Prévia do material em texto
O HABEAS DATA, nos termos da Constituição Federal de 1988, é um instrumento processual, constante do rol dos remédios constitucionais que tem como finalidade garantir que a pessoa física ou jurídica tenha acesso ou promova a retificação de suas informações, que estejam registradas em banco de dados de órgão públicos ou instituições similares. NATUREZA: O HD é uma ação constitucional de natureza personalíssima, ou seja, é utilizado para obter ou retificar informações do próprio impetrante, não podendo ser utilizado para ter acesso a informações de terceiros. Exceção: a jurisprudência do STF e do STJ reconhece que é possível que haja a impetração de habeas data do cônjuge vivo para obter dados do cônjuge falecido, na defesa de interesse deste. STJ/2008 Ementa: CONSTITUCIONAL. HABEAS DATA. VIÚVA DE MILITAR DA AERONÁUTICA. ACESSO A DOCUMENTOS FUNCIONAIS. ILEGITIMIDADE PASSIVA E ATIVA. NÃO-OCORRÊNCIA. OMISSÃO DA ADMINISTRAÇÃO CARATERIZADA. ORDEM CONCEDIDA. (HD n° 147/DF, relator Ministro Arnaldo Esteves Lima, Terceira Seção, julgado em 12/12/2007, DJ de 28/2/2008, p. 69). BASE NORMATIVA: Artigo 5º, inciso LXXII, da Constituição Federal, o qual assim dispõe: LXXII - conceder-se-á habeas data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público; (acesso) b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo; (retificação) OBJETIVO: Salvaguardar o direito à informação (acesso, retificação e complementação de informações pessoais) PRAZOS: Embora haja uma louvável preocupação com a celeridade do procedimento, a lei nada dispôs quanto à inobservância destes prazos. Cabem as sanções administrativas ordinárias. REGULAMENTAÇÃO LEGAL: O habeas data é regulamentado por meio da Lei 9.507/1997, que trata do direito de acesso a informações e disciplina o seu rito processual. 1) DOS VETOS: Caput do artigo 1º Parágrafo único do artigo 3º Artigo 5º e 6º (inteiro teor) A preocupação quanto ao alcance das regras da Lei 9.507/97 foi expressamente manifestada pelo Presidente da República nos vetos ao caput do art. 1º, ao par. único do art. 3º e à íntegra do art. 5º. Nestes dispositivos, originalmente aprovados pelo Congresso Nacional, mencionava-se simplesmente o direito irrestrito ao acesso às informações nos registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público, sem a ressalva quanto às informações sigilosas, garantida na própria Constituição Federal. Estabelecia-se, também, a obrigação de fornecimento imediato de cópias de documentos aos interessados, além da comunicação à pessoa interessada da prestação de informações a seu respeito a qualquer usuário ou terceiro. Artigo 6º (inteiro teor) Também vetado pelo Presidente da República, o art. 6º estabelecia multas para o descumprimento das obrigações impostas às entidades depositárias dos dados ainda na fase extrajudicial, mas a ausência de especificação quanto à destinação e à gestão das verbas arrecadadas, além de uma anômala intervenção do Ministério Público, prevista nos Parágrafos 1 º e 2º, levaram ao veto da norma. Lei nº 9.507/97 Regula o direito de acesso a informações e disciplina o rito processual do habeas data. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9507.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9507.htm 2) DA INCLUSÃO DE HIPÓTESE LEGAL EM HD: A Lei n° 9507/97 incorpora às hipóteses constitucionais de habeas data uma hipótese legal, qual seja, a complementação das informações, nos termos do inc. III, do art. 7º, a saber: Art. 7° Conceder-se-á habeas data: I - para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registro ou banco de dados de entidades governamentais ou de caráter público; (acesso – art.5°, LXXII, alínea a, da CF) II - para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo; (retificação; correção – art.5°, LXXII, alínea b, da CF) III - para a anotação nos assentamentos do interessado, de contestação ou explicação sobre dado verdadeiro mas justificável e que esteja sob pendência judicial ou amigável. (complementação) CABIMENTO: O habeas data só é cabível se antes dele o cidadão solicitar o acesso a dados pessoais a um órgão público e esse órgão se negar a disponibilizar tais dados (Súmula 2/STJ - 18/05/1990) 1-assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante – acesso à informação 2-retificação de dados – retificação da informação 3-anotação nos assentamentos do interessado – complementação da informação LEGITIMIDADE ATIVA: O HD é garantia constitucional a todo cidadão brasileiro e aos estrangeiros que possuam dados em bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público, desde que lhe tenha sido negado o direito à informação no âmbito administrativo – jurisdição condicionada -, conforme o rito estabelecido pela lei 9.507/97 e/ou, tendo acesso às informações, manifeste comprovado interesse em retificar ou complementar tais dados. A ação é gratuita, ou seja, não são cobradas custas judiciais. Para impetrar habeas data, o titular do direito à informação deve estar representado por advogado ou defensor público regularmente constituído. O impetrante pode apenas pedir acesso a seus próprios dados, e não de terceiros. Excepcione-se, de acordo com o entendimento jurisprudencial, o caso de um cônjuge pedir a liberação de dados do parceiro falecido. Nos mesmos termos, pessoas jurídicas também têm direito de ajuizar ações de HD, desde que as informações sejam diretamente vinculadas ao interesse das mesmas. ❖ E os Sindicatos (?) “Não pode o Sindicato autor requerer os documentos de terceiros, mesmo na qualidade de substituto processual (art. 6º, CPC), pois falta-lhe a legitimidade ativa e o interesse de agir.... Legitimidade ativa: A ação de habeas data é uma ação personalíssima (CF , art. 5°, LXXII, a; Lei n. 9.507/1997, art. 7°, I) e, por isso, intransmissível.... Somente a pessoa (física ou jurídica) diretamente interessada nos registros de caráter pessoal possui legitimidade ativa”(HABEAS DATA. TRT 12ª Região, 2014) ❖ HABEAS DATA COLETIVO (?) O HD é um instrumento processual, constante do rol dos remédios constitucionais, que tem como finalidade garantir que a pessoa física ou jurídica tenha acesso ou promova a retificação de suas informações, que estejam registradas em banco de dados de órgão públicos ou instituições similares. Destarte, tem expressa previsão tanto na Constituição federal como na legislação infraconstitucional que trata sobre o instrumento, para o fim de obtenção de informações de caráter pessoal, somente. LEGITIMIDADE PASSIVA: Quem administre um banco de dados públicos ou privados, com natureza pública; entidades governamentais da administração pública direta e indireta ou pessoas jurídicas de direito privado que mantenham banco de dados aberto ao público. A doutrina e a jurisprudência têm entendido não ser cabível para banco de dados privados. COMPETÊNCIA: A autoridade competente para julgar o habeas data depende de contra quem o remédio constitucional está sendo impetrado, ou seja, depende de qual autoridade não realizou o fornecimento da informação solicitada. Art. 20 da Lei 9.507/97_ o julgamento do habeas data compete, originariamente: ➢ ao STF, contra atos do Presidente da República, das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, do Tribunal de Contas da União, do Procurador-Geral da República e do próprio STF; ➢ ao STJ, contra atos de Ministro de Estado ou do próprio Tribunal; ➢ aos Tribunais Regionais Federais contra atos do próprio Tribunal ou de juiz federal; ➢ a juiz federal, contra ato de autoridade federal,excetuados os casos de competência dos tribunais federais; ➢ a tribunais estaduais, segundo o disposto na Constituição do Estado; ➢ a juiz estadual, nos demais casos. Em grau de recurso: ➢ ao STF, quando a decisão denegatória for proferida em única instância pelos Tribunais Superiores; ➢ ao STJ, quando a decisão for proferida em única instância pelos Tribunais Regionais Federais; ➢ aos Tribunais Regionais Federais, quando a decisão for proferida por juiz federal; ➢ aos Tribunais Estaduais e ao do Distrito Federal e Territórios, conforme dispuserem a respectiva Constituição e a lei que organizar a Justiça do Distrito Federal; Mediante recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal, nos casos previstos na Constituição Federal. ETAPA ADMINISTRATIVA: NEGATIVA DE DIREITO Em caso de exercício do direito de acesso à informação, o requerimento do habeas data deverá ser apresentado ao órgão ou entidade depositária do registro ou banco de dados, devendo ser respondido no prazo de 48 horas, sendo que a decisão será comunicada ao requerente em até 24 horas. Deferido o pedido, o depositário do registro ou do banco de dados marcará dia e hora para que o requerente acesse as informações solicitadas. Em caso de inexatidão de qualquer dado a seu respeito, o interessado, em petição acompanhada de documentos comprobatórios, poderá requerer a sua retificação, a qual deverá ser realizada em, no máximo, 10 dias, após a entrada do requerimento ETAPA JUDICIAL: EFETIVAÇÃO DE DIREITO -recusa ao acesso às informações ou do decurso de mais de 10 dias sem decisão -recusa em se fazer a retificação ou do decurso de mais de 15 dias sem decisão Nessas hipóteses, a petição inicial de requerimento do habeas data deverá ser instruída com a prova dos fatos ensejadores do remédio constitucional. Da decisão que indefere a concessão de habeas data (por falta de requisito legal ou não cabimento) cabe recurso de apelação. O mesmo para a decisão que o concede. PROCEDIMENTO: PECULIARIDADES: -os processos de HD têm prioridade sobre todos os atos judiciais, exceto HC e MS -a impetração de HD não se sujeita a decadência ou prescrição -quando a sentença conceder o HD, a apelação terá efeito meramente devolutivo -o pedido de HD pode ser renovado, quando a decisão denegatória não tenha apreciado o mérito. NÃO CABIMENTO: Finalmente, vale destacar que a jurisprudência aponta hipóteses de não cabimento de HD para: -obter vista de processo administrativo; -pretensão de sustar a publicação de matéria em sítio eletrônico; -emissão de certidões, ainda que haja nelas informações de caráter pessoal, pelo fato de as certidões não serem consideradas direito de acesso à informação; hipótese em que se pode impetrar mandado de segurança. O HABEAS DATA E A LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO É importante destacar que existe uma diferença entre o pedido de Habeas Data para efetivação do direito de obter informações sobre si (art. 5º, LXXII, CF) versus o direito de obter certidões (artigo 5º, XXXIV, CF) ou informações de interesse coletivo (art. 5º, XXXIII, CF) que, na sua essência, visam a defesa de direitos ou o esclarecimento de situações de cunho pessoal. Para os casos de inefetividade do direito de obter certidões ou informações de interesse coletivo, a ação cabível é o Mandado de Segurança e não o Habeas Data, o que torna a motivação também necessária. Neste sentido, a Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação) regula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. 5º, no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2º do art. 216 da Constituição Federal. Contudo, atualmente, na sociedade da informação, a realidade é diferente. Na Quarta Revolução Industrial, impedir o acesso aos dados está na pauta estatal e figura igualmente no rol dos direitos fundamentais. A violação, o vazamento e o compartilhamento de dados sem a devida autorização do indivíduo também podem acarretar danos. Nesse sentido, a Lei nº 13.709/18 (Lei Geral de Proteção de Dados), entra em vigor, trazendo uma série de regras para o uso de dados e responsabilidades para quem faz a coleta e armazenamento dessas informações, dando novos contornos ao direito de acesso à informação. Destarte, a LGPD e o Habeas Data se complementam como forma de proteger o indivíduo e seus dados pessoais, garantindo mais liberdade e força ao direito à privacidade. O HABEAS DATA E A LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS O Habeas Data representa um instrumento hábil para garantir direitos que historicamente, em especial no período da ditadura militar foram retirados de cidadãos brasileiros que se tornaram presos políticos sem ter acesso a dados e informações pessoais utilizados para incriminá-los.