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Odontopediatria – 05 de Outubro de 2022 Tratamento não-invasivo da cárie dentária ➢ Introdução: • Nessa aula abordaremos sobre o uso terapêutico de fluoretos e selantes. Além de outras estratégias para tratamento não invasivo da cárie dentária. ➢ Modelo clássico: Diagnóstico e tratamento da cárie • Modelo mecanicista – diagnóstico tardio da doença (quando a lesão já estava cavitada). • Acreditava que a cárie era uma doença infecciosa, transmissível, causada por um grupo específico de bactérias (s. mutans, lactobacilos acidófilos). • Protagonismo do tratamento restaurador na cura da cárie: ▪ Restaurar para eliminar focos de infecção e recuperar forma/função; ▪ Acreditava-se que removendo toda a dentina cariada, se estaria removendo um foco de infecção. ▪ Restauração como forma de prevenção. • Pouca valorização da mudança de hábitos. • Limitações do modelo clássico: ▪ Surgimento de novas lesões; ▪ Recorrência de lesões nas margens das restaurações; ▪ Ciclo restaurador repetitivo; ▪ O modelo clássico era efetivo em devolver função, mas limitado em promover saúde. ➢ Mudanças que houve nos últimos 10 anos: • Priorização do diagnóstico precoce, ainda manchas brancas no esmalte; • Tratamento restaurador para reabilitar estético e funcionalmente os elementos e, removendo sítios em que as bactérias podem ficar retidas. • Quanto mais cavidades nós temos, mais placas bacterianas terão ali aderidas, devido a maior quantidade de superfícies de contato. • Não removemos toda a dentina cariada. ➢ Transição para o modelo baseado na mínima intervenção: • A cárie é uma disbiose causada por um desequilíbrio na relação entre microbiota e hospedeiro. • A ingestão frequente de carboidratos fermentáveis aumenta a acidogenicidade do biofilme, desequilibrando a Des-Re e favorecendo o surgimento de lesões cariosas com o tempo. • Redução dos índices de prevalência e severidade da cárie: ▪ Popularização dos dentifrícios fluoretados; ▪ Reconhecimento do papel dos fluoreto nas dinâmicas de perdas e ganhos minerais. Fluoretos e selantes ➢ Impacto da teoria ecológica da placa sobre o controle da cárie: • A compreensão da cárie como um desequilíbrio de um processo fisiológico, modificou o objetivo e a forma de se tratar essa doença. • A colonização bacteriana das superfícies dentárias e seu metabolismo são inevitáveis. • Não existe a possibilidade de “curar” um processo fisiológico, eliminando todos os microrganismos e reparando os danos. O que devemos é controlar. Recuperar os dentes, causando uma mudança de hábitos de forma a manter o equilíbrio do processo Des-Re, que é fisiológico. ➢ Por que mudamos a forma de tratamento da doença? • Modificação do perfil epidemiológico da cárie; ▪ Redução no número e severidade das lesões. • Interpretação da cárie como disbiose; ▪ Mudança de hábitos determinante para controle da doença. • Compreensão da ultraestrutura da dentina cariada (várias camadas de dentina – infectada, afetada e sadia – só a primeira precisava realmente ser retirada); ▪ Remoção seletiva da dentina infectada. • Desenvolvimento dos materiais restauradores adesivos. ▪ Formas de retenção, resistência e extensão para prevenção reinterpretadas. ➢ Como a cárie é controlada nos dias atuais? • Preservar tecidos dentários e vitalidade pulpar; • Manutenção do dente ao longo do seu ciclo de desenvolvimento. • Devemos realizar uma prática baseada na mínima intervenção. • A modificação de hábitos é considerada fundamental para o controle da doença. • Técnicas não-invasivas e invasivas para a paralização das lesões. • A restauração e reparação de danos é realizada para restituição de função e estética. ➢ Indicações do tratamento não-invasivo: • Esmalte: ▪ Lesões ativas em todas as superfícies; • Dentina: ▪ Lesões ativas limitadas a 1/3 externo, indolores e que não afetam a função e/ou estética. ➢ Técnicas não invasivas mais utilizadas na clínica odontopediátrica: • Desorganização mecânica do biofilme; • Colutórios contendo fluoreto (não na pediatria – criança não sabe cuspir); • Aplicações tópicas profissionais de fluoretos; • Selamento de lesões cariosas; • Infiltração de lesões. ➢ Desorganização mecânica do biofilme: • Uma boa escovação é a melhor forma de prevenir a cárie. Além disso, não tem como qualquer tratamento (invasivo ou não), ter sucesso sem a melhora da escovação (frequência e qualidade). • A desorganização eficiente e regular do biofilme é fundamental na prevenção e no tratamento de lesões cariosas. • O metabolismo do biofilme superficial é o principal determinante da progressão das lesões cariosas. • A desorganização mecânica reduz a população bacteriana, afetando o metabolismo e a produção de ácidos. • E, com isso, prevenimos ou paralisamos a lesão cariosa. ➢ Cremes dentais fluoretados; • Só a escovação, a desorganização do biofilme dentário, não é suficiente. O dentifrício fluoretado desempenha importante função na distribuição de flúor no ambiente bucal, por um maior tempo possível. • A escovação com dentifrício fluoretado (1100ppm) é um método coletivo, de baixo custo e cientificamente comprovado no controle da cárie. • A ação da escovação é potencializada quando realizada com dentifrícios fluoretados. • A popularização dos dentifrícios fluoretados é considerada o principal fator associado ao declínio da cárie nas últimas cinco décadas. • A manutenção de íons F-, Ca+2 e (PO4)3, que atuam diretamente sobre a DesRe, reduzindo a velocidade de progressão das lesões. • Fosfato e carbonato reagem com os íons H+ neutralizando seu potencial acidogênico. ➢ Mecanismo de ação tópica dos fluoretos: • O uso de dentifrício fluoretado viabiliza a manutenção de concentrações elevadas de F- no meio bucal (saliva, fluido do biofilme, fluido interprismático). O esmalte é formado por cristais de apatita. Existe a fluorapatita (existe um átomo de flúor ligando toda a estrutura, o que faz com que ela seja mais resistente a dissolução ácida), a hidroxiapatita, a apatita carbonatada e a flúor-hidroxiapatita. O flúor é muito eletronegativo, então para conseguirmos romper a ligação dele com o cálcio, é necessária muita energia. Muito H+, um meio muito ácido, menor o pH. O esmalte das populações em que há flúor nas águas de abastecimento, ao contrário do que se pensava, não tem muito fluorapatita, tem flúor-hidroxiapatita, que se dissolve em um pH de 5,5. O que queremos quando bebemos água fluoretada é manter flúor na boca. Parte desse flúor é excretada, parte vai se acumular no osso e parte dela volta para a boca via saliva. Para isso é necessário que a água fluoretada tenha concentrações especificas de flúor. • A presença dos fluoretos reduz a desmineralização, pois é adsorvido à superfície dos cristais de apatita, reduzindo sua solubilidade (pHcomeça a atrair cálcio, melhorando a remineralização. ➢ Formação do CaF2 (fluoreto de cálcio): • O fluoreto de cálcio é resultado do flúor do dentifrício com o cálcio da saliva. O fluoreto de cálcio, geralmente, se acumula em sulcos retentivos, atuando como reservatório de fluoretos. • Composto que se precipita a partir da reação do F- com o Ca²+ salivar (>100ppm). • Acumula-se em sítios retentivos (sulcos e fissuras, lesões cariosas, faces proximais e biofilme) atuando como reservatório de F-. • Dissocia-se em pHlesões em dentina, mesmo quando paralisadas, precisamos reabilitar o paciente funcionalmente e esteticamente. ➢ Diamino fluoreto de prata (cariostático): • É um composto que combina a ação no flúor e dos íons prata. • Solução de uso profissional (35.400 ppm); • Cariestop 12% ou 30% (sempre utilizamos o de 30%); • O mecanismo de ação baseia-se na combinação: ▪ Dos efeitos bactericidas dos íons Ag³+; ▪ E os efeitos tópicos de remineralização do F-. • Sua eficácia é superior ao verniz na paralisação de lesões em dentina em dentes decíduos. • Ao passo que não utilizamos os vernizes para paralisar lesão em dentina, o cariostático possui essa função. ➢ Cariostático: considerações e aspectos técnicos: • Tratamento simples, eficaz e de baixo custo; • Indicação: ▪ Lesões ativas em dentina (ausência de dor e sinais de comprometimento pulpar); ▪ Se houver lesão profunda com risco de comprometimento pulpar, não podemos utilizar o material. • Técnica de aplicação: ▪ Profilaxia ou escovação prévia; ▪ Isolamento relativo e sucção de saliva; ▪ Secagem dos locais onde o produto será aplicado; ▪ Proteção dos tecidos moles com vaselina sólida (Não usar KY); ▪ Aplicação com Microbrush ou cotonete por 01 minutos. ▪ Aplicação bem localizada. • Problemas: ▪ Escurecimento causado pela precipitação de sais (fosfato e cloreto) e óxidos de prata na superfície da lesão. ▪ O efeito antiestético parece não preocupar os familiares (Explicar e solicitar consentimento assinado pelos responsáveis). ➢ Infiltração de lesões cariosas: • Infiltrar é diferente de selar. Enquanto selar é aplicar o material sobre a lesão, infiltrar é aplicar uma resina, monômeros sem carga, bem fluidos, dentro da lesão. • Infiltração de resina de baixa viscosidade (TEGDMA sem carga) no interior dos espaços interprismático do esmalte cariado (mais poroso). • Indicações: ▪ Tratamento de lesões iniciais em superfícies proximais (profundidade máxima limitada à junção AD). ▪ Mascaramento de opacidades em superfícies estéticas. ➢ Considerações sobre o Icon: • Só existe esse produto no mercado até o momento. • É basicamente TEGDMA, bem fluido. • Custo elevado limita o uso no serviço público; • Muito indicado para tratar lesões proximais. • Mais eficaz que o verniz. • Técnica de aplicação relativamente complexa; ▪ Especificidade dos dispositivos; ▪ Usa ácido clorídrico ao invés do fosfórico. ▪ Tempo de condicionamento ácido prolongado. ➢ Suscetibilidade das regiões de sulcos e fissuras: • As regiões de sulcos e fissuras são locais suscetíveis ao desenvolvimento de lesões cariosas; ▪ Favorecem a retenção do biofilme (posição do dente no arco); ▪ Exposição de dentina no fundo dos sulcos e fissuras (coalescência incompleta das cúspides); ▪ Maturação incompleta do esmalte (concentração de carbonato, quanto maior o tempo do dente na boca, ele fica mais resistente). – Não se acredita mais nisso. ➢ Selantes: métodos preventivos e terapêuticos • Os selantes atuam como uma barreira física restringindo o acesso de nutrientes aos microrganismos na região de sulcos e fissuras; • O fato de o selante liberar flúor já não é tão relevante atualmente, não é o flúor do selante que paralisa a lesão. ▪ Redução do metabolismo e da contagem de microrganismos; ▪ Paralisação da lesão cariosa. • Indicações: ▪ Prevenção de lesões cariosas em regiões de sulcos e fissuras (pacientes com risco de cárie); ▪ Paralisação de lesões cariosas em esmalte em regiões de sulcos e fissuras; ▪ Paralisação de pequenas lesões cariosas em dentina. o Abertura restrita (=1,5mm) e profundidade máxima limitada ao início do 1/3 médio da dentina. ➢ Selantes ionoméricos: • Não existe um produto chamado selante, é o cimento de ionômero de vidro que é utilizado como selante. • Indicados para o selamento de molares permanentes incompletamente erupcionados – não é possível realizar o isolamento absoluto e, por isso, utilizamos um produto que é menos suscetível a umidade; • Apresentam retenção inferior aos selantes resinosos; ▪ Baixas resistências ao desgaste e à fratura. ➢ Selantes resinosos: • Existe o material chamado selante resinoso, mas também podemos utilizar a resina fluida na falta deste primeiro. • Indicado para dentes decíduos e permanentes que podem ser submetidos ao isolamento absoluto; • Composição semelhante à das resinas compostas: ▪ BisGMA, TEGDMA e UDMA. ▪ Ausência ou pouca adição de partículas de carga; • Resinas de baixa viscosidade, apesar de apresentarem mais carga que o selante resinoso, quando bem fluidas, podem ser usadas como selantes. ➢ Passo-a-passo de aplicação do selante ionoméricos: 1. Levar criança para escovação; 2. Isolamento relativo; 3. Superfície do dente deve ser bem seca; 4. Dupla com o sugador o tempo inteiro; 5. Manipulação do ionômero; 6. Colocação do ionômero com uma sonda exploradora; 7. Espera um pouco que ele perca o brilho superficial; 8. Com vaselina, pressionar a oclusal do dente, para o excesso do material escoar. 9. Checar contatos com paciente sentado. ➢ Passo-a-passo de aplicação do selante resinoso: 1. Escovação. 2. Anestesia e isolamento absoluto; 3. Profilaxia com pasta de pedra-pomes e água; 4. Condicionamento com ácido fosfórico por 30s (ou 15s em decíduo). 5. Lavagem com jatos de água. 6. Secagem do esmalte (opacidade superficial). 7. Não aplicamos adesivo!! 8. Aplicar o selante com sonda exploradora; 9. Fotoativar pelo tempo recomendado pelo fabricante. 10. Checar os pontos de contato; 11. Desgastar contatos prematuros e interferências oclusais. ➢ Passo-a-passo lesão com abertura restrita: 1. Lesão já com abertura restrita (1,5mm a 2,0mm) e profundidade máxima limitada ao terço médio da dentina; 2. Realizar profilaxia com pasta de pedra-pomes e água; 3. Condicionamento com ácido fosfórico por 15s; 4. Aplicação e fotoativação do adesivo conforme as recomendações do fabricante; 5. Aplicação do compósito de baixa viscosidade no interior e margens da lesão; 6. Checagem e ajuste dos pontos de contato. ➢ Limitações do selamento: • A extensão e a localização das lesões inviabilizam o selamento: ▪ Baixas resistências ao desgaste e à fratura das resinas de baixa viscosidade. ▪ Baixos valores de resistência de união à dentina infectada. ➢ Considerações: • A eficácia do selante está relacionada a sua retenção; • Perdas parciais do material implicam na criação de sítios de risco para o desenvolvimento de lesões; • Selantes resinosos e ionoméricos são passíveis de reparo no casos de perda parcial.