamos perdendo porque não estamos fazendo com que todos os alunos aprendam no tempo certo, principalmente os alunos mais pobres, mais excluídos, aqueles que mais precisam dela; 74 Uniube • desenvolva práticas coletivas na construção do seu Projeto Político Pedagógico, articulando para que pais, alunos, professores, funcionários e toda a comunidade assumam responsabilidades conjuntas; • chame a comunidade para participar do dia a dia da educação, reconhecendo seus valores. Para iniciarmos a apresentação das bases legais que fundamentam a gestão democrática nas escolas públicas, citaremos a Constituição Federal de 1988, em seus artigos. CONSTITUIÇÃO FEDERAL Art. 205 - A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206 - O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei. (BRASIL, 1988) A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/1996 também reforça a concepção da Gestão Democrática, conforme citamos a seguir. LEI FEDERAL Nº 9394/96 Art. 3º - O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta lei e da legislação dos sistemas de ensino. Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; Uniube 75 II – participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. Art. 15. Os sistemas de ensino assegurarão, às unidades escolares públicas de educação básica que os integram, progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público”. (BRASIL, 1996) Pioneiros da Educação Nova e retomado na Constituição de 1988, o Plano Nacional da Educação foi instituído pela Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001, como resultado de intensa participação dos educadores em sua defesa e elaboração. Esse Plano, seguindo os princípios constitucionais e as diretrizes da LDB, define entre seus objetivos e prioridades: PLANO NACIONAL DA EDUCAÇÃO (...) a democratização da gestão do ensino público, nos estabelecimentos oficiais, obedecendo aos princípios da participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e a participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. Com isso, concluímos que o avanço em busca de uma gestão democrática que se materializa na autonomia da gestão escolar, com a participação de todos, tem nos ordenamentos legais, seus princípios, fins e objetivos. Não basta que a gestão democrática esteja garantida na lei. É preciso que ela aconteça no interior das instituições, apontando para um trabalho de gestão, no qual a autonomia se realize em três importantes áreas de atuação: pedagógica, administrativa e financeira. 76 Uniube A gestão democrática acontece para que o trabalho a ser desenvolvido na instituição se realize com a participação de todos. De acordo com os diferentes sistemas, tipos e natureza das instituições, podemos nos deparar com profissionais que realizam a gestão. Ora podemos encontrar nomenclaturas diferentes do cargo, como por exemplo: diretor, gerente, superintendente, coordenador, dentre outros, porém, podemos dizer que, no sentido amplo do fazer a gestão, a participação, a articulação, a liderança e a aceitação do diferente e do novo fazem-se extremamente necessárias. Trazendo o conceito de gestão democrática para a escola, usamos a concepção de Jamil Cury que diz que gestão democrática é “[...] uma abertura ao diálogo e à busca de caminhos mais consequentes com a democratização da escola brasileira em razão de seus fins maiores postos no Artigo 205 da Constituição Federal”. (2000, p.54). Pois bem, até aqui concluímos o quão é importante estabelecer no ambiente educacional uma gestão democrática. A pergunta que se deve fazer neste momento é: qual o perfil ideal do diretor escolar? Nesse sentido, vamos rever algumas características que compõem o perfil do diretor escolar: • O diretor escolar terá que ter e demonstrar competência técnica e qualificação para exercer as atribuições da função que exerce. • O diretor deve, portanto, acompanhar o processo de ensino, analisar os resultados, fazer compartilhar as experiências docentes bem sucedidas de formação continuada entre o grupo de professores para o aprimoramento das práticas pedagógicas. Conhecer os assuntos técnicos, pedagógicos, administrativos, financeiros e legislativos • Cultivar um clima detrabalho positivo, fundamentado no respeito mútuo, no reconhecimento e valorização das pessoas e da contribuição de cada uma na construção de uma Escola de qualidade. Ter espírito ético e solidário Figura 2: Perfil do diretor escolar. Uniube 77 • Escola que temos. Escola que queremos. • Em que contexto social a Escola está inserida? Quais e quem são os usuários da Escola? O que esses usuários esperam da Escola e o que eles buscam? Os alunos estão aprendendo? Quais são os anseios e as reais necessidades dos alunos, pais e professores? Os resultados das avaliações internas e externas mostram índices de aprendizagem satisfatórios? Conhecer a realidade da Escola • A participação, o diálogo, a autonomia, a responsabilidade são práticas indispensáveis ao gestor democrático. • A descentralização do poder deve ser entendida como método de trabalho coletivo que delega, divide atribuições e responsabilidades. Ter predisposição para o trabalho coletivo • Líder cooperativo, alguém que consegue aglutinar as aspirações, os desejos, às expectativas da comunidade escolar. • Articula a adesão de todos os segmentos na gestão dos Projetos e Planos da escola. Ser articulador • Suavidade nos modos e firmeza na ação – como posturas básicas. Ter iniciativa, firmeza de propósito para realização de ações • Zelar pelo bom nome da escola é desenvolver ações positivas que de fato divulguem o bom nome da Instituição. • É fazer com que todos os alunos aprendam, é zelar pelo melhor ensino e pela educação de qualidade. E alacançar as metas pactuadas. Defender a Educação • Cultura do “querer fazer”, no lugar do “deve fazer”. • Exercer uma liderança entendida como “habilidade de influenciar as pessoas para trabalharem visando atingir objetivos comuns, inspirando confiança por meio da força do caráter” (HUNTER, 2006), sabendo que “Liderar é comunicar às pessoas seu valor e seu potencial de forma tão clara que elas acabem por vê-los em si mesmas.” (COVEY, 2005). Ter liderança democrática e capacidade de mediação 78 Uniube • Todos avaliam e todos são avaliados. • Acompanhamento e avaliação sistemática com finalidade pedagógica: diagnóstico, acompanhamento dos trabalhos, reorientação de rumos e ações, tomada de decisão, Plano de intervenção pedagógica. Ser capaz de auto-avaliar-se e promover a avaliação do grupo • Ser ético, correto no que se propõe a realizar e no que realiza; fazer com eficiência e eficácia. Ser transparente e coerente nas ações • Ter paixão pelo que faz. Ser íntegro, ter presença, proatividade, entusiasmo, criatividade, iniciativa Fonte: SEE-MG, s/d Como podemos ver, o perfil apresenta, com clareza, o que o gestor precisa seguir, fazer e ter para efetivar a gestão democrática na escola atual, com suas necessidades, desafios e demandas. Saviani (1980, p.120) afirma que a gestão da educação é responsável por “garantir a qualidade de uma mediação no seio da prática social global, que se constitui no único mecanismo de hominização do ser humano, que é a educação, a formação humana de cidadãos”. O trabalho do gestor é muito amplo e vamos aqui apresentar três grandes áreas, que se conjugam entre si, organizando as ações do diretor, garantindo assim a otimização dos recursos humanos e materiais e dos saberes, tendo como foco a aprendizagem no tempo certo na formação plena do indivíduo. Uniube 79 Área Administrativa Área Financeira Área Pedagógica • A área pedagógica: está assegurada na possibilidade de cada unidade formular e implementar sua proposta político-pedagógica, em consonância com as políticas vigentes e as normas do sistema de ensino aplicáveis. • A área administrativa: está garantida pelo processo de escolha dos gestores educacionais, constituição dos Conselhos Escolares/ Colegiados Escolares, organizações, Associações de pais e mestres, de Grêmio Estudantil, do Regimento Escolar, do Plano de Gestão da Escola e Avaliação de Desempenho dos Servidores, nos termos da legislação em vigor. • A área financeira: está assegurada pela administração dos recursos financeiros nela alocados, em consonância com a legislação vigente. Por fim, vale sempre lembrar que a articulação e a efetivação das três áreas resultam na conquista da autonomia da instituição escolar. Processo esse que não se ganha, mas conquista-se. Conquista-se a autonomia com competência. Cabe a você, futuro(a) gestor(a), se 80 Uniube acredita na luta por uma escola para todos, implementar, no cotidiano do trabalho, práticas coerentes com os princípios, fundamentos e objetivos da gestão democrática. O gestor e os processos pedagógicos3.3 Na seção anterior, 3.1, estudamos o processo de democratização da escola, fruto de lutas e participação de pessoas que acreditam na transformação do ser humano. Estudamos também que a democracia é um estado contínuo, que não é dado e sim conquistado. Compreendemos que a gestão só é democrática se há participação de todas as pessoas dos diferentes segmentos envolvidos no fazer da instituição. Concluímos que implementar uma prática em que decisões são coletivas, em que os diferentes têm voz e vez, são acolhidos e respeitados, deve fazer parte da ação dos gestores que querem fazer da instituição-escola um espaço de construir cidadania. A partir de agora, abordaremos o fazer do gestor tendo em vista a organização do processo pedagógico, razão de ser da escola. Por força de lei, à escola foi dada a responsabilidade de repassar às gerações o conhecimento formal, conhecimento esse que vem sendo produzido historicamente. Portanto, estamos diante das mais importantes ações do gestor: organização, implementação, acompanhamento e avaliação do processo pedagógico. O objetivo maior do processo pedagógico é efetivar, com sucesso, a aprendizagem de todos os alunos, razão de ser da instituição escolar. No texto, Rubem Alves nos diz: Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em Uniube 81 funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim "affetare", quer dizer "ir atrás". É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado”. (ALVES, 2012, p.1). Compreendendo assim, a primeira tarefa de quem ensina, o professor, e a tarefa de quem quer que o aluno aprenda, professor e gestor, é produzir a fome no aluno, aquele que vai aprender. Entendemos que organizar o processo pedagógico para que a aprendizagem ocorra compete ao gestor compreender como ele acontece, quais são seus elementos, articulando-os e otimizando todos os recursos para a sua efetivação. Mas o que é processo pedagógico? Aos processos intencionais, sistematizados, deliberados e com objetivo promover no interior da escola, levando em consideração as dimensões culturais, sociais, econômicas e políticas – situações significativas entre quem aprende, o aluno, e o conhecimento social e historicamente produzido – denominamos de processo pedagógico. Os conhecimentos são produzidos na escola e também fora dela, historicamente nas relações sociais. O ser humano pode apoderar- se desses conhecimentos de duas formas, no sentido amplo e, especificamente, pedagógico. Quando tratamos da apropriação do conhecimento no sentido amplamente pedagógico, referimo-nos às relações que acontecem na vida e também no trabalho, de forma assistemática e não-intencional. Contudo, quando nos referimos à construção do conhecimento, no sentido especificamente pedagógico, reconhecemos que ela acontece de forma sistemática e intencional. E esse processo acontece formalmente nas relações sociais, no interior das instituições educacionais. 82 Uniube Para a organização do desenvolvimento dos processos especificamente pedagógicos, é importante a compreensão de como se apreendee de como se produz o conhecimento. Podemos nos apoiar em vários estudos referentes a esse assunto, mas reconhecemos que muito a ciência ainda precisa caminhar. No entanto, há alguns pressupostos a partir dos quais é possível avançar na construção de situações mediadoras entre o aprendiz e o conhecimento. • As formas culturais internalizam-se ao longo do desenvolvimento dos indivíduos e constituem-se no material simbólico que medeia a sua relação com os objetos do conhecimento; • Em uma sociedade dividida em classes, os homens vivem em espaços culturais diferenciados, que resultam na desigualdade de classe, de culturas, de possibilidades e isso deve ser considerado nos processos de ensino; • Cada indivíduo, em seu universo próprio de significados e com suas formas próprias de se relacionar com o conhecimento, mais ou menos lógico-formais (abstratas), mais ou menos caóticas (concretas), internaliza tais formas simbólicas disponibilizadas pela cultura, de modo a transitar do senso comum, do conhecimento cotidiano, do saber tácito, para o conhecimento científico, de modo a ser capaz de fundamentar e compreender teoricamente a sua prática, "atuando intelectualmente" e "refletindo praticamente". Considerando a aprendizagem como resultados de processos intencionais e sistematizados na construção de conhecimentos, a intervenção pedagógica, no ato de ensinar, é um mecanismo privilegiado e a escola é o espaço privilegiado para a sua realização. É preciso, pois, melhor conhecer esse processo, que articula conteúdos, métodos, atores, tempos e espaços educativos. O trajeto pedagógico a ser seguido, na apropriação do conhecimento científico, envolve o conhecimento do contexto e do aprendiz, não como dualidade, mas como relação e o percurso do método científico que pode ser sintetizado pela: Uniube 83 • problematização: tendo como ponto de partida as relações sociais e produtivas; • teorização: definição dos conhecimentos que precisam ser apreendidos para tratar do problema, em que fontes buscá-los e de que forma, articulando trabalho individual e coletivo; • formulação: de hipóteses, etapas em que se estimula a criatividade na busca de soluções originais e diversificadas que permitam o exercício da capacidade de decidir a partir da listagem de consequências possíveis que envolvam as dimensões cognitiva, ética e política; • intervenção na realidade que se constitui em ponto de partida e em ponto de chegada, em um patamar agora superior; da realidade caótica e mal desenhada, chega-se à realidade compreendida, dissecada, concretizada. Como já afirmamos, a aprendizagem dos alunos no tempo certo, possibilitando-lhes a formação plena e integral, conforme determina o Artigo 1º da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/1996, é o objetivo central e razão de ser da instituição escolar. Esse desafio está diretamente ligado à gestão pedagógica, considerado o lado mais importante e significativo da gestão escolar. Enquanto processo sistematizado e intencional, é necessário estabelecer objetivos gerais e específicos para o ensino, definir as linhas de atuação de acordo com os objetivos e o perfil da comunidade e dos alunos, propor metas a serem atingidas e elaborar os conteúdos curriculares. É preciso ainda, acompanhar e avaliar o rendimento das propostas pedagógicas e dos objetivos e o cumprimento das metas, avaliar o desempenho dos alunos, do corpo docente e da equipe escolar como um todo. O gestor educacional é o grande articulador da gestão pedagógica e o primeiro responsável pelo seu sucesso, auxiliado, nessa tarefa, pelos apoios pedagógicos. A prática tem mostrado que o gestor educacional é um profissional fundamental para dinamizar a construção 84 Uniube coletiva do processo pedagógico, sua implantação, implementação, o acompanhamento e a avaliação de todo o processo, com vistas ao realinhamento de novas ações. O processo pedagógico é constituído de elementos. Que tal falarmos um pouquinho deles agora? Torna-se claro que a efetivação do processo pedagógico é complexa, exige conhecimentos, habilidades e esforços coletivos para que seus elementos fundamentais se articulem entre si, tornando meios favoráveis para o sucesso da razão de ser da escola. Apresentamos abaixo alguns dos elementos mais relevantes que compõem esse processo. Aprendizagem O que significa aprendizagem? Todos os pensadores da área concebem a aprendizagem da mesma forma? Temos algo em comum nas diferentes concepções de aprendizagem? Leia e analise o Quadro 1 a seguir, em que apresentamos a concepção de aprendizagem para alguns pensadores da Educação. PENSADORES CONCEPÇÃO Ivan Pavlov ...aprendizagem é a mudança de comportamento resultan- te do treino ou da experiência. Essa concepção de aprendizagem, ainda hoje muito pre- sente no trabalho pedagógico, torna-se mais clara, quando tomamos consciência de que o behaviorismo representa, no âmbito da Psicologia, o ideal de cientificidade proposto pelo empirismo, movimento epistemológico sintetizado nos seguintes termos: · o conhecimento é formado pelas impressões colhidas pe- los órgãos dos sentidos; · o que define o conhecimento científico é a objetividade; por isso, o observador deve registrar o mais fielmente possível os dados observados, e ter muitos fatos e controles, para que o conhecimento seja de uma representação fiel do real. Quadro 1: Concepções de aprendizagem. Uniube 85 Burrhus Frederic Skinner Aprendizagem é basicamente uma mudança de compor- tamento que é ensinada por meio de reforços imediatos e contínuos a uma resposta a um estímulo emitida pelo su- jeito, e que seja mais próxima da resposta desejada. For- talecidas, as respostas serão emitidas cada vez mais ade- quadamente, até se chegar ao comportamento desejado. Jean Piaget As análises de Piaget no tocante à aprendizagem prepa- ram o terreno para algumas inferências sobre o ensino. O sujeito da aprendizagem, como sujeito do conhecimento, requer um meio cada vez mais ampliado, que lhe possibi- lite informações que possam ser, por ele, ressignificadas. Sem atribuição de significado, não há produção de conhe- cimento, nem aprendizagem, porque não há compatibilida- de entre o que o aluno quer e pode aprender e aquilo que se quer que ele aprenda. Merece destaque, ainda, a con- tribuição dos epistemólogos genéticos que, funcionando como um grupo interdisciplinar, propiciaram dados sobre os mecanismos que são comuns à pesquisa de diferentes áreas e os comportamentos exigidos pelo trabalho de aglu- tinação de disciplinas em torno de temas ou de projetos complexos. Vygotsky Vygotsky afirmava que a aprendizagem e o desenvolvi- mento são processos distintos e não deveriam ser confun- didos, embora interajam mutuamente. Segundo Vygotsky, o aprendizado vem antes do desenvolvimento, ou seja, a aprendizagem é fundamental para o desenvolvimento des- de o nascimento da criança, o que essa aprende é a base fundamental para o seu desenvolvimento. Dentro desse contexto, Vygotsky leva em consideração dois tipos de desenvolvimento: real e proximal. O desenvolvimento real consiste na solução independente dos problemas. É definido por testes que medem o nível de capacidade mental. As funções mentais da criança, nesse nível, estabelecem-se como resultado de ciclos de desen- volvimento já completados. A zona de desenvolvimento proximal caracteriza a distân- cia entre o nível de desenvolvimento real e o nível de de- senvolvimento potencial determinado pela solução de pro- blemas sob a orientação ou ajuda de um adulto ou crianças mais capazes. O importante para Vygotsky é, além do que se faz sozinho, o que se faz com a ajuda dos outros. Dessa forma, a aprendizagem desperta processos internos de desenvolvimento que só podem ocorrer quando o indi- víduo interage com outras pessoas. 86 Uniube Paulo Freire Ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos nem formar é ação pela qual um sujeito criadordá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docên- cia sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Nesta relação, a importância do papel do educador se dá em não apenas ensinar os conteúdos mas também ensinar a pen- sar certo e “Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando”. (FREIRE, 2005, p. 33). Sabemos que a aprendizagem pode acontecer em diferentes lugares e espaços, porém institucionalmente há um espaço onde legalmente o conhecimento formal ocupa, por excelência, seu sentido maior. Estamos nos referindo à escola, onde a aprendizagem acontece e também a ampliação das relações sociais e, como consequência, a aprendizagem. Como sabemos, a escola não pode ser um espaço fechado, sem diálogo com o seu entorno. A escola recebe influência de todas as transformações que acontecem no mundo. As mudanças culturais, sociais, econômicas, políticas e educacionais vão acontecendo e interferindo na organização do trabalho da escola e também na vida de seus alunos. Já passamos por vários períodos na história da educação e, em cada um deles, a escola desenvolveu a sua prática pedagógica tomando como referência os ideais, os princípios e as determinações da época. Podemos afirmar que a concepção que já tivemos de escola, de professor, de aluno, de ensinar e de aprender, de conteúdo, de currículo, de avaliação, de planejamento dentre outras, sofreram mudanças consideráveis, e precisamos ter o cuidado e atenção de conhecer essas concepções atualmente para que a escola possa desempenhar, da melhor maneira possível o seu trabalho. Atualmente, com o direito de educação para todos legalmente garantido, o trabalho da escola precisa estar em sintonia com a aprendizagem de todos. É preciso levar em consideração os avanços tecnológicos, as relações sociais que se dão no interior da escola e, principalmente, o perfil do discente que na escola está ingressando. Uniube 87 A ênfase de todo o trabalho escolar deve ter como foco a aprendizagem para todos. O aluno passa ser o centro do trabalho e, com isso, o professor e todos os demais educadores precisam preocupar-se em como o aluno aprende, para serem o apoio. Avaliação A avaliação, ação redimensionadora da ação pedagógica, é um instrumento da escola e do professor para implementação do currículo e um direito do aluno para acesso à aprendizagem. A seguir são apresentados alguns recortes da legislação vigente que trata de avaliação. Veja o Quadro 2. Quadro 2: A avalição diante da legislação. LDB nº 9394/96 – Diretrizes e Bases da Educação Nacio- nal Art. 24, item I, letra “a” “a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais pro- vas finais;” Resolução CNE/CEB nº 04/2010 – Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica “Art. 47. A avaliação da aprendizagem baseia-se na concepção de educação que norteia a relação professor-estudante-conheci- mento-vida em movimento, devendo ser um ato reflexo de recons- trução da prática pedagógica avaliativa, premissa básica e funda- mental para se questionar o educar, transformando a mudança em ato, acima de tudo, político. § 1º A validade da avaliação, na sua função diagnóstica, liga-se à aprendizagem, possibilitando, ao aprendiz, recriar, refazer o que aprendeu, criar, propor e, nesse contexto, aponta para uma avalia- ção global, que vai além do aspecto quantitativo, porque identifica o desenvolvimento da autonomia do estudante, que é indissocia- velmente ético, social, intelectual. § 2º Em nível operacional, a avaliação da aprendizagem tem, como referência, o conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e emoções que os sujeitos do processo educativo projetam para si de modo integrado e articulado com aqueles princípios definidos para a Educação Básica, redimensionados para cada uma de suas etapas, bem assim no projeto político- pedagógico da escola”. 88 Uniube Resol. CNE/CEB nº 07/2010 – Diretrizes Curriculares Na- cionais para o Ensino Funda- mental de 09 anos “Art. 32 A avaliação dos alunos, a ser realizada pelos professores e pela escola como parte integrante da proposta curricular e da implementação do currículo, é redimensionadora da ação peda- gógica e deve: I – assumir um caráter processual, formativo e participativo, ser contínua, cumulativa e diagnóstica, com vistas a: a) identificar potencialidades e dificuldades de aprendizagem e detectar problemas de ensino; b) subsidiar decisões sobre a utilização de estratégias e aborda- gens de acordo com as necessidades dos alunos, criar condições de intervir de modo imediato e a mais longo prazo para sanar difi- culdades e redirecionar o trabalho docente; c) manter a família informada sobre o desempenho dos alunos; d) reconhecer o direito do aluno e da família de discutirem os re- sultados de avaliação, inclusive em instâncias superiores à esco- la, revendo procedimentos sempre que as reivindicações forem procedentes. II – utilizar vários instrumentos e procedimentos, tais como a observação, o registro descritivo e reflexivo, os trabalhos individuais e coletivos, os portfólios, exercícios, provas, questionários, dentre outros, tendo em conta a sua adequação à faixa etária e às características de desenvolvimento do educando; III – fazer prevalecer os aspectos qualitativos da aprendizagem do aluno sobre os quantitativos, bem como os resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais, tal como determina a alínea “a” do inciso V do art. 24 da Lei nº 9.394/96; IV – assegurar tempos e espaços diversos para que os alunos com menor rendimento tenham condições de ser devidamente atendidos ao longo do ano letivo;(...)”. Ao analisarmos a legislação vigente, concluímos que a avaliação tem como objetivo regular e adaptar a prática pedagógica às necessidades dos alunos, considerando, nesse processo avaliativo, o professor, o aluno, a escola e a família, em vez de ter um caráter seletivo, que apenas mede resultados finais em detrimento da aprendizagem. Nesse sentido, uma proposta avaliativa que garanta o direito à aprendizagem de todos os alunos e não os exclua precisa ponderar o processo de construção do conhecimento, considerando todas as variáveis possíveis. Uniube 89 Essa concepção de avaliação parte do princípio da não-repetência, considerando o processo avaliativo não como instrumento de exclusão, mas caracterizando-o como contínuo, inclusivo, regulador, prognóstico, diagnóstico, emancipatório, mediador, qualitativo, dialético, dialógico, informativo, formativo-regulador. Segundo Leal (2003, p. 30), as finalidades do eixo central de uma proposta de avaliação formativa envolvem: [...] avaliar para identificar conhecimentos prévios; avaliar para conhecer as dificuldades e planejar atividades adequadas; avaliar para verificar o aprendizado e decidir o que precisa retomar; avaliar para verificar se os alunos estão em condição de progredir; avaliar para verificar a utilidade/validade das estratégias de ensino; avaliar as estratégias didáticas para redimensionar o ensino. Para que a avaliação possibilite o avanço dos alunos e a intervenção do professor, o currículo deve ser organizado e os critérios avaliativos definidos, senão poderão promover a exclusão interna. Não atenderá, portanto, aos diferentes objetivos propostos. Para tanto, são necessários mecanismos para atender a todas as crianças, para que avancem por meio das progressões e sucessões necessárias para o aprofundamento dos conhecimentos. Nessa perspectiva, a avaliação ocupa um espaço no qual o caráter de investigação, reflexão e intervenções faz-se necessário para............................................................................... 101 3.5 Descobrindo a riqueza dos espaços educativos ................................................. 121 3.6 Considerações finais............................................................................................ 133 Capítulo 4 Gestão educacional: a articulação das demandas da comunidade e a ação das pessoas no processo de gestão ..............................................................................135 4.1 Introdução ............................................................................................................ 137 4.2 Surgimento da escola e seu papel no mundo contemporâneo .......................... 137 4.3 Função social da escola e sua relação com a sociedade ................................... 145 4.4 Uma escola democrática para a contemporaneidade ....................................... 160 4.5 A gestão democrática, liderança e os mecanismos de integração com a comunidade ......................................................................................................... 164 4.6 Considerações finais............................................................................................ 175 Referências ........................................................................................177 Prezado(a) aluno(a). Seja bem-vindo(a) ao estudo de Gestão Educacional! Este E-Book é precioso à medida que lhe proporciona condições de levar para o ambiente escolar meios eficazes de fazer gestão, de tal maneira que a relação escola/comunidade possa se estabelecer da forma mais produtiva e perspicaz possível. Aceita embarcar nessa viagem? O estudo da Gestão Educacional tem o seu início no capítulo 1, que versa sobre o pensamento estratégico aplicado às organizações. Desde criança, aprendemos a planejar nossas tarefas, nosso cotidiano, nosso dia a dia. Nesse capítulo, você refletirá sobre como planejar e gerir estrategicamente os espaços educacionais formais e não formais. Além disso, estudará o papel do gestor na Gestão Estratégica e sobre a importância de ele atuar coletivamente, isto é, em equipe. Além disso, nesse capítulo, você perceberá que não existe gestão estratégica sem planejamento estratégico e não existe planejamento estratégico sem metas. As metas fazem parte do nosso dia a dia, nascem dos nossos sonhos mais íntimos, de um desejo profundo de realização pessoal que nos fascina, que nos leva a deslizar diante da vida de forma que nada nos é pesado demais. Quando temos metas bem definidas nos sentimos tão perto dos nossos sonhos, que quase os tocamos pela fé. Por meio da Gestão Estratégica e do Planejamento Estratégico, você terá condições de levar esses sonhos e essa fé para os diferentes espaços educacionais, para que possa ajudar seus aprendizes a fazerem a mesma coisa, ou seja, a construírem suas metas, seus sonhos, sua fé. Essa possibilidade não é maravilhosa? No capítulo 2, você estudará os pressupostos filosóficos, políticos, sociais, culturais e epistemológicos da Gestão Educacional. Você conhecerá as Teorias da Administração com a intenção de localizar em que circunstâncias elas foram criadas e como foram adaptadas para o ambiente escolar. Conhecer as Teorias da Administração Apresentação contextualizadas na escola permite a você, estudante de Gestão Educacional, ter conhecimento e ferramentas para superar o desafio da separação entre quem pensa e quem executa as ações escolares. É sabido que essa separação não deve existir, pois fragmenta o processo educacional. É sobre isso que o capítulo 2 discute, de modo a buscar o entendimento das teorias para permitir ao gestor uma melhor visualização do seu projeto de atuação. Ainda no capítulo 2, você estudará os modelos de gestão que darão subsídios para a elaboração de um plano de trabalho eficaz por parte do gestor e da comunidade escolar que lhe apoia. As palavras-chave desses modelos são: descentralização, autonomia e democratização. Temos a convicção de que você irá se apaixonar por este estudo! As funções do gestor aplicadas ao trabalho pedagógico é o tema que norteia a sua viagem pelo capítulo 3. Esse capítulo é muito importante para a sua formação enquanto gestor ou gestora, pois aponta caminhos possíveis e eficazes para a prática de uma gestão democrática, em que a sua atuação gestora esteja presente no cotidiano escolar, a estimular as relações de cooperativismo, união, compromisso e parceria para o alcance dos objetivos da instituição. Por fim, no capítulo 4, você estudará a função social da escola e os instrumentos que o gestor possui para promover essa integração tão necessária entre os membros da comunidade escolar e a sociedade. O objeto de análise desse capítulo é a relação escola/comunidade e o papel do gestor na busca constante do fortalecimento salutar dessa parceria. Ao término desta instigante viagem, prezado(a) aluno(a), você estará transformado(a). Isso mesmo: transformado para melhor! O estudo da Gestão Educacional irá lhe fornecer meios de promover, na escola, um desenvolvimento consistente e democrático, de modo que todos possam ganhar, sobretudo em qualidade de vida. Agradecemos à Profa. Daniela Naves Sabino de Freitas, que gravou as videoaulas que constam neste e-book. Seja muito, muito, muito feliz em sua profissão! Deus te abençoe! Prof. Wilton Rezende de Freitas 1 O pensamento estratégico aplicado nas organizações Uniube 3 Introdução1.1 Seja bem-vindo (a) ao estudo da gestão educacional. Neste capítulo discutiremos, no contexto organizacional (escolar ou não), a Gestão Estratégica e a sua importância nas organizações contemporâneas. Em seguida, falaremos do Planejamento Estratégico e de suas etapas. 1.2 Gestão estratégica e planejamento estratégico: conceito, evolução e etapas O mundo moderno vem sendo objeto de profundas e aceleradas transformações econômicas, políticas e sociais que têm levado os governos a adotarem estratégias diferenciadas e criativas para elevar a qualidade de vida de suas populações. Inúmeras sugestões vêm sendo apontadas como absolutamente necessárias para enfrentar os novos desafios e provocar mudanças no cenário educacional, desde o fortalecimento e melhoria da escola à construção e conquista de novas parcerias e modernização e melhoria dos processos de gestão. Nenhuma transformação duradoura nas escolas e demais instituições poderá ser obtida, caso a questão gerencial não seja devidamente equacionada, tendo como foco a melhoria da qualidade dos processos de gestão educacional. O conceito de estratégia nasceu da guerra, em que realizações de objetivos significavam superar um concorrente, que ficava impedido de realizar seus objetivos. De acordo com Maximiano (2004), estratégia é “meio (ou conjunto de meios) para alcançar um fim (ou objetivo) ”. Assim, estratégia pode ser definida como caminho (ou caminhos) que a organização segue para atingir um objetivo (ou objetivos) e assegurar seu desempenho. Os caminhos são definidos como diretrizes ou linhas gerais de ação. Assim, entende-se Gestão Estratégica como modelo de gestão, voltada 4 Uniube para a qualidade total dos serviços, por intermédio de planejamento e estratégias bem definidas. A gestão estratégica está muito ligada ao planejamento estratégico, tornando-se este uma das principais funções do gestor, senão a principal. A natureza do planejamento evoluiu, passando de uma visão inicial que a restringia às preocupações orçamentais, com motivações claras de controle financeiro em curto prazo, para a acentuação de perspectivas mais sofisticadas que lhe ampliaram os horizontes e realçaram a capacidade de previsão. Quadro 1: Planejamento estratégico ANTES AGORA Orçamento Processo intelectual Controle financeiro Ampliação de horizontes Curto prazo Capacidade de previsão Objetivos definidos Estruturação de caminhos A partir dos anos 50, o planejamento adquire a dimensão de longoque a aprendizagem seja possível para todos. Planejamento A maneira como uma escola se organiza para atender aos seus objetivos inclui algumas ações que são fundamentais para o seu funcionamento. Pensar sobre o que e como fazer em uma escola inclui traçar planos e metas a serem alcançadas ao longo de um determinado tempo. A esses planos e metas traçados chamamos de planejamento. 90 Uniube O planejamento na escola tem uma importância e impacto muito grande no processo pedagógico, pois traz consequências para todos os atores do ambiente escolar: os estudantes, suas famílias, suas comunidades. Precisa-se planejar para fazer escolhas coerentes, organizar rotinas, ter objetivos delimitados, saber aonde queremos chegar e o que precisamos ensinar aos alunos. Para tanto, é necessário ter uma visão do processo mais amplo de aprendizado que será desenvolvido durante todo o ano letivo, mas também do processo micro, revelado por meio de um planejamento mais pontual, marcado por intervalos de tempo. O gestor precisa ter clara a necessidade de se elaborar um planejamento anual de forma a especificar as ações e ter clareza das metas de aprendizado para os alunos e, a partir dele, elaborar planos semanais e diários. Enfim, construir uma rotina de trabalho. Segundo Libâneo (1994), o planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. Esses planos de ação podem se configurar como educacional, escolar, curricular e de ensino. Para cada um deles existem conteúdos procedimentais, atitudinais e conceituais, bem como ações e estratégias específicas para a sua efetivação. Cabe à escola elaborar um plano escolar sobre a organização, o funcionamento e a proposta pedagógica da instituição. Essa forma de planejamento cria oportunidades diferenciadas para cada aluno, o que pode representar um ganho significativo na direção da formação de todos, sem excluir ninguém e na garantia da construção dos direitos de aprendizagem por todos em tempo oportuno. Contudo, entendemos que, na prática cotidiana, temos várias situações que podem fugir ao que planejamos como situações ideais de ensino e de aprendizagem. Nessas Uniube 91 ocasiões, é preciso improvisar e, para improvisarmos com qualidade, é importante conhecermos bem a situação e as consequências dela, o que nos dá capacidade de renovar e variar as estratégias de ensino, sem desperdiçarmos o tempo de aprendizagem dos alunos. (GUEDES PINTO et al., 2006). Discutimos aqui a importância do planejamento para o processo pedagógico, considerando-o como um processo que objetiva dar respostas a problemas pelo estabelecimento de fins e meios que apontam para sua superação. Entendemos que, por meio do planejamento, o professor pode organizar, didática e pedagogicamente, o trabalho a ser desenvolvido e o tempo a ser destinado para cada ação. Currículo Para iniciarmos nossa discussão sobre currículo, antes faz-se necessário refletir sobre questões como as propostas na Figura 4. O QUE É CURRÍCULO? O QUE ENSINAR? COMO ENSINAR? PARA QUE ENSINAR? PARA QUEM ENSINAR? Figura 4: Questões que envolvem a determinação de um currículo. 92 Uniube A seguir, destacamos algumas definições de currículo, sob a ótica de diferentes autores e à luz da legislação vigente. Resolução CNE/CEB nº 04, de 13/07/2010 - Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica • Art. 13 - O currículo (...) configura-se como o conjunto de valores e práticas que proporcionam a produção, a socialização de significados no espaço social e contribuem intensamente para a construção de identidades socioculturais dos educandos. Resolução CNE/CEB nº 07, de 14/12/2010 - Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 09 anos • Art. 9º - O currículo (...) é entendido como constituído pelas experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, permeadas pelas relações sociais, buscando articular vivências e saberes dos alunos com os conhecimentos historicamente acumulados e contribuindo para construir as identidades dos estudantes. Marinho (2008, p.2): • “[...] instrumentos legitimadores de saberes e atitudes capazes de referendar interesses de grupos e segmentos que disputam a hegemonia na área”. Murta (2004, p.21) • “[...] um conjunto de intenções educativas e um conjunto de diretrizes pedagógicas que se articulem para orientar a organização e o desenvolvimento da sua prática educativa”. Agora que já definimos o currículo, vamos analisar e discutir como ele se situa no processo pedagógico. À medida que o direito à educação se alarga, a função da escola se amplia, levando em consideração as individualidades e subjetividades, na perspectiva que busca formar Uniube 93 sujeitos éticos, solidários e comprometidos com o bem comum e com a paz. Porém, ao considerar essas aprendizagens relativas aos valores éticos, não devemos desconsiderar os conteúdos escolares. Moreira e Candau (2007) ressaltam a necessidade de se fortalecer os vínculos entre cultura, currículo e aprendizagem, recuperando assim o direito do estudante ao conhecimento. Como a educação é um direito legalmente constituído, conforme Artigo 205 da Constituição Federal de 1988, reforçado pela LDB 9394/96 e Estatuto da Criança e do Adolescente, o princípio da organização do currículo deve ser a inclusão. Assim, conceber o currículo como garantia de ensino de qualidade para todos significa considerar a necessidade de que todos estudantes tenham acesso ao conhecimento e avancem nas suas aprendizagens. Para que as intenções educativas se concretizem, o ponto de partida é a delimitação clara dos conhecimentos a serem construídos para a garantia da aprendizagem, mas é a prática do professor que, de fato, pode possibilitar a efetivação do currículo. Nesse sentido, Moreira e Candau (2007, p. 19) afirmam que “o papel do educador no processo curricular é, assim, fundamental. Ele é um dos grandes artífices, queira ou não, da construção dos currículos que se materializam nas escolas e sala de aula”. O currículo configura-se como um produto histórico-cultural, norteador das práticas pedagógicas, refletindo as relações da organização escolar. Constitui-se como um instrumento de confronto de saberes, não se conformando como elemento neutro, ou seja, como um conjunto de experiências, disciplinas, vivências, conteúdos e atividades na escola que visam à construção de identidades e subjetividades, sem desconsiderar o “currículo oculto”, no ambiente escolar. 94 Uniube Ferraço (2008, p. 18), alerta que “a questão do conhecimento e, em particular, do currículo, não pode ser simplificada nem a textos prescritivos nem a singularidades subjetivas”, ou seja, o currículo é construído na prática diária de professores e, portanto, nem sempre reflete exatamente o que os documentos oficiais orientam, mas também não pode ser entendido como decisão de cada um. Precisa ser, na verdade, fruto de construções coletivas que tenham como norte princípios partilhados. É importante lembrar que o currículo em ação se dá por meio de negociações constantes, pois no cotidiano escolar há uma busca constante da garantia de diretrizes coletivas entre suas comunidades e crenças partilhadas por aqueles que a protagonizam. Há sempre uma correlação de forças de poder em jogo, em que os consensos precisam ser construídos entre os grupos dentro de cada escola. Por outro lado, é necessário reconhecer, também, a existência de grandes acordos concretizados em documentos oficiais que possam dar uma homogeneidade aos sistemas de brasileiros ensino. Considerando que o objetivo primordial da Educação é garantir a aprendizagem dos alunos, como assegurar tais aprendizagens e, ao mesmo tempo, reconhecer as diferenças sociais, culturais, individuais? Ao elaborar a proposta curricular, é preciso tomar decisões básicas que envolvem questõesrelacionadas a “o que”, “para que” e ao “como” ensinar articuladas ao “para quem”. Tais questões estão atreladas ao conteúdo, às experiências, aos planos de ensino, aos objetivos, aos procedimentos e aos processos avaliativos. De acordo com Veiga (2006), essas decisões estão relacionadas à: I. relevância do conteúdo: ele não é neutro, e sim marcado pelo interesse das diferentes classes sociais; Uniube 95 II. intencionalidade: é necessário definir a intencionalidade para alcançar a finalidade em função dos objetivos; III. tipo de conteúdo: deve ser significativo e crítico. É preciso privilegiar a qualidade dos conteúdos, e não a quantidade de informações, e ainda, a seleção desse conteúdo deve estar relacionada à realidade social dos alunos. De acordo com essa perspectiva, a escola precisa preparar-se para ampliar as possibilidades dos estudantes de terem acesso a diferentes saberes. Os conhecimentos construídos e circulantes nos diferentes espaços sociais constituem-se como direito de todos à formação e ao desenvolvimento humano. Por serem vistos como meio e não como fim, os conhecimentos devem interagir em uma dinâmica pedagógica integrada e integradora, elaborada em situações de diálogos pautados em uma discussão reflexiva por meio do planejamento pedagógico coletivo e contextualizado, e fundamentado no contexto escolar. Assim, o currículo refere-se, nessa perspectiva, à criação, recriação, contestação e transgressão de práticas e do processo educativo, pois não é mais visto como instrumento de transmissão de conhecimentos, e sim como um lugar que se produz e reproduz cultura ativamente, em meio a tensões. (MOREIRA e SILVA, 1994). Como gestor, ao conceber o currículo, devemos sempre lembrar que ele envolve diferentes aspectos, como os descritos na Figura 4. conhecimentos escolares transformações que se deseja efetuar nos alunos relações sociais os valores que se deseja inculcar cenário em que os conhecimentos se ensinam e se aprendem as identidades que se pretende construir Figura 4: Aspectos fundamentais para se conceber um currículo. 96 Uniube Esse currículo inclusivo possibilita a garantia do direito de aprendizagem dos alunos, através de uma educação de qualidade para todos. Pois bem, agora discutiremos um pouco sobre o direito de aprendizagem. Vamos lá? O direito à educação é garantido a todos os brasileiros, conforme previsto na Constituição Federal de 1988, e, segundo prevê a Lei 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, em seu Art. 22: “tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”. (BRASIL,1996). CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 “Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola; (...)” Desse modo, a escola é obrigatória para as crianças e tem papel relevante em sua formação para agir na sociedade e para participar ativamente das diferentes esferas sociais. Porém, garantir o acesso à escola não assegura o direito de aprendizagem dos alunos, pois o direito de aprender implica oferecer condições de permanência na escola e, principalmente, uma educação Uniube 97 de qualidade para todos os alunos, independente de condições sociais, raça, deficiência, condições econômicas, idade, sexo etc. Concluímos assim que o direito de aprendizagem dos alunos apenas estará assegurado por meio da inclusão, definindo a inclusão como ensino de qualidade para todos os alunos. Ao se pensar essa inclusão, é importante refletir acerca do que é incluir de fato, já que se trata de um tema polêmico do ponto de vista da prática educacional. De acordo com Sassaki (2006), a integração propõe a inserção parcial do sujeito, enquanto que a inclusão propõe a inserção total. Para isso, a escola, como instituição que legitima a prática pedagógica e a formação de seus educandos, precisa romper com a perspectiva homogeneizadora e adotar estratégias para assegurar os direitos de aprendizagem de todos. Contudo, tais estratégias dependem das especificidades de cada pessoa, da experiência, e da criatividade e observação do professor com sensibilidade e acuidade, além de uma formação inicial e continuada que o encaminhe para isso. Documentos, como, por exemplo, a Declaração de Salamanca (1994), defendem que o princípio norteador da escola deve ser o de propiciar a mesma educação a todas as crianças, atendendo às demandas delas. Nessa direção, a inclusão traz como eixo norteador a legitimação da diferença (diferentes práticas pedagógicas) em uma mesma sala de aula para que todos os alunos possam acessar o objeto de conhecimento. Acessar aqui tem um papel crucial na legitimação da diferença em sala de aula, pois é preciso permitir ao aluno que tenha acesso a tudo, por outras vias, que eliminem as barreiras existentes. Garantir o direito de aprendizagem dos alunos, antes de ser um compromisso social, é um dever legal, e só se consegue por intermédio de um currículo inclusivo e mudança das práticas pedagógicas. 98 Uniube Como materializar esse direito a aprendizagem? A resposta está no Projeto Político pedagógico! Vamos falar um pouquinho dele! Como já abordamos, o processo pedagógico, que tem como foco a aprendizagem no tempo certo de todos os alunos, é intencional, sistemático e, com isso, exige a organização do trabalho. Essa organização se materializa no documento mais importante da escola e é o que denominamos de Projeto Político pedagógico. O Projeto Político pedagógico das instituições educacionais é um documento que tem sua origem num processo participativo de construção de significados da identidade de cada instituição, que traz consigo a intenção daquilo que pretende realizar, projetar, inovar, criar rupturas e, principalmente, ter a coragem e a ousadia para executá-lo. Vasconcelos (1995) defende o “projeto educativo” como uma forma de resgatar o sentido humano, científico e libertador do planejamento em que se define claramente o tipo de ação educativa que se quer realizar. O gestor deve ser o articulador da elaboração, implantação, implementação e avaliação desse projeto, com a responsabilidade da construção coletiva com toda a comunidade escolar. Conforme Coutinho (2002), a função de um diretor numa gestão democrática escolar deve ser sempre de manter uma relação intrínseca de seu papel e do papel do pedagogo unitário na gestão escolar. O gestor deve ser o principal orientador das diretrizes da escola, mas apesar disso, essa atuação não deve ser exclusividade dele. A escola precisa trabalhar para se tornar ela própria uma comunidade social de aprendizagem também no quesito liderança, tendo em vista que a natureza do trabalho educacional e os novos paradigmas organizacionais exigem essa habilidade. Para que isso aconteça, é primordial a atuação Uniube 99 de inúmeras pessoas, mediante a prática da coliderança e da gestão compartilhada. Em vista disso, atuar como mentor do desenvolvimento de novas lideranças na escola é uma das habilidades fundamentais para um diretor eficiente. Inúmeras são as atribuições do gestor escolar. Relacionamos a seguir algumas delas: • conhecer os aspectos pedagógicos da legislação educacional vigente; • utilizar os pressupostos legais na tomada de decisão; • divulgar, junto à comunidade escolar, os princípios e valores contidos na proposta pedagógica; • acompanhar a execução da proposta pedagógica pela ação do coordenador pedagógico/pedagogo; • assegurar o cumprimento do calendário escolar; • adotar providênciaspara prover a unidade escolar de condições físicas e materiais necessárias ao desenvolvimento das práticas pedagógicas; • gerenciar a utilização de todos os recursos didáticos tecnológicos, garantindo o intercâmbio entre os professores de todos os segmentos e modalidades de ensino; • otimizar a utilização do laboratório de tecnologias concebendo-o como espaço propício à aprendizagem (sala de aula); • propiciar infraestrutura necessária à utilização dos suportes tecnológicos nas ações curriculares; • analisar e socializar, bimestralmente, os resultados do desempenho acadêmico dos alunos; • tomar decisões colegiadas quanto à manutenção e/ou melhoria da produtividade da escola (resultado do desempenho acadêmico dos alunos); • selecionar, coletivamente, dentre os projetos especiais disponíveis para a rede aqueles que possuam coerência com o eixo temático da escola e que favoreçam o bom desenvolvimento da proposta pedagógica; 100 Uniube • promover reuniões específicas com o Conselho Escolar para análise e discussão dos problemas pedagógicos da escola, priorizando os aspectos que dificultam o processo de aprendizagem dos alunos e envidar todos os esforços pela sua permanência; • difundir, no âmbito escolar, a concepção de educação inclusiva; • entender que a educação de qualidade é direito de todos, acolhendo quem procure a escola no ato da matrícula. • conceber a inclusão como princípio fundamental da universalização da educação (acesso, permanência e sucesso dos alunos); • diagnosticar os problemas que interferem negativamente, na prática pedagógica e no ato de aprender; • buscar, coletivamente, soluções para os problemas pedagógicos da escola; • planejar estratégias administrativas e pedagógicas que favoreçam o processo de formação continuada da equipe escolar; • garantir coerência entre a prática avaliativa do desempenho acadêmico dos alunos e os pressupostos filosóficos da sistemática de avaliação contidos na proposta político-pedagógica e no regimento escolar. Prezado(a) aluno(a), que tal darmos um tempinho na leitura e você, agora, assistir a uma videoaula que sintetizará aquilo que foi discutido até agora no capítulo 3? Esta videoaula versará sobre a história da educação no Brasil, discutirá os pilares da gestão democrática e, ainda, nessa perspectiva da democratização da educação, abordará o perfil do diretor/gestor escolar e os processos pedagógicos essenciais. Assista-a com bastante atenção. Uniube 101 Relação escola/comunidade3.4 Até aqui, prezado(a) aluno(a), estudamos que o processo de redemocratização da escola pública vem sendo construído desde o descobrimento do nosso país, com momentos de sucesso, de fracassos e também de muitas conquistas. Vimos ainda, que ele não está pronto, acabado. Encontra-se em transformação contínua, uma vez que decorre da participação do homem e este é um ser em caminhada e busca contínua, está sempre avançando, galgando uma situação melhor. Vamos discutir um pouquinho, a partir de agora, como deve se dar a relação escola e comunidade, bem como o papel do gestor nessa interação. Com a Constituição Federal de 1988, foi garantido legalmente às instituições educacionais públicas que a gestão seja realizada de forma democrática. Depois disso, tivemos a divulgação de vários outros aportes legais e também sistemáticos para a efetivação dessa democratização. Com a presença de outros interlocutores na gestão, é possível 102 Uniube a) Centralização das decisões; estabelecer o diálogo e, com isso, vamos produzimos respostas aos conflitos e a novas situações. A construção de uma nova lógica de gestão, com a participação da sociedade e dos atores diretamente envolvidos com a prática pedagógica, exige rever os modelos adotados pelos sistemas públicos, cuja estruturação e funcionamento são até hoje característicos de um modelo centralizador. As autonomias administrativa, pedagógica e financeira e a implementação de um Projeto Político-pedagógico próprio da unidade escolar, elementos fundamentais para a efetivação da gestão democrática, encontram vários limites no paradigma de gestão escolar vigente. Vejamos! b) entraves ao estabelecimento de princípios de organização colegiada da gestão e do trabalho pedagógico; c) Projeto Político pedagógico restrito ao atendimento das determinações das secretarias de educação, não acarretando mudanças significativas na lógica autoritária da cultura escolar; d) Formas de provimento nos cargos dirigentes dissociadas da comunidade local e escolar. Figura 5: Limitações à gestão escolar Uniube 103 A gestão democrática implica na participação, no envolvimento, numa nova forma de organização e operacionalização dos processos decisórios. A participação coletiva, com o compromisso de todos, ainda é um desafio para os novos gestores. Esse, portanto, é um desafio que será enfrentado no cotidiano escolar, a partir das diferentes situações nas quais as dinâmicas utilizadas sejam diferentes. A participação que a gestão democrática exige não está pronta e nem tem padrões determinados. Sabemos que é uma prática inovadora, com a presença de indivíduos dos diferentes segmentos, mas temos também normas de sistematização para que ela se efetive. Essa nova concepção de gestão, tem implícita, em toda a sua razão de ser, a garantia de direitos e a aprendizagem de todos. A participação é um processo complexo e contínuo, que envolve políticas públicas de gestão na educação, com a implementação dos governos e com o acompanhamento de toda a sociedade. Existem várias formas ou lógicas de participação. Várias dinâmicas se caracterizam por um processo de participação tutelada, restrita e funcional; outras, por efetivar processos coletivos, inovadores de escolha e decisão. Reconhecemos quão importantes são as iniciativas em prol da efetiva participação das famílias no processo de democratização da gestão das escolas públicas. Contudo, não podemos substituir a responsabilidade do Estado naquilo que lhe compete fazer. Como a própria palavra indica, “co-laborar” significa trabalhar juntos, mas não trabalhar pelo outro. Algumas dificuldades aparecem com frequência no trabalho com as famílias: representações, imagens desvalorizadas construídas pelos professores, dirigentes e funcionários com relação às famílias e sua legitimidade para participar das instâncias de decisão. A família é, muitas vezes, vista como incapaz, “inculta”, sem conhecimento para compreender as questões da escola. 104 Uniube Muitas vezes as análises realizadas pelas instituições em relação às ausências ou dificuldades da participação das famílias são precipitadas, preconceituosas e contribuem ainda mais para o distanciamento delas. Dentre outras razões, destacamos: • as condições concretas de vida das famílias nem sempre são consideradas nas suas ausências ou dificuldades de participação decorrentes de fadiga, horários de trabalho, duplas jornadas (no caso das mães); • os familiares são vistos como desinteressados, pouco comprometidos com a educação de seus filhos; • os horários propostos para a participação, na maioria das vezes, são inadequados às condições de trabalho e de vida da maioria das famílias; • as reuniões quase sempre se relacionam à apresentação de “queixas” com relação aos seus filhos e com pedidos para auxílio em casa, tarefa nem sempre possível devido às baixas taxas de escolaridade dos pais; • nem sempre a participação das famílias é efetivamente possibilitada e valorizada pela escola. Com isso, as famílias sentem-se sem espaços democráticos para se fazerem ouvir, sem disposição da escola para partilhar decisões e responsabilidades com elas. Acabam caindo no desalento e um aparente comodismo, numa espécie de desistência da possibilidade da mudança. Reafirmam-se, assim, no cotidiano da escola, preceitos do senso comum de que “nada muda, nada pode ser mudado”. Sabemos que essa participação pode assumirdiferentes formas: desde uma participação apenas para a execução até uma participação para o partilhamento de decisões. Superar a participação tutelada, concedida, em direção àquela efetivamente democrática, é um desejo de todos aqueles que acreditam que isso é possível e também um aprendizado para a escola. Uniube 105 Os gestores encontram ainda, muitas dificuldades ou obstáculos na condução do seu trabalho em relação à participação consciente da comunidade, na implementação de uma gestão democrática. A seguir, na Figura 6, conheça algumas situações frequentes que mais impedem a participação popular na vida da escola, na opinião de profissionais da escola e também da sociedade: 1) As condições de vida das camadas populares, especialmente a falta de tempo e o cansaço após um longo e pesado dia de trabalho; 2) A falta de local e espaço para as reuniões e discussões dos problemas ligados à escolarização dos filhos; 3) As reuniões acontecem em horários em que os pais trabalham ou têm outras obrigações que impossibilitam sua presença na escola; 4) Falta de interesse dos pais pela educação escolar de seus filhos; 5) Nos setores menos favorecidos da população, as pessoas “são endurecidas pela vida” e a magnitude de seus problemas impede que elas valorizem a educação escolar dos filhos; 6) A falta de interesse dos pais se manifesta na recusa em ajudarem na escola ou frequentarem as reuniões, alegando que isso é problema “do Governo”; 7) O desinteresse pelos problemas da escola é uma questão cultural; Figura 6: Situações limitantes à participação da população nas atividades da escola. 106 Uniube 8) Para as famílias das camadas populares, em sua maioria, “a coisa se esgota um pouco na vaga”, ou seja, a preocupação principal é com a existência de escola, sem se preocupar com a qualidade do ensino oferecido; 9) Além da vaga, os pais se interessam em saber se há merenda, se faltam professores ou coisas semelhantes, mas em nenhum momento aparece a questão da gestão da escola. De um lado, temos a realidade nos mostrando a situação com a qual deparamos quando o assunto é a participação popular na gestão democrática das instituições. Dentre outras situações, encontramos famílias ausentes, gestão autoritária, participação camuflada e enfraquecimento da redemocratização da gestão democrática. De outro lado, temos história política da educação demonstrando que a participação coletiva da sociedade nas decisões das instituições públicas é necessária, porque responde e atende aos anseios da comunidade na qual a instituição está inserida e também aos objetivos que ela precisa alcançar. Certamente com as pressões feitas pela sociedade civil é que teremos medidas eficientes visando à participação dos usuários nas decisões e sugestões na gestão da escola pública. Tais medidas referem-se tanto a amparos legais que garantam a participação dos responsáveis na escola, como também ao estímulo das iniciativas de grupos comunitários e outros na conscientização à participação popular. A partir do momento em que a comunidade escolar, representada pelos professores, funcionários, alunos e pais, tomar consciência da importância de seu papel na construção dessa democracia, teremos uma Uniube 107 escola democrática. Quando as decisões são coletivas, elas assumem um valor muito maior, pois expressam os desejos da comunidade. Pela participação dos colegiados, associações e agremiações e outros constituídos por docentes, discentes, funcionários, pais, alunos e comunidade é que se efetiva a gestão democrática. Espaços e instâncias de participação bem como seus objetivos e fins Os órgãos colegiados têm possibilitado a implementação de novas formas de gestão por meio de um modelo de administração coletiva, em que “todos participam dos processos decisórios e do acompanhamento, execução e avaliação das ações nas unidades escolares, envolvendo as questões administrativas, financeiras e pedagógicas,” afirma Abranches. (2003, p. 54). A partir da década de 80, com a inclusão da gestão democrática do ensino público na Constituição Federal, no inciso IV do Artigo 206, posteriormente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no inciso II do Artigo 14, o que estamos assistindo e até mesmo participando é de uma nova concepção da gestão das escolas. O processo de criação, implementação, avaliação e melhoria dos espaços de participação popular vem avançando consideravelmente. Muito já foi feito, porém, ainda há uma longa caminhada para ser percorrida por nós e pela geração que nasce dentro das instituições. A partir de agora, vamos apresentar algumas instâncias de participação democrática, suas bases legais, atribuições, fins e objetivos, pois, pretendemos que, a partir daí, como gestores, possamos conhecê-las melhor, não só para utilizá-las, mas também, para aperfeiçoá-las. 108 Uniube Conselho Escolar A seguir são apresentados alguns conceitos de Conselho Escolar: Corpo consultivo e/ou deliberativo que se reúne para tratar de assunto de interesse público ou particular. (FERREIRA, 2010). Um colegiado formado por pais, alunos, professores, diretor, pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola – pode ser uma construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. (CISESKI; ROMÃO, 2004, p. 66) Uma instituição que coordena a gestão escolar: é responsável pelo estudo, planejamento e acompanhamento das principais ações da escola no dia a dia. É também “o órgão de vivência cidadã, de apropriação de saberes diferenciados, democratização da escola, que tem influenciado as relações escola-comunidade”. (LIMA; JARDIM, 2004, p. 12). Os Conselhos Escolares são órgãos colegiados compostos por representantes das comunidades escolar e local, que têm como atribuição deliberar sobre questões político-pedagógicas, administrativas, financeiras, no âmbito da escola. (BRASIL, 2004, p.34) Como vimos, no significado amplo de conselho, apresentado no dicionário Aurélio ou restrito para Conselho Escolar, algumas características tais como: representatividade, participação, decisões coletivas, interesses comuns e escola, são comuns a todos os conceitos e razão de ser dos conselhos. Vamos conhecer um pouco da história e do amparo legal que sustenta os Conselhos Escolares. A luta pela democratização da gestão educacional não é nova. Teve seu apogeu na década de 1980, quando os estados Uniube 109 de São Paulo e Minas Gerais, realizando o Fórum de Educação e o Congresso Mineiro de Educação, respectivamente, começaram a discutir a autonomia da escola. Dessa época até os dias atuais, podemos afirmar que a luta pela participação nas decisões da escola tendo como foco a gestão democrática já avançou consideravelmente, porém, muito há o que se fazer. Estamos num patamar em que a institucionalização legal dos conselhos é uma realidade, mas isso não basta. É preciso avançar também na consciência de cada um de nós, que somos os protagonistas dessa conquista. O papel dos conselhos é discutido por Werle (2003, p. 60), que ressalta a participação efetiva, afirmando que [...] os conselhos não existem somente por definições legais, mas na medida em que as pessoas se dispõem a contribuir para o grupo, a (re) construir a própria escola pública [...] não existe um Conselho no vazio; ele é o que a comunidade escolar estabelecer construir e operacionalizar. Cada Conselho tem a face das relações que nele se estabelecem. Se forem relações de responsabilidade, de respeito, de construção, então, é assim que vão se constituir as funções deliberativas, consultivas e fiscalizadoras. Segundo Ciseski e Romão (2004, p. 66), o Conselho de escola já é realidade em estados e municípios de todas as regiões do País: [...] mas, como diz Drummond, “as leis não bastam. Os lírios não nascem das leis”. É necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia a dia das escolas,seja incorporada ao cotidiano e se torne tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos. Ao se referir à organização do Estado brasileiro, Cury (2000, p.45) afirma que o “Estado, em sua organização política, pode assumir formas 110 Uniube diferenciadas no modo de se fazer presente dentro de seu território”. Em relação à organização federativa do Brasil, o autor afirma ainda que: a descentralização supõe um grau efetivo de repartição do poder político e administrativo entre as autoridades regionais ou locais. Nesta medida, regiões e municipalidades participam da administração e organização gerais, com maior ou menor grau de autonomia. Assim, há normas centrais para todo um território nacional e normas específicas válidas somente para partes do território. (CURY, 2000, p.45). Posto isto, citaremos na Figura 7, a seguir, as legislações nacionais básicas que fundamentam a criação dos Conselhos Escolares e ressaltamos que cada ente federativo precisa regulamentar o assunto, dentro de seu território. Conselho Escolar - legislações básica Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Constituição Federal - 1988 Figura 7: Legislações nacionais básicas que fundamental a criação de Conselhos Escolares. Quanto às suas atribuições, sabemos que a maior razão de ser dos Conselhos Escolares é desenvolver a gestão democrática com a participação de todos os envolvidos. Para tanto, existem algumas atribuições que são gerais e outras que devem ser definidas pelos membros de cada Conselho Escolar, para melhor atender à realidade da instituição. Uniube 111 • tomada de decisões quanto ao direcionamento das ações pedagógicas, administrativas; • de gerenciamento dos recursos públicos. Função deliberativa • emissão de pareceres: dirimir dúvidas; • emissão de pareceres: propor soluções.Função consultiva • acompanhamento às ações desenvolvidas pela escola; • identificação de problemas e proposição de alternativas. Função avaliativa Figura 8: Atribuições dos Conselhos Escolares. Ressaltamos que as atribuições devem ser contempladas no Estatuto do Conselho Escolar, cabendo-lhe defini-las segundo as condições reais da escola, da organização do próprio Conselho e a reflexão das suas possibilidades e diagnóstico da comunidade escolar. As atribuições são muito amplas e abrangem desde a aprovação, acompanhamento e efetivação do Projeto Político-pedagógico, passando pela avaliação institucional do desempenho da escola, a definição de prioridades e metas estabelecidas em seus planos, até a análise e proposição de alternativas de solução para as questões de natureza pedagógica, administrativa e financeira. As atribuições podem ser organizadas conforme natureza da organização da escola, observando as seguintes áreas: administrativa, financeira e pedagógica e com as funções relacionadas na Figura 8: 112 Uniube A utilização do Conselho Escolar como espaço de democratização da gestão escolar implica em um desafio para o gestor, uma vez que é necessário romper com algumas práticas e concepções autoritárias que afastam a comunidade escolar. Grêmio estudantil A seguir são apresentados alguns conceitos de Grêmio estudantil. “Um grupo de estudantes que promove atividades culturais, participa das coisas e tenta resolver os problemas de cada turma.” (GRÁCIO e AGUIAR, 2002, p. 74) O Grêmio é a organização que representa os interesses dos estudantes na escola. O Grêmio é também um importante espaço de aprendizagem, cidadania, convivência, responsabilidade e de luta por direitos. (INSTITUTO SOU da PAZ, 2002, p.05) Estamos falando agora de outra instância coletiva de participação. Tão importante quanto aos Conselhos escolares, o Grêmio estudantil reúne os elementos de um dos segmentos mais importantes da escola, os seus alunos. Esse grupo representa a vontade coletiva dos estudantes e assume papel fundamental nas decisões da escola, bem como no apontamento de melhorias para a escola, conforme a vivência, o conhecimento e os desejos desse grupo. O Grêmio estudantil não tem fins lucrativos, deve se propor a representar os estudantes e a defender seus direitos, estreitando a comunicação dos alunos entre si e com os outros segmentos da comunidade escolar. Uniube 113 A participação no Grêmio é voluntária, e, portanto, sem remuneração, mas esse orgão tem direito a um espaço na escola para realizar suas reuniões. Esse espaço pode ou não ser exclusivo, dependendo do que a escola dispuser. Ao longo da história, reconhecemos que os estudantes sempre deram grandes contribuições na luta pelos direitos sociais e também pela participação nos diferentes espaços de convivência social. A existência dos Grêmios estudantis é observada desde o surgimento das Escolas de Ensino Secundário, no interior das quais eles desempenharam papéis importantes no desenvolvimento educacional e no amadurecimento pessoal e social dos jovens. O período político da Ditadura Militar foi um fato que, sem dúvida, ficou marcado como um retrocesso na participação dos jovens. Imposto pelo golpe militar de 1964 e que durou até o ano de 1985, desenvolveu várias ações tais como: promulgação de leis que impediam a livre organização dos estudantes e proibiam as atividades do Grêmio, dificultando a realização dos movimentos de reivindicações. Nem por isso, os jovens desistiram de lutar pelos seus direitos e, mesmo correndo riscos, buscavam meios de manifestar seus anseios. Apenas em meados da década de 1980, com a redemocratização brasileira, os Grêmios voltaram a adquirir um caráter livre e legal, o que ficou consolidado com o Ato do Poder Legislativo, formalizado na Lei nº 7398/85. A constituição do Grêmio estudantil está estabelecida pela Lei Federal nº 7398, de 04 de novembro de 1985, que, em seu Artigo 1º, assegura aos estudantes dos estabelecimentos de ensino de 1º e 2º graus, hoje Ensino Fundamental e Médio, o direito de se organizarem em entidades autônomas, representativas dos interesses dos estudantes, com finalidades educacionais, culturais, cívicas, esportivas e sociais. 114 Uniube Atualmente há muito o que se fazer, para renovar a participação discente no cotidiano escolar. É preciso que o gestor acredite na força da juventude, abra-lhe as portas da participação consciente e seja o apoio de que eles precisam para se fortalecerem. O campo de atuação do Grêmio estudantil é muito amplo e como instituição autônoma deve se organizar para discutir e propor sugestões de melhorias para todos os assuntos referentes à vida da escola e ao aprendizado dos seus alunos. Inúmeras são as atividades que podem ser desenvolvidas pelo Grêmio estudantil. Relacionamos, na Figura 9, algumas sugestões de temas e atividades. • organizar semanas culturais, concursos literários, exposições de desenhos, pintura, escultura, eventos musicais, festas, montagens de peças teatrais e danças, gincanas culturais, passeios, excursões e outros. Cultura • formar grupos para discutir temas como preconceito, desigualdade social, violência, ética etc.; trabalhar a estética da escola (murais, painéis, jardinagem...). Social • promover campeonatos de futebol, vôlei, basquete, handebol, xadrez, gincanas entre alunos, pais e comunidade, participar e incentivar campeonatos entre escolas. Esporte Figura 9: Atribuições do Grêmio estudantil Uniube 115 • organizar palestras sobre temas diversos como paz, solidariedade, drogas, saúde, meio ambiente e outros; discutir e avaliar os projetos da escola e garantir que sejam respeitados os seus direitos. Política • criação e manutenção de rádio-escola, do jornal escolar, participar do Conselho de Classe, divulgar suas atividades nos meios de comunicação local. Comunicação Como toda organização institucionalizada, o Grêmio estudantil deve ter o seu Estatuto, documento que registrará dentre outros itens importantes, finalidades, objetivos, composição, atribuições,funções, reuniões, normas, escolha dos membros e período de mandato e deve ser aprovado em Assembleia geral e registrado em cartório. Lembramos, mais uma vez, que, para que isso aconteça de fato, é necessário que, além da conscientização dos envolvidos, haja abertura por parte dos dirigentes escolares para assegurar o espaço de participação do coletivo e que sejam acatadas suas decisões levando sempre em conta o bem comum, entendendo que o Grêmio estudantil é um espaço privilegiado para empreender o espírito democrático e desenvolver a ética e a cidadania na prática. Associação de pais, mestres e funcionários Trata-se de uma instituição auxiliar da escola, criada com a finalidade de colaborar no aprimoramento do processo educacional, na assistência ao escolar e na integração família-escola-comunidade. A APMF é uma associação civil de natureza social e educativa, sem caráter político, racial ou religioso e sem finalidades lucrativas. 116 Uniube A instituição foi estabelecida em 1963, em substituição à Caixa escolar, cuja existência data da segunda metade do século passado e cujo objetivo era arrecadar fundos para a escola. Constatamos, portanto, em Mattos, (apud ABRANCHES, 2003, p. 48) que: [...] a escola sempre se valeu de ações de complementação ao seu trabalho educativo, haja vista, o próprio dever de casa que é uma extensão da escola ao lar da criança e, de certa forma, mantém o diálogo entre a escola e os pais. A participação da APMF é muitas vezes polêmica e mal interpretada. Existe uma visão equivocada de que ela é apenas uma maneira de o estado desresponsabilizar-se de suas tarefas, uma vez que, sendo pública, a escola deveria ser mantida pelo estado. Porém, se entendermos o significado do termo “público” como: “pertencente ou relativo à coletividade; que é de uso de todos, comum” (CEGALLA, 2005 p. 708), compreendemos que todos temos que zelar pelo espaço público e, se analisarmos os objetivos e as atribuições da APMF, verificaremos que sua atuação vai muito além da arrecadação financeira. O trabalho e a participação da APMF são, portanto, elementos importantíssimos da gestão escolar, embora, como já dissemos, possam ser polêmicos. A APMF situa-se na tênue linha que separa o que é participação democrática do que é assumir responsabilidade do estado em face do sucateamento da educação. Aqui vale, mais uma vez, o trabalho de conscientização da comunidade. Como as demais instâncias de participação citadas anteriormente, a Associação de Pais e Funcionários deve também elaborar e aprovar em assembleia o seu Estatuto. Por se tratar de pessoa jurídica de direito privado, deverá ser feita a requisição da inscrição do estatuto da APM e da ata de eleição de seus membros, junto ao Cartório Civil Uniube 117 de pessoas jurídicas. Dentre os itens a serem dispostos em seu estatuto, destacamos: constituição, organização, finalidades, atribuições, realização e periodicidade das assembleias, competências, dentre outros. Conselho de classe O Conselho de classe, que é outra importante ferramenta do trabalho pedagógico, é definido por Dalben (2004, p.63) como: “instância formalmente instituída na escola ou órgão colegiado, responsável pelo processo coletivo de avaliação da aprendizagem do aluno”. É um espaço em que professores das diversas disciplinas, juntamente com a direção, equipe pedagógica e alunos representantes de turma, reúnem-se para discutir, avaliar e propor ações para acompanhamento do processo pedagógico da escola. É um recurso de avaliação que tem merecido atenção de gestores, especialistas, docentes, pais e até mesmo em alguns casos, os discentes. Ele foi criado para funcionar bem, para ser o órgão coordenador e avaliador da ação educacional. É também um momento privilegiado para se avaliar a eficácia do processo ensino-aprendizagem, possibilitando uma reorganização da prática docente. Os objetivos do Conselho de classe, segundo o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), são elencados em Dalben (2004, p.38): • efetuar uma avaliação contínua do aluno e da turma em seus aspectos qualitativos e quantitativos; • aperfeiçoar o trabalho do professor com o aluno por meio de subsídios fornecidos pela equipe pedagógica; • despertar, na professora, consciência de que é necessário realizar a autoavaliação contínua de seu próprio trabalho com vistas ao replanejamento de suas atividades e métodos e a um aprendizado mais eficiente por parte do aluno. 118 Uniube Fica claro que, muito mais do que simplesmente analisar o desempenho do aluno, o Conselho de classe é um instrumento muito importante e propício para refletir e repensar a prática pedagógica. Precisamos, ainda, avançar bastante nessa discussão, uma vez que as experiências nos mostram que, apesar de se detectar os problemas e ter clareza do que precisa ser modificado, muito pouco se consegue realizar. Quando surgiu o Conselho de classe? Em 1945, na França, para orientar o acesso de alunos ao ensino clássico ou técnico, conforme aptidão. Este conceito é trazido para o Brasil em 1958, quando educadores do estado do Rio de Janeiro fizeram visitas e estágios no Instituto de Pesquisas Educacionais de Sévres, França. A experiência pioneira aconteceu no Colégio de Aplicação da Universidade do Rio de Janeiro (CAp), em 1969. Começou em salas experimentais e, logo após, foi estendida a todas as turmas do Colégio. Foi bem aceita apesar de ainda não ser uma atividade defendida em nosso meio. De alguma maneira, no entanto, representava um potencial educacional considerável. Os Conselhos de classe foram formalmente instituídos em quase todas as escolas brasileiras, por força das orientações do PREMEN – Programa de Melhoria e Expansão do Ensino, regulamentado pelo Decreto nº 63.914, de 26 de dezembro de 1968, e pelas indicações e normas dos Conselhos Estaduais de Educação. A Lei 5692/71 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação do então Ensino de 1º e 2º Graus – embora não possua nenhum artigo que regulamente o Conselho, traz, em seu Artigo 14, a preocupação com a reformulação dos critérios de avaliação e com os aspectos qualitativos do processo ensino- aprendizagem, proporcionando bases para sua institucionalização. Uniube 119 A partir desse momento, os Conselhos Estaduais de Educação traçam diretrizes para sua operacionalização, objetivando orientar os professores na avaliação permanente dos alunos, analisar as causas dos baixos rendimentos, criar condições de assistência aos alunos considerados fracos, aperfeiçoar o trabalho cotidiano do professor e desenvolver a avaliação contínua do próprio trabalho escolar. Hoje, o espaço de ação dos Conselhos de classe foi ampliado. Eles podem propor orientar e planejar a ação pedagógica, considerando a comunidade em que a escola está inserida e o aluno como sujeito da ação educativa. Quanto às atribuições, Dalben (2004) afirma que os participantes têm papéis bem definidos no Conselho de Classe. Papel da direção Papel do professor pedagogo organizar os espaços, liderar e assegurar o cumprimento de um Conselho democrático; promover a discussão contínua da prática pedagógica. coordenar e mediar o processo, promover discussão coletiva de forma integrada, ser o elo para encaminhamento do processo ensino-aprendizagem, articular o processo de construção e reconstrução desse mesmo processo, analisar elementos totalizantes e unificadores do processo de ensino e de produção do conhecimento. Figura 10: Papéis dos participantes do Conselho de Classe. 120 Uniube Papel do aluno Papel do professor representar a sua turma, participar do processo dialógico, promover uma nova relação educativa. analisar criticamente o rendimento dos alunos, propor estratégias pedagógicas para solucionar ou amenizar problemas detectados. O Conselho de classe, enfim, deve permitir, ao professor, redimensionar sua prática e criar novos recursos didáticos;ao aluno, acompanhar o desempenho de sua trajetória, identificando seus avanços e dificuldades; à escola, pensar e reorganizar o seu currículo e suas práticas educativas; aos pais, conhecer as práticas pedagógicas dos professores e acompanhar o desenvolvimento de seus filhos. Prezado(a) aluno(a), agora faremos uma “pausa para reflexão”, ou seja, é chegada a hora de você assistir a mais uma videoaula. Ele abordará relação escola/comunidade e discutirá a importância dos espaços e instâncias de participação da comunidade na educação. Assista-a com atenção! Uniube 121 Descobrindo a riqueza dos espaços educativos3.5 Por fim, vamos apresentar a você experiências diversas, em que a ação gestora fez a diferença, envolvendo a comunidade interna e externa em instituições educacionais formais e não-formais. Temos certeza de que, a partir dessas experiências, você vai ampliar seu olhar e sua visão em como aproveitar todos os espaços formais e não- formais, para o desenvolvimento de novas aprendizagens. Utilizamos um questionário padrão, que foi encaminhado aos gestores, pois entendemos que, com essa metodologia, será possível, que você visualize a experiência de cada gestor, bem como suas concepções traduzidas no fazer cotidiano. Entrevista nº1 Daniela Naves Sabino de Freitas Psicóloga, especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. Formação em Gestão Responsável para a Sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral e em Coaching pelo ICI – Integrated Coaching Institute. Desenvolveu sua carreira nas áreas de Gestão de Pessoas, Desenvolvimento Organizacional e Gestão Socioempresarial. Tem atuado fortemente na formação de líderes e de equipes e no desenvolvimento de processos de transformação organizacional, relacionados principalmente com gestão estratégica da mudança, desenvolvimento e implantação de modelos de gestão, desenvolvimento de oficinas, promovendo reflexões e mudanças para um novo olhar, com ações visando à responsabilidade social e à sustentabilidade do negócio. Atuou também com negociação comercial em diversos mercados (USA, América Central, Europa, Emirados Árabes). Desde 1997 é professora universitária nos cursos de Graduação, Extensão, Especialização e MBA nas disciplinas de Recursos Humanos, Comportamento Organizacional, Gestão de Carreira e Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa. É Consultora Organizacional com formação nos princípios da Antroposofia e proprietária da Transformmare Consultoria. 122 Uniube Onde ela pode se efetivar? • É um processo de mudança, em que um conteúdo novo será adquirido, podendo ser um comportamento, um conceito, uma nova prática. • Em qualquer ambiente, seja ele propício ou não. Todos estamos aprendendo seja por imitação ou não. Seja por bons modos ou não. Qual sua concepção de espaço educativo? • Aquele que seja estimulador, isto é, que desperte no outro a condição do aprender. O que é Gestão para você? • É a capacidade de compreender onde estou, aonde preciso chegar e reunir todas as condições necessárias para chegar ao objetivo. É a capacidade de analisar a realidade e sistematizar as etapas para se chegar ao objetivo. Qual a forma de gestão você utiliza na instituição? • Gestão participativa = definir onde estou, aonde quero chegar, como também as ações para alcançar o objetivo COM os envolvidos, em que o papel do gestor é simplesmente de direcionador e facilitador para que os fatores floresçam. Como você planeja, implementa e avalia o trabalho realizado? • Através de indicadores, nos quais em cada ação levanta-se um indicador que mapeará a evolução do trabalho. Qual o papel da equipe no processo de gestão? • Fundamental. São eles os executores, os quais devem participar, pois são especialistas no assunto. Qual a sua concepção sobre a aprendizagem? Uniube 123 Como você articula os diferentes segmentos da instituição na realização da atividade? • Principalmente através de reuniões e workshops de debates, reunindo todos os envolvidos para perceber a realidade a ser tratada por todos os lados. A ferramenta comunicação é superpoderosa, pois informa, quebra resistências, orienta, treina, ensina, integra. Quais as maiores dificuldades em gerir a instituição? • Vaidades individuais, visão individual e não para o coletivo. Que fatores internos e externos interferem na gestão? • Internos: pessoas, recursos, processos e principalmente a identidade formada pela cultura (modo de ser e agir do principal líder): • Externo: economia, mercado, política, leis. Para você quais são as palavras-chave para se obter uma gestão de sucesso ? • Participação, olhar coletivo, análise da realidade, visão a longo prazo, visão sistêmica. Dicas do profissional entrevistado. Devemos despertar no outro a necessidade/falta de algo. Quando isso acontece, ele está aberto para a aprendizagem, com energia, motivação. Por trás do trabalhador, encontramos um ser humano que já tem suas qualidades, seu formato. À medida que percebemos essa realidade, o processo de gestão e relacionamento com pessoas mudam, e assim muda toda a instituição. O gestor deve ser apenas um facilitador, que constrói pontes para levar as pessoas de um lugar a outro, na busca do atendimento dos objetivos diversos. A realidade mostra que os gestores são castradores do desenvolvimento do SER HUMANO. 124 Uniube Entrevista nº2 Maísa Cândido Galvão Qual a sua concepção sobre a aprendizagem? • Descoberta do novo e recapitulação das vivências. Onde ela pode se efetivar? • A partir de resultados que obtemos na prática do nosso dia a dia. Qual sua concepção de espaço educativo? • É possível em qualquer ambiente de modo que tenha boa interação da equipe de trabalho. Qual a forma de gestão você utiliza na instituição? • Sendo Enfermeira de uma Unidade Básica de Saúde, em campanhas de vacina da poliomielite, o planejamento é realizado em etapas: levantar o número de crianças da faixa etária específica de cada área de abrangência; informar estes dados ao setor de Imunização; confeccionar convites a serem entregues pelas agentes comunitárias de saúde a todas as mães; capacitar todos os profissionais da Unidade Básica de Saúde; realizar escala da equipe; localização de postos-volante, solicitar divulgação da campanha de vacina nas escolas, creches, igrejas. • Se a campanha for temática, um exemplo festa junina: os funcionários vão caracterizados, solicitamos comidas típicas. Quais instrumentos você utiliza na gestão da instituição? • Reuniões coletivas, dinâmicas de grupos, autoavaliação, entrevistas, caixa de sugestões. Como você planeja, implementa e avalia o trabalho realizado? • Fazemos reuniões com os setores da UBS, levantamos as demandas de trabalho e planejamos as ações. No final da campanha, pegamos as listas e conferimos se todas as crianças foram vacinadas e, se não, realizamos a busca ativa dessas criança não vacinadas. Enfermeira. Unidade de Saúde Setor Oeste. Paraíso do Tocantins –TO Uniube 125 Qual o papel da equipe no processo de gestão? • Até o dia da campanha, os trabalhos são individualizados e divididos entre a equipe de acordo com a sua competência; no dia da campanha, cada uma realiza a função que foi estabelecida e reveza com a colega. Como você articula os diferentes segmentos da instituição na realização da atividade? Dividimos as tarefas por habilidades: • confecção dos convites • organização da unidade • capacitação dos funcionários • escala de funcionários • organização das pastas com as planilhas e outros materiais de cada posto-volante • numeração das salas Quais as maiores dificuldades em gerir a instituição? • Solicitação de materiais para a prefeitura, comprometimento de funcionários. Que fatores internos e externos interferem na gestão? • Internos: comprometimento dos funcionários. • Externos: prefeitura não incentiva os profissionais a inovar devido a custos. Para você, quais são aspalavras-chave para se obter uma gestão de sucesso ? • Criar, planejar, comprometimento, dedicação, esforço e perseverança. Entrevista nº 3 Diretora Profa. Lídia Nara Oliveira y Oliveira 126 Uniube Professora graduada em Letras Português – Inglês, com Formação Complementar em Literatura InfantoJuvenil pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (FISTA) e Fundação Projeto Rondon. Atuação no Curso de Capacitação de Professores na área de Literatura Infanto- juvenil, em 1996, no Curso ALP – uma proposta socioconstrutivista, em 1997. Participação no Curso de Capacitação a Distância para Gestores Escolares – PROCAD 2002 e PROGESTÃO 2005. Atua desde 2000 no cargo de Diretor da Escola Estadual José Alexandre Miziara de Conceição das Alagoas, promovendo uma gestão participativa com ações compartilhadas, priorizando o valor humano de todos envolvidos no processo educativo, pela vivência do respeito, do compromisso e da responsabilidade com o outro. Qual a sua concepção sobre a aprendizagem? • Ação/ reação de apreensão de uma realidade ou de conhecimentos que provocam mudança no comportamento ou na ressignificação desta realidade. Isto quer dizer que a aprendizagem só acontece, de fato, quando há curiosidade, interesse, busca. Jamais ela é depositada ou transferida de um ser para outro. Onde ela pode se efetivar? • Em qualquer espaço onde haja provocação para que esta aprendizagem aconteça. Entende-se como elemento provocador de aprendizagem, o meio usado como contexto: motivação pessoal e externa, recursos usados (livros, mídias, professores mediadores entre outros). Qual sua concepção de espaço educativo? • Entendo como espaço educativo, o contexto e o pretexto em que se busca aprender. Na verdade, é o espaço onde vivem os seres desde o seu nascimento, pois estamos sempre aprendendo. A escola assume este espaço como ambiente “formal” de aprendizagem, institucionalizado e sistematizado. Mas, não é o único. Outros espaços vão sendo construídos desde a concepção do ser. O desenvolvimento e a evolução, possibilitados pela aprendizagem que acontece (ou não), são determinados diretamente pelo espaço educativo. Uniube 127 Qual a forma de gestão você utiliza na instituição? • Uma Gestão Democrática, com partilha de decisões e responsabilidades. Como gestores, priorizamos o atendimento pedagógico na busca de um melhor desempenho do aluno. O que é Gestão para você? • Para mim, é um conjunto de ações compartilhadas por equipes de pessoas que partilham responsabilidades e crescem juntas em busca de um objetivo comum. Na gestão escolar essa equipe é formada por todos os profissionais que atuam na unidade de ensino com uma única meta: o sucesso do aluno. Na gestão, há um líder que está sempre motivando, propondo ações coletivas de planejamento, análise e avaliação das atividades desenvolvidas , através de uma presença fraterna, solidária e profissional. A gestão escolar tem como suporte fundamental o Sistema Mantenedor que subsidia e orienta a unidade de ensino. Quais instrumentos você utiliza na gestão da instituição? • Coordenação do turno pelo vice-diretor, acompanhamento pedagógico como suporte ao professor; comunicação clara e objetiva, transparência de ações, atendimento com disponibilidade de servir e atender às necessidades da comunidade escolar, estudo constante, participação do Colegiado escolar, acompanhamento diário e por turno da rotina escolar. Como você planeja, implementa e avalia o trabalho realizado? • Através do acompanhamento diário que norteia as necessidades da escola. Assim, podemos avaliar o resultado para planejar ou retomar as ações já planejadas. Por exemplo: estamos concluindo dois projetos definidos no PIP que foram revistos no início do ano: Projeto soletrando e Projeto olimpíada da tabuada. Foram planejados como instrumentos de superação das dificuldades diagnosticadas nas avaliações da escola. Após a conclusão dos projetos, faremos uma avaliação: atingimos os objetivos propostos? Houve aprendizagem? A partir dessa avaliação, faremos o próximo planejamento. 128 Uniube Que fatores internos e externos interferem na gestão? • Acredito que esta resposta é sequência da anterior. Qual o papel da equipe no processo de gestão? • Planejar coletivamente ações pedagógicas que visem ao sucesso escolar dos alunos; fornecer suporte às ações pedagógicas; implementar e acompanhar todas as ações que norteiam a vida da escola; mediar os conflitos cultivando uma convivência de respeito, fraterna e solidária; cuidar para que os deveres e direitos sejam praticados e respeitados por todos no ambiente escolar. Para você, quais são as palavras-chave para se obter uma gestão de sucesso ? • Dedicação, compromisso, responsabilidade, envolvimento, serviço e humildade, estudo diário e a palavra maior que abre todas as outras: AMOR. Quem cuida com amor da missão que assume,vai encontrar sempre uma luz diante dos desafios do dia a dia. Como você articula os diferentes segmentos da instituição na realização da atividade? • Buscando participação nas atividades da escola, promovendo encontros e reuniões, divulgando ações através de comunicados ou publicações na comunidade. Quais as maiores dificuldades em gerir a instituição? • Falta de compromisso por parte de alguns profissionais; ausência de alguns pais na vida escolar dos filhos; muita burocracia imposta pelo Sistema que, muitas vezes,dificulta as ações próprias da escola; falta de profissionais especializados para melhor atendimento dos alunos com risco social e familiar (psicólogo e assistente social); falta de segurança na escola. Entrevista nº4 Profa. Marianna Centeno Pedagoga, com habilitação em Educação Especial, especialista em Educação para bem-dotados e talentosos, pela Universidade Federal de Lavras, analista educacional da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais/Superintendência Regional de Ensino de Uberaba. Uniube 129 O que é Gestão para você? • Gestão é o processo de se conduzir uma instituição para que a mesma alcance seus objetivos e cumpra seu papel social da melhor maneira possível. Qual sua concepção de espaço educativo? • Espaço educativo é o ambiente propício à aprendizagem, não sendo a escola o único espaço existente. Todo ambiente formulado para a aprendizagem é um espaço educativo. Qual a sua concepção sobre a aprendizagem? • Processo de aquisição de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes, possibilitado pelo estudo, ensino e experiências. Onde ela pode se efetivar? • Em todos os ambientes em que o sujeito está. Qual a forma de gestão você utiliza na instituição? • Gestão participativa e democrática. Quais instrumentos você utiliza na gestão da instituição? • Metodologia do design. Como você planeja, implementa e avalia o trabalho realizado? • A metodologia do design consiste em ter uma ideia, implementar a ideia e avaliar a ideia. A partir da avaliação, são propostas novas ideias ou modificada a proposta inicial. A implementação é realizada a partir de objetivos definidos. A avaliação consiste em verificar se os objetivos foram alcançados em um determinado espaço de tempo. Essa metodologia possibilita averiguar quais fatores interferiram no processo para que os objetivos não fossem atingidos e assim, ter novas ideias para alcançá-los. 130 Uniube Qual o papel da equipe no processo de gestão? • Todas as etapas da metodologia do design são cumpridas pela equipe. Assim, as pessoas envolvidas no trabalho são os principais agentes do processo de gestão. Como você articula os diferentes segmentos da instiuição na realização da atividade? • A articulação da escola em ambiente hospitalar com os demais segmentos da instituição de saúde é muito difícil ser realizada, pois são duas áreas diferentes (saúde e educação) e nem sempre os profissionais da instituição conseguem perceber a importância do programa pedagógico educativo para as crianças. • Porém,sem essa integração não há como atingir os objetivos propostos, pois são áreas que se complementam. Assim, reuniões com os diferentes setores da instituição é primordial para o sucesso dos objetivos propostos. Além disso, é necessário fazer a integração desses setores em atividades que aliem saúde e educação. Quais as maiores dificuldades em gerir a instituição? • A maior dificuldade é a falta de integração entre as duas áreas (educação e saúde), pois são instituições diferentes, com objetivos diferentes, mas que se complementam. Que fatores internos e externos interferem na gestão? • Os fatores internos são falta de profissionais, recursos materiais e integração entre os diferentes setores da instituição ou instituições. Para você, quais são as palavras-chave para se obter uma gestão de sucesso ? • Equipe, diálogo, integração e planejamento. Uniube 131 Entrevista nº 5 Diretora Profa. Vânia Célia Ferreira Vânia Célia Ferreira é pedagoga. Foi diretora da EE Anexa ao ICBC e diretora da Superintendência Regional de Ensino de Uberaba. Atualmente é vice-diretora no Centro de Apoio ao Deficiente Visual – CAP, em Uberaba/MG. Qual a sua concepção sobre a aprendizagem? • A aprendizagem é um processo pelo qual adquirimos nossas habilidades, competências, conhecimentos e valores e que, ao longo de nossa vida, vamos modificando e melhorando conforme vamos adquirindo mais experiência através de estudos e observação.Onde ela pode se efetivar? • O espaço educativo é o local onde se efetiva a aprendizagem. Deve ser motivador, criativo, dinâmico e formador. O que é Gestão para você? • Defino gestão como uma capacidade que pode ser adquirida e desenvolvida através da prática de administrar e tendo, como objetivo, uma meta definida. • A principal habilidade de um gestor é saber liderar, influenciar pessoas. E, para influenciar as pessoas, tenho que ter autoridade, saber ouvir, enxergar além do horizonte e principalmente saber servir. Qual a forma de gestão que você utiliza na instituição? • Sempre tentei fazer uma gestão compartilhada, discutindo, ouvindo e convencendo as pessoas a trabalharem pelo bem comum. Quais instrumentos você utiliza na gestão da instituição? • Um dos principais instrumentos é o acompanhamento através de conversa sobre as dificuldades e a qualidade do trabalho realizado. Faço um relatório do que foi falado e dou sugestão de melhoria. Esse relatório é datado e assinado por mim e pelo servidor e, no final do ano, voltamos a avaliar e realinhar nosso compromisso. Qual sua concepção de espaço educativo? • O espaço educativo é o local onde se efetiva a aprendizagem. Deve ser motivador, criativo, dinâmico e formador. 132 Uniube Como você planeja, implementa e avalia o trabalho realizado? • O planejamento em uma instituição deve ser feito por todos os envolvidos, uma vez que todos devem saber e conhecer o caminho que iremos trilhar juntos. Precisamos sempre avaliar para não perder o foco e a meta a ser alcançada. Qual o papel da equipe no processo de gestão? • O papel da equipe é primordial, uma vez que são corresponsáveis pelo planejamento, implementação e resultado da instituição. Como você articula os diferentes segmentos da instituição na realização da atividade? • Essa é a habilidade mais importante em um líder: saber contornar os conflitos. Creio que a melhor atitude é a transparência, a lealdade e o respeito entre os servidores e seu líder. • Quando falei sobre enxergar além do horizonte é bem isto: o líder deve anteceder aos obstáculos e levar a equipe a contorná-los da melhor maneira possível. Quais as maiores dificuldades em gerir a instituição? • Tomar decisões num contexto de restrições, pois nenhuma organização dispõe de todos os recursos. Quando dependemos de uma outra esfera, a autonomia fica prejudicada. Que fatores internos e externos interferem na gestão? • Não podemos deixar nenhum fator,externo ou interno, interferir em nossa gestão. Problemas todos nós temos, pessoas difíceis encontramos em todos os lugares, pessoas desmotivadas, idem. O importante é contornar tudo e não perder o foco Para você, quais são as palavras-chave para se obter uma gestão de sucesso ? • Ter objetivo; motivar as pessoas; ser leal; ter postura ética; ser exemplo; saber ouvir; ter visão; ser aberto às mudanças; ter autoridade; servir. • Tem um pensamento que sempre leio: “Pensamentos tornam-se ações, ações tornam-se hábitos, hábitos tornam-se caráter, e nosso caráter torna-se nosso destino”. Uniube 133 Considerações finais3.6 Percebeu a diversidade e a riqueza das experiências vivenciadas pelos nossos entrevistados? Muito legal, não é mesmo? Com certeza. E elas existem. É porque existem pessoas que acreditam, vão e fazem. Muito já foi feito nesse processo de redemocratização da gestão, mas muito ainda há que se fazer. 4 Gestão educacional: a articulação das demandas da comunidade e a ação das pessoas no processo de gestão Uniube 137 Introdução4.1 Vamos dar início ao último capítulo do nosso estudo sobre Gestão educacional? Esperamos que você esteja gostando dessa viagem extraordinária pelo universo da gestão aplicada à educação. A partir de agora vamos tratar de um assunto fundamental num curso de formação de gestores escolares: a função social da escola. Surgimento da escola e seu papel no mundo contemporâneo4.2 Nosso alvo será a escola pública, escola que atende à maioria da população e à qual compete cumprir o direito à educação, garantido legalmente a todos os cidadãos brasileiros. Sabemos que a escola é fundamental na vida dos cidadãos e, consequentemente, representa papel importante no desenvolvimento das sociedades. A fim de compreender a função social da escola, é necessário situá-la na atualidade, e, ao mesmo tempo, analisar os diversos papéis desempenhados por ela ao longo da história. Numa primeira análise, verificamos que, mesmo exercendo a tarefa básica de possibilitar o acesso ao conhecimento, sua função social sofre modificações decorrentes da história vivenciada em cada sociedade, em cada país ou região. Uma coisa é certa: mesmo com todas as modificações sofridas histórica e socialmente, a escola é institucionalizada como locus da socialização do conhecimento, ou seja, lugar onde o conhecimento universalmente construído é comunicado às novas gerações que, por sua vez, devem ser preparadas para dar continuidade a essa construção social. Dessa forma, podemos ressaltar a importância da escola como instituição que, pela socialização e construção de saberes, tem papel fundamental no pleno desenvolvimento dos seres humanos, na preparação para a vida cidadã e na qualificação para o trabalho, princípios garantidos pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 138 Uniube Mas, sabemos que a escola da contemporaneidade se encontra diante de transformações sociais que exigem a assunção de um novo posicionamento, de definição de novas concepções sobre o ensinar e aprender, de uma nova formação humana que corresponda às necessidades que emergem da atualidade, aspectos que serão mais bem discutidos nas próximas unidades. Legalmente, no Brasil, não se concebe mais uma escola que exclui a maioria da população, nem uma escola que apenas dá acesso a todos os alunos, mas que, fundamentalmente, acolha-os e os faça seguir aprendendo. A par disso, para empreendermos nosso estudo, faremos, inicialmente, uma retomada histórica, a fim de contextualizarmos a escola que temos hoje. É sabido que a escola brasileira do século XIX ao início do século XX foi uma escola para poucos, privilegiando as camadas elitistas da sociedade, principalmente os homens. Nesse período, a legislação nacional atribuía à instrução primária um caráter gratuito e de acesso a todos, como demonstra Jelvez (2012, p. 102). A Constituição de 1934 é de tendência democratizante, pressupõe a gratuidade e a obrigatoriedade de todos osníveis de ensino e afirma que o Estado deve garantir a expansão educacional. A de 1937 foi produzida por tecnocratas e tem abordagem antidemocrática, pois desobriga o Estado de seu papel de responsável pela manutenção e pela expansão do ensino, e prevê um ensino público pago, com a cobrança de taxas desde o ensino elementar. Já a Carta Magna de 1946, tem uma perspectiva liberal, retoma o papel do Estado como responsável pela educação e afirma a gratuidade do ensino primário. Vale destacar que, apesar de a primeira Constituição Federal brasileira ter sido promulgada no início dos anos 30, somente em 1946, conforme Jelvez (2012, p.103), foi aprovada a primeira lei que regulamentava Uniube 139 o ensino primário e esta trazia os seguintes objetivos: “desenvolver a personalidade do aluno, prepará-lo para a vida familiar e cultural e iniciá- lo ao trabalho”. Percebe-se, nesses objetivos, o caráter democratizante da lei, que trazia implícitos os ideais da sociedade daquela época, que já requeria uma sociedade democrática, participativa e ativa e uma escola na qual todos tivessem acesso. Mas, essa condição não se concretizou plenamente até os dias atuais. Conforme Gatti (2009, p.35), “o sucesso escolar de crianças e jovens é um problema ainda em evidência no país, uma meta não atingida de forma suficiente”. A partir desses princípios e pela urgência de se organizar o ensino no Brasil, os sistemas estaduais de ensino foram se aparelhando e, mais tarde, em 1961 foi promulgada a primeira LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024/61. Vejamos como essa lei define os fins da educação brasileira no nível primário e no grau médio. Art. 1º A educação nacional, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por fim: a) a compreensão dos direitos e deveres da pessoa humana, do cidadão, do Estado, da família e dos demais grupos que compõem a comunidade; b) o respeito à dignidade e às liberdades fundamentais do homem; c) o fortalecimento da unidade nacional e da solidariedade internacional; d) o desenvolvimento integral da personalidade humana e a sua participação na obra do bem comum; e) o preparo do indivíduo e da sociedade para o domínio dos recursos científicos e tecnológicos que lhes permitam utilizar as possibilidades e vencer as dificuldades do meio; f) a preservação e expansão do patrimônio cultural; g) a condenação a qualquer tratamento desigual por motivo de convicção filosófica, política ou religiosa, bem como a quaisquer preconceitos de classe ou de raça. 140 Uniube [...] Art. 25. O ensino primário tem por fim o desenvolvimento do raciocínio e das atividades de expressão da criança, e a sua integração no meio físico e social. Art. 26. O ensino primário será ministrado, no mínimo, em quatro séries anuais. [...] Art. 33. A educação de grau médio, em prosseguimento à ministrada na escola primária, destina-se à formação do adolescente. Art. 34. O ensino médio será ministrado em dois ciclos, o ginasial e o colegial, e abrangerá, entre outros, os cursos secundários, técnicos e de formação de professores para o ensino primário e pré-primário. Você consegue perceber como há uma tentativa de organização da educação brasileira? Concordamos com Jelvez (2012, p. 119) quando afirma que “A educação adquiriu certos contornos legais mais estáveis, que definiram as finalidades, as modalidades e as competências do ensino no Brasil”. Mas, ainda nesse período, mesmo tendo uma legislação que organizava o ensino brasileiro, muito ainda precisava ser feito quanto à expansão de vagas e à qualidade do ensino. Além disso, nos anos 60, muitos fatos ocorreram e interferiram na educação. Conforme Romanelli (1995), em 1964, a reviravolta política provocada pela ditadura militar trouxe algumas reformas educacionais que foram implantadas a partir de duas novas Leis, a Lei nº 5.540/68 que tratava da reforma universitária e a Lei 5.692/71 que reformou o ensino primário e secundário, instituindo o ensino de 1º e 2º graus, ampliando a obrigatoriedade de escolarização de quatro para oito anos, ou seja, todo o ensino de 1º grau era, a partir de então, obrigatório e de responsabilidade do Estado. Tal obrigatoriedade fez crescer a massa escolarizável (crianças e jovens em idade entre 7 e 14 anos), mas problemas sérios referentes à qualidade da educação começaram a se manifestar. Uma dicotomia no campo educacional era visível, pois a qualidade da educação brasileira não acompanhava sua expansão quantitativa. Uniube 141 Como consequência, o fracasso escolar das crianças e jovens passou a ser uma realidade, fato que os historiadores explicam, pela falta de estrutura das escolas, pela dificuldade que os professores tiveram frente à nova demanda de alunos, vindos de diversas classes sociais, diferentes da clientela que até então frequentava a escola pública. Mas, não podemos deixar de destacar o ganho histórico, positivo, produzido nesse período, a saber, o grande número de crianças que passou a frequentar a escola. Essa universalização não garantiu o sucesso escolar da demanda de alunos e alunas, pelo contrário, muitos fracassaram e uma cultura de reprovação e evasão começou a se instalar na educação brasileira, deixando, dessa forma, uma marca negativa no campo educacional e um problema de grandes proporções para ser resolvido ainda nos dias atuais. Recorremos a Penin e Vieira (2009, p. 29) que afirmam: Todos esses problemas e muitos outros trouxeram para os dias de hoje uma série de impasses. Em 1996, perto de 29 milhões de pessoas (28.525.815, para sermos mais precisos) na faixa de 7 a 14 anos estavam na escola. Este número parece elevado, mas é preciso lembrar que, segundo mostrou a contagem da população, realizada pelo IBGE, constatou-se que ainda havia 2,7 milhões de crianças dessa faixa etária fora da escola. É uma situação que continua a nos envergonhar perante o mundo. Apesar do muito já realizado do ponto de vista da oferta escolar, como disse há alguns anos Bernadete Gatti, especialista em educação, o Brasil tem uma população jovem, iletrada e em movimento. O País está longe de poder afirmar que nós atingimos a igualdade de oportunidades de educação para todos. (Grifos das autoras) Pois bem, essa é uma realidade! Mas, o que podemos fazer para mudar essa realidade? O que fazer para que a educação escolar seja de fato um direito de todas as pessoas? A escola tem cumprido seu papel? Afinal, qual a função social da escola? Isso já está claro para você? 142 Uniube Esse é um dos grandes desafios educacionais, em cada escola, em cada município ou estado e, há décadas, como podem perceber, o problema se faz presente na educação brasileira, sendo, hoje, foco da atenção das políticas públicas contemporâneas. Deixamos uma sugestão: se você é gestor ou gestora, reúna as pessoas em sua escola, coloque este assunto na pauta das discussões e tente promover ações que façam da escola um lugar onde todos possam ensinar e aprender, função primordial da escola. Ou ainda, se você não atua como gestor ou gestora, você poderia ir a uma escola e conversar com o/a gestor/a sobre essa questão, perguntando sobre a função social da escola e sobre ações que estejam sendo realizadas neste momento. Pois bem, chegamos aos tempos atuais... A Constituição Federal vigente expressa os princípios a serem seguidos pela sociedade brasileira em diferentes âmbitos da vida em sociedade e entre eles, a educação. Consulte-lhe o Capítulo III, seção I, artigos 205 a 214, que tratam sobre esse assunto. Já a LDB 9394/96 reitera os dispositivos constitucionais e orienta a organização da educação escolar brasileira em seus diferentes níveis e modalidades. E você, caro gestor/a, não deve abrir mão de conhecer profundamente essa legislação, pois o seu trabalho depende em grande parte do que diz a lei. Tanto a Constituição Federal como a LDB trazem um princípio que está diretamente relacionadoprazo, desdobrando-se depois, nos anos 60, em planejamento estratégico e planejamento operacional, referindo-se aquele à integração da análise dos fatores ambientais na definição da estratégia organizacional. O planejamento estratégico é, a partir de então, entendido como sendo “um processo de levantamento e tratamento da informação sobre o ambiente e a empresa, tendo em vista a tomada de decisão pela qual a empresa se adapte, modifique e atue sobre o contexto em que está inserida”. (CERTO, 1993). É na sequência desta função que a gestão começa (nos anos 70) a assumir-se como estratégica também, como um “processo de formulação e implantação de planos que orientam a organização” (CERTO, 1993), englobando quer o planejamento estratégico, quer as decisões operacionais e o funcionamento da organização. Uniube 5 Ainda nos anos 70, verificar-se-á, por razões várias, a crise da noção de planejamento, acusada de veicular uma visão de estabilidade, de se ter transformado num processo administrativo, que não privilegiava o desenvolvimento de novas operações ou atividades, que limitava o diagnóstico do contexto aos fatores econômicos, reduzindo, por conseguinte, a criatividade e a utilização de métodos modernos de análise estratégica. É neste sentido que Chiavenato (1999) virá profetizar, mais tarde, a “queda” do planejamento e a “ascensão” da estratégia, propondo congruentemente a separação do planejamento da estratégia, uma vez que o planejamento se apresenta como um processo baseado na análise que deve acompanhar a estratégia (e não antecedê-la), tendo sobretudo a ver com a função de controle e de coordenação de atividades para a consecução dos objetivos, ao passo que a estratégia se baseia na síntese e deve refletir sobre o que está na base da vantagem competitiva de uma organização. Atualmente, o planejamento estratégico pode ser definido como um processo intelectual que busca estruturar os caminhos que a organização deve seguir para alcançar os objetivos definidos. De acordo com Freitas, Scaff e Fernandes (2006, p.34): O planejamento estratégico tem a função de coordenar e monitorar decisões a serem executadas por diversos atores, em um processo conduzido pela alta direção da organização, mas que supõe a participação e o comprometimento de todos os envolvidos e interessados, uma vez que busca negociar e compatibilizar interesses e, ainda, que os planejadores atuem como agentes catalisadores do processo e como disseminadores do pensamento estratégico. Há diversos componentes que envolvem o planejamento estratégico. (MAXIMIANO, 2004). 6 Uniube • Missão: razão de ser da organização; reflete seus valores, sua vocação e suas competências. • Desempenho da organização: resultados efetivamente alcançados. • Desafios e oportunidades do ambiente. • Pontos fortes e fracos dos sistemas internos da organização. • Competências dos planejadores: conhecimento de técnicas, atitudes em relação ao futuro, interesse em planejar. Saiba maiS Quer saber mais sobre esses conceitos? Acesse o endereço a seguir e assista a um vídeo que ilustra os conceitos de missão, visão e valores de uma organização: https://youtu.be/63Hk4DyQqFw Um processo sistemático de planejamento estratégico é uma sequência de análises e decisões que compreende os seguintes componentes principais (MAXIMIANO, 2004): • análise da situação estratégica presente na organização. (Onde estamos? Como chegamos aqui?) • avaliação das diretrizes superiores. (Que orientação de níveis hierárquicos superiores, se for o caso, devemos levar em conta?) • análise do ambiente externo. (Quais são as ameaças e oportunidades do ambiente?) • análise do ambiente interno. (Quais são os pontos fortes e fracos dos sistemas internos da organização?) • definição do plano estratégico, compreendendo os objetivos e a seleção das estratégias da organização. (Para onde devemos ir? O que devemos fazer para chegar lá?) https://youtu.be/63Hk4DyQqFw Uniube 7 Nesse contexto, é importante salientar que o processo do planejamento estratégico é complexo e dinâmico. • Complexo: essas etapas podem ser cumpridas em qualquer ordem, ou simultaneamente, dependendo da situação e das pessoas. Em alguns momentos, o processo de planejamento estratégico pode enfatizar uma ou outra etapa. • Dinâmico: a cada momento, a situação é diferente do momento anterior. Para acompanhar a evolução de todas as variáveis que afetam a organização, as análises devem ser feitas continuamente. As decisões dos gestores criam novas situações, que precisam ser monitoradas. Assim, o planejamento estratégico é um processo contínuo e não um procedimento burocrático periódico. 1.3 A gestão estratégica no ambiente institucional: suas fases e aplicações Agora que você já estudou e já sabe o que significam gestão estratégica e planejamento estratégico, vamos, neste capítulo, conhecer melhor as suas fases. Ressaltamos que, apesar do enfoque que daremos à gestão estratégica escolar, o modelo de gestão que estudaremos a seguir, aplica-se a diferentes instituições. No entanto, faz-se necessário levar em consideração as especificidades da natureza de cada instituição. Apesar de “a literatura da gestão estratégica no setor público ser limitada e inconclusiva” (VINZANT E VINZANTIN ESTÊVÃO, 1999), é tecnicamente viável, embora com as cautelas devidas, transferir o arsenal da gestão estratégica para as escolas, facilitando a capacidade de os seus atores lidarem com a complexidade organizacional e ambiental. Estêvão (1999) sugere algumas questões que podem ser objetos de discussão e que podem contribuir para avaliar o alcance e os limites da gestão estratégica nas escolas: • qual é a nossa ambição de construir uma diferença relativamente às outras escolas? • quais os valores básicos atuais e futuros que devem ser negociados para a nossa escola? • quais são os nossos planos estratégicos no momento atual? 8 Uniube • o que fazemos melhor relativamente às outras escolas? • quais as inovações estratégicas que gostaríamos de desenvolver? • que público servimos e que público gostaríamos de servir (público potencial)? • que serviços reais e potenciais a escola disponibiliza? • quais as oportunidades e constrangimentos atuais e futuros? • que políticas devem ser estabelecidas de modo a que todas as atividades se realizem segundo a nossa estratégia e em concordância com a ambição e a filosofia da escola? • em que sentido é, a qualidade estratégica, uma propriedade multifuncional na escola? • quais os fatores-chave de sucesso da escola? • que grau de responsabilização a exigir dos diferentes atores pelos resultados da escola? • de que modo o meio afeta a escola? • como negociar as nossas fronteiras com o meio? • como integrar no projeto da escola projetos de outros setores da sociedade? • como constituir um campo interorganizacional com outras escolas? • como criar parcerias estratégicas? Considerando que um dos grandes objetivos da gestão estratégica é assegurar que as organizações no seu conjunto se articulem bem com os seus meios, e tendo em conta apenas os seus aspectos importantes quando aplicada aos estabelecimentos de ensino, as escolas podem ganhar com esse tipo de gestão, uma vez que elas são igualmente afetadas por um conjunto de fatores ambientais tão importantes como: a legislação, as mudanças de condições e políticas de trabalho, os desafios que a própria autonomia pode gerar em termos de certa competição entre escolas públicas e entre públicas e privadas, as limitações de ordem econômica, os fatores socioculturais (que incluem os símbolos de status, as orientações religiosas, os valores e atitudes da sociedade), o nível de desenvolvimento tecnológico, as ideologias e atitudes políticas face à educação. Uniube 9 Agora que já aprendemos um pouco sobre a Gestão Estratégica, podemos refletir sobre suas fases em ambiente escolar. Estêvão (1999) propõe um modelo de gestão estratégica escolarà função social da escola, temática de nosso módulo. É o seguinte princípio: Art. 206 (C.F) (BRASIL, 1998) e Art. 3º (LDB) (BRASIL, 1996) “igualdade de condições para acesso Uniube 143 e permanência na escola”. Perceba que está implícito, nos princípios estabelecidos pelas leis, um importante aspecto, a universalização da escola e, como consequência, a universalização do saber. Quando as leis destacam a universalização do acesso à escola, é preciso deixar claro que não é a escola sozinha que dará conta de cumprir este dispositivo, pois depende das instâncias governamentais, sejam municipal, estadual ou federal. Mas, como nos alerta Penin e Vieira (2009, p. 33) “a escola pode canalizar as demandas e lutas sociais da comunidade em que está inserida, particularmente no que diz respeito à busca de novas vagas para a comunidade escolar”. Quanto à permanência do aluno na escola, aí sim, esta tem um importante trabalho a realizar para que, de fato, isto seja uma realidade tanto para a escola como para o aluno, aspecto que está diretamente ligado ao trabalho do gestor escolar e sua equipe. Vejamos outro princípio fundamental, que trata da finalidade da educação, que é estabelecido tanto pela Constituição (Art. 205) como pela LDB (Art. 2º): “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Reflita, principalmente sobre a segunda parte que trata do “pleno desenvolvimento do educando”. Pense: o que isto significa para você gestor(a)? Você já pensou que tem em suas mãos, sob sua responsabilidade, um aluno ou aluna que tem o direito a um pleno desenvolvimento? Para você, qual o significado desse termo? O que você e sua escola têm feito para o pleno desenvolvimento dos alunos e alunas? 144 Uniube Recorremos mais uma vez a Penin e Viera (2009), que nos ajudam a responder a essas questões. Pleno desenvolvimento significa cuidar não apenas da tarefa de ensinar, mas de dar conta de muitas outras dimensões que fazem de cada pessoa um ser humano perfeito, completo e feliz. Imagine como a escola poderia ser diferente se, em cada momento de seu trabalho, se cada membro da equipe escolar estiver concentrado sobre a finalidade fundamental de promover o pleno desenvolvimento do educando! (p.35) (grifos das autoras). Além disso, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em seu Art. 26, afirma que: A educação deverá visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. (UNESCO, 2006). Pois bem, nossa tarefa como educadores é investida de uma grande responsabilidade, não é mesmo? Mas, não estamos sozinhos nessa luta, pois o direito fundamental à educação implica antes, um dever, ou melhor, a responsabilização do poder público, em subsidiar as escolas, gestores e professores no cumprimento de sua função social. E, se o poder público não se responsabiliza, está descumprindo a lei. Outro aspecto que queremos deixar aqui para sua reflexão é que as leis são importantes, pois organizam e regulam o sistema educativo, porém, uma lei, por si só, não provoca, nem garante mudanças, nem as melhorias necessárias para que a educação avance. E, para que isso de fato aconteça, muitos outros elementos, como por exemplo, a luta dos educadores, a não-aceitação de imposições, a busca pela democracia também são importantes nesse processo. Uniube 145 Para concluir, recorremos a Gatti (2009, p. 38) que afirma que [...] os gestores escolares, em suas formas de atuação, necessitam desenvolver e mostrar novas perspectivas quanto à escola, e a todos nela envolvidos, escolhendo e executando ações estratégicas que permitam alavancar as aprendizagens escolares, viabilizando uma concreta democratização da disseminação do conhecimento sistematizado a parcelas mais amplas da população. Função social da escola e sua relação com a sociedade4.3 Não é fácil falar sobre educação sem nos referirmos à função social da escola, melhor dizendo, ao papel que a escola desempenha na sociedade atual, pois a ela vem sendo atribuída importante tarefa de educar as novas gerações, a partir dos princípios educacionais regidos pela legislação brasileira. Até aqui, estudamos os aspectos históricos relacionados à função social da escola, principalmente os referentes à legislação brasileira que institui a organização e o funcionamento das escolas. Agora, discutiremos as concepções pedagógicas que, em cada período da história marcaram a educação brasileira e as práticas escolares, bem como a relação que esta escola estabeleceu/estabelece com a sociedade. Sabemos que educar é um processo amplo que se dá, além da escola, ou seja, ocorre em todas as instâncias sociais como na família, nas instituições de lazer, na igreja, no trabalho e o objetivo principal é transmitir às gerações valores, ideias, concepções e crenças, sobre a sociedade, sobre o mundo do trabalho, sobre o homem e as relações interpessoais, sobre a cultura, a política, a economia, a vida social. Enfim, contribuir com a humanização do homem por meio da socialização do conhecimento produzido em diferentes áreas e contextos, para que cada um que participa possa, na continuidade desse processo, dar a sua contribuição à sociedade em que vive. 146 Uniube Educação é, portanto, um processo histórico e social. É histórico, pois em cada época, em cada sociedade, dá-se conforme as normas, comportamentos e concepções vigentes; social, porque humaniza, ou seja, coloca o ser humano no mundo e o ajuda a compreendê-lo. As sociedades modernas, como bem sabemos, são divididas em classes sociais diferentes, antagônicas e conflituosas, características que resultaram das condições capitalistas (dominantes/dominados) e das relações sociais desenvolvidas nesse tipo de sociedade. Tal condição gera, conforme aponta Neves (2000), diferentes modelos educativos, baseados principalmente nas características sociais ou nos modelos de comportamentos desenvolvidos em cada grupo social. Nesse sentido, o que ocorre é que, em uma mesma sociedade, o processo educativo pode apresentar-se de forma diferente para as crianças e jovens que ocupam classes sociais também diferentes. Porém, a escola moderna, como instituição responsável por ampliar as formas de acesso à educação, e desenvolver os meios necessários para atingir os fins da educação propostos legalmente para a sociedade brasileira, teve função primordial de diminuir as desigualdades entre as crianças e jovens de diferentes classes sociais, oferecendo a todos condições iguais para o desenvolvimento social, cultural, econômico, político, além de condições de desenvolver suas aptidões intelectuais e aprender sempre. Mas, essa escola não conseguiu cumprir sua função e as oportunidades entre os sujeitos continuam desiguais, inclusive as oportunidades educacionais, pois apesar de esforços em implantar políticas públicas que contribuam para o avanço da educação, ainda estamos longe daquilo que é pelo menos desejável pela maioria dos educadores. Uniube 147 E, conforme Gatti (2009, p. 37) “os esforços, contudo, ainda não se mostram suficientes, o que levanta a questão de se examinarem fatores para a melhoria da qualidade da educação no Brasil e que não têm sido levados em conta de modo adequado e persistente. ” Sendo assim, questionamos: como a escola brasileira poderá atingir a finalidade da educação “de desenvolver o educando de maneira plena, de preparar-lhe para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”? (BRASIL, 1996).Para chegarmos a uma resposta a esse questionamento, convidamos você para um breve estudo sobre a organização pedagógica da escola, buscando conhecer sua função social a partir de diferentes abordagens teóricas. Como gestor/a, mesmo que o trabalho não se restrinja aos aspectos pedagógicos, não se pode evadir de conhecer, discutir e compreender a pedagogia, pois educar pessoas, foco principal do trabalho educativo, está diretamente relacionado a práticas pedagógicas que exigem de nós um posicionamento coerente em que os objetivos e os modos de promover o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos seja claro, intencional e efetivamente cumpridos. Reforçamos essa necessidade com Libâneo (2005, p. 16) quando diz que “aos que se ocupam da educação escolar, das escolas, da aprendizagem dos estudantes, é requerido que façam opções pedagógicas”, ou seja, que assumam um projeto educativo que leve em conta as dimensões que constituem o sujeito, a saber, dimensão física, cognitiva, afetiva, social, ética e estética e que, ao mesmo tempo enfrente a realidade social, impregnada atualmente de crises, perplexidades, pressão econômica, social, violência real e simbólica. Neste sentido, para visualizarmos melhor as principais características 148 Uniube em cada tendência, construímos um quadro (Parte 1 e Parte 2) que nomeamos Concepções e Tendências da Educação”. Ele destacamos os pressupostos teóricos sobre o ensino, aprendizagem, conteúdos, o papel do aluno, o papel do professor e o papel da escola. A construção desse quadro teve como referência Freire (1979), Libâneo (1983), Saviani (1992, 1997), Luckesi (2005), Abreu [et al.] (2003), autores que, em seus estudos, expressam a função social da escola a partir de diferentes concepções de educação. Faça uma leitura atenta do Quadro 1 que se segue. PARTE 1 PEDAGOGIA LIBERAL Tendências/ Características Tendência Tradicional Tendência Escola Nova Tendência TecnicistaDiretiva Não-diretiva Manifestações na prática pedagógica Até anos 30 do séc. XX A partir do Manifesto dos Pionei- ros da Educação (Escola Nova) liderado por Fernando Azevedo (1932) Final dos anos 60, mas se intensifica a partir de 1978 Principais re- presentantes teóricos - J. F. Herbart (1776 – 1841) – “A prática da reflexão metódica”, basea- do na clareza, na associação, no sistema e no mé- todo. - J. Dewey (1859 – 1952) – apren- der fazendo. - M. Montessori (1870 – 1952) métodos ativos e individualização do ensino. - Claparedé (1873-1940) Educação fun- cional e diferen- ciada. - Piaget (1896 – 1980) os pro- cessos de cons- trução do pensa- mento infantil. - No Brasil - Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Fernando Aze- vedo - Rousseau (1712-1778) enfatiza as- pectos da orientação não-diretiva. - Roger (1902- 1987) método não-diretivo - Skinner (1904 – 1990) Behaviorismo - Gagné (1916- 2002) Neobehaviorita – realização de pesquisas na área de tecnologia educa- cional. - Bloom (1913-1999) Taxonomia dos obje- tivos educacionais - Cosete Ramos (1941) Ensino através de Módulos Quadro 1: Concepções e tendências da educação. Uniube 149 Pressupostos teóricos sobre o ensino, o conteúdo e a aprendizagem - Baseado no ensino humanista de cultura geral, de caráter verbalista; - Conteúdos enci- clopédicos e des- contextualizados; - Valorização do intelecto, da disci- plina; - Ensinar é repas- sar os conheci- mentos de forma lógica e progres- siva; - A aprendizagem se dá pela repeti- ção, memorização dos conteúdos; - Conteúdo cien- tífico dogmático, cumulativo e quan- titativo. - Aprender é uma atividade de descoberta; uma construção pes- soal e subjetiva do conhecimento –autoaprendiza- gem; - Os conteúdos bem como as ati- vidades não são programados, ocorrem confor- me interesse do aluno; - A motivação para o ensino depende da intensidade da estimulação do problema e das disposições internas de aprender; - Valorização do aspecto psicoló- gico (testes de QI). - A forma de ensinar favo- rece o ama- durecimento emocional do aluno, a au- tonomia e as possibilidades de autorreali- zação do seu “eu”; - Aprender é modificar as próprias per- cepções sobre o conheci- mento; - As expe- riências indi- viduais dos alunos são valorizadas e as atividades acontecem conforme a realidade destes; - A motivação para a apren- dizagem parte do desejo de adequação pessoal. - A aprendizagem se dá pela modificação de desempenho; - O ensino é organi- zado em função de pré-requisitos; é um processo de condi- cionamento/re-forço da resposta que se quer obter; acontece por meio da ope- racionalização de objetivos e mecani- zação do processo; - não há preocupação com aspectos mentais do aluno, mas com o produto; - Os conteúdos são baseados nos prin- cípios científicos, manuais e módulos de autoinstrução que visam a compe- tência técnica; - para o ensino utiliza material ins- trucional como livros didáticos, apostilas, manuais. Papel do Aluno - Aluno é inibido a participar do processo, apenas recebe; é passivo, submisso, recep- tivo e sujeito a castigos; - É educado para atingir sua reali- zação pessoal a partir de seu pró- prio esforço. - O aluno é o centro do processo; - É um ser ativo, solidário, partici- pativo e respeita regras. - O aluno é um es- pectador que está sendo preparado para o mercado de trabalho e sua ativi- dade é “aprender a fazer”. 150 Uniube Papel do Professor - O professor é autoritário e deve dominar os con- teúdos (“donos do saber”). - O professor é um mero facili- tador da apren- dizagem que auxilia o desen- volvimento livre e espontâneo da criança. - O professor é um especialista em relações humanas; deve ser confiável quanto às suas ca- pacidades; deve intervir o mínimo possível na aprendizagem do aluno, pois, dependendo da forma, pode inibir e ameaçar o aluno. - O professor é ape- nas um elo entre a verdade científica e o aluno; - É um técnico responsável pela eficiência do ensino e aquele que admi- nistra as condições de transmissão dos conteúdos. Papel da Escola - Transformar o aluno em cidadão que domina a arte e a retórica; - Transmitir co- nhecimentos acumulados uni- versalmente pela humanidade; - Preparar moral e intelectualmente o indivíduo para assumir seu lugar na sociedade; - Ensinar de forma igual a todos. - Escola de- mocrática, pro- clamada para todos; - Valorizar o co- nhecimento que o aluno traz; - Estimular os alunos diferen- tes; - Adequar as necessidades individuais ao meio social; - Realizar ajusta- mento social por meio de expe- riências, em que a escola deve retratar a vida. - Preparar o aluno para desempenhar papéis sociais; - Promover o autodesen- volvi-mento e a realização pessoal; - Maior enfo- que na forma- ção individual; - Prioriza questões psicológicas em detrimento das pedagó- gicas; - Situações- problema devem corres- ponder aos interesses dos alunos; - Normas disciplinares afrouxadas. - Articula-se com o sistema produtivo para o aperfeiçoa- mento do sistema capitalista: provê a formação de indiví- duos para o merca- do de trabalho, con- forme as exigências da sociedade indus- trial e tecnológica; - Tem preocupação elevada em men- surar as aprendiza- gens dos alunos; - Visa modelar o comportamento humano. Uniube 151 Queremos destacar alguns aspectos importantes que marcaram a escola e sua função social durante esse período em que predominou a Pedagogia Liberal. Veja que há diferenças conceituais entre o que propõe a Tendência Tradicional e as outras tendências, apesar de todas elas centrarem-se no desenvolvimento individual, justificando que esse desenvolvimento pessoal gera o desenvolvimento das sociedades. E, como aponta Porto (1987, p. 40 -41): Enquanto a escola tradicional é julgada como aquela adequada aos sistemas sociais estáveis, cujacontinuidade do status quo é desejada, a escola nova é apropriada às sociedades em desenvolvimento, que necessitam de espíritos empreendedores e adaptados às mudanças aceleradas [...]. Mais do que as anteriores, a pedagogia tecnicista se adequa às necessidades de preparação de mão de obra para o processo industrial [...] reproduzindo, no âmbito da escola, a mesma relação de dominação presente no sistema econômico [...] A autora ainda nos revela, Nas sociedades industriais modernas, colocam- se inevitavelmente as questões do desenvolvimento econômico e da preparação do indivíduo para ocupar postos de trabalho. Na escola liberal, que se preocupa prioritariamente com o desenvolvimento cultural do indivíduo, a formação profissional é uma preocupação secundária, pois há uma crença generalizada de que a colocação do indivíduo no mercado de trabalho corresponde ao seu desempenho na escola, tendo como inquestionável o fato de que o êxito profissional também se liga à capacidade do indivíduo e a seu esforço pessoal [...] (PORTO, 1987, p.40). Assim, a Educação Liberal iniciou-se com a Tendência Tra¬dicional e, conforme Luckesi (2005), por razões de recomposição da supremacia da burguesia, evoluiu para a Tendência da Escola Nova, o que não significou a substituição de uma pela outra, pois ambas conviveram e convivem na prática escolar. 152 Uniube Mais tarde, em meados do século XX, para atender à necessidade de mão de obra do país, desenvolveu-se a Tendência Tecnicista, também de caráter liberal, cuja função social da escola era preparar os indivíduos para o mercado de trabalho em plena expansão. Essa preparação deveria ser racional, eficiente e produtiva, como bem desejava a sociedade naquele período. Por mais que, neste período da educação brasileira, a escola tenha assumido a função de equalizadora de oportunidades, sendo propagada como um direito de todos e um dever do Estado, sabemos que não conseguiu cumprir a sua função e, continuou a serviço do “processo capitalista de produção, em que a dominação e a exploração de uma classe por outra é fundamental para a acumulação e expansão do capital”. (PORTO, 1987, p.42). Esse modelo resultou, nos anos 80 e 90 do século XX, em elevados índices de reprovação e evasão escolar e a propagação da cultura do fracasso vivida pelas crianças das classes mais baixas da população, as quais eram tidas como responsáveis por esse fracasso. Neste sentido, o que os críticos da Educação Liberal apontam é que, seja qual for a tendência assumida por essa escola, é uma tendência que busca manter o status quo, é domesticadora, de inculcação ideológica de que se vence pelo mérito e este leva ao desenvolvimento e progresso de uma sociedade competitiva e individualista. Esvaziou a escola do conteúdo necessário à humanização dos alunos e alunas. Nosso quadro ainda não terminou. A seguir, abordaremos a Pedagogia Progressista, para quem, numa visão crítica da educação, a escola tem função transformadora, voltada para o desenvolvimento humano numa perspectiva emancipatória. É uma tendência reconhecida pelo seu papel ativo na transformação da sociedade, tanto dos condicionantes históricos e sociais como da prática social a que está relacionada. Uniube 153 Leia, com atenção, o Quadro 2, e conheça as principais características de cada tendência pedagógica. Parte 2 PEDAGOGIA PROGRESSISTA Tendências/ Características Libertária Libertadora Critico-social dos conteúdos Manifestações na prática pedagógica - Antiauto- ritarismo e autogestão da educação - 1964 - Originou-se do Movimento de Cultura Popular em Recife (Paulo Freire) - Educação de Adultos - Círculo de Cultura - Centro de Cultura - 1979 – marco teórico - A prática pedagógica pro- põe uma interação entre conteúdo e realidade, visan- do a transformação social; - Tem enfoque no conteúdo como produção historicos- social de todos os homens. Principais representantes teó- ricos - Freinet (1896- 1966) Educação pelo trabalho e pedagogia do bom- senso. - Maurício Trautemberg (autogestão institucional) - Paulo Freire - Moacir Gadotti - Rubem Alves - Demerval Saviani, Jamil Cury, Gaudêncio Frigotto, Luiz Carlos de Freitas, Acá- cia Z. Kuenzer, José Carlos Libâneo - Autores internacionais: Marx, Gramsci, Snyders, Mancorda, Makarenko, Suchodolski. Pressupostos Teó- ricos sobre o ensi- no, o conteúdo e a aprendizagem - Questiona- mento da ordem social; - Preocupação com a educa- ção política e a liberdade; - Ensino deve desenvolver todas as dimen- sões da criança: mental, física, intelectual ou afetiva; - Rejeição a toda e qualquer forma de go- verno. - Regida por uma concepção dialética em que educador e educando aprendem juntos, orientados pela teoria; - A educação é um ato político; é problemati- zadora e conscientiza- dora para a formação do homem autônomo social e intelectual- mente, capaz de inter- vir na realidade; - Os temas geradores (conteúdos) advêm da problematização da prática social dos estudantes - A ação educativa pressu- põe uma interação entre o ato político e o pedagógico; - Pressupõe uma práxis educativa que se revela numa prática fundamentada teoricamente; - Os conteúdos culturais universais são reavaliados constantemente; devem revelar a realidade concreta de forma crítica e explici- tando as possibilidades de atuação do sujeito no pro- cesso de transformação da realidade; - Aprender pressupõe toma- da de decisão. Quadro 2: Concepções e Tendências da Educação. 154 Uniube Papel do Aluno - É livre e de- senvolve uma relação basea- da na autoges- tão e no antiau- toritarismo; - Atua em grupo e ajuda-o a desenvolver- se como tal, auxiliando no desenvolvimen- to de um clima grupal em que seja possível aprender e superar obstá- culos. - O aluno é sujeito e é sujeito do ato de conhecer; participa da vida em grupo; - Se reconhecem como sujeitos histori- cossociais, capazes de transformar a rea- lidade. - Sujeito ativo; - Ser concreto, sócio-his- tórico; - Sujeito da aprendizagem. Papel do Professor - O professor é um orientador, catalisador que realiza reflexões em comum com os alunos; - auxilia os alunos na des- coberta e utili- zação de dife- rentes métodos de pesquisa, ação, e obser- vação . - O professor é o coor- denador de debates e em sua ação deve es- tabelecer uma relação horizontal, adaptando- se às características e às necessidades do grupo. - O professor é autorida- de competente, direciona o processo pedagógico; interfere e cria condições necessárias à apropriação do conhecimento enquanto especificidade da relação pedagógica. Papel da Escola - Desenvolver mecanismos de mudanças institucionais e no aluno, com base na parti- cipação grupal, onde ocorre a prática de toda a aprendiza- gem; - Exerce influên- cia na persona- lidade do aluno; - Instituição que resiste à bu- rocracia como instrumento de ação dominador e controlador do Estado. - Formação de cons- ciência política do aluno para transformar a realidade; - Problematizar a realidade, as relações sociais do homem com a natureza e com os outros homens, visan- do a transformação social. - Escola é espaço social em que se dá a apropriação do conhecimento historicamen- te produzido; - Lugar de socialização do conhecimento e compreen- são deste como instrumento social de transformação da realidade. Uniube 155 Como você deve ter percebido, a Pedagogia Progressista faz contraposição à Pedagogia Liberal, pois ao contrário desta última, que tenta manter o status quo, é uma Pedagogia que atua pela transformação da realidade. A escola se organiza tendo em vista um aluno concreto, que faz parte de uma realidade concreta, cuja desigualdade social interfere em suas escolhas, aspirações, interesses, projetos de vida. Mas, mesmo sendo condicionada aos aspectos sociais, políticos e culturais da sociedade, existe nela um espaçoque sinaliza a possibilidade de transformação social. É notável que há uma mudança no direcionamento do ensino, que procura levar o aluno a desvendar e a compreender as relações sociais opressivas que permeiam a sociedade de classes, tendo em vista a construção de um projeto social de transformação. (LIBÂNEO, 2005). Nesta perspectiva, a educação, antes de cunho cultural, passa a ser política e, com isso assume uma abordagem crítica sobre a sociedade, deixando assim o seu caráter domesticador e assumindo um caráter emancipador que se concretizará na humanização dos sujeitos, processo que se dá pela aquisição de conhecimentos. Libertadora, Libertária ou Critico-social dos Conteúdos, a Pedagogia Progressista reúne tendências que entendem a educação como processo que possibilita a compreensão da realidade historicossocial e explicita o papel do sujeito construtor/transformador dessa realidade. Entre os educadores que defendem essa concepção, há consciência de que a Escola Progressista não tem condições de, sozinha, transformar a realidade, mas acreditam que ela pode desempenhar duas importantes funções sociais: a primeira é fornecer aos alunos, principalmente à massa popular, o domínio dos conhecimentos historicamente construídos pela 156 Uniube humanidade e que são, na contemporaneidade, muito valorizados; e a segunda função é possibilitar aos alunos formas de desvendar as relações de opressão e dominação que lhes são inculcadas pela sociedade, de modo que possam se envolver na luta por um projeto social, mais humano, mais justo e solidário. Vamos a Libâneo (2005) que nos ajudará a compreender melhor esse movimento. Segundo o autor, no contexto da “pós-modernidade”, predomina a ideia de mudança dos paradigmas da educação. Essa concepção contemporânea no campo educacional reforça o papel da escola como propulsora da transformação social e da emancipação dos sujeitos e faz a crítica aos padrões considerados rígidos da modernidade, rompendo com a lógica positivista, tecnocrática e racionalista de conhecimentos padronizados e verdades absolutas que foram (ou ainda são?) praticados pela escola. Vivemos um período de mudanças marcado por incertezas, diversidades, fragmentação, e ainda por subjetividades e novas identidades, saber/poder, multiculturalismo, conceitos que encontramos em forte expansão nas práticas educativas contemporâneas e que também caracterizam a nova sociedade denominada por muitos de sociedade do conhecimento. Mas, o que mudou? A sociedade do conhecimento é outra sociedade diferente da sociedade que sobreviveu da agricultura, da manufatura ou da indústria? A resposta a essa pergunta é sim e não. Não, porque em nossa sociedade, agrícola e industrial continuam se expandindo e fortalecendo nossa economia. Sim, porque, conforme Squirra (2005), a sociedade atual tem uma nova configuração cuja informação, gerada pelas novas e Uniube 157 avançadas tecnologias, ganhou centralidade e passou a ser sua atividade principal. Somos inundados por informações o tempo todo, e essas, que muitas vezes chegam até nós em tempo real, têm modificado a nossa relação com o conhecimento, que passa a ser cada vez mais requisitado em qualquer área de desenvolvimento. Sabemos que essa discussão sobre a sociedade do conhecimento é muito mais ampla e profunda. Mas, uma coisa é certa, os princípios que caracterizam essa sociedade como globalidade, centralidade da informação, competitividade, trazem em si as modernas e evolutivas práticas de ordenamento e práxis da economia, da política, da cultura, da educação e de outras áreas de desenvolvimento. Tais princípios modificam as relações sociais, institucionais e pessoais que exigem dos indivíduos nova visão de mundo, de homem, de sociedade, de educação. Uma sociedade do conhecimento necessita de uma nova escola que saiba ensinar e aprender de uma forma diferente, mais dinâmica, mais viva e significativa, pois a sociedade, o mundo do trabalho não espera de um jovem apenas um diploma, mas a excelência de um saber que transite entre o conteúdo e a forma como este deve ser aplicado. (PENIN e VIEIRA, 2001). Tudo isso mexeu muito com a escola, por isso ela necessita também de uma nova configuração que lhe será possível, a partir de um novo posicionamento de todos aqueles que lidam diretamente com a educação. É consenso entre os educadores e pesquisadores, que esse movimento intenso da sociedade, consequência dessa relação entre informação, conhecimento, mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais, gerou uma crise na escola, como bem nos coloca Libâneo (2005, p.16). Os educadores, tanto os que se dedicam à pesquisa quanto os envolvidos diretamente na atividade docente, enfrentam uma realidade educativa imersa em perplexidades, crises, incertezas, pressões sociais e econômicas, relativismo moral, dissoluções de crenças 158 Uniube e utopias. [...] Talvez a ressonância mais problemática disso se dê na sala de aula, onde decisões precisam ser tomadas e ações imediatas e pontuais precisam ser efetivadas visando promover mudanças qualitativas no desenvolvimento e na aprendizagem dos sujeitos. É nessa perspectiva que os educadores necessitam se comprometer, pois a atuação no campo da educação, enquanto prática social de humanização das pessoas sugere responsabilidade social e ética de fazer escolhas adequadas, coerentes e plausíveis às necessidades dos educandos, pois: [...] escola existe para formar sujeitos preparados para sobreviver nesta sociedade e, para isso, precisam da ciência, da cultura, da arte, precisam saber coisas, saber resolver dilemas, ter autonomia e responsabilidade, saber dos seus direitos e deveres, construir sua dignidade humana, ter uma autoimagem positiva, desenvolver capacidades cognitivas para se apropriar criticamente dos benefícios da ciência e da tecnologia em favor do seu trabalho, da sua vida cotidiana, do seu crescimento pessoal. (LIBÂNEO, 2005, p. 17). Dessa forma, a escola é cada vez mais requerida pelos cidadãos, pois sua função social para com seus alunos e alunas é fator determinante no seu desenvolvimento pessoal e profissional. Além disso, as transformações que marcam a sociedade têm gerado novos campos de saberes e, em cada campo, é gerada uma torrencial fonte de novos conhecimentos que são os maiores aliados, sobretudo dos jovens, no enfrentamento dos dilemas sociais. O conhecimento passa a ser a mola propulsora das sociedades e a escola torna-se cada vez mais importante em seu papel de auxiliar o aluno na busca e apropriação deste conhecimento. Uniube 159 E, conforme aponta Penin e Vieira (2001, p. 48): [...] os conhecimentos sistematizados não estão mais reunidos unicamente nas bibliotecas, nem o acesso a eles se dá apenas nas salas de aula. Devido aos avanços tecnológicos e referentes à informação no mundo contemporâneo, o conhecimento circula em complexas redes, sendo veiculado não apenas pelos meios tradicionais de comunicação (rádio, jornais, revistas, televisão etc.) como também pelo computador e, sobretudo, pela internet. É dessa nova configuração social que estamos falando e a escola necessita assumir uma postura que inclua a circulação do conhecimento por essas vias, o que muda a configuração da sala de aula, da relação professor/aluno, da relação escola/conhecimento e outras relações que se estabelecem neste contexto. Você deve estar consciente de que a escola contemporânea deve ter uma nova configuração para que, de fato, possa cumprir sua função social, pois continua sendo, para muitos, a via de acesso ao conhecimento já que este, pela forma atual de socialização (via computador, internet, redes sociais...) pode ser inacessível a uma grande parcela da população. E, a par disso, a perspectiva democratizante da escola exige uma nova organização de sua gestão administrativa, financeira e pedagógica a fim de que possa exercitar sua função social de preparaçãodo aluno (acesso, permanência e ensino de qualidade) para desenvolver-se plenamente e enfrentar a complexidade que a vida social e o mundo do trabalho nos colocam, hoje. Que tal, agora, você assistir a uma videoaula que concatena o que discutimos, até aqui, no capítulo 4? Assista-a com atenção, pois nela discute-se a função social da escola, estabelece-se um paralelo entre a Pedagogia Liberal e Progressista, confrontando esses dois modelos com as demandas atuais da sociedade. Espero que você curta bastante! 160 Uniube Uma escola democrática para a contemporaneidade 4.4 A escola tem a tarefa de promover seus alunos a níveis cada vez mais elevados de conhecimentos, tanto os escolares advindos das disciplinas como aqueles relativos à cidadania, à cultura, ao mundo do trabalho, à política e a outros. É a construção de conhecimentos que levará os alunos a patamares cada vez mais elevados de criticidade e de engajamento na luta por uma sociedade melhor, mais justa, mas solidária para com seus partícipes. Esse não é um papel apenas da escola, mas, como instituição social responsável pela socialização do conhecimento universalmente construído e pela formação do sujeito, ou seja, pelo seu processo de humanização, a escola tem importante função como já vimos até agora em nosso estudo. Paro (2007, p. 33), ao referir-se à escola e sua função educativa, faz a seguinte afirmação: Uniube 161 No contexto de uma sociedade democrática, a função da escola sintetiza-se na formação do cidadão em sua dupla dimensão: individual e social. Enquanto a primeira dimensão exige a assunção do homem como sujeito (autor, portador autônomo de vontade), a segunda assume a necessidade de convivência livre entre os sujeitos individuais e coletivos. A qualidade da educação oferecida deve referir-se, portanto, à formação da personalidade do educando em sua integralidade [...]. Assim, entendemos que essa forma democrática de ensinar e de aprender é o caminho para alcançar o desenvolvimento integral dos alunos e alunas e promover a sua condição de sujeito participante da vida em sociedade. Canário (2002, p.19), ao discutir sobre o futuro da escola, afirma a necessidade de transformá-la num espaço em que “se ganha gosto pela política, isto é, onde se vive a democracia, onde se aprende a ser intolerante com as injustiças e a exercer o direito à palavra, usando-a para pensar o mundo e nele intervir.” Mas, atuar democraticamente é algo que não estamos acostumados. Ao contrário, ainda estamos aprendendo a ser democráticos, concorda? Ruiz (2009) demonstra que, nas últimas décadas, em decorrência do processo de democratização da sociedade brasileira a partir de 1984, pós-regime totalitário, muito tem-se pesquisado e escrito sobre a democracia na gestão das escolas públicas. Argumenta que a escola é um organismo dentro de uma sociedade democrática e precisa estar aberta à participação de toda a comunidade e não centralizada nas mãos de uma pessoa ou de um grupo, como historicamente ocorreu. Democracia é, atualmente, um valor considerado necessário para a vida em sociedade, expresso na legislação como um direito constitucional de todos os cidadãos. 162 Uniube Viver a democracia em nosso cotidiano é um processo complexo que envolve acatar a participação, a opinião e os desejos de outras pessoas contrapostos aos nossos e, com isso, há necessidade do entendimento e do consenso para que a convivência seja saudável. Sacristán (1999, p. 57) define democracia como “um conjunto de procedimentos para poder conviver racionalmente, [...] porque acima do poder soberano do povo já não há nenhum poder. São os cidadãos livres que determinam a si mesmos como indivíduos e coletivamente”. Dessa forma, viver numa democracia implica a possibilidade de uma sociedade mais justa para todos, incluindo aí o processo educativo, ou melhor dizendo, a educação formal oferecida nas escolas, que é direito já garantido. Democracia não se recebe pronta, constrói-se. Portanto, é um processo que, à medida que os princípios democráticos (liberdade, igualdade de condições, participação, colaboração, compartilhamento, direitos e deveres, entre outros) vão sendo concretizados, esta vai se institucionalizando e, aos poucos, legitimando-se em uma sociedade, em uma escola e em outras instituições sociais. Se desejamos uma sociedade democrática, a escola também deve seguir estes mesmos princípios, ou seja, em seu interior, a participação, a colaboração, a igualdade e outros princípios também devem ser vividos para conquistarmos os bens culturais a que temos direito, pois segundo Penin e Vieira (2001, p.72) “a escola é um lugar privilegiado onde ocorre a convivência e o acesso a esses bens. Nesse sentido, democracia e educação são inseparáveis, voltando-se para a busca individual e social daquilo que queremos ser.” (grifos das autoras). Assim, a educação numa perspectiva democrática sugere repensar e transformar muitas políticas e práticas pedagógicas atuais, pois o Uniube 163 direito à educação não se resume em ter acesso à escola, mas sim ao direito à construção e à apropriação de conhecimentos que sejam significativos, que esclareçam o mundo e que humanizem o homem em suas dimensões intelectual, moral e social. É preciso reconhecer que as práticas pedagógicas que ainda ocorrem na maioria das salas de aula não conseguem garantir o respeito a esses direitos e nem promover uma transformação da escola e da vida dos alunos e alunas. Mas, é preciso reconhecer também que já existem experiências exitosas como a da professora Cristina, citada anteriormente, que buscam promover alunos e alunas à sua condição de sujeito numa sociedade democrática. Pois bem! Que tal você assistir a um filme? Isso mesmo, prepare uma pipoca, compre um refrigerante e assista a uma dessas opções. Os dois filmes sugeridos ilustram essa nossa discussão sobre a educação numa perspectiva democrática. 1) Serafina – O som da liberdade O filme é uma ótima dica para curiosos e educadores pelo tempo e espaço históricos de sua trama: a África do Sul de 25 anos atrás, próximo da reta final do apartheid. Na trama, vemos uma professora (Whoopi Goldberg) que tem uma relação definitiva com os estudantes por sua coragem em compartilhar a verdadeira história de seu povo e enxergar em cada um dos jovens a esperança de um futuro melhor para a África. 2) Sociedade dos poetas mortos Esse filme fala de um estado além da educação formal, em que um professor abre a cabeça do estudante para empurrar informações, condicionando-o às necessidades do sistema. Fala antes de uma Educação com “E” maiúsculo, em que o aluno é capaz de aprender a pensar e, mais que isso, sentir a vida como uma dádiva, como um momento mágico. 164 Uniube 4.5 A gestão democrática, liderança e os mecanismos de integração com a comunidade No decorrer deste livro, prezado(a) aluno(a), discutimos sob diferentes perspectivas como a gestão educacional evoluiu à medida que as demandas sociais se transformaram. Certo? Estamos próximos de terminar o nosso estudo sobre gestão educacional, porém ainda nos falta aprofundar mais nessa questão da gestão Democrática na escola, especialmente da proximidade do gestor escolar com a comunidade. Quando discutimos a educação na contemporaneidade, estamos falando de uma nova escola, uma escola que atenda aos anseios de uma nova sociedade, muito mais dinâmica e integrada às necessidades atuais, seja no campo da educação, da cultura, da tecnologia, da política e outros. A tarefa da escola atualmente, mesmo estando ligada à transmissão/apropriação do conhecimento universal construído e de outros bens culturais, não se cumpre sozinha, pois esta faz parte de um amplo contexto social que inclui gestores, professores, famílias, empresas/empresários, políticos e outros atores sociais e instituições que compartilham com a escola. Por isso, a escola deixa de ser uma instituição que lidaapenas com o conhecimento e passa a ser um importante espaço de socialização, de criação, de descobertas, aspectos pouco valorizados até então. É neste sentido que queremos discutir a relação, ou melhor, a interação escola e comunidade que, segundo Libâneo (2004, p. 137), ajuda a “superar as formas conservadoras de organização e gestão, adotando formas alternativas, criativas, de modo que aos objetivos sociais e políticos da escola correspondam estratégias adequadas e eficazes de organização e gestão”. Uniube 165 Mas, vamos por partes. De que formas conservadoras de organização e gestão estamos falando? Uma delas diz respeito ao distanciamento entre escola e comunidade. É preciso desmitificar a ideia de que a escola é do diretor ou diretora; a expressão “minha escola” que se ouve de muitos diretores/as precisa ser substituída por “nossa escola”, pois a escola pública é de todos, daqueles que desempenham ali sua atividade profissional, dos alunos que necessitam do conhecimento e das formas de socialização que ela oferece, dos pais que depositam na escola a confiança na formação dos filhos e da comunidade em geral que está no entorno da escola, que necessita dos serviços que essa instituição lhes presta. Reflita! A escola em que você atua é considerada uma escola de todos? Responda sim ou não aos questionamentos abaixo. • Os pais adentram a escola quando vão deixar seus filhos para mais um dia letivo? • A escola recebe pronta e gentilmente um pai de aluno ou de um ex-aluno que necessita de uma informação ou documento? • Todas as pessoas que chegam à escola são tratadas igualmente, independente de classe social, religião, cor ou raça? • A escola é aberta à comunidade em qualquer dia, época do ano e para a realização de atividades diversas? • A diretora, secretária, supervisora, professores, funcionários recebem bem os universitários-estagiários que necessitam da escola para cumprimento de suas atividades formativas? • O Projeto Político-pedagógico, o Regimento Escolar e outros documentos referentes à organização e funcionamento da escola são acessíveis a todos? Se você respondeu que sim, PARABÉNS! A escola é de todos sim, mas se respondeu que não a um ou mais questionamentos, é preciso repensar. 166 Uniube A escola de todos, prezado(a) aluno(a), pressupõe participação. Participação não é algo simples e não se dá apenas pelo fato de alguém se fazer presente, implica no esforço de todos e na capacidade de discutir e opinar sobre as propostas, concordar e discordar até que se chegue a um consenso. Uma gestão escolar que não leve em conta estes princípios da participação coloca sua comunidade à margem da escola e o processo de interação escola X comunidade não se concretiza. Libâneo (2004, p. 139) nos esclarece que, Participação significa a atuação dos profissionais da educação e dos usuários (alunos e pais) na gestão da escola. Há dois sentidos de participação articulados entre si. Há a participação como meio de conquista da autonomia da escola, dos professores, dos alunos, constituindo-se como prática formativa, como elemento pedagógico, metodológico e curricular. Há a participação como processo organizacional em que os profissionais e usuários da escola compartilham institucionalmente, certos processos de tomada de decisões. No primeiro sentido, segundo o autor (2004, p.139), a participação leva à autonomia e a escola deixa de ser uma redoma, um lugar fechado, distante da realidade “para conquistar o status de uma comunidade educativa que interage com a sociedade civil”. Se todos têm a oportunidade de participar, de ouvir e de ser ouvido, de opinar e de questionar, vão aprendendo a tomar decisões e se responsabilizando por elas. No segundo sentido, o autor revela que a participação como processo é um aspecto inerente à natureza da escola como instituição formativa que tem objetivos próprios de levar seus partícipes à aprendizagem, ao desenvolvimento das capacidades cognitivas, sociais, afetivas, éticas e integrá-los à sociedade. É aí que reside a participação como princípio de interação entre escola e comunidade. Uniube 167 Penin e Vieira (2001) relatam sobre uma pesquisa feita na Bahia e no Ceará cujo enfoque foi a relação escola-comunidade. Os resultados revelaram que há queixas dos pais de que são chamados à escola apenas para ouvir reclamações sobre seus filhos ou ainda para receberem comunicados, algumas vezes, de decisões sobre a vida escolar dos filhos, sobre as quais sequer foram consultados. A equipe escolar também foi consultada nessa pesquisa e esta, por sua vez, reclama do desinteresse da família sobre a vida escolar dos filhos. Analisados esses dados, as autoras observaram que escola e família têm se ignorado mutuamente e ambas perdem muito com a falta de uma comunicação eficaz e de uma relação mais harmoniosa, o que acaba por se transformar em sérios problemas entre elas, como por exemplo, a impossibilidade de a escola cumprir a sua função social de formação integral dos alunos e alunas, pois, para que faça isso, necessita do apoio das famílias. Mas, sabemos que há muitos exemplos de escolas que têm descoberto formas inovadoras de relação com suas comunidades e têm transformado o espaço escolar em lugar onde as experiências são compartilhadas e o ganho é certo para a escola, para as famílias e principalmente para os alunos e alunas. É desse tipo de relação que nascem as comunidades educativas, como vimos anteriormente com Libâneo (2004, p. 142), pois estas se engajam numa mesma luta, em busca dos mesmos objetivos e “dessa forma, a organização da escola se transforma em instância educadora, espaço de trabalho coletivo e de aprendizagem.” Segundo Ruiz (2009, p. 10): A escola pode vir a contribuir com o processo de democratização social, em duas frentes: democratizando as inter-relações de seus atores 168 Uniube em seu interior e envolvendo a comunidade em seu entorno, através de reuniões que enfoquem discussões pertinentes, para que também possa participar dessa convivência democrática. Estaria, assim, trabalhando contra os processos hegemônicos para romper com sua condição histórica de mantenedora do status quo. Nesse sentido, apresentamos algumas formas de articulação entre escola e comunidade que podem contribuir com o processo de democratização social. • REUNIÕES DE PAIS E MESTRES: são encontros que ocorrem periodicamente na escola que coloca em pauta o desenvolvimento da proposta curricular da escola, o desempenho dos alunos, os projetos da escola, as necessidades da comunidade. Nessas reuniões, todos têm voz e todas as vozes devem ser respeitadas. • REUNIÕES DO CONSELHO ESCOLAR OU COLEGIADO ESCOLAR: são encontros periódicos e regulamentados pelo estatuto que rege este Conselho, dos quais participam representantes de todos os segmentos da escola e comunidade em que se discutem questões pedagógicas, administrativas e financeiras da escola. Estes conselhos têm funções deliberativas e consultivas. • REUNIÕES DA ASSOCIAÇÃO DE PAIS E MESTRES: as Associações de Pais e Mestres também têm estatuto próprio e têm por finalidade colaborar com a qualidade educacional almejada pela comunidade escolar, com encaminhamento de ações que integrem os anseios e as necessidades das famílias com a função, os objetivos e as metas da escola, principalmente no âmbito social e educativo; é de competência das APMs estabelecer e dinamizar canais de participação da comunidade no planejamento das atividades e ações da escola. • ENCONTROS COMEMORATIVOS: normalmente ocorrem próximo às datas comemorativas como páscoa, dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, natal, festa junina, festa da primavera, aniversário da escola e outras. Cada comunidade organiza estes encontros à sua maneira, conforme seus costumes e sua cultura. • ENCONTROS CULTURAIS E CIENTÍFICOS: são encontros promovidos pela escola em que equipe pedagógica, professores e Uniube169 alunos apresentam suas práticas pedagógicas e seus conhecimentos por meio de experimentos que são desenvolvidos por equipes diversas. São comumente denominados de mostras culturais e científicas, feira de ciências, feiras culturais, etc. • ENCONTROS ESPORTIVOS: são muito comuns estes encontros e neles são realizados campeonatos, gincanas, atividades de lazer em que toda a comunidade participa. • ENCONTROS DA COMUNIDADE EXTERNA: são encontros da comunidade externa como, por exemplo, as reuniões das Associações de Bairros e outras. A escola, sendo um espaço da comunidade e tendo responsabilidade por este patrimônio público, pode utilizar suas instalações para realização de encontros e eventos. • OUTRAS FORMAS DE ARTICULAÇÃO: a escola e a comunidade podem criar formas alternativas de articulação que venham beneficiar seus partícipes. Veja que as formas de articulação entre escola e comunidade são inúmeras e ainda podem ser aprimoradas pelas comunidades. Mas, precisamos deixar claro que a escola é uma unidade de um sistema educacional bem mais amplo, regido por normas, as quais devem ser cuidadosamente seguidas quando se trata dessa articulação com a comunidade. Mas, não faça dessas normas um empecilho entre a escola e a comunidade, pois a escola é um espaço privilegiado para se aprender e viver a democracia. Sendo um subsistema social (RUIZ, 2009, p. 10), tem capacidade de organizar situações nas quais seus partícipes, principalmente os alunos e alunas “argumentem e legislem, ainda que parcialmente, sobre as normas que regem esse espaço, buscando fazer com que sejam gerais e não apenas de uma minoria”. Segundo a autora, essa é uma forma de estimular a formação integral dos alunos e assim cumprir a função social da escola, de desenvolver plenamente o educando, como recomenda a LDB 9394/96, além de contribuir para a formação política argumentativa e não submissa dos sujeitos. 170 Uniube Lembre-se: você é o responsável por essa articulação necessária com a comunidade na qual a escola em que você dirige está inserida. A mobilização da equipe gestora, docentes, alunos e pais é uma de suas funções. É uma tarefa difícil e morosa, porém é preciso cumpri-la a fim de fazer avançar as discussões, reflexões e práticas de uma gestão democrática. Lembre-se, você é o líder dessa equipe. Por este motivo, o assunto que abordaremos agora é liderança nas escolas e algumas ações inovadoras de gestores líderes. Vamos lá?! Sendo gestor/a de uma escola, ou se você pretende ser um gestor ou gestora escolar, saiba que a gestão democrática da qual estamos tratando nessa unidade, requer pessoas que saibam liderar equipes que trabalham para o sucesso de uma escola. Lück et al (2008, p. 33), afirmam que os gestores escolares, atuando como líderes, são os responsáveis pela sobrevivência e pelo sucesso das escolas. Para a autora, liderança é: “um conjunto de fatores associados como, por exemplo, a dedicação, a visão, os valores, o entusiasmo, a competência e a integridade expressos por uma pessoa que inspira os outros a trabalharem conjuntamente para atingirem objetivos e metas coletivos. ” Mas, você deve estar pensando no quadro atual da maioria de nossas escolas públicas: violência, drogas, sucateamento das escolas, indisciplina, baixo rendimento dos alunos e alunas, desinteresse, falta de motivação dos docentes e discentes, burocracia excessiva, baixos salários, falta de professores, resultados das avaliações externas abaixo do esperado, famílias distantes da escola, aspectos estes que vão contra a qualidade que se deseja. Todavia, mesmo diante de tanta adversidade, é possível fazer diferente, é possível fazer mais! Os três casos que vamos apresentar agora foram premiados pelo Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar, promovido pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) em 2010. Esse Conselho Uniube 171 recebe as inscrições de escolas de todo o país e identifica e reconhece estabelecimentos escolares que desenvolvem práticas eficazes de gestão. Veja! Centro de Atenção Integrada à Criança e ao Adolescente (CAIC) Senador Carlos Jereissati, em Russas, Ceará Com o projeto Escola de Pais, a instituição promove reuniões mensais para discussão de temas como educação, sexualidade e família. Ela mantém um ativo Conselho Escolar, com representantes das comunidades, que discute soluções para os problemas e promove cursos e oficinas. O Grêmio Estudantil também proporciona uma maior participação dos estudantes no dia a dia da escola e de sua comunidade. Entre as ações, podem ser destacadas o recreio monitorado, a programação da Rádio Escola, torneios esportivos, o cinema na escola e a noite cultural. Outro projeto que aproxima os pais da escola é a Comissão de frequência escolar, formada por pais, alunos, professores e funcionários. Seu objetivo é monitorar a frequência e investigar o motivo das faltas dos alunos, até com visitas às famílias, algumas vezes com a parceria do Conselho Tutelar. O CAIC mantém várias iniciativas na área cultural, como um projeto de Coral e de Artesanato, em parceria com uma empresa privada do Ceará. No Centro de Multimeios José de Alencar, que fica nas dependências da escola, os alunos têm à disposição sala de leitura, biblioteca, laboratório de informática e sala de vídeo. O hábito de ler é estimulado por meio de projetos como o Brincando, Cantando e Contando Histórias; o Clube da Leitura Leia e transforme o mundo; o LER: Lendo e Aprendendo; o Aprendendo e Lendo e o De leitor a escritor. O colégio, que tem 1.482 alunos, sendo 338 na Educação Infantil e 1.144 no Ensino Fundamental, mantém encontros também para discutir o meio ambiente, a saúde e a qualidade de vida. 172 Uniube Colégio Estadual Menino Jesus de Praga, em Caratinga, Minas Gerais Na terra do cartunista Ziraldo, os alunos brincam de ler gibis na hora do recreio. É o Banca Passaporte para a Leitura. No Clube da Leitura, por exemplo, destinado às turmas dos 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, as crianças levam dois livros por semana para casa e conversam sobre os que mais gostaram. Outra iniciativa é o projeto Pais e Escola em Ação, uma tentativa de integrar pais, alunos, escola e comunidade. Mensalmente há palestras sobre temas como cidadania, sexualidade, solidariedade, alimentação saudável e autoestima. A escola possui outros três projetos culturais: o Recital de poesias, a Rádio Recreio MPJ e os jornais Pra ler com prazer e MPJ, estes dois últimos produzidos pelos alunos. Colégio Estadual Odorico Leocádio da Rosa, em Rondonópolis, Mato Grosso Após um esforço de aproximação junto aos pais dos alunos, houve uma redução drástica da evasão escolar, que era causada pelo trabalho das crianças juntos aos pais, em sua maioria, caminhoneiros. A gestão democrática é outro destaque na Odorico Leocádio da Rosa, que atende cerca de 850 alunos. Todo ano, a escola faz uma avaliação institucional a partir de um questionário respondido por alunos, pais, professores e funcionários. Os dados, compilados, ajudam a apontar as diretrizes anuais da instituição. O programa Atleta Cidadão, realizado em parceria com o Corpo de Bombeiros da cidade, proporciona o ensino de caratê na escola. Já o projeto Leitura na biblioteca estimula o gosto dos alunos pelos livros, com criatividade. A bibliotecária da escola incentiva a leitura através da encenação, preparando peças com os alunos. Uniube 173 E então, o que achou de cada um dos exemplos? Interessantes, não? A persistência e a crença de que uma equipe coesa e engajada pode promover mudanças é que trouxe esses resultados às escolas. Não há como negar o sucesso dessas escolas que colocam em evidência fatores como esses que acabamos de destacar. Mas, certamente, esse não é um resultado do acaso, mas de uma gestão escolar envolvida com as questões da realidade. E mais, os gestores dessas escolas são líderes que sabem articular processos de modoque as pessoas se envolvam e se sintam parte do mesmo. Recorremos a Lück et al (2008, p. 33) que afirmam que “os gestores escolares, atuando como líderes, são os responsáveis pela sobrevivência e pelo sucesso de suas organizações”. Entendemos que um bom caminho que essas escolas trilharam foi o do trabalho em equipe, mas esse trabalho não se concretiza se não houver um líder que, segundo Lück et al (2008, p. 34), seja: • facilitador e estimulador da participação dos pais, alunos, professores e demais funcionários, na tomada de decisão e implementação de ações necessárias para sua realização; • promotor da comunicação aberta na comunidade escolar; • ator como referência pessoal de orientação proativa, • construtor de equipes participativas; • incentivador e orientador da capacitação, desenvolvimento e aprendizagem contínua dos professores, funcionários e alunos; • criador de um clima de confiança e receptividade no ambiente escolar e comunitário; • mobilizador de energia, dinamismo e entusiasmo; • norteador e organizador do trabalho conjunto; • mentor e coordenador de ação de capacitação contínua em serviço como ação coletiva e de conjunto. Observe que essas características são essenciais para um gestor que tem nas mãos a responsabilidade de fazer cumprir, junto com sua equipe, a função social da escola, ou seja, possibilitar aos alunos e alunas uma 174 Uniube educação de qualidade, pautada na aquisição de conhecimentos técnicos e científicos que os ajudem a transformar suas vidas pessoais e de toda a sociedade em que vivem. O caminho para isso, como já dissemos, é moroso, difícil e requer do/a gestor/a compromisso, estudo e dedicação de modo que possa construir boas estratégias de gestão, condizentes ao Projeto Político-pedagógico da escola. Lück et al (2008, p. 35) apresentam aos gestores algumas dessas estratégias: • identificar as oportunidades apropriadas para a ação e decisão compartilhadas; • estimular a participação dos membros da comunidade escolar; • estabelecer normas de trabalho em equipe e acompanhar e orientar a sua efetivação; • transformar boas ideias individuais em ideias coletivas; garantir os recursos necessários para apoiar os esforços participativos; • prover reconhecimento coletivo pela participação e pela conclusão de tarefa. Podemos considerar que essas são boas estratégias para a gestão e que podem conduzir a um ambiente propício para a aprendizagem nas escolas, pois certamente contribuirão para a motivação das pessoas e para a realização de um trabalho conjunto, necessário a uma escola que deseja qualidade de seus serviços. Além disso, os autores que discutem a gestão da escola como Lück et al (2008), Paro (2007), Libâneo (2004) e outros, são unânimes em apontar que as escolas com interação entre os sujeitos tendem a apresentar melhores resultados, do que aquelas onde o trabalho é feito individualmente. Mediante essa perspectiva, destacamos alguns elementos que podem contribuir com o trabalho do gestor que lidera uma equipe com o objetivo de alcançar bons resultados: Uniube 175 a) Apoio: comportamento que contribui para que as pessoas que trabalham se sintam valiosas e importantes. b) Ênfase no objetivo: comportamento que estimula o entusiasmo em realizar o trabalho e produzir resultados. c) Facilitação do trabalho: remoção de obstáculos e desvios, permitindo que todos realizem seus trabalhos. d) Facilitação da interação: comportamento que viabiliza a comunicação, intercâmbio de experiências e transformação da prática de trabalho dos funcionários em uma equipe de trabalho pela troca e reciprocidade. (LÜCK et al. 2008, p.37) (grifos dos autores). Leia, novamente, a citação anterior e responda à questão: um gestor que trabalha nessa perspectiva está centrando sua ação nas tarefas ou nas pessoas? Nas tarefas? Não! Nas pessoas! Comportamento comum, segundo os autores, de gestores que concentram suas atenções no aspecto humano dos problemas que sua equipe enfrenta. Considerações finais4.6 Enfim, prezado (a) aluno (a), chegamos ao término do nosso estudo sobre gestão educacional. Esperamos que este livro tenha lhe despertado o interesse pela gestão e que os temas aqui discutidos colaborem para a sua atuação no ambiente educacional. Para concluirmos, assista à última videoaula. Nela, você terá novamente contato com o conceito de escola democrática e conhecerá os mecanismos usuais de integração da escola com a comunidade. 176 Uniube Uniube 177 Referências ABRANCHES, Mônica. Colegiado escolar: espaço de participação da comunidade. São Paulo: Cortez, 2003. ABREU, D. C. de. et. al. 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A seguir, detalharemos as etapas da gestão estratégica proposto por Carlos Estêvão (1999). Ambição estratégica Decidir em que setor ou aspecto da escola investir o esforço de todos, de modo a mobilizá-los para a produção de uma distintividade organizacional. Fonte: Estêvão (1999). Figura 1: Modelo de Gestão Estratégica. 10 Uniube Missão Discriminar os valores, as crenças, as atitudes que deem um cunho próprio ao modo como as coisas são feitas. Fins Estabelecer e coordenar políticas, isto é, linhas orientadoras dos planos de ação, de modo a integrar-se com a estratégia da escola e também com os fatores de sucesso. Objetivos São valores de uma organização expressa em expectativas futuras. Determinam o tipo de estratégia e estrutura que a escola adotará e os tipos de processos. Definem-se fins e objetivos para tornar mais eficiente à ambição da escola e a operacionalizá- la em planos que realizam a estratégia. Diagnóstico Processo para se detectar possíveis áreas em que a escola pode adquirir vantagens frente às outras escolas, assim como descobrir oportunidades e constrangimentos futuros. Ajuda a detectar os pontos de fertilidade inovadora da escola para estabelecer os fatores de sucesso. Opções estratégicas Analisar rumos estratégicos possíveis de crescimento, no sentido de ser escolhida a direção estratégica considerada mais viável e enriquecedora para a escola, mas sempre sujeita a “re-ponderação” mediante a informação fornecida pelo processo de avaliação e controle. Uniube 11 Decisão estratégica Desenvolver a estratégia selecionada, mobilizando- se conceitos, ideias e planos para realizar com êxito os objetivos propostos. Implantação organizacional e comportamental Reelaborar a estrutura organizacional para facilitar a consecução das atividades segundo a ambição, a filosofia, a estratégia e as políticas, de acordo com os recursos disponíveis. Exemplo: tornar a escola uma organização mais flexível por intermédio de equipes pluridisciplinares ou de grupos autônomos. Acompanhamento e avaliação Fornecer informações e metodologias de acompanhamento e avaliação do processo. Este modelo de gestão estratégica permite que as escolas não fiquem à mercê das mudanças das políticas educacionais, numa atitude de mera reação às contingências da sua implementação; pelo contrário, exige uma margem ampla de autonomia para atuar proativamente, desafiando os processos tradicionais de gestão em favor de um modelo normativo mais interveniente e desafiador da situação em que se encontra. Pois bem, até aqui você estudou o conceito de gestão estratégica, a sua importância e ainda as etapas do planejamento estratégico. Que tal, antes de avançar, assistir a uma videoaula sobre essa temática? Confira! 12 Uniube 1.4 Gestão estratégica no contexto educativo – a gestão gemocrática Pois bem, a partir de agora vamos juntos transportar todos os conceitos apresentados de gestão estratégica para os ambientes educacionais, escolares ou não. Vamos lá? É sabido que a educação e a garantia da escolarização constituem um direito social. Para compreender melhor esse direito, é preciso entender o que é educação e o que é escola. Por educação, entendem-se todas as manifestações humanas que buscam a apropriação da cultura produzida pelo homem. A escola, nesse cenário, é o espaço privilegiado de produção e socialização do saber e se encontra organizada por meio de ações educativas que visam a formação de sujeitos concretos: éticos, participativos, críticos e criativos. (MEC/SEB, 2012a). Ou seja, a organização escolar cumpre o papel de garantir aos indivíduos o acesso ao saber historicamente acumulado. No Brasil, várias leis foram aprovadas visando garantir diretrizes e bases para a educação nacional. Uniube 13 Essas leis interferem na lógica organizativa da escola e nos papéis dos diversos atores sociais que constroem o cotidiano escolar. Nos anos 1990, mudanças legais ocorreram no âmbito legislativo, destacando-se a aprovação das Diretrizes e Bases da Educação Nacional, por meio da Lei n. 9.394/96. Vamos conhecer mais sobre o que aborda essa lei? Tal LDB alterou o panorama da Educação Básica, que passou a compreender a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Médio. Além dessa mudança, a LDB redirecionou as formas de organização e gestão, os padrões de financiamento, a estrutura curricular, requerendo, entre outros, a implementação de processos de participação e gestão democrática nas unidades escolares públicas. A esse respeito, a Lei estabelece o princípio da gestão democrática. Pode-se entender por gestão democrática a garantia de mecanismos e condições para que espaços de participação, partilhamento e descentralização do poder ocorram. A atual LDB dispõe que: Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas de gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto político-pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares ou equivalentes. (BRASIL,1996). peSquiSando na web Acesse o endereço a seguir e estude a LDB com bastante atenção: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm 14 Uniube Desse modo, a referida Lei, ao encaminhar para os sistemas de ensino, as normas para a gestão democrática, indica dois instrumentos fundamentais: a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da escola, contando com a participação dos profissionais da educação; e a participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escolares ou equivalentes. Vídeo Acesse os vídeos da série Salto para o Futuro, a seguir, que abordam a gestão democrática na escola e o sistema educacional: PARTE I: http://www.youtube.com/watch?v=WxTNwGezqpo PARTE II: http://www.youtube.com/watch?v=k6X6QPzj0Ak Um dos documentos essenciais que na escola deve consubstanciar os aspectos estratégicos aqui referenciados é o Projeto Político-Pedagógico (BARROSO, 1992), precisamente porque nele se definem as ambições, os fins e os objetivos, se pressupõe um diagnóstico e uma avaliação das estratégias, se exprime a decisão estratégica e as prioridades de desenvolvimento. Assim concebido, o Projeto Político-Pedagógico constitui-se, de fato, num instrumento institucional de organização/gestão de médio e longo prazos, devendo incluir, por conseguinte, o diagnóstico interno e externo da situação da escola, expressar as decisões estratégicas coletivamente assumidas e os contornos da identidade procurada, sistematizar os fins e objetivos estratégicos da instituição escolar, assegurando-lhe ao mesmo tempo coerência interna e externa. http://www.youtube.com/watch?v=WxTNwGezqpo http://www.youtube.com/watch?v=k6X6QPzj0Ak Uniube 15 Analise o esquema a seguir. Diagnóstico interno e externo da escola Decisões estratégicas coletivas Construção da identidade da escola Fins e objetivos da escola PROJETO POLÍTICO- PEDAGÓGICO como ferramenta da gestão estratégica e democrática Uma das implicações desta perspectiva de Projeto Político-Pedagógico é que ele deve emergir como resultado de um processo participativo e negociado entre os diferentes atores sobre metas, valores, princípios e prioridades, enfim, sobre um futuro que se ambiciona construir, procurando refletir, deste modo, uma dinâmica essencialmente política, globalizante e flexível. Por outro lado, se a ideia de Projeto Político-Pedagógico pode articular-G. O que é uma escola para a democracia? In: Pátio – Revista pedagógica. Comunidade e escola – a integração necessária, ano 3, nº 10, p.57-63. Porto Alegre: Artes Médicas, ago./out.1999. SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice. O social e o políti- co na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1997. SASSAKI, Romeu Kazumi. 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Nesse sentido, é necessário enfatizar a importância da criação das condições e dos mecanismos de participação para que os diferentes atores sociais (pais, professores, funcionários, estudantes...) possam contribuir com os espaços de decisão e responsabilização das unidades escolares. (BRASIL, 2004). Assim, ao pensar a lógica e as dinâmicas de participação nas instituições escolares, é fundamental repensar os processos de decisão e deliberação, a organização e as condições de trabalho, os objetivos e as prioridades da instituição, a autonomia e a identidade escolar e, fundamentalmente, o papel dos diferentes atores sociais, bem como as estratégias para a implementação de processos coletivos de decisão, especialmente do Conselho Escolar. (Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica, 2004). Nessa perspectiva, é fundamental pensar a articulação entre a democratização da gestão, a autonomia e os conselhos escolares. Isso quer dizer que a gestão centralizadora que constitui o dia a dia das escolas precisa ser repensada. Para que esse cenário seja revisto, o Ministério da Educação (BRASIL, 2004), destaca alguns processos a serem articulados sem prejuízo de outros: a participação, a autonomia e os órgãos colegiados. A construção de uma educação emancipatória e, portanto, democrática se constrói por meio da garantia de novas formas de organização e gestão pela implementação de mecanismos de distribuição do poder, que só é possível a partir da participação ativa dos cidadãos na vida pública, articulada à necessidade de formação para a democracia. Diante disso, é necessário romper a estrutura autoritária de gestão e organização escolar, pela efetivação de processos e práticas de Uniube 17 participação coletiva, bem como a avaliação destas. Assim, para se garantir a gestão democrática através dos conselhos escolares (participação coletiva) é necessário: • construção coletiva de um projeto pedagógico pela escola, envolvendo os diferentes segmentos da comunidade local e escolar; • a discussão e mudanças na organização do trabalho e na gestão da escola; • a discussão e mudanças do estabelecimento de formas de distribuição do poder, assim como da vivência e construção de novas formas de relacionamento interpessoal. Nesse contexto, a efetivação da gestão democrática como aprendizado coletivo deve considerar a necessidade de se repensar a organização escolar, tendo em mente a importância desta na vida das pessoas, bem como os processos formativos presentes nas concepções e práticas que contribuam para a participação efetiva e para o alargamento das concepções de mundo, homem e sociedade dos que dela participam. (BRASIL, 2004). Paro (2001), ao analisar os elementos que tornam uma escola autoritária, com a finalidade de direcioná-la para uma gestão democrática, afirma que: A evidência da influência positiva da organização escolar sobre o comportamento das pessoas pode ser percebida quando se comparam escolas em que foram introduzidas inovações que provocaram maior democratização dos contatos humanos, com situações anteriores, em que as relações eram de mando e submissão. Em duas pesquisas de campo [...], foi possível perceber os efeitos de medidas visando à democratização do ambiente escolar, com a introdução de eleições de diretores, no primeiro caso, e com a ocorrência de uma direção mais democrática, comprometida com os interesses dos usuários, no segundo. Em ambos os casos, a partir de entrevistas e observações em campo, pôde-se constatar a melhoria no relacionamento 18 Uniube humano entre direção e pessoal escolar, entre a escola e os usuários e, principalmente, o relacionamento geral dos estudantes entre si e com os vários profissionais da escola, quer dentro quer fora da sala de aula. As pessoas, que antes eram tratadas apenas como objetos de decisão de outras localizadas em níveis hierárquicos superiores, sentiram a introdução de mudanças elevá-las à condição de sujeitos desse processo, e isso não é pouco em termos de avanço no relacionamento pessoal. Tudo isso propiciou a apropriação de valores de cidadania e o desenvolvimento de comportamentos compatíveis com a colaboração recíproca entre os homens [...]. Se o compromisso é com uma nova visão de mundo, que exige a prática para ser apreendida, o caminho parece ser precisamente este: ao mesmo tempo em que se desenvolvem conteúdos de uma concepção mais elaborada de mundo, se propiciam condições para vivê-la e aprendê-la cada vez mais consistentemente. Só assim, se pode esperar contribuir para desarticular a ideologia do mercado incrustada no dia a dia da sociedade e, em particular, no sistema de ensino. Uma das alternativas de participação dos pais na escola, apontada por Vitor Paro, em uma das escolas que fez parte da pesquisa realizada por ele em São Paulo consiste em “reunir os pais e mães de estudantes mensalmente para discutir temas diversos, ligados à educação de filhos (adolescência, televisão e drogas etc.) e não problemas específicos da escola, o que já é feito nas reuniões de Conselho de Escola, APM etc”. (PARO, 2001, p. 113). 1.5 O gestor no processo de gestão estratégica: líder e formador de equipes “Tudo quanto, pois quereis que os homens vos façam, assim também fazei-o vós também a eles...” (Mateus 7:12) Uniube 19 Você certamente já se questionou: mas se a gestão estratégica é tão importante para o sucesso de qualquer projeto, inclusive projetos educacionais, o gestor assume, portanto, um papel imprescindível, certo? Claro que sim. Não há gestão, sem que se tenha a frente um bom ... GESTOR! Falaremos dele agora! Embora a gestão estratégica tenha vindo do campo da Administração para a escola, ela não é uma questão meramente administrativa, pois a gestão envolve pessoas, e pessoas têm sentimentos, desejos, sonhos, expectativas, que devem ser levados em conta na gestão escolar. Apesar de levar em conta apenas os aspectos relacionados à remuneração e ao ambiente de trabalho, a abordagem mecanicista da Administração abriu caminho para significativos avanços no campo da motivação humana. A percepção de que a satisfação de outras necessidades humanas poderia levar a um desempenho mais eficaz e a uma vida mais sadia foi a primeira reação contra os princípios da abordagem mecanicista. Já no final dos anos 20, alguns estudos já apontavam para esta perspectiva. Preocupando-se inicialmente com a investigação das relações entre as condições de trabalho e a incidência da fadiga e monotonia entre os empregados, a pesquisa evoluiu e teve seu primeiro grande salto com a Teoria da Motivação de Maslow, que pela primeira vez apresentou o ser humano como “ser pensante” dotado de uma hierarquia de necessidades fisiológicas, sociais e psicológicas. (CHIAVENATO, 1999). Atenção especial foi dada à ideia de que transferindo responsabilidade, autonomia e dando reconhecimento aos empregados poder-se-ia atingir resultados muito significativos, dando uma alternativa à estrutura 20 Uniube desumana e autoritária gerada pela administração científica e pela teoria clássica da administração. Nessa perspectiva, as empresas cada vez mais têm se preocupado com o bem-estar dos funcionários,pois diversas pesquisas mostram que funcionários que trabalham satisfeitos obtêm mais rendimento e resultados positivos. Na gestão estratégica, o gestor não é entendido como chefe que delega responsabilidades, coordena ações e cobra resultados, e sim como líder; que desenvolve pessoas, forma equipes integradas e compartilha decisões e responsabilidades. Compreenda o papel do gestor no contexto da gestão estratégica por meio da Figura 3 a seguir. Gestão estratégica Gestor/Líder Desenvolvimento de pessoas Equipes integradas Organização bem administrada Figura 3: O gestor no contexto da Gestão Estratégica. Uniube 21 • Aprende com os erros. • É capaz de assumir riscos. • Aprende com o mercado e com os outros. • Prepara-se para as mudanças. • Busca oportunidades. Um líder deve despertar o interesse e, com frequência, orientar pessoas na realização da visão, da missão e do propósito da organização, enquanto delega a elas poderes para se autogerenciarem e tomarem suas próprias decisões. Deve atuar como integrador da estratégia, o elo entre todas as áreas e camadas da organização. Essa ligação é absolutamente fundamental para a integração da estratégia e da ação. Sem ela, mesmo os melhores planos estratégicos ficarão simplesmente na gaveta. Vê-se, portanto, que a capacidade da organização para traduzir a estratégia em ação é uma consequência direta da liderança. Por fim, sabe-se que o líder deve ter como características básicas a simplicidade a energia e a autoconfiança. Só dessa forma, o líder poderá atuar como unificador/orientador e fazer com que as pessoas coloquem em prática suas sugestões e ideias. Perceba, no esquema da Figura 4 a seguir, as características fundamentais de um líder. Desafio do processo Inspirador de uma visão compartilhada • Tem visão. • É um entusiasta. • Mostra direções. • Planeja ações. Figura 4: As características de um líder. Facilitador de ações • Cria condições. • Desenvolve talentos. • Incentiva a autoestima e autoconfiança. 22 Uniube • Torce junto. • Comemora e divulga conquistas. • Parabeniza. • Reconhece. • Estimula/Apoia. • Dá feedback do progresso alcançado. • Acompanha/Avalia. • Estabelece objetivos e metas claras. • Pratica o que prega. • Esclarece sua filosofia de atuação. Transparente na comunicação Encorajador de emoções A liderança foi definida aqui como o processo de influenciar as atividades de indivíduos ou grupos para a consecução de um objetivo numa dada situação. Em essência, a liderança envolve a realização de objetivos com e de pessoas. Consequentemente, o líder precisa preocupar-se com tarefas e relações humanas. Os líderes autoritários tendem a orientar-se para tarefas e a usar seu poder para influenciar seus subordinados. Os líderes democráticos tendem a orientar-se para o grupo e dão considerável liberdade aos seus liderados no trabalho. Não existe um roteiro padrão para se ter uma melhor liderança, o ideal é que desenvolva a liderança situacional, que é moldada de acordo com as necessidade e mudanças que perpassam o contexto organizacional e da equipe de trabalho. Hoje, faz-se necessário um ambiente de trabalho baseado na confiança mútua e de muito respeito humano, pois cada vez mais se percebe a interdependência dos setores das organizações, tornando, dessa maneira, os indivíduos mais dependentes de seu grupo e das outras pessoas. Não se admite mais o profissional individualista. Ele deve conseguir se integrar e criar sinergia com as pessoas. Uniube 23 Nesse contexto, o líder deve transformar grupos em equipes. Mas qual a diferença? Perceba no esquema da Figura 5 a seguir. GRUPO EQUIPE Conjunto de pessoas com objetivos comuns. Em geral se reúnem por afinidade. Conjunto de pessoas com objetivos comuns atuando no cumprimento de metas específicas. Ao constituir-se uma equipe de trabalho, as pessoas se destacam pelas diferenças individuais e o papel do líder é desenvolver sua equipe através dessas diferenças, conforme nos mostra Moscovici (1996, p.23): (...) desenvolver uma equipe é ajudar a aprender e a institucionalizar um processo constante de autoexame e avaliação das condições que dificultam seu funcionamento efetivo, além de desenvolver habilidades para lidar eficazmente com esses problemas. Portanto, o desenvolvimento de equipes transpassa a existência do líder, é necessário que ele tenha a visão de que é preciso conhecer cada indivíduo de sua equipe e trabalhá-lo para que, dentro das suas habilidades e personalidade, ele melhor desenvolva seu trabalho. Não obstante isto, Drucker (apud FIORELLI, 2000), esclarece que a equipe certa não garante a produtividade, mas a errada a destrói. Dessa forma, pode-se inferir que as principais causas das falhas de Figura 5: Grupo x Equipe. 24 Uniube funcionamento das equipes e desenvolvimentos destas passam pela existência de uma liderança despreparada ou sem o perfil para a tarefa; escolha dos participantes da equipe sem o perfil adequado para a execução ou sem disponibilidade de tempo; falta de foco em se fixar a missão e objetivos que a equipe deve perseguir; gestão inadequada ou insuficiente. O aspecto emocional envolto nas relações entre os integrantes da equipe também deve ser identificado pela gestão, pois inevitavelmente formam- se subgrupos de relacionamento dentro da equipe, seja por afinidades de identificação, quer sejam por processo de transferência à equipe de carências pessoais não supridas em suas vidas particulares. Os fatores ligados à personalidade de cada liderado devem ser tomados em conta para que a performance da equipe seja a melhor possível, liderados diferentes devem ser tratados de maneiras diferentes, de acordo com suas necessidades específicas. A eficácia sempre dependerá do líder, dos liderados e das variáveis situacionais em que a organização estiver inserida. O líder deve saber "ler", em sua equipe, as insatisfações pessoais, pois pode utilizá-las para que isso vire uma inquietação e entusiasmo para se ir em busca de novos desafios. As diferenças individuais assumem grande papel no desenvolvimento da equipe, pois as pessoas apresentam uma grande variedade de comportamentos e formas diversas de ver o mundo. Todos os tipos de personalidades são igualmente valiosos, com aspectos inerentes positivos e negativos. Não existem tipos melhores ou piores, mais inteligentes ou menos inteligentes, mais saudáveis ou doentes, personalidades fortes ou fracas. O conceito de tipo de personalidade tem sido usado rotineiramente nos negócios por gerentes para motivar os seus empregados, para desenvolver equipes de trabalho mais produtivas e melhorar a comunicação, porém deve-se ter cuidado para não se Uniube 25 gerarem rótulos. Identificar as qualidades dos funcionários é função do líder e esse processo pode ajudar a diagnosticar medidas que irão ao encontro das necessidades de cada indivíduo, maximizando assim seus resultados. Essa identificação de aspectos relacionados à personalidade e desejos de cada indivíduo resvala na essência da vida humana, naquilo que pode vir a motivar o indivíduo a se automotivar, pois cada um é responsável por sua motivação. Tais desejos ou ensejos estão ligados às necessidades básicas do homem identificadas por Maslow e essas necessidades não são estáticas e se apresentam para cada membro da equipe de forma diferente e simultânea, variando de intensidade conforme contexto vivenciado por cada um. Considerações finais1.6 Verifica-se que o processo de desenvolvimento de equipe está totalmente ligado à influência das atitudes e comportamentos da liderança, bem como à capacidade desta de compreender as nuances de cada indivíduo de sua equipe e orientá-lo, de direcioná-lo a objetivos (metas) claros, de gerir conflitos e a interdependência de relacionamentos entre os componentes da equipe, bem como à capacidade de geri-los diante dos processos de mudanças situacionais que podem ser impelidosna organização. Logo se vê que a gestão democrática da educação passa necessariamente por vários elementos que você estudou até aqui como o planejamento estratégico, a presença do líder e o trabalho em equipe. Que tal agora você encerrar este capítulo com mais uma videoaula que irá esclarecer todos os conceitos que até agora foram estudados? Assista-a com bastante atenção! 26 Uniube 2 Gestão educacional: pressupostos filosóficos, políticos, sociais, culturais e epistemológicos Uniube 29 Introdução2.1 Seja bem-vindo(a) a mais uma etapa do seu estudo em gestão educacional. Neste capítulo discutiremos a evolução do pensamento sobre as teorias administrativas, sempre com o cuidado de demonstrar o impacto de tais pensamentos no dia a dia do gestor. Em seguida, no contexto escolar, trataremos dos modelos de gestão educacional e, por fim, abordaremos a atuação do gestor escolar em ambientes não-escolares. Evolução do pensamento sobre as teorias administrativas2.2 No decorrer das últimas décadas, desde o início do século XX, várias teorias relacionadas à gestão foram criadas, discutidas e aplicadas no contexto organizacional. Ao analisar tais teorias, não se pretende excluir nenhuma e nem somente criticá-las, apontando problemas conceituais. Todas, sem dúvida, trazem aprendizado e ajudam a compor as características de um gestor que necessitamos hoje. Essa exposição é importante para configurar o perfil do gestor a partir das teorias da administração. Na organização da escola, está implícita uma teoria pedagógica que a sustenta, pensamentos que fundamentam as ações educativas. Uma das bases do trabalho do gestor está nas teorias da administração. As teorias surgem dos contextos históricos em que estão inseridas, em que se buscam encontrar soluções para os problemas a partir da evolução da sociedade e seus desafios. Paro (1986, p.18) define, em um sentido geral, a administração como “a utilização racional de recursos para a realização de fins determinados”. Continua o autor definindo administração como uma atividade 30 Uniube exclusivamente humana, que propõe objetivos e utiliza racionalmente os meios de que dispõe para realizá-los. “É uma atividade necessária à vida do homem”. (PARO, 1986, p.19). Para tanto, o administrador utiliza recursos materiais e conceituais, de maneira racional, para atingir os objetivos. É a racionalização do trabalho. Como se realiza na relação com outros homens, apresenta também o caráter social do trabalho. A administração se ocupa com o esforço humano coletivo, “é uma atividade grupal”. (PARO, 1986, p.23). Seu papel principal é exercer a atividade de coordenação das relações dos homens entre si. Na exposição teórica a seguir sobre a Administração, podemos visualizar essas duas vertentes do trabalho do gestor: a racionalidade técnica e a coordenação das relações humanas. Teoria Clássica: Frederick Taylor e Henry Ford Os primeiros teóricos, Frederick Taylor (1856-1915) e Henry Ford (1863-1947), elaboraram a Teoria Clássica de Administração e são referências obrigatórias para todas as outras teorias. O contexto histórico em que os autores elaboraram a Teoria Clássica: início do século XX, em plena revolução industrial, época em que os empresários tinham como objetivos aumentar a produtividade e disponibilizar mão de obra barata, isso com planejamento e sem improvisação. O poder estava na mão de quem detinha o capital e exercia controle sobre os trabalhadores, exigindo cada vez mais eficiência para que produzissem muito mais. Com isso, ocorre a separação entre quem pensa o processo e quem o executa. O trabalhador exerce sua função sem entender todo o processo de produção, apenas executando tarefas pensadas por outros. Como no filme de Charles Chaplin, “Tempos Modernos”, em que ele faz a mesma função o dia todo – aperta parafusos – sem perceber que aquele trabalho Uniube 31 faz parte de uma engrenagem maior que dará um produto. Portanto, ele entende de forma fragmentada o seu trabalho e é, a todo instante, monitorado para ir mais rápido executando seu trabalho em menor tempo, o que daria mais lucro ao patrão. O trabalhador executa tarefas como um robô, automaticamente, como um alienado. Essa fragmentação do trabalho humano, refletindo agora especificamente sobre a escola, é como se tivéssemos uma elite intelectual pensante que determina as ações a serem executadas pelos educadores no seu cotidiano escolar. A tarefa da equipe da escola é simplesmente a de executar instruções, executar tarefas já programadas. Essas instruções devem ser transmitidas pelo diretor e sua equipe de pedagogos a todos por meio da descrição detalhada de cargos e tarefas. Ao contrário dessa situação, quando o professor e a equipe da escola pensam e executam suas funções, eles se sentem participantes de todo o processo educativo e se responsabilizam por ele. A fábrica é diferente da escola, embora essa análise possa ser aplicada em todas as instâncias sociais, percebendo-se o reflexo da dominação em toda a sociedade. Quando o filósofo Descartes (sec. XVIII) questiona o pensamento medieval e instaura o Racionalismo (tudo pode ser pensado de maneira matemática para sempre dar certo), inspirou autores a formatar a administração científica. A administração científica, segundo Chiavenato (2004), surge para reduzir a instabilidade e a improvisação evitando desperdícios do esforço humano e perdas, para elevar a produtividade por meio de métodos e técnicas. Para esse autor, Taylor defendia a especialização, a criação de um método racional, um padrão de produção. 32 Uniube Essa teoria leva o nome de Administração Cientifica “devido à tentativa de aplicação dos métodos da ciência aos trabalhos operacionais a fim de aumentar a eficiência industrial”. (CHIAVENATO, 2004, p. 41). Tem como característica a divisão do trabalho, com tarefas do cargo determinadas a seus ocupantes que se constituem a unidade fundamental da organização. A ênfase é nas tarefas e os principais métodos científicos são a observação e a mensuração. Ao cargo de gerente era atribuída a função do planejamento para a melhor forma de execução do trabalho e o controle do mesmo. O trabalho era fragmentado, centralizaram-se as decisões, buscando estruturas e sistemas perfeitos, nos quais as responsabilidades eram bem delineadas e o controle possível. Ford amplia essa teoria, criando a produção em série: produto padronizado com custo mínimo. O que foi importante para diminuir as horas trabalhadas pelos operários, que na época eram extremamente abusivas. No filme “The Wall”, que é a biografia do vocalista da banda de rock britânica Pink Floyd, Roger Waters, representa a padronização da formação de alunos em que todos têm o mesmo rosto, o mesmo uniforme e, em fila, entram em uma máquina de moer carne e saindo uma massa amorfa – produção em série. Um dos muros é a escola, que impede a criatividade. Vale a pena ver o filme e conhecer a letra da música. Ao começar a música Another Brick in the Wall, surgem várias crianças organizadas em filas e andando ao mesmo passo. O ritmo da música expressa um marchar que nos remete à ditadura. A imagem sugere o ritmo de produção de uma fábrica, até que as crianças aparecem com os rostos desfigurados e iguais, sendo comandadas pelo professor ditador que grita: Errado, faça de novo! A cena apresenta-se de modo mais forte no momento em que cada aluno, um a um, cai dentro de uma máquina de moer carne. (ROSA, 2010). Uniube 33 Teoria clássica: Henri Fayol e Max Weber Outro teórico, Henri Fayol, europeu, que era executivo de empresas, trouxe a ênfase da administração para a estrutura e o funcionamento das empresas, criando a teoria funcionalista, pois, segundo Chiavenato (2004), a ciência administrativa, como toda ciência, deve basear-se em leis ou princípios globalmente aplicáveis. Sua maior contribuição para a administração geral é o estabelecimentodas funções administrativas – prever, organizar, comandar, coordenar e controlar – funções do administrador ainda nos dias atuais. Planejar/prever: traçar linhas do que deve ser feito e como fazer, a partir dos objetivos. Organizar: estabelecer as funções de cada um. Comandar: delegar poder, cobrar a execução das ações e preparar o pessoal. Coordenar: estabelecer relações entre as várias partes. Controlar: avaliar o efeito das ações para novamente planejar. Fayol defendia que o administrador teria um projeto e, com uma estrutura hierárquica e disciplina, conseguiria maior produtividade. A função administrativa nesse enfoque deixa de ser exclusiva da alta gerência, ficando difundida proporcionalmente entre todos os níveis hierárquicos, ainda assim, os executivos têm maior responsabilidade administrativa, distinguindo-se das funções técnicas. Para Chiavenato (2009), Fayol adotou alguns princípios da administração científica, como a divisão do trabalho e a disciplina, abandonando outros e acrescendo os princípios de autoridade e responsabilidade, espírito de equipe e iniciativa. Enquanto Ford e Taylor cuidaram da empresa de baixo para cima, Fayol cuidou da empresa de cima para baixo – da direção para a execução e do todo para as partes. 34 Uniube O quarto integrante da Escola Clássica, o sociólogo Max Weber, buscou sintetizar os pontos comuns às organizações formais modernas em detrimento das organizações primitivas. “Weber se assemelhou aos outros clássicos ao identificar nas organizações as chamadas disfunções burocráticas, isto é, o seguimento rígido das regras, não levando em conta a variabilidade humana, como na abordagem dos outros”. (CHIAVENATO, 2009). A burocracia é uma forma de organização humana que se baseia na racionalidade: adequar os meios aos fins, atingindo o máximo de eficiência. Teorias comportamentais As ilustrações de carinhas, na Figura 6 a seguir, representam três tipos de trabalhadores. Nessas imagens, é perguntado ao trabalhador 1 o que ele está fazendo, e ele responde que está colocando tijolo sobre tijolo com massa de cimento no meio. Representa o trabalhador alienado, que executa a sua função sem ter a visão da importância de sua ação para a construção mais geral. A Teoria Clássica, que aposta em um sistema fechado, mecânico, previsível e determinista, tende a ter trabalhadores com essas características. Para o trabalhador 2, perguntaram o que ele estava fazendo. E ele respondeu: “estou construindo um muro”. Por outro lado, o trabalhador 3 respondeu: “estou construindo uma igreja! ” Que provavelmente ele e seus familiares frequentarão. A diferença entre eles representa um salto de qualidade quanto à questão do trabalho como satisfação humana, da visão de totalidade do processo produtivo no qual atuamos e nos sentimos participantes. Uniube 35 Esse salto de qualidade se deu com as teorias clássicas sofrendo a reação dos trabalhadores: greves, movimentos sindicais que denunciam a exploração e a desumanização. As principais críticas a essas teorias são: a ênfase na organização formal e a preocupação com as regras. Pois, assim sendo, todas as organizações seguindo as mesmas regras teriam sucesso e atingiriam seus objetivos com menor tempo e com mais lucro, tratando a administração como sistema fechado com poucas variáveis. A abordagem mecânica, lógica e determinista não considera a importância do humano nas organizações. Apesar das críticas, seus princípios são guias gerais para a formação de administradores. Em reação à Teoria Clássica surgem as Teorias Comportamentais. Para Chiavenato (2009): [...] a força da Psicologia faz surgir método que considerasse as pessoas o fator primordial no processo administrativo, ou seja, o enfoque passou a ser comportamental. E conhecendo então a possibilidade de incluir uma maior parcela dos membros da organização, antes simples executores de ordens, no papel de tomadores de decisão, exercitando seu julgamento. Localizando historicamente a época da evolução dessas teorias, vamos encontrá-las no período pós-2ª Grande Guerra Mundial. Essas teorias são também conhecidas como Teoria das relações humanas, advindas da Escola Humanística. Valoriza-se o homem social, preocupando-se com: tempo de trabalho, repouso, fadiga, ambiente amistoso, relações humanas. Temas que passam a ser preocupação para os administradores. Portanto, há a transferência da ênfase antes colocada na tarefa (Administração Científica) e na estrutura organizacional (Teoria Clássica da Administração) para ênfase nas pessoas que trabalham ou que participam das organizações, como afirma Chiavenato (2009). 36 Uniube Nessa abordagem humanística, continua o mesmo autor, são considerados os aspectos psicológicos e sociológicos, analisando-se as características da pessoa e do que sua função exigia; programas de incentivo, liderança, motivação, comunicação. O foco da administração passa para a interação social – os trabalhadores são membros de um grupo. Criam-se recompensas sociais e morais, para influenciar na felicidade do trabalhador. Os valores sociais, as crenças, as expectativas dos trabalhadores são consideradas para se estabelecer um ambiente saudável de trabalho. Nas fábricas, experimentaram as trocas de funções entre os trabalhadores para variar e não ter monotonia. Os aspectos emocionais salientados nessa teoria têm como base teórica Elton Mayo – como esclarece Chiavenato (2009) – defendendo que o trabalho é uma atividade grupal e os laços entre o grupo é fundamental, destacando a cooperação. A pessoa quer estar junta e ser reconhecida e a motivação básica não é a salarial como afirmava Taylor. É necessário que o trabalhador se sinta como no lar, como se estivesse em família. Ao produzir o serviço, além de receber o salário (função econômica), o trabalhador usufrui da satisfação de estar entre os participantes (função social): representam as duas formas de equilíbrio de uma organização (externo e interno). A Teoria Comportamental (ou de relações humanas) aponta a limitação imposta pela racionalidade cientifica, identificando outras necessidades humanas, além da econômica. Com essa identificação, investe-se em políticas de incentivos psicossociais, com o objetivo de motivar e satisfazer o trabalhador para que esse exerça sua função atingindo o objetivo da empresa. Para tanto, a preocupação passa a ser com o sujeito: como ele vê seu trabalho, qual a importância e o significado atribuído ao que realiza; se ele se sente responsável pelo seu trabalho e se tem conhecimento dos resultados, conhece e entende seu desempenho na tarefa realizada. Uniube 37 Os resultados das ações dessa Administração buscam a autonomia do empregado; a confiança nas pessoas; as dinâmicas de grupo. Trabalham com a necessidade humana de participar, de autorrealizar-se – interesse, identificação, entusiasmo – desejo de pertencer e satisfação de trabalhar em grupo. Liderança como qualidade pessoal e liderança como função (autoridade para tomar decisões), apoio ao grupo para atingir seus objetivos. A liderança é uma característica básica do gestor e nas escolas podemos identificar algumas posições: a autoritária; a laissez-faire e a democrática. O gestor autoritário centraliza o poder em si e acredita que, sem a participação direta e efetiva dele, as ações não acontecerão com qualidade. Não tem a prática de dialogar sobre os problemas da escola e exige o cumprimento de regras. O gestor laissez-faire permite que sua equipe tome decisões, delega poderes e não exerce controle sobre tudo. E o democrático prioriza as ações coletivas, incentiva a participação e a colaboração de todos na tomada de decisão e age junto à sua equipe. Chiavenato (2009) aponta críticas a essa Teoria das Relações Humanas: minimizou os conflitos de interesse, entretanto não buscou melhorar a alienação. Deu satisfação, preocupando-se com a integração do homem ao trabalho, tornando-o maisagradável e compensador (intervalos, refeição, esportes, excursões, colônia de férias) embora, sem tocar no fundamental, a alienação. E como pontos positivos dessa teoria: participação dos trabalhadores, melhor relacionamento, identificação das necessidades, melhoria na comunicação, humanismo e democracia. Teoria Neoclássica Resgatando a Teoria Clássica, atualizada e redimensionada aos problemas administrativos modernos, surge a Teoria Neoclássica. Ela se caracteriza por uma forte ênfase nos aspectos práticos da Administração, 38 Uniube pelo pragmatismo, e pela busca de resultados reais e palpáveis. A ênfase se dá nos objetivos e nos resultados, ou seja, na eficiência. Os neoclássicos consideram “a Administração uma técnica social básica. Isso leva à necessidade de que o administrador conheça [...] aspectos relacionados à direção de pessoas dentro das organizações” (CHIAVENATO, 2004, p. 148), orientando os comportamentos de modo a atingir os objetivos organizacionais através da comunicação, motivação e liderança. Para o autor, o administrador alcança resultados por meio das pessoas com as quais trabalha. Volta-se à importância dos passos clássicos: planejar, organizar, dirigir, controlar. Por meio da cooperação entre pessoas, atingem-se os objetivos. A influência da Teoria Neoclássica na escola caracteriza-se pela atuação do governo que se responsabiliza por sua organização, justificando que a educação é questão social básica, que têm objetivos a serem alcançados para o indivíduo e para a sociedade. O objetivo do governo, e, portanto, da escola é atender à comunidade. Com o governo organizando os sistemas de ensino, há a centralização da tomada de decisões das políticas, tentando manter a uniformidade de condições em todo o território nacional. Em observância aos objetivos e políticas estabelecidos pelo Estado, o gestor escolar cria planos, aqui denominado de Planejamento Estratégico com vistas a atender às demandas locais. O Estado, por sua vez, acompanha os resultados alcançados. Com isso, se vê claramente a influência da Teoria Neoclássica na escola. Enfim, são inúmeras teorias que refletem o papel do gestor. O que se espera de um gestor? Espera-se que ele consiga aproveitar o que se pode observar de melhor e mais perspicaz nas teorias administrativas. Significa, entre outras coisas, tomar decisões, analisando integralmente toda a Uniube 39 situação, buscar alternativas possíveis dentro das possibilidades, atento aos objetivos a serem alcançados, ajustar-se às novas circunstâncias, lidar com situações que mudam e exigem redirecionamento de ações (pesquisa e desenvolvimento). Ser interdisciplinar, contextualizar, realizar dinâmicas de grupo. Incentivar, motivar para que todos tenham assiduidade, compromisso; aproveitar as contribuições individuais. Fazer reconhecer sua autoridade, delegar responsabilidades, promover a autonomia; investir na formação continuada para si e para os grupos; criar um clima de trabalho emocionalmente saudável. Ter a mentalidade aberta, democrática e participativa. Registrar avanços e rever constantemente o planejado; promover a interação entre as pessoas. Planejar: coleta de dados/diagnóstico/ação – num processo científico: formular problema a partir da necessidade detectada; apresentar proposta de solução; planejamento para a ação; avaliação dos resultados. É ser criativo. A criatividade é o elemento central, sendo percebida como necessária para a geração de propriedade intelectual. As organizações contemporâneas têm percebido a capacidade intelectual e dado merecido reconhecimento à iniciativa de seus funcionários, identificando essas como fundamentais para melhorias no processo produtivo e essa forma de gestão tem alto valor no mercado contemporâneo, pois atende às necessidades da organização e seus trabalhadores e permite a integração ao mercado atendido por essa. (SOUZA JÚNIOR, 2009). Para a tomada de decisões, é importante que o gestor se fundamente: discuta conceitos, ideias, teorias e valores que orientarão o seu comportamento e seu trabalho; no seu cotidiano, pensar sobre esses fundamentos como ferramenta de suas ações. Percebe-se, portanto, o quanto é importante que o gestor conheça e pratique as teorias administrativas. 40 Uniube E no contexto escolar? Em cada escola, com suas características próprias, o gestor deve visualizar essa organização – escolas pequenas, médias ou grandes; de periferia ou centrais, o entorno, o bairro. A organização social demonstra a escola necessária. Não se quer dizer com isso que cada uma tenha objetivos diferentes, pois o objetivo educacional é o mesmo: formação da cidadania, entretanto a condução desse processo tem determinantes socioculturais importantes que apontam caminhos para o sucesso escolar dos alunos. Vale ressaltar que a formação acadêmica, a postura, as características da personalidade, a visão de grupo, entre outras características, são importantes para o gestor. Ele é avaliado pelos seus conhecimentos, pelas suas ações, por sua filosofia, como afirma Chiavenato (1983). Para isso é preciso ter conhecimentos, saber lidar com pessoas, conseguir cooperação de todos e compreender a complexidade de suas ações. Pois bem, concluímos este “passeio breve” pelas teorias administrativas que são relevantes em qualquer organização, inclusive nas educacionais. Que tal fazer uma pausa na leitura e assistir a uma videoaula que sintetiza essas teorias? Legal, né? Vamos lá! Uniube 41 2.3 Modelos de gestão educacional: embasamentos filosóficos, variáveis de contexto, processos e instrumentos de gestão, tecnologias de informação É fundamental, prezado(a) aluno(a), que a gestão estratégica seja aplicada na educação de forma contextualizada, ou seja, que as ferramentas de gestão estejam em sintonia com as particularidades e demandas da educação e, de modo micro, da comunidade. Que tal agora falarmos um pouquinho dos modelos de gestão educacional? A Constituição Federal de 1988, em seu Capítulo III, seção I, art. 205 prevê que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Para tanto, o Art. 206 traz os princípios que nortearão as ações educativas, entre eles o inciso VI: gestão democrática do ensino público. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) no seu Art. 14 esclarece o que se denomina gestão participativa nos incisos I e II: participação dos profissionais da educação na elaboração do Projeto Pedagógico da escola; participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. E no Art. 15 reza que “os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público”. A qualidade da educação está associada a questões como: paradigma dinâmico, descentralização, democratização da gestão, autonomia da escola e participação coletiva. Tais conceitos podem ser melhor compreendidos no Quadro 1 a seguir. 42 Uniube Paradigma dinâmico Descentralização Democratização Autonomia Um paradigma pode ser definido como uma teoria que contém referências para se constituir um modelo ou um caminho a seguir, ou conceitos que fundamentam o pensamento. Como nos dias atuais a ciência caminha rapida- mente, rompen- do certezas, o paradigma tem que ser dinâmico – passível de ser constantemente atualizado, repensado, reconstruído. Durante o período do regime militar, acostumou-se a seguir ordens e ter uma autoridade inquestionável. Hoje, com o processo de democratização, acredita-se na delegação de tare- fas, constituindo um trabalho coletivo. Não mais