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AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ESPAÇO GEOGRÁFICO, 
ECONOMIA E COMÉRCIO 
INTERNACIONAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Rodolfo dos Santos Silva 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Este texto discute como os seres humanos se apropriam do espaço 
geográfico para realizar transações econômicas nos diferentes locais, lugares e 
territórios, garantindo a produção e o consumo, seja através de novas 
metodologias, como supply chain, de envolvimento dos gestores e suas relações 
com a cadeia de suprimentos, ou com supply value. Através da cadeia de 
suprimentos e da cadeia de valores, busca-se atingir maiores vantagens 
competitivas nos circuitos espaciais de produção. Busca-se também entender 
como as vantagens competitivas se dão em um contexto de globalização dentro 
de uma sistemática de interligações entre os países, e como elas envolvem seus 
circuitos de produção e suas relações de interdependência com o Estado e com 
as grandes corporações capitalistas. 
Vamos discutir, também, a influência da reestruturação produtiva, a partir 
da década de 1970, sobre a nova lógica de localização, produção e acumulação 
capitalista e, dessa forma, como esse modelo de produção fordista de massa, 
padronizado, foi substituído por um modelo de racionalização e flexibilidade. 
Também buscamos entender o processo de remodelação sobre a maneira de 
produzir bens e serviços, o que dinamizou a concorrência intercapitalista, e como 
isso influenciou a já bastante complexa divisão internacional do trabalho. Também 
abordamos a ampliação dessa complexidade a partir da implementação de 
políticas governamentais neoliberais nas economias capitalistas, a partir da 
década de 1990, e como a neoliberalização influenciou os padrões e processos 
de produção e atividades relacionadas em diferentes lugares, locais, territórios e 
escalas. 
TEMA 1 –CADEIA DE SUPRIMENTOS (SUPPLY CHAIN) 
As relações econômicas entre os países, através da globalização, 
proporcionam uma série de bens e serviços, que ultrapassam suas fronteiras 
geográficas. Nessa relação entre o país produtor e o destino de sua produção no 
comércio internacional, está o supply chain, um termo inglês bastante utilizado 
para designar os procedimentos de uma cadeia de produção que formam as 
demandas correntes de um país, desde a extração da matéria-prima até o 
consumidor final. Para se chegar a um resultado melhor dentro desse 
encadeamento produtivo, há que se considerar o envolvimento de todos os 
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agentes econômicos e instituições que fazem parte do processo. Nessa cadeia 
produtiva estão o coletor, ou extrativista, ou ainda o produtor da matéria-prima, os 
demais envolvidos no processo de produção, os fornecedores, os estoques e o 
armazenamento, o setor de distribuição, as empresas de comércio varejista e 
atacadistas, até chegar ao consumidor final. 
 
 
 
 
 
 
Crédito: Thyago Macson. 
Quando se tem uma boa gestão da Cadeia de Suprimentos (Supply Chain), 
é muito provável que os resultados alcançados estejam dentro dos objetivos 
traçados, atendendo aos interesses dos negócios empresariais e dos 
consumidores. Para isso, é importante que o produtor compreenda que, ao 
confeccionar determinado produto até o momento em que ele passe a agregar 
valor de mercado, e se torne uma mercadoria acabada, é necessário um longo 
caminho, de muitas etapas. Essas etapas estão relacionadas a cada parte do 
processo produtivo. Para entender melhor: na cadeia produtiva de roupas de 
algodão, para que tudo ocorra conforme o planejado, é necessário acompanhar 
desde o cultivo da terra, sua preparação, os cuidados com o plantio do algodão, 
os defensivos agrícolas, a colheita, o ensacamento através de fardos, o 
deslocamento até o seu processo de transformação em fios para a 
industrialização têxtil. Nesse processo de industrialização, o tecido pode receber 
corantes artificiais que determinarão suas cores conforme o fabricante de roupas 
assim o desejar. O fabricante poderá transformar em tecidos aqueles que serão 
encaminhados para atender ao mercado atacadista ou varejista interno ou 
externo. Assim, chega-se até o consumidor final. 
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A padronização do circuito de produção espacial, com o fluxo de 
informações no rastreamento do conjunto de atividades que se engrenam 
progressivamente nesse circuito de produção espacial, vai desde a escolha da 
terra, passando pela utilização de fertilizantes, até o produto acabado, distribuído 
e comercializado. O processo inclui a boa gestão da cadeia de suprimentos 
(supply chain management), pois ela tende a favorecer o processo de integração, 
enquanto elo de produção, e garantir a ampliação dos ganhos de escalas das 
empresas envolvidas no processo, envolvendo também o setor externo até o 
consumidor final. Para melhorar o fluxo de informações, há uma série de 
instrumentos que a informática oferece, através de softwares avançados, que 
facilitam análise e o acompanhamento de toda a Cadeia Produtiva e dos valores 
que envolvidos. 
TEMA 2 – CADEIA DE VALOR (SUPPLY VALUE) E VANTAGENS COMPETITIVAS 
EM UM CIRCUITOS ESPACIAL DE PRODUÇÃO 
Uma Cadeia de Valor (Value Chain) tem muitas vantagens competitivas, 
quando há uma cadeia produtiva consistente. De acordo com Alves (2015), elas 
se estabelecem em um circuito de produção espacial que vai do produtor da 
matéria-prima ao consumidor final, representando um ciclo de vida mais longo 
para os negócios através de suas vantagens competitivas. Há uma 
interdependência entre todos os participantes desse processo, pois qual cada um 
tem sua importância. Para se alcançar uma vantagem competitiva, objetivo 
primeiro de uma empresa, não basta apenas a produção realizada pela empresa, 
e sim todo o ciclo de produção e o circuito espacial de produção. 
A vantagem competitiva, dentro de um circuito espacial de produção, segue 
uma lógica que ultrapassa o custo de produção da empresa, mensurado através 
de um planejamento estratégico, buscando alcançar o maior valor possível que os 
compradores estão dispostos a pagar pelos bens e serviços que a empresa tende 
a oferecer. Quanto maior for o valor pago pelo conjunto de compradores, para 
além dos custos de produção, em cada um dos processos de produção internos 
da empresa, mais rentável será a empresa. 
Para a obtenção de uma compensadora vantagem competitiva da produção 
de bens e serviços realizados pela empresa em seu Suply Chain (Cadeia de 
Suprimentos), ou circuito espacial de produção, é necessário proceder à avaliação 
e análise de cada processo interno da empresa utilizando o Value Chain (Cadeia 
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de Valor), um instrumento analítico que possibilita também a identificação, 
avaliação e a correlação existente entre a cadeia de produção da empresa e as 
vantagens competitivas apresentadas. Dessa forma, é possível inferir que as 
vantagens competitivas da cadeia de valor são intrínsecas às diversas atividades 
desempenhadas por uma empresa, e também na forma de interação dessas 
atividades. A empresa executa as atividades com um custo menor ou melhor do 
que a empresa concorrente. 
De acordo com Porter (1989), a análise de fontes de vantagem competitiva 
tem de ocorrer na Cadeia de Valor ou Cadeia de Suprimentos (Suply Chain), ou 
seja, nas atividades distintas que uma empresa realiza, com vistas a projetar, 
produzir, comercializar e entregar. Para além disso, na sua continuidade, busca-
se ofertaruma rede de suporte ao cliente. Nesse encadeamento de valores, Porter 
(1989) aponta que a empresa é uma parte de um conjunto maior de atividades 
agregadas dentro de uma Cadeia de Valor. A cada atividade realizada com 
sucesso, acrescentam-se novos valores, desde a sua fonte de matéria-prima, 
passando por todo o processo de produção e comercialização, até a chegada ao 
seu consumidor final. Para isso, a cada valor adicionado, é possível, através da 
observação estratégica de cada parte de sua estrutura, identificar as atividades 
mais relevantes e seus diferentes custos e benefícios oportunizados. 
Ainda no entendimento de Porter (1989), as vantagens competitivas são 
estabelecidas não só pela identificação dos custos e valores da empresa em sua 
cadeia de suprimentos e cadeia de valores, mas sim pela combinação com os 
valores estabelecidos pelas empresas concorrentes, em cada uma das etapas, 
abordadas dentro de uma análise de sistema que envolve as cinco forças que 
regem a competição em um setor. Na opinião do autor, as cincos forças são os 
clientes, os fornecedores, os novos entrantes em potencial, os produtos 
substitutos e a rivalidade entre os concorrentes. Se bem utilizada, a análise 
dessas cinco forças evidencia a formação dos custos e valores, quando 
combinadas com o desempenho de várias empresas que atuam no mesmo setor, 
incluindo fornecedores, fabricantes, transportadores, até atacadistas e varejistas. 
A rivalidade entre os concorrentes é identificada a partir da eficiência dos 
sistemas que garantem os fluxos de informações sobre o desenvolvimento do 
produto, desde a matéria-prima até o consumidor final. Na atualidade, os sistemas 
de informática e de softwares garantem suporte de acompanhamento dos fluxos 
de produção e de deslocamento do produto, facilitando aos analistas a 
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compreensão da evolução dos custos e das vantagens obtidas em cada parte do 
processo, em relação às empresas concorrentes. Essa compreensão tende a 
facilitar a intervenção dos produtores no fluxo deficitário, resultando em maiores 
vantagens competitivas para as empresas. Santos (2008) destaca a existência de 
diferentes circuitos quando se trata de observar a economia mundial sobre o 
prisma geográfico. 
TEMA 2 – CIRCUITO INFERIOR, CIRCUITO SUPERIOR E ECONOMIA 
INTERNACIONAL 
Conforme Santos (2008) a globalização apresenta uma sistemática de 
interligações entre os países, fazendo com que dependam um do outro. O 
processo decorre das facilidades proporcionadas pelos sistemas de comunicação 
e da integração entre as grandes corporações e os Estados capitalistas. Esse 
sistema enfatiza a relevância das análises geográficas, quando se discute a 
história e a influência das grandes corporações sobre os espaços. Cada espaço 
apresenta impacto particular quando é atingido pelas forças de transformações e 
pelas modernizações tecnológicas. Os países subdesenvolvidos não ocupam uma 
linha histórica de evolução, da mesma forma que os países desenvolvidos. Não 
podem ser denominados de em desenvolvimento, porque os espaços onde as 
forças de transformação podem alterar a realidade ainda são extremamente 
seletivos. É de se levar em conta que as mudanças são instáveis e 
multipolarizadas, trazendo como consequência a fragilidade na tomada de 
decisões de seus governantes e nos interesses divergentes das forças de 
transformação internas e externas. 
Com o processo de globalização, há uma concentração espacial da 
produção e do consumo em certas áreas geográficas dos países 
subdesenvolvidos, que varia conforme a renda, o que é determinado por uma 
hierarquização das atividades em âmbito regional. Assim, a produção e o 
consumo dependem da localização e da capacidade do indivíduo no espaço, que 
não são as mesmas em todos os lugares, nem quantitativamente e nem 
qualitativamente, porque os modos de produção e consumo locais ainda 
persistem, mesmo quando os produtos e as formas de consumo padronizadas do 
modelo de produção globalizado se estendam de forma a atingir escalas 
abrangentes em cada país. Nesse sentido, Santos (2008), para entender o 
impacto dessas mudanças, que atingem especialmente as cidades, separa o 
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processo econômico e de organização do espaço em dois subsistemas: o circuito 
superior e o circuito inferior. 
O circuito superior tem ligação com o processo de modernização e 
padronização tecnológica, sob monopolização das grandes corporações e de 
Estados desenvolvidos, estando normalmente relacionado a processos 
econômicos e políticos que influenciam internamente países em escala nacional 
ou internacional. O circuito inferior tem forte relação com as atividades e os 
pequenos negócios que envolvem as populações dos centros urbanos das regiões 
e localidades mais pobres dos países subdesenvolvidos. Para Santos (2008), 
apenas o circuito moderno foi alvo de pesquisas intensivas, por envolver as 
grandes atividades comerciais e os grandes negócios urbanos, acreditando que 
pudessem representar toda a economia da cidade, o que de certa forma não 
envolvia o circuito inferior, das pequenas atividades e suas particularidades 
espaciais. 
3.1 O circuito inferior e o circuito superior 
 O circuito inferior desponta como um grau de importância econômica 
muito grande, quando analisamos o pequeno comércio das cidades dos países 
pobres dos vários continentes. Esse circuito é formado por subsistemas dentro de 
um sistema econômico geral, sendo incomparável internacionalmente com as 
atividades econômicas de países desenvolvidos, porque o padrão de 
contabilidade oficial tem sua base nos manuais contábeis dos países 
desenvolvidos. Por isso, são incapazes de relacionar as atividades do circuito 
inferior e dimensionar quantitativamente a importância desse circuito, que inclui 
os profissionais autônomos que atuam na informalidade e as atividades fabris e 
comerciais de pequeno porte, que nem sempre estão oficialmente registradas nos 
órgãos municipais, estaduais ou federais. 
O processo de globalização acelerou o crescimento econômico e a 
modernização da produção de bens e serviços, porém acelerou também o 
empobrecimento daqueles que não puderam ser integrados a esse modelo de 
capitalismo, que inclui alguns e exclui a maioria. Conforme Davis (2006), 
Chossudowski (1989) e Santos (2008), há casos de aceleração do 
empobrecimento das populações de diversos países, principalmente na África, 
Ásia e América Latina e Caribe, que assumem colocar em prática uma proposta 
de progresso tecnológico que, como pano de fundo, conduz a disparidades sociais 
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e econômicas. Segundo esses autores, é no campo em que os custos sociais são 
maiores. Isso se deve às dificuldades das famílias de pequenos produtores rurais, 
que vivem praticamente da produção de subsistência, de arcarem com qualquer 
custo adicional, como tecnologias que poderiam ampliar suas possibilidades de 
produção, para que pudessem alcançar um melhor nível de vida. Essas 
populações mais pobres dependem inteiramente de doações estatais, as quais, 
na maioria das vezes, não chegam nem perto daqueles que mais necessitam. 
Conforme Santos (2008, p. 193), “a alocação de uma importante parte dos 
recursos nacionais é feita em nome do progresso em benefício daqueles que já 
são ricos e ao preço de uma injustiça crescente”. 
Oliveira (2006) aponta que a situação das grandes cidades no Brasil só não 
é tão fortemente atingida pela pobreza quanto na área rural, porque a tecnologia 
envolvida na agricultura de extensão, como defensivos agrícolas e maquinaria,assim como a exploração do trabalho do camponês assalariado, em grande parte, 
da forma mais precária imaginável, financiam os produtos que nos alimentam, e 
servem para minorar a pobreza urbana. Apesar disso, conforme Garbossa e Silva 
(2016), o modelo de urbanização também é marcado por uma concentração 
espacial perversa de renda, que reversa os espaços urbanos mais bem 
infraestruturados para as grandes empresas do capital imobiliário e financeiro, e 
para as áreas mais distantes do centro, com pouca ou sem nenhuma 
infraestrutura, como as ambientalmente degradas, às populações mais pobres. 
Esse contingente de migrantes que saem do campo e vão para a cidade 
normalmente viabilizam nos grandes centros a criação de um circuito de produção 
não moderno, que não está inserido na economia de alto padrão tecnológico, o 
que Santos (2008) chama de circuito inferior. Nesse circuito, são inseridos os 
trabalhadores informais, que vendem nas ruas os seus produtos, sejam eles 
artesanais, de pequenas manufaturas ou fruto da agricultura familiar. Há os 
vendedores de panos para enxugar a louça, redes, chapéus, roupas e óculos; os 
vendedores de água ou ainda aqueles que vendem alho, frutas ou verduras nas 
esquinas das metrópoles urbanas ou das cidades médias. Para o autor, todos 
esses produtos ou produtores não estão adequados a um determinado padrão 
industrial, e revelam as principais características de um circuito inferior, que 
envolve empresas familiares de pequeno porte e um grande número de 
trabalhadores autônomos. Aqui, “o capital é muito pequeno, a tecnologia, obsoleta 
ou tradicional e a organização, deficiente. A procura de dinheiro líquido é 
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desenfreada. As despesas de publicidade são quase inexistentes. Poucos 
comerciantes se preocupam em arrumar suas vitrinas” (Santos, 2008, p.198). 
Em âmbito internacional, pode-se afirmar que o circuito inferior e o circuito 
superior têm relação com a definição de Colin Clark (1905-1989), que delineou, 
através de cálculos estatísticos e matemáticos, em publicações entre 1940 e 
1960, uma comparação entre as economias de diversos países, propondo a 
separação da economia em três setores distintos: terciário (comércio), secundário 
(indústria) e primário (agricultura). Apesar de ser questionado por muitos 
economistas, essa separação acabou prevalecendo, quando se trata de discutir a 
economia internacional e buscar entender as economias subdesenvolvidas. É 
comum considerar países nos quais o maior percentual do PIB está no setor 
primário da economia (agronegócio e commodities), como subdesenvolvidos ou 
em desenvolvimento. 
 Santos (2008) entende que nos três setores existem características do 
circuito inferior, mas destaca que o processo de terceirização acentua a 
precariedade nas relações de trabalho, conduzindo boa parte desse processo a 
problemas relativos à economia do circuito inferior. No entendimento desse autor, 
o circuito superior despontou com o processo de industrialização. A partir da 
década de 1960, com a introdução das tecnologias de ponta, que modernizaram 
a área rural, e com o aprimoramento de novas formas de crédito e a ampliação 
dos ganhos e lucratividade do setor bancário e financeiro, também os setores 
primários e secundários ganharam importância no circuito superior. 
 De acordo com Benko (2002), é a partir da década de 1960 que o modelo 
de produção fordista entra em colapso, já não servindo mais para o processo de 
acumulação característico do modelo de desenvolvimento capitalista. A era 
eletrônica toma conta do modo de produção; as bases da produtividade/qualidade 
do modelo taylorista/fordista se rompem, cedendo espaço para um modelo de 
acumulação baseado na racionalização/flexibilização de transferência das plantas 
industriais para regiões geográficas onde os salários e as condições de produção 
sejam mais vantajosas para o capitalista, o que acabar por estabelecer uma nova 
divisão internacional do trabalho. É a necessidade de superação de um modelo 
de acumulação baseado no welfare state, para um modelo de acumulação flexível. 
A dinâmica dessa acumulação não é controlada nem pelos Estados capitalistas 
nacionais, nem pelas formas institucionais de concentração do capital 
(multinacionais, trustes etc.). 
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 Conforme Santos (2008), é a partir dessas alterações no modelo de 
acumulação capitalista que se insere o circuito superior, marcado pela 
modernização, que envolve o comércio e a indústria, os setores de importação e 
exportação, e os bancos, que fazem a ligação entre as atividades urbanas 
modernas locais e o circuito de acumulação superior. Para o autor, há uma forte 
dependência das empresas modernas de comércio, como lojas e grandes redes 
de hipermercados, em relação aos créditos oferecidos pelo setor financeiro. As 
facilidades oferecidas com a introdução de cartões de crédito, além das compras 
diretas via sistemas eletrônicos por aplicativos, fortalecem as grandes redes, do 
atacado ao varejo, representando os setores que mais crescem nos países 
subdesenvolvidos e em desenvolvimento. 
O setor moderno da indústria depende muito da capacidade tecnológica do 
país. Esse setor vem enfrentando a concorrência externa, que oferece no dia a 
dia inovações tecnológicas, dificilmente acompanhadas por um país que, no 
entendimento de Oliveira (2013), se compara a um ornitorrinco. O ornitorrinco é 
aquele animal aquático, mamífero, que põe ovos, tem bico de pato e aspecto 
bastante estranho. Para esse autor, o Brasil tem um elevado nível de 
desenvolvimento no setor de agronegócios e, ao mesmo tempo, um pequeno 
número de pessoas vivendo no campo. Com relação à indústria, grande parte 
ainda atua como se estivesse na Segunda Revolução Industrial, utilizando 
tecnologias que não conseguem acompanhar, em quantidade e qualidade, a 
produção externa. Quando se trata de custos, tem de ser socorrida por subsídios 
governamentais ou imposições de barreiras aos produtos externos correntes. 
Apesar disso, ainda se encontram no país indústrias de alto padrão tecnológico, 
em setores como aviação, biomedicina e biogenética. Por outro lado, as 
desigualdades sociais e econômicas se intensificam, demonstrando contrastes 
imensos entre os afortunados e os de extrema miserabilidade. 
O circuito superior passa por alterações no processo de acumulação, com 
o comércio, os bancos, o setor financeiro e imobiliário movimentando grande parte 
do PIB dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Aliado a isso, 
nesses países, grande parte dos produtos são feitos no modo de produção 
fordista/taylorista, com plantas industriais pesadas e localizadas em determinadas 
regiões geográficas, como no caso do Brasil. Desde a década de 1970, todos 
esses países, inclusive os altamente industrializados, vêm enfrentando um novo 
modelo de acumulação capitalista, de flexibilização com uma nova configuração 
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espacial, caracterizado pela agilidade na alteração dos produtos, na metodologia 
e nos procedimentos de produção. 
TEMA 4 – A NOVA LÓGICA DE LOCALIZAÇÃO, PRODUÇÃO E ACUMULAÇÃO 
CAPITALISTA 
Benko (2002) defende que, a partir da década de 1970, houve uma 
reestruturação produtiva, passando de um modelo de produção fordista de massa 
estandartizado, com uma estrutura rígida que buscava atender as demandas de 
mercado, para um modelo de racionalização e flexibilidade, que remodelou as 
práticas de produção anterior. Essa ruptura foi fundamentada na necessidade de 
o capitalismo tornar mais dinâmica a concorrência intercapitalista,reconfigurando 
o processo de acumulação dentro de uma nova divisão internacional do trabalho. 
Para esse autor, o modelo fordista/taylorista buscava desenvolver-se em regiões 
geográficas especificas, favorecidas por farta mão-de-obra e incentivos 
governamentais. Destaca-se o contexto de uma grande metrópole, como São 
Paulo, Vale do Huhr na Alemanha, e Vale do Sena na França, no nordeste dos 
EUA e em Milão, Gênova e Turim na Itália. 
Nessa nova divisão internacional do trabalho, há uma transferência das 
unidades corporativas e suas plantas industriais, desta vez com unidades de 
produção menores e mais ágeis, para regiões com salários mais baixos, além de 
menos rigidez e regulações por parte do Estado. Busca-se o aumento da 
produtividade através de planos de autonomia e iniciativas com responsabilidades 
mais profundas por parte dos trabalhadores, remodelando o mercado de trabalho, 
para que haja um retorno mais rápido, e com menores investimentos, objetivando 
o máximo de lucro e custos menores, facilitando assim o processo de acumulação. 
Esse novo modelo redistribui no mundo capitalista o mapa dos poderes, 
como resultado de um desenvolvimento econômico produtivo-social keynesiano, 
sob o acompanhamento do Estado – o qual, ao mesmo tempo em que atuava 
como empresário, também provia leis que estimulavam o welfare state. Esse 
modelo, que durante muito tempo sustentou as trocas e o comércio internacional, 
e também o progresso técnico, teve sua fase de maturação logo após o final da 
década de 1960. Diante das crises da década posterior, o modelo foi considerado 
esgotado em seu papel de ampliar a lucratividade na velocidade que os dirigentes 
do mundo capitalista necessitavam. 
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A partir da década de 1970, Conforme Benko (2002), o novo modelo de 
acumulação busca alterar os modos de produção e consumo, interferindo nas 
relações sociais internas do país, assim como nas suas relações com outros 
países. Há interferência também na localização dos setores produtivos, do 
comércio, da moradia dos trabalhadores, dos poderes locais e, até mesmo o tipo 
de produção que será estabelecida em determinada região. Essa reestruturação 
espacial da sociedade reforça a ideia de um modelo com mecanismo de 
interferência, podendo redefinir a forma de pensar o espaço, a ideologia 
dominante e as relações de trabalho. “A maior flexibilidade favorece a 
desintegração vertical das relações de proximidade entre dirigente e 
subcontratante, a troca contínua de informações e, portanto, a proximidade 
espacial, que permite a interação e a regulação final do processo de produção 
global” (Benko, 2002, p. 29). 
Harvey (2016) destaca que essa flexibilidade do novo modelo de 
acumulação capitalista se esforça para produzir uma paisagem favorável à sua 
reprodução e evolução. Diante das suas tantas contradições, os capitalistas se 
apoderam dos poderes estatais para moldar as paisagens geográficas de acordo 
com seus interesses. Para esse autor, não há passividade nas paisagens 
geográficas construídas pelo capital, pois elas se alteram conforme os 
investimentos autônomos e contraditórios do desenvolvimento tecnológico. As 
contradições entre capital e trabalho realizadas no lugar, no espaço e no tempo, 
são necessárias para que o capitalismo possa continuar se reinventando; caso 
contrário, já haveria se desintegrado e deixado de existir. Para esse autor, capital 
e trabalho devem atuar juntos para redefinir os investimentos naquilo que melhor 
contribui para o processo de acumulação capitalista. 
No Brasil, conforme Cano (2011), houve uma transformação radical nas 
estruturas de produção do país a partir da década de 1990, quando foram 
implementadas políticas econômicas em base nacional, proporcionando 
resultados que impactaram a produção, o consumo, o emprego e as relações 
internacionais. Para o autor, com o advento da Constituição Federal de 1988, as 
mudanças se deram também no campo das políticas sociais e da organização 
estatal, contribuindo para que houvesse uma maior integração entre as regiões. 
Esse modelo foi providencial para um maior desenvolvimento do processo de 
urbanização e para o crescimento das cidades. 
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Quando se trata de desenvolvimento econômico, social e industrial, a 
década de 1980 foi percebida por muitos economistas como uma década perdida. 
Mesmo sendo considerada atrelada ainda ao modelo fordista/taylorista, nessa 
década, a indústria de transformação despontava como a mais dinâmica dentre 
os setores da economia brasileira. Conforme Cano (2011), a industrialização 
brasileira deu um passo atrás, ficando muito aquém do que se esperava, enquanto 
o processo de reestruturação produtiva dos países capitalistas avançava em ritmo 
acelerado. Houve um processo de desconcentração industrial muito pequeno, 
mas a crise industrial foi grande, e afetou todos os setores da economia do país, 
que acabou colhendo resultados menos piores nos “segmentos mais vinculados 
às exportações agroindustriais, minerais e de insumos básicos, além dos 
vinculados à questão energética, como álcool de cana-de-açúcar e petróleo, este 
decorrente da forte extração na Bacia de Campos, no RJ” (Cano, 2011, p.13). 
Santos (2008) entende que as economias de países periféricos, como o 
Brasil, estão sujeitas a interferências de empresas oligopolistas transnacionais, e 
por isso não conseguem se contrapor à centralização dos recursos no circuito 
superior da economia. Para o autor, nas menores cidades há uma participação 
maior do circuito inferior na economia, porém isso não impede o crescimento da 
pobreza extrema nessas localidades. O Estado não consegue reduzir a 
transferência de capitais dessas empresas transnacionais para suas matrizes – 
pelo contrário, a atração das empresas para países pobres ocorre com o aceno 
de muitas vantagens, dentre as quais estão a cessão de infraestrutura, mão de 
obra barata, além de facilidades na remessa de lucros e dividendos para o 
exterior. A partir da implantação do neoliberalismo, no novo modelo de 
acumulação capitalista, houve uma maior abertura para a entrada de capitais 
externos e uma desregulação do mercado, e muitas facilidades para o 
escoamento de capitais dos países pobres para os países mais ricos. 
TEMA 5 – A LÓGICA DA FINANCEIRIZAÇÃO GLOBALIZADA E O 
NEOLIBERALISMO 
Harvey (2016) afirma que, para que esse modelo de acumulação capitalista 
se perpetue, é necessário que o capitalismo esteja sempre se reinventando, como 
ocorreu durante a longa e persistente crise de 1929. O capitalismo só conseguiu 
uma certa recuperação desse impacto após a Segunda Guerra Mundial, na 
década de 1950. O capitalismo também teve que se reinventar no enfrentamento 
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das crises cambiais e das manifestações em defesa de liberdades sociais e 
econômicas, ocorridas em praticamente todas as grandes cidades em 1968, 
assim como as crises do petróleo do início e do final da década de 1970. Para o 
autor, o desmantelamento das políticas de proteção aos trabalhadores e da 
desregulamentação de uma série de leis que favoreciam um controle maior do 
Estado, serviu para o benefício de um modelo de capitalismo financeirizado 
globalmente e hiperendividado, que teve sua base sustentada nas propostas 
econômicas neoliberais implementadas por Reagan, Thacher e Kohl, que 
corroboraram para a previsível crise econômica de 2008. 
A implementação de políticas governamentais neoliberais nas economias 
capitalistas foi medida decisiva para colocar em marcha um plano de redução do 
poder do Estadona economia, com vistas a promover mudanças que 
favorecessem as grandes empresas transnacionais. A partir de um discurso de 
estabilidade e autossustentação econômica, modernização do parque industrial e 
elevação do nível de produtividade, países em desenvolvimento colocaram em 
prática reformas que tinham como objetivo também a redução do déficit fiscal e 
da dívida pública. No caso brasileiro, isso teve início com o governo Collor, e 
continuou nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, sem 
deixar de influenciar também as políticas implementadas nos governos de Lula e 
Dilma Roussef. Segundo Cano (2011), as políticas empenhadas na dinâmica 
neoliberal trouxeram ao país um modelo que resultou em muitas mazelas, como 
“aumento do desemprego, queda dos salários reais, corte dos gastos sociais e 
aumento da violência hoje presentes em todas nossas regiões e cidades” (Cano, 
2011, p. 26). 
Para Brenner (2018), a neoliberalização, característica singular do 
neoliberalismo, vem sendo imposta há mais de 40 anos de forma diversificada, 
com um padrão de processos e atividades relacionadas, que vem sendo 
reproduzido em diferentes lugares, locais, territórios e escalas, objetivando 
garantir os interesses do mercado nas práticas políticas do Estado. Para esse 
autor, a neoliberalização surgiu como uma alternativa hegemônica de 
reestruturação regulatória da economia mundial, com intenções diversificadas do 
liberalismo clássico, associado ao imperialismo britânico do século XIX, que 
ganhou impulso a partir da crise do modelo nacional-desenvolvimentista em bases 
keynesianas durante a década de 1970. Apesar de ter sido desigualmente 
implementadas durante os vários anos que se seguiram, foram apresentadas 
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como soluções milagrosas para a crise, extensamente divulgadas e 
implementadas por organizações como Organização para Cooperação e 
Desenvolvimento Econômico (OCDE), Banco Mundial e FMI. 
O modelo de neoliberalização, implementado depois da década de 1990, 
buscou reestruturar os arcabouços geoinstitucionais, de forma a atender a 
interesses não apenas dos EUA, como também das diretrizes forjadas no 
Consenso de Washington, e de instituições supranacionais, como a Organização 
Mundial do Comércio (OMC), o G8 ou OCDE. Esse modelo, aplicado como um 
receituário único para diversos países terceiro-mundistas, tinha como principais 
diretrizes: privatização de empresas estatais, desregulação, liberalização 
financeira, abertura ao capital estrangeiro, e criação de novos circuitos de 
interjurisdicionais, para promover, legitimar e influenciar as lideranças políticas, a 
sociedade e o Estado da necessidade de colocar tais medidas em prática. Para 
tanto, esse processo de neoliberalização, que antes aparentava uma certa 
desarticulação, transformou-se em uma organizada e orquestrada rede 
transnacional, cujos “padrões de influência, coordenação e trocas recíprocas 
foram estabelecidos entre programas de reforma neoliberalizadoras em contextos 
e escalas jurisdicionais diversos” (Brenner, 2018, p.182). 
 
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REFERÊNCIAS 
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Paulo: Hucitec, 2002. 
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de Janeiro: Letra Capital, 2018. 
CANO, W. Novas determinações para as questões regionais e urbanas. 
Campinas: Unicamp, 2011. 
CHOSSUDOVSKY, M. A globalização da pobreza: impactos das reformas do 
FMI e do Banco Mundial. São Paulo: Moderna, 1999. 
DAVIS, M. Planeta Favelas. São Paulo: Boitempo, 2006. 
GARBOSSA, R. A.; SILVA, R. dos S. O processo de produção do espaço: 
impactos e desafios de uma urbanização. Curitiba: InterSaberes, 2016. 
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LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2013. 
MALLMANN, L.; BALESTRIN, N. L.; SILVA, R. dos S. Estado e políticas sociais 
no Brasil: avanços e retrocessos. Curitiba: InterSaberes, 2017. 
OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualística: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 
2013. 
OLIVEIRA, J. F. de (org.). Economia para administradores. São Paulo: Saraiva, 
2006. 
PORTER, M. Vantagem Competitiva: criando e sustentando um desempenho 
superior. São Paulo: Campus, 1989. 
SANTOS, M. O espaço dividido. São Paulo: Edusp, 2008. 
SOUZA, N. de J. de. Desenvolvimento econômico. 5. ed. revisada. São Paulo: 
Atlas, 2005. 
 
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