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Texto 02 - Método Psicanalítico 
 
Tema 1 - Psicanálise e ciências. 
Tema 2 - A especificidade da psicanálise. 
Tema 3 - A práxis psicanalítica. 
Tema 4 - Para além da clínica. 
Tema 5 - A noção de sujeito. 
 
CONVERSA INICIAL 
Antes de iniciarmos esta etapa, precisamos lembrar que a psicanálise trouxe um 
avanço para a sociedade ao instaurar a ideia de que o homem não se restringe ao seu 
biológico, mas, ainda assim, ela segue sendo alvo de ataques por aqueles que pretendem 
substitui-la por tratamentos químicos julgados mais eficazes por inibir os sintomas dos quais 
o homem não quer nada saber. 
Podemos observar que as histéricas já não são as mesmas de Freud, o corpo já não é 
tão atormentado como antes e, em seu lugar, surge um ser angustiado, com um sofrimento 
psíquico em forma de depressão, um inimigo invisível e silencioso que devasta a alma. 
Assim, de um lado temos o saber da psicanálise e os sintomas da atualidade, que 
surgem sob o sujeito concebido pela ciência, que, por outro lado, não exerce eficácia sob 
ele. Eis, então, a pergunta: por que a psicanálise hoje? 
TEMA 1 – PSICANÁLISE E CIÊNCIAS 
Desde a sua criação, a psicanálise sofre ataque pelos que se dizem do lado da ciência, 
considerada por eles um sistema de interpretação literária dos afetos e dos desejos, que, 
por assim ser, não depende da experimentação. Assim, em nome de uma “ciência 
cognitiva”, a única capaz de atestar uma “ciência verdadeira”, insistem em repensar a 
organização de todos esses campos, tal como a sociologia, a história, a antropologia, a 
linguística etc. 
 
Segundo os comentários de Roudinesco (2000) em seu livro Por que a psicanálise?, 
“esses procedimentos cientificistas pressupõem que existiria uma separação radical entre 
as chamadas ciências ‘exatas’ e as chamadas ciências ‘humanas’”(p. 113). Essa concepção 
se inclina para uma aberração. A exemplo disso, temos a comemoração do centenário da 
psicanálise, que teve seu evento adiantado na Library of Congress (LOC) por conta de uma 
petição que considerava o evento demasiadamente institucional. 
O fato é que a psicanálise propõe uma ruptura com os “saberes oficiais”, e 
reconhece de forma racional os fenômenos que outrora foram marginalizados. No 
texto Sonhos e ocultismo, de 1932, Freud, ao afirmar o caminho estreito que a psicanálise 
trilha, evidencia os seus critérios: 
O ocultismo afirma que existem, de fato, ‘mais coisas no céu e na 
terra do que sonha a filosofia’. Pois bem, não precisamos nos sentir 
amarrados pela estreiteza de vistas da filosofia acadêmica; estamos 
prontos a acreditar naquilo que nos é demonstrado de forma a 
merecer crédito. 
Propomos lidar com essas coisas da mesma forma como o fazemos 
com qualquer outro material científico: antes de mais nada, 
estabelecer se se pode realmente demonstrar que tais eventos 
acontecem, e então, e somente então, quando sua natureza factual 
não pode ser posta em dúvida, dedicar-nos a sua explicação. 
(Freud, 1932, p. 39) 
Freud recusou-se a tornar a psicanálise uma ciência demasiadamente positivista, mas 
teve todo o cuidado de construir uma lógica, assim, “existe em sua doutrina um pacto 
original que liga a psicanálise à filosofia do iluminismo e, portanto, a uma definição de um 
sujeito fundamentado na razão” (Roudinesco, 2000, p. 126). 
 
1.1 AS MODALIDADES DO IRRACIONAL 
A ciência a partir de Galileu foi definida como o conhecimento das leis que regem os 
processos naturais e, em seguida, originou novas abordagens que têm como ponto comum 
o ato de retirar a análise da realidade humana da antiga dominação das ciências ditas 
divinas, baseadas na Revelação. 
Surgem, então, as ciências formais (lógica e matemática), as ciências naturais (física e 
biologia) e as ciências humanas (sociologia, antropologia, história, psicologia, linguística e 
psicanálise). A que nos interessa – a humana – oscila entre duas atitudes, explica 
Roudinesco (2000, p. 120): 
uma toma como modelo uma única realidade humana, os processos 
físico-químicos, biológicos ou cognitivos, eliminando, assim, toda 
forma de subjetividade, de significação ou símbolo; a outra reivindica 
as categorias eliminadas. 
No entanto, nenhuma ciência está protegida do processo de irracionalidade que a 
permeia. A exemplo disso, Roudinesco (2000) cita Gilles Gaston, que, em um recente livro, 
evidencia três modalidades do irracional da própria história da ciência. 
1. Obstáculos constituídos por um conjunto de doutrinas que regem uma época, da 
qual o cientista tem que contestar o modelo dominante, sendo o recurso ao irracional 
o meio de suscitar uma imagem da razão e, assim, lograr novamente uma nova 
racionalidade. 
2. Surge quando se está com um pensamento fixo em uma doutrina, ficando incapaz 
de avançar sobre ela. Então, prolonga-se o ato criador que lhe deu origem, influindo 
nele um novo vigor. 
3. Delibera-se um modo de pensar estranho à racionalidade, pela qual se assiste uma 
rejeição ao saber dominante. 
 
Roudinesco (2000, p. 122) assinala que, assim como essas três modalidades do 
irracional perpassam por todas as ciências, também estão presentes na história da 
psicanálise. “Contudo, Freud sempre se manteve dentro dos limites das duas primeiras”. 
Verificamos o primeiro momento no período entre 1887 e 1900, quando Freud 
abandonou a teoria da sedução e construiu uma nova teoria da sexualidade. Depois, entre 
1920 e 1935, quando Freud introduziu a dúvida no cerne da racionalidade da psicanálise 
com a finalidade de combater o positivismo que a ameaçava por dentro, em primeiro lugar 
com a hipótese da pulsão de morte que transformava por completo o modo de pensar da 
teoria e, em seguida, Freud passou por um “irracional especulativo”, que o conduziu a 
outras inovações. 
Diferentemente do percurso de Freud, a terceira modalidade do irracional surge apenas 
na história da psicanálise e, segundo Roudinesco, apresentou-se mesmo durante a vida de 
Freud, quando alguns retornam à prática de negar a própria ideia de uma explicação 
racional do psiquismo. 
1.2 O FUTURO DA PSICANÁLISE 
O que pudemos observar até aqui é que se Freud em algum momento tentou integrar a 
psicanálise às ciências da natureza, nenhum passo foi dado por ele nessa direção. Em vez 
disso, ele elaborou um modelo especulativo e passível de dar conta de uma conceituação 
não restritiva da experiência clínica, mas que se amplia em relação à metafísica (ramo da 
filosofia), que trata das coisas especulativas, do ser ou da imortalidade da alma. A esse 
modelo nomeou de metapsicologia. 
Assim, com a sua nova doutrina do inconsciente, rompeu com a psicologia clássica, 
traduziu a metafisica numa metapsicologia e inventou um método interpretativo que 
convocou e convoca até os dias de hoje a desconstrução de “mitos”, “bem e mal”, 
“imortalidade” etc. 
 
Desse modo, poderá a psicanálise resistir ao imperativo da ciência? Cabe, então, a 
cada um de nós o futuro da psicanálise. 
TEMA 2 – A ESPECIFICIDADE DA PSICANÁLISE 
Quanto ao termo especificidade, precisamos ter a clareza do que representa. No 
dicionário on-line Dicio, encontramos a seguinte definição: “qualidade daquilo que é 
específico; particularidade/ qualidade própria”. Dito isso, podemos compreender que, para 
tomarmos a responsabilidade do futuro da psicanálise, é imprescindível que mantenhamos 
o rigor daquilo que caracteriza a sua especificidade. Em decorrência disso, decidimos dividir 
o que a psicanálise revela como sua especificidade em duas partes a fim de obtermos uma 
melhor compreensão. A primeira, quanto à especificidade da clínica, ou seja, sobre o 
tratamento; a segunda, quanto à formação do psicanalista, sobre aquilo que concerne à 
especificidade para a sua prática. 
2.1 A ESPECIFICIDADE DO TRATAMENTO 
O termo “psicanálise” foi usado pela primeira vez por Freud em 1896, em seu texto 
redigido em francês, mas, o que o precedera foi a publicação do livro Estudo sobre ahisteria, que traz o caso da Anna O., uma paciente que se tornou referência para a 
psicanálise por evidenciar um método – o tratamento fundamentado na fala. 
A fala para a psicanálise é um agente de cura, a cura pela fala, vindo desde o método 
catártico que, a princípio, visava à ab-reação e, depois, revelou-se a principal via de acesso 
à psique humana. Foi ao escutar o sofrimento de seus pacientes que Freud pôde descobrir 
o funcionamento do inconsciente e elaborar o conceito de resistência, de recalque e de 
transferência, entre outros conceitos base da psicanálise. 
No texto Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953), Lacan resgata 
a especificidade da clínica psicanalítica – a linguagem – já acrescida de toda significação e 
denuncia os pós-freudianos por terem se afastado dela: 
 
A descoberta de Freud é a do campo das incidências, na natureza 
do homem, de suas relações com a ordem simbólica, e do remontar 
do seu sentido às instâncias mais radicais da simbolização no ser. 
Desconhecer isso é condenar a descoberta ao esquecimento, a 
experiência à ruina. (Lacan, 1953, p. 276) 
No livro Fundamentos da psicanálise (2005), Marco Antônio Coutinho Jorge afirma que 
a psicanálise opera por meio de um único meio, a palavra do analisando. Lacan 
estabeleceu sob a obra de Freud a relação inevitável entre as diversas formações do 
inconsciente e a linguagem, meio pela qual ela necessariamente se manifesta (Jorge, 2005, 
p. 65). 
Assim, quando se fala, o que entra em jogo é o inconsciente, mesmo quando se depara 
apenas como o silêncio, diz Lacan, se tiver um ouvinte. Aí está o cerne da função da análise 
(1953, p. 249). O aforisma lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” 
reflete a diferença entre o inconsciente de Freud, que seguia o modelo biológico, e o 
inconsciente de Lacan, que se apoia no modelo linguístico. É o que nos explica Roudinesco 
no livro Dicionário de psicanálise (1998). 
A incisão feita no conceito de inconsciente, depositando nele o saber da linguística, do 
qual Freud não teve a mão, Lacan pôde identificar algumas evidências que o levariam ao 
entendimento de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, logrando ampliar 
o entendimento sobre a fala do analisante, destacando que toda produção é da ordem do 
sentido, portanto, da ordem simbólica, isto é, um sistema de representação baseado na 
linguagem, cujos signos e significações determinam o sujeito. 
Dessa forma, o sujeito está mais implicado na sua fala do que ele possa imaginar, e o 
verbo realiza no discurso o ato que devolve ao sujeito a história, que lhe dá a sua verdade. 
Luciano Elia, no livro O conceito de sujeito (2004), afirma: 
 
Só a fala permite que o sujeito, que emergirá nos tropeços das 
intenções conscientes daquela fala, possa, além de emergir nesses 
tropeços, ser reconhecido como tal pelo falante, que, a partir desse 
reconhecimento, não será mais o mesmo porquanto terá sido levado 
a admitir como sua uma produção que desconhecia, mas que, ainda 
assim, faz parte dele. (Elia, 2004, p. 23) 
A fala, como linguagem concreta na experiência psicanalítica, revela ao sujeito o seu 
inconsciente, um inconsciente não caótico ou biológico, mas estruturado como uma 
linguagem, ou seja, com elementos materiais simbólicos que desembocam em significantes 
engendradores de sentido, mesmo não portando sentidos constituídos em si, mas que faz 
produzir sentidos, faz significar (Elia, 2004, p. 23). 
Enfim, por meio da experiência psicanalítica, que torna a fala a sua especificidade, é 
possível compreender “que é no dom da fala que reside toda a realidade de seus efeitos; 
pois foi através desse dom que toda realidade chegou ao homem, e é por seu ato contínuo 
que ele mantém” (Lacan, 1953, p. 323). 
2.2 A ESPECIFICIDADE DA FORMAÇÃO DO PSICANALISTA 
Quanto à especificidade da formação do psicanalista, cuja direção é lacaniana, existe 
uma frase que nos orienta tanto quanto nos desorienta: “o analista só se autoriza de si 
mesmo!”. Ao fazer essa declaração, Lacan conseguiu, mais do que nunca e mais do que 
qualquer outra pessoa, implicar o sujeito em sua formação. 
Retomemos um pouco a história para lembrar que a Associação de Psicanálise 
Internacional (IPA) foi inicialmente fundada para normatizar a análise e formar os 
profissionais de psicanálise. A necessidade surgiu pela iminente expansão da teoria 
psicanalítica pelo mundo. Mas ao mesmo tempo em que a IPA exportava os modelos de 
formação, com o intuito de manter-se fiel às doutrinas freudianas, ela foi se tornando uma 
 
fábrica de produção de grandes notáveis que, segundo Roudinesco (2000), pela força de 
cultivar mais a norma do que a originalidade, e de cultivar a globalização em detrimento do 
internacionalismo, o terreno do debate político e intelectual foi banido. Nesse sentido, foram 
se desinteressando pelo mundo real para se voltar à fantasia de seres intocáveis. 
Ao recusar os moldes enrijecidos da IPA na França, em 1963 Lacan teve sua 
excomunhão, como ele mesmo nomeou (um modo crítico para expressar o seu não aceite 
em relação à IPA). A partir do ano de 1964, fundou em Paris, como o seu “Ato de 
Fundação”, a Escola Francesa de Psicanálise, com o objetivo de resgatar a práxis e a 
doutrina psicanalítica, cujo valor maior é prezar pelo bem-fundado da experiência 
(Lacan, 1964, p. 235). 
Com efeito, para Dominique Fingermann, no livro A (de)formação do psicanalista 
(2016), o que qualifica a sua eficiência específica (referindo-se à formação do psicanalista) 
não é a autoridade de uma teoria, o pertencimento a uma associação de pares ou a 
aplicação de uma cartilha técnica, menos ainda a conformidade à demanda de quem solicita 
sua presença e sua escuta (Fingermann, 2016, p. 21). 
O que institui um sujeito analista é, em primeiro lugar, a sua experiência com o 
seu próprio inconsciente, apreendida em sua análise, “o analista não opera a partir do 
senso comum, mas a partir do ponto fora do comum” (p. 22). 
No texto A questão da análise leiga (1926)[1], ao tratar da formação do analista, Freud diz 
que “somente no curso de sua análise, quando vivencia de fato os processos postulados 
pela análise em seu corpo – dito de outro modo: em sua própria alma – que se adquirirá as 
convicções que o guiará como analista[2]. (p. 186). Resumidamente, o que Freud nos 
ensina e reafirma durante toda sua obra é que a condição de analista é pela própria análise 
do analista. 
https://conteudosdigitais.uninter.com/libraries/newrota/?c=/gradNova/2022/bachareladoPsicanalise/metodoPsicanalitico/a2&hash=3u0Jf1zuk93zpxVYIcnLAt2iRubqufDCnRoOPjoko7U6feWDGqlbIxIMMH3iYV6QIpoRewK+5lbNPpL6tGYqoi/VsyrTYzZ+eyy5GieHB3kkAL5qrfcKAwU+Rl7nO2e6sETujaMLSIel/qJACDhQdDqcVOFlpZZeiTWFqVmWVJ0=&ne=False#_ftn1
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No entanto, a análise pessoal como especificidade da formação do analista não 
esgota a resposta à questão sobre a formação do psicanalista, pois a ela se acrescenta o 
estudo teórico e a supervisão, o tripé que estabelece a especificidade da formação do 
analista. 
2.2.1 Supervisão 
Sobre a questão da supervisão que soa tão contraditório ao ato de autorizar-se por si 
mesmo, Lacan afirma que ela se “impõe” para o analista. O que isso significa? Fingermann 
(2015), ao interpretar o sentido dessa imposição, declara que o fato de o analista não ter a 
garantia no autorizar-se de si mesmo torna a supervisão necessária. “A supervisão convoca 
o analista a ‘dar as razões da sua clínica’, dar prova da sua posição e de suas 
consequências que só podem qualificar um ato propriamente sem qualidade” (Fingerman, 
2016, p. 181). 
Outro ponto parao qual a supervisão se impõe para o analista em formação 
permanente diz respeito ao impossível da transmissão, dito de outro modo, sobre um ponto 
que é foracluído para analista e, que, apenas ao dispor de um terceiro (outro analista com 
mais experiência) ele poderá tornar audível o que ficou esquecido atrás dos ditos. Diz ainda: 
Engajar-se em um trabalho de supervisão coerente com o discurso 
analítico consiste, antes de qualquer coisa, em manter viva a 
sensação de um risco absoluto. O supervisor precisa estar à altura 
dessa responsabilidade se quiser colaborar para a manutenção da 
aposta do ato do psicanalista, que inquieta justamente o 
supervisionando. (Fingermann, 2016, p. 26) 
A supervisão é o primeiro lugar em que se pratica a práxis da teoria. 
2.2.2 Estudo teórico 
 
Por meio das escolas de psicanálises, Lacan almejou o “ensino verdadeiro”, aquele que 
não parasse de se submeter às chamadas “novações”. Para isso, criou o dispositivo “cartel”, 
cuja fórmula podemos resumir pela frase: “para que a psicanálise, ao contrário, volte a ser o 
que nunca deixou de ser: um ato por vir” (Lacan, 1968, p. 293). 
O cartel é o “órgão base” da Escola de psicanálise proposta por Lacan. Ela indica um 
caminho indispensável para quem se responsabiliza por sua formação permanente e se 
engaja na tarefa de transmissão. Não nos propomos a ir mais fundo sobre esse tema, pois, 
por hora, queremos apenas por acento no que concerne ao estudo teórico como parte da 
especificidade da formação em psicanálise. 
Com a entrada do ensino da psicanálise nas universidades, podemos considerá-la 
como mais um aporte ao conjunto que integra o tripé da formação do psicanalista, ou mais 
bem dito, uma porta de entrada para a modalidade dos estudos teóricos que visam ser 
permanentes no processo de formação. 
Freud e Lacan deram insistentes orientações a respeito do que o psicanalista tinha que 
saber para estar à altura de sua operação (Fingermann, 2016). O não saber do analista 
jamais pode se equivaler à ignorância. “A aparente incompatibilidade entre o ensino e a 
experiência não pode ser um motivo, uma desculpa, para não saber nada, satisfazer-se na 
posição do não saber, da ignorância” (Fingerman, 2016, p. 60). 
TEMA 3 – A PRÁXIS PSICANALÍTICA 
A ética da psicanálise é a práxis de sua teoria, declara Lacan no Ato de fundação 
(1964). Para nos orientar a respeito dessa afirmação, nos guiaremos de acordo com as 
seguintes questões: quais são as consequências dessa prática? A escola de psicanálise 
pode garantir essa prática? Afinal, o que é a psicanálise? É o que tentaremos responder a 
seguir. 
 
3.1 O QUE É A PSICANÁLISE? 
Iniciaremos pela última pergunta, acreditando que ela abrirá caminhos para responder 
às demais questões. Pois bem, certa vez Lacan foi interrogado a respeito da nossa questão 
– o que é a psicanálise? 
“A psicanálise [...] é o tratamento que se espera de um psicanalista”[3]. A resposta dada por 
ele foi um tanto quanto provocativa, recolocando a questão da formação do analista ao 
mesmo tempo em que devolve a responsabilidade da psicanálise aos seus operadores, 
fazendo-os lembrar, iminentemente, que a psicanálise é um tratamento, ou como diz Lacan, 
uma cura. Assim, para entendermos melhor, buscaremos mais referências com outros 
autores. 
No livro Fundamentos da psicanálise (2017), Jorge traz à luz uma citação de Lacan que 
nos remete ao que estamos buscando responder: “É de meus analisandos que aprendo 
tudo, que aprendo o que é psicanálise” (p. 7). Desde então, podemos pensar que a 
psicanálise não é um saber circunscrito, ou seja, a psicanálise se produz a cada início de 
sessão, sendo sua apreensão da ordem do impossível. 
No livro A estranheza da psicanálise (2009), Antonio Quinet reafirma que a psicanálise 
não é uma ciência, visto que não tem o propósito de transmitir tudo sem resto, pois sabe 
que a verdade jamais será dita por inteiro por conta do recalque originário, assim, ela se 
sustenta pela lógica do não todo (p. 75). Amelia Imbriano, no seu livro La Odiseia del siglo 
XX (2010), declara que a psicanálise se funda como uma práxis delimitada no campo da 
experiência psicanalítica, na qual o que está em tratamento é o sujeito do inconsciente, 
sendo essa a invenção freudiana. Assim, podemos entender que a psicanálise tampouco se 
reduz a uma simples técnica, mas parece ser mais um tipo de trabalho inspirado pelo seu 
analista durante a análise. Desse modo, a práxis que instaura a experiência psicanalítica 
decorre de seu procedimento próprio, que transforma a dor e o mal-estar em fala dirigida ao 
psicanalista. 
https://conteudosdigitais.uninter.com/libraries/newrota/?c=/gradNova/2022/bachareladoPsicanalise/metodoPsicanalitico/a2&hash=3u0Jf1zuk93zpxVYIcnLAt2iRubqufDCnRoOPjoko7U6feWDGqlbIxIMMH3iYV6QIpoRewK+5lbNPpL6tGYqoi/VsyrTYzZ+eyy5GieHB3kkAL5qrfcKAwU+Rl7nO2e6sETujaMLSIel/qJACDhQdDqcVOFlpZZeiTWFqVmWVJ0=&ne=False#_ftn3
 
Com esses autores, observamos que a psicanálise é um trabalho psicanalítico que, por 
sua complexidade, jamais será abarcado em sua totalidade, sendo apenas possível 
apreendê-la pela experiência. Assim sendo, quem poderá garantir a sua prática? A Escola? 
3.2 AS ESCOLAS DE PSICANÁLISE OU UNIVERSIDADES GARANTEM A PRÁXIS DA 
PSICANÁLISE? 
Em sua época, Freud foi questionado sobre quem poderia exercer a psicanálise. Assim, 
dedicou-se ao texto A questão da análise leiga (1926)[4] para responder à sociedade que 
acusava de charlatanismo aquele que praticava a psicanálise não sendo médico. A 
pergunta que não se calava era: como e onde se aprende o necessário para exercer a 
psicanálise?[5] O acento dado por Freud foi que “a análise é leiga: é uma experiência 
subjetiva, singular, que implica uma ética peculiar”. Para Freud, a psicanálise poderia ser 
exercida por qualquer campo do saber, desde que o sujeito em questão assumisse um 
compromisso ético com a sua práxis. E foi seguindo esses trilhos que Lacan propôs a sua 
Escola, no Ato de fundação. 
Imbuída em reaver a que se propõe a formação do analista no que tange à ética de sua 
prática, Fingermann declara: 
A ética da psicanalise é a práxis de sua teoria [...] a ética do 
analista, sua disposição para o ato, que, enquanto tal, dispensa 
qualquer modelo e modelização, depende da sua disponibilidade 
para algo que excede o simples estudo da teoria. Esta não é o 
modelo que se aplica, mas uma práxis que a produz à medida das 
ocorrências, e, por isso, é coerente com o que se espera de um 
psicanalista à altura do ato e do real. 
Do próprio exercício da transmissão da prática clínica depende a 
formação permanente da analista. A práxis da teoria é o exercício do 
https://conteudosdigitais.uninter.com/libraries/newrota/?c=/gradNova/2022/bachareladoPsicanalise/metodoPsicanalitico/a2&hash=3u0Jf1zuk93zpxVYIcnLAt2iRubqufDCnRoOPjoko7U6feWDGqlbIxIMMH3iYV6QIpoRewK+5lbNPpL6tGYqoi/VsyrTYzZ+eyy5GieHB3kkAL5qrfcKAwU+Rl7nO2e6sETujaMLSIel/qJACDhQdDqcVOFlpZZeiTWFqVmWVJ0=&ne=False#_ftn4
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analista, o qual põe à prova o seu saber, não o seus conhecimentos. 
(Fingermann, 2016, p. 25) 
Dessa forma, podemos concluir que a prática que põe em ato a psicanálise só pode 
partir da própria ética daquele que se pretende psicanalista. 
3.3 QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DA PRÁTICA PSICANALÍTICA? 
A partir de então, podemos refletir sobre as consequências da prática psicanalítica. Se 
nos remetermos ao ato inaugural da psicanálise, podemos extrair como consequência o ato 
que nos deu acesso ao inconsciente e à sua formalização. Segundo Quinet (2016), o ato 
tem marca de um antes e um depois, que traz em si a descontinuidade e, por ser assim,tem a estrutura de corte (p. 7). 
Assim, quando um psicanalista autoriza uma análise, o ato fundador de Freud se 
renova. É preciso compreender que não se trata de uma consequência que tente ao 
místico, pois os fundamentos e alicerces que compõem o ato psicanalítico estão 
entrelaçados ao tripé da formação permanente do psicanalista e, por assim ser, as 
consequências do tratamento instituem o valor de verdade aos sintomas, de modo que se 
valida a angústia como indicador da singularidade real de um sujeito. Posto isso, conclui 
Fingermann: “Que extravagância nesses tempos de cólera do discurso da ciência e do 
capitalismo: como ousar dar valor de uso para algo que não tem valor de troca” (2016, p. 
71). 
TEMA 4 – PARA ALÉM DA CLÍNICA 
No texto que se intitula Proposição sobre o analista da Escola (1967), Lacan, já no 
âmago da sua Escola, insere os termos “psicanálise em extensão” e “psicanálise em 
intensão”. A primeira diz respeito a toda função da Escola cujo objetivo é presentificar a 
 
psicanálise no mundo; a segunda refere-se à afirmação dos conceitos aos seus operadores, 
pelo qual depende da qualificação da primeira (psicanálise em extensão). 
Os termos (extensão/intensão) que foram retirados da lógica por Lacan buscam refletir 
a operação da formação do psicanalista que coexiste à própria psicanálise e ao seu 
emprego na sociedade. Assim, a prática psicanalítica pode ser reexaminada toda vez que 
pensada sobre seu alcance e limitações. 
4.1 PSICANALÍTICA EXTENSÃO X INTENSÃO 
A psicanálise em extensão diz respeito à ética política da Escola em sua transmissão, 
cujo viés que a orienta a essa experiência original é a psicanálise em intensão, visto que 
somente a prática funda a teoria e o lugar da Escola. Desse modo, a psicanálise em 
intensão é anterior à experiência da psicanálise em extensão, que, por sua premissa, 
implica na destituição de um mestre, visto que é só num depois que ela acontece. 
O dualismo se configura como uma banda de moebius, na qual dentro e fora 
constituem-se um só, como o funcionamento de uma engrenagem que promove o avanço 
da psicanálise em sua intensão (sua prática) e extensão em sua pólis. 
TEMA 5 – A NOÇÃO DE SUJEITO 
Quando se fala em sujeito, logo pensamos em uma persona ou em uma espécie de 
construto, pois o termo “sujeito” não diz respeito a um conceito no sentido filosófico ou 
científico, mas trata-se de uma categoria. 
A categoria de sujeito se impõe na elaboração da teoria psicanalítica com base 
em Lacan, que o aborda pela sua constituição, sendo assim, sua tese se baseia nas 
concepções freudianas sob a constituição do aparelho psíquico, pelo qual o sujeito não 
nasce ou se desenvolve, mas se constitui no campo da linguagem. 
 
Sob esses argumentos, no texto dos Escritos – A subversão do sujeito e dialética do 
desejo (1960), Lacan demarca uma distinção entre a concepção de sujeito da ciência e da 
fenomenologia hegeliana e o sujeito da psicanálise: 
Nossa dupla referência ao sujeito absoluto de Hegel e ao sujeito 
abolido da ciência dá o esclarecimento necessário para formular em 
sua verdadeira medida a dramaticidade de Freud: reingresso da 
verdade no campo da ciência, ao mesmo tempo em que ela se 
impõe no campo de sua práxis: recalcada, ela ali retorna. (Lacan, 
1960, p. 813) 
Nesse contexto, ao apontar para a diferença entre a ciência e a psicanálise, Lacan 
localiza a psicanálise por meio da ciência, visto que o sujeito sobre o qual operamos é o 
sujeito da ciência. 
5.1 SUJEITO DA CIÊNCIA E SUJEITO DA PSICANÁLISE 
O sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência, 
declara Lacan no texto A ciência e a verdade (1956). Tal declaração, então, desemboca 
em três situações: que a psicanálise opera sobre um sujeito e não, por exemplo, sobre um 
eu; que há um sujeito na ciência; e, por último, que esses dois sujeitos constituem apenas 
um. Essas reflexões foram trazidas por Jean-Claude Milner em A obra clara: Lacan, a 
ciência, a filosofia (1996). 
Assim, podemos situar o sujeito da ciência por meio do nascimento da ciência moderna 
estabelecido a partir de Descartes, no que confere o chamado Cogito, em que se inaugura 
um “ancoramento no ser”, pelo qual o ato de pensar determina a existência do sujeito – 
penso, logo sou (ou penso, logo existo). 
 
O surgimento do sujeito concebido pela ciência moderna, no entanto, não opera com 
ele nem sobre ele, segundo o que nos explica Luciano Elia (2004). O autor declara, ainda, 
que é ao contrário disso, pois o que a ciência faz é excluir o sujeito do seu campo 
operatório, ou seja, “o sujeito é posto pela ciência para, no mesmo ato, ser dela excluído, 
ou, mais exatamente, ser excluído do campo de operação da ciência” (Elia, 2004, p. 14). 
Ao passo que a ciência exclui o sujeito, é sobre ele que a psicanálise opera. Isso 
significa que a psicanálise não opera sobre uma pessoa humana ou um indivíduo, mas 
sobre o mesmo sujeito da ciência. É aí que está a subversão declarada pela psicanálise, 
em criar condições de operar nesse sujeito por meio da regra fundamental da psicanálise – 
fale o que lhe vier à mente. Ao instituir a associação livre, Freud se dirige diretamente ao 
sujeito, supondo-lhe um saber inconsciente sobre si, saber esse que emerge pela fala e por 
meio de falhas da fala. 
NA PRÁTICA 
Autorizar-se psicanalista é uma posição ética e não institucional, visto que não há um 
lugar que forme psicanalista a não ser pela implicação do sujeito com o seu desejo. A 
escola de psicanálise ou as universidades jamais poderão ser o lugar de garantia da prática 
da psicanálise, ainda que ofertem o título. 
O que garante a práxis do psicanalista é a psicanálise pura, ou seja, a experiência que 
inclui o tripé da formação: análise pessoal, supervisão e estudo teórico. Na escola não se 
ensina, só “se copia”, parafraseando Estamira, no documentário que levava o seu nome. O 
modelo pensado por Freud e Lacan considera o sujeito na sua peculiaridade e leva até as 
últimas consequências o seu saber na experiência. 
A responsabilidade de não permitir que a psicanálise seja sucumbida aos anseios de se 
fazer ciência cabe a cada um que se pretenda psicanalista, sendo necessário sustentar as 
 
suas especificidades com o mesmo rigor estabelecido por Freud. Para isso, Lacan nos 
deixou advertidos para um permanente retorno aos textos freudianos. 
FINALIZANDO 
Podemos, agora, retomar a nossa questão inicial: por que a psicanálise hoje? A 
psicanálise é a ciência que toma o sujeito como objeto e se coloca como testemunha de sua 
verdade. Talvez essa seja a forma mais resumida de expressar a sua práxis, mas o que 
decorre numa sessão de análise é território infinito de possibilidade, visto que, ao devolver a 
fala ao sujeito, faz emergir em seu ser todo o emaranhado de sua fantasia que dá suporte 
aos seus sintomas. A psicanálise hoje e sempre será a cura para o sujeito, o sujeito que a 
ciência não alcança, pois ele não faz parte de seu campo de experiência. 
A invenção de Freud – a psicanálise – como uma experiência do discurso visa alcançar 
o bem-dizer da ética do desejo ao tocar no singular do sujeito, sem que, com isso, deixe de 
reconhecer o caminho da ciência e as mudanças sociais, pois a psicanálise anda ao seu 
tempo em extensão e intensão (transmissão e tratamento). 
A garantia de sua prática será sempre um lugar problemático, pois é assim que deve se 
manter, no debate. É essa a estranheza da psicanálise em relação a outras disciplinas e à 
própria civilização. É neste ponto que Lacan situa o âmago de sua Escola, escreve Antonio 
Quinet (2009).

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