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MATÉRIA:
PRÁTICA DO PROCESSO ELETRÔNICO
TEMA 1 – A lei do processo eletrônico
Aspectos da lei do processo eletrônico e a transição dos processos físicos para os processos virtuais no Brasil.
Itens iniciais
Propósito
Cada vez mais, torna-se imprescindível o reexame dogmático dos comandos e princípios processuais face à realidade cibernética e transformações por ela introduzidas no Direito, seja para atuação prática seja para conhecimento teórico.
Preparação
Antes de iniciar o estudo, tenha em mãos o Código de Processo Civil, o Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), a Lei da Ação Civil Pública (Lei n° 7.347/1985), a Lei do Mandado de Segurança (Lei n° 12.2019/2009) e, finalmente, a Lei nº 11.419/2006.
Objetivos
· Reconhecer a transição dos autos físicos aos eletrônicos no âmbito processual e seus impactos.
· Aplicar os princípios processuais clássicos à nova realidade cibernética.
· Analisar a participação dos órgãos de controle e disciplina na conformação do novo modelo processual virtual no Brasil.
Introdução
O presente conteúdo pretende resgatar o atual estado da arte processual, em um cenário de transição do processo físico para o processo eletrônico, discutindo-o criticamente à luz do direito fundamental das partes litigantes ao processo justo. Defende-se que a segurança jurídica, para além da mera previsibilidade, atue como elemento decisivo para um processo qualificado. Salienta-se a necessidade de ser construído modelo teórico-dogmático de aplicação das normas de processo nessa nova plataforma. A aludida transição não é tão simples e natural, como para alguns pode parecer.
Nesse novo contexto, é preciso impedir que as demandas sejam tratadas em processos que assumam a forma de um frenético modelo fordista. Impõe-se atentar, da mesma forma, para o risco de que os direitos das partes sejam colocados à deriva em meio à introdução de mecanismos tecnológicos, como a inteligência artificial.
1. DO PROCESSO FÍSICO AO PROCESSO ELETRÔNICO
Ligando os pontos
É por demais consabido que, na sociedade contemporânea – a chamada sociedade da informação –, o Poder Judiciário sofreu influências diretas destas transformações e, por conseguinte, exsurgiu a necessidade de haver uma análise cautelosa sobre o que se conhece por garantir direitos e princípios constitucionais do processo. Itens técnicos e maculados de vício advindos da cibercultura para o meio jurídico terminam por serem considerados estranhos ao ordenamento, fazendo com que haja uma desestabilização a partir do momento em que o sistema jurídico já não tem como abranger todos os fatos e as possibilidades existentes naquele novo contexto. Assim, baseando-se em conceitos tradicionais, bem como no panorama atual quanto ao sistema oferecido e nos riscos técnicos existentes, é possível dizer que o processo judicial eletrônico, na forma em que se encontra hoje, não traduz a segurança jurídica esperada pelo ordenamento jurídico brasileiro. Imagine que João, após ter tido o seu carro colidido pelo condutor de outro veículo (José), ingressou com uma ação judicial para buscar a reparação civil dos danos sofridos. No estado de residência de João, Rio de Janeiro, os processos encontram-se totalmente digitalizados. Além disso, por causa da pandemia da covid-19, as audiências e os atos processuais passaram a ser realizados prioritariamente por meio eletrônico com uso de videoconferência. Citado para a ação judicial, José contesta a ação e alega que a culpa do acidente se deu pela imprudência de João, que, intimado para apresentar provas, no prazo de cinco dias, informou que não teria mais provas para produzir. José, por sua vez, peticionou informando que tinha provas a produzir, nomeadamente prova oral de uma testemunha que teria presenciado toda a dinâmica do acidente. Conquanto tenha peticionado nesse sentido, o magistrado indeferiu a petição de José, porque já havia passado o prazo para manifestação publicado no Diário da Justiça (DJe) e, por conseguinte, julgou antecipadamente a lide. José, procura você, que está advogando, para entender se a decisão do magistrado fora correta, uma vez que houvera a duplicidade de intimações eletrônicas, mais detidamente, as intimações ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico.
A necessidade de preservação da segurança jurídica processual
Segurança jurídica processual e modernização do Poder Judiciário 
Confira agora a modernização do Poder Judiciário e da segurança jurídica dentro do processo.
O sistema do processo escrito, em que foi sedimentado o nosso sistema processual pátrio, já se encontra em boa parte relativizado nos tempos atuais. Isso em decorrência da avassaladora implementação do processo eletrônico, que ganha cada vez mais força e espaço, em um movimento irremediável, que acompanha o avanço cultural e tecnológico da nossa sociedade na pós-modernidade, ainda mais efervescente em período contemporâneo (e já relativamente longo) de pandemia e isolamento social.
Sendo o processo fruto da cultura, é inegável admitirmos que estamos vivendo em um momento histórico bastante diferenciado, em um cenário incrementado especialmente a partir de meados da década de 90, em que se identificam fundamentos sociais, econômicos, políticos e ideológicos muito diferentes daquele tempo em que se forjou a cultura do processo físico e que se estabeleceu a própria autonomia científica do direito processual (CALMON, 2012).
Estudo profundo e cuidadoso desse fenômeno já justificaria. Embora já exista na doutrina comparada o reconhecimento de que o movimento é mundial, o debate teórico sobre a justiça eletrônica ainda é muito incipiente (FISCHER, 2012).
Ocorre, no entanto, que a forma como o processo eletrônico vem sendo utilizado, sob a supervisão e ingerência direta no Brasil do Conselho da Justiça Federal (CNJ), acaba por demonstrar a existência de acentuada preocupação com a efetividade da prestação jurisdicional. Como reflexo, acabam sendo relegados, a segundo plano, não raro, os direitos fundamentais constitucionais ao processo justo e previsível, o que estamos abarcando, no âmbito da segurança jurídica, em duas das acepções mais firmes que a expressão pode compreender, quais sejam: previsibilidade das regras do jogo e maior profundidade/qualidade da instrução a ponto de ser proferida legítima decisão final (RUBIN, 2016).
Conselho da Justiça Federal (CNJ).
Tal movimento, salvo melhor juízo, vai em boa medida de encontro aos preceitos previstos no CPC, relacionados a um modelo de colaboração, que incentiva o diálogo, impondo deveres de consulta, prevenção, esclarecimento e auxílio ao magistrado.
Certo que o problema levantado nesse estudo se faz presente diante do rito comum, mas é verificado até em maior escala no rito sumaríssimo dos juizados especiais.
Seja como for, todo e qualquer procedimento, dentro do ambiente virtual, inclusive, e por mais sumário que seja, deve respeitar os preceitos processo-constitucionais, compatíveis com modelo de colaboração entre o Estado-juiz e as partes, aplicando-se ao menos supletivamente aos juizados as disposições do Código de Processo Civil vigente. O problema é, pois, importante no âmbito da Teoria Geral do Processo, sendo que aos jurisdicionados importa, e são beneficiados sempre que os princípios constitucionais, em especial, os positivados no novo códex processual, acabam sendo aplicados com parcimônia, sem descrédito demasiado de um deles.
Ao mesmo tempo em que a nova ferramenta do processo eletrônico proporciona benefícios, como a celeridade na prestação jurisdicional, deve também ser capaz de atender à exigência de segurança na prática dos atos processuais. O efetivo controle em relação à obtenção de tais resultados, em alguns casos, foge até da esfera puramente jurídica, reclamando o conhecimento de outras áreas, sobretudo, da informática.
Nesse panorama, tanto os operadores do direito de uma maneira geral, como as partes no caso concreto, deverão estar conscientes de que uma mudança de paradigma, em decorrência da alteração da plataformade Conflitos no Poder Judiciário”, com ênfase em inteligência artificial, coordenado pelo Centro de Inovação, Administração e Pesquisa do Judiciário da FGV (CIAPJ), “há mais de 70 projetos diferentes em mais da metade dos tribunais do país” (FREITAS, 2020). Dentre essas iniciativas, destaca-se o exemplo do algoritmo Victor, do Supremo Tribunal Federal, “fruto de uma parceria entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Universidade de Brasília (UnB), um importante marco no Judiciário brasileiro e referência no cenário internacional, por seu pioneirismo na aplicação de inteligência artificial para resolver ou mitigar os desafios pertinentes a uma maior eficiência e celeridade processuais. Tal iniciativa encorajou os demais tribunais do país a buscarem na inovação e na tecnologia o auxílio necessário para apoiar a atividade jurisdicional. Iniciado no final de 2017, na gestão da ministra Cármen Lúcia na presidência da Corte, o Victor foi idealizado para auxiliar o STF na análise dos recursos extraordinários recebidos de todo o país, especialmente quanto a sua classificação em temas de repercussão geral de maior incidência” (STF, 2021). O algoritmo, então, propõe a análise da presença ou não do pressuposto de repercussão geral dos Recursos Extraordinários que chegam à Corte. O contexto, assim, inspira um estudo dedicado de entendimento.
2. Inteligência artificial e atos processuais
A ideia aqui não é detalhar o que seria necessário para uma compreensão técnica ou mesmo filosófica do tema. Porém, de uma maneira geral e tentando simplificar o que não é simples, se é que isso é possível, inteligência artificial (IA) parece ser uma ideia a ser extraída da junção lógica dos dois termos: inteligência e artificial.
Resumindo
Inteligência, em linhas muito gerais, decorre da ideia de reconhecer a capacidade de algo ou de alguém realizar a categorização de objetos e respectivas separando-os por características e propriedades que possuem, o que pode se dar em graus diferentes de capacidade e detalhe.
O exercício subsequente da racionalidade vem pela capacidade de tal separação aliada à correta tomada de decisão a partir das categorizações feitas. Inteligente é aquilo ou quem consegue diferenciar o mundo à sua volta e tomar decisões decorrentes dessa diferenciação. É a soma das fases sequenciais de identificação, categorização, raciocínio e tomada de decisão. A percepção popular do “mais inteligente”, então, seria associada àquilo ou a quem melhor consegue racionalizar esse processo e em maior nível de detalhe ou categorização.
Assim, é um processo de inteligência desde a simples diferenciação entre um livro e uma maçã, tomando a decisão de se alimentar apenas do segundo, como também complexos raciocínios pautados em lógica, a partir de premissas e resultados consequenciais respectivos.
De um modo amplo, “ser inteligente”, na ideia média e popular e que interessa ao essencial de explicação desse trabalho, é saber lidar com determinado objeto e extrair dele classificações e consequências lógicas e racionalmente válidas.
Soma-se a isso os termos e as expressões que podem eventualmente categorizar a própria inteligência, seja porque dizem respeito ao próprio objeto sobre o qual se raciocina, seja porque dizem respeito à forma como as quatro etapas da inteligência se desenvolvem. Falar em “inteligência emocional” ou “inteligência jurídica” é falar de exemplos da primeira possibilidade.
O raciocínio e a tomada de decisão sobre as emoções e sobre o Direito, respectivamente. Por sua vez, a “inteligência artificial” parece ser justamente exemplo do segundo, caracterizando uma forma não natural de identificar, categorizar, raciocinar e tomar a decisão.
Resumindo
Em linhas gerais, portanto, parece que a inteligência artificial pode ser entendida pela capacidade programada, técnica e não natural de identificar objetos, categorizá-los, aplicar em relação a eles uma lógica racional e, a partir dessas três fases anteriores, tomar as decisões respectivas com a apresentação dos resultados de toda essa atividade de inteligência.
Adicionalmente, é importante dizer que a implementação prática dessa ideia se dá pelos mecanismos conhecidos como “algoritmos”, ou seja, os instrumentos práticos e concretos por meio dos quais as fases de identificação da tomada de decisão, de forma artificial, são elaboradas. Em termos mais simples e sem aprofundar nas impressões técnicas a respeito, algoritmo pode ser entendido como uma sequência de instruções técnicas que determinará o que um dispositivo eletrônico (destacadamente, um computador) terá de fazer.
Para maior visibilidade, algoritmo é um passo a passo técnico e sequencial com um ou mais comandos para o que o dispositivo eletrônico deverá fazer. Algoritmos podem ser programados, com todas as etapas da sequência previamente definidas por programação humana, e não programados em que não há a programação do passo a passo, competindo aos próprios dispositivos eletrônicos desenvolvê-los com base nas informações inseridas (input) e resultados esperados (output).
A utilização da IA na resolução de conflitos
Inteligência artificial e resolução de conflitos
Neste vídeo, o professor trata da utilização da inteligência artificial na resolução de conflitos.
Mais que um conceito abstrato, a inteligência artificial está presente em poderosas e práticas ferramentas para o dia a dia de todas as atividades na atual sociedade da informação, desde simples e, por vezes, não lembradas planilhas com fórmulas preestabelecidas, até as mais sofisticadas ferramentas de análise de bases de dados e apresentação de resultados.
Atenção
Todo e qualquer mecanismo que hoje seja capaz de receber informações a partir de alimentação humana ou de extração automatizada, que trate tais informações de forma racional e automática e entregue resultados dessas etapas anteriores, pode ser entendido como um mecanismo de inteligência artificial. Com esse potencial, era esperado e natural que os mecanismos de resolução dos conflitos, sobretudo os judiciais, aproveitassem esses instrumentos para conduzir os procedimentos e auxiliar as decisões decorrentes.
Uma das utilizações mais notáveis está na otimização da realização de procedimentos e naquilo que os mais representa concretamente: os atos procedimentais. A inteligência artificial tem um grande potencial para uma maior variabilidade de criação de documentos, de reprodução destes e para gerar maior capacidade da análise de seus conteúdos.
Inclusive, a depender de como tais tarefas forem automatizadas, possibilitando a criação de padrões de associação de documentos a determinados resultados, o uso das ferramentas também pode agregar previsibilidade às resoluções, especialmente nas situações jurídicas de volume e que, por perfil e regra, não apresentam maiores individualidades.
Igualmente, desde a década de 1980, existem ferramentas importantes que se valem da inteligência artificial para demonstração probatória de fatos ou construção de narrativa a partir das evidências indicadas.
Algumas ferramentas podem ser citadas como exemplo:
i. Stevie, que apresenta modelos a partir das evidências para possíveis reconstruções dos fatos.
ii. Eco, que avalia possibilidades de julgamento, a partir das evidências, auxiliando na elaboração de teses de acusação e defesa na esfera criminal.
iii. Alibi, que a partir das evidências desenvolve explicações alternativas daquelas associadas às provas para evitar ou mitigar responsabilidades.
Adicionalmente, em relação à prova testemunhal, a tecnologia tem sido utilizada para analisar as circunstâncias e a credibilidade dos testemunhos de forma mais objetiva, sem depender dos aspectos subjetivos e emocionais de avaliação do conteúdo testemunhal.
Também já há, por exemplo, sistemas que objetivam resultados preditivos, ou seja, que tenham como entrega a possível previsão de resultados a depender do órgão judicial envolvido. A ciência das chances de sucesso, com precisão, pode ser decisiva para potencializar as chances de acordo e de diminuição de disputas.Predileção de resultados
A predileção de resultados também é importante, do ponto de vista estratégico, para entendimento da fundamentação judicial utilizada e na identificação de precedentes judiciais.
Ratio decidendi das decisões
A ideia é utilizar a inteligência artificial para identificar as ratio decidendi das decisões.
É a espécie de visibilidade que não só facilita o trabalho das partes que precisam adequar a argumentação e estratégia aos posicionamentos consolidados (evitando ou diminuindo atos processuais inócuos), como também dos próprios órgãos jurisdicionais na prolação das decisões futuras, otimizando a prestação jurisdicional, pensada nesse aspecto no art. 927, CPC.
Ainda, na seara da resolução judicial brasileira de conflitos, muitos outros exemplos podem ser mencionados. Uma das primeiras iniciativas é o projeto “Dra. Luzia” implementado junto à Procuradoria do Distrito Federal, para entender os processos de execuções fiscais.
Curiosidade
Também famoso é o projeto em andamento no Supremo Tribunal Federal conhecido como “Victor”, nomeado justamente em homenagem ao ex-ministro do próprio STF Victor Nunes Leal. O recurso extraordinário sobe bruto ao Supremo e era preciso que um servidor separasse e identificasse suas peças, tarefa que demandava em média 30 minutos de serviço. O Victor realiza essa tarefa em apenas cinco segundos.
No Superior Tribunal de Justiça, a inteligência artificial não só tem sido implementada como festejada, sobretudo pela redução significativa da quantidade de processos. Veja alguns desses projetos:
SÓCRATES: 
É de se destacar o projeto “Sócrates”, voltado para identificar previamente as controvérsias jurídicas presentes nos recursos especiais.
ATHOS:
Outra experiência importante na corte é o Sistema Athos, baseado em um modelo de IA, que identifica processos os quais possam ser submetidos à afetação para julgamento sob o rito dos recursos repetitivos. Além disso, o Athos monitora e aponta processos com entendimentos convergentes ou divergentes entre os órgãos fracionários da corte, casos com matéria de notória relevância e, ainda, possíveis distinções ou superações de precedentes qualificados.
Limites da utilização da IA na resolução de conflitos
Parece claro o valor que tais ferramentas agregam à prática dos atos procedimentais judiciais, especialmente aqueles de entregar uma solução adequada e efetiva às lides que lhe são apresentadas, sobretudo no aspecto de duração razoável. Por outro lado, como qualquer uso de tecnologia ou novidade no geral, surgem questionamentos sobre os limites a serem respeitados na utilização dos novos instrumentos. E nesse ponto talvez existam as maiores dúvidas científicas e as questões de maior profundidade acadêmica e prática sobre o tema.
Para os mecanismos de resolução jurisdicionais e a realização de atos procedimentais, os limites parecem estar relacionados às características e expectativas constitucionais da própria resolução de conflitos por esse método.
Atenção
O uso judicial dessas ferramentas de IA, assim, parece demandar um exercício de cuidado detido na implementação. A identificação precisa e detalhada dos limites, se possível, justifica vários debates acadêmicos dedicados ao tema.
Os limites judiciais de todo modo parecem estar no respeito ao devido processo legal e às normas fundamentais do processo civil brasileiro que o integram (arts. 1º a 12, CPC) e na utilização instrumental das ferramentas de inteligência artificial, bem como no respeito das normas mais maduras de governança de tais ferramentas, antes, durante e depois do seu uso.
Proteção ao contraditório
Qualquer utilização que viole o conteúdo do devido processo não pode se sustentar. Não podem prevalecer ferramentas que, v.g., impeçam o contraditório concreto das partes.
Limitações da automação
Igualmente, o uso não instrumental (quer dizer, ferramentas decidindo os conflitos no lugar de juízes humanos) parece também exceder os objetivos da função jurisdicional que tem na cognição, sensibilidade, empatia e experiência dos magistrados componentes intrínsecos.
A utilização da inteligência artificial que resolva o mérito dos conflitos ou mesmo que antecipe efeitos de uma decisão final (tutelas de urgência ou evidência, que em termos práticos se mostram ainda mais carentes de sensibilidade do julgador) não parece ser possível. Agora, todo instrumental que estiver à disposição do julgador para levantamento de dados, identificação de elementos comuns, reunião de demandas repetitivas, maior agilidade de procedimentalização deve ser incentivado.
É relevante dizer que essas condições são próprias e mais vinculadas ao exercício da função jurisdicional, apenas uma das possibilidades de resolução de conflitos postas à disposição das partes do conflito.
Isso significa que, embora ninguém esteja obrigado a utilizá-la (princípio dispositivo), caso assim opte, aderirá a esse perfil de resolução. Até porque é essa vinculação a tal perfil (com a garantia constitucional de decisões humanas) que assegura, como face do Acesso à Justiça, que toda parte terá à sua disposição a função jurisdicional estatal.
Igualmente, isso significa que a necessidade de decisão humana não necessariamente tem de estar presente em meios não jurisdicionais de resolução de conflitos.
É perfeitamente possível e pode ser até recomendada a existência de meios de resolução com decisões automatizadas – como visto anteriormente (promovidas pelo Estado ou pelas empresas, conforme alguns exemplos mencionados nas outras partes deste trabalho) para as situações em que isso se mostre mais adequado e efetivo e desde que essa possibilidade e o caminho para tanto seja o mais transparente possível para as partes.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Como podemos definir a inteligência artificial?
Possíveis limites da IA
3. Mediação e arbitragem on-line
Ligando os pontos
Reconhecidamente a plataforma Consumidor.gov é um caso de sucesso mundial. Criada em 2014, a plataforma Consumidor.gov é um serviço público monitorado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), que permite, como o próprio site define, “a interlocução direta entre consumidores e empresas para solução de conflitos de consumo pela internet”. É uma das providências mais alinhadas com a Política Nacional de Relações de Consumo, focada na resolução de conflitos. Serviço público e gratuito, a plataforma se desenvolve de forma integralmente on-line (ODR) e de forma transparente. Permite que consumidores e empresas dialoguem diretamente para tentar solucionar questões associadas a produtos ou serviços prestados. A participação é voluntária de ambos os lados, devendo o consumidor se cadastrar e identificar adequadamente, com a apresentação dos detalhes da reclamação. A empresa, por sua vez, adere ao serviço mediante a assinatura de termo de adesão, documento formal que passa a sujeitá-la à plataforma e a apresentação de índices nela presentes. Tecnicamente, a plataforma funciona como um terceiro desinteressado no conflito e gera um ambiente de reaproximação das partes de forma tecnológica e a partir da credibilidade decorrente da própria atuação da Senacon e do desenvolvimento de seus resultados. Com isso e sem sugerir soluções, a plataforma funciona como uma verdadeira mediação on-line, promovendo o diálogo e resultados muito interessantes.
Online dispute resolutions (ODRs) e mediação on-line
Online dispute resolution
Neste vídeo, o professor explica o que é o Online Dispute Resolution e o surgimento da mediação on-line.
Como gênero inclusive das cortes on-line, as ODRs (online dispute resolutions) podem ser integradas e compreendidas pelo uso de mecanismos que se valem do ambiente on-line ou virtual para solução das disputas jurídicas.
Quer dizer, será considerado uma ODR um procedimento de solução do conflito que se desenvolva de forma on-line. Adicionalmente, como espécies, tem-se:
i. As cortes on-line, se o desenvolvimento da jurisdição estatalocorre de forma on-line.
 
ii. Os demais métodos, paralelos à jurisdição estatal, de solução on-line dos conflitos (inclusive a arbitragem on-line tratada adiante).
Aliás, desenvolveram-se, em primeiro lugar, no campo dos demais métodos (segunda espécie), e hoje a solução on-line já permeia a própria jurisdição estatal (primeira espécie). As ODRs iniciaram sua proliferação nos sistemas de solução de disputas como uma forma de e-ADR (eletronic alternative dispute resolution) porque estes, aliás, diante da complexidade social, não foram capazes de entregar o que prometeram, adotando-se a expressão “métodos alternativos” justamente na ideia de que eles serviriam como alternativa à clássica jurisdição estatal.
Tendem a ser mais baratos ou mesmo gratuitos – esse último caso é o da plataforma Consumidor.gov.br, de que se tratará adiante.
Exemplo
Na Europa, muitos desses meios têm seu custeio a cargo do fornecedor ou são de baixo custo ao consumidor.
Ademais, ainda quanto ao custo, cabe lembrar que esses meios on-line não reclamam a ida dos envolvidos a uma localidade específica para audiências ou outros atos presenciais. Destaque-se, também, que o fato de serem on-line amplia sua eficiência, já que muitas vezes sequer possuem intervenção humana de mediadores, sendo que podem comportar centenas ou milhares de negociações, mediações ou arbitragem simultaneamente.
Outro benefício é a conveniência, que também converge para a mencionada redução de custos econômicos e pessoais não só do sistema, como das partes: ao lado de não ser necessário aos envolvidos comparecer a uma sala de sessões de negociação, conciliação, mediação ou arbitragem, não há, em princípio, a exigência de tais mecanismos serem síncronos – ou seja, não precisam contar com atos que demandam a presença simultânea dos sujeitos do processo, a depender do serviço de online dispute resolution utilizado: dessa forma, cada parte teria um prazo para acessar o sistema e efetuar suas propostas e considerações.
Atenção
Importante dizer que como ODR não estão inseridos os processos judiciais eletrônicos que, embora se valham de procedimentos ou ferramentas de tecnologia e, algumas, on-line, não transformam por completo a prestação da jurisdição estatal, que continua com atos tradicionais ou, por assim dizer, “off-line”, como aqueles em que se dá o encontro físico entre sujeitos do processo ou seus representantes (v.g. audiências, sessões de julgamento, despachos presenciais, inspeção judicial etc.).
A ODR não ocorre com a simples ou complexa automação de procedimentos, mas representa a transformação destes. Entre as ODRs, podem ser citados os mecanismos de mediação on-line. A premissa nesse método é a de que o procedimento de mediação é conduzido de forma integralmente on-line.
A mediação, por si só, pode ser conceituada como o método pelo qual há a criação de um ambiente, com envolvimento humano ou não, de reaproximação das partes no conflito.
Essa reaproximação é fundamental para que as partes cheguem, por si sós, a uma solução de conflitos. Isso tende a ser muito proveitoso para situações em que as partes eram muito próximas nos contratos firmados antes da geração do conflito e a reaproximação pode ser decisiva, a exemplo de lides em contexto familiar.
Difere da conciliação, porque nesta há a sugestão pelo terceiro conciliador de uma solução às partes. Difere da jurisdição, estatal ou privada (arbitral), porque nestas um terceiro desinteressado decide o conflito com aptidão de definitividade.
Naturalmente, como nos demais métodos, a mediação também é aprimorada pelo uso das tecnologias da informação e pode ser conduzida de forma on-line. Isso pode acontecer com participação humana como mediador, restabelecendo e promovendo o diálogo das partes, com atos síncronos (com todos participando ao mesmo tempo) ou apenas assíncronos. Pode também ser conduzida de forma on-line, em que o próprio ambiente on-line, por suas características, significa a reaproximação das partes, como é o exemplo da plataforma Consumidor.gov.
Arbitragem on-line
O princípio do Acesso à Justiça não tem como conteúdo apenas o acesso ao Poder Judiciário ou a uma decisão judicial estatal, mas o direito a uma solução adequada, efetiva e justa para o conflito de interesses.
De um lado…
A arbitragem é técnica de solução de conflitos mediante a qual os conflitantes buscam em uma terceira pessoa, de sua confiança, a solução amigável e "imparcial" (porque não feita pelas partes diretamente) do litígio.
Do Outro Lado…
É, portanto, mais um método ou mecanismo à disposição das partes para que essas possam por ele optar, se esse se apresentar de forma mais adequada e efetiva ao conflito. Em outras palavras, se ele fizer mais sentido ao conflito de direito material existente.
Tradicionalmente, a arbitragem gera importantes benefícios para as partes que a escolheram, especialmente com relação à independência e à expertise dos árbitros, à privacidade dos envolvidos, à flexibilidade do procedimento e à celeridade na obtenção da sentença.
As tecnologias possibilitaram, nesse contexto, um novo meio arbitral de resolver o conflito: a arbitragem on-line, que pode ser uma importante forma de atenuação de inconvenientes da arbitragem tradicional, como demora e custo, por meio do seu potencial de redução de custos e garantia de maior velocidade à arbitragem.
A arbitragem on-line tem, assim, potencial para aprimorar o próprio método arbitral de resolver conflitos e, por consequência, potencializar o próprio conteúdo do princípio do Acesso à Justiça.
Parece, então, ser possível conceituar a arbitragem on-line como a arbitragem que tenha seu procedimento integralmente desenvolvido por meio digital ou com os usos das tecnologias da informação.
Nesse sentido, podem ser mencionadas algumas experiências relevantes.
Experiências de destaque na arbitragem on-line
Em primeiro lugar, cabe mencionar a Plataforma Europeia para resolução de disputas consumeristas, regulada pela Diretiva 2013/11/EU e pelo Regulamento EU nº 524/13, de 21 de maio de 2013, que cuida da resolução on-line de conflitos entre consumidores e fornecedores e traz a arbitragem entre as modalidades de mecanismos de solução de controvérsias.
Saiba Mais
De acordo com o Regulamento EU nº 524/13, consumidores podem registrar reclamações na Plataforma de Resolução Online de Conflitos, cujo uso é facultativo, o que significa dizer que os consumidores podem optar por ingressar diretamente em juízo contra o fornecedor, ainda que a obtenção da resolução seja mais lenta e custosa. Vale salientar que a plataforma de consumo europeia tem obtido boa taxa de êxito.
Ao longo do primeiro ano de implementação da Plataforma Europeia Consumerista ODR, uma pesquisa indicou que mais de 24.000 consumidores prestaram reclamação na Plataforma e mais de 40% alcançaram um acordo.
Outro relevante sistema de arbitragem on-line é o Uniform Domain-Name Dispute Resolution Policy (UDRP), adotada por registradores credenciados pela ICANN em todos os gTLDs (Generic Top-Level Domain), a fim de analisar supostos abusos no uso do domínio de determinado site.
Uma experiência interessante é a plataforma Kleros, a qual consiste em um protocolo de resolução on-line de conflitos que utiliza blockchain e crowsourcing para resolver disputas de modo mais eficiente. Esse sistema visa resolver conflitos envolvendo áreas como e-commerce e economia compartilhada.
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Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Arbitragem on-line
Âmbito de uso da arbitragem on-line
4.Conclusão
Considerações finais
Como vimos, o princípio do Acesso à Justiça pode ser compreendido em uma nova dimensão com a aplicação das tecnologias da informação no aprimoramento dos métodos de resolução de conflitos ou na criação de novos métodos. Dentro disto, estão as cortes on-line ou a Justiça Digital, caracterizada pela prestação da jurisdição estatal de forma integralmente on-line. No Brasil, destacam-se as Resoluções nº 345 e nº 372 do CNJa esse respeito. Vimos também a crescente participação dos mecanismos de inteligência artificial nos atos procedimentais, sendo profícuas as iniciativas do país. Além do conceito, estudamos possíveis limites na utilização de tais mecanismos, especialmente a necessidade de preservação das decisões humanas.
Por fim, vimos juntos as ODRs e as principais características dos mecanismos de mediação e arbitragem on-line.
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TEMA 3
TEORIA GERAL DO PROCESSO ELETRONICO
Apresentação do processo eletrônico à luz da teoria geral do processo.
Itens iniciais
Propósito
Compreender o processo eletrônico à luz da teoria do processo, com a identificação da sua contribuição para a realização do acesso à Justiça, da celeridade processual e da identificação do diálogo das fontes na relação entre o princípio da publicidade processual e a previsão da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Preparação
Antes de iniciar seus estudos, leia as disposições da Lei nº 11.419/2006 e os artigos 193 a 199 do Código de Processo Civil.
Objetivos
· Identificar a contribuição do processo eletrônico para o acesso à Justiça.
· Analisar a celeridade processual na prática de atos por meio eletrônico
· Reconhecer os desafios do princípio da publicidade processual diante das disposições da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Introdução
O desenvolvimento e a regulamentação do processo eletrônico no Brasil têm como perspectivas a facilitação do acesso à Justiça e a libertação dos entraves formais e burocráticos que consomem boa parte do tempo e da energia na tramitação de um processo (GRECO, 2001, p. 77).
A prática dos atos por meio eletrônico é associada, em suas origens, à Lei nº 9.800/1999, que permitiu às partes a utilização de sistemas de transmissão de dados para prática de atos processuais, exigindo, porém, a protocolização dos originais. Houve, na sequência, leis que previram a prática de atos processuais por meio eletrônico, como, por exemplo, a Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/1991), a Lei dos Juizados Especiais Federais (Lei nº 10.259/2001), a Lei nº 11.280/2006, que inseriu o parágrafo único ao artigo 154 do Código de Processo Civil de 1973, tratando da prática e da comunicação dos atos processuais por meio eletrônico, e a Lei nº 11.382, de 6 de dezembro de 2006, que, entre outras alterações na execução, incluiu o artigo 655-A no Código de Processo Civil de 1973, possibilitando que o juiz promovesse a penhora on-line. Porém, foi a partir da Lei nº 11.419, de 19 de dezembro de 2006, conhecida como Lei de Informatização do Judiciário, que o tema teve nítido destaque. 
A referida legislação é dividida em quatro capítulos: 
I - Da informatização do processo judicial; 
II - Da comunicação eletrônica dos atos processuais; 
III - Do processo eletrônico; 
IV - Disposições gerais e finais.
Entre as suas referências, merecem destaque:
· O artigo 1º, que admite a possibilidade de tramitação dos processos judiciais por meio eletrônico;
· O artigo 3º, que dispõe que o ato processual praticado por meio eletrônico será tempestivo se praticado dentro das 24 horas do dia;
· Os artigos 4º e 5º, que tratam da comunicação dos atos processuais por meio eletrônico;
· O artigo 11, que versa sobre os documentos produzidos eletronicamente e juntados aos processos eletrônicos.
No ano de 2013, a Resolução nº 185 do Conselho Nacional de Justiça instituiu o sistema processual judicial eletrônico (PJe) como sistema de informações e prática dos atos processuais, estabelecendo os parâmetros para a sua implementação e funcionamento. A relevância do processo eletrônico foi ainda consagrada no Código de Processo Civil de 2015, em vigor desde 18 de março de 2016.
O diploma dedicou a Seção II do Capítulo I do Livro IV à prática eletrônica dos atos processuais - mais precisamente, os artigos 193 a 199, sendo que o artigo 194 destaca que os sistemas informatizados devem respeitar a publicidade dos atos e o acesso e participação das partes e procuradores. Já o artigo 195 trata do registro do ato processual praticado por meio eletrônico, enquanto o 197 se preocupa com a transparência e a acessibilidade.
1. Acesso à justiça
Ligando os pontos
O processo eletrônico proporciona uma grande contribuição para o acesso à Justiça ao permitir a supressão de algumas etapas meramente burocráticas do processo por meio da utilização de sistemas automaticamente capazes, por exemplo, de certificar o decurso do prazo processual, reduzindo a quantidade de recursos humanos necessária. Além disso, a tramitação eletrônica dos autos também reduz a quantidade de impressões realizadas pelo Poder Judiciário e a circulação de documentos em meio físico.
Além do ingresso de processos já por meio eletrônico, os Tribunais estão concentrando seus esforços para a digitalização dos autos físicos a fim de que eles também possam tramitar eletronicamente. É certo que a tramitação eletrônica dos autos possui desafios, como o acesso a equipamentos de informática e uma boa conexão de internet, a instabilidade do sistema dos Tribunais e o risco de ataque de hackers. Essas questões se colocam como ponto de atenção, mas não reduzem a relevância da contribuição do processo eletrônico para o acesso à justiça.
Dito isso, nos autos em que a empresa XYZ discute uma indenização em face da empresa ABC, devido à complexidade da questão tratada e da quantidade de recursos interpostos e incidentes suscitados, o processo tramita há mais de uma década no Judiciário: de início, fisicamente; em seguida, digitalizados.
A digitalização foi considerada muito importante pelas partes e pelos advogados, sobretudo pelo tempo que o processo já tramita. A partir dela, seriam permitidas a supressão de algumas etapas cartorárias, reduzindo a quantidade de atos e o tempo do processo no cartório.
Porém, em novembro de 2020, quando o processo já tramitava eletronicamente no Superior Tribunal de Justiça e estava para inclusão em pauta de julgamento, o Superior Tribunal de Justiça divulgou em seu site que, em razão de ataque cibernético, funcionaria em regime de plantão.
O ataque cibernético deixou o site dos Tribunais fora do ar por dias para que o sistema e a segurança pudessem ser estabelecidos e para os advogados refletissem sobre a contribuição e, ao mesmo tempo, sobre os desafios do processo eletrônico para o acesso à Justiça.
A concepção de acesso à Justiça
O acesso à Justiça não é uma preocupação recente ao longo da história (CARNEIRO, 2007, p. 3). Esse acesso significa tanto o sistema no qual os cidadãos buscam assegurar seus direitos como o lugar em que eles submetem seus conflitos ao Estado (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 6). 
Alguns estudos acabaram se destacando sobre o tema. Um deles é o Projeto Florença. O projeto de pesquisa resultou em um relatório comparativo sobre o acesso à Justiça com escala mundial; preparado em Florença, na Itália, a partir de 1973, ele envolveu 100 experts de 27 países. Coordenada por Mauro Cappelletti em colaboração com Bryant Garth e Nicolò Trocker, a pesquisa foi publicada em quatro volumes a partir de 1974/1975. Apenas o último volume, que apresenta as conclusões dela, foi traduzido para o português.
As conclusões do projeto representaram uma importante transformação na compreensão do acesso à Justiça, sendo detectadas barreiras para sua efetividade. Cada uma dessas barreiras foi tratada como uma onda renovatória do acesso a ela.
Primeira Onda:
A primeira onda de acesso à Justiça envolveu os hipossuficientes. Foi constatado na pesquisa que, na maioria dos países, a representação por um advogado era essencial - em alguns casos, até indispensável. Entretanto, a assistência judiciária gratuita foi constada como insuficiente, porque os advogados mais experientes tenderiam a concentrar seu tempo e esforços em causas que receberiam honorários, sendo a advocacia pro bono, em geral, realizada por profissionais menos experientes (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 24).
Segunda Onda:A segunda onda renovatória versou sobre o problema da representação dos interesses difusos. A concepção tradicional do processo civil não deixava espaço para a proteção dos direitos difusos e torna latente a preocupação com uma representatividade adequada, já que não haveria participação individual na demanda e a noção de coisa julgada necessitava ser redimensionada (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 50). A pesquisa constatou que, embora seja a principal forma de proteção dos direitos difusos e coletivos, a atuação governamental, especialmente nos países de common law, não tinha sido capaz de fazê-lo (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 51). Apesar de haver grupos tutelando o interesse coletivo por meio de advogados privados, eles não eram bem organizados em todos os setores, havendo uma razoável organização na área trabalhista, mas não em matéria consumerista ou para a defesa ambiental. As class actions reduziriam os custos estatais, embora exigissem especialização, experiência e recursos em áreas específicas que nem todos os grupos possuíam (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 61). Organizações de fins não lucrativos também se constituíam para essa defesa, porém a pesquisa atentou para a responsabilidade pelos interesses que representam e a viabilidade a longo prazo.
Terceira Onda:
O estudo realizado teve tanta relevância que, no Brasil, nas décadas seguintes, outras obras se consagraram ao realizar uma releitura do acesso à Justiça. Um dos destaques é a obra do professor Paulo Cezar Pinheiro Carneiro (2007, p. 55), que trouxe quatro pilares fundamentais:
Proporcionalidade - A escolha a ser feita pelo julgador quando existem dois interesses em conflito.
Operosidade - Todos os envolvidos na atividade judicial devem atuar de forma que se atinja o efetivo acesso à Justiça.
Acessibilidade - A existência de sujeitos de direito capazes de estar em juízo, utilizando-se adequadamente o instrumental jurídico e possibilitando a efetivação de direitos individuais e coletivos.
Utilidade - Outra contribuição que se destaca é a de Rodolfo de Camargo Mancuso (2009), que interpretou condicionantes legítimas e ilegítimas ao acesso à Justiça ao abordar a temática da crise numérica dos processos judiciais, com as consequentes medidas adotadas no ordenamento nacional para a redução desse número e sugestões para um Judiciário renovado.
Também merece destaque a contribuição de Kazuo Watanabe (2019), cuja leitura do acesso à Justiça a vê como um acesso à ordem jurídica justa a partir das formas não mais consideradas alternativas, e sim adequadas à solução de conflitos. Além disso, o autor aborda temas pertinentes, como Juizados Especiais, assistência judiciária e processo coletivo.
O tema “acesso à Justiça”, portanto, permanece atual, permitindo reflexões sobre sua concepção e modos de aprimoramento do atual estado da arte. O processo eletrônico é um dos temas que se soma a esses desdobramentos das concepções de acesso à Justiça, revelando-se a ela indissociável, como passaremos a demonstrar.
O processo eletrônico e o acesso à Justiça
Benefícios do processo eletrônico
Neste vídeo, a professora trata do processo eletrônico e de como o acesso à Justiça pode ser beneficiado por esse tipo de processo.
Na atualidade, considerando o cenário globalizado, não se pode tratar de acesso à Justiça sem as novas tecnologias. A informatização do Poder Judiciário contribui para a realização da primeira e da terceira ondas renovatórias de acesso a ela.
Em relação à primeira onde renovatória, nota-se a redução dos custos processuais. O processo eletrônico permite a diminuição da quantidade de impressões realizadas pelo Poder Judiciário e a circulação de documentos em meio físico, otimizando o uso de recursos materiais, além de suprimir etapas meramente burocráticas do processo graças à utilização de sistemas automaticamente capazes de, por exemplo, certificar o decurso do prazo processual, reduzindo a quantidade de recursos humanos necessária.
A título de exemplo, pode-se constatar, pela previsão do artigo 1.007, §3º, do Código de Processo Civil, que os custos do processo eletrônico acabam sendo menores que os do processo físico. Além disso, no eletrônico, não há a necessidade de deslocamento até o fórum para consulta aos autos.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou, em 2021, o projeto Justiça 4.0 com o objetivo de promover o acesso à Justiça por meio de ações e iniciativas desenvolvidas para o uso colaborativo de produtos que empregam novas tecnologias e inteligência artificial. Como medida, destaca-se a implantação do Juízo 100% Digital nos termos das Resoluções nº 345/2020 e 378/2021.
Outra frente de trabalho é a implantação do Balcão Virtual, regulamentado pela Resolução nº 372/2021 do Conselho Nacional de Justiça, com a comunicação a distância. As sustentações orais aumentaram muito a partir das sessões telepresenciais, justamente porque se passou a poder sustentar de qualquer lugar, sem a necessidade do deslocamento. Um advogado que esteja no interior não precisa mais gastar horas de deslocamento para realizar uma sustentação oral presencial no Tribunal. Do mesmo modo, o contato e o atendimento, durante e depois do período de pandemia, poderiam ser estabelecidos remotamente, facilitando o acesso e propiciando economia para as partes e os profissionais envolvidos.
Além disso, a informatização permite a desburocratização do processo com a racionalização de procedimentos, como a anexação de minutas em bloco, a movimentação simultânea de blocos de processo e a aposição de assinatura eletrônica. Os espaços eletrônicos possuem ainda alta capacidade de armazenamento, liberando o espaço físico dos fóruns e, ao mesmo tempo, conservando as informações e as provas.
Destaca Humberto Dalla Bernardina de Pinho que:
Há uma maior celeridade, na medida em que os atos de cartório deixam de tomar o tempo das varas; um menor valor de custas ou impostos, uma vez que o processo eletrônico é mais barato e, principalmente, celeridade na resolução dos conflitos.
(PINHO, 2019, p. 415)
Não se pode esquecer também que, não obstante sua inegável contribuição ao acesso à Justiça, o processo eletrônico é permeado de desafios. Um deles é o da instabilidade do sistema, que, como todo e qualquer programa informático, pode ter momentos de instabilidade.
Esses momentos, em geral, não costumam durar muito: dependendo do tempo de duração, podem gerar a suspensão dos prazos processuais no dia em que houve a instabilidade, de forma a não prejudicar o jurisdicionado. Quando as instabilidades do sistema acabaram sendo muito frequentes, durante o primeiro semestre de 2022, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), a OABRJ anunciou que se dirigiria ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na tentativa de reverter as que ocorreram no sistema de peticionamento eletrônico a fim de assegurar a realização da prestação jurisdicional.
Outro desafio refere-se à segurança dos atos praticados por meio eletrônico e à autenticidade dos documentos apresentados, apesar de esse tema ser acompanhado pelo Conselho Tribunal de Justiça e pelos próprios Tribunais.
Exemplo
Alguns Tribunais pátrios já sofreram ataques de hackers. O site do Superior Tribunal de Justiça (STJ) passou alguns dias fora do ar a partir de 4 de novembro de 2020. O Tribunal, porém, não deixou de realizar a prestação jurisdicional por meio do regime de plantão (STJ, 2020). O reforço da segurança de informações digitais precisa ser tratado como prioridade, pois há muitas informações disponíveis eletronicamente. O ataque cibernético, além de dificultar a realização da prestação jurisdicional, pode deixar muitas informações relevantes expostas.
Por fim, mas não menos importante, não se pode esquecer da exclusão digital, já que muitos jurisdicionados não possuem um computador ou acesso à internet. Sobre o tema, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Resolução nº 101, de 2021, prevendo algumas medidas para a garantia do acesso à Justiça aos excluídos digitais.
Entre tais medidas, destaca-se a recomendação aosTribunais brasileiros de disponibilizar em suas unidades físicas pelo menos um servidor em regime de trabalho presencial durante o horário de expediente regimental, ainda que acumulando funções, para o atendimento aos excluídos digitais a fim de garantir o amplo acesso à Justiça, efetuando o encaminhamento digital dos eventuais requerimentos formulados.
Os desafios trazidos pelo processo eletrônico, em suma, apontam a necessidade de reflexão sobre o tema, mas não reduzem a sua grande relevância no acesso à Justiça.
Vem que eu te explico!
Ondas renovatórias do acesso à Justiça
Condicionantes legítimas e ilegítimas ao acesso à Justiça
2. Celeridade Processual
Ligando os pontos
Em notícia vinculada no site do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas, a desembargadora Célia Regina de Lima Pinheiro declarou o seguinte: “Tenho convicção de que a Justiça Digital permite um progressivo diálogo entre os ambientes real e virtual para a gestão da governança e dos processos, fortalecendo a transparência do Poder Judiciário e fomentando a aproximação para com o cidadão. Todas essas conquistas exigem o comprometimento ainda maior de cada um de nós para atingirmos o único objetivo: otimizar a prestação jurisdicional à sociedade”.
Apresentação do trabalho realizado pelo Judiciário Estadual em relação ao programa do CNJ Justiça 4.0.
O Tribunal de Justiça do Maranhão foi um dos primeiros do país a implementar o Juízo 100% Digital nos termos das resoluções nº 345/2020 e 378/2021, uma opção do jurisdicionado que alia o processo eletrônico a todos os atos processuais praticados exclusivamente por meio eletrônico, inclusive as audiências. Com isso, a citação, a notificação e a intimação poderão ser feitas por qualquer meio eletrônico, enquanto as audiências e sessões de julgamento ocorrerão exclusivamente por videoconferência, bem como o atendimento a jurisdicionados e advogados, sem qualquer restrição de matéria.
É importante ressaltar que a prática dos atos processuais já era contemplada em nosso ordenamento, sendo total ou parcialmente regulamentada primariamente pelo Conselho Nacional de Justiça e supletivamente pelos Tribunais, os quais ainda precisam manter gratuitamente à disposição dos interessados os equipamentos necessários tanto à prática de atos processuais quanto à consulta e ao acesso ao sistema e aos documentos dele constantes.
O Juízo 100% Digital será um grande avanço para a tramitação dos processos e vai propiciar mais celeridade por meio do uso da tecnologia, evitando os atrasos decorrentes da prática de atos físicos ou que exijam a presença das partes nos fóruns.
Diante disso, José, residente nos Estados Unidos, mas já com planos de retorno ao Brasil diante de uma nova oportunidade de emprego, ajuíza uma ação de guarda e visitação para que Maria, mãe que reside no Maranhão com o menor J., absolutamente incapaz, não mais impeça a visita dele ao incapaz após o retorno ao país. Apesar de José residir fora do Brasil e de a genitora trabalhar durante todo o dia, não tendo tempo de se deslocar ao fórum, as partes manifestaram desinteresse na tramitação dos autos em um Juízo 100% Digital do Tribunal de Justiça do Maranhão por desconhecerem do que se tratava.
A duração razoável do processo
A garantia fundamental da duração razoável do processo, insculpida, a partir da Emenda nº 45/2004, no artigo 5º, inciso LXXVIII, da Constituição Federal, se trata de um tema que não é recente nem peculiar ao cenário brasileiro. Na verdade, ela assume uma inegável relevância diante da vultosa atuação do Poder Judiciário para a tutela dos direitos fundamentais e implementação de políticas públicas. Para isso, primeiramente é preciso compreender o conteúdo da chamada duração razoável do processo.
Em inúmeros julgamentos proferidos pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) sobre o tema, foram estabelecidos alguns critérios objetivos utilizados para a determinação da duração razoável do processo, mediante o cotejo com as particularidades do caso concreto, a fim de evitar dilações indevidas - notadamente, incidentes processuais totalmente impertinentes e irrelevantes. Isso ocorreu, por exemplo, nos seguintes casos: König, de 10/03/1980; Bucholz, de 06/05/1981; Eckle, de 15/07/1982; Corigliano, de 10/12/1982; Pretto, de 08/12/1983; Zimmermann-Steiner, de 13/07/1983; Lechner e Hess, de 23/04/1987; Capuano, de 25/06/1987; Baggetta, de 25/06/1987; Milasi, de 25/06/1987; Sanders, de 07/07/1990; Moreiras de Azevedo, de 23/10/1990; e Vernillo, de 20/02/1991 (TUCCI, 1997, p. 68).
Os critérios estabelecidos pelo TEDH foram:
A complexo do litígio
A complexidade da causa a justificar um eventual prolongamento do processo pode se dar nos casos de pluralidade das partes em razão da cumulação de pedidos, de litisconsórcios multitudinários, por ser decorrente da produção probatória (critério fático) ou em virtude da natureza da questão debatida (critério jurídico) (BERALDO, 2010, p. 39-40). Determinadas causas, a depender de sua complexidade, exigem uma análise mais detida do Poder Judiciário, isto é, um tempo maior para a tramitação dos processos do que outras.
A conduta pessoal da parte lesada
A conduta pessoal da parte lesada significa que as próprias partes, por meio de uma atuação protelatória, graças à provocação de incidentes dilatórios ou com a interposição de sucessivos recursos, bem como aquela que, por falta de diligência, não contribuiu para o seu andamento (GRECO, 2005, p. 242), podem comprometer a duração razoável do processo.
A conduta das autoridades envolvidas no processo
Quanto ao critério da conduta das autoridades competentes, cabe ao Estado organizar a estrutura judiciária de forma a permitir uma duração razoável dos processos. Verifica-se se as autoridades tomaram medidas apropriadas para gerenciar acúmulo temporário e imprevisível de processos. Em caso positivo, o maior tempo de processamento de alguns casos pode ser justificado.
O interesse em jogo para o demandante de indenização
Analisam-se também as peculiaridades do caso concreto, uma vez que algumas questões necessitam de uma prestação jurisdicional mais célere, tais como aquelas que envolvem réu preso, alimentos e saúde.
Processo eletrônico e a duração razoável do processo
A garantia da duração razoável
Neste vídeo, a professora discorre sobre como a garantia da duração razoável do processo pode ser promovida pelo uso do processo eletrônico.
O processo eletrônico já é uma realidade presente em todos os estados do país e deve tornar-se, dentro de poucos anos, a principal porta de acesso ao Poder Judiciário. Basta consultar que, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) disponibilizados em 2020 (com base no ano de 2019), neste último ano, 88% dos processos que ingressaram no Judiciário brasileiro foram por intermédio da via eletrônica (CNJ, 2020). O processo eletrônico, por sua vez, se enquadra na terceira onda. Demonstrando esse enquadramento, é possível observar que, em seus dispositivos, a Lei nº 11.419/2006 proporcionou ao processo, por meio do procedimento eletrônico e de suas peculiaridades, um grande avanço.
Os processos eletrônicos eliminam inúmeras tarefas processuais que ainda são realizadas manualmente, diminuindo a morosidade e a demora. Eles permitem que os atos processuais sejam gerados e registrados automaticamente em ordem cronológica dos acontecimentos do processo. Os documentos que integram o processo, como a petição inicial, petições em geral, contestação, despachos, decisões interlocutórias, sentenças e acórdãos, também são produzidos eletronicamente e armazenados em um banco de dados desenvolvido para essa finalidade. As sessões por videoconferência permitem que a prestação jurisdicional não pare, mesmo com a impossibilidade de deslocamento até o local do julgamento. Assim, toda a tramitação do processo ocorre por meio virtual, desde a distribuição até o cumprimento da sentença.
Ademais, o registro de ato processual eletrônico deverá ser feito em padrões abertos, ou seja, o sistema usado não pode ter custo ou formade limitação ao uso.
Essas possibilidades são reforçadas pela Lei nº 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico). O art. 3º, parágrafo único, permite o protocolo das petições até as 24 horas do último dia do prazo. Segundo Humberto Dalla Bernardina de Pinho, “com a nova sistemática os advogados não ficam mais restritos ao horário de fechamento do setor de protocolo, podendo aproveitar ao máximo o último dia de prazo” (PINHO, 2019, p. 410). No mesmo sentido, o art. 10 dessa lei permite a distribuição e o protocolo automático nos autos do processo sem a intervenção do cartorário e da secretaria judicial.
As citações, inclusive da Fazenda Pública, conforme artigo 6º da Lei nº 11.419, podem ocorrer de forma eletrônica, bem como as intimações, segundo artigo 5º da mesma lei, e as cartas como atos de cooperação entre juízos, de acordo com o artigo 7º. Não há a necessidade de repositório físico dos autos, podendo o processamento da ação judicial ter todo o seu processamento eletrônico, de forma mais célere, nos termos do artigo 8º da Lei nº 11.419.
Às contribuições do processo eletrônico para a celeridade processual somam-se a utilização da inteligência artificial, que aumenta a produtividade dos Tribunais e reduz o tempo para que as decisões judiciais sejam proferidas, e a jurimetria.
Em relação à inteligência artificial, merece especial destaque o Programa Justiça 4.0, que objetiva a promoção do acesso à Justiça por meio de ações e projetos desenvolvidos para o uso de inteligência artificial e novas tecnologias.
O programa divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça se calca nas seguintes ações e projetos:
· Implantação do Juízo 100% Digital.
· Projeto da Plataforma Digital do Poder Judiciário (PDPJ), com possibilidade de ampliar o grau de automação do processo judicial eletrônico e o uso de inteligência artificial (IA).
· Auxílio aos Tribunais no processo de aprimoramento dos registros processuais primários, consolidação, implantação, tutoria, treinamento, higienização e publicização da Base de Dados Processuais do Poder Judiciário (DataJud), visando a contribuir com o cumprimento da Resolução CNJ nº 331/2020.
· Colaboração para a implantação do sistema Codex, que tem duas funções principais: alimentar o DataJud de forma automatizada e transformar em texto puro decisões e petições para que possa ser utilizado como insumo de modelo de inteligência artificial.
· Desenvolvimento de ferramenta de pesquisa e recuperação de ativos (Sniper) para fornecer subsídios a magistrados e servidores que favoreçam a diminuição do acervo e do congestionamento processual na fase de execução, facilitando a compreensão de crimes que envolvem sistemas financeiros complexos, como corrupção e lavagem de dinheiro.
· Desenvolvimento de um novo Sistema Nacional de Bens Apreendidos (SNBA) que possibilite não apenas o cadastramento dos bens, mas também sua gestão e destinação pelo Poder Judiciário.
O programa é de extrema relevância para o Poder Judiciário. Sua contribuição envolve:
Inovação do poder judiciário
Desenvolver e utilizar tecnologias disruptivas para aperfeiçoar os serviços prestados à sociedade.
Eficiência
Automatizar atividades dos órgãos de Justiça, aproveitando melhor os recursos humanos e materiais, fomentando a produtividade, reduzindo despesas e agilizando a prestação de serviços.
Inteligência
Extrair, gerenciar e armazenar dados de Tribunais de todo o país, apoiando a implementação de políticas judiciais efetivas com base em evidências.
Colaboração
Disponibilizar plataformas nacionais que os Tribunais podem usar para compartilhar soluções tecnológicas, adaptá-las a suas necessidades e evitar iniciativas duplicadas para as mesmas demandas.
Integração
Consolidar uma política nacional para a gestão do processo judicial eletrônico e viabilizar o compartilhamento de sistemas entre os Tribunais.
Transparência
Divulgar dados e informações em painéis completos, acessíveis e fáceis de usar tanto pelos órgãos de Justiça como pela sociedade como um todo.
Já a jurimetria é a estatística aplicada ao direito e pode ser brevemente exposta a partir dos serviços de levantamento e processamento de dados, operando nos escritórios de aplicativos e softwares que medem a taxa de sucesso de uma demanda como suporte para as opções a serem tomadas diante de conflitos. Esse serviço poderá ser muito útil para promover o incremento de soluções consensuais, evitando a judicialização.
Consequentemente, temas sem chance de êxito sequer ingressariam no Poder Judiciário, permitindo que a prestação jurisdicional pudesse se concentrar de forma mais adequada aos casos ali existentes. Sintetiza Humberto Dalla Bernardina de Pinho que o processo eletrônico:
“ É o processo compatível com o princípio da celeridade a informatização processual, não só no ideal de acelerar as decisões feitas, respeitando-se a duração razoável do processo, mas também em proveito da solução de ações que se multiplicaram em razão de novas tecnologias que geram novas questões e novos direitos a serem enfrentados pela sociedade como um todo.
(PINHO, 2019, p. 407)
A implementação de novas tecnologias no Poder Judiciário pode trazer uma contribuição ainda maior para a redução do tempo gasto na prática dos atos processuais, além de retirar algumas fases cartorárias, que passam a ser realizadas diretamente pelo sistema de forma mais célere.
Vem que eu te explico!
Como definir a duração razoável de um processo?
O que é a jurimetria?
3. Publicidade processual e proteção de dados 
O princípio da publicidade processual 
O princípio da publicidade processual tem sua previsão no artigo 10 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e no artigo 5º, inciso LX, da Constituição, sendo que a última disposição prevê que a regra é a publicidade e que a exceção ocorre nos casos em que o decoro, o zelo pela privacidade ou o interesse social aconselhe que eles não sejam divulgados, conforme dispõe o artigo 189, parágrafo único, do Código de Processo Civil, bem como os artigos 483 e 792, §1º, do Código de Processo Penal. Lembram Cândido Rangel Dinamarco, Gustavo Badaró e Bruno Lopes:
“O princípio da publicidade do processo constitui uma preciosa garantia do indivíduo no tocante ao exercício da jurisdição. A presença do público nas audiências e a possibilidade do exame dos autos por qualquer pessoa representam o mais seguro instrumento de fiscalização popular sobre a obra dos magistrados, promotores públicos e advogados. Em última análise, o povo é o juiz dos juízes.
(DINAMARCO; BADARÓ; LOPES, 2020, p. 96)
No processo eletrônico, o artigo 4º da lei nº 11.419/2006 permitiu que os tribunais criassem diários eletrônicos para a publicação de atos judiciais e administrativos a fim de garantir a publicidade dos atos. Porém, conforme previsão do parágrafo 1º, art. 12, da Lei 11.419/2006, o sistema processual eletrônico deveria estar protegido do modo mais eficaz, garantindo a sua integridade e a preservação da intimidade das partes e dos dados ali expostos, principalmente nos casos de segredo de justiça.
Inicialmente, destaca-se que, em um processo eletrônico, há um aspecto importante:
O risco de invasão do sistema eletrônico por hackers, possibilidade ainda mais presente quando já existe, sobretudo a partir da Lei nº 13.709/2018, uma preocupação com o estabelecimento de uma cultura de privacidade e proteção de dados.
Nesse tema, é importante o reforço na segurança das informações digitais para evitar que as bases de dados dos Tribunais possam estar suscetíveis à atuação dos invasores e que, por consequência, os serviços prestados para advogados e cidadãos tornem-se inacessíveis por vários dias, atrasando e adiando a abordada celeridade do processo judicial eletrônico.
Outro aspecto que merece destaque na publicidade processual no processo eletrônico é o artigo 11, §6º, da Lei nº 11.419/2006. Em sua redação original, o dispositivo previa que o acesso aos documentos juntados por meio eletrônico somente estaria disponível às partes e ao Ministério Público, respeitado o disposto em lei paraas situações de sigilo e de segredo de justiça.
Aqui surgiu o debate sobre a publicidade (PINHO, 2019, p. 423), já que, como regra, há o conhecimento público dos atos praticados pelo Poder Judiciário de forma mais ampla, sendo disponibilizadas todas as etapas do processo. No entanto, o acesso aos documentos ficaria restrito às partes, aos seus procuradores e ao Ministério Público, além, é claro, de juízes e serventuários.
Atenção
Em relação ao acesso do advogado, é importante destacar o que foi definido no Procedimento de Controle Administrativo nº 0000547-84.2011.2.00.0000 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a partir da análise do Provimento nº 89/2010 do Tribunal Regional Federal da Segunda Região: salvo em casos de sigilo ou segredo de justiça, os advogados já credenciados no Tribunal devem ter acesso a quaisquer autos que tramitem eletronicamente.
Em 2019, a Lei nº 13.793 modificou o §6º do artigo 11 da Lei nº 11.419/2006, além de acrescentar o §13 ao artigo 7º da Lei nº 8.906/1994 e o §5º ao artigo 107 do Código de Processo Civil para permitir o acesso de qualquer advogado aos atos praticados em processo eletrônico, ressalvados os casos de segredo de justiça, que só podem ser consultados pelo advogado com procuração nos autos. Em relação aos terceiros, o acesso aos autos que tramitem eletronicamente é possível mediante requerimento. Isso é possível graças à criação de uma chave para acesso a terceiros, que passariam, caso seja criada essa chave, a visualizar o teor da documentação.
Sobre a redação do artigo 11, §6º, da Lei nº 11.419/2006, Humberto Dalla Bernardina de Pinho defende que:
“O que deve ser público são os atos, as partes que compõem a lide, o tipo de ação, para que surtam os efeitos de fiscalização dos atos pela sociedade, além de resguardar os possíveis credores etc.
Quando há publicidade irrestrita das peças que compõem os autos, viola-se o direito do indivíduo de resguarda documentos que digam respeito à sua intimidade e vida privada. Exemplificamos: o contracheque, os exames médicos, as ligações telefônicas numa discussão sobre valores cobrados excessivamente por determinada operadora, entre tantos outros documentos não muito difíceis de enumerar no nosso cotidiano.
(PINHO, 2019, p. 423)
Ainda sobre essa disposição, complementa Oscar Valente Cardoso que “buscava-se, com isso, evitar a exposição ampla de dados pessoais (número de CPF, endereço, e-mail, número de telefone, íntegra do contrato ou do processo administrativo, conteúdo do depoimento das partes e de testemunhas, valor de honorários periciais etc.) na rede mundial de computadores” (CARDOSO, 2021, p. 82).
Porém, quando se trata de publicidade processual, desde o ano de 2018 mencionam-se também as repercussões da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)
Publicidade do processo e proteção de dados
Neste vídeo, a professora explica os impactos da proteção de dados pessoais sobre a garantia constitucional da publicidade do processo.
Na publicidade como regra, o sigilo integral dos autos, quando exigido para a proteção do interesse público, do interesse social ou da intimidade, excepcionalmente impõe a vedação inclusive da divulgação da existência do processo, da identificação das partes e de quaisquer atos nele praticados ou o sigilo parcial dos autos apenas para um ou alguns determinados atos do processo. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Lei nº 13.709/2018, acrescenta o sigilo parcial do ato processual, ou seja, ainda que determinado ato seja público (por exemplo, a sessão de julgamento) ou que não exista a decretação de segredo de justiça total ou parcial, os dados pessoais sensíveis das partes não podem ser divulgados.
Oscar Valente Cardoso exemplifica que:
“Em um processo previdenciário de auxílio-doença, a versão pública da sentença (na movimentação processual, no site do tribunal ou em outro mecanismo de pesquisa) deve ocultar qualquer menção às doenças alegadas pela parte autora, referência ou eventual citação da perícia judicial (e suas conclusões), entre outros dados relacionados à saúde da parte.
(CARDOSO, 2021, p. 87)
Dânton Zanetti (2021) inclusive relata que, desde a entrada em vigor da Lei de Proteção de Dados (LGPD), os requerimentos de segredo de justiça passaram a se amparar nessa legislação justamente a partir de dados que, com base no artigo 5º, inciso I, da LGPD, merecem proteção para a preservação da intimidade de seu titular sem que, para isso, eles sejam requeridos apenas com base nos mais íntimos (MENDES, 2020, p. 381).
Sobre a proteção de dados, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação nº 73/2020, que recomenda aos órgãos do Poder Judiciário brasileiro a adoção de medidas preparatórias e ações iniciais para uma adequação às disposições contidas na LGPD, e a Resolução nº 363/2021, que estabelece as medidas para o processo de adequação à LGPD a serem adotadas pelos Tribunais. Desse modo, “cada Tribunal deverá ter o cuidado de não expor informações desnecessárias e que possam comprometer/constranger a pessoa, mesmo que o processo não siga em segredo de justiça” (NERY; NERY, 2020, p. 19).
Essas medidas já estão sendo debatidas pelos Tribunais. O ponto central é que "a legislação de proteção de dados não se destina, nem poderia, a interferir, limitar ou retardar a atividade jurisdicional" (CUEVA, 2020, p. 207), mas, em qualquer receio iminente ou a ocorrência de violação do direito à intimidade, deve ser apreciada a eventual lesão reparada.
Destaca-se, por fim, mas não menos importante, que o Tema nº 1.141 da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal (STF), oriundo da tese fixada no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR) nº 16 do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, discute a responsabilidade civil por disponibilização na internet de informações processuais publicadas nos órgãos oficiais do Poder Judiciário sem restrição de segredo de justiça ou obrigação jurídica de remoção. A matéria foi afetada no dia 7 de maio de 2021, cuja controvérsia compreende a divulgação de dados de um processo na internet que gerou prejuízo à parte.
A tese firmada na origem é a seguinte:
É lícita a divulgação por provedor de aplicações de internet de conteúdos de processos judiciais, em andamento ou findos, que não tramitem em segredo de justiça, e nem exista obrigação jurídica de removê-los da rede mundial de computadores, bem como a atividade realizada por provedor de buscas que remeta aquele.
A análise da questão permitirá que, com eficácia vinculante para todo o país, seja enfrentada a responsabilização civil de terceiros pela divulgação de dados pessoais coletados em processos judiciais, havendo o possível enfrentamento do tema diante da publicidade dos atos processuais em um fundamental diálogo das fontes.
Vem que eu te explico!
Publicidade processual
Acesso a autos eletrônicos
4.Conclusão
Considerações finais
Tratamos neste conteúdo dos processos eletrônicos, não limitando nossa análise apenas às disposições legais sobre o tema e as novas tecnologias processuais. Na verdade, realizamos principalmente uma leitura do tema à luz de institutos fundamentais.
No primeiro momento, falamos do acesso à Justiça e de como o processo eletrônico pode contribuir para a realização desse acesso, sobretudo a partir da concepção da primeira e da terceira onda renovatória de Mauro Cappelletti e Bryant Garth, por meio da redução dos custos do processo e da otimização do uso de recursos materiais, além de suprimir etapas meramente burocráticas do processo graças à utilização de sistemas automaticamente capazes de, por exemplo, certificar o decurso do prazo processual, reduzindo a quantidade de recursos humanos necessária.
Em seguida, analisamos o processo eletrônico sob a ótica da duração razoável do processo, buscando esclarecer o que seria uma duração razoável dele e como o processo eletrônico poderia contribuir para a promoção de uma maior celeridade processual, dispensando algumas etapas cartorárias, que passam a ser realizadaspelo próprio sistema eletrônico.
Por fim, abordamos as disposições do processo eletrônico a partir da regra da publicidade processual, sobretudo diante da previsão do artigo 11, §6º, da Lei nº 11.419/2006, segundo a qual terceiros dependeriam de senha para ter acesso aos documentos dos autos que tramitam eletronicamente, acessando sem senha somente a movimentação processual. Ademais, com o advento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), demonstrou-se a importância do diálogo das fontes e a seguinte análise: se os dados disponíveis no processo deveriam ou não ser acobertados pelo segredo de justiça.
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image3.pngescrita para a virtual, faz-se necessária. Da mesma forma, os sistemas de informática terão de ser adaptados/supervisionados com o intuito de garantir o amplo acesso à justiça e à preservação de direitos fundamentais processuais. 
Código de Processo Civil (CPC).
Isso faz com que a preocupação com a compatibilização dos aludidos princípios processuais se faça desde logo imperativa, em busca de um processo eficaz (art. 8°) e de acordo com os valores e as normas fundamentais de índole processual estabelecidas na Lei Maior (art. 1°).
O problema, revela-se em como compatibilizar, no âmbito do processo eletrônico, o atendimento às exigências constitucionais de efetividade (celeridade) do processo e de segurança jurídica (qualidade da prestação de jurisdição), tomando como premissa a lógica de evidente incremento da efetividade e mesmo impessoalidade que o procedimento virtual projeta.
Inclusive, com eventual prejuízo ao direito fundamental das partes ao efetivo contraditório; à ampliação robusta da produção probatória a partir de adequada intervenção humana do agente político do Estado apto a conduzir e decidir o processo; e à fundamentação completa das decisões judiciais, mormente em demandas com carga fática significativa.
Os benefícios e cuidados com a modernização do Poder Judiciário
A maioria das cortes já possui sistemas informatizados que permitem o peticionamento eletrônico, a consulta sobre andamento processual através do site do Tribunal, entre outros recursos. A novidade chegou também às instâncias inferiores, havendo movimento mais lento no Brasil tão somente na Justiça Estadual.
Seja como for, espera-se que a informatização do Poder Judiciário seja mais complexa do que a simples disponibilização de peças processuais às partes através da internet. Nesse sentido, a Lei nº 11.419/2006, que regula a informatização do processo judicial, explicitou algumas exigências:
As partes e seus procuradores poderão acessar os autos virtuais a qualquer momento.
 
As petições enviadas até às 24 horas do último dia de prazo serão consideradas tempestivas.
 
Os documentos enviados digitalmente serão considerados, em princípio, originais.
Sendo assim, princípios aplicáveis ao processo, como a publicidade dos atos processuais, a lealdade processual, a oralidade, a ampla defesa, dentre outros, devem ser analisados cuidadosamente, quiçá repensados. Parece inegável que a informatização do sistema processual será benéfica; todavia, é necessário cautela, a fim de evitar que a modernização do Poder Judiciário se torne um ambiente propício para a violação de direitos fundamentais processuais historicamente consagrados na esfera do Estado Democrático de Direito (RUBIN, 2021).
Nesse diapasão, a lógica de um “processo justo, humano e conduzido por uma corte independente” é uma exigência da Convenção Europeia de Direitos Humanos (EMRK, art. 6º, Sec. 1) e precisa ser adaptada ao processo eletrônico, à medida especialmente que se faz necessária a intervenção humana na condução do e-justice e mesmo a estruturação dos princípios da ampla publicidade e oralidade, com o estímulo da realização de audiências presenciais do Estado-juiz com as partes litigantes.
Como exposto no cenário supra, é viável identificarmos que a transformação do processo escrito para o eletrônico não deve criar uma completa revolução na aplicação da dogmática processual e, principalmente, dos princípios processuais. Em verdade, a modificação do estado da arte no cenário processual – com o aperfeiçoamento de um modelo – exige repensarmos os institutos, mas sem que haja desconstrução em definitivo.
De todo modo, como reconhecido pela doutrina estrangeira, a crescente utilização da tecnologia no mundo jurídico, especialmente no Processo Civil, demanda repensar algumas mudanças sobre os fundamentos do Processo Civil tradicional (KAWANO, 2012).
Há espaço para buscarmos um equilíbrio do processo eletrônico, com participação enérgica e interessada dos integrantes da relação processual, dentro de um modelo de colaboração. Modelo esse em que os sistemas de informática estejam adaptados a dar movimentação no iter procedimental com eficaz supervisão humana, cenário em que a segurança jurídica, como forma de garantir a previsibilidade e, principalmente, o respeito ao devido processo legal (a qualidade da prestação jurisdicional), seja passível de concretização sem que as etapas procedimentais sejam ultrapassadas, no estilo de modelo fordista.
Assim, gerando mero procedimento eletrônico autômato, de decisão robótica, sem controle humano e participação ativa, especialmente, do Estado-juiz. Esse é um cenário preocupante e que já vem sendo visualizado no processo virtual, em maior medida nos juizados especiais federais.
Conforta a nossa posição as felizes palavras de Sérgio Gilberto Porto (2018), ao bem identificar o início de uma verdadeira despersonalização das demandas no âmbito do processo eletrônico, as quais passam a ser emolduradas em situações predefinidas. Circunstância esse que afasta o juiz da jurisdição material, com a qual está constitucionalmente comprometido e, portanto, deve sim ao cidadão uma resposta personalizada.
A linha de montagem industrial, segundo Porto (2018), traz consigo a despersonalização da demanda (cenário ainda mais grave nos processos com carga fática significativa, acentuaríamos nós), e, por decorrência, uma severa desumanização do conflito de interesses. Portanto, no atual cenário de desenvolvimento da tecnologia aplicada ao processo no mundo, bem como no contemporâneo estágio de latente transição dos processos físicos para os processos virtuais no Brasil, é de se admitir a necessidade de um modelo teórico para os atos processuais que exija intensa participação humana na tomada de posições no processo, de ofício ou a requerimento. Modelo esse capaz de garantir a segurança jurídica independentemente do procedimento cível adotado, sob pena de completa desestruturação (nulidade) do ato final (fase decisória), ao passo que não perfectibilizado procedimento em contraditório nas anteriores etapas (fase postulatória, saneadora e instrutória).
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
A Lei nº 11.419/2006
O CPC e o processo eletrônico
O processo eletrônico trouxe uma transformação no processo civil que possibilita a efetivação dos princípios fundamentais da celeridade e efetividade. Por consequência, como afirma a corregedora da Justiça do DF, desembargadora Carmelita Brasil, em uma entrevista ao TJDF:
”[...] na atualidade, a tecnologia está presente no convívio interpessoal, por meio do uso das redes sociais, e-mail, aplicativos de conversa, teletrabalho. Assim, no âmbito do Poder Judiciário, ao se compreender o caráter irreversível e as vantagens trazidas por esses avanços e em sintonia com os preceitos legais, tem-se caminhado cada vez mais em direção à ampliação da oferta dos serviços digitais e remotos, com o objetivo de aproximar ainda mais o cidadão da instituição e garantir maior celeridade, segurança e economia processual mediante o uso da tecnologia, evitando os atrasos e os custos da prática de atos físicos ou que exijam a presença das partes nos Fóruns” (TJDF, 2021, n. p.).
Nesta senda, a catapultar eficiência e celeridade, o CNJ criou o juízo 100% digital (Resolução nº 345, de 09 outubro de 2020), no qual todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores. Ante esta implementação no DF, temos o autor (Carlos) de uma ação de cobrança em face de um prestador de serviço que não o executou, embora tenha pago por este. Conquanto nem o autor nem o réu tenham aceitado o fato de o processo ocorrer em um juízo 100% digital, o juiz entendeu por seguir com o procedimento dessa forma, por acreditar ser um procedimento obrigatório. No decorrer do processo, como a produção de uma prova não poderia ser realizada de forma virtual, o juiz a indeferiu, pois estava diante de um procedimento100% on-line, sendo que se tratava de prova fundamental para o julgamento do caso.
A construção do modelo de processo virtual no Brasil
O modelo processual virtual brasileiro
Confira agora o histórico e a criação do modelo virtual no Brasil.
Aspectos históricos introdutórios
O CPC/1973, constituído em momento histórico diverso do atual cenário cultural e tecnológico-digital, projetava-se para a resolução exclusiva de relações individuais, via processo escrito, preservando flagrantemente o princípio da segurança jurídica, mesmo que em detrimento da efetividade da prestação da jurisdição (RUBIN, 2016). Para fins terminológicos, temos que: a expressão “segurança jurídica” apresenta-se em caráter polissêmico. Isto é, vinculada às garantias processual-constitucionais integralizadoras do due process, a segurança jurídica possui sentido de uma certeza (maior) do direito a ser confirmado ou negado; ou no sentido de uma previsibilidade (tanto maior quanto possível) da decisão judicial de mérito a ser tomada. Essa é uma concepção que articula segurança e devido processo, voltada ao direito ao processo qualificado, afastando-se, a priori, da preclusão e da efetividade. É possível cogitarmos circunstâncias em que a efetividade se coloca a favor da segurança, forjando-se como próprio elemento integrante deste, quando se corporifica, por exemplo, a hipótese de antecipação de tutela satisfativa, ainda mais no caso da tutela de evidência (art. 311, IV da Lei nº 13.105/2015), já que, nesse contexto, concordamos que de nada adianta certeza, confiança e calculabilidade se o direito não é passível de realização.
Nada obstante tal cenário, buscamos dentro do presente estudo dar o devido espaço para a possibilidade real de precipitações na condução da marcha processual tendente ao exame em cognição exauriente, que, no âmbito do processo eletrônico, pode desvirtuar a legitimidade do procedimento, comprometendo também a legitimidade da decisão final de mérito.
O Código Buzaid, vigendo no Brasil desde 1974, restou dividido, em termos de esquema para tutela dos direitos, em processo de conhecimento, execução e cautelar. A relativa autonomia dos títulos é evidente, cabendo destaque, nesse modelo, o processo de conhecimento, já que a execução e a própria medida cautelar mantêm vinculação direta com o resultado esperado daquele. E dentro do processo de conhecimento, embora previsto o rito comum sumário, destaca-se o rito comum ordinário, especialmente projetado para prolação de sentença de mérito pelo Estado-juiz após cognição plena e exauriente.
Passando-se mais de vinte anos da entrada em vigor do Código Buzaid, operou-se natural modificação da sociedade, o que, repercutindo no processo, acabou por determinar a obrigatoriedade de retificações no modelo originário. Embora não tenha havido ruptura dramática no CPC/1973 com a entrada em vigor da CF/88, e nem mesmo com as primeiras reformas ao código desenvolvidas, presenciou-se uma importante adaptação do modelo Buzaid, com forte carga de defesa da segurança jurídica (rectius, certeza jurídica) e das reivindicações contemporâneas de um processo efetivo, célere. Admitindo-se a configuração eventual de tensão entre segurança e efetividade, ao que parece, formou-se a convicção de que o CPC/1973 tinha um sistema processual bem-acabado/articulado, mas demasiadamente burocrático – e que, por isso, não atingia em boa parte dos casos os seus propósitos derradeiros em tempo útil. Assim, a referida onda reformista voltava-se para a busca incessante da efetividade, o que, ao fim, confirmou-se com a inclusão, já em 2004, do inciso LXXVIII no art. 5° da CF/88 pela EC nº 45 (a tratar do direito do cidadão brasileiro à razoável duração do processo).
As reformas estruturais no sistema processual pátrio de 1973 começaram a se definir em meados da década de 90, com o desenvolvimento das tutelas de urgência. Vamos conferir!
1994
Tutela antecipada de mérito
O ano de 1994 foi extremamente importante pelo acolhimento da legislação processual da tutela antecipada de mérito.
Ademais, não podemos deixar de lembrar que, fora do âmbito do CPC/1973, foram também construídas alterações, via legislações esparsas. Um código com visão marcantemente individualista (voltado à proteção dos direitos individuais), forjado para a solução de litígio de A contra B, seguramente haveria de ser complementado com disposições/procedimentos especiais que tratassem de processos envolvendo a defesa de direitos coletivos e difusos. Disposições referentes aos processos coletivos lato sensu, previstos, por exemplo, no Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), na Ação Civil Pública (Lei n° 7.347/1985) e, mais recentemente no mandado de segurança (Lei n° 12.2019/2009), são exemplos expressivos desse movimento retificador tendente a buscar uma mais célere solução do direito material para um rol mais alargado de indivíduos.
Por fim, há de se retomar o desenvolvimento de novos ritos fora do sistema do CPC/1973, sendo costurados os formatos dos juizados especiais, especialmente pelas Leis n° 9.099/95, 10.259/2001 e 12.153/2009, a partir da formação de um rito denominado sumaríssimo, que acabou por sepultar de vez o rito sumário previsto por Buzaid. O rito dos juizados especiais constitui-se em iter direcionado ao atendimento do jurisdicionado, propiciando rapidez no trâmite processual e eliminação de formalidades do processo comum (por exemplo, afastando o reexame necessário e a ação rescisória, bem como instituindo a igualdade de prazos).
A instalação do processo eletrônico também veio nesse mesmo diapasão, concretizando o direito à duração razoável do processo, buscando acelerar a tramitação dos feitos, eliminando os prazos mortos e otimizando a tramitação regular das demandas, especialmente nos juizados especiais. A publicação da Emenda Constitucional nº 45/2004, que introduziu de maneira mais clara o conceito de razoável duração do processo no Brasil, a criação do CNJ, no mesmo período e, ainda, a publicação da Lei nº 11.419/2006, que dispõe sobre a informatização do processo judicial, são fundamentais para viabilizar o desenvolvimento e a implantação de sistemas de processo eletrônico, dentro dessa conjectura de busca pela efetividade da prestação jurisdicional.
Na verdade, teóricos sobre o específico assunto entendem que o início da informatização processual brasileira se deu com a Lei nº 9.800/1999, que permitiu o envio de peças processuais via fac simile, e a Lei nº 10.259/2001, que disciplinou a criação dos juizados federais e permitiu a utilização de sistemas de informática para envio de petições. A partir de então, foram criadas outras leis que sinalizavam o avanço da tecnologia nos tribunais. Leis essas que tratavam de assuntos como a certificação judicial e a coleta de prova de divergência por meio de site pela internet. Mesmo por isso, esperava-se mais do projeto do Novo CPC (desde a primeira versão em 2010, com o n° 166), o qual não avançou muito em alguns temas relevantes, como o processo coletivo e, especialmente, o processo eletrônico, deixando para a legislação ordinária específica regulamentar a questão.
Seja como for, é necessário, e mesmo indispensável, identificar no CNJ um órgão administrativo importante dentro do Poder Judiciário para tratar de temas caros ao processo, à administração da justiça e à duração razoável dos processos, desde a sua criação pela Emenda Constitucional n° 45/2004 e instalação em meados do ano seguinte. Principal ponto da Reforma do Judiciário, instituída pela Emenda Constitucional nº 45, foi a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 14 de junho de 2005, que marcou o início de uma nova era para o Judiciário brasileiro.
Se antes eram poucas as estatísticas existentes e raros os casos de punições por desvios funcionais dos magistrados, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 45 e a instalação do CNJ, muitos foram os avanços alcançados pelo Poder Judiciário. Na época, a ausência de estatísticas nacionais confiáveis dificultava o estabelecimento e o monitoramentode ações nacionais voltadas para a melhoria da gestão do Poder Judiciário, como a criação de um planejamento estratégico e a instituição de metas aos tribunais e magistrados. Exatamente nesse período, da primeira década dos anos 2000, deu-se o início do desenvolvimento mais acentuado do processo eletrônico e a fixação de prazos pelo CNJ para mudança da plataforma física para a virtual de todos os processos em andamento.
Nessa quadra, o processo judicial eletrônico pode ser definido como o processo cujo atos processuais são realizados por meio digital, através de programas próprios desenvolvidos nos sites dos tribunais, onde tudo é feito eletronicamente.
A informatização do processo, através da digitalização dos autos, teve desde sempre como mote a maior celeridade e eficiência do processo civil, sendo a medida inovadora àquela época, uma tentativa de otimização dos feitos em todo o território nacional e redução dos seus custos. Segundo o relatório analítico propositivo do CNJ, os usuários que não gostam do processo eletrônico são principalmente magistrados e advogados mais antigos, que mesmo assim, assumem como importante uniformizar o tribunal, sendo estabelecido um sistema de transição que irá melhorar com o tempo.
A partir da Lei nº 11.419 de 2006 e da Resolução 185 de 2013, a qual institui o Processo Judicial Eletrônico (PJe) como sistema de processamento de informações e prática de atos processuais e estabeleceu os parâmetros para sua implementação e funcionamento, os dados do CNJ dão conta de que avanços vem sendo observados em todas as esferas do Poder Judiciário (Justiça Estadual, Justiça Federal e Justiça do Trabalho, essencialmente as principais). O sistema está em amplo desenvolvimento, embora inexista programa definitivo adotado pelo CNJ que estabeleça padrão efetivo e também justo para o e-justice.
Processo Judicial Eletrônico (PJe).
Se da Lei nº 11.419/2006 já falamos bastante, é fundamental registrar que a Resolução nº 185/2013 deu a sua colaboração decisiva ao avanço do processo eletrônico no Brasil, no sentido de trazer maiores detalhes a respeito das possibilidades de funcionamento do PJe. Após, tivemos outras resoluções publicadas, por exemplo, a Resolução nº 281/2019, a qual altera a Resolução CNJ no 185, de 18 de dezembro de 2013, para instituir a opção de assinatura de documentos e registro do ato processual em meio eletrônico no sistema do PJe.
Um olhar para o futuro
Mais recentemente, com o empossamento do Ministro Fux como presidente do STF e do próprio CNJ, tivemos mais um passo no cenário de virtualização do processo com o lançamento do “juízo 100% digital”, em outubro de 2020. Assim, objetivando, mesmo que de maneira facultativa às partes, a realização de todos os atos processuais e até de reuniões entre os atores do processo pela via não presencial.
Desse modo, diz o art. 1º da Resolução nº 345/2020 do Conselho Nacional de Justiça que: “No âmbito do Juízo 100% Digital, todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores”.
De uma maneira geral, percebe-se a vantagem do processo eletrônico quando consideramos o recorte por assunto, destacando-se nesses casos o ramo do direito previdenciário e administrativo, em que quase todos os casos, segundo o CNJ, encontram muito rapidamente uma decisão ou um despacho. Há, na verdade, uma indicação geral de celeridade expressivamente maior nos processos que correm pelo meio eletrônico. Vejamos!
Média de 23,85 dias 
Para o primeiro pronunciamento do juiz nos processos eletrônicos 
X 
Média de 147,62 dias
Para o primeiro pronunciamento do juiz nos processos físicos
Parece claro que o processo eletrônico ajudou decisivamente a concretizar um direito fundamental processual relevante: é possível afirmar que os processos que tramitam no meio virtual são mais céleres e geram menos custos, cumprindo melhor a orientação da duração razoável do processo.
Deixemos claro que, embora o CNJ tivesse, já de longo prazo (especialmente período 2013-2018), o objetivo de instituir um programa amplo e geral para o processo eletrônico pátrio, viu-se constrangido a admitir algumas significativas exceções ao modelo, diante do sucesso entre os operadores do direito (advogados, inclusive) que se sucedeu, por exemplo, com o PROJUDI, o ESAJ e o EPROC – incorporados por diversos tribunais locais ou regionais.
Falando em EPROC, desenvolvido pelos técnicos vinculados ao TRF4, especialmente da parte dos operadores do direito que atuam na Justiça Federal, já foram levantadas críticas à falta de maior regulamentação, pelo CPC, do processo eletrônico. No espírito do novo códex, em que ainda é previsto capítulo de restauração de autos físicos, o processo eletrônico ainda parece ser exceção, o que vai de encontro à busca por uma gestão administrativa profissional, ágil e de qualidade.
Sendo assim, o estudo deste relativamente novo ramo do direito (BARROS, 2009) e dos princípios informadores do processo nesse ambiente é de extrema importância na elaboração de uma pesquisa sobre o processo eletrônico no atual cenário do Poder Judiciário pátrio, a fim de que seja formada tese que proponha soluções para um sistema virtual equilibrado. A importância do estudo mostra-se mais evidente em se considerando que a implementação do processo eletrônico está, no estado da arte, como exposto, em pleno desenvolvimento, com avanços e retrocessos, em diferentes ordens.
Reiteramos, nesse espaço, que já se vislumbram problemas na condução dos processos e compatibilização dos princípios da efetividade e segurança jurídica, deixando-se o devido processo legal e mesmo a previsibilidade do iter procedimental em segundo plano, o que compromete o resultado da prestação jurisdicional.
Como exemplificação mais contundente, podemos mencionar os juizados especiais federais previdenciários, em que, a pretexto de garantir a efetividade, comezinhos princípios constitucionais, como o do contraditório e o do direito prioritário à prova, vêm sendo mitigados em significativa parte, mormente ao longo de tramitação da fase instrutória.
2. O PROCESSO ELETRÔNICO 
VEM QUE EU TE EXPLICO!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
O papel da Lei do Fax e da Lei nº 10259
O sistema PJE
3. COMUNICAÇÃO ELETRONICA DOS ATOS PROCESSUAIS
Ligando os pontos
Em um momento de múltiplos desafios provocados pela pandemia da covid-19, a realização de sessões de julgamento por videoconferência representa a melhor experiência que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) viveu nos últimos tempos, confirmando a importância da modernização tecnológica dos tribunais e abrindo a oportunidade para a construção de novos modelos de prestação da justiça.
A afirmação foi feita pelo presidente da corte, ministro João Otávio de Noronha, ao proferir palestra na conferência magna que encerrou o I Congresso Digital Covid-19: Repercussões Jurídicas e Sociais da Pandemia, promovido pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
 
Em um processo judicial, no qual as partes residem na mesma comarca, o juiz designou audiência de conciliação, por meio de videoconferência, para que as partes pudessem tentar a realização de uma composição amigável do processo. Nada obstante o fato de o juiz ter designado a audiência, apenas a parte autora fora intimada da decisão judicial que designou a data da referida audiência e, por conseguinte, apenas esta tinha o link de acesso à audiência. Chegado o dia para a audiência de conciliação e mediação, ao notar o não comparecimento da parte ré à audiência, o juiz arbitrou multa à parte ré, visto que o CPC dispõe que “o não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado” (§8 do art. 334 do CPC). Não somente, convolou o ato em audiênciade instrução e julgamento, tendo ouvido duas testemunhas da parte autora.
Os atos processuais no processo judicial eletrônico
O estudo dos atos processuais
A partir das premissas estudadas, entendemos que deva ser examinada com mais cuidado a forma dos atos processuais no processo judicial eletrônico, ou seja, deva ser feito exame minudente e responsável da forma pela qual principalmente as partes e o juiz se manifestam ao longo de todo o processo. O estudo dos atos processuais é sempre relevante, já que examina a disciplina do andamento regular da demanda, ao longo do qual serão exercidas inúmeras atividades pelas partes, em conjunto com o Estado-juiz.
A temática dos atos processuais, a partir do CPC/2015, apresentou reais alterações, especialmente no que diz respeito aos prazos e à redução da técnica da preclusão. Com relação ao fenômeno dos prazos, é inegável que se trata de garantia importante a sua contagem em dias úteis, com encaminhamento ainda da maioria dos prazos serem fixados em 15 dias, o que autoriza formalização de ato processual de maior qualidade, melhorando a participação das partes ao longo de todo o iter procedimental, o que também se garante mediante a técnica da flexibilização procedimental, abrindo-se às partes a possibilidade de formatarem calendário processual mais maleável. Isso determina, consequentemente, a redução dos efeitos da preclusão no processo (RUBIN, 2014).
Pela disciplina legal vigente, os atos processuais independem de forma determinada, salvo se a lei expressamente a exigir, e devem ser públicos, salvo se for deferida a tramitação em segredo de justiça. Sendo o processo público, físico ou eletrônico, deve ser autorizada a consulta por qualquer interessado, notadamente o advogado alheio ao feito (sem procuração), mas que manifesta interesse em examinar o teor da demanda ou de determinada peça em particular.
Ainda quanto à forma do ato processual, mesmo que seja praticado com violação da forma estabelecida em lei, pode ele ser considerado válido se praticado de outro modo, alcançando a sua finalidade – como se sucede, por exemplo, com relação ao fenômeno de citação do réu. Não tendo o ato, no entanto, alcançado a sua finalidade, ele deverá ser anulado, considerando-se de nenhum efeito todos os subsequentes que dele dependam (art. 281). Falando em citação, é necessário salientar que o sistema processual civil é extremamente simples no que concerne à comunicação dos atos processuais, a qual pode se dar via:
Citação
No primeiro contato da parte com a demanda.
X
Intimação
Nos demais momentos em que a parte é notificada pelo juízo.
Cabe ainda o acréscimo de que, pelo Novo CPC, as citações, mesmo em execução de título extrajudicial, devem ser feitas prioritariamente por intermédio de Carta AR – com aviso de recebimento (art. 249); já as intimações realizam-se, sempre que possível, por meio eletrônico, pela publicação dos atos no órgão oficial (art. 272). Além disso, o sistema prevê um meio de comunicação entre juízos capaz de permitir que um órgão jurisdicional solicite a outro que pratique determinado ato processual, o que se dá por intermédio de cartas.
Os atos processuais das partes consistem em declarações unilaterais (peça na defesa do seu específico interesse, como na manifestação sobre a juntada de documento da parte contrária) ou bilaterais (peça em que se manifesta comunhão de interesses, como na transação); já os pronunciamentos do juiz se classificam em:
Despachos: De mero impulsionamento, não suscetível de recurso.
Decisões interlocutórias: Sujeitas ao agravo de instrumento, nas hipóteses do art. 1015.
Sentença: Ato final da jurisdição de primeiro grau, em que resolvida a contenda com ou sem resolução do mérito, conforme, respectivamente, arts. 487 e 485.
A sentença é o ato processual de maior envergadura do juízo de primeiro grau, ou juízo a quo, devendo ter completa fundamentação, conforme dicção dos relevantíssimos arts. 11 c/c 489, o que também se espera das decisões proferidas pelas cortes superiores, tribunal ad quem, as quais proferem, por regra, decisões colegiadas denominadas de acórdãos (art. 204).
A bem da verdade, também se espera fundamentação adequada das decisões judiciais de primeiro grau em cognição sumária, quando da análise de concessão de tutela provisória, cautelar ou satisfativa, diante da importância de tal decisão embrionária para a sequência do feito. Lembrando que o CPC de 2015, ao lado da tutela de urgência, desenvolve nesse cenário a figura da tutela de evidência (art. 311).
Embora de maneira ainda tímida, o CPC de 2015 inova com relação à prática eletrônica dos atos processuais, deixando de estabelecer uma lógica mais ampla, vinculativa dos sistemas virtuais já existentes na Justiça Federal, Estadual e mesmo na Justiça do Trabalho. Seja como for, resta disciplinado que os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das partes e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento, observadas as garantias da disponibilidade, independência da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário administre no exercício de suas funções (art. 194).
Pilhas de processos físicos.
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Inegável que há uma tendência natural de extinção dos processos físicos (embora o CPC ainda preveja um capítulo sobre “restauração de autos”), diante das vantagens do processo eletrônico, cabendo ser destacado que (GAJARDONI; DELLORE, ROQUE; OLIVEIRA JR., 2015):
· Extingue as práticas humanas desnecessárias no ambiente virtual, tais como a formação física do processo, juntada de petições e decisões.
· Evita a formação de instrumento para o recurso de agravo.
· Repassa ao sistema a realização da contagem e certificação de prazos, reduzindo a incidência de erros.
· Otimiza os trabalhos no processo judicial.
· Automatiza a sucessão de fases processuais sem a intervenção humana.
· Possibilita a execução dos atos processuais de forma paralela por várias pessoas.
Além de todos esses comandos a favor da agilidade e funcionalidade do sistema eletrônico, estima-se que representa o e-justice economia para a gestão pública e sustentabilidade, pois dispensa o uso de papel e insumos para a impressão.
No Direito comparado, também vem sendo destacada a própria questão do tempo e lugar dos atos processuais, já que o peticionamento eletrônico pode ser feito 24 horas por dia de qualquer local, reduzindo problemas de distâncias geográficas (KAWANO, 2012).
Ainda, revela-se a necessidade de se buscar transparência no Direito Processual, o que seria incrementado no e-justice com mecanismos que propiciam maior facilidade de acesso e manuseio de documentos e processos. No entanto, o processo virtual deve ser espaço de ampla participação ativa das partes, especialmente no que toca aos atos processuais unilaterais.
A intervenção humana, em alguma medida substancial, precisa ser preservada e valorizada no ambiente virtual.
Como não há mais espaço sequer para a “carga dos autos” (como se sucedia com os processos físicos), há de ser observado o período adequado de manifestação das partes (prazo regular – art. 218) como também há de ser cuidado pelo magistrado com relação à eventual requerimento de dilação de prazo na fase instrutória (art. 139, VI) ou encaminhamento pelas partes de ato processual bilateral tendente a produzir acordo de procedimento (art. 191) – todos esses espaços mais amplos de relativização do fenômeno preclusivo. Por outro lado, há de ser levar a sério a exigência de contraditório prévio, a realização de audiências presenciais para melhor delimitação do objeto do processo e da prova (arts. 357 e 358) e a fundamentação das decisões judiciais a partir necessariamente do próprio contraditório perfectibilizado (arts. 10 e 11) – em resguardo à segurança jurídica e à conformação do processo eletrônicojusto.
Nossa maior preocupação envolve repensar a teoria dos atos processuais no ambiente virtual de processos com carga fática significativa. Isso de forma que, em processo com matéria significativa de direito (como o tributário), haja menor dificuldade de implementação do uso da tecnologia.
Veja-se que, em questões não atinentes ao mérito, a tecnologia, por meio da inteligência artificial, já vem sendo utilizada em alguns tribunais superiores, como é o caso do sistema de inteligência artificial Victor, utilizado no STF por ocasião do juízo de admissibilidade dos recursos extraordinários. De fato, o Supremo Tribunal Federal possui ferramenta de inteligência artificial para agilizar a tramitação de processos na corte.
Presidente do Supremo apresenta ferramentas de inteligência artificial em Londres.
O sistema chama-se Victor em homenagem a Victor Nunes Leal, ministro do STF entre 1960 e 1969, e principal responsável pela sistematização da jurisprudência da corte em súmulas. O projeto tem funções como:
Ler todos os recursos extraordinários que chegam ao STF.
Identificar quais recursos estão vinculados aos temas de repercussão geral, facilitando a aplicação de precedentes judiciais.
Ocorre que, nas demandas fáticas (sociais, por exemplo), dentro das instâncias ordinárias, faz-se necessária a participação direta das partes e procuradores para convencimento do Estado-juiz a respeito da procedência de suas alegações, a determinar uma mais intensa atividade processual ao longo de todo o iter. Assim, devendo ser examinados cada um dos “eventos” do processo (como usualmente denominada a peça processual encaminhada ao processo eletrônico) como ato que precisa de cuidadosa intervenção humana (pelo Estado-juiz), a ponto de ser viável uma mudança na sequência tradicional que o sistema eletrônico encaminharia.
Nesse cenário, a utilização pelas partes de técnicas processuais abertas e atípicas (como as previstas nos arts. 190 e 191) e o exame minudente pelo órgão jurisdicional dessas hipóteses (a partir de todos os poderes encaminhados, dentre outros dispositivos do códex, pelo art. 139) se estabelecem como um cenário absolutamente distinto, levando-se em conta as peculiaridades do caso concreto sem que o sistema eletrônico acabe por impulsionar a demanda em ritmo fordista e automático.
Há aqui espaço para ser identificado, portanto, cenário processual em que, mesmo em um ambiente virtual em que as partes e os procuradores não possuem qualquer ingerência, deve possuir amplo protagonismo na movimentação do iter e direcionamento para provar as suas alegações de fato. Isso exige exame cuidadoso da questão pelo Estado-juiz, a ponto de autorizar essa ampla movimentação das partes e depois legitimar tais movimentos a partir de decisão final e de mérito que resgate todo o contraditório havido.
Defendemos aqui em outros termos exigência de ser repensada a questão a respeito da legitimidade do procedimento e do processo no ambiente virtual, a partir da clássica doutrina.
Veremos adiante um exemplo importante de cenário de crise na aplicação do processo judicial eletrônico.
Audiências por videoconferência
Confira agora as principais regras relativas à realização de audiências por videoconferência.
Sistema de videoconferência para oitiva de testemunha no ambiente virtual
Embora autorizado pelo próprio Código de Processo Civil (art. 453, par. 1°), inclusive podendo ser usado para colheita da prova oral em substituição à carta precatória, discute-se a ausência do contato mais próximo do juiz da causa com o material probatório que pode ser decisivo para o julgamento de uma demanda com carga fática substanciosa no âmbito do procedimento comum.
Isso sem falar na possibilidade de o magistrado negar a própria oitiva, proferindo decisão precipitada no ambiente virtual sem qualquer contato direto com as partes e procuradores.
No direito estrangeiro, mesmo aqueles que defendem a utilização dos benefícios da tecnologia, ainda mais com a concordância das partes litigantes no processo, adverte que o uso de videoconferências, apesar de igualar as distâncias geográficas, aumenta a distância do magistrado com o elemento de prova, como uma testemunha por exemplo (FISCHER, 2012).
Isso porque, o Processo Civil é um instrumento social para resolver problemas entre pessoas. Não se pode negar, assim, que os atos processuais, como a audiência de instrução e julgamento, por exemplo, possui forte influência de elementos humanos (a expressão de uma testemunha; a possibilidade de se fazer indagações em momento real, sem ruídos ocasionados por eventuais problemas técnicos no Sistema etc.). Tal distanciamento, aludido acima, pode acabar prejudicando a sensibilidade do magistrado quanto a essas minúcias afetas ao comportamento humano.
Trata-se aqui de cenário em que a presença humana e física do julgador na condução do processo, que irá ulteriormente decidir, pode fazer a diferença, não sendo superada, no nosso entender, a importância da identidade física do julgador da causa, ao menos nas demandas com carga fática-probatória significativa.
Confira o elemento a seguir:
Não exame de requerimento da parte litigante para aprofundamento da instrução no processo eletrônico dos juizados federais previdenciários.
Esse fenômeno vem acontecendo em número ilimitado de casos, em que o sistema do processo virtual projeta o encaminhamento dos autos à conclusão para sentença tão logo seja dada vista sumária às partes sobre a prova técnica produzida (RUBIN, 2014). Nota-se aqui a ausência completa de intervenção humana no processo, no caso do Estado-juiz, não sendo perfectibilizado efetivo, mas tão só formal, contraditório – o que fere o direito das partes ao processo justo. Eis aqui local em que se visualiza clara formação de demanda em ritmo fordista e automático, em processo com carga fática significativa que exigiria intervenção maior Estado-juiz e protagonismo maior das partes litigantes na tentativa de convencimento eficaz do julgador na tomada de posição final. O Direito Previdenciário carece de um procedimento que proporcione conhecimento da real situação e condições de labor do segurado, sobretudo nos juizados especiais federais, onde a realidade costuma passar ao largo em razão da celeridade, da redução das oportunidades de manifestação e produção de provas e da falta de diálogo judicial, sem falar nas dificuldades de ordem prática que comprometem a prestação jurisdicional.
Como bem advertem outras abalizadas vozes no Direito Processual Previdenciário, o direito à prova é fundamental também no rito sumaríssimo, somente podendo ser restringido por lei e na medida em que essa restrição seja proporcional. Por outro lado, a flexibilização do procedimento é condizente com um sistema democrático de direito em que as partes podem colaborar para a solução das demandas e também encontra guarida nos princípios dos juizados especiais. Portanto, não se pode correr o risco de o processo virtual acabar por trazer qualquer prejuízo à segurança jurídica, especialmente atrelado aqui à qualidade da prestação jurisdicional, em que a presença humana dos envolvidos seja importante para o julgamento do processo, ainda mais quando há requerimento expresso da parte (e do seu procurador) nesse sentido, o que pode sim representar cerceamento de defesa, a comprometer a legitimidade da decisão final de mérito a ser pronunciada pelo Estado-juiz.
Assim, dos exemplos supra, extrai-se que uma concepção processo-constitucional de segurança jurídica, no sentido de certeza maior do direito a ser construído, coloca-se, no âmbito cultural do processo justo, ao encontro do desejado perfil ativo das partes em colaboração com o Estado-juiz para investigação do material fático-probatório – direito de construção e poder de interferência das partes no desenvolvimento do processo. Seria direito fundamental das partes atuar para dirimir incertezas expostas ao longo do procedimento, desde a fase postulatória até a fase instrutória, o que exige protagonismo e suficiente tempo de manifestação aos litigantesem permanente e amplo contraditório ao longo de todo o iter.
A presença humana, das partes envolvidas na relação jurídico processual, não é fator que possa ser ignorado no ambiente virtual, como já reconhecido na doutrina alienígena. Portanto, a lógica de um “processo justo, humano e conduzido por uma corte independente” (EMRK, art. 6, Sec. 1) precisa ser adaptada ao processo eletrônico, sob pena de convalidarmos sistema robótico, autômato, que se converte em mero procedimento eletrônico.
Tem-se forjada, a partir daí, a tese de que são diferenciados os atos processuais no processo eletrônico em demandas fáticas substanciosas, com respeito às peculiaridades do caso concreto – ainda sob a perspectiva dos direitos fundamentais das partes ao processo justo. E não sob o prisma da organização do Estado em matéria de política judiciária, onde são ofertados não mais do que garantias processuais formais-racionalistas, em um ambiente virtual padronizado que favorece a efetividade/celeridade sem a necessária relevância para a participação humana das partes envolvidas.
Resumindo
Com base nesse novo modelo teórico, presta-se a repensar o início do funcionamento do processo eletrônico em maior escala no Brasil, em busca de um reequilíbrio de forças e maior ingerência das partes na tomada de posições tempestivas aptas a eficazmente convencer o Estado-juiz nas instâncias ordinárias, a respeito de alegações de direito e especialmente de fato, em um modelo publicístico, democrático e justo de processo.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
O CPC de 2015 e os desafios do processo eletrônico
Regras processuais com impacto no processo eletrônico
4. Conclusão
Considerações finais
O processo é cultura e, como tal, acompanha os avanços da sociedade e da sua forma de organização, sendo da pós-modernidade a busca por maior tecnologia, que traga conforto e rapidez nos movimentos da coletividade – e por aí se percebe que, naturalmente, tal cenário de desenvolvimento histórico chegaria ao processo. Comprovamos ao longo do trabalho a inexistência de uma dogmática processual que trate das questões próprias do processo eletrônico no atual estado da arte, sendo indevido se aplicar a disciplina histórica do processo físico, como forjado o CPC/1973 e mesmo o CPC/2015 (com manutenção de capítulo de restauração de autos), para tratar de situações novas trazidas pelo processo que corre em plataforma eletrônica – com muitas vantagens, mas também com novos problemas aos operadores do direito.
Para além da atualidade do movimento de construção do processo eletrônico no Brasil, sistematizado de maneira mais orgânica pelo CNJ, a partir de sua criação em 2004 (Emenda Constitucional n° 45), tivemos um movimento anômalo de seu impulsionamento a partir da pandemia mundial que assustou e transformou o mundo em 2020, exigindo o distanciamento social e aprofundando a necessidade de formatação dos atos processuais pela via não presencial. O processo civil, após o desenvolvimento do processo eletrônico e depois da pandemia de coronavírus, já não é mais o mesmo, sendo necessário que tratemos, com cada vez mais cuidado, as influências da virtualização e da tecnologia nas causas processuais que chegam ao Poder Judiciário.
A crítica lançada a respeito de uma preocupação do sistema com o elemento qualitativo realmente é bastante significativa, sendo evidente que o processo eletrônico projeta inúmeras vantagens, a maioria delas ligada à efetividade processual (como o fim dos prazos mortos e uma nova sistemática de gerenciamento de fluxo de processos). No entanto, pouco ou nada vem sendo dito, especialmente pelos órgãos oficiais a respeito da necessidade de construção de um processo em que a segurança jurídica (projetando a qualidade da prestação jurisdicional) assuma realmente papel primário no sistema adjetivo, independentemente se estamos tratando do rito comum (do CPC/2015) ou do rito sumaríssimo (dos juizados especiais, regulamentado em legislações especiais).
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TEMA 2 
JUSTIÇA DIGITAL
Justiça digital a partir do estudo do aproveitamento das tecnologias da informação nos mecanismos de resolução de conflitos
Itens iniciais
Propósito
O estudo sobre a Justiça Digital é absolutamente fundamental para que os estudantes estejam preparados para entender e trabalhar em todos os temas associados às resoluções de conflitos, da negociação a procedimentos judiciais sofisticados que se valem de mecanismos de inteligência artificial.
Preparação
Antes de iniciar os estudos, tenha em mãos o Código de Processo Civil e as Resoluções nº 345 e nº 372 do Conselho Nacional de Justiça.
Objetivos
· Analisar o que se propõe como uma Justiça 100% digital, suas características e principais mecanismos.
· Reconhecer o uso dos mecanismos de inteligência artificial na resolução de conflitos e o estudo de possíveis limites.
· Identificar os diversos meios de resolução de conflitos que se valem das tecnologias, incluindo, as mediações e as arbitragens on-line.
Introdução
O estudo do uso das tecnologias da informação nos métodos de resolução de conflito é gratificante e desafiador. Quando se fala de Direito Digital, fala-se da existência de uma relação entre as tecnologias e o Direito, que se explica ou se manifesta em várias frentes. Uma das mais relevantes é a compreensão de como as tecnologias propõem a mudança de como os conflitos sociais são resolvidos. Conflitos estes que, em uma sociedade da informação e de risco, são criados ou potencializados, muitas vezes pelas próprias tecnologias.
Fala-se, então, de uma possível leitura em direção ao reconhecimento de uma quinta dimensão do Acesso à Justiça, com o uso das tecnologias a serviço da estabilidade jurídico-social. Essa tarefa, porém, demanda estudo e a correta compreensão sobre os fenômenos. Entre muitas questões, esse conteúdo se propõe responder a algumas:
 (i) o que é uma Justiça 100% Digital? 
(ii) quais são as principais resistências ao avanço das tecnologias nos sistemas de resolução de conflitos? 
(iii) como a inteligência pode ser utilizada nos procedimentos de resolução de conflitos; e 
(iv) a mediação e a arbitragem podem ser realizadas de forma on-line?
1.Justiça 100% digital
Ligando os pontos
Inegavelmente, as tecnologias têm apoiado o desenvolvimento da atuação do Poder Judiciário de forma on-line ou de uma forma que implique o máximo aproveitamento das tecnologias da informação. Na vanguarda dessas iniciativas, o Conselho Nacional de Justiça tem atuado de forma decisiva na regulação de como esse referido aproveitamento pode ocorrer nas estruturas de Justiça. Tal vanguarda se revela, inclusive, no superar de resistências jurídicas e sociais em prol do desenvolvimento de mecanismos tecnológicos. Nesse contexto, o CNJ editou a Resolução nº 345/2020, que dispõe sobre o chamado Juízo 100% Digital e a Resolução nº 372 de 2021, que trata da criação do Balcão Virtual.
Dito isso, a empresa Orange Inc. lhe procura em razão de um problema contratual decorrente do contrato de desenvolvimento de software que possui com a empresa Megasoft Ltda. Esta teria sido contratada para o desenvolvimento de um SaaS customizado para a Orange, porém, houve atrasos e envolvimento de profissionais de qualidade e experiência inferior ao que o contrato previa, resultando em vultosos prejuízos para a Orange. O Diretor Jurídico desta empresa, coincidentemente, é um entusiasta das novas tecnologias e antes da propositura da demanda indenizatória no Poder Judiciário, lhe questiona sobre como o Poder Judiciário tem absorvido as novas tecnologias.
A implementação do Acesso à Justiça
O princípio do Acesso à Justiça
Historicamente, a ideia de Acesso à Justiça decorre dos avanços entre os mecanismos rudimentares de autotutela até a consolidação do protagonismo da jurisdição estatal e, hoje, pela adoção do modelo multiportas de resolução deconflitos.
Com foco no tema, o essencial a ser dito é que a função jurisdicional constitui verdadeiro dever constitucional do Estado. E que, nesse sentido, não pode ignorar os aprimoramentos e as melhorias que as tecnologias da informação propõem.
A Constituição Federal ao garantir, em seu art. 5º, XXXV, o acesso à função jurisdicional, cria um dever do Estado de oferecer respostas efetivas e adequadas às demandas que lhe são dirigidas: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
Essa é na essência, a ratio decidendi do precedente da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal exarado no RE nº 204.305, segundo o qual:
a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Essa é na essência, a ratio decidendi do precedente da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal exarado no RE nº 204.305, segundo o qual: “A atual Constituição, em seu artigo 5º, LXXIV, inclui, entre os direitos e garantias fundamentais, o da assistência jurídica integral e gratuita pelo Estado aos que comprovarem a insuficiência de recursos. – Portanto, em face desse texto, não pode o Estado eximir-se desse dever desde que o interessado comprove a insuficiência de recursos, mas isso não impede que ele, por lei, e visando a facilitar o amplo acesso ao Poder Judiciário que é também direito fundamental (art. 5º, XXXV, da Carta Magna), conceda assistência judiciária gratuita.
(STF, Primeira Turma, RE nº 204.305/PR, Rel. Min. Moreira Alves, j. 05.05.1998, DJ 19.06.1998)
Portanto, o Acesso à Justiça constitui um direito fundamental e nessa condição deve ser compreendido. Assume essa qualidade, especialmente, pela posição que ocupa no ordenamento jurídico brasileiro, por sua evolução histórica, constituindo preceito inerente ao próprio Estado de Direito e por sua íntima ligação com o princípio do devido processo legal.
Como princípio, propõe a importante busca por um estado ideal das coisas, representado por uma situação de pleno acesso ou de plenitude de disposição dos meios de solução de conflitos mais adequados e efetivos, em que as pessoas devem ter à disposição o maior número de meios e possibilidades possíveis para as soluções efetivas e adequadas dos conflitos.
Uma quinta dimensão do Acesso à Justiça
Costumeiramente, foi convencionada, em especial a partir da famosa e ímpar obra de Mauro Cappelletti e Bryany Garth (CAPPELLETTI, 1988), a identificação de ondas do Acesso à Justiça. Na essência, a identificação de movimentos históricos de promoção e melhoria dos mecanismos de resolução de conflitos.
Até esse momento, mais precisamente, poderiam ser identificadas quatro ondas:
Primeira:
Caracterizada pela relativização dos custos financeiros.
Segunda:
Caracterizada pelos mecanismos de tutela de direitos transindividuais.
Terceira:
Caracterizada pela expansão dos métodos de resolução.
Quarta:
Caracterizada pela promoção do acesso para os responsáveis por operar o Direito (proposta de Kim Economides).
Mais que ondas, parece ser interessante e proveitoso o uso da expressão “dimensões”. Embora esses movimentos possam ser identificados em ordem cronológica ou histórica, isso não altera o fato de que eles seguem sendo observados na contemporaneidade.
Por essa razão, prefere-se a expressão dimensões de Acesso à Justiça, ao passo que cada um desses movimentos gera uma nova e perene camada a ser sobreposta sobre os mecanismos de resolução dos conflitos sociais.
Resumindo
As tecnologias da informação propõem um repensar do conteúdo normativo do Princípio do Acesso à Justiça consagrado em nossa Constituição Federal (art. 5°, XXXV), trazendo novos e consistentes aspectos práticos de discussão. Isso parece se dar, de forma destacada, de duas maneiras relacionadas entre si, não só porque têm nas tecnologias da informação as suas bases, como estão ligadas, em certo modo, por uma lógica de causa e efeito. O que se propõe é o entendimento de que as tecnologias da informação podem otimizar a forma como as resoluções dos conflitos se desenvolvem.
Isso pode acontecer com a automação de procedimentos existentes e já feitos por humanos, com a transformação de meios existentes ou agregando novos métodos de solução.
Em suma, a leitura do fenômeno é que as tecnologias da informação, na linha de que se relacionam com o Direito de várias maneiras, funcionam como verdadeiros mecanismos catalizadores do Acesso à Justiça, ao passo que:
i. melhoram ou otimizam os meios existentes; ou
ii. aumentam o cardápio de opções de meios de solução de conflitos à disposição das pessoas envolvidas no conflito, potencializando, por consequência, as chances de que o método seja mais adequado e efetivo ao conflito posto.
Portanto, não parece mais ser possível ignorar que o Acesso à Justiça também tenha essa dimensão e assim deva ser trabalhado. Logo, além de se trabalhar na redução dos custos, na ampliação da tutela transindividual, no desenvolvimento de outros métodos de solução ao lado da jurisdição estatal e na melhoria do ensino jurídico e profissionalização dos sujeitos envolvidos nessa dinâmica, faz-se necessário aproveitar-se ao máximo as funcionalidades e ferramentas trazidas pelas tecnologias da informação na solução dos conflitos jurídico-sociais.
Comentário
As tecnologias da informação e a formatação social contemporânea (sociedade da informação ou pós-industrial, sociedade do risco e que permeia a quarta revolução industrial) geram toda espécie de riscos e, por consequência, conflitos sociais em maior diversidade e especificidade.
Parece existir um dever ou um compromisso social de todos, com que o Direito lida de alguma forma, de utilizar essas mesmas ferramentas para solucionar tais situações. Um compromisso com o Acesso à Justiça que parte da própria lógica de proporcionalidade. Se os conflitos são potencializados pelas tecnologias, estas também devem catalisar os meios para solução. Assim como uma vacina para uma doença, que pode se desenvolver a partir do seu agente causador, trata-se de reconhecer a necessidade de utilizar as próprias funcionalidades que têm modificado a sociedade para tentar sanar os conflitos e mazelas decorrentes dessa mesma modificação.
O que seria Justiça Digital?
O que é a Justiça 100% Digital?
Neste vídeo, o professor Maurício Tamer explicará o que é Justiça 100% Digital.
Neste contexto de necessário aproveitamento das tecnologias da informação nos métodos de resolução dos conflitos, como podemos entender a Justiça 100% Digital? Justiça 100% Digital, tecnicamente, são as chamadas cortes on-line.
A prestação jurisdicional estatal de forma on-line não se trata, como visto, do mero uso de ferramentas digitais na atuação jurisdicional presencial, como o peticionamento eletrônico ou as citações e intimações eletrônicas, regulamentadas na Lei nº 11.419/06.
Com efeito, está-se diante da atuação jurisdicional estatal integralmente por meio da tecnologia, sem a necessidade de encontro físico com os jurisdicionados, mas apenas por meio eletrônico. Ademais, como reflexo da atuação amplamente digital, os atos do órgão jurisdicional passam a ser realizados com o apoio da tecnologia e da inteligência artificial na sua elaboração e condução.
A esse conceito podem ser adicionados outros dois para explicá-lo.,
Primeiro sentido
Online judging ou julgamento on-line, refere-se à atuação totalmente on-line das partes e do órgão jurisdicional, apresentando suas alegações e provas, mas sem a realização de atos síncronos, especialmente audiências. Um procedimento assíncrono, ou seja, sem a necessidade de que as partes estejam presentes fisicamente.
Segundo sentido
Extended court ou tribunal estendido/extensão do tribunal, é referente à atuação dos tribunais com o apoio da tecnologia à entrega de um serviço de melhor qualidade. Por exemplo, com o uso da tecnologia para auxiliar as partes a saberem seus direitos e como apresentar mais facilmente suas alegações e provas, transcendendo a simples resolução do conflito.
As cortes on-line representam mais um movimento disruptivo em relaçãoao Princípio do Acesso à Justiça. Já foi sustentado acima que este não significa o acesso a uma prestação jurisdicional estatal, a busca de um estado ideal das coisas, em que haja à disposição das partes um rol de possibilidades de mecanismos de solução para os conflitos de interesse.
No entanto, caso a solução justa precise ser buscada por meio do Poder Judiciário, a Justiça não depende mais de uma estrutura física específica: o que é relevante é o serviço prestado, mas não o local em que é prestado.
Inclusive, é preciso rever a ideia de Justiça associada a um lugar – uma sede física do Poder Judiciário, ou à realização de procedimentos com movimentos presenciais ou síncronos (simultâneos). A prestação jurisdicional estatal também pode ser exercida de forma on-line, eliminando atos de tais natureza e isso pode fazer muito sentido às partes, no caso concreto.
Essa mudança está ligada à eficiência e à qualidade que se esperam de um serviço público. Sendo a atividade jurisdicional um serviço público, há um dever estatal de se buscar os meios mais eficientes de prestá-lo.
Comentário
É crucial notar que o princípio da eficiência (em seu aspecto) processual está positivado em todos os níveis. Da Constituição Federal, pode ser extraído inicialmente do artigo 37, a exemplo da eficiência administrativa, na medida em que a norma se dirige a todos os poderes estatais. Isso fica ainda mais claro nas atividades administrativas dos tribunais.
Nessa linha, diversos benefícios podem ser extraídos da atuação de cortes digitais:
1. Conveniência - Podem as partes e mesmo o magistrado praticar os atos de sua responsabilidade no momento que melhor se ajuste à sua rotina diária.
2. Eficiência, celeridade - Na Justiça Digital, em regra, os sujeitos do processo não precisam se deslocar e podem praticar muitos atos de forma assíncrona. Ademais, o apoio da inteligência artificial possibilita que os magistrados apreciem mais casos em menos tempo, pois já recebem muitas informações devidamente indicadas pela máquina. Isso permite, então, que o processo tenha seu curso de maneira mais célere.
3. Custo - No início de sua implantação, uma corte on-line gera custos com as ferramentas tecnológicas, os sistemas e os equipamentos, entretanto, em médio prazo, isso reduz custos com instalações físicas, que se tornam desnecessárias; com materiais (por exemplo, há uma redução drástica de consumo de papel); e com pessoal, pois a atuação virtual torna despicienda, no mínimo, a atuação de uma série de agentes de setores de apoio administrativo dos tribunais, assim como a inteligência artificial vai aumentando a capacidade de atuação de servidores e magistrados, reduzindo a necessidade de novos concursos públicos.
A Resolução nº 345 do Conselho Nacional de Justiça
De forma emblemática e, diga-se, elogiável, o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução nº 345, em 09/10/2020, que, segundo seu próprio texto, dispõe sobre “o Juízo 100% Digital e dá outras providências”. Inegavelmente impulsionada pela pandemia da Covid-19 e a necessidade de virtualização dos procedimentos por conta das medidas necessárias de isolamento social, fato é que a Resolução nº 345 representa verdadeiro marco das cortes on-line no país. Mais recentemente, demonstrando a dinâmica inerente da própria matéria, seu texto foi alterado pela Resolução nº 378, em 09/03/2021.
Saiba Mais
A Resolução nº 345, em seu artigo inaugural, autoriza a adoção pelos tribunais das medidas necessárias à implementação do “Juízo 100% Digital”, explicando que o “Juízo 100% Digital” é aquele compreendido por procedimentos em que “todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto, por intermédio da rede mundial de computadores” (art. 1º). Há, assim, uma relação de sinonímia entre o que se entende aqui por “Corte On-line” e o que a Resolução define por “Juízo 100% Digital”: a jurisdição estatal exercida de forma integralmente eletrônica.
Inclusive, nesta linha, diz o §1º que “no âmbito do “Juízo 100% Digital”, todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores”.
Na sequência, de forma equilibrada, diz que “inviabilizada a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de forma virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a tramitação do processo no âmbito do “Juízo 100% Digital” (§2º), além disso, “o ‘Juízo 100% Digital’ poderá se valer também de serviços prestados presencialmente por outros órgãos do Tribunal, como os de solução adequada de conflitos, de cumprimento de mandados, centrais de cálculos, tutoria dentre outros, desde que os atos processuais possam ser convertidos em eletrônicos” (§3º).
Seguindo a Resolução, no seu art. 2º, sinaliza, com cautela e ciente das implicações decorrentes, que “as unidades jurisdicionais de que tratam este ato normativo não terão a sua competência alterada em razão da adoção do ‘Juízo 100% Digital’”.
A consensualidade ou a faculdade da parte na eleição do procedimento do “Juízo 100% Digital” também é marcante na Resolução, mais uma vez, com sinais de cautela na adesão das partes. Inclusive, é elogiável tal cautela na eleição do método, dado que é necessário reconhecer a realidade brasileira de difícil e limitado acesso às tecnologias da informação por partes e seus representantes em relevante parcela da população.
Diz seu art. 3º:
Art. 3º - A escolha pelo “Juízo 100% Digital” é facultativa e será exercida pela parte demandante no momento da distribuição da ação, podendo a parte demandada opor-se a essa opção até o momento da contestação.
(RESOLUÇÃO Nº 345)
Inclusive, em disposição muito interessante, o CPC prevê que as partes podem, a qualquer tempo (antes ou durante o procedimento, portanto), celebrar negócio jurídico processual para a escolha do Juízo 100% Digital, reforçando o alcance procedimental da cláusula geral de negociação processual (CPC, art. 190).
Resolução nº 372 do Conselho Nacional de Justiça
Nesse contexto, também é de suma relevância a menção da Resolução nº 372 do CNJ, de 12/02/2021, que regulamenta a criação da plataforma de videoconferência denominada “Balcão Virtual”.
Saiba Mais
A Resolução nº 372 do CNJ determina a criação da plataforma com esse nome, dispondo que “os tribunais, à exceção do Supremo Tribunal Federal, deverão disponibilizar, em seu sítio eletrônico, ferramenta de videoconferência que permita imediato contato com o setor de atendimento de cada unidade judiciária, popularmente denominado como balcão, durante o horário de atendimento ao público” (art. 1º).
Os tribunais poderão utilizar qualquer ferramenta tecnológica que se mostre adequada para o atendimento virtual, ainda que não seja a mesma utilizada em outros procedimentos das mesmas cortes (art. 2º). Relevante, então, que seja verificada a adequação e funcionalidade da ferramenta para a finalidade, independentemente de qual seja. De forma equilibrada, nas localidades e unidades judiciárias em que a deficiência de infraestrutura tecnológica for notória, o atendimento pode se dar de forma assíncrona, ou seja, não simultânea, com a resposta no atendimento em tempo razoável (§1º).
Para ser efetivo, o Balcão Virtual deve refletir ao máximo a realidade do atendimento público presencial, sendo essa a premissa para considerar a ferramenta adotada como a adequada.
Nesse sentido, diz a Resolução que: “O Balcão Virtual deverá funcionar durante todo o horário de atendimento ao público, de forma similar à do balcão de atendimento presencial” (art. 3º) e seu link de acesso deve constar de forma facilitada no site do tribunal (art. 5º).
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Uma quinta dimensão do Acesso à Justiça
Balcão Virtual
Ligando os pontos
Muitas têm sido as iniciativas de aproveitamento da inteligência artificial no âmbito do Poder Judiciário e, logo, na prática dos atos processuais. Como aponta o estudo “Tecnologia Aplicada à Gestão

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